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GUERREIRO RAMOS, UM PÓS-COLONIALISTA PORQUE NEGRO

Francisco Sócrates Costa de Abreu

Ensaio apresentado à disciplina


Pensamento Político Brasileiro do
Curso de Ciências Sociais da UFC.
Prof. Dr. Valmir Lopes

Academicamente, considera-se o texto de Victor Nunes Leal, Coronelismo, enxada e voto: o


município e o regime representativo no Brasil (1949), como o trabalho inaugural da ciência política
brasileira. Em sua tentativa de conseguir um posto de titular na Faculdade Nacional de Filosofia
(FNFi), Leal produz um texto com fundamentação metodológica tida como de cunho moderno, ou
seja, valendo-se da
[...] combinação do tratamento teórico e conceitual com cuidadosa pesquisa empírica. [...] a
preocupação com a precisão conceitual e o esboço de uma teoria que poderíamos chamar de
médio alcance (o sistema coronelista) combinam-se com o recurso aos dados quantitativos do
IBGE, disponíveis no censo de 1940 e nos anuários, aos Anais e Diário do Congresso, e aos
jornais da época e às pesquisas sociológicas e antropológicas que começavam a ser produzidas.
(CARVALHO, 2012, s./p).

Até então, o pensamento político brasileiro pode ser considerado, sem desmerecer seu valor
analítico e principalmente histórico, como ensaístico, com explicações para a prática política nacional
desde o séc. XIX. É dessa tradição que advêm importantes conceitos e temas, retomados
constantemente no discurso social em torno das explicações sobre o país, como patronato brasileiro
(patrimonialismo), corporativismo, autoritarismo etc. Poderíamos pensar nesse contexto como uma
disputa de perspectivas sobre como deveria ser o Estado nacional, exaltando ora a necessidade de
centralização ora de pulverizá-lo republicanamente, quando não afirmando sua desnecessidade
(Tavares Bastos, José Bonifácio, Silvio Romero, Oliveira Vianna); perpassando a escravidão como
instituição total (Joaquim Nabuco); quem seriam seus agentes de interesse, sua força estruturante; até a
confusão entre Estado e Governo (Alberto Torres, Manuel Bonfim).

A racionalidade “científica moderna”, durante esse período, segundo Florestan Fernandes, não
teve condições de se estabelecer devido, principalmente, a estes obstáculos: os que emanavam da
incompatibilidade da ordem patrimonial com a livre exploração do pensamento racional; e as que
provinham de resistências culturais do meio aos fundamentos da concepção científica do mundo.
Ambos encarnados no regime escravocrata e senhorial, para o qual tais obstáculos operavam de
maneira uniforme. (FERNANDES, 1980, p. 30).

Com o solapamento desse regime e a transição para um regime de classes, pode-se sentir um
“[...] crescimento, dentro da ordem patrimonialista (que, igualmente, teve seu solapamento iniciado),
de atividades que pressupunham o recurso cotidiano a certas técnicas de pensamento racional.”
(FERNANDES, 1980, p. 32). Esse fato, ligado ao crescente aumento da massa de profissionais
liberais, dá margem ao surgimento de uma Inteligentsia, que, por volta do terceiro quartel do séc. XIX,
era composta por indivíduos que não reagiam de modo uniforme às pressões conservadoras das
camadas dominantes. É justamente aí que surgem as primeiras tentativas de explorar a reflexão em
nível sociológico.
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Esta emerge lentamente, como uma crítica econômica e político-administrativa ou como uma
crítica jurídico-social da ordem patrimonialista. Mas logo assume o caráter definido de um
recurso de interpretação, que permitia compreender as origens sociais e as vinculações
estruturais de segmentos da sociedade brasileira com o seu contexto, ou oferecia uma
perspectiva para a discussão normativa do problema do progresso humano, visto em termos das
condições de formação e de evolução da sociedade brasileira ou nas suas relações com os
fatores da vida em sociedade. (FERNANDES, 1980, p. 33).

Ainda nesse processo de desagregação da sociedade escravocrata e senhorial, Florestan enxerga


mais dois fatores importantes para o desenvolvimento da sociologia no Brasil. Os movimentos
abolicionistas, que permitiram uma ampliação do campo de análise, que pode, pela primeira vez, estar
acima do influxo do “poder dos costumes” e do “caráter sagrado das instituições”. E as consequências
intelectuais mesmo da desagregação do regime, que, no entanto, ainda apareciam como pensamentos
de intervenção prática, quando o conhecimento objetivo tinha por fundo a intenção de formulação de
uma política realista, de acordo com os interesses nacionalistas.

Os desdobramentos dessa desagregação seriam “[...] a formação de uma mentalidade nova, a


criação de um horizonte intelectual médio menos intolerante e conservador e, enfim, a autonomia do
pensamento racional no sistema sócio-cultural.” (FERNANDES, 1980, p. 36, grifo meu).

Mesmo sob influência positivista desde fins do séc. XIX; da secularização das atitudes e dos
modos de compreender a natureza humana, a origem ou o funcionamento das instituições e os motivos
do comportamento humano; e de um processo de racionalização que projetou na esfera da ação
coletiva a ambição de conhecer, explicar e dirigir o curso dos acontecimentos, das relações dos
homens com o universo às condições de existência social (FERNANDES, 1980, p. 31), é apenas com a
institucionalização universitária que se passa a um modelo de explicação que ultrapassa o diletantismo
e os bons insights para se encontrar às voltas com as exigências de construção de trabalho intelectual
como o fez Victor Nunes Leal.

Na construção desse quadro brasileiro, Florestan Fernandes tem por fundo e modelo a
sociedade europeia moderna e sua assunção da ciência como um motor para sua dinâmica. Ao colocar
a questão nesses termos, equipara a revolução burguesa na Europa à desagregação do regime
escravocrata e senhorial no Brasil, quando cria as condições para a transformação do ambiente
cultural. Atendendo à secularização e à racionalização, em uma primeira etapa, essa transformação foi
alcançada quando o pensamento racional pôde se libertar dos controles sociais que confinavam sua
influência aos imperativos morais ou religiosos e aos interesses sociais ou econômicos da ordem social
estabelecida. E, em uma segunda etapa, quando o pensamento racional passou a ser aplicado,
sistematicamente, à crítica dos fundamentos da ordem social: primeiro, na esfera cultural; e, em
seguida, à própria organização da sociedade como um todo.

Essa análise1, segundo o próprio Florestan, seria o exemplo da investigação assentada na


preocupação dominante de subordinar o labor intelectual, no estudo dos fenômenos sociais, aos
padrões de trabalho científico sistemático com capacidade de levantamento sócio-histórico e
investigação positiva que o permitem construir um modelo teórico. (FERNANDES, 1980, p. 28).

Em O padrão do trabalho científico, Florestan Fernandes (1980) cita Guerreiro Ramos como
exemplo de uma tendência à corrupção do equilíbrio, no mundo da ciência, entre os “móveis
positivos” e os “móveis extracientíficos” das investigações, ao ceder aos influxos do meio social
ambiente (RAMOS, 1996, p. 15-6). Ao retomar a crítica, Guerreiro Ramos não tenta se defender nos

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Extraída de Desenvolvimento Histórico-Social da Sociologia no Brasil, artigo compilado em A sociologia do Brasil, presente nas REFERÊNCIAS.
3

mesmos termos e condições em que foi questionado. Para este, a sociologia tem um caráter
fundamentalmente diferente do padrão cientificista colocado em pauta por Florestan.

Guerreiro Ramos “[...] imaginava a sociologia com uma espécie de ‘salvação’, corpo teórico
cuja vocação seria ‘tornar-se um saber vulgarizado’ […]. Dito de outra forma, qualquer tentativa de
generalização do saber é uma quimera, ele se caracteriza por sua regionalização, adaptação forçada às
sociedades nas quais se implanta.” (ORTIZ apud FIGUEIREDO; GROSFOGUEL, 2007, p. 38).

No prefácio à segunda edição de A redução sociológica, Ramos anuncia que, desde 1953 – a
segunda edição é de 1965 –, tem em mente revisar todo o quadro no qual vinha se desenvolvendo o
trabalho sociológico no Brasil, tendo por intenção uma fundamentação metodológica do trabalho
sociológico nacional. E, de acordo com sua proposta, ao modelo tradicional com que se procedia à
investigação sociológica deveria ser negado o caráter de cientificidade. Nesse modelo, vê o reflexo de
uma deficiência da sociedade global, a dependência, manifesta na forma de alienação, de um
servilismo com que se aquiesce à produção estrangeira. Consequência, via de regra, de um
adestramento do sociólogo brasileiro ou latino-americano para o conformismo, para a disponibilidade
da inteligência em face das teorias. Ele aprende a receber prontas as soluções […]. Tudo que de lá vem
é ortodoxo, excelente, imitável. (RAMOS, 1996). Ou seja, a ciência positiva vai reproduzir o
complexo de inferioridade.

A redução sociológica seria então um método que teria por fundamento fazer uma assimilação
crítica de todo o patrimônio sociológico originário de outra realidade distinta da nossa. Não se trata de
negar ou imputar invalidade a conhecimentos estrangeiros quanto a nossa realidade. O que está de fato
em jogo é o desenvolvimento de uma criticidade que permita a quem pratique a sociologia defrontar-se
com qualquer conhecimento, donde venha este, e analisar sua pertinência e alcance quando em outro
contexto.

Essa criticidade iria ao ponto de fazer a distinção entre sociologia em hábito e sociologia em
ato. Aquela muito mais uma educação sociológica, uma alfabetização nas obras sociológicas que
propriamente uma capacidade, uma destreza intelectual que permita uma análise acurada, capaz de
uma leitura coerente de uma realidade qualquer, isto sim caracterizando uma sociologia em ato. Além
disso, constituindo um novo critério de trabalho científico, afirmado na figura do intelectual público,
haveria, junto da redução sociológica, a atitude “parentética”, uma atitude/capacidade do sociólogo de
pôr entre parênteses aspectos da sua existência em prol não só de uma análise mais significativa, senão
que em prol da própria formação do sociólogo como indivíduo ao ser capaz de uma sociologia de sua
sociologia. (RAMOS, 1996, p. 16).

Para Guerreiro Ramos, a sociologia deveria estar mais vinculada à capacidade sociológica do
sociólogo, admitindo-a como ciência por fazer, devendo, inclusive, haver uma superação de sua versão
institucional, posto que não haveria validade de cânones, normas, padrões e métodos estanques, há
historicidade no conhecimento sociológico. “A sociologia de Guerreiro o faz trabalhar com um padrão
mais normativo, em que o dever ser deve agir sobre a consciência e sobre a realidade. Daí mencionar
sempre os perigos do academicismo e fazer a defesa do engajamento.” (OLIVEIRA, 2009, p. 251,
grifo no original). O padrão de trabalho científico dos sociólogos brasileiros de Florestan seria uma
fórmula ideal, que nada tem que ver com as particularidades históricas do país. No terreno concreto, a
utilização prática do saber sociológico obedeceria, em cada sociedade nacional, a “normas”, “valores”
e “ideais” específicos, que refletem aquelas particularidades. (RAMOS, 1996, p. 23-4).
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No entanto, ao propor uma sociologia “sociológica”, não desconsidera as necessidades de rigor


e laboriosidade intelectual da investigação positiva, mas as considera insuficientes para o
desenvolvimento da criticidade que tem por intrínseca em sua redução sociológica, ultrapassando a
institucionalização por meio da autonomia do sujeito pesquisador dotado de perspicácia sociológica.

A exemplo de sua leitura da ciência social produzida sob o modelo eurocentrado, entende a
antropologia como “[...] alienada, tanto pelas suas categorias quanto pela temática praticada. Estrutura
social, aculturação e mudança são categorias transplantadas, derivadas da antropologia que fazia dos
povos primitivos um mero material de estudo e apenas racionalizaria a situação colonial.”
(OLIVEIRA, 2009, p. 247, grifo meu).

Atualizando essa discussão levantada por Guerreiro Ramos, podemos aproximá-lo do campo da
teoria pós-colonial e dos estudos subalternos, suas reflexões

[...] sobre o papel político da sociologia, sobre a importância de uma assimilação crítica da
teoria e, principalmente, suas considerações críticas sobre os estudos realizados sobre e não
desde, junto ou com os negros no Brasil, garantem ao autor não somente uma importância
singular no âmbito acadêmico brasileiro, mas também nos permite a leitura de Guerreiro numa
perspectiva que de certo modo o aproxima dos autores pós-coloniais – ainda que ele nunca
tenha se identificado com essa denominação. (FIGUEIREDO; GROSFOGUEL, 2007, p. 37).

Em contraponto à proposta de Florestan Fernandes, que entende a adoção de regras


metodológicas e sua consecução aliada à adequação empírica como fator capaz de proporcionar um
conhecimento de teor científico inequívoco, Guerreiro Ramos parece estar mais próximo da crítica que
se desenvolveu ao longo das lutas coloniais do séc. XX, passando por Índia, diversos países africanos e
também pela América Latina (iniciada em sua discussão da dependência econômica exposta por
Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto), colocando a condição de colonialidade para além de

[...] apenas uma condição de dominação econômica, mas também a submissão a um padrão
de conhecimento dirigido e imposto pela cultura moderna. É nesse sentido que a discussão da
condição pós-colonial deve tratar, antes de qualquer coisa, das condições epistemológicas em
que o conhecimento social é constituído. O discurso moderno da ciência impõe as condições
do conhecimento, criando concepções de verdade que não resultam em autonomia, mas
reproduzem condições a partir das quais o colonialismo se reproduz e se fortalece.
(FILGUEIRAS, 2012, p. 347).

Nesse discurso moderno, não há lugar para o sujeito que fala, sua produção sobrepõe-se devido
aos marcos de produção epistêmica, provocando a “[...] desconexão entre a localização do sujeito nas
relações de poder e a localização epistêmica [...]” (FIGUEIREDO; GROSFOGUEL, 2007, p. 38). O
que, no desenvolvimento da institucionalização acadêmica nacional, ganhou força nas ciências sociais
como modo de garantir seu status de cientificidade.

Ainda no contexto das teorias pós-coloniais, é basilar a tese da necessidade de valorização das
culturas chamadas subalternas e da afirmação de suas identidades na produção do conhecimento social,
desempenhando um papel para a autonomia da sociedade na construção do desenvolvimento. Não se
justificaria que uma cultura possa impor um padrão único de produção epistêmica, “O fundamento do
pós-colonialismo é que as culturas podem estabelecer diálogo sem haver um padrão de valores e
percepções que se imponha a outras culturas.” (FILGUEIRAS, 2012, p. 348).

No caso de Guerreiro Ramos, seu envolvimento com o movimento negro desde a fundação do
Teatro Experimental do Negro (TEN) e, em seguida, como diretor do Instituto Nacional do Negro dão-
lhe os subsídios para pensar o negro brasileiro como um grupo subalterno que necessita de
autoafirmação: “Era preciso reencontrar a fonte natural [de uma tradição dramática africana, quando
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no TEN] que fora perdida, esmagada pela colonização, para firmar sua diferença e, ao mesmo tempo,
facilitar e permitir a integração do negro na sociedade brasileira.” (OLIVEIRA, 2009, p. 245). E, nessa
preocupação com essa integração, “[...] afirma que a questão do negro não é uniforme no Brasil, há
diferenças regionais e de classe; que o preconceito de cor não equivale ao preconceito racial; que o
homem de cor assimila os padrões da cultura dominante e se vê segundo os padrões dos brancos; [...] o
padrão estético da população brasileira é o branco.” (OLIVEIRA, 2009, p. 246).

Vivendo a condição de negro no Brasil, Guerreiro Ramos alcançava um aspecto simbólico


inacessível aos demais pesquisadores, pois “[...] uma coisa é negro-tema; outra, é negro vida.”
(RAMOS, 1996). Tal coisa, que não chegou a se desenvolver em atividade acadêmica, sempre foram
autores brancos que tomaram para si o tema da “questão do negro” 2, influenciou na sua atuação em
promover a integração do negro pelo teatro, valendo-se de seus processos catárticos, para a superação
dos ressentimentos e das ansiedades, prepará-lo para tal eliminando o ressentimento de viver onde há
um “problema do negro”, ou seja, onde a sociedade deveria ser de brancos. (OLIVEIRA, 2009, p. 246-
48). Angela Figueiredo e Ramón Grosfoguel (2007) chegam a se perguntar como Guerreiro Ramos
jamais aventou, ao menos publicamente, o racismo como motivo das recusas quando pleiteou vagas
em universidades públicas3, sempre atribuindo-as a suas vinculações políticas e polêmicas. E
respondem: “Talvez, a dificuldade de Guerreiro não seja diferente daquela apresentada pela maioria
dos brasileiros quando o tema é o racismo e a discriminação racial. [...] Isso nos faz lembrar a
complexidade do tema entre nós, e a dificuldade de interpretar a exclusão do outro ou de si mesmo a
partir da exclusão racial.” (FIGUEIREDO; GROSFOGUEL, 2007, p. 40). Pois

[...] temos subestimado a eficácia do discurso sobre a prevalência do preconceito de classe no


Brasil em oposição ao preconceito racial; desde criança, somos socializados para percebemos e
utilizarmos o discurso relativo à desigualdade de classe e não de cor/raça: quando visitamos um
bairro cujos habitantes são majoritariamente, quando não exclusivamente, brancos,
denominamos de bairro de classe média, e não como bairro de brancos; o mesmo ocorre nas
escolas, sempre referidas a partir da classe, e não da cor. Freqüentemente, quando somos
excluídos, tendemos a interpretar a exclusão a partir da classe, e não da cor. Essa dimensão das
representações sobre a sociedade brasileira, dificulta não só a visibilização de práticas racistas
em nosso cotidiano, quanto a rejeição à aceitação de políticas públicas voltadas para segmentos
específicos da população com base na cor/raça. (FIGUEIREDO; GROSFOGUEL, 2007, p. 40).

Em seu artigo, os autores afirmam a desigualdade racial historicamente refletida também nas
universidades públicas, para a qual a noção de mérito cumpriu um papel crucial quando, ao modo
colonizador e privilegiando a epistemologia eurocêntrica, impunha-se como padrão uma condição que
somente a muito custo poderia ser alcançada por um não branco, dando continuidade a “hierarquias de
poder raciais hegemônicas” nesses ambientes. “Por isso mesmo, qualquer demanda de acadêmicos
negros que reivindique sua própria geopolítica e corpo-política do conhecimento é imediatamente
rechaçada pela grande maioria dos universitários brancos como uma perspectiva particular e parcial,
quando não a denominam de essencialista.” (FIGUEIREDO; GROSFOGUEL, 2007, p. 38).

A atuação sociológica de Guerreiro Ramos, porém, não se encontra dissociada de seu


pensamento político, é, ela mesma, uma afirmação política. Em A redução sociológica, postula um
conjunto de enunciados que configuram o processo do conhecimento: 1) A redução sociológica é uma
atitude metódica; 2) a redução sociológica não admite a existência, na realidade social, de objetos sem
pressupostos; 3) a redução sociológica postula a noção de mundo; 4) a redução sociológica é
perspectivista; 5) os suportes para a redução sociológica são coletivos e não individuais; 6) a redução
2
Vide o projeto Relações Raciais no Brasil/UNESCO, tido atualmente como uma tentativa de apaziguar as lutas raciais pós-segunda guerra usando o
Brasil como exemplo de uma democracia racial nos moldes da paz universal propalada pela ONU.
3
Acabando, por fim, inserindo-se, com sucesso, na administração pública, onde desenvolveu seus trabalhos acadêmicos mais conhecidos na área da
administração.
6

sociológica é um procedimento crítico-assimilativo da experiência estrangeira; e 7) embora os suportes


coletivos da redução sociológica sejam vivências populares, ela é uma atitude altamente elaborada.
(RAMOS, 1996, p. 72-3).

Nesse receituário, expõe seu método não apenas como impelido pelo imperativo de
conhecimento, senão que “[...] também pela necessidade social de uma comunidade que, na realização
de seu projeto de existência histórica, tem de servir-se da experiência de outras comunidades.”
(RAMOS, 1996, p. 71). E aí se inserem, por exemplo, os enunciados da não admissão da existência, na
realidade social, de objetos sem pressupostos (2), pois, em suas conexões, o conjunto de fatos sociais
carrega consigo valores que precisam ser levados em consideração para sua plena compreensão; ou
então, a noção de mundo (3), consequência daqueles valores, pode determinar os fins da produção
epistêmica; o que leva ao perspectivismo (4), pois cada cultura estabelece o conteúdo de sentido
definido para o objeto de estudo; logo, nunca se trata de uma tarefa individual (5), pois a sociologia é
um conhecimento operativo e não especulativo, uma vez que seus suportes são coletivos, só sendo
possível que uma sociedade assuma sua autoconsciência como processo coletivo; logo, a
fundamentação da redução sociológica está nas vivências populares (7), autorreferido na cultura em
que está inserido. (RAMOS, 1996).

Da mesma forma que o teatro teria os meios para sanar dificuldades subjetivas inerentes à
condição negra, a sociologia “em mangas de camisa” teria por papel ser engajada e subsidiar a
transformação coletiva da realidade socioeconômica das coletividades subalternas, revelando-as como
não apenas pré-políticas, alijadas das benesses da modernidade logocentrada e tidas pelo Estado e seu
aparato repressivo e burocrático como pessoas incapazes de compreender as linguagens usadas pelas
instituições governantes modernas, mesmo tendo de lidar com elas. E sim, como afirma Chakrabarty
sobre os camponeses indianos, “Ele, o camponês ou o subalterno, reivindicávamos, era político desde
o momento mesmo em que se levantava em rebelião contra as instituições do Rajá. Suas ações eram
políticas na medida em que respondiam às bases institucionais da governança colonial e tinham um
impacto sobre elas [...]” (CHAKRABARTY, 2008, p. 151-2, tradução minha4).

A objeção a ser feita à colocação de Guerreiro Ramos ao lado dos teóricos pós-colonialistas é o
não questionamento da lógica desenvolvimentista, a qual era seria um meio indispensável à elevação
da qualidade de vida dessas mesmas populações através de sua inserção na economia nacional, pelo
nivelamento socioeconômico do país e o incremento da realidade nacional. Em suas recomendações no
II Congresso Latino-Americano de Sociologia, que foram inseridas no livro Cartilha brasileira do
aprendiz de sociólogo (1954), coloca-se dentro da perspectiva do desenvolvimento capitalista ao
pensar expor:
5. O trabalho sociológico deve ter sempre em vista que a melhoria das condições de vida das
populações está condicionada ao desenvolvimento industrial das estruturas nacionais e
regionais; 6. É francamente desaconselhável que o trabalho sociológico, direta ou
indiretamente, contribua para a persistência, nas nações latino-americanas, de estilos de
comportamento de caráter pré-letrado. Ao contrário, no que concerne às populações indígenas
ou afro-americanas, os sociólogos devem aplicar-se ao estudo e na proposição de mecanismos
de integração social que apressem a incorporação desses contingentes humanos na atual
estrutura econômica e cultural dos países latino-americanos; (OLIVEIRA, 2009, p. 249).

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No original: “El campesino o el subalterno, reivindicábamos, era político desde el mismo momento en que se levantaba en rebelión contra las
instituciones del Raj. Sus acciones eran políticas en la medida en que respondían a las bases institucionales de la gobernanza colonial y tenían un impacto
sobre ellas [...]” (p. 151-2).
Tendo-se em mente que suas rebeliões, a exemplo do movimento Ahimsa, conclamado por Mahatma Gandhi, muitas vezes eram a insistências em práticas
tradicionais locais que haviam sido limitadas pela repressão colonial ou dos rajás europeizados.
7

Encontra-se, ao fim, a contradição entre o perspectivismo como reconhecimento das


especificidades culturais, mas, ao mesmo tempo, como parte de uma sociologia que se proporia a fazer
o possível para levar aqueles grupos a situações que, hoje, desde uma nova experiência dos
desenvolvimentos capitalistas nesses países subalternos, são tão ou mais desagregradoras, quiçá
aniquiladoras, que as condições anteriores das quais deveriam ser “salvos”.

REFERÊNCIAS

CARVALHO, J. M. de. Prefácio à sétima edição. In: LEAL, V. N. Coronelismo, enxada e voto: o
município e o regime representativo no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Disponível
em:
<https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/360813/mod_resource/content/1/LEAL%2C%20Victor%20
Nunes.%20Coronelismo%20Enxada%20e%20Voto.pdf >. Acesso em: 06 dez. 2018.

CHAKRABARTY, Dipesh. La historia subalterna como pensamiento político. In: MEZZADRA,


Sandro (org.). Estudios postcoloniales. Ensayos fundamentales. Madrid: Traficantes de Sueños,
2008. p. 145-65.

FERNANDES, F. A sociologia no Brasil. Rio de Janeiro: Vozes, 1980.

FIGUEIREDO, Angela; GROSFOGUEL, Ramón. Por que não Guerreiro Ramos? Novos desafios a
serem enfrentados pelas universidades públicas brasileiras. Ciência e Cultura, v.59 n.2, p. 36-41, São
Paulo abr./jun. 2007.

FILGUEIRAS, F. de B. Guerreiro Ramos, a redução sociológica e o imaginário pós-colonial.


CADERNO CRH, Salvador, v. 25, n. 65, p. 347-63, Maio/Ago. 2012. Disponível em:
<https://www.redalyc.org/pdf/3476/347632188011.pdf>. Acesso em: 06 dez. 2018.

OLIVEIRA, Lucia L. de. A sociologia de Guerreiro Ramos e seu tempo. In: BOTELHO, A.;
SCHWARCZ, Lilia M. (orgs.). Um enigma chamado Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
p. 240-53.

RAMOS, Guerreiro. A redução sociológica. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1996.