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quarta-feira, 13 de março de 2019 00:29

EDIÇÃO 150 | MARÇO_2019


anais da tragédia brasileira

A METÁSTASE
O assassinato de Marielle Franco e o avanço das
milícias no Rio
ALLAN DE ABREU

“Agora é Bolsonaro, porra”, disse o aspirante a deputado Rodrigo Amorim na


campanha de 2018, segurando a placa com o nome de Marielle. Ao seu lado, o futuro
“Agora é Bolsonaro, porra”, disse o aspirante a deputado Rodrigo Amorim na
campanha de 2018, segurando a placa com o nome de Marielle. Ao seu lado, o futuro
governador Wilson Witzel FOTO_REPRODUÇÃO

No primeiro semestre de 2001, o professor Marcelo


Baumann Burgos reuniu 22 alunos do curso de
ciências sociais da Pontifícia Universidade Católica do
Rio de Janeiro para um estudo sociológico na favela
Rio das Pedras, na Zona Oeste da cidade. Pesou na
escolha da comunidade, além de seu tamanho – 40 mil
habitantes na época e 80 mil hoje –, o fato de ser uma
das poucas da capital fluminense sem
narcotraficantes. Isso facilitava o trabalho dos
pesquisadores e era motivo de elogios da parte de
Burgos – o professor chegou a definir Rio das Pedras
como “um oásis em meio à barbárie”.
“Em uma cidade marcada pelo recrudescimento da
violência urbana, […] morar em uma favela sem ter
que conviver com a sombria presença de traficantes
torna-se, compreensivelmente, razão suficiente para
aumentar o apego do morador ao lugar”, escreveu o
sociólogo no livro que trouxe o resultado da
pesquisa, A Utopia da Comunidade: Rio das Pedras, uma
Favela Carioca, publicado em 2002. Quando fizeram o
trabalho, nem Burgos nem seus alunos perceberam
que aquela sensação de segurança derivava do poder
pesquisa, A Utopia da Comunidade: Rio das Pedras, uma
Favela Carioca, publicado em 2002. Quando fizeram o
trabalho, nem Burgos nem seus alunos perceberam
que aquela sensação de segurança derivava do poder
exercido no local por uma nova forma de organização
criminosa que surgia no Rio – os grupos paramilitares.
A favela data de 1969, quando o então governador do
estado da Guanabara, Francisco Negrão de Lima,
decidiu desapropriar uma área às margens do rio das
Pedras para abrigar dez famílias de migrantes do
Nordeste ameaçadas de expulsão pelo dono da
propriedade. A partir de então, como costuma
acontecer em vários lugares no trágico processo de
urbanização do país, a comunidade cresceu
descontroladamente. Nos anos 80 a prefeitura delegou
à associação de moradores a tarefa de organizar a
ocupação do espaço. Com isso, acabou fazendo dessa
entidade privada uma extensão do poder público,
criando, segundo Burgos, “uma autoridade paralela”,
personalista, “que não foi constituída para gerir bens
públicos para os cidadãos em geral”.
A associação passou a controlar Rio das Pedras com
mão de ferro. A fim de evitar a entrada do tráfico na
comunidade e manter a ordem, patrocinou nas
décadas de 80 e 90 um grupo de justiceiros – no qual
havia policiais – encarregado de expulsar ou, em
comunidade e manter a ordem, patrocinou nas
décadas de 80 e 90 um grupo de justiceiros – no qual
havia policiais – encarregado de expulsar ou, em
certos casos, matar traficantes e usuários de drogas.
Na virada para o século XXI, esse grupo ganhou
proeminência na favela, o que não deixou de ser
notado pelo sociólogo na pesquisa: “Como estamos
em território da cidade informal, o grau de arbítrio
desse tipo de segurança pública é fracamente regulado
pelo ordenamento jurídico, estando amplamente
permeável a uma moralidade local, para a qual é
legítima a máxima ‘aqui, só quem faz besteira some’.”
Burgos também percebeu atividades econômicas em
expansão em Rio das Pedras, como o transporte por
vans e a tevê a cabo, na época com 5 mil “assinantes”,
sem associá-las, porém, ao emergente negócio dos
paramilitares, que já controlavam esses serviços.
O mesmo modelo de organização criminosa, lucrativa,
expandiu-se rapidamente para bairros próximos de
Rio das Pedras, tomando áreas do tráfico de drogas.
Formados por policiais e bombeiros, da ativa ou
aposentados, esses grupos eram chamados
inicialmente de “polícia mineira” – a expressão tem
origem na maneira truculenta com que policiais de
Minas Gerais capturavam criminosos durante
inicialmente de “polícia mineira” – a expressão tem
origem na maneira truculenta com que policiais de
Minas Gerais capturavam criminosos durante
incursões pelo Rio nos anos 60 e 70. Durante um
tempo, os paramilitares foram apontados como
responsáveis pela autoproteção das comunidades e
não faltaram políticos que os tratassem com
benevolência. “As autodefesas comunitárias são um
problema menor, muito menor, do que o tráfico”,
disse em 2006 o então prefeito do Rio, César Maia, que
comparou os paramilitares cariocas às Autodefesas
Unidas da Colômbia, grupo paramilitar que, entre
1997 e 2006, combateu a guerrilha das Farc e lucrou
com o comércio de drogas. Os grupos do Rio, porém,
ao fincar raízes, passaram a extorquir comerciantes e
moradores, e rapidamente migraram para outras
frentes econômicas, como a grilagem de terras – a
ocupação irregular, mediante fraude e falsificação de
documentos. “No Rio há muitos títulos de
propriedade falsos, decorrentes de um sistema
cartorial corrupto. Os paramilitares usam esse
argumento para tirar os donos originais à força”, me
disse a antropóloga Alba Zaluar, que há quatro
décadas pesquisa o crime organizado no Rio de
Janeiro.
disse a antropóloga Alba Zaluar, que há quatro
décadas pesquisa o crime organizado no Rio de
Janeiro.

Vera Araújo trabalha há trinta anos como jornalista e


se especializou na cobertura de temas relacionados à
segurança pública no Rio. Em março de 2005, numa
reportagem que publicou no jornal O Globo, mostrou
que onze grupos de paramilitares controlavam 42
favelas na capital, principalmente na Zona Oeste. Pela
primeira vez, o termo “milícia” foi utilizado para
identificar esses agrupamentos de policiais e ex-
policiais. A escolha se deu por um motivo prosaico,
me disse a repórter: era uma palavra curta, mais fácil
de ser encaixada no título de uma reportagem de
jornal do que o termo “paramilitares”.
Naquela época, os milicianos de Rio das Pedras eram
comandados por Félix dos Santos Tostes, inspetor da
Polícia Civil, que seria morto em fevereiro de 2007 em
uma disputa pelo controle da associação de
moradores do bairro. No mesmo mês do assassinato, o
então deputado estadual Marcelo Freixo propôs uma
Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as
milícias. “Estava no terceiro dia de mandato e fui
motivo de chacota”, recordou o parlamentar do PSOL
quando o encontrei numa tarde de fevereiro em seu
Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as
milícias. “Estava no terceiro dia de mandato e fui
motivo de chacota”, recordou o parlamentar do PSOL
quando o encontrei numa tarde de fevereiro em seu
apartamento na Zona Sul.
Um ano depois da proposta de Freixo, em 2008, a
notícia de que uma repórter, um fotógrafo e um
motorista do jornal O Dia haviam sido torturados por
milicianos na favela do Batan, em Realengo,
reacendeu o tema. Pressionados, os deputados da
Assembleia Legislativa do Rio, a Alerj, aprovaram por
maioria a instalação da CPI, presidida por Freixo.
Durante cinco meses, a comissão ouviu 47 pessoas,
incluindo o vereador Josinaldo Francisco da Cruz, o
Nadinho, que havia substituído Félix Tostes como
chefe da milícia de Rio das Pedras e era suspeito de
ser o mandante do assassinato do inspetor.
Em depoimento sigiloso, Nadinho decidiu contribuir
com a CPI e delatar outros onze milicianos que agiam
na comunidade de Rio das Pedras. Pagaria caro por
isso: foi morto com dez tiros um ano depois, em 2009.
A CPI indiciou 226 pessoas, das quais 25 seriam
assassinadas nos dez anos seguintes. Desde então,
Freixo, que foi ameaçado de morte por grupos
paramilitares, vive sob escolta policial. “A milícia não
é o estado paralelo, é o estado leiloado, porque
Freixo, que foi ameaçado de morte por grupos
paramilitares, vive sob escolta policial. “A milícia não
é o estado paralelo, é o estado leiloado, porque
transforma o domínio territorial em domínio eleitoral.
Por isso elege representantes e dialoga com o poder”,
define o deputado do PSOL, hoje com 51 anos. As
milícias não pararam de crescer na cidade.
Atualmente, estão presentes em 88 das 1 018
comunidades do Rio, de acordo com o Ministério
Público. Em vários lugares, transformaram-se em
narcomilícias e passaram a disputar o controle do
tráfico de drogas com o crime organizado que
supostamente combatiam.

Marielle Franco esteve com Marcelo Freixo na


investigação parlamentar contra os milicianos. Por
nove anos, entre 2007 e 2016, a jovem negra criada no
Complexo da Maré – um conjunto de dezesseis favelas
onde moram 130 mil pessoas, na Zona Norte – foi
assessora de Freixo. Ao mesmo tempo que cursava
ciências sociais na PUC-Rio, ela coordenava na
Assembleia Legislativa a Comissão de Defesa dos
Direitos Humanos e Cidadania, presidida pelo
deputado. Em 2016, Marielle decidiu concorrer pela
primeira vez a um cargo público. Candidatou-se a
Direitos Humanos e Cidadania, presidida pelo
deputado. Em 2016, Marielle decidiu concorrer pela
primeira vez a um cargo público. Candidatou-se a
vereadora pelo PSOL e obteve a quinta maior votação
na cidade – 46 mil votos, a maior parte deles oriundos
da Zona Sul.
Seu mandato foi marcado pela defesa das mulheres,
dos negros e das minorias, e também por duras
críticas à violência policial. “Mais um homicídio de
um jovem que pode estar entrando para a conta da
PM. […] Quantos mais vão precisar morrer para que
essa guerra acabe?”, escreveu Marielle no Twitter em
13 de março do ano passado, a respeito da morte de
um rapaz na favela do Jacarezinho. Na noite do dia
seguinte, ela própria seria assassinada no Centro do
Rio, aos 38 anos de idade.

Orelógio no painel do carro marcava 21h14. Fazia


menos de dez minutos que Marielle, a sua assessora,
Fernanda Chaves, e o motorista Anderson Gomes
haviam deixado a Casa das Pretas, na rua dos
Inválidos, no Centro da cidade, depois do debate
“Jovens Negras Movendo as Estruturas”, organizado
pelo PSOL. “Não sou livre enquanto outra mulher for
prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam
“Jovens Negras Movendo as Estruturas”, organizado
pelo PSOL. “Não sou livre enquanto outra mulher for
prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam
diferentes das minhas”, disse Marielle no encontro,
citando a escritora norte-americana Audre Lorde –
negra, feminista e gay, como a vereadora. “Vamos que
vamos, vamos juntas ocupar tudo”, concluiu diante do
público de pouco mais de vinte mulheres. Foi
aplaudida, abriu o sorriso grande que lhe era
característico e levantou-se, ajeitando a saia com
estampas florais e a blusa azul-marinho de alças finas.
Na saída, uma amiga a convidou para ir a um bar na
Lapa. Marielle disse estar cansada e preferiu ir para
casa, na Tijuca. Habitualmente, ela embarcava ao lado
do motorista, mas naquele dia sentou-se atrás, ao lado
da assessora, a bordo de um Agile branco.
Nenhum dos três percebeu, mas, assim que o Agile
deixou a rua dos Inválidos, foi seguido por um
Chevrolet Cobalt prata – o veículo com placas
clonadas estava no local desde as sete da noite,
quando Marielle chegou à Casa das Pretas para o
debate. No banco traseiro do Cobalt, um homem
segurava uma submetralhadora alemã HK MP5,
calibre 9 milímetros, conhecida pela precisão de seus
disparos.
Quando, às 21h20, o carro com a vereadora dobrou a
segurava uma submetralhadora alemã HK MP5,
calibre 9 milímetros, conhecida pela precisão de seus
disparos.
Quando, às 21h20, o carro com a vereadora dobrou a
esquina das ruas Joaquim Palhares e João Paulo I, no
bairro do Estácio, ainda no Centro, o Cobalt
emparelhou com o Agile a uma distância de 2 metros.
Do vidro aberto do carro prata, a HK disparou treze
tiros entre a porta direita traseira e o fim da lateral do
Agile, exatamente no local onde estava Marielle.
Atingida por quatro balas no lado direito da cabeça –
duas próximas à orelha, uma perto do olho direito e
uma rente à boca –, a vereadora morreu
instantaneamente. O motorista Anderson Gomes, que
estava na linha de tiro, foi atingido por três balas nas
costas. Soltou um gemido e largou as mãos do volante.
Fernanda Chaves, a única a não ser atingida, abaixou-
se rapidamente e puxou o freio de mão do veículo.
Marielle estava com o corpo seguro pelo cinto de
segurança, a cabeça caída para a frente, o sangue
escorrendo pela nuca. Havia onze câmeras públicas de
vídeo no trajeto feito pelo carro. Misteriosamente,
cinco tinham sido desligadas, um ou dois dias antes
dos assassinatos – uma delas, a poucos metros da cena
do crime, não grava imagens e serve apenas para
contar os veículos que passam pela via.
dos assassinatos – uma delas, a poucos metros da cena
do crime, não grava imagens e serve apenas para
contar os veículos que passam pela via.
As mortes de Marielle e de Anderson indignaram os
cariocas e o país. Na tarde do dia 15, cerca de 50 mil
pessoas se aglomeraram em frente à Câmara
Municipal para o velório, num ato que misturava dor
e protesto. Houve manifestações populares em
dezessete estados naquela noite. O crime foi destaque
na imprensa internacional, ganhando as páginas dos
jornais The New York Times, The Washington Post, The
Guardian e Clarín, entre outros. “O Estado, através dos
diversos órgãos competentes, deve garantir uma
investigação imediata e rigorosa”, cobrou a Anistia
Internacional. “Não podem restar dúvidas a respeito
do contexto, motivação e autoria do assassinato de
Marielle Franco.” Dois dias após o crime, a assessora
Fernanda Chaves deixou o Rio de Janeiro às pressas e,
em seguida, foi com a família para a Espanha. Só
retornou ao Brasil quatro meses depois, em julho do
ano passado. Mesmo assim, por segurança, permanece
fora do Rio.
Freixo, que sempre manteve uma relação muito
próxima com a vereadora, afirma que ela não recebeu
nenhuma ameaça de morte, inclusive naqueles dias
Freixo, que sempre manteve uma relação muito
próxima com a vereadora, afirma que ela não recebeu
nenhuma ameaça de morte, inclusive naqueles dias
que precederam o assassinato. “Toda semana,
religiosamente, eu tomava um café com a Marielle. Na
terça-feira, 13 de março, véspera do crime, no fim do
dia, eu falei com ela pelo telefone e combinamos de ir
à Maré no sábado seguinte. Ela estava tranquilíssima.
Não tinha a menor ideia de que sua vida corria risco.”
A segurança pública do Rio de Janeiro estava sob
intervenção federal, decretada pelo então presidente
Michel Temer em fevereiro, um mês antes da morte de
Marielle. Nos dias seguintes ao assassinato,
procuradores chegaram a aventar a hipótese de que o
atentado fora um recado aos militares que
comandavam a intervenção. Logo, no entanto, essa
hipótese perdeu força. Quando o Exército saiu do Rio,
em dezembro último, foi descartada. Ficou cada vez
mais evidente que o crime era obra de milicianos – e
quanto a isso não há mais dúvidas. A guerra de
versões que se trava em torno do caso há doze meses
envolve disputas entre milícias e seus respectivos
padrinhos na política carioca. Envolve ainda disputas
surdas entre a Polícia Civil, de um lado, e a Polícia
Federal e o Ministério Público, de outro. Envolve, por
padrinhos na política carioca. Envolve ainda disputas
surdas entre a Polícia Civil, de um lado, e a Polícia
Federal e o Ministério Público, de outro. Envolve, por
fim, divergências entre jornalistas, sobretudo no
jornal O Globo.

Depois de viver uma década no Rio de Janeiro, o


delegado Giniton Lages, 44 anos, praticamente perdeu
o sotaque caipira. Paulista de Jaú, ele se formou em
direito no interior de São Paulo. Seu sonho era ser
promotor de Justiça. Durante cinco anos prestou
concursos públicos para a carreira, sem sucesso.
Decidiu então tentar uma vaga de delegado na Polícia
Civil. Passou em concursos da corporação em
Pernambuco, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Escolheu
o último estado. Em 2008, assumiu o distrito policial
de Japeri, na Baixada Fluminense, e de lá foi para a
vizinha Belford Roxo. Em 2010, chegou à Delegacia de
Homicídios (DH) da Baixada, onde atuou por oito
anos. Em 17 de março do ano passado, três dias após a
morte de Marielle, Lages assumiu a chefia da DH na
capital, com a missão de elucidar o crime. A Delegacia
de Homicídios conta com 10 delegados, 22 peritos, 206
agentes e 48 carros. De cada dez assassinatos
ocorridos na capital, esclarece dois, me disse Lages –
duas vezes mais do que a média no estado do Rio,
de Homicídios conta com 10 delegados, 22 peritos, 206
agentes e 48 carros. De cada dez assassinatos
ocorridos na capital, esclarece dois, me disse Lages –
duas vezes mais do que a média no estado do Rio,
conforme pesquisa do Monitor da Violência.
“Sem dúvida o caso Marielle é o maior desafio da
minha carreira”, afirmou Lages na sede da DH, em
área residencial da Barra da Tijuca, na tarde de 8 de
fevereiro, sexta-feira. De olhos vincados e cabelos bem
curtos, exibia no peito o típico distintivo dos
delegados fluminenses, preso por um cordão no
pescoço. A sala ampla onde ele despacha contrasta
com o espaço exíguo em que trabalham outros
delegados e escrivães. Na mesa em formato de “L”
repousavam dezesseis dos mais de vinte volumes do
inquérito 901-00385/2018, que apura o duplo
homicídio. Lages mantém os documentos sob
diligente sigilo. “Nenhum advogado teve acesso.
Qualquer publicidade sobre as investigações pode pôr
todo o nosso trabalho a perder”, justificou.
Conversei com três pessoas que tiveram acesso ao
inquérito. Os papéis, segundo elas, revelam que faltou
foco na ação da polícia nas primeiras semanas de
apuração. Lages solicitou à Polícia Militar toda a
relação de policiais lotados no 41º Batalhão, em Acari,
Zona Norte, o recordista no estado em mortes
apuração. Lages solicitou à Polícia Militar toda a
relação de policiais lotados no 41º Batalhão, em Acari,
Zona Norte, o recordista no estado em mortes
provocadas por policiais – quatro dias antes de
morrer, Marielle fez a seguinte crítica no Twitter: “O
que está acontecendo agora em Acari é um absurdo! E
acontece desde sempre! O 41° batalhão da PM é
conhecido como Batalhão da morte. CHEGA de
esculachar a população! CHEGA de matarem nossos
jovens!” No entanto, nenhum policial daquele
destacamento foi formalmente ouvido pela Delegacia
de Homicídios. O delegado também convocou todos
os proprietários de automóveis Cobalt de cor prata na
capital a apresentarem seus veículos à polícia – são 7
375 apenas na capital, segundo o Departamento de
Trânsito. Lages afirmou que foi feita vistoria em todos
eles. O veículo utilizado no crime, porém, nunca foi
encontrado.
Na noite de 21 de março, quarta-feira, a jornalista Vera
Araújo, d’O Globo, decidiu ir até o cruzamento das
ruas Joaquim Palhares e João Paulo I, onde tinha
ocorrido o crime uma semana antes. Seu objetivo era
localizar alguém que habitualmente passasse por
aquele local sempre às quartas-feiras, entre nove e
nove e meia da noite. Foi assim que ela encontrou
localizar alguém que habitualmente passasse por
aquele local sempre às quartas-feiras, entre nove e
nove e meia da noite. Foi assim que ela encontrou
duas testemunhas, que não tinham sido ouvidas pela
polícia. Uma delas era um morador de rua, que
presenciou o crime a uma distância de apenas 10
metros. “Foi tudo muito rápido. O carro dela [Marielle]
quase subiu na calçada. O veículo do assassino
imprensou o carro branco [onde estava a vereadora]. O
homem que deu os tiros estava sentado no banco de
trás e era negro. Eu vi o braço dele quando apontou a
arma, que parecia ter silenciador”, disse o homem –
para protegê-lo de uma possível retaliação, a jornalista
não o identificou na reportagem.
Uma mulher também viu a cena, embora de uma
distância maior. Tanto ela quanto o morador de rua
contaram à repórter que PMs do 4º Batalhão, em São
Cristóvão, chegaram minutos após o crime e pediram
para que todos se afastassem do local, sem se
interessar por possíveis testemunhas. Antes de
publicar a reportagem, Araújo telefonou para o então
chefe da Polícia Civil do Rio, Rivaldo Barbosa. “Ele
nem deu bola. Depois que publicamos a história, ficou
irritado, dizendo que eu expus aquelas pessoas.” A
mulher encontrada por Araújo só foi ouvida duas
nem deu bola. Depois que publicamos a história, ficou
irritado, dizendo que eu expus aquelas pessoas.” A
mulher encontrada por Araújo só foi ouvida duas
semanas depois pela polícia, que não conseguiu
localizar o morador de rua.

No dia seguinte ao crime, 15 de março, o então


ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, e a
procuradora-geral da República, Raquel Dodge,
desembarcaram no Rio. A dupla se reuniu à tarde na
Cidade da Polícia, no bairro do Jacaré, Zona Norte,
com Rivaldo Barbosa, o general do Exército Walter
Souza Braga Netto, na época interventor na segurança
pública do estado, e o procurador-geral de Justiça no
Rio, José Eduardo Gussem. Na reunião, Dodge
anunciou que iria instaurar uma apuração preliminar
do caso no Ministério Público Federal (MPF).
Embasaria assim um possível pedido ao Superior
Tribunal de Justiça para que a investigação fosse feita
pela Polícia Federal e pelo MPF, e não mais pelas
autoridades fluminenses. Uma emenda de 2004 à
Constituição Federal prevê a federalização na
investigação de crimes quando há “graves violações
aos direitos humanos” e se constata a incapacidade
das forças de segurança estaduais para elucidar o
delito. “Certamente a participação da Polícia Federal é
investigação de crimes quando há “graves violações
aos direitos humanos” e se constata a incapacidade
das forças de segurança estaduais para elucidar o
delito. “Certamente a participação da Polícia Federal é
importante nesse episódio”, disse Raquel Dodge em
entrevista coletiva, após a reunião.
Naquele mesmo dia, ela nomeou cinco procuradores
do MPF do Rio para “acompanhar todos os atos
referentes às investigações” das mortes de Marielle e
Anderson, com o objetivo de instruir o pedido de
federalização das investigações ao STJ. O grupo de
procuradores, entretanto, só teve tempo de solicitar à
Polícia Civil informações sobre a estrutura da Divisão
de Homicídios do Rio. Em 21 de março, o procurador-
geral Gussem ingressou com um pedido no Conselho
Nacional do Ministério Público para que a apuração
dos procuradores federais fosse suspensa. “O
Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro vê-se
surpreendido por uma incompreensível,
desproporcional e prematura violência institucional”,
argumentou.
O coordenador do grupo nomeado por Dodge,
procurador Marcelo de Figueiredo Freire, rebateu:
“Esclareço que não houve nenhuma usurpação da
atividade conferida ao Ministério Público Estadual.
Não houve investigação ‘paralela’ dos fatos.”
“Esclareço que não houve nenhuma usurpação da
atividade conferida ao Ministério Público Estadual.
Não houve investigação ‘paralela’ dos fatos.”
Em 3 de abril, foi concedida uma liminar proibindo a
atuação dos procuradores federais no caso até o
julgamento do pedido de Gussem. Em 21 de maio,
antes que o caso fosse julgado, Dodge revogou a
portaria que designava os cinco procuradores,
desistindo de levar adiante a federalização das
apurações. Recuou, mas não abandonou o caso –
procuradores do MPF no Rio seguiram enviando a ela
relatórios detalhados sobre o andamento das
investigações.

Um mês após os assassinatos, o repórter Antônio


Werneck recebeu na redação do jornal O Globo o
telefonema de uma pessoa que disse haver um grande
“furo” à espera dele na Superintendência da Polícia
Federal do Rio. Werneck – que trabalha no jornal há 29
anos – especializouse, como Vera Araújo, em
investigações na área de segurança pública. Quando o
jornalista chegou à PF, encontrou três delegados
federais: Hélio Khristian Cunha de Almeida,
conhecido como HK, Lorenzo Martins Pompílio da
Hora e Felício Laterça. HK não tem currículo que se
federais: Hélio Khristian Cunha de Almeida,
conhecido como HK, Lorenzo Martins Pompílio da
Hora e Felício Laterça. HK não tem currículo que se
possa admirar: em 2002, quando trabalhava em Belém,
capital do Pará, foi denunciado pelo MPF por
corrupção passiva ao aceitar passagem aérea de um
empresário investigado por corrupção pela própria
PF. Quatro anos depois, já no Rio, HK foi novamente
denunciado à Justiça por concussão (extorsão de
dinheiro praticada por funcionário público), ao
supostamente forjar um inquérito por crime
previdenciário contra um empresário carioca e exigir
dele 5 milhões de reais para arquivar a investigação. O
delegado foi absolvido em primeira instância, os
procuradores recorreram e o TRF da 2ª Região o
condenou a dois anos e meio de prisão por corrupção
passiva. Como o crime pelo qual foi condenado
(corrupção) difere daquele pelo qual fora denunciado
pelos procuradores (concussão), HK conseguiu anular
a decisão. Ainda não há data para um novo
julgamento – a defesa do delegado garante que vai
provar sua inocência.
A trinca de delegados apresentou o repórter Werneck
ao sargento da PM Rodrigo Jorge Ferreira, que estava
ali para fazer uma revelação. Suspeito ele mesmo de
A trinca de delegados apresentou o repórter Werneck
ao sargento da PM Rodrigo Jorge Ferreira, que estava
ali para fazer uma revelação. Suspeito ele mesmo de
ser um miliciano, Ferreira acusava duas pessoas de
terem tramado o assassinato de Marielle: o vereador
Marcello Siciliano, do PHS, e o ex-policial militar
Orlando Oliveira de Araújo, que estava preso desde
outubro de 2017, acusado de comandar uma milícia no
bairro de Curicica, na Zona Oeste – daí, seu apelido:
Orlando de Curicica.
Os negócios de Siciliano começaram no final dos anos
90, com a compra e venda de carros. Depois, ele
passou a investir no mercado imobiliário em Vargem
Grande e em terraplanagem no vizinho, Jacarepaguá.
Abriu uma boate na Barra e mergulhou na política:
depois de duas candidaturas malsucedidas, conseguiu
se eleger vereador em 2016 com 13,5 mil votos –
menos de um terço dos conquistados por Marielle.
Há fortes indícios do envolvimento do vereador com
paramilitares – em escutas telefônicas autorizadas pela
Justiça em outro inquérito da Polícia Civil, ele
conversa com um miliciano e se despede com um “te
amo, irmão”. Uma investigação do Ministério Público
constatou que o nome de Siciliano aparece em mais de
oitenta transações imobiliárias em áreas dominadas
por paramilitares. Uma dessas áreas é Vargem
amo, irmão”. Uma investigação do Ministério Público
constatou que o nome de Siciliano aparece em mais de
oitenta transações imobiliárias em áreas dominadas
por paramilitares. Uma dessas áreas é Vargem
Grande, onde assessores de Marielle participaram, em
janeiro de 2018, de uma reunião na associação de
moradores de Novo Palmares, comunidade encravada
no bairro, para discutir programas de regularização
fundiária. O objetivo seria combater a grilagem de
terras praticada pela milícia no local.
Diante dos delegados e de Werneck, o sargento
Ferreira relatou que Orlando de Curicica era uma
espécie de capataz de Siciliano e ajudava o vereador
na grilagem de terras na Zona Oeste. Por causa das
ações comunitárias de Marielle na região, Siciliano
teria ficado irritado com a vereadora. “Ela peitava o
miliciano e o vereador. Os dois [Orlando e Marielle]
chegaram a travar uma briga por meio de associações
de moradores da Cidade de Deus e da Vila Sapê”,
afirmou Ferreira. A favela Vila Sapê fica entre os
bairros Curicica e Cidade de Deus.
Ferreira disse ainda ter ouvido os dois tramarem a
morte de Marielle em um restaurante da Zona Oeste,
em junho de 2017. “Eu estava numa mesa, a uma
distância de pouco mais de 1 metro dos dois. Eles
estavam sentados numa mesa ao lado. O vereador
em junho de 2017. “Eu estava numa mesa, a uma
distância de pouco mais de 1 metro dos dois. Eles
estavam sentados numa mesa ao lado. O vereador
falou alto: ‘Tem que ver a situação da Marielle. A
mulher está me atrapalhando.’ Depois, bateu forte
com a mão na mesa e gritou: ‘Marielle, piranha do
Freixo.’” Um mês antes do atentado – contou o
sargento –, Orlando de Curicica, mesmo preso na
penitenciária de Bangu 9, acusado de doze
homicídios, transmitiu a ordem para que o plano de
matar a vereadora fosse colocado em prática por seus
subordinados.
Werneck gravou toda a conversa com o PM Ferreira,
mas disse que só publicaria o relato se a testemunha
formalizasse o depoimento aos três delegados, o que
foi feito. A chefia de redação do jornal, no entanto,
preferiu aguardar o depoimento do policial aos
delegados da Delegacia de Homicídios, o que
ocorreria dias depois. Foram seis oitivas em três
semanas, realizadas no Círculo Militar da Praia
Vermelha, na Urca, para evitar a imprensa, que se
aglomerava diariamente em frente à sede da
delegacia, na Barra da Tijuca, atrás de novidades no
caso. Na quarta-feira, 9 de maio, a reportagem de
Werneck foi manchete d’O Globo: “Delator envolve
delegacia, na Barra da Tijuca, atrás de novidades no
caso. Na quarta-feira, 9 de maio, a reportagem de
Werneck foi manchete d’O Globo: “Delator envolve
vereador no assassinato de Marielle.”
A partir daquele dia, Siciliano e Orlando da Curicica
passaram a ser tratados como os principais suspeitos
pelos assassinatos. O vereador deu dois longos
depoimentos ao delegado Giniton Lages, sempre
rebatendo o relato da testemunha. Siciliano não
demorou a enxergar naquele enredo as digitais da
família Brazão.

Os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão são velhos


conhecidos da política carioca. Domingos, 54 anos, é o
segundo mais novo dos seis filhos de um casal de
portugueses radicados em Jacarepaguá. Ele foi o
primeiro da família Brazão a se aventurar nas urnas,
em 1996, quando conseguiu uma cadeira de vereador.
Dois anos mais tarde, elegeu-se deputado estadual
pelo PMDB, função que exerceu por dezessete anos.
Nesse período, Domingos acumulou um patrimônio
declarado de 14,5 milhões de reais, em valores
corrigidos.
Dono de uma rede de postos de combustíveis em
sociedade com os irmãos, o deputado foi investigado
corrigidos.
Dono de uma rede de postos de combustíveis em
sociedade com os irmãos, o deputado foi investigado
na Polícia Federal por um suposto envolvimento em
um esquema de adulteração de combustíveis e
sonegação fiscal, mas, por falta de provas, não chegou
a ser denunciado à Justiça. Em 2015, um ano após ser
reeleito pela quarta vez consecutiva, tornou-se
conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, onde
ficou até março de 2017, quando ele e mais quatro
conselheiros foram presos pela Lava Jato fluminense
na Operação Quinto do Ouro, acusados de corrupção.
Todos acabaram soltos nove dias depois, mas
permanecem afastados do TCE.
O irmão mais velho, João Francisco Inácio Brazão, o
Chiquinho, 57 anos, também foi eleito vereador em
sua primeira disputa eleitoral, em 2012, embalado pela
carreira política de Domingos. No pleito seguinte, foi
reeleito.
Os currais eleitorais dos irmãos Brazão e de Siciliano
espalham-se pela mesma região do Rio, os bairros da
Zona Oeste situados entre o Parque Nacional da
Tijuca e o Parque Estadual da Pedra Branca: Tanque,
Taquara, Pechincha, Curicica, Freguesia, Anil,
Gardênia Azul, Itanhangá, Rio das Pedras, Vargem
Grande, Vargem Pequena, Praça Seca e Recreio dos
Tijuca e o Parque Estadual da Pedra Branca: Tanque,
Taquara, Pechincha, Curicica, Freguesia, Anil,
Gardênia Azul, Itanhangá, Rio das Pedras, Vargem
Grande, Vargem Pequena, Praça Seca e Recreio dos
Bandeirantes. Juntos, esses locais, todos com maior ou
menor presença de milicianos, somam 527 mil
eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
Domingos Brazão costumava fazer campanha em Rio
das Pedras, como afirmou o vereador Nadinho na CPI
das Milícias, em 2008.
Em meados de abril do ano passado, antes da
publicação da reportagem de Antônio Werneck,
Chiquinho e Domingos convidaram Marcello Siciliano
para um almoço no Terraço Restaurante, no Centro do
Rio. Conforme relato de Siciliano sobre a conversa,
Domingos lhe disse que Chiquinho iria se candidatar
a deputado federal nas eleições de outubro. Como
sabia que o rival também planejava sua candidatura,
foi direto ao ponto: “Marcello, vou te pedir um favor.
Não me atrapalha, porque precisamos ganhar essa
eleição.” Dois interlocutores de Siciliano confirmaram
o diálogo à piauí. Chiquinho não quis se pronunciar
sobre o episódio. À polícia, Domingos negou ter
desavenças políticas com o rival da família.
Acuado pelo caso Marielle, depois das acusações
veiculadas em maio, Marcello Siciliano desistiu de
desavenças políticas com o rival da família.
Acuado pelo caso Marielle, depois das acusações
veiculadas em maio, Marcello Siciliano desistiu de
disputar as eleições de 2018. Chiquinho se elegeu
deputado federal pelo Avante – em todas as quinze
seções eleitorais da favela de Rio das Pedras ele foi o
campeão de votos.
Havia mais razões para suspeitar que os irmãos
Brazão tinham alguma influência sobre o depoimento
do sargento Ferreira ao jornalista Werneck. O trio de
delegados, antes de encaminhar Ferreira à Delegacia
de Homicídios, convidou o repórter para ouvir o
relato nas instalações da Superintendência da Polícia
Federal, e o próprio superintendente da PF no Rio,
Ricardo Saadi, ignorava a presença da testemunha ali.
Além disso, HK, um dos três delegados envolvidos na
história, era um bom amigo de Domingos Brazão e, na
época da delação, investigava Siciliano por
irregularidades fiscais na boate do vereador na Barra.
“Foi um depoimento feito para vazar para a imprensa.
Teve outro objetivo que não a investigação”, me disse
Marcelo Freixo.
Policiais federais que apuram o caso suspeitam que o
delator tenha sido levado até o trio de delegados por
Gilberto Ribeiro da Costa, um policial federal
Policiais federais que apuram o caso suspeitam que o
delator tenha sido levado até o trio de delegados por
Gilberto Ribeiro da Costa, um policial federal
aposentado muito próximo de HK e Lorenzo Pompílio
da Hora e que também foi assessor de Domingos
Brazão no Tribunal de Contas do Estado. Costa nega
ter participação no episódio: “Isso é um devaneio,
uma história fantasiosa. Já prestei depoimento na DH,
tudo foi esclarecido.” A advogada de Ferreira, Camila
Moreira Lima Nogueira, afirmou ter sido ela a
responsável por levar seu cliente até a PF: “Eu não
tinha acesso a ninguém da Polícia Civil […] Na PF,
também não tinha. Eu fui até lá porque tinha um
cliente que conhecia os delegados”, me disse por
telefone.

Menos de uma semana depois da publicação da


reportagem de Werneck com acusações do sargento
Ferreira contra Siciliano e Orlando de Curicica, o
delegado Giniton Lages foi ouvir esse último em
Bangu 9. Curicica admitiu ter se encontrado com
Siciliano em um restaurante da Zona Oeste, mas disse
que se limitou a cumprimentar o vereador. Também
negou ter participado das mortes de Marielle. No dia
seguinte, o advogado de Curicica convocou a
que se limitou a cumprimentar o vereador. Também
negou ter participado das mortes de Marielle. No dia
seguinte, o advogado de Curicica convocou a
imprensa para apresentar uma carta escrita pelo
cliente. No documento, o miliciano identifica
nominalmente o PM que o delatou – até então, os
jornais vinham omitindo a identidade dele – e o ataca.
“Não tenho qualquer envolvimento nesse crime
bárbaro”, escreveu. “O policial Rodrigo Ferreira não
tem qualquer credibilidade, haja vista o mesmo
chefiar as milícias do Morro do Banco [em Itanhangá,
Zona Oeste] em conjunto com o tráfico de drogas da
região.” A notícia sobre a carta, divulgada
inicialmente pelo jornal O Dia, teve pouco destaque na
edição impressa d’O Globo.
Dizendo-se ameaçado de morte no presídio, Curicica
conseguiu ser transferido em 9 de maio para a
penitenciária de Bangu 1, de segurança máxima.
Quarenta dias depois foi transferido novamente –
dessa vez para o presídio federal de Mossoró, no Rio
Grande do Norte, também de segurança máxima. Em
julho, a Polícia Civil prendeu dois policiais militares
suspeitos de integrar a milícia de Orlando de Curicica;
um deles teria participação nos assassinatos de
Marielle e de Anderson. O cerco ao miliciano se
fechava cada vez mais. Acuado, ele decidiu contra-
suspeitos de integrar a milícia de Orlando de Curicica;
um deles teria participação nos assassinatos de
Marielle e de Anderson. O cerco ao miliciano se
fechava cada vez mais. Acuado, ele decidiu contra-
atacar.
No final de agosto de 2018, Curicica pediu ao juiz
Walter Nunes da Silva Júnior, corregedor do presídio
federal em Mossoró, que o pusesse em contato com
um procurador do Ministério Público Federal. Queria
falar o que sabia. Por orientação do juiz, o advogado
de Curicica formalizou o pedido, e Silva Júnior
encaminhou o documento à procuradora Caroline
Maciel, coordenadora do grupo de direitos do cidadão
da instituição no Rio Grande do Norte. O depoimento
de Curicica a Maciel durou mais de uma hora. O
conteúdo era explosivo, mas não veio a público
naquele momento. Ao retornar de Mossoró, a
procuradora transcreveu as palavras do miliciano em
um documento e o encaminhou, em sigilo, para a
procuradora-geral da República, Raquel Dodge.
Alguns dias antes, em 19 de agosto, O Globo publicou
uma reportagem não assinada que tratava de uma
possível ligação entre a morte de Marielle e um grupo
de matadores de aluguel formado por milicianos,
chamado Escritório do Crime. Pela primeira vez, o
grupo era vinculado ao caso. Era uma reviravolta nas
de matadores de aluguel formado por milicianos,
chamado Escritório do Crime. Pela primeira vez, o
grupo era vinculado ao caso. Era uma reviravolta nas
investigações.
A reportagem dizia que o Escritório do Crime é
suspeito de praticar assassinatos por valores que
variam entre 200 mil reais e 1 milhão de reais,
conforme o perfil da vítima e a complexidade da ação.
A fama da gangue viria do fato de não deixar rastros
de seus crimes. Uma de suas bases territoriais é
justamente a região de Rio das Pedras, por onde
passou o Cobalt prata com os matadores da vereadora
do PSOL. O grupo de sicários se formou no início
deste século com a função de proteger os bicheiros na
violenta disputa por territórios. O Ministério Público
suspeita que o Escritório do Crime esteja envolvido
em pelo menos dezenove homicídios não esclarecidos
nos últimos quinze anos no Rio de Janeiro.
A reportagem d’O Globo baseava-se no depoimento à
Polícia Civil, dias antes, de um “integrante do bando”
que andou pela região onde Marielle e o motorista
Anderson foram mortos. Ele havia circulado pelo local
minutos antes do crime, como descobriu um
rastreamento feito pela polícia em seu celular. A
identidade do suposto integrante do Escritório do
minutos antes do crime, como descobriu um
rastreamento feito pela polícia em seu celular. A
identidade do suposto integrante do Escritório do
Crime foi revelada apenas em janeiro deste ano.
Tratava-se do major Ronald Paulo Alves Pereira. O
policial militar, de 43 anos, foi acusado de participar,
em 2003, da chamada chacina da Via Show, na qual
quatro jovens, após terem sido sequestrados na saída
de uma boate em São João de Meriti, na Baixada
Fluminense, foram cruelmente assassinados. Apesar
de estar respondendo na Justiça pelo crime – o júri
está previsto para abril deste ano –, Pereira foi
promovido de capitão a major alguns anos depois.
Quando depôs a respeito do Escritório do Crime, em
agosto último, estava prestes a se tornar coronel, posto
mais alto da Polícia Militar.
O major é apontado como um dos líderes do Escritório
do Crime, junto com o ex-capitão da PM Adriano
Magalhães da Nóbrega, 42 anos. Quando atuava no
Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio, o
Bope, Nóbrega tornou-se conhecido por sua
habilidade com todo tipo de armas – era atirador de
rara precisão – e pela crueldade com que comandava
os treinamentos entre o fim dos anos 90 e o início dos
anos 2000. “Ele batia nos alunos com barra de ferro.
rara precisão – e pela crueldade com que comandava
os treinamentos entre o fim dos anos 90 e o início dos
anos 2000. “Ele batia nos alunos com barra de ferro.
Chegou a quebrar o braço de um e a estourar o rim de
outro”, me disse um policial que atuou no batalhão na
época.
Tanto Adriano Nóbrega quanto Ronald Pereira foram
homenageados na Assembleia Legislativa do Rio com
menções honrosas propostas pelo então deputado
estadual Flávio Bolsonaro. Para justificar a
homenagem a Nóbrega, que ocorreu em 2003, Flávio
argumentou que o então capitão prestava “serviços à
sociedade, desempenhando com absoluta presteza e
excepcional comportamento nas suas atividades”.
Nóbrega havia sido apresentado a Flávio por um
antigo colega do Bope, Fabrício Queiroz – o ex-
assessor do filho de Jair Bolsonaro que está no centro
do escândalo envolvendo repasses suspeitos de
dinheiro para Flávio na Alerj.
Em 2005, após prender doze traficantes num morro no
Rio, Nóbrega ganhou outra homenagem, também
promovida por Flávio: a Medalha Tiradentes, a mais
alta honraria da Alerj.
Quando ainda estava no Bope, Nóbrega envolveu-se
com o jogo do bicho, atuando como segurança, e
começou a ser acionado para praticar assassinatos a
alta honraria da Alerj.
Quando ainda estava no Bope, Nóbrega envolveu-se
com o jogo do bicho, atuando como segurança, e
começou a ser acionado para praticar assassinatos a
mando dos chefões da jogatina. Foi preso em 2011 em
uma operação policial contra os contraventores e, três
anos mais tarde, acabou expulso da PM. Isso não
impediu Flávio Bolsonaro de empregar a mulher e a
mãe do ex-capitão em seu gabinete na Assembleia
Legislativa – a primeira desde 2007; a segunda, a
partir de 2016. As duas só foram exoneradas em
novembro do ano passado, depois que o nome de
Nóbrega surgiu nas investigações do caso Marielle.
Em janeiro deste ano, depois que a ligação de Flávio
com o ex-PM foi revelada pela imprensa, o atual
senador divulgou uma nota em que dizia sempre
defender agentes de segurança pública, mas atribuiu a
nomeação das duas mulheres a uma indicação de
Queiroz.
Flávio foi o principal cabo eleitoral da campanha de
Wilson Witzel, do PSC, ao governo fluminense. O
apoio do filho de Bolsonaro catapultou o então
desconhecido ex-juiz federal para a vitória no segundo
turno, em 28 de outubro. Durante a campanha, Witzel
apareceu no alto de um caminhão no Centro de
Petrópolis, na serra fluminense, ao lado de dois
turno, em 28 de outubro. Durante a campanha, Witzel
apareceu no alto de um caminhão no Centro de
Petrópolis, na serra fluminense, ao lado de dois
candidatos a deputado pelo PSL, partido dos
Bolsonaro. Ambos exibiam orgulhosos uma placa de
rua com o nome de Marielle rasgada em dois pedaços.
Segurando a placa mutilada, o então candidato a
deputado estadual Rodrigo Amorim bradou: “Esses
vagabundos, eles foram na Cinelândia [Centro do Rio]
e, à revelia de todo mundo, eles pegaram uma placa
da praça Marechal Floriano e botaram uma placa
escrito rua Marielle Franco.” E continuou: “Eu e
Daniel [Silveira, candidato a deputado federal] essa
semana fomos lá e quebramos a placa. A gente vai
varrer esses vagabundos. Acabou PSOL, acabou
PCdoB, acabou essa porra aqui. Agora é Bolsonaro,
porra.” Tanto ele quanto Silveira foram eleitos.
Enquanto a plateia vibrava ao fundo da imagem,
Witzel, que filmava tudo com o celular, virou o
aparelho na própria direção e disse: “É isso aí, pessoal,
olha a resposta.” Dias depois, ele pediria desculpas à
família de Marielle.

OEscritório do Crime reapareceria na imprensa em 1º


de novembro, quando os jornalistas Vera Araújo e
OEscritório do Crime reapareceria na imprensa em 1º
de novembro, quando os jornalistas Vera Araújo e
Chico Otávio publicaram no site do
jornal O Globo uma entrevista com Orlando da
Curicica feita por escrito. O carioca Otávio construiu
sua reputação com reportagens investigativas sobre
políticos do Rio. Em parceria com Araújo, o repórter
havia mergulhado na cobertura do caso Marielle –
“sem dúvida o maior que já cobri nessa área”, ele me
disse.
Na entrevista de Curicica, realizada na última semana
de outubro, o miliciano resumiu o depoimento que
tinha dado no final de agosto à procuradora Caroline
Maciel, em Mossoró. Disse que a Polícia Civil,
incluindo a cúpula da corporação, não investigava o
Escritório do Crime porque recebia propinas do jogo
do bicho, ao qual os matadores eram ligados. “O que
tenho a dizer, ninguém gostaria de ouvir: existe no Rio
hoje um batalhão de assassinos agindo por dinheiro, a
maioria oriunda da contravenção. A DH [Delegacia de
Homicídios] e o chefe de Polícia Civil, Rivaldo Barbosa,
sabem quem são, mas recebem dinheiro de
contraventores para não tocar ou direcionar as
investigações, criando assim uma rede de proteção
sabem quem são, mas recebem dinheiro de
contraventores para não tocar ou direcionar as
investigações, criando assim uma rede de proteção
para que a contravenção mate quem quiser. Diga, nos
últimos anos, qual caso de homicídio teve como alvo
de investigação algum contraventor?”, questionou o
miliciano.
Curicica também acusava o delegado Giniton Lages,
que deu início às investigações, de pressioná-lo a
assumir a autoria da morte de Marielle. “No dia 10 de
maio, o delegado […] foi me ouvir, mas já chegou
dizendo que tinha ido lá para ouvir eu falar que o
Siciliano tinha me pedido para matar a vereadora. Eu
disse que isso não era verdade. Ele disse: ‘Fala que o
vereador [Siciliano] te procurou e você não quis, e
outra pessoa fez.’ Como me recusei, ele disse que ia
futucar a minha vida e colocar inquéritos na minha
conta, que me mandaria para Mossoró e, de fato, foi o
que fez. Mas o tempo todo percebi que eles [os
investigadores] estavam perdidos, sem caminho
nenhum.”
Procurado pela piauí, Barbosa não quis se pronunciar.
Na época, por meio de nota, refutou as acusações
feitas no jornal. Lages negou ter ameaçado o miliciano.
“Palavras o vento leva”, me disse o delegado.
Os jornalistas Vera Araújo e Chico Otávio, que
Na época, por meio de nota, refutou as acusações
feitas no jornal. Lages negou ter ameaçado o miliciano.
“Palavras o vento leva”, me disse o delegado.
Os jornalistas Vera Araújo e Chico Otávio, que
pretendiam publicar a entrevista de Curicica no jornal
impresso que circularia em 2 de novembro, tiveram de
antecipá-la no site d’O Globo ao saberem que o então
ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann,
convocara uma entrevista para o fim da tarde do dia
1º. Em decorrência do depoimento do miliciano ao
Ministério Público Federal no Rio Grande do Norte, o
ministro anunciou na coletiva a abertura de inquérito
na Polícia Federal para investigar uma possível
obstrução de Justiça por parte da Polícia Civil
fluminense no caso Marielle. “A investigação [do
homicídio] de Marielle continua em nível estadual.
Continua com polícia e Ministério Público estadual. O
que se está fazendo é criar um outro eixo, que vai
investigar aqueles que – sejam agentes públicos, sejam
aqueles ligados ao crime organizado ou a interesses
políticos – estão procurando fazer de tudo para
impedir que se elucide esse crime. É uma investigação
da investigação”, afirmou Jungmann aos jornalistas.
Dias antes, o ministro se reunira em Brasília com
Raquel Dodge e com a coordenadora do MPF na área
criminal, Raquel Branquinho, para discutir quais
Dias antes, o ministro se reunira em Brasília com
Raquel Dodge e com a coordenadora do MPF na área
criminal, Raquel Branquinho, para discutir quais
medidas seriam adotadas depois do depoimento de
Orlando de Curicica. O trio teve a ideia de aproveitar
as acusações do miliciano para pedir à PF que entrasse
no caso por meio de um inquérito que apurasse as
ações da Polícia Civil no caso Marielle. Uma equipe da
Polícia Federal em Brasília, formada por um delegado
e por seis agentes, mudou-se para o Rio e passou a
trabalhar com a máxima discrição, em endereço
sigiloso, longe da Superintendência da PF.

No início da noite de 14 de novembro, quarta-feira, o


delegado Giniton Lages assistia ao telejornal local da
Globo no Rio quando tomou um susto. “O RJ2 teve
acesso com exclusividade ao inquérito que apura as
execuções da ex-vereadora Marielle Franco e de seu
motorista, Anderson Gomes. Oito meses depois, a
polícia acumula milhares de páginas, mas ainda tem
poucas conclusões”, disse o apresentador do
telejornal. A reportagem afirmava que, apesar de o
Escritório do Crime ser citado no inquérito, até aquele
momento a principal linha de investigação da
Delegacia de Homicídios ainda apontava para o
Escritório do Crime ser citado no inquérito, até aquele
momento a principal linha de investigação da
Delegacia de Homicídios ainda apontava para o
vereador Marcello Siciliano e o miliciano Orlando de
Curicica. Parte dos papéis, em páginas digitalizadas,
havia vazado para o jornalista Leslie Leitão, produtor
da TV Globo no Rio, que acompanha o caso Marielle
desde o início – depois de atuar na imprensa como
repórter de esportes e de polícia, ele migrou em 2017
para a emissora carioca.
Lages supôs que a Globo preparava uma reportagem
especial sobre o caso Marielle para o Fantástico do
domingo seguinte, dia 18, o que, segundo Leitão, não
estava nos planos da emissora. O delegado deixou o
feriado de 15 de novembro passar e, na manhã do dia
seguinte, bateu à porta do juiz Gustavo Gomes Kalil,
da 4ª Vara Criminal do Rio, onde tramita o inquérito
do caso. Pediu ao juiz que concedesse liminar
impedindo a emissora de citar detalhes da
investigação. No início da tarde, Kalil acatou o pedido:
a Globo foi proibida de falar do inquérito em
reportagens, sob pena de pagar uma multa de 1
milhão de reais a cada citação do documento. “O
vazamento do conteúdo dos autos é deveras
prejudicial, pois expõe dados pessoais das
milhão de reais a cada citação do documento. “O
vazamento do conteúdo dos autos é deveras
prejudicial, pois expõe dados pessoais das
testemunhas, assim como prejudica o bom andamento
das investigações, obstaculizando e retardando a
elucidação dos crimes hediondos em análise”,
justificou o magistrado.
A emissora foi notificada da decisão ainda naquele
dia. Coube aos apresentadores Alexandre Garcia e
Giuliana Morrone ler um editorial no Jornal
Nacional daquela noite: “A TV Globo quer assegurar o
direito constitucional do público de se informar sobre
o que podem ser as falhas do inquérito que em oito
meses não conseguiu avançar na elucidação dos
bárbaros assassinatos da vereadora Marielle Franco e
do motorista Anderson. E deseja fazer isso seguindo
seus princípios editoriais, o que significa informar sem
prejudicar testemunhas ou investigações.” A Globo
recorreu, mas o Tribunal de Justiça manteve a decisão
de Kalil. A emissora acatou a medida e não voltou a
exibir reportagens sobre o inquérito.
O delegado Lages critica o comportamento da mídia
no caso Marielle. “O jornalista deve ter um freio ético.
A imprensa atrapalha demais. O tempo do inquérito
não é o meu, nem o do Freixo, nem o da Globo. É o
tempo dele.”
no caso Marielle. “O jornalista deve ter um freio ético.
A imprensa atrapalha demais. O tempo do inquérito
não é o meu, nem o do Freixo, nem o da Globo. É o
tempo dele.”

OMinistério Público Estadual do Rio passou por uma


dança de cadeiras importante no decorrer das
investigações. Desde o início, o caso Marielle esteve
sob os cuidados de Homero das Neves Freitas Filho,
titular da 23ª Promotoria de Investigação Penal,
responsável por acompanhar os inquéritos da
Delegacia de Homicídios na capital. Em junho de
2018, em entrevista ao jornal O Globo, o promotor
esbanjava otimismo: “Dentro dos recursos
disponíveis, considero que os avanços na investigação
são grandes, com reais possibilidades de identificação
e prisão dos executores e mandantes.”
Mas as semanas passavam, e o inquérito se arrastava,
sem rumo. Pressionado, em 21 de agosto o
procurador-geral de Justiça, Eduardo Gussem, decidiu
promover Freitas Filho à Procuradoria – ele passaria a
atuar em ações que tramitavam em segunda instância,
no TJ do Rio, e deixaria o caso Marielle. A mudança
coincidiu com o depoimento em que Curicica acusava
a Delegacia de Homicídios de negligência na
investigação. Freitas Filho se aposentou em 1º de
coincidiu com o depoimento em que Curicica acusava
a Delegacia de Homicídios de negligência na
investigação. Freitas Filho se aposentou em 1º de
fevereiro deste ano. Procurado pela piauí, não quis se
manifestar.
Para o lugar dele, o procurador-geral nomeou a
promotora Letícia Emile Alqueres Petriz, 38 anos, que
há uma década atua no Ministério Público. Petriz
decidiu então pedir auxílio ao Gaeco (Grupo de
Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado),
um setor especializado do Ministério Público. Foi
prontamente atendida. A direção do Gaeco incumbiu
a promotora Simone Sibilio do Nascimento de auxiliar
Petriz nas investigações do caso Marielle.
Antes de ingressar no Ministério Público, em 2003,
Nascimento, 46 anos, foi policial militar – chegou ao
posto de capitã – e delegada na Polícia Civil. Herdou
dos tempos de PM o rigor e a disciplina profissional.
Formou-se em direito pela PUC-Rio em 1999 com o
estudo “Controle externo do mp na atividade
policial”. O título do trabalho já prenunciava os
embates que ela teria com a DH no caso Marielle.
Diferentemente do promotor Homero Freitas Filho,
Petriz e Nascimento sempre suspeitaram da
veracidade das declarações da testemunha que acusou
Diferentemente do promotor Homero Freitas Filho,
Petriz e Nascimento sempre suspeitaram da
veracidade das declarações da testemunha que acusou
Siciliano e Curicica pelo crime. Na investigação que
passaram a fazer com a ajuda dos policiais federais
vindos de Brasília, as duas apostaram suas fichas no
envolvimento do Escritório do Crime na morte de
Marielle. Com autorização judicial, o grupo já obteve
trinta quebras de sigilo bancário e oitenta quebras de
sigilo telefônico de alvos ligados ao grupo miliciano.
Em algumas conversas gravadas, o ex-capitão
Nóbrega é chamado de “patrãozão” pela milícia de
Rio das Pedras. Em um dos diálogos, um miliciano
afirma ter recebido quatro caixas de uísque de um
deputado – o parlamentar não é identificado pelo
Gaeco. Em 21 de janeiro, as promotoras recorreram à
Draco (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas
Organizadas), da Polícia Civil – e não à Delegacia de
Homicídios – para cumprir os mandados de prisão, na
manhã do dia seguinte, de treze membros do
Escritório do Crime. Entre eles estavam o ex-capitão
Adriano Nóbrega e o major Ronald Pereira. A
operação foi batizada de “Os Intocáveis” – era uma
maneira de realçar a impunidade que havia anos
pairava sobre o grupo. A fim de evitar vazamentos, os
operação foi batizada de “Os Intocáveis” – era uma
maneira de realçar a impunidade que havia anos
pairava sobre o grupo. A fim de evitar vazamentos, os
celulares de todos os policiais envolvidos na operação
foram confiscados até o dia seguinte. O cuidado não
foi suficiente: oito dos trezes alvos conseguiram
escapar do cerco policial, e seis continuavam foragidos
até o fim do mês do passado. Entre eles, Nóbrega.
A promotora Petriz fez questão de ir à casa do major
Pereira, em Curicica, para acompanhar sua prisão. Ao
vê-lo algemado, ela foi direto ao assunto: “O que você
tem a dizer sobre o assassinato de Marielle?” O PM
abaixou a cabeça e ficou em silêncio. Nem Petriz nem
Nascimento quiseram falar com a piauí. A defesa do
major nega tanto o envolvimento dele com o Escritório
do Crime quanto a participação na morte de Marielle.
Às 6h15 do dia 21 de fevereiro, exatamente um mês
após a execução da operação “Os Intocáveis”,
Domingos Brazão levou um susto ao se deparar com
quinze agentes da PF dentro de sua casa. Com
uniformes camuflados, capacetes e metralhadoras, eles
arrombaram a porta da residência de Brazão, em um
condomínio fechado na Barra da Tijuca. Os policiais
cumpriam um dos oito mandados de busca e
apreensão para “apurar possíveis ações que estariam
sendo praticadas com o intuito de obstacularizar as
condomínio fechado na Barra da Tijuca. Os policiais
cumpriam um dos oito mandados de busca e
apreensão para “apurar possíveis ações que estariam
sendo praticadas com o intuito de obstacularizar as
investigações dos homicídios de Marielle e
Anderson”, conforme nota divulgada pela PF. Os
outros alvos eram o delegado HK, o agente
aposentado Gilberto Costa, o sargento Rodrigo
Ferreira e sua advogada, Camila Nogueira.
As promotoras e a Polícia Federal já estão certas da
participação do grupo de assassinos no crime contra a
vereadora. Quem mandou matar e por qual motivo
são questões ainda sem respostas. “O crime se
espalhou pelo poder constituído do Rio. Tem bancada.
É uma metástase sem controle. O estado não sai mais
dessa situação por suas próprias mãos”, me disse uma
autoridade que participa das investigações do caso
Marielle.
ALLAN DE ABREU
Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira,
ambos publicados pela editora Record
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