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1 INTRODUÇÃO

Com o objetivo de compreender de que maneira a escola atual está


trabalhando a alfabetização com o viés e concepção de letramento no Ensino
Fundamental Anos Iniciais, buscou-se fazer a presente pesquisa com base nos
seguintes questionamentos: a escola atual desenvolve o processo de
alfabetização associado à conspecção de letramento? Como acontece essa
prática em sala de aula? Qual a diferença entre alfabetizar e letrar? Qual o
papel do contexto social e o ambiente onde se insere a criança/aluno nesse
processo de alfabetizar letrando? Qual o papel dos professores nesse processo
de alfabetização a partir do letramento?
Nos primórdios da escolarização, o conceito de alfabetização centrava-se,
principalmente na memorização e decodificação das letras e suas respectivas
famílias, com pequenas variações e mudanças no decorrer dos anos, a ênfase
passou a ser o uso de métodos fônicos e voltados na identificação silábica a
partir de palavras geradoras. Contudo, esse conceito de alfabetização centrado
apenas na codificação e decodificação dos grafemas, baseando-se nos
fonemas não foi suficiente, surgindo então, o letramento, para possibilitar ao
aluno além de ler e escrever, conhecer sua língua e fazer uso dela no
cotidiano.
Considerando os pressupostos que mostram a evolução do conceito de
alfabetização, o uso de diferentes métodos e o surgimento do termo
letramento, essa pesquisa se justifica, no sentido de querer buscar em campo
nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, como a escola atual vem
desenvolvendo essa nova forma de ensinar considerando não apenas os
aspectos morfológicos da língua.
Para subsidiar teoricamente a pesquisa buscou-se nos estudiosos sobre a
temática, como Campos (2006), Piaget (1970), Soares (2004), Tfouni (2006) e
outros, visto os mesmos possuírem notável contribuição e grande amplitude no
meio acadêmico sobre suas pesquisas no campo da alfabetização e
letramento.
Cabe à escola explorar as vivencias que os alunos já trazem de casa, do
seu convívio social em outros ambientes, propiciando a eles fazerem as leituras
das situações cotidianas, mesmo que ainda não dominem os códigos
linguísticos, dando lhes segurança para que compreendam a importância da
leitura e da escrita.
No primeiro momento apresentam-se as discussões gerais sobre
alfabetização e letramento em que surgem discussões sobre o conceito de
alfabetizar e letrar, que embora teoricamente sejam concepções distintas,
caminham lado a lado, no que diz respeito a decodificar e construir
significações sobre determinados conteúdos.
Em seguida, evidencia-se a importância da leitura na sala de aula e suas
práticas sociais. Ler com autonomia e proficiência são requisitos básicos para a
formação de um bom leitor, possibilitando o seu desenvolvimento cognitivo e
sua ascensão social, portanto, faz-se uma análise do processo de aquisição da
leitura com diferentes olhares, analisando-o com relação à função social na
vida do indivíduo.
Relatam-se, também, práticas de leituras, em que é considerada a
linguagem como eixo norteador, que conduz o aluno ao processo de ensino e
aprendizagem, ou seja, na relação do homem com o seu contexto e sua ação
na sociedade. Aborda-se, ainda, uma reflexão sobre o ensino da leitura e
escrita no processo de formação do educando, mostrando a necessidade de se
promover uma ação coletividade entre a escola e a sociedade para que se
possam desenvolver leitores aptos aos desdobramentos da linguagem como
um todo.
Por último, têm-se as configurações metodológicas e análises dos dados.
Optou-se por uma pesquisa qualitativa, com o foco em um estudo de campo
realizado por meio das aplicações de questionários. Estes foram realizados
com professores e com o coordenador escolar da respectiva instituição, que
posteriormente foram analisadas por meio do método comparativo e descritivo.
2 CONCEITUANDO ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

Entende-se atualmente que alfabetizar vai além da percepção de


memorizar para se ler e escrever. Envolve conhecer a língua escrita e de que
forma ela representa a linguagem, para que seja possível construir
conceitualmente o domínio da leitura, o sistema de escrita e o conhecimento de
mundo.
Nesse sentido, Morais e Albuquerque (2007) apresentam o conceito de
alfabetização pautado na necessidade de desenvolvimento de habilidades de
domínio da linguagem, que englobam a prática de leitura e a escrita. Definem
alfabetização como:

Processo de aquisição da “tecnologia da escrita”, isto é do conjunto


de técnicas – procedimentos habilidades - necessárias para a prática
de leitura e da escrita: as habilidades de codificação de fonemas em
grafemas e de decodificação de grafemas em fonemas, isto é, o
domínio do sistema de escrita (alfabético ortográfico) (MORAIS;
ALBUQUERQUE, 2007, p. 15).

Levando-se em conta que a alfabetização é um processo que se


desenvolve a partir de situações hipotéticas construídas pelas crianças em
diferentes estágios ou etapas, é fundamental que a elas sejam propiciadas
situações reais de interação com o mundo da escrita, não apenas de modo
superficial ou mecânico, mas sistematizado, reflexivo e coordenado, valendo-se
da diversidade de gêneros textuais que circulam e fazem parte do universo
delas.
Então, a alfabetização pode ser definida como um processo de
construção permanente, dinâmico, que acontece na escola e em outros
ambientes onde a criança tenha contato e faça uso da leitura da escrita, não
sendo apenas a descoberta relativa entre grafemas e fonemas.
Uma das maiores estudiosas na atualidade sobre alfabetização e
letramento, Soares (2004) diz que a alfabetizar é “a ação de ensinar e aprender
a ler e a escrever”, sendo letramento “o estado ou condição de quem não
apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam
a escrita”.
Nesse sentido, a alfabetização seria uma ponte para a existência prática
do letramento, onde se exerce o uso efetivo da língua nas situações sociais do
cotidiano. Para que essa relação intrínseca aconteça, nas situações de uso dos
textos de diferentes gêneros textuais, precisa-se que exista compreensão das
finalidades e aplicabilidade nas vivências sociais.
Ampliando a definição do conceito de Alfabetização Tfouni (1998)
relaciona esse processo diretamente ao momento em que a criança ingressa
na escola, dizendo que:

A alfabetização refere-se à aquisição da escrita enquanto


aprendizagem de habilidades pela leitura, escrita e as chamadas
práticas de linguagem. Isso é levado a efeito, em geral por meio do
processo de escolarização e, portanto da instrução formal. A
alfabetização pertence assim, ao âmbito individual. (TFOUNI, 1998,
p.9, e 1995, p. 9-10).

Ao dizer na citação acima que “a alfabetização pertence assim, ao


âmbito individual”, Tfouni (1998) deixa implícito que é um processo onde cada
criança desenvolve suas hipóteses sobre o sistema da língua de maneira
única, com ritmo próprio e no tempo de maturação adequado a sua faixa etária,
sendo necessária a intervenção de um adulto para orientar e coordenar esse
processo da forma correta.
Traçando uma diferenciação entre alfabetizar e letrar, Tfouni (1995)
esclarece que a alfabetização pode acontecer a partir das técnicas de
decodificação e codificação dos grafemas por meio do processo tradicional de
repetição e memorização de letras e sílabas, e o letrar relaciona-se diretamente
no conhecimento e uso social da língua escrita. Segundo ele:

Enquanto a alfabetização ocupa-se da aquisição da escrita por um


individuo, ou grupos de indivíduos, o letramento focaliza os aspectos
sócio históricos da aquisição de um sistema escrito por uma
sociedade. (TFOUNI, 1995, p.20).

A compreensão do sistema da língua escrita só será possível mediante


a experiência de convívio real com os portadores dessa língua que circulam na
sociedade, como livros, jornais, internet, propagandas, comerciais veiculados
na TV, rótulos, fachadas de lojas, placas, símbolos, revistas e tantos outros
meios de propagação da escrita, visto que proporcionará a construção de
hipóteses e significados necessários ao processo de alfabetização com
letramento.
Ratificando o pressuposto acima Ferreiro e Teberosky, apud Lira (2006),
estudiosas no desenvolvimento do processo de alfabetização por meio das
hipóteses, conhecida como Psicogênese da língua escrita,

Revelam a maneira pela qual a criança e o adulto constroem seu


sistema interpretativo para compreender esse objeto social complexo
que é a escrita. Mesmo quando ainda não escrevem ou leem da
forma convencionalmente aceita como correta, já estão percorrendo
um processo que os coloca mais próximos ou mais distantes da
formalização da leitura e da escrita (LIRA, 2006, p. 44).

A criança, não importando a realidade social onde vive, segue no


processo de alfabetização ou aquisição da língua escrita, os mesmos
percursos e etapas classificados por Emilia Ferreiro (1999) como níveis de
desenvolvimento: pré-silábico, silábico, silábico-alfabético e alfabético, todavia
o que irá determinar o ritmo dessa aquisição e domínio da língua escrita é
contato diário com textos significativos para a criança.
Considerando que as crianças vivem numa realidade social dominada
pela língua escrita, elas começam desde cedo, mesmo antes da escolarização
a levantar hipóteses em relação à escrita, fazendo nas suas primeiras
descobertas a distinção entre letras e desenhos. (Ferreiro, 199).
No processo de alfabetização, existe uma relação entre tempo, método
ritmo e maturação. Ferreiro (2001) aborda essa questão pontuando que cada
criança demora mais a fazer a transição de um nível para o outro, dependendo
do método utilizado pela escola e do processo de maturidade, sendo que em
uma mesma sala de aula, poderá haver crianças com ritmos diferentes de
aprendizagem, devido ao seu nível de maturação, visto que tanto as crianças
como os adultos tendem a reproduzir por escrito os traços fonéticos da fala,
sendo assim necessária a intervenção do professor com estratégias variadas e
diferenciadas para auxiliar na progressão dos níveis, superando as “confusões
mentais” que o processo provoca.
Citando Soares (2004) Morais e Albuquerque (2007, p. 47) explicam que:

Alfabetizar e letrar são duas ações distintas, mas inseparáveis do


contrario: o ideal seria alfabetizar letrando, ou seja, ensinar a ler e
escrever no contexto das práticas sociais da leitura e da escrita, de
modo que o individuo se tornasse ao mesmo tempo alfabetizado e
letrado.
Entende-se pelas colocações acima, que apesar dos processos de
alfabetizar e letrar apresentarem diferenças de ordem conceitual, um depende
do outro para se efetivar de maneira, a permitir a aquisição da língua escrita
com compreensão do seu uso nas relações sociais. Isso requer, que a criança
ou adulto, para tornar-se letrado, precisa, mesmo antes de ingressar no mundo
da escolarização, ter contatos prévios com a escrita em situações reais de
comunicação.
Soares (2011) explica que letramento tem origem aqui no Brasil a partir da
tradução do termo em inglês Literacy, cujo significado é “o estado ou a
condição de se fazer usos sociais da leitura e da escrita”. Assim sendo, a
diferença é que na alfabetização ensina-se a pessoa a ler e escrever e no
letramento a fazer uso da escrita em situação social, é a chamada “leitura de
mundo”.
De acordo com Kleiman apud Lira (2006), o advento do letramento
provocou uma mudança nas relações sociais, uma vez que um analfabeto
poderá ser letrado, fazer uso da língua nas interações sociais que estabelece,
denotando que o letramento vai além de saber codificar ou decodificar os
signos linguísticos.
Em suma, Morais e Albuquerque (2007, p.7) definem letramento como
um “conjunto de práticas que denotam a capacidade de uso de diferentes tipos
de material escrito”.
Sendo assim, pode-se definir alfabetização como um processo
sistemático, organizado e direcionado para se ensinar a ler e escrever e
letramento como sendo a prática social de uso da língua, o conhecimento de
como ela funciona.

2.1 A RELAÇÃO INTRÍSICA ENTRE ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO:

A relevância da do uso da leitura e escrita, o que requer a incorporação e


entendimento do sistema de linguagem e alfabético, bem como o
conhecimento dos mesmos, em situações reais do cotidiano, tem motivado
vários estudos e debates a cerca da relação existente alfabetização e
letramento.
Segundo por Ferreiro (1985) no processo de aquisição da leitura e
escrita, o sujeito precisa entender sua importância e mecanismos de
funcionamento da construção e reconstrução permanente do conhecimento,
sendo isso possível, somente por meio da interação social existente entre os
envolvidos e o contexto onde estão inseridos.
Apesar do conceito de alfabetização ser amplamente difundido e
relacionado com a decodificação do sistema alfabético e as questões
ortográficas, o advento da transdisciplinaridade trouxe uma nova abordagem
para a forma de se alfabetizar, centrado nas interações sociais e na
importância e uso da linguagem oral e escrita no cotidiano.
Piaget (1978) define a transdisciplinaridade como o meio de perpassar
todos os componentes curriculares, a partir da aquisição de uma visão global e
ampla do conhecimento, fazendo inferências entre si, o que implicar dizer que
o mesmo não se limita a escola, a sala de aula, mais se processa nas
vivências e experiências culturais, hoje digitais, e sociais efetivadas na
interação existente entre as pessoas de um mesmo grupo social ou por meio
das relações estabelecidas nos meios tecnológicos (internet).
Considerando os pressupostos acima uma ressignificação do currículo
escolar precisou ser realizada, a partir da ótica da leitura de mundo, ou seja, do
uso no processo educacional dos saberes extra escola dos sujeitos aprendizes
nas suas relações e interações sociais. Foi nesse contexto que surgiu o
conceito do termo letramento.
Silva (2016) em seu artigo sobre Alfabetização e Letramento, ao abordar
essa nova realidade no processo como a escola deve perceber a
alfabetização, diz que o termo letramento:

Corresponde às mudanças acerca da leitura e da escrita e abrange


linguagens verbais e não verbais para a efetivação da comunicação,
isto é, do dialogismo entre seus falantes. Trata-se de uma nova
concepção que exige, do docente, competência e habilidades
pedagógicas para conduzir o processo levando o aprendiz a se
apropriar do conhecimento. (SILVA, 2016, p.8).
.

No contexto atual, onde o acesso à informação e ao conhecimento está à


disposição de todos de forma instantânea e rápida, é urgente que o sistema
educacional conceba um redirecionamento da sua prática, a partir do
planejamento e reorganização curricular.
A alfabetização e o letramento são processos distintos, contudo
complementares um do outro, visto que diante das múltiplas linguagens e
leituras que o sujeito pode usar e fazer atualmente, necessita da existência de
um mediador que o provoque, faça reflexão e ajude-o a filtrar os
conhecimentos instantâneos, em especial os produzidos pelas mídias digitais,
ao mesmo tempo em que aprende e se apropria do sistema de escrita
ortográfica.
Soares (2004) é taxativa ao dizer que, o sujeito só é alfabetizado quando
domina a capacidade de ler e escrever ortograficamente, o que na teoria de
Emilia Ferreiro, corresponde ao nível alfabético da escrita, sendo considerado
letrado quando consegue usar os conhecimentos no cotidiano, tirando proveito
deles nas suas relações sociais.
De acordo com Soares (1985) a diferença em ser ou não alfabetizada
resume-se ao domínio do uso ortográfico da língua por escrito, onde o sujeito
seja capaz de codificar, decodificar e compreender o sistema da língua,
usando-a de forma escrita e oral em situações do dia a dia. Sobre isso, ela
escreveu:

Processo de representação de fonemas e grafemas ou vice-versa,


mas é também um processo de compreensão/expressão de
significados através do código escrito. Não se considera
“alfabetizada” uma pessoa que fosse apenas capaz de decodificar
símbolos visuais em símbolos sonoros, “lendo”, por exemplo, silabas
ou palavras isoladas como também não se consideram “alfabetizada”
uma pessoa incapaz de, por exemplo, usar adequadamente o
sistema ortográfico de sua língua, ao expressar por escrito.
(SOARES, 1985, p. 21).

A alfabetização não se resume a apenas saber usar os códigos


linguísticos por escrito, mais também fazer uso da linguagem a partir do uso de
diferentes gêneros textuais, seja por meio da linguagem informal, seja por meio
da linguagem culta, fazendo registro oral e escrito e situações reais de
comunicação. Assim pode-se dizer que o letramento e a alfabetização são
interdependentes, um depende da outra.
Soares (2004) destaca que o letramento advém da prática de ensinar e
aprender a função social da leitura e da escrita, por meio da apropriação por
parte do grupo social ou sujeito individual do código escrito e de seu em
sociedade.
Alfabetizar letrando constitui um desafio, pois é necessário acompanhar a
evolução da sociedade e as demandas da atualidade, para satisfazer as
necessidades comunicativas e o uso das práticas de leitura e escrita.
Nesse sentido Freire (1998) na sua tese educacional já considerava
fundamental para o processo de alfabetização incorporar as vivências e os
elementos do meio social onde o aluno estava inserido, porque existe a
necessidade do educador proporcionar as práticas de leitura e escrita
contextualizadas, significativas.
Assim sendo, alfabetizar letrando pressupõe trabalhar com a centralidade
do texto para o exercício das práticas sociais de leitura e escrita, sem deixar de
lado o processo de ensinar o funcionamento da estrutura da língua a partir da
identificação dos grafemas e fonemas, de forma sistemática e intencional.
Seguindo essa linha, Tfouni (2006), confirmou que o letramento acontece
quando se ensina e aprende as práticas sociais de leitura e escrita. Sendo
assim, fundamental na fase de alfabetização o uso de textos variados, com
diferentes finalidades, significativos e que habilitem o aluno a fazer uso desse
conhecimento adquirido pela prática de leitura e escrita em situações da sua
vida diária.
No complexo processo de alfabetizar letrando, o uso do texto não pode
ser pretexto para o professor fazer análise da língua, mais sim considerar a sua
finalidade de uso no contexto social. Contudo, alfabetizar denota o
desenvolvimento de habilidades elementares relativas ao conhecimento de
funcionamento da estrutura da língua, que vão se ampliando conforme o
convívio com os suportes textuais presentes na sociedade. Nesse sentido,
merece destaque a citação abaixo extraída do material de estudo do Programa
de Formação de Professores da Educação Básica-PROEB (Brasil, 2014), que
enfatiza:

Para ler palavras com compreensão, o alfabetizando precisa


desenvolver algumas habilidades. Uma delas, bastante elementar, é a
de identificar as direções da escrita: de cima para baixo e da
esquerda para direita. Em geral, ao iniciar o processo de
alfabetização, o alfabetizando lê com maior facilidade as palavras
formadas por sílabas no padrão consoante/vogal, isso porque,
quando estão se apropriando da base alfabética, as crianças
constroem uma hipótese inicial de que todas as sílabas são formadas
por esse padrão. Posteriormente, em função de sua exposição a um
vocabulário mais amplo e a atividades nas quais são solicitadas a
refletir sobre a língua escrita, tornam-se hábeis na leitura de palavras
compostas por outros padrões silábicos. (BRASIL, 2014, p. 05).

Dessa forma, não se deve entrar na onda do modismo, fruto da


interpretação errôneo e compreensão do significado de alfabetizar letrando,
onde se deixou de lado o ensino sistemático da língua em detrimento do uso de
textos de circulação social apenas com fins pedagógicos. É fundamental que o
aluno compreenda sua língua e seja capaz de fazer uso da mesma no seu
cotidiano, na sua interação com os outros, isso é ser alfabetizado letrado.

2.2 ALFABETIZAR LETRANDO EM UMA PERSPECTIVA PSICOGENÉTICA

Quando se fala em alfabetizar letrando em uma perspectiva


psicogenética, refere-se aos estudos desenvolvidos por Piaget e sua seguidora
a Argentina Emilia Ferreiro.
Os estudos científicos no campo da linguagem, em especial sobre como a
criança consegue apropriar-se do sistema de escrita a partir da sua interação
com o objeto, relação com o outro e como isso influencia na construção do seu
conhecimento, apontam que numa perspectiva psicogenética a aprendizagem
acontece numa sucessão de estágios, níveis ou etapas que se evoluem sem
retroceder, variando de acordo com o ritmo e estímulos recebidos. (BRANCO,
1989).
Segundo Piaget, citado por Branco (1989) para a criança aprender, alguns
aspectos psicogenéticos são fundamentais, tais como: a maturação biológica,
que é fruto da genética hereditária que se desenvolve por meio de estímulos e
no tempo e ritmos adequados; o exercício e a experimentação com o objeto,
para aprender a criança precisa manipular, ter acesso direto com os objetos da
sua aprendizagem; as interações e as transmissões sociais, o contanto com o
adulto e com os seus iguais facilita o processo de aprender e por último
acontece o processo de equilibração, onde se efetiva a consciência da
aprendizagem e já reflete sobre a importância do aprender.
Na mesma linha de pesquisa de Piaget, Emília Ferreiro (1985) em seus
estudos com grupos de crianças conseguiu identificar diferentes fases ligadas à
psicogênese da escrita, ideal para se compreender como a criança constrói o
seu aprendizado da língua escrita, sendo eles:
- Nível Pré-silábico: fase em que a criança já diferencia letra de desenho,
ou seja, passa a usar traços característicos dos sinais gráficos.
- Nível Silábico: nessa etapa a criança começa a fazer associação entre
letras e sons.
- Nível Silábico-Alfabético: momento de transição, onde a criança no
processo de “confusão” começa a escrever ortograficamente.
- Nível Alfabético: fase em que a criança já domina o sistema escrito da
língua. (BRANCO, 1989).
Essa compreensão de como se desenvolve a alfabetização requer dos
educadores conhecimento referente a esses níveis ou estágios defendidos por
Piaget e Ferreiro, para que se possa avançar nas estratégias de ensino, na
busca da melhor metodologia e do uso de recursos que estimule um alfabetizar
significativo e correto.
Para tanto, é preciso ter ciência que o processo de alfabetização é um
processo longo, que perpassa diferentes etapas e envolve os aspectos
cognitivos, ambientais e sociais para se aprender a ler e escrever.
Ao falar sobre a compreensão do processo de Alfabetização e letramento
Ferreiro (1989), explica que:

O desenvolvimento da alfabetização ocorre, sem dúvida, em um


ambiente social. Mas as práticas sociais, assim como as informações
sociais, não são recebidas passivamente pelas crianças. Quando
tentam compreender, elas necessariamente transformam o conteúdo
recebido. Além do mais, a fim de registrarem a informação, elas a
transformam. Este é o significado profundo da noção de assimilação
que Piaget colocou no âmago de sua teoria. (FERREIRO, 1989, p.
24)

Esse posicionamento apresentado acima indica que as crianças não


recebem passivamente no processo de alfabetização as orientações e
ensinamentos dos adultos, isto porque já possui um arcabouço anterior a
escola, centralizado na interação social e no contato direto com o mundo da
escrito, ou seja, não precisam estar na escola para começar a aprender.
Independente da escolarização, o sujeito sempre estará imerso no mundo
da leitura e da escrita, sendo esse um meio para facilitar a construção de sua
aprendizagem, quando entrar na escola, com a figura de um facilitador que ira
aguçar e estimular suas curiosidades para aprender. Conforme defendido por
Ferreiro e Teberosky esse fator de contanto diário com o mundo da leitura,
dentro da teoria da psicogenética é um sujeito ativo e cheio de capacidades
que se desenvolverão no contato com os objetos e na interação com os
demais. Sobre isso elas dizem:

O sujeito que conhecemos através da teoria de Piaget é aquele que


procura ativamente compreender o mundo que o rodeia e trata de
resolver as interrogações que este mundo provoca. Não é um sujeito
o qual espera que alguém que possui um conhecimento o transmita a
ele por um ato de benevolência. É um sujeito que aprende
basicamente através de suas próprias ações sobre os objetos do
mundo e que constrói suas próprias categorias de pensamento ao
mesmo tempo em que organiza seu mundo. (FERREIRO e
TEBEROSKY, 1999. p. 29)

Conhecer como a criança se desenvolve piscogeneticamente é


fundamental para entender e desenvolver um método de ensino pautado em
estratégias facilitadoras da aprendizagem, que contemplará um processo de
alfabetização e letramento que permita a criança com autonomia a construir
seus conhecimentos e fazer uso dos mesmos nas relações ou práticas sociais.

2.3 ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO NA BNCC

A aprovação da Base Nacional Comum Curricular – BNCC para o Ensino


Fundamental não trouxe muitas mudanças em relação aos Parâmetros
Nacionais Curriculares - PCNs, contudo elimina a compreensão errônea
adotada por muitos educadores sobre o trabalho com letramento em detrimento
na escola do trabalho sistemático pautado na apropriação do sistema de escrita
da língua.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) ao contemplar o processo de
alfabetização e letramento centraliza duas questões importantes, propondo a
junção dessas duas tendências atuais de ensino: reconhecer o trabalho com
texto como ponto central do trabalho de alfabetização no contexto das práticas
sociais de leitura e escrita, associada à realização de atividades permanentes
essenciais para a aquisição e domínio do sistema de escrita alfabética.
De acordo com a Revista Nova Escola (2018) nos últimos trinta anos,
várias teorias e métodos permearam e direcionaram o ensino da linguagem no
Brasil, questionando os textos com frases soltas, sem contextos e centrados na
memorização silábica e no estudo gramatical. Esperava-se que as escolas e os
professores desenvolvessem a linguagem como um elemento da interação
social e inerente ao ser humano com intencionalidade. Assim sendo, o objetivo
do fazer pedagógico com a implementação dos PCNs era usar o texto como
elemento central do processo de trabalho com a língua, pautado em quatro
eixos: práticas de leitura, produção de escritos, oralidade e análise linguística.
A essência desse avanço foi mantida pela atual BNCC, que continuou
considerando a linguagem como algo própria do ser humano e que por meio do
acesso a textos significativos poderá descobrir e fazer uso de suas finalidades
nas práticas sociais. Contudo, reconhece que a necessidade da criança desde
cedo reconhecer e se apropriar do sistema de escrita para que seja um letrado
alfabetizado.
Para tanto, é essencial que os educadores compreendam a necessidade
de se juntar o ensino do sistema alfabético ao uso das práticas letradas, para
que a alfabetização e o letramento aconteçam como processos
complementares.
A forte influência nos cursos de formação de professores alfabetizadores
no Brasil das teorias associadas à psicogênese da língua escrita, segundo
Soares (2004) promoveu uma onda de modismo como relação à alfabetização,
promovendo o abandono de atividades sistemática do ensino do sistema
alfabético da escrita por meio de práticas de alfabetização explicita e metódica.
Salienta-se que os estudos sobre a psicogênese da língua escrita,
calcado nas hipóteses em que as crianças constroem seus conhecimentos
sobre a linguagem é importante para a compreensão de como se processa o
aprender, contudo a interpretação de que isso acontece de forma natural e
espontânea a partir do uso de textos significativos era suficiente para a criança
se desenvolver acabou por promover uma geração de alunos sem domínio do
sistema alfabético e com sérios problemas de compreensão das práticas
sociais da leitura e da escrita.
O advento da BNCC vem para tentar corrigir essa lacuna, fazendo uma
junção do trabalho com textos e uso de métodos de alfabetização que priorize
a sistemática do estudo da língua a partir da concepção da consciência
fonológica associada ao grafema como propriedades sonoras da fala. O que se
propõe é um equilíbrio entre o uso da concepção grafônica da língua, o que
envolve o trabalho de descoberta dos sons das letras pelo processo de
codificação e decodificação atrelado ao uso de textos significativos e com
finalidades intencionais para aplicação nas práticas de leitura e escrita no
cotidiano.
Apesar de a BNCC centrar essas duas tendências e especificar o
desenvolvimento de uma prática que aborde sons e letras, não significa voltar a
usar os métodos fônicos ou pautar as atividades no uso de texto limitado, vazio
e sem significados. Conforme mostrou o Pacto pela Alfabetização é possível
alfabetizar letrando a partir do uso de sequências didáticas que utilizam textos,
jogos, brincadeiras e práticas de leitura e escrita que faça o aluno a reconhecer
a relação entre sons e letras, ao mesmo tempo em que descobre a finalidade e
como usar a língua em situação real.
Assim sendo nesse processo de alfabetização e letramento definido pela
BNCC o desenvolvimento da prática pedagógica centraliza-se em duas
vertentes: Linguagem como forma de interação e Alfabetização explícita.

2. 3.1 Linguagem Como Forma de Interação

A BNCC de igual maneira aos PCNs traz uma concepção de linguagem


na perspectiva enunciativo-discursiva, enfatizando-a como inerente ao ser
humano no processo de interação com os seus grupos sociais, acontecendo
assim de maneira objetiva e com intencionalidade. Nesse contexto o uso de
textos tem como princípio a efetivação de uso na prática social e não apenas
para atender os fins da escolarização.

2.3. 2 Alfabetização explícita

A BNCC retorna a importância da alfabetização e propondo o equilíbrio


de duas tendências de ensino: uma centralizada no uso texto com vista as
práticas sociais da leitura e escrita, outra resultante da reflexão sobre como
acontece o sistema de escrita alfabética, ou seja, como acontece a relação
entre sons e letras, como acontece a junção de silabas, palavras, frases e
textos. O texto da BNCC sugere que a alfabetização e o letramento aconteçam
numa perspectiva construtivista, não no sentido de considerar que a criança
sozinha seja capaz de aprender de forma natural e espontânea, mais orientada
e na interação com os outros.
3 – METODOLOGIA DA PESQUISA

A realização da pesquisa de campo aconteceu na Escola Municipal Sousa


Aguiar, pertencente à Rede Municipal de Educação de Pedro Afonso-TO, a
qual atende crianças da Educação Infantil Pré I e Pré II e do primeiro ao quinto
ano. Para observação e entrevista, optou-se pela turma de segundo ano, visto
que nesta etapa as crianças estão em pleno processo de alfabetização.
Para a realização da pesquisa optou-se pela qualitativa exploratória,
visando abordar e buscar informações sobre como acontece na prática os
processos de alfabetização e letramento, sendo possível analisar e tecer
conclusões sobre os dois.
Conforme expresso por Goldenberg (1997, p. 34) “A pesquisa qualitativa
não se preocupa com representatividade numérica, mas, sim, com o
aprofundamento da compreensão de um grupo social, de uma organização”.
O aspecto exploratório da pesquisa justifica-se pelo fato do contato direto
com a escola, observando in loco o desenvolvimento desses processos.
Realizou-se a pesquisa na turma do segundo ano do Ensino
Fundamental, turno matutino, sendo que a mesma possuía 22 alunos
matriculados e frequentes.
A pesquisa usou como técnica a observação de alunos e professora e
também uma entrevista com a professora para conhecer sua visão sobre os
dois processos: alfabetização e letramento.
4 - ANÁLISE DE DADOS

A pesquisa de campo realizada na Escola Municipal Sousa Aguiar


proporcionou verificar na prática a efetivação dos processos de alfabetização e
letramento, sendo a análise desses dados fundamentais para o entendimento
do trabalho desenvolvido pela referida instituição, que serve de parâmetro para
as demais unidades de ensino, visto seguir as orientações pedagógicas
emanadas pelo Sistema Municipal de Educação do município.
O foco do trabalho foi compreender como acontece o processo da
alfabetização e letramento de crianças matriculadas e frequentes no segundo
ano do Ensino Fundamental, sendo possível observar que elas no que
concerne à aquisição do sistema alfabético da escrita não se desenvolvem de
forma hegemônica, possuindo noções elementares do alfabeto, fazendo
associação entre letras e sons, dominando algumas palavras simples com três
silabas e com grafia em desenvolvimento.
Apresentar-se-á a seguir os resultados da análise da pesquisa a partir da
observação e da entrevista realizada com a professora da turma, que será
identificada por um nome fictício, visto não ter autorizado a divulgação do seu
nome real.

4.1. IDENTIFICAÇÃO DAS ESTRATÉGIAS DE ALFABETIZAÇÃO E


LETRAMENTO USADAS EM SALA DE AULA

As observações da prática pedagógica da professora Marina permitiu


verificar que os alunos possuem um bom ritmo de aprendizagem, com a
professora mostrando-se sempre disponível a atender as individualidades dos
mesmos, trabalhando com sequências didáticas que priorizam atividades com
textos presentes no cotidiano e atividades que estimulam a reflexão do sistema
alfabético e das práticas sociais de uso da leitura e escrita.
Visto a turma não ser heterogênea, a professora trabalha de forma há
atender o tempo e ritmo de desenvolvimento de cada aluno, trabalhando com
atividades diferenciadas, agrupando os alunos de acordo com os seus níveis
de aprendizagem.
Observou-se também que a sala de aula foi toda pensada para ser um
ambiente alfabetizador com cartazes, cantinhos de leitura, o que facilita e
estimula a imersão dos alunos ao mundo da leitura.
Todos os dias a professora trabalha a prática de leitura e escrita em sala
de aula. Segundo ela, “o hábito é o que permite o aluno adquirir consciência da
importância da leitura e da escrita e conseguindo se desenvolver plenamente”.
Quando perguntada por que trabalha leitura todos os dias, ela diz:

Dedico uma parte da aula dentro da sequência didática diária para a


prática de leitura, porque acredito que dessa forma os alunos estarão
ao mesmo tempo descobrindo novos vocábulos, desenvolvendo a
oralidade, despertando o gosto pela leitura e sabendo que esses
textos estão no seu dia a dia e que possuem significado para eles.
(MARINA, 2018)

Observou que além das leituras feitas em sala, os alunos participam


semanalmente de atividades de leitura de livros adequados a sua etária na
biblioteca e levam para casa uma vez por semana o livro de sua escolha. Outra
estratégia envolvendo a leitura foi o momento de contação de histórias, leitura
de livros feita pela professora e trabalho da interpretação oral por meio de
perguntas e destaque da finalidade dos textos em situações de uso nas
práticas sociais.
Ao ser questionada sobre a importância desses momentos para o
processo de alfabetização e letramento, a professora demonstra possuir
intencionalidade na sua prática pedagógica, ao dizer que: “gosto de incentivar,
estimular a leitura de livros, que levem livros para leitura em casa e também
gosto de ler para eles para que tenham um exemplo e consigam perceber as
nuances da leitura”.
Quando perguntada por que agrupa os alunos por níveis de
aprendizagem, fica evidente a característica da sua formação baseada na
teoria da psicogênese, ao responder que: “essa organização dos alunos facilita
trabalhar suas individualidades, suas dificuldades específicas e um na
interação com o outro consegue ir descobrindo, aprendendo em seu ritmo e
conseguindo sob minha supervisão e auxilio aprender e avança na leitura e
escrita.
Nesse sentido, o trabalho desenvolvido pela professora está consoante
ao especificado nas politicas educacionais do Ministério da Educação-MEC, ao
instituir o ciclo de alfabetização:

O reagrupamento de estudantes é uma estratégia pedagógica que


permite o atendimento às necessidades de aprendizagens de grupos
específicos de estudantes por um período determinado. Deve ser
uma atividade intencional e planejada pelo grupo de professores que
o desenvolverá, registrará, acompanhará e avaliará sistematicamente.
(BRASIL, p. 12. 2013)

Ao ser questionada se utiliza um método específico para alfabetizar os


alunos, a professora é enfática:

“Não existe um único método de alfabetização e nem receita pronta.


Cada aluno aprende de forma diferente e no seu tempo de
maturação. Como você observou, eu uso estratégias diferenciadas
com foco na leitura, trazendo textos presentes na vida deles, usando
jogos e brincadeiras para os fazerem compreenderem que letras e
sons estão presentes nos textos. Então faço uma salada mista,
usando desde o método fônico ate o construtivismo interacionista”.
(MARINA, 2018)

Analisando a resposta da professora fica evidente que a mesma possui


formação sobre os métodos de alfabetização e consegue desenvolver na
prática a junção entre alfabetização e letramento.
Percebe-se assim, que a professora faz uso de estratégias de
alfabetização e letramento, buscando no desenvolvimento da turma
redimensionar a sua prática educativa, por meio do replanejamento das
atividades pedagógicas que venham proporcionar o avanço dos alunos e a
superação das dificuldades de leitura e escrita. Sobre isso a professora relata:

A cada atividade desenvolvida pelos alunos busco fazer uma


avaliação da forma e das estratégias que uso para ensinar. Aquilo que
vejo que não está funcionando com um grupo de alunos, busca-se
replanejar de maneira diferente para fazer o aluno realmente
aprender, pois no processo de alfabetização a gente vai descobrindo
o que funciona, o que da certo e vai criando sua própria estratégia de
ensino. (MARINA, 2018)

Esse posicionamento da professora evidencia a sua postura em relação à


importância de está avaliando e se auto avaliando a partir da percepção do
desenvolvimento dos alunos, buscando criar seu próprio método de
alfabetização que funcione e permita os alunos a aprenderem a usar a
linguagem em situações reais. Sobre isso, a fala de Soares (2013) evidencia
que a professora Marina está no caminho certo, porque não se preocupa em
alfabetizar por um método único, mais procura ir adaptando e desenvolvendo
estratégias para fazer os alunos avançarem.
Porque, durante décadas, andamos afirmamente, ansiosamente, em
busca, sim, de um método: silábico? Global? Fônico? Ou, quem sabe,
eclético? Mas buscávamos um método. Durante décadas, esse
parecia ser o problema crucial da alfabetização: um método.
(SOARES, 2013. p. 86)

Observou nessa flexibilidade da professora uma forma de facilitar a sua


atuação pedagógica, não se atendo a métodos específicos e limitados de
alfabetização, mais fazendo valer a sua experiência como alfabetizadora em
adequar-se as situações vivenciadas em sala e buscar juntamente com os
alunos formas para resolver as dificuldades apresentadas.
Concebendo a alfabetização e o letramento como vertentes diferentes,
mas que se complementam, foi perguntada à professora Marina como ela
define esses dois processos tão presentes na sua prática pedagógica.
Para a professora Marina (2018) é “difícil dissociar alfabetização e
letramento, pois entende que uma depende da outra para acontecer”.
Nesse contexto, a professora compreende que são processos distintos e
indissociáveis, seguindo os pensamentos de Soares (2004):

A necessidade de reconhecimento da especificidade da alfabetização,


entendida como processo de aquisição e apropriação do sistema da
escrita, alfabético e ortográfico; em segundo lugar, e como
decorrência, a importância de que a alfabetização se desenvolva num
contexto de letramento – entendido este, no que se refere à etapa
inicial da aprendizagem da escrita, como a participação em eventos
variados de leitura e de escrita, e o consequente desenvolvimento de
habilidades de uso da leitura e da escrita nas práticas sociais que
envolvem a língua escrita, e de atitudes positivas em relação a essas
práticas. (SOARES, 2004. p. 16)

A professora Marina estimula seus alunos a lerem portadores de textos


presentes fora da escola. Presenciou-se na observação a professora
incentivando os alunos a lerem os rótulos das embalagens e as fachadas das
lojas. Essa atitude da professora denota o que disse Ferreiro (2001) abaixo:
A língua escrita é um objeto de uso social, com uma existência social
(e não apenas escolar). Quando as crianças vivem em um ambiente
urbano, encontram escritas por toda a parte (letreiros da rua,
vasilhames comerciais, propagandas, anúncios da TV, etc.).
(FERREIRO, p. 37. 2001)

A prática alfabetizadora letrando da professora Maria é evidenciada


por meio da sua formação teórica e pelo desenvolvimento em sala de aula
com os alunos, onde demostra saber ensinar estimulando a leitura e a
escrita a partir do uso textos no contexto social e na interação com os outros.

4.2. RECONHECER O DESENVOLVIMENTO DAS CRIANÇAS NA LEITURA


E ESCRITA A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA PSICOGENÉTICA.

A observação em sala de aula permitiu verificar que a professora agrupa


dos alunos pelos níveis de aprendizagem da língua, apresentando um
diagnóstico seguindo as etapas estabelecidas por Emilia Ferreiro em seus
estudos, evidenciando assim que faz uso da psicogenética no processo de
alfabetização e letramento.
A professora Marina enfatizou que a escola, sob a orientação das
diretrizes da Secretaria Municipal de Educação trabalha nessa linha, sendo
realizado diagnóstico de leitura e escrita com base nos níveis de aprendizagem
para se agrupar os alunos e planejar atividades voltadas a atender suas
especificidades e fazerem avançar no aprendizado.
O teste diagnóstico aplicado em outubro com os alunos do segundo ano
do Ensino Fundamental pela professora, considerando a psicogênese da língua
escrita, mostrou que dos 22 alunos da turma 12 são alfabéticos, 08 pré-
alfabético e 02 silábicos, o que demonstra que o trabalho desenvolvido pela
professora junto aos alunos está dando resultados satisfatórios.
O fato de a turma apresentar mais de 50% dos alunos em nível alfabético
denota que a professora está conseguindo atingir seus objetivos em alfabetizar
considerando o sistema alfabético da escrita e também tem conquistado
sucesso ao usar textos da realidade dos alunos, fazendo-os perceberem a
importância da língua escrita no dia a dia.
Analisando a entrevista realizada com Marina sobre a psicogênese da
língua escrita percebe-se que a mesma tem uma concepção clara dessa teoria
e sua eficácia em entender como os alunos aprendem a língua escrita e faz
relação entre sons e letras. Sobre isso a professora pontuou:

A aplicação do teste de psicogênese realizado quatro vezes durante o


ano é um norte para nós professores da escola, pois permite
conhecer o nível de cada aluno, promovendo agrupamentos de
acordo com as características e planejando atividades diferenciadas
para atender cada grupo. (MARINA, 2018)

Interessante perceber ao entrevistar a professora, que ela possui


consciência e conhecimento sobre o nível de cada aluno, sabendo suas
dificuldades e sempre buscando forma ou estratégias para fazer avançarem na
alfabetização.
Quando questionada sobre o papel do ambiente alfabetizador e o uso de
textos presentes na sociedade e que as crianças tem acesso mesmo antes de
ingressar na escola, a professora Marina respondeu explicando que:

No inicio da sua prática educativa utilizava a cartilha para ensinar a


ler e escrever, mais notava que os alunos aprendiam a relação entre
os sons e as letras, mais não conseguiam entender o que liam,
porque os textos eram fragmentados, sem sentido. Atualmente, busca
usar textos da vida dos alunos para ensinar a ler e escrever e viu que
os resultados estão sendo satisfatórios. Sendo que o ambiente da
sala de aula deve ser completo desses textos, jogos e brincadeiras
para facilitar a aprendizagem. (MARINA, 2018)

Percebe-se assim que a professora Marina tem a visão pedagógica


adequada sobre a centralidade do uso de textos nas práticas sociais de leitura
e escrita, bem como englobar nesse processo o estudo da importância prática
de textos de uso social para promover não só a escolarização, mais o
reconhecimento de sua importância e aplicabilidade nas interações sociais.
Para a professora Marina a maior dificuldade nesse processo de
alfabetizar letrando centra-se no trabalho com a escrita, em função de não
existir apoio da família em casa em continuar o aprendizado iniciado na escola.
Em suma, a pesquisa de campo evidenciou que alfabetizar letrando é
possível, mas precisa que haja maior formação dos profissionais, porque
conforme evidenciado é um processo que envolve conhecer o aluno, conhecer
os textos e suas finalidades e ter conhecimento metodológico para efetivar na
prática esses dois processos essenciais para garantir a vivência social e
cidadã.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

A realização desse trabalho de pesquisa trouxe uma satisfação pessoal


única, por permitir vivenciar na prática, no chão da sala de aula, as concepções
teóricas levantadas e em foco por meio da nova BNCC sobre alfabetização e
letramento, visto que o desenvolvimento integral da criança depende da
aquisição do domínio linguístico e social da leitura e escrita para a constituição
da sua personalidade como cidadão para viver as demandas do dia a dia,
cabendo à família apoiar a escola nessa tarefa, incentivando a leitura,
conversando e dando exemplos concretos de uso efetivo da língua.
Por meio dos estudos bibliográficos realizados foi possível concluir que
alfabetização e letramento são processos distintos, mais complementares,
interdependentes e que se efetivam na sala de aula e fora dela.
Assim sendo, a alfabetização relaciona-se ao processo de se conhecer a
relação existente entre sons e letras, chegando à concepção de que para
aprender a ler e escrever precisa se entender essa junção. Enquanto, o
letramento pressupõe saber ler, compreender e aplicar nas situações sociais
essas práticas de leitura e escrita, em outras palavras, fazer leitura de mundo.
Destaca-se também que os estudos existentes nas últimas três décadas
apontam que houve evolução no processo de alfabetização e letramento indo
do uso de métodos específicos e limitados, a concepção trazida pelos PCNs
que colocou o texto como centro do processo de ensino, gerando uma
confusão nas escolas, de que não se poderia mais ter um sistema de ensino
sistemático e organizado do ato de ler e escrever.
Atualmente está em implementação a Base Nacional Comum Curricular –
BNCC que resgata a função inicial da alfabetização mostrando à necessidade
de se ensinar a correspondência entre fonemas e grafemas, associado ao uso
de texto significados e contextualizados com as práticas sociais dos alunos.
Dentro da nova BNCC traz-se a concepção de alfabetizar e letrar
seguindo os princípios da psicogenética que considera os aspectos de
maturação biológica, a interação com o objeto e com outros sujeitos para que
haja a equilibração e o aprendizado consistente e significativo, pautado nos
níveis de aprendizagem da leitura e escrita desenvolvida por Emilia Ferreiro.
Em relação à pesquisa campo realizada em uma unidade escolar para
verificar como acontece a alfabetização e o letramento, foi gratificante perceber
que a educação municipal caminha em conformidade com as diretrizes
nacionais e os estudos teóricos sobre a temática.
A turma observada demonstra na prática que é possível alfabetizar
letrando, devido o desenvolvimento verificado dos alunos, sua forma de ler,
escrever e entender os textos que usam no dia a dia.
Contudo, evidenciou-se que é um trabalho que requer formação do
professor alfabetizador sobre os estudos teóricos que norteiam esses
processos, conhecimento sobre as diretrizes nacionais e municipais que
embasam esse trabalho, visto ser esse uma árdua tarefa diária que requer
saber como o aluno aprende como processa a leitura e a escrita e que
estratégias se aplica a cada um para atender seu tempo e ritmo de
aprendizagem.
Quanto à professora entrevistada e alvo da observação demostrou
possuir capacitação, está antenada com as teorias e metodologias de
alfabetização e letramento, incorporando na sua prática com sucesso os
elementos de cada teoria.
Concluiu-se então, que alfabetizar letrando não é um processo simples,
fácil, mais é possível.

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