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INSTITUTO VALE DO CRICARÉ

FACULDADE VALE DO CRICARÉ


BACHARELADO EM DIREITO

DIEGO MÁRCIO FERREIRA CASEMIRO


VICTOR DE ANDRADE BREDA
PATRICK PEREIRA MACHADO
CLÍCIA AFONSO DE SOUZA
ADRIANO BARBOSA DO SACRAMENTO
FABRÍCIA FREIRES NASCIMENTO
JOÃO PAULO RANGEL DE JESUS

RESENHA DE CAPITÃES DA AREIA: ANÁLISE COMPARATIVA DO


CONTEXTO DA OBRA COM A ATUALIDADE

SÃO MATEUS - ES
2017
DIEGO MÁRCIO FERREIRA CASEMIRO
VICTOR DE ANDRADE BREDA
PATRICK PEREIRA MACHADO
CLÍCIA AFONSO DE SOUZA
ADRIANO BARBOSA DO SACRAMENTO
FABRÍCIA FREIRES NASCIMENTO
JOÃO PAULO RANGEL DE JESUS

RESENHA DE CAPITÃES DA AREIA: ANÁLISE COMPARATIVA DO


CONTEXTO DA OBRA COM A ATUALIDADE

Resenha apresentada ao XXIV Seminário


Interdisciplinar, como requisito parcial para obtenção de
nota no Componente Curricular de Curso (CCC), sob a
orientação da Profa. Ms. Jakeline Martins Silva Rocha.

SÃO MATEUS - ES
2017
AMADO, Jorge. Capitães da areia; romance; ilustrações 122ª ed. de Poty - 122ªed. - Rio de
Janeiro; Record, 2007.

​O grande título da literatura brasileira “Capitães da Areia”, escrito por Jorge Amado,
é publicado pela primeira vez em 1937 pela editora José Olympio, do Rio de Janeiro,
contendo trezentos e quarenta e duas (342) páginas em seu exemplar. A obra é feita no
contexto de centralização política, e de escola literária modernista de segunda geração, por
isso dota de fortes traços da desigualdade social e da brasilidade regional de suas
personagens.
O autor nasceu na fazenda Auricídia, distrito de Ferradas, município de Itabuna, no
sul do Estado da Bahia, em 10 de agosto de 1912. Fez os seus estudos secundários em
Salvador. E formou-se pela Faculdade Nacional de Direito no Rio de Janeiro em 1935.
Jorge Amado participou ativamente na militância política e transparece isso em suas
obras. À exemplo: O país do carnaval (1931),​ onde o personagem principal denuncia a
festividade brasileira em um cenário crítico engendrado de problemas sociais. Este foi o seu
primeiro livro publicado e, mesmo uma década depois, sua visão política continuava
influenciando outras de suas obras. Isso pauta um possível campo científico desenvolvido
pelo autor, ora que seus escritos emanam as suas vontades e, consequentemente, os seus
interesses. Fora dessa possibilidade não há registros de publicações científicas do autor.
A obra ​Capitães da Areia (1937) traz à tona discussões que permeiam a polarização
das classes sociais da época, representada na obra por autoridades, estudantes, comerciantes e
donas de casa, enquanto classe aristocrata, e crianças abandonadas, capoeiristas, mães de
santo, doqueiros e sindicalistas, enquanto classe subalterna, ou melhor, com pouca
possibilidade de ascensão social e/ou privilégios sociais.
Para melhor compreender tal imbróglio, assim como, seus demarcadores sociais,
observa-se que a classe aristocrata aqui presente representa um domínio, seriam as pessoas
influentes e detentores de linguagem culta, rebuscada. Em contrapartida, a outra classe
representa a subserviência, seriam as pessoas menos influentes na sociedade, não detentores
do poder, sem privilégios, ignoradas e com uma linguagem centrada nos resquícios do
colonialismo. O contexto representado pela obra é caracterizado pela presença sistêmica da
dicotomia de classes.
Na primeira parte do livro, o autor, apresenta reportagens fictícias que denunciam a
existência de um bando de jovens responsáveis por aterrorizar a cidade. Seu enredo é
balizado na periculosidade de que estes jovens haviam furtado a casa do Comendador,
pauta-se na concentração de múltiplas opiniões divergentes sobre as atitudes dos mesmos. De
um lado encontram-se as autoridades e os redatores do jornal, que ao refletirem acerca dos
fatos, apontam que as crianças abandonadas são malfeitoras, e incapazes de transformação.
Contudo, partindo de uma outra ótica analítica, o padre e uma mãe, indicam que a má
qualidade no sistema do reformatório, atrelada a violência e as péssimas condições de
higiene, não garantem reeducação desses menores.
Seguindo a linha cronológica, inicia-se a parte “Sob a lua num velho trapiche
abandonado”, que apresenta uma narrativa sobre as histórias quase que independentes dos
jovens capitães da areia, tecendo a ligação em comum que a maioria deles possuíam: ausência
dos pais, e a sede por vingança.
Nesse particular, percebe-se que os meninos, ainda que simples, organizavam-se para
exercer qualquer decisão, seja para planejar um assalto, seja para expulsar alguém do bando,
possuíam um líder e um estrategista específicos - Pedro Bala e Professor respectivamente, e
os demais se dividiam entre ágeis, fortes, persuasivos e habilidosos.
Nas linhas adiante, em certo momento, os meninos saem da ótica marginalista e entram
para os aspectos humanos e sentimentais, relacionados a diversão propiciada pelo
desenvolvimento socioeconômico burguês, ilustrada no livro pela empreitada que Volta-Seca
e Sem Pernas arranjaram para trabalhar num carrossel mambembe, possibilitando a
acessibilidade de todos os meninos àquele brinquedo.
Saindo desse prisma, pouco depois a população baiana é atacada por uma crise de
varíola que permeia por todas as classes sociais, mas que se cristaliza em apenas uma única
delas, uma vez que esta é incapaz de tratar da doença, senão na morte, estamos falando da
classe subalterna.
Essa passagem registrada pela doença torna-se marcante pois amedronta toda a
população, atingindo desde as minorias apagadas até os mais altos níveis do escalão social, e
como de se esperar, retrata que os cuidados específicos, bem como a disponibilidade médica
e a higienização necessária são dadas apenas para a classe aristocrata, enquanto a subalterna é
submetida aos piores locais de tratamento, que contêm precariedade em toda estrutura,
equipamentos e recursos.
Partindo para a próxima parte, ou “Noite da Grande Paz, da Grande Paz dos teus olhos”,
percebe-se as necessidades afetivas e carnais daqueles meninos, a inserção da vida adulta
precoce, e toda perversidade sequenciada disto, remontando tanto o machismo quanto a
homofobia no idealismo deles.
Cabe traçar que numa extremidade a mulher é entendida como objeto, a que se pode ser
usada por qualquer um, em qualquer lugar, que não escolhe, e nem decide sobre si, somente
serve, sofre e aceita. Noutra, a desqualificação do indivíduo homossexual, entendido como
aberração, e anormalidade, sujeito a todo tipo de humilhação, sem sequer ser avaliado por
suas características, aqui só o sexo e os trejeitos “corretos” para dar a entender que o
indivíduo é alguém.
Distanciando-se dessas abordagens, no campo simples do enredo, é visto a integração
de Dora ao grupo capitães da areia, primeira menina, que vai de irmã e mãe a esposa,
despertando sentimentos singulares de cada indivíduo, suprimindo o carinho que
necessitavam, ouvindo o que eles gostariam de dizer, e encantando o coração de Professor e
Pedro Bala.
No enredo, Dora, é vista pelo Professor como algo inacessível, um amor difícil,
daqueles descritos no período do romantismo, por outros olhos, agora os de Pedro Bala, Dora
torna-se uma companheira de aventuras, daquelas capazes de tudo para combater o sistema.
Essas visões se perpassam nas narrativas, mas o coração de Dora é conquistado pelo
exotismo de Pedro Bala, e sua adultização.
Prosseguindo-se, as crianças partem para assaltar uma residência, porém, Pedro Bala,
Dora, Sem Pernas, Gato e João Grande, são surpreendidos por algumas adversidades, e
acabam sendo detidos pelos policiais. Em resposta, Bala age estrategicamente contra os
guardas, e seus companheiros conseguem escapar, conquanto Dora permanece, e os dois
jovens apaixonados são levados respectivamente para o Reformatório e o Orfanato.
São, portanto, duas das grandes feras que a classe aristocrata sonhava em conter, e
agora contidos, estavam submetidos a todo tipo de punição, de um lado Dora era castigada, e
obrigada a jejuar, de outro Pedro Bala era espancado, confinado, e forçado ao trabalho
massivo e escravo nos canaviais. Logo depois, o bando de meninos conseguem resgatá-los,
mas apesar de tal, Dora já se encontrava doente, e acaba não resistindo às enfermidades,
então morre e o trapiche perde a sua irmã, mãe e noiva.
“Canção da Bahia, Canção da Liberdade”, ou a última parte do livro, mostra a
desintegração dos protagonistas do grupo, aqueles meninos agora crescidos, e possuidores do
saber empírico, notam a sequencialidade daquela sociedade.
A propósito dessa afirmação, observa-se que Pirulito e Professor, ao final encontram-se
arraigados à aristocracia, um no segmento religioso, na carreira frade, outro no mundo
artístico, e do saber da grande capital, ambos adentrados ao outro lado da luta das classes,
usufruindo das bonificações, na diferença desproporcional da grande maioria dos meninos
que conviviam com eles, meninos esses que continuam seguindo em resistência, ou morrendo
em busca da revolução. Isto posto finaliza a cronologia da obra.
Verifica-se, então, que a classe subalterna é silenciada na linearidade não só das
reportagens, como também na sociabilidade configurada daquela época, a ponto que, em
diversas passagens, a natureza criminal é relacionada apenas aos desfavorecidos, e
desarraigada quando estes permutam para o outro extremo das classes.
Portanto, ao final, é possível observar que o autor preocupa-se em expor a dicotomia
das classes e as diferentes perspectivas das pessoas que compõem cada uma delas,
potencializando as suas características, evidentes até a atualidade, e propiciando ao leitor uma
conclusão analítica, permitindo que assimilemos o contexto da obra com o nosso meio social
atual.
Análise Crítica

A obra ​Capitães da Areia (1937), escrita por Jorge Amado se materializa como um
clássico na literatura brasileira, sendo possível constatar em suas entrelinhas fenômenos
sociais ainda em voga em nosso cotidiano em sociedade, assim sendo, sua atemporalidade
enquanto ferramenta analítica e discursiva é incontestável, mesmo quase 8 (oito) décadas
após sua publicação.
À exemplo disso, podemos analisar a marginalização das crianças, que hoje pode ser
vista em um grau muito maior ao apresentado, mas que ainda assim cabe a perfeita analogia,
pois no livro aqueles meninos e meninas eram tidos como agressores, hoje estes jovens,
negros e periféricos tornam-se vítimas.
Nessa perspectiva, o Atlas da Violência de 2017 realizado pelo Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (IPEA) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostrou
que entre 2005 a 2015 foram assassinados no Brasil cerca de 318 mil jovens, e que a
propensão de um negro ser morto foi duas vezes maior que a de um não negro, em números,
taxa de homicídio de negros em 37,7%, e a taxa de não negros (15,3%).
Em outras palavras, a vulnerabilidade dos jovens é pautada na falta de oportunidades,
enquanto negros são atingidos tanto pelas causas socioeconômicas, quanto pelo racismo
culturalmente enraizado.
Com isso, o autor de ​Capitães da Areia p​ ôde prever o quadro que seria gerado pelo
sistema econômico capitalista, que bipartiu as classes sociais, a fim de hierarquizar as
relações de poder, estigmatizando toda criminalidade em grupos sociais vulneráveis e
específicos.
É inegável, então, que Jorge Amado foi muito feliz em sua escrita, sendo esta
compreensível a qualquer leitor. Não se observou grandes dificuldades na interpretação da
obra, por outro lado, em algumas passagens, as narrativas tornam-se muito curtas, nos
instigando a querer saber mais, como acontece nos momentos de Pedro Bala e Dora.
Ao que concerne à discussão em grupo após leitura, foi possível perceber que
Capitães da Areia é uma obra inconfundível, visto que ela ilumina os pensamentos de sua
época, vai de encontro à hipocrisia das autoridades, e como resultado permite
fundamentar-nos hoje para fazer crítica às organizações econômicas atuais.
No aspecto do estilo e forma da obra evidenciamos que o narrador é onisciente, pois
seu relato é predominantemente um discurso indireto livre, a narrativa é descontraída e
semelhante à um contador de histórias, e o estilo é coloquial recheado da linguagem regional
caracterizada pelas palavras chulas e o uso da terceira e segunda pessoa misturadas na mesma
frase.
E por fim, mas não menos importante, deixamos esta resenha acessível à toda a
comunidade universitária ou não, com o objetivo de instigar e chamar a atenção das pessoas
para esta grandiosa obra, pois a mesma conduz o leitor à diversas críticas, e vertentes
ideológicas. Antes de mais nada, indicamos também que essa literatura seja apresentada para
todos os acadêmicos dos cursos de Humanidades e das áreas da Saúde, para que conheçam
um pouco a trajetória do território baiano, região berço do nosso país, e que traceja aspectos
sociais, culturais e econômicos que merecem ser analisados com mais afinco.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMADO, Jorge. Capitães da areia; romance; ilustrações 122ª ed. de Poty - 122ªed. - Rio de
Janeiro; Record, 2007.

CERQUEIRA, Daniel et al. Atlas da violência 2017. Disponível


em:​http://www.ipea.gov.br/portal/images/170602_atlas_da_violencia_2017.pdf​>. Acesso em:
05 de ago. 2017.

DOS SANTOS NEVES, Bárbara Cecília. A VOZ DOS EXCLUÍDOS: UMA ANÁLISE DA
LINGUAGEM EM CAPITÃES DA AREIA. ​Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e
Linguísticos​, p. 45.