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Universidade Federal Fluminense

Instituto de História
Curso de História
Disciplina: História e Divulgação Científica
Professor: Luciano Raposo de Almeida Figueiredo

TRABALHO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Apresentado por:
DOUGLAS COUTINHO DIAS

Niterói
13/04/19
Título: “O ritmo do Brasil”1

Subtítulo: O debate sobre as origens da música popular em nosso país e o que


essa investigação diz sobre a nossa identidade

Se alguém te perguntasse hoje de onde vem a música tipicamente popular


brasileira, o que você responderia? Talvez, levado pela sigla MPB (Música Popular
Brasileira), você responderia que nossa música é representada por nomes como
Chico Buarque, Elis Regina, Gilberto Gil, Nara Leão... Outros na certa concluiriam
que o samba é a representação fiel da brasilidade, o som do morro, a voz do pobre,
a conexão com as origens africanas. É verdade que os mais incomodados com o
clichê do brasileiro “sambista e boleiro” torceriam o nariz, e quem sabe fariam
questão de identificar no funk ou no rap manifestações “abrasileiradas” de uma
influência estrangeira. Todos estariam corretos, e equivocados ao mesmo tempo.
Parece loucura, mas a questão é mais profunda e interessante. Sigamos no campo
do hipotético. Imagine agora que você foi agraciado com a raridade de ser um dos
entrevistados para qualquer pesquisa realizada pelo IBGE. Durante o processo, o
valoroso trabalhador, de cuja existência você até o momento duvidava, lhe pergunta
sobre a sua origem. De onde veio? Sua resposta é simples e direta: enuncia cidade,
estado, país, talvez até o bairro, para ser detalhista. Ele insiste na pergunta. Não
quer saber de lugar geográfico. O que lhe formou enquanto ser? Que experiências,
quais indivíduos foram mais marcantes? É evidente que tais perguntas lhe fariam
pensar mais, recordar do passado, questionar aquilo que fundamenta sua ações, a
personalidade... Assim é uma investigação de origens históricas. Suas respostas
dependeriam da imagem que deseja passar enquanto representação de si mesmo
ao entrevistador. Da mesma forma, a escolha sobre qual seria a melhor
representação sobre a música popular tipicamente brasileira: não falamos apenas de
preferência ou gosto, mas a demarcação de uma identidade.
Para analisar como a questão das origens é pensada na música popular
brasileira, vamos nos concentrar basicamente em duas grandes correntes. A
primeira interpretação busca responder exatamente à provocação que lançamos no

1 Texto adaptado em formato de divulgação do original: NAPOLITANO, Marcos; WASSERMAN, Maria Clara.
“Desde que o samba é samba: a questão das origens no debate historiográfico sobre a música popular brasileira”.
Rev. bras. Hist., São Paulo , v. 20, n. 39, p. 167-189, 2000 . Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882000000100007&lng=en&nrm=iso>.
Acesso: 15 nov. 2017.
parágrafo anterior: qual a nossa raiz, aquilo que autenticamente representa nossa
música? Outro grupo, no entanto, procura não responder mas sim criticar a própria
pergunta. Há um traço musical mais autenticamente brasileiro do que outros? O que
definiria um ritmo ou característica de expressão musical como “mais brasileira”? De
fato, pensar a riqueza de uma diversidade cultural como a exibida por nosso país em
termos de origens parece um empobrecimento histórico. Não se trata de negar as
produções culturais que aqui se desenvolveram de forma específica, mas, ao
contrário, considerar a pluralidade de sons que constituíram a base de nossa música
em si como a expressão máxima de uma brasilidade.
E já que falamos em brasilidade, não podemos deixar de retornar ao
movimento modernista para entender melhor o problema. Mário de Andrade e
Renato de Almeida, dois dos expoentes do movimento, preocuparam-se em
compreender durante os anos 20 e 30 o que caracterizava nossa identidade
nacional, a brasilidade. Para Mário de Andrade, a preocupação em encontrar uma
identidade musical e nacional para o Brasil vai remeter à fixação dos traços da
música popular desde finais do século XVIII, quando já podiam ser notadas "certas
formas e constâncias brasileiras" no lundu, na modinha, na sincopação. Mais tarde,
ao longo do século XIX, verificou-se a fixação das danças dramáticas, como os
reisados, as cheganças, congos e outras manifestações folclóricas. Finalmente, em
relação às primeiras décadas do século XX, não é de admirar que o literato afirme
que a música popular brasileira é a mais completa, mais totalmente nacional, “mais
forte criação de nossa raça até agora”. Nessa altura, a modinha já se transformara
em música popular, o maxixe e o samba haviam surgido, formaram-se conjuntos
seresteiros, conjuntos de "chorões", e haviam se desenvolvido inúmeras danças
rurais. A arte nacional estava então feita na "inconsciência do povo", sendo a arte
popular a alma desta nacionalidade. As pesquisas relacionadas ao folclore brasileiro
tem seu grande ápice durante este período, pois os entusiastas do movimento
acreditavam que seria esta a melhor forma de mergulhar no universo da cultura
tipicamente popular. Entende-se a nacionalidade através da busca do “primitivo”, da
manifestação cultural primária, anterior aos atropelos da civilização. O popular
estava valorizado na medida em que ofereceria a matéria-prima para se esboçar os
traços gerais da identidade brasileira. A música puramente brasileira seria o
resultado dessa busca de origens populares.
É claro que mesmo dentro desta corrente a polêmica permanece viva.
Peguemos o samba, por exemplo. O ritmo era alvo e palco de diversas disputas no
início do século, sobre qual seria o verdadeiro samba. Seria o samba baiano ou o
praticado na Estácio, o samba de malandro? Tem influência de ritmo marcada pelo
maxixe ou pela marcha? Com o avanço do rádio como meio de comunicação e a
política varguista de perseguição à prática da vagabundagem, comumente
associada á boemia do sambista, retratado com navalha no bolso e lenço no
pescoço, surge a necessidade de estabelecimento do que seria a identidade do
sambista e do samba enquanto expressão cultural. Contra a indústria que tentava
pasteurizar o samba, organizando-o e modificando-o, o "morro" surge como um
território mítico, lugar da "roda" onde se praticava o "verdadeiro" samba. A imagem
da "roda de samba" voltaria à cena musical em vários momentos da história da
música brasileira, sempre utilizada como imagem crítica à industrialização e à
individualização da criação e audição musicais. A "roda de samba" seria o lugar do
encontro, do coletivo, da pureza, da resistência, onde a criatividade daquele grupo
identitário era colocada como arma de enfrentamento ao peso da opressão. Essa
leitura, que foi imortalizada pelo livro Na Roda do Samba, de Francisco Vagalume,
enfrenta oposição ferrenha de todos aqueles que sentiam-se parte do universo do
samba mas não sei encaixavam nas origens tidas como “puras” do ritmo. Mas
também era contraposta por um discurso nacionalista, de integração, que afirmava o
samba como elemento de todo o Rio de Janeiro, não apenas do morro, onde
nasceu. Cada região da cidade do Rio de Janeiro havia "temperado" as marcas
desta origem, criando um idioma musical próprio. Daí o sucesso popular do ritmo.
Para os defensores desta ideia mais integrada, o rádio deixa de ser um inimigo
opressor para tornar-se um aliado indispensável. Populariza-se o samba, e assim
ele permanece cada vez mais vivo. Outros na certa argumentariam o efeito
contrário: quanto mais se populariza, mais se “mercadologiza”, ou seja, mais
integrado às exigências de uma indústria cultural deve se tornar. Morre aos poucos,
assim, pela perda de identidade original. Tendo em vista esta conjuntura mais ampla,
o famoso debate musical entre Noel Rosa (branco, de classe média, morador da Vila
Isabel) e Wilson Batista (negro, pobre, freqüentador da "marginalidade" boêmia da
Lapa), ocorrido entre 1933 e 1935, em torno das "qualidades" do malandro e do
lugar do samba "autêntico", deixa de ser expressão de vaidades e idiossincrasias
pessoais. Torna-se altamente emblemático das tensões em torno do processo de
redefinição cultural e estética daquele gênero.