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Buracos Negros

David Alexandre Duarte Ferreira


Mestrado em Astronomia (ensino de)
Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

Apresenta

ou

A Física da gravidade

ou

A vida das estrelas


vista do lado da interacção
da massa com o espaço-tempo

Agosto de 1999

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Buracos Negros

Índice

Nota prévia 4

Introdução 5

O nome das coisas 8


Os bois pelos nomes. Que esses nomes sejam eficazes. Que uma vez ouvidos, se saiba do que se
fala. E que ninguém se esqueça deles.

O trilho da gravidade 12
Sobre o caminho percorrido entre o palpite e o cálculo. Entre o aproximado e o exacto. Sobre a
evolução do pensamento. Sobre as personagens da epopeia. E sobre as interacções entre corpos
com massa. Sobre os clássicos.

A relatividade 27
Da falha dos clássicos. Sobre a compreensão da natureza da luz e de como o muito pequeno
influenciou o muito grande. Do génio de Einstein. Do espaço e do tempo absoluto, para o espaço-
tempo absoluto e espaço e tempo relativo. Sobre curvas e distorções.

As estrelas 52
As nuvens, os gases, as poeiras e as esferas. A gravidade e a pressão. A luminosidade e a
temperatura. Sobre supernovas, anãs, gigantes e estrelas de neutrões. Sobre elementos químicos,
átomos e núcleos. Desde Eddington até Oppenheimer.

Os Protagonistas 80
Sobre os buracos negros. Sobre horizontes e singularidades. Das curvaturas infinitas, e das
distorções extremas. Da falta de cabelo, e da evaporação. Sobre o herói da história. Sobre o
abismo sem retorno. E sobre o fim do espaço e do tempo.

Epílogo 103
A viagem de Charlie.

Anexo 122
Sobre a força centrífuga de Huygens e o limite de Roche.

Bibliografia 125

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Nota prévia

Acredito que existem duas formas potenciais de ensinar ciências, e de forma


particular, Física e Química ou Astronomia, a alunos de catorze, quinze ou dezasseis
anos. A primeira, é fazê-lo através da experimentação e da descoberta, levando os
alunos a entrar num ciclo de pergunta resposta, alimentado por uma correcta
formulação de problemas, que implica que o professor domine minimamente as
matérias e as conexões entre elas. O problema aqui, é que, numa grande parte das
situações, acaba-se por se atingir um ponto em que os alunos executam receitas e em
que as aulas se transformam num tempo agradável, não porque se aprenda, mas porque
se pode conversar com os amigos, e se fazem experiências. Atinge-se um ponto em
que os alunos estão motivados para a disciplina, mas não estão motivados para a
matéria a leccionar. E então, cai-se no ridículo das experiências imbecis e sem
qualquer proveito. A segunda forma, consiste em ligar a ciência com a história. Em
inserir cada assunto no seu contexto histórico, com os seus casos pitorescos. Em
mostrar que a ciência, tal como hoje a conhecemos, teve os seus atrasos e avanços, os
seus fracassos e sucessos, e foi construída por pessoas que nada mais foram que
simples alunos, a tactear no desconhecido. Essa visão humana da ciência, esse enorme
pedaço emocional da matemática, constitui uma parte fulcral que não pode ser
sonegada de uma aula de ciências. Parece-me que o ideal será sempre, que a aula de
ciências seja, ao mesmo tempo, uma aula de história, de matemática e um laboratório
em que se faz como se fez no passado, e em que se procura ir mais além.
O presente texto insere-se nessa linha de crenças, e ainda que não tenha
pretensões a uma originalidade que, definitivamente, não possui nem almeja, tenta ser
um guia tão completo quanto elementar para a matéria em questão. Procura tão só,
resumir de forma legível, as conquistas do Homem que o levaram a equacionar a
hipótese de que, algures no espaço imenso, possa existir um objecto tão exótico e
misterioso que nem parece real. E depois, tenta fazer um apanhado das principais
características dos buracos negros, e do seu comportamento. Trata-se de uma aula.
Mas falta-lhe, evidentemente, a experimentação.
A matemática que está por detrás dos buracos negros, é a matemática da
relatividade geral, pelo que nem me atrevi a apresenta-la aqui. Encontrarão muitas
respostas nesse campo, num dos livros que faz parte de bibliografia: Albert Einstein’s
theory of general relativity editado nos Estados Unidos pela Crown Publishers, Inc.
No entanto, e como a matemática é o idioma da ciência, apresento, dentro do
campo dos clássicos, as deduções das expressões que achei pertinentes para uma
compreensão um pouco mais completa da matéria.
Muitas vezes, surgem alusões a termos e conceitos que não são explicados de
imediato, sendo-o mais à frente, inseridos não no lugar cronológico, mas na posição
em que, na minha opinião, se tornaram decisivos para o avanço.
Um agradecimento especial ao Leonard Kleinrock por, há 30 anos, ter
inventado essa fonte inesgotável de conhecimento que é a World Wide Web.
Resta-me dizer, por fim, que este trabalho foi escrito entre os dias 10 de Agosto
e 5 de Setembro de 1999, depois de uma pesquisa prévia de alguns meses.

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Introdução

Os resultados obtidos usando a Teoria da Gravitação Universal de Newton, são


fundamentalmente iguais aos obtidos com a Teoria da Relatividade Generalizada de
Einstein, na aplicação à maior parte dos fenómenos físicos quotidianos. Todavia, as
duas teorias são, conceptuamente, muito diferentes. È no estudo de situações em que
estão envolvidas circunstâncias extremas, que as diferenças se tornam evidentes. O
estudo de buracos negros (regiões de onde até a própria luz não consegue escapar por
se encontrar prisioneira do campo gravitacional), é uma das poucas áreas onde, os
conhecimentos de relatividade geral, se tornam imprescindíveis. Durante os últimos 70
anos, um grande esforço conjunto, tem sido feito, por forma a determinar as
propriedades e o comportamento de tão exóticos e excitantes objectos.
Um buraco negro surge quando uma dada quantidade de matéria é comprimida
num volume adequadamente pequeno, sendo que isto pode acontecer de três maneiras
fundamentais:
- como resultado de flutuações no Universo primitivo, quando as densidades eram
enormes;
- através do colapso gravitacional que se segue ao fim da evolução normal de
algumas estrelas maciças;
- seguindo-se ao colapso gravitacional de amontoados de estrelas maciças em
núcleos galácticos ou cúmulos estelares.
Neste texto vamo-nos concentrar, com especial atenção, no segundo caso, dado
que o tratamento dos primeiros momentos do Universo não é o nosso objectivo, e o
estudos da formação de buracos negros nos centros galácticos, resume-se, por assim
dizer, a um conjunto de implosões estelares em locais onde a densidade de estrelas é
tão grande que, no final, acabamos por ficar com um único buraco negro de grandes
dimensões.
Uma estrela vulgar1 está a uma temperatura muito mais elevada que a sua
vizinhança, e, por isso, encontra-se a radiar energia para o espaço. Durante a maior
parte da sua vida, a energia radiada, é reposta por energia proveniente de reacções de
fusão nuclear que têm lugar no núcleo da estrela. Todavia, o combustível para tais
reacções não é inesgotável, e quando por fim se esgota, as reacções de fusão terminam,
e o núcleo contrai-se libertando energia potencial.
As estrelas vulgares sustentam-se contra a sua própria gravidade, basicamente,
porque são quentes. Uma estrela que tenha gasto todo o seu combustível, e não tenha
perspectivas de obter mais calor, tem forçosamente de arrefecer até atingir uma
temperatura da ordem da do espaço circundante, por forma a não radiar. Como esta
temperatura é sempre muito baixa, uma estrela nestas condições deixa de se poder
sustentar por acção do calor, e recorre a outras fontes como a degenerescência quântica
(a que eu chamarei pressão atérmica), de que falaremos adiante. Para uma dada
velocidade de rotação, existe um valor máximo para a massa da estrela, a partir do
qual, já não é possível suster a gravidade recorrendo à pressão atérmica. Em

1
Por estrela vulgar entende-se uma estrela que se encontre na fase normal da sua vida, na sequência principal,
em que, como veremos, se dá a fusão do hidrogénio em hélio, no seu núcleo.

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circunstâncias normais este valor é mais baixo que três vezes a massa do nosso Sol.
Qualquer estrela com uma massa maior que esta tem duas hipóteses:
- ou perde uma parte da massa restando uma quantidade inferior ao valor máximo, e
atinge o equilíbrio;
- ou o seu núcleo continuará a encolher, sem nada que o sustente, e, eventualmente,
transformar-se-à num buraco negro.
Na realidade, existem várias formas pelas quais uma estrela pode perder massa.
Ainda assim, muitas nunca conseguirão perder uma quantidade suficiente. Outras, que
o conseguem, e atingem o equilíbrio, acretam posteriormente mais matéria, e acabam
por colapsar.
Consideremos, então, um observador exterior, que avista uma estrela
perfeitamente esférica e estática em colapso. A velocidade de contracção começa por
ser muito baixa, depois aumenta atingindo um máximo, e, finalmente, diminui,
tendendo assimptoticamente para zero. A estrela parece estabilizar, transformando-se
numa esfera, com um raio mínimo, chamado Raio de Schwarzschild. Durante o
colapso, a luz emitida pela estrela sofre um desvio progressivo para o vermelho, e
quando se aproxima do Raio de Schwarzschild, o desvio tende rapidamente para
infinito.
O quadro apresenta-se substancialmente diferente, quando visto por um
observador em repouso à superfície da estrela. Para ele, a velocidade de contracção
aumenta sem hesitações, e nada de especial acontece quando atravessa o Raio de
Schwarzschild, a não ser o facto de experimentar forças de maré gigantescas que,
muito provavelmente, o despedaçarão. Se isso não acontecer, o nosso observador
continuará a ser arrastado com a estrela em colapso, e acabará sugado para uma
singularidade no espaço-tempo, onde a densidade é formalmente infinita.
Quando a estrela atravessa o Raio de Schwarzschild, fica rodeada por uma
camada de espaço, de dentro da qual é impossível comunicar com o exterior. Esta
superfície é hoje chamada de horizonte dos acontecimentos. Tanto objectos, como a
própria luz podem passar para dentro do horizonte dos acontecimentos, mas jamais
poderão passar para fora. A energia pode deixar o buraco negro, mas em circunstância
alguma poderá transportar informação para o seu exterior.
No caso de a estrela se encontrar em rotação, a implosão vai fazer com que a
velocidade dessa rotação aumente, de modo a que seja conservado o momento angular.
Segundo a relatividade geral, o espaço em torno da estrela vai-se tornando ondulado,
com uma configuração semelhante à de um turbilhão. Alguns traços do quadro da
implosão de uma estrela nestas condições:
- a estrela, devido a rotação acelerada, começa por tomar uma forma elíptica, mas à
medida que a velocidade de rotação aumenta, e contrariamente ao previsto pela
teoria newtoniana (que prevê que com o aumento da rotação, uma esfera tenda para
um disco), retoma a forma esférica;
- nos últimos estádios, a rotação deixa de se opor à contracção, passando a
encoraja-la;
- é emitida radiação gravitacional como resultado de alterações na forma do
espaço-tempo.
Os buracos negros são os frutos mais absurdos da relatividade de Einstein
embora, como veremos, já os clássicos os tenham timidamente previsto. Nunca tanta

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teoria se escreveu acerca de algo que nunca ninguém viu, e embora hoje haja
evidências observacionais de que, na realidade os buracos negros existem, o curioso é
que, a maior parte do estudo sobre a sua natureza e propriedades foi feito sem que
houvesse a mínima perspectiva da sua existência.
Ainda há muita coisa por saber, como por exemplo o que é que acontece aos
objectos e informação que cai num buraco negro. Será que re-emergem noutro local do
nosso Universo, ou em outro Universo? E será possível distorcer o espaço e o tempo
de tal forma que se torne possível viajar para trás no tempo? Estas perguntas fazem
parte integrante da nossa busca contínua no sentido de entender o Universo, e são o
âmago do nosso legado de perguntas e respostas que deixaremos às gerações futuras.
Ou então, talvez ou dia, alguém venha do futuro e nos traga as respostas!

David Ferreira

Agosto de 1999

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O nome das coisas

Devido à sua rápida contracção, a superfície de uma estrela em implosão


afasta-se de um observador distante cada vez mais rapidamente. A sua luz é desviada
para o vermelho. A estrela vai ficando cada vez menos brilhante, milissegundo após
milissegundo e, em menos de um segundo, o seu brilho é demasiado ténue para poder
ser visto... A estrela, tal como o gato Cheshire (de Alice no País das Maravilhas de
Lewis Carroll), desaparece da vista. Um deixa para trás apenas o seu sorriso, outra a
sua atracção gravitacional. Atracção gravitacional, sim; luz, não... Se a luz não
emerge, então nada emerge. Desta forma, luz e partículas, incidentes do exterior, e
afundando-se no buraco negro apenas se acrescentam à sua massa e aumentam a sua
atracção gravitacional.

O físico teórico americano John Archibald Wheeler, nascido em 1911, já tinha


tentado, semanas antes, fazer vingar o nome em que vinha magicando há algum tempo,
mas foi só em Dezembro de 1967, numa conferência na Associação Americana para o
Avanço da Ciência, intitulada O nosso Universo: o conhecido e o desconhecido, e da
qual me permiti transcrever um pequeno excerto, que a designação buraco negro foi
definitivamente cunhada. Aqueles que não assistiram à conferência tiveram acesso ao
artigo nas revistas da especialidade, e em poucos meses o termo tinha sido adoptado
com entusiasmo pela maioria dos físicos, astrofísicos e pelo público em geral. Com
uma excepção: a França, onde a tradução trou noir tem conotações obscenas,
existindo, por isso, alguma resistência que só foi vencida ao fim de alguns anos.
Em 1915, corria a primeira guerra mundial, Albert Einstein publicou a Teoria
da Relatividade Generalizada, as leis relativísticas da gravidade. Em Novembro desse
ano, o astrofísico Karl Schwarzschild, nesse altura ao serviço do exército alemão na
frente russa, leu a formulação de Einstein num artigo publicado no número do dia 25
da revista Proceedings of the Prussian Academy of Sciences e, embora limitado pela
sua situação em combate, tentou quase imediatamente discernir das consequências da
nova teoria quando aplicada ao caso concreto das estrelas. Como o caso de estrelas
não-esféricas ou em rotação apresentasse um grau de dificuldade muito elevado,
Schwarzschild limitou o seu estudo ao caso particular de estrelas estáticas e
perfeitamente esféricas, e após alguns dias de manipulação da equação do campo de
Einstein, tinha já calculado a curvatura do espaço-tempo fora de qualquer estrela
dentro das restrições por si impostas. Em seguida enviou por correio os seus cálculos a
Einstein que os apresentou a Academia Prussiana de Ciências em Berlim, a 13 de
Janeiro de 1916. Semanas mais tarde, Einstein apresentou um novo registo de
Schwarzschild, desta vez contendo os cálculos para a curvatura do espaço-tempo
dentro da estrela. Infelizmente Karl Schwarzschild morreu a 19 de Junho desse mesmo
ano, com apenas 40 anos, vítima de doença contraída na frente russa, deixando a
outros físicos a tarefa de explorar a geometria por si desenvolvida e dissecar as suas
implicações.

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Se a Terra fosse muito maior, e nós tivéssemos realmente a ilusão de que ela é
plana, poderíamos, se quiséssemos, testar a nossa ilusão traçando na sua superfície um
triângulo com linhas rectas. Verificaríamos então que a superfície da Terra não era
plana mas sim curva (esférica) porque obteríamos uma soma dos ângulos internos do
triângulo superior a 180º, em perfeita discordância com a geometria euclidiana.
Podíamos, ainda, traçar circunferências e verificaríamos que o seu diâmetro não era
igual ao perímetro a dividir por  A geometria de Schwarzschild é também uma
geometria de superfícies espaciais curvas em que existem distorções do tempo. Se
fizéssemos a nossa experiências dos triângulos no espaço junto a qualquer corpo
massivo (uma estrela, por exemplo), iríamos verificar que, tal como na superfície da
Terra, também aqui, a soma dos ângulos não daria 180º. Nem os diâmetros da
circunferências se obtinham dividindo o perímetro por O espaço junto à estrela
encontra-se encurvado pela massa (que “gera” atracção gravitacional) da estrela. De
acordo com a relatividade restrita, espaço e tempo unem-se numa entidade chamada
espaço-tempo: uma distorção no espaço é acompanhada por uma outra no tempo. A
geometria de Schwarzschild descreve não apenas a curvatura do espaço mas também a
distorção no tempo – curvatura e distorção produzidas pela gravidade da estrela. Por
exemplo, é previsto que à superfície de uma estrela como o Sol, o tempo deverá passar
mais devagar 2 partes num milhão (64 segundos num ano) do que num local afastado
do Sol (ou de qualquer outro corpo massivo), enquanto que no centro o atraso será de
5 minutos num ano. Como a frequência da luz emitida pelos átomos que constituem
um corpo é governada pelo fluir do tempo nesse corpo, tempos a fluir de forma
diferente conduzem a emissões em frequências diferentes por parte de átomos iguais:
quanto mais lentamente fluir o tempo mais baixa será a frequência com que é emitida
luz, por parte dos átomos nesse local. Grandes atracções gravitacionais conduzem a
grandes contracções no tempo (acompanhadas de grandes curvaturas espaciais) que
levam a que a luz emitida seja muito desviada gravitacionalmente para o vermelho.
Em poucos anos, quase todos os físicos que estudavam o legado de
Schwarzschild concordavam que se uma estrela tivesse um raio muito grande (por
exemplo, como o do Sol), o espaço-tempo em sua volta e no seu interior seria muito
pouco distorcido, e a luz por si emitida seria muito ligeiramente desviada para o
vermelho (no início dos anos 60 Jim Brault mediu o desvio para o vermelho na luz
emitida pelo Sol e constatou que ele se encontrava em muito boa concordância com as
previsões teóricas de Einstein). Todos concordavam, ainda, no facto de que quanto
mais densa fosse uma estrela, maior seria a curvatura do espaço-tempo nas suas
imediações. Mas onde ainda não havia sido atingido o consenso, longe disso, era nas
condições extremas de estrelas altamente compactas. Schwarzschild previra que para
cada estrela havia uma circunferência crítica dada, grossomodo, por:
2GM
r
c2
onde G é a constante newtoniana da gravitação universal, M é a massa do corpo e c a
velocidade da luz, para a qual as distorções são de tal ordem, que o tempo literalmente
congelou e não flui, sendo que, consequentemente a frequência de qualquer luz que a
estrela pudesse emitir se encontra diminuída de tal forma que deixou de existir. Uma
estrela com um raio igual ao raio de Schwarzschild será uma estrela que não emite
luz, no sentido em que, toda a luz que dela tente escapar, ainda que fazendo-o à

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velocidade de 300000 Km/s (o facto de a velocidade da luz ser uma constante é um


pressuposto a que todas as teorias e postulados têm de obedecer depois da formulação
da teoria da relatividade restrita em 1905: o espaço e o tempo são relativos, como já
vimos, e a velocidade da luz é constante), terá o seu comprimento de onda
infinitamente dilatado, a sua energia será igual a zero: deixará de existir.

Figura 1

Previsões da relatividade geral para a curvatura do espaço e do desvio da luz para o vermelho para três
estrelas muito compactas, com a mesma massa, mas com diferentes raios. A primeira é quatro vezes
maior que a circunferência crítica, a segunda duas vezes maior, e a terceira tem uma circunferência de
raio igual ao raio de Schwarzschild.

Foi por esta altura que, o que mais tarde viria a ser chamado por Wheeler de
buraco negro, recebeu o nome de singularidade de Schwarzschild, e recebeu, ao
mesmo tempo, uma forte contestação por parte de alguns físicos. Outros, como
Einstein, optaram por simplesmente ignorar a existência ou possibilidade de existência
de tais “monstros”, aos quais nem a própria luz poderia escapar. Mas em 1939, como o
assunto singularidades de Schwarzschild, atingisse proporções dignas de nota
(principalmente graças aos escritos semi-especulativos de Eddington), Einstein optou
por vincar a sua posição, que já não era de todo favorável, através de um artigo em que
afirmava e calculava que as partículas que compõem um gás se movimentam mais
depressa quando o gás é comprimido, fazendo aumentar a pressão (o que não era
nenhuma novidade), e que se um gás fosse comprimido num espaço menor do que
1,125 vezes o raio de Schwarzschild, então a velocidade das partículas desse gás seria
tão grande que a pressão se tornaria infinita, o que, como se sabe, não pode acontecer
(e aqui, sim, tínhamos uma novidade), e, por isso, concluía Einstein, coisas com um
tamanho da ordem do raio de Schwarzschild não existiriam na natureza. Um a zero

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para os contestatários. Mas Einstein errara nas conclusões que tirara dos seus cálculos
porque neles não incluiu a possibilidade da ocorrência de uma implosão: o que
Einstein e todos os outros físicos e astrofísicos da altura pensavam, era que as
singularidades de Schwarzschild seriam uma espécie de objectos sustentados, abaixo
do raio limite, por um tipo de força interna como a pressão do gás, e que não
difeririam muito das estrelas que conhecemos, a não ser no facto de que não emitiam
luz e eram, duma forma geral, muito mais pequenos. Na realidade, hoje sabemos que
um buraco negro é um objecto com um formação literalmente inevitável quando
existem condições para que se crie um objecto com um raio de Schwarzschild, porque,
nessa situação, nada pode travar a contracção gravitacional.
Provavelmente, o nome singularidade de Schwarzschild, foi o maior
responsável pela grande dificuldade que os físicos tiveram entre 1939 e 1958, para
entender de que forma pode uma estrela implodir (e formar um buraco negro) 2. O
problema é que, por singularidade, entende-se um tipo de objecto em que a gravidade
é infinitamente grande, situação em que as leis da Física, tal como as conhecemos,
falham. Hoje sabemos que no centro do buraco negro existe, de facto, uma
singularidade, mas a circunferência crítica não é mais do que um local através do qual
coisas podem passar para dentro mas não podem passar para fora (esta definição foi
pela primeira vez demonstrada por David
Finkelstein), e não tem nada a ver com uma
singularidade. Como a situação é de certa
forma similar à que acontece quando o Sol
desce abaixo do horizonte terrestre,3 passou
a chamar-se horizonte ao raio de
Schwarzschild, por iniciativa de Wolfgang
Rindler, que era físico na Universidade de
Cornell, designação que ainda hoje se
mantém. Portanto o horizonte é a camada
esférica que se situa a uma distância igual
ao raio de Schwarzschild da singularidade.
Figura 2
Na figura 2 é apresentado um esquema que
esclarece aquilo que foi dito.
Quanto ao objecto em si, quando se chegou à conclusão que a designação
singularidade de Schwarzschild era desadequada, adoptaram-se outros nomes como
estrela congelada na URSS e estrela colapsada nos países ocidentais, nomes esses que
nunca foram tidos como satisfatórios por não enfatizar o papel do horizonte, cuja
importância começou rapidamente a ser reconhecida. E aqui entrou John Wheeler e a
sua conferência de 1967.

2
Por esta altura, como veremos adiante, já os físicos e astrofísicos tinham adquirido a noção de que a forma mais
corrente de produzir buracos negros seria através de uma implosão estelar. De resto, o artigo de Einstein de
1939, em que era rejeitada a possibilidade de existência de buracos negros, surge dois meses antes de um outro
de Oppenheimer e Snyder (de que falaremos adiante), onde essa possibilidade é apresentada como inevitável.
3
O Sol continua a existir, mas deixa de ser visível para o observador, da mesma forma que uma estrela em
implosão continua a existir quando passa através do raio de Schwarzschild ainda que não emita luz e por isso se
torne invisível.

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Buracos Negros

O trilho da gravidade

No final de 1566, dois jovens nobres dinamarqueses bateram-se em duelo. Tyge


Brah, que tinha então vinte anos, perdeu o duelo e o nariz, e, por isso, no resto da sua
vida, viria a usar um nariz de ouro, coisa que, de resto, não era assim tão bizarra
naquela época de susceptibilidades afinadas e honras maleáveis. No ano seguinte
inscreveu-se, contra a vontade de seu pai, que queria que ele seguisse direito, em
ciências, na Universidade de Rostock. Dizia que o tinha influenciado o facto de, ao
assistir a uma conjunção entre Júpiter e Saturno, o ter impressionado os graves erros
em que incorriam as tabelas da época na previsão da data da ocorrência do fenómeno.
Em 1571, por ocasião da morte do pai regressou à Dinamarca e estabeleceu-se na
Abadia de Heridsvad, residência de seu tio, onde iniciou experiências em alquimia. No

Figura 3

Duas cosmologias frente a frente. No sistema do mundo dos astrónomos gregos e medievais, a Terra
ocupa o centro e não gira sobre si própria (à esquerda). Repare-se que, neste sistema, os planetas
interiores (Vénus e Mercúrio) poderiam encontrar-se em oposição ao Sol, circunstância que, na
realidade nunca se observa. No sistema coperniciano (à direita) o centro está ocupado pelo Sol, as
trajectórias dos planetas interiores são fieis à realidade e a Lua adquire a categoria de satélite.

dia 11 de Novembro de 1572, pouco depois do crepúsculo, observou um objecto que


brilhava quase no zénite na direcção da constelação de Cassiopeia. Tratava-se, sem
dúvida de uma estrela4, mas era uma estrela que não existia antes naquele local: era
uma estrela nova. Tycho Brahe (nome latinizado do astrónomo de quem falamos) era

4
Tycho Brahe chegou à conclusão de que o objecto era uma estrela porque, ao contrário dos planetas e cometas
conhecidos, e tal como todas as estrelas observadas, também este objecto não apresentava paralaxe.

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Buracos Negros

um aristotélico convicto, fiel à geocentria de Ptolomeu, mas essa sua observação


haveria de o levar a mudar de opinião, ainda que não drasticamente, como veremos.5
Em Setembro de 1574, quando já era um astrónomo célebre, começou
a declarar publicamente que a matemática de Copérnico, cuja obra aparecera 3 anos
antes do seu nascimento (figura 3), e na qual é exposta a teoria heliocêntrica, constitui
um trabalho digno de admiração.
Um ano mais tarde, obteria do rei permissão para construir um observatório na
ilha de Hven, que tem uma área de 8 Km2 e se situa junto a Helsinborg (hoje na
Suécia), para além de obter ainda uma pensão anual. No observatório de Tycho
trabalhavam, para além dele, mais oito astrónomos assistentes, e juntos conseguiram
os melhores resultados alguma vez obtidos, antes da invenção do telescópio. Tycho
Brahe observou e catalogou a posição de inúmeras estrelas e dos planetas do Sistema
Solar. Entre os dias 13 de Novembro de 1577 e 26 de Janeiro do ano seguinte
observou um espectacular cometa, cuja trajectória o levou a enunciar diversas
conclusões revolucionárias. Em primeiro lugar, o objecto movia-se muito para além da
Lua, e, portanto, não era um fenómeno da
atmosfera terrestre, como Aristóteles
sustentara. Em segundo lugar, o cometa
deslocava-se entre os planetas, sendo que, por
isso, estes não podiam estar fixos sobre esferas
transparentes, contra cuja superfície o cometa
chocaria. E em terceiro lugar o objecto não
seguia uma trajectória circular mas tinha um
movimento de tipo oval. Tycho apresentou,
então, um modelo do Sistema Solar que era
uma mistura entre o modelo Heliocêntrico e
o modelo Geocêntrico (figura 4). Em 1596,
Tycho abandonou o observatório e, depois de
várias viagens, estabeleceu-se em Praga como
astrónomo imperial, leccionando a vários
discípulos, alguns dos quais viriam, mais tarde,
a dar grandes contributos à ciência. Em 1600,
entrou para a escola um coperniciano convicto
Figura 4 chamado Johannes Kepler, que tinha então,
O modelo do Sistema Solar de Tycho trinta anos. No seu leito de morte, cerca de um
Brahe atribuía ao Sol uma posição central, ano mais tarde Tycho viria a entregar
mas só no que diz respeito aos planetas. O precisamente a Kepler a tarefa de terminar as
Sol, tal como a Lua, girava à volta da
Terra, pelo que o nosso planeta era o novas tabelas das posições, para assim obter
centro do Universo, como no sistema uma prova irrefutável da validade do seu
Ptolomaico. modelo. Mas Kepler tinha outras ideias.
Kepler era uma personagem estranha.
Quando conheceu Tycho, tinha já um grande prestígio, devido sobretudo, ao facto de
ter previsto com alguma antecedência o rigoroso Inverno de 1595 e a invasão turca.
Nasceu a 27 de Dezembro de 1571, em Weil der Stadt, perto de Estugarda e estudou

5
O sistema Ptolomaico pressupõe que a esfera celeste é perfeita e imutável. A aparição de uma estrela nova
opõem-se frontalmente a esse pressuposto.

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teologia e matemática na Universidade de Tubinga. Com 23 anos preencheu o lugar de


professor de matemática do ducado de Estíria, e começou a trabalhar na sua primeira
grande obra, baseada nos pilares fundamentais da geometria euclidiana e na teoria
coperniciana. Foi de resto, a publicação dessa obra, que recebeu o título de Mysterium
Cosmographicum, que levou Tycho Brahe, que a achou genial, a convidar Kepler
para seu assistente em Praga, na esperança de que este o ajudasse a resolver o
problema de Marte, cuja órbita não encaixava com as observações. Após a
morte de Tycho, Kepler reuniu todas as observações efectuadas, e começou a
analisa-las minuciosamente. Descobriu a existência da refracção atmosférica,
iniciou estudos que haveriam de conduzir àquilo que se viria a designar por
Segunda Lei de Kepler,6 tendo alguns anos mais tarde semi-confirmado a intuição de
Tycho ao reconhecer que os planetas descrevem trajectórias elípticas. No seu livro
Astronomia Nova, apresentou estes resultados e introduziu ainda termos de uso
corrente como foco de uma elipse, satélite ou inércia para além de reconhecer pela
primeira vez, que o movimento dos planetas poderá estar relacionado com alguma
acção do Sol, que é tanto menos intensa quanto mais afastado se encontra o planeta. A
sua terceira lei, que pode ser expressa pela relação:
T2
K
r3
onde T é o período de translação de um planeta, r a sua distância média ao Sol e K uma
constante, surgiu em Harmonices Mundi, publicado em 1918, e que é considerada
como a obra mais importante da sua vida. Em 1627, publicou as Tabelas Rudolfinas,
que Brahe lhe tinha pedido para completar 25 anos antes, e em 1630 morreu, sem que
a sua obra tivesse sido ainda reconhecida.
Ao mesmo tempo que Kepler labutava para descodificar as observações de
Tycho Brahe, mais a Sul, em Itália, um outro fulano, institucionalizava
definitivamente a ciência, feita de razão e empirismo. Galileu Galilei nasceu em Pisa, a
15 de Fevereiro de 1564 e era filho de um músico fiorentino. Estudou medicina, mas
antes do fim dos estudos, voltou-se para a matemática e para a literatura. Viria a
leccionar na Universidade de Pisa desde 1589 até 1592, mas teve de sair porque não
caiu nas boas graças da corte dos Médicis, e ingressou na Universidade de Pádua.
Entretanto, desenvolvia estudos em hidrostática e sobre o baricentro dos sólidos, e
famosas experiências sobre a queda dos graves, tendo chegado a brilhantes
conclusões,7 das quais não chegou a enunciar uma formulação matemática (tarefa que
coube a alguns dos seus sucessores). Tal como Tycho Brahe em 1572, também Galileu
avista uma estrela nova, no ano de 1604, que também seria vista e estudada por
Kepler. Em 1609, inspirado por boatos que corriam na cidade, Galileu combina duas
lentes, uma convergente e outra divergente, de diferentes distâncias focais, e utiliza-as
para observar objectos distantes, sobre a superfície terrestre e na abóbada celeste.

6
Kepler enunciou três leis que classificam e descrevem o movimento dos planetas do Sistema Solar:
1ª lei (1605) – as órbitas planetárias são elipses no espaço e o Sol ocupa um dos focos;
2ª lei (1602) – o raio vector de um planeta varre áreas iguais em intervalos de tempo iguais;
3ª lei (1618) – a razão entre os quadrados dos períodos de revolução dos planetas e os cubos das respectivas
distâncias médias ao Sol, é constante para todos os planetas do Sistema Solar.
7
Galileu concluiu, por exemplo, que, num plano inclinado, a velocidade final alcançada por um corpo, não
depende da inclinação do plano, mas tão só da sua altura.

14
Buracos Negros

Graças a esse perspicillum, luneta, Galileu fez tantas descobertas, que o livro8 que
escreveu para as resumir ainda hoje é considerado a obra mais rica em revelações, da
história da ciência. Entre 7 e 10 de Janeiro de 1610, munido da sua luneta, Galileu fez
grandes observações do planeta Júpiter, e descobriu quatro satélites em sua órbita, que
fazem com que o conjunto se assemelhe a um sistema planetário em miniatura, algo
que já tinha sido exposto na obra do herético Giordano Bruno, que havia morrido na
fogueira em 1600. Estas descobertas e outras, como a das irregularidades à
“superfície” de Saturno que viriam a ser resolvidas por Huygens ou as manchas
solares, cuja prioridade na descoberta esteve envolta em grande polémica com um tal
de Christopher Scheiner a reclamar a primazia, iriam conduzir a um desequilíbrio
decisivo, no “braço-de-ferro” entre ptolomaicos e copernicianos a favor destes últimos.
O objectivo do debate era definir e circunscrever o lugar do Homem no Universo, que
a Igreja queria conservar a todo o custo dentro dos limites das Sagradas Escrituras,
como meio de manter o poder temporal e conservar a autoridade moral. Mesmo assim,
o combate foi duro, e algumas vezes mesmo feroz, tendo o próprio Galileu, que não
tinha qualquer dúvida quanto à configuração heliocêntrica do Universo, sido colocado
em situações particularmente difíceis a partir de 1616, altura em que lhe foi movido
um processo pela Santa Inquisição que, ao bom estilo kafkiano, o haveria de
acompanhar até à data da morte, em 1642. Galileu escapou por um triz à fogueira,
talvez porque, a partir de 1623, o Cardeal Barberini que era seu amigo pessoal, foi
eleito Papa (Urbano VIII, que terminou a construção da basílica de S. Pedro, e que
morreu dois anos depois de Galileu), mas mesmo assim teve que retractar a sua
posição para salvar a pele.
Menos de um ano após a morte de Galileu (que, por sua vez, nascera três dias
antes da morte de Miguel Angelo, um dos maiores artistas do Renascimento), nasceu
em Woolsthorpe, Inglaterra, Isaac Newton. Era o dia de Natal de 1642 e Newton
nascia órfão, porque o pai acabara de morrer em combate ao lado do rei Guilherme I,
no decorrer da guerra civil inglesa. Teve uma saúde extremamente frágil nos primeiros
meses de vida, sendo criado pelos avós quando a mãe casou novamente. Consta que
não se destacava muito nos estudos antes da adolescência, sendo inclusive,
considerado pela sua professora primária, como o segundo pior aluno da sua turma, e
que adorava inventar e construir pequenos objectos, desde pipas até relógios solares e
de água.
Um tio, que trabalhava na Universidade de Cambridge, reconheceu as suas
potencialidades, e conseguiu que Newton fosse admitido para prosseguir os estudos
nessa instituição. Durante os anos em que lá permaneceu, Newton não foi considerado
excepcionalmente brilhante, mas, mesmo assim, desenvolveu um recurso matemático
que ainda hoje tem o seu nome: o binómio de Newton, com o qual se pode obter
rapidamente as potências da soma de dois termos.
Passara quatro anos em Cambridge e, finalmente, obtivera o bacharelato,
quando a peste negra voltou a assolar Londres, obrigando Newton a refugiar-se na
propriedade de sua mãe. Corria o Verão de 1666, e enquanto a morte e a histeria
assolava a capital, Newton dedicava-se a dar grandes caminhadas nos jardins de sua

8
O livro chama-se Sidereus Nuncius e tem apenas 24 páginas. Algumas das descobertas nele anunciadas são: as
montanhas da Lua, as fases de Vénus, a multidão de estrelas da Via Láctea, a existência de cúmulos estelares e
os satélites de Júpiter.

15
Buracos Negros

terra, esmiuçando os pormenores de uma nova matemática que viria a ser conhecida
por cálculo. Conta a história que foi ali que fez a sua observação mais famosa: viu uma
maça cair de uma árvore. Esse fenómeno corriqueiro despertou a sua mente
meditabunda, e encaminhou-o na direcção de tentar compreender de que dependeria
essa força que puxa a fruta para a Terra, e se essa mesma força se poderia estender
mais além e afectar inclusive corpos celestes como a Lua, impedindo-a de escapar da
sua órbita, espaço afora. E se isso acontecesse, porque motivo não caía também a Lua,
uma vez que era puxada9.
Newton pensou, acertadamente, que a Lua não caía porque se encontrava em
movimento circular10, resultando desse movimento uma força centrífuga (do tipo da
que viria a ser descrita por Christian Huygens, em 1673, e que é igual a)11:
mv 2
Fc  ,
r
onde m é a massa do corpo, v a sua velocidade e r a distância ao centro do movimento.
A Lua não se afastava porque estava sujeita a uma força de atracção por parte da
Terra, e não se aproximava porque, do seu movimento, resultava uma força centrífuga
que equilibrava exactamente a força da gravidade.
Essa terá sido a primeira vez em que se cogitou uma lei física, aplicável tanto a
objectos terrestres, quanto a corpos celestes. Até então, seguindo o raciocínio de
Aristóteles, achava-se que esses dois mundos - Terra e céu - teriam naturezas
completamente diferentes, sendo cada um regido por um conjunto específico de leis.
As experiências de Newton com a luz, também possibilitaram descobertas
surpreendentes. A mais conhecida delas, foi conseguida quando deixou um pequeno
feixe de luz do Sol penetrar numa sala escura, e atravessar um prisma de vidro.
Verificou que o feixe se abria ao sair do prisma, revelando ser constituído por luzes de
diferentes cores, dispostas na mesma ordem em que aparecem no arco-íris. Para provar
que essas cores não eram acrescentadas pelo próprio vidro, Newton fez com que o
feixe colorido passasse por um segundo prisma. Como resultado, as cores voltaram-se
juntar, originando a sua reunião outro feixe de luz branca, igual ao inicial. O fenómeno
da refracção luminosa ocorria, de facto, sempre que a luz atravessava prismas ou, de
modo menos pronunciado, lentes, o que limitava a eficiência dos telescópios. Newton
projectou então um telescópio reflector, no qual a concentração da luz, em vez de ser
feita com uma lente, era obtida pela reflexão num espelho parabólico. Esse princípio
vem sendo utilizado até hoje na maioria dos telescópios.
Já conhecido pelas suas experiências ópticas, Newton regressou a Cambridge,
onde se tornaria professor catedrático de Matemática com apenas 27 anos. Mais tarde,
foi eleito membro da Royal Society. Nesta sociedade de estudos científicos, passou a
enfrentar a frequente inimizade de Robert Hooke. Esse relacionamento agitado
degenerava, não raras vezes, em situações caricatas, graças sobretudo, à extrema
susceptibilidade de Newton às críticas. A maior contenda entre os dois (dentre as
muitas ocorridas ao longo dos anos) dizia respeito à natureza da luz: Newton
9
Só vinte anos mais tarde, levando em conta os estudos de Galileu e Kepler, além de suas próprias experiências
e cálculos, Newton formularia essa ideia no seguinte princípio: "A velocidade da queda é proporcional à força da
gravidade, e essa força diminui com o quadrado da distância até o centro da Terra".
10
A hipótese de o movimento da Lua em torno da Terra ser circular, a menos de uma pequena percentagem, era
sustentada pelo facto de que o tamanho aparente da Lua é aproximadamente constante.
11
Esta força encontra-se tratada com mais pormenor em anexo.

16
Buracos Negros

acreditava que a luz era composta por partículas; já para Hooke, a luz era feita de
ondas, tal como o som, (Essa disputa prosseguiria até muito depois da morte de ambos.
Podemos hoje considerar de acordo com os conhecimentos mais avançados, que essa
partida resultou, por assim dizer, num empate com dois vendedores: a luz tem uma
natureza simultaneamente ondulatória e corpuscular).
Outra disputa, desta vez internacional, envolveu Newton e o matemático
alemão Gottfried Wilhelm Leibniz. Ambos criaram, independentemente - e, para
complicar as coisas, quase ao mesmo tempo - o cálculo infinitesimal, com base nos
estudos feitos pelo francês Pierre de Fermat, e envolveram-se em grande polémica pela
primazia da descoberta. Finalmente foi reconhecido que Newton tinha, de facto, sido o
primeiro.
Em 1687, pressionado por Edmond Halley, que previu a periodicidade (de 76
anos) do cometa que tem o seu nome, Newton publicou sua mais importante obra,
Philosophiae Naturalis Principia Mathematica [Princípios matemáticos da filosofia
natural]. Nessa obra, ele inclui todos os seus conhecimentos científicos. Ali surgem,
por exemplo, as suas famosas três leis do movimento12, que estão no âmago de toda a
mecânica clássica.
Com as suas três leis e as leis de Kepler, Newton ficou finalmente, em
condições de descobrir os factores dos quais depende a força que puxa a Lua e todos
os outros objectos em direcção à Terra. Baseando-se na sua Segunda Lei do
Movimento, e considerando o Sol e os planetas como partículas13, Newton procurou

uma expressão para a força F PS que o Sol exerce sobre um planeta de massa mP,
situado a uma distância r dele. Tendo esse planeta uma velocidade orbital de módulo
constante, resulta que a sua aceleração tangencial é nula, e apresenta apenas
componente normal (centrípeta) resultante da força exercida pelo Sol, estando as
grandezas relacionadas por:
 
F PS  m P . a P

Sabe-se, por outro lado, que a P   2 .r , sendo a velocidade angular, ou seja:
4 2 r
aP 
T2
com T igual ao período do movimento.
Aplicando a terceira lei de Kepler resulta:

12
As leis de Newton dizem o seguinte:
1ª lei – Um corpo permanece no seu estado inicial de repouso, ou de movimento com velocidade uniforme, a
menos que sofra a acção de uma força resultante externa não nula.
2ª lei – A aceleração de um corpo é inversamente proporcional à massa do corpo e directamente proporcional à
força resultante externa que sobre ele actua:
Fres  ma
3ª lei – As forças aparecem sempre aos pares. Se um corpo A exerce uma força sobre B, então B exerce uma
força igual e de sentido oposto sobre A.
13
Por essa altura Newton já tinha provado matematicamente que, qualquer corpo, poderia ser considerado uma
partícula pontual, se se considerasse toda a sua massa concentrada no seu centro de massa.

17
Buracos Negros

4r 4 1
aP  ou a P  .
Kr 3 K r2

4 2
designando por Ks, sendo Ks uma constante característica do Sol, tem-se, para a
K
aceleração centrípeta do planeta:
1
aP  K s . 2
r

Da terceira lei sabemos que para cada força exercida, existe uma força igual,
exercida no sentido oposto. Desta forma sabemos que, a força que o Sol exerce no
K
planeta FPS  m p . 2s é exactamente igual à que o planeta exerce no Sol
r
KP
FSP  m S . 2 ou:
r
K K K K
m p . 2s  ms . 2P  P  s
r r m P ms

Designando por G este cociente constante14, podemos escrever:

 m S .K P  m S .G.m P
Fg  2
 Fg 
r r2

ou:
 mS mP
F g  G. 15
r2

Tendo concluído que a intensidade da força gravítica entre o Sol e um planeta é


directamente proporcional às massas e inversamente proporcional ao quadrado da
distância entre eles (em rigor, e como vimos, entre os seus centros), Newton
generalizou este resultado para dois quaisquer corpos do Universo, e enunciou a Lei da
Gravitação Universal nos termos que se seguem:

Duas massas pontuais exercem entre si forças atractivas,


cuja linha de acção é a recta que as contém e cuja intensidade
é directamente proporcional às suas massas e inversamente proporcional
ao quadrado da distância entre elas.

14
Embora Newton soubesse que G era constante, esse valor ainda permaneceria desconhecido até ser
determinado por Cavendish, em 1798, usando um dispositivo desenvolvido por John Michell. O valor a
que Cavendish chegou foi: G = 6,754  10-11 N m2 Kg-2. O valor mais recente, foi determinado por
Luther e Towner, em 1982, e é: G = 6,6726  10-11 N m2 Kg-2.
15
Newton chamou a esta força atractiva entre dois corpos com massa, força gravítica ou gravitacional. No caso
de um corpo estar à superfície ou na vizinhança de um astro, essa força designa-se por gravidade.

18
Buracos Negros

Newton compreendeu, também, muito rapidamente que, a aceleração associada


à força da gravidade, a que chamou, precisamente, aceleração da gravidade (g) era
dada por:
Gm
g 2
r

em que m é a massa do corpo criador da força.


Agora, usando a sua nova lei da atracção universal e os conhecimentos
anteriores, Newton, estava em condições de determinar o valor da constante K da
Terceira Lei de Kepler. Suponhamos que dois corpos de massa m1 e m2 estão
separados do centro de massa por distâncias iguais a r1 e r2, respectivamente. Nesse
caso a força de atracção gravitacional entre os corpos é dada por:

Gm1 m2
Fg  ,
r1  r2 2
e a força centrípeta por:
m1 v12
F1 
r1
e
m 2 v 22
F2 
r2
Como:
2r1 4 2 r12
v1   v1 
2

P P2
e o mesmo para m2:
Gm1 m 2 m1 v12 4 2 m1 r1
F1  F2  Fg    ,
r1  r2 2 r1 P2
e
Gm1 m 2 m 2 v 22 4 2 m 2 r2
 
r1  r2 2 r2 P2

Eliminando-se m1 na primeira e m2 na segunda e somando obtém-se:

G m1  m 2  4 2 r1  r2 

r1  r2 2 P2
ou
4 2
P2  r1  r2 3 .
G m1  m 2 
Se
P 2  K .r 3
então:

19
Buracos Negros

4 2
K
G m1  m 2 

Com este resultado, Newton, estava em condições de, por exemplo, determinar
a massa do Sol, directamente, ou, mediante manipulações, determinar a massa de
planetas e satélites, ou de estrelas em binários. Era possível ainda, usando a expressão
da força centrífuga deduzida por Huygens e a teoria da gravitação de Newton,
determinar a velocidade orbital dos planetas. Como estes se movimentavam em órbitas
estáveis, quase circulares, era certo admitir que a força atractiva (gravidade) seria igual
à força repulsiva (centrífuga):
GM S m P m P v 2

r2 r

onde MS é a massa do Sol, mP é a massa do planeta e r a sua distância média ao Sol. E


daqui se conclui que:
GM S
v
r

ou seja, a velocidade orbital de um planeta é tanto maior quanto mais perto estiver do
Sol (o que é consistente, como não poderia deixar de ser, com a segunda lei de
Kepler), e não depende da massa do planeta.
A Teoria da Gravitação Universal permitiu a Newton explicar muitos outros
factos, aparentemente não relacionados, como por exemplo, a queda dos corpos, o
movimento dos astros e as marés. As forças diferenciais de maré 16 terão uma certa
importância futura neste trabalho, e por isso, apresento-as desde já. As marés na Terra
constituem um fenómeno resultante da atracção gravitacional exercida pela Lua sobre
a Terra e, em menor escala, da atracção gravitacional exercida pelo Sol sobre a Terra.
A ideia básica da maré provocada pela Lua, por exemplo, é que a atracção
gravitacional sentida por cada ponto da Terra devido à Lua, depende da distância do
ponto à Lua. Portanto a atracção gravitacional sentida no lado da Terra que está mais
próximo da Lua é maior do que a sentida no centro da Terra, e a atracção gravitacional
sentida no lado da Terra que está mais distante da Lua é menor do que a sentida no
centro da Terra. Portanto, em relação ao centro da Terra, um lado é puxado na direcção
da Lua, e o outro lado é puxado na direcção contrária. Como a água flui muito
facilmente, "amontoa-se" nos dois lados da Terra que ficam em linha com a Lua,
ficando o lado mais próximo com um bojo de água na direcção da Lua e o outro lado
na direcção contrária. Enquanto a Terra gira no seu movimento diário, o bojo de água
continua sempre a apontar aproximadamente na direcção da Lua e na direcção
contrária. A dada altura, um certo ponto da terra estará exactamente por debaixo da
Lua (a Lua encontra-se em trânsito) e terá maré alta. Seis horas mais tarde, a rotação
da Terra terá levado esse ponto a 90º da Lua, e ele terá maré baixa. Dali a mais seis
horas, o mesmo ponto estará a 180º da Lua, e terá, novamente, maré alta. Portanto, as
marés acontecem duas vezes a cada 24h 50min, que é a duração do dia lunar. Se a
16
Chamam-se forças de maré precisamente porque é devido à sua existência que ocorrem as marés (alta e baixa)
nos oceanos da Terra.

20
Buracos Negros

Terra fosse totalmente coberta de água, a máxima altura da maré seria 1 m (figura 5).
Como a Terra não é completamente coberta de água, vários aspectos resultantes da
distribuição de massas continental contribuem para que a altura e a hora da maré
variem de um lugar para outro. Em algumas baías e estuários as marés chegam a

Figura 5
Disposição das massas de água, se não existissem marés (a). Nos pontos 1 e 3, a acção da Lua faz diminuir a
força da gravidade na superfície terrestre (b); nos pontos 2 e 4, essa acção faz aumentar a força da gravidade.
Produz-se assim uma elevação do nível das águas nos pontos 1 e 3, e uma descida nos pontos 2 e 4. No ponto 1
a Lua está aproximadamente no zénite. No ponto 3, a força de maré é reforçada pela força centrífuga resultante
do movimento de translação do sistema Terra-Lua em torno do centro de massa. As distâncias não foram
representadas à escala.

atingir 10 metros.
Corpos com simetria esférica agem gravitacionalmente como massas pontuais,
para as quais as influências gravitacionais são facilmente calculadas. Na natureza, no
entanto, os corpos na maioria das vezes não são perfeitamente esféricos. A principal
contribuição à não esfericidade em planetas é a sua rotação. Outra contribuição é
proporcionada pelas forças gravitacionais diferenciais que corpos vizinhos exercem
uns nos outros. Essas forças resultam da diferença entre as forças gravitacionais
exercidas em duas partículas vizinhas por um terceiro corpo, mais distante, ou seja,
precisamente aquilo que tem por resultado uma maré, se considerarmos que, em vez de
termos duas partículas vizinhas, temos dois pontos de um mesmo corpo. A figura 6
ilustra a força diferencial entre as partículas m1 e m2 devido à atracção gravitacional do
  
corpo M. A força diferencial  F  F 1  F 2 tende a separar as duas partículas m1
e m2 pois, em relação ao centro de massa, as duas afastam-se. Se as duas partículas são
parte do mesmo corpo, a força diferencial tende a alongá-lo ou mesmo rompê-lo17.

Figura 6
A força gravitacional diferencial exercida por um corpo de massa M em duas
partículas colocadas a distâncias diferentes sobre a mesma linha de acção.

17
Em anexo apresento a dedução do limite de Roche, que constitui a diferença máxima na força da gravidade
exercida entre dois pontos de um mesmo corpo sem que este se desagregue.

21
Buracos Negros

Consideremos as duas partículas da figura acima. Chamemos R à distância entre


as duas partículas, e r à distância de M à partícula m2. O valor de F será:

F  F1  F2
sendo

GMm1
F1 
r  R 2
e
GMm 2
F2 
r2
Temos que:

 m1 m2 
F1  F2  GM   
2 
 r  R  2
r 

Fazendo m1 = m2 = m, podemos escrever:

 r 2  r  R 2 
F1  F2  GMm  2 

 r r  R 
2

2R R 2
Para r>>R, 2r  R  2r , e 1   1
r r

 
 
 2R  r   2rR  R 2 
F1  F2  GMmR    GMm 
 r 4  2 Rr 3  r 2 R 2  ,
4   
2
 r 1  2 R R
    
  r r 

ficando, portanto, a expressão da força diferencial:

2GMm
F  R
r3

Da equação podemos inferir que, quanto maior for a massa de um corpo, maior
será a força da maré por ele criada. No entanto, também se percebe, facilmente, que
quanto maior for o raio do corpo, menor vai ser a força da maré . E a dependência do
raio, é muito maior (expoente 3) do que a dependência da massa pelo que, num corpo
for muito pesado, o aumento do tamanho conduz a uma diminuição nas forças da maré
que esse corpo provocará (ver o limite de Roche em anexo).
Em 1713, foi editada por Roger Cotes, a segunda edição dos Principia, na qual
aparece a derivação de funções trigonométricas, da autoria do próprio editor.

22
Buracos Negros

Euler foi o próximo homem forte na nossa história, e a ele coube-lhe a tarefa de
desenvolver métodos de integração de equações diferenciais lineares, que
possibilitaram, entre outras coisas, determinar a energia potencial de um sistema
formado por um corpo que se encontra sob influência gravitacional de um outro corpo
(1739). A energia potencial (U) de qualquer sistema neste caso é dada por:

U r   W , r 

onde W , r  é o trabalho realizado por uma força conservativa, neste caso a força da
gravidade, sobre uma partícula, quando esta se move desde o infinito até à distância r à
massa criadora da força:

U r   W ,r     F r dr

como se trata de uma força sempre atractiva, terá sempre sentido contrário ao do
vector posição da partícula, daí o sinal negativo:

 GMm 
r

U r       2 dr
 r 
ou, integrando:
GMm
U r   
r

O sinal negativo indica que a energia potencial é negativa a qualquer distância


finita, ou seja, a energia potencial é nula no infinito e decresce com a diminuição da
distância. Para distâncias h à superfície do corpo gerador da força muito menores que
o raio r desse corpo, temos que a energia potencial gravítica do sistema, quando um
corpo se desloca desde a superfície até h é:

GMm  GMm  GMm


E pg      h
r  h  r  r  h r
como r  h  r  h  r , e:
GM
E pg  mh
r2
ou
E pg  mgh

Se lançarmos um corpo verticalmente para cima, o corpo irá subir com


movimento uniformemente retardado, parará, e regressará ao solo. Tal, resulta do facto
de a gravidade terrestre ser uma força que actua no sentido de atrair os corpos para o
centro da Terra. A altura máxima h atingida por um corpo nas imediações18 da
18
Desde que a aceleração da gravidade possa ser considerada constante.

23
Buracos Negros

superfície terrestre (ou de qualquer outro planeta ou estrela), é dada pela seguinte
expressão:
v2
h ,
2g
obtida usando o princípio da conservação da energia mecânica, e onde v é a velocidade
com que o corpo é lançado e g a aceleração da gravidade. Da expressão conclui-se
algo que é intuitivo: quanto maior a velocidade de lançamento, maior será a altura
atingida pelo corpo. Para qualquer estrela ou planeta existe uma velocidade de
lançamento limite, a partir da qual o corpo, apesar de ver a sua velocidade reduzida, já
não parará e afastar-se-à indefinidamente do astro donde foi lançado. A essa
velocidade chama-se velocidade de escape (ve), e pode, mais uma vez, ser calculada
usando o princípio da conservação da energia mecânica.19 Se lançarmos um corpo
verticalmente, para cima, a partir da superfície da Terra, com uma certa energia
cinética inicial, a energia cinética diminui, e a energia potencial aumenta à medida que
o corpo sobe. Se considerarmos a energia potencial igual a zero à superfície da Terra,
então, a energia potencial máxima será dada por:

GM T m
U max 
,
RT
sendo MT a massa da Terra, m a massa do corpo e RT o raio da Terra. Bastará, para que
o corpo escape à atracção gravítica terrestre, ter uma energia cinética inicial igual (ou
superior), à energia potencial máxima do sistema:

1 2 GM T m
mv 
2 RT
donde:
2GM T
ve 
RT

E esta expressão pode ser aplicada, mutatis mutandis, a qualquer outro corpo,
estrela ou planeta.
Nos finais do século XVIII, ainda prevalecia a ideia newtoniana de que a luz era
composta por corpúsculos, que se admitia que seria afectados pela gravidade como
qualquer outra partícula. A princípio, ainda se pensava que a luz se deslocava a uma
velocidade infinita, de maneira que a gravidade não seria capaz de a retardar, mas a
descoberta de Roemer de que, de facto, a sua velocidade no vácuo rondava os 300000
Km s-1, veio reforçar a ideia de que a luz poderia ser afectada de forma mensurável
pela gravidade. Partindo desta suposição, um catedrático de Cambridge, chamado John
Michell, que desenvolvera já o dispositivo usado por Cavendish na determinação da
constante de gravitação universal, escreveu em 1783 um artigo, publicado no número
de 27 de Novembro dos Philosophical Transactions of the Royal Society of London,

19
Este princípio pode ser aplicado sempre que sobre o corpo lançado não actuarem forças exteriores, p.e.: forças
de atrito. No caso do lançamento vertical de um corpo, a aproximação é bastante boa, dado que a resistência do
ar é, por norma, desprezável.

24
Buracos Negros

em que chamava a atenção para o facto de que, se uma estrela tivesse um campo
gravitacional suficientemente forte (ou pela equação acima uma relação massa/raio
adequada), puxaria para si a própria luz de tal forma que ela não poderia escapar. Para
a Terra a velocidade de escape é igual a cerca de 11 Km/s, enquanto que para o Sol é
aproximadamente 617 Km/s ou cerca de 0,2 % da velocidade da luz. A ideia de
Michell era que, para uma dada massa e para um dado raio da estrela, a velocidade de
escape seria igual à velocidade da luz e, portanto, nem mesmo a luz conseguiria
escapar. Fazendo contas, Michell facilmente concluiu que, para uma estrela com uma
massa igual ao Sol, o raio teria de ser igual a 18,5 Km para que a velocidade de escape
igualasse a velocidade da luz. Como no sec. XVIII não existia nada que impedisse
estrelas tão densas de existir, Michell sugeriu que estrelas desse tipo seriam
abundantes no Universo, ainda que invisíveis, porque a sua luz não nos atingiria, mas
sentiríamos a sua influência gravitacional. Treze anos mais tarde, o filósofo natural20
francês Pierre Simon de Laplace desenvolveu e popularizou a ideia de Michell, ao
publica-la nas duas primeiras edições da sua obra mais famosa Le Systeme du Monde,
ainda que não tenha mencionado o nome de Michell, pelo que se pressupõe que a sua
investigação teria sido independente. Todavia, na terceira edição publicada em 1808, o
capítulo destinado às estrelas escuras foi suprimido, porque entretanto, um médico
inglês chamado Thomas Young, tinha levado a cabo um experiência em que era posta
a nu a interferência da luz, que só podia ser explicada pela teoria ondulatória,
defendida, entre outros, por Huygens e Hooke, e levando ao abandono da teoria
corpuscular. A partir daí, a luz passou a ser entendida como uma onda, como o som,
não se tendo nesse caso a mínima ideia de como a gravidade a poderia afectar. Hoje
sabemos que a luz apresenta uma natureza que, como já foi dito, é uma mescla dos
dois pontos de vista.
Michell e Laplace, com a sua visão newtoniana do espaço e do tempo absoluto
e da velocidade da luz relativa, acreditavam que, para estrelas apenas um pouco
menores que o raio crítico, os corpúsculos de luz estariam muito próximos de poder
escapar. Eles conseguiriam subir muito alto, acima da estrela e passar pela órbita dos
planetas que, eventualmente, existissem em torno da estrela. À medida que se
afastavam, a velocidade dos corpúsculos seria cada vez mais diminuída e, algures no
espaço interestelar, finalmente parariam e regressariam de volta à superfície da estrela.
Para as criaturas de um planeta em órbita de uma estrela destas, a estrela não seria
escura, pois a sua luz atingi-los-ia, mas para nós, que estamos para além do ponto
máximo atingido pela luz da estrela, esta seria invisível.
Se Copérnico costuma ser visto como o iniciador de um período de progresso
intelectual chamado Revolução Científica, Newton pode ser considerado o cume dessa
ascensão. As suas conclusões explicavam um maior número de fenómenos, com o
menor número possível de elementos, sendo isto, o que muitos estudiosos chamam de
solução elegante.
Certa vez, o astrónomo Edmund Halley perguntou a Newton como conseguia
realizar tantas descobertas notáveis. Ele respondeu que as atribuía mais a um esforço
contínuo do pensamento, do que à inspiração ou à percepção súbita. Esse esforço
mental, porém, devia deixá-lo tão exausto que, aos 50 anos de idade, precisou de

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Na renascença, em vez do termo físico, aqueles que se dedicavam a estudar o funcionamento do mundo, eram
designados por filósofos naturais.

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Buracos Negros

interromper a sua produção por dois anos, devido a um esgotamento nervoso (diz-se
que uma vela teria caído sobre um calhamaço de cálculos desenvolvidos ao longo de
vários anos, destruindo-os.) Isso não o impediu, porém, de retomar o seu trabalho, nem
de se tornar membro do Parlamento inglês, ou ser director da Casa da Moeda.
Em 1703, foi eleito presidente da Royal Society (Hooke já tinha morrido), cargo
para o qual foi reeleito anualmente, enquanto viveu. Em 1704, publicou Opticks, livro
que versa sobre as suas descobertas no campo da Óptica.
Curiosamente, Newton ficou grisalho com apenas 30 anos, mas manteve-se em
actividade mental por toda a vida. Aos 80 anos, orgulhava-se de ver e ouvir bem, e de
ainda possuir todos os dentes!
Tentando avaliar a sua carreira científica, um dia disse: Tenho a impressão de
ter sido uma criança brincando à beira-mar, divertindo-me em descobrir uma
pedrinha mais lisa ou uma concha mais bonita que as outras, enquanto o imenso
oceano da verdade continua misterioso diante dos meus olhos.

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