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Economia Solidária no Brasil Tipologia dos Empreendimentos Econômicos Solidários

Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva

Ministro do Trabalho Carlos Lupi

Secretário Nacional de Economia Solidária Paul Israel Singer

Diretor do Departamento de Estudos e Divulgação Mauricio Sardá

Diretor do Departamento de Fomento à Economia Solidária Roberto Marinho Alves da Silva

Presidente da Fundação Interuniversitária de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho – UNITRABALHO Arquimedes Diógenes Ciloni

Financiamento:

Presidente da Financiadora de Estudos e Projetos – FINEP Luiz Manuel Rebelo Fernandes

Convênio de nº 01.06.0547.00, referência 2297/06, firmado entre a Fundação Interuniversitária de Pesquisas e Estudos sobre o Trabalho e a Financiadora de Estudos e Pesquisas, sob a denominação “Mapeamento para Ampliação da Base de Dados do Sistema Nacional de Informação em Economia Solidária (SIES)”.

Nacional de Informação em Economia Solidária (SIES)”. Secretaria Nacional de Economia Solidária Ministério do
Nacional de Informação em Economia Solidária (SIES)”. Secretaria Nacional de Economia Solidária Ministério do

Secretaria Nacional de Economia Solidária

Ministério do Trabalho e Emprego

Economia Solidária no Brasil

Tipologia dos Empreendimentos Econômicos Solidários

Brasil Tipologia dos Empreendimentos Econômicos Solidários Maria Nezilda Culti Mitti Ayako H. Koyama Marcelo Trindade

Maria Nezilda Culti Mitti Ayako H. Koyama Marcelo Trindade

– 2010 –

dos Empreendimentos Econômicos Solidários Maria Nezilda Culti Mitti Ayako H. Koyama Marcelo Trindade – 2010 –
ESTA OBRA É LICENCIADA POR UMA LICENÇA CREATIVE COMMONS Atribuição – Uso não-comercial – Compartilhamento

ESTA OBRA É LICENCIADA POR UMA LICENÇA CREATIVE COMMONS

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Coordenação e organização:

Fundação Interuniversitária

de Pesquisas e Estudos sobre

o Trabalho – UNITRABALHO

www.unitrabalho.org.br

Projeto gráfico e capa:

Nilson Mendes

Revisão:

Célia Rita Genovez

— 2010 —

N T MENDES EDITORA

www.todososbichos.com.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Culti, Maria Nezilda Economia solidária no Brasil – Tipologia dos empreendimentos econômicos solidários – São Paulo : Todos os Bichos, 2010. 120 pp. ISBN 978-85-60853-09-0 1. Economia solidária, Brasil. 2. Economia Solidária, mapeamento, Brasil. 3. Economia Solidária, tipologia, Brasil. I. Koyama, Mitti Ayako H. II. Trindade, Marcelo. CDD 331.128

Sumário

Apresentação

7

Mapeamento da economia solidária no Brasil:

Uma estratégia de reconhecimento e visibilidade

7

Motivações e objetivos do Mapeamento da Economia Solidária

7

Construindo uma base conceitual para o SIES

9

O mutirão nacional do SIES

11

Colhendo os resultados

12

Continuando a caminhada

13

Economia Solidária no Brasil:

Uma realidade em ascensão

15

Economia Solidária

15

Análise com base nos resultados do mapeamento em 2007

21

Tipologia dos Empreendimentos Econômicos Solidários com base nos dados do SIES

27

Introdução

27

Dimensão de organização dos EES

28

Caracterização

29

Resultados por estados e grandes regiões

30

Dimensão de atividade econômica dos EES

36

Caracterização

36

Resultados por estados e grandes regiões

37

Dimensão de gestão financeira dos EES

42

Caracterização

42

Resultados por estados e grandes regiões

43

Dimensão de gestão administrativa dos EES

48

Caracterização

48

Resultados por estados e grandes regiões

49

Dimensão de situação de trabalho nos EES

54

Caracterização

54

Resultados por estados e grandes regiões

55

Dimensão sóciopolitica dos EES

62

Caracterização

62

Resultados por estados e grandes regiões

63

Análise conjunta das tipologias

68

Cruzamentos das dimensões

69

Síntese de algumas características dos EES

74

Análise das tipologias à luz dos princípios da Economia Solidária

75

Introdução

75

Autogestão

75

Solidariedade e cooperação

78

Dimensão econômica

82

Anexos

87

Procedimentos metodológicos

88

1. Análise de agrupamentos

88

2. Representação gráfica das variáveis consideradas em cada dimensão

91

2.1. Dimensão de organização dos EES

91

2.2. Dimensão de atividade econômica dos EES

93

2.3. Dimensão de gestão financeira dos EES

95

2.4. Dimensão de gestão adminsitrativa dos EES

98

2.5. Dimensão de trabalho nos EES

107

2.6. Dimensão sociopolítica dos EES

111

Análise conjunta das tipologias

114

Referências bibliográficas

118

Os autores

119

Colaboradores

120

TIPOLOGIA DOS EES

TIPOLOGIA DOS EES Apresentação M apeaMento da e conoMia S olidária no B raSil : U

Apresentação

MapeaMento da econoMia Solidária no BraSil: UMa eStratégia de reconheciMento e viSiBilidade

7

MotivaçõeS e oBjetivoS do MapeaMento da econoMia Solidária

A economia solidária é um modo de organização da produção, co- mercialização, finanças e consumo que privilegia o trabalho associado, a cooperação e a autogestão. São milhares de organizações coletivas, orga- nizadas sob a forma de associações, cooperativas, redes de cooperação e grupos informais de produção, entre outros.

No Brasil, a economia solidária se expandiu a partir do trabalho realizado por organizações da sociedade civil, de igrejas, das incubadoras universitárias e dos movimentos sociais que atuam no campo e na cidade. São centenas de entidades que apóiam iniciativas associativas comunitá- rias e a constituição e articulação de cooperativas populares, redes de pro- dução e comercialização, feiras de economia solidária etc. Atualmente, os

 

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

empreendimentos de economia solidária, as entidades de apoio, assessoria

e fomento e os gestores governamentais vêm se articulando em redes e

fóruns de economia solidária. Criada em 2003, a Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego (SENAES/MTE) está desenvolvendo um conjunto de ações para o fortalecimento dessa realidade. Dentre elas, destaca-se o Sistema de Informações em Economia Solidária (SIES) que se

constitui em iniciativa pioneira para identificação e caracterização de Em- preendimentos Econômicos Solidários, de Entidades de Apoio e Fomento

à Economia e, mais recente, de Políticas Públicas de Economia Solidária.

Essa iniciativa tem início em 2003, quando a SENAES e o Fórum Brasileiro de Economia Solidária, recém-criados, assumiram conjuntamente

a tarefa de realizar um Mapeamento da Economia Solidária no Brasil.

O objetivo era constituir uma base nacional de informações que contribuís- se para a visibilidade e o fortalecimento e integração dos empreendimentos de economia solidária através do cadastro, redes, catálogos de produtos e comercialização. Além disso, deveria oferecer subsídios aos processos pú- blicos de reconhecimento das iniciativas de economia solidária, para a for- mulação de políticas públicas e para a elaboração de um marco jurídico para

a economia solidária. Fruto do mapeamento, o Sistema de Informações em Economia So- lidária (SIES) possibilita identificar e dar visibilidade a milhares de empre- endimentos econômicos de base coletiva e autogestionária. O Sistema veio preencher uma lacuna em termos de conhecimento sobre a realidade da economia solidária no Brasil, tornando-se importante instrumento para o planejamento de políticas públicas e permitindo o início do reconhecimen- to e dimensionamento de uma realidade do mundo do trabalho que até então não era captada nas pesquisas oficiais. Essa proposta começou a tomar forma concreta em outubro de 2003 quando foi constituído um Grupo de Trabalho do Mapeamento da Economia Solidária, contando com a participação de diversas entidades com experiências acumuladas no levantamento de informações e no de- senvolvimento de bancos de dados. Esse intercâmbio possibilitou uma compreensão sobre os desafios e possibilidades na realização do Mape- amento da Economia Solidária, sobretudo no que se refere aos aspectos conceituais e metodológicos.

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amento da Economia Solidária, sobretudo no que se refere aos aspectos conceituais e metodológicos. 8 Sumrio
 

TIPOLOGIA DOS EES

TIPOLOGIA DOS EES 9 c onStrUindo UMa BaSe conceitUal para o SieS Desde o início das

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conStrUindo UMa BaSe conceitUal para o SieS

Desde o início das discussões sobre o Mapeamento da Economia So- lidária no Brasil, havia a necessidade de consenso em torno de concepções mínimas necessárias. A base conceitual era um pressuposto fundamental para orientar todo o processo de coleta e a organização do Sistema de Informa- ções em Economia Solidária. Ao mesmo tempo, havia a consciência de que as elaborações construídas a partir das reflexões coletivas deveriam ser aber- tas aos debates mais amplos e às críticas sem pretender solucionar ou inibir os debates teóricos e práticos sobre a compreensão da economia solidária no Brasil. Essa possibilidade de contribuição na formulação de conceitos e indicadores é uma das diretrizes do SIES: o mapeamento deverá contribuir para o desenvolvimento de conceitos técnicos e indicadores que possibilitem verificar a abrangência e potencialidades da economia solidária. O debate realizado no segundo semestre de 2003 indicava que perma- neciam várias concepções e formas de nomeação em relação a este fenôme- no (economia solidária, socioeconomia solidária, economia popular solidária, economia dos setores populares, economia de comunhão, economia social, cooperativismo popular, entre outras). Nesse contexto optou-se por traduzir tais concepções teóricas em uma concepção que compartilhasse os elementos ou características comuns. Ou seja, era preciso encontrar uma maior objeti- vidade na conceituação sem prejuízo das contribuições teóricas acumuladas. Não se tratava somente de um desafio conceitual, mas também político. Com os avanços organizativos da sociedade civil e da ação pública (governa- mental) em torno da economia solidária, fazia-se necessária a construção de uma identidade social e política para mobilização, articulação e definição das lutas necessárias para seu reconhecimento e legitimação. Multiplicavam-se as iniciativas econômicas solidárias ao mesmo tempo em que surgiam novas or- ganizações políticas (redes, articulações e fóruns) como tentativa de integrar e fortalecer politicamente esse segmento. Havia de fato o desafio do autorreconhecimento ou identificação dos su- jeitos sociais que praticam a economia solidária sem ter, necessariamente, a cons- ciência de que o fazem. Por outro lado, a visibilidade seria fundamental para o reconhecimento público necessário para abrir e fortalecer o diálogo e para a inter- nalização da economia solidária por instituições e órgãos que não estão no campo da economia solidária, mas representam espaços de disputa para ela.

 

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

O SIES procurou reconhecer uma identidade nessa diversidade por meio de um conceito síntese que já vinha sendo utilizado em pes- quisas sobre a economia solidária e por organizações que atuavam na economia solidária e que incorporava dimensões comuns dessas ini- ciativas: a ação empreendedora coletiva (empreendimento), a atividade

econômica (econômico), e os vínculos e valores sociais (solidariedade).

A partir dessa reflexão, a economia solidária passou a ser definida no

âmbito do SIES como o “conjunto de atividades econômicas – de pro- dução, distribuição, consumo, poupança e crédito – organizadas e rea- lizadas solidariamente por trabalhadores e trabalhadoras sob a forma coletiva e autogestionária”. Esse conceito geral explicita os valores e princípios fundamentais da Economia Solidária: cooperação, autoges- tão, solidariedade e dimensão econômica.

Além da elaboração de um conceito síntese com capacidade de ser reconhecido e legitimado socialmente, a tarefa de construção de um sis- tema de informação exigia um conceito operacional caracterizado pela clareza, simplicidade e objetividade. A partir dessa exigência, o Empre- endimento Econômico Solidário (EES) foi definido como a unidade mais simples e concreta da Economia Solidária, coerente com as suas características essenciais: organizações coletivas de trabalhadores(as) que exercem a autogestão na realização de atividades econômicas de forma continuada ou permanente. Esse conceito procura sintetizar as princi- pais características da economia solidária, afirmando uma nova identidade (instrumento da ação política) que não é subsumida nas formas coopera- tivas, associativas ou societárias (legalmente definidas), mas que pode se expressar como parte dessas formas organizativas. Ou seja, não se trata

de confirmar a economia solidária pela forma ou natureza da organização,

mas pelas características presentes nos empreendimentos.

Posteriormente foram definidos outros dois conceitos do SIES: En- tidades de Apoio, Assessoria e Fomento à Economia Solidária (EAF),

como aquelas organizações que desenvolvem ações nas várias modalida- des de apoio direto junto aos empreendimentos econômicos solidários; e

as Políticas Públicas de Economia Solidária (PPES) como aquelas ações,

projetos ou programas que são desenvolvidos ou realizados por órgãos da administração direta e indireta das esferas municipal, estadual ou federal

com o objetivo de fortalecimento da economia solidária.

10

das esferas municipal, estadual ou federal com o objetivo de fortalecimento da economia solidária. 10 Sumrio
 

TIPOLOGIA DOS EES

TIPOLOGIA DOS EES 11 o MUtirão nacional do SieS Além das questões conceituais, foram formuladas diretrizes

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o MUtirão nacional do SieS

Além das questões conceituais, foram formuladas diretrizes e es- tratégias metodológicas para o SIES. Havia uma compreensão de que

o Mapeamento da Economia Solidária deveria ser mais um dos instru-

mentos de fortalecimento organizativo da economia solidária, mas não

poderia ficar restrito às organizações participantes do movimento e não poderia ser conduzido de forma restrita aos empreendimentos já conhe- cidos. Além disso, o mapeamento exigiria habilidades (conhecimento

e experiência) em pesquisa para garantir uma diretriz do SIES que é a confiabilidade das informações.

A opção foi pela gestão participativa do SIES com a formação de 27 Equipes Gestoras Estaduais (EGE) com uma composição que envolvia o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), por meio das Delegacias Regionais do Trabalho, as representações dos fóruns esta- duais (entidades de apoio e empreendimentos), universidades e outros órgãos governamentais e movimentos sociais que atuam com economia solidária. As EGE teriam atribuições de coordenação política do pro- cesso considerando o Termo de Referência do SIES. Para o trabalho de pesquisa foram constituídas 27 coordenações técnicas estaduais que envolveram mais de 600 pessoas (coordenadores, entrevistadores, di- gitadores). Para garantir a qualidade e fidedignidade das informações relativas à economia solidária, toda a equipe técnica (coordenadores, supervisores, entrevistadores, digitadores) recebeu formação e capacita- ção sobre o conteúdo e a metodologia do mapeamento.

A Portaria Ministerial número 30, de 20 de Março de 2006, do Ministério do Trabalho e Emprego, institucionalizou o SIES, reconhecen- do e consolidando os objetivos e funcionamento do Sistema. A Portaria

estabelece no Anexo I, Item 4, Letra “c”, que uma das diretrizes do SIES

é a “participação de representações dos principais atores da economia

solidária (empreendimentos econômicos solidários, entidades de apoio, assessoria e fomento e gestores públicos) no processo de implementação e disseminação do SIES”. O modelo de gestão participativa é consolidado com a constituição e reconhecimento das 27 Comissões Gestoras Esta- duais e de uma Comissão Gestora Nacional com representantes governa- mentais e da sociedade civil.

 

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

Hoje é possível identificar que um dos principais fatores de sucesso do SIES é a capacidade de sensibilização e mobilização da base organizada da economia solidária nos estados e territórios para assumir a gestão compar- tilhada do processo de implantação de um sistema de informações. O resul- tado é que a Gestão Participativa ampliou o potencial do SIES. As parcerias construídas viabilizaram a superação das metas previstas, considerando que o

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a superação das metas previstas, considerando que o 12 perfil principal das entidades conveniadas é de

perfil principal das entidades conveniadas é de instituições universitárias e or- ganizações não-governamentais que já atuam em formação e pesquisa na área de economia solidária. Além disso, os atores sociais locais conhecem melhor

a realidade nas diversas regiões brasileiras e estão acostumados a soluções apropriadas para identificar as iniciativas da economia solidária

colhendo oS reSUltadoS

Todo esse processo de mobilização permitiu maior reconhecimento e

articulação da economia solidária em todo o território nacional. Entre 2005 e 2007 foram identificados 21.859 Empreendimentos Econômicos Solidários em 2.934 municípios do Brasil (o que corresponde a 52% dos municípios brasileiros). Os dados revelados pelo Mapeamento da Economia Solidária in- dicam que está em constituição uma importante alternativa de inclusão social pela via do trabalho e da renda. Isso é possível quando ocorre a combinação da cooperação, da autogestão e da solidariedade na realização de atividades econômicas, melhorando a qualidade de vida dos trabalhadores e trabalha- doras da economia solidária, estabelecendo novas relações entre produtores

e consumidores, respeitando o meio ambiente e contribuindo para os movi-

mentos emancipatórios na sociedade. Além da disseminação dos dados para dar visibilidade à economia so- lidária no Brasil, o SIES vem se constituindo em mais um instrumento para fortalecer as potencialidades da economia solidária no Brasil, subsidiando programas e projetos de organização da comercialização justa e solidária, de fortalecimento de redes de cooperação, de formação e qualificação social e profissional. A base de dados do SIES é referência para criação do Sistema Brasileiro de Comércio Justo e Solidário e para a implantação de Sistemas Estaduais de Comercialização da Agricultura Familiar e Economia Solidária, fornecendo informações para identificação de cadeias e arranjos produtivos em territórios, dimensionando as demandas e ofertas de produtos e serviços.

 

TIPOLOGIA DOS EES

O Sistema Nacional de Informações em Economia Solidária vem se

constituindo em mais um instrumento para fortalecer as potencialidades da economia solidária no Brasil. Com o dimensionamento das demandas e a identificação da localização espacial dos empreendimentos, o poder público, nas esferas municipal, estadual e federal, em parceria com as organizações da sociedade civil, poderá ampliar e aperfeiçoar suas ações na direção de uma política pública de economia solidária.

13

de uma política pública de economia solidária. 13 c ontinUando a caMinhada A continuidade desse processo

continUando a caMinhada

A continuidade desse processo depende da capacidade de enfrenta-

mento de alguns desafios. O primeiro e maior deles é a continuidade do pro- cesso de identificação de Empreendimentos Econômicos Solidários e de atu- alização da base de dados já existente. O SIES não é um Censo da Economia Solidária e nem uma pesquisa com base em amostra estatística. Trata-se de uma base de dados permanente que vai sendo ampliada a cada período, con- siderando inclusive o seu processo dinâmico. Possivelmente ainda existem milhares de empreendimentos econômicos solidários a serem identificados

e caracterizados. Em um país de dimensões continentais como Brasil, não

é fácil alcançar o universo dos municípios. Além disso, as fragilidades de lo- gística e mesmo as intempéries climáticas dificultam o trabalho das equipes.

É necessário, portanto, prosseguir com o mapeamento, tornando o Atlas da

Economia Solidária no Brasil ainda mais abrangente. Além disso, é preciso fortalecer e viabilizar novos instrumentos para disseminação e uso das informações do SIES, possibilitando intercâmbios organizativos e comerciais entre os empreendimentos, com a divulgação dos produtos e serviços. Com a continuidade do mapeamento e a implantação desses novos instrumentos de disseminação e uso das informações, o SIES poderá cumprir seus objetivos, ampliando a visibilidade e o reconhecimento da economia solidária no Brasil, integrando os EES em redes e arranjos pro- dutivos e organizativos nacionais, estaduais e territoriais, facilitando proces- sos de produção, comercialização e consumo solidários.

Roberto Marinho Alves da Silva Diretor do Departamento de Fomento à Economia Solidária (SENAES/MTE)

 
 

TIPOLOGIA DOS EES

TIPOLOGIA DOS EES Economia Solidária no Brasil: Uma realidade em ascensão e conoMia Solidária 15 Apesar

Economia Solidária no Brasil:

Uma realidade em ascensão

econoMia Solidária

15

Apesar do conceito de economia solidária nem sempre ser usado com o mesmo significado e nome, seu princípio é a idéia da solidariedade em con- traste com o individualismo competitivo que caracteriza a sociedade capita- lista. Atualmente utiliza-se esse conceito amplamente no Brasil e em diversos países. Seus empreendimentos apresentam as seguintes características: são organizações urbanas ou rurais, de produtores, de consumidores e de cré- dito, baseadas na livre associação, no trabalho cooperativo, na autogestão e no processo decisório democrático, sendo a cooperativa a forma clássica de organização de um empreendimento da economia solidária. A economia solidária vem se transformando em um eficiente meca- nismo gerador de trabalho e renda. Seus empreendimentos são formados predominantemente por trabalhadores de segmentos sociais de baixa renda, desempregados ou em via de desemprego, trabalhadores do mercado infor- mal ou subempregados e pelos empobrecidos. Essa nova forma de economia que se desenvolve no século XXI tem o cooperativismo operário como principal antecedente. O cooperativismo ope- rário surgiu durante o século XIX em reação à Revolução Industrial, era uma

 

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tentativa de construir outra maneira de processar a economia, com base no

trabalho associado e na distribuição equitativa do excedente adquirido e não na acumulação individual do dinheiro a partir da exploração do trabalho do outro. Seus principais pensadores foram: Robert Owen (1771-1858), Willian King (1786-1865), Charles Fourier (1772-1837), Philippe Buchez (1796-1865)

e Louis Blanc (1812-1882).

O cooperativismo preocupa-se com o aprimoramento do ser humano

nas suas dimensões econômicas, sociais e culturais. É um sistema de coopera- ção que historicamente aparece junto com o capitalismo, mas é reconhecido

como um sistema mais adequado, participativo, democrático e mais justo para atender às necessidades e aos interesses específicos dos trabalhadores.

Hoje, uma parte importante dos trabalhadores excluídos do mercado formal de trabalho busca se organizar em associações, cooperativas, empre- endimentos autogeridos e familiares para gerar trabalho e renda. A adoção de iniciativas de trabalhos cooperativos pode advir de objetivos despretensio- sos, mas responde, através da própria associação das pessoas, a necessidades de proteção contra o desemprego provocado pelo movimento econômico que levam as empresas a alterarem seu quadro de trabalhadores conforme a conjuntura. Outros motivos também mobilizam as pessoas para essa forma de trabalho. Além da necessidade, pode ser também uma escolha por outra relação que vai ao encontro de suas crenças, valores, práticas ou maneira de ver e lidar com a vida produtiva e social. Essas iniciativas com base na forma solidária e associativa têm se mul- tiplicado em todo o território nacional chamando atenção de setores da so- ciedade civil, do poder público e de entidades de classe. Juntas, elas buscam maneiras de gerar trabalho e renda de forma coletiva e solidária. Entretanto,

a economia solidária enfrenta várias dificuldades, como a de ter a fonte prin-

cipal de sustentação na sua capacidade de trabalho e, ao mesmo tempo, ela ser a razão de muitas fragilidades. Apesar disso, os princípios intrínsecos dos

empreendimentos de economia solidária não os impedem de competir no mercado e, por outro lado, possuem vantagem quanto a sua capacidade adap- tativa diante dos movimentos desse mercado.

É também relevante, na economia solidária, o efeito imediato de dis-

tribuição de propriedade e renda em função do princípio formativo da igual- dade na participação econômica dos associados nos empreendimentos. Isso

reflete na democratização dessa economia com estímulo para o crescimento

e para a redução das desigualdades. Os ganhos sociais são mais amplos, pois

além de possibilitar o reconhecimento dos trabalhadores como cidadãos, via-

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

além de possibilitar o reconhecimento dos trabalhadores como cidadãos, via- ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL Sumrio  
 

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biliza e reforça espaços que estruturam elos comunitários com efeitos valio- sos na diminuição da degradação do tecido social. Apesar das vantagens, reconhecendo também as fragilidades ainda pre- sentes nos empreendimentos e empreendedores da economia solidária, há hoje reducionismos ou idéias preconcebidas que dificultam uma reflexão so- bre as mudanças em curso na sociedade, demonstradas pela via da economia solidária, que precisam ser evitadas para possibilitar que se enxergue a sua real importância no sentido da mudança e transformação social e econômica.

TIPOLOGIA DOS EES

e transformação social e econômica. TIPOLOGIA DOS EES É possível enumerar quatro idéias preconcebidas que foram

É possível enumerar quatro idéias preconcebidas que foram criadas em

torno da economia solidária, as quais chamamos de mitos 1 .

A primeira delas é que “a economia solidária seria um setor à parte”.

As concepções que focalizam a dimensão econômica (inspiração neoclássi- ca) e, por isso, não abordam a gênese dessas organizações, consideram-na

residual ou de terceira categoria. Outras, que se sistematizam fora da ótica da economicidade, identificam-na como um setor de atividades de ajuda mútua, convivais e voluntárias, alheias à circulação do dinheiro, seccionam, assim,

o setor de mercado e o convival, numa forma similar a um aprisionamento

comunitário. Portanto, as duas idéias colocam as iniciativas ou a economia solidária como setor de fronteiras estanques e, por isso, jogam um véu que camufla a realidade concreta.

De fato, algumas atividades de ajuda mútua e convivais não são me- diadas pelo mercado e não têm fluxo monetário, atendendo às necessidades das pessoas, mas outras atividades e empreendimentos de economia solidária estão entranhados no mercado capitalista. Queiramos ou não, há uma ligação dessa economia com o mercado, visto que, nele, em medidas variáveis, mes- mo priorizando as trocas e/ou comércio entre os empreendimentos solidá- rios, estes buscam subsídios, informações, formação e insumos para produ- zir, vender ou trocar seus serviços e produtos ou bens materiais e imateriais.

A economia solidária não é e nem deve ser um gueto que, para crescer, deva

ser protegido, colocado à parte do mercado, para depois se relacionar com ele. Essa é uma idéia equivocada, que não a fortalece; ao contrário, fragiliza-a e restringe ações que podem impulsionar seu crescimento e desenvolvimento tecnológico. Ela deve manter sua ética e sua forma de conviver, produzir e distribuir as sobras no interior de seus empreendimentos e, externamente,

1 No debate internacional, Jean-Louis Laville, numa mesa redonda na França (2001), falou sobre a economia

solidária e seus caminhos futuros, chamando atenção para o reducionismo e as idéias preconcebidas sobre ela, das quais vamos nos apropriar de quatro para fazer nossos comentários com o olhar no Brasil, visto que elas também ocorrem na sociedade brasileira.

 

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

sendo pequena ou grande como todas as empresas tradicionais, deve se colo- car no mercado, salvaguardando sua autonomia.

A segunda idéia é de que a “economia solidária seria uma economia ca-

ritativa de reparação”, cuja única vocação seria a caridade. Aqui há um enten- dimento filantrópico que confunde caridade com solidariedade. O que vemos, na realidade dos empreendimentos brasileiros, desde sua constituição até seu funcionamento, é que eles nada têm de caridade. Trata-se, sim, de uma relação contratual de trabalho entre pessoas, muitas vezes não formalizadas, mas quan- do formalizadas, são previstas em seus estatutos e regimentos e se pautam por princípios solidários. Portanto, nada têm de caridade ou filantropia, são relações pautadas no trabalho coletivo e na solidariedade com fim de gerar renda.

A terceira é de que a “economia solidária seria uma subeconomia re-

servada aos excluídos”. Essa idéia deriva das precedentes, principalmente da primeira, que considera a economia solidária como um setor “à parte”, que abriga os “inempregáveis”, visto que os “empregáveis”, quando a conjun- tura melhora e, com ela, a situação de emprego, encontram novamente um trabalho. De fato, não se pode generalizar. A realidade já nos indica que nos empreendimentos econômicos solidários existem trabalhadores que se ma- nifestam contra a idéia de retornar ao emprego formal; outros nunca foram empregados assalariados e, sim, autônomos por escolha, seja ou não do mer- cado informal de trabalho; existem ainda aqueles que retornariam ao empre- go formal, caso tivessem essa possibilidade. Pensamos que essa concepção de economia solidária estigmatiza seus componentes e em nada os ajuda. Além disso, subestima as pessoas quanto à sua capacidade de escolher, decidir e de exercer sua própria liberdade. Ao se alimentar essa idéia, dificulta-se que as pessoas renovem sua autoestima e se vejam como capazes de construir algo próprio, considerando-se fadadas a permanecer pobres ou na miséria e nada lhes resta tentar.

18

pobres ou na miséria e nada lhes resta tentar. 18 Paira, na sociedade, a idéia de

Paira, na sociedade, a idéia de que os trabalhadores que formam seus empreendimentos solidários, com ajuda ou não de políticas públicas, não são capazes de se tornarem empreendedores. As razões nunca são bem explici- tadas, mas supõe-se que sejam muito mais derivadas de preconceito do que de conhecimento concreto das condições de existência desses trabalhadores. Sabemos que as dificuldades são imensas; existe uma série de barreiras que precisam ser rompidas e superadas, com maior ou menor facilidade e que demandam um tempo que é próprio de cada indivíduo e de cada grupo, espe- cialmente os relativos à escolaridade.

 

TIPOLOGIA DOS EES

Por que a economia solidária seria sempre de e para pobres, desem- pregados e excluídos? Não necessariamente. A realidade nos mostra que, no Brasil, ela é composta predominantemente por essa população, mas isso não pode ser um castigo que a faça assim permanecer; ela pode e deve construir seus próprios caminhos, aprender a andar com suas próprias pernas para me- lhorar, sair dessa condição ou até mesmo para não sucumbir. Vive-se numa sociedade democrática onde os empreendimentos econômicos solidários abrem a possibilidade de construção de condições mais justas de produção e distribuição dos ganhos e, consequentemente, de melhor condição de vida. Hoje são representativas as ações dos apoiadores, sejam eles oriundos de política pública, de outros organismos e instituições de fomento, como as universidades. Constituindo uma assessoria técnica e científica nos mais diversos campos do saber, eles fornecem a esses empreendimentos uma vi- são mais universal, favorecem uma análise conjuntural e estrutural que lhes propicia uma abrangência maior. O apoio pode ser de ordem financeira ou de formação profissional e educacional. As incubadoras universitárias, por inte- grarem as questões de ordem pedagógica, política e técnica aos empreendi- mentos, dão-lhes a possibilidade de construir soluções inovadoras, integradas

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de construir soluções inovadoras, integradas 19 e viáveis para o conjunto da economia solidária. Pensamos

e viáveis para o conjunto da economia solidária. Pensamos que a economia solidária não deve ser estigmatizada por isso: não é esse o único tipo de empreendimento que recebe apoio de media- dores, educadores, especialistas, analistas e pesquisadores, entre outros, para poder se constituir e desenvolver. As empresas privadas tradicionais também gozam de infraestrutura e subsídios financeiros oferecidos pelo Estado, seja por meio da isenção ou redução de alíquotas de impostos e/ou tarifas, no âmbito de programas nacionais, estaduais e municipais, seja por meio de cré-

ditos subsidiados, seja por meio de serviços de assessoria e suporte científico

e tecnológico de especialistas na formação e desenvolvimento de empreendi- mentos tanto do setor urbano como rural. A última idéia que aqui comentamos é a de que “a economia solidária

estaria condenada a se dissolver na economia privada ou pública”. É freqüente

a afirmação de que a economia solidária só pode ser pioneira em setores da

atividade econômica em que não há ainda interesse da grande empresa porque sua rentabilidade ainda não é atraente. Dessa perspectiva, a economia solidária teria uma função temporária, atuando na precariedade da experimentação e da exploração. Há também os que pensam uma ótica estatal que liga o futuro da

economia solidária à sua integração num serviço público ampliado.

 

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

Pensamos que também esse pensamento estigmatiza e leva a concluir,

de forma apressada, que qualquer organização cujo fim seja gerar trabalho

e renda inexoravelmente vai se modelar às formas de mercado ou do Esta-

do. Essa preocupação está centrada apenas na ótica quantitativa financeira. Embora seja provável que isso aconteça em alguma medida, o contrário

também pode ocorrer.

Não há porque ter preconceitos e ser contra a inserção e a interação dos empreendimentos solidários com o mercado e isso não quer dizer necessa- riamente que sejam subsumidos nesse mercado pelas grandes empresas tradi- cionais. A convivência entre as duas formas certamente suscita conflitos, mas,

afinal, os conflitos são próprios da democracia

fechamento dessas iniciativas em guetos protegidos. Como já venho observan- do, há um direcionamento, imbuído, inclusive, nas próprias políticas públicas de apoio, para aumentar a inserção desses empreendimentos em elos de cadeias produtivas, em planos de desenvolvimento local e regional ou outras opções.

Esses empreendimentos, ao se integrarem, mantêm sua forma orga- nizativa original e contribuem para fomentar seu próprio desenvolvimento

e fortalecimento, tanto para as pessoas que dele dependem, no aspecto do

trabalho coletivo, social e da viabilidade econômica, como para o desenvolvi- mento mais geral, em nível macroecônomico. As chances são consideráveis, quando se levam em conta os vários apoiadores e o fomento financeiro e de formação. A prática da autogestão tem um potencial educativo importante por si só, que extrapola o âmbito do empreendimento, chegando às relações familiares e sociais. Sabemos que esses empreendedores mobilizam-se por um misto de necessidades e vontades, como apontou a pesquisa organizada por Gaiger (2004); portanto, é forte a preocupação com a consolidação de seus empreendimentos ou alternativas. Por outro lado, se há chances de êxito nessa economia, ela gradativa- mente poderá se distanciar da possibilidade de ser incorporada às políticas de Estado, especialmente quando predomina a visão neoliberal de Estado mínimo. Nesse sentido, o lugar que deve ser ocupado pela economia solidária no campo das políticas públicas não deve ser o de um apêndice à mercê da própria política mais ampla, e sim o de um movimento coletivo, cuja priori- dade é o próprio coletivo e não o indivíduo, por meio de políticas individuais compensatórias. Um coletivo forte possibilita enfrentar e construir alterna- tivas mais sólidas para lidar com mais autonomia frente à grande força do neoliberalismo que está posto.

Por isso, é preciso evitar o

20

mais autonomia frente à grande força do neoliberalismo que está posto. Por isso, é preciso evitar
 

TIPOLOGIA DOS EES

Além disso, se é o mercado que exclui e gera o excedente de pessoas empobrecidas, seria necessário devolver-lhe essa responsabilidade e buscar ali alternativas viáveis; por isso, a idéia da convivência pactuada com autonomia também para a economia solidária. Vivemos numa sociedade democrática, na qual os interesses de todos, para serem garantidos, passam por regras de convivência, sem distinções, fazendo-se assim a justiça social. Portanto, a eco- nomia solidária é um desafio num campo aberto de possibilidades.

solidária é um desafio num campo aberto de possibilidades. 21 a náliSe coM BaSe noS reSUltadoS

21

análiSe coM BaSe noS reSUltadoS do MapeaMento eM 2007

Os estudos sobre a economia solidária no Brasil dispõem de uma impor- tante fonte de informações desde 2006, oriunda dos primeiros Mapeamentos Nacionais da Economia Solidária que formou o Sistema Nacional de Informa- ções em Economia Solidária (SIES), na Secretaria Nacional de Economia Soli- dária (SENAES) do Ministério de Trabalho e Emprego, com apoio do Fórum Brasileiro de Economia Solidária. O mapeamento mostra a gênese dos empre- endimentos econômicos solidários, suas estratégias de desenvolvimento e os benefícios para seus integrantes e para as comunidades onde ela se desenvolve. A economia solidária cresceu nos últimos anos e os estudos acadêmi- cos sobre ela também se multiplicaram. Por isso, é de grande valia a existência de informações abrangentes e sistematizadas a respeito da economia solidária para os estudos não ficarem restritos às pesquisas apoiadas em estudos de casos, de abordagem qualitativa, que são também muito valiosos para o exa- me dos traços particulares dos empreendimentos, mas menos eficientes para identificar seu perfil de maneira mais abrangente. O mapeamento dos EES enquanto uma pesquisa nacional permite uma mudança de escala nas análises e discussões no debate teórico e político. Nesta publicação, pretende-se, por meio da análise dos dados que integraram o SIES em 2007 2 , equacionar qualitativamente esses empreen- dimentos econômicos, do ponto de vista das inovações que introduzem no

2 Convênio firmado entre a Fundação Interuniversitária de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho (UNI-

TRABALHO) e FINEP (Ref.: 2297/06)/Termo Aditivo, que além de executar a pesquisa do mapeamento em 14 Estados (AC, AL, DF, MA, MT, MS, MG, PB, RO, RN, RS, SC,SE ,TO) conforme o projeto: “Mapeamento para Ampliação da Base de Dados do Sistema Nacional de Informações em Economia Solidária (SIES)”, também ficou responsável por realizar um estudo de âmbito nacional com as informações da Base de Dados do SIES, alimentada pelos mapeamentos.

 

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

modo de agregar seus recursos produtivos e humanos para atenderem a seus objetivos e necessidades. Ou seja, trata-se de aferir a natureza socioeconômica característica dos empreendimentos de economia solidária, por sua organiza- ção associativa, na qual os sócios-proprietários são os próprios trabalhadores organizados executando práticas de autogestão e construindo uma identidade política e do movimento social da economia solidária. Conforme buscaremos demonstrar, os dados do mapeamento contêm indicadores importantes que serviram de base a este estudo. Trata-se de uma abordagem que construiu tipologias interpretativas 3 que procuram identificar um perfil da economia solidária em âmbito nacional, caracterizando os empre- endimentos econômicos solidários quanto a sua organização, atividade econô- mica, gestão financeira e administrativa, situação de trabalho e sociopolítica. Contamos com a familiaridade do leitor em relação a expressões gerais da economia solidária, objeto de vários estudos e autores já realizados no Brasil. Lembramos que já tivemos um retrato da economia solidária revelado pelo ma- peamento que foi amplamente divulgado por meio do Atlas da Economia Solidária, publicado em abril de 2006 (SENAES/MTE) e das opções de acesso ao Sistema Nacional de Informações da Economia Solidária – SIES (www.sies.mte.gov.br). O último mapeamento que compõe o SIES cobriu 52% dos municí- pios brasileiros e levantou dados sobre 21.859 empreendimentos e uma po- pulação de 1 milhão e 687 mil homens e mulheres. Desses empreendimentos, 9.498 estão localizados no Nordeste, 3.583 no Sul, 2.656 no Norte, 3.912 no Sudeste e 2.210 no Centro-Oeste do país. Ou seja, quase a metade (43,5%) deles localiza-se no Nordeste, em segundo lugar está o Sudeste (17,9%), em terceiro e quarto, o Sul (16,4%) e o Norte (12,1%) e por último, o Centro- Oeste (10,1%). Os dados também indicam que mais da metade dos empreen- dimentos (52%) está organizada na forma de associações, 36,4% são grupos informais, 9,6% cooperativas e 2% distribuídos entre empresas autogestio- nárias de sociedade mercantil. Segundo os registros, a atividade econômica desses empreendimentos é muito variada, mas considerando as 50 atividades que mais aparecem nos empreendimentos, predomina as ligadas à agropecu- ária, extrativismo e pesca (50%), seguida das de produção manufaturada – in- dustrial e artesanal (37%), ficando as atividades caracterizadas como serviços com 7% e como comércio 6%. Quase a metade (48%) desses empreendimen-

22

comércio 6%. Quase a metade (48%) desses empreendimen- 22 3 Ver também trabalho do Prof. Dr.

3 Ver também trabalho do Prof. Dr. Luiz Ignácio Gaiger, “Racionalidade dos empreendimentos econômicos

solidários segundo os dados do primeiro mapeamento nacional” – artigo disponível no site: www.ecosol.org.br.

 

TIPOLOGIA DOS EES

tos atua exclusivamente na área rural, 34,6% exclusivamente na área urbana e 17,1% têm atuação tanto na área rural como na área urbana. Estão associados nos empreendimentos econômicos solidários mais de 1 milhão e 687 mil homens e mulheres, resultando numa média de 78 parti- cipantes por empreendimento. Quanto à composição social dos empreendi- mentos verifica-se que 72,6% são formados por homens e mulheres, 17,9% somente por mulheres e 9,5% formados somente por homens. Apenas 50% dos empreendimentos prestaram informações a respeito da remuneração dos seus associados configurando o seguinte quadro: 37,9% apresentam remuneração com valor até meio salário mínimo (SM), enquanto que 24,4% têm uma remuneração de meio a um SM e 26% recebem de 1 a 2 SM, sendo que os demais ficam entre 2 a 5 SM e mais de 5 SM. Com relação à comercialização, os produtos e serviços são destinados predominantemente aos pequenos mercados. As indicações são de que apro- ximadamente 68% vendem no comércio local comunitário e municipal, perto de 26% em mercados/comércios microrregional e estadual, 4% têm como destino de seus produtos o território nacional e menos de 1% realizam tran- sações com outros paises. Depreende-se dos dados, portanto, a importância desses empreendimentos para o desenvolvimento local sustentável. Para fomentar o desenvolvimento local integrado e sustentável, os instrumentos necessários são: capital social local, instituições democráticas, fortes laços de cooperação e confiança entre os agentes locais, processo con- tínuo de inovação endógena e estratégias produtivas adequadas às condições locais ou do território. O desenvolvimento endógeno deve promover, a partir dos recursos, das potencialidades e dos agentes locais, o fortalecimento da economia e da sociedade local. É interessante notar que a economia solidária se utiliza, em grande me- dida, dos mesmos instrumentos. Além do desenvolvimento endógeno e sus- tentável, na economia solidária agrega-se o desenvolvimento solidário, pois são

iniciativas na qual a autogestão, a confiança mútua, a cooperação, a democracia,

a autossustentação, o desenvolvimento humano, a responsabilidade social e o

controle social são princípios fundamentais. A economia solidária agrega ainda

a inclusão social. Contribui também com o desenvolvimento sustentável, pois é

23

também com o desenvolvimento sustentável, pois é 23 um processo de melhoria da qualidade de vida

um processo de melhoria da qualidade de vida que compatibiliza o crescimento econômico, a conservação dos recursos naturais e a igualdade social, no curto e no longo prazo. Em síntese, as condições para o desenvolvimento local e para

 

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

a economia solidária dependem de um desenvolvimento endógeno que possa

contar com capital social fortalecido e que integre e mobilize os produtores por meio de redes sociais de técnicas de produção, comercialização, informação e formação, bem como outros atores locais, regionais e estaduais e as próprias políticas públicas em torno da sua autossustentação.

O mapeamento também identificou um total significativo de instituições de apoio que atuam na economia solidária em todo o país. Essas instituições podem ampliar a dinâmica social no sentido de aumentar o capital social e produtivo criando novos arranjos institucionais resultantes da articulação de parcerias com: agências de desenvolvimento (os IDR); instituições de crédito; centros nacionais e internacionais de desenvolvimento tecnológicos; Empresa

de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater); Serviço Brasileiro de Apoio

à Pequena e Média Empresa (Sebrae); instituições governamentais; instituições

24

(Sebrae); instituições governamentais; instituições 24 não governamentais; empresas que desenvolvem uma política

não governamentais; empresas que desenvolvem uma política de responsabi- lidade social; órgãos especializados junto às secretarias de planejamento, de- senvolvimento econômico, indústria, comércio e agricultura; conselhos para a gestão integrada das políticas; fóruns permanentes de debates sobre o desen- volvimento local e economia solidária.

A exploração dos dados, portanto, no escopo do estudo que deu origem

a esta publicação foi feita com base num tratamento empírico-analítico, a partir

da análise de variáveis numéricas e categóricas, que foram analisadas segundo metodologia de análise multivariada, buscando identificar grupos e tipologias que caracterizassem os empreendimentos econômicos solidários, segmentadas por estados e grandes regiões. A seleção das variáveis se fez por meio da análise de agrupamentos (Cluster Analysis) utilizando-se do método BIRSCH (Balanced Iterative Reducing and Clustering using Hierarchies) – Agrupamentos por similaridade das variáveis numéricas e categóricas. Esse procedimento estatístico permite a divisão de unidades/objetos em grupos homogêneos com características simi- lares dentro dos grupos e o mais distintas possíveis entre os grupos 4 .

Como resultado, foram construídas seis dimensões de análise dos em- preendimentos econômicos solidários: a de organização ou características gerais dos empreendimentos, da atividade econômica, da gestão financeira e gestão ad- ministrativa e da situação de trabalho e sociopolítica. Essas dimensões indicaram, por agrupamento, as tipologias formadas dos empreendimentos da economia solidária em cada um dos 27 estados brasileiros e das cinco grandes regiões.

 

TIPOLOGIA DOS EES

Em síntese, o estudo permitiu retratar a partir dos empreendimentos econômicos a economia solidária no território nacional, como composta por empreendimentos econômicos que têm similaridades, diferenças e igualdade em vários aspectos entre os estados e regiões. De todo modo, com o olhar para os princípios intrínsecos da economia solidária, podemos dizer que são fortes os aspectos da autogestão, da solidariedade e cooperação. No campo da viabilidade econômica há fragilidades, mas há também aspectos importantes que foram con- siderados que indicam na perspectiva de crescimento e sustentabilidade. Tais resultados devem ter seus méritos tributados inicialmente aos pro- fessores/pesquisadores que foram os coordenadores técnicos em seus estados e suas equipes nas universidades que participaram do projeto na pesquisa de campo nos 14 estados e em 17 universidades pela integração e diálogo com a coordenação nacional, bem como pelo árduo trabalho de campo que gerou as informações com as quais alimentamos a Base de Dados SIES; as outras ins- tituições e pesquisadores que também atuaram no mapeamento em outros es- tados; aos professores/pesquisadores que compõe o Grupo de Trabalho (GT) nacional do Programa de Economia Solidária e Desenvolvimento Sustentável da UNITRABALHO pelo suporte à pesquisa em seus estados e aporte valiosos nas discussões e reflexões sobre as análises dos dados; aos membros da equipe de apoio da UNITRABALHO, em especial à Sandra Carreira, que atuou como Coordenadora Executiva, de ajuda valiosa e sem a qual seria muito difícil dar conta de todo trabalho institucional e diálogo com os Coordenadores Técnicos Estaduais; aos professores/pesquisadores também autores nesta publicação pela persistência e longas horas de trabalho para coletivamente lidarmos com os dados e encontrarmos os caminhos metodológicos e analíticos para defini- ção dos estudos e análise dos dados, cujo resultado gerou três estudos valiosos, sendo um deles objeto deste livro; à Financiadora de Estudos e Projetos (FI- NEP) e ao MTE/SENAES que contribuíram com o financiamento e de forma indireta para a execução do projeto; aos profissionais encarregados da revisão e editoração dos originais, por seu trabalho diligente.

25

aos profissionais encarregados da revisão e editoração dos originais, por seu trabalho diligente. 25   Sumrio
 
 

TIPOLOGIA DOS EES

TIPOLOGIA DOS EES Tipologias dos empreendimentos econômicos solidários com base nos dados do SIES i ntrodUção

Tipologias dos empreendimentos econômicos solidários com base nos dados do SIES

introdUção

27

Os empreendimentos econômicos solidários que compõe a economia soli- dária no Brasil são milhares de organizações coletivas organizadas sob a forma de autogestão que realizam atividades de produção de bens e de serviços, crédito e finanças solidárias, comércio e consumo solidários. São formados predominante- mente por trabalhadores de segmentos sociais de baixa renda. No âmbito do SIES (2005, p.11-12) são organizações coletivas, suprafamiliares, singulares e complexas:

cooperativas, associações, empresas autogestionárias, grupos de produção, clubes de troca, redes e centrais, cujos participantes ou sócios são trabalhadores(as) do meio urbano e rural que exercem coletivamente a gestão das atividades, bem como a distribuição dos resultados. Tem caráter permanente e apresentam diversos graus de formalização. Inclui-se também, além dos empreendimentos que estão em fun- cionamento, aqueles que estão em processo de implantação, com o grupo de parti- cipantes constituído e com as atividades econômicas definidas. Nesses empreendimentos ou atividades econômicas organizadas, desta- cam-se quatro importantes características sempre presentes na economia solidá- ria: cooperação, autogestão, solidariedade e viabilidade econômica. Na cooperação há interesses e objetivos comuns, união dos esforços e capacidades, propriedade coletiva de bens, partilha dos resultados de forma equitativa e responsabilidade

 

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

solidária diante das dificuldades. Na autogestão estão presentes as práticas par- ticipativas de autogestão dos processos de trabalho, das definições estratégicas e cotidianas dos empreendimentos, da direção e coordenação das ações nos seus diversos graus de interesses. A solidariedade envolve a preocupação permanente com a justa distribuição dos resultados e a melhoria das condições de vida dos participantes, comprometimento com o meio ambiente sustentável, com a comu- nidade, com movimentos emancipatórios e com o bem-estar de trabalhadores(as) e consumidores(as). Na viabilidade econômica vê-se a agregação de esforços, re- cursos e conhecimentos para viabilizar as iniciativas coletivas de produção, co- mercialização, crédito e consumo. Portanto, um empreendimento econômico solidário precisa ter agregado todos esses princípios. Considerando esses conceitos, o estudo desenvolvido buscou identificar, por meio de uma metodologia de análise multivariada, o perfil aproximado desses empreendimentos econômicos solidários (EES) de forma a retratar a economia solidária, buscando identificar grupos e tipologias por estados e grandes regi- ões brasileiras. A metodologia utilizada foi a análise de conglomerados em duas etapas. Esse procedimento estatístico permite a divisão de unidades/objetos em grupos homogêneos com características similares dentro dos grupos e os mais distintos possíveis entre os grupos. A análise foi dividida em seis dimensões e nelas foram identificados os grupos/tipologias que são apresentados a seguir. São elas: dimensão de organização dos empreendimentos econômicos solidários, dimensão de atividade econômica, dimensão de gestão financeira e administra- tiva, dimensão de situação de trabalho e sociopolítica nos empreendimentos. A metodologia tem uma exposição mais detalhada no Anexo 1.

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tem uma exposição mais detalhada no Anexo 1. 28 d iMenSão de organização doS eeS Esta

diMenSão de organização doS eeS

Esta dimensão de análise teve por objetivo identificar algumas características de organização dos EES, notadamente: tamanho (em número de sócios), tempo de funcionamento, localização (urbana e rural) e forma jurídica em que se encontra fundado o EES 1 . Ao todo foram identificados três grupos distintos no conjunto de EES, com frequências e percentuais apresentados na tabela a seguir.

1 Para a análise e identificação de grupos/tipologias foram feitas algumas mudanças nas variáveis de análise.

As formas de organização foram divididas em: grupo informal, associação, cooperativa, outra forma. As classes de ano de início agregaram os dados dos EES criando a categoria – até 1994, permanecendo as demais categorias como já estavam. Além dessas mudanças, foram excluídos aqueles EES que não tinham informação para pelos menos uma das variáveis na análise.

 

TIPOLOGIA DOS EES

TIPOLOGIA DOS EES 29 Tabela 1: Distribuição de grupos/tipologias para dimensão de organização Grupo/Tipologia N

29

Tabela 1:

Distribuição de grupos/tipologias para dimensão de organização

Grupo/Tipologia

N

%

% Válido

1

8.686

39,7

40,4

2

5.554

25,4

25,8

3

7.255

33,2

33,8

Sub-Total

21.495

98,3

100,0

Sem Informação

364

1,7

Total

21.859

100,0

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.

Cada uma destas tipologias apresenta um perfil diferenciado em relação a uma ou mais das características consideradas na análise. A caracterização de cada uma é apresentada abaixo.

caracterização

GRupo/tipoloGiA 1: é o grupo que reúne os EES mais jovens, a maioria surge entre 2003 e 2007, em maioria grupos informais e localizados em área urbana. Quanto ao número de sócios, aproximadamente metade é composto de até 10 sócios. GRupo/tipoloGiA 2: é um grupo onde existem EES de todas as idades, sendo os mais jovens mais comuns (se considerarmos a partir de 2002), composto de cooperativas (único grupo com essa característica) e associações, localizados em áreas rurais e urbanas. Esses EES apresentam tamanhos variados em relação ao número de sócios, com superioridade dos EES com até 10 sócios (pouco maior que as demais categorias). GRupo/tipoloGiA 3: é o grupo onde estão os EES mais antigos, a maioria surge até 1999, todos funcionando como associações e localizados somente em áreas rurais. Neste grupo é maior a informação de não declarar ter sócios 2 , ou de ser um EES com 21 a 50 sócios. As características que mais diferenciam os grupos são as formas de organização e localização dos EES. O primeiro grupo é formado por EES urbanos e informais, o segundo por EES em espaços urbanos e rurais, sendo cooperativas, e o terceiro por EES rurais (somente) formados em associações. A demonstração gráfica das variáveis isoladas que foram agrupadas nessas tipologias podem ser encontradas nos anexos.

2 Este resultado pode ser explicado por respostas obtidas dos entrevistados de EES que estavam em fase de

implantação e até mesmo por aqueles que não sabiam informar o número certo. Considera-se também as Redes, que a rigor não se caracterizam com associados.

 

30

30 ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL r eSUltadoS por eStadoS e grandeS regiõeS O aspecto da organização

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

reSUltadoS por eStadoS e grandeS regiõeS

O aspecto da organização dos empreendimentos apresenta as suas

características mais gerais em três tipologias distintas. Em termos de re- presentatividade, duas ficaram muito próximas, visto que a primeira (ti- pologia 1) representa 40,4% de todos os empreendimentos e a terceira (tipologia 3) agrega 33,8% deles. Portanto, temos uma divisão clara que demonstra ser quase metade dos empreendimentos mais jovens, infor- mais, urbanos e com menor número de associados e a outra parte deles que são mais antigos, organizados como associações, rurais e de tamanho maior. O grupo intermediário (25,8%) se diferencia porque nele estão concentradas todas as cooperativas, mas também um pouco de associa- ções, com tamanhos e idades variadas pertencentes aos setores urbano e rural. Neste sentido, podemos dizer que a economia solidária de fato não é nova 3 no sistema produtivo brasileiro e está presente em todo o territó- rio nacional, apresentando potencial de crescimento, pois uma boa parte (25,1%) dos empreendimentos se formou a partir da segunda metade da década de 90 e continua apresentando crescimento em ritmo similar. São atividades geradoras de trabalho e renda que estão presentes de forma mais significativa no setor rural, mas também acolhem em boa medida os trabalhadores do setor urbano e aqueles empreendimentos que atuam tanto no setor rural como no urbano.

A análise por estados aponta uma diferenciação que não segue pa-

drões regionais estritos. Os estados de Amazonas, Roraima, Amapá, Piauí, Alagoas, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal apresentam EES de tipologia 1, que são urbanos, mais jovens, informais e com menos sócios. Apesar disso, observando os gráficos de barras ao lado do mapa, vemos que nos estados do Amazonas, Amapá e Rio Grande do Sul, as tipologias 1 e 2 estão bem próximas e Piauí apresenta muita proximidade entre as tipologias 1 e 3 pelo fato de mais da metade dos empreendimentos estarem no setor rural e organizados como associações que nasceram entre 2003 e 2007, sendo, portanto, mais jovens. No caso dos três primeiros estados, essa proximida- de se explica pelo fato de ser maior o número de empreendimentos no setor

 

TIPOLOGIA DOS EES

urbano, mas quase a metade deles organizados como associações e coope- rativas. No caso do Amazonas, os empreendimentos são bastante jovens, sendo quase metade deles formados entre 2003 e 2007. Chama atenção o alto número (acima de 60%) de empreendimentos informais concentrados no setor urbano nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul. Vale destaque também os estados que tem entre 15% a 30% dos empreendimentos organizados como cooperativas, sendo eles respectiva- mente: Sergipe, Amapá, Rio Grande do Sul, São Paulo e Santa Catarina. Os estados do Pará, Espírito Santo, Goiás, Roraima, Rondônia e Paraná ficam assim organizados em torno de 10%. Em números absolutos, os estados com mais cooperativas são: Rio Grande do Sul com 382, Santa Catarina com 200, São Paulo com 175 e Paraná com 86.

Os estados do Pará, Santa Catarina, Sergipe e Goiás são majori- tariamente EES do tipo 2, cooperativas e associações rurais e urbanas. Entretanto, em Sergipe há uma importante proximidade entre a tipologia 1 e 2 em vista de quase a metade dos empreendimentos serem informais, apesar da divisão entre o setor rural e urbano estar equilibrada e, em Goiás, fica muito próxima a 2 e 3, porque quase a metade dos empreen- dimentos são rurais e organizados na forma de associações. No Pará, as três tipologias estão bem divididas por estarem os EES distribuídos de forma equilibrada entre o setor urbano e rural, sendo mais representativa a forma de organização em associações.

Predomina a tipologia 3, que são os EES rurais, organizados em associações, mais antigos e com maior número de sócios nos estados do Acre, Rondônia, Espírito Santo, Tocantins, Mato Grosso, Maranhão, Ce- ará, Rio Grande do Norte, Bahia, Paraíba e Pernambuco, embora neste último e em Mato Grosso as tipologias 1 e 3 estão muito próximas. Os empreendimentos mais novos fazem a diferença nesse caso, visto que houve um crescimento significativo (da ordem de 80%) no número de empreendimentos a partir da segunda metade da década de 90.

A Tabela 2 e os mapas nas páginas 34 e 35 apresentam as distribuições dos grupos segundo formas de organização por estados e grandes regiões.

Seguindo o mesmo raciocínio para as grandes regiões, podemos ve- rificar os grupos mais comuns em cada uma delas. Apenas duas tipologias aparecem dicotomizando a análise: as regiões Norte e Nordeste apresen-

delas. Apenas duas tipologias aparecem dicotomizando a análise: as regiões Norte e Nordeste apresen- 31  

31

 

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

tam EES caracteristicamente rurais, associações, mais antigos e de maior número de sócios, enquanto as demais regiões apresentam EES urbanos e informais, mais jovens e de menor número de associados. Observando os gráficos de barra internos ao mapa, pode-se destacar:

■ Sudeste com predominância explícita (61,1%) de EES do tipo 1;

■ As regiões Nordeste e Sul, apesar da tipologia predominante de cada uma representar quase 50%, na primeira é a 3, onde os EES são rurais, associações, mais antigos e com maior número de sócios, ao passo que na Sul é a tipologia 1, que agrega os EES urbanos, mais jovens, informais e com menos sócios;

■ Centro-Oeste e Norte com menor diferença entre as propor- ções dos diversos tipos de grupos de EES, na região Centro- Oeste predomina com 40% a tipologia 1 e na região Norte há 40% de tipologia 3.

É interessante observar que, apesar de até 1930 o cooperativis- mo no Brasil caminhar muito lentamente, a crise econômica mundial estimulou a emergência de cooperativas, especialmente no Sul do país. Esse fato parece refletir também nos EES quando hoje, na região Sul, encontramos a tipologia 2 (38%), onde se encontram todas as cooperati- vas, sendo mais representativa percentualmente que nas demais regiões, inclusive maior que a média nacional (26%). Dos três estados do sul, o Rio Grande do Sul é o que mais tem cooperativas, visto que 60% delas estão concentradas nele, vindo em seguida Santa Catarina, com 30% das cooperativas da região. Apesar disso, ainda é mais forte na região os EES urbanos, mais jovens, informais e com menos sócios. Por outro lado, contrastando com isso, a região Nordeste tem a maior participação percentual na tipologia 3 (48,8%) em relação às outras regiões e o índice nacional (33,8%), que são os EES rurais, associações, mais antigos e com maior número de sócios. Cabe ressaltar também, nessa leitura das duas regiões, outro dado que as diferencia, relativo aos motivos apon- tados para a criação de seus empreendimentos. Na região Sul é mais significativo que todas as outras opções a motivação de “obter maiores ganhos em um empreendimento” e na sequência, “uma fonte comple- mentar de renda para os associados”. Na região Nordeste e Norte vem em primeiro lugar o motivo de ser “uma alternativa ao desemprego” e

32

Na região Nordeste e Norte vem em primeiro lugar o motivo de ser “uma alternativa ao
 

TIPOLOGIA DOS EES

é maior que todas as regiões a alternativa de “condição exigida para ter acesso a financiamentos e outros apoios”. Por outro lado, agregando os índices mais recentes de incidência da pobreza levantados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, eles ficam em torno de 50% no estados do Nordeste e 30% nos estados do Sul do país. Histo- ricamente tem sido essa a tendência, o que nos ajuda a entender a razão da região Nordeste apresentar a característica de EES mais antigos e associações e o Sul mais focado no aumento da renda e também na obtenção de uma renda complementar por meio dos EES mais jovens e urbanos com forte participação das cooperativas.

Em síntese, temos o país dividido com Norte e Nordeste carregan- do os EES rurais, associações, mais antigos e com maior número de só- cios e as regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul com os EES urbanos, mais jovens, informais e com menos sócios. A região Norte, quando compara- da à tipologia por estados, passa para a 3, em vista dos estados do Acre e Tocantins terem maior número de EES em relação aos demais estados da região e predominarem neles a tipologia 3. O mesmo acontece na região Centro-Oeste, que muda para a tipologia 1, alavancado pelo número ex- pressivo de EES dos estados de Mato Grosso do Sul e Distrito Federal, onde 70% deles são desse tipo.

33

ex- pressivo de EES dos estados de Mato Grosso do Sul e Distrito Federal, onde 70%
 

34

34 ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL Mapa 1: Dimensão de organização (características gerais) – maiores percentuais por

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

Mapa 1:

Dimensão de organização (características gerais) – maiores percentuais por estados e distribuição dos grupos/tipologias por UF (gráfico de barras ao lado)

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.
Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.

Mapa 2:

Dimensão de organização (características gerais) – maiores percentuais por grandes regiões e distribuição dos grupos/tipologias por grandes regiões (gráfico de barras)

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria. Tipologia 1 Tipologia 2 Tipologia 3 Valores no gráfico de
Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.
Tipologia 1
Tipologia 2
Tipologia 3
Valores no gráfico de barras ao lado em %.
 

TIPOLOGIA DOS EES

TIPOLOGIA DOS EES 35 Tabela 2: Tabulação da classificação de grupos/tipologias da di- mensão de organização

35

TIPOLOGIA DOS EES 35 Tabela 2: Tabulação da classificação de grupos/tipologias da di- mensão de organização

Tabela 2:

Tabulação da classificação de grupos/tipologias da di- mensão de organização segundo grandes regiões e UF

Grande região

UF

Grupos–organização

Total

1

2

3

Centro-Oeste

Total

870

611

687

2.168

DF

279

91

11

381

GO

97

344

291

732

MS

250

42

33

325

MT

244

134

352

730

Nordeste

Total

2.894

1.900

4.568

9.362

AL

127

75

78

280

BA

344

412

822

1.578

CE

468

282

1073

1.823

MA

148

146

490

784

PB

228

176

263

667

PE

534

277

707

1.518

PI

696

191

580

1.467

RN

175

166

473

814

SE

174

175

82

431

Norte

Total

820

727

1.002

2.549

AC

145

92

303

540

AM

203

170

84

457

P

70

63

22

155

PA

164

191

129

484

RO

58

78

156

292

RR

63

39

21

123

TO

117

94

287

498

Sudeste

Total

2.365

980

527

3.872

ES

141

137

241

519

MG

775

249

188

1.212

RJ

910

363

57

1.330

SP

539

231

41

811

Sul

Total

1.737

1.336

471

3.544

PR

471

231

101

803

RS

1.091

726

247

2.064

SC

175

379

123

677

Total

8.686

5.554

7.255

21.495

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.

 

36

36 ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL d iMenSão de atividade econôMica doS eeS A dimensão de Atividade

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

diMenSão de atividade econôMica doS eeS

A dimensão de Atividade Econômica tem por objetivo identificar algumas características das atividades produtivas dos EES notadamente:

tipo de atividade econômica, forma de comercialização, destino da produ- ção e espaços de comercialização utilizados 4 . Ao todo foram identificados dois grupos distintos no conjunto dos EES, com frequências e percentuais apresentados na tabela a seguir. Cada uma destas tipologias apresenta um perfil diferenciado em re- lação a uma ou mais das características consideradas na análise. A carac- terização de cada uma é apresentada abaixo.

Tabela 3:

Distribuição de grupos/tipologias para a dimensão de atividade econômica

Grupo/Tipologia

N

%

% Válido

1

8.145

37,3

43,0

2

10.793

49,4

57,0

Sub-Total

18.938

86,6

100.0

Sem Informação

2.921

13,4

Total

21.859

100,0

caracterização

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.

GRupo/tipoloGiA 1: é o grupo que reúne os EES que só faz venda direta ao consumidor por meio de comércio local ou comunitário. As atividades predominantes são agrícolas, fabricação de alimentos e bebidas e de produtos têxteis, sem nenhuma dessas ser muito superior percentualmente às demais. GRupo/tipoloGiA 2: é o grupo de EES cuja forma de comer- cialização está dividida majoritariamente entre venda aos revendedores e atacadistas e venda direta (sendo o primeiro tipo mais comum). A comercialização destina-se, em metade dos casos, ao mercado municipal como era de se esperar para a forma de comercialização majoritária. A atividade principal é a agrícola, com mais de 50% dos EES.

4 Para a análise e identificação de grupos/tipologias foram reclassificados como “Outras Atividades” os

códigos CNAE de atividade com frequência inferior a 100 ocorrências entre os mais de 21.000 EES. Além dessas mudanças, foram excluídos aqueles EES que não tinham informação para pelos menos uma das variáveis na análise.

 

TIPOLOGIA DOS EES

A característica sobre os espaços de comercialização não se mos-

traram diferentes nos grupos formados, sendo eles: entrega direta a clientes, feiras livres, lojas ou espaços próprios, espaços coletivos (Cen- trais de Comercialização e Centrais de Abastecimento – Ceasas) e expo- sições eventuais/especiais. A demonstração gráfica das variáveis isola-

das agrupadas aqui são encontradas nos anexos.

37

isola- das agrupadas aqui são encontradas nos anexos. 37 r eSUltadoS por eStadoS e grandeS regiõeS

reSUltadoS por eStadoS e grandeS regiõeS

O aspecto do dimensionamento das atividades econômicas dos empreendimentos apresenta duas tipologias distintas, sendo uma pre- dominante em termos de representatividade, visto que 57% dos em- preendimentos estão agregados nela, a tipologia 2, ficando os demais empreendimentos (43%) agregados na tipologia 1. Portanto, temos uma divisão clara, demonstrando que mais da metade dos empreendimentos de economia solidária existentes no Brasil tem a agricultura como ativi- dade principal atuando principalmente em mercados municipais e com maior comercialização para revendedores e atacadistas (tipologia 2). A outra parte deles (tipologia 1) tem suas atividades produtivas abrangen- do os setores rurais e urbanos, com forte presença das atividades ditas de transformação e a comercialização sendo feita no mercado local ou comunitário com venda direta ao consumidor. Nesse sentido, entende- mos que uma parte significativa dos empreendimentos está num estágio mais avançado de comercialização.

A análise por estados aponta por uma diferenciação que não segue

padrões regionais estritos. Amazonas, Roraima, Amapá, Piauí, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal apresentam EES de tipologia 1. Os demais estados apresentam majori- tariamente EES de tipo 2.

Observamos que, dos 27 estados da federação, apenas oito se caracterizaram com um mercado e comércio mais local ou comunitá- rio com venda direta ao consumidor. Considerando ser melhor ter um mercado com comércio mais expandido para o municipal e regional, o resultado é bom, porque é um indicativo de que os EES têm capacida- de de fomentar a economia e o desenvolvimento local e caminhar para

 

38

uma integração regional. Fomenta, portanto, um desenvolvimento en- dógeno, que é mais sustentável, estimulando os laços de confiança

e cooperação entre as pessoas, empreendimentos e instituições com

foco na valorização do ser humano e preservação do meio ambiente. Dos oito estados que se enquadraram na tipologia 1, observando os gráficos de barra, temos três deles divididos entre uma e a outra: Ama- zonas, Paraná e Rio de Janeiro. Nos estados de Mato Grosso do Sul e Amapá é bem mais significativa a participação da tipologia 1, ao passo que em Minas Gerais, Piauí e Roraima a participação da tipologia 2 é menos acentuada.

Fazendo uma análise com a dimensão anterior, referente ao aspec- to da organização ou características gerais dos empreendimentos, esses mesmos estados apresentaram empreendimentos mais jovens, informais

e de tamanho menores. Portanto, nos parece coerente estarem produ-

zindo e comercializando ainda em pequenos mercados locais com venda direta ao consumidor. Nesse sentido, o contrário acontece na região Nordeste, onde, em todos os estados (com exceção do Piauí) predomina a tipologia 2, com grande margem de participação em todos eles, o que é compatível com o resultado anterior que demonstrou haver nessa região empreendimentos mais antigos, maiores e organizados como associa- ções em áreas rurais, que se supõem dispor de melhores condições de expandir suas vendas para mercados maiores e mais distantes. Reforça essa análise o fato de os empreendimentos do setor rural, que represen- ta a metade deles nessa tipologia, venderem 40,3% do que produzem para revendedores e atacadistas. Os empreendimentos de área urbana

e rural-urbana vendem apenas em torno de 19% a 29% para esse tipo

de compradores (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos

Socioeconômicos – DIEESE: 2008, p. 49).

A Tabela 4 e os mapas nas páginas 40 e 41 apresentam os resulta- dos por estados e grandes regiões.

Seguindo o mesmo raciocínio para as grandes regiões, podemos

verificar os grupos mais comuns em cada uma delas. O resultado geral

é bem satisfatório, visto que a predominância é de um mercado e de

uma comercialização mais ampliada em todo o país. Apenas a região Centro-Oeste apresenta uma maior proporção de EES de tipologia 1, influenciada pelo Distrito Federal por ter nele mais de 80% dos empre-

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

1, influenciada pelo Distrito Federal por ter nele mais de 80% dos empre- ECONOMIA SOLIDÁRIA NO
 

TIPOLOGIA DOS EES

endimentos nessa tipologia, embora fique bem dividido com a tipologia 2, conforme demonstra o gráfico interno. Entretanto, é compatível com

o resultado da dimensão anterior, da organização e características gerais dos empreendimentos. Na região Sudeste a divisão é praticamente igual entre a tipologia 1 e 2. Conforme análise desagregada dos dados, as regiões Sul e Sudeste apresentaram uma participação mais significativa de empreendimentos com vendas em lojas ou espaços próprios, que fez

a diferença em relação à lógica do resultado da dimensão anterior. Ou

39

à lógica do resultado da dimensão anterior. Ou 39 seja, apesar de nessas regiões os empreendimentos

seja, apesar de nessas regiões os empreendimentos serem majoritaria- mente mais jovens, informais e urbanos, contam com algum nível de comercialização em espaços mais privativos.

 

40

40 ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL Mapa 3: Dimensão de atividade econômica – maiores percentuais por estado

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

Mapa 3:

Dimensão de atividade econômica – maiores percentuais por estado e distribuição dos grupos/tipologias por UF (gráfico de barras ao lado)

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.
Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.

Mapa 4:

Dimensão de atividade econômica – maiores percentuais por grande região e distribui- ção dos grupos/tipologias por grande região (gráfico de barras)

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.
Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.
 

TIPOLOGIA DOS EES

TIPOLOGIA DOS EES 41 Tabela 4: Tabulação da classificação de grupos da dimensão atividade econômica segundo

41

TIPOLOGIA DOS EES 41 Tabela 4: Tabulação da classificação de grupos da dimensão atividade econômica segundo

Tabela 4:

Tabulação da classificação de grupos da dimensão atividade econômica segundo grandes regiões e UF

Grande região

UF

Grupos–atividades

Total

1

2

Centro-Oeste

Total

946

918

1.864

DF

250

57

307

GO

183

411

594

MS

204

120

324

MT

309

330

639

Nordeste

Total

3.133

5.056

8.189

AL

80

181

261

BA

554

884

1.438

CE

545

1.124

1.669

MA

232

473

705

PB

150

370

520

PE

538

887

1.425

PI

679

548

1.227

RN

184

375

559

SE

171

214

385

Norte

Total

1.063

1.307

2.370

AC

184

306

490

AM

224

192

416

AP

95

41

136

PA

253

279

532

RO

98

162

260

RR

65

48

113

TO

144

279

423

Sudeste

Total

1.784

1.825

3.609

ES

124

282

406

MG

647

500

1147

RJ

698

584

1282

SP

315

459

774

Sul

Total

1.219

1.687

2.906

PR

365

343

708

RS

699

930

1629

SC

155

414

569

Total

8.145

10.793

18.938

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.

 

42

42 ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL d iMenSão de geStão financeira doS eeS Na dimensão de gestão

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

diMenSão de geStão financeira doS eeS

Na dimensão de gestão financeira foram avaliadas características rela- cionadas à gerência dos recursos dos EES. Entre as variáveis estão: origem dos recursos iniciais da atividade, dificuldades na comercialização, investi- mentos, acesso a crédito/financiamentos e apoio/assessoria/capacitação 5 . No conjunto dos empreendimentos econômicos solidários foram iden- tificados dois grupos distintos, com frequências e percentuais apresentados na tabela a seguir.

Tabela 5:

Distribuição de grupos/tipologias para dimensão gestão financeira

Grupo/Tipologia

N

%

% Válido

1

8.454

38,7

39,2

2

13.137

60,1

60,8

Sub-Total

21.591

98,8

100,0

Sem Informação

268

1,2

Total

21.859

100,0

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.

Algumas das variáveis selecionadas na análise não se diferenciam segundo os dois grupos definidos, são elas: dificuldade de comercialização, origem dos recursos iniciais do EES e acesso a apoio/assessoria/capacitação. Para essas variáveis o perfil dos grupos é o mesmo. A dificuldade de comercialização aparece na mesma pro- porção nos dois grupos, sendo uma característica da maioria dos informantes. No caso dos recursos iniciais, a origem deles é dos próprios sócios, enquanto o acesso efetivo as atividades de assessoria também são comuns a maioria dos EES. Para as outras variáveis da análise, cada uma dessas tipologias apresenta um perfil diferenciado em relação a uma ou mais das características conside- radas neste estudo. A caracterização de cada uma é apresentada a seguir.

caracterização

GRupo/tipoloGiA 1: é o grupo dos EES em que todos realizaram in- vestimentos nas áreas de infraestrutura e equipamentos em maior quantidade. No acesso a financiamento e crédito, apesar de a maioria dos EES deste grupo não ter acesso, uma maior proporção que no grupo 2 teve algum tipo de financiamento.

 

TIPOLOGIA DOS EES

GRupo/tipoloGiA 2: é o grupo dos EES que não realizaram investi- mentos e não tiveram acesso a crédito. Esses dois grupos dividem o conjunto de empreendimentos econômi- cos solidários entre aqueles de atividades mais dinâmicas do ponto de vista financeiro, com acesso a financiamentos e investimentos que podem levar a um aumento de produtividade por aplicarem em infraestrutura e equipamen- tos e outro, menos dinâmico, sem investimento e de baixa procura e acesso

a crédito. Os dois grupos compartilham características similares quanto difi-

43

compartilham características similares quanto difi- 43 culdades de comercialização, acesso a apoios, assessoria e

culdades de comercialização, acesso a apoios, assessoria e capacitação, bem como a fonte inicial dos recursos da atividade.

A demonstração gráfica das variáveis isoladas agrupadas nessas tipolo- gias podem ser encontradas nos anexos.

reSUltadoS por eStadoS e grandeS regiõeS

No aspecto de Gestão Financeira dos empreendimentos há duas tipo- logias distintas, sendo uma predominante em termos de representatividade por agregar 60,8% dos empreendimentos na tipologia 2, ficando os demais empreendimentos, na proporção de 39,2%, agregados na tipologia 1. Dessa forma, temos uma divisão importante demonstrando que mais da metade dos empreendimentos de economia solidária existentes não realizam investimen- tos e não tem acesso a financiamento ou crédito.

Na análise por estados, temos apenas Santa Catarina com os EES classificados na tipologia 1, na qual em sua maioria são considerados mais dinâmicos. Buscando a classificação desse estado nas tipologias anterio- res, vimos que estava presente no grupo em que se localizavam todas as cooperativas, no qual ele e o Rio Grande do Sul se destacaram por ter mais cooperativas. No aspecto da atividade econômica e comercialização, Santa Catarina ficou com uma margem percentual significativa no grupo dos empreendi- mentos que atuam num mercado mais abrangente, vendendo para atacadistas

e revendedores. Esses dados corroboram para o seu enquadramento na tipo-

logia de empreendimentos mais dinâmicos. O estado do Rio Grande do Sul, embora tenha ficado no grupo dos empreendimentos que não investiram e nem tiveram acesso a crédito, vale ressaltar que a diferença que se apresenta com a tipologia 1 é muito pequena.

 

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

Nos estados do Pará, Amapá, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul, também classificados na tipologia 2, a diferença entre os que fizeram inves- timentos e tiveram acesso a crédito é muito sutil. Considerando os dados desagregados, nos estados de Mato Grosso do Sul e Pará essa proximidade pode ser entendida porque são os estados entre os 10 com mais acesso a cré- dito/financiamento. O primeiro também está entre os que alegaram menos dificuldades para esse acesso.

O estado do Espírito Santo se destaca por estar entre os seis estados

que mais tiveram acesso a algum tipo de apoio, assessoria e capacitação, pois 86% dos empreendimentos fizeram essa afirmação. Por sua vez, no Amapá, quase a metade dos empreendimentos alegaram ter feito investimentos no último ano anterior à pesquisa. Vale ainda lembrar que os estados do Para, Amapá e Espírito Santo estão entre aqueles que se destacam pelo número de cooperativas neles existentes. Em todas as outras unidades da federação existem mais empreendimentos não dinâmicos que dinâmicos no aspecto da gestão financeira.

A Tabela 6 e os mapas nas páginas 46 e 47 apresentam os resultados

por estados e grandes regiões.

Na análise das grandes regiões nenhuma apresenta a tipologia dos EES mais dinâmicos como maioria. Ao contrário, é majoritária (de 55% a 65%) a participação em todas as grandes regiões de empreendimentos que não reali- zaram investimentos e tampouco tiveram acesso a crédito.

A maioria dos empreendimentos (61%) teve inicio com investimentos

dos próprios sócios, sendo seguido pelas doações como segunda fonte mais importante e depois os empréstimos e financiamentos. Na região Centro- Oeste e Norte, o investimento dos próprios sócios tem mais representativi- dade que nas demais, ao passo que as doações figuraram como mais impor- tante nas regiões Nordeste e Sudeste. A maioria dos empreendimentos (61%) declara não ter feito nenhum novo aporte de recursos como investimentos às suas atividades econômicas. Aqueles que o fizeram destinaram os recursos principalmente à aquisição de equipamentos e infraestrutura. A capacitação aparece de forma mais significativa nas regiões Norte, Sudeste e Sul. Buscando nos dados desagregados os motivos alegados para a ausên- cia de investimento e crédito, as principais dificuldades caminham na dire- ção da falta de capital de giro, no caso da comercialização. Tanto que essa informação está presente também quando responderam sobre a utilização

44

Tanto que essa informação está presente também quando responderam sobre a utilização 44 Sumrio  
 

TIPOLOGIA DOS EES

do crédito obtido, apontando para o investimento em maior medida, vindo depois o uso em capital de giro e custeio. As regiões onde os empreendimentos tiveram menor acesso a crédito ou financiamento foram: Centro-Oeste (58,8%), Nordeste (55,4%) e Norte (64,6%). A região Sudeste apresentou a maior proporção (52,2%) de empre- endimentos sem busca de crédito. Quanto à finalidade, em todas as regiões o investimento foi predominante. A necessidade de investimentos nos em- preendimentos parece inquestionável, quando as respostas dadas por 76,4% deles, foi de necessitar de novos financiamentos para aplicar em custeio ou capital de giro e investimentos (48,1%) e só em investimentos (41,9%). A necessidade de investimento se mostra maior nas regiões que menos tiveram acesso a crédito ou financiamento, são elas: Norte (82%), Centro- Oeste (79%) e Nordeste (84,6%). Essas regiões são as que mais apontaram dificuldades para acessar esses recursos por vários motivos, principalmente pela falta de documentação exigida pelos agentes financiadores (mais acentu- ada nas regiões Norte e Centro-Oeste) e a falta de apoio para elaborar pro- jetos, sendo seguidas pelas dificuldades das taxas de juros elevadas, falta de aval e burocracia. Nas regiões Sul e Sudeste são menores as proporções dos empreendimentos que declararam precisar de financiamentos.

45

Sul e Sudeste são menores as proporções dos empreendimentos que declararam precisar de financiamentos. 45  
 

46

46 ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL Mapa 5: Dimensão de gestão financeira – maiores percentuais por estados

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

Mapa 5:

Dimensão de gestão financeira – maiores percentuais por estados e distribuição dos gru- pos/tipologias por UF (gráfico de barras ao lado)

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.
Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.

Mapa 6:

Dimensão de Gestão Financeira – maiores percentuais por grandes regiões e distribui- ção dos grupos/tipologias por grande região (gráfico de barras)

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.
Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.
 

TIPOLOGIA DOS EES

TIPOLOGIA DOS EES 47 Tabela 6: Tabulação da classificação de grupos de gestão financeira segundo grandes

47

TIPOLOGIA DOS EES 47 Tabela 6: Tabulação da classificação de grupos de gestão financeira segundo grandes

Tabela 6:

Tabulação da classificação de grupos de gestão financeira segundo grandes regiões e UF

Grande região

UF

Grupos–atividades

Total

1

2

Centro-Oeste

Total

750

1.440

2.190

DF

106

275

381

GO

231

503

734

MS

164

171

335

MT

249

491

740

Nordeste

Total

3.342

6.061

9.403

AL

84

196

280

BA

551

1.049

1.600

CE

702

1.130

1.832

MA

203

578

781

PB

227

439

666

PE

518

1.007

1.525

PI

502

968

1.470

RN

370

442

812

SE

185

252

437

Norte

Total

1.074

1.558

2.632

AC

191

348

539

AM

190

263

453

AP

75

80

155

PA

278

296

574

RO

120

169

289

RR

57

67

124

TO

163

335

498

Sudeste

Total

1.717

2.168

3.885

ES

255

261

516

MG

571

649

1.220

RJ

504

832

1.336

SP

387

426

813

Sul

Total

1.571

1.910

3.481

PR

309

496

805

RS

897

1.094

1.991

SC

365

320

685

Total

8.454

13.137

21.591

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.

 

48

48 ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL d iMenSão de geStão adMiniStrativa doS eeS Essa dimensão avaliou as

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

diMenSão de geStão adMiniStrativa doS eeS

Essa dimensão avaliou as características dos EES em relação às ins- tâncias de direção dos sócios, formas de participação nas decisões, perio- dicidade das reuniões coletivas e os resultados financeiros dos empreen- dimentos no último ano 6 .

Ao todo foram identificados dois grupos distintos no conjunto de EES, com frequências e percentuais apresentados na tabela a seguir.

Tabela 7:

Distribuição de grupos/tipologias para dimensão gestão administrativa

Grupo/Tipologia

N

%

% Válido

1

10.384

47,5

47,8

2

11.356

52,0

52,2

Sub-Total

21.740

99,5

100,0

Sem Informação

119

0,5

Total

21.859

100,0

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.

Cada uma dessas tipologias apresenta um perfil diferenciado em re- lação a uma ou mais das características consideradas na análise. Algumas questões não se diferenciaram quando comparados os dois grupos. A ca- racterização de cada uma é feita ressaltando os aspectos distintos de cada grupo, quando não for mencionada alguma variável, significa que não há diferença para ela entre os grupos.

caracterização

GRupo/tipoloGiA 1: este grupo compreende EES com mecanis- mos de direção e decisão muito simples. Basicamente têm como instância de direção as Assembleias e as decisões são tomadas sempre de forma cotidiana. A periodicidade das reuniões é mensal em aproximadamente 40% dos EES e semanal em 20% deles.

6 Ao todo foram consideradas 18 questões, sendo a maioria com duas possibilidades, abrindo para

identificar em outras perguntas as diversas formas de participação e tomada de decisão. Apenas a perio- dicidade e os resultados da atividade consistiam de perguntas com múltiplas escolhas, sendo apenas uma válida. Como nas análises anteriores, os empreendimentos que não informaram alguma das perguntas foram excluídos da análise.

 

TIPOLOGIA DOS EES

GRupo/tipoloGiA 2: este grupo compreende os EES com maior complexidade organizacional. As atividades identificadas neste grupo possuem como instâncias de direção: assembleias, diretorias e conselhos fiscais, majoritariamente. Em relação às formas de participação nas deci- sões, têm-se: acesso a registros, decisão sobre fundos/sobras, eleição de diretoria, prestação de contas e, em metade deles, plano de trabalho. A periodicidade das reuniões é mensal em mais de 50% dos EES. Deve-se ressaltar que essas características são correspondentes a maioria dos EES presentes em cada grupo. Nos dois casos os EES con- seguiram pagar suas despesas no ano anterior, uns com sobra outros não, sem diferenciação clara entre os grupos.

A demonstração gráfica que apresentam os dados de cada uma das

variáveis da análise, inclusive aquelas onde não aparecem diferenças entre

os grupos, encontra-se nos anexos.

49

diferenças entre os grupos, encontra-se nos anexos. 49 r eSUltadoS por eStadoS e grandeS regiõeS Na

reSUltadoS por eStadoS e grandeS regiõeS

Na questão da Gestão Administrativa dos empreendimentos econô- micos solidários, duas tipologias distintas se apresentam de forma equili- brada, mas com uma pequena vantagem em termos de representatividade para a tipologia 2, por agregar 52,2% dos empreendimentos e a tipolo- gia 1 agregando 47,8% deles. Dessa forma, pouco mais da metade dos empreendimentos de economia solidária existentes nacionalmente apre- sentam maior complexidade organizacional e os demais funcionam com organização administrativa menos complexa ou muito simples.

A análise mostra que todos os estados do Nordeste (exceto Piauí),

Acre, Rondônia, Goiás, Tocantins, Espírito Santo e Santa Catarina en- contram-se no grupo dos EES de organização mais complexa. As demais unidades da federação são classificadas no outro grupo, onde estão os EES de organização administrativa mais simples. Fazendo uma analogia com as dimensões e tipologias anteriores, são claramente os mesmos es- tados que no aspecto da organização têm empreendimentos mais antigos, organizados em forma de associações rurais e de maior número de sócios (tipologia 3). Os estados de Santa Catarina, Goiás e Pará estão na tipolo- gia 2, que agrega todas as cooperativas. No aspecto das atividades econô-

 

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

micas, com exceção dos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Pará, todos os demais são os mesmos que apresentaram uma comercialização em mercado mais abrangente com vendas predominan- temente a revendedores e atacadistas (tipologia 2). Depreende-se dessas comparações que esses empreendimentos estão mais estruturados e só- lidos e nos permite concluir que essas condições exigem e explicam esse resultado em termos do gerenciamento ou administração mais complexa quanto à direção dos sócios, formas de participação nas decisões, periodi- cidade das reuniões coletivas e dos resultados financeiros, possuindo dire- torias, conselhos, relatórios de prestação de contas, bem como reuniões e assembleias planejadas para tomada de decisões, entre outros instrumen- tos. Ou seja, praticam uma administração mais participativa, democrática, transparente e, por isso mesmo, mais complexa. Confirma-se desse modo, um perfil importante dos empreendimentos de economia solidária. Dos estados citados acima, apesar de se mostrarem mais promissores com re- lação ao mercado e à comercialização e nessa tipologia ficarem no grupo que apresentou um gerenciamento mais simples (tipologia 1), fugindo da lógica indicada, no caso dos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo e Pará, se deve ao fato de as formas de participação nos empreendimen- tos acontecerem de forma significativa nas decisões cotidianas, ou seja, sem planejamento ou mais informal. No caso do estado de Mato Grosso, influenciou no resultado o fato de muito poucos empreendimentos des- tinarem parte do excedente econômico para a formação dos fundos de re- servas ou distribuição entre os sócios. Isto fica mais evidente com a outra informação de que é significativa a proporção dos empreendimentos que depois de pagarem as despesas não tiveram nenhuma sobra e também os empreendimentos em que o resultado econômico não foi suficiente para pagar as despesas. A Tabela 8 e os mapas nas páginas 52 e 53 apresentam as distribui- ções das tipologias por estados e grandes regiões. Quando se considera a análise por grandes regiões, a Sudeste e Sul apresentam a maioria das atividades classificadas na tipologia 1, de ge- renciamento e organização mais simples, sendo a região Sul com divisão quase equânime. As outras regiões apresentam características de EES de tipologia 2, organização e gerenciamento mais complexo (Centro-Oeste com divisão percentual quase igual entre as duas tipologias).

50

gerenciamento mais complexo (Centro-Oeste com divisão percentual quase igual entre as duas tipologias). 50 Sumrio  
 

TIPOLOGIA DOS EES

Também por analogia com a dimensão da característica dos em- preendimentos e da atividade econômica, a região Norte e Nordeste apresenta a mesma lógica implícita da análise por estados. Ou seja, o fato de os empreendimentos serem especialmente mais antigos, maio- res, e operarem em mercados ampliados, implica, consequentemente, numa gestão administrativa mais consistente ou mais estruturada. A região Centro-Oeste vem demonstrando nas tipologias anteriormente citadas um perfil de empreendimentos predominantemente mais jovens, informais e de comercialização de seus produtos e serviços em merca- dos locais ou comunitários com venda direta. Entretanto, nessa dimen- são a tipologia foi alavancada para o grupo dos empreendimentos de gerenciamento e organização mais complexa pelo estado de Goiás, que é o segundo maior na região em número de empreendimentos que estão majoritariamente agregados na tipologia 2. Vale observar que em todas as tipologias a região apresenta sempre uma divisão quase equânime. A região Sul e Sudeste também segue a mesma lógica, pois vem se apresentando como uma região de empreendimentos mais jovens, infor- mais e com menor número de sócios, demandando, portanto, uma admi- nistração organizacional interna menos complexa, conforme a tipologia 1. Fazemos destaque para o estado do Rio Grande do Sul por apresentar uma divisão de quase 50% em cada tipologia, que entendemos, como já apontamos nas análises anteriores, pode ser reflexo do número expres- sivo de cooperativas nesse estado que impõe, por sua natureza, uma estrutura organizacional mais estruturada.

de cooperativas nesse estado que impõe, por sua natureza, uma estrutura organizacional mais estruturada. 51  

51

 

52

52 ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL Mapa 7: Dimensão de gestão administrativa – maiores percentuais por estado

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

Mapa 7:

Dimensão de gestão administrativa – maiores percentuais por estado e distribuição dos grupos/tipologias por UF (gráfico de barras ao lado)

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.
Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.

Mapa 8:

Dimensão de gestão administrativa – maiores percentuais por grande região e distribui- ção dos grupos/tipologias por grande região (gráfico de barras)

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.
Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.
 

TIPOLOGIA DOS EES

TIPOLOGIA DOS EES 53 Tabela 8: Tabulação da classificação de grupos/tipologias de gestão administrativa segundo

53

TIPOLOGIA DOS EES 53 Tabela 8: Tabulação da classificação de grupos/tipologias de gestão administrativa segundo

Tabela 8:

Tabulação da classificação de grupos/tipologias de gestão administrativa segundo grandes regiões e UF

Grande região

UF

Grupos–atividades

Total

1

2

Centro-Oeste

Total

1.091

1.105

2.196

DF

283

101

384

GO

116

616

732

MS

275

62

337

MT

417

326

743

Nordeste

Total

3.936

5.508

9.444

AL

120

161

281

BA

550

1.058

1.608

CE

922

929

1.851

MA

277

510

787

PB

287

381

668

PE

527

998

1.525

PI

843

627

1.470

RN

175

642

817

SE

235

202

437

Norte

Total

1.269

1.380

2.649

AC

218

323

541

AM

248

209

457

AP

122

35

157

PA

410

164

574

RO

74

218

292

RR

87

39

126

TO

110

392

502

Sudeste

Total

2.267

1.631

3.898

ES

131

389

520

MG

694

538

1.232

RJ

989

346

1.335

SP

453

358

811

Sul

Total

1.821

1.732

3.553

PR

498

299

797

RS

1.159

918

2077

SC

164

515

679

Total

10.384

11.356

21.740

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.

 

54

54 ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL d iMenSão de SitUação de traBalho noS eeS A análise desta

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

diMenSão de SitUação de traBalho noS eeS

A análise desta dimensão revelou alguns resultados interessantes e apresentou o maior número de tipologias entre todas as dimensões ana-

lisadas. Pretendeu-se identificar a situação de trabalho levando em conta

a relação de associado e não associado trabalhando diretamente no em-

preendimento e a remuneração dos trabalhadores associados. Foram ava-

liadas as variáveis relativas ao tipo de remuneração dos sócios dos EES

e a existência de trabalhadores não sócios. Ao todo oito variáveis foram consideradas na análise. Foram identificados seis grupos distintos no conjunto de EES, com frequências e percentuais apresentados na tabela a seguir.

Tabela 9:

Distribuição de grupos/tipologia para dimensão situação de trabalho

Grupo/Tipologia

N

%

% Válido

1

1.111

5,1

6,5

2

9.628

44,1

56,1

3

3.931

18,0

22,8

4

1.351

6,2

7,8

5

711

3,3

4,1

6

464

2,1

2,7

Sub-Total

17.196

78,8

100,0

Não procede

4.663

21,2

Total

21.859

100,00

Fonte: MTE/SIES – elaboração própria.

Cada uma destas tipologias apresenta um perfil diferenciado em relação

a uma ou mais das características consideradas na análise. A caracterização de cada uma é apresentada abaixo.

caracterização

GRupo/tipoloGiA 1: Possui sócios trabalhando diretamente na atividade com remuneração fixa e a maioria dos EES não possui não sócios trabalhando. GRupo/tipoloGiA 2: Possui sócios trabalhando diretamente na ativi- dade, sendo remunerados por produtividade, por hora de trabalho e de outras formas. A maioria absoluta dos EES não possui não sócios trabalhando.

 

TIPOLOGIA DOS EES

GRupo/tipoloGiA 3: Possui sócios trabalhando diretamente na ati- vidade, mas a maioria dos EES não tem conseguido remunerá-los. A maior parte dos EES não possui não sócios trabalhando. GRupo/tipoloGiA 4: Possui sócios e não sócios trabalhando direta- mente na atividade, sendo os sócios remunerados por produtividade. GRupo/tipoloGiA 5: Possui sócios e não sócios trabalhando di- retamente na atividade, mas a maior parte dos EES não tem conseguido remunerar os sócios. GRupo/tipoloGiA 6: Não possui sócios trabalhando diretamente na atividade e todos os EES têm não sócios trabalhando.

A demonstração gráfica das variáveis isoladas agrupadas nessas tipolo-

gias podem ser encontradas nos anexos.

55

nessas tipolo- gias podem ser encontradas nos anexos. 55 r eSUltadoS por eStadoS e grandeS regiõeS

reSUltadoS por eStadoS e grandeS regiõeS

A situação do trabalho nos empreendimentos e a renda gerada por eles,

destinada à remuneração dos sócios, ficaram agregadas em seis grupos ou tipo- logias. Podemos dividi-las em dois grandes grupos; entre as que têm trabalhado- res associados trabalhando diretamente nas atividades dos empreendimentos e as que, além deles, também têm a presença de não associados. Em ambas, temos a situação de os empreendimentos não conseguirem gerar renda monetária para remunerar seus trabalhadores associados.

No primeiro grupo, destacamos a tipologia 2 como a mais representativa, com 56,1%, na qual a maioria dos empreendimentos não tem presença de tra- balhadores não sócios e reúne sócios que trabalham diretamente nas atividades com remuneração por produtividade, horas de trabalho ou outras formas, sendo maior o percentual (36,1%) dos trabalhadores que recebem por produtividade. A tipologia 1 reúne 6,5% dos empreendimentos na mesma situação, diferenciando apenas pelo fato de a renda monetária destinada ao pagamento dos associados ser na modalidade fixa. O grupo 3, com 22,8% dos empreendimentos, se diferencia das duas anteriores pelo fato de não conseguirem remunerar seus associados. A não remuneração se origina de situações diferentes, pois há empreendimentos que não geram renda monetária suficiente para o pagamento aos associados e aqueles que produzem e usam ou trocam a produção como um todo ou parte dela em autoconsumo. Há também os empreendimentos com trabalhadores vo- luntários, não implicando, portanto, em remuneração monetária.

 

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

No segundo grupo, que reúne empreendimentos com sócios e não sócios trabalhando diretamente nas atividades, destacamos, por apresentar um percentual de 7,8% dos empreendimentos, a tipologia 4, onde ficaram reunidos os que têm sócios sendo remunerados por produtividade e não sócios participando diretamente das atividades. O grupo 5, representando 4,1% dos empreendimentos, se diferencia do anterior porque a maioria de- les não consegue remunerar seus associados.

Formou-se também um sexto grupo, no qual ficaram reunidos 2,7% dos empreendimentos que têm a presença em todos eles de trabalhadores não sócios e a ausência de trabalhadores sócios trabalhando diretamente nas atividades dos empreendimentos. Ao cruzar diversas variáveis para melhor explicar esse grupo, encontramos uma participação significativa (60%) de empreendimentos classificados como associações. Na análise por estados verificamos que na maioria absoluta deles predomina a tipologia 2, que reúne sócios trabalhando diretamente nas atividades dos empreendimentos com mais de uma modalidade de remu- neração. Entretanto, em oito deles há uma situação bastante preocupante, visto que é quase igual o número de empreendimentos que remuneram monetariamente seus associados daqueles que não conseguem remunerar. Devemos levar em consideração que há empreendimentos que produzem

e usam ou trocam toda a produção ou parte dela em autoconsumo. Esse

56

toda a produção ou parte dela em autoconsumo. Esse 56 tipo de relação de troca e

tipo de relação de troca e uso chega a quase 5% dos empreendimentos que acabam sendo caracterizados por não gerarem remuneração aos seus associados. Entretanto, entendemos que o autoconsumo também pode ser considerado uma forma de remuneração, na medida em que evita o dispêndio financeiro para adquirir o bem do qual se tem necessidade. Considera-se também a presença de trabalho voluntário, que não implica em qualquer tipo de pagamento por trabalho prestado no empreendimen- to, seja em prestação de serviços ou produção propriamente.

No estado de Tocantins a situação de ausência de remuneração mo-

netária aos associados representa um quarto dos empreendimentos e chega

a ser maior que todos os demais tipos de remuneração, ressaltando que é

significativamente menor a produção destinada ao autoconsumo ou efetu- ada com trabalho voluntário. No estado de Mato Grosso é praticamente

igual o número de empreendimentos que conseguem remunerar seus asso- ciados daqueles que não conseguem e nestes é menor a proporção dos que

 

TIPOLOGIA DOS EES

destinam a sua produção para autoconsumo ou têm trabalho voluntário. No extremo oeste do país, o estado do Acre também não apresenta uma situa- ção boa nesse aspecto, pois estão bem próximas as tipologias 2 e 3, sendo praticamente igual o número de empreendimentos com autoconsumo e os que não conseguem efetuar pagamento aos associados. Também chama a atenção no Nordeste quatro estados: Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte e Bahia. No Sudeste se destaca o Espírito Santo, todos em condições simi- lares de proximidade das tipologias 2 e 3, entretanto, apresentam algumas particularidades. Dos estados do Nordeste, o Piauí apresenta o maior per- centual de empreendimentos sem capacidade de efetuar remuneração aos associados. Nele, essa situação representa a terça parte dos empreendimen- tos, sendo muito poucos os que destinam a produção para autoconsumo ou têm trabalho voluntário. Cabe lembrar que nos aspectos de dimensões da organização, atividade econômica e gestão administrativa, o Piauí sempre se diferenciou dos demais da sua região, apresentando uma tipologia onde os empreendimentos são mais novos, de tamanhos menores e urbanos, efetuando venda direta e local, com gestão administrativa simples. Esses dados em conjunto nos levam a deduzir que os empreendimentos são frá- geis e não apresentam muita sustentabilidade econômica. No Rio Grande do Norte um quarto dos empreendimentos tem dificuldades para produ- zir renda monetária aos associados, sendo praticamente igual o número de empreendimentos que não conseguem remunerar seus associados e os que usam e trocam os produtos para autoconsumo. No estado do Ceará, pou- co menos de um terço dos empreendimentos tem essa dificuldade, sendo muito pequena a proporção do autoconsumo ou voluntariado. No estado da Bahia, a situação é similiar, no entanto, ele se diferencia por apresentar um percentual significativo de empreendimentos que declararam não pos- suir sócios trabalhando diretamente nas atividades e sim os não sócios. No Espírito Santo, a quinta parte dos empreendimentos não consegue remu- nerar seus sócios, ficando igualmente dividido entre os que não conseguem e os que praticam o autoconsumo ou possuem trabalho voluntário. Nesse estado também é bastante significativo o número dos empreendimentos que não tem sócios trabalhando diretamente, mas tem a presença dos não sócios nas atividades. Nos demais estados é predominante o número de empreendimentos que produzem renda monetária e as distribui entre os associados por critérios de produtividade, horas trabalhadas ou outras formas.

57

e as distribui entre os associados por critérios de produtividade, horas trabalhadas ou outras formas. 57
 

ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

A Tabela 10 ao lado e os mapas nas páginas 60 e 61, apresentam as distribuições das tipologias por estados e grandes regiões. De modo geral, o quadro nacional dos empreendimentos econômi- cos solidários se caracteriza por apresentar predominância absoluta da- queles que têm como associados trabalhadores ocupados diretamente nas atividades dos empreendimentos, gerando renda monetária destinada para remuneração de seus associados e, na maioria, não há trabalhadores não sócios. Essa situação nos permite afirmar que são empreendimentos com alguma sustentabilidade econômica e social. Entre as grandes regiões, a Nordeste representa bem a situação nacio- nal, visto ser a que se destaca por ter a tipologia 2 como a mais representativa, embora não seja desprezível o grupo dos empreendimentos que não conse- gue gerar renda monetária para remunerar seus associados. Nessa mesma ótica, destacamos as regiões Sudeste e Sul. Nas duas verificamos uma melhor situação quando observamos a magnitude das ti- pologias 3 e 5, que é inferior percentualmente em relação ao Nordeste. Isto significa dizer que nessas duas regiões é menor o número de empreendi- mentos que não conseguem gerar renda monetária para remunerar seus associados, ou porque produzem para autoconsumo ou porque tenham trabalhadores voluntários executando as atividades nos empreendimentos. Nas regiões Norte e Centro-Oeste predomina a tipologia 2, mas a proxi- midade dela com as demais é muito grande, denotando um quadro menos promissor no sentido da sustentabilidade econômica e social dos empreen- dimentos e, consequentemente, na renda dos associados.

58

sustentabilidade econômica e social dos empreen- dimentos e, consequentemente, na renda dos associados. 58 Sumrio  
 

TIPOLOGIA DOS EES

TIPOLOGIA DOS EES 59 Tabela 10: Tabulação da Classificação de Grupos da Dimensão Situação do Trabalho

59

Tabela 10:

Tabulação da Classificação de Grupos da Dimensão Situação do Trabalho segundo grandes regiões e UF

Grande região

UF

 

Grupos–atividades

 

Total

1

2

3

4

5

6

Centro-Oeste

Total

86

960

470

158

90

54

1.818

DF

12

224

76

16

18

17

363

GO

47

333

133

108

50

11

682

MS

7

182

57

19

9

6

280

MT

20

221

204

15

13

20

493

Nordeste

Total

290

3.782

1.972

595

350

153

7.142

AL

10

173

39

33

3

3

261

BA

45

260

120

19

16

66

526

CE

53

798

579

206

132

10

1.778

MA

20

368

147

60

25

12

632

PB

32

298

79

41

11

31

492

PE

38

749

253

55

30

11

1.136

PI

24

630

509

112

108

6

1.389

RN

41

332

194

55

14

7

643

SE

27

174

52