Você está na página 1de 176

© Maria Luiza Marques Abaurre, Marcela Regina Nogueira Pontara, 2010

Moderna PLUS

Coordenação editorial: Áurea Regina Kanashiro


Elaboração de originais: Alan Nicoliche da Silva, Fernando Cohen,
Klara Schenkel, Marcelo Cizaurre
Edição de texto: José Paulo Brait
Coordenação de design e projetos visuais: Sandra Homma
Projeto gráfico e capa: Everson de Paula, Marta Cerqueira Leite, Mariza Porto
Ilustração da capa: Nelson Provazi
Coordenação de produção gráfica: André Monteiro, Maria de Lourdes Rodrigues
Coordenação de arte: Wilson Gazzoni Agostinho
Edição de arte: Rodolpho de Souza
Assistente de edição de arte: Edivar Goularth
Coordenação de revisão: Elaine Cristina del Nero
Revisão: Afonso N. Lopes, Iolanda Nascimento, José Alessandre da Silva Neto,
Maristela Carrasco, Nancy H. Dias
Coordenação de pesquisa iconográfica: Ana Lucia Soares
Pesquisa iconográfica: Erika Freitas, Monica de Souza
As imagens identificadas com a sigla CID foram fornecidas pelo Centro de
Informação e Documentação da Editora Moderna.
Coordenação de bureau: Américo Jesus
Tratamento de imagens: Arleth Rodrigues, Bureau São Paulo, Fabio N. Precendo,
Pix Art, Rubens M. Rodrigues
Pré-impressão: Alexandre Petreca, Everton L. de Oliveira Silva, Helio P. de Souza
Filho, Marcio H. Kamoto
Coordenação de produção industrial: Wilson Aparecido Troque
Impressão e acabamento:

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Abaurre, Maria Luiza M.


Literatura : tempos, leitores e leituras, volume
único / Maria Luiza M. Abaurre, Marcela Pontara. – 2.
ed. – São Paulo : Moderna, 2010.
Bibliografia

1. Literatura (Ensino Médio) I. Pontara,


Marcela. II. Título.

10-07229 CDD-807

Índices para catálogo sistemático:


1. Literatura : Ensino médio 807

ISBN 978-85-16-06828-8 (LA)


ISBN 978-85-16-06829-5 (LP)

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Todos os direitos reservados
EDITORA MODERNA LTDA.
Rua Padre Adelino, 758 - Belenzinho
São Paulo - SP - Brasil - CEP 03303-904
Vendas e Atendimento: Tel. (0_ _11) 2602-5510
Fax (0_ _11) 2790-1501
www.moderna.com.br
2010
Impresso no Brasil

1 3 5 7 9 10 8 6 4 2

MPSR-LIT-T1(001-010)-b.indd 2 1/4/11 11:15 AM


Apresentação
Ao final do terceiro ano do Ensino Médio faz-se necessária
uma revisão dos três anos de curso. O Suplemento de revisão
foi organizado para esse momento.
Ele acompanha a obra Moderna Plus – Literatura e
está organizado em 31 temas que sintetizam os principais
conceitos dos três anos de curso. O texto destaca as palavras-
-chave do tema, organizando as informações essenciais.
Imagens auxiliam na compreensão e na fixação dos
conteúdos revisados.
Para cada tema, são apresentadas questões do Enem e de
vestibulares de diversos estados brasileiros.
Ao longo do Suplemento de revisão, há remissões para
o Portal Moderna Plus, que contém recursos multimídia
como trechos de filmes e documentários, músicas, banco
de questões e atividades extras para complementar o
aprendizado.
O Suplemento de revisão é um importante auxílio no
estudo e na preparação para os exames de ingresso nas
universidades.
Bons estudos!

MPSR-LIT-T1(001-010)-b.indd 3 1/4/11 11:15 AM


ORGANIZAÇÃO DO SUPLEMENTO

Temas
Seleção de 31 temas que
sintetizam os conceitos principais
dos três anos de curso.

O Suplemento de revisão
apresenta a síntese dos
principais tópicos dos três
anos de curso, acompanhada
de questões do Enem e de
vestibulares.
Síntese do conteúdo
Texto sintetizando os
conceitos principais, com
destaque das palavras-
-chaves. Imagens auxiliam
na fixação dos conteúdos
revisados.

MPSR-LIT-T1(001-010)-b.indd 4 1/4/11 11:15 AM


Um pequeno texto
informa resumidamente o
tema a ser tratado.

No Vestibular
Para cada tema, questões
do Enem, de outras
avaliações oficiais e de
vestibulares, selecionadas
com o intuito de auxiliar na
compreensão e na fixação
dos conteúdos revisados.

Conteúdo digital
Moderna Plus
Remissão para o Portal
Moderna Plus, que contém
animações multimídia, cenas
de filmes e documentários,
músicas, atividades, banco
de questões e textos
complementares.

MPSR-LIT-T1(001-010)-b.indd 5 1/4/11 11:15 AM


SUMÁRIO
Tema 1 Arte, literatura e seus agentes 7

Tema 2 Literatura é uma linguagem 11

Tema 3 Os gêneros épico, lírico e dramático 14

Tema 4 Literatura: expressão de uma época 19

Tema 5 Literatura na Idade Média 23

Tema 6 Humanismo 28

Tema 7 Classicismo 33

Tema 8 Primeiras visões do Brasil 39

Tema 9 Barroco 43

Tema 10 Arcadismo 47

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Tema 11 Romantismo em Portugal 53

Tema 12 Romantismo no Brasil: primeira geração 59

Tema 13 Romantismo no Brasil: segunda geração 63

Tema 14 Romantismo no Brasil: terceira geração 67

Tema 15 O romance urbano 73

Tema 16 O romance indianista 78

Tema 17 O romance regionalista. O teatro romântico 83

Tema 18 Realismo 90

Tema 19 Naturalismo 98

Tema 20 Parnasianismo 105

Tema 21 Simbolismo 110

Tema 22 Pré-Modernismo 115

Tema 23 Vanguardas culturais europeias 121

Tema 24 Modernismo em Portugal 128

Tema 25 Modernismo no Brasil: primeira geração 134

Tema 26 Modernismo no Brasil: segunda geração 142

Tema 27 O romance de 1930 150

Tema 28 A geração de 1945 e o Concretismo 157

Tema 29 A prosa pós-moderna 162

Tema 30 Tendências contemporâneas. O teatro no século XX 166

Tema 31 A narrativa africana de língua portuguesa 173

MPSR-LIT-T1(001-010)-b.indd 6 1/6/11 9:56 AM


Arte, literatura e seus agentes
A arte nasce da necessidade humana de criar universos ficcionais.
A literatura, uma das expressões da arte, ocupa um espaço importante
na compreensão das sociedades através dos tempos.

Arte e representação Compare as pinturas de Raffaello Sanzio (1483-1520) e de


Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938) a seguir. Perceba como
Realidade é tudo aquilo que existe e que reconhecemos a representação do universo feminino se modifica pelo
como concreto ou verdadeiro no mundo. Ficção é tudo o olhar de artistas de diferentes épocas: enquanto a obra de
que se relaciona à criação, à fantasia, ao imaginário. Es- Sanzio valoriza a simetria do trio de mulheres, suas formas
ses são dois conceitos fundamentais na leitura de textos alvas, roliças, suas expressões serenas, a de Kirchner revela
verbais ou não verbais. faces mais duras, densas, e as curvas femininas dão lugar
Os mundos ficcionais podem: a linhas e formas quase geométricas.
• propor realidades imaginadas;

Musée Conde, Chantilly, França


corresponder à realidade, tal como a conhecemos, para
atender a objetivos específicos – criticar, divertir, etc.
A obra de arte é sempre uma representação da realidade,
mesmo quando ela se ocupa apenas de elementos em que
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

é possível reconhecer o real.

Alguns sentidos da arte


As obras de arte não se limitam à invenção e produção de
As obras de arte não
objetos utilitários
utilitários. A arte participa da vida humana desde
A arte participa da vida humana desde
tempos remotos, e o impulso que leva à criação artística
tempos remotos, o impulso leva à criação artística
pode
pode ter
ter diversas
diversas explicações,
explicações, as quais
quais também
também podem
podem
variar de acordo com o período histórico.
variar de acordo com o período histórico.

Na tabela a seguir, veja algumas concepções de “arte”


no decorrer do tempo.

Período Concepção

A arte é a representação do belo,


entendido como a harmonia e a SANZIO, Raffaello. As três graças. 1504-1505. Óleo sobre madeira,
Antiguidade proporção entre as formas. Os seres 17,8 x 17,6 cm. Museu Condé, Chantilly, França.
humanos são vistos como modelos de
perfeição.

the BridgeMan art liBrary/Keystone – galeria de


arte de new south wales, sidney
Os sentimentos e a imaginação são os
Século XIX
princípios da criação artística; o belo
(Romantismo)
desvincula-se do princípio de harmonia.

A arte é entendida como a


permanente recriação de uma
Mundo linguagem; pode também ser um
contemporâneo espaço de reflexão, uma provocação,
ou ainda o reflexo do artista e de seu
modo de compreender o mundo.

Como todo artista está inserido em um contexto histórico-


-cultural, a obra de arte será sempre, de certo modo, a
expressão de sua época e de sua cultura. Além disso, para
que se compreenda bem o contexto da produção artística,
também é preciso ter em mente que toda obra de arte:
• interage com determinado público, o qual também par-
ticipa da construção dos sentidos dessa obra;
• manifesta-se em uma determinada linguagem, que se
desenvolve em uma determinada estrutura; KIRCHNER, Ernst Ludwig. Três banhistas. 1913. Óleo sobre tela.
• circula em determinado meio, por meio de um suporte. 197,5 x 147,5 cm. Galeria de Arte de New South Wales, Sidnei, Austrália.

Arte, literAturA e seus Agentes 7

MPSR-LIT-T1(001-010)-b.indd 7 1/6/11 9:57 AM


A arte da literatura – Sou, até hoje, o único a saber. A história é bastante horrível.
Naturalmente, muitas vozes se elevaram para declarar
As funções que a literatura desempenha nas sociedades que isso conferia à coisa um valor inestimável, e o nosso
se configuraram, em grande parte, a partir daquilo que amigo, preparando o seu triunfo com uma arte tranquila,
o público reconheceu como valor ao longo da história fitou o auditório e prosseguiu:
da leitura. Nesse sentido, entre várias possibilidades, a
– Vai mais longe que qualquer outra coisa. Que eu saiba,
literatura pode funcionar como: nada chega próximo a ela.
• um espaço para o sonho e a fantasia;
– Como impressão de puro terror? – ocorreu-me perguntar.
• um espaço para reflexão ou denúncia da realidade
cotidiana; Ele parecia querer dizer que não era assim tão simples;
parecia na verdade perplexo ante a necessidade de a
• um espaço para a diversão;
qualificar. Passou a mão sobre os olhos e contraiu o
• um modo de compreender e construir nossa identidade. rosto numa careta:
Para que a literatura possa garantir sua liberdade – Como horror. Como horror – é pavorosa!
ficcional, é preciso que haja um pacto com o leitor: é
– Oh! que delícia! – exclamou uma das mulheres.
necessário que este aceite o jogo proposto pelo texto
e reconheça como válidas as condições criadas pelo Douglas não lhe deu atenção. Olhou para mim, mas
narrador. Apesar de os acontecimentos narrados não como se visse em meu lugar aquilo a que aludia.
serem reais, eles têm de parecer verdadeiros para quem – Como um conjunto de fealdade, de dor e horror infernais!
lê, ou seja, a narrativa precisa ser verossímil para que o – Está bem – disse-lhe eu. – Queira sentar-se e começar.
pacto funcione.
Ele voltou-se para o fogo, empurrou uma acha com o pé,
contemplou-a um instante... Depois, tornou a nos encarar:
O texto que você lerá a seguir é o início de um roman- – Não posso. Preciso mandar uma pessoa à cidade.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


ce de suspense. Observe como o autor constrói o clima A essa palavra, ouviu-se um protesto generalizado e
de mistério em torno da narrativa que se desenvolverá. muita reprovação. Ele as deixou passar, depois explicou,
sempre como se estivesse preocupado.
– A história foi escrita. Está fechada à chave numa gaveta,
A narrativa nos manteve suspensos junto ao fogo; e não de onde não sai há muitos anos. Mas eu poderia escrever
fosse a observação, demasiado evidente, de que era sinis- ao meu criado e enviar-lhe a chave: ele remeteria o pacote
tra, tal como, em essência, deve ser toda a história contada tal como está.
em noite de Natal numa casa velha, não me lembra qual-
Era a mim em particular que ele parecia dirigir essa pro-
quer outro comentário, até que aconteceu alguém dizer
posta; parecia quase implorar o meu auxílio para dar fim
que aquele era o único exemplo do qual tivera notícia, onde
às suas hesitações. Quebrar a camada de gelo, formação
um tal castigo havia recaído na cabeça de uma criança. O
de muitos invernos: tinha tido suas razões para tão longo
caso, permitam-me dizê-lo, dizia respeito a uma aparição
silêncio. Os outros lamentavam a demora, eu porém estava
numa casa velha – uma aparição de medonha espécie surgi-
encantado justamente por seus escrúpulos. Conjurei-o a
da diante de um menino que dormia no quarto de sua mãe
escrever pelo primeiro correio e a combinar conosco uma
e que a acordou, apavorado; que a acordou, não para dis-
pronta leitura. Perguntei-lhe se a experiência em questão
sipar o terror do menino e pô-lo novamente a dormir, mas
fora dele próprio. Sua resposta não se fez esperar. [...]
para defrontar ela própria a mesma visão que o sacudira.
Foi essa observação que suscitou – não de imediato, JAMES, Henry. A volta do parafuso.
Trad. Olívia Krahenbuhl. São Paulo:
mas em hora mais avançada da noite – uma certa réplica Clube do Livro, 1987. p. 5-7. (Fragmento).
de Douglas, que provocou estranha consequência para a
qual chamo a sua atenção. Um dos presentes contava uma
história banal, mas Douglas não prestava atenção. A esse Aludia: referia-se.
indício, compreendi que tinha alguma coisa a dizer e que só Acha: pequeno
nos restava ter paciência. E paciência tivemos, duas noites pedaço de madeira
consecutivas, mas na terceira, antes de nos separarmos, ele usado para lenha.
afinal revelou o que o trazia preocupado.
– Quanto ao fantasma de Griffin, ou seja lá o que for,
Esse fragmento de abertura de A volta do parafuso se
reconheço que o fato de ele ter primeiro aparecido a um
ocupa em qualificar a magnitude do terror da história que
pequeno garoto de tão pouca idade acrescenta à história
está para ser contada. Antes mesmo que o relato anunciado
um traço todo peculiar. Entretanto, não é a primeira vez,
dos “fatos pavorosos” aconteça, todos que participam dessa
que eu saiba, que uma criança aparece num exemplo desse
audiência (tanto o narrador quanto as personagens e nós,
gênero fascinante. Ora, se uma única criança imprime à
leitores) são envolvidos pelo clima do cenário: as personagens
sua emoção mais uma volta no parafuso, que dirá de duas?
estão em volta de uma lareira, contando histórias sinistras
– Diremos, naturalmente – exclamou alguém – que duas de criancinhas e fantasmas, na noite de Natal, numa casa
crianças imprimirão mais duas voltas no parafuso... e que velha. No entanto, é a dificuldade de Douglas em dar início à
queremos ouvir o resto! sua narrativa, tamanho o horror que ela encerra, que aguça
Ainda o estou vendo. Douglas se havia posto em pé e, ainda mais a curiosidade da audiência. Dessa forma, são es-
encostado à lareira, as mãos nos bolsos, baixava o olhar tabelecidas as condições favoráveis para que desejemos
para o interlocutor. participar desse universo ficcional.

8 suplemento de revisão literAturA

MPSR-LIT-T1(001-010)-b.indd 8 1/4/11 11:15 AM


Arte, literatura e seus agentes

Enem e vestibulares
1. (Enem-Inep – adaptada) A música pode ser definida como Das figuras que apresentam grupos musicais em ação,
a combinação de sons ao longo do tempo. Cada produto pode-se concluir que o(s) grupo(s) mostrado(s) na(s)
final oriundo da infinidade de combinações possíveis será figura(s)
diferente, dependendo da escolha das notas, de suas dura- a) 1 executa um gênero característico da música brasi-
ções, dos instrumentos utilizados, do estilo de música, da leira conhecido como chorinho.
nacionalidade do compositor e do período em que as obras
b) 2 executa um gênero característico da música clás-
foram compostas.
sica cujo compositor mais conhecido é Tom Jobim.
c) 3 executa um gênero característico da música eu-

arquivo/agênCia estado
1 ropeia que tem como representantes Beethoven e
Mozart.
d) 4 executa um tipo de música caracterizada pelos
instrumentos acústicos cuja intensidade e nível de
ruído permanecem na faixa dos 30 aos 40 decibéis.
e) 1 a 4 apresentam um produto final bastante seme-
lhante, uma vez que as possibilidades de combina-
ções sonoras ao longo do tempo são limitadas.

2. (Enem-Inep)
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Texto A
tiMes/latinstoCK

2
Cortesia ProJeto hélio oitiCiCa – Museu de arte
ConteMPorânea – usP, são Paulo
he new yorK ti
JenniFer taylor/the
BarBara Zanon/getty iMages

OITICICA, Hélio. Metaesquema I, 1958.


Guache sobre cartão. 52 x 64 cm.
Museu de Arte Contemporânea – USP.

Texto B
Metaesquema I
Alguns artistas remobilizam as linguagens geométricas no sen-
tido de permitir que o apreciador participe da obra de forma efe-
neal Preston/CorBis/latinstoCK

4 tiva. Nesta obra, como o próprio nome define: meta – dimensão


virtual de movimento, tempo e espaço; esquema – estruturas,
os Metaesquemas são estruturas que parecem movimentar-se
no espaço. Esse trabalho mostra o deslocamento de figuras
geométricas simples dentro de um campo limitado: a superfície
do papel. A isso podemos somar a observação da precisão na
divisão e no espaçamento entre as figuras, mostrando que, além
de transgressor e muito radical, Oiticica também era um artista
extremamente rigoroso com a técnica.
Disponível em: <http://www.mac.usp.br>.
Acesso em: 2 maio 2009. (Adaptado).

Arte, literatura e seus agentes eneM e VestiBulAres 9

MPSR-LIT-T1(001-010)-b.indd 9 1/4/11 11:15 AM


“Alguns artistas remobilizam as linguagens geométricas no Nos quatro últimos versos, está implicada uma deter-
sentido de permitir que o apreciador participe da obra de for- minada concepção da função da arte. Identifique essa
ma mais efetiva.” Levando-se em consideração o texto e a obra concepção, explicando-a brevemente.
Metaesquema I, reproduzidos anteriormente, verifica-se que
o eu lírico determina que àqueles que se lançam aos mares não
a) a obra confirma a visão do texto quanto à ideia de
estruturas que parecem se movimentar, no campo sejam dadas nem fama nem memória por meio da cítara ou do vivo
limitado do papel, procurando envolver de maneira
mais efetiva o olhar do observador. engenho, ou seja, da poesia mais alta e sublime. a arte teria, portanto,

b) a falta de exatidão no espaçamento entre as figuras


o poder de eternizar os altos feitos dos heróis, segundo as palavras
(retângulos) mostra a falta de rigor da técnica empre-
gada dando à obra um estilo apenas decorativo. do velho do restelo.
c) Metaesquema I é uma obra criada pelo artista para ale-
grar o dia a dia, ou seja, de caráter utilitário.
5. (Enem-Inep)
d) a obra representa a realidade visível, ou seja, espelha
o mundo de forma concreta.
e) a visão de representação das figuras geométricas e
Se os tubarões fossem homens
rígidas, propondo uma arte figurativa. Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com
os peixes pequenos?
3. (Enem-Inep) Observe a obra Objeto cinético, de Abraham Certamente, se os tubarões fossem homens, fariam construir
Palatnik, 1966. resistentes gaiolas no mar para os peixes pequenos, com todo
o tipo de alimento, tanto animal como vegetal. Cuidariam para
Museu de arte Moderna, rio de Janeiro

que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adotariam todas


as providências sanitárias.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nas aulas,
os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões.
Eles aprenderiam, por exemplo, a usar a geografia para localizar
os grandes tubarões deitados preguiçosamente por aí. A aula
principal seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. A
eles seria ensinado que o ato mais grandioso e mais sublime é o
sacrifício alegre de um peixinho e que todos deveriam acreditar
nos tubarões, sobretudo quando estes dissessem que cuidavam
de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro
só estaria garantido se aprendessem a obediência.
Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimi-
PALATNIK
PALATNIK,
ALATNIK,, Abraham.
Abraham. Objeto cinético 1966. Tinta industrial, madeira.
Objeto cinético, 1966. Tinta industrial, madeira.
gos seria condecorado com uma pequena Ordem das Algas e
Metal e circuito elétrico. 120,2 x 18,7 cm. Museu de Arte Moderna, RJ.
receberia o título de herói.
BRECHT, B. Histórias do Sr. Keuner.
A arte cinética desenvolveu-se a partir de um interesse São Paulo: Editora 34, 2006. (Adaptado).
do artista plástico pela criação de objetos que se moviam
por meio de motores ou outros recursos mecânicos. A
obra Objeto cinético, do artista plástico brasileiro Abraham Como produção humana, a literatura veicula valores que
Palatnik, pioneiro da arte cinética, nem sempre estão representados diretamente no texto,
mas são transfigurados pela linguagem literária e podem
a) é uma arte do espaço e da luz.
até entrar em contradição com as convenções sociais e
b) muda com o tempo, pois produz movimento. revelar o quanto a sociedade perverteu os valores huma-
c) capta e dissemina a luz em suas ondulações. nos que ela própria criou. É o que ocorre na narrativa do
dramaturgo alemão Bertolt Brecht mostrada. Por meio da
d) é assim denominada, pois explora efeitos retinianos.
hipótese apresentada, o autor
e) explora o quanto a luz pode ser usada para criar
a) demonstra o quanto a literatura pode ser alienadora
movimento.
ao retratar, de modo positivo, as relações de opressão
existentes na sociedade.
4. (Fuvest-SP)
b) revela a ação predatória do homem no mar, questionando
a utilização dos recursos naturais pelo homem ocidental.
Oh! Maldito o primeiro que, no mundo,
c) defende que a força colonizadora e civilizatória do
Nas ondas vela pôs em seco lenho! homem ocidental valorizou a organização das socie-
Digno da eterna pena do Profundo, dades africanas e asiáticas, elevando-as ao modo de
Se é justa a justa Lei que sigo e tenho! organização cultural e social da sociedade moderna.
d) questiona o modo de organização das sociedades
Nunca juízo algum, alto e profundo,
ocidentais capitalistas, que se desenvolveram funda-
Nem cítara sonora ou vivo engenho, mentadas nas relações de opressão em que os mais
Te dê por isso fama nem memória, fortes exploram os mais fracos.
Mas contigo se acabe o nome e a glória e) evidencia a dinâmica social do trabalho coletivo em
que os mais fortes colaboram com os mais fracos, de
Camões. Os lusíadas.
modo a guiá-los na realização de tarefas.

10 suplemento de revisão literAturA

MPSR-LIT-T1(001-010)-b.indd 10 1/4/11 11:15 AM


Literatura é uma linguagem
Com a habilidade de explorar os recursos de linguagem, o escritor atribui aos textos literários um
caráter plurissignificante. Isso exige do leitor um papel ativo na construção dos sentidos do texto.

A linguagem da literatura Recursos da linguagem literária


A linguagem denotativa (ou literal) é o uso da palavra O escritor precisa saber descrever, ou melhor, “dese-
em seu significado “básico”, que pode ser apreendido nhar” imagens através das palavras, para evocar mun-
sem ajuda do contexto. Essa linguagem é comum em dos ficcionais. Os leitores, por sua vez, reconhecem e
textos com função utilitária (textos informativos, re- reelaboram essas imagens em sua imaginação para poder
ceitas, manuais, etc.). adentrar o universo sugerido pelo texto literário.
A arte literária consiste em saber usar o potencial Por meio das comparações, os escritores promovem
significativo e sonoro da palavra. Por esse motivo, nos aproximações e semelhanças capazes de traduzir emo-
textos literários, predomina o sentido conotativo (ou ções, modos de ver e sentir.
figurado) da palavra: quando o seu sentido literal é
A metáfora, outro importante recurso da literatura, é um
modificado em um dado contexto, as palavras e ex-
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

processo de substituição: aproximam-se dois elementos


pressões adquirem novos significados.
que, em um contexto específico, guardam alguma relação
Chamamos de plurissignificação o processo de mul- de semelhança, transferindo-se, para um deles, caracte-
tiplicação dos significados das palavras nos textos rísticas do outro.
literários. Portanto, por causa de sua natureza pluris-
significante,
significante, os
os textos
textos literários
terários podem
podem apresentar
apresentar O título do poema que você lerá a seguir, “Livre-arbí-
diferentes
ferentes leituras e interpretações.
interpretações trio”, é comumente referido à ideia do direito de escolher-
O leitor/ouvinte m um pel ativo
O leitor/ouvinte tem um papel ativo na construção dos
na construção dos mos nosso próprio caminho. Observe o uso da metáfora do
sentidos dos textos literários, pois precisa reconhecer
sentidos
ntidos dos textos
xtos literários, pois precisa reconhecer
conhecer “toureiro” associada ao título.
o
o si
significado
gnificado das palavras e reconstruir
da palavras construir os
os mundos
mundos
ndos
ficcionais que elas descrevem.
ficcionais
ccionais que elas descrevem. Livre-arbítrio
Leia o poema de Paulo Leminski a seguir. Nele o poeta Todo mundo é toureiro.
brinca com os significados da palavra prima, ao alterar Cada um escolhe o
subitamente o contexto do verso. touro que quiser na vida.
O toureiro escolheu o
nem toda hora próprio
é obra touro.
nem toda obra
CACASO. Lero-lero (1967-1985).
é prima Rio de Janeiro: 7 letras; São Paulo:
algumas são mães Cosac Naify, 2002.

outras irmãs
algumas A afirmação “Todo mundo é toureiro” revela que, apesar
clima do direito de escolha, todo caminho sempre apresentará
LEMINSKI, Paulo. Disponível em: dificuldades: assim como o toureiro, na arena, enfrenta o
<http://www.revista.agulha.nom.br/pl4.html>. touro que ele mesmo escolheu, precisamos enfrentar os
Acesso em: 28 out. 2010.
problemas e desafios de nossas escolhas.

Literatura é uma Linguagem 11

MPSR-LIT-T2(011-013)-b.indd 11 1/3/11 6:11 PM


Literatura é uma linguagem

Enem e vestibulares
1. (Enem-Inep) 2. (Enem-Inep)

Texto 1
Texto 1
Mulher, Irmã, escuta-me: não ames,
Principiei a leitura de má vontade. E logo emperrei na história
Quando a teus pés um homem terno e curvo
de um menino vadio que, dirigindo-se à escola, se retardava a
jurar amor, chorar pranto de sangue,
conversar com os passarinhos e recebia deles opiniões sisu-
das e bons conselhos. Em seguida vinham outros irracionais, Não creias, não, mulher: ele te engana!
igualmente bem-intencionados e bem falantes. Havia a mos- As lágrimas são gotas da mentira
cazinha que morava na parede de uma chaminé e voava à toa, E o juramento manto da perfídia.
desobedecendo às ordens maternas, e tanto voou que afinal Joaquim Manuel de Macedo
caiu no fogo. Esses contos me intrigaram com o [livro] Barão
de Macaúbas. Infelizmente um doutor, utilizando bichinhos,
impunha-nos a linguagem dos doutores. – Queres tu brincar Texto 2
comigo? O passarinho, no galho, respondia com preceito e Teresa, se algum sujeito bancar o
moral, e a mosca usava adjetivos colhidos no dicionário. A figura sentimental em cima de você
do barão manchava o frontispício do livro, e a gente percebia E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde
que era dele o pedantismo atribuído à mosca e ao passarinho. Se ele chorar
Ridículo um indivíduo hirsuto e grave, doutor e barão, pipilar Se ele ajoelhar
conselhos, zumbir admoestações. Se ele se rasgar todo

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


RAMOS, G. Infância. Rio de Janeiro: Não acredite não, Teresa
Record, 1986. (Adaptado). É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
Texto 2 CAI FORA
Manuel Bandeira
Dado que a literatura, como a vida, ensina na medida em que
atua com toda sua gama, é artificial querer que ela funcione
como os manuais de virtude e boa conduta. E a sociedade não Os
Os autores,
autores, ao
ao fazerem
fazerem alusão
alusão às
às imagens
imagens da
da lágrima,
lágrima,
pode senão escolher o que em cada momento lhe parece adap- sugerem que:
sugerem que:
tado aos seus fins, enfrentando ainda assim os mais curiosos a)
a) há um tratamento idealizado da relação homem/mulher.
há um tratamento idealizado da relação homem/mulher.
paradoxos, pois mesmo as obras consideradas indispensáveis b)
b) há um tratamento realista da relação homem/mulher.
há um tratamento realista da relação homem/mulher.
para a formação do moço trazem frequentemente o que as c) a relação familiar é idealizada.
relação familiar é idealizada.
convenções desejariam banir. Aliás, essa espécie de inevitável d) a mulher é superior ao homem.
contrabando é um dos meios por que o jovem entra em contato e) a mulher é igual ao homem.
com realidades que se tenciona escamotear-lhe.
3. (Enem-Inep)
CANDIDO, A. A literatura e a formação do homem.
Duas Cidades. São Paulo: Editora 34, 2002. (Adaptado).
Do pedacinho de papel ao livro impresso vai uma longa distância.
Mas o que o escritor quer, mesmo, é isto: ver o seu texto em letra
Os dois textos acima, com enfoques diferentes, abordam de forma. A gaveta é ótima para aplacar a fúria criativa; ela faz
um mesmo problema, que se refere, simultaneamente, amadurecer o texto da mesma forma que a adega faz amadurecer
ao campo literário e ao social. Considerando-se a relação o vinho. Em certos casos, a cesta de papel é melhor ainda.
entre os dois textos, verifica-se que eles têm em comum O período de maturação na gaveta é necessário, mas não deve
o fato de que se prolongar muito. “Textos guardados acabam cheirando mal”,
disse Silvia Plath, [...] que, com esta frase, deu testemunho das
a) tratam do mesmo tema, embora com opiniões diver-
dúvidas que atormentam o escritor: publicar ou não publicar?
gentes, expressas no primeiro texto por meio da ficção
Guardar ou jogar fora?
e, no segundo, por análise sociológica.
Moacyr Scliar. O escritor e seus desafios.
b) foi usada, em ambos, linguagem de caráter moralista
em defesa de uma mesma tese: a literatura, muitas
vezes, é nociva à formação do jovem estudante. Nesse texto, o escritor Moacyr Scliar usa imagens para
refletir sobre uma etapa da criação literária. A ideia de que
c) são utilizadas linguagens diferentes nos dois textos,
o processo de maturação do texto nem sempre é o que
que apresentam um mesmo ponto de vista: a literatura
garante bons resultados está sugerida na seguinte frase:
deixa ver o que se pretende esconder.
a) “A gaveta é ótima para aplacar a fúria criativa.”
d) a linguagem figurada é predominante em ambos, em- b) “Em certos casos, a cesta de papel é melhor ainda.”
bora o primeiro seja uma fábula e o segundo, um texto c) “O período de maturação na gaveta é necessário, [...].”
científico. d) “Mas o que o escritor quer, mesmo, é isto: ver o seu
e) o tom humorístico caracteriza a linguagem de ambos texto em letra de forma.”
os textos, em que se defende o caráter pedagógico da e) “ela [a gaveta] faz amadurecer o texto da mesma forma
literatura. que a adega faz amadurecer o vinho.”

12 Suplemento de revisão Literatura

MPSR-LIT-T2(011-013)-b.indd 12 1/3/11 6:11 PM


4. (Enem-Inep)
O que ele nos conta é o seu dia, o seu expediente de homem,
O açúcar apanhado no essencial, narrativa direta e econômica. [...] É o poeta
O branco açúcar que adoçará meu café do real, do palpável, que se vai diluindo em cisma. Dá o sentimento
nesta manhã de Ipanema da realidade e o remédio para ela.
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. Em seu texto, Rubem Braga afirma que “este é o luxo
Vejo-o puro do grande artista, atingir o máximo de matizes com o
e afável ao paladar mínimo de elementos”. Afirmação semelhante pode ser
como beijo de moça, água encontrada no texto de Carlos Drummond de Andrade,
na pele, flor quando, ao analisar a obra de Braga, diz que ela é
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
a) uma narrativa direta e econômica.
não foi feito por mim.
b) real, palpável.
Este açúcar veio da mercearia da esquina e tampouco
c) um sentimento de realidade.
o fez o Oliveira, dono da mercearia.
d) seu expediente de homem.
Este açúcar veio
e) seu remédio.
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
6. (UEL-PR) Leia o texto a seguir.
e tampouco o fez o dono da usina.
Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos Os Direitos Humanos têm um pressuposto que é o de reconhecer
que não nascem por acaso que aquilo que consideramos indispensável para nós é também para
no regaço do vale. o próximo. Reconhecer esse postulado nos leva a outras dificuldades:
[...] definir quais bens materiais e simbólicos são indispensáveis a nós e
Em usinas escuras, aos outros, ou ainda, a todos os seres humanos. [...] A distinção entre
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

homens de vida amarga “bens compreensíveis”, como os cosméticos, os enfeites, roupas ex-
e dura tras, e bens incompreensíveis, como o alimento, a casa, a roupa, não
produziram este açúcar é suficiente para criarmos critérios sobre quais direitos são essenciais.
branco e puro Poderíamos ampliar o entendimento dos bens incompreensíveis que
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema. não seriam apenas aqueles que asseguram a sobrevivência física
em níveis decentes, mas também os que garantem a integridade
GULLAR, Ferreira. Toda poesia. Rio de Janeiro:
GULLAR, Ferreira. Toda poesia Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1980. p. 227-228.
Brasileira, 1980. p. 227-228. espiritual. Desse modo, seriam bens incompreensíveis a alimentação,
a moradia, o vestuário, a instrução, a saúde, a liberdade individual,
o amparo da justiça pública, a resistência à opressão, e, também, o
A antítese que configura uma imagem da divisão social do
A antítese que configura imagem da divisão social do direito à crença, à opinião, ao lazer e, por que não, à arte e à literatura.
trabalho
trabalho na sociedade brasileira é expressa poeticamente
na sociedade brasileira expressa poeticamente
na
na oposição entre a doçura do branco açúcar e
oposição entre a doçura branco açúcar CANDIDO, A. Direitos humanos e literatura. Disponível em:
CANDIDO, A. Direitos literatura Disponível em:
literatura.
<http://www.dhnet.org.br/direitos/textos/textos_dh/
a) o trabalho do dono da mercearia de onde veio o açúcar. literatura.html>. Acesso em: 7 jul. 2007.
b) o beijo de moça, a água na pele e a flor que se dissolve
na boca.
c) o trabalho do dono do engenho em Pernambuco, onde Com base no texto, assinale a alternativa em que o verso
se produz o açúcar. apresenta clara correspondência com a temática.
d) a beleza dos extensos canaviais que nascem no regaço a) Vamo comer / Vamo comer feijão / Vamo comer / Vamo
do vale. comer farinha / Se tiver / Se não tiver então ô ô ô ô.
e) o trabalho dos homens de vida amarga em usinas (Caetano Veloso. “Vamo” comer.)
escuras.
b) Bebida é água. / Comida é pasto. / Você tem sede de
quê? / Você tem fome de quê? / A gente não quer só
5. (Enem-Inep)
comida, / A gente quer comida, diversão e arte. / A
gente não quer só comida, / A gente quer saída para
E considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de
qualquer parte. / A gente não quer só comida, / A gente
suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri
quer bebida, diversão, balé. (Arnaldo Antunes; Marcelo
que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há
Fromer; Sérgio Britto. Comida.)
pigmentos. O que há são minúsculas bolhas de água em que a luz se
fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. c) Fome do cão, fome do cão, fome do cão, fome do cão /
O ronco da lara é da fome do cão / O ronco do bucho
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo
é da fome do cão / Fome do cão, fome do cão, fome
de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu
do cão, fome do cão. (Raimundos. Rumbora e Rodolfo
esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
Abrantes. Fome do cão.)
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! Minha amada;
d) Trem sujo da Leopoldina / Correndo correndo / Parece
de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim
dizer / Tem gente com fome / Tem gente com fome /
existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me
Tem gente com fome. (João Ricardo Solano Trindade.
cobre de glórias e me faz magnífico.
Tem gente com fome.)
BRAGA, Rubem. Ai de ti, Copacabana. 20. ed. e) Ummmm que fome / Tô com uma fome de leão / Come,
come / Vô fazer uma refeição / Come, come / Vou deto-
O poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu assim nar o macarrão / Come, come / Batata, vagem, agrião.
sobre a obra de Rubem Braga: (Jairzinho Oliveira. Comer me faz crescer.)

Literatura é uma linguagem enem e VeStiBuLareS 13

MPSR-LIT-T2(011-013)-b.indd 13 1/3/11 6:11 PM


Os gêneros épico, lírico e dramático
O estudo dos gêneros literários oferece ferramentas que nos auxiliam
a compreender melhor a construção do sentido dos textos.

Os gêneros literários tórico, a Guerra de Troia, é o pano de fundo para o


poeta narrar a ira do herói Aquiles, que, após diversas
O termo gênero faz referência a alguns padrões de peripécias, mata Heitor, filho do rei de Troia, e vence a
composição artística que, ao longo do tempo, têm sido guerra para os gregos.
utilizados para dar forma ao imaginário humano. Apren-
demos a reconhecer esses padrões por intermédio do
• Odisseia: poema sobre o herói Odisseu (ou Ulisses, na
forma latina). Ao retornar da Guerra de Troia, na qual
contato permanente com as artes. teve papel decisivo (foi dele a ideia de presentear os
A primeira tentativa de organizar a produção literária troianos com o cavalo de madeira), Odisseu enfrenta
em gêneros foi de Aristóteles, na Antiguidade Clás- diversos obstáculos. Sua esposa Penélope e o filho Te-
sica. A divisão aristotélica não trata especificamente lêmaco esperam o retorno do herói para casa, na ilha
da produção lírica, mas apenas dos textos narrativos, de Ítaca, por diversos anos. Ao contar essa viagem
conforme tabela a seguir. de regresso ao lar, a Odisseia retrata de modo mais

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


próximo a vida cotidiana dos gregos.
Divisão aristotélica dos
textos narrativos Essas duas epopeias surgiram por volta do século VIII
(Antiguidade Clássica) a.C., e sua autoria é atribuída a Homero.
Forma Conteúdo Ilíada e Odisseia são poemas épicos clássicos ou pri-
isseia sã
mários. Todos os outros poemas que se inspiram neles
dos os
são considerados de
sã nsiderados imitação
imitação ou secundários.
ou secundários
cundários.
• Drama (ou texto dramático): quando a
Drama (ou texto amático): a • Paixões
na
narrativa apresenta apenas atuação de
rrativa apresenta
resenta apenas de
pe
personagens, sem a presença de um
rsonagens, se a presença um • Ações No quadro a seguir, veja como é a estrutura das epo-
narrador.
rrador.
• Comportamentos
Comportamentos peias clássicas.
• poeta narrador fala por meio de uma
Epopeia
Epopeia (ou texto épico): quando o
(ou texto épico): humanos

personagem, como nos poemas de Divisão interna


Homero. das partes da epopeia
Cantos – cada um cumpre uma função

O Renascimento trouxe a valorização da poesia lírica, Proposição: Invocação: Narração: Conclusão:


a partir da obra de Petrarca e seus seguidores, con- o poeta/ o poeta pede o poeta o poeta
narrador inspiração narra as encerra a
solidando o reconhecimento de três gêneros literários define o à Musa aventuras narrativa
básicos: o épico, o lírico e o dramático. Essa classifi- tema e o (divindade do herói. dos feitos
cação é usada até hoje. herói do inspiradora). gloriosos do
poema. herói.

O gênero épico
Uma característica comum às narrativas mais antigas é As principais características do herói na epopeia clás-
contar os feitos extraordinários de um herói. Por meio de sica são as seguintes.
longos poemas, um acontecimento histórico protagoni-
zado por um herói é narrado em estilo solene, grandioso.
• Predestinação para cumprir dada missão.
Esses longos poemas narrativos são chamados de épicos • Coragem para enfrentar perigos extraordinários,
muitas vezes provocados pela ira dos deuses. O herói,
ou epopeias (do grego épos, que, entre outros significados, no entanto, também recebe auxílio divino para realizar
quer dizer “palavra”, “verso”, “discurso”). feitos espetaculares.
• Filiação a determinado povo. Como representante
As epopeias clássicas desse povo, o caráter notável do herói deixa de ser uma
marca pessoal e passa a identificar os atributos do povo
As obras épicas mais importantes para a literatura
ao qual pertence. É através do herói que as epopeias
ocidental são:
clássicas divulgam a ideia de identidade pátria, pois, na
• Ilíada: poema sobre a guerra, as atitudes heroicas e época em que surgem, a noção de Estado ainda não está
os sofrimentos que ela desencadeia. O conflito his- definida e a organização social varia muito.

14 Suplemento de revisão LITERATURA

MPSR-LIT-T3(014-018)-b.indd 14 1/3/11 6:13 PM


As epopeias de imitação ou secundárias tomaram por
base a estrutura dos poemas homéricos.
Aspectos estruturais da poesia
As estrofes de um poema podem ser nomeadas a partir de
• Eneida, de Virgílio (30 a 19 a.C.), é considerada a primeira seu número de versos, como mostra a tabela.
epopeia de imitação, composta para glorificar a grandeza
de Roma.
• Os lusíadas, de Luís de Camões (Renascimento), Tipo de estrofe Número de versos

revela, na caracterização do herói Vasco da Gama, o Dístico 2


objetivo maior de exaltar a bravura do povo lusitano.
Nessa época, o Estado já está claramente organizado Terceto 3
e a individualidade do herói deixa de ser importante. Quarteto (ou quadra) 4
A partir do século XVIII, os longos poemas épicos en- Quinteto (ou quintilha) 5
tram em declínio e surgem as narrativas em forma de
romance. Escrito em prosa, o romance também narra Sexteto (ou sextilha) 6
as aventuras de um herói, o qual representa agora mui- Sétima (ou septilha) 7
to mais o indivíduo do que o povo a que pertence. As
conquistas pátrias dão lugar ao triunfo do ser humano Oitava 8
comum, que luta para sobreviver e construir sua iden- Novena (ou nona) 9
tidade nos grandes centros urbanos, numa sociedade
que o oprime em nome dos valores coletivos. Décima 10

Além de seus significados, a sonoridade das palavras é


O gênero lírico a base para a construção de recursos poéticos, como o
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ritmo, o metro e a rima.


A poesia lírica surge como forma de expressar senti-
mentos e emoções pessoais pela voz do eu lírico (ou
Ritmo Metro Rima
eu poemático), diferentemente da narração impessoal
da épica.
ica.
Número de sílabas
Númer
Marcado
Observe, no quadro abaixo, as principais estruturas métricas de um verso.
métricas de um verso. Coincidência
Coincidência
principalmente
principalment
principalmente
das composições líricas. Na contagem das
Na contagem das semelhança
ou semelhança
ou
pela alternância
pela alternância
sílabas em um verso
sílabas em um verso de sons a partir
de sons partir
entre acentos
entr e acen
metrificação), não devem
(metrificação), não devem
(metrificação da última vogal
da última vogal
(sílabas átonas/
(sílabas átonas/
ser consideradas as que
ser consideradas as que tônica no fim
tônica fim
Composições líricas tônicas) e
tônicas
tônicas) e
ocorrem após a última
ocorrem após a última dos versos.
pausas.
sílaba tônica do verso.
Período de
Composição Temática e estrutura
florescimento

Acontecimentos tristes, Os metros recebem o nome referente ao número de síla-


Elegia Grécia Antiga. morte de ente querido ou
de personalidade pública. bas que os constitui: 4 sílabas = tetrassílabo; 6 sílabas =
hexassílabo; 8 sílabas = octossílabo, e assim por diante.
Quando os versos do poema apresentam número diferente
Exalta valores nobres;
Ode Grécia Antiga.
tom de louvação. de sílabas, ou seja, irregularidade no número de sílabas
métricas, diz-se que eles são versos livres.
Poema pastoril; retrata Alguns metros recebem nomes especiais: redondilha menor
Écloga Séculos XVI e XVIII.
a vida bucólica dos (5 sílabas métricas), redondilha maior (7 sílabas), decassílabo
pastores em ambiente
campestre. (10 sílabas) e alexandrino ou dodecassílabo (12 sílabas).
As redondilhas são também conhecidas como medida
Adaptação da A mais conhecida das velha, estrutura métrica mais popular até a Idade Média.
cansó provençal; formas líricas; procura
muito difundido no submeter sentimentos
Os versos decassílabos, conhecidos como medida nova,
Soneto surgiram no Renascimento.
Renascimento italiano e emoções humanas a
por Dante Alighieri e exposição mais lógica ou
Francesco Petrarca. racional. As rimas podem ser:
• pobres, quando as palavras rimadas pertencem à mesma
classe gramatical.
O soneto é composto de 14 versos: dois quartetos
(conjuntos de quatro versos) e dois tercetos (conjun- • ricas, quando as palavras rimadas pertencem a classes
gramaticais diferentes.
tos de três versos). Sua estrutura (desenvolvimento do
tema nos dois quartetos e conclusão nos dois tercetos) Quando os versos do poema não apresentam rimas, são
revela forte influência do Renascimento, movimento chamados de versos brancos.
estético marcado pelo desejo de solucionar o embate Quanto à distribuição nos poemas, as rimas são classifi-
entre razão e emoção. cadas da forma a seguir.

OS gênEROS épIcO, LíRIcO E dRAmáTIcO 15

MPSR-LIT-T3(014-018)-b.indd 15 1/3/11 6:13 PM


• Emparelhadas ou paralelas (AABBCC). O gênero dramático
Chega-te a mim! Entra no meu amor, A A cena, num espetáculo teatral, é uma unidade de ação
E à minha carne entrega a tua flor! A das personagens. Nos textos dramáticos, a “voz narrativa”,
portanto, está entregue às personagens, que contam a
Preme contra o meu peito o teu seio agitado, B
história por meio de diálogos e monólogos.
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado! B Além das falas de personagens, uma das características
Abençoo o teu crime, acolho o teu desgosto, C dos textos dramáticos é apresentar um texto de apoio
Bebo-te, de uma a uma, as lágrimas do rosto! C para que se possa compreender a montagem do espetá-
BILAC, Olavo. A alvorada do amor. Antologia poética.
culo teatral, tal como concebida por seu autor.
Porto Alegre: L&PM, 1997. p. 11. (Fragmento). A origem grega do gênero dramático destaca dois elemen-
tos essenciais:
• Intercaladas, interpoladas ou opostas (ABBA). • a importância do público;
• a possibilidade de causar emoções por meio da re-
presentação.
Poeta fui e do áspero destino A
senti bem cedo a mão pesada e dura. B O gênero dramático na Grécia Antiga desenvolveu-se em
duas modalidades: a tragédia e a comédia.
Conheci mais tristeza que ventura B
e sempre andei errante e peregrino. A
Tragédia Comédia
Vivi sujeito ao doce desatino A
que tanto engana, mas tão pouco dura; B
• Os temas trágicos são as • A origem da comédia é asso-
e inda choro o rigor da sorte escura, B paixões, que despertam ciada ao cortejo de mascara-
a irracionalidade humana, dos dos festivais de Dionísio,

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


se nas dores passadas imagino. A (komoidía: komos, “procissão
os conflitos por elas
ALBANO, José. In: FARACO, Sérgio (Org.). Livro dos sonetos: desencadeados e a jocosa” + oidé, “canto”), que
1500-1900. Porto Alegre: L&PM, 1996. (Fragmento). transgressão da ordem percorria os campos dançando
social ou familiar. e cantando poemas que
satirizavam personalidades
• Cruzadas, entrecruzadas ou alternadas (ABAB). • Os conflitos encenados e acontecimentos da vida
quase sempre tratam de
mpre tratam
pública.
Porém, como me agora vejo is
isento A questões de honra e poder
poder.
• As personagens são
personagens sã • Com
Com o fim da democracia,
o fim da democracia,
dos sonhos que sonhava noite e d
dia B após a Guerra do
ós a Guerra do
no
nobres e heroicas (deuses,
bres e heroicas (deuses,
e só com saudades me atorm
atormento, A Peloponeso, acabou a
Pe loponeso, acabou
se
semideuses ou membros da
mideuses ou membros da
liberdade de expressão dos
li berdade expressão dos
ar
aristocracia).
istocracia).
entendo que não tive outra alegr
alegria B autores de textos cômicos.
tores xtos micos.
contentamento,
nem nunca outro qualquer contentamento
contentam A
• Geralmente
Geralmente terminam com
terminam com As comédias abandonaram a
comédias abandonaram a
um acontecimento funesto. crítica política e passaram a
senão ter cantado o que sofria. B • O objetivo da encenação é satirizar comportamentos
e costumes das pessoas
ALBANO, José. In: FARACO, Sérgio (Org.). Livro dos sonetos: desencadear, no público,
1500-1900. Porto Alegre: L&PM, 1996. (Fragmento). terror ou piedade (um comuns.
estado de grande tensão
emocional). A “purificação”
• A comédia, dessa forma,
se caracteriza por sua
• Encadeadas. O fim de um verso coincide com o interior
do seguinte.
dos sentimentos da leveza e alegria, aborda
plateia, provocada por essa episódios cotidianos, e
experiência estética, chama- as personagens são seres
E tresloucadas ou casadas com o som das baladas, A -se catarse. humanos e reais.
As fadas (A) são belas, e as estrelas B
São delas... (B) ei-las alheadas. A
O gênero dramático na Idade Média, devido à forte influên-
PESSOA, Fernando. Ficções de Interlúdio;
O eu profundo e outros eus: seleção poética. cia da religião católica, enfocava cenas bíblicas e episó-
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 98. (Fragmento). dios da vida de santos. As modalidades mais populares
nesse período são:

• Misturadas. Não se enquadram em nenhum dos esque- • o auto: peça curta, em geral de cunho religioso. As per-
sonagens representavam conceitos abstratos, como a
mas apresentados.
bondade, a virtude, a hipocrisia, o pecado, a gula, a luxúria.
Nas ruas da feira A Tinham, portanto, um conteúdo fortemente simbólico e,
Da feira deserta B muitas vezes, moralizante.
Só a lua cheia C • a farsa: peça curta cujo conteúdo envolvia situações
ridículas ou grotescas. Seu objetivo era a crítica aos
Branqueia e clareia C costumes.
As ruas da feira A No século XVI, surge na Itália a commedia dell’arte, que
Na noite entreaberta B procura resgatar as tradições da comédia clássica. Na In-
PESSOA, Fernando. Ficções de Interlúdio; III/Pierrot Bêbado. glaterra, no mesmo período, William Shakespeare escreve
O eu profundo e outros eus: seleção poética. inúmeras peças, trágicas e cômicas, que se transformam
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 96. (Fragmento).
em clássicos do teatro universal.

16 Suplemento de revisão LITERATURA

MPSR-LIT-T3(014-018)-b.indd 16 1/3/11 6:13 PM


Os gêneros épico, lírico e dramático

Enem e vestibulares

1. (Enem-Inep)
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
Gênero dramático é aquele em que o artista usa como
No meio do caminho tinha uma pedra
intermediária entre si e o público a representação. A palavra
vem do grego drao (fazer) e quer dizer ação. A peça teatral [...]
é, pois, uma composição literária destinada à apresentação ANDRADE, C. D. Antologia poética.
por atores em um palco, atuando e dialogando entre si. O Rio de Janeiro/São Paulo:
Record, 2000. (Fragmento).
texto dramático é complementado pela atuação dos atores
no espetáculo teatral e possui uma estrutura específica,
caracterizada: 1) pela presença de personagens que devem
estar ligados com lógica uns aos outros e à ação; 2) pela Texto 2
ação dramática (trama, enredo), que é o conjunto de atos

1979 Paws, Inc. all RIghts ReseRved/dIst. unIveRsal uclIck


dramáticos, maneiras de ser e de agir dos personagens
encadeadas à unidade do efeito e segundo uma ordem
composta de exposição, conflito, complicação, clímax e
desfecho; 3) pela situação ou ambiente, que é o conjunto
de circunstâncias físicas, sociais, espirituais em que se
situa a ação; 4) pelo tema, ou seja, a ideia que o autor
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

(dramaturgo) deseja expor, ou sua interpretação real por


meio da representação.
COUTINHO, A. Notas de teoria
literária. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1973. (Adaptado).

Considerando
Considerando o texto e analisando os elementos que
texto analisando os elementos que
constituem
constituem um espetáculo teatral, conclui-se que
um espetáculo teatral, conclui-se que

a)
a) a criação do espetáculo teatral apresenta-se como
criação do espetáculo teatral apresenta-se como
um
um fenômeno de ordem individual, pois não é pos-
fenômeno de ordem individual, pois não é pos-
sível sua concepção de forma coletiva.

b) o cenário onde se desenrola a ação cênica é conce-


bido e construído pelo cenógrafo de modo autôno-
mo e independente do tema da peça e do trabalho
interpretativo dos atores.

c) o texto cênico pode originar-se dos mais variados


gêneros textuais, como contos, lendas, romances,
poesias, crônicas, notícias, imagens e fragmentos
textuais, entre outros.

d) o corpo do ator na cena tem pouca importância na


comunicação teatral, visto que o mais importante
DAVIS, J. Garfield, um charme de gato – 7.
é a expressão verbal, base da comunicação cênica Trad. da Agência Internacional Press.
em toda a trajetória do teatro até os dias atuais. Porto Alegre: L&PM, 2000.

e) a iluminação e o som de um espetáculo cênico


independem do processo de produção/recepção A comparação entre os recursos expressivos que cons-
do espetáculo teatral, já que se trata de linguagens tituem os dois textos revela que
artísticas diferentes, agregadas posteriormente à
a) o texto 1 perde suas características de gênero poético
cena teatral.
ao ser vulgarizado por histórias em quadrinhos.
b) o texto 2 pertence ao gênero literário, porque as esco-
lhas linguísticas o tornam uma réplica do texto 1.
2. (Enem-Inep)
c) a escolha do tema, desenvolvido por frases seme-
lhantes, caracteriza-os como pertencentes ao mesmo
Texto 1 gênero.
No meio do caminho d) os textos são de gêneros diferentes porque, apesar da
No meio do caminho tinha uma pedra intertextualidade, foram elaborados com finalidades
distintas.

Os gêneros épico, lírico e dramático EnEm E VESTIBULARES 17

MPSR-LIT-T3(014-018)-b.indd 17 1/3/11 6:13 PM


e) as linguagens que constroem significados nos dois (Uerj) Com base no texto abaixo, responda às questões de
textos permitem classificá-los como pertencentes ao números 4 a 6.
mesmo gênero.

3. (Prise/Uepa) Assinale a alternativa que indica corretamen-


O corpo
te os gêneros literários dos textos abaixo relacionados, na Acrobata enredado
sequência em que estão dispostos. Em clausura de pele
Sem nenhuma ruptura
I. O Dr. Mamede, o mais ilustre e o mais eminente dos alienis-
Para onde me leva
tas, havia pedido a três de seus colegas e a quatro sábios que
se ocupavam de ciências naturais, que viessem passar uma Sua estrutura?
hora na casa de saúde por ele dirigida para que lhes pudesse Doce máquina
mostrar um de seus pacientes. Com engrenagem de músculos
Guy de Maupassant Suspiro e rangido
II. Todas as noites o sono nos atira da beira de um cais O espaço devora
E ficamos repousando no fundo do mar. Seu movimento
O mar onde tudo recomeça... (Braços e pernas
Onde tudo se refaz... sem explosão)
Até que, um dia, nós criaremos asas. Engenho de febre
E andaremos no ar como se anda na terra. Sono e lembrança
Mário Quintana Que arma
E desarma minha morte

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


III. Oh! Que famintos beijos na floresta!
E que mimoso choro que soava! Em armadura de treva.
Que afagos tão suaves, que ira honesta, FILHO, Armando Freitas. Disponível em: <http://geocities.
yahoo.com.br/jerusalem_13/armandofreitasfilho.html>.
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
4. No poema, o eu lírico desenvolve, empregando diferentes
eu lírico
Que Vênus com prazeres inflamava, imagens, a ideia de corpo como clausura. Isso não ocorre
ideia
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo; no
no seguinte verso:
seguinte verso:
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo. a) “Acrobata
a) “Acrobata enredado” (v. 1)
“Acrobata enredado” (v. 1)
Luís de Camões
Luís de Camões b) “Sem nenhuma ruptura” (v. 3)
b) “Sem
“Sem nenhuma ruptura” (v. 3)

IV. Velha: E o lavrar, Isabel? c)


c) “Com
“Com engrenagem de músculos” (v. 7)
engrenagem de músculos”

Isabel: Faz a moça mui mal feita, d) “Em armadura de treva.” (v. 17)

corcovada, contrafeita,
5. A concisão é uma das características que mais se des-
de feição de meio anel;
tacam na estrutura do poema. Essa concisão pode ser
e faz muito mau carão, atribuída à/ao:
e mau costume d’olhar. a) clara ausência de conectivos, explorando a sonoridade
Velha: Hui! Pois jeita-te ao fiar do poema.
Estopa ou linho ou algodão; b) pouco uso de metáforas, enfatizando a fragmentação
Ou tecer, se vem à mão. dos versos.

Isabel: Isso é pior que lavrar. c) abrupta mudança de versos, reforçando a lógica das
ideias.
Gil Vicente
d) baixa frequência de verbos, exprimindo a inércia do eu
lírico.
Lavrar: costurar.
De feição de meio anel: 6. (Adaptada) A ausência de pontuação na última estrofe
de rosto emoldurado por do poema pode nos levar a diferentes leituras do texto.
(cabelo) cachos cortados A única interpretação incoerente desse trecho é apre-
pela metade. sentada em:
Carão: cara, semblante.
a) Engenho de febre e de sono, e lembrança que arma e
Hui! Pois jeita-te: Pois te
desarma minha morte em armadura de treva.
acostuma.
b) Engenho de febre, de sono e de lembrança, a qual arma
e desarma minha morte em armadura de treva.
a) Narrativo – épico – lírico – dramático
c) Engenho de febre, de sono e de lembrança, o qual arma
b) Dramático – lírico – épico – narrativo
e desarma minha morte em armadura de treva.
c) Narrativo – lírico – épico – dramático
d) Engenho de febre, engenho que é sono e lembrança,
d) Dramático – épico – narrativo – lírico e que arma e desarma minha morte em armadura
e) Épico – dramático – narrativo – lírico de treva.

18 Suplemento de revisão LITERATURA

MPSR-LIT-T3(014-018)-b.indd 18 1/3/11 6:13 PM


Literatura: expressão de uma época
A seleção de temas, o modo como são tratados, a linguagem utilizada e
os recursos expressivos definem os estilos de época. Reconhecê-los nos ajuda
a compreender o contexto de produção de uma obra de arte.

Estilo de época O tom de fofoca com que o narrador pontua a frivolidade


do caráter, bem como a debilidade e a artificialidade do corpo
Os artistas revelam em suas obras o contexto em que vivem: do Príncipe, torna evidente a decadência das elites russas de
suas representações nos mostram uma concepção de meados do século XIX. Os traços físicos e de personalidade de
mundo marcada por valores comuns à sua época, que se Gavrila, símbolo de uma nobreza decrépita e artificial, somados
manifestam na abordagem dos temas escolhidos. ao conhecimento do contexto histórico dessa sociedade, nos
Identificamos um estilo de época a partir do reconhecimento ajudam a compreender melhor o clima de insatisfação popular
dos padrões e das semelhanças que caracterizam a produ- e os valores comuns da época, que acabam por endossar a
ção artística de um dado período. Revolução Comunista na Rússia algumas décadas depois.
O estilo individual de um artista é reconhecível a partir do uso
particular que ele faz dos elementos que distinguem uma Historiografia literária
estética: o olhar que o autor dirige aos temas característicos
de um período e o uso que faz dos recursos de linguagem Um estilo de época pode ser associado a uma escola literária
associados a uma determinada estética definem o seu estilo. ou a um movimento literário. O estudo e a descrição das carac-
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O reconhecimento das características de um estilo de época e terísticas estéticas de diferentes escolas ou movimentos
do estilo individual de um autor ajuda a identificar os elementos literários são denominados historiografia literária.
do contexto de produção de uma obra de arte, possibilitando O contato com uma quantidade maior de textos nos permite
a construção de um novo olhar para o tema nela abordado. observar que há um número limitado de temas e recursos
expressivos que, de tempos em tempos, são retomados por
O fragmento a seguir traz a descrição de uma persona- autores de diferentes épocas. Essa retomada, algumas vezes,
ferentes
gem decadente da nobreza russa, o Príncipe Gavrila, que, ao estionar abordagens anteriores; outras vezes,
serve para questionar anteriores
transferir-se da capital São Petersburgo para Mordasov, uma
para reafirmar
afirmar determinados temas.
para reafirmar temas
pacata cidade provinciana da Rússia de meados do século
XIX, provoca alterações no cotidiano da elite desse lugarejo. As composições que você lerá a seguir são de diferentes
períodos e estéticas, mas apresentam um tema comum: a
Antes de mais nada, devo dizer que o Príncipe Gavrila não era extraordi- passagem do tempo e o fim da juventude.
nariamente velho, mas estava tão decrépito, tão gasto, que, ao vê-lo, podia
pensar-se que ia cair aos pedaços, quando menos se esperasse. Para a jovem Gala que vai envelhecendo
Em Mordasov, corriam, de boca em boca, as histórias mais fantásticas Décimo Magno Ausônio (c. 310-395)
a respeito do Príncipe, chegando até a dizer-se que não tinha o seu juízo Eu te dizia: “Gala, envelhecemos, vai-se a mocidade,
perfeito. Não se podia compreender que o dono de uma propriedade com aproveita os teus encantos: uma jovem casta é uma velha”.
quatro mil servos, pertencente a distinta família, podendo ter, se quisesse,
Tu me deste o desprezo. Furtivamente se insinuou a velhice
grande influência na província, vivesse isolado nas suas propriedades,
sem que possas ter de volta os dias que se foram.
semelhante a um ermitão. Muitos dos que conheciam o Príncipe, quando
esteve em Mordasov, há seis ou sete anos, asseguravam que ele não podia Agora te lastimas e te queixas por não teres tido
ficar sozinho um instante e estava longe de assemelhar-se a um ermitão. então esse desejo ou por não teres mais tua beleza.
Eis aqui os dados que consegui obter de pessoas bem informadas: Dá-me, contudo, os teus abraços, mais as alegrias esquecidas.
Na sua mocidade, já bastante remota, o Príncipe teve na sociedade brilhante Dá-me que desfrute, se não o que eu quero, ao menos o que eu já quis.
acolhida, divertiu-se muito, namoriscou, viajou pelo estrangeiro, cantou
AUSÔNIO, Décimo Magno. Para a jovem Gala que vai envelhecendo. Trad.
romanças, contou anedotas e nunca se distinguiu por dotes brilhantes de João Pedro Mendes. In: NOVAK, Maria da Gloria; NERI, Maria Luiza (Orgs.).
inteligência. Não é preciso esclarecer que dissipou toda a sua fortuna, e a Poesia lírica latina. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p. 303.
velhice surpreendeu-o sem um níquel. [...]
Usava cabeleira, bigode, suíças e pera, tudo postiço, até o último pelo, e
de um negro magnífico. Pintava-se e usava pó de arroz. Dizia-se, também, Já, Marfiza cruel, me não maltrata
que ocultava as rugas da cara, por meio de pequeninas molas, escondidas Basílio da Gama (1741-1795)
com arte especial debaixo dos pelos. Afirmavam, além disso, que usava Já, Marfiza cruel, me não maltrata
espartilho, por haver perdido uma costela, ao saltar, com pouca destreza saber que usas comigo de cautelas,
de uma janela, numa de suas aventuras, sucedidas na Itália. Coxeava da que inda te espero ver, por causa delas,
perna esquerda e havia quem garantisse que essa perna era postiça, perna arrependida de ter sido ingrata.
de cortiça de modelo especial, que substituía a perna verdadeira, partida Com o tempo, que tudo desbarata,
em Paris, numa aventura do mesmo gênero. Mas que é que o mundo não teus olhos deixarão de ser estrelas;
é capaz de inventar? O que é certo é que o olho direito era de vidro, mara- verás murchar no rosto as faces belas,
vilhosamente imitado, usava dentadura postiça e passava o dia a lavar-se e as tranças converter-se em prata.
com águas medicinais, perfumando-se e pondo pomadas.
Pois se sabes que a tua formosura
DOSTOIÉVSKI , Fiódor. O sonho do Príncipe. Trad. José Maria Machado.
São Paulo: Clube do Livro, 1984. p. 22-24. (Fragmento).
por força há de sofrer da idade os danos,
por que me negas hoje esta ventura?

Literatura: expressão de uma época 19

MPSR-LIT-T4(019-022)-b.indd 19 1/3/11 6:18 PM


Guarda para seu tempo os desenganos, Compare os dois poemas a seguir.
gozemo-nos agora, enquanto dura,
já que dura tão pouco a flor dos anos. Formosa
GAMA, Basílio da. In: FARACO, Sérgio (Org.). Livro dos sonetos: 1500-1900 Formosa, qual pincel em tela fina
(poetas portugueses e brasileiros). Porto Alegre: L&PM, 1996. p. 36.
debuxar jamais pôde ou nunca ousara;
formosa, qual jamais desabrochara
Tempo perdido na primavera rosa purpurina;
Renato Russo (1960-1996) formosa, qual se a própria mão divina
Todos os dias quando acordo, lhe alinhara o contorno e a forma rara;
Não tenho mais o tempo que passou formosa, qual jamais no céu brilhara
Mas tenho muito tempo: astro gentil, estrela peregrina;
Temos todo o tempo do mundo. formosa, qual se a natureza e a arte,
Todos os dias antes de dormir, dando as mãos em seus dons, em seu louvores,
Lembro e esqueço como foi o dia: jamais soube imitar no todo ou parte;
“Sempre em frente, mulher celeste, oh, anjo de primores!
Não temos tempo a perder”.
Quem pode ver-te sem querer amar-te?
Nosso suor sagrado Quem pode amar-te, sem morrer de amores?
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério Debuxar: esboçar, rascunhar.
E selvagem.
MONTEIRO, Maciel. In: FARACO, Sérgio (Org.). Livro dos sonetos: 1500-
Veja o sol dessa manhã tão cinza: -1900 (poetas portugueses e brasileiros). Porto Alegre: L&PM, 1996. p. 44.
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos.
Então me abraça forte e diz mais uma vez

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Que já estamos distantes de tudo: Cantada
Temos nosso próprio tempo. Você é mais bonita que uma bola prateada
Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora. de papel de cigarro
O que foi escondido é o que se escondeu Você é mais bonita que uma poça d’água
E o que foi prometido, ninguém prometeu. límpida
Nem foi tempo perdido; num lugar escondido
Somos tão jovens.
Você é mais bonita que uma zebra
RUSSO, Renato. Tempo perdido. Intérprete:
RUSSO, Renato. Tempo perdido. Intérprete: que um filhote de onça
Legião Urbana. Dois. EMI-Odeon, 1986. Faixa 6.
Legião Urbana. CD Dois. EMI-Odeon, 1986. Faixa 6.
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
Apesar das
Apesar das diferenças
diferenças de estilo, a retomada do tema
ferenças de tema da
da em frente ao mar em Ipanema
passagem do tempo (e suas consequências, como a perda da
passagem
ssagem do tempo (e suas nsequências, como perda Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobras
beleza da juventude e a necessidade de aproveitar o momento de noite
presente) nas composições líricas através dos séculos reforça mais bonita que Ursula Andress
a importância da reflexão sobre a condição limitada da exis- que o Palácio da Alvorada
tência humana. mais bonita que a alvorada
A produção literária contemporânea tem sido associada a que o mar azul-safira
um novo estilo de época: o Pós-Modernismo. Uma de suas da República Dominicana
principais características é a ausência de uma estética
unificadora da produção artística. Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
Diferentes olhares e linguagens e quase tão bonita

para um mesmo tema quanto a Revolução Cubana


GULLAR, Ferreira. Cantada. Dentro da noite veloz. Disponível em:
Quando uma forma literária é recuperada, ela também sofre <http://literal.terra.com.br/ferreira_gullar/porelemesmo/cantada.
as adaptações necessárias para se tornar “atual”. Assim, shtml?porelemesmo>. Acesso em: 10 nov. 2010.
são estabelecidos importantes diálogos entre autores de
momentos diversos, criando uma tradição no interior da
produção literária local e universal. Enaltecer a beleza da mulher amada é o tema dos dois poe-
Podemos estudar a literatura através dos tempos acom- mas. No entanto, o olhar diferenciado desses autores sobre
panhando como um mesmo tema foi trabalhado em mo- o mesmo tema marca também uma grande transformação
mentos diversos. Alguns dos temas mais abordados pela ideológica e estética de um século para o outro. Enquanto no
literatura são o amor, a natureza, a mulher, a morte, a pátria soneto de Maciel Monteiro predomina o ideal romântico de be-
e o fazer literário. leza (tanto a natureza quanto a arte são incapazes de reproduzir
O estudo das obras literárias, pelo reconhecimento de a perfeição da amada), Ferreira Gullar brinca com o engajamento
seus valores estéticos, permite indagar como elas foram político da geração à qual pertence (a amada é “quase tão bonita
construídas, o que sugerem sobre pessoas que viveram quanto a Revolução Cubana”). Note-se ainda a estrutura formal
em outras sociedades, em outras épocas. Esse olhar para mais despojada (versos brancos e livres, linguagem coloquial)
o outro e para o passado transforma o modo como vemos do poema de Gullar, reveladora de uma liberdade estética maior,
o presente e como construímos o futuro. conquistada definitivamente a partir do século XX.

20 suplemento de revisão Literatura

MPSR-LIT-T4(019-022)-b.indd 20 1/3/11 6:18 PM


Literatura: expressão de uma época

Enem e vestibulares

(Uerj) Com base no texto abaixo, responda às questões 1. A capital federal, peça escrita por Arthur Azevedo e ence-
números 1 e 2. nada com sucesso até hoje, retrata o Rio de Janeiro no fim
do século XIX.
Coplas a) O texto demonstra como já circulavam amplamente
I — O GERENTE – Este hotel está na berra! no Rio de Janeiro comparações com modelos estran-
Jamais houve nesta terra geiros de modernidade. Transcreva dois versos que
confirmem esta afirmativa.
Um hotel assim mais tal!
“Que os não há superiores / Na cidade de Paris!”.
Toda a gente, meus senhores,
Toda a gente ao vê-lo diz:
b) Transcreva do texto duas frases completas em que o
Que os não há superiores progresso técnico e o conforto são apresentados como
Na cidade de Paris! qualidades simultâneas do Grande Hotel.
Que belo hotel excepcional Duas entre as frases: “Serviço elétrico de primeira ordem!”; “Um
O Grande Hotel da Capital
relógio pneumático em cada aposento!”; “Banhos frios e quentes,
Federal!
CORO – Que belo hotel excepcional, etc. ... duchas, sala de natação, ginástica e massagem!”.

II — O GERENTE – Nesta casa não é raro


Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Protestar algum freguês: 2. O texto faz parte de uma peça de teatro, forma de expres-
Coisa é muito natural! são que se destacou na captação das imagens de um Rio
de Janeiro que se modernizava no início do século XX.
Acha bom, mas acha caro
a) Aponte o gênero de composição em que se enquadra
Quando chega o fim do mês. esse texto e um aspecto característico desse gênero.
Por ser bom precisamente,
O texto pertence ao gênero dramático. Os seguintes aspectos caracte-
pertence ao
Se o freguês é do bom-tom
Vai dizendo a toda a gente rísticos desse gênero estão presentes no texto transcrito: ausência de
rísticos desse gênero estão presentes no texto transcrito: ausência de

Que isto é caro mas é bom. narrador; presença de rubricas; predomínio de diálogos; personagens
narrador; presença de rubricas; predomínio diálogos; personagens
Que belo hotel excepcional!
O Grande Hotel da Capital encarnados por atores; encenação dos episódios em um palco.
encarnados por atores; encenação dos episódios em um palco.

Federal!
b) A fala do gerente revela atitudes distintas quando se
CORO – Que belo hotel excepcional, etc. ... dirige aos criados e quando está só. Identifique o modo
O GERENTE (Aos criados) – Vamos! Vamos! Aviem-se! Tomem as verbal e a função da linguagem predominantes na fala
malas e encaminhem estes senhores! Mexam-se! Mexam-se! ... (Vo- dirigida aos criados.
zerio. Os hóspedes pedem quarto, banhos, etc. ... Os criados respondem.
O modo verbal predominante é o imperativo; a função da linguagem
Tomam as malas, saem todos, uns pela escadaria, outros pela direita.)
Cena II — O GERENTE, depois, FIGUEIREDO é a apelativa ou conativa.
O GERENTE (Só.) – Não há mãos a medir! Pudera! Se nunca houve no
Rio de Janeiro um Hotel assim! Serviço elétrico de primeira ordem! Cozi- 3. (UFPE) O período das grandes navegações constituiu o apo-
nha esplêndida, música de câmara durante as refeições da mesa redon- geu da história de Portugal e ofereceu matéria para alguns
da! Um relógio pneumático em cada aposento! Banhos frios e quentes, dos maiores textos literários da língua portuguesa, como Os
duchas, sala de natação, ginástica e massagem! Grande salão com um lusíadas, de Camões, e Mensagem, de Fernando Pessoa. Consi-
plafond pintado pelos nossos primeiros artistas! Enfim, uma verdadeira dere os poemas abaixo e analise as proposições a seguir.
novidade! – Antes de nos estabelecermos aqui, era uma vergonha! Ha-
via hotéis em S. Paulo superiores aos melhores do Rio de Janeiro! Mas Texto 1
em boa hora foi organizada a Companhia do Grande Hotel da Capital A gente da cidade, aquele dia,
Federal, que dotou esta cidade com um melhoramento tão reclamado!
(Uns por amigos, outros por parentes,
E o caso é que a empresa está dando ótimos dividendos e as ações
andam por empenhos! (Figueiredo aparece no topo da escada e começa Outros por ver somente) concorria,
a descer.) Ali vem o Figueiredo. Aquele é o verdadeiro tipo do carioca: Saudosos na vista e descontentes.
nunca está satisfeito. Aposto que vem fazer alguma reclamação. E nós, com a virtuosa companhia
AZEVEDO, Arthur. A capital federal. De mil religiosos diligentes,
Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1972. Em procissão solene, a Deus orando,
Para os batéis viemos caminhando.
Coplas: espécie de estrofe. Em tão longo caminho e duvidoso
Berra: estar na moda. Por perdidos as gentes nos julgavam.
Plafond: teto. As mulheres com choro piedoso,

Literatura: expressão de uma época eNem e VestiBuLares 21

MPSR-LIT-T4(019-022)-b.indd 21 1/3/11 6:18 PM


Os homens com suspiros que arrancavam. Com saber só de experiências feito,
Mães, esposas, irmãs, que o temeroso Tais palavras tirou do experto peito:
Amor mais desconfia, acrescentavam [...]
A desesperação e frio medo A que novos desastres determinas
De já nos não tornar a ver tão cedo. De levar estes Reinos e esta gente?
Os lusíadas, Camões. Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome proeminente?
Que promessas de reinos e de minas
Texto 2
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Ó mar salgado, quanto do teu sal
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
São lágrimas de Portugal!
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram! Camões, Os lusíadas (Fala do velho do Restelo).
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar! Texto 2
Valeu a pena? Tudo vale a pena Aqui, na Terra, a fome continua,
Se a alma não é pequena. A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Mensagem, Fernando Pessoa.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
0-0) Fernando Pessoa, a exemplo do que fez Camões
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
nos versos apresentados acima, alude à história do
descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral. E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


1-1) Em seu livro Mensagem, como mostra o fragmento
acima, Fernando Pessoa, poeta do século XX, faz uma De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
releitura de Os lusíadas, refletindo alguns temas do No jornal, de olhos tensos, soletramos
épico camoniano. As vertigens do espaço e maravilhas:
2-2) Em ambos os poemas apresentados, os autores descre- Oceanos salgados que circundam
vem o sofrimento e as perdas para a população comum,
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
das grandes navegações portuguesas no século XVI.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
3-3) A independência das colônias trouxe para Portugal
a perda dos territórios e das riquezas arduamente Onde come, brincando, só a fome,
conquistados, além de inúmeros problemas sociais Só a fome, astronauta, só a fome,
advindos do período da colonização. Ciente disso, Fer- E são brinquedos as bombas de napalme.
nando Pessoa, no trecho citado, condena duramente José Saramago, Fala
José Saramago, Fala do velho do Restelo ao astronauta
astronauta.
as grandes navegações exaltadas em Os lusíadas.
4-4) Em ambos os textos, a descrição do custo social
0-0) Um dos aspectos mais relevantes da obra de Saramago
das navegações portuguesas serve para enaltecer a
é a tentativa de reinterpretar o passado usando temas
coragem e a grandeza do povo português.
históricos, como no poema apresentado acima.
0-0 = falso: Os lusíadas narra a descoberta do caminho marítimo para as
1-1) Falando ao astronauta como falou o velho do Restelo
ao navegador português, Saramago utiliza um recur-
Índias pelo navegador Vasco da Gama; 1-1 = verdadeiro; 2-2 = verdadeiro;
so literário semelhante ao de Camões em seu épico.
3-3 = falso: com sua famosa frase “Tudo vale a pena se a alma não é peque- 2-2) Em seu poema, Saramago enaltece as viagens espa-
ciais na modernidade, assim como Camões enaltecia
na”, Pessoa defende aspectos positivos das grandes navegações, como a as viagens marítimas em seu tempo.

ampliação da consciência humana e a aproximação de continentes e povos 3-3) As vozes do velho do Restelo e de Saramago mostram
que os imperialismos, seja no século XVI, seja no
até então desconhecidos; 4-4 = verdadeiro. século XX, ocultam uma visão de mundo sectária e
bélica, causadora de grandes sofrimentos.
4. (UFPE) O velho do Restelo é uma voz emblemática na lite- 4-4) Pelo exposto no poema de Saramago, pode-se deduzir
ratura portuguesa, que continua a influenciar os escritores que ele reconhece a relevância das conquistas es-
modernos, como José Saramago. Leia o poema “Fala do velho paciais para a modernidade. Certamente, Saramago
do Restelo ao astronauta” e analise as proposições a seguir. concordaria com os versos de Pessoa: “Tudo vale a
pena se a alma não é pequena”.

Texto 1 0-0 = verdadeiro; 1-1 = verdadeiro; 2-2 = falso: Saramago critica o alto in-
Mas um velho, de aspecto venerando,
vestimento nas viagens espaciais quando há tanta pobreza no mundo; 3-3
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando = verdadeiro; 4-4 = falso: nada no poema de Saramago faz crer na validade
Três vezes a cabeça, descontente,
nas viagens espaciais, que são duramente criticadas.
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,

22 suplemento de revisão Literatura

MPSR-LIT-T4(019-022)-b.indd 22 1/3/11 6:18 PM


Literatura na Idade Média
Em meio ao poder da Igreja católica e a um rígido código de conduta,
nasce a literatura de língua portuguesa: expressão de amor e cortesia.

Idade Média: entre o mosteiro


e a corte Literatura Textos
oral em manuscritos
A Idade Média tem início com a conquista de Roma pe-
língua local: em latim:
los comandantes germânicos no ano de 476 (século V) e
voltada reprodução ou
termina com a queda de Constantinopla, tomada pelos para o deleite tradução de textos
turcos em 1453 (século XV). Produção dos homens sagrados
Uma das heranças da dominação romana na Europa du- cultural e das mulheres da do cristianismo
rante a Idade Média foi o cristianismo. Aos poucos, a nobreza e obras de grandes
e para legitimar filósofos da
Igreja católica cresceu e concentrou um grande poder
o novo papel Antiguidade,
religioso e secular. Na Alta Idade Média (séculos XII e
social assumido como Platão e
XIII), o poder da Igreja era maior que o da monarquia; pre-
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

pelos cavaleiros. Aristóteles.


dominava, então, o teocentrismo (do grego théos, “deus”
ou “divindade”), uma visão de mundo cristã que afirma a
perfeição e a superioridade de Deus, centro de todas as
coisas, sobre o ser humano imperfeito e pecador.
Código amoroso
A
A Igreja
Igreja medieval controlava quase toda a produção
medieval controlava baseado no
cultural da época, em que apenas 2% da população eu-
cultural da época, em qu enas 2% da pulação código da Trabalho de
ropeia
ropeia era alfabetizada, e a escrita e a leitura estavam
era fabetizada, crita e a leitura estavam
tavam cavalaria:
cavalaria tradução e
restritas
stritas aos mosteiros e abadias. Os textos, de repro-
mosteiros adias. Os textos, de repro-
pro- o trovador
o trovador
vador reprodução
dução manuscrita e em latim, circulavam com dificulda-
dução manuscrita
nuscrita e em rculavam com ficulda- demonstrava
demonstra
demonstrava feito pelos
de em pequeno número de cópias.
de em pequeno
queno número pias. Regras para o amor cortês,
o amor cortês, religiosos:
religiosos:
a produção que transferia
que transferia limitava-se a
limitava-se a
Com a morte do imperador Carlos Magno em 814 (século textual a relação de textos selecionados,
IX) e o enfraquecimento do poder central, a sociedade me- vassalagem que não representassem
dieval precisou se reorganizar em torno dos grandes pro- entre cavaleiros uma ameaça ao
prietários de terra, os senhores feudais, formando peque- e senhores feudais poder da Igreja
nas cortes, das quais faziam parte membros empobrecidos para o louvor às católica.
da nobreza, cavaleiros, camponeses livres e servos, unidos damas da
sociedade.
por uma relação de dependência pessoal: a vassalagem.
Nobres, cavaleiros e senhores feudais se relacionavam
por meio de um código de cavalaria baseado em lealda-
de, honra, bravura e cortesia.

Veja, na tabela a seguir, como se manifestava a ativi-


O Trovadorismo:
dade cultural na Europa medieval. poesia e cortesia
Castelos e cortes dos Mosteiros No século XII, com o fim das grandes invasões na Euro-
senhores feudais e abadias
pa, ressurgiram as cidades, o progresso econômico e o
Jograis: recitadores,
intercâmbio cultural. Os cavaleiros, sem função social
cantores e músicos nesse contexto, assumiram um novo papel, a vassa-
ambulantes contratados lagem amorosa. O servilismo dos vassalos ao seu
Monges e
para apresentar as religiosos
suserano (o senhor feudal) e dos fiéis a Deus originou
cantigas na corte. eruditos: o princípio básico da literatura medieval: a subser-
Autores/
artistas
Trovadores: nobres que visitavam os viência de um trovador à sua dama (no caso da poesia)
praticavam a arte de feudos para ou de um cavaleiro à sua donzela (no caso das novelas
trovar; eram geralmente divulgar suas
composições. de cavalaria).
os compositores das
cantigas apresentadas
pelos jograis. Observe a seguir as principais características da lin-
guagem da vassalagem amorosa.

Literatura na idade Média 23

MPSR-LIT-T5(023-027)-b.indd 23 1/3/11 6:19 PM


A seguir, compare os principais aspectos formais e de
Estrutura Linguagem conteúdo das cantigas líricas galego-portuguesas.

Cantigas de amor Cantigas de amigo


Emprego de
metros regulares Exprimem o Falam de
Oralidade, unindo e presença constante sofrimento pelo amor uma relação amorosa
música e poesia. de rimas, não correspondido concreta entre
para facilitar a Tema que um trovador pessoas simples.
memorização. dedica a uma O tema central,
nobre senhora: em geral, é
a coita de amor. a saudade.
• Expressões para
nomear a dama
(senhor, mia senhor,
senhor fremosa) Sempre feminino
Obediência correspondem à e representa
É sempre
a regras posição social a voz de uma
masculino e se
que definem ocupada por ela. mulher (amiga)
autodenomina coitado,
a vassalagem • O homem é o servidor Eu lírico
cativo, aflito,
que manifesta
a saudade pela
amorosa. da dama; prezam-se enlouquecido,
a generosidade, ausência do amigo
sofredor.
a lealdade e, (namorado ou
acima de tudo, amante).

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


a cortesia.

O trovador: • Ambiente
campesino.
• fala da mesura • As cantigas
(mérito, valor) de
também podem
sua dama;
dama;
ser agrupadas
Referência • pede que ela
que ela de
de acordo com
acordo com
aos principais
aos principais reconheça sua
econheça sua o
o cenário e o
nário e o
valores da
valores
alores da cortesia (ou prez)
cortesia (ou prez) Ambiente
Cenário tema paralelo que
paralelo que
sociedade e lhe garanta o
garanta o palaciano.
palaciano
apresentam:
resentam:
cortês.
cortês. alardam (prêmio)
galardam (prêmio) Cantigas
a que tem direito de romaria,
por seguir as regras Cantigas de
da vassalagem barcarola ou
amorosa. Marinhas e
Cantigas de alba.

O nascimento da literatura
portuguesa • A dama tem
identificadas
suas qualidades
O nascimento da literatura portuguesa coincide com físicas (fremosa,
o nascimento de Portugal: em 1140, ao se tornar inde- delgada, de bem • Várias personagens
participam do
pendente do reino de Leão e Castela, o país não rompeu parecer), morais
“universo amoroso”,
seus laços econômicos, sociais e culturais com o resto (bondade, lealdade,
além da donzela e
da península Ibérica. O mais forte desses laços era a comprida de bem)
de seu amante: mãe,
língua, o galego-português. e sociais (bom sen,
amigas e damas de
falar mui ben).
Os trovadores galego-portugueses desenvolveram sua companhia servem
lírica amorosa influenciados pela literatura provençal.
Personagens • Ao comparar sua de testemunhas do
dama às outras da
amor.
Acredita-se que o primeiro texto literário galego-portu- mesma corte, o eu
guês seja a “Cantiga da Ribeirinha” (ou “Cantiga da Guar- lírico a apresenta • A mãe, muitas vezes,
representa um
vaia”), supostamente composta em 1198, cuja autoria é como superior.
obstáculo para os
atribuída a Paay Soares de Taveiroos. As comparações
encontros entre
também acentuam
As cantigas galego-portuguesas, conforme o tema que os enamorados.
as características do
desenvolvem, se dividem em: trovador: sua dor e seu
• líricas: cantigas de amor e cantigas de amigo; talento são maiores
que os dos outros.
• satíricas: cantigas de escárnio e cantigas de maldizer.
24 Suplemento de revisão Literatura

MPSR-LIT-T5(023-027)-b.indd 24 1/3/11 6:19 PM


A cantiga a seguir foi composta para ridicularizar
Cantigas de amor Cantigas de amigo
o jogral Lopo, que, segundo o trovador Martin Soarez,
É mais otimista, cantava muito mal.
Pessimista, pois o amor porque, apesar de
cantado é impossível de cantar a saudade,
Foi um dia Lopo jograr
ser concretizado, por trata-se de um amor
Tom
conta da superioridade que é real e ocorre a casa duü infançon cantar,
da posição que a dama entre pessoas de
e mandou-lhe ele por don dar
ocupa. condição social
semelhante. três couces na garganta,
e foi-lhe escasso, a meu cuidar,
• Sempre apresentam segundo como el canta
refrão. Os versos
costumam ser Escasso foi o infançon
redondilhas menores
(5 sílabas métricas). en seus couces partir’ enton,
• Costuma ser utilizada • A organização dos ca non deu a Lopo enton
Métrica e a redondilha maior
versos e das estrofes
organização (7 sílabas métricas). mais de três na garganta,
é muito mais regular
dos versos • O refrão é uma que a das outras e mais merece o jograron,
inovação em relação
cantigas.
aos provençais. segundo como el canta.
• Versos muito
semelhantes em SOAREZ, Martin. CV 974. Disponível em: <http://alfarrabio.di.uminho.
estrofes diferentes pt/vercial/trovador.htm#escarnio>. Acesso em 12 nov. 2010.
criam uma estrutura
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

paralelística.
As cantigas foram preservadas graças às coletâneas
manuscritas, chamadas cancioneiros. Os principais
As cantigas satíricas expressam um olhar crítico são: Cancioneiro da Ajuda, Cancioneiro da Vaticana e
para a conduta dos nobres (homens e mulheres) nas Cancioneiro da Biblioteca Nacional.
esferas
feras in
esferas dividual ou
individual ou social. Assim, ovadores
Assim, os trovadores
podiam
podiam ri dicularizar um nobre
diam ridicularizar bre que
que se
se envolvesse
envolvesse
com uma serviçal ou aqueles que não percebessem a
com uma se rviçal ou aq e não percebessem a As novelas de cavalaria
aição da esposa. Podiam nda denunciar as damas
traição da esposa. Podiam ainda denunciar as damas
traição mas
qu deixavam
que deixavam
ixavam de
de cumprir
cumprir seu papel
papel no
no jogo
jogo do
do amor
am or As
As novelas
novelas de
de ca
cavalaria
valaria são os pr
são os primeiros
imeiros romances
cortês,
rtês, qu era re conhecer compensar o trovador
ovador
cortês, que era reconhecer e recompensar o trovador (longas
(longas narrativas
narrativas em
em verso)
verso) surgidos
surgidos no
no século
século XII
XI I
mprisse to das
que cumprisse todas as regras. enturas dos valeiros andantes. Sua
e contam as aventuras dos cavaleiros
ntam as aventuras andantes Su
O público, composto pelos membros da corte, podia origem coincide com o declínio do prestígio da poesia
julgar o comportamento do trovador e da dama a trovadoresca. Essas novelas circularam pelas cortes
quem ele dirigia seus galanteios. Assim, outros trova- medievais e ajudaram a divulgar a visão de mundo da
dores também podiam censurar o comportamento da- sociedade desse período.
queles que não seguissem as regras do amor cortês. As novelas de cavalaria estão organizadas em três
ciclos:
• Ciclo clássico: narrativas sobre a guerra de Troia e as
aventuras de Alexandre, o Grande, heróis do mundo
clássico mediterrâneo.
• O trovador critica alguém por
meio de palavras de duplo • Ciclo arturiano ou bretão: narrativas sobre o rei Artur e os
cavaleiros da Távola Redonda; apresentam vários núcleos
sentido, ironias, trocadilhos
Cantigas de escárnio e jogos semânticos. temáticos, como a história de Percival, a história de Tris-
• De modo geral, essas cantigas tão e Isolda, as aventuras dos cavaleiros da corte do rei
ridicularizam o comportamento Artur e a demanda do Santo Graal. Esse ciclo permanece
de nobres (homens e mulheres). como um dos temas literários mais explorados até hoje.
• Ciclo carolíngio ou francês: narrativas sobre o rei Carlos
Magno e os 12 pares de França.
Outros tipos de texto produzidos na Idade Média:
• O trovador critica alguém • Cronicões: registravam os acontecimentos marcantes
de modo explícito, por
da vida dos nobres e dos reis em ordem cronológica.
meio de linguagem ofensiva

Cantigas de maldizer
e de baixo calão. • Nobiliários: registravam nascimentos, casamentos e
mortes de uma determinada família de nobres.
• Muitas vezes, essas cantigas
tratam das indiscrições
amorosas de nobres e membros
• Hagiografias: relatos da vida dos santos.

do clero.
Conteúdo digital Moderna PLUS http://www.modernaplus.com.br
Tema animado: Trovadorismo.

Literatura na idade Média 25

MPSR-LIT-T5(023-027)-b.indd 25 1/3/11 6:19 PM


Literatura na Idade Média

Enem e vestibulares

1. (PSS/UFPA) Leia atentamente o texto seguinte: d) Nas Cantigas de Amigo, a expressão do desejo feminino
de retorno do amado exprime uma noção diversa da ina-
Se eu podess’ ora meu coraçom, cessibilidade da senhora existente nas Cantigas de Amor.
Senhor, forçar e poder-vos dizer e) Não há notícias de que mulheres hajam escrito versos
quanta coita mi fazedes sofrer na época do Trovadorismo. O índice de analfabetismo
por vós, cuid’ eu, assi Deus mi perdom, entre elas era muito superior ao dos homens. São eles
que haveríades doo de mi. que expressam a voz delas nas Cantigas de Amigo.

Ca, senhor, pero me fazedes mal


(Unesp-SP) Instrução: As questões de números 3 a 5
e mi nunca quisestes fazer bem,
tomam por base uma cantiga do trovador galego Airas
se soubéssedes quanto mal mi vem Nunes, de Santiago (século XIII), e o poema “Confessor
por vós, cuid’ eu, par Deus que pod’ e val, medieval”, de Cecília Meireles (1901-1964).
que haveríades doo de mi.
E, pero mi havedes gram desamor, Cantiga
se soubéssedes quanto mal levei Bailemos nós já todas três, ai amigas,
e quanta coita, des que vos amei, So aquestas avelaneiras frolidas,
por vós, cuid’ eu, per bõa fé, senhor E quem for velida, como nós, velidas,
que haveríades doo de mi. Se amigo amar,

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


E mal seria se nom foss’ assi. So aquestas avelaneiras frolidas
Verrá bailar.
D. DINIS. Portal galego da língua: cantigas trovadorescas.
Disponível em: <http://agalgz.org/modules.php? Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
name=Biblio&rub=mostra_libro&id_livre=25>. So aqueste ramo destas avelanas,
E quem for louçana, como nós, louçanas,
Senhor: senhora. Doo: dó.
Se amigo amar,
Coita: sofrimento de amor.
Coita sofrimento de Ca: porque.
Ca: porque.
So aqueste ramo destas avelanas
Considerando que o texto acima é uma cantiga de amor, é Verrá bailar.
correto afirmar, sobre esse tipo de produção poética, que Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos,
a) o trovador, de acordo com as regras do amor cortês, ao So aqueste ramo frolido bailemos,
cantar a alegria de amar na cantiga de amor, revela em E quem bem parecer, como nós parecemos
seus poemas o nome da mulher amada. Se amigo amar,
b) o homem, nesse tipo de composição poética, nutre So aqueste ramo so lo que bailemos
esperanças de, um dia, conquistar a mulher amada, Verrá bailar.
que, mesmo sendo imperfeita, é o objeto do seu desejo. NUNES, Airas. In: SPINA, Segismundo. Presença da literatura portu-
c) a cantiga de amor, na lírica trovadoresca, caracteriza-se guesa I: era medieval. 2. ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1966.
por conter a confissão amorosa da mulher, que lamenta
a ausência do namorado que viajou e a abandonou.
Frolidas: floridas. Aqueste: este.
d) o trovador, na cantiga de amor, coloca-se no lugar da Velida: formosa. Louçana: formosa.
mulher que sofre com a partida do amado e confessa Aquestas: estas. Avelanas: avelaneiras.
seus sentimentos a um confidente (mãe, amiga ou Verrá: virá. Mentr’al: enquanto outras coisas.
algum elemento da natureza). Irmanas: irmãs. Bem parecer: tiver belo aspecto.
e) o homem apaixonado, na cantiga de amor, sofre e
coloca-se em posição de servo do “senhor” (não existia
a palavra “senhora”), divinizando a mulher amada, o Confessor medieval
que torna quase sempre a sua cantiga um lamento, (1960)
expressão do sofrimento amoroso. Irias à bailia com teu amigo,
Se ele não te dera saia de sirgo?
2. (Prosel/Uepa) A submissão da mulher ao homem é um Se te dera apenas um anel de vidro
sintoma de violência cultural que tem sido combatido, mas Irias com ele por sombra e perigo?
ainda persiste em alguns lugares do mundo. As consequên- Irias à bailia sem teu amigo,
cias disso são várias. Você lerá a seguir algumas frases Se ele não pudesse ir bailar contigo?
relativas à situação da mulher no Trovadorismo. Assinale Irias com ele se te houvessem dito
aquela em que há registro de uma dessas consequências.
Que o amigo que amavas é teu inimigo?
a) A relação de vassalagem entre o servo e seu senhor é Sem a flor no peito, sem saia de sirgo,
transferida para as Cantigas de Amor, uma vez que nelas a Irias sem ele, e sem anel de vidro?
dama é apresentada como senhora absoluta do trovador. Sirgo: seda.
Irias à bailia, já sem teu amigo,
b) A mulher é inacessível ao trovador, entre outras coisas, ou E sem nenhum suspiro?
por ser casada, ou por sua condição social de superioridade.
MEIRELES, Cecília. Poesias completas de Cecília Meireles.
c) Nas Cantigas de Amigo, há queixas constantes das mulhe- v. 8. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.
res pela ausência do amado, que o rei levou para a guerra.

26 Suplemento de revisão Literatura

MPSR-LIT-T5(023-027)-b.indd 26 1/3/11 6:19 PM


3. Tanto na cantiga como no poema de Cecília Meireles, 5. As cantigas que focalizam temas amorosos apresentam-
verificam-se diferentes personagens: um eu poemático, -se em dois gêneros na poesia trovadoresca: as “cantigas
que assume a palavra, e um interlocutor ou interlocutores de amor”, em que o eu poemático representa a figura do
a quem se dirige. Com base nesta informação, releia os namorado (o “amigo”), e as “cantigas de amigo”, em que o
dois poemas e, a seguir, eu poemático representa a figura da mulher amada (a “ami-
a) indique o interlocutor ou interlocutores do eu poemá- ga”) falando de seu amor ao “amigo”, por vezes dirigindo-se
tico em cada um dos textos. a ele ou dialogando com ele, com outras “amigas” ou, mes-
mo, com um confidente (a mãe, a irmã, etc.). De posse desta
Na cantiga, o eu lírico se dirige a duas outras moças, que são cha- informação,

madas ora de amigas, ora de irmãs. No poema de Cecília Meireles, a) classifique a cantiga de Airas Nunes em um dos dois
gêneros, apresentando a justificativa dessa resposta.
o eu lírico apresenta-se como um confessor ou confidente que se
A cantiga apresentada é uma das mais conhecidas do cancioneiro

dirige a uma moça apaixonada.


medieval, classificada como “cantiga de amigo”. Os elementos que

justificam a resposta são: presença de eu lírico feminino, estrutura

b) identifique, em cada poema, com base na flexão dos paralelística (repetição quase integral dos versos) e refrão.
verbos, a pessoa gramatical utilizada pelo eu poemático
para dirigir-se ao interlocutor ou interlocutores.
Na cantiga, o eu lírico, para se referir aos interlocutores, utiliza a

primeira pessoa do plural: “bailemos”, “nós”. No segundo texto,

a pessoa gramatical utilizada para se referir ao interlocutor é a


Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

b) identifique, levando em consideração o próprio título,


segunda do singular: “irias”, “tu”, “teu”. a figura que o eu poemático do poema de Cecília Mei-
reles representa.
A partir do título do poema (“Confessor medieval”), reconhece-se

lírico do
como eu lírico do texto a figura de um religioso ou confidente que
4. A leitura da cantiga de Airas Nunes e do poema “Confessor
medieval”, de Cecília Meireles, revela que este poema, aconselha
aconselha a
a moça
moça a ser
ser cuidadosa
cuidadosa no
no envolvimento
envolvimento amoroso
amoroso e
mesmo tendo sido escrito por uma poeta modernista,
apresenta intencionalmente algumas características da apontando
apontando as possíveis dificuldades do amor.
as possíveis dificuldades do amor.
poesia trovadoresca, como o tipo de verso e a construção
baseada na repetição e no paralelismo.
Releia com atenção os dois textos e, em seguida, con-
siderando que o efeito de paralelismo em cada poema
se torna possível a partir da retomada, estrofe a estrofe,
do mesmo tipo de frase adotado na estrofe inicial (no
poema de Airas Nunes, por exemplo, a retomada da frase
imperativa), aponte o tipo de frase que Cecília Meireles 6. (Mackenzie-SP – adaptada)
retomou de estrofe a estrofe para possibilitar tal efeito.
No poema de Cecília Meireles, a oração subordinada adverbial condi- Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo!
cional que aparece no segundo verso da primeira estrofe (“Se ele não E ai Deus, se verrá cedo!
as.
o. Ondas do mar levado,
te dera saia de sirgo”) é retomada de estrofe a estrofe com alterações.
se vistes meu amado!
Na segunda e terceira estrofes as orações são: “Se te dera apenas um E ai Deus, se verrá cedo!
Martim Codax.
anel de vidro” e “Se ele não pudesse ir bailar contigo”. Na penúltima

estrofe, a oração aparece com estrutura mais simples, com a condição Assinale a afirmativa correta sobre o texto.
a) Nessa cantiga de amigo, o eu lírico masculino mani-
veiculada por meio da preposição sem: “Sem a flor no peito, sem saia
festa a Deus seu sofrimento amoroso.
de sirgo / Irias sem ele, e sem anel de vidro”. Assim, o paralelismo se b) Nessa cantiga de amor, o eu lírico feminino dirige-se
a Deus para lamentar a morte do ser amado.
constrói pela repetição de períodos interrogativos (sempre com o verbo
c) Nessa cantiga de amigo, o eu lírico masculino manifes-
irias), dentro dos quais há sempre um elemento condicional.
ta às ondas do mar sua angústia pela perda do amigo
em trágico naufrágio.
d) Nessa cantiga de amor, o eu lírico masculino dirige-se
às ondas do mar para expressar sua solidão.
e) Nessa cantiga de amigo, o eu lírico feminino dirige-se
às ondas do mar para expressar sua ansiedade com
relação à volta do amado.

Literatura na idade Média eneM e VeStiBuLareS 27

MPSR-LIT-T5(023-027)-b.indd 27 1/3/11 6:19 PM


Humanismo
Em um período de transição entre a Idade Média e o Renascimento, o Humanismo surge como
questionamento do teocentrismo medieval e afirmação do potencial do ser humano em conduzir
seu próprio destino, tendo a razão e a sabedoria dos clássicos como guias.

Um mundo em mudança Observe a pintura de Giotto di Bondone, a seguir, e


compare-a com a de Giovanni Cimabue, logo abaixo.
Com o declínio da economia feudal (modo de produção
vigente na Idade Média) e sua substituição pela economia

caPeLLa degLi scroVegni, PÁdua


mercantil, há uma intensificação do comércio.
As cidades, centros de atividade comercial, atraem campo-
neses dispostos a trocar o trabalho no campo pela promessa
de enriquecimento oferecida pelo comércio. Surge nesse
contexto a burguesia, segmento social formado por homens
livres que moram nos burgos, dedicam-se ao comércio e
desfrutam de uma situação econômica confortável.
O crescimento das cidades e do comércio proporciona
maior interação entre pessoas de origens diversas e um

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


alargamento da visão de mundo dos indivíduos envolvidos
nesses contatos econômicos e culturais.
A burguesia, classe em ascensão no período do Humanismo,
busca na cultura uma forma de legitimar sua posição social
e conquistar no campo das ideias o espaço já alcançado
na economia. O antropocentrismo (visão de mundo que
concebe o ser humano como medida de todas as coisas)
aparece como atitude adequada ao pensamento burguês.
burguês
O antropocentrismo determinou um interesse maior pelo
entendimento do ser humano e de seu comportamento. Ao
valorizar as pessoas, a visão antropocêntrica se distancia
GIOTTO. A crucificação.
crucificação 1304-1306.
da religião como fonte de explicação para as coisas do Afresco. Capela dos Scrovegni, Pádua, Itália.
mundo. Essa nova perspectiva revela a busca dos pensa-
dores humanistas por uma abordagem mais racional dos
fenômenos observados.

O interesse dos humanistas pelo comportamento huma-


no, presente em A divina comédia e nas peças de Gil Vicente,
por exemplo, pode ser visto no poema a seguir.

De Simão de Miranda à senhora dona


Beatriz de Vilhana aconselhando-lhe que
seguarde de soberba e desprezar ninguém
Fortuna, sortes, mau fado Mau fado: má
sempre vem pola soberba sorte.
igreJa de san domenico, areZZo

ou por quem muito despreza Soberba:


qualquer mal aventurado orgulho
excessivo;
Da soberba vem cair arrogância.
do mais alto no mais fundo Pola: pela
guarde-se quem neste mundo Nom se fie:
folga mal de bem ouvir. não acredite,
não confie.
Quem cair neste pecado
Nom se fie em gentileza
Seu valer é desprezado. CIMABUE. Crucifixo.
RESENDE, Garcia de. In: CAMÕES, José de (Ed.). Poesia de 1268-1271. Têmpera sobre
Garcia de Resende. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemo- madeira, 267 x 336 cm.
rações dos Descobrimentos Portugueses, 1999. p. 57. Igreja de San Domenico,
Arezzo, Itália.

28 suplemento de revisão LiTERaTuRa

MPSR-LIT-T6(028-032)-b.indd 28 1/3/11 6:19 PM


A pintura de Giotto inova ao buscar a individualização Observe a ilustração criada pelo pintor francês Gustave
das personagens, conferindo-lhes rostos diferentes e Doré para A divina comédia.
expressões faciais que expressam emoções, diferente-

The Bridgeman arT LiBrary/KeysTone –


BiBLioTheque des arTs decoraTifs, Paris
mente do que ocorre nas pinturas medievais, em que as
personagens têm rostos parecidos e sem expressão. No
período em que Giotto desenvolve sua obra,

[...] um importante elemento começa a se insinuar na imagem


humana [...]: o da tensão interna. Mesmo em pinturas menos inova-
doras do que as de Giotto, as figuras transmitem maior articulação
orgânica e fisionomias mais individualizadas, particularizadas,
completadas por uma tensão entre o natural e o sobrenatural. [...]
QUEIROZ, Teresa Aline Pereira de. O Renascimento.
São Paulo: Edusp, 1995. p. 46. (Fragmento).

O antropocentrismo e a ênfase na razão como instrumento


de compreensão do mundo aproximam o Humanismo dos
valores clássicos.

[...] os humanistas consideravam a Antiguidade afastada


DORÉ, Gustave. Demônios confrontando Dante e Virgílio. Ilustração
deles no tempo (tudo o que fosse velho tinha para eles um para o livro A divina comédia (Inferno), de Dante Alighieri, publicado em
interesse especial) mas espiritualmente próxima, ao passo
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

1885. Biblioteca de Artes Decorativas, Paris, França.


que a Idade Média estava mais próxima no tempo mas extre-
mamente distante em muitos aspectos espirituais.
Nessa ilustração, vemos Dante e Virgílio enfrentando
DRESDEN, Sem. O Humanismo no Renascimento. demônios. A confiança dos pensadores humanistas na
Trad. Daniel Gonçalves. Porto: Inova, 1965. p. 55. (Fragmento).
Antiguidade clássica como forma de afastar as “trevas”
do entendimento que a Idade Média representava para
eles é ilustrada aqui pela presença imponente e confiante
O retorno à cultura da Antiguidade clássica e o em-
da figura de Virgílio, que se posiciona entre Dante e os de-
penho em conhecer o homem por meio da investigação
mônios. Uma leitura alegórica da ilustração sugere que os
racional de seu comportamento estão presentes em A
demônios representam valores contrários às conquistas
comédia,, que representa um dos marcos do Huma-
divina comédia
do pensamento racional. Apoiado por Virgílio – que, por re-
nismo. A importância dos valores clássicos para Dante
lação metonímica, representa aqui a cultura da Antiguidade
Alighieri pode ser vista no trecho a seguir, em que o poeta
clássica –, Dante enfrenta esses demônios.
italiano recebe com entusiasmo seu mestre e guia de
jornada, o poeta romano Virgílio.

Humanismo em Portugal
“– Oh! Virgílio, tu és aquela fonte
Donde em rio caudal brota a eloquência?”
A crônica historiográfica
Falei, curvando vergonhoso a fronte. –
de Fernão Lopes
1434 é considerado o marco inicial do Humanismo em
“Ó dos poetas lustre, honra, eminência! Portugal, em razão da nomeação de Fernão Lopes como
Valham-me o longo estudo, o amor profundo
cronista-mor do reino.
Fernão Lopes escreveu três crônicas:
Com que em teu livro procurei ciência!
•Crônica de El-Rei D. Pedro I – Reúne e critica fatos ocorri-
dos no reinado de D. Pedro I. O episódio do assassinato
“És meu mestre, o modelo sem segundo;
de Inês de Castro, amante do imperador, está relatado
Unicamente és tu que hás-me ensinado; nesse volume.
O belo estilo que honra-me no mundo. • Crônica de El-Rei D. Fernando – Relata fatos ocorridos
desde o casamento de D. Fernando com Dona Leonor Teles
ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. até a Revolução de Avis.
Trad. José Pedro Xavier Pinheiro.
Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1967. (Fragmento). • Crônica de El-Rei D. João – Contém duas partes: 1. da
morte de D. Fernando, em 1383, à ascensão de D. João I
ao trono; 2. o reinado de D. João até 1411.
Os poetas italianos Dante Alighieri (1265-1321) e Fran- O que tornava Fernão Lopes diferente dos outros cronis-
cesco Petrarca (1304-1374) são expoentes da cultura tas da época era a maneira como ele concebia o papel
humanista e inspiram outros artistas do Humanismo do povo nos eventos históricos relatados. Ao destacar a
na Europa. participação popular na história dos reis, o cronista-mor
demonstrava seu espírito humanista.

Humanismo 29

MPSR-LIT-T6(028-032)-b.indd 29 1/3/11 6:19 PM


A poesia palaciana dobra sospiros mortais
a quem vê o desamor
O conjunto de poemas que ficou conhecido como poesia
palaciana consiste em composições coletivas criadas senhora que lhe mostrais.
para serem apresentadas nos serões do Paço Real. Muitos RESENDE, Garcia de. Poesia de Garcia de Resende. Edição de José
desses poemas foram reunidos por Garcia de Resende no Camões. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos
Descobrimentos Portugueses, 1999. p. 95.
Cancioneiro Geral, de 1516.
Em relação à lírica trovadoresca, a poesia palaciana ino-
vou ao tratar o tema do amor de modo menos idealizado. De quem no tem em poder: de quem o tem em seu poder.
Outra inovação introduzida pela poesia palaciana foi o Sospiros: suspiros.
uso da métrica regular, de estrofes com menor número
de versos e de glosas (estrofes que retomam e desen- Note que, nesses poemas, o eu lírico reclama do “desa-
volvem o mote, que é o tema do poema). Esses recursos mor” da senhora para a qual escreve, o que pressupõe uma
expressivos permitiram maior autonomia da linguagem relação que se realizou (sobretudo no segundo poema) ou
poética, que não mais necessitava de acompanhamento que ele deseja ver realizada. No Trovadorismo, diferen-
musical para sustentar o ritmo, já que a própria lingua- temente do que ocorre aqui, o amor era idealizado, e a
gem passou a desempenhar essa função. senhora a quem se destinavam os elogios e apelos do eu
lírico era concebida como objeto de mera contemplação,
A seguir, você lerá dois poemas. O segundo constitui uma sem a perspectiva de uma união real.
resposta ao primeiro, como era comum nas composições
O uso de formas poéticas fixas, como a trova, o vilancete,
coletivas palacianas da época.
a cantiga e a esparsa, representou uma inovação da po-
esia palaciana em relação à lírica dos trovadores galego-
Nesta vida e depois dela -portugueses.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Pois m’assi soube perder A adoção de métrica regular, estrofes menores e glosas
que recuperavam o mote concederam maior independên-
e por tão justa querela
cia à linguagem poética em relação ao acompanhamento
vede como pode ser musical. Assim, os poetas investiam na própria linguagem
que leixe de vos querer para a criação do ritmo.
nesta vida e depois dela.
O teatro de Gil Vicente
Terei onde quer que for Comumente tido como o “pai do teatro português”, Gil
a fé com que vos servi icente criou peças de forte caráter moralizante,
Vicente moralizante em que
a religião católica aparece como referência de comporta-
lembrar-m’á só que vos vi mento a partir da qual são julgadas as virtudes e os erros
e não vosso desamor. humanos.
Que m’isto lance a perder Nas peças do autor, podemos vislumbrar um panorama da
sociedade portuguesa do século XVI. Com humor, ele denun-
tenho tão justa querela
cia os vícios dessa sociedade, criando tipos populares que
que já hei sempre de ser representam diversos comportamentos tidos como inade-
vosso enquanto viver quados (o padre namorador, o fidalgo prepotente, o agiota, o
velho libidinoso, etc.). Esse aspecto do teatro de Gil Vicente o
nesta vida e depois dela.
aproxima da tradição da sátira de costumes, cujo precursor
RESENDE, Garcia de. In: CAMÕES, José de. (Ed.). mais remoto é o comediógrafo latino Plauto (c. 254-184 a.C).
Poesia de Garcia de Resende. Lisboa: Costuma-se dividir a obra de Gil Vicente em:
Comissão Nacional para as Comemorações dos
Descobrimentos Portugueses, 1999. p. 93. • Autos pastoris (éclogas) – Algumas das primeiras peças
do autor foram escritas nesse gênero. Parte delas tem
caráter religioso, como o Auto pastoril português; e parte
Leixe: deixe.
Querela: queixa;
apresenta um caráter profano, como o Auto pastoril da
lamentação. serra da Estrela.
• Autos de moralidade – Gênero que concentra as obras
mais conhecidas do autor, como o Auto da alma e a Trilo-
gia das barcas, composta pelo Auto da barca do inferno,
[Poema de resposta]
o Auto da barca do purgatório e o Auto da barca da glória.
Quando homem tem prazer
então lhe vai alembrar
• Farsas – Peças em que tipos populares são usados para
discutir problemas da sociedade. As mais conhecidas
que o poderá perder obras de Gil Vicente nesse gênero são a Farsa de Inês
Pereira, em que se discute a ascensão social pelo casa-
pors’a vontade mudar mento, e O velho da horta, em que um velho casado se
de quem no tem em poder. apaixona por uma jovem virgem.
E o mal é sempre mais
Conteúdo digital Moderna PLUS http://www.modernaplus.com.br
e dá sempre maior dor Tema animado: Humanismo.

30 suplemento de revisão LiTERaTuRa

MPSR-LIT-T6(028-032)-b.indd 30 1/3/11 6:19 PM


Humanismo

Enem e vestibulares

1. (Unifesp) Leia o texto de Gil Vicente. ALCOVITEIRA: Já ela fica de bom jeito; mas, para isto andar
direito, é razão que vo-lo diga: eu já, senhor meu, não posso, sem
gastardes bem do vosso, vencer uma moça tal.
DIABO – Essa dama, é ela vossa?
FRADE – Por minha a tenho eu e sempre a tive de meu. VELHO: Eu lhe pagarei em grosso.

DIABO – Fizeste bem, que é fermosa! E não vos punham lá grosa ALCOVITEIRA: Aí está o feito nosso [...]. Perca toda a fazenda,
nesse convento santo? por salvardes vossa vida!

FRADE – E eles fazem outro tanto! VICENTE, Gil. O velho da horta. São Paulo: Brasiliense, 1985.

DIABO – Que cousa tão preciosa!


A propósito desse trecho da farsa O velho da horta de Gil
Vicente, é correto afirmar que

No trecho da peça de Gil Vicente, fica evidente uma a) Branca Gil, a Alcoviteira, oferece seus serviços ao Velho,
prometendo ajudá-lo a casar com a Moça.
a) visão bastante crítica dos hábitos da sociedade da
época. Está clara a censura à hipocrisia do religioso, b) o Velho desconfia imediatamente da Alcoviteira e pre-
que se aparta daquilo que prega. tende mandar chamar o Alcaide para prendê-la.

b) concepção de sociedade decadente, mas que ainda c) o Velho apaixonado diz à Alcoviteira que quer ser ama-
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

guarda alguns valores essenciais, como é o caso da do pelo que ele representa e não pelo seu dinheiro.
relação entre o frade e o catolicismo. d) a Alcoviteira promete remédios milagrosos ao Velho,
c) postura de repúdio à imoralidade da mulher que se põe para que ele rejuvenesça e possa, enfim, casar-se com
a tentar o frade, que a ridiculariza em função de sua fé a Moça.
católica inabalável. e) a Moça se arrepende de ter zombado do Velho e lhe
d) visão moralista da sociedade. Para ele, os valores envia Branca Gil com um bilhete pedindo-lhe presentes
deveriam ser resgatados e a presença do frade é um como prova do seu amor.
indicativo de apego à fé cristã.
3. (Unicamp-SP) Leia os diálogos abaixo da peça O velho da
e) crítica ao frade religioso que optou em vida por ter uma horta, de Gil Vicente:
horta,
mulher, contrariando a fé cristã, o que, como ele afirma,
não acontecia com os outros frades do convento. (Mocinha) – Estás doente, ou que haveis?
(Velho) – Ai! não sei, desconsolado,
2. (UFPA) Leia com atenção o trecho abaixo transcrito: Que nasci desventurado.
(Mocinha) – Não choreis;
[Entra Branca Gil, ALCOVITEIRA, e diz:]
mais mal fadada vai aquela.
ALCOVITEIRA: Que esforço de namorado e que prazer! Que (Velho) – Quem?
hora foi aquela!
(Mocinha) – Branca Gil.
VELHO: Que remédio me dais vós? (Velho) – Como?
ALCOVITEIRA: Vivereis, prazendo a Deus, e casar-vos-ei com (Mocinha) – Com cent’açoutes no lombo,
ela [a MOÇA]. e uma corocha por capela.
VELHO: É vento isso! E ter mão;
ALCOVITEIRA: Assim seja o paraíso. Que isso não é tão extremo! leva tão bom coração,*
Não curedes [cureis] vós de riso, que eu farei tão de improviso como se fosse em folia.
como o demo. E também doutra maneira se eu me quiser trabalhar.
Ó que grandes que lhos dão!**
VELHO: Ide-lhe, logo, falar e fazei com que me queira, pois
pereço [...]. E, se reclama que sendo tão linda dama por ser velho Corocha: cobertura para a cabeça própria das
alcoviteiras; (por capela) por grinalda.
me aborrece, dizei-lhe: é um mal quem desama porque minh’alma
*Caminha tão corajosa.
que a ama não envelhece.
**Ó que grandes açoites que lhe dão!
ALCOVITEIRA: Sus! Nome de Jesus Cristo! [...]
VICENTE, Gil. In: BERARDINELI, Cleonice (Org.).
VELHO: Tornai logo, fada minha, que eu pagarei bem isto. Antologia do teatro de Gil Vicente. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira; Brasília: INL, 1984. p. 274.
[A ALCOVITEIRA sai e volta logo depois]

Humanismo EnEm E VEsTiBuLaREs 31

MPSR-LIT-T6(028-032)-b.indd 31 1/3/11 6:19 PM


a) A qual desventura refere-se o Velho neste diálogo c) Castelhano – Quero destruir el mundo
com a Mocinha? quemar la casa, es la verdad
O Velho se refere ao fato de ter sido malsucedido em sua tentativa después quemar la ciudad.

d) Ama – Mostra-m’essa roca cá;


de conquistar uma moça. Nessa tentativa, ele perdeu parte de
siquer fiarei um fio.
seu dinheiro. Além disso, ele foi ridicularizado e desprezado pela
e) Ama – Quebra-me aquelas tigelas
moça que assediou, revelando, nesse trecho, o seu desconsolo
e três ou quatro panelas.

amoroso. 5. (Psiu/Ufpi-PI) Sobre Gil Vicente e sua obra Auto da barca


do inferno, assinale a alternativa correta.
a) Respeita apenas o poder da Igreja.
b) Centra suas críticas nos membros das classes baixas.
c) Conserva a lei das três unidades básicas do teatro clássico.
d) Identifica suas personagens pela ocupação ou pelo tipo
b) A que se deve o castigo imposto à Branca Gil?
social de cada uma delas.
Branca Gil é a alcoviteira que foi contratada pelo Velho para servir
e) Evita fazer um confronto entre a Idade Média e o Re-
de intermediária na sua tentativa de sedução. Como ela guardava nascimento Medievalista (Teocentrismo versus Antro-
pocentrismo).
para si o dinheiro que ele lhe entregava para comprar presentes

6. (PUC-SP) Considerando a peça Auto da barca do inferno

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


para a moça, é punida pela prática de alcovitagem e também por
como um todo, indique a alternativa que melhor se
ter roubado o dinheiro do sedutor. adapta à proposta do teatro vicentino.
a) Preso aos valores cristãos, Gil Vicente tem como obje-
tivo alcançar a consciência do homem, lembrando-lhe
que tem uma alma para salvar.
b) As figuras do Anjo e do Diabo, apesar de alegóricas,
c) Diante do castigo, Branca Gil adota uma atitude para- não estabelecem a divisão maniqueísta do mundo
doxal. Por quê? entre o Bem e o Mal.
A atitude da alcoviteira é considerada paradoxal porque ela revela
A atitude da alcoviteira é considerada paradoxal porque ela revela c) As personagens comparecem nesta peça de Gil Vi-
cente com o perfil que apresentavam na terra, porém
altivez e o destemor diante da prisão. Poderíamos afirmar que esse
apenas o Onzeneiro e o Parvo portam os instrumentos
comportamento se deve à certeza de que, como de outras vezes, de sua culpa.
d) Gil Vicente traça um quadro crítico da sociedade
o seu castigo será limitado a açoites, e ela depois voltará a ser livre
portuguesa da época, porém poupa, por questões
para continuar exercendo seu ofício. A cena sugere a corrupção ideológicas e políticas, a Igreja e a Nobreza.
e) Entre as características próprias da dramaturgia de Gil
moral que a peça pretende estender a toda a sociedade portuguesa.
Vicente, destaca-se o fato de ele seguir rigorosamente
as normas do teatro clássico.

7. (Psiu/Ufpi-PI) Sobre a obra Auto da barca do inferno, de Gil


Vicente, assinale a alternativa correta.
a) A obra vicentina resume a tradição da cultura euro-
peia, no seu aspecto popular, cortês, ou clerical.
b) A segunda fase da obra vicentina destaca temas religio-
4. (Prosel/Uepa-PA) Em suas relações socioeconômicas, sos. Essa fase corresponde ao período de 1502 a 1508.
os homens têm se comportado desonestamente, o que
c) A linguagem, em tom coloquial e redondilhas, é o
impede a construção de uma sociedade racionalmente
veículo melhor explorado para conseguir efeitos
justa. Assinale o trecho de o Auto da Índia que registra
cômicos ou poéticos.
essa prática.
d) Na primeira fase, o autor escreve sobre a educação
a) Marido – Se não fora o capitão feminina. Não conseguindo se estabelecer, escreve a
eu trouxera o meu quinhão Trilogia das Barcas.
um milhão vos certifico.
e) O Auto da barca do inferno é diferente dos demais autos,
b) Moça – Todas ficassem assi porque tem o seguinte enredo: à beira de um rio, dois
Leixou-lhe pera três anos Leixou-lhe: barcos transportarão as almas para o lugar que lhes
Trigo, azeite, mel e panos. deixou-lhe. foi destinado em julgamento.

32 suplemento de revisão LiTERaTuRa

MPSR-LIT-T6(028-032)-b.indd 32 1/3/11 6:19 PM


Classicismo
No século XV, a visão teocêntrica do mundo, que caracterizou a Idade Média, cede lugar ao
antropocentrismo, que toma o ser humano como o centro do universo. O Renascimento marca o
apogeu dessa mudança de mentalidade, que começou no Humanismo.

O Renascimento A prosperidade trazida pela economia mercantilista em pleno


desenvolvimento e a concentração dessa riqueza nas cidades
Leia este soneto do poeta inglês William Shakespeare. Nele, fazem a vida nos espaços urbanos se tornar cada vez mais
podemos perceber algumas características fundamentais da atraente. O desejo de desfrutar o conforto proporcionado
literatura escrita no período conhecido como Renascimento. pela riqueza leva a sociedade a cultivar os valores terrenos.
Esse olhar voltado para o mundo promove a valorização do
Devo igualar-te a um dia de verão? pensamento racional e do esforço individual.
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival um breve instante. O Classicismo: valorização das
Muitas vezes a luz do céu calcina, realizações humanas
Mas o áureo tom também perde a clareza: O Classicismo encontra na Antiguidade clássica valores
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

De seu belo a beleza enfim declina, e modelos artísticos que privilegiam a razão e a ação
Ao léu ou pelas leis da Natureza. humanas. A retomada desses valores e modelos se dá
por uma aproximação de interesses entre o ser humano
Só teu verão eterno não se acaba renascentista e seus antepassados gregos e latinos.
Nem a posse de tua formosura; No Classicismo são privilegiadas as proporções, a harmo-
De impor-te a sombra a Morte não se gaba nia das formas e o equilíbrio das composições.
No espírito de valorização
alorização do ser humano que predomina na
Pois que esta estrofe eterna ao Tempo dura.
época, há um interesse pictórico pelo corpo,, o que leva muitos
Enquanto houver viventes nesta lida,
artistas, como Leonardo da Vinci, a investigar as formas hu-
Há-de viver meu verso e te dar vida. manas até com o uso de cadáveres, em estudos de anatomia.
SHAKESPEARE, William. 30 sonetos. Sel. e trad. Ivo Barroso.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. p. 61.
Veja como Ticiano retrata o corpo humano neste quadro.
No detalhe, vemos a atenção dada a minúcias anatômicas de
maneira a desenhá-lo o mais próximo possível da perfeição.
Estival: relativo ao estio (verão).
Calcina: aquece muito,

The Bridgeman arT LiBrary – SanTi nazaro e CeLSo, BreSCia


transmite intenso calor.
Declina: desvia-se.

O eu lírico compara as qualidades da amada às de um dia


de verão. Como exemplo da perspectiva antropocêntrica da
época, observamos que as comparações estabelecidas levam à
constatação da superioridade da mulher em relação à natureza.
O tema da passagem do tempo e de seu poder destruidor é
comum na literatura da época. Reforçando a ideia da superio-
ridade da mulher amada diante da natureza, nesses versos o
eu lírico declara que a beleza natural é passageira, enquanto
a humana permanece, pois pode ser eternizada na produção
artística, expressão da capacidade de criação humana.
O Renascimento marca a substituição da visão de mundo
teocêntrica (centrada em Deus) da Idade Média por uma
visão de mundo antropocêntrica (centrada no indivíduo).
O termo Renascimento se explica pelo interesse que
artistas e pensadores dessa época têm pela arte, pela
cultura e pelo pensamento da Antiguidade clássica. A
escolha dessa palavra já anuncia o projeto de recupera-
ção dos valores do mundo clássico que definirá grande TICIANO. Políptico da Ressurreição. 1520-1522. Óleo sobre tela,
parte da produção artística renascentista. 278 x 122 cm. Igreja de São Nazario e São Celso, Brescia, Itália.

ClassiCismo 33

MPSR-LIT-T7(033-038)-b.indd 33 1/3/11 6:20 PM


um desenvolvimento argumentativo completo, favoreci-
do pela simetria da forma. O soneto permite a apresen-

The Bridgeman arT LiBrary – SanTi nazaro e CeLSo, BreSCia


tação de um ponto de vista que será desenvolvido nos
quartetos e sintetizado nos tercetos.
Os sonetos do poeta italiano Francisco Petrarca apre-
sentam uma nova forma de abordar o tema do amor. Essa
forma, chamada de “doce estilo novo” (doce porque os
poetas consideravam o versos de dez sílabas mais musi-
cais do que os de sete), difere da maneira idealizada com
que o amor era tratado no Trovadorismo. No “estilo novo”,
o tema do amor é visto por uma perspectiva racional,
questionadora, em que o poeta procura entender seus
sentimentos e conhecer as emoções humanas.

O tom mais indagador e analítico dos sonetos escritos


no “doce estilo novo” pode ser exemplificado por este
soneto de Petrarca. A presença dos pontos de interro-
gação nos seis primeiros versos explicita a tentativa
do eu lírico de promover uma análise racional de seus
sentimentos contraditórios.

Soneto XXII

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Se amor não é qual é este sentimento?
Mas se é amor, por Deus, que cousa é a tal?
Se boa por que tem ação mortal?
Se má por que é tão doce o seu tormento?

Se eu ardo por querer por que o lamento?


Se sem querer o lamentar que tal?
Ó viva morte, ó deleitoso mal,
Tanto podes sem meu consentimento.
E se eu consinto sem razão pranteio.
A tão contrário vento em frágil barca,
Eu vou para o alto-mar e sem governo.

É tão grave de error, de ciência é parca


Que eu mesmo não sei bem o que eu anseio
E tremo em pleno estio e ardo no inverno.
PETRARCA. In: HADDAD, Jamil Almansur (Org.).
TICIANO. Políptico da Ressurreição O cancioneiro de Petrarca. Rio de Janeiro/
(detalhe). 1520-1522. São Paulo: José Olympio, 1945. p. 87.

É tão grave de
Políptico: conjunto de error: refere-se à
quatro ou mais quadros fragilidade da barca – e,
independentes entre si, metaforicamente, à
mas subordinados a um fragilidade do ser humano.
só tema. O eu lírico encontra-se
à deriva, batido pelos
ventos do amor. Como
A perspectiva antropocêntrica se manifestará nas obras uma barca que vaga, sem
literárias do Classicismo, exceção feita a Camões, que direção, em alto-mar.
transita entre o teocentrismo e o antropocentrismo no Estio: verão.
texto de Os lusíadas.
O artista do Classicismo busca um olhar racional para
compreender os fenômenos observados ao seu redor.
Classicismo em Portugal
Tendo a razão como parâmetro de entendimento do No século XVI, Portugal expande seu império ultramarino
mundo, ele questiona seus sentimentos na tentativa de com as grandes navegações. Trata-se de um período de
conhecer melhor as emoções humanas. O soneto é muito prosperidade econômica para o país. É nesse contexto
usado nesse período, pois é uma forma poética que pro- de expansão marítima e econômica que se desenvolve o
porciona a explicitação de um raciocínio, acomodando Classicismo português.

34 suplemento de revisão liTERaTURa

MPSR-LIT-T7(033-038)-b.indd 34 1/3/11 6:20 PM


Francisco de Sá de Miranda Em Camões, a tinta épica de que se esmaltavam os feitos lusita-
Na Itália, o poeta português conhece as inovações lite- nos não corresponde tanto a uma aspiração generosa e ascendente,
rárias humanistas, principalmente por meio da leitura como a uma retrospecção melancólica de glórias extintas.
de Petrarca. Ao retornar a Portugal, em 1526, Sá de HOLANDA, Sérgio Buarque de.
Miranda começa a escrever usando as formas poéticas Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo:
usadas pelos classicistas, introduzindo na cena literá- Companhia das Letras, 2007. p. 114. (Fragmento).
ria lusitana, ainda marcada pela influência medieval, a
medida nova e a tentativa de abordar de forma racional A obra Os lusíadas é estruturada em dez cantos, apre-
emoções e sentimentos. A volta de Sá de Miranda mar- sentando um total de 1.102 estrofes e 8.816 versos,
ca o início do Classicismo português. todos decassílabos. O esquema de rimas é ABABABCC,
Na obra de Sá de Miranda, a medida nova (versos de conhecido como oitava rima ou oitava real. O poema
dez sílabas poéticas, chamados de decassílabos) inova ao desenvolver dois temas: cantar “a glória do
convive com a medida velha (versos de sete e cinco povo navegador português” e reconstituir a história
sílabas poéticas, chamados de redondilhas). dos reis de Portugal. No enredo do poema, o herói é Vas-
co da Gama. Porém, uma leitura atenta do texto revela
A obra de Francisco de Sá de Miranda marca a tran- também o caráter heroico do povo português.
sição da literatura medieval para o Classicismo. Essa
Os 10 cantos de Os lusíadas são divididos em cinco
característica de sua poesia pode ser vista no poema a
partes.
seguir. Escrito em versos de sete sílabas, que remetem
à tradição medieval, ele inova ao tematizar as dúvidas e •Proposição: trata-se da apresentação do poema, com a
inquietações do eu lírico. E, bem ao gosto da perspectiva identificação do tema e do herói.
humanista da época, demonstra um interesse pela com- •Invocação: o poeta pede às musas que lhe deem
preensão do comportamento e das angústias humanas. engenho e “um som alto e sublimado” para cantar as
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

glórias dos lusíadas com um estilo à altura dos feitos


Comigo me desavim narrados.

Comigo me desavim, •Dedicatória: o poema é oferecido em tributo a D. Sebas-


tião, rei de Portugal na época de sua publicação.
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo •Narração: desenvolvimento do tema, com o relato da via-
gem de Vasco da Gama, além da narração de episódios
Nem posso fugir de mim. da história de Portugal.
Com dor da gente fugia, •Epílogo encerramento do poema, em que o poeta se
Epílogo:
Antes que esta assi crescesse: mostra desiludido com sua pátria e pede às musas que
Agora já fugiria silenciem sua lira, pois a situação do país não inspira a
De mim, se de mim pudesse.
exaltação que os feitos do passado suscitam.
Que meo espero ou que fim Na poesia lírica, Camões recorreu a várias formas poéti-
Do vão trabalho que sigo, cas: soneto, ode, écloga e elegia. Usou os metros tanto da
Pois que trago a mim comigo medida velha quanto da medida nova.
Tamanho imigo de mim? Nos poemas compostos em medida velha, muitas das
redondilhas de Camões apresentam um mote (pode-se
MIRANDA, Sá de. In: LAPA, Rodrigues
(Sel., pref. e notas). Sá de Miranda: dizer que corresponde ao tema do poema) e voltas ou
poesias escolhidas. Lisboa: glosas (estrofes em que se desenvolve o tema explici-
Seara Nova, 1970. p. 1.
tado no mote).

Leia um poema camoniano escrito na medida velha e


Meo: meio.
observe sua estrutura.
Imigo: inimigo.

Mote
Descalça vai pera a fonte
Luiz Vaz de Camões Lianor, pela verdura;
A obra de Camões é dividida, para fins de estudo, em poesia Vai fermosa, e não segura.
épica e poesia lírica.
Da produção poética desse autor português, sua obra mais Voltas
conhecida é a epopeia Os lusíadas. Nesse poema épico, Leva na cabeça o pote,
o autor canta as glórias do povo português, seguindo o O testo nas mãos de prata,
modelo estabelecido pelos poemas homéricos. Cinta de fina escarlata,
Com o império português já em declínio, Camões escreve
Sainho de chamalote;
sua obra para exaltar os feitos e as qualidades dos lusi-
tanos. O historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda Traz a vasquinha de cote,
comenta o surgimento de Os lusíadas no cenário de deca- Mais branca que a neve pura.
dência em que se encontrava Portugal. Vai fermosa, e não segura.

ClassiCismo 35

MPSR-LIT-T7(033-038)-b.indd 35 1/3/11 6:20 PM


Descobre a touca a garganta, Cousas há i que passam sem ser cridas
Cabelos de ouro o trançado, E cousas cridas há sem ser passadas...
Fita de cor de encarnado, Mas o melhor de tudo é crer em Cristo.
Tão linda que o mundo espanta. CAMÕES, Luís de. In: TORRALVO, Izeti Fragata;
MINCHILLO, Carlos Cortez (Sel., apres. e notas).
Chove nela graça tanta,
Sonetos de Camões: sonetos, redondilhas e gêneros maiores.
Que dá graça à fermosura. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. p. 152.
Vai fermosa, e não segura.
CAMÕES, Luís de. In: SALGADO JÚNIOR,
Antônio (Org.). Luís de Camões: obra completa. Fortuna: destino.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008. p. 627. Caso: acaso.
Têm do confuso mundo
Testo: tampa (do pote). o regimento: governam o
mundo confuso.
Escarlata: tecido de lã
ou seda. Doutos varões: homens
cultos, eruditos; muito
Chamalote: tecido de lã
instruídos.
entretecida com fios de
seda. Subidas: importantes;
elevadas; grandiosas.
Vasquinha de cote:
antiga saia, feita de
O tema do sofrimento amoroso, em Camões, costuma
falso nó e pregueada na
cintura, que se vestia por vir associado ao conflito entre o amor material (profano,
cima de toda a roupa. carnal) e o amor idealizado (puro, espiritualizado). A carac-
Cor de encarnado: cor terização camoniana do amor espiritualizado, em contrapo-

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


de carne vermelha, cor sição a um sentimento mais profano, reproduz uma visão
de sangue. filosófica resgatada da Antiguidade clássica e redefinida
no Renascimento: o neoplatonismo amoroso, uma forma
Os sonetos são a parte mais conhecida e estudada de amor tão idealizada que não deseja realização carnal.
da lírica de Camões. Neles, o poeta desenvolve refle-
xões sobre temas variados, destacando-se três: o No soneto a seguir, é possível observar a visão neopla-
desconcerto do mundo, as mudanças constantes e o tônica de Camões sobre o amor. Nele, o eu lírico lamenta
a morte da amada, mas se reconforta com o fato de que
sofrimento amoroso.
ela transcendeu os “bens do mundo, falsos e enganosos” e
Os sonetos que apresentam o tema do desconcerto
esconcerto subiu aos céus, lugar a que ela pertence, como diz o último
do mundo refletem sobre o descompasso entre apa- verso do poema.
rência e realidade. O eu lírico aponta a falta de lógica
do mundo e demonstra a confusão e o sofrimento que
Chorai, Ninfas, os fados poderosos
isso lhe causa.
daquela soberana fermosura!
Onde foram parar na sepultura
O soneto a seguir trata desse tema. É interessante
aqueles reais olhos graciosos?
notar aqui um aspecto da obra de Camões e de muitos
outros artistas da época: o convívio entre resquícios Ó bens do mundo, falsos e enganosos!
da religiosidade medieval e o racionalismo do Renas- Que mágoas para ouvir! Que tal figura
cimento. Observe os dois tercetos. No primeiro deles,
jaza sem resplendor na terra dura,
o eu lírico valoriza o conhecimento dos “doutos va-
rões”, mas conclui, no segundo terceto, que “o melhor com tal rosto e cabelos tão fermosos!
de tudo é crer em Cristo”. Das outras que será, pois poder teve
a morte sobre cousa tanto bela
Verdade, Amor, Razão, Merecimento
que ela eclipsava a luz do claro dia?
Qualquer alma farão segura e forte;
Porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte Mas o mundo não era digno dela;

Têm do confuso mundo o regimento. por isso mais na terra não esteve:
ao Céu subiu, que já se lhe devia.
Efeitos mil revolve o pensamento, CAMÕES, Luís de. In: TORRALVO, Izeti Fragata; MINCHILLO, Carlos
Cortez (Sel., apres. e notas). Sonetos de Camões: sonetos, redondilhas e
E não sabe a que causa se reporte;
gêneros maiores. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. p. 74.
Mas sabe que o que é mais que vida e morte,
Que não o alcança o humano entendimento. Jaza: repouse.
Eclipsava: encobria.
Doutos varões darão razões subidas;
Mas são experiências mais provadas, Conteúdo digital Moderna PLUS http://www.modernaplus.com.br
E por isso é melhor ter muito visto. Tema animado: Classicismo.

36 suplemento de revisão liTERaTURa

MPSR-LIT-T7(033-038)-b.indd 36 1/3/11 6:20 PM


Classicismo

Enem e vestibulares

(Enem-Inep) Texto para as questões 1 e 2. d) “As filhas do Mondego a morte escura


Longo tempo chorando memoraram,
Amor é um fogo que arde sem se ver; E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram”
é ferida que dói e não se sente;
e) “Queria perdoar-lhe o Rei benino,
é um contentamento descontente; Movido das palavras que o magoam;
é dor que desatina sem doer; Mas o pertinaz povo e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.”
É um não querer mais que bem querer;
é solitário andar por entre a gente; 4. (Fuvest-SP)
é nunca contentar-se de contente;
Tu, só tu, puro amor, com força crua,
é cuidar que se ganha em se perder;
Que os corações humanos tanto obriga,
É querer estar preso por vontade;
Deste causa à molesta morte sua,
é servir a quem vence, o vencedor;
Como se fora pérfida inimiga.
é ter com quem nos mata lealdade.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Mas como causar pode seu favor Nem com lágrimas tristes se mitiga,
nos corações humanos amizade,
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

É porque queres, áspero e tirano,


se tão contrário a si é o mesmo Amor? Tuas aras banhar em sangue humano.
Luís de Camões. Camões. Os lusíadas – episódio de Inês de Castro.

1. O poema tem, como característica, a figura de linguagem


Molesta: lastimosa; funesta.
denominada antítese, relação de oposição de palavras
Pérfida: desleal; traidora.
ou ideias. Assinale a opção em que essa oposição se faz
Fero: feroz; sanguinário; cruel.
claramente presente.
Mitiga: alivia; suaviza; aplaca.
a) “Amor é fogo que arde sem se ver.”
Ara: altar; mesa para sacrifícios
b) “É um contentamento descontente.” religiosos.
c) “É servir a quem vence, o vencedor.”
d) “Mas como causar pode seu favor.” a) Considerando-se a forte presença da cultura da Anti-
e) “Se tão contrário a si é o mesmo Amor?” guidade Clássica em Os lusíadas, a que se pode referir
o vocábulo Amor, grafado com maiúscula, no 5o verso?
2. O poema pode ser considerado como um texto: O vocábulo Amor, grafado em maiúscula, refere-se ao deus Amor da
a) argumentativo.
mitologia clássica, denominado Eros pelos gregos antigos e Cupido
b) narrativo.
c) épico. pelos romanos da Antiguidade.

d) de propaganda.
e) teatral.
b) Explique o verso “Tuas aras banhar em sangue huma-
3. (UFPA) O canto III de Os lusíadas – o lírico episódio de Inês no”, relacionando-o à história de Inês de Castro.
de Castro – é uma história de amor e morte. A estrofe No século XIV, o príncipe de Portugal, que viria a ser o futuro rei D.
em que o poeta acusa nominalmente o responsável pelo
destino da donzela é: Pedro I, tomou Inês de Castro como amante e teve filhos com ela.
a) “Traziam-na os horríficos algozes
Para evitar que o filho se casasse com Da. Inês, o rei D. Afonso IV
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes autorizou o assassinato dela por razões políticas. O verso “Tuas
Razões, à morte crua o persuade.”
b) “E se, vencendo a Maura resistência, aras banhar em sangue humano”, na estrofe, significa que o deus
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Amor exigiu o sacrifício da vida de Inês em seu altar (“ara”). Vasco
Sabe também dar vida, com clemência,
A quem peja perdê-la não fez erro.”
da Gama, que narra o episódio de Inês de Castro em Os lusíadas,
c) “Tu, só tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga, atribui uma causa transcendental à morte da amante de D. Pedro:
Deste causa à molesta morte sua,
no poema épico, essa morte teria sido determinada pelo deus Amor.
Como se fora pérfida inimiga.”

Classicismo ENEm E VEsTiBUlaREs 37

MPSR-LIT-T7(033-038)-b.indd 37 1/3/11 6:20 PM


5. (Prosel/Uepa-PA) O desejo de criar no Novo Mundo um rei-
no feliz não se concretizou. Em vez disso, os navegadores incorpora a consolidação da palavra impressa, as guerras religiosas
praticaram atos violentos no processo das conquistas. Em
que versos o Gigante Adamastor, de Os lusíadas, refere-se provocadas pela Reforma protestante e o apogeu da expansão
a essa violência?
mercantilista, de que fala a estrofe de Camões. No que se refere aos
a) Sabes que quantas naus esta viagem
que tu fazes, fizeram, de atrevidas, movimentos estéticos, o estilo camoniano pertence ao Classicismo.
Inimiga terão esta paragem.
b) Chamei-me Adamastor, e fui na guerra b) Para dizer que o nome do templo é Belém, Camões faz
Contra o que vibra os raios de Vulcano. uso de uma perífrase: “Que o nome tem da terra, para
c) Mas, conquistando as ondas do oceano, exemplo, / Donde Deus foi em carne ao mundo dado”.
Fui capitão do mar por onde andava Em que outro trecho dessa estrofe Camões usa outra
A armada de Netuno, que eu buscava. perífrase?

d) Ouve os danos de mim que apercebidos No último verso da estrofe, ocorre outra perífrase (recurso que con-
Estão a teu sobejo atrevimento
Por todo o largo mar e pela terra siste em evitar o termo próprio a partir do uso de outros). Trata-se
Que inda hás de subjugar com dura guerra.
da expressão “pôr freio nos olhos”, que significa, no caso, evitar o
e) Comecei a sentir do Fado inimigo
por meus atrevimentos, o castigo. choro, conter as emoções.

6. (Prosel/Uepa-PA) Atingir os próprios objetivos amorosos 8. (Fuvest-SP)


pela força física é um tipo de ato de barbárie que Adamas-
tor pretendeu cometer em Os lusíadas. Assinale os versos Quando da bela vista e doce riso,

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


que registram esse momento. tomando estão meus olhos mantimento,
a) Que ameaço divino ou que segredo tão enlevado sinto o pensamento
Este clima e este mar nos apresenta que me faz ver na terra o Paraíso.
Qui mor causa parece que tormenta?
Tanto do bem humano estou diviso,
b) Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vãos nunca repousas. que qualquer outro bem julgo por vento;
c) Aqui espero tomar, se não me engano,
assi, que em caso tal, segundo sento
De quem me descobriu suma vingança. assaz de pouco faz quem perde o siso.
d) Eu farei de improviso tal castigo Em vos louvar, Senhora, não me fundo,
Que mor seja o dano que o perigo! porque quem vossas cousas claro sente,
e) Como fosse impossível alcançá-la sentirá que não pode merecê-las.
Pela grandeza feia de meu gesto
Determinei por armas de tomá-la Que de tanta estranheza sois ao mundo,
E a Dóris este caso manifesto. que não é d’estranhar, Dama excelente,
que quem vos fez, fizesse Céu e estrelas.
7. (UFSCar-SP) Camões

Partimo-nos assim do santo templo Tomando [...] mantimento: tomando consciência.


Que nas praias do mar está assentado, Estou diviso: estou separado, apartado.
Que o nome tem da terra, para exemplo, Sento: sinto.
Donde Deus foi em carne ao mundo dado. Não me fundo: não me empenho.
Certifico-te, ó Rei, que se contemplo
a) Caracterize brevemente a concepção de mulher que
Como fui destas praias apartado,
este soneto apresenta.
Cheio dentro de dúvida e receio,
A mulher é apresentada como um exemplo perfeito da criação di-
Que a penas nos meus olhos ponho o freio.
Camões. Os lusíadas, Canto 4o – 87. vina, que eleva o pensamento do eu lírico e está acima das coisas

terrenas. Em resumo, é uma concepção platônica de mulher.


O trecho faz parte do poema épico Os lusíadas, escrito por
Luís Vaz de Camões, e narra a partida de Vasco da Gama
b) Aponte duas características desse soneto que o filiam
para a viagem às Índias.
ao Classicismo, explicando-as sucintamente.
a) Em que estilo de época ou época histórica se situa a
Podemos apontar como características do Classicismo a concepção
obra de Camões?
A obra Os lusíadas foi escrita, aproximadamente, entre 1550 e 1570 platônica do amor (visão da mulher “pura”, e não apresentada em

e publicada em 1572, coincidindo, do ponto de vista da história da seus aspectos materiais) e o rigor formal, presente no uso de versos

cultura, com o Renascimento. Entre outras coisas, esse período decassílabos e na forma do soneto.

38 suplemento de revisão liTERaTURa

MPSR-LIT-T7(033-038)-b.indd 38 1/3/11 6:20 PM


Primeiras visões do Brasil
A literatura das primeiras décadas do Novo Mundo, pela descrição de um
verdadeiro paraíso tropical e pela urgência de converter os nativos à fé cristã,
revela o claro propósito da expansão colonialista europeia.

A revelação do Novo Mundo apesar da imposição pelos colonizadores de seus valores


às populações nativas dos novos territórios.
A Carta de Pero Vaz de Caminha traz a primeira des-
crição das terras brasileiras, porém não foi ela que
• a carta Mundus Novus, impressa como um folheto
semelhante a um cordel, fez um sucesso estrondoso
divulgou as características do território americano para entre os leitores europeus, atraindo o público por meio
os europeus. Por conter informações importantes para do relato de selvageria e sexo, visões do paraíso e
a coroa portuguesa sobre a rota adotada pela frota de cenas de canibalismo.
Cabral a fim de alcançar o litoral brasileiro, a Carta ficou Vários filósofos, escritores, pintores e intelectuais da épo-
guardada nos arquivos da Torre do Tombo até o início do ca foram, de alguma maneira, inspirados pela leitura das
século XIX. cartas de Américo Vespúcio. O interesse pelos textos que
O navegador italiano Américo Vespúcio é o autor dos dois descreviam o Novo Mundo, além da curiosidade de saber
textos responsáveis pelas primeiras imagens que os euro- mais sobre esse território desconhecido, era despertado
peus fizeram da “quarta parte do mundo” (o quadrante oeste também pelo desejo de descobrir o potencial econômico
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

do Atlântico Sul): Mundus Novus e Quatro navegações. dos novos territórios.

O projeto colonial português À sombra da cruz: a literatura


O projeto de expansão
ao século
ao século XV,
pansão do império português
O projeto de expansão
XV, a
XV a partir
rtir dos estudos
português remonta
tudos de
remonta
de navegação
navegação prpro-
de catequese
fante D. Henrique na
movidos pelo infante D.
movidos pelo infante Henrique na Escola de Sagres
Sagres A Companhia de Jesus,
A Jesus, fundada
Jesus fundada
ndada emem 15
1534
34 pelo
pelo padre
padre
e da exploração da costa africana. Em 1434, Gil Eanes
e da exploração
ploração da costa ricana. Em 1434, Gil Eanes nes espanhol Inácio de Loyola, foi um instrumento da Igreja
espanhol Inácio de Loyola, foi um instrumento da Igreja
ultrapassou o cabo Bojador, no sul da África, revelando
ultrapassou
trapassou o cabo Bojador, sul da África, revelando
velando católica
tólica para frentar sua diminuição
para enfrentar sua diminuição
enfrentar poder, causada
minuição de poder usada
o caminho marítimo para o Oriente.
o caminho marítimo
rítimo pa iente. pela Reforma
pela forma protestante
protestante. Os
Os jesuítas
jesuítas surgiram
rgiram com
com a
a
O rei D. Manuel II, dando continuidade ao projeto iniciado
O rei D. dando continuidade projeto iniciado missão de levar o catolicismo aos territórios longínquos
missão de levar o catolicismo aos territórios longínquos
no século XV, enviou a armada de Cabral à África em busca e converter os nativos à fé cristã.
de especiarias, já ciente de que encontraria terras a no- A história das primeiras décadas do Brasil colônia é tam-
roeste dos Açores e da Madeira. O “descobrimento” do bém a história dos missionários da Companhia de Jesus,
Brasil, portanto, fez parte desse projeto colonial de ex- que aqui chegaram entre 1549 e 1605. Nesse período, os
ploração e ocupação. jesuítas fundaram várias cidades; assim que chegavam,
Pero Vaz de Caminha é o primeiro a descrever o Novo Mundo inauguravam uma escola onde funcionava a base da missão.
de modo idealizado, em que as matas, a água abundante, Sua presença era sinônimo de educação.
os animais exóticos e os índios configuram o cenário de José de Anchieta chegou ao Brasil como noviço, em
um paraíso tropical. Esse olhar estrangeiro definirá os fu- 1553. Fundou, com o padre Manuel da Nóbrega, o Colégio
turos símbolos da nacionalidade brasileira: a exuberância de São Paulo de Piratininga, em 25 de janeiro de 1554:
da terra e dos homens nativos inaugura temas literários nasceria, em torno do colégio, a cidade de São Paulo. Em
muito explorados mais tarde por escritores de diferentes 1563, durante uma rebelião dos índios tamoios, Anchieta
épocas. permaneceu como refém deles por cerca de três meses.
A Carta de Caminha também revela os principais interesses Diz-se que por essa ocasião ele escreveu, nas areias da
do projeto colonialista português: encontrar ouro, metais praia de Iperoig (atual Ubatuba), um poema de 5.786
preciosos e “salvar” os índios. Esse último trabalho coube versos dedicado à Virgem. Sua permanência entre os
aos padres jesuítas. tamoios foi decisiva para o processo de pacificação
daqueles índios.
Anchieta escreveu poemas líricos, a maior parte de
A literatura de viagens cunho religioso, quase sempre dedicados à Virgem
Maria, e também foi o autor das primeiras peças de
O início da Era Moderna é marcado pelos descobrimentos teatro encenadas no Brasil, com função claramente
marítimos e também pela invenção da prensa móvel por religiosa e pedagógica. Sua peça mais conhecida é o
Gutenberg: Auto representado na festa de São Lourenço, com versos
• após a descoberta das terras americanas, toda a geo-
grafia medieval teve de ser mudada;
em tupi, português e espanhol. Outra obra de grande
importância escrita por Anchieta é a Arte da gramática
• o contato com culturas e religiões muito diferentes da
europeia forçou o início de uma mudança de mentalidade,
da língua mais usada na costa do Brasil, de 1595, que foi
a primeira gramática da língua tupi.

Primeiras visões do Brasil 39

MPSR-LIT-T8(039-042)-b.indd 39 1/3/11 6:22 PM


Veja a seguir o quadro comparativo das principais carac- Observe abaixo a xilogravura do frei André Thevet, autor
terísticas da literatura produzida nas primeiras décadas dos dois primeiros livros ilustrados de viajantes france-
do Novo Mundo. ses que estiveram no Brasil (As singularidades da França
Antárctica, de 1557, e A cosmografia universal, de 1575).
Literatura de viagens Literatura de

BiBlioteca Municipal Mário de andrade, São paulo


ou de informação catequese

Os textos de viajantes Os textos nascem


descrevem a nova da intenção de
terra como um paraíso catequizar os
tropical (manifestação índios e manter
Temática
da bondade divina), com presentes, entre os
o objetivo de estimular a colonos europeus,
colonização do território os elementos da fé
descoberto. cristã.

Têm um mesmo
Apresentam perfis
perfil: são religiosos,
diferentes: há, entre eles,
quase sempre
representantes tanto do
jesuítas, que
teocentrismo medieval
Autores buscam formas
como do humanismo
de contato com a
renascentista, e o que os

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


população nativa
une é o mesmo contexto
para convertê-la ao
de produção.
catolicismo.
Fera que vive de vento. Ilustração retirada do livro A cosmografia
universal. Paris: Guillaume Chadiere, 1575. p. 941 v. 2.

A representação
representação “m“monstruosa” acima é explicada em O
Os jesuítas são os
Os jesuítas são os viajantes, a partir da impossibilidade de encon-
Brasil dos viajantes,
primeiros a estudar
primeiros a estudar trar referenciais comuns
trar referenciais comuns entre a realidade singular do Novo
entre a realidade singular do Novo
Tratados, diários e
Tratados, diários
a língua dos índios
a língua dos índios
relatos de viagens
relatos
tos de viagens
a descrevê-la em
e a descrevê-la em Mundo e o conhecimento prévio
Mundo e o conhecimento prévio dos europeus.
dos europeus.
essencialmente
essencialmen
uma gramática.
uma gramática.
Produção informativos (sobre o
informativos
ormativos
Além disso, poemas
Além disso, poemas A presença de deformidades e desvios, com relação ao padrão
textual povo nativo, a fauna e a
povo nativo,
peças de teatro
e peças teatro
flora);
flora); caracterizam-se
caracterizam-se
foram produzidos
ideal de proporcionalidade entre as partes do corpo dos animais,
como uma espécie de provoca a imaginação, instiga uma “aparição estranha”. O aí ou
para converter os
crônica histórica. aiti é descrito por Thevet como um ser inacreditável e nunca
índios à religião
católica. visto, o animal “mais disforme que se possa imaginar”. Conta
ter gravado ao natural a imagem de “um ser do tamanho de um
mono africano adulto, apresentando uma barriga tão grande
A dramatização de
cenas bíblicas e
que chega quase a se arrastar no chão, a cabeça lembra a de
da vida dos santos uma criança, como também a cara, conforme pode ser visto na
era feita, muitas gravura. Quando preso, suspira como uma criança que sente
vezes, em tupi, dores. Seu pelo é cinzento e felpudo como o de um ursinho. Patas
A estrutura descritiva para garantir a compridas com quatro dedos, três com grandes unhas parecendo
dos relatos faz assimilação de seu grandes espinhas de carpa, com as quais trepa na árvore, onde
uso frequente de conteúdo moral
fica mais tempo que na terra. Quase sem pelo na cauda de três
Linguagem comparações dos e religioso pelos
achados exóticos com nativos. Também dedos de comprimento. Ninguém jamais o viu se alimentando”.
elementos conhecidos eram utilizadas E conclui: “vive de vento” (Thevet, 1575, p. 169 e 170). Esse
pelos europeus. formas mais cadavre exquis é o bicho preguiça. A dificuldade de abraçá-lo
populares, como o por uma referência geral, a impossibilidade de conjugar a figura
canto, o diálogo e por meio de referências de várias ordens é perturbadora porque
as narrativas, com o
as analogias parciais suprimem a integridade. [...]
aproveitamento de
mitos indígenas.
Cadavre exquis: no texto, BELLUZO, A. M. M. O Brasil dos viajantes.
2. ed. São Paulo: Metalivros e Objetiva;
animal estranho, esquisito Salvador: Fundação G. Odebrecht,
Enquanto os textos de
1999. p. 36-37. v. 1. (Fragmento).
Vespúcio tiveram ampla
circulação impressa A circulação desses
na Europa, a Carta de textos religiosos, A descrição desse animal “disforme”, composto de partes
Circulação Caminha foi mantida na colônia, deu-se
em segredo, por conter essencialmente de
de outros seres, serve para alimentar ainda mais o imaginário
informações preciosas forma oral. renascentista acerca do exotismo americano.
sobre a rota de navegação
da esquadra de Cabral. Conteúdo digital Moderna PLUS http://www.modernaplus.com.br
Tema animado: Primeiras visões do Brasil.

40 suplemento de revisão liTeraTUra

MPSR-LIT-T8(039-042)-b.indd 40 1/3/11 6:22 PM


Primeiras visões do Brasil

Enem e vestibulares

1. (Enem-Inep) A primeira imagem abaixo (publicada no III. A comparação das imagens faz ver como é relativa a
século XVI) mostra um ritual antropofágico dos índios diferença entre “bárbaros” e “civilizados”, indígenas e
do Brasil. A segunda mostra Tiradentes esquartejado por europeus.
ordem dos representantes da Coroa portuguesa. Está correto o que se afirma em:
a) I apenas. c) III apenas. e) I, II e III.

BiBlioteca Municipal Mário de andrade, São paulo


b) II apenas. d) I e II apenas.

2. (UEL-PR) A exuberância da natureza brasileira impressio-


nou artistas e viajantes europeus nos séculos XVI e XVII.
Leia o texto e observe a imagem a seguir:

BiBlioteca nacional, rio de Janeiro


Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

MuSeu Mariano procópio

[...] A América foi para os viajantes, evangelizadores e filósofos uma


construção imaginária e simbólica. Diante da absoluta novidade, como
explicá-la? Como compreendê-la? Como ter acesso ao seu sentido? Co-
lombo, Vespúcio, Pero Vaz de Caminha, Las Casas dispunham de um úni-
co instrumento para aproximar-se do Mundo Novo: os livros. [...] O Novo
Mundo já existia, não como realidade geográfica e cultural, mas como
texto, e os que para aqui vieram ou os que sobre aqui escreveram não
cessam de conferir a exatidão dos antigos textos e o que aqui se encontra.
CHAUÍ, M. apud FRANZ, T. S. Educação para uma
compreensão crítica da arte. Florianópolis:
Letras Contemporâneas Oficina Editorial, 2003. p. 95.

Com base no texto e na imagem, é correto afirmar:


I. O olhar do viajante europeu é contaminado pelo ima-
ginário construído a partir de textos da Antiguidade e
por relatos produzidos no contexto cultural europeu.
II. Os artistas viajantes produziram imagens precisas e
detalhadas que apresentam com exatidão a realidade
geográfica do Brasil.
III. Nas representações feitas por artistas estrangeiros
coexistem elementos simbólicos e mitológicos oriun-
dos do imaginário europeu e elementos advindos da
observação da natureza e das coisas que o artista tinha
diante de seus olhos.
A comparação entre as reproduções possibilita as seguin- IV. A imagem de Debret registra uma cena cotidiana e
tes afirmações: revela a capacidade do artista em documentar os
I. Os artistas registraram a antropofagia e o esquarteja- costumes e a realidade do indígena brasileiro.
mento praticados no Brasil.
Assinale a alternativa que contém todas as afirmativas corretas.
II. A antropofagia era parte do universo cultural indígena
e o esquartejamento era uma forma de se fazer justiça a) I e II. c) II e IV. e) II, III e IV.
entre luso-brasileiros. b) I e III. d) I, III e IV.

Primeiras visões do Brasil eNem e vesTiBUlares 41

MPSR-LIT-T8(039-042)-b.indd 41 1/3/11 6:22 PM


3. (Enem-Inep) Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592) com- 5. (UEL-PR – adaptada)
para, no trecho, as guerras das sociedades Tupinambá com as
chamadas “guerras de religião” dos franceses que, na segun- José de Anchieta, o “Apóstolo do Brasil”, trouxe em sua bagagem,
da metade do século XVI, opunham católicos e protestantes. vindo das Canárias onde nasceu, mais do que seu pendor poético.
Vinha ele com mais meia dúzia de bravos com a espantosa missão
[…] não vejo nada de bárbaro ou selvagem no que dizem daqueles de converter e educar os índios, que a seus olhos e dos outros, a
povos; e, na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se princípio, não reconheciam qualquer cultura.
pratica em sua terra. […] Não me parece excessivo julgar bárbaros DELACY, M. Introdução ao teatro. Petrópolis: Vozes, 2003.
tais atos de crueldade [o canibalismo], mas que o fato de condenar
tais defeitos não nos leve à cegueira acerca dos nossos. Estimo que Com base no texto e nos conhecimentos sobre a prática de
é mais bárbaro comer um homem vivo do que o comer depois de catequização de Anchieta, considere estas afirmativas:
morto; e é pior esquartejar um homem entre suplícios e tormentos
I. Para catequizar, Anchieta valeu-se de sua criatividade,
e o queimar aos poucos, ou entregá-lo a cães e porcos, a pretexto
usando cocares coloridos, pintura corporal e outros
de devoção e fé, como não somente o lemos mas vimos ocorrer
adereços que os indígenas lhe mostravam.
entre vizinhos nossos conterrâneos; e isso em verdade é bem mais
grave do que assar e comer um homem previamente executado. II. Com a missão de levar Jesus àqueles “bugres e incul-
[...] Podemos portanto qualificar esses povos como bárbaros em tos”, Anchieta se afastou de suas próprias crenças
dando apenas ouvidos à inteligência, mas nunca se compararmos convertendo-se à religião daquele povo.
a nós mesmos, que os excedemos em toda sorte de barbaridades. III. Com a finalidade de catequizar, Anchieta começou
a escrever autos, baseados nos autos medievais, nas
MONTAIGNE, Michel Eyquem de. Ensaio.
São Paulo: Nova Cultural, 1984. obras de Gil Vicente e em encenações espanholas.

Estão corretas apenas as afirmativas:


De acordo com o texto, pode-se afirmar que, para Montaigne,
a) I e III. c) II e III.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


a) a ideia de relativismo cultural baseia-se na hipótese
b) I e II. d) I, II e III.
da origem única do gênero humano e da sua religião.
b) a diferença de costumes não constitui um critério
6. (Ufam) A respeito das primeiras manifestações literárias
válido para julgar as diferentes sociedades.
no Brasil, não é correto afirmar:
c) os indígenas são mais bárbaros do que os europeus,
a) José de Anchieta escreveu um manual prático, intitu-
pois não conhecem a virtude cristã da piedade.
lado Diálogo sobre a conversão do gentio
gentio, com evidentes
d) a barbárie é um comportamento social que pressupõe intenções pedagógicas, nele expondo sobre a melhor
a ausência de uma cultura civilizada e racional. forma de lidar com os indígenas.
e) a ingenuidade dos indígenas equivale à racionalidade dos b) Em sua Carta
Carta,, Pero Vaz de Caminha descreveu a
europeus, o que explica que os seus costumes são similares. paisagem do litoral brasileiro e o aspecto físico dos
índios, admirando-se da ausência de preconceito que
4. (Prosel/Uepa – adaptada) eles demonstravam em relação ao próprio corpo e à
nudez.
[...] Certa ocasião ouvimos, quase à meia-noite, gritos de mulher c) Pero de Magalhães Gandavo, demonstrando total
[...] acudimos imediatamente e verificamos que se tratava apenas de incompreensão, julgou os índios de forma irônica, di-
uma mulher em hora do parto. O pai recebeu a criança nos braços, zendo que, por não possuírem em sua língua as letras
depois de cortar com os dentes o cordão umbilical e amarrá-lo. F, L e R, não podiam ter nem Fé, nem Lei, nem Rei.
Em seguida, continuando no seu ofício de parteiro, enxugou com d) Os textos dos viajantes, no primeiro século de vida
o polegar o nariz do filho, como é de praxe entre os selvagens do do Brasil, foram escritos com o objetivo de informar a
país. Note-se que nossas parteiras, ao contrário, apertam o nariz coroa portuguesa sobre as potencialidades econômicas
aos recém-nascidos para dar maior beleza, afilando-o. da nova terra.
LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil. In: AMADO, Janaina; e) A Carta de Pero Vaz de Caminha é um documento fun-
GARCIAS, Leônidas Franco. Navegar é preciso: descobrimentos
dado numa visão mercantilista (a conquista de bens
marítimos europeus. São Paulo: Atual, 1989. p. 46-47.
materiais) e no espírito religioso (a dilatação da fé cristã
e a conquista de novas almas para a cristandade).
A descrição do viajante francês nos finais do século XVI
sobre os habitantes nativos das terras portuguesas na 7. (Univale-MG – adaptada) A Carta de Caminha demons-
América nos possibilita identificar no texto: tra uma visão europeia sobre o “Novo Mundo”, ou seja,
a) a absorção das práticas médicas das populações nativas comparam-se os nativos e a nova terra com elementos
pelos europeus. da cultura europeia. Não é exemplo desta comparação:
b) a violência do colonizador em relação às práticas hi- a) [...] e o que lhe fica entre o beiço e os dentes é feito
gienizadoras dos nativos considerados bárbaros. como roque de xadrez [...]
c) o choque do europeu em relação às práticas indígenas, b) [...] e andava todo por louçanias cheio de penas pegadas
denotando o confronto entre as duas culturas. pelo corpo, que parecia assetado como São Sebastião.
d) a aceitação do método adotado pelos indígenas, no c) E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns
parto, considerado superior à prática médica europeia. sete ou oito [...]
e) a surpresa das populações nativas diante do espanto d) [...] A terra, porém, é de muito bons ares, assim frios e
dos europeus em relação às práticas de pajelança. temperados como os d’Antre Doiro e Minho [...]

42 suplemento de revisão liTeraTUra

MPSR-LIT-T8(039-042)-b.indd 42 1/3/11 6:22 PM


Barroco
O ser humano do século XVII vive em conflito, dividido entre a racionalidade e a culpa religiosa.
Nas artes e na literatura, esse período instável e incerto é representado pelo Barroco.

Tensão no mundo da fé na pintura barroca pode ser visto no uso da técnica do


chiaroscuro, em que a contraposição de luz e sombra
Em 1517, o padre alemão Martinho Lutero divulga suas atrai o olhar para determinados elementos da obra.
teses contra a venda de indulgência (perdão dos peca-
dos) pela Igreja católica. Para ele, a conquista da sal- No quadro a seguir, é possível perceber o contraste en-
vação pode ser alcançada sem a intervenção da Igreja, tre luz e sombra, característico da técnica do chiaroscuro.
desde que as pessoas sigam uma vida regrada, dedicada Esse contraste serve para indicar, simbolicamente, a fé
à religiosidade, arrependam-se sinceramente das faltas cristã como caminho para a salvação. Note que a imagem
cometidas e confiem na misericórdia divina. do Menino Jesus, de onde emana a luz, está no canto su-
perior do quadro, o que obriga Santo Antônio de Pádua a
As ideias de Lutero circulam pela Europa e conquistam
se colocar em posição de inferioridade em relação a Ele. O
muitos adeptos. Com isso, inicia-se um movimento que
uso da técnica do chiaroscuro reforça a perspectiva teo-
fica conhecido como Reforma protestante. Por contestar
cêntrica presente na obra.
algumas práticas da Igreja católica, o padre é excomun-
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

gado pelo papa Leão X.

AssIs chAteAubrIAnd
João Calvino, seguidor das ideias de Lutero, introduz a
tese de que a prosperidade alcançada por meio do traba-
lho não é pecado e abre caminho para que, pela primeira
vez na história da religião, o lucro seja aceito como algo
história da religião,
não
não pecaminoso.
pecaminoso.
caminoso. Essa
Essa te
tese aumenta
menta o o número
número de
de fi
fiéis

ão PAulo
que trocam a Igreja católica pelo luteranismo.
trocam a Igreja católica luteranismo.

useu de Arte de são PA


P
Em
Em 1545,
1545, a
a Igreja
Igreja católica
católica instala
stala oo Concílio
ncílio de Trento
Trento
para
para reagir
reagir à
à propagação
propagação da Reforma
Reforma protestante.
protestante. Essa
Essa
reação é conhecida como Contrarreforma.
reação é conhecida como Contrarreforma.
Para
Para deter
deter a crescente
crescente
escente influência
fluência do
do protestantismo,
otestantismo, o

Album/Akg-ImAges/lAtInstock – museu
Concílio de Trento toma as seguintes medidas:
• reativa o Tribunal do Santo Ofício;
• cria o Índice dos livros proibidos;
• funda a Companhia de Jesus.

Barroco: a harmonia
da dissonância
O Barroco surge no contexto da Contrarreforma. Nesse
período, duas visões de mundo se contrapõem: a antro-
pocêntrica, vinda do Renascimento, e a teocêntrica,
recuperada pela Igreja católica. A convivência e o choque
dessas duas visões geram uma tensão, da qual o Barroco
é expressão eloquente.
A tensão entre as duas visões de mundo que se con-
frontam no período da Contrarreforma é explicitada pela
literatura barroca sob a forma de uma consciência ator-
mentada por grandes dúvidas existenciais.
Nas principais obras do Barroco, podemos observar a ten-
tativa de promover a união de contrários, como o paga-
nismo e o cristianismo, o racional e o irracional, o sagrado
e o profano, etc.
No Barroco, a tentativa de fundir visões de mundo an-
Francisco de Zurbarán. Aparição do Menino Jesus a
tagônicas (medieval e renascentista) se traduz esteti- Santo Antônio de Pádua. c. 1627-1630. Óleo sobre tela. 157 x 103 cm.
camente no fenômeno do fusionismo. Um exemplo dele Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubrinad, São Paulo, Brasil.

Barroco 43

MPSR-LIT-T9(043-046)-b.indd 43 1/3/11 5:44 PM


O Barroco é também uma estética que procura representar No poema a seguir, Gregório de Matos cria uma estru-
um mundo instável. tura em que o final da penúltima palavra de cada verso é
duplicado, dando origem a outra palavra. Veja como essa
A ornamentação excessiva característica do Barroco é
estrutura é realizada de forma que as palavras finais de
uma forma de exaltar a glória de Deus e de convencer o
cada verso, retiradas das anteriores, sintetizam o que foi
público a seguir a fé cristã. Na literatura, esse excesso vai dito no verso que concluem.
se traduzir na abundância de figuras de linguagem e nos
jogos de palavras.
No sermão que pregou na Madre de Deus,
O gosto pela ornamentação excessiva e pela lingua-
dom João Franco de Oliveira,
gem rebuscada leva os poetas barrocos a valorizar a
pondera o poeta a fragilidade humana
agudeza e o engenho. A agudeza acontece quando se
diz o que se pretende de modo inusitado e inteligen- Na oração que desaterra .......................................... a terra,
te. O engenho é capacidade de apontar semelhanças Quer Deus que a quem está o cuidado ...................... dado
inesperadas entre ideias e expressar um pensamento
Pregue, que a vida é emprestado ............................estado,
de forma concisa.
Mistérios mil que desenterra .................................. enterra.

No poema a seguir, Gregório de Matos transforma, Quem não cuida de si, que é terra ...............................erra,
de maneira engenhosa, um acontecimento observado
(acha-se o braço perdido de uma imagem do Menino Je- Que o alto Rei, por afamado ....................................amado,
sus) em reflexão sobre a relação entre a parte e o todo É quem lhe assiste ao desvelado ................................. lado,
para a fé cristã. Da morte ao ar não desaferra, ...................................aferra.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Achando-se um braço perdido Quem do mundo a mortal loucura .............................. cura
do Menino Deus de N. S. das Maravilhas, A vontade de Deus sagrada ......................................agrada,
que desacataram infiéis na Sé da Bahia Firma-lhe a vida em atadura ........................................dura.
O todo sem a parte não é todo;
Ó voz zelosa, que dobrada .........................................brada,
A parte sem o todo não é parte;
Já sei que a flor da formosura, ................................... usura,
Mas se a gente o faz todo, sendo parte,
Será no fim desta jornada............................................
jornada............................................ nada.
Não se diga que é parte, sendo o todo.
MATOS, Gregório de. In: WISNIK, José Miguel (Org.).
MATOS, Gregório de. In: WISNIK, José Miguel (Org.).
Matos poemas escolhidos.
Gregório de Matos: poemas escolhidos.
Em todo o sacramento está Deus todo, São
São Paulo: Círculo do Livro, s.d. p. 290.
Paulo: Círculo do Livro, p. 290.
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E, feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica todo.
Conceptismo ou quevedismo
No conceptismo, valoriza-se o conteúdo, em lugar da forma
O braço de Jesus não seja parte, e da linguagem. Essa corrente do Barroco é mais comum
Pois que feito Jesus em partes todo nos textos em prosa.
Assiste cada parte em sua parte. Nele desenvolve-se um raciocínio que busca conquistar o
leitor pela construção intelectual.
Não se sabendo parte deste todo, Os sermões do padre Antônio Vieira são exemplos do
Um braço que lhe acharam, sendo parte, conceptismo barroco.

Nos diz as partes todas deste todo.


MATOS, Gregório de. In: WISNIK, José Miguel (Org.).
Gregório de Matos: poemas escolhidos. O Barroco no Brasil
São Paulo: Círculo do Livro, s.d. p. 289.
Padre Antônio Vieira
No contexto de disputa entre católicos e protestantes
Correntes do Barroco que marca o século XVII, o sermão é usado pelos padres
católicos para propagar a doutrina cristã.
Cultismo ou gongorismo Nos sermões barrocos, uma posição moral é defendida
por meio do uso de uma imagem, muitas vezes extraída
No cultismo, a linguagem é bastante rebuscada. Nele
de uma passagem bíblica, que a ilustre.
há um uso muito intenso de jogos de palavras, jogos de
imagens e jogos de construção, além do apelo a estímu- Os sermões do padre Antônio Vieira ficaram conhecidos
los sensoriais obtidos, por exemplo, com o uso de sons e pela engenhosidade da argumentação e pela destreza
cores no texto. Essa corrente do Barroco é mais comum com que o autor manuseia os recursos proporcionados
na poesia do que na prosa. pelo conhecimento da retórica.

44 Suplemento de revisão LITEraTUra

MPSR-LIT-T9(043-046)-b.indd 44 1/3/11 5:44 PM


Veja como, no Sermão da Quarta-Feira de Cinzas, o padre An- Canoras: melodiosas,
tônio Vieira usa a imagem do pó para falar da fragilidade da vida sonoras.
humana. Este trecho ilustra um desenvolvimento conceptista. Âmbar: cheiro suave;
aroma.
Estão essas praças no verão cobertas de pó; dá um pé de vento,
Os dois diamantes:
levanta-se o pó no ar e o que faz? O que fazem os vivos, e muitos vi-
referência aos olhos
vos. Não aquieta o pó, nem pode estar quedo: anda, corre, voa, entra de Sílvia.
por esta rua, sai por aquela; já vai adiante, já torna atrás; tudo enche,
tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo toma, tudo cega, tudo
penetra; em tudo e por tudo se mete, sem aquietar, nem sossegar Na poesia sacra, são temas comuns o senso de pecado,
um momento, enquanto o vento dura. Acalmou o vento, cai o pó, e a ideia da fragilidade humana e o medo da morte e da
onde o vento parou, ali fica, ou dentro de casa, ou na rua, ou em cima condenação eterna.
de um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha.
Não é assim? Assim é. E que pó e que vento é este? O pó somos nós: O poema “Achando-se um braço perdido do Menino
Quia pulvis es; o vento é a nossa vida: Quia ventus es vita meã. Deu o Deus...”, já apresentado, é um exemplo da poesia sacra de
vento, levantou-se o pó; parou o vento, caiu. Deu o vento, eis o pó Gregório de Matos.
levantado: esses são os vivos. Parou o vento, eis o pó caído: estes são
os mortos. Os vivos pó, os mortos pó; os vivos, pó levantado, os mor- Gregório de Matos ficou conhecido por sua poesia satírica.
tos, pó caído; os vivos, pó com vento, e por isso vãos; os mortos, pó Nela, retrata os aspectos negativos da sociedade em que
sem vento, e por isso sem vaidade. Esta é a distinção, e não há outra. vive. A veemência com que critica seus contemporâneos
VIEIRA, Antônio. In: PÉCORA, Alcir (Org. e intr.). lhe rende o apelido de “Boca do Inferno”.
Sermões: padre Antônio Vieira. São Paulo:
Hedra, 2000. p. 60. (Fragmento).
Veja um exemplo de sua poesia satírica.
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Quedo: parado, imóvel. Descreve o que era naquele


Campanha: campo tempo a cidade da Bahia
extenso; planície. A cada canto um grande conselheiro
Que nos quer governar cabana e vinha;
Gregório de Matos Não sabem governar sua cozinha,
Considerado o primeiro
imeiro grande poeta brasileiro,
Considerado o primeiro brasileiro
brasileiro, estudou
estudou E podem governar o mundo inteiro.
tores clássicos,
direito em Coimbra, onde pôde ler muitos autores
direito em Coimbra, onde muitos autores clássicos
clássicos,
que influenciaram sua poesia.
fluenciaram sua po Em cada porta um bem frequente olheiro
A poesia de Gregório de
A poesia de Gregório de Matos é geralmente dividida em
geralmente dividida em Que a vida do vizinho e da vizinha
lírica, sacra e satírica.
lírica, sacra e satírica. Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Na poesia lírica, ele retoma temas clássicos e privilegia o Para o levar à praça e ao terreiro.
desenvolvimento de um raciocínio exemplar.
Muitos mulatos desavergonhados,
Veja um exemplo da poesia lírica de Gregório de Matos. Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,
A uma dama dormindo junto a uma fonte
À margem de uma fonte que corria, Estupendas usuras nos mercados,
Lira doce dos pássaros cantores, Todos os que não furtam muito pobres:
A bela ocasião das minhas dores E eis aqui a cidade da Bahia.
Dormindo estava ao despertar do dia. MATOS, Gregório de. In: WISNIK, José Miguel (Org.).
Gregório de Matos: poemas escolhidos.
Mas como dorme Sílvia, não vestia São Paulo: Círculo do Livro, s.d. p. 31.
O céu seus horizontes de mil cores;
Trazidos sob os pés os
Dominava o silêncio entre as flores, homens nobres:
Calava o mar, e rio não se ouvia. na visão de Gregório,
os mulatos em ascensão
Não dão o parabém à nova aurora subjugam com esperteza
Flores canoras, pássaros cantantes, os verdadeiros “homens
Nem seu âmbar respira a rica flora. nobres”. (Nota de rodapé.)
Picardia: esperteza,
Porém abrindo Sílvia os dois diamantes, sagacidade.
Tudo a Sílvia festeja, tudo a adora, Usura: lucro exagerado;
avareza, mesquinharia,
Ave cheirosa, flores ressonantes.
sovinice.
MATOS, Gregório de. In: WISNIK, José Miguel (Org.).
Gregório de Matos: poemas escolhidos.
Conteúdo digital Moderna PLUS http://www.modernaplus.com.br
São Paulo: Círculo do Livro, s.d. p. 203.
Tema animado: Barroco.

Barroco 45

MPSR-LIT-T9(043-046)-b.indd 45 1/3/11 5:44 PM


Barroco

Enem e vestibulares

1. (UFPA) Os versos que apresentam características da escola b) A presença da temática religiosa em ambos deve-se à
literária barroca são: influência protestante holandesa na região da Bahia e
a) “Ai flores, ai, flores do verde pino, de Minas Gerais.
Se sabedes novas do meu amigo?” c) No trecho do poema, tem-se a expressão de um pecador
que, embora creia em Deus, não tem certeza de que
b) “Eu, Marília, não fui nenhum vaqueiro,
obterá o perdão divino.
Fui honrado pastor da tua aldeia.”
d) A pobreza estética da obra de Aleijadinho e de Matos
c) “Transforma o amador na cousa amada,
deriva da censura promovida pela Santa Inquisição às
Por virtude do muito imaginar; [...].”
obras artísticas no Brasil.
d) “Incêndio em mares d’água disfarçado
Rio de neve em fogo convertido.” 3. (UFPA) Assinale a alternativa correta a respeito de Gregório
e) “Parece que estes prados e estas fontes de Matos ou do Barroco.
Já sabem, que é o assunto da porfia a) Gregório de Matos é considerado o autor mais importan-
Nise, a melhor pastora destes montes.” te do Barroco brasileiro por ter introduzido a estética no
país e ter escrito poemas épicos, de herança camoniana,
2. (UEG-GO) em louvor à pátria, traço do nativismo literário da época.
b) A crítica reconhece a obra lírica de Gregório de Matos
enhor bom Jesus de mAtosInhos, congonhAs do cAmPo
como superior à satírica, porque, nela, o autor não
trabalha com o jogo de palavras que instaura o erótico

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


e às vezes até o licencioso.
c) Tematicamente, a poesia de Gregório de Matos trabalha
a religião, o amor, os costumes e a reflexão moral, às
vezes por meio de um jogo entre erotismo idealizado ×
sensualismo desenfreado; temor divino × desrespeito
pelos encarregados dos cultos.
d) Conceptismo e cultismo são processos técnicos e ex-
pressivos do Barroco que dão simplicidade aos textos,
principal objetivo da estética que repudiava os torneios
na linguagem.
FábIo colombInI – sAntuárIo do senhor

e) O Barroco se destaca como movimento literário único,


uma vez que somente em sua estética encontramos o
uso de sugestões de luz, cor e som, bem como o uso de
metáforas, hipérboles, perífrases, antíteses e paradoxos.

4. (UFScar-SP)

O pregar há de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha


ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas. [...] Todas as estrelas
estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem
que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os
pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte
Aleijadinho. Cristo do carregamento da Cruz. Século XVIII. há-de estar branco, da outra há-de estar negro; se de uma parte está
dia, da outra há-de estar noite; se de uma parte dizem luz, da outra
Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado, hão-de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão-de
dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras
Da vossa alta clemência me despido;
em paz? Todas hão-de estar sempre em fronteira com o seu contrário?
Porque quanto mais tenho delinquido, Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras.
Vos tenho a perdoar mais empenhado. Vieira, Sermão da Sexagésima.
Obra poética de Gregório de Matos. Rio de Janeiro: Record, 1990.
No texto, Vieira critica um certo estilo de fazer sermão,
Durante o período colonial brasileiro, as principais mani- que era comum na arte de pregar dos padres dominicanos
festações artísticas, populares ou eruditas, foram, assim da época. O uso da palavra xadrez tem o objetivo de
como nos demais aspectos da vida cotidiana, marcadas a) defender a ordenação das ideias em um sermão.
pela influência da religiosidade. Nesse sentido, com base
b) fazer alusão metafórica a um certo tipo de tecido.
na análise da presença da religiosidade na obra de Alei-
jadinho e de Gregório de Matos, é correto afirmar: c) comparar o sermão de certos pregadores a uma verda-
deira prisão.
a) Ambas são modelos da arte barroca, uma vez que se
inspiram mais na temática cristã do que em elementos d) mostrar que o xadrez se assemelha ao semear.
oriundos da mitologia greco-romana. e) criticar a preocupação com a simetria do sermão.

46 Suplemento de revisão LITEraTUra

MPSR-LIT-T9(043-046)-b.indd 46 1/3/11 5:44 PM


Arcadismo
Iluminados pela razão e pela ciência, os árcades pretendem combater
o rebuscamento barroco, revolucionar a mentalidade das elites e
divulgar os ideais de uma sociedade mais justa e igualitária.

O Século das Luzes A recriação literária do espaço bucólico da Arcádia grega


tornou a produção do período muito convencional: os
Superada a tensão religiosa desencadeada pela Reforma poemas mostram sempre campos verdes, árvores frondo-
Protestante, uma importante mudança de mentalidade sas, ovelhas e gado pastando tranquilos, regatos de água
começa a acontecer no fim do século XVII. A partir das cristalina, etc.
descobertas do físico Isaac Newton sobre a gravitação Cada arcádia literária contava com doutrinadores (estu-
universal e o movimento dos corpos, a pesquisa científica diosos da poética clássica) que definiam os princípios da
ganha forte impulso e o ser humano recupera, aos poucos, produção artística de seus membros. Com base nesses
o seu desejo de encontrar explicações racionais para os princípios, os participantes julgavam a produção uns dos
fenômenos que o cercam. outros. A adesão a essas regras assegurava à literatura
No início do século XVIII, surgem grandes pensadores, neoclássica o seu caráter convencional: ao ganharem
que adotam métodos lógicos e científicos para analisar as forma, os poemas produzidos permitiam que neles se re-
crenças tradicionais, as opiniões políticas e a organização conhecesse a crença na máxima do poeta francês Boileau:
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

social. A razão é metaforicamente apresentada como a luz “só o verdadeiro é belo”.


interior, numa postura definida como iluminista. Iluminis- As arcádias literárias acolhiam membros da nobreza e da
mo é a denominação do conjunto das tendências ideológi- burguesia, criando um ambiente de igualdade inovador
cas, filosóficas e científicas, consequência da recuperação para a sociedade da época: foi a primeira instituição “ofi-
de um espírito experimental, racional, que buscava o saber cial” de produção cultural a abrir suas portas aos artistas
enciclopédico
enciclopédico. burgueses, sem que eles estivessem a serviço de algum
sem que
AA principal
principal expressão
expressão
pressão dodo Iluminismo
uminismo foi
foi a Enciclopédia,
nciclopédia senhor ou mecenas.
mecenas.
obra
obra em
em 28
28 volumes
volumes
lumes cucujo objetivo
jetivo era reunir todos
era reunir dos os
conhecimentos filosóficos e científicos da época. época
época. Sua
Sua
publicação
publicação ocorreu entre 1751 e 1780.
ocorreu entre 1780. O projeto literário do Arcadismo
As
As descobertas de Newton permitiram que o mundo fos-
descobertas de Newton permitiram que o mundo fos- Voltaire
Voltaire, uma das figuras centrais do Iluminismo procu-
Voltaire, uma das figuras centrais do Iluminismo, procu-
se descrito
descrito como uma máquina cujo
cujo funcionamento
funcionamento era rou demonstrar total aversão à intolerância, à tirania e à
regido por leis inflexíveis e universais. Três elementos hipocrisia da Igreja. Por meio de suas sátiras e de seus
encontravam-se na base de seus estudos: razão, natureza escritos filosóficos, é possível identificar o caráter essen-
e verdade. Como a natureza é o único desses conceitos cial do projeto literário do Arcadismo: fazer da literatura
concretamente observável, era tomada como exemplo do um instrumento de mudança social.
belo, alcançado pela harmonia e pelo equilíbrio de seus A repetição insistente do cenário acolhedor e natural, bem
elementos, tornando-se o principal modelo a ser imitado como da simplicidade da vida dos pastores no campo, foi o
pelos artistas do século XVIII. modo que os autores do período encontraram para divulgar os
Deus passa a ser compreendido como uma razão superior, ideais de uma sociedade mais justa e igualitária. Cada poe-
criadora do universo, mas não o responsável direto por ma árcade pretende, como resultado final, modificar a menta-
todos os pequenos acontecimentos da vida. O ser humano lidade das elites do período, combatendo sua futilidade.
torna-se senhor do próprio destino e, por meio da ciência, As principais características da poesia árcade (ou neo-
deve compreender os fenômenos naturais e submetê-los clássica) são:
à sua vontade.
• Bucolismo: representação idealizada da natureza como
um espaço acolhedor, primaveril, alegre, ensolarado, que
confere à vida rural o sinônimo de tranquilidade e harmo-
Arcadismo: ordem nia. O adjetivo bucólico remete a tudo o que é relativo a
pastores e seus rebanhos, à vida e aos costumes do campo.
e convencionalismo
• Pastoralismo: os poetas e suas musas e amadas são
identificados com nomes de pastores e pastoras. O uso
Arcádia – região quase mítica da Grécia antiga, habitada por
pastores que cantavam o paraíso rústico em que viviam – foi de pseudônimos eliminava as marcas da origem nobre ou
o termo que, no século XVIII, identificava as academias ou plebeia, “neutralizando” as diferenças sociais evidentes
agremiações de poetas, cujo objetivo era restaurar o estilo ao apagar tudo o que pudesse ser associado à artificiali-
dos poetas clássico-renascentistas e combater o rebus- dade e à hipocrisia da vida na corte.
camento barroco. A estética literária dessas academias, o
Arcadismo, cuja característica principal é a idealização da
• Simplicidade da linguagem: como a missão árcade é
combater a artificialidade verbal do Barroco e tornar os
vida no campo, também ficou conhecida como Neoclassi- textos mais acessíveis aos leitores para a divulgação
cismo, por seguir as regras da poesia clássica. das suas ideias, a simplicidade torna-se a norma para a

arcadismo 47

MPSR-LIT-T10(047-052)-b.indd 47 1/3/11 6:22 PM


criação literária. Isso garante uma circulação mais ampla,
e a poesia deixa de ser, portanto, um divertimento dos sa-
Portugal: o Marquês de Pombal
lões aristocráticos e passa a circular em espaços públicos. reeduca o país
• Resgate de temas clássicos: a imitação dos clássicos
gregos e latinos retoma temas que expressam algumas
Nomeado primeiro-ministro pelo rei D. José I, em 1750, o
Marquês de Pombal procurou elevar Portugal à condição
filosofias de vida do mundo antigo.
das demais nações europeias. Promoveu a laicização do
Os principais temas clássicos retomados pelos árcades ensino português, até então controlado pelos jesuítas,
estão no quadro a seguir. permitindo a volta para Portugal dos “estrangeirados” (in-
telectuais portugueses emigrados para fugir da Inquisição)
e, dessa forma, abrindo as portas para o ideário iluminista
Distância da urbanização e que com eles chegava.
Fuga da cidade (fugere
afirmação das qualidades da vida
urbem)
no campo.
A produção árcade portuguesa foi marcada por um con-
vencionalismo extremo e pela tentativa de submeter a
expressão individual aos preceitos da razão. A Arcádia
Lusitana, fundada em 1756, tinha uma atividade essen-
Valorização das coisas simples e
Mediocridade áurea/ cotidianas, focalizadas pela razão cialmente teórica: seus membros discutiam os princípios
dourada (aurea mediocritas) e pelo bom senso. clássicos de composição e criavam parâmetros para a pro-
dução poética. Ao seu encerramento, em 1774, seguiram-se
outras arcádias, entre as quais a Nova Arcádia (1790), da
Caracterização do lugar calmo, qual participou Manuel Maria du Bocage, com o pseudônimo
Lugar ameno agradável, onde os amantes Elmano Sadino.
(locus amoenus) desfrutam dos prazeres da
natureza.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Eliminar os excessos da
Bocage: manhãs claras e noites
Cortar o inútil (inutilia
truncat)
linguagem para aproximar os
textos literários da perfeição da
tempestuosas
natureza. Bocage é um dos três maiores sonetistas portugueses,
ao lado de Camões
mões e Antero de Quental. Com uma vida
Aproveitar intensamente o
Aproveitar intensamente o
marcada por conflitos e desilusões, sua trajetória literária
conflitos
momento presente, pois o
momento presente, pois o começou em 1793, com a publicação do primeiro volume
começou em 1793, com a publicação do primeiro volume
Cantar o dia (carpe
(carpe diem)
diem
passar do tempo traz a velhice, a
do tempo traz a velhice, das Rimas Autor
das Rimas. Autor de
de epigramas,
igramas, apólogos
epigramas, ólogos e
apólogos e sonetos,
sonetos,
fragilidade e a morte.
agilidade e morte. destacou-se entre seus contemporâneos por desafiar os
destacou-se entre seus contemporâneos por desafiar
limites do modelo árcade estabelecido.
estabelecido
O soneto abaixo exemplifica o modelo árcade de compo- Como árcade, Bocage tentou seguir determinações da
Como árcade, Bocage tentou seguir as determinações
sição lírica: o bucolismo, o pastoralismo e a caracterização Nova Arcádia: adotou um pseudônimo e compôs versos
do locus amoenus. escritos com os clichês esperados (cenário acolhedor,
pastores amorosos que convidam suas amadas para
Olha, Marília, as flautas dos pastores desfrutar das belezas do dia, comparação entre a mulher
amada e a natureza).
Olha, Marília, as flautas dos pastores
Ao se libertar dos clichês árcades, a poesia de Bocage re-
Que bem que soam, como estão cadentes!
vela um lirismo carregado de subjetividade, antecipando
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes alguns temas da estética romântica: a desilusão amorosa,
Os Zéfiros brincar por entre flores? a morte, o destino. A natureza se torna sombria e passa a
espelhar o sofrimento do eu lírico. Por mais que o poeta
Vê como ali beijando-se os Amores queira abraçar a perspectiva racional do Iluminismo, cons-
Incitam nossos ósculos ardentes! tata a impossibilidade de domar as paixões humanas.
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores. Esse conflito também será tema de muitos versos de
Bocage, como mostra o soneto a seguir.
Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folgas a abelhinha para, Meu ser evaporei na vida insana
Ora nos ares sussurrando gira: Meu ser evaporei na vida insana

Que alegre campo! Que manhã tão clara! Do tropel de paixões que me arrastava;
Mas ah! Tudo o que vês, se eu não te vira, Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Mais tristeza que a morte me causara. Em mim quase imortal a essência humana.

BOCAGE, M. M. In: ALMEIDA, F. (Org.). Sonetos/Bocage. Rio de Janeiro: De que inúmeros sóis a mente ufana
Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1997. p. 39.
Existência falaz me não dourava!
Ósculos: beijos Mas eis sucumbe Natureza escrava
Zéfiros: os ventos do Ocidente, na tradição greco-latina. Ao mal, que a vida em sua origem dana.

48 suplemento de revisão LiTEraTUra

MPSR-LIT-T10(047-052)-b.indd 48 1/3/11 6:22 PM


Prazeres, sócios meus e meus tiranos! de Marília de Dirceu, versos escritos no período em que
Esta alma, que sedenta em si não coube, o poeta se encontrava encarcerado e por meio dos quais
No abismo vos sumiu dos desenganos. ele reconta sua paixão pela jovem Maria Doroteia de Sei-
xas Brandão (a sua Marília).
Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos, A obra é dividida em duas partes, manifestando a trans-
Saiba morrer o que viver não soube. formação sofrida no olhar poético de Gonzaga após sua
prisão.
BOCAGE, M. M. In: ALMEIDA, F. (Org.).
Sonetos/Bocage. Rio de Janeiro: Ediouro;
São Paulo: Publifolha, 1997. p. 81.
• Primeira parte: o tom característico das liras é mais oti-
mista; Dirceu (pseudônimo árcade do poeta) descreve a
amada Marília e fala sobre a vida futura que terão quan-
Ufana: orgulhosa; imodesta.
do casados. Ao lado das referências bucólicas exempla-
Falaz: enganosa, ilusória.
res e da criação do locus amoenus, Dirceu faz o elogio
Dourava: tornava feliz; dava
do saber intelectual, importante inovação promovida
aparência de felicidade.
por Gonzaga.
• Segunda parte (composta na prisão): predominam sen-
timentos melancólicos, como a saudade, antecipando
Arcadismo brasileiro: algumas características românticas.
a febre do ouro O sucesso dos versos de Gonzaga em muito nos ajuda
a identificar o momento em que se inicia a formação de
Graças à descoberta de ouro nas Minas Gerais, no sécu- um público leitor no Brasil. Ele e outros poetas árcades
lo XVIII, o desenvolvimento urbano por ela gerado trouxe abrem caminho para que, no início do século XIX, os
o deslocamento da produção cultural para a cidade de
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

escritores românticos já encontrem um público que lê


Vila Rica (atual Ouro Preto). As cidades mineiras eram sistematicamente e se interessa por autores brasileiros.
habitadas por ourives, comerciantes, mercadores e ar-
Em Cartas chilenas, os desmandos morais e administra-
tistas: a diversidade social, que marca o início do povoa-
tivos do governador “Fanfarrão Minésio” são duramente
mento da região, cresceu junto com a exploração das
criticados de forma satírica. Nesse texto, o Chile repre-
riquezas minerais.
riquezas minerais.
senta Minas Gerais,
Gerais, e sua capital, Santiago, é Vila Rica.
Com o crescimento do comércio e das cidades
Com cidades,
cidades, a
a bur-
Durante muito tempo, houve dúvidas sobre a sua autoria,
tempo, autoria,
guesia
guesia viu aumentar seu poder político e forçou a nobreza
viu aumentar seu político e forçou a nobreza
mas
mas hoje ela é atribuída a Tomás Antônio Gonzaga, sob o
hoje ela é atribuída a Tomás Antônio Gonzaga, sob
a
a abrir mão de seus privilégios. A independência da colô-
abrir mão de seus privilégios. independência da colô-
pseudônimo Critilo, o qual dialoga com amigo Doroteu.
pseudônimo Critilo, o qual dialoga com o amigo Doroteu.
nia
nia norte-americana em relação à coroa inglesa, em 1776,
norte-americana em coroa inglesa, em 1776,
inspirou os jovens brasileiros, que já haviam tido contato
inspirou os jovens brasileiros, já haviam tido contato Manuel Inácio da Silva Alvarenga
Alvarenga (1749-1814) destacou-
(1749-1814) destacou-
com os textos dos filósofos iluministas na Europa, a mu-
com os textos dos filósofos iluministas na Europa, a mu- -se pelo lirismo das várias composições dedicadas à sua
-se pelo lirismo das várias composições dedicadas à sua
dar o destino do Brasil. Brotavam os ideais revolucioná- musa, Glaura. Utilizou-se basicamente de dois tipos de
rios de conquistar independência política e cultural para composição: o madrigal (de origem italiana) e o rondó
a tão explorada colônia brasileira. A participação dos poe- (forma francesa, que procura produzir um efeito de circu-
tas brasileiros na Inconfidência fez com que muitos dos laridade), que o poeta adaptou à sensibilidade e ao ritmo
princípios políticos aparecessem direta ou indiretamente brasileiros.
nos versos que eles compunham. Os poemas épicos árcades de destaque produzidos no
A opressão administrativa portuguesa, o declínio da Brasil são:
produção do ouro, a convivência com as ideias liberais
iluministas e a independência norte-americana foram os
• O Uraguai, de José Basílio da Gama (1741-1795), sob o
pseudônimo Termindo Sipílio: o poema foi escrito em
principais fatores para o início da Inconfidência Mineira. versos sem rimas e sem estrofação, cuja divisão segue
Os inconfidentes pretendiam proclamar a República e o modelo épico (proposição, invocação, dedicatória, nar-
tornar o Brasil independente de Portugal, fundar uma ração e epílogo). Narra a luta entre os índios que viviam
universidade em Vila Rica e construir fábricas nas regiões nas missões dos Sete Povos (Uruguai) e um exército
mais importantes do país. Joaquim Silvério dos Reis, o
luso-espanhol. O trecho mais conhecido do poema é uma
delator do movimento, nomeou Tomás Antônio Gonzaga
passagem lírica, do Canto IV, da morte da índia Lindoia.
como “primeira cabeça da inconfidência”. Ele e os demais
líderes foram presos pela coroa portuguesa. • Caramuru, do frei José de Santa Rita Durão (1722-1784):
o poema segue o modelo camoniano (divisão em dez
Cláudio Manuel da Costa é considerado o iniciador do
cantos, todos compostos em oitava rima). Narra o desco-
Arcadismo no Brasil (Obras, 1768). Adotou o pseudônimo
árcade Glauceste Satúrnio, escreveu muitos sonetos e brimento e a conquista da Bahia por Diogo Álvares Correia,
o poema épico Vila Rica, de valor mais histórico do que um náufrago português.
literário. Teve grande influência do mestre do Classicismo
Nas duas obras, é possível identificar o embrião dos sím-
português, Luís Vaz de Camões, e também de Petrarca: a
louvação da mulher amada é feita a partir da escolha de bolos da nacionalidade romântica: a natureza exuberante e
um aspecto físico em que sua beleza se iguale à perfei- os índios valorosos.
ção da natureza.
Tomás Antônio Gonzaga é o mais conhecido entre os Conteúdo digital Moderna PLUS http://www.modernaplus.com.br
árcades brasileiros, celebrado até hoje pela publicação Tema animado: Arcadismo.

arcadismo 49

MPSR-LIT-T10(047-052)-b.indd 49 1/3/11 6:22 PM


Arcadismo

Enem e vestibulares

(Enem-Inep) Texto para as questões 1 e 2. d) “Vendo correr os míseros vaqueiros” (v. 7)


e) “Que, da Cidade, o lisonjeiro encanto,” (v. 11)
1 Torno a ver-vos, ó montes; o destino
Aqui me torna a pôr nestes outeiros, (PSC/Ufam) Leia o texto abaixo, de autoria de Cláudio
Onde um tempo os gabões deixei grosseiros Manuel da Costa, para responder às questões 3 e 4:

4 Pelo traje da Corte, rico e fino.


Aqui estou entre Almendro, entre Corino, Este é o rio, a montanha é esta,
Os meus fiéis, meus doces companheiros,
Estes os troncos, estes os rochedos;
7 Vendo correr os míseros vaqueiros São estes inda os mesmos arvoredos;
Atrás de seu cansado desatino.
Se o bem desta choupana pode tanto, Esta é a mesma rústica floresta.

Tudo cheio de horror se manifesta,


10 Que chega a ter mais preço, e mais valia
Que, da Cidade, o lisonjeiro encanto, Rio, montanha, troncos e penedos;
Aqui descanse a louca fantasia,
Que de amor nos suavíssimos enredos

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


13 E o que até agora se tornava em pranto Foi cena alegre, e urna é já funesta.
Se converta em afetos de alegria.
Oh quão lembrado estou de haver subido
COSTA, Cláudio Manuel da. In: PROENÇA FILHO,
Domício. A poesia dos inconfidentes. Aquele monte, e as vezes que, baixando,
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002. p. 78-79.
Deixei do pranto o vale umedecido!

1. Considerando
Considerando o soneto de Cláudio Manuel da Costa e os
o soneto Cláudio Manuel da Costa e Tudo me está a memória retratando;
elementos constitutivos do Arcadismo brasileiro, assinale
elementos constitutivos Arcadismo brasileiro, assinale Que da mesma saudade o infame ruído
a opção correta acerca relação entre o poema e o mo-
a opção correta acerca da relação entre o poema e o mo-
mento
mento histórico de sua produção.
histórico de sua produção. Vem as mortas espécies despertando.
a)
a) Os
Os “montes”
“montes” e “outeiros”,
“outeiros”, mencionados
mencionados na
na primeira
primeira
estrofe são imagens relacionadas à Metrópole, ou seja,
3. Assinale a opção que se refere ao texto de modo correto:
ao lugar onde o poeta se vestiu com traje “rico e fino”.
b) A oposição entre a Colônia e a Metrópole, como núcleo a) Observa-se o elogio do pastoralismo, com a conse-
quente crítica aos males que o meio urbano traz ao
do poema, revela uma contradição vivenciada pelo
homem.
poeta, dividido entre a civilidade do mundo urbano da
Metrópole e a rusticidade da terra da Colônia. b) A natureza é cenário tranquilo, retratada sem levar
c) O bucolismo presente nas imagens do poema é elemen- em conta o estado de espírito de quem a descreve.
to estético do Arcadismo que evidencia a preocupação c) A antítese “Foi cena alegre, e urna é já funesta” re-
do poeta árcade em realizar uma representação literá- sume o poema, indicando a passagem do tempo e a
ria realista da vida nacional. lembrança do amor perdido.
d) A relação de vantagem da “choupana” sobre a “Cidade”, d) Exemplo típico do Arcadismo, constata-se o predomí-
na terceira estrofe, é formulação literária que reproduz nio da razão sobre a emoção, o que revela a influên-
a condição histórica paradoxalmente vantajosa da cia da lógica iluminista.
Colônia sobre a Metrópole.
e) Recomenda que se aproveite o dia (carpe diem), em-
e) A realidade de atraso social, político e econômico do
bora fazendo referência à constância da vida e à
Brasil Colônia está representada esteticamente no poe-
previsibilidade do destino.
ma pela referência, na última estrofe, à transformação
do pranto em alegria.
4. Ainda a respeito do poema, assinale a opção incorreta:
2. Assinale a opção que apresenta um verso do soneto de a) A métrica regular e a estrutura – um soneto – indi-
Cláudio Manuel da Costa em que o poeta se dirige ao seu cam a proximidade do Romantismo.
interlocutor.
b) Apresenta construções em ordem indireta, mas sem
a) “Torno a ver-vos, ó montes; o destino” (v. 1) o radicalismo da escrita barroca.
b) “Aqui estou entre Almendro, entre Corino,” (v. 5)
c) Percebe-se uma identificação entre o poeta e a natu-
c) “Os meus fiéis, meus doces companheiros,” (v. 6) reza que o rodeia.

50 suplemento de revisão LiTEraTUra

MPSR-LIT-T10(047-052)-b.indd 50 1/3/11 6:22 PM


d) A organização em dois quartetos e dois tercetos é de d) Os instrumentos do canto do poeta, encontrados nos
natureza greco-latina. montes da Arcádia, acompanham os lamentos fúnebres
de um amor que se findou.
e) Há uma contenção do poeta no uso de figuras de
linguagem, como a metáfora “e urna é já funesta”. e) Por onde passa, o poeta lança seu canto aos quatro
ventos, implorando a Apolo, deus da música, que tenha
compaixão e vele pelo seu destino.
5. (UFPA) Leia o soneto de Cláudio Manuel da Costa:

6. (PUC-Rio – adaptada)
Para cantar de amor tenros cuidados,
Tomo entre vós, ó montes, o instrumento;
Parte 1 – Lira XIV
Ouvi pois o meu fúnebre lamento;
Minha bela Marília, tudo passa;
Se é, que de compaixão sois animados:
A sorte deste mundo é mal segura;
Já vós vistes, que aos ecos magoados Se vem depois dos males a ventura,
Do trácio Orfeu parava o mesmo vento; Vem depois dos prazeres a desgraça.
Da lira de Anfião ao doce acento Estão os mesmos Deuses
Se viram os rochedos abalados. Sujeitos ao poder do ímpio Fado:
Apolo já fugiu do Céu brilhante,
Bem sei, que de outros gênios o Destino,
Já foi Pastor de gado.
Para cingir de Apolo a verde rama,
Lhes influiu na lira estro divino: A devorante mão da negra Morte
Acaba de roubar o bem, que temos;
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O canto, pois, que a minha voz derrama,


Até na triste campa não podemos
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Zombar do braço da inconstante sorte.
Se faz digno entre vós também de fama.
Qual fica no sepulcro,
COSTA, Cláudio Manuel da. A poesia dos inconfidentes. Que seus avós ergueram, descansado;
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 51.
Qual no campo, e lhe arranca os brancos ossos
Ferro do torto arado.
Anfião: poeta,
Anfião: poeta,
filho de Zeus;
filho de Zeus; Ah! enquanto os Destinos impiedosos
Apolo lhe deu uma lira
Apolo lhe deu uma lira
e o ensinou a tocar.
e o ensinou a tocar. Não voltam contra nós a face irada,
Orfeu: poeta e músico,
Orfeu: poeta músico, Façamos, sim façamos, doce amada,
filho de Apolo, encantava Os nossos breves dias mais ditosos.
os animais e as pedras
Um coração, que frouxo
com seu canto.
Trácio: aquele que nasceu A grata posse de seu bem difere,
na região da Trácia. A si, Marília, a si próprio rouba,
Apolo: filho de Zeus; E a si próprio fere.
deus da luz e do sol,
da música, da poesia Ornemos nossas testas com as flores;
e das artes.
E façamos de feno um brando leito,
Cingir: colocar em
volta da cabeça. Prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
De Apolo a verde rama: Gozemos do prazer de sãos Amores.
coroa de louros Sobre as nossas cabeças,
para os melhores
Sem que o possam deter, o tempo corre;
poetas.
Estro: veia poética. E para nós o tempo, que se passa,
Também, Marília, morre.

Com base na leitura do poema, é verdadeiro afirmar: Com os anos, Marília, o gosto falta,
a) Os deuses, invocados no poema, reúnem-se para ins- E se entorpece o corpo já cansado;
pirar o poeta peregrino que não se considera digno de Triste o velho cordeiro está deitado,
seu ofício. E o leve filho sempre alegre salta.
b) Tendo os montes como confidentes, o poeta, ao evo- A mesma formosura
car figuras da mitologia grega, declara o valor de seus É dote, que só goza a mocidade:
próprios versos.
Rugam-se as faces, o cabelo alveja,
c) No poema todo, o pastor descreve nostalgicamente as Mal chega a longa idade.
paisagens que o rodeiam, relembrando os dias felizes
da sua infância. Que havemos de esperar, Marília bela?

arcadismo ENEm E VEsTiBULarEs 51

MPSR-LIT-T10(047-052)-b.indd 51 1/3/11 6:22 PM


Que vão passando os florescentes dias? b) Apesar de ter em Camões o seu modelo, os motivos
As glórias, que vêm tarde, já vêm frias; clássicos estão ausentes em seus textos poéticos.
E pode enfim mudar-se a nossa estrela. c) Além da sátira e do erotismo, sua poesia, com marcas
Ah! não, minha Marília, de emotividade, expressa o conflito existencial, pre-
nunciando o Romantismo português.
Aproveite-se o tempo, antes que faça
d) A representação da vivência amorosa em seus textos
O estrago de roubar ao corpo as forças
é sempre de natureza platônica, revelando uma visão
E ao semblante a graça. de mundo racionalista.
GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu. e) Afastou-se das formas poéticas tradicionais, como o
Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s.d. p. 56-58.
soneto, preferindo produzir poemas de forma livre.

“Marília de Dirceu”, de Tomás Antônio Gonzaga, é consi- 8. (UEM-PR) Considere o texto abaixo e assinale a única
derada uma das obras mais representativas da literatura alternativa correta.
do século XVIII no Brasil. Destaque duas características
da estética árcade presentes no poema, justificando sua
resposta com versos retirados do texto.
O destro Cupido um dia
Extraiu mimosas cores
Dentre as diversas características árcades encontradas no poema,
De frescos lírios, e rosas,
destacam-se: a valorização da mitologia e do paganismo (“Estão De jasmins, e de outras flores.

os mesmos Deuses / Sujeitos ao poder do ímpio Fado: / Apolo já Com as mais delgadas penas
Usa de uma, e de outra tinta,
fugiu do Céu brilhante,”); referências pastoris (“Já foi Pastor de
E nos ângulos do cobre

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


gado”); a utilização de elementos da natureza (“Ornemos nossas A quatro belezas pinta.

testas com as flores; / E façamos de feno um brando leito”); a defesa Por fazer pensar a todos
No seu liso centro escreve
do carpe diem (“Façamos, sim façamos, doce amada, / Os nossos Um letreiro, que pergunta:
breves dias mais ditosos.”, “Aproveite-se o tempo, antes que faça /
breves dias mais ditosos.”, “Aproveite-se o tempo, antes que faça “Este espaço a quem se deve?”

O estrago de roubar ao corpo as forças / E ao semblante a graça.”);


O estrago roubar ao corpo / E ao semblante a graça.”);
Vênus, que viu a pintura,
E leu a letra engenhosa,
A valorização de aspectos (métrica, rima, etc.).
A valorização de aspectos formais (métrica, rima, etc.). Pôs por baixo “Eu dele cedo;
Dê-se a Marília formosa”.
GONZAGA, Tomás Antônio.
Marília de Dirceu, Lira XXVI, Parte I.

a) O poema é composto de quatro estrofes em redon-


dilha maior e apresenta uma estrutura formal rígida
(estrofes e esquema completo de rimas regulares e
7. (Mackenzie-SP) emparelhadas) e, ao mencionar as cores e as flores,
o eu lírico revela a visão realista da existência.
Texto b) O poema é composto de quatro estrofes de versos
Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos, em redondilha maior e rimas alternadas, marcando
a presença de personagens da mitologia clássica (Vê-
E a boca, com prazer o mais jucundo,
nus e Cupido) para exaltar os prazeres da vida física:
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos: a beleza sedutora e o amor carnal.
Vê-la rendida enfim a Amor fecundo; c) No poema em questão, evidencia-se a presença de
personagens da mitologia clássica nos versos “O
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
destro Cupido um dia” e “Vênus, que viu a pintura”,
É este o maior gosto que há no mundo. sugerindo que se deve aproveitar a mocidade, fase
Bocage da vida em que a beleza e o prazer são maiores e
mais intensos.
Jucundo: alegre.
d) No poema em questão, Cupido é o hábil pintor que
Ditoso: feliz.
recorre à natureza (frescos lírios, rosas, / jasmins, outras
Folho: tecido com pregas ou franzido, para flores), o locus amoenus (lugar ameno e agradável dos
enfeitar vestuário.
árcades), extraindo dela as cores com que pinta e ele-
va a beleza de Marília, aceita e reconhecida por Vênus.
Considerando os versos do texto, assinale a alternativa e) Nos versos da última estrofe, a figura de Vênus,
correta sobre Bocage. deusa do amor e da beleza, representa o amor como
a) Sua poesia, de caráter filosófico e edificante, evita a lin- um sentimento capaz de construir um mundo ideal,
guagem popular e irreverente, típica dos poetas árcades. inspirado na beleza das cores e das flores.

52 suplemento de revisão LiTEraTUra

MPSR-LIT-T10(047-052)-b.indd 52 1/3/11 6:22 PM


Romantismo em Portugal
As revoluções burguesas mudam o perfil da sociedade europeia no início do século XIX.
Liderando as transformações sociais e econômicas, a burguesia ganha poder
político e passa a buscar uma arte na qual possa reconhecer-se.

A estética romântica

The Bridgeman arT LiBrary inTernaTionaL


– museo de arTe de Ponce, PorTo rico
As chamadas revoluções burguesas do século XVIII
(Independência dos Estados Unidos, Revolução Fran-
cesa e Revolução Industrial) determinam a queda do
Antigo Regime, consolidando o capitalismo como
novo sistema econômico.
Os heróis do passado cedem lugar ao indivíduo co-
mum. Assim, a valorização do caráter individual, a
divulgação dos valores burgueses (trabalho, esforço
e sacrifício) e o amor à pátria serão os princípios
norteadores da estética do período, o Romantismo.
As qualidades heroicas românticas espelham mais
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

os valores da sociedade capitalista do que a nobreza


recebida como herança.
O Romantismo representa uma ruptura com os pa-
drões clássicos de beleza. A expressão da imagi-
nação oções
nação, das emoções e da criatividade individual do
artista
tista sã os gr andes dessa tética.
artista são os grandes valores dessa estética.
OO autor
autor ro
romântico
mântico es escreve para
para um
uma sociedade
sociedade
influenciada
influenciada pe Iluminismo,
fluenciada pelo Iluminismo que
que valoriza os pr
valoriza os pro-
o-
cessos racionais
racionais e as posturas
e as sturas coletivas
coletivas. ÉÉ es
essa
sa
mentalidade
mentalidade
ntalidade quque ele
ele de
deseja mudar:
mudar: seu
seu sentimento
sentimento
ntimento
de
de desajustamento social nasce do confronto entre
de sajustamento so sce do confronto en tre
os valores que defende, centrados no subjetivismo
e na emoção, e aqueles que organizam a sociedade.
Esse confronto de ideias ganha forma em um dos
temas mais explorados pela literatura romântica: a
fuga da realidade. BURNE-JONES, Edward. O último sono de Artur em Avalon. Detalhe. 1881-
-1898. Óleo sobre tela, 645 × 282 cm. Museu de Arte, Ponce, Porto Rico.
Nesse contexto, a morte traz a possibilidade de fuga
do real e, por isso, é idealizada: ela é o alívio para os
males do mundo ou permite o encontro definitivo dos
amantes, separados pelos obstáculos da realidade. O Romantismo
O mundo dos sonhos torna-se também um espaço
de fuga, por meio do qual o escritor projeta suas
e o público
utopias. O desaparecimento da figura do mecenas contribui
O passado idealizado desempenha a mesma função para a profissionalização dos artistas. Por isso, os
escapista, e os temas medievais ressurgem com autores românticos passam a ter dois objetivos dis-
força total, representando uma época em que a tintos: divulgar os valores da burguesia e ao mesmo
sociedade estava repleta de feitos heroicos, sen- tempo divertir os leitores. A possibilidade de publi-
timentos nobres e harmonia. Recuperar o passado cação em veículos de grande circulação, como jor-
histórico, para os românticos, significa reconstruir nais e revistas, amplia bastante o alcance do texto
a identidade de um povo. Importantes romances literário.
românticos portugueses e brasileiros exploram essa O público leitor tem agora um perfil bem mais he-
tendência. terogêneo do que aquele de séculos anteriores: os
burgueses que leem jornais e folhetins não possuem
A imagem a seguir é bastante representativa do sen- a mesma formação intelectual dos nobres, não co-
timento escapista romântico. O herói medieval, rei Artur, nhecem os autores clássicos e têm dificuldade em
dorme entre as jovens de Avalon, lendária ilha dos bem- decifrar as referências à mitologia greco-latina. Por
-aventurados onde foi forjada a espada mística Excalibur. isso, preferem uma linguagem mais direta, passio-
Longe das árduas batalhas, Artur é levado para lá para se nal, que não se preocupe necessariamente com os
recuperar de ferimentos de guerra. padrões do cânone literário.

Romantismo em PoRtugal 53

MPSR-LIT-T11(053-058)-b.indd 53 1/3/11 5:47 PM


Portugal: um país
sem rei entra em crise • Ovolume 2: 1850).
arco de Sant’Ana (volume 1: 1845;

No início do século XIX, Napoleão Bonaparte decreta o blo- • Viagens na minha terra (1846): inspirado
queio continental e exige que a coroa portuguesa rompa por uma viagem de Garrett a Santarém,
relações comerciais com a Inglaterra. Ao ignorar as ordens o texto desenvolve-se em dois níveis
narrativos: o primeiro corresponde
do imperador francês, o país é invadido, e a corte de D. João às impressões de viagem; o segundo
VI se vê forçada a fugir para o Brasil. A colônia brasileira conta a história de Carlos e Joaninha,
é, então, elevada à condição de Reino Unido a Portugal Romance durante as lutas entre liberais e
e Algarve. A abertura dos portos brasileiros às nações miguelistas. A importância do romance
se dá por seu simbolismo político:
amigas fortalece o comércio entre Brasil e Inglaterra.
por meio das personagens, o autor
A burguesia portuguesa, que vive das exportações para o representa o embate entre Portugal
mercado brasileiro, entra em crise. A tentativa burguesa antigo (representado pela Igreja) e o novo
de compensar a perda de mercado investindo na terra país que surge da revolução burguesa
(representado, no romance, pelo emigrado
também fracassa, porque o clero detém grande parte dos Carlos).
direitos sobre ela. Nesse cenário de crises políticas e eco-
nômicas, a estética romântica chega a Portugal, definindo • Helena (1871, obra póstuma).
novos temas e dando voz à sociedade transformada pela
revolução liberal que, aos poucos, vai se tornando laica.
O retorno para Portugal de jovens exilados no início da re-
volução liberal inicia uma onda nacionalista. Seu objetivo • Catão (1822) e Mérope (1841): ambas
as peças apresentam tons claramente
inicial era resgatar o passado glorioso do país, encontrando clássicos, inspiradas nos modelos greco-
figuras históricas representativas do caráter do povo e de -latinos e renascentistas.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


uma nação que, apesar de algumas conquistas políticas • Frei Luís de Sousa (1843): obra-prima
importantes, precisava de profundas reformas sociais. de Garrett, o enredo se dá em torno da
figura histórica de Frei Luís de Sousa,
nome religioso adotado por Manuel de
Sousa. Casado com Dona Madalena de
Os primeiros românticos Teatro Vilhena, com quem tem uma filha, Maria
de Noronha, D. Manuel vê-se envolvido
A primeira geração romântica
A primeira romântica portuguesa mantém alguns
rtuguesa ntém alguns em um triângulo amoroso com a volta de
um triângulo oso volta
traços clássicos
clássicos (como na poesia de Antônio
omo de Antônio
tônio Feliciano de D.
D. João de Portugal, primeiro marido de
João de Portugal,
ortugal, primeiro
primeir marido de
Castilho
Castilho).
Castilho). Já Almeida
Já Almeida Garrett e Alexandre Herculano
Herculano se
se sua
sua esposa, desaparecido na batalha do
esposa, desaparecido
desapar na batalha do
Alcácer-Quibir
Alcácer-Quibir. D. Maria, filha de Madalena
D. Maria, filha de Madalena
voltam para a recuperação do passado histórico portu-
voltam para a recuperação e
e Manuel, fruto de uma união adulterina,
Manuel, fruto de uma união adulterina,
guês (medieval),
(medieval)
(medieval), com obras de caráter nacionalista.
com obras caráter nacionalista. morre
morre no momento em que seus pais
no momento
momen seus pais
O marco cronológico do Romantismo em Portugal é o poema entram para a vida monástica.
vida monástica.
“Camões”, de Almeida Garrett, publicado em 1825. Mas a • D.inspiração
Filipa de Vilhena (1846): obra de
romântica.
produção de textos românticos só começa a ocorrer com
vigor no país a partir de 1836, quando a consolidação da
revolução liberal facilita a penetração das ideias românticas.

Veja, no quadro a seguir, as principais obras da vasta


produção literária de Almeida Garrett, um dos principais Alexandre Herculano, consciente da crise de identidade
autores do Romantismo em Portugal. pela qual passava Portugal desde o trágico desapareci-
mento de D. Sebastião (1580) e a perda da soberania para
a Espanha, acreditava que a revolução liberal criaria o
contexto ideal para a recuperação dos valores nacionais.
• “Camões” (1825): dividido em dez cantos Esse é o foco principal de sua extensa obra: o autor dedica-
e escrito em decassílabos brancos, é
-se a recriar a história portuguesa em romances ficcionais
uma espécie de biografia romântica de
Camões e seus amores com Natércia. repletos de heroísmo e bravura.
• Dona Branca (1826): desenvolve um tema Herculano recorria a pesquisas históricas para a constru-
ção do enredo de suas novelas e contos, a maioria publi-
medieval, utilizando o folclore nacional
português em lugar da mitologia clássica. cada em periódicos. O autor acreditava que o Classicismo
• Folhas caídas (1853): seu último livro era a expressão literária do despotismo monárquico. Para
Poesia de poemas revela a maturidade do ele, era preciso substituir o modelo clássico por uma
autor romântico. Seus versos, de tom
confessional, falam de um estado
literatura de caráter popular, nacional.
passional permanente, em que o gozo e a Os romances mais importantes de Alexandre Herculano são:
dor, a saudade e a raiva alternam-se
como fonte de inspiração do poeta. • O bobo (1843): sua primeira narrativa de ficção. Passa-se
na época das disputas ente D. Teresa e seu filho, D. Afonso
Os estereótipos do amor romântico
aparecem com força total; destaca-se a Henriques, o fundador do Condado Portucalense, que, em
caracterização da mulher como um ser 1143, tornou-se nação independente. Trata da constitui-
que transita entre a virgem angelical e a ção da nação portuguesa e põe em cena personagens
demoníaca sedutora. históricas ao lado de outras imaginárias, entrelaçando
ficção e realidade.

54 suplemento de revisão liteRatuRa

MPSR-LIT-T11(053-058)-b.indd 54 1/3/11 5:47 PM


• Eurico, o presbítero (1844) e O monge de Cister (1848):
dois romances que tratam do tema do celibato clerical, Romance histórico: narrativas
reunidos pelo autor sob o título de O Monasticon. O pri- ambientadas principalmente no O judeu (António José da Silva);
meiro romance apresenta-nos uma história típica dos século XVIII, resgate de figuras O olho de vidro.
romances de cavalaria medievais. O guerreiro Eurico, históricas portuguesas.
disfarçado como o Cavaleiro Negro, derrotará o exército
invasor praticamente sozinho, revelando que o amor à
pátria é o mais alto valor da nobreza individual. Romance de mistério e
terror: as marcas dessas
A poesia de Alexandre Herculano é de inspiração religiosa narrativas são o macabro, o
e se caracteriza pelo tom contido e pelo rigor estrutural, Coisas espantosas; O esqueleto;
enredo complexo, a história de
O demônio de ouro.
afastando-se da estética romântica. Há, no entanto, uma separações, reconhecimentos,
preocupação romântica em fazer da literatura um espaço vinganças, o excessivo e o
inverossímil.
de reflexão sobre temas de importância contemporânea,
como a apologia do cristianismo contra a falta de religião
iluminista, o apoio à legislação antimonástica e o perdão
para os vencidos da guerra. Camilo Castelo Branco atingiu seu ápice com as novelas
passionais. Por meio de histórias de amor impossível,
o autor contextualiza importantes cenários de Portugal.
O Ultrarromantismo português O impedimento amoroso, geralmente de ordem social,
enaltece o sofrimento dos amantes, transformando seu
Livre das crises de natureza política que influenciaram os
caráter e envolvendo-os numa aura de pureza e abnegação.
autores da primeira geração, a segunda geração român-
Esse amor que transgride os princípios de uma sociedade
tica portuguesa revela um tom mais pessoal e particu-
interesseira e corrupta tem sempre um final trágico.
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

larizado em sua produção literária, marcada pelo exagero


sentimental. Inspirados sobretudo na obra do inglês Lord Nesse sentido, um romance exemplar de Camilo Castelo
Byron, os autores da segunda geração destacam a imagem Branco é Amor de perdição. A narrativa do impedimento
do herói romântico incompreendido, que luta pela hones- amoroso de Simão Botelho e Teresa traz fortes elemen-
tidade, pelo amor e pelo direito à liberdade. tos do amor ultrarromântico: a natureza (paradisíaca ou
A Camilo Castelo Branco
A grande extensão da obra de Camilo
grande extensão da obra Branco nos que revela o estado de espírito dos amantes, o
soturna) que
mostra
mostra o que significava ser um escritor profissional duran-
stra o qu significava
gnificava critor profissional
ofissional duran- desajuste social
social e a ideia
e da morte como alívio para os
te o Romantismo. O autor alterna a produção de novelas,
te o Romantismo. autor a produção de novelas, sofrimentos.
cujo centro a tragédia
cujo centro é a tragédia amorosa, com outras obras, quase
agédia amorosa com outras obras, quase
ase
satíricas, que ridicularizam os exageros românticos.
satíricas, que ridicularizam exageros românticos.

A seguir,
seguir, observe a organização do conjunto das novelas
Mudança de olhar:
(romances) de Camilo Castelo Branco, conforme o enredo o romance aproxima-se
desenvolvido.
da realidade
Tipo de novela (romance) Exemplos
Após a década de 1860, os traços exagerados da segunda
geração romântica (personagens idealizadas, peripécias de
Romance-folhetim: focaliza as heróis, diálogo intenso) dão lugar a personagens construí-
aventuras de uma personagem das de modo mais cuidadoso. O diálogo, em alguns casos,
Mistérios de Lisboa; Livro negro
misteriosa e dá origem a
do padre Dinis. é substituído pelo monólogo interior, contribuindo para o
narrativas múltiplas e a
evocações históricas. aprofundamento psicológico das personagens.
O principal autor da transformação no romance romântico
português é Júlio Dinis. O autor retrata a vida doméstica
Romance de amor trágico: no campo: essa mudança no cenário narrativo inaugura o
história de personagens com romance de tema contemporâneo, fazendo a transição
algum impedimento amoroso Amor de perdição. entre o país arcaico (dos romances de Camilo Castelo
(obstáculos sociais ou
familiares). Branco) e aquele transformado pela revolução liberal que,
aos poucos, ganha um novo perfil.
A obra As pupilas do senhor reitor revela o conhecimento
Coração, cabeça, estômago; A
que o autor tinha das condições sociais de vida no cam-
Romance-sátira: caricatura de po: além de defender o valor das tradições (simbolizadas
queda de um anjo; O que fazem
tipos sociais.
mulheres. pela oposição campo-cidade, em que o primeiro é sempre
exaltado), Júlio Dinis privilegia a ideia de progresso e de
mudança, desde que os verdadeiros valores da sociedade
portuguesa sejam preservados.
Romance de costumes
Novelas do Minho; A brasileira
provincianos: focaliza a vida
de Prazins.
idealizada no campo.
Conteúdo digital Moderna PLUS http://www.modernaplus.com.br
Tema animado: Romantismo em Portugal.

Romantismo em PoRtugal 55

MPSR-LIT-T11(053-058)-b.indd 55 1/3/11 5:47 PM


Romantismo em Portugal

Enem e vestibulares

(Vunesp) As questões 1 e 2 tomam por base o fragmento


seguinte: franceses (“… vai-se aos figurinos franceses de dumas, de eugénio

Sim, leitor benévolo, e por esta ocasião te vou explicar como nós sue, de Vitor hugo”); sujeição ao modismo (“gruda-as sobre uma
hoje em dia fazemos a nossa literatura. Já me não importa guardar
segredo; depois desta desgraça, não me importa já nada. Saberás, folha de papel da cor da moda”); falta de originalidade (“ – e aqui
pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler.
está como nós fazemos a nossa literatura original.”).
Trata-se de um romance, de um drama. Cuidas que vamos estudar a
História, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulcros, os edifí-
cios, as memórias da época? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide 2. No texto apresentado, Garrett se dirige mais uma vez
que nós o somos. Desenhar caracteres e situações do vivo da natureza, ao leitor, de maneira informal e descontraída, como se
colori-los das cores verdadeiras da História… isso é trabalho difícil, estivesse dialogando com ele. Baseado nesta observação,
longo, delicado; exige um estudo, um talento, e sobretudo um tacto!… demonstre de que modo o tom de informalidade se reve-
Não, senhor; a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico. la também nas formas de tratamento gramatical que o
Todo o drama e todo o romance precisa de: escritor usa para dirigir-se ao leitor.
Uma ou duas damas, a informalidade com que garrett se dirige ao leitor manifesta-se também
Um pai,
no nível gramatical. Verificamos que, além do emprego da segunda pessoa
Dois ou três filhos de dezanove a trinta anos,

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Um criado velho, do singular – que já cria um efeito de informalidade –, existe ainda a prática
Um monstro, encarregado de fazer as maldades,
intencional da incoerência de tratamento gramatical ao longo do texto, típica
Vários tratantes, e algumas pessoas capazes para intermédios.
Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eugénio Sue, de da espontaneidade da linguagem oral. o autor começa por tratar o leitor em
Vitor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles, as figuras que precisa,
gruda-as sobre uma folha de papel da cor da moda, verde, pardo, azul – segunda pessoa (“te
(“te vou explicar”). no segundo parágrafo, garrett passa
como fazem as raparigas inglesas aos álbuns e scrap-books; forma com
elas os grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais (“não
a tratar o leitor em terceira pessoa (“n
(“ ““eu
n seja pateta” / “eeu lhe explico”).
ou menos disparatados. Depois vai-se às crónicas, tiram-se uns poucos
de nomes e palavrões velhos; com os nomes crismam-se os figurões;
3. (Unicamp-SP – adaptada)
com os palavrões iluminam-se… (estilo de pintor pinta-monos). – E
aqui está como nós fazemos a nossa literatura original.
Quando o coração é de gelo, a razão dirige desafogada, impertur-
Almeida Garrett, Obra completa – I.
bável, em linha reta, o caminho da vida; quando a razão abdica e o
coração domina, o movimento é irregular, mas livre; caprichoso, mas
1. Almeida Garrett (1799-1854), que pertenceu à primeira fase resoluto; funesto, mas incessante; porém, se o coração e a cabeça
do Romantismo português, é poeta, prosador e dramaturgo medem forças iguais, a cada momento param para lutar, como atletas
dos mais importantes da literatura portuguesa. Em Viagens destemidos. De qualquer lado que tenha de se decidir a vitória, será
na minha terra (1846), mistura, em prosa rica, variada e es- disputada, até o último instante, pelo contendor vencido; a pausa
pirituosa, o relato jornalístico, a literatura de viagens, as terá sido inevitável; a reação enérgica; e a crise, violenta.
divagações sobre temas da época e os comentários críticos,
muitas vezes mordazes, sobre a literatura em voga, no perío-
do. Releia o texto que lhe apresentamos e, a seguir, responda: O narrador faz essa consideração no capítulo XVI de
As pupilas do senhor reitor, de Júlio Dinis. Sabendo que o
a) a que gêneros literários se refere Almeida Garrett? romance pertence ao terceiro momento do Romantismo
os gêneros literários a que almeida garrett faz referência no texto português, responda que importante característica da
novela campesina de Júlio Dinis aparece no fragmento
apresentado são o romance e o drama. o romance é um gênero transcrito, considerando o momento em que foi escrita.

narrativo em prosa. o drama é um gênero teatral que funde elemen- o fato de essa novela estar inscrita na terceira geração romântica portu-

tos da tragédia e da comédia. guesa, momento em que já há indícios do início do realismo, resulta na

“atenuação” dos traços mais exagerados da segunda geração românti-


b) quais os principais defeitos, segundo Garrett, dos escri-
tores que elaboravam obras de tais gêneros? ca. nota-se, nessa novela, a fusão entre a subjetividade ultrarromântica,

almeida garrett apresenta, de maneira irônica, os seguintes defeitos o idealismo romântico com a capacidade de observação realista que

encontrados nas obras dos escritores de tais gêneros: padroniza- inspirou o autor a escrever. há, no romance, um idealismo atenuado,

ção de tipos e situações (“… uma ou duas damas […] e algumas esvaziado dos destemperos sentimentais presentes, por exemplo, em

pessoas capazes para intermédios.”); imitação de modelos literários Amor de perdição, de camilo castelo Branco.

56 suplemento de revisão liteRatuRa

MPSR-LIT-T11(053-058)-b.indd 56 1/3/11 5:47 PM


4. (Unicamp-SP – adaptada) No prefácio da quinta edição és para mim mais do que uma imagem celestial; uma recordação
portuguesa do romance Amor de perdição, Camilo Castelo indecifrável; um consolo e ao mesmo tempo um martírio.
Branco afirmava ironicamente: Não eras tu emanação e reflexo do céu? Por que não ousaste,
pois, volver os olhos para o fundo abismo do meu amor? Verias
Eu não cessarei de dizer mal desta novela que tem a boçal inocência que esse amor do poeta é maior que o de nenhum homem; porque
de não devassar alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas é imenso, como o ideal, que ele compreende; eterno, como o seu
salas, em presença de suas filhas ou de suas mães, e não precisem nome, que nunca perece.
de esconder-se com o livro no seu quarto de banho. Dizem, porém, Hermengarda, Hermengarda, eu amava-te muito! Adorava-te só
que o Amor de perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como no santuário do meu coração, enquanto precisava de ajoelhar ante
indenização, faz rir: tornou-se cômico pela seriedade antiga […]. E por os altares para orar ao Senhor. Qual era o melhor dos dois templos?
isso mesmo se reimprime. O bom-senso público relê isto, compara Foi depois que o teu desabou, que eu me acolhi ao outro para sempre.
com aquilo, e vinga-se barrufando com frouxos de riso realista as Por que vens, pois, pedir-me adorações quando entre mim e ti
páginas que há dez anos aljofarava com lágrimas românticas. está a Cruz ensanguentada do Calvário; quando a mão inexorável
do sacerdócio soldou a cadeia da minha vida às lájeas frias da igreja;
Barrufando: variante de borrifando. quando o primeiro passo além do limiar desta será a perdição eterna?
Aljofarava: orvalhava. Mas, ai de mim! essa imagem que parece sorrir-me nas solidões
do espaço está estampada unicamente na minha alma e reflete-se
Como você pode notar, o autor faz referência a duas escolas no céu do oriente através destes olhos perturbados pela febre da
literárias, o Romantismo e o Realismo, para explicar como loucura, que lhes queimou as lágrimas.
Amor de perdição produziria no público leitor, por ocasião HERCULANO, Alexandre. Eurico, o presbítero. Edição crítica, dirigida e
de sua reimpressão, uma reação completamente diferente prefaciada por Vitorino Nemésio. 41. ed. Lisboa: Livraria Bertrand, s.d.
daquela produzida ao ser publicado pela primeira vez.
a) Identifique qual a reação do público leitor de cada uma
das escolas, segundo Camilo Castelo Branco.
O missionário
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Entregara-se, corpo e alma, à sedução da linda rapariga que lhe


o público do romantismo comovia-se com a obra (“aljofarava com
ocupara o coração. A sua natureza ardente e apaixonada, extrema-
mente sensual, mal contida até então pela disciplina do Seminário e
lágrimas românticas”); o público realista considerava a obra cômica
pelo ascetismo que lhe dera a crença na sua predestinação, quisera
(“barrufando com frouxos de riso realista”). saciar-se do gozo por muito tempo desejado, e sempre impedido.
Não seria filho de Pedro Ribeiro de Morais, o devasso fazendeiro do
b) O Realismo (estética da segunda metade do século XIX) Igarapé-mirim, se o seu cérebro não fosse dominado por instintos
procura retratar a realidade de forma mais crítica e obje- egoísticos, que a privação de prazeres açulava e que uma educação
tiva que o Romantismo. Considerando tais informações superficial não soubera subjugar. E como os senhores padres do Semi-
sobre os movimentos estéticos, procure explicar as nário haviam pretendido destruir ou, ao menos, regular e conter a ação
diferentes reações dos leitores diante da mesma obra. determinante da hereditariedade psicofisiológica sobre o cérebro do
seminarista? Dando-lhe uma grande cultura de espírito, mas sob um
os leitores do r
os omantismo esperavam do romance um certo tipo de
romantismo ponto de vista acanhado e restrito, que lhe excitara o instinto da própria
conservação, o interesse individual, pondo-lhe diante dos olhos, como
característica que os agradava: o sentimentalismo, as personagens
supremo bem, a salvação da alma, e como meio único, o cuidado dessa
idealizadas (heróis e mocinhas), as complicações sentimentais. os
mesma salvação. Que acontecera? No momento dado, impotente o
freio moral para conter a rebelião dos apetites, o instinto mais forte,
leitores das obras realistas, por outro lado, tinham outras expectativas: o menos nobre, assenhoreara-se daquele temperamento de matuto,
disfarçado em padre de S. Sulpício. Em outras circunstâncias, colocado
queriam um romance que mostrasse a realidade sem idealizá-la. assim, em meio diverso, talvez que padre Antônio de Morais viesse a ser um
santo, no sentido puramente católico da palavra, talvez que viesse a
quando um leitor do realismo se deparava com uma obra romântica, realizar a aspiração da sua mocidade, deslumbrando o mundo com o
fulgor das suas virtudes ascéticas e dos seus sacrifícios inauditos. Mas
certamente divertia-se com as situações ali mostradas, que lhe pare-
nos sertões do Amazonas, numa sociedade quase rudimentar, sem
moral, sem educação... vivendo no meio da mais completa liberdade
ciam inverossímeis ou muito sentimentais.
de costumes, sem a coação da opinião pública, sem a disciplina duma
autoridade espiritual fortemente constituída... sem estímulos e sem
(Vunesp – adaptada) Leia os textos a seguir para responder apoio... devia cair na regra geral dos seus colegas de sacerdócio, sob
às questões 5 e 6. a influência enervante e corruptora do isolamento, e entregara-se ao
vício e à depravação, perdendo o senso moral e rebaixando-se ao nível
Eurico, o presbítero dos indivíduos que fora chamado a dirigir.
Os raios derradeiros do sol desapareceram: o clarão avermelhado Esquecera o seu caráter sacerdotal, a sua missão e a reputação do
da tarde vai quase vencido pelo grande vulto da noite, que se ale- seu nome, para mergulhar-se nas ardentes sensualidades dum amor
vanta do lado de Septum. Nesse chão tenebroso do oriente a tua físico, porque a formosa Clarinha não podia oferecer-lhe outros atra-
imagem serena e luminosa surge a meus olhos, ó Hermengarda, se- tivos além dos seus frescos lábios vermelhos, tentação demoníaca,
melhante à aparição do anjo da esperança nas trevas do condenado. das suas formas esculturais, assombro dos sertões de Guaranatuba.
E essa imagem é pura e sorri; orna-lhe a fronte a coroa das virgens;
SOUSA, Inglês de. O missionário. São Paulo: Ática, 1987.
sobe-lhe ao rosto a vermelhidão do pudor; o amículo alvíssimo da
inocência, flutuando-lhe em volta dos membros, esconde-lhe as formas
divinas, fazendo-as, porventura, suspeitar menos belas que a realidade. 5. A visão que o amante tem de sua amada constitui um
É assim que eu te vejo em meus sonhos de noites de atroz sauda- dos temas eternos da literatura. Uma leitura comparati-
de: mas, em sonhos ou desenhada no vapor do crepúsculo, tu não va dos dois fragmentos apresentados, que exploram tal

Romantismo em Portugal enem e VestiBulaRes 57

MPSR-LIT-T11(053-058)-b.indd 57 1/3/11 5:47 PM


tema, nos revela dois perfis bastante distintos de mulher. Fios de ouro, que enredam meus cuidados,
Considerando esta informação, Alvo peito, que cega de candura,
a) aponte a diferença que há entre Hermengarda e Cla- Mil prendas; e (o que é mais que formosura)
rinha, no que diz respeito ao predomínio dos traços
Uma graça, que rouba mil agrados.
físicos sobre os espirituais, ou vice-versa, segundo as
visões de seus respectivos amantes. Mil extremos de preço mais subido
Encerra a linda Márcia, a quem of’reço
na caracterização de hermengarda predominam os traços espirituais;
Um culto, que nem dela inda é sabido.
na de clarinha notam-se exclusivamente os traços físicos. no primeiro Tão pouco de mim julgo que a mereço,
texto, a personagem feminina tem sua pureza associada à de um anjo: Que enojá-la não quero de atrevido
Co’as penas que por ela em vão padeço.
para eurico, hermengarda não é “mais do que uma imagem celestial”.
(Filinto Elísio)
Já no segundo texto, o narrador mostra somente os atrativos da beleza

física de clarinha –“frescos lábios vermelhos”, “formas esculturais” – Texto II


Este inferno de amar
pois “clarinha não podia oferecer-lhe outros atrativos”.
Este inferno de amar – como eu amo!
Quem mo pôs aqui n’alma... quem foi?
b) justifique a caracterização de Hermengarda com base Esta chama que alenta e consome,
nos fundamentos do estilo de época – o Romantismo –
em que se enquadra o romance de que é personagem.
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
o romantismo caracteriza-se pela idealização e subjetividade, tal como

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Quando – ai quando se há-de ela apagar?
se pode observar no retrato de hermengarda. a imagem da amada, (Almeida Garrett)

assim, configura-se como uma projeção do imaginário de eurico, de


7. Considere as afirmações:
sua subjetividade, de acordo com seus sentimentos exacerbados.
I. No poema de Garrett, o amor é apresentado como um
sentimento que acontece na vida de alguém indepen-
6. Em cada fragmento apresentado encontramos o protago- dentemente de sua vontade.
nista envolvido por fortes sentimentos de amor e de fé
II. No poema de Filinto, vê-se que o amor não se realiza
religiosa. Com base nesta observação,
fisicamente; no de Garrett, explora-se o amor pelo seu
a) descreva o que há de comum nas reações dos dois aspecto físico e sensual.
religiosos ao viverem tais sentimentos.
III. Tanto no poema de Filinto quanto no de Garrett, há
os dois religiosos encontram-se em crise, entre as censuras do uma linha tênue entre o utópico e o real, resultando
numa visão de amor sôfrega e intensa, prestes a tomar
espírito (fé religiosa) e os apelos do coração (amor físico, desejo formas plenas na realidade vivida pelos amantes.

carnal). a fé é entrave à realização amorosa – em ambos os casos,


Está correto somente o que se afirma em
o amor carnal é visto como “perdição”, “tentação demoníaca”.
a) I.
b) II.
b) explique as razões pelas quais, no quinto parágrafo do tex- c) III.
to de Herculano, a personagem se refere a dois templos.
d) I e II.
os dois templos a que a personagem se refere são o do desejo
e) I e III.
carnal, o “santuário do coração” em que adorava hermengarda, e
8. Assinale a alternativa correta.
o da fé religiosa, em cujos altares orava ao senhor. assim, a per-
a) O poema de Filinto é uma narrativa na qual o poeta
sonagem revela sua crise entre o amor físico e a fé, voltando-se ao conta sua desilusão amorosa.
b) Na descrição de Márcia, o poeta vale-se de metáforas
último templo depois que o primeiro desabou.
(rubi, nevada alvura) e de hipérboles (mil prendas, mil
agrados).
(Unifesp) Leia os textos transcritos para responder às c) Nos versos de Garrett, o amor se mostra como um
questões 7 e 8. sentimento confuso, o que transparece no uso de eu-
femismos.
Texto I
d) Em Quem mo pôs aqui n’alma... quem foi?, não é possível
Uns lindos olhos, vivos, bem rasgados,
identificar o referente textual do pronome “o” [em mo].
Um garbo senhoril, nevada alvura,
e) Nos versos de Garrett, as orações interrogativas revelam
Metal de voz que enleva de doçura, a predisposição do poeta para viver intensamente o
Dentes de aljôfar, em rubi cravados. sentimento descrito.

58 suplemento de revisão liteRatuRa

MPSR-LIT-T11(053-058)-b.indd 58 1/3/11 5:47 PM


Romantismo no Brasil: primeira geração
A construção de uma identidade literária para o país recém-independente foi o esforço que orientou
os escritores e poetas da primeira geração romântica. Símbolos nacionais como o índio e a natureza
exuberante foram cantados em verso e prosa para mostrar o Brasil a brasileiros e estrangeiros.

Romantismo no Brasil: o que pretendiam apresentar aos leitores, assim como, na


Europa, a figura do cavaleiro medieval foi usada com o
discurso da nacionalidade mesmo fim pelos escritores daquele continente.
A chegada da corte portuguesa ao Brasil em 1808 marcou o O professor Antonio Candido ressalta que, durante o
início de um período de transformações na cidade do Rio de Romantismo, a figura do índio
Janeiro, então capital da colônia, e na vida cultural do país.
Na primeira metade do século XIX, o Brasil recebeu várias se tornou imagem ideal e permitiu a identificação do brasileiro com
missões estrangeiras integradas por cientistas e artistas, o sonho de originalidade e de passado honroso, além de contribuir
dos quais se destacaram Auguste de Saint-Hilaire, profes- para reforçar o sentimento de unidade nacional, sendo, como era,
sor do Museu de História Natural de Paris, e Carl Friedrich algo acima da particularidade de cada região [...]. O indianismo
von Martius, naturalista austríaco. proporcionou deste modo um antepassado mítico, que lisonjeava
As missões estrangeiras foram importantes para a forma- por causa das virtudes convencionais que lhe eram arbitrariamente
atribuídas, inclusive pela assimilação ao cavaleiro medieval, tão em
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ção de uma identidade nacional porque proporcionaram


aos escritores registros da natureza e dos costumes bra- voga na literatura romântica.
sileiros. Além disso, trouxeram para o ambiente cultural CANDIDO, Antonio. O Romantismo no Brasil.
do país ideias liberais e nacionalistas que circulavam na São Paulo: Humanitas, 2002. p. 89. (Fragmento).
Europa e que influenciaram nossos intelectuais.
Com
Com a Proclamação da Independência política brasileira,
Proclamação da Independência política brasileira, Observe a pintura e leia o texto a seguir.
em 1822, era preciso conquistar independência cultural
em 1822, era preciso conquistar a cultural

PAulo
Aul
do país em relação às culturas europeias.
do país em relação às culturas europeias.

ão PA
te ubriAnd, são P
Para
Para consolidar
consolidar a ideia de uma nação brasileira,
a ideia brasileira, os
os in-

Museu de Arte de são PAulo Assis ChAteAubriAnd,


telectuais desse
telectuais desse período
período procuraram criar referências
ocuraram criar ferências
concretas, escolhendo
concretas escolhendo
colhendo o índio e aa natureza
natureza exuberante
exuberante
uberante

teA
símbolos para marcar identidade nacional
como símbolos para marcar a identidade
como nacional.
Os escritores da primeira geração romântica assumiram
a missão de apresentar, para brasileiros e estrangeiros,
a face do novo país independente.
Em 1836 surgiu a revista Nitheroy, publicada por jovens
escritores brasileiros que viviam na frança. Na epígrafe da
revista, lia-se: “Tudo pelo Brasil, e para o Brasil”. O desejo
de construir uma consciência do Brasil como nação inde-
pendente e de valorizar a cultura local guiaram os autores
dessa publicação, entre eles Gonçalves de Magalhães e
Araújo Porto Alegre. MEIRELLES, Victor. Moema. 1866. Óleo sobre tela, 129 × 190 cm. Museu de
Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – Masp, São Paulo, SP.
A publicação de Suspiros poéticos e saudades, de Gonçal-
ves de Magalhães, em 1836, foi considerada o marco inicial
do Romantismo brasileiro. Nessa obra de Victor Meirelles vemos a índia Moema, personagem
da conhecida história das aventuras de Diogo Álvares, o Caramuru,
entre os índios brasileiros. Segundo a narrativa, Moema morre ao tentar
A poesia indianista seguir a nado a embarcação em que Diogo Álvares retornava a Portugal.
da primeira geração romântica Na pintura, observamos a figura da índia em destaque e, ao fundo, a
floresta. Assim, dois elementos centrais da construção da identidade
O clima de nacionalismo propiciado pela Independência do nacional empreendida pelos primeiros românticos brasileiros aparecem
Brasil inspirou os poetas da primeira geração romântica aqui: a figura do nativo e a natureza da terra. Um crítico da época
a buscar o registro e a divulgação de uma identidade na- chamou a atenção para o fato de que essa pintura retrata bem o ideal
cional. O espírito que animou essa geração de escritores a de seu tempo ao idealizar a figura da índia morta, que, ao contrário do
criar uma literatura brasileira foi resumido por Gonçalves que se espera de um corpo devolvido pelas águas, aparece bela e em
de Magalhães da seguinte forma: “Cada povo tem sua lite- uma posição que lhe concede nobreza e tragicidade.
ratura própria, como cada homem seu caráter particular, CATÁLOGO do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.
cada árvore seu fruto específico”. Coordenação geral: Luiz Marques. São Paulo: Ed. Prêmio, 1998.
Disponível em: <http://www.masp.art.br/servicoeducativo/
Os poetas da primeira geração romântica elegeram o índio assessoriaaoprofessor-ago06.php>. Acesso em: 15 out. 2010.
como símbolo nacional para divulgar valores e princípios

Romantismo no BRasil: pRimeiRa geRação 59

MPSR-LIT-T12(059-062)-b.indd 59 1/3/11 5:48 PM


Além de símbolo nacional, os românticos idealizavam o Que os fortes, os bravos
índio como homem livre e ainda intocado pelos males da Só pode exaltar.
civilização e da vida em sociedade. A definição de “bom
selvagem”, dada pelo filósofo francês Jean-Jacques II
Rousseau, influenciou fortemente essa idealização do Um dia vivemos!
indígena. Segundo Rousseau, o homem nasce bom e é a O homem que é forte
sociedade que o corrompe. O índio, de acordo com essa
Não teme da morte;
visão, viveria ainda em estágio anterior à corrupção das
sociedades modernas. Só teme fugir;
Formalmente, os versos indianistas são marcados pelo No arco que entesa
controle da métrica e pela escolha das rimas. Um recur- Tem certa uma presa,
so formal usado nessa poesia para aproximar o leitor dos Quer seja tapuia,
costumes indígenas é fazer com que o ritmo do poema Condor ou tapir.
se assemelhe ao toque ritual dos tambores, usados nas
cerimônias desses povos. III
Outro recurso de linguagem usado pelos poetas é uma O forte, o cobarde
delicada caracterização da natureza brasileira, espaço Seus feitos inveja
no qual se desenvolvem os acontecimentos narrados nos
De o ver na peleja
poemas indianistas.
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Gonçalves Dias Nos graves conselhos,
Curvadas as frontes,

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Estudou direito na Universidade de Coimbra, em Portugal,
onde leu os textos românticos de Almeida Garrett e de Escutam-lhe a voz!
Alexandre Herculano. Essas influências literárias foram IV
importantes para o seu desenvolvimento como poeta
romântico. Domina, se vive;

Na
Na obra de Gonçalves Dias aparecem os grandes temas
obra de Gonçalves Dias aparecem os grandes temas Se morre, descansa
românticos: natureza,
românticos: natureza, pátria
natureza pátria e religião. Dos seus na lembrança,
Suas principais obras
Suas obras sã
são: Primeiros cantos (1846),
imeiros cantos (1846), Se- Na voz do porvir.
cantos (1848), As
gundos cantos (1848), As sextilhas do frei Antão (1848) e
Antão (1848) e Não cures da vida!
Últimos cantos (1851). Escreveu
cantos (1851). Escreveu também
também algumas peças
algumas peças Sê bravo, sê forte!
de
de teatro,
te atro, sendo
sendo Leonor Mendonça (1847)
onor de Mendonça (1847) a a mais
ma is
Não fujas da morte,
conhecida.
Que a morte há de vir!
Os versos indianistas são a parte mais importante da
obra de Gonçalves Dias. Neles é construída uma ima- V
gem heroica e nobre do índio brasileiro. Destacam-se
E, pois que és meu filho,
os poemas “Os timbiras”, “Canto do piaga”, “Depre-
cação” e “I-Juca Pirama”. O domínio do ritmo nesses Meus brios reveste;
poemas contribuiu para a popularidade da poesia Tamoio nasceste,
indianista, o que ajudou no empenho dos poetas da Valente serás.
primeira geração em divulgar a versão romântica dos Sê duro guerreiro,
símbolos nacionais.
Robusto, fragueiro,
Nos poemas indianistas, as características dos indí-
Brasão dos tamoios
genas são sempre positivas e enaltecedoras: bravura,
honra, lealdade. Na guerra e na paz.
DIAS, Gonçalves. Poesias completas. v. II.
Observe, nos versos a seguir, a caracterização positiva Rio de Janeiro: Científica, 1965. p. 139-142.
do índio, própria da poesia indianista da primeira geração
romântica.
Renhida: disputada; sangrenta.
Tapir: anta.
Canção do Tamoio Porvir: futuro.
I Não cures da vida: não te
Não chores, meu filho; ocupes (não cuides) da vida.
Fragueiro: impetuoso;
Não chores, que a vida
incansável.
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate, Conteúdo digital Moderna PLUS http://www.modernaplus.com.br
Que os fracos abate, Tema animado: Romantismo no Brasil: primeira geração.

60 suplemento de revisão liteRatURa

MPSR-LIT-T12(059-062)-b.indd 60 1/3/11 5:48 PM


Romantismo no Brasil: primeira geração

Enem e vestibulares

1. (Enem-Inep) Os textos 1 e 2, escritos em contextos históricos e cul-


turais diversos, enfocam o mesmo motivo poético: a
Texto 1 paisagem brasileira entrevista a distância. Analisando-
-os, conclui-se que
Canção do exílio
Minha terra tem palmeiras, a) o ufanismo, a atitude de quem se orgulha excessi-
vamente do país em que nasceu, é o tom de que se
Onde canta o Sabiá;
revestem os dois textos.
As aves que aqui gorjeiam,
b) a exaltação da natureza é a principal característica do
Não gorjeiam como lá.
texto 2, que valoriza a paisagem tropical realçada no
Nosso céu tem mais estrelas, texto 1.
Nossas várzeas têm mais flores,
c) o texto 2 aborda o tema da nação, como o texto 1, mas
Nossos bosques têm mais vida, sem perder a visão crítica da realidade brasileira.
Nossa vida mais amores.
d) o texto 1, em oposição ao texto 2, revela distanciamento
[...] geográfico do poeta em relação à pátria.

Minha terra tem primores, e) ambos os textos apresentam ironicamente a paisagem


Que tais não encontro eu cá; brasileira.
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Em cismar – sozinho, à noite –


2. (Enem-Inep)
Mais prazer eu encontro lá;

CoPenhAgue
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o Sabiá
Não permita Deus que eu morra,

d dinAMArCA,
Sem que eu volte para lá;

dinAMA
Sem que desfrute os primores

Museu nACionAl dA
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras
Onde canta o Sabiá.
DIAS, Gonçalves. Poesia e prosa completas.
Rio de Janeiro: Aguilar, 1998. (Fragmento).

Texto 2
Canto de regresso à Pátria
Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase tem mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte pra São Paulo
Sem que eu veja a rua 15
E o progresso de São Paulo.
ANDRADE, Oswald de.
Cadernos de poesia do aluno Oswald.
São Paulo: Círculo do Livro, s.d. ECKHOUT, Albert. Homem tapuia. 1643. Óleo sobre tela, 266 × 159 cm.
Museu Nacional da Dinamarca, Copenhague.

Romantismo no Brasil: primeira geração enem e VestiBUlaRes 61

MPSR-LIT-T12(059-062)-b.indd 61 1/3/11 5:48 PM


b) As suas poesias não apresentam apego à rigidez
A feição deles é serem pardos, maneira d’avermelhados, de métrica, apresentando ritmos variados.
bons rostos e bons narizes, benfeitos. Andam nus, sem nenhuma
c) Apesar de terem sido escritas em épocas diver-
cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir, nem mostrar
suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como sas, constata-se a unidade de pensamento em
têm em mostrar o rosto. suas poesias.

CAMINHA, P. V. A carta. Disponível em: d) Por serem fruto de criações sob influências lo-
<http://www.dominiopublico.gov.br.>. cais distintas, suas poesias apresentam-se dife-
Acesso em: 12 ago. 2009. renciadas.
e) A força poética de seus versos realiza-se na perfei-
Ao se estabelecer uma relação entre a obra de Eckhout ta harmonia entre forma e conteúdo.
e o trecho do texto de Caminha, conclui-se que
a) ambos se identificam pelas características estéticas
4. ( U F J F - M G ) Leia o fragmento abaixo do poema
marcantes, como tristeza e melancolia, do movimen-
to romântico das artes plásticas. “I-Juca-Pirama”, de Gonçalves Dias, para responder
à questão.
b) o artista, na pintura, foi fiel ao seu objeto, represen-
tando-o de maneira realista, ao passo que o texto é
apenas fantasioso. Tu choraste em presença da morte?
c) a pintura e o texto têm uma característica em co- Em presença de estranhos choraste?
mum, que é representar o habitante das terras que
Não descende o cobarde do forte;
sofreriam processo colonizador.
d) o texto e a pintura são baseados no contraste entre Pois choraste, meu filho não és!
a cultura europeia e a cultura indígena. Possas tu, descendente maldito

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


e) há forte direcionamento religioso no texto e na pin- De uma tribo de nobres guerreiros,
tura, uma vez que o índio representado é objeto da
Implorando cruéis forasteiros,
catequização jesuítica.
Seres presa de vis Aimorés.
3. (Cesgranrio-RJ)
Possas tu, isolado na terra,
1. Dei o nome de PRIMEIROS CANTOS às poesias que ago- Sem arrimo e sem pátria vagando,
ra publico, porque espero que não serão as últimas.
Rejeitado da morte na guerra,
2. Muitas delas não têm uniformidade nas estrofes, porque
Rejeitado dos homens na paz,
menosprezo regras de mera convenção; adotei todos os
ritmos da metrificação portuguesa, e usei deles como me Ser das gentes o espectro execrado;
pareceram quadrar melhor com o que eu pretendia exprimir. Não encontres amor nas mulheres,
3.Não têm unidade de pensamento entre si, porque foram Teus amigos, se amigos tiveres,
compostas em épocas diversas – debaixo de céu diverso – e
Tenham alma inconstante e falaz!
sob a influência de impressões momentâneas. [...]
4.Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de
sobre a nossa arena política para ler em minha alma, redu- O trecho do poema “I-Juca-Pirama” refere-se ao mo-
zindo à linguagem harmoniosa e cadente o pensamento mento em que o filho guerreiro volta para a sua tribo
que me vem de improviso, e as ideias que em mim desperta e se encontra com seu pai após ter pedido ao líder da
a vista de uma paisagem ou do oceano – o aspecto enfim tribo inimiga, pela qual havia sido capturado, que o
da natureza. Casar assim o pensamento com o sentimento poupasse da morte para que pudesse cuidar de seu
– o coração com o entendimento – a ideia com a paixão – pai amado, muito velho, até este morrer. Pensando
colorir tudo isto com a imaginação, fundir tudo isto com a nos valores defendidos pelo Indianismo romântico
vida e com a natureza, purificar tudo com o sentimento da no Brasil, pode-se dizer que a reação do pai ocorre
religião e da divindade, eis a Poesia – a Poesia grande e san- porque o filho:
ta – a Poesia como eu a compreendo sem a poder definir,
a) considerou-o um velho incapaz, evidenciando que
co