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Em acórdão publicado em 07.03.

2019, a 1ª Câmara Reservada de Direito Empresarial do Tribunal de Justiça de


São Paulo, por maioria, manteve sentença que extinguiu protesto contra alienação de bens que pretendia dar
publicidade à existência de uma arbitragem, envolvendo a cobrança de R$ 90 milhões.

Como o protesto foi realizado contra uma empresa em recuperação judicial, a maioria dos julgadores corroborou
a ausência de interesse de agir das apelantes, entendendo que a alienação de bens potencialmente fraudulenta
teria ocorrido em conformidade com o plano de recuperação judicial aprovado, o que impediria ulterior
questionamento sobre a sua higidez. O entendimento da Câmara se apoiou na regra constante nos artigos 60,
parágrafo único, e 141, inciso II, da Lei nº 11.101/2005, sobre a ausência de sucessão do arrematante nas
obrigações da empresa em recuperação:

“APELAÇÃO. PROTESTO CONTRA ALIENAÇÃO DE BENS. Sentença de carência de ação, por ausência de
interesse de agir (CPC, art. 485, VI). Apelação das autoras. Protesto judicial objetivando dar ciência a
terceiros da existência de crédito, cobrado em procedimento arbitral sigiloso, que não consta do plano
de recuperação da apelada, sob a alegação de que, a depender do resultado do litígio, poderia a venda
da UP frustrar o cumprimento de futura sentença arbitral em seu favor, configurando fraude à execução,
com esvaziamento patrimonial da apelada. O artigo 60, parágrafo único e o artigo 141, inciso II da Lei
11.101/2005 (LRF) garantem ao arrematante de UP, no âmbito da execução do plano de recuperação
judicial, devidamente aprovado, a isenção da responsabilidade por sucessão, das obrigações da
recuperanda, afastando a sucessão civil constante do artigo 1.146 do Código Civil. Ao atribuir tal garantia
de não sucessão ao arrematante da UP, a LRF objetiva evitar depreciação do valor do ativo alienado frente
aos interessados na arrematação, o que beneficia a recuperanda, que terá mais condições de liquidar o
passivo de seus credores, sejam eles concursais ou extraconcursais. A ausência de interesse processual
das apelantes configurado na ineficácia do protesto pretendido para invalidar ou macular a operação de
venda da UP, ou para declará-la ineficaz, diante da previsão legal de não sucessão na aquisição de UP.
Ademais, a arrematação da UP, que já ocorreu, não foi por eles impugnada, além de terem manifestado
por escrito e expressamente a sua anuência quanto à alienação de tal UP, mediante assinatura de termo,
o que evidencia comportamento contraditório. Também o momento do ajuizamento do protesto, já
posterior à arrematação, evidencia a falta de interesse processual das apelantes, pois o protesto seria
inócuo para alertar terceiros em relação aos riscos da arrematação. Ainda que o resultado da arbitragem
venha tornar insolvente a apelada, provocando a sua falência, a venda da UP não poderá ser questionada,
sendo assegurada a validade das vendas efetuadas no âmbito e durante a recuperação judicial, a teor do
que estabelecem os artigos 61 §§ 2º. e 131, ambos da LRF. Risco reverso, pois medida pretendida poderia
afetara venda realizada, impondo insegurança ao arrematante, que ainda não procedeu a liquidação
financeira da aquisição da UP. Manutenção da sentença. DESPROVIDO O APELO DASAUTORAS.
Honorários de sucumbência fixados em favor dos patronos da apelada”[1].

Como se vê, avançando na análise de mérito sobre futuras e eventuais alegações da apelante sobre fraude à
execução, a 1ª Câmara Reservada de Direito Empresarial entendeu que não haveria fundamento para considerar
fraudulentas e, portanto, ineficazes, transferências patrimoniais ocorridas nos termos de plano de recuperação
judicial homologado. Logo, faltaria interesse processual no protesto contra alienação de bens que tinha como
objetivo evitar a ocorrência de fraude à execução sabidamente inexistente.

A análise dos fundamentos da própria alegação de fraude à execução e o reconhecimento de risco inverso imposto
aos adquirentes do bem alienado pela recuperanda refletem a enorme confusão, ainda existente no meio jurídico,

[1] Ementa do relator designado para o acórdão, Des. Azuma Nishi. Apelação nº 1008312-22.2017.8.26.0302, j. 28.11.2018.
a respeito da finalidade e do alcance do protesto contra alienação de bens, enquanto medida judicial apta a ilidir
(ou ao menos dificultar) a alienação de bens em fraude à execução, prevista no artigo 792 do Código de Processo
Civil.

Ao contrário do que o seu nome sugere, o protesto contra alienação de bens não impede qualquer ato de
disposição patrimonial, servindo tão somente para dar publicidade a terceiros a respeito de atual ou futura
pretensão que possa recair sobre o bem alienado[2]. No protesto, resguarda-se tão somente o “interesse em
manifestar formalmente sua vontade a outrem sobre assunto juridicamente relevante” (artigo 726, Código de
Processo Civil).

O interesse juridicamente relevante daquele que ajuíza protesto contra alienação de bens para evitar a fraude à
execução é dar publicidade – fazendo constar no registro dos distribuidores forenses – a existência de uma
demanda que, ordinariamente, não chegaria a conhecimento do público em geral. Isso acontece em processos
estatais que correm em segredo de justiça e, especialmente, no processo arbitral, usualmente sigiloso e, de
qualquer modo, ausente dos registros forenses. A anotação da existência da arbitragem nos distribuidores
potencialmente faria com que a demanda arbitral fosse de conhecimento dos adquirentes, já que a obtenção de
certidões forenses é meio de prova da boa-fé, daquele que se defende de alegações de fraude à execução:

“No caso de aquisição de bem não sujeito a registro, o terceiro adquirente tem o ônus de provar que
adotou as cautelas necessárias para a aquisição, mediante a exibição das certidões pertinentes, obtidas
no domicílio do vendedor e no local onde se encontra o bem” (§ 2º, artigo 792, Código de Processo Civil).

Reconhecendo e privilegiando o legítimo interesse jurídico em dar ampla publicidade a um processo arbitral, o
Des. Cesar Ciampolini, em seu voto vencido, havia entendido pelo cabimento do protesto contra alienação de
bens na situação em tela:

“Protesto contra alienação de bens. Sentença de carência de ação, por ausência de interesse de agir (CPC,
art. 485, VI).Apelação do autor. No procedimento de jurisdição voluntária cabe ao juiz realizar controle
de relevância do pedido, mas não proceder ao exame de mérito do direito alegado. Protesto judicial
objetivando dar ciência a terceiros da existência de crédito cobrado em procedimento arbitral sigiloso.
Objetivo lícito, justificado e que não acarreta risco de dano à contraparte. O sigilo de arbitragem (que
não é ínsito a tal meio de resolução de conflitos), não há de servir para acobertar, em tese, a fraude
contra credores, ou, pior, a fraude de execução. Doutrina de GUILHERME ENRIQUEMALOSSO QUINTANA.
Reforma da sentença. Protesto contra alienação de bens deferido. Apelo do autora que se dá
provimento”[3].

A utilidade do protesto contra alienação de bens para os usuários da arbitragem é inegável, sendo elogiável a
posição adotada pelo voto vencedor. De qualquer modo, deixando de lado a discussão sobre os limites da análise
do interesse de agir nos protestos contra alienação de bens – a grande celeuma instaurada entre os julgadores –
fato é que não houve divergência quanto ao cabimento de protesto contra alienação de bens para evitar a
alienação de bens em fraude à execução, no curso de processo arbitral.

[2] “O protesto contra alienação e bens não tem o condão de obstar o respectivo negócio tampouco de anulá-lo. Apenas
tornará inequívocas as ressalvas do protestante em relação ao negócio, bem como que este alega – e simplesmente alega –
ter direitos sobre o bem e/ou motivos para anular a alienação” ((RMS 35.481/SP, Rel. Ministro MASSAMI UYEDA, Rel. p/
Acórdão Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 28/08/2012, DJe 10/09/2012). Precedente citado pelo
voto vencido.
[3] Ementa constante na declaração de voto vencedor.
De fato, a ausência de registro forense sobre demandas arbitrais, somada à confidencialidade que se tornou praxe
nos procedimentos, são fatores que permitem a alienação de bens em fraude à execução com maior facilidade no
âmbito do processo arbitral. Justamente por isso, para garantir a promessa de efetividade da tutela jurisdicional
também para aqueles que optam por solucionar seus conflitos por arbitragem, é importantíssimo deixar a porta
do Judiciário aberta para que sejam ajuizados protestos contra alienação de bens sempre que houver fundado
receio[4] de dissipação patrimonial fraudulenta no curso da arbitragem. Sem isso, processos arbitrais podem restar
esvaziados e despidos de qualquer utilidade prática.

Guilherme Quintana
quintana@manasserocampello.com.br
T: + 55 11 3750 3504
C: + 55 11 98420 8000

[4]
A construção jurisprudencial das hipóteses de fundado receio é importantíssima, já que a confidencialidade também é um
valor importante, que também merece ser preservada, quando acordada.