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Capa

AVISO
Todo esforço foi feito para garantir a qualidade editorial desta obra,
agora em versão digital. Destacamos, contudo, que diferenças na
apresentação do conteúdo podem ocorrer em função das
características técnicas específicas de cada dispositivo de leitura.
ROBERT K. YIN
Tradução
Daniel Bueno

Revisão técnica
Dirceu da Silva
Mestre em Física e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)
Docente na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Versão impressa
desta obra: 2016

2016
Obra originalmente publicada sob o título Qualitative Research from Start to Finish
ISBN 9781606237014

Copyright © 2010, The Guilford Press

A Division of Guilford Publications, Inc

Gerente editorial: Letícia Bispo de Lima

Colaboraram nesta edição

Editora: Priscila Zigunovas

Assistente editorial: Paola Araújo de Oliveira

Capa: Paola Manica

Preparação de original: Daiana Klanovicz de Araújo

Leitura final: Cristine Henderson Severo

Editoração eletrônica: Kaéle Finalizando Ideias

Y51p   Yin, Robert K.
Pesquisa qualitativa do início ao fim [recurso eletrônico]
/ Robert K. Yin ; tradução: Daniel Bueno ; revisão técnica:
Dirceu da Silva. – Porto Alegre : Penso, 2016.
e­PUB.

Editado como livro impresso em 2016.
ISBN 978­85­8429­083­3

1. Metodologia da pesquisa. 2. Pesquisa qualitativa. I.
Título.

CDU 001.891

Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094

Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à
PENSO EDITORA LTDA., uma empresa do GRUPO A EDUCAÇÃO S.A.
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É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer
formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição
na Web e outros), sem permissão expressa da Editora.
O autor
Robert  K. Yin,  Ph.D.,  orientou  diretamente,  conduziu  ou  participou  de  quase  200  estudos,  a  maioria
usando  métodos  qualitativos.  É  presidente  da  corporação  COSMOS,  uma  empresa  dedicada  à  pesquisa
em ciências sociais. Mais recentemente, realizou um extenso trabalho no Programa de Desenvolvimento
das  Nações  Unidas,  ajudando  sua  equipe  a  reforçar  o  uso  de  pesquisa  qualitativa  em  suas  avaliações.
Ministra cursos de metodologia no Departamento de Estudos Urbanos e Planejamento no Massachusetts
Institute  of  Technology  (MIT)  e  orienta  alunos  de  doutorado  na  preparação  dos  prospectos  para  suas
teses,  mais  recentemente  na  University  of  Copenhagen.  Atualmente,  ele  ocupa  o  cargo  de  acadêmico
residente emérito na Escola de Serviço Internacional na American University (Washington D.C.).
O Dr. Yin é autor de seis livros, organizou outros quatro e publicou quase cem artigos acadêmicos. Sua
pesquisa  abrange  uma  ampla  variedade  de  áreas,  como  educação  primária,  secundária  e  superior;
promoção  da  saúde,  prevenção  de  HIV/AIDS  e  prevenção  de  abuso  de  substâncias;  desenvolvimento
organizacional e avaliação de programas; desenvolvimento de bairros, comunitário e urbano; e inovação
tecnológica e comunicações.
Dedicatória
Para Karen e Andrew,
pelos muitos anos de amor, devoção e tolerância e por sua disposição em acreditar na possibilidade de que as
ciências sociais sejam um empreendimento vitalício e estimulante.
Agradecimentos
Meus  30  anos  de  experiência  em  pesquisa  abrangem  trabalhos  feitos  em  diversas  organizações  de
pesquisa  e  acadêmicas.  Em  cada  uma  delas  houve  colegas  fundamentais  que  contribuíram  para  minha
compreensão da amplitude da pesquisa em ciências sociais, incluindo a pesquisa qualitativa.
No Massachusetts Institute of Technology (MIT), estudei com o professor Hans­Lukas Teuber. Juntos,
concentramo­nos no tema do reconhecimento de faces. Embora os estudos tenham empregado métodos
da psicologia experimental, o tema – como as pessoas facilmente reconhecem e distinguem um número
extremamente  grande  de  rostos,  apesar  de  sua  semelhança,  conforme  qualquer  medida  objetiva  –  ainda
representa em minha mente uma questão qualitativa de primeira ordem.
Posteriormente no MIT, mas dessa vez no Departamento de Estudos e Planejamento Urbano, também
tive  o  prazer  de  conhecer  Lawrence  Susskind  e  Lloyd  Rodwin,  que  incentivaram  muito  meu  trabalho
sobre  o  desenvolvimento  de  bairros.  O  tema  atraiu  uma  diversidade  de  métodos  de  pesquisa,  de
antropológicos a demográficos.
O trabalho no Rand Institute da cidade de Nova York e da filial da Corporação Rand em Washington,
D.C., aprofundou ainda mais minha investigação dos temas urbanos, bem como de políticas relacionadas.
Peter  Szanton  imprimiu  sua  marca  em  meu  pensamento,  por  meio  de  seu  incessante  questionamento  e
sábios conselhos sobre como examinar esses tópicos. Da mesma forma, uma missão na Escola de Serviço
Internacional da American University, guiada pela professora Nanette Levinson, levou a uma gama mais
ampla de pesquisa sobre desenvolvimento internacional.
Durante esse período, o maior esforço foi, contudo, associado à minha afiliação à Corporação Cosmos
– uma organização de pesquisa independente, dedicada ao exame de uma ampla variedade de questões de
políticas  federais  e  estaduais.  Os  inúmeros  clientes  da  Cosmos,  especialmente  Bernice  Anderson  da
National  Science  Foundation,  possuem  suas  próprias  credenciais  acadêmicas  e  trabalhos  publicados  e
criaram sua própria marca de ideias estimulantes e retorno crítico. Os principais temas de discussão, se
não de controvérsia, sempre tenderam a ser os metodológicos.
Durante  esse  mesmo  período,  adquiri  uma  perspectiva  mais  ampla  por  meio  do  ensino  colaborativo
com estudiosos no exterior, principalmente na Dinamarca, na França e nos Países Baixos. Por exemplo,
uma  tarefa  recente  envolve  o  trabalho  com  estudantes  de  doutorado  orientados  pelo  Professor  Iben
Nathan, da University of Copenhaguen.
Mais  recentemente,  passei  uma  quantidade  significativa  de  tempo  colaborando  com  estudiosos
realizando  pesquisa  de  avaliação  nas  Nações  Unidas.  Juntos  tivemos  que  desenvolver  métodos  de
pesquisa qualitativa rigorosos – mas com uso racional de recursos – sobre uma ampla variedade de temas
internacionais.  Nas  Nações  Unidas,  Sukai  Prom­Jackson  e  Fabrizio  Felloni  foram  colaboradores
importantes,  que  me  sensibilizaram  para  uma  variedade  de  desafios  envolvidos  na  realização  dessa
pesquisa.
A preparação deste livro foi beneficiada por um conjunto mais próximo de amigos indispensáveis. Eles
incluem  sete  revisores  de  um  esboço  anterior:  Jessie  L.  Kreinert,  Justiça  Criminal,  da  Illinois  State
University; Penny Burge, Educação, de Virginia Tech; James A. Holstein, Ciências Sociais e Culturais, da
Marquette  University;  Michelle  Bligh,  Escola  de  Ciências  Comportamentais  e  Organizacionais,  da
Claremont  Graduate  University;  Lance  Fusarelli,  Liderança  Educacional,  da  North  Carolina  State
University; Thalia Mulvihill, Educação, da Ball State University; e Susan Shepler, Escola de Comércio,
da  American  University.  Vocês,  revisores,  muito  gentilmente  proveram  sugestões  e  críticas  úteis,
ajudando inclusive a reordenar e a reestruturar os capítulos, bem como identificando lacunas que podiam
ser preenchidas, e por esse esforço eu serei eternamente grato.
Inúmeras palavras de incentivo e aconselhamento vieram de uma ilustre amiga decisiva: C. Deborah
Laughton,  editora  de  Metodologia  e  Estatística  da  Guilford,  cuja  experiência  na  publicação  de  textos
sobre métodos de pesquisa qualitativos e de outros tipos provavelmente é mais antiga do que ela gostaria
de  reconhecer.  Nosso  longo  relacionamento  serviu  como  valiosa  presença  no  provimento  de  inspiração
para iniciar (e completar) este livro.
Finalmente, minha esposa, Karen, e meu filho, Andrew, tiveram que tolerar a constante distração que o
livro representou em nossa vida familiar, durante um prolongado período de tempo. Eles deram seu amor
incondicional,  intercalado  com  criatividade  composicional,  ajudando  a  encontrar  palavras  melhores  e
frases  mais  precisas. A  dedicatória  deste  livro  a  eles  é  apenas  uma  singela  maneira  de  reconhecer  seu
apoio permanente.
Apesar de todas essas interações, nenhuma das instituições ou indivíduos mencionados tem qualquer
responsabilidade pelo produto final ou pelas declarações contidas neste livro.
Prefácio
A  pesquisa  qualitativa  atingiu  a  maioridade.  Os  estudos  publicados  são  abundantes.  Seus  resultados
cobrem  praticamente  todas  as  temáticas.  De  igual  importância,  trabalhos  metodológicos  convincentes
agora definem o ofício, colocando­o na corrente principal das ciências sociais. O interesse do leitor em
pesquisa qualitativa pode refletir um desejo de realizá­la, ensiná­la ou apenas de aprender sobre ela. Em
qualquer uma dessas situações, este livro pode ser útil.

O LIVRO

Uma abordagem prática


Como seu principal tema, o livro apresenta a pesquisa qualitativa de uma perspectiva prática. Tal enfoque
revela  percepções  de  como  se  faz  pesquisa  qualitativa,  no  nível  básico.  A  abordagem  deve  ser
especialmente  útil  se  você  realmente  pretende  realizar  um  estudo  qualitativo  –  quer  ele  seja  um  estudo
autônomo,  parte  de  um  estudo  maior,  ou  um  trabalho  acadêmico  ou  de  treinamento  para  um  curso  de
graduação, de pós­graduação ou de educação continuada.

Uma abordagem indutiva


Ao longo do caminho, o livro apresenta muitos exemplos de estudos qualitativos concluídos com êxito e
publicados,  cobrindo  muitas  disciplinas  acadêmicas  e  profissões,  tais  como  sociologia,  antropologia,
psicologia,  educação,  saúde  pública,  assistência  social,  desenvolvimento  comunitário,  avaliação  e
relações internacionais. Os exemplos são apresentados como quadros e estudos breves, distribuídos por
todo  o  livro.  Ambos  fornecem  mais  detalhes  sobre  estudos  individuais  do  que  as  citações  padrão
frequentemente encontradas em outros textos. Além disso, os estudos são provenientes de revistas e livros
amplamente  disponíveis.  Sua  pronta  disponibilidade  permite  examinar  esses  materiais  em  pormenor,  se
você quiser.
Além de fornecerem uma base mais concreta para compreender como a pesquisa qualitativa tem sido
realizada por uma ampla diversidade de estudiosos, os inúmeros exemplos também expõem a amplitude
da pesquisa qualitativa. Os temas abrangem muitos tipos diferentes de contextos sociais e cotidianos, ao
mesmo  tempo  cobrindo  as  principais  variações  em  pesquisa  qualitativa,  incluindo  pesquisa­ação,  teoria
fundamentada,  estudos  de  caso,  trabalhos  feministas,  investigação  narrativa  e  fenomenologia.  Como
característica  mais  importante,  todos  os  estudos  ilustrativos  são  estudos  concluídos.  Como  tais,  eles
devem fortalecer a confiança do leitor em sua capacidade de terminar (e publicar) sua própria pesquisa
qualitativa.
Da mesma forma, dois estudos concluí dos, e como eles foram conduzidos em relação ao conteúdo dos
Capítulos 8, 9 e 12, são apresentados em profundidade no final desses capítulos. Os estudos examinam
dois temas (o sistema K­121 em um caso e administração universitária em outro) que devem atrair todos
os leitores porque todo mundo já vivenciou os dois ambientes.

Uma abordagem adaptativa


O livro deliberadamente apresenta a pesquisa qualitativa de maneira adaptativa, a qual é de fato adequada
para  o  ofício.  Em  vez  de  expô­la  com  dogmatismo,  o  livro  procura  abordá­la  de  forma  muito  menos
ideológica, apresentando tópicos metodológicos cruciais – como de que forma delinear ou analisar uma
pesquisa qualitativa – como caminhos a escolher. Essas escolhas vão lhe permitir personalizar seu próprio
estudo.
Por  exemplo,  você  pode  criar  seu  próprio  delineamento  com  base  nas  oito  escolhas  apresentadas  no
Capítulo  4.  O  resultado  pode  ser  um  estudo  qualitativo  que  abrangerá  desde  o  método  mais  antigo  de
fazer  pesquisa  qualitativa  até  uma  abordagem  mais  pragmática,  que  tire  proveito  das  técnicas  e
ferramentas  atuais.  Da  mesma  forma,  você  tem  a  escolha  de  iniciar  um  trabalho  de  campo  antes  de
finalizar  suas  questões  de  pesquisa  –  uma  opção  examinada  no  Capítulo  3. Você  também  pode  decidir
codificar ou não seus dados e se vai ou não analisá­los com o auxílio de programas de computador, como
discutido  nos  Capítulos  8  e  9.  Se  em  primeiro  lugar  você  tem  problemas  para  iniciar  um  estudo
qualitativo, as ideias no Capítulo 3 sobre criar um “banco de estudos” oferecem opções interessantes.

O autor
Minhas próprias experiências provavelmente explicam as três características precedentes do livro – seu
tema  prático,  dedicação  à  compreensão  de  como  outros  estudos  foram  feitos  e  necessidade  de  ser
adaptativo. A orientação prática e a orientação indutiva se devem a mais de 30 anos fazendo pesquisa em
ciências  sociais.  Durante  esse  tempo,  eu  supervisionei,  conduzi  ou  participei  diretamente  de  quase  200
estudos  –  inclusive  os  que  deliberadamente  combinavam  métodos  qualitativos  e  não  qualitativos.  A
orientação adaptativa reflete o fato de que os estudos abrangeram uma grande variedade de campos, como
educação  primária,  secundária  e  pós­secundária;  promoção  da  saúde,  prevenção  de  HIV/AIDS  e
prevenção  de  abuso  de  substâncias;  desenvolvimento  de  bairros,  comunidades  e  urbano;  prevenção  de
crimes; inovação e difusão tecnológica; comunicações; e desenvolvimento organizacional e avaliação de
programas.
Todos os estudos chegaram a uma conclusão formal escrita, quer na forma de publicação acadêmica,
quer  como  algum  tipo  de  relatório  final.  Chegar  com  êxito  a  tal  etapa  concludente  significa  que  eu
percorri todo o ciclo de pesquisa muitas vezes – do início ao fim. Cada estudo se iniciou com exame e
análise  intensiva  de  outros  estudos  comparáveis,  o  que  me  expôs  aos  modos  como  outros  estudiosos
delinearam  e  conduziram  suas  pesquisas.  Uma  vez  que  cada  um  dos  meus  estudos  foi  realizado  em
circunstâncias diferentes e abordou diferentes questões de pesquisa, eu fui exposto às diversas formas em
que é possível delinear, analisar e apresentar estudos.
Fazendo  uma  retrospectiva,  compreendi  que  essas  experiências  profissionais,  juntamente  com
perguntas  de  pesquisa  que  inevitavelmente  confrontam  questões  de  “como  e  por  quê”,  incluíram  uma
extensa quantidade de trabalho com métodos qualitativos. Embora não tenha passado longos períodos de
tempo fazendo etnografia em campo, dirigi ou realizei numerosos estudos de campo, usando observação
participante, estudo de caso, entrevista qualitativa, fotografia e visita ao local. Eu, portanto, tive que lutar
com as opções para analisar os dados resultantes, extrair conclusões deles e apresentar os estudos perante
painéis de especialistas ou responder de outra forma às análises de colegas.
As experiências profissionais constituem a base da minha tentativa de fazer este livro cobrir a pesquisa
qualitativa  de  modo  abrangente.  Os  diversos  capítulos  abordam  praticamente  todas  as  fases  para  a
realização  de  pesquisas  qualitativas,  incluindo  alguns  tópicos  que  tendem  a  ser  ignorados  por  outros
textos. Por exemplo, quase todo estudo qualitativo exige a apresentação do significado da realidade social
da perspectiva dos participantes de um estudo (pessoas cujas vidas são uma parte representativa do tema
do  estudo).  Contudo,  existem  diferentes  maneiras  de  mostrar  suas  palavras  ou  histórias  de  vida,  e  este
livro aborda explicitamente essas variações (ver Cap. 10). Como outro exemplo, a maioria das obras não
discute  as  diversas  maneiras  de  tirar  conclusões  da  pesquisa  qualitativa,  mas  este  livro  identifica  ao
menos cinco delas (ver Cap. 9). Finalmente, a pesquisa qualitativa contemporânea pode surgir de rápidas
visitas  de  campo,  que  são  diferentes  dos  trabalhos  etnográficos  tradicionais,  e  este  livro  descreve  esses
procedimentos básicos (ver Cap. 5).
A ORGANIZAÇÃO DO LIVRO

A sequência dos capítulos


Como os livros precisam ser apresentados de maneira linear, eles seguem uma determinada sequência de
capítulos.  Entretanto,  como  acontece  com  toda  pesquisa  qualitativa,  nada  é  linear.  Compreender  temas
específicos depende de conhecer bem outros temas que um livro pode ainda não ter apresentado. De certa
forma,  um  leitor  precisa  saber  tudo  ao  mesmo  tempo  e  então  reconsiderar  temas  específicos
recursivamente. Assim, os leitores devem sentir­se livres para alterar a sequência de capítulos deste livro.
Aqueles que querem dar os primeiros passos para um estudo qualitativo podem iniciar no Capítulo 3 ou
até  no  Capítulo  4.  Inversamente,  os  leitores  que  desejam  compreender  questões  mais  profundas  na
realização da pesquisa qualitativa podem querer ler primeiro os Capítulos 1 e 2. Eu pessoalmente queria,
em  meus  primeiros  tempos,  compreender  a  base  de  evidências  da  pesquisa  qualitativa,  e  assim  eu
começaria  pela  tentativa  de  compreender  as  atividades  do  trabalho  de  campo  e  da  coleta  de  dados  nos
Capítulos 5 e 6. Como se pode ver, as sequências possíveis são quase ilimitadas.

Características práticas
Para  estimular  o  envolvimento  ativo  do  leitor  com  o  livro,  ele  conta  com  algumas  características
adicionais. Primeiro, todos os capítulos se iniciam com um breve resumo, fazendo um apanhado geral de
seus  conteúdos.  Depois,  todas  as  seções  de  cada  capítulo  se  iniciam  com  uma  prévia,  descrevendo
sucintamente  o  que  você  deve  aprender  da  seção.  Finalmente,  cada  capítulo  termina  com  uma
recapitulação dos termos e conceitos apresentados.
Segundo,  cada  capítulo  também  termina  com  um  exercício,  refletindo  as  práticas  cobertas.  Os
exercícios visam servir como lições de casa que podem ser realizadas semanalmente. Como alternativa, o
Apêndice contém um projeto abrangente, de um semestre ou um ano de duração, que pode ser realizado
no lugar dos exercícios individuais (ou mesmo em acréscimo a eles).
Terceiro,  para  facilitar  as  coisas,  o  livro  inclui  um  breve  glossário  de  termos  especiais  usados  em
pesquisa qualitativa. Além disso, ao final do volume, os editores da The Guilford Press permitiram um
prolongamento  arbitrário  do  formato  padrão  da  American  Psychological  Association:  a  seção  de
referências  inclui  os  primeiros  nomes  dos  autores,  não  apenas  suas  iniciais.  Contextualmente,  saber  os
primeiros nomes sem dúvida reduz a confusão entre pessoas que poderiam ter o mesmo sobrenome, bem
como iniciais semelhantes. Tal conhecimento também poderia ajudar os leitores a ligar os autores citados
a  pessoas  da  vida  real  –  que  podem  inclusive  estar  lecionando  ou  ter  lecionado  em  um  de  seus
departamentos acadêmicos.
Como  um  último  objetivo,  o  livro  também  apresenta  ao  leitor  uma  variedade  de  trabalhos
metodológicos, seja tratando de questões de ética na pesquisa (Cap. 2), delineamento de pesquisa (Cap.
4),  como  tratar  os  comentários  da  revisão  por  pares2  (Cap.  11)  ou  realização  de  estudos  com  métodos
mistos (Cap. 12). Para cobrir esses temas e outros relacionados, tentei criar uma mistura de forma didática
de citações de obras clássicas e contemporâneas. Da mesma forma, os conceitos relevantes variam desde
compreender o valor de “descrição densa” até questionar o fundamento lógico para o “padrão ouro”. Ao
mesmo  tempo,  livros  como  este  não  substituem  as  leituras  da  pesquisa.  Livros­texto  não  podem
reproduzir  o  rico  espírito  de  um  campo  de  pesquisa  ou  seus  significados  mais  profundos.  Bons  textos
devem,  na  verdade,  proporcionar  duas  coisas:  conhecimento  prático,  para  que  você  possa  praticar
pesquisa, e pistas na forma de citações, em que você possa aprender mais sobre o espírito de um campo.
Assim é este livro.

1 N. de R.T.: K­12 é uma designação dos Estados Unidos para os ensinos fundamental e médio como um todo.
2 N. de R.T.: Frequente em publicações científicas, a revisão por pares é aquela na qual pesquisadores da comunidade avaliam um
trabalho em processo “às cegas” (blind review).
Sumário
Capa

Aviso

Folha de Rosto

Ficha

Autor

Dedicatória

Agradecimentos

Prefácio

Parte I ­ Compreendendo a pesquisa qualitativa

Capítulo 1 ­ O que é pesquisa qualitativa – e por que você cogitaria fazer este
tipo de pesquisa?

A. O fascínio da pesquisa qualitativa: um panorama tópico dos estudos

B. O que distingue a pesquisa qualitativa
Pesquisa qualitativa: uma ampla área de investigação
Cinco características da pesquisa qualitativa
Práticas comuns

C. O mundo multifacetado da pesquisa qualitativa
Múltiplas interpretações dos mesmos eventos?
Os eventos humanos podem ser singulares?
Emular ou não uma das variantes de pesquisa qualitativa
Estratégias de mediação

D. Incorporando confiança e credibilidade na pesquisa qualitativa
Transparência
Metodicidade
Fidelidade às evidências
Estudos ilustrativos apresentados no restante deste livro

Notas
Capítulo 2 ­ Equipando­se para fazer pesquisa qualitativa

A. Competências ao fazer pesquisa qualitativa
“Escutar”
Fazer boas perguntas
Conhecer seu tema de estudo
Cuidar de seus dados
Executar tarefas paralelas
Perseverar

B. Gerenciando a pesquisa de campo
Criar tempo para pensar no futuro
Gerenciamento como parte de uma equipe de campo

C. Praticando
Usando os exercícios deste livro para praticar
Fazendo um estudo­piloto
Motivando­se

D. Estabelecendo e mantendo padrões éticos de conduta
Um desafio ético ilustrativo: examinando com imparcialidade todos os seus dados
Códigos de ética
Integridade da pesquisa
Divulgação como uma maneira de demonstrar integridade da pesquisa

E. Protegendo sujeitos humanos: obtendo aprovação de um comitê institucional de
ética
Submetendo protocolos de estudo para análise e aprovação
Considerações específicas na proteção de sujeitos humanos
Preparando­se para uma avaliação do CIE
O diálogo do consentimento informado (em campo) como oportunidade para os participantes
fazerem perguntas

Capítulo 3 ­ Como iniciar um estudo investigativo

O desafio de iniciar um estudo qualitativo
Originalidade ao fazer um estudo qualitativo
O restante deste capítulo

A. Iniciando um estudo qualitativo pela consideração de três características
Processamento paralelo do processo de iniciação
Maneiras de dar os primeiros passos
Desenvolver um banco de estudos
Resultados de criar um “banco de estudos” ilustrativo
Considerando um tema de investigação
Considerando um método de coleta de dados
Considerando uma fonte de dados (p. ex., identificando um ambiente de campo)
Lembrando as limitações de tempo e recursos

B. Revisando a literatura de pesquisa
Fazer ou não uma revisão da literatura
Papel da revisão da literatura ao iniciar um estudo
Breve resumo: diferentes tipos de revisão da literatura
Fazendo apontamentos sobre estudos existentes
Baixando materiais da internet

C. Detalhando um novo estudo qualitativo
Um pouco de trabalho de campo primeiro
Iniciando com as questões de pesquisa
Examinando sua bagagem de conhecimentos e percepções em relação a um novo estudo
Banco de estudos ilustrativo para o Capítulo 3

Notas

Parte II ­ Fazendo pesquisa qualitativa

Capítulo 4 ­ Escolhas no delineamento de estudos de pesquisa qualitativa

Breve definição dos delineamentos de pesquisa
Opções de delineamento

Opção 1: Iniciando o delineamento de pesquisa no começo de um estudo (ou não)

Opção 2: Tomar medidas para reforçar a validade de um estudo (ou não)
O que significa validade ao fazer pesquisa
Explicações rivais
Triangulação

Opção 3: esclarecendo a complexidade das unidades de coleta de dados (ou não)
Arranjos de aninhamento
Relação entre o nível das unidades de coleta de dados e o principal tema de um estudo

Opção 4: atentando para a amostragem (ou não)
Amostragem intencional e de outros tipos
O número de unidades de coleta de dados a ser incluído em um estudo
Nível mais amplo
Nível mais estreito

Opção 5: incorporando conceitos e teorias em um estudo (ou não)
Mundos destituídos de conceitos?
Abordagem indutiva versus dedutiva

Opção 6:Planejando uma etapa inicial (ou não) para obter feedback dos
participantes
Opções de feedback
Influência potencial sobre a narrativa posterior de um estudo

Opção 7: preocupar­se em generalizar os resultados de um estudo (ou não)
Necessidade de ir além das generalizações estatísticas
Fazendo generalizações analíticas

Opção 8: preparando um protocolo de pesquisa (ou não)
Protocolos, não instrumentos
Protocolos como estruturas mentais
Definições operacionais

Notas

Capítulo 5 ­ Fazendo trabalho de campo

A. Trabalhando em campo
Variedade dos ambientes de campo
Regras e expectativas diferentes para lugares públicos ou privados como ambientes de campo
Variando a quantidade de tempo em campo

B. Obtendo e mantendo o acesso ao campo
Obtendo acesso a um ambiente de campo: um processo, não um evento
Como o processo pode influenciar a substância de um estudo

C. Nutrindo relações de campo
Representando seu self autêntico
Importância da conduta pessoal
Fazendo favores aos participantes: faz parte do relacionamento ou não?
Lidando com eventos inesperados
Planejando como sair e não apenas como entrar em campo

D. Fazendo observação participante
O pesquisador como “instrumento de pesquisa”
Assumindo uma postura indutiva mesmo que um estudo tenha se iniciado com algumas
proposições

E. Fazendo visitas aos locais de estudo
Estudando um grande número de ambientes de campo
Aderindo à programação e a planos formais
Sendo “recebido” durante uma visita local
Construindo o trabalho em equipe

Capítulo 6 ­ Métodos de coleta de dados

A. O que são dados?

B. Introdução a quatro tipos de atividades de coleta de dados

C. Entrevistas
Entrevistas estruturadas
Entrevistas qualitativas
Fazendo entrevistas qualitativas
“Entrando” e “saindo” de entrevistas qualitativas
Entrevistando grupos de pessoas
Entrevistas de grupo de foco como um método de coleta de dados qualitativos

D. Observando
Fazendo “observação sistemática” como base para todo um estudo qualitativo
Decidindo quando e onde observar
Decidindo o que observar
Tirando vantagem de medidas não obstrutivas
Derivando significado das observações e triangulando evidências observacionais com outras
fontes

E. Coletando e examinando
Coletando objetos (p. ex., documentos, artefatos e registros arquivais) em campo: valioso porém
demorado
Usando documentos para complementar entrevistas e conversações de campo
“Navegando” e usando o Google para encontrar informações relacionadas
Coletando ou examinando objetos como parte complementar de sua coleta de dados

F. Sentimentos
“Sentimentos” assumem formas diferentes
Documentando e registrando sentimentos

G. Práticas desejáveis pertinentes a todos os tipos de coleta de dados

Nota

Capítulo 7 ­ Registrando dados

A. O que registrar
Tentar registrar “tudo” versus ser muito seletivo
Destacando ações e capturando palavras textualmente
Lembrando­se de suas questões de pesquisa
Tomando notas sobre estudos escritos, relatórios e documentos encontrados em campo
Duplicando cópias de documentos e materiais escritos enquanto se está em campo

B. Práticas de tomada de notas no trabalho de campo
Preparando­se
Organizando suas notas
Desenvolvendo sua própria linguagem de transcrição
Criar desenhos e esboços como parte das notas

C. Convertendo notas de campo em notas mais completas
Convertendo as notas de campo rapidamente
Requisitos mínimos para a conversão diária de notas de campo originais
Quatro modos adicionais de aperfeiçoar as notas de campo originais
Aprofundando a compreensão de seu próprio trabalho de campo
Verificando notas de campo

D. Registrando dados de outras formas que não escritas
Obtendo permissão para gravar
Dominando os dispositivos antes de usá­los
Compartilhando os registros e preservando sua segurança
Estar preparado para dedicar tempo à revisão e edição dos registros
Quando as gravações são a principal técnica de coleta de dados
Elaborando produtos acabados

E. Mantendo um diário pessoal

Capítulo 8 ­ Analisando dados qualitativos I

A. Apanhado geral das fases analíticas
Introdução a um ciclo de cinco fases: (1) compilar, (2) decompor, (3) recompor (e arranjar), (4)
interpretar e (5) concluir
Usando programas de computador como auxílio na análise de dados qualitativos

B. Compilar um conjunto ordenado de dados
Semelhante à pesquisa quantitativa?
Relendo e reouvindo: “conhecendo” suas notas de campo
Colocando tudo em um formato consistente
Usando software para compilar seus registros

C. Decompondo os dados
Redigindo os memorandos
Codificar ou não codificar
Codificando dados
Decompondo dados sem codificá­los
Usando programas de computador como auxílio na decomposição de dados

D. Recompondo dados
Procurando padrões
Usando arranjos para ajudar a recompor os dados
Criando arranjos hierárquicos
Delineando matrizes como arranjos
Trabalhando com outros tipos de arranjos
Resumindo o processo de ordenação dos dados
Procedimentos importantes durante o processo de recomposição
Usando programas de computador como auxílio na recomposição dos dados
Palavras finais sobre recomposição
Exemplo de Estudo 1: estudo dos convênios entre universidades e escolas, como exemplo para os
Capítulos 8 e 9 (parte relativa ao Cap. 8)
Introdução ao exemplo de estudo
Base de dados compilada para o Exemplo de Estudo 1
Procedimento de decomposição no Exemplo de Estudo 1
Exemplo de arranjo de recomposição usado no Exemplo de Estudo 1

Notas

Capítulo 9 ­ Analisando dados qualitativos II

A. Interpretação

B. Modos de interpretação
“Descrição” como um tipo importante de interpretação
Descrição e pedido de ação
“Explicação” como um tipo de interpretação
Criando perspicazes e úteis interpretações

C. Concluindo
Concluindo com um pedido por novos estudos
Concluindo com uma contestação de generalizações convencionais e estereótipos sociais
Concluindo com novos conceitos, teorias e mesmo “descobertas” sobre o comportamento social
humano
Concluindo com proposições substantivas (não metodológicas)
Concluindo com uma generalização para um conjunto mais amplo de situações
Exemplo de Estudo 1: um estudo dos convênios entre universidades e escolas como exemplo
para os Capítulos 8 e 9 (parte relativa ao Cap. 9)
Interpretação no Exemplo de Estudo 1
Concluindo no Exemplo de Estudo 1
Notas

Parte III ­ Apresentando os resultados da pesquisa qualitativa

Capítulo 10 ­ Apresentando dados qualitativos

A. Dados narrativos sobre os participantes em um estudo qualitativo
Intercalando passagens citadas dentro de parágrafos selecionados
Usando apresentações mais extensas, abrangendo múltiplos parágrafos
Fazendo apresentações de um capítulo de extensão sobre os participantes de um estudo
Apresentando informações sobre diferentes participantes sem focar na história de vida de
nenhum deles

B. Apresentações tabulares, gráficas e pictóricas
Tabelas e listas
Elementos gráficos
Fotografias e reproduções

C. Criando slides para acompanhar apresentações orais
Arte em slides: diferente da arte para apresentações em impressos
Slides apenas com palavras (“slides de texto”)
Aproveitando o formato livre dos slides
Usando ícones e outros símbolos
Escolhendo cores e estilo artístico
Slides como um auxílio a sua apresentação

Nota

Capítulo 11 ­ Compondo a pesquisa para compartilhá­la com os outros

A. Compondo: dicas gerais
Conhecendo o público para sua pesquisa qualitativa
Ter jeito com as palavras
Compondo “às avessas”
Compor “de forma retrocedente”

B. Compondo pesquisa qualitativa
Envolver os cinco sentidos
Representar as múltiplas vozes e perspectivas e também lidar com questões de anonimato
Ser sensível à natureza interpretativa de suas composições

C. Apresentando seu self declarativo
Iniciando sua composição em um ponto interessante
Diferentes “formatos” de composições
Usando palavras simples e minimizando o jargão de pesquisa
Fazendo os cabeçalhos (ou os títulos de quadros) transmitirem uma mensagem substantiva

D. Apresentando seu self reflexivo
Explicitando suas lentes de pesquisa o máximo possível
Descrevendo suas lentes de pesquisa como um importante procedimento de controle de qualidade
Mantendo seu self reflexivo sob controle
Tornando observações prefaciais interessantes e atraentes

E. Reformulando sua composição
A utilidade das revisões no processo de reformulação
Participantes
Pares
Tempo e esforço na reformulação
Preparando originais e revisando – e analisando o trabalho dos revisores

Parte IV ­ Levando a pesquisa qualitativa um passo adiante

Capítulo 12 ­ Ampliando o desafio de fazer pesquisa qualitativa

A. Pesquisa qualitativa como parte do domínio mais amplo da pesquisa em ciências
sociais
Exemplos de semelhanças do ofício
Exemplos de práticas do ofício contrastantes
Diferenças nas visões de mundo na pesquisa em ciências sociais

B. Um diálogo permanente
O posicionamento da pesquisa
Métodos qualitativos versus quantitativos
Um padrão ouro?

C. A promessa e o desafio da pesquisa com metodologia mista
As raízes da pesquisa com metodologia mista
Um estudo com metodologia mista como único estudo
Qualificação necessária para fazer um estudo com metodologia mista

D. Indo adiante
Diferentes motivações para ir adiante
Colocando princípios, não apenas procedimentos, em prática
Dar sua própria contribuição ao ofício de fazer pesquisa qualitativa
Exemplo de estudo 2: um estudo com metodologia mista do processamento de propostas
universitárias

Notas
Apêndice

Um projeto para um semestre ou um ano
Tema de investigação
Iniciação
Protocolo de campo
Coleta de dados
Análise da amostra
Notas

Glossário

Termos especiais usados em pesquisa qualitativa1
Notas

Referências

Conheça também

Conheça o Grupo A
parte I

Compreendendo a
pesquisa qualitativa
1
O que é pesquisa qualitativa – e
por que você cogitaria fazer
este tipo de pesquisa?

Este capítulo introduz a pesquisa qualitativa, inicialmente ilustrando­a com um grupo diverso de
estudos  publicados.  Sua  amplitude  indica  a  potencial  relevância  e  fascínio  da  pesquisa
qualitativa: diferente de outros métodos das ciências sociais, praticamente todo acontecimento
da vida real pode ser objeto de um estudo qualitativo.
O  capítulo  então  discute  cinco  características,  bem  como  algumas  práticas  de  pesquisa
comuns,  que  juntas  definem  a  pesquisa  qualitativa.  (As  práticas  comuns  aparecerão  em
pormenor  no  restante  deste  livro.) Apesar  dessas  cinco  características  e  práticas  comuns,  a
pesquisa  qualitativa  continua  sendo  um  campo  multifacetado  de  investigação,  marcado  por
diferentes orientações e metodologias. Distinções importantes se iniciam ao assumirmos uma
realidade singular ou múltiplas realidades, a singularidade ou potencial generalizabilidade dos
eventos  humanos  e  a  necessidade  de  seguir  uma  variante  metodológica  de  pesquisa
qualitativa  ou  não.  O  capítulo  aborda  as  três  distinções,  sugerindo  duas  estratégias  de
mediação  para  permitir  que  a  pesquisa  prossiga.  Da  máxima  importância  é  um  denominador
comum  –  a  necessidade  de  que  estudos  qualitativos  mostrem  sua  confiança  e  credibilidade,
independentemente de qualquer uma das três distinções.
A. O FASCÍNIO DA PESQUISA QUALITATIVA: UM PANORAMA TÓPI
CO DOS ESTUDOS

O que você deve aprender nesta seção:

Por que fazer pesquisa qualitativa? Você pode apenas querer estudar um ambiente da vida real, descobrir
como  as  pessoas  enfrentam  e  prosperam  em  tal  ambiente  –  e  capturar  a  riqueza  das  vidas  das  pessoas.
Pense na variedade de temas que você poderia estudar.
Você  poderia  se  concentrar  em  um  grupo  específico  de  pessoas,  tal  como  mulheres  sem  moradia,
passar muitas noites como voluntário em um abrigo para moradoras de rua e ajudar os outros a entender
como essas mulheres lidam com seus desafios cotidianos, dentro e fora do abrigo (p. ex., Liebow, 1993).
Ao longo do caminho, você poderia entender novas maneiras de como (e por quê) as mulheres chegaram
a essa situação. Você também poderia ilustrar esses entendimentos reconstituindo as histórias de vida de
muitas dessas mulheres (ver “Um estudo qualitativo de mulheres sem moradia”, Quadro 1.1.)

Um estudo qualitativo de mulheres sem moradia

Talley’s Corner

Ver também Quadros 5.6 e 11.7.

Por outro lado, você poderia querer estudar como o governo e as autoridades de saúde pública tomam
decisões sobre uma ameaça de epidemia de gripe suína. Em 1978, tal ameaça levou à vacinação em massa
de  40  milhões  de  norte­americanos  (Neustadt  &  Fineberg,  1983).  A  campanha  foi  encerrada
prematuramente  quando,  no  decorrer  da  temporada  de  gripe,  as  autoridades  perceberam  que  haviam
superestimado  o  potencial  da  epidemia  –  mas  também  porque  descobriram  que  a  vacinação  expôs  as
pessoas a uma doença rara, porém fatal. Para fazer esse estudo, você poderia ter entrevistado autoridades­
chave e analisado muitos documentos oficiais. Os resultados de seu estudo poderiam ter apontado para as
dificuldades e incertezas ao lidar­se com campanhas de imunização em massa – uma questão que, como
seria de esperar, ainda é relevante no século XXI.
Em um extremo mais íntimo, você poderia querer compreender e analisar a conversação e as interações
entre duas pessoas. Você precisaria poder gravar, se não filmar, a conversação delas porque seu interesse
iria muito além das palavras específicas da conversa. Entre outros sinais, seus dados também incluiriam o
modo  como  as  palavras  foram  mescladas  ou  encurtadas,  além  das  pausas,  sobreposições  e  linguagem
corporal entre os interlocutores (p. ex., Drew, 2009). Seu objetivo geral seria deslindar o poder, o controle
e  outros  motivos  que  cada  interlocutor  poderia  estar  perseguindo  –  possivelmente  uma  forma  útil  de
compreender as relações médico­paciente, professor­aluno e colega­colega nos contextos de sua vida real.
Existem muitos outros exemplos de pesquisa qualitativa. Eles tocam em todas as esferas sociais. Perto
de todos nós, as mudanças no papel das mulheres na sociedade norte­americana têm sido o objeto de um
bom número de estudos, tais como:

✓ a  investigação  de  Ruth  Sidel  (2006)  sobre  como  mães  solteiras  confrontam  seus  desafios  sociais  e
econômicos;
✓ o exame de Pamela Stone (2007) de por que profissionais bem­sucedidas abandonam seus empregos
para ficar em casa; e
✓ o estudo de Kathryn Edin e Maria Kefalas (2005) de por que as mulheres de baixa renda “colocam a
maternidade antes do casamento”.

Nos  três  exemplos,  os  pesquisadores  conduziram  extensas  entrevistas  com  muitas  mulheres  e  suas
famílias,  além  de  visitarem  seus  lares  e  observarem  o  comportamento  familiar.  Estes  e  outros  estudos
seguem,  de  certa  forma,  o  estudo  de  referência  de  Carol  Gilligan  (1982)  do  lugar  da  mulher  em  um
mundo masculino – no qual ela alegou que grande parte das chamadas teorias do desenvolvimento moral
e emocional tinham se baseado exclusivamente nas percepções e experiências masculinas.
Além desses exemplos, a gama de temas abordados por outros trabalhos contemporâneos se estende do
raro ao comum, tais como:

✓ revelar formas de exploração surpreendentes, mas ainda existentes, tais como escravidão humana na
Tailândia, Mauritânia, Brasil, Paquistão e Índia (p. ex., Bales, 2004);
✓ analisar  os  desafios  da  imigração  entre  os  Estados  Unidos  e  outros  países,  seja  no  contexto
educacional (p. ex., Valenzuela, 1999) ou comunitário (p. ex., Levitt, 2001);
✓ estudar como pessoas mais velhas podem ter sido internadas em um hospital ou para tratamento de
longo prazo em circunstâncias que poderiam ter sido evitadas (p. ex., Tetley, Grant, & Davies, 2009);
✓ oferecer  dados  e  explicações  sobre  como  uma  empresa  constante  da  lista  Fortune  500  no  ramo  de
computação poderia fechar as portas na década de 1990 (p. ex., Schein, 2003);
✓ contrastar  as  diferenças  entre  os  clientes  de  lojas  de  brinquedos  localizadas  em  bairros  de  classe
média  em  contraste  com bairros  da classe  operária,  refletindo  não  apenas as  práticas  das lojas, mas
também os hábitos de aquisição e de compra das famílias (p. ex., Williams, 2006);
✓ examinar a vida residencial e as diferenças em tensões raciais, étnicas e de classe em quatro bairros
urbanos (p. ex., Wilson & Taub, 2006); ou
✓ mostrar  as  diferentes  experiências  de  infância  de  famílias  de  classe  operária  e  média,  fazendo
extensas observações nos lares de 12 famílias (p. ex., Lareau, 2003).

Você pode inclusive estudar a vida cotidiana nas ruas de sua cidade, como no:
✓ estudo de Duneier (1999) dos vendedores de rua;
✓ estudo de Lee (2009) das interações nas ruas; ou
✓ estudo de Bourgois (2003) dos viciados, ladrões e traficantes que fazem parte da economia informal
em algumas cidades.

O fascínio da pesquisa qualitativa é que ela permite a realização de estudos aprofundados sobre uma
ampla  variedade  de  tópicos,  incluindo  seus  favoritos,  em  termos  simples  e  cotidianos.  Além  disso,  a
pesquisa qualitativa oferece maior liberdade na seleção de temas de interesse, porque os outros métodos
de pesquisa tendem a ser limitados por:

✓ impossibilidade de estabelecer as necessárias condições de pesquisa (como em um experimento);
✓ indisponibilidade de uma série de dados suficientes ou falta de abrangência de variáveis suficientes
(como em um estudo econômico);
✓ dificuldade  de  extrair  uma  amostra  adequada  de  entrevistados  e  obter  uma  taxa  de  resposta
suficientemente alta (como em um levantamento); ou
✓ outras  limitações,  como  dedicar­se  ao  estudo  do  passado  mas  não  de  atualidades  (como  em  uma
história).1

Por  ora,  a  pesquisa  qualitativa  tornou­se  uma  forma  aceitável,  se  não  dominante,  de  pesquisa  em
muitas  áreas  acadêmicas  e  profissionais  diferentes.  Consequentemente,  o  grande  número  de  alunos  e
estudiosos que realizam estudos qualitativos pode fazer parte de diferentes disciplinas de ciências sociais
(p. ex., sociologia, antropologia, ciência política ou psicologia) ou diferentes profissões (p. ex., educação,
administração,  enfermagem,  planejamento  urbano  e  avaliação  de  programas).  Em  qualquer  desses
campos, a pesquisa qualitativa representa um modo atraente e produtivo de fazer pesquisa.

B. O QUE DISTINGUE A PESQUISA QUALITATIVA

O que você deve aprender nesta seção:

Apesar da maior liberdade oferecida pela pesquisa qualitativa, seus colegas podem, não obstante, alegar
que  outros  tipos  de  pesquisa  em  ciências  sociais  –  por  exemplo,  levantamentos,  estudos  econômicos,
experimentos,  semiexperimentos  e  estudos  históricos  –  também  podem  abordar  muitos  dos  mesmos
tópicos  apontados  no  panorama  de  abertura  dos  estudos  qualitativos.  Esses  outros  tipos  de  pesquisa
podem ser a base para estudar grupos de pessoas semelhantes, como moradoras de rua, questões de saúde
pública semelhantes, como campanhas de imunização ou relações médico­paciente, igualdade de gênero e
aspectos femininos, e mesmo temas que estabelecem comparações internacionais e nacionais das mesmas
temáticas  citadas. As  alegações  de  seus  colegas,  portanto,  apontam  para  a  necessidade  de  confrontar  a
questão do que distingue a pesquisa qualitativa, especialmente em relação a outros tipos de pesquisa em
ciências sociais.
Pesquisa qualitativa: uma ampla área de investigação
A diversidade do que se chama pesquisa qualitativa, devido a sua relevância para diferentes disciplinas e
profissões,  desafia  qualquer  um  a  chegar  a  uma  definição  sucinta.  Uma  definição  muito  curta  parecerá
excluir uma ou outra disciplina. Uma definição muito ampla parecerá inutilmente global. Na verdade, o
termo  pesquisa  qualitativa  pode  ser  como  os  outros  termos  do  mesmo  gênero  –  por  exemplo,  pesquisa
sociológica, pesquisa psicológica, ou pesquisa educacional. Dentro de sua própria disciplina ou profissão
particular,  cada  termo  implica  um  amplo  conjunto  de  pesquisa,  abarcando  uma  diversidade  de  métodos
altamente contrastantes. Pense simplesmente, por exemplo, na psicologia clínica e experimental. Apesar
de ambas fazerem parte do mesmo campo, seus métodos diferem acentuadamente.

Cinco características da pesquisa qualitativa


Em  vez  de  tentar  chegar  a  uma  definição  singular  de  pesquisa  qualitativa,  você  pode  considerar  cinco
características, listadas abaixo e em seguida discutidas individualmente:

1. estudar o significado da vida das pessoas, nas condições da vida real;
2. representar as opiniões e perspectivas das pessoas (rotuladas neste livro como os participantes2) de
um estudo;
3. abranger as condições contextuais em que as pessoas vivem;
4. contribuir com revelações sobre conceitos existentes ou emergentes que podem ajudar a explicar o
comportamento social humano; e
5. esforçar­se por usar múltiplas fontes de evidência em vez de se basear em uma única fonte.

Iniciando  pelo  topo  da  lista,  a  pesquisa  qualitativa  envolve  primeiramente  estudar  o  significado  das
vidas  das  pessoas  nas  condições  em  que  realmente  vivem. As  pessoas  vão  estar  desempenhando  seus
papéis cotidianos ou terão se expressado por meio de seus próprios diários, registros periódicos, textos e
até fotografias – de maneira totalmente independente de qualquer investigação de pesquisa. As interações
sociais ocorrerão com mínima interferência de procedimentos de pesquisa artificiais, e as pessoas dirão o
que  querem  dizer,  não  limitadas,  por  exemplo,  a  responder  a  um  questionário  predefinido  de  um
pesquisador.  Da  mesma  forma,  as  pessoas  não  se  sentirão  inibidas  pelos  limites  de  um  laboratório  ou
ambiente  semelhante.  E  elas  não  serão  representadas  por  médias  estatísticas,  como,  por  exemplo,  a
família  norte­americana  ter  em  média  3,18  pessoas  (a  partir  de  2006)  –  o  que  pode  representar  com
precisão uma população inteira, mas na verdade, por definição, não representa qualquer família da vida
real.
Segundo, a pesquisa qualitativa difere por sua capacidade de representar as visões e perspectivas dos
participantes de um estudo. Capturar suas perspectivas pode ser um propósito importante de um estudo
qualitativo. Assim, os eventos e ideias oriundos da pesquisa qualitativa podem representar os significados
dados a fatos da vida real pelas pessoas que os vivenciam, não os valores, pressuposições, ou significados
mantidos por pesquisadores.
Terceiro, a pesquisa qualitativa abrange condições contextuais – as condições sociais, institucionais e
ambientais em que as vidas das pessoas se desenrolam. Em muitos aspectos, essas condições contextuais
podem  influenciar  muito  todos  os  eventos  humanos.  Entretanto,  os  outros  métodos  de  ciências  sociais
(exceto a história) têm dificuldade para abordar essas condições.
Os  experimentos,  por  exemplo,  “fazem  controle”  dessas  condições  (daí  a  artificialidade  dos
experimentos  laboratoriais).  Semiexperimentos  admitem  tais  condições,  mas  intencionalmente  focam
apenas em um conjunto limitado de “variáveis”, que podem reconhecer plenamente ou não as condições
contextuais. De modo análogo, as pesquisas de levantamento3 são limitadas pela necessidade de gerenciar
cuidadosamente os graus de liberdade necessários para analisar as respostas a um conjunto de questões de
pesquisa.  Os  levantamentos  são,  portanto,  limitados  no  número  de  perguntas  dedicadas  a  quaisquer
condições contextuais. A história não confronta condições contextuais, mas em sua forma convencional
estuda  o  “passado  morto”,  não  os  eventos  em  andamento  como  na  pesquisa  qualitativa  (consulte
novamente a nota de rodapé número 1 sobre história oral).
Quarto, a pesquisa qualitativa não é apenas um diário ou uma narrativa cronológica da vida cotidiana.
Tal  função  seria  uma  versão  meio  mundana  dos  acontecimentos  da  vida  real. Ao  contrário,  a  pesquisa
qualitativa é guiada por um desejo de explicar esses acontecimentos, por meio de conceitos existentes ou
emergentes. Por exemplo, um conceito existente é o de manejo do estigma de Goffman (1963). Em seu
trabalho original, o manejo de estigma referia­se sobretudo às adaptações de uma pessoa. Entretanto, um
estudo  qualitativo  contemporâneo  aplicou  essa  tipologia  e  arcabouço  a  um  grupo  coletivo,  assim
oferecendo  novas  revelações  sobre  como  as  ações  de  estados­nações  também  poderiam  tentar  superar
seus  próprios  acontecimentos  historicamente  estigmatizantes  (ver  “Usando  a  pesquisa  qualitativa  para
produzir novas revelações”, Quadro 1.2).

Usando a pesquisa qualitativa para produzir novas revelações

Da mesma forma, a pesquisa qualitativa pode ser uma ocasião para desenvolver novos conceitos. Os
conceitos  podem  tentar  explicar  processos  sociais,  tais  como  o  ensino  escolar  de  estudantes  norte­
americanos. Um conceito ilustrativo oferecido por um estudo qualitativo é a noção de educação escolar
subtrativa  (ver  “Usando  um  conceito  abrangente  para  organizar  um  estudo  qualitativo”,  Quadro  1.3),
usado para fornecer explicações potencialmente úteis e formar uma plataforma para novas investigações.
Na  verdade,  estudos  destituídos  de  conceitos,  sejam  existentes  ou  novos,  ou  destituídos  de  qualquer
interpretação, seriam semelhantes a diários ou narrativas cronológicas, mas não pesquisa qualitativa.
Usando um conceito abrangente para organizar um estudo qualitativo

Ver também Quadro 4.5.

Quinto,  a  pesquisa  qualitativa  procura  coletar,  integrar  e  apresentar  dados  de  diversas  fontes  de
evidência como parte de qualquer estudo. A variedade provavelmente será uma decorrência de você ter
que  estudar  um  ambiente  da  vida  real  e  seus  participantes. A  complexidade  do  ambiente  de  campo  e  a
diversidade de seus participantes provavelmente justificam o uso de entrevistas e observações e mesmo a
inspeção  de  documentos  e  artefatos. As  conclusões  do  estudo  tendem  a  se  basear  na  triangulação  dos
dados das diversas fontes. Essa convergência aumentará a credibilidade e confiabilidade do estudo (ver
mais sobre esse objetivo ao final deste capítulo).

Práticas comuns
Articular como essas cinco características distintivas se convertem em real prática de pesquisa torna­se a
tarefa do restante de todo este livro. Ainda que uma “metodologia” de pesquisa qualitativa formal possa
não  existir,  as  ofertas  capturam  as  práticas  que  decorrem  diretamente  das  cinco  características.  Várias
práticas são descritas sucintamente a seguir. Entretanto, você terá que consultar os capítulos mencionados
para detalhes sobre como estas e outras práticas podem funcionar para você:

1. O uso de delineamentos de pesquisa flexíveis em vez de fixos, abrangendo oito escolhas, tais como
reforçar  a  validade  de  um  estudo,  selecionar  as  amostras  a  serem  estudadas  e  preocupar­se  em
generalizar (ver Cap. 4).
2. A  coleta  de  dados  “de  campo”  –  apropriadamente  tentando  capturar  condições  contextuais,  bem
como perspectivas dos participantes – resultantes de seu próprio trabalho de campo e examinando
os diários, jornais, textos, fotografias, ou outros artefatos associados aos próprios participantes (ver
Caps. 5 e 6).
3. A análise de dados não numéricos – inclusive escolhas sobre usar ou não vários tipos de programas
de computador (ver Cap. 8); e
4. A  interpretação  dos  resultados  de  um  estudo  qualitativo,  que  pode  envolver  generalizações
convencionais desafiadoras e estereótipos sociais (ver Cap. 9).
Os outros capítulos do livro tratam de questões mais gerais, tais como de que forma se equipar para
fazer pesquisa qualitativa (Cap. 2), como dar os primeiros passos de um estudo qualitativo (Cap. 3), como
registrar os dados corretamente (Cap. 7) e como apresentar dados qualitativos por meio de formas escritas
e  visuais  e  criar  uma  composição  final  (Caps.  10  e  11).  O  capítulo  final  introduz  uma  importante
tendência  contemporânea  diretamente  relacionada  à  pesquisa  qualitativa  –  a  maior  atenção  dedicada  à
pesquisa com metodologia mista (Cap. 12). Alguns temas importantes – tais como manter a consciência
de como seu papel como pesquisador pode influenciar um estudo (reflexividade) – tendem a ocorrer em
todo o livro (ver também a discussão no Cap. 11 sobre como apresentar nosso “eu reflexivo” como parte
de um estudo qualitativo concluído).

C. O MUNDO MULTIFACETADO DA PESQUISA QUALITATIVA

O que você deve aprender nesta seção:

A  amplitude  do  que  se  chama  pesquisa  qualitativa  abrange  um  mosaico  de  orientações,  bem  como  de
escolhas  metodológicas.  Tirar  vantagem  da  riqueza  do  mosaico  oferece  uma  oportunidade  para
personalizar um estudo qualitativo.
Três  condições  em  especial  contribuem  para  o  mosaico:  a  potencial  multiplicidade  de  interpretações
dos  eventos  humanos  sendo  estudados;  a  potencial  singularidade  desses  eventos;  e  as  variações
metodológicas  disponíveis  dentro  da  pesquisa  qualitativa.  Cada  condição  pode  envolver  escolhas
extremas,  muitas  vezes  envolvendo  considerações  filosóficas  e  não  apenas  metodológicas.  Entretanto,
entre  os  extremos  existe  uma  ampla  gama  de  posições  aceitáveis.  As  três  condições  juntas,  portanto,
formam grande parte do mundo multifacetado da pesquisa qualitativa.

Múltiplas interpretações dos mesmos eventos?


A condição inicial deriva do desejo da pesquisa qualitativa de capturar o significado dos eventos da vida
real,  da  perspectiva  dos  participantes  de  um  estudo.  Tal  objetivo  não  pode  ignorar  o  fato  de  que  os
significados  dos  participantes,  se  estudados  e  relatados  por  um  pesquisador,  também  inevitavelmente
incluem um segundo conjunto de significados para os mesmos eventos – aqueles do pesquisador.
Dois  termos  complementares  –  êmico  e  ético  –  embora  hoje  um  pouco  superados  –  esclarecem  a
potencial dualidade, se não a multiplicidade, de significados. Uma perspectiva êmica procura capturar os
significados  nativos  dos  participantes  dos  eventos  da  vida  real.  Em  contraste,  uma  perspectiva  ética
representa  o  mesmo  conjunto  de  eventos  da  vida  real,  mas  de  uma  perspectiva  externa  –  a  de  um
pesquisador.  Os  dois  termos  lançam  mão  de  um  paralelo  linguístico,  no  qual  a  fonêmica  representa  os
sons  com  base  em  sua  função  interna  dentro  de  uma  língua  e  a  fonética  representa  as  propriedades
acústicas ou mais externas das palavras (p. ex., Emerson, 2001, p. 31).
As perspectivas êmica e ética geralmente serão diferentes – devido a diferenças nos sistemas de valor
dos  observadores,  suas  predisposições  e  seu  gênero,  idade  e  raça  e  etnicidade.  Por  exemplo,  em  um
estudo envolvendo “etnografia naturalista”, os investigadores observaram que o pesquisador que realiza
trabalho de campo em um ambiente natural era um estranho antropológico que tinha que “cuidar para não
perturbar  a  ecologia  do  mundo  social  [dos  participantes]  introduzindo  sua  subjetividade,  crenças,  ou
interesses próprios como pesquisador acadêmico de classe média branco” (Roman & Apple, 1990, p. 45).
Um desafio adicional aos pesquisadores é “manter em suspenso seus eventuais pressupostos políticos e
comprometimentos teóricos” (p. 46).
As  diferenças  nos  sistemas  de  valor  permeiam  nossos  próprios  processos  de  pensamento.  Essas
diferenças,  por  sua  vez,  afetarão  o  modo  como  a  pesquisa  qualitativa  será  conduzida  e  relatada.
Operacionalmente, elas vão aparecer mesmo (e especialmente) ao descrever um conjunto de eventos da
vida real. Consequentemente, a tarefa aparentemente natural de fazer uma descrição torna­se uma questão
interpretativa  (Lawrence­Lightfoot  &  Davis,  1997),  mesmo  que  apenas  por  causa  de  um  processo
inevitável de seleção (Emerson, 2001, p. 28; Wolfinger, 2002). O processo descritivo não pode abarcar
plenamente  todos  os  eventos  possíveis  que  poderiam  ter  sido  observados  em  um  ambiente  de  estudo.
Mesmo  o  uso  de  registros  de  comportamento  social  em  vídeo  ou  áudio,  embora  aparentemente
oferecendo  um  alcance  abrangente,  tem  seus  parâmetros  básicos  –  de  onde,  quando  e  o  que  registrar  –
definidos pelo pesquisador.
A  seletividade  também  pode  surgir  por  conta  das  categorias  pré­concebidas  de  um  investigador  para
atribuir  significado  aos  eventos  e  suas  características  (p.  ex.,  Bec ker,  1998,  p.  76­85).  Como  declarou
Robert Emerson (2001, p. 48):

O apelo para criar  uma  “descrição  densa”  –  um  termo  comumente associado  ao trabalho de Clifford


Geertz (1973), mas que, na verdade, ele creditou (p. 6­7) a Gilbert Ryle (1949), é uma forma de tentar
revelar ou ao menos aumentar nossa consciência da seletividade e das categorias preconcebidas (Bec ker,
1998). Quanto mais densa a descrição, mais possível seria dizer que aquela seletividade foi reduzida.
Além  de  produzir  uma  descrição  densa,  outras  práticas  de  estudo  de  campo  incluem  “nos
confrontarmos  com  as  coisas  que  nos  afastariam  das  categorias  convencionais,  da  declaração
convencional de um problema, da solução convencional” (Becker, 1998, p. 85), e “identificar o caso que
provavelmente perturbaria seu pensamento e procurá­lo” (p. 87).
Não  obstante,  por  mais  bem­sucedidas  que  essas  confrontações  possam  ser,  os  pesquisadores  não
podem  na  análise  final  evitar  suas  próprias  lentes  de  pesquisa  ao  representarem  a  realidade. Assim,  o
objetivo é reconhecer que múltiplas interpretações podem existir e garantir que o máximo possível seja
feito para impedir que um pesquisador imponha sua própria interpretação (ética) à interpretação (êmica)
de um participante.
Nesse  sentido,  as  descrições  do  trabalho  de  campo  são  “construídas”  (Guba,  1990).  Mesmo  um
“ambiente”  de  campo  não  é  uma  “entidade  natural  preexistente”,  mas  algo  que  é  construído  (Emerson,
2001,  p.  43). Ao  estudar  a  cultura  de  um  povo  ou  de  um  lugar,  as  descrições  podem  ser  consideradas
interpretações  de  segunda  ou  terceira  ordem,  porque  representam  as  “construções  do  pesquisador  das
construções  [‘dos  participantes’]  daquilo  que  eles  e  seus  compatriotas  se  ocupam”  (Geertz,  1973,  p.  9,
15).
Seguindo  essa  lógica,  o  pesquisador  em  campo  serve  efetivamente  como  principal  instrumento  de
pesquisa para coletar dados em um estudo qualitativo (ver Cap. 5, item D, para mais detalhes). Nenhum
instrumento físico de medição, procedimento experimental, ou questionário prevalece – ainda que todos
possam  ser  usados  como  parte  de  um  estudo  qualitativo.  Na  maioria  das  situa ções,  o  pesquisador
inevitavelmente serve como um instrumento de pesquisa porque os fenômenos importantes da vida real –
tais  como  a  própria  “cultura”  que  é  um  tema  frequente  dos  estudos  qualitativos  –  não  podem  ser
mensurados  por  instrumentos  externos,  mas  somente  ser  revelados  fazendo­se  inferências  sobre  os
comportamentos observados e conversando com as pessoas (Spradley, 1979, p. 7).
Além disso, o pesquisador tem uma personalidade humana e não pode se comportar como “um robô
sem  face  ou  como  um  gravador  mecânico  dos  eventos  humanos”  (Powdermaker,  1966,  p.  19).  Essa
personalidade “não se forma no trabalho de campo, mas tem muitos anos de condicionamento por trás de
si”,  incluindo  “a  escolha  dos  problemas  e  dos  métodos,  mesmo  a  escolha  da  própria  disciplina
[acadêmica]” (p. 19).
As pessoas que fazem pesquisa qualitativa veem a distinção êmico­ético e a possibilidade de múltiplas
interpretações  dos  mesmos  eventos  como  uma  oportunidade,  não  uma  limitação.  Na  verdade,  um  tema
comum  subjacente  a  muitos  estudos  qualitativos  é  demonstrar  como  as  perspectivas  dos  participantes
podem divergir acentuadamente daquelas apresentadas por pessoas externas.
Por exemplo, a pesquisa multicultural visa a descrever as perspectivas dos participantes de maneiras
precisas e válidas, mas também solidárias. Assim, tópicos de estudo comuns têm sido os grupos “que têm
historicamente sofrido racismo, discriminação e exclusão” (Banks, 2006, p. 775). De maneira semelhante,
o estudo de Edin e Kefalas de por que os participantes de seu estudo colocavam a maternidade antes do
casamento foi uma tentativa de explicar o mérito de manter essa convicção, ainda que não representasse
uma visão da classe média convencional.
Adotando­se  ou  não  uma  orientação  multicultural,  reconhecer  a  possibilidade  de  múltiplas
interpretações de eventos semelhantes pode moldar a pesquisa qualitativa como um tipo de investigação
relativista  (múltiplas  realidades  e  dependente  do  observador)  mais  do  que  realista  (única  realidade  e
conjunto de “fatos”, independente de qualquer observador). A maioria dos estudos qualitativos se situa ao
longo de um continuum  entre  esses  dois  extremos  filosóficos.  Por  exemplo,  seu  próprio  estudo  poderia
sinalizar uma inclinação à aceitação de múltiplas realidades, por destacar as diferentes perspectivas dos
participantes e não forçá­los a convergir em uma única rea lidade. Você também poderia incluir uma forte
apresentação  autorreflexiva,  reconhecendo  as  importantes  facetas  de  suas  lentes  de  pesquisa,  como
discutido no Capítulo 11 deste livro.
Por  outro  lado,  seu  estudo  poderia  sinalizar  uma  inclinação  a  aceitar  uma  única  realidade,  por
triangular  entre  diferentes  fontes  de  dados  e  buscar  estabelecer  um  conjunto  comum  de  fatos.  Seu
objetivo poderia ser definir uma certa realidade, e dentro dessa realidade você estaria tentando minimizar
a contaminação entre suas próprias interpretações e as dos participantes.

Os eventos humanos podem ser singulares?


Uma  segunda  condição  enriquece  mais  o  mosaico:  eventos  humanos  podem  ser  considerados
inteiramente  únicos  ou  tendo  algumas  propriedades  relacionadas  e  potencialmente  aplicáveis  a  outras
situações. Qualquer uma das posturas, novamente com uma ampla faixa de posições intermediárias, pode
ser  assumida  ao  estudar  quase  todo  tópico  social.  Por  exemplo,  considere  um  estudo  qualitativo  em
psicologia,  abordando  a  relação  amorosa  entre  duas  pessoas.  Da  mesma  forma,  considere  um  estudo
qualitativo  em  sociologia,  focado  no  enobrecimento  de  um  determinado  bairro  urbano  em  um
determinado  período  –  ou  um  estudo  qualitativo  em  administração,  tratando  da  fusão  entre  duas
empresas.  Você  pode  imaginar  todas  as  situações  como  totalmente  únicas.  Em  contraste,  você  também
pode  imaginar  estudar  as  mesmas  situações  e  se  esforçar  para  identificar  suas  implicações  para  outras
situações (presumivelmente semelhantes).
Dentro da pesquisa qualitativa, os estudos fenomenológicos, que enfatizam análises hermenêuticas ou
interpretativas,  são  mais  fortemente  dedicados  à  captura  da  singularidade  dos  eventos.  Como  exemplo,
como  parte  de  um  estudo  psicológico,  você  poderia  mergulhar  nas  vidas  de  pessoas  que  estão  sendo
treinadas  para  exercer  medicina  familiar.  Para  realizar  tal  investigação,  você  poderia  segui­las  durante
seus  anos  iniciais  de  residência,  compartilhar  suas  lutas,  contradições  e  conflitos,  e  tentar  derivar  uma
compreensão profunda de como foi para essas pessoas submeter­se a essa experiência de treinamento (ver
“Um estudo de imersão no treinamento de médicos”, Quadro 1.4).

Um estudo de imersão no treinamento de médicos

Estudos  fenomenológicos  consideram  não  somente  os  eventos  que  estão  sendo  estudados,  como
também seus contextos políticos, históricos e socioculturais (p. ex., Miller & Crabtree, 1992, p. 25). Os
estudos  procuram  ser  o  mais  fidedignos  possível  às  experiências  vividas,  especialmente  como  estas
poderiam ser descritas nas palavras dos próprios participantes. Na educação, um exemplo simples seria
pedir às pessoas que descrevam situações em que aprenderam ou não aprenderam, em vez de tentar criar
uma  situação  laboratorial  específica  para  testar  como  elas  aprendem  (Giorgi  &  Giorgi,  2009).  Em  tais
investigações, estudos fenomenológicos resistem a “qualquer uso de conceitos, categorias, taxonomias ou
reflexões sobre as experiências” (Van Manen, 1990, p. 9). Relacionado a esse objetivo, o Capítulo 3 deste
livro  discute  uma  escolha  de  “trabalho  de  campo  primeiro”  que  pode  preceder  a  identificação  de
quaisquer questões de pesquisa como parte do processo de iniciar um novo estudo qualitativo.
As  características  a  serem  evitadas  em  estudos  fenomenológicos  incluem  qualquer  interesse  em
desenvolver generalizações, pois elas podem distorcer o desejado foco na singularidade dos eventos (Van
Manen, 1990, p. 22). Uma consequente preocupação seria o uso de métodos de pesquisa predeterminados
cujos  procedimentos  fixos  poderiam  restringir  artificialmente  uma  representação  do  evento  por
“governarem  por  regras  o  projeto  de  pesquisa”  (p.  29).  Nesse  sentido,  a  condução  de  um  estudo
fenomenológico poderia querer evitar a maioria ou todas as escolhas de delineamento – inclusive aquela
sobre  qualquer  interesse em generalizar  os  resultados  de  um estudo –  apresentadas  no Capítulo 4 deste
livro.
Não  obstante,  e  apesar  de  assumir­se  esta  postura,  a  singularidade  dos  eventos  sendo  estudados  não
impede  um  estudo  fenomenológico  de  adotar  os  mesmos  tipos  de  procedimentos  de  coleta  de  dados
utilizados em um estudo não fenomenológico. Os procedimentos incluem obter descrições experienciais
de  diversas  pessoas­chave,  fazer  entrevistas,  fazer  observações  e  coletar  informações  sobre  as
experiências vividas de outras fontes, tais como diários, jornais e registros (p. ex., Van Manen, 1990, p.
53­76). Esses procedimentos seriam diretamente semelhantes às práticas de coleta de dados apresentadas
no Capítulo 6 deste livro.
De  maneira  semelhante,  estudos  fenomenológicos  tendem  a  usar  o  mesmo  tipo  de  procedimentos  de
análise  de  dados  que  em  um  estudo  não  fenomenológico.  Por  exemplo,  a  ênfase  dos  estudos
fenomenológicos  de  capturar  e  interpretar  as  palavras  e  a  linguagem  dos  participantes  leva  ao
ordenamento  das  palavras  originais  dos  participantes  lado  a  lado  com  as  interpretações  e  mesmo
transformações  dessas  palavras  pelo  pesquisador  (Giorgi  &  Giorgi,  2009,  p.  44),  bem  como  a  possível
necessidade de algum tipo de análise temática (Van Manen, 1990, p. 77­109). Esses procedimentos não
são  diferentes  da  codificação  de  informações  textuais  de  outros  estudos  qualitativos  ou  das  práticas
apresentadas posteriormente no Capítulo 8 deste livro.
Em outras palavras, muitos procedimentos de pesquisa comuns ainda subsidiam estudos qualitativos,
que  em  outros  aspectos  podem  diferir  fortemente  em  sua  orientação  filosófica  e  delineamento  de
pesquisa.

Emular ou não uma das variantes de pesquisa qualitativa


Uma terceira condição que contribui para o mosaico geral aponta para o grande número de metodologias
formalmente organizadas dentro da pesquisa qualitativa. Ao definir sua própria pesquisa qualitativa, você
pode querer emular uma de duas variações. Você pode ter sido aconselhado a fazê­lo por um orientador,
ou você pode sentir uma necessidade irresistível de responder à pergunta “que tipo de pesquisa qualitativa
você  está  fazendo?”.4  Não  existe  tipologia  formal  ou  inventário,  mas  a  orientação  especializada
encontrada  em  muitos  artigos  e  livros  (p.  ex.,  Denzin  &  Lincoln,  2005)  fornece  muitos  modelos  de
variações que podem ser seguidas em sua pesquisa.
Por exemplo, considere as 10 variações apresentadas na Tabela 1.1. Todas elas tendem a estar entre as
formas  comumente  aceitas  de  pesquisa  qualitativa.  Elas  não  se  agrupam  em  categorias  ordenadas.
Consequentemente,  as  variações  podem  se  sobrepor,  tal  como:  fazer  um  estudo  de  caso  baseado  em
observação participante; ou conduzir uma história de vida como parte de uma investigação narrativa; ou
fazer pesquisa­ação e adotar uma abordagem de teoria fundamentada na coleta e análise dos dados.

Variações ilustrativas em pesquisa qualitativa

Variação
ilustrativa Trabalhos relevantes Descrição breve
Você  precisa  ser  sensível  a  essas  variações,  mas  não  precisa  escolher  entre  elas  se  não  quiser.  Sua
sensibilidade  precisa  sobretudo  reconhecer  sua  numerosidade.  Por  exemplo,  além  das  10  variedades
listadas  na Tabela  1.1,  outras  incluem  a  autoetnografia  (p.  ex.,  Jones,  2005);  análise  conversacional  (p.
ex.,  Drew,  2009);  análise  do  discurso  (p.  ex.,  Bloome  &  Clark,  2006;  Willig,  2009);  etnografia  da
performance  (p.  ex.,  Denzin,  2003);  e  interacionismo  simbólico  (p.  ex.,  Blumer,  1969;  Mead,  1934).
Portanto,  você  deve  apreciar  e  estar  consciente  da  probabilidade  de  que  os  artigos  encontrados  em
diferentes revistas de pesquisa qualitativa – tais como Action Research, Narrative Inquiry (anteriormente
o Journal of Narrative and Life History) e o Journal of Contemporary Ethnography, para citar alguns –
tendem  a  favorecer  diferentes  variações  e  consequentemente  diferem  em  suas  orientações  de  pesquisa.
Alguns  estudiosos  (p.  ex.,  Grbich,  2007;  Rex,  Stead man,  &  Graciano,  2006)  também  identificaram
diferentes preferências analíticas para acompanhar as diferentes variações.
Apesar  disso,  as  qualidades  comuns  que  distinguem  a  pesquisa  qualitativa  em  todas  essas  variações
também  persistiram  e  tornaram­se  mais  reconhecidas.  Independentemente  de  qualquer  variação  em
particular,  praticamente  toda  pesquisa  qualitativa  parece  seguir  a  maioria,  se  não  todas  as  cinco
características  da  pesquisa  qualitativa  descritas  anteriormente.  Na  verdade,  estudos  consistentes,  se  não
exemplares, podem ser conduzidos com o rótulo geral de “pesquisa qualitativa” ou “estudo de campo”,
sem recorrer a nenhuma dessas variações.
É  interessante  que  esse  tipo  de  pesquisa  qualitativa  generalizada  aparece  com  regularidade  nos
principais  periódicos  acadêmicos  e  editoras  universitárias.  Por  exemplo,  duas  revistas  de  destaque  em
sociologia  cobrem  todas  as  correntes  de  pesquisa  sociológica. Ambas  dedicaram  considerável  espaço  a
uma  variedade  de  estudos  qualitativos  (p.  ex., Auyero  &  Swistun,  2008;  Cable,  Shriver,  &  Mix,  2008;
Davis & Robinson, 2009; Madsen, 2009; Moore, 2008; Read & Oselin, 2008; Rivera, 2008).
Citações  semelhantes  podem  ser  encontradas  em  outras  disciplinas  acadêmicas  e  profissões  –  cujos
principais periódicos também fornecem todos os tipos de pesquisa, não apenas pesquisa qualitativa (como
exemplos, ver Sauder, 2008, em ciências da administração, e Sack, 2008, em formação de professores).
Da  mesma  forma,  editoras  universitárias  publicam  muitos  estudos  qualitativos  que  presumem  as
características mais gerais da pesquisa qualitativa e não se encaixam em nenhuma variante em particular.
Portanto,  em  vez  de  se  sentir  forçado  a  escolher  uma  das  variações  como  base  para  um  estudo
qualitativo,  você  pode  exercitar  uma  opção  viável  conduzindo  uma  pesquisa  qualitativa  de  uma  forma
generalizada. Você pode simplesmente declarar – como nos artigos dos periódicos recém citados – que
você  está  apresentando  um  estudo  de  pesquisa  qualitativa,  sem  referência  a  nenhuma  das  variantes.
Observe que seguir a forma generalizada de pesquisa qualitativa não implica uma metodologia rígida. O
delineamento  de  seu  estudo  (ver  Cap.  4),  os  métodos  de  coleta  de  dados  (ver  Cap.  6)  e  as  opções  de
análise quanto a “codificar” seus dados ou não (ver Cap. 8), tudo isso envolve um conjunto de escolhas
que você deve fazer.

Estratégias de mediação
A  mediação  no  mosaico  de  orientações  e  metodologias  pode  ser  feita  de  duas  maneiras.  Ambas  vão
ajudar­lhe  a  prosseguir  com  seu  estudo  qualitativo,  quer  você  planeje  seguir  uma  das  variações  ou
conduzir uma forma generalizada de pesquisa qualitativa.
Seguindo  a  primeira  maneira,  você  pode  reconhecer  explicitamente  as  escolhas  metodológicas
antecipadamente  e  depois  indicar  sua  sensibilidade  a  respeito  de  suas  oportunidades,  limitações  e
fundamentos  filosóficos.  O  processo  seria  semelhante  ao  que  Grbich  (2007,  p.  17)  descreveu  como
reconhecer a localização epistemológica de seu estudo – ou seja, as suposições filosóficas que você faz
sobre os modos de saber o que você sabe. Sua localização epistemológica poderia ser um dos extremos
criados pela escolha de uma combinação de dimensões relativista­realista e única­não única. Entretanto, a
localização  também  poderia  estar  em  qualquer  ponto  intermediário,  representando  o  “terreno
intermediário viável” como reconhecido por Gubrium e Holstein (1998).

estudos de caso intrínsecos

estudos de caso
instrumentais

Tendo  declarado  sua  localização  epistemológica,  você  então  indicaria  como  o  delineamento  de  seu
estudo  e  a  seleção  de  seus  procedimentos  de  pesquisa  refletiram  a  localização  declarada  –  em  parte
citando  outros  estudos  que  haviam  feito  escolhas  semelhantes  e  tinham  expressado  suas  apropriadas
precauções.  Você  poderia  inclusive  adotar  “vozes”  narrativas  ao  relatar  seu  trabalho,  novamente
observando antecipadamente por que você escolheu uma determinada voz.

As diferentes vozes acomodariam e complementariam sua localização epistemológica
Seguindo­se uma segunda estratégia de mediação, uma maneira alternativa e igualmente viável de lidar
com o mosaico é presumir que “todos os tipos de investigação, na medida em que o objetivo é chegar a
conclusões verossímeis, [possuem] uma semelhança epistemológica  subjacente” (Phillips,  1990b, p. 35,
grifo  nosso).  Tal  semelhança  pode  subjazer  toda  pesquisa  qualitativa,  independentemente  das  vozes,
variantes,  ou  personalização  dentro  do  mosaico.  O  objetivo  principal  –  fazer  pesquisa  qualitativa
verossímil e confiável – representa o esforço comum, e por isso a próxima seção é totalmente dedicada a
essa segunda alternativa.

D. INCORPORANDO CONFIANÇA E CREDIBILIDADE NA PESQUISA


QUALITATIVA
O que você deve aprender nesta seção:

Transparência
O primeiro objetivo para construir confiança e credibilidade é que a pesquisa qualitativa seja feita de uma
maneira  publicamente  acessível.  Para  usar  um  termo  que  ganhou  popularidade  no  século  XXI,  os
procedimentos de pesquisa devem ser transparentes.
Esse  primeiro  objetivo  significa  que  você  deve  descrever  e  documentar  seus  procedimentos  de
pesquisa  qualitativa  para  que  outras  pessoas  possam  analisar  e  tentar  compreendê­los.  Todos  os  dados
também  precisam  estar  disponíveis  para  inspeção.  A  ideia  geral  é  que  outros  devem  ser  capazes  de
examinar detalhadamente seu trabalho e as evidências usadas para respaldar seus resultados e conclusões.
O  exame  pode  resultar  em  críticas,  apoio,  ou  aperfeiçoamento.  Além  disso,  qualquer  pessoa,  seja  um
amigo,  um  colega,  ou  um  participante  de  seu  estudo  de  pesquisa  qualitativa,  deve  ser  capaz  de
empreender tal exame. Dessa forma, o estudo final deve ser capaz de resistir a um exame profundo de
outras pessoas (p. ex., Yardley, 2009, p. 243­250).

Metodicidade
Um  segundo  objetivo  do  ofício  é  fazer  pesquisa  qualitativa  metodicamente.  É  preciso  haver  espaço
adequado  para  a  descoberta  e  consideração  de  eventos  imprevistos.  Entretanto,  ser  metódico  significa
seguir  algum  conjunto  ordenado  de  procedimentos  de  pesquisa  e  minimizar  trabalho  extravagante  ou
descuidado – quer um estudo seja baseado em um delineamento de pesquisa explicitamente definido ou
em uma rotina de campo mais informal, mas, não obstante, rigorosa. Ser metódico também inclui evitar
viés não explicado ou deliberada distorção na realização da pesquisa. Finalmente, ser metódico também
significa  conferir  um  senso  de  completude  a  uma  iniciativa  de  pesquisa,  além  de  verificar  os
procedimentos e dados de um estudo.
Eisenhart  (2006)  discutiu  modos  relacionados  que  podem  ser  usados  para  atender  o  objetivo  de
metodicidade.  Por  exemplo,  ela  nota  que  as  descrições  do  trabalho  de  campo  devem  mostrar  que  um
pesquisador estava “real e plenamente presente – física, cognitiva e emocionalmente – nas cenas de ação
em estudo” (Eisenhart, 2006, p. 574). Os objetivos dela dizem respeito à pesquisa qualitativa, mas eles
podem ter contrapartidas em outros tipos de pesquisa em ciências sociais. Uma contrapartida na pesquisa
experimental  poderia  ser  o  controle  de  qualidade  exercido  como  parte  dos  procedimentos  de  coleta  de
dados do experimentador, abordando especialmente o perigo de “efeitos do experimentador” (Rosenthal,
1966).
Eisenhart também encoraja os pesquisadores qualitativos a demonstrar que os dados e as interpretações
são precisos de algum ponto de vista [ênfase minha], o que leva especialmente a uma sensibilidade sobre
a necessidade de relatar, de uma maneira autorreflexiva, a suposta interação entre o posicionamento do
pesquisador  (como  um  instrumento  de  pesquisa)  e  os  eventos  e  participantes  no  campo  (p.  575­579).
Especialmente relevante no registro de tal autorreflexividade pode ser um diário do pesquisador, o qual
“contém  um  registro  das  experiências,  ideias,  medos,  erros,  confusões,  avanços  e  problemas  que
aparecem” (Spradley, 1979, p. 76). Deve­se observar novamente que, como contrapartida, pesquisadores
exemplares que fazem pesquisa não qualitativa também mantêm esse tipo de diário, geralmente na forma
de um caderno formalmente organizado.
Fidelidade às evidências
Um  último  objetivo  é  que  a  pesquisa  qualitativa  seja  baseada  em  um  conjunto  explícito  de  evidências.
Para muitos estudos, especialmente aqueles nos quais o objetivo é fazer os participantes descreverem seus
próprios processos de tomada de decisão, as evidências consistirão da real linguagem dos participantes,
bem como do contexto em que a linguagem é expressa (Van Manen, 1990, p. 38; Willig, 2009, p. 162).
Nessas  situações,  a  linguagem  é  valorizada  como  a  representação  da  realidade.  Tal  definição  difere  de
muitas  outras  situações,  enfatizadas  ao  longo  deste  livro,  nas  quais  os  estudos  são  dominantemente
relacionados ao comportamento das pessoas. Nesta última circunstância, as palavras dos participantes são
vistas  como  “autorrelatos”  sobre  seu  comportamento. As  palavras  não  podem  ser  aceitas  literalmente,
mas  requerem  corroboração  adicional,  por  exemplo,  para  determinar  se  o  comportamento  realmente
ocorreu ou não.
Independentemente do tipo de dados que estão sendo coletados, as conclusões de um estudo devem ser
tiradas com base nesses dados. Se há múltiplas perspectivas, Anderson­Levitt (2006, p. 289) observa que
a  análise  pode  significar  extrair  um  sentido  de  cada  perspectiva  e  também  testar  as  evidências  de
consistência entre as diferentes fontes – fazendo esforços deliberados para encontrar casos contrários para
reforçar ainda mais os resultados.
O  objetivo  de  evidenciar  é  perseguido  em  todo  este  livro.  O  objetivo  se  reflete  no  uso  do  termo
pesquisa empírica, também usado em todo o livro.6 A meta é basear as conclusões em dados coletados e
analisados com imparcialidade.
Ao  longo  do  livro  também  existem  numerosas  ilustrações  de  estudos  qualitativos  já  publicados,
tomando  a  forma  de  Quadros  ou  pequenas  inserções  dentro  do  texto.  Os  trabalhos  específicos  incluem
trabalhos  metodológicos  relevantes,  não  apenas  estudos  individuais,  especialmente  no  que  se  refere  a
compor e apresentar pesquisa qualitativa (ver Caps. 10 e 11). O livro se assenta, pois, em uma plataforma
indutiva, derivando muitas das práticas de pesquisa preferenciais dos modos como a pesquisa qualitativa
já  foi  executada  com  sucesso.  Em  certo  sentido,  os  estudos  ilustrativos  representam  os  “dados”  para  o
livro, de modo que o livro se engaja em sua própria busca de evidências.

Estudos ilustrativos apresentados no restante deste livro


A  plataforma  indutiva  parece  corresponder  bem  ao  espírito  de  todo  o  empreendimento  de  pesquisa
qualitativa. As  ideias  valiosas  produzidas  pela  pesquisa  qualitativa  tendem  a  seguir  uma  abordagem  de
“baixo para cima”, na qual processos ou eventos específicos guiam o desenvolvimento de conceitos mais
amplos, não o inverso.
Além  dos  Quadros  e  inserções,  quatro  séries  ou  discussões  específicas  ilustram  adicionalmente  a
plataforma. A  primeira  dirige  a  atenção  ao  valor  de  criar  um  “banco  de  estudos”  (Cap.  3,  item A). A
segunda lista um grande número de estudos qualitativos com seus principais tópicos e níveis de unidades
de coleta de dados (Cap. 4, Opção 3). A terceira disseca os sumários de estudos individuais para mostrar
suas  estruturas  analíticas  gerais  (Cap.  9,  item  B).  E  a  quarta  ocorre  por  meio  do  uso  de  dois  exemplos
específicos:  o  Exemplo  de  Estudo  1  percorre  a  parte  mais  difícil  da  pesquisa  qualitativa  –  analisar  os
dados qualitativos – nos Capítulos 8 e 9; e o Exemplo de Estudo 2 ilustra a pesquisa com metodologia
mista no Capítulo 12.
A  abordagem  indutiva  ajuda  a  mostrar  um  outro  aspecto  do  mosaico  da  pesquisa  qualitativa  –  sua
diversidade na representação de numerosas disciplinas acadêmicas e profissões. Os Quadros e exemplos
ilustrativos  vêm  de  campos  como  sociologia,  antropologia,  psicologia,  ciência  política,  ciência  da
administração,  trabalho  social,  saúde  pública,  educação  e  avaliação  de  programas.  Qualquer  que  seja  a
disciplina  acadêmica,  os  estudos  também  podem  abordar  questões  importantes  da  política  pública  dos
Estados  Unidos  (ver  “Pesquisa  qualitativa  abordando  uma  importante  mudança  política  dos  Estados
Unidos”, Quadro 1.5).
Pesquisa qualitativa abordando uma importante mudança política dos Estados Unidos

Muitos  estudos  conduzidos  por  escritores  profissionais  ou  por  jornalistas  foram  excluídos  de
consideração.  Embora  seus  trabalhos  frequentemente  sejam  apresentados  de  maneira  qualitativa  e
abordem  temas  salientes,  a  maioria  não  inclui  uma  discussão  de  suas  metodologias,  seja  em  seções
separadas do texto ou em notas de rodapé. Não está claro se esses trabalhos de fato tentaram emular as
práticas de pesquisa enfatizadas pelo presente livro, e por isso eles não foram incluídos nas vinhetas ou
exemplos.
O propósito deste livro é, portanto, não apenas apresentar uma série completa de procedimentos para
praticar pesquisa qualitativa, mas também dar acesso imediato aos exemplos específicos para sua futura
referência.  Para  melhor  aproveitar  essa  oportunidade,  o  livro  presume  que  os  leitores  podem  variar  de
pesquisadores altamente a menos experientes, mas que nenhum é novato. Em outras palavras, você pode
estar  fazendo  pesquisa  qualitativa  pela  primeira  vez,  mas  você  já  deve  ter  uma  base  para  saber  como
funciona a pesquisa em ciências sociais e para adotar um olhar crítico na leitura dos estudos de pesquisa
publicados.
Como nota final, as práticas abordadas no restante deste livro são apresentadas do ângulo de que você
realmente  encontrou  boas  razões  para  fazer  pesquisa  qualitativa  –  em  resposta  à  primeira  frase  deste
capítulo.  Portanto,  a  orientação  prática  pressupõe  constantemente  a  existência  de  um  estudo  hipotético
planejado ou em andamento. Este pode fazer parte de um assunto mais amplo (p. ex., ver “Quinze anos de
etnografia em uma comunidade mexicana”, Quadro 1.6), mas também pode ser concluí do em um período
de tempo de um ano. Além disso, espera­se que a orientação seja relevante quer o estudo seja feito com
seus próprios recursos, quer como parte de um projeto de pesquisa patrocinado.
Quinze anos de etnografia em uma comunidade mexicana

Fonte:

Supondo que você esteja interessado em fazer pesquisa qualitativa, alguns lembretes são necessários
sobre as qualidades e competências pessoais que vão lhe ajudar a fazer tal pesquisa, e essas são o tema do
próximo capítulo.

Termos, expressões e conceitos que agora você é capaz de definir:

versus
NOTAS
1. História oral (Yow, 1994) é um tipo mais contemporâneo de história, que pode capturar eventos em andamento. Assim, a
história  oral  se  enquadra  tanto  em  investigação  histórica  clássica  quanto  em  investigação  qualitativa.  De  forma
semelhante, esta breve alusão a outros tipos de investigação em ciên cias sociais não pretende passar a impressão de que
há uma distinção nítida entre os tipos de pesquisa. Elas podem se sobrepor de uma forma ou outra, muito embora ainda
possuam algumas características essenciais que as diferenciam.
2. A  literatura  qualitativa  também  usa  o  termo  alternativo  “membros”.  Entretanto,  a  afiliação  de  um  participante  a  um
estudo  qualitativo  não  é  necessariamente  forte  para  justificar  tal  termo.  A  maioria  dos  pesquisadores  qualitativos
também rejeitaria outra alternativa, de rotular um participante como um “sujeito” de estudo. Consequentemente, usar o
rótulo “participantes” parece ser a melhor alternativa.
3. N. de R.T.: Neste livro, o termo em inglês survey foi traduzido como “pesquisa de levantamento”.
4. Creswell (2007, p. 5), por exemplo, coloca esta questão e a apresenta como fundamento lógico para orientar as pessoas a
fazerem estudos que enfatizem uma de cinco variações de pesquisa qualitativa: pesquisa narrativa, fenomenologia, teoria
fundamentada, etnografia e estudo de caso. Ele admite ser incapaz de abordar outras variações, tais como pesquisa­ação
(p. 11).
5. Rolls (2005), cujo livro consiste de uma compilação de 16 estudos de casos famosos na psicologia (p. ex., o caso sobre
transtorno de múltipla personalidade, conhecido como As três faces de Eva), afirma a mesma coisa da seguinte maneira:
“Mas  nós  sempre  temos  que  descobrir  verdades  universais  do  comportamento?  Às  vezes,  certamente,  é  suficiente
explorar  a  vida  de  um  indivíduo  excepcional”  (p.  2).  Na  história,  a  realização  de  biografias  segue  uma  motivação
semelhante.
6. Entretanto, o uso deste termo não deve ser confundido com um termo que parece semelhante, a visão empirista de como
todo conhecimento humano é criado. Este último faz parte de um debate filosófico muito mais antigo, emanando dos
textos de John Locke e Immanuel Kant, sobre se tal conhecimento resulta apenas das experiências de aprendizado, ou se
os seres humanos já nascem com algum conhecimento inato, tal como a capacidade de perceber e produzir linguagem. O
objetivo de basear­se em evidências, perseguido neste livro, refere­se à realização de um estudo investigativo, não aos
processos (empiristas ou inatos) por meio dos quais os seres humanos acumulam conhecimento.
2
Equipando-se para fazer
pesquisa qualitativa

Certas  competências  pessoais,  incluindo  a  capacidade  de  administrar  pesquisa  de  campo,
também serão importantes para fazer pesquisa qualitativa. Primordial entre as competências é
ser capaz de “escutar” de maneira multimodal, e ao mesmo tempo saber fazer boas perguntas.
Este capítulo trata dessas e de diversas outras competências. Ele também discute modos de
praticar  procedimentos  de  pesquisa  antes  de  eles  serem  empregados  em  um  estudo  real,
contribuindo ainda mais para a preparação de um pesquisador.
Como tema relacionado, e ao fazer qualquer pesquisa, um traço­chave é manter um código
de  ética.  Associações  profissionais  de  ciências  sociais  definiram  códigos  específicos  que
levarão  à  desejada  integridade  de  pesquisa,  e  o  presente  capítulo  sintetiza  e  discute  esses
códigos.  Finalmente,  associado  à  ética  de  fazer  pesquisa  existe  um  procedimento  formal
mediante o qual estudos prospectivos precisam obter aprovação de uma comissão institucional
de ética. O capítulo é concluído descrevendo­se o procedimento e alguns de seus desafios ao
buscar­se aprovação para um estudo de pesquisa qualitativa.

Fazer  pesquisa  qualitativa  é  difícil. Você  precisa  ter  uma  mente  incisiva  e  manter  uma  atitude  coerente
frente  ao  trabalho.  Os  temas  de  investigação  não  se  enquadram  em  limites  nítidos  ou  conhecidos,  e
sempre há surpresas. Além disso, o papel do pesquisador como instrumento básico de pesquisa apresenta
desafios críticos.
Consequentemente, as pessoas que fazem pesquisa qualitativa precisam possuir certas qualidades para
serem  bem­sucedidas.  Este  capítulo  discute  essas  qualidades.  Mesmo  que  você  já  possua  todas  ou  a
maioria delas, uma leitura rápida e atenta deste capítulo pode proporcionar uma proveitosa revisão.

A. COMPETÊNCIAS AO FAZER PESQUISA QUALITATIVA


O que você deve aprender nesta seção:

Usar  os  procedimentos  de  pesquisa  descritos  no  restante  deste  livro  exige  que  você  tenha  certas
habilidades  técnicas.  Entretanto,  estas  não  são  as  competências  abordadas  na  presente  seção.  Em  vez
disso,  ela  trata  de  seis  habilidades  gerais  que  precisam  fazer  parte  de  sua  persona  como  pesquisador:
“escutar”,  fazer  boas  perguntas,  conhecer  seu  tema  de  estudo,  cuidar  de  seus  dados,  executar  tarefas
paralelas e perseverar. Essas habilidades transcendem suas habilidades técnicas específicas e neste sentido
podem ser mais fundamentais do que quaisquer habilidades técnicas específicas.
Em certa medida, você já tem a maioria ou todas as seis habilidades. Seu desafio é aumentar o nível,
para  que  você  possa  desenvolvê­las  e  praticá­las  a  um  grau  exemplar.  Treinamento,  autotreinamento  e
inspiração  no  exemplo  de  pesquisadores  respeitados,  que  possam  servir  de  mentores  ou  modelos,  são
modos de aumentar suas capacidades.

“Escutar”
Esta  habilidade  assume  muitas  formas.  Ela  vai  além  de  seu  senso  de  audição  e  convoca  todos  os  seus
sentidos, inclusive suas intuições. Por exemplo, a “escuta” pode iniciar quando você avalia um grupo de
pessoas – por exemplo, seu humor e esperada cordialidade ou altivez quando você começa a encontrar­se
com  elas.  De  modo  semelhante,  quando  você  conversa  com  outras  pessoas,  observando  sua  linguagem
corporal ou entonações, pode ser tão importante quanto escutar as palavras que elas falam. Finalmente,
escutar  as  palavras  ditas  pelas  pessoas,  em  contraposição  a  dominar  as  conversas  com  suas  próprias
palavras, pode produzir revelações interessantes sobre os pensamentos das pessoas a respeito do que está
acontecendo.
A  desejada  competência  aqui  é  ser  capaz  de  captar  grandes  quantidades  de  informação  sobre  seu
ambiente, especialmente sobre as pessoas em seu ambiente. A captação pode ser explícita ou inferencial.
Frases cotidianas, tais como “ler nas entrelinhas” (de um documento) ou “escutar nas entrelinhas” (das
palavras ditas por outra pessoa), são relevantes para esse tipo de escuta. Assim, pesquisadores de campo
que fazem pesquisa qualitativa precisam sempre suspeitar da existência de algo nas entrelinhas que pode
revelar  os  motivos,  intenções,  ou  significados  mais  profundos  dos  participantes.  Quanto  mais  você  for
capaz de ouvir esses sinais, melhor será seu trabalho de campo.
A  “escuta”  também  tem  um  modo  visual  específico.  Ela  assume  a  forma  de  ser  observador.  A
competência se inicia com alguns simples atributos físicos. Por exemplo, você deve saber da estreiteza ou
amplitude de sua visão periférica, e se, sem virar sua cabeça, você percebe alguma coisa acontecendo do
outro lado da rua com a mesma prontidão que uma pessoa que estivesse caminhando ao seu lado. Você
também  deve  saber  com  que  eficiência  você  é  capaz  de  esquadrinhar  uma  multidão  para  localizar  uma
determinada  pessoa  ou  objeto.  Esses  atributos  físicos  então  se  aliam  a  sua  atenção  a  sinais  visuais,
especialmente  aqueles  que  se  referem  aos  gestos,  linguagem  corporal  e  postura  física  –  e  ajudam  a
construir sua capacidade de ser observador.
Ser observador inclui a capacidade de examinar seu ambiente físico, não apenas social. Os símbolos de
prestígio em um consultório médico, a exibição dos trabalhos dos alunos de uma escola e a boa condição
física  ou  deterioração  de  um  bairro,  tudo  isso  pode  transmitir  informações  significativas  se  seu  estudo
cobrir um ou mais desses ambientes.
Você também pode escutar outras características do ambiente social que não se baseiam totalmente em
indicadores  visuais.  Estes  incluem  o  “tempo”  e  o  “ritmo”  de  um  ambiente,  agitações  sociais,  o  tom  e
entonação  de  conversações  e  a  tensão  geral  que  parece  estar  no  ar.  Você  pode  não  ser  capaz  de  medir
essas características com qualquer precisão, mas ignorá­las pode também não ser uma boa ideia.

Fazer boas perguntas


Embora  muitos  dados  de  pesquisa  virão  da  escuta,  muitos  também  virão  como  consequência  de  fazer
boas perguntas. Sem boas perguntas, você corre o risco de coletar muitas informações irrelevantes e ao
mesmo tempo não coletar informações cruciais. Assim, ainda que seja desejável ser um bom ouvinte, isso
não  significa  se  apresentar  como  uma  pessoa  totalmente  passiva  em  qualquer  ambiente.  Isso  tampouco
significa que você deve esperar não dizer nada além de um repetido “um­hum” em uma entrevista. Você
também precisa fazer boas perguntas.
Se  você  realmente  tem  talento  para  fazer  boas  perguntas,  você  vai  perceber  certa  dificuldade  para
desligar  este  talento.  Por  exemplo,  quando  você  está  entrevistando  participantes  em  um  modo
conversacional  comum  em  pesquisa  qualitativa,  mas  você  também  quer  manter  a  polidez,  você  se  verá
suprimindo  seu  impulso  de  fazer  muitas  perguntas,  por  medo  de  interromper  os  participantes  ou,  pior,
direcionar  suas  palavras.  Entretanto,  terminada  a  entrevista,  o  talento  reaparece  quando  você  sente  a
frustração de agora ter­se lembrado de outra linha de perguntas que você deixou de fazer.
De maneira semelhante, imagine ler um texto relacionado a seu tema de estudo. O talento para fazer
boas  perguntas  estará  refletido  em  sua  tendência  de  fazer  perguntas  a  si  mesmo  durante  a  leitura.  As
perguntas  podem  se  referir  ao  conteúdo  do  texto,  mas  também  podem  dirigir  sua  atenção  à  precisão  e
credibilidade do relato. Enquanto lê o texto, você também pode evocar perguntas sobre a relação entre o
relato  e  as  outras  fontes  de  informação  que  você  vem  consultando  como  parte  de  sua  coleta  de  dados.
Todas essas perguntas levarão a dois tipos de apontamentos feitos durante a leitura: notas sobre a leitura e
notas que refletem essas perguntas.
Uma mente questionadora aparece nas pessoas que fazem uma série de perguntas – as respostas a um
conjunto  de  perguntas  rapidamente  levando  a  outras  perguntas.  Em  contraste,  você  pode  reparar  que
algumas pessoas passam grande parte do tempo falando sobre suas próprias experiências e expressando
suas próprias opiniões em vez de fazer perguntas. Se você tende a ser este segundo tipo de pessoa, você
pode ter dificuldade para fazer boa pesquisa qualitativa.

Conhecer seu tema de estudo


Importante entre as competências esperadas é o conhecimento de seu próprio tema de pesquisa. Muitas
pessoas pensam que, ao fazer pesquisa qualitativa, tal conhecimento gira em torno de ter uma noção do
ambiente de campo e dos participantes de seu estudo. Estas pessoas ignoram o fato de que seu tema de
estudo escolhido provavelmente já terá sido o tema de estudos anteriores. Neste sentido, saber sobre seu
tema de estudo exige que você saiba sobre os resultados de pesquisa anterior sobre o assunto, não apenas
o ambiente de campo e os participantes previstos.
Ter conhecimento suficiente exige que você vá em busca desses outros estudos e aprenda sobre eles,
incluindo  suas  metodologias.  Seu  objetivo  é  evitar  repetição  ou  reinvenção  inadvertida.  Você  pode  até
ficar sabendo sobre algum procedimento de pesquisa que vale a pena imitar em seu próprio estudo. Da
mesma  forma,  revelações  de  estudos  anteriores  também  ajudarão  a  reduzir  a  possibilidade  de  você
interpretar erroneamente seus próprios dados.
Fazer uma revisão seletiva, se não abrangente, da literatura (ver Cap. 3, item B) seria uma forma de
aprender  sobre  estudos  anteriores.  Você  precisa  acessar  tais  estudos,  lê­los  e  familiarizar­se  com  as
questões importantes relacionadas ao seu tema de estudo. Você pode trazer a revisão para mais perto de
casa acessando artigos recentes, teses e dissertações, e apresentações públicas feitas por colegas de sua
própria universidade ou instituição de pesquisa. Por exemplo, você iria querer saber rapidamente se um
colega em seu próprio departamento acadêmico ou organização tinha completado um estudo relacionado
ao seu apenas alguns anos antes.
Se,  por  medo  de  adotar  categorias  e  conceitos  prematuramente,  você  escolhe  não  fazer  revisão  da
literatura, mas opta por uma sequência de “trabalho de campo primeiro” (ver Cap. 3, item C), você pode
ainda  fazer  alguma  preparação  adquirindo  familiaridade  com  seu  campo  de  trabalho  e  participantes
previstos. Use a  internet e  faça pesquisas  sobre  lugares,  organizações e  pessoas.  Leia  sobre uma  ampla
variedade  de  temas  na  Wikipédia.  Fale  com  as  pessoas  sobre  o  ambiente  de  campo.  Embora  essas
informações possam não se basear em pesquisa, elas ainda podem familiarizá­lo com seu tema de uma
maneira  geral,  contanto  que  você  mantenha  uma  mente  aberta  e  esteja  preparado  para  ser
desencaminhado e também informado por essas fontes.

Cuidar de seus dados


Todo mundo provavelmente já passou ao menos uma vez pela experiência de perder inconvenientemente
algum  pertence  pessoal  precioso.  Tão  valiosos  quanto  tais  pertences,  seus  dados  de  pesquisa  assumem
uma  condição  quase  sem  preço  quando  você  está  fazendo  um  estudo  investigativo.  A  competência
relevante envolve ter uma supersensibilidade para reconhecer seus dados e cuidar deles. Você vai querer
ser zeloso e não negligente com seus apontamentos, arquivos eletrônicos e arquivos impressos. Você vai
querer manusear cuidadosamente os documentos ou artefatos que fazem parte de seus dados.
Dados  de  pesquisa,  mas  especialmente  dados  de  campo  em  um  estudo  qualitativo,  exigem  especial
atenção e segurança. Por exemplo, você não deve tolerar a desorganização ou desleixo com suas notas de
campo.  Para  tomar  tais  notas,  você  pode  ter  usado  papéis  de  diferentes  tamanhos  ou  mesmo  tido  que
escrever em ambos os lados da mesma folha de papel – o que normalmente seria mal visto. Assim que
possível,  você  deve  colocar  essas  notas  em  ordem  ou  refiná­las  de  outra  forma  como  discutido  no
Capítulo  7. Você  pode  inclusive  considerar  fotocopiar  materiais  de  tamanhos  irregulares,  para  que  tudo
fique do mesmo tamanho e do mesmo lado. Depois, você deve duplicar essas notas e manter uma cópia
separadamente do original. Da mesma forma, toda vez que você salva notas em um arquivo eletrônico,
você deve criar um arquivo de segurança. Idealmente, o arquivo deve ser externo a qualquer computador
(p. ex., usando um pendrive ou um disco rígido – HD – externo), de modo que os arquivos não estejam
ameaçados  caso  seu  computador  posteriormente  sofra  alguma  falha  de  hardware  ou  software.  Quando
você  faz  gravações  em  fita,  você  precisa  duplicar  as  fitas  assim  que  puder  e  guardá­las  separadas  das
versões originais.
Ao manejar seus dados, todo cuidado é pouco. Alguns itens quando perdidos, como pertences pessoais,
podem  ser  substituídos.  Contudo,  notas  de  campo  não  podem  ser  substituídas.  Você  não  será  capaz  de
replicar  as  condições  exatas  que  produziram  o  conjunto  original  de  notas.  Por  exemplo,  imagine  tentar
manter  a  mesma  conversa  novamente  com  um  participante.  A  conversa  não  será  a  mesma,  e  o
participante pode ter menos consideração por você depois que você admitiu que perdeu as anotações que
continham a conversa original.
Uma situação semelhante surge com dados documentais. Você deve determinar desde o início se você
vai poder duplicar os documentos. Em caso negativo, ou se você não quer ter o ônus de ficar carregando
muitos papéis, você vai ter que tomar notas no local. Essas notas devem receber sua maior atenção. Você
pode não obter acesso aos mesmos documentos outra vez. Da mesma forma, documentos antigos ou em
deterioração  podem  ser  mais  bem  protegidos  colocando­os  em  seus  envelopes  ou  pastas  de  arquivo
devidamente rotulados.

Executar tarefas paralelas


As atividades na pesquisa qualitativa não vêm em um pacote bem amarrado. Você será constantemente
desafiado a ter que desempenhar ou atentar para múltiplas tarefas, nem todas sob seu direto controle, ao
mesmo tempo. Esse ambiente complexo difere do trabalho do estereotípico cientista de “bancada”, cujo
desafio  (e  talento)  pode  ser  concentrar­se  intensamente  em  uma  única  exibição  ou  conjunto  de  dados,
tentando resolver algum quebra­cabeça técnico.
Algumas  das  múltiplas  tarefas  já  foram  assinaladas.  Por  exemplo,  você  terá  que  saber  como  fazer
observações  de  campo  e  tomar  notas  ao  mesmo  tempo. A  dupla  tarefa  pode  não  parecer  diferente  de
tomar  notas  em  uma  reunião.  Entretanto,  você  pode  ter  que  manter  essas  tarefas  durante  um  período
prolongado  de  tempo. A  fadiga  e  a  necessidade  de  descanso  podem  se  tornar  um  problema.  Às  vezes,
assim  que  você  inicia  uma  pausa  e  largou  suas  notas,  algum  evento  inesperado  no  ambiente  acontece,
exigindo novamente sua atenção. Ao fazer trabalho de campo, você pode descobrir que a única pausa ou
descanso  real  ocorre  quando  você  abandonou  totalmente  o  campo  e  está  em  um  ambiente  totalmente
privado.
Outros tipos de tarefas múltiplas ao fazer pesquisa qualitativa podem ser igualmente demandantes. Por
exemplo, as relações recursivas em vez de lineares entre seu delineamento de estudo, coleta de dados e
análise de dados são discutidas em detalhe nos Capítulos 4 a 9 deste livro. Tais relações significam que,
enquanto estamos coletando dados, precisaremos simultaneamente estar pensando sobre suas implicações
analíticas, em parte para determinar se precisaremos coletar dados adicionais para confirmar ou aumentar
os dados coletados.
Um  último  exemplo.  No  nível  mais  simples  de  ter  que  desempenhar  múltiplas  tarefas  em  pesquisa
qualitativa,  pense  sobre  a  seguinte  situação:  ouvir  a  representação  de  um  evento  importante  por  um
participante, com todos os seus detalhes e nuances críticas refletindo um ambiente cultural diferente do
seu  –  ao  mesmo  tempo  mantendo  uma  atitude  social  atenta  que  mostre  ao  participante  que  você  se
importa com o que está sendo dito – e também enquanto está pensando sobre a(s) próxima(s) pergunta(s).
Fique certo de que você realmente terá desenvolvido uma competência especial depois de ter dominado
tais situações.

Perseverar
Esta palavra pretende abranger diversas qualidades pessoais – todas de alguma forma relacionadas a uma
capacidade  de  aderir  a  sua  busca  a  despeito  das  inevitáveis  frustrações,  incertezas  e  mesmo  fatos
desagradáveis  que  podemos  confrontar  ao  fazer  pesquisa  qualitativa.  Como  você  está  estudando
acontecimentos da vida real, eles assumem seu próprio curso natural e podem alternativamente apresentar
resistências  e  desafios  imprevistos.  Você  também  pode  ter  que  lidar  com  situações  interpessoais
constrangedoras ou difíceis.
A competência envolve sua capacidade de avançar na pesquisa apesar de todos esses enfrentamentos.
Naturalmente, pode chegar um ponto em que o melhor a fazer é parar o estudo, e, caso você chegue a esse
ponto, deve consultar outras pessoas, tais como colegas e consultores, antes de jogar a toalha. Entretanto,
tal destino não tende a ocorrer na vasta maioria dos casos. Nesses casos, perseverar e pensar sobre como
lidar  com  situações  difíceis  pode  levar  a  estudos  exemplares,  tais  como  o  estudo  da  vida  familiar
realizado  por  Annette  Lareau  (2003)  e  sua  equipe  de  pesquisa  (ver  “Superando  os  desafios  de  fazer
pesquisa de campo intensiva”, Quadro 2.1).
Superando os desafios de fazer pesquisa de campo intensiva

B. GERENCIANDO A PESQUISA DE CAMPO

O que você deve aprender nesta seção:

Além  dessas  qualidades  e  competências  pessoais,  a  capacidade  de  fazer  pesquisa  qualitativa  inclui
equipar­se para gerenciar a pesquisa de campo.
Os  tipos  de  pesquisa  de  campo  variam.  Você  pode  servir  como  um  observador­participante  em  um
ambiente da vida real (ver Cap. 5, item D). Fazer tal pesquisa exige reconhecer que, inerente à natureza
do “campo”, os eventos não estão sob controle do pesquisador, nem ninguém desejaria que estivessem.
Consequentemente, o desafio de administrar a pesquisa de campo é alcançar algum grau de metodicidade
–  mas  evitar  intrometer­se  no  que  está  acontecendo  e  ser  capaz  de  tolerar  níveis  de  incerteza
ocasionalmente altos.
Por  outro  lado,  podemos  conduzir  um  estudo  qualitativo  que  depende  predominantemente,  se  não
exclusivamente,  de  conduzir  uma  série  de  entrevistas  abertas  (ver  “Um  estudo  qualitativo  baseado
unicamente  em  entrevistas  abertas”,  Quadro  2.2.).  Observe  que  tais  entrevistas  provavelmente  diferirão
das partes abertas de estudos de levantamento.

Um estudo qualitativo baseado unicamente em entrevistas abertas

campus

scripts

Ver também Quadro 11.5.

Em pesquisa qualitativa, as entrevistas geralmente assumem um modo conversacional (abordado mais
detalhadamente no Cap. 6, item B). Em uma única entrevista, esse modo pode continuar por um período
mais extenso, tal como 2 horas. O objetivo é encorajar os participantes a dispor de tempo e oportunidade
para reconstruir suas próprias experiências e realidade em suas próprias palavras. Assim, a entrevista não
pode se basear apenas em um questionário criado pelo pesquisador. Para muitos estudos, a mesma pessoa
pode  ser  entrevistada  dessa  forma  em  três  ocasiões  separadas:  a  primeira  entrevista  poderia  cobrir  a
história de vida do participante; a segunda, os eventos envolvidos no tema de estudo; e a terceira poderia
abranger as reflexões do participante sobre o significado de suas experiências (Seidman, 2006, p. 15­19).
Gerenciar o trabalho de campo em um estudo de entrevista desse tipo envolverá recrutar participantes e
encontrar  lugares  para  fazer  as  entrevistas.  Os  locais  desejados  são  espaços  prontamente  convenientes
para  cada  participante  (p.  ex.,  normalmente,  a  casa  de  um  participante,  dependendo  da  natureza  do
estudo). Menos desejável é fazer o participante se deslocar para um espaço conveniente ao pesquisador
(p. ex., o escritório do pesquisador).
Esses  desafios  administrativos  são  depois  combinados  em  muitos  estudos  qualitativos,  que  podem
consistir de fazer tanto observação participante quanto entrevistas extensas, não apenas um ou o outro.

Criar tempo para pensar no futuro


Ser organizado nessas circunstâncias exige uma postura paradoxal. Vamos querer ser capazes de seguir o
fluxo natural dos eventos no campo, mas também devemos ter certeza de que estamos preparados para
acompanhar esse fluxo.
Nesse aspecto, um conhecido consultor administrativo e autor recordista de vendas, Stephen Covey, há
muito  tempo  definiu  uma  matriz  de  2x2  cobrindo  todos  os  tipos  de  trabalho,  não  apenas  o  trabalho  de
campo.  Entretanto,  a  matriz  apresenta  revelações  que  na  verdade  parecem  ser  especialmente  úteis  para
compreender como gerenciar o trabalho de campo. Ao longo de uma dimensão da matriz, as tarefas de
trabalho podem ser consideradas urgentes ou não urgentes; ao longo da outra dimensão, as tarefas podem
ser  consideradas  importantes  ou  não  importantes  (ver  Tabela  2.1).  As  quatro  células  resultantes  são
rotuladas Células I, II, III e IV.

Matriz de gerenciamento do tempo de Stephen Covey (1989) (ligeiramente abreviada)

Urgente Não urgente

Importante

Não
importante e-mails

A matriz ajuda a compreender o que poderia acontecer em empregos de alta pressão. Muitas tarefas são
inevitavelmente  tanto  urgentes  quanto  importantes  (Célula  I).  As  pessoas  podem  então  agravar  suas
próprias situações permitindo que tarefas não importantes tornem­se urgentes, tal como ao ignorar prazos
conhecidos e depois ter que se apressar para completar uma tarefa não importante (Célula III).
Covey  observa  que  quanto  mais  um  dia  é  preenchido  com  tarefas  urgentes,  maior  a  necessidade  de
revigorar as energias psíquicas, se não físicas, fazendo pausas e atividades de lazer que se enquadrariam
na  Célula  IV. Você  pode  imaginar  os  reflexos  que  tal  pausa  no  trabalho  de  campo  teriam  se  fizer  uma
refeição sem pressa e deliberadamente não pensar sobre o trabalho.
Uma consequência desse padrão é minimizar e talvez eliminar o tempo necessário para fazer tarefas
importantes, mas não urgentes (Célula II). Em outras palavras, se você permite que seu tempo no campo
seja consumido pelas tarefas nas Células I, III e IV, você pode ter perdido a oportunidades de planejar,
reavaliar sua situação, construir melhores relações, ou fazer as tarefas importantes na Célula II. Assim,
sua  preocupação  com  a  urgência  dos  eventos  que  lhe  confrontam  imediatamente  pode  acarretar  sua
incapacidade de antever novos eventos ou tirar vantagem de oportunidades inesperadas.
A matriz, portanto, ilustra como você pode ter dificuldade para preservar tempo suficiente em campo
para pensar sobre seus próximos passos e considerar alternativas – em outras palavras, planejar. Sem tal
planejamento, e como em sua própria vida pessoal, você não será capaz de se colocar um pouco à frente
dos fatos antevendo seu próximo movimento. Em vez disso, você estará sempre um ou mais passos atrás,
constantemente tentando recuperar o terreno perdido.

Gerenciamento como parte de uma equipe de campo


Na  maioria  dos  estudos  qualitativos,  o  trabalho  de  campo,  seja  da  variante  observador­participante  ou
entrevista,  é  conduzido  por  pesquisadores  desacompanhados.  Nessas  condições,  o  principal  desafio  no
manejo do trabalho de campo envolve autogestão e a capacidade de controlar a si mesmo.
Entretanto, alguns estudos qualitativos deliberadamente envolvem pessoas adicionais para auxiliar no
trabalho de campo. Os papéis dessas pessoas diferem.
No  papel  menos  exigente,  outra  pessoa  pode  ser  convocada  para  servir  como  acompanhante  do
pesquisador  principal  –  acompanhando­o,  mas  sem  realizar  qualquer  função  formal  de  pesquisa.  Às
vezes, a necessidade pode ser de segurança pessoal – como quando uma pesquisadora deve visitar lares
de rapazes para entrevistá­los à noite (p. ex., Royster, 2003). Em outras situações, a necessidade pode ter
uma  base  cultural  –  como  quando  a  realização  de  uma  entrevista  privada  entre  um  pesquisador  de  um
sexo  com  uma  pessoa  do  sexo  oposto  pareceria  socialmente  inadequada  e  ameaçaria  a  reputação  do
pesquisador na comunidade que está sendo estudada (p. ex., Menjívar, 2000, p. 246­247).
Papéis mais exigentes requerem que o colega seja treinado para desempenhar funções de pesquisa. Tal
colega  poderia  ser  convocado  para  resolver  problemas  de  reflexividade.  Por  exemplo,  o  pesquisador
principal  pode  ter  a  preocupação  de  que  uma  diferença  de  gênero,  idade,  ou  raça  e  etnicidade  possa
acarretar uma distorção nos resultados de entrevista. Uma parcela das entrevistas ser conduzida por um
colega  que  difere  em  alguma  dimensão  demográfica  fundamental  ajudaria  a  resolver  essa  preocupação
(ver “Trabalho em equipe desejável para um estudo baseado em entrevistas abertas”, Quadro 2.3).

Trabalho em equipe desejável para um estudo baseado em entrevistas abertas

Uma  motivação  completamente  diferente  para  ter  membros  de  equipe  adicionais  surge  quando  o
âmbito  do  estudo  é  amplo  demais  para  ser  coberto  por  um  único  pesquisador.  A  situação  típica  seria
aquela  em  que  o  estudo  tem  múltiplos  ambientes  de  campo.  Para  eliminar  diferenças  temporais  ou
sazonais  na  coleta  de  dados  nesses  ambientes,  o  trabalho  de  campo  precisa  ser  conduzido  durante  o
mesmo período de tempo. Nessa situação, o pesquisador principal precisaria treinar completamente um
ou  mais  coinvestigadores,  cada  um  deles  cobrindo  um  ambiente  diferente  (ver  “Fazendo  trabalho  de
campo com múltiplas pessoas trabalhando em múltiplos ambientes”, Quadro 2.4).
Fazendo trabalho de campo com múltiplas pessoas trabalhando em múltiplos ambientes

Ver também Quadro 11.2

A necessidade de colegas plenamente treinados também pode existir mesmo que um estudo não seja
realizado em múltiplos ambientes. Em vez disso, o estudo poderia exigir a coleta de um extenso volume
de  dados  sobre  o  mesmo  ambiente.  Na  situação  mais  complexa,  uma  equipe  de  pesquisa  inteira  pode
montar  um  escritório  de  campo  e  radicar­se  ali  por  um  ou  dois  anos  (p.  ex.,  Lynd  &  Lynd,  1929).  Os
dados  relevantes  podem  não  se  limitar  a  observações  e  entrevistas  de  campo,  mas  podem  envolver
levantamentos, bem como acesso e exame de informações arquivais e documentais.
De  modo  mais  simples,  todos  os  membros  de  uma  equipe  ainda  poderiam  ter  que  trabalhar  juntos
durante  um  período  prolongado  de  tempo,  mas  não  necessariamente  a  partir  de  um  único  escritório. A
coleta de dados seria variada como no exemplo anterior, mas também poderia ser extensa, coletando, por
exemplo,  as  histórias  de  vida  de  150  pessoas  (p.  ex.,  ver  “Organizando  uma  equipe  de  pesquisa  para
coletar dados de campo vastos”, Quadro 2.5).
Organizando uma equipe de pesquisa para coletar dados de campo vastos

fast food

fast food

fast food

Em  qualquer  uma  dessas  últimas  situações,  em  que  colegas  estão  coletando  dados  de  uma  maneira
coordenada,  seja  no  mesmo  ou  em  vários  locais,  surgem  procedimentos  de  gestão  de  equipe  cruciais.
Primeiro, a equipe provavelmente quer desenvolver e usar um protocolo de campo comum, para reduzir
uma indesejável variabilidade na coleta de dados (ver Cap. 4, Opção 8, para uma discussão de protocolos
de campo).  Segundo, a equipe  vai precisar  realizar reuniões  regulares durante  o  período  de trabalho de
campo,  conscienciosamente  coordenando  e  dividindo  seu  trabalho  (p.  ex.,  Lareau,  2003,  p.  268).  A
liderança  pelo(s)  investigador(es)  principal(is)  no  sentido  de  garantir  que  essas  práticas  ocorram
adequadamente torna­se essencial.

C. PRATICANDO

O que você deve aprender nesta seção:

Pesquisar  pode  ser  considerado  uma  espécie  de  estudo.  Em  outros  tempos,  “fazer  pesquisa”  podia
significar sentar­se em uma biblioteca e ficar lendo e manipulando informações. Conhecimentos de valor
podiam  ser  obtidos  com  esse  tipo  de  trabalho.  Atualmente,  fazer  pesquisa  significa  também  coletar
ativamente  novos  dados,  quer  em  um  laboratório  quer  em  um  ambiente  da  vida  real.  Nesse  sentido,
pesquisar não é apenas uma forma de estudo. É também uma prática. Práticas podem ser “exercitadas” e
quanto  mais  são  exercitadas,  melhores  tendem  a  ser  os  resultados.  Equipar­se  para  fazer  pesquisa
qualitativa praticando­a é, assim, o tema desta seção.
Infelizmente, a melhor prática para fazer um estudo qualitativo é já ter feito um. Entretanto, essa lógica
não ajuda a compreender o que fazer antes de seu primeiro estudo qualitativo. O que você pode fazer é
praticar  alguns  dos  procedimentos  de  pesquisa  fundamentais  de  maneira  independente  e  na  base  da
tentativa.

Usando os exercícios deste livro para praticar


Os exercícios deste livro apresentam alguns desses procedimentos. Possivelmente, os preferíveis seriam
aqueles  diretamente  relacionados  à  coleta  de  dados  de  campo,  os  quais  incluem  cotejar  duas  fontes  de
dados diferentes (exercício para o Cap. 6).
Nessa  situação,  embora  o  exercício  apenas  exija  que  você  complete  um  único  exemplo,  tal  como
comparar  um  único  documento  com  uma  entrevista  de  uma  única  pessoa,  você  pode  fazer  mais.  Você
poderia  facilmente  examinar  vários  documentos,  pareados  com  entrevistas  de  várias  pessoas.  Para  tirar
máximo proveito da prática, você deve avaliar seu próprio trabalho depois de cada pareamento e decidir
que  mudanças  ou  melhorias  você  poderia  fazer  no  pareamento  subsequente.  Para  entrevistas,  por
exemplo, você deve com a prática ir se acostumando a escutar, fazer perguntas e tomar notas ao mesmo
tempo. Idealmente, você terá desenvolvido um procedimento de rotina com o qual se sente à vontade.
Além  de  uma  autoavaliação,  fazer  uma  pessoa  observar  seu  trabalho  pode  gerar  um  retorno  e  ser  de
grande ajuda.

Fazendo um estudo-piloto
Os estudos­piloto ajudam a testar e refinar um ou mais aspectos de um estudo final – por exemplo, seu
delineamento, procedimentos de trabalho de campo, instrumentos de coleta de dados ou planos de análise.
Neste sentido, o estudo­piloto fornece outra oportunidade de praticar.
As informações de um estudo­piloto podem variar dos temas logísticos (p. ex., aprender sobre o tempo
em  campo  necessário  para  aplicar  certos  procedimentos)  até  outros  mais  importantes  (p.  ex.,  refinar  as
questões  de  pesquisa  de  um  estudo).  Seja  qual  for  a  finalidade  do  estudo­piloto,  os  participantes  dele
precisam saber que estão participando de um estudo­piloto. Você pode ficar surpreso ao ver que eles estão
mais do que dispostos a participar porque você pode projetar uma parte do piloto – e não necessariamente
uma parte que estará presente no estudo final – para atender às suas necessidades.
Por exemplo, os participantes podem querer um retorno de um observador externo em relação a uma
questão urgente sua. Os participantes podem até pedir que você lhes forneça um breve relatório escrito
sobre aquela questão depois que o piloto esteja concluído. Concordar em fazer essas tarefas tornará mais
fácil a organização do estudo­piloto.

Motivando-se
Aumentar as motivações para fazer um estudo qualitativo também pode ser praticado, sendo uma maneira
final importante de se equipar. Se você tem temores antes de iniciar um estudo, estímulos motivacionais
serão  úteis. Tais  estímulos  podem  provir  de  uma  postura  competitiva,  como  ao  fixar  altas  expectativas
para  realizar  seu  estudo.  Você  pode  conferir  estudos  relacionados,  ver  como  outros  pesquisadores
executaram seu trabalho em circunstâncias semelhantes e aspirar fazer melhor.
Se o anseio competitivo não se aplica a você, um modo alternativo de aumentar a motivação poderia
ser pensar sobre a satisfação que você vai ter fazendo pesquisa qualitativa. Lembre­se de que a pesquisa
qualitativa  lhe  dá  a  oportunidade  de  estudar  um  ambiente  da  vida  real  em  seus  próprios  termos,  deste
modo colocando uma ampla gama de temas de estudo a sua disposição. Lembre­se do conhecimento a ser
obtido fazendo pesquisa qualitativa. Lembre­se das valiosas experiências de outros pesquisadores, muitos
deles conhecidos em suas áreas, que realizaram pesquisa qualitativa com êxito.
Finalmente,  você  pode  ainda  querer  saber  mais  sobre  pesquisa  qualitativa  antes  de  se  comprometer
com este empreen dimento. Para ajudar­lhe, você pode pular para o Capítulo 5. Esse capítulo se concentra
inteiramente na experiência de trabalho de campo e como você poderia empreen der o trabalho de campo
em um estudo de pesquisa qualitativa. O objetivo é transpor o brilho e fascínio inicial de fazer pesquisa
qualitativa,  como  discutido  anteriormente  (ver  Cap.  1,  item A),  e  obter  uma  noção  realista  de  como  é
fazer  trabalho  de  campo  em  pesquisa  qualitativa,  incluindo  os  desafios  que  outros  enfrentaram  e  as
soluções que encontraram.
Além  de  praticar  suas  habilidades  de  pesquisa  e  motivar­se  antes  de  iniciar  um  estudo  real,  há  uma
qualidade pessoal extremamente importante que lhe equipará para fazer pesquisa qualitativa, discutida a
seguir.

D. ESTABELECENDO E MANTENDO PADRÕES ÉTICOS DE


CONDUTA

O que você deve aprender nesta seção:

Durante toda a sua carreira como pesquisador, em menor grau ao realizar qualquer estudo investigativo,
você vai precisar manter um traço pessoal essencial: você vai precisar manter um forte senso de ética em
sua  pesquisa.  Ter  esse  senso  de  ética  é  fundamental  devido  às  inúmeras  opções  arbitrárias  feitas  por
pesquisadores  e  especialmente  por  pesquisadores  qualitativos.  (O  espírito  ético  transcende,  mas  está
diretamente relacionado aos procedimentos específicos para proteção de sujeitos humanos, tema da seção
final deste capítulo.)

Um desafio ético ilustrativo: examinando com imparcialidade todos os seus


dados
Por exemplo, ao fazer pesquisa, uma das escolhas mais importantes envolve decidir quais dados, uma vez
coletados, incorporar em uma análise. Embora o primeiro objetivo importante para construir confiança e
credibilidade,  como  discutido  no  Capítulo  1,  seja  relatar  os  procedimentos  de  pesquisa  e  os  dados  da
maneira  mais  transparente  possível,  alguns  dados  sempre  ficarão  fora  da  análise  e  também  não  serão
relatados.
À  primeira  vista,  isso  ocorre  porque  é  impossível  analisar  todos  os  dados  que  foram  coletados.  Da
mesma  forma,  o  relato  completo  de  todos  os  dados  é  limitado  pelo  espaço  disponível  em  um  artigo  de
revista. Trabalhos mais extensos, como livros ou teses, também têm seus limites. Os pesquisadores devem
trabalhar  com  todos  os  seus  dados  –  mas  será  que  alguns  pesquisadores  podem  ter  ignorado  alguns  de
seus dados porque não apoiaram as principais proposições de seu estudo?
Ninguém  abertamente  exclui  tais  casos  negativos.  Como  discute­se  posteriormente  neste  livro  (ver
Cap.  4,  Opção  2),  tais  casos  negativos  devem  na  verdade  ser  altamente  apreciados  como  maneiras  de
sustentar  um  estudo,  mesmo  se  levarem  a  modificações  de  suas  premissas  originais.  Entretanto,  a
possibilidade de excluir dados pode­se tornar uma realidade – mesmo em pesquisa experimental – porque
um  sujeito  humano  pareceu  não  querer  cooperar  ou  um  dos  testes  experimentais  pareceu  irregular.  Os
dados do experimentador estão sendo ignorados por razões práticas ou por causa de resultados contrários?
Ao fazer pesquisa qualitativa, uma situação semelhante pode surgir quando se ignora uma entrevista de
um  participante  incrédulo.  Será  que  o  participante  é  realmente  incrédulo,  ou  ele  está  simplesmente
discordando  das  crenças  estabelecidas  do  pesquisador?  Em  outras  palavras,  embora  não  esteja
flagrantemente  ignorando  um  conjunto  seleto  de  dados,  o  pesquisador  pode  encontrar  alguma  desculpa
para justificar sua exclusão.
Evitar  esse  tipo  de  tendenciosidade  exige  um  forte  padrão  ético.  Você  precisa  iniciar  sua  pesquisa
estabelecendo regras claras para definir as circunstâncias em que quaisquer dados devem posteriormente
ser excluídos. Você então vai precisar monitorar seu próprio trabalho e ter força de vontade para seguir
suas próprias regras. Por exemplo, uma estrutura de tomada de decisões, abrangendo critérios explícitos
sobre  como  uma  determinada  situação  se  harmoniza  com  suas  intuições,  regras,  princípios  e  teoria,
valores  e  ação,  pode  ser  útil  (ver  Newman  &  Brown,  1996,  p.  101­113).  Você  precisa  se  conhecer
suficientemente  bem  para  prever  quando  você  se  sentirá  tentado  a  “fazer  uma  exceção”  e  se  opor  à
tentação com uma admoestação ainda mais forte em relação às terríveis consequências de infringir suas
próprias regras. (Quando muito, você deve estar menos disposto a fazer exceções quando elas vão contra
suas próprias pressuposições.)

Códigos de ética
Comportar­se  corretamente  nessa  situação  é  considerada  uma  questão  de  integridade  da  pesquisa.  É
possível encontrar orientação real sobre essa integridade em uma série de fontes. Essas fontes oferecem
códigos de ética, padrões éticos, ou princípios norteadores formalmente declarados e são promovidas por
associações  profissionais.  A  Tabela  2.2  contém  ilustrações  selecionadas  de  cinco  associações
profissionais cujos membros incluem aqueles que realizam pesquisa qualitativa. A orientação diz respeito
a todos os tipos de pesquisa tratados por essas profissões, não apenas pesquisa qualitativa.
Estas guias ou códigos se aplicam sempre que uma pessoa está fazendo pesquisa e representando uma
determinada  profissão. A  Tabela  2.2  só  dá  uma  visão  geral  dos  códigos  das  associações.  Para  ver  um
quadro completo, você deve encontrar, ler e manter em mente pelo menos um desses códigos – ou algum
exemplo  semelhante  oriundo  de  alguma  outra  profissão  relacionada  a  seu  trabalho  –  quando  estiver
fazendo sua pesquisa.

Itens ilustrativos nos códigos de ética de cinco associações profissionais (exclui questões sobre proteção de
sujeitos humanos)

Associação/ano de
publicação Itens ilustrativos

Responsabilidade com as pessoas e animais sendo estudados: p. ex., evitar danos;
respeitar o bem­estar
Responsabilidade com o saber e a ciência: p. ex., esperar dilemas éticos; evitar
deturpação e engano
Responsabilidade com o público: p. ex., ser franco e honesto

Responsabilidades com o campo: p. ex., conduzir vidas profissionais para evitar pôr a
profissão em risco; não fabricar ou falsificar; revelar qualificações e limitações ao
oferecer opiniões profissionais; relatar resultados a todas as partes interessadas;
divulgar todos os dados e procedimentos para que outros pesquisadores
compreendam e interpretem
Propriedade intelectual, p. ex., diretrizes para coautoria
Alterar, analisar e avaliar estudos

Investigação sistemática: p. ex., precisão e credibilidade dos resultados
Competência: p. ex., possuir habilidades necessárias para executar tarefas de
avaliação
Integridade/honestidade: p. ex., no próprio comportamento e em todo o processo de
avaliação
Respeito pelas pessoas: p. ex., sua segurança, dignidade e autoestima
Responsabilidades pelo bem­estar público e geral: p. ex., levar em conta a diversidade
de interesses e valores relacionados à avaliação

Competência profissional: p. ex., manter­se a par de informações científicas e
profissionais correntes
Integridade: p. ex., honestidade, justeza e respeito
Responsabilidade profissional e científica: p. ex., adotar os padrões mais elevados e
aceitar a responsabilidade pelo próprio trabalho
Respeitar os direitos, dignidade e diversidade
Responsabilidade social

Ações reclamatórias: p. ex., por direitos humanos de estudiosos em outros países
Ética profissional adotada pela Associação Americana de Professores Universitários:
p. ex., buscar e declarar a verdade; desenvolver e aperfeiçoar competência acadêmica
Princípios de conduta profissional: p. ex., liberdade e integridade da pesquisa

Os  códigos  não  são  documentos  longos.  Por  exemplo,  o  código  da American  Educational  Research
Association  (AERA,  2000)  contém  seis  conjuntos  de  normas  de  orientação.  Cada  conjunto  tem  um
preâmbulo  seguido  por  uma  série  de  normas.  O  preâmbulo  para  o  primeiro  conjunto,  que  trata  das
“responsabilidades  com  a  área”,  representa  um  bom  exemplo  do  que  você  vai  encontrar  em  todos  os
códigos:

Observe  como  o  preâmbulo  não  pressupõe  nenhum  tipo  de  pesquisa  qualitativa  ou  não  qualitativa,
muito menos qualquer das variações da pesquisa qualitativa, anteriormente identificadas no Capítulo 1.
Em  vez  disso,  o  preâmbulo  se  aplica  a  qualquer  tipo  de  pesquisa,  apontando  para  a  necessidade  de
apresentar  algum  tipo  de  respaldo  metódico  (“justificativa”)  para  as  conclusões  e  manter  um  nível
profissional de competência (“manter­se... bem informado”).

Integridade da pesquisa
Esta qualidade pessoal, posicionada de forma destacada e comum aos vários códigos, não deve ser dada
como garantida. Em sua forma mais crua, integridade da pesquisa significa que se pode confiar que você
e suas palavras representam posições e declarações verídicas. Embora a pesquisa não exija que você faça
um juramento, como em outras áreas, as pessoas devem saber, por meio de suas ações, conduta e métodos
de  pesquisa,  que  você  está  se  esforçando  para  produzir  uma  pesquisa  que  seja  honesta,  inclusive  para
esclarecer o ponto de vista que está sendo representado. Declarações honestas podem incluir advertências
ou  reservas,  indicando  incertezas  que  não  puderam  ser  superadas.  Entretanto,  na  ausência  de  tais
advertências  e  reservas,  as  pessoas  têm  direito  de  pensar  que  você  realmente  apresenta  declarações
verídicas.
A  integridade  da  pesquisa  tem  especial  importância  na  pesquisa  qualitativa.  Uma  vez  que  os
delineamentos e procedimentos para fazer pesquisa qualitativa são potencialmente mais flexíveis do que
para  fazer  a  maioria  dos  outros  tipos  de  pesquisa,  as  pessoas  vão  querer  saber  que  pesquisadores
qualitativos fizeram todo o possível para conduzir sua pesquisa de maneira precisa e justa. Por exemplo,
um  sinal  de  integridade  da  pesquisa  é  a  disposição  a  ser  refutado,  ou  mesmo  ver  questionado  seu
pensamento prévio sobre um assunto.

Divulgação como uma maneira de demonstrar integridade da pesquisa


Quase  todos  os  pesquisadores  alegarão  prontamente  que  possuem  tal  integridade  da  pesquisa.  Como
comunicar isso aos outros pode ser outro problema.
Uma  maneira  útil  é  revelar  as  condições  que  podem  influenciar  a  realização  de  um  estudo.  Por
exemplo,  todo  mundo  concorda  que  os  pesquisadores  devem  revelar  o  máximo  possível  sobre  as
condições metodológicas que poderiam afetar um estudo e seus desfechos – tais como de que forma um
ambiente de campo ou seus participantes foram selecionados. Entretanto, a pesquisa qualitativa exige a
divulgação dos papéis pessoais e traços de um pesquisador que também poderiam afetar um estudo e seus
desfechos.
Mais comumente, essas condições pessoais incluem a influência do perfil demográfico do pesquisador
(sexo,  idade,  raça  e  etnicidade  e  classe  social).  O  perfil  poderia  não  apenas  influenciar  as  lentes  de
pesquisa por meio das quais o pesquisador interpreta os eventos, mas também os modos pelos quais os
participantes poderiam reflexivamente reagir à presença do pesquisador, incluindo a escolha de temas ou
as respostas dos participantes em conversações de campo. O estudo de Marwell (2007) das organizações
comunitárias  no  Brooklyn  apresenta  um  excelente  exemplo  de  como  as  condições  tanto  metodológicas
quanto  pessoais  podem  ser  reveladas.  Sua  revelação  também  inclui  descrever  como  os  participantes
receberam  a  escolha  de  permanecerem  anônimos  ou  serem  citados  em  seu  manuscrito  final  (ver
“Detalhando  as  escolhas  metodológicas  e  condições  pessoais  ao  fazer  um  estudo  qualitativo”,  Quadro
2.6).
Detalhando as escolhas metodológicas e condições pessoais ao fazer um estudo qualitativo

As condições pessoais também incluem as associações que o pesquisador pode ter com os participantes
estudados.  Por  exemplo,  pesquisadores  podem  estudar  suas  próprias  organizações,  comunidades  ou
grupos  sociais  –  todos  os  quais  podendo  ser  considerados  uma  forma  de  pesquisa  com  informações
privilegiadas.  Com  frequência,  os  pesquisadores  podem  residir  no  mesmo  bairro  em  que  vivem  os
participantes,  usando  uma  residência  local  para  estabelecer  vínculos  mais  estreitos,  bem  como
desenvolver  maior  familiaridade  com  condições  culturais  e  outras  condições  contextuais.  Entretanto,
essas  situações  não  parecem  criar  um  possível  conflito  tão  forte  como  quando  pesquisadores  estão
estudando a mesma organização da qual fazem parte. Estes últimos podem ter complicadas implicações
de  poder  e  supervisão  (p.  ex.,  Brannick  &  Coghlan,  2007;  Karra  &  Phillips,  2008),  todas  as  quais
podendo precisar fazer parte de uma divulgação sobre a afiliação.
Como  uma  última  condição  pessoal,  ao  praticar  algumas  variantes  de  pesquisa  qualitativa,  um
pesquisador  pode  assumir  uma  posição  de  advocacia  em  relação  ao  tema  estudado.  Quer  reconheçam
formalmente um papel de defesa ou simplesmente favoreçam certas opiniões, tais perspectivas também
precisam ser divulgadas. O conceito mais amplo, discutido ao longo deste livro, se refere a informações
sobre  reflexividade  –  descrever  da  melhor  forma  possível  os  efeitos  interativos  entre  pesquisador  e
participantes,  incluindo  os  papéis  sociais  à  medida  que  eles  se  desenvolvem  no  campo,  mas  também
abrangendo  posições  de  advocacia.  O  estudo  de  Bales  (2004)  da  escravidão  humana  contemporânea
oferece  um  exemplo  de  uma  forma  de  divulgar  tais  informações  (ver  “Fazendo  pesquisa  qualitativa  e
defendendo uma causa sociopolítica, Quadro 2.7).
Fazendo pesquisa qualitativa e defendendo uma causa sociopolítica

Free the Slaves

Os exemplos anteriores ilustram o uso de divulgação como uma forma de comunicar a integridade de
nossa  pesquisa.  Um  leitor  que  discorde  das  posições  ou  condições  divulgadas  tem  então  a  opção  de
ignorar totalmente a pesquisa relatada. Por essa razão, você pode querer seguir uma prática comum de ler
atentamente  o  prefácio,  as  seções  metodológicas,  as  declarações  biográficas  e  até  as  sinopses  nas
contracapas  de  livros,  antes  de  ler  o  mais  importante  de  um  relato  de  pesquisa.  Se  algumas  condições
reveladas parecem censuráveis, você pode desconsiderar totalmente o relato, ou você pode lê­lo com um
olhar  crítico,  para  compensar  a  eventual  preocupação  de  que  a  pesquisa  possa  estar  indevidamente
comprometida.
De  modo  geral,  as  questões  de  conduta  ética  e  os  modos  de  comprovar  sua  pesquisa  fazem  parte  da
atividade preparatória adicional, abordada a seguir.

E. PROTEGENDO SUJEITOS HUMANOS: OBTENDO APROVAÇÃO DE


UM COMITÊ INSTITUCIONAL DE ÉTICA

O que você deve aprender nesta seção:

Todo  estudo  com  participantes  humanos,  qualitativo  ou  não,  requer  aprovação  prévia  de  um  comitê
institucional  de  ética  (CIE). A  obtenção  da  necessária  aprovação  pode  ser  uma  parte  rotineira  de  fazer
pesquisa  qualitativa.  Obter  a  aprovação  também  pode  ser  motivo  de  muita  frustração,  exigindo  mais
energia e atenção do que você tinha imaginado.
A  aprovação  do  CIE  está  plenamente  relacionada  às  questões  de  ética  humana  recém­discutidas. A
relevância de tal aprovação se inicia com um princípio simples: toda pesquisa com participantes humanos
(quer  eles  sejam  formalmente  designados  como  “sujeitos  humanos”  ou  não)  precisa  ser  revisada  e
aprovada  de  uma  perspectiva  ética.  A  necessidade  desse  tipo  de  avaliação  se  iniciou  com
desenvolvimentos  na  pesquisa  médica  e  de  saúde  pública,  na  qual  poderiam  surgir  sérios  riscos  de
prejudicar as pessoas que participam de um experimento para testar, por exemplo, um novo medicamento
ou  outro  tratamento.  Entretanto,  riscos  também  podem  surgir  na  pesquisa  em  ciências  sociais  e
comportamentais.
Por  exemplo,  participantes  de  um  estudo  podem  ser  ameaçados  de  dano  psicológico  se  forem
deliberadamente ludibriados ou enganados como parte de um experimento social. Esse tipo de pesquisa,
às  vezes  envolvendo  colegas  do  experimentador  atuando  como  “palhaços”,  em  certa  época  representou
quase  a  metade  de  todos  os  artigos  publicados  em  uma  das  revistas  de  maior  destaque  em  psicologia
social (National Research Council, 2003, p. 110).
Os  pesquisadores  devem  cuidadosamente  definir  e  depois  aplicar  modos  de  proteger  as  pessoas  que
participam de seus estudos. O espírito dessa busca deve refletir os princípios éticos discutidos na seção
anterior deste capítulo. Especificamente, as primeiras páginas de um livro consagrado sobre proteção de
participantes em pesquisa social e comportamental declaram com clareza o principal princípio subjacente
(National Research Council, 2003, p. 9):

Os  procedimentos  de  análise  e  aprovação  –  e  especialmente  como  eles  se  aplicam  à  pesquisa  em
ciências  sociais  e  do  comportamento  –  produziram  considerável  discussão  pública  durante  a  última
década. As  discussões  se  concentraram  na  análise  de  estudos  que  à  primeira  vista  parecem  representar
“risco  mínimo”  ou  nenhum  “risco  sério  de  dano”  aos  participantes  de  pesquisa,  porque  eles  não  fazem
parte  de  nenhum  tratamento,  mas  estão  atuando  em  seus  papéis  cotidianos.  Entretanto,  se  um  estudo
envolve  questões  delicadas  sobre,  por  exemplo,  a  orientação  de  gênero,  religiosa  ou  cultural  de  um
participante, pode haver algum risco. Os procedimentos também têm sido ambivalentes em relação a se
os projetos dos alunos, realizados como trabalhos de classe, também exigem aprovação. Houve casos em
que  consentimento  informado  escrito  devia  ser  solicitado  dos  participantes  que  fizessem  parte  de  um
grupo pré­letrado (American Association of University Professors, 2006). Negociações em torno dessas e
situações semelhantes podem levar a atrasos incomuns na obtenção de aprovação.
Para se preparar para lidar com esses procedimentos de análise e aprovação, você vai precisar dedicar
algum tempo para entender como eles provavelmente se aplicarão particularmente a sua pesquisa. Você
pode aprender mais sobre o assunto em inúmeros sites na internet ou informando­se sobre as experiências
anteriores  com  o  CIE  de  sua  própria  instituição.  Existe  inclusive  um  blog  sobre  o  assunto  que  em
dezembro  de  2008  teve  postagens  na  véspera  de  um  feriado  nacional,  refletindo  a  natureza
potencialmente controversa do processo de aprovação ética da pesquisa.

Submetendo protocolos de estudo para análise e aprovação


Esta  submissão  ocorre  antes  de  seu  estudo  poder  começar.  Uma  comissão  formalmente  constituída,
geralmente chamada de CIE, analisará seu protocolo de estudo que delineia as principais características
de seu estudo em relação a questões de proteção de seus participantes.
Os  CIEs  existem  em  toda  universidade  e  organização  de  pesquisa.  CIEs  comerciais  podem  atender
múltiplas instituições. O CIE consiste em um grupo de cinco ou mais colegas que se apresentam como
voluntários  para  conduzir,  em  regime  rotativo,  as  necessárias  análises.  Os  colegas  intencionalmente
representam diferentes disciplinas acadêmicas, bem como vozes da comunidade. Alguns CIEs possuem
seus próprios sites, listando seus membros e explicando seus cronogramas, prazos e procedimentos.
Embora seu foco seja no resultado da análise de seu protocolo, seja sensível ao fato de que os CIEs
podem ter uma pesada carga de trabalho. Já em 1995, um CIE mediano estava analisando 578 protocolos
por  ano  (National  Research  Council,  2003,  p.  36).  O  número  sem  dúvida  aumentou  substancialmente
desde então.
Cada  CIE  geralmente  informará  suas  próprias  diretrizes  sobre  a  natureza  do  protocolo  de  estudo
desejado.  Dependendo  da  natureza  do  estudo  planejado,  o  CIE  pode  realizar  uma  análise  completa  ou
expressa,  ou  ele  pode  isentar  de  análise  uma  submissão. Além  da  aprovação  ou  rejeição,  outra  análise
comum  pode  ser  uma  solicitação  de  modificações  e  depois  uma  ressubmissão.  Em  algumas
circunstâncias,  os  pesquisadores  podem  ter  que  fazer  várias  ressubmissões,  muitas  vezes,  então,
deparando­se com atrasos imprevistos que interferem no cronograma original para a pesquisa planejada
(Lincoln, 2005, p. 167).
Os  CIEs  operam  sob  as  diretrizes  publicadas  pelo  Serviço  de  Saúde  Pública  dos  Estados  Unidos.
Embora  todo  CIE  procure  ao  máximo  exercer  suas  responsabilidades  com  grande  cuidado,  essas
diretrizes não representam normas absolutas. CIEs de diferentes instituições podem seguir procedimentos
ligeiramente  diferentes  e  podem  usar  critérios  um  pouco  diferentes  em  seu  trabalho. Variações  também
podem ocorrer com a rotação dos membros voluntários dos CIEs. Consequentemente, você deve aprender
sobre  o  CIE  de  sua  instituição  e  as  recentes  experiências  que  ele  teve  na  análise  de  submissões  para  a
realização  de  pesquisa  qualitativa  em  geral,  se  não  de  outros  estudos  usando  métodos  semelhantes  aos
seus.

Considerações específicas na proteção de sujeitos humanos


As diretrizes para os CIEs abrangem quatro procedimentos principais que as submissões devem abordar
(National Research Council, 2003, p. 23­28):

1. obter  consentimento  informado  voluntário  dos  participantes,  geralmente  fazendo­os  assinar  uma
declaração escrita (“informado” indica que os participantes compreendem o propósito e a natureza
da pesquisa);
2. avaliar os danos, os riscos e os benefícios da pesquisa, e minimizar qualquer ameaça de dano (dano
físico, psicológico, social, econômico, legal e dignitário) aos participantes;
3. selecionar  os  participantes  equitativamente,  de  modo  que  não  haja  grupos  de  pessoas  que  sejam
injustamente incluídos ou excluídos da pesquisa; e
4. assegurar o sigilo das identidades dos participantes, inclusive daquelas que aparecem em registros
em computador e em gravações de áudio e vídeo.

Todos  esses  procedimentos  requerem  considerações  cuidadosas  quando  são  personalizados  para  um
determinado estudo. No primeiro procedimento, a obtenção de consentimento pode ser representada por
uma assinatura, mas os CIEs podem questionar se o consentimento obtido realmente terá sido voluntário
ou informado. Os pesquisadores precisam demonstrar que não há coações implícitas sobre a decisão de
um participante em participar e que a decisão é verdadeiramente voluntária. Da mesma forma, um estudo
planejado  também  precisa  ser  apresentado  de  uma  maneira  direta  para  que  os  participantes  possam
compreen der o que estão concordando em fazer e deste modo estão sendo verdadeiramente informados.
Ainda mais difícil pode ser implementar o segundo procedimento, mediante o qual um CIE deve julgar
os  potenciais  danos,  riscos  e  benefícios  de  estudos  individuais.  De  modo  semelhante,  os  pesquisadores
devem demonstrar aos CIEs como sua seleção de participantes será justa. Finalmente, os pesquisadores
precisam  demonstrar  consciên cia  de  seu  próprio  processo  para  decidir  como  lidar  com  a
confidencialidade  –  não  apenas  dos  nomes  das  pessoas,  mas  também  dos  nomes  das  organizações  e
lugares – e não apenas com o desfecho do processo (p. ex., Guenther, 2009).
Dadas  essas  e  outras  dificuldades,  as  análises  dos  CIEs  podem  ser  onerosas  e  intermináveis  (p.  ex.,
Lincoln & Tierney, 2004). Nada menos do que uma organização nacional de destaque como a Associação
Americana de Professores Universitários (AAUP) alegou que as análises podem até “constituir uma séria
ameaça à liberdade acadêmica” (AAUP, 2006). A pesquisa qualitativa apresenta desafios maiores devido
à  crença  de  que  muitos  membros  de  CIEs  têm  opiniões  desfavoráveis  sobre  métodos  de  pesquisa
“emergentes”  (Lincoln,  2005,  p.  172),  ou  métodos  cujos  procedimentos  não  foram  rigidamente
delineados.

Preparando-se para uma avaliação do CIE


Algumas sugestões podem ajudar­lhe a se preparar para uma análise do CIE. O passo mais importante já
foi  mencionado:  antes  de  iniciar  o  processo,  você  deve  se  informar  sobre  como  a  análise  do  CIE  vem
funcionando em sua universidade ou organização de pesquisa. Como seu estudo provavelmente não é o
primeiro  de  sua  espécie  a  buscar  aprovação,  considere  atentamente  as  avaliações  anteriores  de  estudos
como  o  seu.  Saber  alguma  coisa  sobre  os  membros  que  compõem  o  CIE  e  seus  próprios  estudos  de
pesquisa e especialidades também não faria mal. Se sua instituição realmente nunca avaliou seu tipo de
estudo,  busque  informações  sobre  seu  tipo  de  estudo  quando  ele  foi  submetido  à  avaliação  em  outras
instituições comparáveis.
Segundo,  você  deve  inserir  seu  estudo  e  métodos  de  pesquisa  no  contexto  mais  amplo  de  outros
estudos semelhantes ou deliberadamente contrastantes (ver a revisão “seletiva” da literatura sugerida no
Cap. 3, item B). Essa inserção pode indicar como seus métodos se enquadram em parâmetros aceitáveis e
conhecidos, já aprovados em estudos anteriores e que não tiveram consequências inconvenientes ou que
podem ser facilmente previstas. Você também pode descrever como seu estudo ampliará os resultados de
outra  pesquisa  (especialmente  de  estudos  não  qualitativos),  com  isso  construindo  um  conjunto  de
conhecimentos ou benefícios mais importantes em consequência de ser realizado.
Terceiro,  antes  de  ter  adquirido  experiên cia  suficiente  na  obtenção  de  aprovação  do  CIE,  o
delineamento de sua pesquisa deve ter um escopo modesto (sem deixar de ser inovador e imaginativo).
Estabeleça limites criteriosos sobre como você fará seu trabalho de campo e coletará dados. Peça para que
um colega versado analise o esboço de sua submissão ao CIE.

O diálogo do consentimento informado (em campo) como oportunidade para


os participantes fazerem perguntas
Uma vez obtida a aprovação do CIE, não se surpreenda com uma dinâmica adicional. Sua apresentação
das  disposições  para  obter  consentimento  informado  dos  participantes  também  cria  uma  oportunidade
lógica  para  que  eles  lhe  façam  perguntas. A  situação  pode  servir  para  perguntar  sobre  como  você  está
planejando  empreender  seu  estudo  (não  necessariamente  a  substância  de  seu  estudo).  Outras  perguntas
podem  se  referir  ao  propósito  de  seu  estudo;  o  que  você  espera  alcançar  realizando  a  subsequente
entrevista  ou  conversa  com  o  participante  que  agora  está  lhe  fazendo  perguntas;  como  você  pretende
apresentar seu estudo final; como você vai evitar constranger ou de alguma outra forma depreciar outros
que participarão do estudo; e outras curiosidades semelhantes sobre seu trabalho.
Tanto quanto possível, esses tipos de perguntas devem ser previstos no momento da submissão original
ao CIE. Quando e se surgirem no trabalho de campo, as perguntas devem ser encaradas de uma maneira
conversacional  e  amistosa,  em  oposição  a  um  tom  formal,  legalista  ou  defensivo.  Para  evitar  parecer
excessivamente  defensivo  quando  confrontado  com  tais  perguntas  pela  primeira  vez,  faça  alguma
preparação.  O  ideal  é  pedir  que  um  colega  simule  perguntas  previsíveis,  permitindo  que  você  pratique
suas respostas.
Em outros tempos e possivelmente ainda relevante em muitos ambientes de campo contemporâneos,
responder  a  essas  e  outras  perguntas  relacionadas  de  maneira  mais  concreta  pode  ser  suficiente  (p.  ex.,
“Estou escrevendo um livro” sobre o/a abc [nome do ambiente de campo]). Você então ficará conhecido
como a pessoa que está escrevendo um livro. Poder apontar algumas publicações anteriores não vai ferir
tal identidade. Notavelmente, como outrora, as pessoas podem se sentir lisonjeadas de que sua vida real
fará parte de um livro.
3
Como iniciar um estudo
investigativo

A  maioria  das  pessoas  tem  dificuldade  para  iniciar  um  estudo  empírico.  Parte  do  desafio  é
definir  um  tema  de  interesse.  Entretanto,  o  estudo  deve  usar  dados  coletados  recentemente,
com base em um novo conjunto de procedimentos de coleta de dados – não em informações
de  fontes  secundárias  já  existentes.  Para  reduzir,  se  não  superar,  esse  problema  para  dar  a
partida,  o  presente  capítulo  mostra  como  a  criação  de  um  banco  de  estudos  pode  ajudar  a
identificar as três características necessárias de todo estudo empírico: um tema, um método de
coleta de dados e as possíveis fontes de dados.
O capítulo também aborda os passos subsequentes no processo de partida. Estes incluem
conduzir uma revisão da literatura e definir as questões de pesquisa de um estudo. Também se
considera uma sequência alternativa em que algum trabalho de campo pode ser iniciado antes
de  fazer  a  revisão  ou  mesmo  definir  as  questões  de  pesquisa.  O  fim  do  capítulo  lembra  os
leitores  de  que  as  próprias  percepções  e  bagagem  do  pesquisador  provavelmente  terão
influenciado todo o processo de partida. Os pesquisadores precisam estar conscientes de suas
lentes de estudo e constantemente documentá­las.

Os  Capítulos  1  e  2  deste  livro  apresentaram  uma  ideia  geral  da  pesquisa  qualitativa  (Cap.  1)  e  uma
discussão das competências pessoais para ser capaz de fazer pesquisa qualitativa (Cap. 2).
A  orientação  de  “aprender  fazendo”  deste  livro  presume  que  a  melhor  forma  de  aprender  mais  sobre
pesquisa  qualitativa  é  realmente  executando  um  estudo  de  pesquisa  qualitativa. Assim,  o  restante  desta
obra oferece sugestões e orientação para completar um ou mais estudos desse tipo.
Em sua forma mais simples, conduzir um estudo empírico significa:

✓ definir alguma coisa para investigar;
✓ coletar dados relevantes;
✓ analisar e interpretar os resultados; e
✓ extrair conclusões baseadas nos resultados empíricos.
“Coletar  dados  relevantes”  significa  lidar  diretamente  com  uma  fonte  primária  de  dados,  tais  como
observações de campo ou entrevistas, e não com fontes secundárias, tais como estudos de outros autores.
Toda a parte intermediária deste livro, abrangendo os Capítulos 4 a 9, é dedicada a todos esses e outros
temas relacionados.
Não  obstante,  apesar  do  entendimento  quase  comum  de  como  a  pesquisa  consiste  em  executar  as
atividades  mencionadas,  dar  a  partida  em  qualquer  estudo  parece  ser  uma  tarefa  intimidante.  Muitas
pessoas  empacam  e  sentem­se  frustradas  porque  não  sabem  o  que  estudar  ou  como  pensar  sobre  um
estudo. Por isso, elas não sabem quais dados são relevantes, muito menos como prosseguir com a análise
e a interpretação. Como superar esse problema de partida é, portanto, o objetivo do presente capítulo.

O desafio de iniciar um estudo qualitativo


O  desafio  é  propor  um  tema  de  estudo  para  o  qual  você  possa  coletar  seus  próprios  dados.
Surpreendentemente, grande parte da educação formal até a faculdade pode não ter exposto os alunos a
tal desafio antes de terem chegado à fase de elaborar uma tese ou dissertação. Especialmente nas ciências
sociais, o currículo provavelmente pediu que os alunos fizessem projetos semestrais e outros exercícios
envolvendo “algum tipo de pesquisa”. Entretanto, a pesquisa pode ter exigido revisar a literatura ou fazer
uma busca de algumas fontes na internet. Esses trabalhos anteriores podem não ter realmente exigido que
os  alunos:  coletassem  seus  próprios  dados,  baseados  em  seu  próprio  instrumento  de  coleta  de  dados;
entrassem  em  contato  com  eventos  e  pessoas  da  vida  real  e  registrassem  dados  de  alguma  maneira
sistemática; e então extraíssem conclusões respaldadas pelos dados, e não pelas opiniões do autor.
A  maioria  das  pessoas  (e  seus  consultores)  está  consciente  do  desafio  de  dar  início  a  um  estudo  de
pesquisa qualitativa. Menos reconhecido de imediato é que o desafio pode se referir a dar a partida em
qualquer  estudo  empírico,  qualitativo  ou  não,  especialmente  para  pessoas  que  estão  fazendo  um  estudo
pela primeira vez.
Por exemplo, aqueles que fazem experimentos laboratoriais têm o mesmo problema de selecionar um
tema  de  estudo  (fazer  experimentos  sobre  o  quê?)  para  o  qual  eles  possam  coletar  seus  próprios  dados
(como  montar  e  fazer  o  experimento?).  Não  pense  que  essas  escolhas  são  fáceis.  Além  disso,
experimentadores  prospectivos  precisam  evitar  o  número  maior  de  experimentos  logicamente  possíveis
que, todavia, não produzirão nenhuma informação útil.
Embora  seu  interesse  pelo  drama  dos  outros  possa  ser  apenas  passageiro,  você  pode  considerá­lo  na
expansão  de  sua  rede  de  apoio.  Pergunte  a  seus  colegas  que  fazem  pesquisa  não  qualitativa  como  eles
deram início a seu primeiro experimento, levantamento, modelo econômico, ou outro estudo qualitativo
que lhes exigiu coletar seus próprios dados. Você pode se surpreender com a importância de se informar
sobre as dificuldades que eles enfrentaram e posterior sucesso.

Originalidade ao fazer um estudo qualitativo


A jornada exige definir (e depois conduzir) um estudo original. “Original” significa que o estudo deve ser
de  sua  própria  responsabilidade,  usando  suas  próprias  ideias,  palavras  e  dados.  Tanto  quanto  possível,
inclusive com seus esforços explícitos para verificar isso, você deve fazer um estudo que não tenha sido
feito antes.1
Além de fazer um estudo original, há uma outra precaução. Inevitavelmente, e especialmente porque
boa parte do restante deste capítulo sugere maneiras de revisar e usar trabalhos publicados anteriormente,
alguns  aspectos  de  qualquer  estudo  refletirão  as  ideias  ou  palavras  de  publicações  de  outras  pessoas.
Nessas circunstâncias, os autores precisam não se esquecer de citar os outros autores e suas publicações,
reconhecendo  as  ideias  emprestadas  ou  palavras  citadas.  Deve­se  evitar  a  qualquer  preço  qualquer
sugestão de que um estudo “original”, em sua totalidade ou em parte, vem de uma fonte não informada –
por exemplo, que um estudo usou as palavras exatas de outra pessoa, sem colocá­las entre aspas ou em
um parágrafo separado. Deixar de dar o devido crédito a outros autores constitui plágio (Booth, Colomb,
& Williams, 1995, p. 167).

O restante deste capítulo


O  restante  deste  capítulo  discute  o  processo  de  iniciação.  O  capítulo  pode  ser  mais  indicado  para
pesquisadores inexperientes do que experientes, os quais podem, portanto, pular o resto deste capítulo e
passar diretamente para o Capítulo 4.
Ao mesmo tempo, as diferenças entre os Capítulos 3 e 4 também são dignas de nota. No passado, os
conteúdos do presente capítulo poderiam ter sido suficientes para saber não apenas como dar início a um
estudo qualitativo, mas também como delineá­lo. Os três modos de definir um novo estudo – discutidos
no  item  A  –  poderiam  ter  sido  considerados  sinônimos  das  informações  necessárias  para  delinear  o
estudo.  Os  livros  didáticos  mais  antigos  podem  não  ter  se  aprofundado  em  muitas  das  questões  de
delineamento  que  agora  surgiram  na  pesquisa  qualitativa.  Em  outras  palavras,  os  métodos  de  pesquisa
qualitativa avançaram, e o Capítulo 4 fornece mais detalhes sobre questões de delineamento reais.

A. INICIANDO UM ESTUDO QUALITATIVO PELA CONSIDERAÇÃO


DE TRÊS CARACTERÍSTICAS

O que você deve aprender nesta seção:

A iniciação de todo estudo qualitativo precisa abarcar três características essenciais:

1. um tema (o que você vai estudar?),
2. um método de coleta de dados (como você vai coletar os dados?), e
3. uma fonte de dados – em muitos casos um ambiente de trabalho de campo (onde você vai obter os
dados que devem ser coletados?).

Como  elas  se  referem  a  definir  um  novo  estudo,  o  tempo  dedicado  à  consideração  dessas
características será limitado pelo prazo e recursos presumivelmente disponíveis para fazer todo o estudo.
Ajuda muito ter uma ou mais dessas características estabelecidas antes de sequer cogitar fazer um estudo
qualitativo.

Processamento paralelo do processo de iniciação


Uma vez que este livro, como todos os outros de mesma natureza, é apresentado de maneira linear, as três
características  são  discutidas  sequencialmente.  Entretanto,  na  realidade  você  deve  estar  preparado  para
fazer  malabarismos  ao  considerar  as  três  –  de  maneira  simultânea  e  interativa  (processando­as
paralelamente) – antes de decidir­se por suas escolhas finais. Por exemplo, você pode começar com um
tema de interesse, só para descobrir que não há fonte de dados pronta. Talvez você tenha encontrado uma
fonte  de  dados  viável,  mas  agora  percebe  a  necessidade  de  voltar  e  redefinir  um  tema  de  investigação
mais cativante. Da mesma forma, você pode iniciar com uma preferência por certos tipos de métodos de
coleta de dados, e essa preferência vai interagir com as escolhas de tema e fonte de dados.
Algumas  pessoas  podem  querer  pensar  sobre  as  três  características  simultaneamente.  Fazendo  isso,
elas estão assumindo a capacidade de conduzir as tarefas paralelamente. Entretanto, outras pessoas podem
considerar  as  três  características  muito  apavorantes  para  serem  manuseadas  como  um  pacote  inteiro.
Pensar  sobre  elas  progressivamente,  uma  característica  de  cada  vez,  também  serve.  Seja  qual  for  sua
preferência, o principal objetivo é avançar e não ficar em um impasse.

Maneiras de dar os primeiros passos


Talvez você já tenha um interesse premente e sabe o estudo que pretende fazer. Por exemplo, você pode
ter  trabalhado  na  equipe  de  pesquisa  de  outra  pessoa  e  ter  imaginado  um  novo  ângulo  digno  de
investigação,  também  conhecendo,  então,  o  provável  método  de  coleta  de  dados  e  a  fonte  de  dados.
Talvez  você  também  já  tenha  um  interesse  prévio  em  um  tema,  impelindo­lhe  a  aprender  os  métodos
qualitativos para estudá­lo. Entretanto, se você não chegou a esses ou a pontos semelhantes, as seguintes
dicas podem ajudar a começar a pensar sobre as três características.
Uma alternativa é recapitular o que você já estudou em ciências sociais. Recorde­se de seus cursos e
leituras  anteriores,  seu  conhecimento  da  pesquisa  de  seus  colegas  ou  professores,  ou  mesmo  dos
numerosos estudos citados neste e em outros livros sobre pesquisa qualitativa. De qualquer uma dessas
experiências, veja se alguma coisa lhe desperta interesse ou gosto pessoal.
Outra  alternativa  é  partir  do  zero.  Você  pode  não  ter  ficado  especialmente  impressionado  com  seus
cursos ou leituras anteriores em ciências sociais; e você pode não querer se contentar com os trabalhos
citados neste ou em outros livros. A alternativa permite que você comece de novo e faça as coisas do seu
jeito.  Isso  envolve  desenvolver  seu  próprio  banco  de  estudos,  e  essa  alternativa  pode  estimular
pensamentos mais criativos. Funciona como exposto a seguir.

Desenvolver um banco de estudos


Selecione algumas revistas e examine­as para encontrar estudos de pesquisa qualitativa. Tenha o cuidado
de identificar apenas estudos reais, nos quais um artigo descreve uma pesquisa completa, especialmente
apresentando  e  interpretando  um  conjunto  de  dados.  Exclua  outros  artigos  que  também  aparecem  nas
mesmas  revistas,  tais  como  artigos  sobre  metodologias  qualitativas  (mas  nenhum  estudo  completo);
relatos  dos  autores  de  suas  experiências  de  pesquisa  em  um  ou  mais  estudos  (mas  não  um  estudo
completo); e sínteses de estudos anteriores e discursos teóricos (mas não um estudo completo). Depois de
identificar estes estudos desejados, familiarize­se com seus temas, métodos de coleta de dados e fontes de
dados.  Como aviso  importante, observe que  o desenvolvimento  de  seu banco  de  estudos difere de uma
análise mais formal da literatura que você provavelmente também fará (discutida posteriormente no item
B deste capítulo).
Ao desenvolver seu banco de estudos, não se limite a artigos sobre um único tema ou método. Em vez
disso,  acesse  qualquer  coisa  semelhante  a  um  estudo  qualitativo  em  cada  uma  das  revistas  que  você
examinar. Você vai constatar e apreciar que coletivamente os estudos abrangem uma diversidade de temas
e  métodos.  Veja  se  a  variedade  desencadeia  alguma  conexão  com  seus  próprios  interesses  e
oportunidades.

Resultados de criar um “banco de estudos” ilustrativo


Para  mostrar  a  facilidade  e  utilidade  de  criar  um  banco  de  estudos,  eu  elaborei  um,  como  parte  da
preparação deste capítulo. Minha busca limitou­se a revistas com maior probabilidade de publicar estudos
qualitativos,  listadas  na Tabela  3.1. A  ideia  era  identificar  alguns  estudos  qualitativos  rapidamente,  não
vasculhar  exaustivamente  as  revistas  em  uma  determinada  disciplina,  como  sociologia  ou  antropologia,
ou  área  específica,  como  assistência  médica,  planejamento  comunitário  ou  educação.  Limitei
adicionalmente minha busca a estudos publicados nos últimos cinco anos ou algo assim, e tendi a incluir
apenas  algumas  áreas  amplas:  educação,  saúde,  trabalho  social  e  pesquisa  organizacional.  Mesmo  uma
incursão superficial rapidamente produziu mais de 50 artigos que relatavam estudos qualitativos originais.

Revistas pesquisadas para identificar estudos qualitativos

Action Research

American Educational Research Journal

Education and Urban Society

Educational Policy

Ethnography

Field Methods

Journal of Contemporary Ethnography

Journal of Contemporary Ethnography

Journal of Hispanic Higher Education

Journal of Mixed Methods Research

Journal of Research in International Education

Journal of Transformative Education

Organizational Research Methods

Qualitative Health Research

Qualitative Inquiry

Qualitative Research

Qualitative Social Work

Urban Education

O  banco  de  estudos  aparece  no  fim  deste  capítulo  e  apresenta  as  citações  completas  dos  artigos
identificados. A Tabela 3.2 lista seus temas. Os cerca de 50 artigos mostram que os estudos qualitativos
podem ser facilmente encontrados em periódicos disponíveis. A pergunta seguinte era como esses estudos
podem  prover  sugestões  concretas  para  estimular  a  reflexão  sobre  temas  de  estudo  e  métodos  a  serem
usados,  se  não  fontes  de  dados,  também.  (Se  você  quiser  uma  compreensão  mais  detalhada  desses
estudos, use as citações no banco de estudos para acessar e examinar os estudos diretamente.)

Temas abordados por estudos ilustrativos citados no banco de estudos no fim do Capítulo 3

1. Educação (K–12)
Alunos de duas escolas de ensino médio católicas
As vidas dos alunos de escolas internacionais
Vestimenta dos alunos em uma escola de ensino médio urbana central
Acompanhamento de diplomados no ensino médio de 50 anos atrás
Adaptação de imigrantes vietnamitas
Alunos latinos bem­sucedidos
Escolas de alto e baixo desempenho comparadas
Transferências de escola na faixa de Gaza
2. Educação (Pós-secundária)
Experiência universitária de minorias étnicas
Universitários urbanos de primeira geração
Universitários afro­americanos
Engajando universitários com publicidade política
Pedagogia de graduação e aprendizagem dos alunos
Viagens educacionais no exterior
Iniciativa de mudança em uma faculdade comunitária
Liderança das mulheres em faculdades comunitárias
Introduzindo a pesquisa­ação entre professores em formação
Subsídios do Estado a faculdades por mérito
Programas de ação afirmativa conscientes de raça
3. Organizações (Empresas e Trabalho)
Redes de comunicação de uma empreiteira da construção civil
Sistemas de Informações Gerenciais (SIG) em uma empresa industrial
Cultura organizacional de dois pequenos fabricantes
Trabalho de vendas no varejo
Restaurantes de culinária ocidental na China
Papel do gênero no serviço de mesa em restaurantes
4. Saúde e Trabalho Social
Obstáculos percebidos no acesso a assistência médica
Retenção de pais adotivos na assistência à infância
Pais com um filho autista
Serviços de assistência médica para diabéticos
Grupos on­line de apoio a pacientes com câncer de mama
Cuidados familiares para idosos com demências
Adultos cuidando dos pais à longa distância
Instalações de clínicas de repouso
Cuidados das filhas a pais com doenças terminais
Serviços para violência doméstica
Mulheres com câncer ginecológico
Usuários de heroína e crack sem moradia
Mulheres HIV­positivo
Experiências de doença em pessoas infectadas com o HIV
Tabagismo pós­parto entre mulheres de baixa renda
Decisões da saúde das mulheres
Organizações comunitárias de saúde mental
Fim da condução de veículos para mulheres idosas
5. Comunidades e Famílias
Comunidades mexicanas de baixa renda dos Estados Unidos
As esquinas em um bairro urbano
Vendedores de rua em um cenário urbano
Gangues urbanas de venda de drogas
Homens sem­teto em duas cidades
Recusa de trabalho entre beneficiários de auxílio­desemprego
Adolescentes após divórcio e separação dos pais
Organizando entidades comunitárias de ampla base
Organizações de cúpula para desenvolvimento comunitário

Considerando um tema de investigação


Por  exemplo,  examinando­se  a  lista  apresentada  na  Tabela  3.2,  vê­se  que  estes  50  artigos  sozinhos
abrangiam uma ampla gama de temas. Além disso, o fato de os artigos serem recentes ajudou a garantir
que  os  temas  seriam  contemporâneos,  possivelmente  tornando­a  uma  lista  realista  para  estimular
inspirações sobre um novo estudo, em vez de apontar para condições sociais que já não existem (as quais
seriam temas candidatos para fazer um estudo histórico, mas não uma pesquisa qualitativa).
Nesta  etapa  de  seu  trabalho,  sua  escolha  de  assunto  não  precisa  refletir  questões  de  pesquisa
específicas ou outros detalhes do estudo. Haverá bastante tempo para isso posteriormente. Assim, observe
que os temas na Tabela 3.2 foram listados apenas em termos gerais, divididos nas cinco categorias que
foram abordadas.
Esses  temas  devem  ser  suficientes  para  estimular  sua  reflexão  sobre  um  novo  tema.  Primeiro,  em
educação, as diversas bagagens étnicas e culturais dos alunos na atualidade podem levar­lhe a pensar em
fazer um estudo sobre algum grupo de alunos diferente. Segundo, os temas em saúde são um lembrete de
que, atualmente, a boa saúde está igualmente relacionada a comportamentos de prevenção – por exemplo,
seguir  uma  dieta  nutritiva  –,  o  que  significa  que  um  novo  estudo  pode  ser  feito  dentro  ou  fora  dos
ambientes de serviços de saúde formais. Terceiro, os temas sobre trabalho sugerem de forma semelhante
possíveis estudos dos diferentes tipos de regimes de trabalho em tempo integral ou parcial que as pessoas
adotaram. Quarto, mesmo o único artigo sobre viagens educacionais, mesmo que focado em uma função
educacional, ainda nos sugere temas potencialmente interessantes sobre atividades de lazer.
Usando essa lista apenas como um exemplo ilustrativo, dentro das cinco categorias, os temas tendem a
destacar diferentes unidades focais para estudo, incluindo:

✓ indivíduos (p. ex., ver “Alunos latinos bem­sucedidos”, na Tabela 3.2);
✓ grupos de pessoas (p. ex., “Cuidados familiares para idosos com demências”);
✓ eventos (p. ex., “Decisões da saúde das mulheres”);
✓ organizações (p. ex., “Organizações de cúpula para desenvolvimento comunitário”).

Esses  exemplos  devem  ajudar­lhe  não  apenas  a  pensar  sobre  um  tema,  mas  também  articulá­lo  um
passo adiante por que seu estudo pode necessitar de algum tipo de unidade focal.
Ao mesmo tempo, os temas como listados na Tabela 3.2 não esclarecem de imediato a unidade focal e
a orientação de pesquisa de cada estudo. Você terá que ler cada estudo de interesse para descobri­los:

campus

O  estudo  ilustrativo  tem,  portanto,  uma  unidade  focal  concreta  (uma  faculdade  comunitária
contemporânea), e sua orientação de pesquisa era sobre as subculturas organizacionais.
Revisar outros estudos no banco de estudos de maneira semelhante sugerirá ideias tanto para unidades
focais como para orientações de pesquisa. Além do mais, as unidades focais sugeridas – tais como novos
tipos de famílias ou condições de trabalho, novos padrões de imigração, a natureza global da economia e
novas  políticas  educacionais  –  podem  ainda  não  ter  sido  excessivamente  estudadas.  Um  novo  estudo
qualitativo combinaria um desses exemplos com uma determinada orientação de pesquisa.
Evidentemente, você não deve se calcar nas características do meu banco de estudos. Você deve criar o
seu próprio banco, o qual lhe permitirá aumentar a utilidade dos resultados ainda mais. Por exemplo, você
pode  se  concentrar  em  uma  ou  duas  áreas  gerais  que  anteriormente  lhe  atraíram  e  examinar  a  gama
completa  de  revistas  nestas  áreas.  Inversamente,  você  pode  fazer  uma  pesquisa  mais  ampla  do  que  a
minha  e  abranger  mais  áreas  gerais.  Finalmente,  você  também  não  tem  que  limitar  sua  busca  aos  50
artigos  que  identifiquei  em  menos  do  que  alguns  dias  de  trabalho.  À  medida  que  você  encontrar  mais
artigos, a profundidade de seu banco aumentará sua capacidade de pensar mais profundamente sobre um
tema de estudo.

Considerando um método de coleta de dados


Nesta etapa, você não precisa determinar um método de coleta de dados específico. Em vez disso, você
deve ir considerando algumas preferências e experiências pessoais mais amplas que possam ajudar a fazer
escolhas iniciais. Por exemplo, se você já usou anteriormente algum método em especial, você pode se
sentir mais à vontade incluindo­o como parte de sua escolha.
Para iniciantes, você pode pensar se quer limitar sua coleta de dados a um único método (ver a gama
completa  de  métodos  de  coleta  de  dados  no  Cap.  6).  Por  exemplo,  você  deve  se  perguntar  se  prefere
coletar dados participando e observando eventos da vida real – ou seja, “fazendo trabalho de campo” (ver
os  estudos  de  observação  participante  ao  longo  do  Cap.  5).  Por  outro  lado,  você  deve  considerar  se
prefere coletar dados conduzindo uma série de entrevistas abertas (ver os estudos “só com entrevistas” no
Cap. 2, item B). Um estudo de 50 pessoas que se tornaram mães solteiras por meio de separação, divórcio
ou  viuvez  oferece  um  exemplo  (ver  “Um  estudo  de  entrevistas  levando  a  uma  agenda  política  social”,
Quadro 3.1.)

Um estudo de entrevistas levando a uma agenda política social

Se  você  está  inclinado  às  entrevistas  abertas  como  método  de  coleta  de  dados,  você  pode  comparar
adicionalmente  seu  interesse  e  habilidade  para  entrevistar  (1)  um  número  de  pessoas  maior  por  um
período mais curto de tempo versus (2) um grupo de pessoas menor por períodos de tempo mais longos.
Por exemplo, o grupo maior consiste em 40 a 50 pessoas, cada uma entrevistada apenas uma vez por de 2
a  3  horas,  ao  passo  que  o  grupo  menor  poderia  consistir  de  uma  meia  dúzia  de  pessoas,  cada  uma
entrevistada  por  de  2  a  3  horas,  mas  em  múltiplas  ocasiões  durante  um  período  de  tempo  prolongado.
Essa última escolha lhe permitiria desenvolver algumas histórias de vida (p. ex., ver Lewis, 1961, para
exemplos de histórias de vida prolongadas; e o Apêndice. A em Liebow, 1993, para exemplos de histórias
de vida de extensão mais modesta).
Você  também  pode  ser  suficientemente  experiente  ou  ambicioso  para  considerar  utilizar  vários
métodos  de  coleta  de  dados  como  parte  do  mesmo  estudo.  Isso  aumentaria  sua  carga,  mas  também
reforçaria seu estudo. Os métodos poderiam incluir alguma combinação do trabalho de campo, entrevistas
e histórias de vida recém­descritos. Você poderia usar alguns ou todos esses métodos como parte de um
único  estudo  de  caso  de  uma  organização  ou  grupo  social.  Grupos  sociais  podem  incluir  pessoas  que
trabalham juntas, tais como uma equipe de educação, saúde ou negócios.
Outros  métodos  também  poderiam  ser  adicionados,  tais  como  coleta  de  dados  censitários,  registros
organizacionais, ou outras fontes documentais, para complementar seu trabalho de campo e entrevistas.
Se você é ambicioso, tais métodos de coleta de dados múltiplos podem tornar­se bastante extensos. Por
exemplo,  Levitt  (2001)  usou  seis  métodos  diferentes  em  seu  estudo  da  migração  transnacional  entre  a
República Dominicana e um bairro de Boston (ver Tabela 3.3).

Múltiplas fontes de dados usadas por Levitt (2001, p. 231-235; ver também Quadro 4.10)

Método de coleta de dados Cobertura dos dados

142 entrevistas com pessoas que trabalham nos níveis local, regional e nacional;
participantes de práticas religiosas de base domiciliar; autoridades de
organizações e de partidos políticos
Gravaram e transcreveram cerca de 75% das entrevistas; mais de 80%
realizadas em espanhol

20 famílias de migrantes em regresso e 20 famílias de migrantes entrevistados
em seus lares
Entrevistas geralmente incluíam três ou quatro indivíduos, com incorporações
periódicas de outros

Compareceram a mais de 65 reuniões, comícios e eventos especiais em Boston
e na República Dominicana, incluindo assembleias de partidos políticos e
comemorações e missas de feriados
Reproduções (p. ex., de obras de arte ou desenhos ou fotografias de outros)

Analisaram documentos, incluindo registros financeiros, sobre cada uma das
organizações no estudo
Analisaram artigos de jornais e revistas relevantes

Pesquisaram 184 domicílios envolvendo 806 indivíduos

Usaram dados dos Censos dos Estados Unidos e pesquisa domiciliar de
Levantamento da População Atual, por vários anos e abrangendo mais de 300
mil indivíduos
Retornando aos artigos de revistas científicas que você selecionou para seu próprio banco de estudos,
sua  incursão  pode  inicialmente  ter  sido  motivada  pelo  desejo  de  identificar  um  tema  de  estudo,  como
discutido  anteriormente.  Entretanto,  o  banco  de  estudos  também  pode  ser  extremamente  útil  para
estimular  sua  reflexão  sobre  métodos  de  coleta  de  dados.  Revisando  os  métodos  de  coleta  de  dados
usados  em  cada  estudo,  podemos  obter  uma  boa  ideia  dos  modos  específicos  em  que  os  diferentes
métodos foram usados por outros. Você também pode se sensibilizar para os desafios da coleta de dados
enfrentados por pesquisadores anteriores.
Por  exemplo,  muitos  dos  estudos  listados  no  banco  de  estudos  usaram  grupos  focais  como  seu
principal  método  de  coleta  de  dados.  Talvez  você  não  tenha  dado  a  esse  método  muita  consideração
anteriormente  (ver  Cap.  6,  item  C),  mas  se  ele  agora  parece  mais  atraente  ou  apropriado,  você  pode
examinar  aqueles  estudos  mais  detidamente  para  aprender  sobre  as  experiências  de  coleta  de  dados
específicas. Os estudos no banco de estudos também poderiam conter um bom número de pesquisas com
métodos mistos, permitindo que você veja como outros integraram dados qualitativos e quantitativos.
Você também pode ser mais ambicioso e incluir livros, não apenas artigos científicos, em seu banco de
estudos. Tal combinação seria especialmente pertinente depois que você estreitou seus interesses com um
determinado  tipo  de  coleta  de  dados,  tal  como  entrevistar  alunos  do  ensino  fundamental.  Buscando
estudos anteriores que usaram esse método, você pode encontrar um que até listou as perguntas que foram
feitas  às  crianças  nas  entrevistas  e  discutiu  os  esforços  do  pesquisador  para  confirmar  algumas  das
respostas das crianças entrevistando seus professores auxiliares e professores (ver “Um estudo qualitativo
com alunos do ensino fundamental como principais fontes de dados”, Quadro 3.2.)

Um estudo qualitativo com alunos do ensino fundamental como principais fontes de dados

Considerando uma fonte de dados (p. ex., identificando um ambiente de


campo)
Esta  terceira  característica  pode  ser  mais  difícil  de  avaliar,  especialmente  para  pesquisadores  novatos.
Primeiro, como a maioria dos artigos de revista não dão muitos detalhes sobre como os autores passaram
pelo processo de identificação de suas fontes de evidência, as ideias desses artigos podem ser limitadas.
(Em  lugar  dos  artigos,  você  pode  querer  verificar  os  estudos  publicados  na  forma  de  livros,  nos  quais
prefácios e seções de metodologia com frequência divulgam as experiências dos autores na identificação
de suas fontes de evidência.) Segundo, obter acesso a situações de vida reais para seu trabalho de campo,
ou  recrutar  pessoas  para  entrevistas,  ou  mesmo  obter  permissão  para  usar  certos  tipos  de  dados
documentais, pode ser um desafio.
Como acontece na identificação de um tema e método nessa etapa, não tente resolver os detalhes de
acesso  a  determinadas  fontes  de  evidência  –  por  exemplo,  obter  acesso  a  determinados  ambientes  de
estudo. Você pode começar a pensar sobre sua abordagem, usando algumas das experiên cias de trabalho
de campo apresentadas posteriormente no Capítulo 5 para obter algumas ideias. Entretanto, durante essa
fase de iniciação do seu estudo, você só precisa ter algumas fontes candidatas.
Duas  precauções,  contudo,  merecem  ser  assinaladas.  Primeiro,  pesquisadores  menos  experientes
podem tentar “fazer duplo uso” de algumas fontes às quais já possuem algum acesso pessoal, tal como
estudar sua própria escola, família, ou amigos.
Esse “duplo uso” pode criar complicações indesejáveis. Você corre um grande risco de que seu estudo
e sua afiliação original afetem negativamente um ao outro, em detrimento de ambos (ver Cap. 2, item D,
para uma discussão de pesquisa com informações privilegiadas). Ao mesmo tempo, muitos pesquisadores
qualitativos completaram estudos sobre as organizações em que estavam empregados ou sobre os bairros
em que residiam com sucesso (ver Cap. 5, item B). Uma sugestão básica é evitar um “duplo uso” se você
estiver fazendo seu primeiro estudo, mas apenas cogitar essa possibilidade quando tiver adquirido mais
experiência  –  quando  você  for  capaz  de  lidar  com  a  afiliação  atentamente  e  prever  suas  possíveis
consequências para seu estudo.
Segundo,  ao  pensar  sobre  estudar  pessoas  em  ambientes  de  atendimento  (p.  ex.,  clínicas  de  saúde,
consultórios  médicos,  agências  de  serviço  social  e  escolas),  você  não  deve  pressupor  que  os  serviços
necessariamente cooperarão para ajudar­lhe a estudar seus alunos ou clientes (ou seus funcionários).

Além disso, o grau em que as pessoas em um local ou em um grupo lhe acolhem em seu círculo pode
mudar ao longo do tempo (ver Cap. 5, item B). A escola de ensino médio no estudo de Sarroub (2005)
mencionado acima, por exemplo, embora inicialmente não estivesse ajudando a mobilizar a participação
de  seus  alunos  no  estudo,  posteriormente  familiarizou­se  melhor  com  o  estudo.  Assim,  a  escola
disponibilizou  à  pesquisadora  uma  caixa  de  correio  na  sala  dos  professores,  quando  ela  começou  seu
segundo  ano  de  trabalho  de  campo.  Sarroub  relata  que  isso  mudou  seu  trabalho  “de  maneira  drástica”,
porque  ela  sentiu  um  progresso  ao  tornar­se  uma  espécie  de  membro  da  escola,  passando  a  receber
boletins diários e outros materiais de maneira rotineira (p. 124).

Lembrando as limitações de tempo e recursos


Todo  mundo  sabe  que  pesquisa  exige  tempo  e  recursos,  e  nenhum  deles  é  ilimitado.  Além  disso,  o
conselho  mais  comum,  ao  iniciar  um  estudo,  é  garantir  que  sua  dimensão  se  enquadre  no  tempo  e  nos
recursos previstos.
Os parâmetros de tempo e recursos geralmente são conhecidos. Por exemplo, se você está fazendo um
pequeno  estudo  como  parte  de  um  trabalho  em  um  curso,  você  vai  precisar  limitar  o  âmbito  de  sua
investigação,  bem  como  sua  coleta  de  dados,  a  algo  que  possa  ser  investigado  em  alguns  meses.
Dissertações  de  mestrado  e  teses  de  doutorado  permitem  um  período  de  vários  anos  e  até  dados
provenientes  de  múltiplos  locais.  Estudos  subsidiados  por  fontes  de  financiamento  externas  a  seus
próprios recursos pessoais vão correspondentemente ampliar as possibilidades ainda mais. Por exemplo, o
tempo mínimo para qualquer estudo formal, que vai além de um exercício de campo experimental, parece
ser de um ano acadêmico. Teses de doutorado geralmente consomem vários anos.
Infelizmente, as orientações disponíveis oferecem poucas informações sobre a dimensão de estudo que
parece combinar com determinados parâmetros de tempo e recursos. Na ausência de tais informações, os
conselhos  sobre  ter  objetivos  “modestos”  e  escolher  temas  que  não  sejam  nem  complexos,  nem
demasiadamente simplórios parecem não ter muita validade.
Em contraste, seu banco de estudos pode ajudar, especialmente se você também recorre a livros além
de artigos de revistas. A maioria dos livros (e alguns artigos de revistas) esclarece o período bem como a
quantidade  de  tempo  envolvidos  na  realização  de  um  estudo.  Você  também  deve  estimar  a  diferença
cronológica entre o tempo da coleta de dados – por exemplo, a maioria dos estudos informa o(s) ano(s) de
sua  coleta  de  dados  –  e  o  ano  de  publicação.  Concedendo­se  um  período  de  aproximadamente  18  a  24
meses  associado  a  atrasos  de  publicação,  a  diferença  dá  uma  noção  da  quantidade  de  tempo  que  foi
consumido na coleta e análise de dados e composição de um manuscrito.
Os  leitores  que  fazem  pesquisa  qualitativa  para  suas  teses  devem  observar  que  os  quadros  ao  longo
deste livro contêm muitos estudos que foram originalmente concluídos como teses. Uma estimativa ainda
mais  prática  das  prováveis  necessidades  de  tempo  e  recursos  pode  assim  ser  obtida  analisando  as  teses
recentemente concluídas no seu próprio departamento ou universidade. Essas teses fornecerão melhores
exemplos por serem de seu próprio contexto acadêmico.

B. REVISANDO A LITERATURA DE PESQUISA

O que você deve aprender nesta seção:

sites

Dadas as noções preliminares sobre tema, método e fonte de evidências para seu estudo emergente, outra
tarefa  inicial  poderia  ser  revisar  a  literatura  de  pesquisa. Tal  revisão  difere  do  desenvolvimento  de  seu
banco  de  estudos,  que  você  usou  para  ajudar­lhe  com  as  três  características  de  estudo  precedentes.
Entretanto, alguns dos artigos no banco de estudos, incluindo artigos que poderiam originalmente ter sido
excluídos do banco, agora poderiam ser relevantes para esta revisão da literatura.

Fazer ou não uma revisão da literatura


Embora  as  revisões  da  literatura  tenham  servido  como  um  passo  um  tanto  convencional  ao  fazer  a
maioria  dos  estudos  empíricos,  uma  visão  anterior  de  fazer  pesquisa  qualitativa  resistia  às  revisões  da
literatura formal antes do início da coleta de alguns dados de campo.
A  resistência  era  oriunda  da  crença  de  que  estudos  qualitativos  tentam  sobretudo  capturar  o
“significado”  dos  eventos,  incluindo  seu  tempo,  lugar  e  momento  histórico  distinto.  Além  disso,  o
significado potencialmente mais desejável viria daqueles que faziam parte daquele tempo e lugar único,
não da perspectiva de um pesquisador.
Considerando­se  essa  visão,  embora  uma  revisão  da  pesquisa  anterior  pudesse  ajudar  a  informar  um
novo  estudo,  tal  revisão  também  poderia  atrapalhá­la,  se  não  induzi­la,  criando  um  filtro  ou  lente
indesejável. Por exemplo, se um estudo fosse sobre o tema de pessoas socialmente “extravagantes” e a
literatura  fosse  dominada  por  culturas  convencionais,  mesmo  o  uso  do  termo  extravagante  poderia  ser
percebido  como  vendo  as  vidas  dos  participantes  do  estudo  por  meio  das  lentes  não  somente  de  uma
cultura  majoritária,  mas  também  de  uma  época  anterior  imprópria.  Para  começar,  as  lentes  poderiam,
portanto, diminuir muito o valor de fazer um estudo qualitativo.
Ao  iniciar  um  novo  estudo,  alguns  pesquisadores  experientes  ainda  podem  assumir  o  ponto  de  vista
precedente.  Contudo,  seu  fundamento  lógico  está  pouco  a  pouco  se  desgastando.  O  volume  de  estudos
qualitativos aumentou grandemente nas últimas décadas (p. ex., observe o pouco tempo de existência de
muitas das revistas citadas no banco de estudos, refletido pelo baixo número de volumes), e os estudos e a
literatura tornaram­se muito mais diversificados. Cada vez mais, novos investigadores precisam mostrar
sua consciência, se não destreza, na identificação de linhas específicas de pesquisa – e os “significados”
desvelados  em  circunstâncias  semelhantes  –  que  provavelmente  afetariam  diretamente  a  temática,  os
métodos  de  coleta  de  dados  e  as  fontes  dos  dados  de  um  novo  estudo.  Se  um  novo  estudo  afirma  ser
inteiramente  exclusivo,  uma  boa  revisão  da  literatura  também  pode  mostrar  o  domínio  do  pesquisador
sobre a literatura, além de apresentar o argumento para a lacuna. Consequentemente, realizar algum tipo
de revisão da literatura parece ser desejável.
Se  um  pesquisador  ainda  quer  resistir  a  fazer  uma  revisão  da  literatura,  mesmo  a  literatura
metodológica  de  hoje  contém  exemplos  de  pesquisadores  que  assumiram  posições  semelhantes  e
posteriormente relataram suas experiências em publicações. Revisar seus relatos retrospectivos sobre suas
experiências  de  pesquisa  permitiria  a  um  novo  pesquisador  demonstrar  seu  conhecimento  das  nuances
metodológicas, além de sua habilidade para realizar uma revisão da literatura como parte importante de
saber fazer pesquisa.
Em  suma,  os  pesquisadores  que  iniciam  um  novo  estudo  qualitativo  nos  dias  de  hoje  provavelmente
têm  poucas  justificativas  para  não  revisar  a  literatura  antes  de  iniciar  seus  estudos.  Essa  necessidade
tornou­se ainda maior com a exigência de submeter os protocolos de estudo a comissões institucionais de
ética  (ver  Cap.  2,  item  E).  As  comissões  tendem  a  incluir  ao  menos  um  membro  especializado  em
pesquisa não qualitativa, e a compreensível expectativa daquele membro seria ver algum tipo de revisão
da literatura como parte de uma submissão inicial.

Papel da revisão da literatura ao iniciar um estudo


A revisão necessária nesta etapa é uma revisão seletiva, e não abrangente, da literatura (e ambas diferem
da  criação  do  banco  de  estudos  discutido  anteriormente).  O  principal  propósito  da  revisão  seletiva  é
aguçar suas considerações preliminares sobre o seu tema de estudo, método e fonte de dados. Em vez de
assumir uma perspectiva mais ampla e relatar o que se sabe sobre um tema (o que seria o objeto de uma
revisão  abrangente),  seu  objetivo  é  revisar  e  relatar  em  maior  detalhe  um  leque  específico  de  estudos
anteriores, diretamente dirigidos a seu provável tema de estudo, método e fonte de dados.
Em uma revisão seletiva, os estudos que precisam ser visados e revisados são aqueles que à primeira
vista  se  assemelham  muito  àquele  que  você  começou  a  pensar  em  fazer.  É  provável  que  você  encontre
outros estudos que focaram em temas semelhantes ou usaram um método de coleta de dados parecido. Se
você  escolheu  uma  escola  ou  comunidade  como  sua  principal  fonte  de  evidências,  você  também  pode
encontrar estudos que usaram fontes semelhantes ou talvez até mesmo as mesmas fontes. Encontrar tal
estudo  ou  estudos  não  deve  desencorajá­lo  automaticamente  de  seu  pensamento  original.  Você  deve
examinar  estes  estudos  atentamente  e  verificar  se  é  possível  moldar  o  seu  de  alguma  maneira
significativamente diferente.
Por  exemplo,  um  estudo  anterior  pode  ter  deixado  uma  “ponta  solta”  –  inclusive  indicando­a  nas
conclusões  do  estudo  –  que  poderia  servir  como  prioridade  para  mais  investigação.  Seu  estudo  poderia
então se basear nesse estudo anterior. Como outra possibilidade, um exame atento da metodologia e dos
dados  apresentados  pelo  estudo  anterior  pode  revelar  que  ele  exagerou  em  algum  resultado  crucial  ou
interpretação  essencial  para  as  principais  conclusões.  Você  pode  então  ser  capaz  de  definir  seu  estudo
para compensar as deficiências (ou omissão) e retestar o resultado ou interpretação crucial.
Ao perseguir esses contrastes com outros estudos específicos, seu objetivo é definir um nicho para seu
estudo, situando­o no conjunto de estudos relacionados, e não apenas mostrando em que aspecto ele vai
diferir de um ou vários estudos específicos. O nicho preferencial pode abarcar diferenças de metodologia
e fontes de dados, mas precisa, acima de tudo, ser definido com substância – isto é, nos termos de seu
tema  de  estudo  (ver  “Definindo  a  contribuição  de  um  novo  estudo  em  relação  à  literatura  existente,
Quadro 3.3).

Definindo a contribuição de um novo estudo em relação à literatura existente

Sempre  existe  a  possibilidade  de  que  você  não  consiga  identificar  de  que  modo  seu  estudo  pode
produzir  novo  conhecimento  além  do  que  estudos  anteriores  já  fizeram.  Neste  caso,  você  pode  ter  que
retornar e rever suas escolhas originais de tema, método de coleta de dados e fonte de dados.
Passando para o tema das revisões da literatura abrangentes, existem ocasiões em que tais revisões são
justificadas. As  revisões  visam  a  reunir  o  que  se  conhece  sobre  um  determinado  tema,  possivelmente
sublinhando linhas de pensamento controversas ou díspares ou mesmo o progresso no decorrer do tempo
no  conhecimento  acumulado  sobre  um  assunto.  O  papel  legítimo  desse  tipo  de  revisão  é  de  fato
reconhecido  pela  existência  de  periódicos  importantes,  em  quase  toda  área  disciplinar  e  temática  das
ciências sociais, dedicados exclusivamente a essas revisões da literatura.
Usar  uma  revisão abrangente como  auxílio  para  definir  um  novo  estudo pode,  contudo,  não ser uma
boa ideia. Em uma revisão abrangente, a literatura pode parecer interminável, com um tema levando ao
outro de uma maneira rapidamente espiralar e deixando a impressão de que praticamente tudo que vale a
pena já foi estudado. Revisões abrangentes podem ser mais adequadas para auxiliar a decidir sobre uma
ampla  área  de  interesses,  que  pode  se  revelar  o  equivalente  a  uma  vida  inteira  de  estudos  –  e  não  para
definir um estudo em particular. Infelizmente, muitos novatos podem empreender uma revisão abrangente
e passar uma quantidade exaustiva de tempo em tais revisões sem chegar mais perto de definir um novo
estudo.
Breve resumo: diferentes tipos de revisão da literatura
Para  resumir  um  pouco  o  papel  das  revisões  da  literatura  nesse  momento,  três  tipos  diferentes  foram
discutidos.  O  primeiro  é  uma  incursão  inicial  para  construir  um  banco  de  estudos  qualitativos
anteriormente realizados, para ajudar a considerar o tema, o método e a fonte de evidências para um novo
estudo.  O  segundo  é  uma  revisão  seletiva,  que  ocorre  depois  que  você  decidiu  provisoriamente  o  que
estudar.  A  revisão  seletiva  deliberadamente  visa  a  outros  estudos  que  parecem  cobrir  um  terreno
semelhante e ajuda a definir seu novo estudo de uma maneira mais sutil, estabelecendo um nicho para seu
novo estudo. O terceiro tipo é uma revisão abrangente, realizada a partir do desejo de sintetizar o que se
sabe  sobre  um  determinado  tema,  mas  que  não  é  necessariamente  relevante  para  ajudar  a  iniciar  um
determinado novo estudo.

Fazendo apontamentos sobre estudos existentes


Muitas  vezes  não  se  considera  o  que  exatamente  você  deve  analisar  durante  a  revisão  de  um  estudo
existente.  Se  você  não  tem  uma  boa  ideia  disso,  o  risco  é  de  ter  que  ler  todo  estudo  duas  vezes.  Por
exemplo, conheço uma colega que sempre mantinha duas pilhas de coisas para ler sobre a mesa quando
iniciava  um  estudo.  Uma  delas  consistia  de  novas  leituras,  algumas  das  quais  ela  descartava  depois  de
analisar. A outra  pilha consistia das leituras que ela inicialmente tinha  revisado e não  tinha descartado.
Somente  depois  de  terminar  a  primeira  pilha  ela  examinava  a  segunda  e  fazia  apontamento  sobre  as
leituras naquela pilha. O procedimento funcionava. Só que levava bastante tempo.
Alguns estudos levarão muito tempo para digerir. Você vai retornar a eles repetidamente à medida que
seu próprio trabalho for avançando. Entretanto, muitos estudos só precisam ser examinados uma vez – se
você sabe o que está procurando, na primeira tentativa.
Um  procedimento  pode  funcionar  ao  revisar  estudos  empíricos  (estudos  baseados  em  dados). Ao  ler
um estudo pela primeira vez, tente fazer os seguintes registros:

✓ O principal tema de estudo, incluindo os problemas/questões que estão sendo abordados.
✓ O método de coleta de dados, incluindo a extensão da coleta de dados (p. ex. o número de pessoas
entrevistadas,  em  investigações  que  usaram  entrevistas,  ou  a  duração  e  amplitude  do  trabalho  de
campo em um estudo de observação­participante).
✓ Os principais resultados do estudo, incluindo a data específica usada para representar os resultados.
✓ As principais conclusões do estudo.
✓ Seus  próprios  comentários  sobre  as  virtudes  e  fraquezas  do  estudo  –  e  os  detalhes  bibliográficos
completos para citar o estudo.

Quanto mais você capturar essas informações, seja digitando­as em um computador ou escrevendo à
moda antiga sobre folhas de papel ou em fichas, maior a probabilidade de não precisar voltar a um estudo
pela segunda vez. Se você registrar as informações em um PC, uma dica adicional é usar uma fonte de
tamanho  pequeno  (p.  ex.,  10  pontos),  esperando  que  nenhum  estudo  ocupe  mais  do  que  uma  página  e
facilitando a organização e ordenação de suas notas.

Baixando materiais da internet


Muitos dos artigos de revista que você revisa podem ser provenientes de sites da internet, e não de uma
biblioteca universitária. A maior conveniência de obter materiais desta forma precisa ser equilibrada pelo
cuidado extra necessário para dar preferência a estudos que tenham aparecido em revistas acadêmicas, e
não apenas em qualquer tipo de publicação ou fórum.
Infelizmente,  haverá  ocasiões  em  que  um  “relato”  importante  aparece  fora  de  uma  revista,  mas
abordou um tema ou usou métodos qualitativos que atraíram sua atenção. Nessas situações, você precisa
avaliar  atentamente  para  a  autoria  e  patrocínio  do  trabalho.  Trabalhos  aceitáveis  são  produzidos  por
organizações  de  pesquisa  independentes,  embora  a  qualidade  da  pesquisa  ainda  possa  variar.  Relatos
menos  aceitáveis  podem  ser  produzidos  por  empresas  de  advocacia  ou  de  marketing,  ou  mesmo  pelos
departamentos de pesquisa de organizações de advocacia, principalmente porque a pesquisa pode ter sido
tendenciosa  para  representar  um  ponto  de  vista.  O  segredo  aqui  é  se  informar  sobre  a  organização  que
patrocinou  a  pesquisa  antes  de  usar  seus  relatos.  Examinar  as  publicações  anteriores  do  autor  também
deve ampliar a sua compreensão de como algum trabalho específico poderia ser usado.
Para  documentos  que  não  provêm  de  revistas  científicas,  você  também  precisa  verificar  a
autenticidade.  Não  existe  uma  fórmula  simples  de  verificação.  Estar  consciente  de  que  a  autenticidade
poderia ser um problema é o começo da solução. Depois, pesquisar sobre o documento a partir de fontes
diferentes e verificar a respeitabilidade das fontes são ambos procedimentos de valor.

C. DETALHANDO UM NOVO ESTUDO QUALITATIVO

O que você deve aprender nesta seção:

Uma  partida  bem­sucedida  até  este  ponto  deve  ter  lhe  ajudado  a  identificar,  ao  menos  de  maneira
preliminar,  três  coisas:  um  tema,  um  método  e  uma  fonte  de  dados.  Se,  como  sugerido,  você  avançou
ainda  mais  neste  processo  de  iniciação,  também  terá  identificado  um  nicho  potencial  para  seu  estudo,
especialmente em relação a outros estudos semelhantes. Esses contornos gerais agora precisam de maior
detalhamento. Você precisa ver como os contornos gerais se traduzem em ações de pesquisa.
A  pesquisa  qualitativa  oferece  outra  oportunidade  interessante  neste  momento.  Com  preparação
apropriada, mas sem maior detalhamento, talvez agora você queira dar início a algum trabalho de campo.
(Para os propósitos desta discussão, trabalho de campo é qualquer atividade de coleta de dados que você
poderia  realizar,  tal  como  qualquer  dos  métodos  descritos  no  Cap.  6.)  Por  outro  lado,  você  pode  não
querer  iniciar  o  trabalho  de  campo  antes  de  ter  dado  mais  um  passo  –  definir  algumas  questões  de
pesquisa.  Mais  uma  vez,  como  na  maioria  dos  passos  em  um  estudo  qualitativo,  essas  e  outras
oportunidades são iterativas e recursivas – você pode fazer um pouco de uma etapa e depois retornar a
uma etapa anterior, ajustando a etapa anterior apropriadamente. Você também pode repetir essa sequência
mais do que uma vez.
Resultados aceitáveis podem ser obtidos quer se inicie pelo trabalho de campo, quer pelas questões de
pesquisa; uma advertência importante é como você vai lidar com os obstáculos que surgirem quando da
submissão de seu estudo ao CIE – novamente, assunto já abordado no Capítulo 2. Mas, primeiro, vamos
aprender mais sobre as duas oportunidades.

Um pouco de trabalho de campo primeiro


“Trabalho  de  campo  primeiro”  faz  sentido  porque  a  pesquisa  qualitativa  procura  capturar  condições  da
vida real, adotando a perspectiva das pessoas que fazem parte destas condições. Seguindo­se esta linha de
raciocínio,  um  pesquisador  qualitativo  preferiria  que  as  condições  da  vida  real  e  as  perspectivas  dos
outros ajudassem a definir as subsequentes questões e delineamento do estudo. Consequentemente, esses
pesquisadores  atribuem  grande  valor  ao  trabalho  de  campo  em  alguma  etapa  precoce  no  processo  de
iniciação.
Ao mesmo tempo, “trabalho de campo primeiro” terá mais chance de ser eficaz se você explicitamente
articular o que você espera aprender realizando o trabalho de campo. As aprendizagens previstas podem
assumir ao menos três formas.
Primeiro,  elas  podem  ser  substantivas  (p.  ex.,  se  você  deve  aprimorar  ou  remodelar  seu  tema  de
interesse). Segundo, elas podem ser metodológicas (p. ex., se as pessoas no campo são tão acessíveis e
informativas  quanto  você  esperava).  Terceiro,  o  campo  de  trabalho  pode  orientá­lo  a  perspectivas
relevantes  (p.  ex.,  como  as  pessoas  no  campo  pensam  sobre  suas  atividades  ou  sobre  eventos  da  vida
real).  Seja  como  for,  resumir  suas  aprendizagens  previstas  por  escrito  de  antemão  vai  ajudar  a  focar
realmente  sua  experiência  inicial  de  trabalho  de  campo.  Assim,  nesse  sentido,  “trabalho  de  campo
primeiro” ainda exige preparação.
A menos que você seja um pesquisador altamente experiente, a decisão de fazer “trabalho de campo
primeiro”  não  deve  ser  tomada  irrefletidamente.  Sua  presença  e  perguntas  iniciais  em  campo,  e  a
exposição  inicial  dos  outros  a  você  e  seus  objetivos  de  pesquisa,  tudo  isso  criará  primeiras  impressões
indeléveis.  Em  uma  situação  da  vida  real  (quer  você  esteja  diretamente  observando  eventos  ou
entrevistando alguma outra pessoa sobre esses eventos), você não pode se dar ao luxo de parecer que não
sabe o que está fazendo. As outras pessoas aceitarão prontamente e podem inclusive apreciar que você
quer  uma  perspectiva  de  campo  para  ajudar  a  refinar  ou  até  questionar  suas  intenções  de  pesquisa
originais. Entretanto, as pessoas vão ser menos tolerantes e podem até se negar a continuar cooperando se
sentirem que você pode estar desperdiçando o tempo delas (e o seu) por falta de direção.

Iniciando com as questões de pesquisa


Seus  colegas  que  fazem  outros  tipos  de  pesquisa  (incluindo  aquelas  fora  das  ciências  sociais,  mas  não
necessariamente  pesquisa  qualitativa),  estarão  mais  acostumados  a  iniciar  primeiro  com  as  questões  de
pesquisa.  As  questões  não  apenas  refletirão  o  que  você  espera  estudar,  mas  também  devem  ser
posicionadas de maneira cativante em relação à literatura existente. Assim, a opção “questões primeiro” é
importante.  Uma  crença  comum  na  pesquisa  fora  dos  estudos  qualitativos  é  que  a  boa  pesquisa
geralmente só resulta de um bom conjunto de questões.
Posteriormente, mesmo que você comece com uma opção de “trabalho de campo primeiro”, você vai
precisar  desenvolver  um  conjunto  de  questões  de  pesquisa.  Entretanto,  como  elas  podem  ser  revistas  e
revisadas à medida que seu estudo prosseguir, você não deve pensar que o primeiro conjunto de questões
serão necessariamente as questões finais.2
O desafio  do  que compreende  boas  questões  de  pesquisa  não tem  uma  fórmula pronta. Sua incursão
anterior na literatura, para criar um banco de estudos, proverá muitos exemplos de questões de pesquisa
de outros estudos. Para desenvolver um conjunto preliminar de suas próprias questões de pesquisa, você
pode trabalhar com essas ou com questões propostas ao descrever suas metas de estudo a colegas, ou com
alguma outra fonte por você definida.
Se  você  examinar  o  banco  de  estudos  como  uma  fonte,  uma  breve  revisão  não  mostrará  uma  seção
explícita em que os investigadores relatam rotineiramente suas questões de pesquisa. Em vez disso, você
deve  ler  um  estudo  atentamente,  procurando  expressões  como  “o  propósito  deste  estudo  é...”  ou  “este
estudo  tem  por  objetivo...”  Quando  as  questões  de  pesquisa  de  um  estudo  não  são  explicitamente
enumeradas, suas questões geralmente estão contidas nessas ou em expressões semelhantes.
Em vez de procurar literalmente por um conjunto de questões de pesquisa, pense sobre encontrar algo
como a indagação ou fundamento lógico de um estudo. Você deve então descobrir exemplos como os que
seguem (os três exemplos foram retirados de meu banco de estudos):

✓ O estudo aborda como estudantes imigrantes vietnamitas no ensino médio vivenciam os processos de
formação cultural e de formação de identidades em sua transição para a educação escolar dos Estados
Unidos. O estudo procura compreender melhor de que modo as categorias de identidade de gênero e
cultural  se  relacionam  com  as  experiências  acadêmicas  e  sociais  de  estudantes  que  imigraram
recentemente (Stritikus & Nguyen, 2007).
✓ O estudo tenta explicar diferenças entre escolas de baixo e alto desempenho, examinando diferenças
nos  níveis  técnico,  gerencial  e  institucional  da  saúde  organizacional  das  escolas  (Brown, Anfara,  &
Roney, 2004).
✓ O  propósito  do  estudo  era  compreender  as  percepções  de  universitários  afro­americanos  bem­
sucedidos,  formados  em  dois  grandes  distritos  escolares  urbanos  que  agora  estavam  enfrentando
graves  problemas.  O  objetivo  era  descobrir  os  pensamentos  profundos,  experiências  e  significados
construídos  dos  alunos  sobre  sua  experiên cia  escolar  anterior  e  sua  transição  para  a  faculdade
(Wasonga & Christman, 2003).

Em  outras  ocasiões,  o  material  pertinente  é  apresentado  na  forma  de  reais  questões  de  estudo,  como
nos exemplos a seguir:

✓ Quais  percepções  e  atitudes  os  estudantes  de  primeira  geração  de  faculdades  urbanas  têm  de  sua
preparação escolar no ensino médio para a educação superior, e quais foram as virtudes e deficiências
de sua preparação no ensino médio (Reid & Moore, 2008)?
✓ Como uma determinada universidade tornou­se líder e defensora de políticas de admissão conscientes
de raça; e como os líderes universitários responderam aos desafios legais, para defender sua posição
sobre políticas conscientes de raça (Green, 2004).

Sejam quais forem as formas usadas para declarar a investigação, o fundamento lógico, ou as questões
de um estudo, observe como os exemplos vão significativamente muito além dos temas originais listados
na Tabela 4.2. As afirmações ou perguntas começam a sugerir o tipo de dados que serão coletados pelo
estudo, o que os temas originais não fizeram.
Os exemplos não mostram, mas se você examinar atentamente os estudos reais listados no banco de
estudos (ou aqueles listados em seu próprio banco de estudos), há uma outra relação: as introduções aos
estudos contêm revisões da literatura que situam os objetivos ou questões do estudo dentro da literatura,
argumentando  em  favor  do  potencial  significado  do  estudo  em  relação  à  literatura  mais  ampla.  (A
presença  de  uma  discussão  desse  tipo  não  significa,  contudo,  que  o  autor  revisou  a  literatura  antes  de
iniciar o trabalho de campo – mais uma vez, um exemplo de como a apresentação linear dos temas não
coincide  necessariamente  com  a  ordem  em  que  eles  foram  criados.)  Nesse  sentido,  possuir  um  bom
conjunto de questões de pesquisa vai ajudar a definir as futuras decisões na realização de seu estudo, tais
como  o  desenvolvimento  de  instrumentos  de  campo  e  outros  de  coleta  de  dados,  assim  como  definir  o
nicho de seu estudo prospectivo na literatura mais ampla.
Tendo estabelecido um conjunto inicial de questões de pesquisa, você agora está em uma boa posição
para, caso deseje, articular o delineamento de seu estudo ainda mais, como discutido no Capítulo 4.
Examinando sua bagagem de conhecimentos e percepções em relação a um
novo estudo
Existe, contudo, mais um prelúdio importante. Tendo começado a articular seus temas, métodos e fontes
de  evidência,  juntamente  com  as  eventuais  questões  de  pesquisa,  você  precisa  avaliar  todas  essas
considerações em relação a sua própria bagagem.
A  pesquisa  qualitativa  irá  fundamentalmente  envolver­lhe  como  um  instrumento  básico  de  pesquisa
(ver Cap. 5, item D). A necessária avaliação provém de um autoexame de seus próprios conhecimentos e
opiniões  que  podem  influenciar  seu  papel  como  um  instrumento  de  pesquisa.  Você  deve  identificar  os
conhecimentos  ou  predileções  prévios  que  podem  influenciar  seu  delineamento  ou  ações  de  coleta  de
dados.
Inevitavelmente,  e  em  função  direta  de  ter  escolhido  um  tema  que  é  do  seu  interesse,  haverá  alguns
fatores  contextuais.  Normalmente  as  pessoas  tendem  a  levar  visões  simpatizantes,  antagônicas,  ou
excessivamente  ingênuas  a  seus  temas  de  interesse.  Quaisquer  dessas  orientações  podem  influenciar  as
linhas  de  investigação  de  um  estudo  e  consequentemente  seus  potenciais  resultados.  Você  estaria
enganando a si mesmo se pensasse que assume uma postura totalmente neutra ou objetiva em seu estudo.
A fase de iniciação de seu estudo, portanto, marca seus esforços iniciais para identificar e registrar o
que  posteriormente  será  descrito  como  suas  “lentes  de  pesquisa”  (Cap.  11).  Essa  consciência  e  a
manutenção de suas introspecções em alguma forma escrita – por exemplo, seu próprio diário de pesquisa
– devem continuar durante toda a realização de seu estudo. O relato final do estudo, como discutido no
Capítulo  11,  deve  conter  uma  seção  sobre  suas  lentes  de  pesquisa  e  sua  possível  influência  em  todo  o
estudo e seus resultados.
Banco de estudos ilustrativo para o Capítulo 3
EQ, estudo qualitativo; EC, estudo de caso; EE, estudo de entrevistas (incluindo grupos focais); MM, estudo de métodos mistos.
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NOTAS
1.  Uma  exceção  importante  poderia  ser  um  estudo  de  replicação,  deliberadamente  projetado  para  duplicar  um  estudo
anterior e determinar se os mesmos resultados seriam obtidos. Contudo, estudos de replicação não são discutidos neste
livro.
2. Você não deve ser levado a crer que o padrão iterativo e recursivo se limita à realização de pesquisa qualitativa, muito
menos ser considerado uma característica distintiva desse tipo de pesquisa. Experimentos laboratoriais também seguem
um padrão semelhante, os investigadores tendo que revisar suas questões de pesquisa depois de executar alguns testes
iniciais e possivelmente revisitar sua instrumentação ou procedimentos. O Capítulo 12 discute esses e outros paralelos
entre pesquisa qualitativa e não qualitativa.
parte II

Fazendo pesquisa
qualitativa
4
Escolhas no delineamento de
estudos de pesquisa qualitativa

Todo  estudo  investigativo  tem  um  delineamento,  implícito  ou  explícito.  Os  pesquisadores
procuram usar delineamentos robustos para reforçar a validade de seus estudos e assegurar
que  os  dados  a  serem  coletados  confrontem  adequadamente  o  tema  de  pesquisa  que  está
sendo  estudado.  A  pesquisa  qualitativa  também  tem  delineamentos,  mas  não  tipos  ou
categorias  fixas  de  delineamentos.  Assim,  o  presente  capítulo  descreve  oito  procedimentos
diferentes que podem ser considerados no delineamento de pesquisa qualitativa.
A  pesquisa  qualitativa  se  distingue  pela  potencial  resistência  a  fazer  excessivo,  se  fizer
algum,  trabalho  antecipado  de  delineamento  –  para  evitar  a  imposição  de  critérios  ou
categorias externas, ou qualquer regime fixo à realidade da vida real sendo estudada. Por isso,
o  presente  capítulo  discute  os  oito  procedimentos  como  “escolhas”,  sendo  os  pesquisadores
livres,  e  não  obrigados  a  adotar  os  procedimentos  de  delineamento  mais  adequados  a  seus
estudos específicos. Como seria de esperar, a primeira escolha é trabalhar no delineamento no
início de um estudo ou não.

Você pode criar uma plataforma sólida para seu estudo pensando cuidadosamente sobre seu delineamento
de  pesquisa.  Entretanto,  um  delineamento  ponderado  não  significa  adotar  automaticamente  diversos
procedimentos de delineamento rígidos. Ponderação aqui significa tomar decisões explícitas em primeiro
lugar  sobre  querer  ou  não  se  preocupar  com  todos  esses  procedimentos.  O  resultado  geral  de  sua
ponderação,  sejam  quais  foram  os  procedimentos  específicos  então  adotados,  será  uma  maior
probabilidade de completar um estudo válido, ou seja, um estudo cujos resultados realmente confrontem
as questões iniciais ou temas de estudo.

Breve definição dos delineamentos de pesquisa


Delineamentos de pesquisa são modelos lógicos. Os delineamentos servem como projetos “lógicos”, não
os planos “logísticos” muitas vezes citados por outros (os planos logísticos são todavia necessários, mas
abrangem o gerenciamento de sua pesquisa, tal como o cronograma e a coordenação do trabalho).
A lógica envolve as ligações entre as questões de pesquisa, os dados a serem coletados e as estratégias
para  analisar  os  dados  –  de  modo  que  os  resultados  de  um  estudo  confrontem  as  questões  de  pesquisa
pretendidas. A lógica também ajuda a reforçar a validade de um estudo, incluindo sua precisão.

✓ Por  exemplo,  um  estudo  comunitário  pode  ter  se  iniciado  com  sua  principal  questão  de  pesquisa
focada  na  natureza  da  prevenção  de  crimes  residenciais.  Entretanto,  a  coleta  de  dados  acabou
cobrindo apenas as organizações de moradores formalmente criadas, ignorando um grande número de
redes informais. Os resultados devem, portanto, ser limitados à prevenção de crimes por organizações
formais,  resultando  ou  em  uma  questão  de  pesquisa  modificada  (o  que  pode  ser  indesejável  ou
inaceitável)  ou  produzindo  um  entendimento  distorcido  de  todo  o  arsenal  de  prevenção  de  crimes
residenciais.

Por  definição,  todos  os  estudos  investigativos  possuem  um  modelo  ou  delineamento  implícito,  quer
você o tenha planejado ou não. Entretanto, ele não precisa ser criado no início de um estudo. Em pesquisa
qualitativa, a quantidade de trabalho de delineamento que é feito de antemão é uma questão de escolha.
Além disso, mesmo durante a realização de seu estudo você pode dar atenção diferenciada a diferentes
partes  dos  delineamentos  –  possivelmente  até  ignorando  algumas  partes.  Os  delineamentos  também
podem mudar no decorrer de um estudo. As principais condições do delineamento, inclusive se iremos
trabalhar no delineamento antecipadamente, são o tema do presente capítulo.

Opções de delineamento
A  abordagem  de  “escolha”  implicada  pelo  título  deste  capítulo  parece  justificada  porque  a  pesquisa
qualitativa  não  tem  um  conjunto  de  delineamentos  fixos,  como  pode  parecer  existir  ao  fazer
experimentos.  Em  outras  palavras,  uma  vez  que  não  há  uma  tipologia  clara  dos  modelos,  todo  estudo
qualitativo tende a variar em seu delineamento, e ter diversas opções disponíveis permite que você possa
personalizar seu delineamento como considerar adequado.
Ao  mesmo  tempo,  não  há  dúvida  de  que  seu  estudo  concluído  terá,  em  retrospecto,  algum  tipo  de
delineamento. Você pode ter planejado apenas algumas das características, deixando as outras emergirem
no decorrer do estudo. O delineamento final pode se revelar robusto a despeito de sua falta de atenção.
Inversamente, o delineamento pode não ser o que você queria que ele fosse, e o estudo pode ter falhas.
Vamos agora passar para as escolhas.

OPÇÃO 1: INICIANDO O DELINEAMENTO DE PESQUISA NO


COMEÇO DE UM ESTUDO (OU NÃO)

O que você deve aprender nesta seção:

Nem  todos  os  estudos  qualitativos  se  iniciam  tendo  um  delineamento  de  pesquisa.  Para  tais  estudos,  o
delineamento  portanto  não  serve  como  um  plano  para  conduzir  o  estudo,  mas  somente  como  uma
característica retrospectiva dele.
Os pesquisadores qualitativos não produziram um consenso claro sobre o valor de criar delineamentos
de pesquisa antes de iniciar a coleta de dados. As diferenças de opinião mais uma vez se concentram na
tensão  apresentada  pelas  escolhas  destacadas  ao  fim  do  Capítulo  3:  definir  a  direção  de  um  estudo
antecipadamente  (p.  ex.,  a  opção  de  “questões  primeiro”)  versus  deixar  que  as  experiências  de  campo
iniciais (e daí uma coleta de dados precoce) influenciem o rumo do estudo (p. ex., a opção de “trabalho de
campo primeiro”).
O presente capítulo não toma partido no assunto. Assim, iniciar um delineamento antecipadamente (ou
não),  ou  dar  atenção  precoce  a  algumas  características  de  delineamento  (como  identificadas  nas  sete
escolhas de delineamento adicionais no restante deste capítulo), mas não a outras, representa a primeira
“escolha” de delinea mento apresentada por este capítulo. Sua própria experiência de pesquisa qualitativa,
as  normas  que  você  deseja  seguir  e  as  normas  em  vigor  onde  você  faz  sua  pesquisa  indicarão  em  que
medida você poderia desenvolver um delineamento de pesquisa antecipadamente.
Quer  você  esteja  iniciando­o  no  começo  ou  não,  lembre­se  de  que  o  processo  de  delineamento  é
recursivo.  Isso  significa  que  partes  do  delineamento  podem  ser  implementadas  à  medida  que  o  estudo
avança,  e  que  essas  características  de  delineamento  também  podem  ser  revistas  mais  de  uma  vez  no
decorrer do estudo.

✓ Por exemplo, Joseph Maxwell, que talvez seja quem mais escreveu sobre delineamentos de pesquisa
qualitativa,  caracteriza  o  processo  como  uma  abordagem  “interativa”,  em  que  o  “propósito,  as
questões  de  pesquisa,  o  contexto  conceitual,  os  métodos  e  a  preocupação  com  a  validade  de  um
estudo qualitativo interagem constantemente” (Maxwell, 1996, p. 1­8).

O fato de que essas escolhas recursivas e outras arbitrárias podem ser feitas durante a realização de um
estudo dirige a atenção diretamente para a questão da integridade do pesquisador (anteriormente discutida
no Cap. 2, item D). Como a pesquisa qualitativa permite, e de certa forma encoraja múltiplos ajustes em
qualquer fase do processo de estudo, os pesquisadores têm a oportunidade, diferentemente do que ocorre
na maioria dos outros tipos de pesquisa, de influenciar os resultados. Essa influência pode ser proposital
ou inadvertida.
Se  proposital,  o  pesquisador  teria  fracassado  em  atender  aos  padrões  de  integridade  de  pesquisa
aceitável.  Se  inadvertida  (e  influências  inadvertidas  podem  ser  uma  presença  constante  na  pesquisa),  o
investigador  tem  a  obrigação  de  confrontar  o  modo  como  tais  influências  podem  ter  ocorrido  e  seu
potencial  efeito  nos  resultados  de  um  estudo.  Essa  obrigação  é  tão  importante  que  é  discutida  em
passagens  ao  longo  deste  livro  em  referência  à  manutenção  de  notas  para  você  mesmo  (inclusive  um
diário pessoal). As notas devem tratar das questões de reflexividade, do pesquisador como instrumento de
pesquisa e das “lentes” do pesquisador, também discutidas ao longo do livro. (Ver a discussão no Cap. 11,
item D, sobre seu “self reflexivo”.)

OPÇÃO 2: TOMAR MEDIDAS PARA REFORÇAR A VALIDADE DE UM


ESTUDO (OU NÃO)

O que você deve aprender desta seção:


A  segunda  escolha  na  verdade  envolve  várias  escolhas.  Todas  elas  se  referem  a  modos  de  reforçar  a
validade de um estudo qualitativo. À primeira vista, a noção de “reforçar a validade” se contrapõe à nossa
compreensão de validade como um conceito estritamente bivariado (existe ou não existe). Em vez disso,
considere que todo estudo contém muitas alegações diferentes, cada uma das quais podendo ser válida ou
não. Seu objetivo seria validar tantas dessas alegações quanto possíveis, assim reforçando a validade de
um estudo em geral.

O que significa validade ao fazer pesquisa


Para todos os tipos de pesquisa, incluindo pesquisa qualitativa, possivelmente a questão fundamental do
controle de qualidade trata da validade de um estudo e seus resultados. Um estudo válido é aquele que
coletou  e  interpretou  seus  dados  adequadamente,  de  modo  que  as  conclusões  reflitam  com  precisão  e
representem a vida real (ou o laboratório) que foi estudado. Inversamente, estudos são, em qualquer área,
inválidos se chegarem a resultados falsos. Esse desfecho é improvável de ocorrer, mas os estudos devem
não obstante usar características do delineamento que reforcem a validade de suas alegações e resultados.
Observe que a questão da validade não se limita aos resultados do estudo. A questão se refere à simples
descrição de um evento de campo ou das opiniões de um participante. Esses numerosos itens podem ser
considerados os fatos apresentados por um estudo, e todos eles exigem validação.
Em  pesquisa  qualitativa,  é  essencial  não  confundir  o  desejo  de  validade  com  o  posicionamento  do
pesquisador em termos relativista­realista (descrito anteriormente no Cap. 1, item C). Em outras palavras,
mesmo um estudo que adote uma postura relativista (i.e., sustentando que não existe uma realidade única)
ainda precisa tratar da validade dos resultados relativistas. Você pode pensar o problema em termos de se
outro estudo, com as mesmas lentes ou orientação, teria colhido as mesmas evidências e teria chegado às
mesmas conclusões que aquelas de seu estudo.
Maxwell destaca as questões de validade referindo­se à “correção ou credibilidade de uma descrição,
conclusão, explicação, interpretação, ou outra forma de descrição” (1996, p. 87). Baseado em seu próprio
trabalho  bem  como  em  inúmeros  outros  estudos  qualitativos,  Maxwell  também  compilou  e  resumiu  ao
menos sete modos de confrontar os desafios da validade (ver “Sete estratégias para combater ameaças à
validade em pesquisa qualitativa”, Quadro 4.1.). A maioria das práticas recomendadas é fácil de entender
e  aplicar,  e  cada  uma  representa  uma  “escolha”.  Assim,  você  deve  ser  capaz  de  incorporá­las  a  seu
delineamento de estudo caso opte por isso.
Sete estratégias para combater ameaças à validade na pesquisa qualitativa

1. Envolvimento  [de  campo]  intensivo  a  longo  prazo  –  para  produzir  uma  compreensão  completa  e
aprofundada  das  situações  de  campo,  incluindo  a  oportunidade  de  fazer  repetidas  observações  e
entrevistas.
2. Dados “ricos” – para cobrir plenamente as observações e entrevistas de campo com dados detalhados e
variado.
3. Validação do respondente – para obter retorno das pessoas estudadas, para diminuir a má interpretação
dos seus comportamentos e opiniões de autorrelato.
4. Busca de evidências discrepantes e casos negativos – para testar explicações rivais ou concorrentes.
5. Triangulação – para coletar evidências convergentes de diferentes fontes.
6. Equivalentes  estatísticos  –  usar  números  reais  em  vez  de  adjetivos,  tais  como  ao  afirmar  que  alguma
coisa é “típica”, “rara”, ou “prevalente”.
7. Comparação – comparar explicitamente os resultados entre diferentes ambientes, grupos, ou eventos.

Duas das sete práticas, procurar “evidências discrepantes e casos negativos” (também conhecida como
testar  explicações  rivais  ou  concorrentes)  e  “triangulação”  precisam  de  maior  elaboração.  As  práticas
podem  ser  mais  prevalentes  do  que  geralmente  se  reconhece.  Ambas  levantam  a  necessidade  de  o
pesquisador  assumir  uma  orientação  ou  conduta  metódica  na  realização  de  um  estudo.  Neste  sentido,
ambas envolvem mais do que uma prática única ou específica. As duas são portanto discutidas em maior
detalhe a seguir.

Explicações rivais
Explicações  rivais  não  são  meramente  interpretações  alternativas.  Rivais  verdadeiras  competem
diretamente  uma  com  a  outra  e  não  podem  coexistir.  Em  pesquisa,  pense  em  seus  resultados  e  sua
interpretação como combatentes que podem ser contestados por um ou mais rivais. Se uma das rivais se
revela mais plausível do que sua interpretação original, você teria que rejeitar sua interpretação original,
não apenas adicionar uma nota de rodapé sobre isso. Ao reconhecer adequadamente a rival e rejeitar sua
interpretação  original,  você  na  verdade  fortaleceu  a  validade  de  sua  pesquisa,  especialmente  se  você
também discute detalhadamente o fundamento lógico para aceitar ou rejeitar cada uma das rivais como
parte de seu estudo (Campbell, 1975; Yin, 2000).
Os  pesquisadores  deliberadamente  procuram  reforçar  seus  estudos  procurando  rivais  durante  todo  o
processo de estudo. Rivais podem existir em toda parte, não apenas na interpretação final dos resultados
de um estudo. Por exemplo, você inevitavelmente terá feito certas suposições sobre as características de
seu ambiente de campo ou entrevistados por tê­los selecionado. Eles deviam ser a fonte de informações
valiosas  sobre  seu  tema  de  estudo.  Um  rival  constante,  enquanto  você  coleta  seus  dados,  deve  apontar
para  a  possibilidade  de  que  a  informação  poderia  ser  enganadora  ou  equivocada  e  que  outras  fontes
(ambientes  ou  entrevistas)  poderiam  oferecer  melhores  pontos  de  vista.  Você  deve  tomar  medidas
constantemente durante sua coleta de dados para “testar” essa rival.
De  modo  geral,  a  orientação  desejada  para  o  pensamento  rival  por  parte  dos  pesquisadores  assume
maior  importância  do  que  simplesmente  estipular  uma  ou  mais  explicações  rivais  na  conclusão  de  seu
estudo. O pensamento rival desejado deve se basear em um constante senso de ceticismo enquanto você
conduz seu estudo. O ceticismo envolveria fazer a si mesmo perguntas como:

✓ se os fatos e ações são como parecem ser;
✓ se os participantes estão dando suas respostas mais sinceras ao falar com você; e
✓ se suas suposições originais sobre um tema e suas características foram realmente corretas.
A  atitude  cética  levaria  você  a  coletar  mais  dados  e  fazer  mais  análise  do  que  se  você  não  estivesse
interessado  em  rivais.  Por  exemplo,  você  poderia  fazer  mais  verificações,  você  poderia  conferir  mais
outras  fontes  do  que  teria  feito  originalmente  e  você  poderia  ainda  explorar  algumas  possibilidades
remotas  em  vez  de  ignorá­las.  Em  outras  palavras,  toda  faceta  de  sua  pesquisa  e  métodos  de  pesquisa
poderia ser sujeitada a explicações rivais. Ter evidências sólidas para descartá­las (ou, alternativamente,
cedendo a uma rival e rejeitando suas suposições originais) é um modo essencial de reforçar a validade de
seu estudo.
Além disso, sua busca por tais “evidências discrepantes” deveria ser o mais rigorosa possível, como se
você estivesse tentando estabelecer a potência do rival mais do que procurando solapá­lo (Patton, 2002, p.
553;  Rosenbaum,  2002,  p.  8­10).  Se  nenhuma  evidência  desse  tipo  for  encontrada  apesar  de  diligente
busca,  você  se  sentiria  mais  confiante  na  descrição,  atribuição,  ou  interpretação  fundamental  de  seu
estudo.
Em suma, todos os tipos de rivais são possíveis a cada passo de seu estudo. Os estudos investigativos
mais fortes são aqueles conduzidos com uma mentalidade cética. Eles tentam identificar e testar possíveis
explicações rivais como parte integrante de todo o processo de pesquisa (Campbell, 2009; Yin, 2000). O
pensamento rival deve então fazer parte da composição final da pesquisa, incluindo as breves sínteses do
estudo, que geralmente assumem a forma de um abstract (Kelly & Yin, 2007).

Triangulação
O  princípio  de  triangulação  vem  da  navegação,  em  que  a  intersecção  de  três  pontos  de  referência
diferentes é usada para calcular a localização precisa de um objeto (Yardley, 2009, p. 239). Em pesquisa,
o  princípio  refere­se  ao  objetivo  de  buscar  ao  menos  três  modos  de  verificar  ou  corroborar  um
determinado  evento,  descrição,  ou  fato  que  está  sendo  relatado  por  um  estudo.  Tal  corroboração  serve
como uma outra forma de reforçar a validade de um estudo.
Tal como acontece com o pensamento rival, a triangulação também pode ser aplicada ao longo de um
estudo,  embora  a  prática  tenha  tendido  a  ser  associada  à  fase  de  coleta  de  dados. Ao  coletar  dados,  a
triangulação  ideal  não  apenas  buscaria  confirmação  de  três  fontes,  mas  tentaria  encontrar  três  tipos
diferentes de fontes. Assim, se você visse um evento com seus próprios olhos (uma observação direta), e
ele  lhe  fosse  relatado  por  outra  pessoa  que  o  presenciou  (um  relato  verbal)  –  e  ele  fosse  descrito  de
maneira semelhante em um relato posterior escrito por uma terceira pessoa (um documento) – você teria
considerável  confiança  em  seu  relato  daquele  evento.  Se  em  contraste  seu  estudo  focasse  na  visão  de
mundo de um participante, sem considerar sua relação com outras fontes, você poderia ainda triangular
conversando  com  o  participante  em  duas  ou  mais  ocasiões  sobre  a  visão  dele,  para  garantir  que  você
havia representado corretamente a visão do participante.
Muitas vezes, tipos diferentes de fontes podem não estar disponíveis. Você pode ter que se basear nos
relatos verbais de três pessoas diferentes (ou nas informações de três documentos diferentes), mas não ter
outra  fonte  de  corroboração.  Em  tais  situa ções,  você  precisaria  verificar  se  as  fontes  realmente
representaram três relatos independentes, precavendo­se para a possibilidade de que os relatos estivessem
de alguma forma ligados. Por exemplo, dois dos três documentos que inicialmente se apresentavam como
fontes  separadas  poderiam  simplesmente  estar  extraindo  informações  fundamentais  do  terceiro
documento.
A  busca  por  relatos  independentes  pode  ser  especialmente  problemática  ao  trabalhar  com  fontes  da
internet. O que pareciam ser três relatos diferentes em três sites diferentes poderiam facilmente provir da
mesma  fonte  original.  Por  exemplo,  muitas  reportagens  se  baseiam  no  trabalho  de  uma  conhecida  e
conceituada  agência  de  notícias,  a  Associated  Press  (AP).  Muitos  sites  pegam  uma  notícia  da  AP  e
publicam  a  mesma  notícia,  mas  sem  atribuí­la  à  AP.  Se  você  pensasse  que  três  desses  sites  estavam
publicando a notícia de maneira independente e, por conseguinte, ajudando­lhe a corroborar ou triangular
a notícia, você estaria equivocado.
A  necessidade  de  triangular  será  menos  importante  quando  você  capturar  e  registrar  os  dados
diretamente.  Por  exemplo,  se  você  pode  gravar  uma  entrevista  ou  fotografar  uma  questão  visualmente
importante,  haverá  menos,  ou  nenhuma,  necessidade  de  corroborar  as  evidências.  Infelizmente,  tomar
essas providências nem sempre é viável ou desejável (ver Cap. 7, item D).
Muitos estudos qualitativos também envolvem diálogos em idiomas estrangeiros. Uma prática valiosa,
quando da apresentação de algum diálogo em um manuscrito final redigido em português, é apresentar a
linguagem  original  e  sua  tradução  lado  a  lado  no  texto.  Os  leitores  familiarizados  com  o  idioma
estrangeiro  podem  então  avaliar  a  adequação  da  tradução  por  si  mesmos.  Infelizmente,  tal  prática  tem
sido  adotada  apenas  raramente  (ver  Valdés,  1996,  para  uma  das  poucas  exceções;  consulte  também  o
Quadro 10.3).

OPÇÃO 3: ESCLARECENDO A COMPLEXIDADE DAS UNIDADES DE


COLETA DE DADOS (OU NÃO)

O que você deve aprender nesta seção:

Delineamentos  de  pesquisa  também  definem  a  estrutura  de  um  estudo.  Um  componente  importante  na
estrutura, em torno do qual todo estudo empírico gira, consiste em sua unidade de coleta de dados.1 Em
que medida você quer atentar para essa questão é uma terceira escolha.
Todo estudo tem suas unidades de coleta de dados. Por exemplo, na parte de entrevistas de um estudo
qualitativo,  a  unidade  de  coleta  de  dados  é  uma  entrevista,  e  se  seu  estudo  coletou  dados  de  15
entrevistados,  isso  significaria  que  ele  tem  15  dessas  unidades.  Por  outro  lado,  se  um  estudo  envolveu
uma série de grupos focais como fonte de dados, cada grupo de foco seria uma das unidades de coleta de
dados.

Arranjos de aninhamento
É  interessante  observar  que  a  maioria  dos  estudos  qualitativos  tem  mais  do  que  um  nível  de  coleta  de
dados. Esses múltiplos níveis tendem a se enquadrar em um arranjo de aninhamento: um nível mais geral
(p. ex., um ambiente de campo) que contém ou inclui um nível mais estreito (p. ex., um participante no
ambiente). Cada nível também tem números diferentes de unidades. Normalmente, a maioria dos estudos
qualitativos poderia ter uma única unidade no nível mais amplo (p. ex., um único ambiente), mas diversas
unidades no nível mais estreito (p. ex., múltiplos participantes no mesmo ambiente).
Para  ilustrar  as  unidades  nestes  dois  níveis,  a  Tabela  4.1  lista  muitos  dos  estudos  qualitativos  que
aparecem nos Quadros neste livro. A lista mostra dois níveis de unidades de coleta de dados, bem como o
principal tema de cada estudo. Observe que os principais temas na Tabela 4.1 são semelhantes aos temas
anteriormente discutidos no Capítulo 3 como parte do processo de iniciação de um estudo.

Temas e dois níveis de unidades de coleta de dados em estudos qualitativos ilustrativos

Nível de coleta de dados

Estudo Tema principal Nível mais amplo Nível mais estreito

campi
Em relação ao número de unidades em cada nível, a Tabela 4.1 também indica o número de unidades
no nível mais amplo, como no estudo de Edin e Kefalas (2005) de oito bairros da Filadélfia, ou o estudo
de Ericksen e Dyer (2004) das equipes de projeto em cinco indústrias. (Contudo, a Tab. 4.1 não mostra o
número de unidades em um nível mais estreito.)
Examinando­se  melhor  a Tabela  4.1,  pode­se  notar  que  as  unidades  ao  nível  mais  amplo  geralmente
são  alguma  entidade  geo gráfica,  organizacional  ou  social.  As  unidades  no  nível  mais  estreito
frequentemente consistem em participantes. Entretanto, o nível mais estreito também pode ter políticas,
práticas, ou ações como unidades.
É  importante  assinalar  que  a  relação  de  aninhamento  entre  os  níveis  mais  amplos  e  estreitos  é
relacional, não absoluta. Por exemplo, a unidade no nível mais estreito também pode ser uma comunidade
ou uma organização, como no estudo de Gross (2008) da transferência de israelenses para fora da faixa de
Gaza, também listado na Tabela 4.1. Além disso, o arranjo aninhado pode não ser limitado a dois níveis.
Alguns  estudos,  porém  não  incluídos  na  Tabela  4.1,  podem  na  verdade  ter  um  terceiro  nível,  ainda
adicionalmente embutido (e até mais estreito).

Relação entre o nível das unidades de coleta de dados e o principal tema de


um estudo
Esclarecer  a  complexidade  potencial  nas  unidades  de  coleta  de  dados  e  seus  níveis  pode  ser  uma  parte
importante do delinea mento e realização de seu estudo. Mais especificamente, as unidades precisam ser
um reflexo apropriado do principal tema de estudo:

✓ Por  exemplo,  na  Tabela  4.1,  o  tema  principal  no  estudo  de  Mead  (1928)  (desenvolvimento
adolescente feminino) indicava que as unidades no nível mais amplo (três aldeias) desempenhavam
grandemente  uma  função  contextual,  ao  passo  que  os  dados  para  o  tema  principal  vieram  das
unidades no nível mais estreito (os dados coletados de cada mulher e suas famílias).
✓ Entretanto,  em  outros  estudos,  tais  como  no  de  Lynd  e  Lynd  (1929)  de  uma  cidade  mediana  dos
Estados Unidos, a unidade no nível mais amplo (Muncie, Indiana) era o principal tema de estudo, não
as unidades no nível mais estreito (práticas comunitárias).

De modo geral, você vai querer entender claramente se um estudo (inclusive o seu) tem unidades de
coleta de dados em mais de um único nível e, se afirmativo, a relação entre eles. Essa compreensão levará
a uma revelação mais importante, que é amarrar a relação entre o nível de unidades de coleta de dados e o
principal tema de um estudo. Por exemplo, depois de ter coletado uma certa quantidade de dados, você
pode encontrar uma incongruência entre o tema original e os resultados emergentes. Essa incongruência
pode  ocorrer  se  o  tema  refletiu  um  nível  da  unidade  de  coleta  de  dados,  ao  passo  que  seus  resultados
emergentes vieram das unidades em outro nível.
Tendo chegado a uma encruzilhada, você tem duas alternativas. Uma é colocar mais energia na coleta
de dados das unidades no nível menos enfatizado, de modo que os resultados emergentes reflitam mais
rigorosamente  o  tema  principal. A  outra  possibilidade  é  redefinir  seu  tema  original.  Observe,  contudo,
que  tal  redefinição  também  exigiria  que  você  repensasse  o  nicho  de  seu  estudo,  porque  o  estudo  agora
estaria tratando de um tema ligeiramente diferente. Essa transição, por sua vez, poderia exigir que você
cobrisse um conjunto diferente de estudos prévios em sua revisão seletiva da literatura.
Esses  tipos  de  complexidades  fazem  parte  da  estrutura  de  um  estudo. Atentar  para  elas  vai  ajudar  a
construir  uma  apreciação  sobre  (1)  a  necessidade  de  definir  cada  uma  das  unidades  de  coleta  de  dados
com  certo  cuidado;  (2)  a  probabilidade  de  ter  unidades  de  coleta  de  dados  em  mais  do  que  um  único
nível; (3) a relação entre os níveis (provavelmente um arranjo de aninhamento) e (4) a relação entre os
níveis e o principal tema de estudo. Tudo isso pode ser considerado parte do delineamento de um estudo
qualitativo.

OPÇÃO 4: ATENTANDO PARA A AMOSTRAGEM (OU NÃO)

O que você deve aprender nesta seção:

Definir  e  reconhecer  formalmente  suas  unidades  de  coleta  de  dados  acarreta  uma  quarta  escolha  de
delineamento.  A  escolha  envolve  a  seleção  (ou  amostragem)  das  unidades  específicas,  assim  como  o
número delas, a serem incluídas em um estudo. A tarefa diz respeito às unidades nos níveis mais amplos e
estreitos,  com  os  estudos  na  Tabela  4.1  novamente  fornecendo  uma  rica  diversidade  de  exemplos
ilustrativos em cada nível. Quase todo estudo tem amostras em ambos os níveis, uma sendo no nível mais
amplo e o outra no nível mais estreito.
O desafio da amostragem decorre da necessidade de saber quais unidades específicas selecionar e por
quê, bem como o número de unidades que devem existir em um estudo. Especialmente desafiadores são
os estudos que podem ter apenas uma única unidade de coleta de dados:
Justificar  a  escolha  da(s)  unidade(s)  de  coleta  de  dados,  mesmo  que  haja  apenas  uma,  faz  parte  do
desafio de amostragem.

Amostragem intencional e de outros tipos


Em  pesquisa  qualitativa,  as  amostras  tendem  a  ser  escolhidas  de  uma  maneira  deliberada,  conhecida
como amostragem intencional. O objetivo ou propósito de selecionar as unidades de estudo específicas é
dispor daquelas que gerem os dados mais relevantes e fartos, considerando seu tema de estudo.

Igualmente importante, a seleção dessas unidades deve procurar “obter a maior gama de informações e
de  perspectivas  sobre  o  tema  do  estudo”  (Kuzel,  1992,  p.  37).  De  alta  prioridade  neste  aspecto,  essas
unidades  devem  incluir  aquelas  que  poderiam  oferecer  evidências  ou  visões  contrárias,  especialmente
diante  da  necessidade  de  testar  explicações  rivais  (p.  37­41).  Por  exemplo,  ao  selecionar  participantes,
você  deve  deliberadamente  entrevistar  algumas  pessoas  que  você  suspeita  que  poderiam  ter  opiniões
diferentes  relacionadas  a  seu  tema  de  estudo.  Mais  do  que  tudo,  você  quer  evitar  tendenciosidade  –  ou
qualquer  aparência  de  parcialidade  –  em  seu  estudo,  escolhendo  apenas  as  fontes  que  confirmem  seus
próprios pressupostos.
A  amostragem  intencional  difere  de  diversos  outros  tipos  de  amostragem:  por  conveniência,  bola  de
neve e aleatória. A  amostragem por conveniência – selecionar unidades de coleta de dados simplesmente
por causa de sua pronta disponibilidade – normalmente não é a preferencial. Ela tende a produzir um grau
desconhecido de incompletude porque as fontes de dados imediatamente disponíveis tendem a não ser as
mais informativas. Da mesma forma, amostras de conveniência tendem a produzir um grau indesejável de
tendenciosidade.
A  amostragem  em  bola  de  neve   –  selecionar  novas  unidades  de  coleta  de  dados  como  um
desdobramento das existentes – pode ser aceitável se o efeito de bola de neve tiver um propósito, e não
feito por conveniência. Por exemplo, no desenrolar de uma entrevista, você pode ficar sabendo de outras
pessoas que poderiam ser entrevistadas. O efeito de bola de neve ocorre quando você vai atrás e permite
que estes novos casos resultem na identificação de ainda outros entrevistados. O procedimento em bola
de neve pode ser seguido, mas somente se você pensar antecipadamente sobre suas razões para escolher
a(s)  entrevista(s)  subsequente(s).  É  preciso  distinguir  entre  ter  uma  razão  com  um  propósito  (p.  ex.,
considera­se que um entrevistado prospectivo tem informações adicionais relevantes a seu estudo) e ter
apenas uma razão de conveniência (p. ex., o entrevistado prospectivo por acaso está presente e tem uma
hora livre para conversar com você).
A  amostragem  aleatória  –  selecionar  uma  amostra  de  unidades  definida  estatisticamente  de  uma
população  de  unidades  conhecida  –  pode  ser  feita  se  seu  estudo  pretende  generalizar  seus  resultados
numericamente  a  toda  a  população  de  unidades.  Tal  fundamentação  numérica,  juntamente  com  os
pressupostos sobre as propriedades da população, geralmente não são relevantes em pesquisa qualitativa
– daí a raridade de encontrar amostras aleatórias em estudos qualitativos. (Uma contrastante maneira não
numérica  de  generalização,  altamente  preferencial  para  pesquisa  qualitativa,  é  discutida  posteriormente
neste capítulo na Opção 7.)

O número de unidades de coleta de dados a ser incluído em um estudo


Não  há  fórmula  para  definir  o  número  desejado  de  instâncias2  para  cada  unidade  mais  ampla  ou  mais
estreita da coleta de dados em um estudo qualitativo. Em geral, números grandes podem ser melhores do
que números pequenos, porque um número maior pode criar mais confiança nos resultados de um estudo
das seguintes maneiras.

Nível mais amplo
No nível mais amplo, a maioria dos estudos só possui uma unidade de coleta de dados. A unidade pode
ser um ambiente de campo, uma organização ou outra entidade, mais uma vez como ilustrado na Tabela
4.1. Os fundamentos lógicos para selecionar a única unidade incluem estudar um local raro, extremo, ou
inversamente  “típico”,  em  relação  a  seu  tema  de  estudo.  Se  seu  estudo  pretende  examinar  hipóteses
específicas, você também pode selecionar um local “crucial”, onde as hipóteses (e suas rivais) podem ser
efetivamente  examinadas  (Yin,  2009,  p.  47­49,  discute  os  critérios  de  seleção  em  relação  à  seleção  de
estudos de caso único).
Ao mesmo tempo, os estudos podem ter duas ou mais instâncias das unidades no nível mais amplo. Se
escolhidas para serem instâncias contrastantes, observe como os resultados de um estudo em dois locais
podem gerar maior confiança do que os de um estudo em um único local, porque os dados de um local
devem contrastar de maneiras previsíveis com os dados do outro local (ver “Estudando a desigualdade no
mercado de varejo”, Quadro 4.2).

Estudando a desigualdade no mercado de varejo

Ver também Quadro 5.4.

Se escolhido para refletir a presença de eventos semelhantes em múltiplos locais, mas com condições
sociais e econômicas diversas, a confiança pode ser maior do que se apenas um único local tivesse sido
estudado; qualquer uniformidade nos resultados de todos os locais, a despeito de suas condições sociais e
econômicas  diferentes,  poderia  aumentar  o  apoio  para  as  principais  afirmações  do  estudo  (ver  “Seis
descrições etnográficas como parte de um único estudo”, Quadro 4.3).

Seis descrições etnográficas como parte de um único estudo

Como  um  exemplo  final,  as  múltiplas  unidades  no  nível  maior  não  precisam  consistir  de  diferentes
ambientes,  organizações  ou  entidades. As  unidades  podem  representar  diferentes  períodos  de  tempo  no
mesmo sítio geográfico, como em um estudo da imigração cubana, que cobriu deliberada e intensamente
quatro  diferentes  ondas  de  imigração  que  ocorreram  durante  um  período  de  50  anos  (ver  “Um
delineamento comparativo de quatro casos através do tempo no mesmo local, Quadro 4.4.)
Um delineamento comparativo de quatro casos através do tempo no mesmo local

Ver também Quadros 7.1 e 11.8.

Ao mesmo tempo, estudar quaisquer instâncias adicionais da unidade de nível mais amplo consumirá
mais tempo e esforço. Por essa razão, ir além de uma única instância ao nível mais amplo pode estar além
do alcance de um único estudo. Uma forma de lidar com essa limitação é completar um estudo mesmo
que tenha apenas uma única instância. Se os resultados de tal estudo forem suficientemente promissores,
selecionar e examinar uma segunda unidade poderia fazer parte de um estudo de seguimento separado.

Nível mais estreito
No  nível  mais  estreito,  a  maioria  dos  estudos  qualitativos  terão,  em  contraste  com  o  nível  mais  amplo,
mais do que uma única instância da unidade mais estreita. O número de entrevistados, práticas, políticas,
ou ações incluídas em um estudo pode facilmente se situar na faixa de 25 a 50 unidades:

✓ Um  estudo  de  mulheres  que  trabalhavam  fora  e  como  elas  e  suas  famílias  lidavam  com  suas
responsabilidades  domiciliares  e  maternas  envolveu  entrevistas  com  50  casais  (100  pessoas)  e  45
outras pessoas – babás, funcionários de creches e outros profissionais de apoio a casais (Hochschild,
1989).
✓ Outro  estudo  que  se  tornou  um  livro  recordista  de  vendas,  traduzido  em  16  línguas  com  quase  um
milhão de exemplares vendidos, baseou­se nas entrevistas de 32 homens e mulheres (Gilligan, 1982).
✓ Finalmente, um terceiro estudo, sobre uma polêmica disputa jurídica (Green, 2004), teve apenas 26
informantes­chave, mas eles incluíam todas as pessoas nos cargos de elite relevantes.

No nível mais estreito, a preferência geral por números maiores a menores ainda persiste. Entretanto,
em  vez  de  buscar  alguma  fórmula  para  selecionar  o  número  apropriado,3  você  precisa  pensar  sobre  a
complexidade de seu tema de estudo e a profundidade da coleta de dados de cada unidade. Por exemplo,
capturar uma história de vida inteira poderia ser considerado um tema mais complexo, comparado com
focar em um único evento de vida, tal como um nascimento, casamento, ou funeral. Entretanto, esse tema
complexo  pode  ser  coberto  ou  com  um  número  maior  de  instâncias  em  um  nível  mais  superficial  –  ou
com  um  número  menor  de  instâncias  examinadas  intensamente.  Por  exemplo,  recorde  novamente  o
estudo de Lewis de uma única família: os dados daquela família preencheram a maior parte de um livro
de 500 páginas.
Ter números grandes não é a única forma de aumentar a confiança nos resultados de um estudo. Outra
consideração essencial reflete a composição, não apenas o tamanho, de um grupo maior. Mais uma vez,
você  deve  deliberadamente  buscar  dados  para  se  proteger  de  explicações  rivais  ou  vieses  indesejáveis.
Por  exemplo,  embora  um  pesquisador  tenha  passado  três  anos  como  observador­participante  em  uma
grande  escola  urbana  de  ensino  médio  (a  unidade  de  coleta  de  dados  mais  ampla),  o  principal  tema  de
estudo  referia­se  aos  jovens  na  escola  (as  unidades  no  nível  mais  estreito).  Para  cobrir  o  nível  mais
estreito  suficientemente,  o  pesquisador  coletou  dados  de  diversos  grupos  diferentes  de  jovens,  não  de
apenas dois deles (ver “Buscando múltiplas unidades de coleta de dados, mas de uma maneira metódica
variada”, Quadro 4.5).

Buscando múltiplas unidades de coleta de dados, mas de uma maneira metódica variada

Ver também Quadro 1.3.

OPÇÃO 5: INCORPORANDO CONCEITOS E TEORIAS EM UM


ESTUDO (OU NÃO)

O que você deve aprender nesta seção:


A pesquisa qualitativa geralmente foca no significado dos eventos da vida real, não apenas na ocorrência
dos eventos. O Capítulo 1 já assinalou que os conjuntos de significados importantes são aqueles mantidos
pelos participantes dos eventos, sendo uma vantagem da pesquisa qualitativa sua capacidade de capturar
esses significados, em vez de ser limitada aos significados impostos por um pesquisador.
A busca do significado é na realidade uma busca de conceitos – ideias que são mais abstratas do que os
dados reais de um estudo empírico. Uma coleção de conceitos, mesmo que pequena, pode ser reunida de
alguma maneira lógica, que depois pode representar uma teoria sobre os eventos que foram estudados. O
grau em que você quer desenvolver conceitos e teorias como parte de um estudo – assim como em que
sequên cia  você  quer  reconhecê­los  em  relação  a  suas  atividades  de  coleta  de  dados  –  é  uma  quinta
escolha de delineamento.

Mundos destituídos de conceitos?


Muitas  pessoas  podem  pensar  que  um  estudo  qualitativo  estereotípico  é  destituído  de  conceitos.  O
estereótipo mostraria a pesquisa qualitativa como uma representação da realidade semelhante a um diário,
jorrando um detalhe atrás do outro sobre eventos ou pessoas sem fazer uso de nenhum conceito, muito
menos de teorias. O estereótipo poderia considerar os estudos qualitativos como semelhantes a narrativas
cronológicas  de  um  escriba  medieval,  ou  mesmo  como  os  detalhes  clínicos  na  linguagem  seca  de  um
laudo feito por um médico legista.
Esse estereótipo da pesquisa qualitativa não representa a boa pesquisa qualitativa, e você deve evitá­lo.
A  pesquisa  qualitativa  preferencial  captura  o  mesmo  detalhe  empírico  –  porém  entrelaçado  de  alguma
maneira com conceitos abstratos, se não teorias. Por exemplo, recorde, do Capítulo 1 (item A), que um
dos  motivos  comuns  para  fazer  pesquisa  qualitativa  é  a  capacidade  de  estudar  os  eventos  dentro  do
contexto da vida real – incluindo a cultura relevante das pessoas, da organização, ou dos grupos que estão
sendo estudados. Observe rapidamente, contudo, que cultura é um conceito abstrato, se não uma teoria
sobre  a  existência  de  regras  e  normas  não  escritas  que  regem  o  comportamento  social  de  grupos  de
pessoas.

Abordagem indutiva dedutiva


O desejo de entrelaçar dados empíricos pormenorizados com algum conjunto de conceitos e teorias nos
leva de volta à introdução anterior relativa à abordagem indutiva no presente livro (ver Cap. 1, item D).
As  abordagens  indutivas  contrastam  com  as  abordagens  dedutivas,  pois  as  duas  refletem  diferentes
formas de oscilar entre dados e conceitos. Abordagens indutivas tendem a permitir que os dados levem ao
surgimento de conceitos; abordagens dedutivas tendem a permitir que os conceitos – mesmo que tomem a
forma de “categorias” iniciais (que são outra forma comum de conceitos) – levem à definição dos dados
relevantes que precisam ser coletados.
A  maior  parte  da  pesquisa  qualitativa  segue  uma  abordagem  indutiva.  Entretanto,  não  há  nada  de
errado em seguir uma abordagem dedutiva. Exemplos dessas duas abordagens são discutidos a seguir.
Um estudo que seguiu uma abordagem mais indutiva iniciou­se com o tema da prevenção de crimes
em bairros, no qual os próprios moradores formam grupos de combate ao crime (Yin, 1982a). Naquela
época, muitos desses grupos existiam em diferentes variedades de bairros, mas pouco se sabia sobre tais
grupos – ou mesmo se eles eram do mesmo tipo. Por isso, o trabalho de campo para um novo estudo se
iniciou  sem  muita  conceitualização  ou  teorização.  Somente  depois  do  trabalho  de  campo  ter  sido
concluído é que surgiu uma tipologia útil de quatro tipos de grupos de combate ao crime (ver “Como o
trabalho de campo pode levar a uma tipologia útil”, Quadro 4.6).
Como o trabalho de campo pode levar a uma tipologia útil

Esse  tipo  de  abordagem  indutiva  é  totalmente  apropriado  para  a  pesquisa  qualitativa.  Não  se  sinta
desencorajado se os conceitos ou teorias relevantes levem algum tempo para aparecer:

✓ Os  conceitos  podem  ser  novos  na  literatura,  tal  como  a  noção  de  “educação  escolar  subtrativa”  de
Valenzuela (1999) em relação a seu estudo de estudantes imigrantes (ver Quadro 4.5 e também Cap.
1, Quadro 1.3).
✓ Os  conceitos  podem  se  encaixar  com  uma  literatura  bem  desenvolvida  e  consagrada,  tal  como  na
releitura da “cultura da pobreza” feita por Hays (2003) em relação a seu estudo da participação das
mulheres com as novas políticas de reforma da previdência social.

Por  comparação,  a  abordagem  dedutiva  tem  outros  méritos.  Ela  pode  poupar­lhe  de  sofrer  com  a
grande quantidade de incerteza durante a realização de seu trabalho de campo inicial, porque você teria
começado  com  conceitos  relevantes  em  vez  de  esperar  que  eles  apareçam.  Entretanto,  um  risco
importante poderia ser a perda prematura de quaisquer novas revelações sobre os eventos da vida real que
estão sendo estudados.
Uma abordagem dedutiva pode ser extremamente útil em certas circunstâncias. Por exemplo, imagine
que você tem acesso a videoteipes detalhados de um ano inteiro de ensino de matemática em uma sala de
aula  de  quarto  ano  do  ensino  fundamental  de  uma  escola  pública.  Sem  alguns  conceitos  ou  teorias
iniciais,  você  pode  passar  um  tempo  interminável  assistindo  a  essas  gravações,  sem  saber  o  que  está
procurando e desesperadamente esperando que surjam padrões comportamentais, e daí conceitos. Vamos
supor  que,  em  vez  disso,  você  usasse  essas  gravações  para  reexaminar  um  conceito  que  você  havia
identificado claramente de antemão. Você poderia então produzir um estudo notável devido ao interesse
generalizado naquele conceito (ver “Estudando um conceito preestabelecido: conhecimento de conteúdo
didático”, Quadro 4.7).
Estudando um conceito preestabelecido: conhecimento de conteúdo didático

A abordagem dedutiva também pode ajudar a estabelecer a importância de um estudo. Por exemplo,
um  estudo  de  uma  empresa  industrial,  que  de  outra  forma  poderia  não  ter  sido  considerada  um  local
particularmente especial, assumiu maior importância porque a empresa era uma das primeiras empresas
estatais do leste europeu a ser privatizada após a queda da União Soviética (ver “Estudando a privatização
em países da ex­União Soviética”, Quadro 4.8).

Estudando a privatização em países da ex-União Soviética

Tanto  da  perspectiva  indutiva  quanto  dedutiva,  os  exemplos  anteriores  devem  sugerir  o  benefício  de
interligar  estudos  qualitativos  com  conceitos  e  teorias.  Observe  que,  embora  os  conceitos  sejam
abstrações, eles não são necessariamente representações de grandes teorias. Por isso, a interligação não
precisa ser uma tarefa hercúlea. Os conceitos e teorias pertinentes devem estar bem ao alcance de nosso
conhecimento e pesquisa.
Estudos qualitativos organizados inteiramente em torno de seus conceitos teó ricos são realizados em
ocasiões extremamente raras:

Os méritos de seguir este enquadramento conceitual, comparado com o enfoque em um determinado
ambiente e suas características, precisam ser cuidadosamente ponderados.

OPÇÃO 6: PLANEJANDO UMA ETAPA INICIAL (OU NÃO) PARA


OBTER FEEDBACK DOS PARTICIPANTES

O que você deve aprender nesta seção:

feedback
feedback

Em uma etapa posterior de seu estudo, você provavelmente compartilhará alguns dos seus resultados ou
dados com um ou vários participantes do estudo – ou seja, aqueles que você entrevistou e com os quais
você  colaborou  –  para  obter  seu  feedback.  Talvez  somente  naquela  etapa  posterior  você  venha  a
confrontar  pela  primeira  vez  a  questão  do  que  compartilhar  com  quem  –  uma  prática  que  muitos
estudiosos têm chamado de verificação de membros.
Alternativamente,  e  como  uma  prática  cada  vez  mais  frequente  em  pesquisa  qualitativa,  você  pode
confrontar essa questão mais cedo – durante o delineamento de seu estudo. Você pode provisoriamente
pensar sobre os temas e tipos de materiais (p. ex., notas de campo ou primeiros esboços de sua narrativa)
que posteriormente irá compartilhar e com quem. Você pode então incorporar seu plano a seus planos de
pesquisa  bem  como  a  seu  procedimento  de  consentimento  informado.  Como  acontece  com  todos  os
planos, a prática real pode evoluir e mudar durante a realização do estudo, mas ao menos você iniciou
com  um  plano.  Nessa  medida,  pensar  sobre  a  questão  nesta  etapa  precoce  pode  ser  tratado  como  uma
questão de delineamento, semelhante às outras escolhas neste capítulo.
Como acontece com todas as outras questões de delineamento, o procedimento de obter um retorno dos
participantes  sobre  o  seu  trabalho  pode  ocorrer  com  tranquilidade,  mas  também  criar  obstáculos
imprevistos.  Como  em  relação  a  todas  as  demais  questões  de  delineamento,  não  existe  uma  maneira
perfeita de garantir que tudo ocorra sem percalços, especialmente sem sua constante atenção, bem como
disposição para adaptar seu plano original.

Opções de
Locke  e  Velamuri  (2009)  fizeram  uma  útil  compilação  das  prováveis  escolhas.  Por  exemplo,  eles
assinalam  que  os  motivos  para  compartilhar  o  trabalho  com  os  participantes  relacionam­se  tanto  às
correções e mudanças, que aumentarão a validade de um estudo (ver também a referência à “Validação do
entrevistado” no Quadro 4.1), quanto à necessidade de reforçar as relações cooperativas e éticas com os
participantes (Locke & Velamuri, 2009, p. 488­489). Da mesma forma, eles classificam as escolhas dos
resultados a serem compartilhados, as quais vão desde compartilhar o esboço de um resumo do produto
final até mostrar ao participante as notas obtidas em uma determinada entrevista com ele (p. 494).
Uma  boa  ideia  é  discutir  seu  pensamento  inicial  sobre  o  que  será  compartilhado  e  com  quem,  como
parte  da  conversa  sobre  consentimento  informado  que  você  terá  com  cada  participante.  Você  deve
determinar se o(s) participantes(s) têm outras sugestões ou preferências, e trabalharem juntos para chegar
a um procedimento aceitável.
Abordar a questão nesse momento crítico tem duas vantagens. Primeiro, a questão possivelmente terá
sido levantada antes de tornar­se “um problema”. Segundo, como com outras escolhas de delineamento,
você  terá  definido  o  caminho  planejado  na  ausência  dos  resultados  do  estudo.  Portanto,  você  e  os
participantes  posteriormente  não  poderão  ser  acusados  de  predispor  o  plano,  porque  todos  sabiam  da
natureza dos resultados.

Influência potencial sobre a narrativa posterior de um estudo


A  previsão  do  processo  de  feedback  não  deve  influenciar  os  resultados  de  seu  estudo.  Entretanto,  o
processo irá exigir uma certa delicadeza em suas palavras. Antes de esmerar­se pela precisão, você deve
ser  mais  sensível  à  necessidade  de  evitar  palavras  que  desnecessariamente  incitem  os  participantes  de
uma maneira pessoal.
Você também não pode ficar alheio às condições contextuais que podem ter mudado desde a época em
que  você  coletou  os  dados  até  a  época  em  que  redigiu  o  manuscrito  final.  Uma  nota  prefacial  pode
esclarecer  os  tempos  das  atividades.  Entretanto,  as  condições  podem  ter  mudado  significativamente  –
lembre­se  de  que  o  intervalo  entre  a  coleta  de  dados  e  o  relato  final  pode  ser  de  até  um  ano  ou  mais.
Nesse  caso,  você  pode  ter  que  fazer  ajustes  adicionais,  tais  como  repetir  parte  da  coleta  de  dados  e
apresentar o trabalho posterior em um epílogo.

OPÇÃO 7: PREOCUPAR-SE EM GENERALIZAR OS RESULTADOS DE


UM ESTUDO (OU NÃO)

O que você deve aprender nesta seção:

Por sua própria natureza, a pesquisa qualitativa é particularista. Compreender as nuances e os padrões do
comportamento  social  só  resulta  do  estudo  de  situações  e  pessoas  específicas,  complementado  por
cuidadosa  atenção  às  condições  contextuais  especificas.  A  característica  particularista  dificulta  a
consideração de como os resultados de estudos qualitativos podem ser generalizados a um conjunto mais
amplo de condições – além daquelas no estudo imediato.
Existe muita discussão sobre a relevância e natureza das generalizações em pesquisa qualitativa (p. ex.,
Gomm, Hammersley, & Foster, 2000). Alguns argumentariam que generalizar tem um papel limitado ao
fazer­se pesquisa qualitativa. Por exemplo, as primeiras raízes na antropologia cultural preocupavam­se
fortemente em distinguir culturas exóticas e distantes, não na generalização de suas experiências (p. ex.,
Schofield, 1990, p. 202­205) (ver também a discussão anterior no Cap. 1, item C, sobre a singularidade
dos eventos humanos).
Você certamente tem a opção de concordar com esses papéis limitados, mas você também pode querer
ter a opção de tentar generalizar os resultados de seu estudo. Nesse caso, o fundamento lógico para querer
generalizar os resultados de um único estudo é o fato de que qualquer estudo (qualitativo ou não) só pode
coletar uma quantidade limitada de dados, envolvendo números limitados de unidades de coleta de dados.
Contudo,  a  maioria  dos  estudos  pode  produzir  maior  valor  se  seus  resultados  e  conclusões  tiverem
implicações  que  vão  além  dos  dados  coletados  –  ou  seja,  o  quanto  os  resultados  podem  ser
“generalizados” para outros estudos e outras situações. Quanto mais uma pesquisa de qualquer tipo pode
ser generalizada dessa forma, mais ela será  valorizada.  Isso é  verdade  mesmo  quando um  estudo tenha
apenas uma unidade de coleta de dados, tais como um estudo de caso único. Como fazer generalizações
de pesquisa qualitativa é, assim, mais uma escolha que merece sua máxima atenção.

Necessidade de ir além das generalizações estatísticas


Para a pesquisa qualitativa, um obstáculo importante no pensamento sobre generalizações tem sido uma
lastimável  pressuposição.  Ela  começa  com  a  noção  de  que  existe  apenas  uma  maneira  de  generalizar.
Além  disso,  essa  maneira  de  generalizar  presume  que  os  resultados  de  um  estudo  representam  uma
“amostra”, e que se a amostra foi escolhida adequadamente, os resultados podem ser generalizados para a
“população” mais ampla da qual a amostra foi extraída. Esse modo de generalizar caracteriza a maioria
dos estudos de levantamento, em que o objetivo é selecionar uma amostra representativa de entrevistados
e depois extrapolar os resultados para o universo original dos entrevistados.
Uma  vez  que  a  relação  entre  as  amostras  e  sua  população  se  baseia  em  estimativas  numéricas,  esse
modo  de  generalizar  pode  ser  descrito  como  generalização  estatística  (Yin,  2009,  p.  15,  38­39).  Essa
maneira  de  pensar  tem  sido  tão  comum  que  mesmo  estudiosos  que  fazem  apenas  pesquisa  qualitativa
pensam  constantemente  nesses  termos,  perguntando  a  si  mesmos  como  os  resultados  de  seu  local  de
estudo (com frequência, único) podem ser generalizados às experiências em outros locais, como se o(s)
seu(s)  local(is)  de  estudo  representasse(m)  alguma  espécie  de  amostra  de  uma  suposta  população  de
locais.
Para  pesquisa  qualitativa,  esse  tipo  de  pensamento  não  funciona  bem  e  leva  a  um  inevitável  dilema:
nenhum  número  menor  de  unidades  de  coleta  de  dados,  muito  menos  uma  única  unidade,  pode
representar adequadamente a população de unidades mais ampla, mesmo quando a população mais ampla
pode  ser  definida.  Por  exemplo,  um  estudo  da  construção  de  instituições  democráticas  em  países
específicos  não  pode  ser  prontamente  generalizado  a  outros  países  específicos,  mesmo  que  os  países
estudados  tenham  sido  selecionados  para  (1)  serem  de  tamanho  variado;  (2)  representem  diferentes
continentes e condições econômicas; e (3) consistam de pessoas de cor diferente. A teoria numérica não
funciona porque os países variam ao longo de tantas dimensões que o tamanho de qualquer amostra será
inadequado para representar a população dos países.
Um  modo  alternativo  de  generalizar  exige  que  você  abandone  quaisquer  ideias  sobre  amostras  ou
populações. As  unidades  de  coleta  de  dados  de  seu  estudo,  seja  no  nível  amplo  seja  no  estreito,  como
discutido anteriormente, não são “unidades de amostragem”, e todas as considerações desse tipo precisam
ser totalmente descartadas.

Fazendo generalizações
O modo alternativo é comumente praticado em pesquisa, mas não comumente reconhecido. Essa noção se
inicia  com  a  observação  de  que  toda  pesquisa,  não  apenas  a  pesquisa  qualitativa,  ocorre  na  forma  de
estudos individuais. O desafio de generalizar para outras condições surge, portanto, com experimentos de
laboratório,  Como  generalizar  os  resultados  de  um  único  experimento,  executado  com  um  grupo
específico  de  sujeitos  experimentais  em  um  dado  lugar  e  tempo  (e  submetidos  a  intervenções  e
procedimentos experimentais específicos), também pode parecer problemático.
Tanto  em  estudos  qualitativos  quanto  em  experimentos  laboratoriais,  o  objetivo  de  generalizar  os
resultados  é  o  mesmo:  os  achados  ou  resultados  de  um  único  estudo  devem  seguir  um  processo  de
generalização analítica (Yin, 2009, p. 43). Pode­se definir generalização analítica como um processo em
duas etapas. A primeira envolve uma afirmação conceitual mediante a qual os investigadores demonstram
como  os  resultados  de  seu  estudo  provavelmente  informam  um  determinado  conjunto  de  conceitos,
construtos teóricos, ou sequência hipotética de eventos. A segunda envolve aplicar a mesma teoria para
implicar outras situações semelhantes, em que conceitos semelhantes podem ser relevantes.
Esse  modo  de  generalizar  pode  ser  encontrado  em  quantos  estudos  se  queira,  inclusive  estudos  que
foram recordistas de venda em suas áreas acadêmicas (ver “Generalizando os resultados de um estudo de
caso  único”,  Quadro  4.9).  Uma  abordagem  semelhante  se  aplica  ao  exemplo  anterior  sobre  estudos  de
caso  de  países  que  perseguem  a  construção  de  instituições  democráticas:  em  vez  de  generalizar  para  a
população de outros países, um estudo desse tipo deve procurar desenvolver, e depois discutir, como seus
resultados podem ter implicações para uma melhor compreensão de determinados conceitos – neste caso,
o processo de construção de instituições democráticas.

Generalizando os resultados de um estudo de caso único

Fazer generalizações analíticas exige um argumento cuidadosamente construído, seja para um estudo
qualitativo  ou  para  um  experimento.  O  argumento  provavelmente  não  alcançará  a  mesma  condição  de,
por exemplo, uma “prova” em geometria, mas ele deve ser apresentado de forma clara e ser resistente a
questionamento lógico. A “teoria” relacionada pode se restringir a uma série de hipóteses ou mesmo uma
única hipótese. Cronbach (1975) esclarece que a generalização almejada não é a de uma conclusão, e sim
mais  semelhante  a  uma  “hipótese  de  trabalho”  (ver  também  Lincoln  &  Guba,  1985,  p.  122­123).  A
confiança em tais hipóteses pode então ir se construindo à medida que novos estudos, como no caso dos
experimentos, continuem produzindo resultados que respaldem as hipóteses.
O  argumento  precisa  ser  apresentado  em  relação  à  literatura  de  pesquisa  existente,  não  às  condições
específicas no estudo em si. Em outras palavras, o objetivo é apresentar proposições e hipóteses em um
nível  conceitual  mais  alto  do  que  o  dos  resultados  específicos.  Este  nível  mais  alto  pode,  em  primeiro
lugar, ter sido necessário para justificar a importância investigativa de estudar­se o tema escolhido.
Os  resultados  do  estudo  mostram  se  e  como  os  resultados  apoiaram  ou  contestaram  a  teoria.  Se
apoiaram,  os  investigadores  precisam  mostrar  como  os  avanços  teóricos  podem  ser  aplicados
(generalizados)  a  outras  situações  que  não  as  examinadas  como  parte  do  estudo  original  (ver  “Um
exemplo de generalização analítica de um único estudo qualitativo”, Quadro 4.10).

Um exemplo de generalização analítica de um único estudo qualitativo

Ver também Tabela 4.3

Como observação final, a apresentação e exame de explicações rivais, como discutido anteriormente
neste  capítulo,  reforçará  muito  qualquer  generalização  analítica.  Rivais  significativas  ou  plausíveis  da
hipótese inicial podem ter sido identificadas no início do estudo ou encontradas durante sua realização.
Um  exame  completo  das  rivais  envolve  esforços  sinceros  para  coletar  dados,  durante  o  estudo,  que
apoiem as rivais. Se tais dados tiverem sido rigorosamente procurados, mas não apoiam a rival, essa pode
ser rejeitada. Resultados de estudos que apoiam a principal hipótese, e ao mesmo tempo rejeitam rivais
plausíveis, representam forte base para reivindicar generalizações analíticas.

OPÇÃO 8: PREPARANDO UM PROTOCOLO DE PESQUISA (OU NÃO)

O que você deve aprender nesta seção:


Esta  escolha  final  de  delineamento  reflete  outro  possível  dilema  ao  fazer  pesquisa  qualitativa.  Ter  um
protocolo de pesquisa pode solapar uma virtude importante da pesquisa qualitativa, que é a capacidade de
capturar a vida real como os outros a vivem e veem, não como os pesquisadores conjeturam ou esperam
que ela seja. Contudo, os valores, expectativas e perspectiva estão implicitamente contidos em qualquer
protocolo de pesquisa.
Como seria de esperar, muitos pesquisadores qualitativos resistem a definir um protocolo de pesquisa
de  antemão.  Eles  procuram  adotar  uma  atitude  de  mente  aberta  ao  realizarem  seu  trabalho  de  campo
inicial.  De  maneira  semelhante,  as  primeiras  entrevistas  de  campo  também  se  baseiam  em  um  estilo
conversacional aberto que evita direcionar os entrevistados tanto quanto possível.
Ao  mesmo  tempo,  se  você  definiu  seu  tema  de  estudo  e  até  começou  a  articular  algumas  questões
fundamentais de pesquisa, e se você escolheu suas unidades de coleta de dados com a expectativa de que
eles  fornecerão  certos  tipos  de  dados  necessários,  algum  tipo  de  protocolo  pode  ajudar  a  orientar  seu
estudo e toda a coleta de dados de uma maneira produtiva. Você ainda precisa manter uma mente aberta
para  capturar  adequadamente  uma  perspectiva  do  campo  e  considerar  as  informações  inesperadas  que
surgem, mas um protocolo pode ajudar você a lembrar­se de seu tema e questões originais.
A oitava escolha de delineamento é o grau em que você quer preparar um protocolo antes do tempo. 4
Sua  escolha  pode  variar  de  um  extremo  (sem  protocolo)  ao  outro  (um  protocolo  bem  articulado).  É
provável que você vá terminar em algum ponto intermediário, mas a escolha é sua.

Protocolos, não instrumentos


O termo protocolo é usado para indicar um conjunto mais amplo de procedimentos e perguntas do que o
clássico  instrumento.  Os  instrumentos  mais  comuns  geralmente  são  bem  estruturados,  com  perguntas
abertas e fechadas em pesquisas de levantamento ou itens numéricos e procedimentos em experimentos
humanos. Em contraste, um protocolo altamente estruturado consiste apenas de um conjunto declarado de
temas. Esses temas cobrem o terreno substantivo que você precisa abranger como parte de uma linha de
investigação, descrita em maior detalhe a seguir. Entretanto, eles não “escrevem” um roteiro de perguntas
faladas e específicas, como um instrumento faria.
Para quase todos os tipos de pesquisa qualitativa, portanto, os “instrumentos” não são relevantes. Se
você de fato usou um instrumento, mesmo um instrumento aberto de levantamento, você estará fazendo
um levantamento e não um estudo qualitativo. Na verdade, a maioria dos estudos qualitativos citados nos
quadros  deste  livro,  quando  baseados  ou  mesmo  limitados  a  um  conjunto  de  entrevistas,  não  tiveram
nenhum  instrumento  (ou  ao  menos  não  discutiram  ou  apresentaram  um).  Os  dados  de  entrevista  foram
coletados  de  um  modo  mais  conversacional  discutido  no  Capítulo  6  (item  C),  mas  não  no  formato  de
perguntas e respostas pré­definidas, mesmo de perguntas abertas, que indica um levantamento.
Portanto, a principal escolha para estudos qualitativos parece ser sobre protocolos, não instrumentos.
Mas o que é um protocolo se ele não é um instrumento?

Protocolos como estruturas mentais


Um  protocolo  deve  implicar  um  amplo  conjunto  de  comportamentos  que  você  deve  adotar,  em  vez  de
uma interação bem­roteirizada entre você e sua fonte de evidência, tal como um participante em campo.
Embora um protocolo possa inicialmente ser preparado e estudado a partir de uma folha de papel, você
não  leva  consigo  um  protocolo  escrito  durante  o  trabalho  de  campo.  O  protocolo  está  em  sua  cabeça  e
nesse sentido serve como uma estrutura mental.
Uma  analogia  adequada  é  com  as  perguntas  clínicas  feitas  por  médicos.  Ao  indagarem  sobre
indisposições  que  os  pacientes  podem  ter  dificuldades  para  descrever,  os  médicos  conversam
informalmente  com  seus  pacientes,  mas  eles  também  estão  seguindo  uma  linha  de  investigação  para
verificar os sintomas. Enquanto fazem suas perguntas, os médicos estão cogitando as possíveis doenças
que  podem  ser  relevantes.  Observe  que  neste  processo  de  entrevista,  os  médicos  podem  tomar  notas
enquanto  fazem  suas  perguntas,  mas  eles  não  estão  seguindo  nenhum  protocolo  escrito  nem  lendo
perguntas de um instrumento.
Uma  analogia  igualmente  apropriada  é  o  trabalho  do  detetive.  Durante  a  resolução  de  crimes,  as
investigações  dos  detetives  ocorrem  em  dois  níveis. A  primeira  envolve  a  coleta  das  provas  (ou  seja,
realizar a coleta de dados), ao passo que a segunda envolve simultaneamente cogitar suas próprias ideias
sobre como e por que os crimes podem ter acontecido. As perguntas que levam aos palpites e teorias dos
detetives sobre os crimes, inicialmente experimentais e posteriormente tornando­se mais firmes à medida
que mais provas são colhidas, podem ser consideradas as estruturas mentais dos detetives.
O  protocolo  para  um  estudo  qualitativo  tem  algumas  características  previsíveis.  Primeiro,  ele  deve
conter  questões  suficientes,  fundamentais  para  o  tema  que  está  sendo  estudado,  que  orientem  uma  ou
mais  linhas  de  investigação  –  por  exemplo,  quais  evidências  buscar  e  de  que  fontes.  As  linhas  de
investigação  gerais  trabalham  para  revelar  as  questões  para  todo  o  estudo.  Observe  que  essas  questões
devem ser respondidas por você, com base nas evidências (incluindo as entrevistas) que você reúne.
Uma  vez  que  é  você  que  deve  responder  às  perguntas,  elas  são  aplicáveis  a  todas  as  suas  fontes  de
evidência  –  por  exemplo,  as  perguntas  em  sua  cabeça  enquanto  você  revisa  documentos  ou  faz
observações de campo. Quando você está entrevistando alguém como uma dessas fontes de evidências,
observe  que  as  perguntas  do  protocolo  não  representam  uma  sequência  particular  de  perguntas  faladas,
como  faria  um  instrumento  de  questionário.  Você  vai  criar  as  perguntas  faladas  como  parte  de  uma
conversa mais natural com determinado participante. Essas perguntas faladas refletirão as perguntas em
seu protocolo, mas o palavreado e a sequência reais das perguntas serão personalizados para a situação
específica da entrevista.
Segundo, manter o protocolo como uma estrutura mental e assim privada paradoxalmente ajuda tanto o
detetive quanto o pesquisador qualitativo a apresentar uma postura neutra na coleta da plena variedade de
dados,  seja  entrevistando  pessoas,  examinando  documentos,  fazendo  observações  ou  analisando
evidências  de  campo.  O  truque  é  não  permitir  que  a  existência  de  nossa  estrutura  mental  influencie  a
coleta  de  dados.  Pelo  contrário,  a  existência  da  estrutura,  se  usada  adequadamente,  deve  apontar  para
oportunidades de buscar evidências contrárias, bem como comprovativas.
Terceiro, as questões do protocolo vão lhe ajudar a lutar por evidências convergentes e trianguladas,
como discutido anteriormente neste capítulo (ver Opção 2). Mais uma vez, a fluidez do processo de coleta
de  dados  deixa  oportunidades  para  essa  convergência  ou  triangulação,  que  poderiam  ser  ignoradas  na
ausência de um protocolo.
Finalmente,  uma  das  virtudes  importantes  dos  estudos  qualitativos  é  a  possibilidade  de  obter  novas
revelações durante a coleta de dados. O uso de um protocolo de pesquisa não deve inibir o processo de
descoberta. Embora as questões protocolares provenham dos temas originais e das questões propostas por
um estudo, você também precisa manter uma mente aberta durante o processo de coleta de dados. Assim,
embora um protocolo tenha as três outras características recém descritas, você também deve ser capaz de
pensar  “fora  da  caixa”  (neste  caso  fora  de  toda  a  estrutura  mental)  quando  surgirem  evidências
inesperadas.
Quando  ocorre  uma  descoberta,  é  preciso  interromper  o  processo  de  coleta  de  dados  e  repensar  o
protocolo  original.  Você  pode  querer  alterar  os  planos  para  suas  atividades  de  coleta  de  dados
subsequentes, a fim de incorporar as descobertas mais recentes. Uma advertência é que se a descoberta
for significativa, repensar o protocolo também pode levar a repensar (ou redesenhar) todo o estudo e seus
objetivos originais. Por exemplo, as principais questões de pesquisa podem precisar ser reformuladas, e as
eventuais revisões da literatura precisam ser expandidas.
As Tabelas 4.2 e 4.3 contêm protocolos ilustrativos de dois estudos qualitativos. O protocolo na Tabela
4.2 foi usado para estudar mais de 40 organizações de bairro (National Commission on Neighborhoods,
1979). Cada organização foi objeto de um estudo de caso. O protocolo de estudo serviu como protocolo
para  cada  estudo  de  caso  e  tinha  as  características  recém­descritas.  Nesse  estudo,  o  protocolo  também
ajudou  a  respaldar  o  uso  de  procedimentos  paralelos  de  coleta  de  dados  entre  os  estudos  de  caso.  O
principal  tema  de  investigação  tinha  a  ver  com  o  papel  das  organizações  de  bairro  na  promoção  da
revitalização  de  bairros  –  tema  de  grande  interesse  na  década  de  1970  e  que  continua  até  hoje  (p.  ex.,
Chaskin, 2001; Marwell, 2007). As perguntas do protocolo são dirigidas ao operador de campo, não a um
determinado  participante  ou  entrevistado.  O  operador  de  campo  deve  escrever  uma  resposta  a  cada
pergunta,  citando  uma  combinação  de  dados,  incluindo  entrevistas  com  autoridades  e  moradores,
documentos relevantes e evidências arquivais, e observações diretas das condições do bairro.

Exemplo de um protocolo de campo para estudo de organização de bairro

Temas e pergunta protocolares (exibindo somente perguntas ilustrativas)

A. Inauguração e estrutura da organização


1. Em que ano a organização foi inaugurada?
2. O que levou a sua criação, e quem ou qual foi a principal fonte de apoio na criação?
3. Qual foi a fonte original de financiamento?
4. Qual foi a orientação inicial da organização?
5. Como a organização mudou desde seus primeiros dias?

B. Atividades de revitalização e seu apoio


6. Que atividades foram concluídas ou estão a caminho?
7. Como a organização se envolveu nestas atividades?

C. Relação com associações e redes voluntárias


8. A organização faz parte de uma organização superior?
9. Descreva a relação entre a organização e outras organizações locais no mesmo bairro.

D. Relação com a prefeitura da cidade


10.  A  organização  tem  alguma  relação  com  autoridades  específicas  ou  com  departamentos  do  governo  da
cidade?
11. A relação é formal ou informal?
12. A relação tem sido produtiva?

E. Resultados
13. Durante a existência da organização, houve evidência concreta de melhorias no bairro?
14.  Há  evidência  de  que  a  organização  tenha  impedido  ou  prevenido  alguma  mudança  na  condição  física  do
bairro?
15. As atividades da organização resultaram em um aumento na participação dos moradores?
16. Existe maior integração ou fragmentação no bairro desde a fundação da organização?
17. Como a organização lidou com os problemas de raça e pobreza do bairro?

Fonte

Protocolo geral de entrevista usado para entrevistar homens

História na comunidade

1. Pergunte há quanto tempo o Entrevistado (E) vive em Golden Valley, e por que ele veio para cá, se veio de
outro lugar. Que tipos de vínculos o E tem com a comunidade? O E está feliz aqui? Por que o E gosta de
viver em Golden Valley?
2. A  comunidade  mudou  durante  a  vida  do  E?  Em  que  aspectos?  A  vida  está  melhor  agora  do  que  no
passado?

História familiar

1. Pergunte  ao  E  sobre  o  que  faziam  seus  pais  enquanto  ele  crescia,  como  o  trabalho  era  distribuído  na
família,  que  papéis  cada  um  dos  pais  desempenhou  na  casa  e  em  relação  aos  filhos.  Com  qual  dos
genitores o E era mais íntimo?
2. Peça ao E que descreva seu pai e a relação com ele. Ele era um modelo ou alguém com quem ele queria
ser parecido?
3. Pergunte ao E se ele esperava que sua vida fosse semelhante à dos seus pais. Quais eram as expectativas
que ele tinha de si mesmo em relação ao trabalho e à família quando adulto?
4. As expectativas do E mudaram? A vida é melhor ou pior do que ele imaginou para si quando criança?

História de trabalho e lazer

1. Pergunte  ao  E  sobre  o  atual  emprego  ou  busca  de  trabalho.  O  E  está  feliz  com  sua  atual  situa ção  de
trabalho?
2. Que  tipos  de  trabalho  o  E  fez  no  passado?  Quais  foram  os  melhores  empregos?  A  vida  profissional  foi
afetada pelo fechamento da fábrica?
3. Se o E está em busca de emprego, converse sobre o processo. Como ele se sente em relação a si mesmo
quando  não  consegue  encontrar  emprego?  Como  ele  lida  com  essa  emoção?  Peça  ao  E  que  fale  sobre
casos específicos em que ele perdeu o emprego e como isso lhe afetou.
4. O  que  ele  faz  por  dinheiro  quando  não  consegue  emprego?  Ele  fez  sacrifícios  para  permanecer  na
comunidade? Por que ele fica se está com dificuldades para encontrar trabalho?
5. Que  outros  tipos  de  atividades  o  E  faz  no  tempo  livre?  O  que  ele  mais  gosta  de  fazer?  Procure  descobrir
sobre atividades de caça/pesca/ao ar livre, bem como de socialização, beber, etc.

Casamento e família

1. O E é ou já foi casado? Por quanto tempo e/ou quantas vezes? Ele se sente mais feliz casado ou solteiro?
Em que tipo de relacionamento eles estão atualmente envolvidos?
2. O E tem filhos? Quantos? Com quem eles moram? Como foram decididos os acordos de guarda?
3. Fale sobre o relacionamento com os filhos. Que tipos de papel o E desempenha como pai? Quais são as
coisas que ele mais gosta de fazer com os filhos? Ele acha que tem sido um bom pai para seus filhos? O
que  isso  significa  para  ele?  Quais  foram  os  melhores  momentos  como  pai?  Quais  foram  os  maiores
desafios ou decepções?
4. O E é muito parecido com seu próprio pai? Em que aspectos ele é semelhante ou diferente? Ele preferiria
ser mais ou menos parecido com seu pai? Que tipos de coisa faz de alguém um bom pai?
5. Se  não  tem  filhos,  o  E  deseja  ter  filhos?  Por  quê?  Ele  tem  alguma  relação  com  crianças  em  sua  vida,  e,
nesse caso, descreva seu papel.
6. Se nunca foi casado, o E deseja se casar? Que tipos de relações ele já teve – coabitação, etc. Que tipos
de qualidades o E está buscando em um parceiro? É solteiro por opção?
7. Quais  são  alguns  dos  maiores  desafios  ou  problemas  nos  relacionamentos  com  parceiros  amorosos?
Aprofunde­se  nas  causas  se  possível.  Como  ele  lida  com  esses  problemas?  Se  mantém  múltiplos
relacionamentos,  quais  foram  algumas  das  causas  dos  rompimentos?  Como  ele  se  sente  em  relação  às
ex?
8. O estresse relacionado ao trabalho (ou falta dele) afetou seus relacionamentos de alguma forma? Descreva
se possível.

Fonte

O  protocolo  na  Tabela  4.3  foi  usado  em  um  estudo  sobre  perda  de  emprego,  normas  de  gênero  e
estabilidade familiar em uma comunidade rural (Sherman, 2009). A comunidade foi durante muito tempo
dependente de uma indústria específica para emprego, e o estudo focou nas consequências advindas do
declínio  dessa  indústria  sobre  as  famílias.  O  interesse  em  gênero  estava  ligado  à  consequente  mudança
nos  papéis  masculino  e  feminino  no  trabalho  e  nos  domicílios.  O  protocolo  foi  usado  para  realizar
entrevistas qualitativas com os participantes do sexo masculino do estudo (observe como o protocolo é
escrito de uma forma que dirige as perguntas ao entrevistador, não ao participante).

Definições operacionais
Quer usemos um protocolo de pesquisa quer não, um dos benefícios de pensar sobre os dados coletados é
definir  os  diversos  tipos  de  dados.  Por  exemplo,  você  claramente  iria  querer  distinguir  um  evento
observado de um evento relatado (mas não observado). Dependendo do tema de estudo, muitos conceitos
relevantes,  tais  como  “coesão”  da  comunidade,  “mudança”  organizacional,  “promoção”  da  saúde,
“reforma” educacional, ou liderança dos “pobres” – para citar apenas alguns – vão requerer algum tipo de
definição operacional.
Em outros tipos de pesquisa, essas definições operacionais podem estar embutidas nas ferramentas e
instrumentos usados na pesquisa. Em pesquisa qualitativa, como você provavelmente será o instrumento
de pesquisa mais importante, você precisará adotar algumas diretrizes para reconhecer um fenômeno de
interesse  de  maneira  consistente.  Essas  diretrizes  também  podem  ser  estimuladas  por  um  protocolo  de
pesquisa bem­delineado.

versus

versus
A(s) questão(ões) de pesquisa do estudo.
Seu(s) tipo(s) e número de unidades de coleta de dados.
De que forma o estudo selecionou a amostra de cada tipo de unidade.
Se o estudo indica o uso de um protocolo de qualquer tipo, e a natureza do protocolo.
Se o estudo faz alguma tentativa de generalizar os resultados para outras situações que não foram
estudadas.

NOTAS
1.  O  temo  coleta  de  dados  é  usado  aqui  como  uma  referência  não  técnica,  para  evitar  a  confusão  com  os  termos  mais
técnicos unidade de análise, unidade de atribuição ou unidade de alocação. Todos estes últimos termos levantam questões
referentes às unidades apropriadas ao fazer análises (especialmente análises estatísticas), e, embora a unidade de coleta
de  dados  geralmente  seja  a  unidade  de  análise,  existem  situações  complicadas  em  que  ela  não  é.  Entretanto,  essas
situações e as estratégias analíticas necessárias não costumam aparecer em pesquisa qualitativa e, portanto, estão fora da
alçada do presente livro.
2. O termo instância é usado para conotar o número (não o tipo) de unidades. Uma organização poderia ser a unidade mais
ampla  e  estudar  três  organizações  seria  um  exemplo  de  três  instâncias  da  unidade  mais  ampla.  Em  pesquisa  não
qualitativa, o termo tamanho da amostra refere­se ao mesmo conceito de instância, como usado aqui, mas pelas razões
discutidas  no  texto,  o  conceito  de  amostra  no  termo  tamanho  da  amostra  tende  a  não  ser  relevante  em  pesquisa
qualitativa.
3. O problema do tamanho de amostra adequado também existe em estudos quantitativos. Neles, contudo, os pesquisadores
podem rea lizar uma análise formal do poder dos testes para determinar o tamanho de amostra necessário, presumindo
que existem certos dados prévios. O tamanho desejado irá variar de acordo com o tamanho presumível das diferenças e
variabilidade na população que está sendo amostrada (p. ex., o tamanho de efeito que um pesquisador precisa saber de
antemão),  assim  como  o  nível  de  confiança  nos  resultados  desejado  pelo  pesquisador  (Lipsey,  1990).  Pesquisadores
quantitativos reconhecem prontamente que diferenças estatisticamente significativas também podem não se igualar a
resultados com qualquer significado prático. Assim, mesmo em pesquisa quantitativa, a questão do tamanho de amostra
desejável exige algumas escolhas arbitrárias.
4. Na maioria dos casos, o protocolo de pesquisa atenderia às necessidades de um protocolo de estudo usado na obtenção de
aprovação de um CIE (ver Cap. 2, item E). Entretanto, e dependendo da orientação do CIE, um protocolo de estudo pode
dar mais ênfase a procedimentos logísticos e não abranger temas substantivos com tantos detalhes quanto um protocolo
de pesquisa.
5
Fazendo trabalho de campo

Coletar dados para pesquisa qualitativa geralmente implica interagir com situações da vida real
e as pessoas envolvidas nelas. Isso tudo torna­se parte do ambiente de campo para um estudo
de pesquisa. A variedade de ambientes de campo se soma aos numerosos eventos humanos
importantes e interessantes que podem ser objeto de estudos qualitativos. Ao mesmo tempo,
uma vez que os ambientes de campo são situações da vida real, os pesquisadores precisam
entrar e sair deles com certa formalidade, particularmente obtendo as necessárias permissões
para  fazerem  seu  estudo.  Manter  relações  de  campo  saudáveis  torna­se,  então,  um  desafio
constante.
O presente capítulo discute toda a gama de questões associadas à realização de pesquisa
em  ambientes  de  campo,  concentrando­se  fortemente  na  observação  participante  como  o
papel geralmente preenchido por um pesquisador. O capítulo também discute as visitas locais
como uma opção separada, mas relacionada para coletar dados de ambientes da vida real.

Para a maioria das pessoas, fazer algum tipo de trabalho de campo anda de mãos dadas com a realização
de pesquisa qualitativa. Dados de campo – quer sejam provenientes de observações diretas, entrevistas,
ou  video teipes,  quer  da  análise  de  documentos  contemporâneos  como  diários,  registros  ou  mesmo
fotografias dos participantes – formarão grande parte das evidências usadas em um estudo qualitativo. Por
essa  razão,  você  pode  querer  se  familiarizar  com  o  processo  de  trabalho  de  campo  como  parte  da
compreensão  de  um  comprometimento  inicial  com  a  realização  de  pesquisa  qualitativa.  Este  capítulo
discute as maneiras de trabalhar em um ambiente de campo – separadamente de quaisquer procedimentos
de coleta de dados específicos, que são os temas do Capítulo 6.
O trabalho de campo ocorre em ambientes da vida real, com pessoas em seus papéis da vida real. Os
ambientes,  ilustrados  em  maior  detalhe  posteriormente  neste  capítulo,  podem  ser  os  lares  das  pessoas,
locais de trabalho em empresas, ruas e outros espaços públicos, ou serviços como escolas ou clínicas de
saúde. O trabalho de campo pode focar em grupos de pessoas, independentemente de qualquer ambiente
físico em particular.
O trabalho de campo exige estabelecer e manter relações genuínas com outras pessoas e ser capaz de
dialogar  confortavelmente  com  elas.  Desenvolver  relações  viáveis  pode  ser  o  maior  desafio  pessoal  ao
fazer  pesquisa  qualitativa.  Muitas  das  habilidades  necessárias  se  reúnem  para  sermos  capazes  de
gerenciar o processo do trabalho de campo – e sermos capazes de lidar com as incertezas que ele cria.
Uma  vez  que  o  campo  é  um  ambiente  da  vida  real  com  pessoas  realizando  suas  rotinas,  uma
advertência muito importante é que você estará entrando no espaço, no tempo e nas relações sociais delas.
Observe que a realidade de um ambiente de campo em pesquisa qualitativa contrasta fortemente com a
artificialidade dos ambientes para outros tipos de pesquisa. Comparado com esses outros ambientes, você
não  terá  o  luxo  de  definir  suas  condições  de  trabalho,  como  ao  marcar  os  horários  que  lhe  sejam  mais
convenientes para aplicar uma série de questionários em um levantamento ou para “submeter sujeitos” a
um  experimento  laboratorial  –  ou  ainda  para  pesquisar  informações  arquivais  tranquilamente  em  uma
biblioteca ou na internet.
Como seria de esperar, as primeiras experiências no trabalho de campo tem sido simultaneamente as
mais  emocionantes  e  exasperantes.  Em  grande  medida,  fazer  trabalho  de  campo  pode  inicialmente
envolver  “ir  com  a  corrente”.  Somente  com  um  tempo  mais  prolongado  em  um  ambiente  os
pesquisadores  poderão  identificar  as  melhores  oportunidades  para  escolher  quando  e  onde  se
posicionarem no campo. Mesmo pesquisadores qualitativos não podem prever seus encontros iniciais em
campo  quando  estão  iniciando  um  novo  estudo  (e  muitos  desses  pesquisadores  tampouco  iriam  querer
isso). Cada situação de campo é única.
Mas mesmo assim você vai querer se preparar adequadamente para seu trabalho de campo. É provável
que  já  existam  muitas  informações  disponíveis  sobre  o  ambiente  de  campo  que  você  está  cogitando
estudar.  Cobertura  da  imprensa  local,  informações  na  internet,  bem  como  estudos  investigativos
anteriores  provavelmente  estão  disponíveis.  Você  deve  consultar  essas  informações  antecipadamente.
Assim, e como uma advertência extremamente importante para fazer trabalho de campo nestes tempos do
século  XXI,  “ir  com  a  corrente”  significa  ser  adaptativo  e  flexível  ao  iniciar  de  fato  seu  trabalho  de
campo, mas sem ignorar a necessidade de, em primeiro lugar, se preparar cuidadosamente para o trabalho.
Além  disso,  o  procedimento  para  garantir  a  proteção  de  sujeitos  humanos  vai  exigir  sua  própria
previsão de muitas das questões do trabalho de campo esperadas. Um comitê institucional de ética (CIE)
(ver Cap. 2, item E) terá que revisar e aprovar suas garantias.
Para  se  familiarizar  com  os  desafios  de  fazer  trabalho  de  campo,  o  presente  capítulo  discute  como
outros  estudiosos  vivenciaram  seus  dias  no  local  do  estudo,  incluindo  como  obtiveram  e  mantiveram
acesso a ele. As três primeiras seções do capítulo destacam o trabalho em campo e a iniciação e cultivo
das  relações  de  campo.  Essas  questões  tendem  a  ser  relevantes  qualquer  que  seja  sua  metodologia
específica  de  trabalho  de  campo.  As  duas  seções  subsequentes  então  descrevem  duas  das  principais
maneiras  pelas  quais  os  métodos  de  trabalho  de  campo  foram  formalmente  reconhecidos:  observação
participante e visitas ao local.

A. TRABALHANDO EM CAMPO

O que você deve aprender nesta seção:


Variedade dos ambientes de campo
Um modo de pensar sobre o trabalho de campo é pensar sobre seus variados ambientes. Em antropologia
e  sociologia,  os  primeiros  ambientes  de  campo  clássicos  eram  tanto  distantes  (os  primeiros  estudos
antropológicos  de  tribos  nativas  na  Nova  Guiné  ou  nas  Ilhas  Trobriand  –  Malinowski,  1922),  quanto
próximos (os estudos sociológicos de gangues – Thrasher, 1927; de casas de assentamento – Addams &
Messinger,  1919;  e  de  outros  grupos  de  bairros  estudados  pelos  pesquisadores  da  Universidade  de
Chicago – a “Escola de Chicago” no início do século XX, p. ex., Burgess & Bogue, 1967; Park, Burgess,
&  McKenzie,  1925;  Shaw,  1930;  Thomas  &  Znaniecki,  1927;  Zorbaugh,  1929).  Quer  remotos  quer
próximos,  os  ambientes  representavam  culturas  e  estilos  de  vida  socialmente  distantes  daqueles  do
pesquisador  e  de  seus  colegas  (predominantemente)  de  classe  média.  Portanto,  esses  primeiros  estudos
eram valorizados porque ofereciam revelações sobre a vida da perspectiva de diferentes culturas.
Ao  mesmo  tempo,  outros  ambientes  eram  deliberadamente  escolhidos  por  serem  “medianos”,  tais
como  os  estudos  originais  e  de  seguimento  dos  Lynds  da  cidade  de  Muncie,  Indiana,  escolhida  porque
representava uma cidade estadunidense demograficamente mediana naquela época (Lynd & Lynd, 1929,
1937).  Embora  não  culturalmente  distantes,  as  informações  sobre  esses  ambientes  “medianos”  também
contribuíram  para  uma  compreensão  mais  profunda  das  relações  sociais  e  institucionais  em  uma  época
em que esses ainda não eram temas de estudo frequentes.
Ambientes  de  campo  podem  ser  definidos  de  muitas  formas  (Anderson­Levitt,  2006).  Primeiro,  eles
podem incluir pequenos grupos de pessoas que possuem um vínculo comum, tais como uma gangue ou
um grupo de trabalho. Segundo, eles podem abranger moradores da mesma área geográfica. Esses dois
primeiros  tipos  foram  tema  de  muitos  estudos  urbanos  que  prevaleciam  em  meados  do  século  XX,
focando  especialmente  em  pessoas  que  viviam  em  área  urbanas  centrais  (p.  ex.,  Gans,  1962;  Hannerz,
1969; Liebow, 1967; Molotch, 1969; Suttles, 1968; Vidich et al., 1964; Whyte, 1955, 1984, 1989, 1992).
A  atenção  a  esses  tipos  de  grupos  continua  até  hoje  (p.  ex., Anderson,  1999;  Liebow,  1993; Wilson  &
Taub, 2006).
Terceiro,  ambientes  de  campo  podem  focar  em  cenários  institucionais. A  vida  cotidiana  em  muitos
tipos diferentes de instituições, tais como ambientes clínicos ou escolas, podem ser temas de estudo:

✓ Por exemplo, um estudo dos cuidados de longa duração prestados a idosos focou em seus processos
de  tomada  de  decisão  e  usou  três  centros  comunitários  como  ambientes  para  fazer  observações  e
entrevistas (p. ex., Tetley, Grant, & Davies, 2009).

Pode haver uma gama completa de ambientes institucionais e cotidianos que ofereçam experiências da
vida real dignas de estudo qualitativo (ver “Exemplos de contextos cotidianos”, Quadro 5.1).
Exemplos de contextos cotidianos

resort

Quarto,  ambientes  de  campo  podem  ser  definidos  como  grupos  de  pessoas  não  relacionadas.  Elas
podem ter alguma condição comum, tais como um problema de saúde ou indisposição física semelhante,
mas  não  interagem  enquanto  grupo,  residem  em  áreas  geograficamente  próximas,  ou  atuam  como
membros de ambientes institucionais semelhantes. Essa quarta definição tem se destacado na pesquisa de
teoria fundamentada (p. ex., Charmaz, 1999, 2002; Glaser & Strauss, 1967; Strauss & Corbin, 1998). Os
participantes de interesse também podem compartilhar alguma característica, tais como serem aprendizes
de  inglês  como  segunda  língua  (p.  ex.,  Duff,  2008).  Nessas  situações,  uma  pesquisa  qualitativa  em
psicologia poderia empreender uma cuidadosa análise do discurso, enfatizando o uso da linguagem dos
participantes como um modo de construir a realidade social (p. ex., Coyle, 2007).
A expressão  ambientes de campo  é  usada  no  restante  deste  capítulo  se  referindo  a  todos  os  tipos  de
situações precedentes. Todas elas oferecem aos pesquisadores qualitativos a oportunidade de representar
culturas, organizações sociais e estilos de vida, a fim de obter conhecimentos possivelmente importantes
sobre  como  as  pessoas  interagem,  enfrentam  situações  e  prosperam.  Todas  elas  oferecem  excelentes
oportunidades para estudar temas que podem ter sido ignorados por pesquisas anteriores. As revelações e
descobertas  desses  estudos  podem  levar  a  novas  ideias  que  por  sua  vez  podem  ter  implicações
importantes muito além da cultura, organização social, estilo de vida ou condição psicológica particular,
que  foi  objeto  original  do  estudo. As  contribuições  da  pesquisa  qualitativa  podem,  consequentemente,
assumir  uma  dupla  natureza:  novas  informações  sobre  alguma  coisa  anteriormente  pouco  conhecida,
combinadas  com  conceitos  e  revelações  que  possuem  implicações  para  interpretações  mais  amplas  das
relações humanas.
Seria desejável buscar uma combinação semelhante ao fazermos nossa própria pesquisa qualitativa. O
ambiente de campo pode ser exótico ou mediano. Mas não se esqueça de que, o que à primeira vista pode
parecer  ser  apenas  outro  ambiente,  pode  tornar­se  algo  mais  especial  ao  se  destacar  alguns  conceitos­
chave e usando­os para derivar novas perspectivas.

Regras e expectativas diferentes para lugares públicos ou privados como


ambientes de campo
Alguns  ambientes  de  campo  vão  exigir  permissão  para  serem  estudados.  Por  exemplo,  observe  como,
entre os ambientes enumerados no Quadro 5.1, você não precisaria necessariamente da mesma permissão
para  se  situar,  conversar  com  pessoas  ou  mesmo  tirar  fotografias  em  ambientes  de  estudo  que  são
públicos (p. ex., ruas) comparados com ambientes privados (p. ex., uma academia de artes marciais).
Entretanto, os limites entre lugares públicos e privados nem sempre serão claros. Por exemplo, escolas
“públicas”  são  “particulares”  no  sentido  de  que  você  precisará  da  permissão  das  autoridades  escolares
para  realizar  pesquisa,  bem  como  de  permissão  daquelas  autoridades  e  dos  pais  se  quiser  conversar  ou
tirar  fotografias  dos  alunos.  Lugares  de  práticas  religiosas,  lojas  a  varejo,  bibliotecas  “públicas”  e
assemelhados  apresentam  a  mesma  dualidade  –  acolhem  todas  as  pessoas  como  se  fossem  lugares
públicos, mas se consideram espaços privados para fins de pesquisas em suas dependências. Uma regra
geral recomendada é perguntar se é necessário, e a quem você teria que solicitar permissão, se fosse fazer
um estudo de um determinado ambiente ou sobre um determinado grupo de pessoas.

Variando a quantidade de tempo em campo


Pesquisadores de campo podem passar vários anos ou apenas alguns dias em campo, dependendo de seus
interesses teóricos, bem como de seus recursos. Os estudos clássicos tendiam a envolver um prolongado
trabalho de campo em função do desejo de estudar­se as complexidades da cultura, ou estrutura social de
um lugar ou pessoas, de forma mais completa. Tais investigações mais profundas exigiam examinar como
os  eventos  e  interações  humanas  poderiam  ter­se  repetido  ou  mudado  durante  um  período  de  tempo
prolongado – por exemplo, recorde os 15 anos apresentados anteriormente no Quadro 1.6 – e entre uma
variedade de pessoas e grupos.
Você pode não querer ou precisar investir em um período de tempo tão prolongado em seu trabalho de
campo. Entretanto, esteja ciente de que, no mínimo, muitos tipos de estilos de vida que podem ser o tema
de sua pesquisa qualitativa tendem a variar conforme as quatro estações. Assim, um ano de trabalho de
campo  faria  sentido  como  um  período  lógico  de  tempo  de  trabalho  de  campo.  Se  tal  variação  sazonal
parece não ser relevante, períodos de trabalho de campo mais curtos podem ser aceitáveis.
Estudos qualitativos menos clássicos, mas ainda dignos, tendem a focar em práticas específicas – por
exemplo,  como  se  ensina  matemática  no  4º  ano;  como  as  comunidades  planejam  suas  respostas  a
catástrofes;  como  empresas  privadas  diversificam  seus  negócios;  ou  como  indivíduos  superam
psicologicamente a perda de entes queridos. O trabalho de campo nessas instâncias pode estender­se por
um período de vários meses, e o pesquisador de campo pode estar presente apenas esporadicamente ou
não constantemente ao longo desse período.
A quantidade mais limitada de tempo em campo – dois ou três dias – é, não obstante, justificável se o
tema  de  investigação  for  igualmente  limitado.  Tais  estudos  podem  ter  por  objetivo  determinar  se  uma
ação  específica  ocorreu  ou  está  ocorrendo.  Exemplos  que  imitam  deliberadamente  os  do  parágrafo
anterior, mas com maior foco, poderiam ser as maneiras como professores estão usando um determinado
método de ensino em suas salas de aula; a natureza de um plano de resposta a catástrofes específicas de
uma comunidade (e a consciência desse plano por autoridades e moradores locais); as evidências de que
um  negócio  se  diversificou  (ou  não);  e  o  comportamento  imediato  para  superar  a  perda  de  uma  pessoa
importante.  Os  períodos  mais  curtos  podem  também  ser  adequados  para  envolver  ambientes  múltiplos
(ver a discussão sobre “fazer visitas ao local” no item E).
Se seus recursos ou motivações para fazer trabalho de campo (ou para coletar qualquer tipo de dados
de pesquisa) são limitados, a lição aqui é identificar um tema de investigação limitado. Inversamente, se
suas ambições intelectuais são grandes e você dispõe dos recursos para sustentá­las, você se beneficiará
de passar muito tempo em campo.

B. OBTENDO E MANTENDO O ACESSO AO CAMPO


O que você deve aprender nesta seção:

Os ambientes da vida real pertencem às pessoas na vida real, não aos pesquisadores que interferem nesses
ambientes.  Fazer  pesquisa  nesses  ambientes  requer  especial  atenção  ao  modo  como  você  poderia  obter
permissão para estudá­los e seu subsequente acesso a eles. Para realizar essas tarefas, os pesquisadores de
campo  muitas  vezes  são  auxiliados  por  outras  pessoas  que  podem  saber  mais  do  que  eles  sobre  o
ambiente.  Por  exemplo,  se  uma  pesquisa  anterior  ou  relacionamentos  pessoais  não  produziram  maior
familiaridade com o ambiente que deve ser estudado, um colaborador altamente familiarizado com aquele
ambiente  será  extremamente  valioso.  O  colaborador  ideal  pode  ajudar  a  identificar  e  colocar  um
pesquisador de campo em contato com pessoas­chave no ambiente.

Obtendo acesso a um ambiente de campo: um processo, não um evento


Pesquisadores menos experientes podem pensar o “acesso” como um evento, semelhante a candidatar­se
para admissão em uma faculdade ou escola de pós­graduação. Entretanto, nessas situações, um estudante
admitido permanece admitido, geralmente não tendo mais contato com o departamento de admissões. O
procedimento de admissões foi um evento que passou. Os alunos podem posteriormente serem expulsos
ou  suspensos,  mas  as  ações  que  levam  a  tais  sanções  são  bem  definidas  de  antemão  e  tornam­se  um
conjunto separado de eventos. Além disso, uma ação drástica como uma expulsão raramente ocorre.
Qualquer imagem semelhante à das admissões simplifica em demasia a situa ção do trabalho de campo.
Obter acesso pode ser mais um processo do que um evento pontual (p. ex., Maginn, 2007). Ao longo do
trabalho  de  campo,  a  ameaça  de  perder  o  acesso  (não  o  mesmo  que  ser  expulso)  sempre  existe.  Os
pesquisadores de campo, portanto, devem administrar o acesso durante todo o seu tempo em campo. Uma
vez  obtido  o  acesso,  os  experientes  não  o  dão  por  garantido.  Eles  evitam  comportamentos  que  possam
parecer  “estar  abusando  da  hospitalidade”.  O  acesso  pode  ser  totalmente  perdido  ou  limitado,  pois  os
anfitriões  podem  deliberadamente  excluir  os  pesquisadores  de  certas  atividades  (ver  “Acesso  obtido  e
depois restringido” no Quadro 5.2). Os participantes podem inclusive levantar objeções a um estudo em
andamento há algum tempo. Por exemplo, Kugelmass (2004) relatou tais questionamentos a seu estudo
depois  de  ter  obtido  as  devidas  permissões  e  ter  completado  dois  anos  de  trabalho  de  campo  em  uma
escola (ver “Questões de continuação levantadas no terceiro ano do trabalho de campo”, Quadro 5.3).
Acesso obtido e depois restringido

Questões de continuação levantadas no terceiro ano do trabalho de campo

Como o processo pode influenciar a substância de um estudo


Para  a  maioria  dos  ambientes  de  campo,  e  especialmente  aqueles  com  redes  organizacionais  ou  sociais
reconhecidas, o principal acesso de um pesquisador de campo vem apropriadamente de uma autoridade
da instituição ou do líder da rede de contatos. Essa pessoa geralmente é considerada como um “porteiro”.
Entretanto, esta maneira de obter acesso pode fazer as outras pessoas na instituição ou na rede de contatos
acreditarem que a pesquisa representa os interesses do “porteiro”. Essa percepção afetará a recepção dada
ao  pesquisador  pelos  outros  membros  no  ambiente  de  campo.  Por  exemplo,  o  “porteiro”  pode  ter
representado uma facção em um local, e um pesquisador então pode ser visto pelas outras facções como
representante  dos  interesses  da  facção  do  porteiro.  Da  mesma  forma,  em  um  ambiente  institucional,  os
funcionários podem responder de maneira diferente caso acreditem que um estudo foi sancionado por seu
empregador (ver “Trabalhando como balconista de loja”, Quadro 5.4).

Trabalhando como balconista de loja

Ver também Quadro 4.2.

As associações implícitas criadas por qualquer uma dessas situações nem sempre podem ser evitadas.
O  principal  objetivo  deve  ser  tratar  com  sensibilidade  as  implicações  de  como  um  local  foi  acessado  e
como os contatos iniciais podem afetar um estudo e seus resultados.
Uma situação um pouco diferente surge quando o acesso ao ambiente de estudo ocorre como parte de
um  processo  mais  natural,  porque  o  pesquisador  já  estava  situado  em  um  local  ou  era  membro  de  um
grupo social antes do início do estudo. Na verdade, fazer parte do local ou do grupo social pode ter sido o
principal fundamento lógico para considerar a realização do estudo.
A literatura contém muitos estudos em que o investigador casualmente vivia em um país estrangeiro,
trabalhava em uma determinada organização, ou estava familiarizado com um certo grupo de pessoas, e
nos quais essas situações tornaram­se os ambientes para estudos de campo subsequentes. Em um desses
estudos, um pesquisador e sua esposa se mudaram para um bairro e tentaram criar ali uma organização
artística sem fins lucrativos. O bairro e seus moradores posteriormente tornaram­se o objeto de um estudo
etnográfico (ver “Residindo e trabalhando em um bairro urbano em transição”, Quadro 5.5). De maneira
semelhante,  dois  pesquisadores  estudaram  162  mulheres  em  oito  bairros,  cada  pesquisador  residindo  e
fazendo um trabalho voluntário em cada um dos bairros (Edin & Kefalas, 2005).
Residindo e trabalhando em um bairro urbano em transição

Nessas  situações,  obter  acesso  assume  um  significado  ligeiramente  diferente.  É  menos  provável  que
você  fosse  precisar  de  permissão  para  estar  presente  em  um  cenário,  mas  você  ainda  precisaria  obter
permissão para falar ou entrevistar as pessoas específicas que fazem parte do cenário. Nessas situações, o
fato de que um estudo está sendo realizado não deve ser disfarçado, muito menos ocultado. Quando estão
conversando com você, as pessoas devem saber se isso faz parte de um estudo ou não, questão que deve
ter sido explicitamente abordada como parte do procedimento para proteger sujeitos humanos.
Quanto  mais  tempo  um  pesquisador  está  em  um  ambiente  de  campo,  mais  complicadas  podem  se
tornar as relações sociais. As complicações podem surgir pelo desenvolvimento de relações mais intensas
com as pessoas. Ainda mais difícil de prever, os outros vão conversar entre si e trocar informações sobre
você e seu trabalho, potencialmente tingindo suas posteriores respostas a suas perguntas.
A  situação  mais  complicada  surge  quando  um  pesquisador  parece  estar  totalmente  integrado  ao
ambiente  ou  grupo  estudado,  possivelmente  com  pouca  consciência  de  que  uma  perda  da  adequada
perspectiva investigativa também está ocorrendo. Pesquisadores de campo nessas circunstâncias arriscam
serem acusados de “virar nativos”, com uma conotação negativa atrelada a seus resultados de pesquisa.
Um antídoto frequentemente recomendado para todas essas complicações é, enquanto estiver fazendo
seu  trabalho  de  campo,  dialogar  frequentemente  nas  horas  vagas  com  um  colega  de  confiança  que  não
faça  parte  do  ambiente  ou  do  estudo.  Informar  colegas  e  alertá­los  para  que  fiquem  atentos  a
complicações  indesejáveis  ou  sua  inconsciente  imersão  nas  questões  de  um  ambiente  de  campo  é  uma
forma de manter a necessária perspectiva investigativa.

C. NUTRINDO RELAÇÕES DE CAMPO

O que você deve aprender nesta seção:


Obter e manter o acesso são apenas uma parte de um empreendimento maior ao fazer trabalho de campo.
Você  também  precisa  gerenciar  um  conjunto  contínuo  de  relações  humanas.  Algumas  dessas  relações
podem ser mais antigas do que seu trabalho de campo, mas a maior parte delas terá se formado durante o
trabalho. E algumas relações podem perdurar (calculadamente ou não) até depois de você ter concluído
seu trabalho de campo.
A tarefa não é tão intimidante quanto você poderia imaginar. Mas haverá surpresas, e existem riscos.

Representando seu autêntico


Esta é a maneira mais segura e saudável de apresentar a identidade para construir relações de campo. A
identidade inclui uma função básica (a de fazer um estudo) assim como uma personalidade (a sua). Essa é
a  identidade  preferencial  porque  em  primeiro  lugar  você  vai  representar  de  maneira  mais  fiel  o  motivo
original para estar em campo, e você será capaz de manter uma postura e conduta coerentes ao interagir
com outras pessoas.
Apresentar­se  como  quem  está  realizando  um  estudo  investigativo  pode  ser  atraente  porque  a
identidade sugere um compromisso sério e profissional em vez de uma curiosidade casual pela vida de
outras pessoas. Ao mesmo tempo, uma vez que tantos estudos já foram feitos sobre tantos temas, algumas
das  pessoas  que  vão  participar  de  um  novo  estudo  podem  já  ter  opiniões  próprias  sobre  tais  estudos.
Talvez  elas  acreditem  que  estudos  podem  se  tornar  intrusivos  e  trair  confianças,  quando  experiências
compartilhadas são expostas por escrito. Desde cedo, portanto, você deve estar preparado (1) para definir
o  tipo  de  texto  (relato  ou  livro)  que  resultará;  (2)  se  e  como  você  vai  compartilhar  esse  texto  com  as
pessoas  que  você  estudou;  e  (3)  o  grau  de  anonimato  com  que  as  informações  serão  apresentadas  (ver
também Cap. 4, Opção 6).
Apresentar­se  em  alguma  outra  função  depende  da  autenticidade  da  alternativa  escolhida  e  a  relação
dela  com  sua  pesquisa.  Como  mencionado  anteriormente  em  relação  ao  processo  de  obter  acesso  ao
campo, você pode ter um emprego, servir como voluntário, ou ser um real morador no ambiente que está
sendo estudado. Tais posições vantajosas podem prover uma base sólida para participar de atividades de
campo,  mas  se  você  sabe  que  está  fazendo  um  estudo  você  também  precisa  informar  as  pessoas  sobre
isso. A esse respeito, Elliot Liebow foi uma das pessoas mais francas que eu tive o privilégio de conhecer.
Em  seu  estudo  de  moradoras  de  rua  (1993),  ele  pungentemente  toca  em  todas  as  questões  relativas  à
apresentação  de  sua  identidade  ao  formar  relações  em  campo  (ver  “O  pesquisador  de  campo  em  ação,
Quadro. 5.6).
O pesquisador de campo em ação

Ver também Quadros 1.1 e 11.7.

Importância da conduta pessoal


Condutas  típicas  incluem  ser  respeitoso,  e  não  condescendente,  amigável,  mas  não  lisonjeador,  e
atencioso  com  os  outros,  mas  sem  fazer  seu  jogo.  Pesquisadores  de  campo  devem  empenhar­se  na
“escuta”  (em  todas  as  suas  modalidades)  do  que  está  acontecendo,  mas  não  podem  tornar­se
personalidades totalmente passivas. Inversamente, a afirmação explícita de suas visões ou opiniões, além
de levar a condutas possivelmente dominadoras, pode também criar um risco metodológico. As visões e
opiniões dos pesquisadores podem influenciar fortemente as reações dos outros, assim como moldar os
eventos no ambiente. Dessa forma, um estudo deixará de apreender o significado das próprias condições
da vida real que deveriam ser o objeto de investigação.
De maneira geral, por meio de sua escolha de roupas e acessórios pessoais, seu objetivo é ser genuíno,
mas sem chamar indevida atenção para si mesmo. Lembre­se de que os outros são o objeto de estudo, não
você. Observe também que quaisquer sinais sutis que você emite podem ser tão importantes quanto o que
você afirma abertamente. Mais uma vez, lembre­se de que em condições da vida real, não é só você que
está  observando  outras  pessoas  –  elas  estão  simultaneamente  “lendo”  você,  e  algumas  dessas  pessoas
podem ter talento para leitura. Sua linguagem corporal, pausas, hesitações e expressões faciais e verbais,
tudo isso transmite informações. Por exemplo, todos e qualquer um desses gestos pode levar à percepção
de que você está sendo diretivo, enquanto você talvez pense que está sendo adequadamente não diretivo.

Fazendo favores aos participantes: faz parte do relacionamento ou não?


Embora estar em campo signifique fazer parte de um ambiente da vida real, o papel dos pesquisadores de
campo  ainda  é  um  tanto  artificial,  porque  o  motivo  para  estar  presente  é  que  um  estudo  está  sendo
realizado. Um dilema comum é se o papel inclui fazer favores, e nesse caso, o limite desses favores.
Pequenos  favores  podem  variar  desde  pequenos  empréstimos  (10  ou  20  dólares),  cuidar  de  uma
criança, animal de estimação ou parente idoso enquanto um participante saiu para fazer compras, realizou
uma tarefa, ou preocupou­se de outra forma, até fazer favores relacionais, como falar com outra pessoa
em nome de quem está pedindo o favor. Favores maiores podem envolver apostas mais altas.
Todos  os  pesquisadores  devem  decidir  por  si  mesmos  o  que  parece  mais  confortável  e  é  aceitável.
Algumas regras gerais poderiam ser (1) evitar por completo favores maiores; (2) fazer pequenos favores
apenas  em  raras  ocasiões,  deixando  claro  que  é  uma  rara  ocasião;  e  (3)  manter  uma  conduta
suficientemente íntegra para que ninguém sequer lhe peça um favor que beire algo ilegal ou que resulte
em dano ou prejuí zo psicológico a outra pessoa.

Lidando com eventos inesperados


O evento mais surpreendente pode ser simples: embora você esteja focado em fazer perguntas ligadas à
sua  pesquisa,  os  outros  podem  fazer  perguntas  a  você.  Eles  podem  perguntar  sobre  seu  estudo,  sua
história  e  opiniões  pessoais,  ou  sobre  praticamente  qualquer  outro  assunto. Ainda  que  seja  impossível
prever todas essas perguntas, pensar de antemão sobre os limites que você gostaria de fixar – tais como o
quanto você está disposto a revelar sobre sua vida pessoal – seria um exercício aconselhável.
Outros eventos inesperados variam desde ser convidado para participar de certas atividades (inclusive
ser  convidado  para  relacionamentos  pessoais),  até  ficar  sabendo  sobre  atividades  ilícitas  ou  de  outra
forma  indesejáveis.  Essas  situações  não  têm  soluções  fáceis.  Muitos  anos  atrás,  Florence  Kluckhohn
(1940)  descreveu  como  um  participante  de  um  estudo  se  apresentou  como  um  pretendente  tentando
marcar um encontro com ela. Ela só sentiu totalmente confortável em suas relações de campo depois que,
devido  a  um  posterior  conjunto  de  circunstâncias  favoráveis,  ele  se  desculpou  diretamente  e  repudiou
outras tentativas neste mesmo sentido.
Um tipo final de evento inesperado pode envolver ameaças ou perigos a você e sua subsistência (p. ex.
Howell, 1990). Esteja ciente (e estude) as condições econômicas, políticas e sociais contemporâneas em
seu  ambiente  de  campo  que  podem  afetar  as  pessoas  e  o  ambiente  que  você  está  estudando.  Sua
preparação deve lembrar que o foco de seu trabalho é a rotina da vida real dos outros. O contexto para
essas  rotinas  pertence  ao  mundo  que  você  está  estudando,  não  ao  seu.  Se  o  contexto  envolve  violência
física, tal como estudar o trabalho de cumprimento da lei (p. ex., Punch, 1989) ou hostilidade de grupo de
qualquer tipo, seja conservador e espere reações adversas mais do que agradáveis ao fazer seu trabalho de
campo.

Planejando como sair e não apenas como entrar em campo


Muita  atenção  é  adequadamente  dedicada  a  como  você  vai  se  apresentar  e  entrar  em  campo.  Menos
atenção é dada à fase igualmente importante de sair. Por exemplo, você pretende retornar ao ambiente de
estudo depois de redigir seu trabalho?
Na maioria dos casos, é provável que você não volte, e sair significaria chegar a mútuos entendimentos
com as pessoas que você esteve estudando. Você pode indicar como ou se você vai compartilhar parte de
seus escritos com elas. Você pode também querer “manter o contato”, ainda que não esteja pensando em
voltar  ao  ambiente  em  si.  Para  algumas  relações  é  melhor  deixar  perdurar  do  que  terminá­las  com  um
“adeus”  firmemente  estabelecido.  Você  pode  até  querer  deixar  aberta  a  oportunidade  de  retornar  ao
ambiente de estudo algum dia, para fazer um estudo de seguimento.
Não  existe  uma  estratégia  única  que  sirva  para  todas  as  situações. Afora  os  eventuais  compromissos
que você tenha firmado (e deve manter) ao oferecer a sujeitos humanos proteção ou em suas primeiras
interações  com  participantes,  as  situações  são  dominadas  por  relações  humanas  únicas.  Você  está  na
melhor posição para decidir qual estratégia escolher, então, reflita um pouco sobre a questão antes que o
processo de saída se inicie.
D. FAZENDO OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE

O que você deve aprender nesta seção:

De um ponto de vista metodológico, os papéis no trabalho de campo variam. A metodologia associada à
realização de trabalho de campo tem sido a da observação participante (Anderson­Levitt, 2006; Jacobs,
1970; Jorgensen, 1989; Kidder & Judd, 1986; Kluckhohn, 1940; McCall & Simmons, 1969; Platt, 1992;
Spradley, 1980).
A  observação  participante  tem  sido  praticada  de  uma  forma  ou  outra  há  mais  de  100  anos  na
antropologia e há quase tanto tempo na sociologia:

Nesses  trabalhos  de  observação  participante,  os  temas  dos  estudos  foram  desde  sociedades  inteiras  e
grupos de pessoas até indivíduos.
Segundo Bruyn (1966), o termo observação participante provavelmente foi usado pela primeira vez por
Eduard  Lindeman,  e  as  primeiras  descrições  detalhadas  sobre  o  método  foram  escritas  por  Lohman
(1937)  e  Kluckhohn  (1940).  Na  década  de  1950,  o  termo  já  tinha  se  tornado  quase  sinônimo  de  fazer
pesquisa de campo (Emerson, 2001, p. 13; Platt, 1992, p. 39­43).
O método foi mais tarde usado para estudar os bairros descritos anteriormente neste capítulo, e também
muitos  grupos  sociais,  tais  como  alunos  de  medicina  (p.  ex.,  Becker,  Geer,  Hughes,  &  Strauss,  1961).
Para  pesquisadores  contemporâneos  e  especialmente  para  os  que  praticam  etnografia,  a  observação
participante enfatiza um envolvimento estreito, íntimo e ativo, fortemente ligado ao objetivo de estudar as
culturas dos outros (Emerson, 2001, p. 17­18).
A  ênfase  relativa  entre  “participar”  e  “observar”  pode  produzir  quatro  variantes:  (1)  ser  apenas  um
participante; (2) ser um participante que também observa; (3) ser um observador que também participa e
(4) ser apenas um observador (Gold, 1958; Schwartz & Schwartz, 1955). (Uma quinta combinação lógica
seria  a  de  um  não  participante  que  tampouco  observa  –  mas  nenhum  trabalho  de  campo  ocorreria  com
essa combinação.) A essência de ser um observador participante exige a emulação das duas combinações
intermediárias  das  quatro  variantes  –  ou  seja,  haver  alguma  participação  e  alguma  observação,  e  não
negligenciar completamente nenhuma delas.

O pesquisador como “instrumento de pesquisa”


Pense sobre um instrumento de pesquisa como uma ferramenta para coletar dados. Exemplos comuns da
atividade  escolar  seriam  uma  régua,  um  compasso,  um  transferidor,  ou  um  termômetro.  Exemplos
comuns da psicologia ou da sociologia poderiam ser um audiômetro (para testar a audição das pessoas)
ou um questionário fechado (para coletar resposta verbais). Em todos esses casos, os seres humanos usam
a ferramenta e podem criar “erros de medição” indesejáveis, mas cada ferramenta tem seu próprio padrão
de medida, pelo qual pode­se expressar e registrar uma medição.
Não  existe  semelhante  ferramenta  ao  trabalhar  como  observador  participante.  Você  pode  ter  um
questionário  como  parte  de  seu  trabalho,  mas  a  menos  que  esteja  fazendo  apenas  um  estudo  com
entrevistas, você também estará observando e registrando diretamente as ações, eventos e conversas que
ocorrem no ambiente. Você vai tomar notas (tema discutido no Cap. 7, item B), mas elas apenas registram
o que você mesmo “mediu”. Mesmo que você registre os eventos em vídeo ou áudio, esses registros não
fornecem por si nenhum critério – por exemplo, para distinguir eventos importantes de não importantes,
ou o significado das visões dos entrevistados.
Em outras palavras, os encontros da vida real dominam o trabalho de campo. Nessas situações, seus
cinco sentidos serão as principais modalidades para medir e avaliar informações do campo. Você também
será  limitado  por  sua  capacidade  de  lembrar  e  relembrar  ações,  e  você  estará  exercendo  seu  próprio
arbítrio  ao  decidir  o  que  registrar.  Todas  essas  funções  significam  que  você  estará  servindo  como  o
principal instrumento de pesquisa (ver “Fazendo trabalho de campo em dois templos religiosos”, Quadro
5.7).

Fazendo trabalho de campo em dois templos religiosos

gays

Ser  o  principal  instrumento  de  pesquisa  exige  que  o  pesquisador  esteja  ciente  das  potenciais
tendenciosidades e idiossincrasias do instrumento (ou seja, as suas). Elas incluem condições resultantes
de seus antecedentes pessoais, suas razões para fazer a pesquisa e suas categorias ou filtros que poderiam
influenciar seu entendimento dos eventos e ações no ambiente.
Entre  esses  atributos  pessoais  destaca­se  a  correspondência  entre  a  raça  ou  etnicidade  de  um
pesquisador  e  as  dos  participantes  de  um  estudo.  Existem  exemplos  conhecidos  de  situações
contrastantes, incluindo pesquisadores brancos que estudaram a vida familiar ou social de negros (p. ex.,
Hannerz,  1969;  Liebow,  1967;  Stack,  1974),  assim  como  estudos  feitos  por  pesquisadores  com
identidades muito semelhantes também envolvendo não falantes de inglês (p. ex., Brubaker et al., 2006;
Padraza, 2007; Rivera, 2008; Sarroub, 2005; Valenzuela, 1999). Uma equipe de pesquisadores, por força
de  sua  composição  multirracial  e  seu  foco  em  um  múltiplo  conjunto  de  bairros  com  diferentes
composições  raciais,  foi  capaz  de  estudar  as  aparentes  diferenças  e  semelhanças  de  condições
emparelhadas  e  não  emparelhadas  (ver  “Congruências  raciais  e  étnicas”,  Quadro  5.8).  Outra  equipe
diversificada  estudou  as  vidas  de  12  famílias  heterogêneas  e,  portanto,  teve  a  mesma  oportunidade
(Lareau, 2003).

Congruências raciais e étnicas

Ver também Quadro 8.4.

Assumindo uma postura indutiva mesmo que um estudo tenha se iniciado com
algumas proposições
Os antropólogos geralmente usam o trabalho de campo como uma maneira de tentar representar a cultura
de um grupo ou lugar. Essa busca exige a capacidade de captar e depois elaborar o significado de rituais,
símbolos,  papéis  e  práticas  sociais. Tudo  isso  varia,  o  que  dificulta  a  realização  do  trabalho  de  campo.
Entretanto,  para  executá­lo  bem  é  necessário  que  o  pesquisador  aborde  o  ambiente  de  estudo  com  o
mínimo de pressuposições.
Quer  se  esteja  estudando  uma  cultura  quer  não,  deve­se  aderir  à  mesma  meta. As  pressuposições  a
serem  minimizadas  vêm  não  apenas  de  suas  crenças  pessoais,  mas  também  das  suposições  teóricas
iniciais que podem ter ocasionado seu estudo. Importantes às duas esferas são os construtos hipotéticos
denominados categorias (p. ex., Becker, 1998, p. 76­85), anteriormente discutidos no Capítulo 1 (item C).
Todo  mundo  usa  categorias  diariamente  para  classificar  as  experiências  em  padrões  significativos.
Entretanto, nas primeiras etapas de seu trabalho de campo, você não deve tentar “categorizar” os eventos
e ocorrências prematuramente.
A postura indutiva bem­sucedida permite que os eventos no campo guiem o posterior desenvolvimento
de  categorias,  proposições  e  por  fim  o  “significado”,  com  base  nas  ações  no  campo  e  não  em
pressuposições.  Iniciar  um  estudo  com  pressuposições,  antes  de  fazer  o  trabalho  de  campo,  seria
considerado um procedimento dedutivo.
Aqui  chegamos  a  um  paradoxo  decisivo.  Anteriormente,  o  Capítulo  4  discutiu  como  a  pesquisa
qualitativa  poderia  se  iniciar  com  uma  variedade  de  delineamentos,  inclusive  aqueles  baseados  em
proposições  teóricas  preconcebidas  (ver  Cap.  4,  Opção  5).  Mesmo  que  um  estudo  se  inicie  com  tal
delineamento,  o  trabalho  de  campo  será  mais  benéfico  se  as  proposições  iniciais  forem  ignoradas
temporariamente. Em outras palavras, esforce­se ao máximo para permitir que o campo conte a história
primeiro,  a  seu  próprio  modo.  Mais  tarde,  sempre  haverá  tempo  para  comparar  aquela  história  a  suas
proposições iniciais.
A  situação  paradoxal  não  é  diferente  de  um  ambiente  clínico  ou  médico  onde  o  doutor  começa  a
conversar  com  o  paciente  perguntando  “Como  você  se  sente?”.  Um  bom  clínico  é  treinado  a  primeiro
fazer o paciente se sentir confortável o suficiente para compartilhar seus sentimentos mais íntimos e então
ouvir atentamente, deixando que as respostas do paciente levem a mais perguntas ou sondagens.
O bom clínico está “avaliando” a situação. Entretanto, isso não significa que inicialmente ele estivesse
desprovido de qualquer conhecimento (i.e., proposições). Na atualidade, é provável que o médico seja um
especialista e presuma que o paciente veio por acreditar que a doença tinha relação com a especialização
(do  contrário,  o  paciente  teria  consultando  algum  outro  especialista). Alguns  (possivelmente  a  maioria)
dos clínicos são bons o suficiente para suspender suas pressuposições e reconhecer quando um paciente
fez  uma  suposição  incorreta  a  respeito  de  uma  indisposição  e  deveria  ter  consultado  outro  especialista.
Outros clínicos vão aderir a seu conhecimento especializado e podem indesejavelmente desviar os relatos
do paciente na direção daquela especialidade.
Treinar­se para ser um pesquisador de campo semelhante ao primeiro e não ao segundo tipo de clínico
requer tempo e paciência. O credo de um observador participante pode ser o seguinte:

✓ Inicie o trabalho de campo escutando aten tamente o que está acontecendo.
✓ Faça um bom registro mental do que está acontecendo.
✓ Evite  comparar  uma  experiência  de  campo  inicial  com  suas  experiências  (de  campo  ou  não)
anteriores.
✓ Faça o mínimo possível de suposições iniciais.
✓ Tenha confiança de que padrões surgirão sem estímulos artificiais.
✓ Tenha confiança também de que, se um estudo se iniciou com algumas proposições, as experiências
de campo e aquelas proposições com o tempo irão interagir de alguma maneira produtiva, incluindo a
constatação  de  que  as  proposições  iniciais  precisam  ser  descartadas,  aprimoradas  ou  redefinidas  de
alguma forma interessante.

E. FAZENDO VISITAS AOS LOCAIS DE ESTUDO

O que você deve aprender nesta seção:

Fazer visitas ao local de estudo é outra forma reconhecida de fazer trabalho de campo. Na verdade, na
maioria dos estudos de políticas, organizacionais e de avaliação, o termo trabalho de campo refere­se a
fazer visitas ao local. Além disso, nessas situações, as visitas conotam a porção de pesquisa qualitativa de
um  estudo,  às  vezes  servindo  como  o  único  método  de  um  estudo,  mas  em  outros  casos  usadas  como
parte de um estudo investigativo com metodologia mista.
Poucos  especialistas  em  outras  disciplinas  científicas  reconhecem  que  podem  até  realizar  visitas  ao
local rotineiramente. Tais visitas ocorrem sempre que comissões revisam o trabalho dos departamentos e
programas universitários. Fazendo essas visitas, coletando e analisando dados sobre um departamento ou
programa da universidade, esses especialistas estão na verdade fazendo pesquisa qualitativa.
A maioria dos textos não discute a precedente aplicação ou outras formas de visitas ao local como um
procedimento  formal.  Contudo,  os  dados  de  visitas  podem  ser  tão  valiosos  quanto  os  de  observação
participante. Diferenças importantes também existem, é claro. Primeiro, uma visita típica ao local abrange
apenas  alguns  dias.  Segundo,  o  trabalho  de  campo  em  visitas  ao  local  pode  deliberadamente  visar  o
envolvimento de dois ou mais pesquisadores na realização de uma visita. Isso pode ajudar a compensar a
falta de tempo total no campo, na medida em que os membros da equipe podem dividir responsabilidades
e separadamente cobrir diferentes eventos ou entrevistas.
A seguir apresentamos alguns destaques do processo de visita ao local.

Estudando um grande número de ambientes de campo


Embora visitas ao local ofereçam uma experiência mais superficial para qualquer ambiente de estudo, se
comparadas à observação participante, uma importante vantagem do uso de visitas como procedimento de
trabalho de campo é a capacidade de coletar dados de muitos ambientes de campo como parte do mesmo
estudo. Enquanto a observação participante tende a ser limitada a um ou dois ambientes de campo, o uso
de  visitas  pode  facilmente  abranger  uma  dúzia  de  ambientes  ou  mais.  Os  dados  de  um  único  ambiente
podem  ser  mais  limitados  do  que  aqueles  em  um  estudo  de  observação  participante,  mas  os  dados  de
visitas de diversos ambientes podem respaldar descobertas e padrões significativos entre locais.
Inversamente, os ambientes de campo preferenciais tendem a ser menores ou mais autossuficientes do
que  os  envolvidos  em  observação  participante.  Ambientes  de  visita  frequentes  incluem  salas  de  aula,
clínicas, escritórios e ambientes de trabalho, como instalações industriais e postos de atendimento. Fazer
visitas locais a esses tipos de ambientes pode produzir as informações necessárias quando padrões entre
locais  servem  como  principais  questões  de  pesquisa.  Parte  do  padrão  também  pode  exigir  visitas  aos
mesmos ambientes duas ou mais vezes, para obter uma perspectiva temporal, bem como entre os locais.
Se  o  tema  de  estudo  envolve  evidências  documentais  extensas,  revisões  de  campo  de  documentação
anterior podem ampliar a perspectiva temporal ainda mais.

Aderindo à programação e a planos formais


Visitas  ao  local  tendem  a  ser  mais  rígidas  do  que  observação  participante.  Devido  ao  tempo  de  campo
limitado, as visitas geralmente seguem uma programação preestabelecida, assim como uma agenda a ser
cumprida.  Ambas  aumentarão  a  probabilidade  de  entrevistar  ou  conversar  com  os  necessários
participantes ou observar os desejados eventos. Uma vez em uma entrevista ou observação programada, a
coleta  de  dados  e  os  procedimentos  de  registro  para  visitas  ao  local  podem  não  parecer  diferir  muito
daqueles  seguidos  em  observação  participante.  Entretanto,  o  contexto  pode  ser  totalmente  diferente  –
como a entrevista ou observação programada ocorrendo em condições mais artificiais do que ao realizar
observação participante.
Você não deve subestimar a potencial influência dessas condições contextuais. Por exemplo, membros
de um ambiente de campo que está recebendo visitas podem ter ajudado a organizar a programação, com
isso  manipulando­a  para  sua  vantagem.  Além  disso,  as  pessoas  no  campo  também  saberão  da
programação  de  antemão  e  podem  preparar  sua  visita,  novamente  manipulando­a  para  sua  vantagem.
Nessas situações, as atividades e respostas durante sua visita podem não representar o que normalmente
ocorre naquele ambiente. As atividades podem ter um tom idealizado, e as respostas podem guardar mais
semelhança com o que os participantes acham que você quer ouvir do que com o que eles normalmente
falariam.

Sendo “recebido” durante uma visita local


Uma complicação adicional surge quando um visitante é acompanhado por seu anfitrião, seja quando está
observando as atividades de campo ou quando está entrevistando as outras pessoas do local. O anfitrião
pode ter duas motivações diferentes. Uma é monitorar o visitante. A outra é ver ou ouvir o que o visitante
parece estar aprendendo. Por exemplo, quando organizações são o ambiente para pesquisa de campo, o
visitante  pode  ter  acesso  a  um  funcionário  superior  que  normalmente  não  concederia  tal  acesso  ao
anfitrião.
A presença do anfitrião durante quaisquer atividades de campo torna a questão da reflexividade ainda
mais complicada. Os outros participantes podem não apenas responder artificialmente ao visitante, mas
também alterar toda a sua conduta devido à presença do anfitrião. Assim, os visitantes precisam decidir
quando preferem não ser acompanhados pelo anfitrião e discutir essa questão com ele antecipadamente.
Essa preparação evitará que situações embaraçosas surjam no meio de uma visita.

Construindo o trabalho em equipe


Estudos  com  visitas  que  envolvem  múltiplas  pessoas  por  equipe  de  campo  (ou  ainda  múltiplas  equipes
cobrindo  diferentes  locais)  exigem  esforços  adicionais  para  a  construção  das  equipes.  Por  exemplo,
treinamento e preparação comuns são necessários para aumentar a uniformidade do trabalho de campo.
Os integrantes das equipes também devem se comunicar entre si para construir uma química, que inclui
entender  como  evitar  interromper  um  ao  outro  quando  estiverem  entrevistando  conjuntamente  um
participante e seguindo uma linha de investigação.
A construção do trabalho em equipe requer uma medida de colaboração e planejamento, que vai além
do  que  é  necessário  fazer  quando  se  está  conduzindo  um  estudo  “sozinho”.  Entretanto,  a  pesquisa  em
equipe  oferece  benefícios  compensadores,  tais  como  criar  a  oportunidade  de  reforçar  a  validade  e
confiabilidade de um estudo e dar maior atenção aos objetivos de triangulação discutidos no Capítulo 6
(item  C).  Essencialmente,  a  existência  de  múltiplos  visitantes  significa  ter  a  oportunidade  de  usar
múltiplos instrumentos de pesquisa no trabalho de campo, comparado com as limitações de observadores
participantes sozinhos.
campus

campus

1. É sempre fácil representar as conversas com precisão?
2. Foi  fácil  descrever  nuances  de  significado,  da  linguagem  corporal,  ou  detalhes  do  ambiente  físico,  e  estes
foram aspectos importantes dos eventos observados?
3. Houve  acontecimentos  imprevistos  quando  você  foi  incluído  em  uma  conversa  ou  de  alguma  forma  tornou­
se parte dos eventos que estavam sendo observados?
O que você fez então com seu procedimento de tomada de notas?
6
Métodos de coleta de dados

Dados  servem  como  base  para  um  estudo  de  pesquisa.  Em  pesquisa  qualitativa,  os  dados
relevantes derivam de quatro atividades de campo: entrevistas, observações, coleta e exame
(de materiais) e sentimentos. O presente capítulo descreve essas atividades detalhadamente.
Ao  fazer  entrevistas,  o  contraste  entre  entrevistas  estruturadas  e  qualitativas  chama  especial
atenção.  Em  relação  às  observações,  importantes  escolhas  envolvem  determinar  “o  quê,
quando  e  onde”  observar.  Sobre  a  coleta  de  materiais,  artefatos,  muitos  tipos  diferentes  de
objetos podem ser proveitosamente coletados durante o trabalho de campo. Os sentimentos –
representados pelos múltiplos sentidos e não restritos ao sentido do tato – podem envolver o
ruído, o ritmo temporal e o calor/frio de um ambiente de estudo, assim como conjecturas sobre
as relações sociais entre os participantes. Entre todos os quatro tipos de atividades de campo,
o  capítulo  discute  cinco  práticas  desejáveis,  incluindo  diferenciar  evidências  de  primeira,
segunda e terceira mão.

Para fazer pesquisa qualitativa é preciso coletar dados. Diferentes tipos de pesquisa em ciências sociais
favorecem  diferentes  tipos  de  procedimentos  de  coleta  de  dados,  e  a  coleta  de  dados  para  a  pesquisa
qualitativa tem, da mesma forma, características e desafios distintivos.

A. O QUE SÃO DADOS?


Para coletar dados qualitativos corretamente, você pode primeiro perguntar se você sabe o que são dados.
Uma  observação  inicial  é  que  a  palavra  “data”  (dados)  aparece  como  um  substantivo  tanto  no  singular
quanto no plural. Ambos os empregos são aceitáveis, embora a maioria dos pesquisadores possa preferir a
forma plural, como usada neste livro. Mas o que são dados? Quem são e onde eles se encontram? Você os
reconheceria se os encontrasse, e em caso negativo, como você esperaria coletá­los?
A  Wikipédia  parece  uma  fonte  razoável  para  encontrarmos  uma  definição  pertinente,  especialmente
porque sua definição não difere substancialmente das fornecidas por dicionários mais convencionais. De
acordo com a Wikipédia,

Para  prover  um  melhor  entendimento,  a  Wikipédia  dá  o  seguinte  exemplo,  que  faz  distinção  entre
dados, informações e conhecimento. O exemplo define a altura do Monte Everest como um “dado”, um
livro  sobre  as  características  geológicas  do  Monte  Everest  como  “informação”,  e  um  relato  contendo
informações sobre a melhor maneira de chegar ao topo do Monte Everest como “conhecimento”. A partir
desse exemplo, deve ficar evidente que os “dados” são as menores ou mais baixas entidades ou elementos
registrados que resultam de alguma experiência, observação, experimento, ou outra situação semelhante.
Observe  que  todas  essas  situações  parecem  ser  externas  ao  pesquisador.  Consequentemente,  em
pesquisa não qualitativa, o papel de um pesquisador na coleta de dados pode ser fazer alguma leitura com
algum  instrumento  mecânico,  tal  como  um  medidor.  Entretanto,  e  como  um  lembrete,  em  pesquisa
qualitativa  você,  o  pesquisador,  é  o  principal  instrumento  de  pesquisa  (ver  Cap.  5,  item  D).  Assim,
embora os eventos originais que estão sendo medidos possam ser externos, o que você relata e como você
os relata é filtrado por seu pensamento e pelo significado que você imputa a sua coleta de dados. Nesse
sentido, os dados não podem ser completamente externos.

B. INTRODUÇÃO A QUATRO TIPOS DE ATIVIDADES DE COLETA


DE DADOS

O que você deve aprender nesta seção:

Algum  tipo  de  observação  participante,  desde  as  orientações  mais  ativas  até  as  mais  passivas  (também
previamente  descritas  no  Cap.  5,  item  D),  provavelmente  é  o  modo  como  você  se  posiciona  ao  fazer
pesquisa  qualitativa.  Entretanto,  a  observação  participante  não  é  em  si  um  método  de  coleta  de  dados.
Como um observador participante, você deve realizar atividade específica para coletar dados.
Dessa  perspectiva,  assim  como  quando  você  se  posiciona  de  outras  formas  que  não  a  de  observador
participante, mas quer coletar dados para pesquisa qualitativa, as possíveis atividades de coleta de dados
são:

✓ entrevistas
✓ observação
✓ coleta e exame, e
✓ sentimento.

À  primeira  vista,  essas  quatro  atividades  podem  parecer  muito  informais  para  serem  consideradas
atividades  de  pesquisa.  Entretanto,  se  desejar,  você  pode  implementar  cada  atividade  usando  (1)  um
instrumento formal e (2) um procedimento de coleta de dados rigorosamente definido.
Por  exemplo,  as  “entrevistas”  poderiam  se  basear  em  um  questionário  fixo  com  protocolos  de
entrevista explícitos. A “observação” poderia consistir de fotografar sinais discretos, tais como as frentes
de casas desocupadas como parte de um estudo de bairro. A “coleta” poderia ocorrer como um resultado
de um procedimento formal de busca e localização que usa pesquisas bibliográficas eletrônicas como uma
ferramenta.  Algum  tipo  de  instrumento  mecânico  poderia  até  ser  usado  para  avaliar  certos  tipos  de
“sentimentos”, tais como sentir calor ou frio (o que poderia ser confirmado pelo uso de um instrumento
como um termômetro), a percepção da passagem do tempo (que poderia ser confirmada por seu relógio),
ou pela interpretação da barulheira de um lugar (que poderia ser medida por um audiômetro).
Da  mesma  forma,  você  poderia  seguir  procedimentos  de  amostragem  para  selecionar  as  ocasiões
específicas  em  que  você  rea lizaria  essas  atividades  de  coleta  de  dados.  Dessa  forma,  por  exemplo,
pesquisadores  têm  conduzido  estudos  usando  observações  sistemáticas,  em  que  intervalos  de  tempo
rígidos  desencadeiam  a  amostra  relevante  de  observações.  Os  procedimentos  observacionais  têm  sido
seguidos em estudos que variam desde o comportamento das crianças ao assistir televisão (p. ex., Palmer,
1973) até o comportamento de oficiais de polícia durante rondas para cumprimento da lei (p. ex., Reiss,
1971).
Contudo, a pesquisa qualitativa geralmente não envolve o uso de tais instrumentos, procedimentos, ou
amostras fixas. Embora você possa adotar um instrumento mecânico para auxiliar o processo de coleta de
dados, é provável que você continue sendo o principal instrumento de pesquisa.
Cada  uma  das  quatro  atividades  de  coleta  de  dados  também  produz  um  tipo  diferente  de  dados  (ver
Tab. 6.1). A série apresentada no quadro deve sensibilizar­lhe para as variedades de dados potencialmente
relevantes ao fazer pesquisa qualitativa. Cada tipo de coleta de dados também tem suas limitações.

Métodos de coleta de dados e tipos de dados para pesquisa qualitativa

Método de coleta de dados Tipos de dados ilustrativos Exemplos de dados específicos

Entrevistas e conversas

Observação

Coleta Conteúdos

Sentimento

Por exemplo, se sua coleta de dados consiste apenas de entrevistas e conversas e seu principal interesse
é  saber  como  as  pessoas  realmente  se  comportaram  em  uma  determinada  situação,  seus  dados  serão
limitados  a  suas  interações  com  um  conjunto  de  participantes  e  seus  comportamentos,  crenças  e
percepções  autorrelatados.  Dependendo  de  seu  estudo,  esses  autorrelatos  e  como  eles  são  articulados
podem trazer revelações extremamente importantes, sobre como os participantes podem estar pensando
ou derivam seu próprio entendimento sobre algum comportamento. Entretanto, seria tolice sua considerar
esses  autorrelatos  representações  totalmente  precisas  do  comportamento  da  vida  real  e  como  ele
realmente aconteceu.
Você  também  pode  entrevistar  e  conversar  com  participantes  por  quê,  como  em  muitos  estudos
qualitativos de psicologia, valoriza­se a realidade do que as pessoas dizem (p. ex., Willig, 2009). Neste
caso,  você  analisaria  as  palavras  e  frases  faladas  e  não  necessariamente  tenta  relacioná­las  a  um
comportamento  específico.  Para  fazer  uma  análise  completa  de  uma  interação  conversacional,  você
poderia ir além da análise das palavras faladas e examinar as porções não verbais da conversa entre duas
(ou mais) pessoas, incluindo seu tom de voz, pausas, interrupções uma da outra, e outras manias (p. ex.,
Drew, 2009).
Como outro exemplo e da perspectiva oposta, se você entra em um ambiente de campo, mas apenas
observa  e  não  entrevista  ou  conversa  com  os  participantes,  seus  dados  consistirão  de  observações  das
ações  humanas  e  do  ambiente  físico  no  local,  mas  você  não  irá  derivar  quaisquer  percepções
autorrelatadas  daqueles  que  você  está  observando.  Você  tampouco  saberá  o  significado  que  os
participantes atribuem aos fatos.
Para  compreender  mais  detalhes  dessas  limitações,  bem  como  usar  as  quatro  atividades  de  coleta  de
dados  em  sua  própria  pesquisa,  o  restante  deste  capítulo  discute­os  em  maior  profundidade,  de  duas
maneiras. A  primeira  apresenta  cada  tipo  de  atividade  de  coleta  de  dados  separadamente,  para  apreciar
suas  características  e  procedimentos  associados. A  segunda  aponta  para  algumas  práticas  de  coleta  de
dados desejáveis, que dizem respeito a todos os diferentes tipos de atividades enquanto grupo.

C. ENTREVISTAS

O que você deve aprender nesta seção:

Entrevistas podem assumir muitas formas, mas para fins de discussão você pode considerar que todas
as formas se enquadram em dois tipos: entrevistas estruturadas e entrevistas qualitativas.1 A discussão a
seguir estereotipa propositalmente as duas a fim de prover um claro contraste entre elas. (Pesquisadores
experientes podem ter inventado suas próprias maneiras de mesclar os dois tipos, mas tais combinações
geralmente são altamente personalizadas e estão fora do âmbito do presente texto.)

Entrevistas estruturadas
Todas  as  entrevistas  envolvem  a  interação  entre  um  entrevistador  e  um  participante  (ou  entrevistado).
Entrevistas  estruturadas  roteirizam  cuidadosamente  essa  interação.  Primeiro,  o  pesquisador  usará  um
questionário  formal  que  lista  todas  as  perguntas  a  serem  feitas.  Segundo,  o  pesquisador  adotará
formalmente  o  papel  de  entrevistador,  tentando  obter  respostas  de  um  entrevistado.  Terceiro,  o
pesquisador enquanto entrevistador tentará apresentar o mesmo comportamento e conduta ao entrevistar
cada  participante.  O  comportamento  e  conduta  do  entrevistador  também  são,  portanto,  roteirizados,
geralmente  como  resultado  de  algum  treinamento  prévio  e  específico  para  que  a  coleta  de  dados  seja
realizada da maneira mais uniforme possível.
Quando  usam  o  termo  entrevista,  as  pessoas  geralmente  se  referem  a  entrevistas  estruturadas.  As
pessoas  pensam  nas  entrevistas  como  fazendo  parte  de  algum  tipo  de  levantamento  ou  pesquisa  de
opinião.  Esses  estudos  também  exigem  que  se  extraia  uma  amostra  representativa  de  participantes  ou
entrevistados,  atentando­se  para  a  definição  e  extração  da  amostra,  para  que  ela  seja  o  mais  precisa
possível.  Testes  estatísticos  apropriados  posteriormente  avaliam  a  ligação  entre  os  resultados  de  um
estudo e a população mais ampla de uma amostra.
Dadas todas essas condições, se um estudo usa apenas entrevistas estruturadas, é mais provável que ele
seja um levantamento ou pesquisa de opinião, não um estudo qualitativo. Se você imita completamente os
métodos  usados  na  condução  de  entrevistas  estruturadas,  mas  também  usa  métodos  qualitativos  para
coletar e analisar outros tipos de dados, é provável que você esteja fazendo um estudo com metodologia
mista, discutido mais detalhadamente no Capítulo 12.
Além de ter um conjunto característico de procedimentos, as entrevistas estruturadas também tendem a
favorecer  certos  tipos  de  perguntas  –  isto  é,  perguntas  em  que  os  entrevistados  são  limitados  a  um
conjunto  de  respostas  predefinidas  pelo  pesquisador,  conhecidas  como  perguntas  fechadas.  Quer  uma
pesquisa  de  levantamento  seja  feita  por  entrevistas  telefônicas,  entrevistas  face  a  face,  quer  por
entrevistas de “interceptação” em shoppings e lugares públicos, o procedimento pretende fazer a todos os
entrevistados o mesmo conjunto de perguntas, cada uma delas com um conjunto limitado de categorias de
resposta (Fontana & Frey, 2005).
Muitos  pesquisadores,  que  realizam  pesquisas  de  levantamento,  acreditam  que  essas  perguntas
fechadas  produzem  dados  mais  precisos  e  uma  análise  mais  definitiva.  Por  exemplo,  dois  conhecidos
pesquisadores observam que “as respostas provavelmente são mais confiáveis e válidas quando se oferece
uma lista de opções ‘fechadas’ para o respondente escolher do que quando a pergunta é feita de forma
aberta” (Fowler & Cosenza, 2009, p. 398). De modo geral, a pesquisa de levantamento tem uma longa
história sobre como lidar com essas e outras questões do delineamento de questionários (p. ex., Sudman
& Bradburn, 1982).

Entrevistas qualitativas
Fazer  entrevistas  qualitativas  é  provavelmente  o  modo  esmagadoramente  dominante  de  entrevistar  em
pesquisa qualitativa. Esse tipo de entrevista difere em aspectos­chave das entrevistas estruturadas.
Primeiro,  a  relação  entre  o  pesquisador  e  o  participante  não  segue  um  roteiro  rígido.  Não  há  um
questionário contendo a lista completa das perguntas a serem propostas a um participante. O pesquisador
terá  uma  concepção  mental  das  perguntas  do  estudo,  mas  as  perguntas  especificamente  verbalizadas,
propostas a qualquer participante, vão diferir de acordo com o contexto e o ambiente da entrevista.
Segundo,  um  pesquisador  qualitativo  não  tenta  adotar  um  comportamento  ou  conduta  uniforme  para
todas as entrevistas. Em vez disso, a entrevista qualitativa segue um modo conversacional, e a entrevista
em  si  levará  a  uma  espécie  de  relacionamento  social,  com  a  qualidade  da  relação  individualizada  para
todo participante (ver “A entrevista qualitativa como um relacionamento social, Quadro 6.1).
A entrevista qualitativa como um relacionamento social

Esse  modo  conversacional,  comparado  com  entrevistas  estruturadas,  apresenta  a  oportunidade  para
interações  bidirecionais,  em  que  um  participante  pode  até  fazer  perguntas  ao  pesquisador. Além  disso,
entrevistas qualitativas podem ocorrer entre o pesquisador e um grupo de pessoas, e não apenas com uma
pessoa.
No modo conversacional, os participantes podem variar na franqueza de suas palavras, sendo sinceros
em  alguns  pontos,  mas  recatados  em  outros,  e  o  pesquisador  precisará  saber  distinguir  os  dois.
Consequentemente,  “a  entrevista  qualitativa  exige  intensa  escuta...  e  um  esforço  sistemático  para
realmente  ouvir  e  compreender  o  que  as  pessoas  lhe  dizem”  (Rubin  &  Rubin,  1995,  p.  17). A  escuta
significa “ouvir o significado do que está sendo dito” (p. 7).
Terceiro,  as  perguntas  mais  importantes  em  uma  entrevista  qualitativa  serão  abertas  mais  do  que
fechadas. Fazer os participantes limitarem suas respostas a respostas de uma palavra única seria a última
coisa que um pesquisador qualitativo iria querer. Pelo contrário, o pesquisador procura fazer com que os
participantes  usem  suas  próprias  palavras,  não  aquelas  predefinidas  pelo  próprio  pesquisador,  para
discutir os temas.
Essas  três  distinções  exteriores  refletem  uma  diferença  muito  mais  profunda  entre  entrevistas
estruturadas  e  qualitativas.  Entrevistas  estruturadas  seguem  diretamente  o  emprego  das  palavras,  as
expressões e consequentemente o significado dos pesquisadores, ao passo que entrevistas qualitativas têm
por  objetivo  compreender  os  participantes  “em  seus  próprios  termos  e  como  eles  dão  sentido  a  suas
próprias  vidas,  experiências  e  processos  cognitivos”  (Brenner,  2006,  p.  357).  Esse  objetivo  atende  uma
das  metas  fundamentais  da  pesquisa  qualitativa,  que  é  representar  um  mundo  social  complexo  da
perspectiva de um participante.
Entrevistas estruturadas também são limitadas em sua capacidade de apreciar tendências e condições
contextuais ao longo do tempo de vida de um participante, ao passo que entrevistas qualitativas podem
concentrar­se  nessas  tendências  e  condições.  Tal  cobertura  é  possível  em  parte  porque  as  entrevistas
qualitativas  podem  ser  muito  mais  longas  do  que  as  estruturadas  e  podem  envolver  uma  série  de
entrevistas  com  o  mesmo  participante.  Por  exemplo,  o  mesmo  participante  pode  ser  entrevistado  três
vezes,  a  cada  vez  por  90  minutos,  durante  um  período  de  dias,  se  não  semanas.  A  primeira  das  três
entrevistas  pode  estabelecer  o  contexto  da  experiência  de  um  participante,  tipicamente  cobrindo  o
histórico pessoal do participante; a segunda entrevista pode fazer o participante reconstruir os detalhes da
experiência que é o tema do estudo; e uma terceira entrevista pode pedir ao participante que reflita sobre
o significado da experiência (Seidman, 2006, p. 16­19).
Além  disso,  entrevistas  estruturadas  e  qualitativas  têm  dois  impactos  contrastantes  naqueles  que
realizam as entrevistas. Ao fazer entrevistas estruturadas, o pesquisador tenta repetir o mesmo conjunto
de  perguntas  e  apresentar  a  mesma  conduta  pessoal  com  todo  entrevistado.  Um  pesquisador  que  faz
muitas entrevistas dessa forma no mesmo dia pode se sentir fisicamente exausto ao fim do dia, mas ainda
ter um excedente de energia mental.
Em  contraste,  ao  fazer  entrevistas  qualitativas,  o  pesquisador  tenta  compreen der  o  mundo  do
participante, o que provavelmente inclui esforços concentrados para dominar os significados das palavras
e expressões do participante. A linha de questionamento não é controlada por um questionário, mas exige
que  o  pesquisador  aplique  energia  mental  constante.  Um  pesquisador  que  faz  muitas  entrevistas  dessa
forma no mesmo dia sentir­se­á mentalmente exausto ao fim do dia, mas pode ainda ter um excedente de
energia física.

Fazendo entrevistas qualitativas


O  modo  conversacional  das  entrevistas  qualitativas  assemelha­se  ao  conversar  que  é  parte  natural  das
comunicações faladas rotineiras de todas as pessoas. Exatamente por isso ele não é fácil de aplicar como
procedimento  de  pesquisa.  Paradoxalmente,  o  desafio  pode  ser  ainda  maior  quando  pesquisador  e
participante  falam  a  mesma  língua.  O  participante  pode  usar  palavras  especiais  ou  cotidianas  com
significados  desconhecidos  para  os  pesquisadores,  os  quais  podem  inadvertidamente  presumir  que  os
conhecem.  Tais  dificuldades  afloram  especialmente  quando  um  estudo  qualitativo  se  concentra  em
questões  culturais,  como  em  culturas  sociais,  mas  também  ao  examinar  a  cultura  de  lugares,  tais  como
instituições (Spradley, 1979).
Para  conversar  com  êxito  como  parte  de  uma  entrevista  qualitativa  é  preciso  prática.  Você  deve
“aprender com as pessoas” em vez de estudá­las (Spradley, 1979, p. 3). Seguem algumas dicas.

1. Falar moderadamente. Uma prática importante é tentar falar menos do que a outra pessoa – muito
menos.  Você  precisa  encontrar  maneiras  de  fazer  perguntas  que  gerem  diálogos  prolongados  por
parte do entrevistado. A situação contrária e indesejável surge quando você propõe uma pergunta
comprida  que  é  essencialmente  uma  pergunta  de  “sim/não”,  à  qual  a  outra  pessoa  pode
satisfatoriamente responder com uma palavra, isto é, “sim” ou “não”.

Você  também  precisa  evitar  fazer  múltiplas  perguntas  embutidas  na  mesma  sentença,  ou  fazer  uma
pergunta atrás da outra sem dar ao entrevistado uma chance de responder à primeira. Lembre­se de que
conversar não significa interrogar, e que o número relativamente pequeno de suas perguntas ainda deve
ser  suficiente  para  (1)  manter  uma  conversa  saudável  fluindo,  (2)  demonstrar  sincero  interesse  nas
respostas da outra pessoa e (3) assemelhar­se, em todos os outros aspectos, a uma conversa natural.
Um  segredo  para  manter  uma  conversa  fluindo  usando  o  mínimo  de  palavras  é  dominar  o  uso  de
sondagens e perguntas de seguimento. Depois que um participante fez um comentário interessante, mas
possivelmente  mais  curto  do  que  o  desejado,  o  uso  criterioso  de  sondagens  e  perguntas  de  seguimento
pode estimular o participante a expandir o comentário original. Como tática de conversação, as sondagens
precisam aparecer na mesma forma que aparecem em questionários fechados. As sondagens podem tomar
a  forma  de  expressões  breves,  tais  como:  sim,  fale  mais,  por  quê?,  como  assim?,  diga  isso  de  outra
maneira, ou por incrível que pareça, uma pausa deliberada em silêncio. Entretanto, cuidado para não usar
tais  sondagens  em  demasia.  Para  o  participante,  você  deve  continuar  sendo  um  interlocutor  ativo  e
inteligente. Você não deve começar a ficar parecido com alguém que foi programado, como um robô.
1. Ser não diretivo. Uma segunda prática importante é ser o menos diretivo possível. Seu objetivo é
permitir  que  os  participantes  vocalizem  suas  próprias  prioridades  como  parte  de  seu  modo  de
descrever  o  mundo  da  forma  como  o  percebem.  Para  dar  um  simples  exemplo,  as  perspectivas
alternativas podem incluir a sequência de temas discutidos por um participante. A sequência pode
diferir daquela que você pretendia seguir. Entretanto, dando­se aos participantes a oportunidade de
seguirem suas próprias sequências, análises posteriores podem revelar um aspecto importante das
perspectivas deles.

Como  resultado  de  tentar  evitar  ser  diretivo,  o  que  inclui  sinalizar  qualquer  sequência  de  temas,  o
modo  como  você  inicia  uma  entrevista  qualitativa,  com  uma  pergunta  ou  declaração  inicial,  torna­se
crucial. Você precisa fixar limites para a conversa, mas não obstante permitir que o participante a “pinte”
–  além  de  dar  ao  participante  a  oportunidade  de  transpor  os  limites  quando  necessário.  Para  lidar  com
essas condições, os pesquisadores identificaram perguntas de ampla abrangência como um modo viável
de iniciar suas conversas (Spradley, 1979, pp. 86­88). Uma pergunta de ampla abrangência estabelece um
tema ou uma cena geral, mas não inclina a conversa apresentando um item específico de interesse, muito
menos qualquer sequência específica de temas (ver “Usando perguntas de ampla abrangência para iniciar
suas conversas”, Quadro 6.2).

Usando perguntas de ampla abrangência para iniciar suas conversas

Além da abertura inicial, também é importante se manter não diretivo durante toda a entrevista. Isso é
especialmente verdadeiro se sua investigação estiver tentando chegar a uma saliência de algum tema no
universo dos participantes usando as próprias palavras deles. Você pode querer inferir a importância que
um participante atribui a um tema atentando para sua primeira menção. Neste caso, se em vez disso você
acabar  fazendo  a  primeira  menção,  avaliar  a  saliência  será  impossível  (ver  “Entrevistando  pessoas  de
maneira não diretiva sobre um tema fundamental de estudo”, Quadro 6.3).
Entrevistando pessoas de maneira não diretiva sobre um tema fundamental de estudo

Política nacionalista e etnicidade cotidiana em uma cidade da Transilvânia

prima facie

Ver também Quadro 11.5.

1. Manter­se neutro. Essa terceira prática faz parte de não ser diretivo, mas serve como um lembrete
de que toda a sua apresentação de si mesmo durante o processo – sua linguagem corporal e suas
expressões,  assim  como  suas  palavras  –  deve  ser  as  mais  neutras  possíveis.  Você  precisa  cuidar
para que o conteúdo e as características peculiares de suas respostas às palavras ou perguntas dos
participantes não transmitam suas próprias inclinações ou preferências, que por sua vez afetarão a
subsequente  réplica  do  participante. A  conversa  menos  desejável  ocorre  quando  os  participantes
tentam agradar­lhe ou satisfazer­lhe – em contraste com expressar suas opiniões de maneira franca.
Isso tende mais a ocorrer quando o tom de voz, o modo de agir ou outros sinais interpessoais do
entrevistador contêm insinuações de aprovação ou desaprovação.

Filosoficamente,  pesquisadores  qualitativos  experientes  reconhecem  que  neutralidade  real  pode  não
existir.  Entrevistas  qualitativas  são  atividades  interpessoais  ou  encontros  sociais  que  ocorrem  em
ambientes naturais (p. ex., Fontana & Frey, 2005); sob essas condições, você inevitavelmente levará um
ponto de vista a todas as suas conversas, produzindo um texto negociado (p. 716­717). A recomendação é
evitar  tendenciosidades  ostensivas,  mas  também  ser  sensível  àquelas  que  permanecem.  Posteriormente,
você  deve  se  esforçar  ao  máximo  para  revelar  e  discutir  como  elas  poderiam  ter  reflexo  em  seus
resultados (ver “Apresentando seu self reflexivo”, no Cap. 11, item D).

1. Mantendo  uma  boa  relação.  Uma  quarta  prática  é  interpessoal.  Você  precisa  manter  uma  boa
relação com o participante. Uma vez que você criou uma determinada situação de pesquisa, você
também  tem  uma  responsabilidade  especial  de  evitar  conversas  que  possam  prejudicar  a  outra
pessoa – por exemplo, usando palavras que acarretem pensamentos de ódio, a divulgação de temas
totalmente privados, se não criminosos, ou indevida infelicidade por parte do participante.

Em  suma,  essas  quatro  práticas  não  são  fáceis  de  seguir. Todas  as  suas  entrevistas  terão  seu  próprio
contexto e situação que determinarão como você segue especialmente cada prática. Como descrito por um
autor,  o  objetivo  é  chegar  ao  cerne  da  questão,  ou  o  que  poderia  ser  chamado  “intimidade  acelerada”
(Wilkerson, 2007):

1. Usando um protocolo de entrevista.  Esta  prática  adicional  pode  orientá­lo  em  suas  entrevistas.  O


protocolo  deve  refletir  substantivamente  o  protocolo  de  estudo  mais  amplo  que  pode  existir  (ver
Cap. 5), mas o protocolo de entrevista em si será de extensão modesta.

O  protocolo  de  entrevista  geralmente  contém  um  pequeno  subgrupo  de  temas  –  aqueles  que  são
considerados  pertinentes  a  uma  dada  entrevista.  Cada  tema  pode  ser  seguido  por  algumas  breves
sondagens  e  perguntas  de  seguimento,  mas  o  protocolo  de  entrevista  não  deve  em  nenhum  sentido  ser
considerado um questionário. Assim, o protocolo mais uma vez representa sua estrutura mental (ver Cap.
5,) e não é uma lista de perguntas reais a serem verbalizadas para um participante.
Quando usado adequadamente, um protocolo de entrevista produz, portanto, uma “conversa guiada”,
servindo  como  um  guia  de  conversação  (Rubin  &  Rubin,  1995,  p.  145,  161­164).  Além  disso,  se
desejado,  você  pode  manter  um  roteiro  em  sua  forma  escrita  e  usá­lo  como  “amparo”  durante  uma
entrevista. Tal  uso  pode  ter  um  benefício  surpreendente.  Por  exemplo,  vendo­o  com  o  guia  nas  mãos  e
podendo  dar  uma  olhada  em  seus  temas,  os  participantes  podem  sentir  que  fazem  parte  de  uma
investigação mais formal e assim revelar mais sobre temas controversos (Rubin & Rubin, 1995, p. 164).
Entretanto, se você levantasse tais questões como parte de uma conversa totalmente casual, sem mostrar o
roteiro formal como um “amparo”, o participante talvez não o levasse tão a sério e se inclinasse a ignorar
sua pergunta.

1. Analisando  durante  a  entrevista.  Como  um  lembrete  final,  e  como  acontece  com  qualquer  outra
coleta  de  dados  em  pesquisa  qualitativa,  a  coleta  de  dados  é  constantemente  acompanhada  por
análise.  Você  vai  estar  decidindo  quando  sondar  em  busca  de  mais  detalhes,  quando  mudar  de
assunto  e  quando  modificar  seu  protocolo  original  ou  agenda  para  acomodar  novas  revelações.
Essas  são  todas  escolhas  analíticas,  e  você  precisa  fazê­las  com  sensibilidade,  de  modo  que  sua
parte na conversa não deixe a outra pessoa surpresa ou perdida.

“Entrando” e “saindo” de entrevistas qualitativas


Sua  pergunta  abrangente  ou  outra  pergunta  inicial  representa  sua  questão  substantiva.  Entretanto,
provavelmente  não  é  aí  que  sua  conversa  começou.  É  mais  provável  que  você  tenha  trocado  algumas
gentilezas  iniciais  com  a  outra  pessoa,  possivelmente  parte  de  uma  introdução  mais  formal  a  seu
prospectivo entrevistado que também reflete as disposições para o consentimento informado (ver Cap. 2,
item E).
Da mesma forma, quando sua conversa terminou, a troca final de palavras tende a não ser substantiva,
e  sim  concluir  com  alguma  espécie  de  floreio  interpessoal  chamando  atenção  para  o  fim  da  conversa.
Agradecimentos educados e bons votos para o restante do dia são típicos.
Os  modos  de  iniciar  e  terminar  sua  conversa  são  em  grande  parte  questões  de  cortesia  e  cultura.
Possivelmente por esse motivo, a maioria dos livros didáticos não chama atenção para essas duas fases de
uma  conversa  e,  por  conseguinte,  de  entrevistas  qualitativas.  Contudo,  as  entradas  e  saídas  estão  entre
minhas favoritas ao sugerir como a conversa pode prosseguir ao fazer pesquisa qualitativa.
Primeiro, você deve saber duas coisas sobre entradas e saídas. A “entrada” pode definir claramente o
tom  interpessoal  que  será  usado  na  conversa  substantiva,  então  você  deve  preparar  seu  diálogo  de
“entrada”,  e  não  apenas  lançar­se  nele.  Pense  sobre  como  você  quer  abordar  cada  pessoa  a  ser
entrevistada  e  os  temas  que  você  quer  abordar  antes  de  iniciar  novas  conversas.  Pense  sobre  a
possibilidade  de  que  “entrar”  em  uma  conversa  pode  não  ser  diferente  do  desafio  mais  amplo  ao  fazer
trabalho de campo de “entrar” em campo.
A “saída” pode ser ainda mais importante. Dois famosos detetives de televisão, hoje consideravelmente
antiquados  para  espectadores  contemporâneos  (um  deles,  um  homem  chamado  “Columbo”,  papel
desempenhado  pelo  ator  Peter  Falk,  e  a  outra,  uma  mulher  chamada  “Jessica  Fletcher”,  desempenhada
por Angela Lansbury) usaram por muito tempo o modo de “saída” como oportunidade de fazer perguntas
substantivas  adicionais.  Normalmente,  o  entrevistado  achava  que  a  conversa  estava  em  sua  fase  de
conclusão e de alguma forma baixava a guarda. O detetive, tendo vestido o casaco e até parecendo estar
indo  embora,  vira­se  e  diz,  “Oh,  a  propósito...”  e  parece  obter  uma  informação  importante  durante  o
(suposto) modo de saída.
Outro comentário sobre a saída: você pode ter percebido que conversas profissionais com seus colegas
no  cotidiano  às  vezes  podem  tornar­se  inesperadamente  prolongadas  –  muito  além  da  duração  que  se
pretendia ou disponível. Às vezes, isso acontece porque você e seu colega (sem se darem conta) precisam
dar a “última palavra”. Toda vez que algum de vocês diz alguma coisa, a outra pessoa precisa replicar, e
assim por diante. Cuide para que isso não aconteça em suas conversas para coletas de dados. O remédio é
controlar seu ego e deixar que o outro dê a palavra final.

Entrevistando grupos de pessoas


Haverá ocasiões, planejadas ou não, em que você tem a oportunidade de entrevistar um grupo de pessoas.
O  grupo  pode  ser  pequeno  (duas  ou  três  pessoas)  ou  de  tamanho  moderado  (sete  a  10  pessoas).  Essas
oportunidades exigem cuidadosas preparação e respostas de sua parte.
Você  pode  tratar  grupos  muito  pequenos  (duas  a  três  pessoas)  como  adjuntos  das  entrevistas  de
indivíduos. Você  pode  dirigir  sua  atenção  a  uma  dessas  pessoas  enquanto  mantém  o  devido  respeito  às
outras, e não as faz sentir que desempenham apenas um papel auxiliar.
Quando o grupo excede um tamanho muito pequeno, entretanto, você precisa dirigir sua atenção a todo
o grupo, não a um indivíduo. Esse é um desafio difícil, e você deve evitar entrevistar grupos de tamanhos
moderados  até  ter  adquirido  alguma  prática  e  experiência  com  tais  grupos,  independentemente  de  seu
presente estudo qualitativo. Se você ainda não adquiriu essa prática, crie algumas oportunidades dentro de
seus grupos acadêmicos ou pessoais.

Entrevistas de grupo de foco como um método de coleta de dados qualitativos


A  literatura  de  pesquisa  considera  os  “grupos  de  foco”  como  o  principal  tipo  de  grupos  de  tamanho
moderado, e muitos textos e artigos cobrem esse tipo de coleta de dados (p. ex., Stewart, Shamdasani, &
Rook, 2009). Os grupos são “focados” porque você reuniu indivíduos que anteriormente tiveram alguma
experiência  comum,  ou  presumivelmente  compartilham  algumas  opiniões  comuns  (ver  “Um  renomado
‘manual’ para coletar dados de grupos de foco”, Quadro 6.4). Ao conversar com tais grupos, você serviria
como o que foi chamado de moderador. Moderadores tentam induzir todos os integrantes de um grupo a
expressar suas opiniões com mínimo, ou nenhum, direcionamento.
Um renomado “manual” para coletar dados de grupos de foco

A entrevista focada: um manual de problemas e procedimentos

✓ Por exemplo, um estudo envolveu cuidadores de familiares idosos em uma série de grupos de foco. O
objetivo era obter as perspectivas dos cuidadores sobre a internação e diagnóstico dessas pessoas de
mais idade, em vez de presumir que os pesquisadores já tinham esse conhecimento, bem como evitar
que  suas  predisposições  em  relação  a  esses  temas  influenciassem  uma  linha  inicial  de  perguntas
(Morgan, 1992, p. 206).

Os grupos de foco originalmente iniciaram como um modo de coletar dados sobre como amostras de
audiências poderiam ter percebido um determinado programa de rádio ou outros tipos de comunicações
de massa (Merton, Fiske, & Kendall, 1990). Um dilema óbvio comparado com entrevistar indivíduos é o
ganho  em  eficiência  (falar  com  diversas  pessoas  ao  mesmo  tempo),  mas  uma  perda  em  profundidade
(obter  menos  informações  de  qualquer  participante).  Entretanto,  um  dos  fundamentos  lógicos  para
realizar entrevistas em grupo não tem relação com esse dilema. Em vez disso, as entrevistas de grupo são
desejáveis  quando  se  suspeita  que  as  pessoas  (p.  ex.,  jovens  e  crianças)  podem  se  expressar  com  mais
facilidade  quando  fazem  parte  de  um  grupo  do  que  quando  são  alvo  de  uma  entrevista  individual  com
você.  Inversamente,  se  um  participante  parece  silencioso  em  um  grupo,  você  pode  tentar  fazer  uma
entrevista individual com ele quando a sessão em grupo tiver terminado.
Os  grupos  de  foco  possuem  uma  dinâmica  própria  que  você  vai  precisar  administrar.  Moderar  um
grupo  de  foco  é  uma  habilidade  que  você  provavelmente  só  vai  desenvolver  com  a  experiência.  Por
exemplo, existe um alto risco de que uma ou duas pessoas dominem uma discussão do grupo. Você terá
que  ter  um  estilo  adequadamente  polido,  porém  firme,  que  controle  as  pessoas  que  falam  demais  e
estimule as reticentes – tudo sem influenciar e com isso induzir a discussão do grupo. Da mesma forma,
pode  haver  um  momento  em  que  o  grupo  inteiro  está  em  silêncio. Você  terá  que  encontrar  as  palavras
certas para reiniciar a conversa, novamente sem induzir sua direção. Finalmente, um ou vários integrantes
do grupo podem começar a fazer perguntas sobre você ou sobre os outros. Nesse momento, você terá que
decidir  imediatamente  se  as  perguntas  delas  ajudam  ou  atrapalham  sua  agenda  –  e  você  terá  que  se
comportar de acordo, em tempo real.
Como variação adicional, você pode coletar dados de uma série de grupos de foco, não apenas de um
único grupo. Se você tiver bom domínio dos procedimentos, e se os grupos fornecerem uma quantidade
suficiente  de  dados,  os  múltiplos  grupos  de  foco  podem  até  fornecer  a  maior  parte  dos  seus  dados  de
campo (ver “Usando grupos de foco como os únicos dados de ‘campo’”, Quadro 6.5.)

Usando grupos de foco como os únicos dados de “campo”

D. OBSERVANDO

O que você deve aprender nesta seção:

“Observar” pode ser um modo valioso de coletar dados porque, o que você vê com seus olhos e percebe
com seus sentidos, não é filtrado pelo que os outros podem ter relatado a você, ou o que o autor de algum
documento pode ter visto. Nesse sentido, suas observações são uma espécie de dados básicos, que devem
ser altamente valorizados. Como seria de esperar, estudos exclusivamente observacionais têm feito parte
dos métodos de pesquisa em psicologia social há muito tempo (p. ex., Weick, 1968). Neles, o pesquisador
é totalmente passivo.

Fazendo “observação sistemática” como base para todo um estudo qualitativo


Em  pesquisa  qualitativa,  você  pode  também  assumir  um  papel  totalmente  passivo,  embora  seja  mais
provável  que  você  tenha  alguma  atividade  participativa.  Qualquer  que  seja  o  grau  de  passividade,  os
métodos observacionais mais formais normalmente vão incluir um instrumento (observacional) formal e a
identificação  de  um  conjunto  específico  de  ocasiões  para  fazer  as  observações  (ver  “Observações
sistemáticas em salas de aula escolares”, Quadro 6.6).

Observações sistemáticas em salas de aula escolares

Tais estudos observacionais sistemáticos podem ser um excelente exemplo da complementaridade dos
métodos de pesquisa qualitativos e quantitativos. Uma maneira é ilustrada dispondo­se de uma amostra
suficientemente  grande  que  permita  que  os  dados  sejam  computados.  Outra  maneira  seria  usar  um
delineamento  semiexperimental  que  identifica  deliberadamente  dois  grupos  distintos  que  casualmente
diferem  quanto  a  uma  condição  de  “tratamento”  versus  “não  tratamento”  (p.  ex.,  fumantes  versus  não
fumantes),  mas  que  fora  isso  possuem  outras  características  semelhantes.  (O  paradigma  é  “semi”
experimental porque não manipula as condições de tratamento e não tratamento; se o fizesse, o paradigma
seria “experimental”.)
Assim, não se surpreenda se constatar que o termo estudos observacionais na literatura metodológica
podem  referir­se  a  trabalhos  fortemente  estatísticos  e  semiexperimentais,  normalmente  no  campo  da
psicologia social (ver “‘Estudos observacionais’ também se referem à pesquisa definida por princípios e
métodos  estatísticos”,  Quadro  6.7).  Apesar  das  estatísticas,  esses  estudos  observacionais  ainda
compartilham  algumas  características  comuns  com  a  pesquisa  qualitativa,  tais  como  destacar  a
importância de explicações rivais.
“Estudos observacionais” também se referem à pesquisa definida por princípios e métodos
estatísticos

Estudos Observacionais

Decidindo quando e onde observar


A  maior  parte  da  pesquisa  qualitativa  não  irá  se  basear  somente  em  fazer  observações  um  único  local
fixo. Ao  atuar  como  observador  participante,  você  provavelmente  irá  se  situar  em  algum  ambiente  de
estudo  que  é  fluido  no  tempo  e  no  espaço. Tal  fluidez  exigirá  que  você  tome  decisões  explícitas  sobre
seus procedimentos observacionais.
Por exemplo, quer você use um instrumento formal ou não, a fluidez significa que você não pode estar
em todos os lugares o tempo todo. Se uma cena é suficientemente complexa, você não pode observar tudo
que  está  acontecendo. A  resultante  seletividade,  considerando  “quando”  e  “onde”  observar,  precisa  ser
uma  parte  explícita  de  seu  procedimento  de  coleta  de  dados. Você  pode  não  ter  um  fundamento  lógico
estrito  para  tomar  suas  decisões,  mas  você  precisa  estar  consciente  de  suas  consequências:  o  que  você
observa  e  registra  não  serão  necessariamente  os  eventos  mais  importantes  que  estão  acontecendo,  nem
representativos de tudo que está acontecendo no ambiente de campo.
A primeira maneira de dar a essa questão sua cuidadosa atenção é simplesmente registrar seus tempos
e  posições  observacionais,  o  que  incluiria  observar  os  participantes  presentes  no  ambiente  de  campo
quando  você  está  fazendo  suas  observações.  Você  também  faria  uma  notação  sintetizando  o  tipo  de
evento (ou não evento) que parece estar acontecendo.
Outra maneira de reduzir a tendenciosidade e falta de representatividade é fazer suas observações em
múltiplas ocasiões. Se possível, você poderia inicialmente “avaliar” seu local e posteriormente programar
suas oportunidades observacionais para cobrir diferentes horas do dia (se não diferentes dias ou mesmo
estações);  posições  ligeiramente  diferentes  dentro  do  mesmo  ambiente;  e  ocasiões  em  que  pessoas
diferentes  estão  presentes.  (Evidentemente,  tal  programação  não  seria  relevante  se  suas  observações  se
concentrassem em uma situação ou evento excepcional.)
Independentemente de como você faz suas escolhas, uma maneira final de reforçar sua coleta de dados
observacionais é discutir suas escolhas e suas possíveis consequências como parte de seu diário pessoal
(ver Cap. 7, item E). Você deve conjeturar como suas decisões poderiam ter afetado suas descobertas e
conclusões.  A  partir  disso,  você  deve  expressar  as  eventuais  limitações  ou  advertências  (ou  virtudes
distintivas) sobre seu trabalho.
Decidindo o que observar
Muitos  itens  podem  ser  objeto  de  suas  observações. A  saliência  desses  itens  depende  do  tema  de  sua
pesquisa qualitativa. As categorias relevantes podem incluir:

✓ as características de cada pessoa, incluindo sua vestimenta, gestos e comportamento não verbal;
✓ as interações entre as pessoas;
✓ as “ações” que estão ocorrendo, humanas ou mecânicas; e
✓ as circunstâncias físicas, incluindo sinais visuais e sonoros.

Parte da última categoria abrange o que poderiam ser chamados de escoras (Murphy, 1980), as quais
incluem  os  objetos  pendurados  nas  paredes,  cartazes,  placas,  livros  nas  estantes  e  outros  objetos
associados a uma pessoa específica ou à organização daquela pessoa. As escoras podem fornecer pistas
sobre  eventos  anteriores  que  podem  ter  sido  significativos  para  um  indivíduo  ou  organização;  como
mínimo, as escoras podem servir como ponto de partida ao iniciar uma entrevista qualitativa.

Tirando vantagem de medidas não obstrutivas


A  questão  da  reflexividade,  discutida  ao  longo  deste  livro,  surge  imediatamente  quando  você  observa
qualquer  ser  humano  ou  atividade  humana.  Sua  presença  terá  uma  influência  desconhecida  sobre  as
outras pessoas. Inversamente, a atividade delas pode influenciar diretamente o modo como você faz suas
observações.  Tal  reflexividade  é  inevitável  e  merece  algum  comentário  em  seu  relatório  metodológico
final.
As chances de reflexividade são minimizadas, se não eliminadas, quando você observa características
no  mundo  físico  que  não  obstante  podem  ser  altamente  reveladoras  sobre  alguma  atividade  humana
anterior. Vestígios físicos de atividade humana, tais como as pontas viradas das páginas de um livro que
foi lido por outra pessoa, assim como fotografias e registros feitos por outras pessoas como parte de suas
vidas cotidianas, podem ser considerados a origem do que tem sido chamado de medidas não obstrutivas
(Webb et al., 1966, 1981). O principal valor dessas medidas é que elas envolvem situações “não reativas”,
nas  quais  você  como  pesquisador  não  pode  ter  influenciado  o  comportamento  dos  participantes  que
produziu os vestígios físicos (ver “‘Medidas não obstrutivas’ como tema das observações”, Quadro 6.8).
“Medidas não obstrutivas” como tema das observações

medidas não reativas

campus

A coleta de medidas não obstrutivas por si só provavelmente não produzirá evidências suficientes para
sustentar plenamente um estudo qualitativo. Entretanto, você pode usar as medidas para complementar a
coleta de dados de entrevistas ou de outro tipo dentro do mesmo estudo qualitativo. Uma vez que esses
outros dados são suscetíveis à influência do pesquisador, dispor de alguns dados que sejam baseados em
uma  fonte  não  reativa  pode  reforçar  grandemente  seu  estudo.  Portanto,  você  deve  considerar
cuidadosamente se uma ou mais medidas não obstrutivas poderiam ser relevantes para seu estudo.

Derivando significado das observações e triangulando evidências


observacionais com outras fontes
Mesmo que você esteja lidando com medidas não obstrutivas, o que torna a observação difícil é que você
não vai simplesmente registrar observações como se você fosse um dispositivo mecânico. É provável que
seu  estudo  qualitativo  trate  de  conceitos  mais  amplos  sobre  o  comportamento  social  das  pessoas,  tais
como suas rotinas, rituais e interações com outras pessoas. Você precisa fazer e registrar suas observações
de  modo  que  você  tenha  a  oportunidade,  se  não  no  momento  de  suas  observações  ao  menos  em  seus
posteriores procedimentos analíticos, de definir esses conceitos mais significativos.
Os significados que você deriva de suas observações serão uma espécie de inferências – por exemplo,
se uma determinada interação entre duas pessoas representou a desaprovação de uma pessoa pela outra,
ou  se  os  ornamentos  do  escritório  de  um  funcionário  refletem  uma  pessoa  de  alto  status  em  uma
organização. Você pode reforçar essas inferências coletando outros dados, tais como dados de entrevistas,
para corroborar ou questionar suas inferências. Fazer isso seria um exemplo de “triangulação”, que é uma
parte  essencial  da  coleta  de  dados  qualitativos  e  que  é  discutida  em  mais  detalhe  posteriormente  neste
capítulo.

E. COLETANDO E EXAMINANDO
O que você deve aprender nesta seção:

“Coletar”  refere­se  à  acumulação  ou  acúmulo  de  objetos  (documentos,  artefatos  e  registros  arquivais)
relacionados a seu tema de estudo. A maior parte da coleta ocorrerá enquanto você está em campo, mas
você também pode coletar objetos de outras fontes, incluindo bibliotecas, arquivos históricos e fontes de
base eletrônica (ver “Entrelaçando evidências históricas e de campo”, Quadro 6.9). Às vezes, você não
poderá levar um objeto consigo. Nessas situações, você pode querer passar um tempo examinando­o. A
referência dessa subseção à “coleta” visa incluir tal exame.

Entrelaçando evidências históricas e de campo

quantum

Ver também Quadro 10.3.

Qualquer  dos  objetos  coletados  (ou  examinados)  pode  produzir  uma  variedade  de  dados  verbais,
numéricos, gráficos e pictóricos. Os dados podem ser sobre o ambiente físico e social (p. ex., fotografias
de um ambiente de campo e seus membros), mas também podem gerar dados valiosos sobre coisas não
diretamente observáveis (p. ex., temas abstratos como as políticas e procedimentos de uma organização,
representadas em documentos) e informações mais históricas (p. ex., tendências reveladas por registros
arquivais).  Além  disso,  objetos  coletados  podem  incluir  aqueles  produzidos  diretamente  pelos
participantes,  tais  como  seus  diários  e  fotografias,  cujo  uso  pode  complementar  as  informações  obtidas
em entrevistas com os participantes (p. ex., Murray, 2009, p 118).

Coletando objetos (p. ex., documentos, artefatos e registros arquivais) em


campo: valioso porém demorado
Uma  vez  que  esses  objetos  geralmente  representam  outra  forma  de  evidência  básica,  eles  podem  ser
valiosos para seu estudo qualitativo. Impressões de computador dos trabalhos dos alunos, por exemplo,
podem  contribuir  muito  para  compreender­se  o  conteúdo  da  educação  que  ocorre  em  sala  de  aula.  Da
mesma forma, um artefato como uma carta pessoal, uma obra de arte, ou uma lembrança pessoal podem
ser  altamente  reveladores.  Finalmente,  registros  arquivais  como  estatísticas  populacionais,  registros  de
serviços municipais sobre moradia ou crimes, registros escolares, ou artigos de jornais e revistas podem
fornecer informações contextuais importantes para complementar seu trabalho de campo.
Todos  esses  tipos  de  objetos  tendem  a  existir  em  grande  abundância,  seja  qual  for  o  tema  de  seu
estudo.  Consequentemente,  coletar  documentos  e  registros,  mesmo  que  eles  já  estejam  em  formato
eletrônico, pode ser demorado. (Pense na possibilidade de ter que coletar e revisar os registros de correio
eletrônico  de  outras  pessoas).  Você  precisa,  portanto,  tomar  muito  cuidado  ao  decidir  quais  objetos
merecem sua atenção e a quantidade de tempo que você vai dedicar para sua coleta.
Duas táticas podem ajudar a tornar essa coleta produtiva. Primeiro, obtenha uma ideia inicial da gama
completa  de  qualquer  tipo  de  objeto  a  ser  coletado,  como  numerosidade  e  escopo  dos  documentos
disponíveis, ou o tamanho e variação de um arquivo de dados estatísticos. Obtenha também uma ideia da
dificuldade que haverá para acessar e recuperar esses objetos. Depois, decida se é necessário coletar todo
o conjunto ou se uma amostra será suficiente. Nesse último caso, defina a amostra cuidadosamente a fim
de minimizar algum viés indesejável.
Segundo,  depois  de  fazer  alguma  coleta  preliminar,  imediatamente  revise  os  dados  resultantes.
Considere  como  o  material  coletado  provavelmente  se  encaixa  no  resto  de  seu  estudo.  Especule  se  o
material será central e útil para seu estudo, em comparação com outros dados que você tem ou vai coletar.
Você  pode  então  decidir  investir  menos  (ou  até  mais)  tempo  no  esforço  de  coleta.  Essa  segunda  tática
também merece repetição em algum ponto intermediário, para testar novamente de que forma você está
usando seu tempo.

Usando documentos para complementar entrevistas e conversações de campo


Muitos documentos podem ser úteis simplesmente pela natureza dos detalhes que contêm. Esses incluem
a grafia dos nomes, títulos e organizações, a afixação de datas específicas para os eventos, e a linguagem
específica usada nos lemas, slogans, declarações de objetivos e outras comunicações.
Antes de entrevistas importantes, você pode ter tido a sorte de revisar muitos documentos e conhecido
seu conteúdo, o que vai poupá­lo de ter que interromper um fluxo saudável na conversa perguntando a um
participante,  por  exemplo,  sobre  a  grafia  de  um  nome  ou  título.  Você  também  pode  saber  de  antemão
sobre a disponibilidade de diversos documentos. Assim, mesmo que você não os tenha revisado antes de
uma entrevista importante, você pode supor que os documentos esclarecerão detalhes, como a grafia de
nomes, para que você não tenha que interromper suas entrevistas para confirmar essas informações.

“Navegando” e usando o Google para encontrar informações relacionadas


Para  a  maioria  dos  temas  cobertos  pela  pesquisa  qualitativa,  na  atualidade  você  provavelmente  deve
dedicar algum tempo à busca de informações relacionadas na internet. O grande volume de informações
disponíveis provavelmente terá algumas, se não muitas, dicas úteis para sua pesquisa.
Uma busca mais relevante revelará outros estudos ou literatura sobre seu tema de estudo. Talvez você
já tenha procurado tal material quando estava definindo seu tema, como ao montar um banco de estudos
(ver  Cap.  3,  item A).  O  acesso  que  você  tem  às  páginas  das  diversas  revistas  e  mecanismos  de  busca
bibliográfica na internet – sendo que a maioria deles exige afiliação ou algum tipo de taxa – determinará
se a busca será capaz ou não de prover as informações necessárias para realizar uma revisão da literatura
que  será  necessária  como  parte  de  sua  pesquisa.  Mais  uma  vez,  você  deve  ficar  alerta  para  o  caráter
possivelmente  moroso  desse  tipo  de  coleta  de  dados,  e  precisa  exercer  as  cautelas  anteriormente
discutidas.
De  alta  prioridade  no  uso  de  informações  extraídas  da  internet  é  observar,  compreender  e  citar  de
maneira  completa  (em  seu  estudo)  a  fonte  da  informação.  Sua  compreensão  deve  incluir  informar­se
sobre os vieses amplamente reconhecidos associados à fonte.
Por  exemplo,  artigos  de  jornais  podem  ser  muito  úteis,  mas  você  deve  saber  alguma  coisa  sobre  a
reputação ou posição política do jornal antes de aceitar as versões das notícias como elas se apresentam.
Você pode constatar que diários metropolitanos e jornais comunitários diferem substancialmente em sua
abordagem de eventos comunitários, especialmente aqueles racialmente carregados (p. ex., Jacobs, 1996).
Relatórios oficiais do governo podem excluir informações indesejáveis (ver Cap. 12, item B). Pior ainda,
blogs e postagens pessoais podem ser totalmente tendenciosos em sua seleção do material a disponibilizar
e  sua  pretendida  inclinação.  Por  fim,  comunicados  à  imprensa  e  outras  formas  de  publicidade  explícita
geralmente têm alguma motivação subjacente que você deve levar em consideração antes de citar.

Coletando ou examinando objetos como parte complementar de sua coleta de


dados
Os objetos coletados podem reduzir os problemas e desafios da reflexividade. Esses objetos foram criados
por alguma razão que não a sua investigação, e não se po de alegar que tenham sido influenciados por ela.
Em contraste, entrevistas qualitativas podem ser reflexivas em dois sentidos: sua influência sobre um
participante,  mas  também  a  influência  do  participante  sobre  você.  “Observar”  pode  ter  um  efeito
reflexivo  unidirecional  –  sua  influência  sobre  os  que  estão  sendo  observados,  independentemente  da
relativa  discrição  de  seus  procedimentos  de  observação.  Documentos  coletados,  artefatos  e  registros
arquivais não sofrem nenhum tipo de reflexividade, mas ainda devem ser usados com cuidado. Embora
tenham  sido  produzidos  por  alguma  razão  não  relacionada  à  reflexividade,  você  deve  atentar  para  sua
motivação e consequentemente sua possível inclinação.

F. SENTIMENTOS

O que você deve aprender nesta seção:

A  referência  a  “sentimentos”  como  um  tipo  de  dados  não  visa  reacender  a  discussão  anterior  sobre  as
diferenças  entre  presumir  realidades  únicas  e  múltiplas  (ver  Cap.  1,  item  C).  Tampouco  a  palavra
sentimentos é usada aqui apenas para representar os resultados que acompanham nosso sentido de tato. É
preciso  pensar  que  os  sentimentos  envolvem  uma  variedade  de  características  dentro  de  nós  que  são
potencialmente importantes em nossa pesquisa e que não devemos ignorar.

“Sentimentos” assumem formas diferentes


Como  uma  incursão  inicial  nesta  espécie  de  dados,  entenda  que  certos  sentimentos  representam  dados
explícitos  sobre  o  ambiente  (p.  ex.,  calor/frio,  barulho/silêncio,  ou  o  ritmo  temporal  de  um  lugar).  Se
fosse necessário, você provavelmente poderia usar um instrumento mecânico para medir esses aspectos
do  ambiente,  mas  seus  “sentimentos”  geralmente  serão  um  substituto  aceitável,  mesmo  que  eles  não
sejam tão precisos.
Outros  sentimentos  representam  dados  sobre  outras  pessoas  (p.  ex.,  o  sentimento  de  que  alguém  é
dependente/rebelde  em  um  ambiente  de  trabalho,  que  duas  pessoas  são  distantes/próximas,  ou  que  um
grupo  trabalha  de  maneira  harmônica/desarmônica).  Esses  são  mais  difíceis  de  medir  e  não  se  alinham
necessariamente aos autorrelatos de outras pessoas em uma entrevista ou conversa – embora, se houver
oportunidade,  você  deva  sempre  perguntar  às  outras  pessoas  o  que  elas  acham  sobre  suas  próprias
condições. Você não deve, contudo, ignorar seus próprios sentimentos, os quais apresentam outra situação
que exige corroboração ou rejeição pela triangulação com outros dados.
Por  fim,  outros  sentimentos  são  ainda  mais  complexos  e  podem  representar  suas  intuições  ou
“pressentimentos” a respeito de uma situação. Tais sentimentos não são limitados a uma única sensação e
nem  sempre  podem  ser  explicados. As  intuições  podem,  não  obstante,  fornecer  pistas  importantes  para
interpretar  o  que  está  acontecendo  em  uma  dada  situação.  Você  deve  considerar  que  tais  sentimentos
precisam ser corroborados (ou questionados) por outros dados.

Documentando e registrando sentimentos


Os  dados  aqui  são  seus  sentimentos.  Você  deve  registrar  esses  sentimentos  por  escrito  com  o  maior
cuidado  possível,  observando  quando  e  onde  eles  ocorreram.  Juntamente  com  o  sentimento  declarado,
você também deve descrever, da melhor forma possível, o evento, o comportamento ou a condição que
parece ter sido responsável pelos sentimentos. Esses registros podem ser úteis posteriormente ao coletar
outros dados sobre o mesmo evento, comportamento ou condição.

G. PRÁTICAS DESEJÁVEIS PERTINENTES A TODOS OS TIPOS DE


COLETA DE DADOS

O que você deve aprender nesta seção:

Em  todas  essas  formas  de  coleta  de  dados,  você  deve  considerar  certas  práticas  que  reforçarão  seu
trabalho. Ao menos cinco são importantes.

1. Ser um bom “ouvinte”. Como discutido anteriormente (ver Cap. 2, item B), a palavra escuta refere­
se  a  seu  significado  figurativo,  não  literal,  e,  portanto,  a  um  modo  desejável  de  atentar  para  seu
ambiente.  Assim,  quando  da  observação,  um  traço  equivalente  seria  sua  capacidade  de  ser
observador.

O mundo social que presumivelmente atraiu você para a pesquisa qualitativa oferece um ambiente
complexo e cheio de nuances. Ser um bom ouvinte varia desde deixar que os outros falem mais até ser
capaz de “ouvir as entrelinhas” durante uma conversa. Você também pode ter que “ler nas entrelinhas”
ao interpretar um documento ou mensagem escrita. Ao coletar dados qualitativos, você provavelmente
não estaria apresentando um traço desejável se tivesse o que as pessoas chamam de “ouvidos surdos”,
ou estivesse totalmente inconsciente da possibilidade de significados subtextuais.
2. Ser  indagador.  Ser  um  bom  “ouvinte”,  mas  ao  mesmo  tempo  ser  indagador  podem  inicialmente
parecer  posturas  conflitantes.  Sem  aprofundar­se  na  psicologia  cognitiva,  você  pode  e  deve  ter
ambas. O aparente conflito surge somente se associarmos ser “indagador” a assumir o controle de
uma conversa e induzi­la – com isso diminuindo a oportunidade de “ouvir”.

Em  vez  disso,  pense  o  “ser  indagador”  como  um  estado  de  espírito.  Enquanto  ouve  ou  observa,
você também deve pensar sobre o significado do que você ouve ou vê, e isso deve levar a perguntas
adicionais.  Você  não  precisa  verbalizar  essas  perguntas  naquele  momento,  mas  pode  manter  um
registro  mental  para  fazer  alguma  investigação  posterior,  até  fora  da  entrevista  ou  situação
observacional imediata.

3. Ser sensível no manejo do tempo – seu e dos outros. As seções anteriores apontaram repetidamente
para a probabilidade de que a coleta de dados tome muito tempo. Se você está entrevistando outras
pessoas, você está gastando o tempo dos outros e não apenas o seu.

Participantes têm suas próprias prioridades e necessidades, e eles não dispõem de uma quantidade
infinita de tempo para dedicar a suas investigações. Encontre maneiras de saber sobre as restrições ou
preferências de tempo das pessoas e atenda­as. O respeito a essas restrições ou preferências ajudará a
reforçar um relacionamento saudável entre você e os participantes que fazem parte de seu estudo.
Da mesma forma, seja sensível a suas próprias restrições ou preferências de tempo. Respeitá­las lhe
deixará mais feliz consigo mesmo – tampouco um desfecho de baixa prioridade.

4. Diferenciar  evidências  primárias,  secundárias  e  terciárias.  Esta  é  uma  versão  expandida  de


distinguir evidências primárias e secundárias. A dimensão relevante que está sendo representada é a
de filtrar ou estar distante, sendo as evidências “primárias” ou “diretas” os dados produzidos por
uma situação registrados por você mesmo. O que você ouve com seus próprios ouvidos ou vê com
seus  próprios  olhos  são  exemplos  de  evidências  primárias.  Supondo  que  você  tenha  sido
suficientemente  sensível  à  influência  da  reflexividade  mencionada  ao  longo  deste  capítulo,  e
mantidas  inalteradas  todas  as  outras  coisas,  você  daria  maior  credibilidade  a  suas  evidências
primárias.

A  potencial  filtragem  por  outras  pessoas  se  inicia  com  evidências  secundárias,  ou  indiretas.  Os
escritos  de  um  historiador  sobre  eventos  seriam  evidências  secundárias  sobre  aqueles  eventos.  Da
mesma forma, o que um participante lhe conta sobre alguma coisa que aconteceu também é evidência
“indireta” sobre o que aconteceu (embora o fato que você ouviu diretamente de um participante ainda
seja evidência direta do que o participante disse).
A  evidência  “terciária”  é  a  mais  remota  e  ocorre  quando  existem  dois  filtros:  alguém  lhe  conta
(primeiro filtro) o que ouviu outra pessoa dizer (segundo filtro) sobre algum evento (o comportamento
real  sobre  o  qual  você  está  querendo  saber).  Se  você  cita  uma  matéria  jornalística  que  está  citando
outra  pessoa  falando  sobre  um  evento,  você  está  usando  evidência  terciária  (o  texto  do  jornalista
sendo o primeiro filtro e a pessoa citada o segundo filtro).
Diferenciar  esses  três  tipos  de  evidências  não  significa  que  você  deve  ignorar  evidências
secundárias  ou  terciárias.  É  improvável  que  você  seja  capaz  de  completar  um  estudo  qualitativo
coletando apenas evidências primárias.
A  discussão  anterior  sobre  “observar”,  por  exemplo,  assinalou  como  você  só  pode  estar  em  um
lugar de cada vez, ainda que eventos importantes possam estar acontecendo noutra parte ou em outras
ocasiões.  Provavelmente  você  fará  uso  de  evidências  secundárias  e  terciárias  para  cobrir  uma  gama
mais completa de eventos que você é incapaz de observar diretamente, e você deve considerar que as
evidências  secundárias  e  terciárias  contêm  revelações  valiosas  sobre  seu  tema  de  estudo.  O  ponto
principal  é  que  você  não  deve  depender  exclusivamente  de  evidências  secundárias  e  terciárias  sem
tentar obter informações corroborantes de alguma outra fonte – o que leva à próxima prática.

5. Triangular evidências de múltiplas fontes. Esta prática é discutida por último porque ela pode ser
extremamente  importante  para  todas  as  formas  de  pesquisa  empírica,  não  apenas  pesquisa
qualitativa. A ideia, anteriormente introduzida como um modo importante de reforçar a validade de
um  estudo  (ver  Cap.  4,  Opção  2),  é  determinar  se  dados  de  uma  ou  mais  fontes  convergem  ou
levam ao mesmo resultado. Um exemplo de convergência ocorre quando você observa um evento
ou ouve uma pessoa dizer alguma coisa em uma conversa, e seu colega de campo que está presente
também  observa  ou  ouve  a  mesma  coisa,  e  você  dois  tiram  a  mesma  conclusão  depois  de  se
consultarem um com o outro. (A conversa típica entre vocês, depois de sair do evento ou diálogo
com a outra pessoa, inicia­se com um de vocês dizendo, “Você viu o que eu vi? Ou “Você ouviu o
que eu ouvi?”)

Quanto  mais  você  puder  demonstrar  tal  convergência,  especialmente  sobre  resultados­chave,  mais
fortes  serão  suas  evidências.  O  uso  da  palavra  triangulação  aponta  para  a  situação  ideal  em  que  as
evidências  de  três  fontes  divergentes  convergem.  Por  exemplo,  você  viu  alguma  coisa,  alguma  outra
pessoa também presente na cena viu a mesma coisa e uma matéria jornalística relatou a mesma coisa.
Como exemplo final, a pesquisa educacional muitas vezes se concentra nas práticas educacionais que
ocorrem em uma sala de aula. Evidências separadas podem resultar de sua própria observação dentro de
uma sala de aula (direta), de uma entrevista que o professor lhe concede, mas sem que você veja a prática
(indireta), ou uma entrevista que o diretor lhe concede sobre o que ele achava que estava acontecendo em
uma sala de aula sem estar presente nela, também (terciária). Você se sentiria melhor em relação a suas
evidências se todos as três fontes tratassem dos mesmos eventos em sala de aula e concordassem. Você se
sentiria inseguro se dependesse exclusivamente do que o diretor disse, para definir sua representação da
prática instrucional que tinha acontecido.
O  papel  da  triangulação  assume  grande  importância  ao  fazer  pesquisa  qualitativa.  Triangular  pode
inclusive ser considerado mais uma atitude mental do que uma técnica metodológica – alguma coisa que
ajuda  a  manter  seus  olhos  e  ouvidos  abertos  para  ideias  ou  dados  corroborantes  ou  conflitantes,  o  que
quer que você esteja fazendo.
1. Quais  são  as  principais  discrepâncias,  se  houver,  entre  a  consciência  de  uma  pessoa  sobre  o  tema  e  sua
apresentação em um documento? O que explicaria a existência de discrepâncias?
2. Se houve pouca ou nenhuma discrepância, como a pessoa obteve um conhecimento tão bom do tema (i.e.,
a pessoa adquiriu conhecimento do documento que você localizou ou de outras fontes, e nesse caso, quais
fontes)?
3. Como  se  compara  a  profundidade  de  compreensão  da  pessoa  sobre  as  questões  subjacentes  ao  que  é
apresentado na documentação?
4. Independentemente do nível de consciência ou do conhecimento da pessoa, em que aspectos uma pessoa
poderia concordar ou discordar com as questões declaradas no documento?

NOTA
1. O termo entrevista qualitativa teve preferência sobre alternativas como entrevista não estruturada, entrevista intensiva e
entrevista em profundidade, uma vez que o termo entrevista qualitativa tornou­se suficientemente diversificado para, em
diferentes circunstâncias, poder incluir alguma combinação dessas variantes. Ver a discussão de Robert Weiss no breve
Apêndice A em Other Names for Qualitative Interviewing (1994).
7
Registrando dados

Decidir o que registrar é uma parte integrante da coleta de dados qualitativos. Além disso, para
aperfeiçoar  sua  integralidade  e  precisão,  as  anotações  iniciais  feitas  durante  o  trabalho  de
campo precisam ser revistas e refinadas todas as noites. Nessas ocasiões, os pesquisadores
constatarão que suas notas originais têm lacunas e marcas ilegíveis que podem ser corrigidas.
Este capítulo aborda todas essas práticas de tomada de notas, incluindo o desejo de capturar
as  palavras  ipsis  litteris.  O  capítulo  também  discute  o  uso  de  outros  tipos  de  dispositivos  de
registro, tais como gravações em áudio e vídeo, além das anotações. Esses registros podem
ser a principal técnica de coleta de  dados de um estudo qualitativo e, portanto, merecem um
cuidadoso manuseio, inclusive a necessidade de obter permissão para usar os dispositivos e
adicional permissão para compartilhar as gravações. Um registro final necessário em pesquisa
qualitativa é a manutenção de um diário pessoal pelo pesquisador.

Você  disse  que  estava  tomando  notas  enquanto  lia  ou  estudava  este  livro,  não  disse?  Se  você  estivesse
fazendo um estudo de pesquisa qualitativa (e não apenas lendo este livro), poderia ter começado a fazer
anotações  para  seu  estudo  durante  todos  os  procedimentos  de  iniciação  e  delineamento  abordados  nos
Capítulos  3  e  4  do  que  os  procedimentos  reais  de  coleta  de  dados,  como  retratados  no  Capítulo  6.
Também  poderia  ter  iniciado  um  diário  à  parte  contendo  seus  comentários  sobre  suas  experiên cias  de
pesquisa (ver item E).
Algumas  pessoas  pensam  que,  a  fim  de  se  sobressair  em  pesquisa  qualitativa,  tomar  notas  e  manter
diários são atividades tão essenciais que precisam fazer parte de nossa persona. Essas pessoas podem não
estar muito longe da verdade. Considere as palavras de um conhecido escritor cujos livros sobre métodos
qualitativos tornaram­se recordistas de vendas (Kidder, 1990):
Uma observação separada, mas relacionada, envolve o adjetivo “copioso”. Todo mundo sabe o que a
palavra  significa  e  como  usá­la,  mas  de  alguma  forma  ela  raramente  é  usada  fora  da  expressão  “notas
copiosas”.
Este capítulo discute diferentes maneiras de registrar, não apenas de escrever notas. Contudo, a tomada
de  notas  (e  posterior  revisão  das  notas  de  campo)  é  provavelmente  o  método  dominante  de  registro  ao
fazer  pesquisa  qualitativa.  O  método  de  tomada  de  notas  recebe,  portanto,  mais  atenção.  O  desafio
peculiar  é  que  você  terá  que  fazer  anotações  (ou  registrar  seus  dados  de  campo)  enquanto  participa
ativamente  no  campo,  além  de  observar  e  ouvir  o  que  está  acontecendo.  Você  não  terá  o  luxo  do
laboratório ou da sala de aula, onde se pode fazer anotações tranquilamente em uma mesa.
A virtual simultaneidade de fazer trabalho de campo e anotações, por horas ou dias a fio, significa que
as notas e outros registros não vêm simplesmente depois de fazer o trabalho de campo, em uma sequên cia
rigorosamente  linear.  Seu  trabalho  de  campo  claramente  influencia  seus  procedimentos  de  registro.
Menos apreciado, talvez, é que os procedimentos de registro, e especialmente a tomada de notas, podem
levar a pistas importantes para o trabalho de campo em andamento – seguindo uma relação mais recursiva
do que linear, que é muito típica da pesquisa qualitativa.
A discussão deste livro a respeito desses temas – coleta e registro de dados – deve, não obstante, ser
apresentada  de  forma  linear.  Por  exemplo,  o  Capítulo  7  tinha  que  suceder  o  Capítulo  6,  muito  embora
algumas anotações pudessem preceder, acompanhar e suceder as atividades de coleta de dados. Assim, na
vida real, as atividades em ambos os capítulos poderiam se sobrepor.
Em relação ao foco do Capítulo 7 na tomada de notas e outros modos de registro, vamos iniciar pelas
informações que devem ser registradas (item A) e depois discutir diversas práticas de registro (itens B, C,
D e E).

A. O QUE REGISTRAR

O que você deve aprender nesta seção:

Tentar registrar “tudo” ser muito seletivo


Todo pesquisador confronta este dilema. É impossível registrar “tudo”, mas algumas pessoas, no entanto,
fazem  anotações  em  demasia,  bem  além  das  necessidades  de  seu  estudo.  O  ônus  desse  esforço  muitas
vezes é transferido para os participantes, que ou são solicitados a falar mais devagar ou a fazer uma pausa
para que o pesquisador possa atualizar suas notas. O conselho aqui é aprender a registrar o que for preciso
sem  interferir  no  ritmo  ou  passo  de  um  participante.  Como  em  relação  a  sua  maneira  de  se  vestir  e  se
apresentar em campo, o processo de tomada de notas deve ser um parceiro silencioso e não chamar muita
atenção para si. Até o movimento físico usado na tomada de notas deve ser o mais discreto possível.
O outro extremo apresenta problemas ainda maiores. Registrando muito pouco você corre o risco de
ser impreciso ou não ter informações suficientes para analisar. Talvez você nem sequer tenha um estudo.
Entre esses extremos há uma média áurea. Com a experiência na execução de diversos estudos, todo
pesquisador  encontra  seu  nível  de  conforto.  O  objetivo  é  tomar  notas  suficientes  para  atender  às
posteriores necessidades analíticas e composicionais, mas não notas em excesso ao ponto de grande parte
de  seu  material  ficar  sem  uso. Ademais,  o  excesso  de  notas  pode  às  vezes  paralisar  o  trabalho  na  fase
analítica, porque você não saberá por onde começar sua classificação.
A experiência ajuda as pessoas a antever o nível mais útil de volume antes de começar. A média áurea
torna­se  então  sinônimo  do  estilo  de  um  determinado  pesquisador.  Alguns  pesquisadores  podem  ser
conhecidos por cobiçarem passagens descritivas ricas que simulam para o leitor a experiência de “estar
lá”, enquanto outros pesquisadores podem ser conhecidos por fornecerem evidências convincentes para
questões  de  pesquisa  altamente  focadas.  Outros  por  sua  vez  podem  ser  conhecidos  por  repetidamente
descobrirem coisas novas e fascinantes, que não faziam parte do plano de estudo original.

Destacando ações e capturando palavras textualmente


A maioria das pessoas tende a achar avassalador seu primeiro dia em campo, mesmo que já tenha feito
trabalho  de  campo  anteriormente.  O  que  registrar  será  um  desafio  tanto  para  pesquisadores  experientes
quanto  para  novatos,  mas  para  os  últimos  em  especial,  alguma  orientação  pode  vir  de  duas  estratégias:
destacar as ações em campo e capturar as palavras exatamente como foram ditas.
O  “primeiro  dia”  pode  ser  uma  oportunidade  observacional  completa  ou  pode  simplesmente  ser
representada  pela  primeira  entrevista  de  campo.  Em  qualquer  uma  das  situações,  você  pode  ser
confrontado por um excesso de território desconhecido. Você terá pouca ideia do significado de muitas
observações, inclusive identificar quem é quem. Na situação de entrevista, você terá pouca familiaridade
com o contexto para os comentários do entrevistado bem como com a identidade das outras pessoas que
podem ser citadas nesses comentários.
A  tomada  de  notas  nessas  circunstâncias  pode  ser  mais  experimental  e  mesmo  fragmentária.  Seu
objetivo é adquirir seu entendimento próprio do novo ambiente e participantes, em vez de fazer anotações
em abundância. “Escutar” pode ser mais importante do que “fazer”, e deve­se escutar com a mente aberta.
Nesse processo, um desafio inicial é evitar uma prematura estereotipagem de sua parte, seja na situação
de observação ou de entrevista.
Na  situação  observacional,  focar  nas  ações  que  ocorrem  no  ambiente,  em  contraste  com  descrever  a
pessoa ou a cena, é um modo de observar o que está acontecendo e ao mesmo tempo minimizar o estereó ­
tipo. O objetivo é registrar uma “imagem vívida” em vez de um “estereótipo visual” (Emerson, Fretz, &
Shaw, 1995, p. 70­71). As imagens vívidas podem envolver as atividades de uma única pessoa, de grupos
de  pessoas,  ou  da  experiência  de  um  observador  participante  (ver  “Diferentes  exemplos  de  ‘imagens
vívidas’”, Quadro 7.1).
Diferentes exemplos de “imagens vívidas”

los Marielitos
balseros

Ver também os Quadros 9.3, 11.3, 11.5 e 11.8.

Na situação de entrevista, focar nas palavras exatas que foram ditas atende a um objetivo semelhante.
Se as notas de sua primeira ou duas primeiras entrevistas não contêm nada mais, elas devem mostrar os
termos,  rótulos,  palavras  e  expressões  usadas  pelo  entrevistado,  não  paráfrases  e  consequentemente
estereótipos delas.
A conveniência de capturar as palavras e expressões exatas – assim como gestos e expressões (p. ex.,
Emerson, Fretz, & Shaw, 1995, p. 30­32) vai bem além das primeiras entrevistas. Quanto mais você está
estudando a cultura de um lugar ou de um grupo de pessoas, mais importante é capturar sua linguagem.
Como observa Spradley (1995, p. 7­8),

Spradley então observa que os pesquisadores de campo devem, desde o início, lidar com o problema de
usar  uma  linguagem  particular  em  suas  notas.  Durante  as  entrevistas  de  campo,  um  foco  contínuo  na
captação das palavras exatas nos ajuda a compreender o significado das ideias dos entrevistados, e não o
significado que deduzimos delas (ver “O princípio verbatim”, Quadro 7.2)
O princípio

verbatim

insights

verbatim

Tanto  na  situação  de  observação  como  de  entrevista,  e  especialmente  durante  o  trabalho  de  campo
inicial, evite usar apenas suas próprias paráfrases em suas anotações, mas, mais sutilmente, suas próprias
“categorias” para descrever a rea lidade. Exemplos seriam sua própria representação de uma cena de sala
de aula usando o termo instrução didática em vez de registrar a falta de troca entre professor e alunos; ou
observar que uma pessoa estava “malvestida” em vez de descrever a roupa propriamente dita.
Suas  práticas  de  coleta  de  dados  já  devem  tê­lo  alertado  para  esta  questão  de  evitar  categorizar  e
estereotipar  prematuramente.  O  ponto  aqui  é  que,  se  você  não  tomar  cuidado,  suas  notas  podem
inadvertidamente dar um passo regressivo nessa direção. Os riscos incluem resvalar em uma perspectiva
etnocêntrica  ou  autocentrada  em  que  (1)  expressões  desconhecidas  são  associadas  a  uma  conotação
alienígena, (2) interpretações levam consigo a suposição tácita de que uma única visão é “verdadeira”; ou
(3) descrições são enquadradas em termos do “que deveria ser” (Emerson, Fretz, & Shaw, 1995, p. 110­
111).

Lembrando-se de suas questões de pesquisa


Esta é outra estratégia para saber o que registrar, além de destacar ações ou capturar palavras de forma
exata.
Quer  você  tenha  desenvolvido  um  protocolo  de  pesquisa  formal  ou  não,  seu  estudo  se  iniciou  com
algumas questões ou principais pontos de interesse. Você identificou esses pontos, bem como selecionou
seu ambiente de campo somente após cuidadosa consideração. Consequentemente, você também pode dar
a  esses  pontos  sua  prioridade  inicial  na  tomada  de  notas  (e  nas  perguntas  a  serem  feitas),  dando  mais
atenção às ações e palavras exatas que parecem relacionadas a suas questões de pesquisa.

Tomando notas sobre estudos escritos, relatórios e documentos encontrados


em campo
Além de observar e entrevistar, uma terceira fonte comum de notas de campo vem dos materiais escritos.
Você já terá tomado notas desse tipo ao revisar a literatura como parte da preparação para delinear seu
estudo  de  pesquisa  qualitativa.  Entretanto,  a  menos  que  você  esteja  estudando  um  grupo  pré­letrado,  é
provável que você encontre materiais escritos como parte de seu trabalho de campo.
Para esses materiais, as anotações não devem diferir de suas notas de entrevista, com ênfase novamente
na  captura  das  palavras  e  frases  exatas  no  material  escrito.  Utilize  uma  maneira  clara  de  distinguir
palavras exatas (aspas são indicadas) e paráfrase, de modo que se você reutilizar esses materiais você os
citará apropriadamente e não poderá ser acusado de plagiar a propriedade intelectual.
Ainda que os materiais escritos possam ser volumosos, como ao fazer pesquisa de campo sobre uma
organização,  as  notas  devem  ser  o  mais  completas  possível.  Elas  devem  ser  feitas  com  a  intenção  de
evitar ter que recuperar novamente o mesmo material em alguma data posterior, apenas para completar as
notas, em contraste com corroborar alguma nova descoberta. Assim, atente não apenas para os conteúdos
do  documento,  mas  também  para  os  detalhes  que  você  necessitara  para  citá­lo  –  por  exemplo,  as  datas
específicas  e  os  nomes  formais  e  títulos  organizacionais  associados  necessários  para  citar  o  documento
formalmente.
Trate  a  oportunidade  de  revisar  o  material  escrito  como  se  fosse  apenas  sua  única  oportunidade  de
acessar  e  ler  o  documento  (o  que  pode  muito  bem  ser  verdade).  Agindo  dessa  forma,  você  reduzirá
frustrações  posteriores  de  ter  que  retornar  ao  documento. Você  também  minimizará  inconveniências  às
pessoas  que  podem  ter  tido  que  localizar  os  materiais  para  você. Alternativamente,  pode­se  pensar  em
fazer cópias do material enquanto se está em campo, mas este procedimento tem ao menos uma vantagem
e desvantagem importante, como descrito a seguir.

Duplicando cópias de documentos e materiais escritos enquanto se está em


campo
Alguns  colegas  encontram  e  fazem  uso  de  serviços  comerciais  de  fotocopiagem  durante  seu  tempo  em
campo.  Dessa  forma,  eles  podem  duplicar  todos  os  materiais  que  encontram.  Entretanto,  esses  colegas
podem estar adiando uma dor de cabeça para mais tarde.
Depois de completar seu trabalho de campo, os colegas então confrontam os materiais fotocopiados,
que ainda mantêm sua forma bruta. A relevância de alguns dos materiais para o estudo qualitativo geral
pode  agora  ser  questionada  ou,  ainda  pior,  esquecida.  A  importância  de  determinadas  partes  destes
materiais  pode  também  não  ser  mais  evidente.  Se  ambas  essas  condições  predominarem,  os  materiais
tornam­se parte dos registros do trabalho de campo que agora se situam fora de qualquer análise útil.
Ao mesmo tempo, os materiais podem continuar sendo uma parte valiosa de seu estudo. Assim, faça
fotocópias se surgirem oportunidades. Mas – enquanto ainda estiver em campo – dê suficiente atenção a
esses  materiais,  geralmente  tomando  nota  sobre  seus  conteúdos  ou  marcando  as  cópias,  para  que  você
saiba o que procurar e o que citar quando retornar do trabalho de campo. Escreva uma nota dizendo de
que  forma  e  por  que  o  material  lhe  pareceu  relevante  no  momento  (muitos  pesquisadores  usam
bilhetinhos adesivos para este fim).
Um tópico final: no caso especial em que materiais escritos incluem estudos de pesquisa, sua utilidade
pode ser acentuada se você focar nas evidências e conclusões. Você deve cogitar fazer uma fotocópia de
uma tabela, gráfico ou outra apresentação de dados para eliminar a chance de ter cometido um “erro” ao
copiar algum dado crítico. Focando nas evidências e conclusões, você pode minimizar a necessidade de
retornar  para  o  material  e  ter  que  passar  mais  tempo  com  ele.  Por  fim,  diferente  das  observações  e
entrevistas  de  campo,  a  tomada  de  notas  para  materiais  escritos  pode  ser  feita  em  um  ambiente  mais
tranquilo no qual elas podem ser digitadas em um computador.

B. PRÁTICAS DE TOMADA DE NOTAS NO TRABALHO DE CAMPO


O que você deve aprender nesta seção:

Preparando-se
Como  o  típico  fotógrafo  que  sempre  leva  uma  câmera  para  o  caso  de  surgir  uma  oportunidade  de
fotografar, sempre que estiver fazendo sua pesquisa você deve estar preparado para anotar alguma coisa.
Portanto,  você  deve  sempre  carregar  algum  tipo  de  instrumento  de  escrita.  Da  mesma  forma,  levar  um
pequeno bloco de notas (que caiba em uma bolsa ou em um bolso lateral) ou mesmo alguns pedaços de
papel em branco, vai deixá­lo preparado para fazer anotações a qualquer momento (Scanlan, 2000, p. 28).
Com o tempo, depois de se acostumar com um determinado tipo de instrumento de escrita (p. ex., caneta
ou  lápis)  e  bloco  (p.  ex.  do  tamanho  de  um  caderno  ou  que  caiba  em  um  bolso  ou  bolsa),  pense  em
estocar esses materiais para futuros estudos.
Dado o pequeno porte dos atuais aparelhos, os passos preparatórios também podem incluir carregar um
gravador  de  áudio  pequeno  e  um  telefone  celular  com  câmera  fotográfica. Você  então  estará  preparado
para  registrar  os  eventos  em  múltiplas  modalidades  (contudo,  consulte  o  item  D  para  sugestões  e
advertências sobre o uso de aparelhos de registro mecânico).

Organizando suas notas


Apesar  de  sua  aparente  informalidade,  seus  “breves  apontamentos”  (Emerson,  Fretz,  &  Shaw,  1995,  p.
19­35) ou notas de campo iniciais devem seguir um certo formato. Esse formato pode se assemelhar ao
das  notas  tomadas  em  sala  de  aula  (aulas  expositivas),  de  sorte  que  todo  mundo  já  tem  um  estilo  de
formatação  que  também  vai  funcionar  para  tomar  notas  de  campo.  Para  organizar  suas  notas  durante  o
trabalho de campo, três lembretes podem ser úteis.
Primeiro, você precisa decidir se você se sente mais à vontade fazendo suas anotações sobre papel de
tamanho  padrão  em  um  caderno,  ou  em  blocos  de  notas  ou  de  tamanho  jornalístico,  ou  em  fichas
catalográficas.  Se  o  trabalho  de  campo  vai  envolver  muito  movimento,  por  exemplo,  entrar  e  sair  de
carros, ou envolve ambientes com poucas superfícies de apoio, você vai preferir um papel ou bloco com
algum suporte em papelão. As mesmas condições do trabalho de campo provavelmente impedem o uso
de  um  laptop  ou  de  computadores  portáteis  para  fazer  anotações,  pois  você  pode  não  encontrar  uma
superfície estável para apoiar o computador (a conveniência do seu colo desaparece quando a maior parte
do  trabalho  envolve  caminhar  ou  ficar  de  pé).  Você  também  terá  dificuldade  para  ver  uma  tela  de
computador ao trabalhar ao ar livre.
Segundo,  o  estilo  de  formatação  geral  também  inclui  habituar­se  a  escrever  a  data  (se  não  a  hora),
identificando brevemente a pessoa ou cena a que se refere à nota, e numerando todas as páginas. Escrever
apenas  em  um  lado  das  páginas  (exceto  quando  estiver  escrevendo  em  um  caderno)  também  é
aconselhável  por  causa  da  posterior  dificuldade  de  encontrar  passagens  específicas  quando  você  está
desesperadamente  vasculhando  suas  notas  à  procura  de  uma  expressão  ou  fragmento  que  acontece  de
estar escrito no verso de uma página.
Uma  terceira  característica  de  formatação  é  deliberadamente  deixar  espaços  vazios  em  cada  página
(ver Fig. 7.1). As notas na Figura 7.1 são de uma conversa em grupo com sete participantes, com iniciais
ou  nomes  sublinhados  à  esquerda  indicando  os  falantes,  seguidos  por  seus  comentários.  Esses
comentários foram propositalmente escritos apenas no lado esquerdo do papel, reservando o lado direito
para colocar os comentários do pesquisador (ou para acrescentar outro comentário relacionado – ver as
iniciais  “JH”  na  coluna  à  direita).  O  espaço  entre  as  duas  colunas  permite  o  uso  de  setas,  colchetes  e
parênteses  quando  o  pesquisador  deseja  conjecturar  alguma  relação  que  levará  a  uma  questão  de
seguimento imediata ou que será analisada posteriormente.

FIGURA 7.1
Exemplo de notas de campo.
Em  suas  notas,  você  pode  deixar  margens  grandes,  escrever  em  uma  coluna,  deixar  uma  segunda
coluna em branco em cada página ou usar qualquer outro padrão que lhe agrade. Apenas não preencha a
página inteira. Os espaços vazios serão úteis se posteriormente você se lembrar de um item que faz parte
das  notas  originais  e  puder  então  acrescentá­lo  (com  uma  caneta  ou  lápis  de  cor  diferente),  ou  ainda
depois,  quando  estiver  revendo  suas  notas  e  quiser  inserir  algum  comentário  ou  marca  ao  lado  das
passagens específicas (também com cor ou estilo de notação diferente).

Desenvolvendo sua própria linguagem de transcrição


Não  se  esqueça  que,  quando  estiver  escrevendo  suas  notas  de  campo,  você  estará  ao  mesmo  tempo
escutando, observando e assimilando eventos da vida real. Somados a tudo isso, o princípio verbatim e a
riqueza do  que  está ocorrendo no ambiente ou  durante  uma entrevista  não estruturada  irão exigir ainda
mais  de  sua  capacidade  de  desempenhar  tarefas  paralelas.  Por  fim,  suas  notas  precisam  ser  suficientes
para garantir que você tenha que confiar apenas minimamente em sua memória (a qual certamente estará
sobrecarregada, sem falar das distorções que podem ocorrer).
Todas  essas  condições  exigem  que  você  pense  que  sua  tomada  de  notas  requer  e  envolve  uma
linguagem  de  transcrição  separada.  A  linguagem  precisa  sobretudo  possuir  atalhos  que,  não  obstante,
preservem a exatidão e precisão. Entretanto, ela pode diferir acentuadamente de sua escrita normal.
Por exemplo, conhecer taquigrafia formal não faria mal, mas a maioria das pessoas não tem interesse
em dominar aquela linguagem. Alguma mistura sua, semelhante à linguagem de mensagens de texto ou
instantâneas, vai servir – contanto que você consiga ler e interpretar sua escrita. O uso de abreviaturas e
siglas é imprescindível, mas tenha cuidado para não usar as mesmas abreviaturas ou siglas para dois ou
mais conceitos diferentes. No mesmo estilo, se você se atrasar na tomada de notas, uma sugestão é não
tentar completar todas as frases, mas iniciar uma nova frase mesmo não tendo terminado a frase anterior
(Scanlan, 2000, p. 32). Se você tentar completar a frase anterior, provavelmente você não vai ouvir a nova
frase.
Para  superar  a  existência  de  muitas  frases  incompletas  ou  excessiva  fragmentação  (se  não  confusão)
em  suas  notas,  você  deve  tentar  encontrar  algum  tempo  para  fazer  consertos  enquanto  ainda  está  em
campo.  Encontre  um  lugar  tranquilo  entre  as  entrevistas  ou  observações,  ou  durante  um  intervalo  no
trabalho de campo, e encontre as frases incompletas ou outros fragmentos. Fazer quaisquer correções que
você possa neste momento intermediário será muito melhor do que esperar até o fim do dia.
Também se recomenda escrever com letra pequena. É possível colocar mais palavras em uma página –
e  também  escrever  mais  rápido  –  do  que  se  você  imitar  as  letras  grandes  de  um  estudante  do  ensino
básico,  com  movimentos  do  punho  e  do  braço,  do  que  apenas  com  movimentos  dos  dedos.  Da  mesma
forma,  para  quase  todas  as  pessoas,  escrever  com  letra  cursiva  é  mais  rápido  do  que  com  letra  de
imprensa.
Uma  característica  da  linguagem  de  transcrição  desejada  é  ser  capaz  de  distinguir  (1)  notas  sobre
outras  pessoas  e  eventos  externos  de  (2)  notas  para  si  mesmo.  Você  vai  querer  poder  fazer  um  breve
apontamento sobre o que acabou de ouvir ou observar, mas você precisa claramente separar seus próprios
comentários de outras notas. Isso pode ser feito usando­se colchetes ou barras invertidas (e reservando os
parênteses  para  observações  realmente  explicativas),  ou  reservando  espaço  às  margens  exclusivamente
para seus comentários. Outros sinais de pontuação também podem ser importantes, especialmente o uso
de  aspas  quando  se  quer  citar  diretamente  o  que  alguém  disse.  Como  resultado,  como  acontece  com
abreviaturas e siglas, resolve antecipadamente o significado da pontuação ou outros sinais (por exemplo,
tiques ou x) que você pretende usar. Montar um glossário pessoal para cada um de seus estudos também
não seria má ideia.
Como com tudo, você precisa praticar sua linguagem de transcrição. O principal teste será ver se você
anotou  tudo  que  queria  e  mais  tarde,  quando  você  descobrir  se  suas  notas  são  completamente  legíveis
para você mesmo.
Criar desenhos e esboços como parte das notas
Notas  de  campo  também  podem  incluir  seus  próprios  desenhos  ou  esboços.  Essas  representações  são
suplementos  altamente  desejáveis  à  sua  escrita  porque  os  desenhos  vão  lhe  ajudar  a  acompanhar  certas
relações enquanto você ainda está em campo, bem como recordar essas relações depois de ter completado
seu trabalho de campo.
O tipo mais óbvio de desenho capturaria as organizações espaciais de determinadas cenas. Além disso,
como  criar  desenhos  não  requer  “facilidade  com  a  linguagem  ou  considerável  afinidade  com
informantes”,  os  desenhos  podem  ser  produzidos  precocemente  no  início  do  período  de  trabalho  de
campo (Pelto & Pelto, 1978, p. 193­194).
As  cenas  especiais  poderiam  incluir  as  relações  espaciais  entre  os  participantes  e  não  apenas  as
características físicas de uma paisagem. Embora você possa ter algum talento artístico, não se preocupe
com  esse  talento.  A  ideia  é  esboçar  alguma  coisa  rapidamente  e  capturar  a  cena,  não  aperfeiçoar  um
desenho  de  uma  natureza  morta  ao  risco  de  negligenciar  as  atividades  ou  discussões  em  curso.  Por
exemplo,  você  pode  rapidamente  observar  e  numerar  as  posições  dos  participantes  em  uma  reunião  de
grupo, com a decodificação ocorrendo em algum momento posterior (ver Quadro 7.3).
Esboços em notas de campo

Como acontece com suas notas escritas, discutidas no item C, a única exigência de clareza do esboço é
que  posteriormente  você  possa  compreende­lo.  (Naquele  momento  posterior,  se  você  ainda  estiver
fascinado  por  seu  talento  artístico,  você  pode  expandir  o  esboço  original  para  produzir  um  desenho
completo.)
Além de representar as características físicas e sociofísicas de determinadas cenas, os desenhos podem
ser  úteis  para  captar  relações  sociais  como  representadas  por  árvores  genealógicas  e  mapas
organizacionais. Quando as relações são complexas ou numerosas, os desenhos podem cumprir uma útil
finalidade de orientação enquanto você ainda está em campo.

C. CONVERTENDO NOTAS DE CAMPO EM NOTAS MAIS


COMPLETAS

O que você deve aprender nesta seção:

As práticas de tomada de notas mencionadas acima se referem às anotações feitas durante o trabalho de
campo  ou  uma  real  entrevista.  Essas  notas  terão  sido  restringidas  pela  escassez  de  tempo  e  atenção,
porque  a  principal  atenção  terá  sido  dedicada  à  execução  do  trabalho  de  campo  ou  à  condução  da
entrevista.  Consequentemente,  essas  notas,  por  serem  feitas  com  rapidez,  podem  ser  fragmentárias,
incompletas ou cifradas. Elas devem, portanto, ser revisadas e convertidas em um conjunto mais formal
de notas que posteriormente farão parte da base de dados de seu estudo de pesquisa qualitativa.

Convertendo as notas de campo rapidamente


O  principal  objetivo  é converter  as notas  de  campo  em notas mais completas  na primeira  oportunidade
possível  após  cada  evento  no  campo.  Na  maioria  das  ocasiões,  a  oportunidade  surgirá  ao  fim  do  dia,
então,  no  mínimo  você  deve  reservar  um  tempo  para  fazer  essa  tarefa.  Entretanto,  esteja  pronto  para
aproveitar as oportunidades que possam surgir no transcorrer do dia.
Embora  essa  rotina  diária  possa  a  princípio  parecer  altamente  exigente,  a  maioria  dos  pesquisadores
qualitativos se vê aguardando­a ansiosamente, e com entusiasmo, porque a ocasião também oferece uma
oportunidade de “recobrar as ideias” e refletir sobre o que aconteceu durante o dia. Ao perseguir questões
de  pesquisa  interessantes,  as  reflexões  incluem  possíveis  descobertas  e  revelações  que  em  alguns  casos
podem ser muito emocionantes.
No mínimo, as reflexões à noite também apresentam oportunidades para pensar (ou repensar) sobre os
planos de trabalho para o dia seguinte. Como discutido anteriormente no Capítulo 5 (item A), os horários
e agendas do trabalho de campo para pesquisa qualitativa tendem a não ser rigidamente definidos (como
ao fazer trabalho de campo em um levantamento), então pode haver alguma flexibilidade nos regimes de
trabalho.  Como  resultado,  suas  reflexões  noturnas  podem  levar  a  novas  ideias  sobre  modificar  suas
prioridades para o dia seguinte.
Especialmente  difícil  ao  fazer  tais  escolhas  é  pensar  se  você  está  fazendo  progresso  em  seu  estudo.
Depois de refletir, você pode achar que um determinado dia de trabalho de campo não forneceu muitas
informações úteis. Será sempre difícil decidir se você deve modificar as prioridades para o dia seguinte
ou continuar com os planos originais. Por um lado, você pode estar mesmo desperdiçando seu tempo, a
menos  que  faça  alguma  mudança  de  direção.  Por  outro,  padrões  sociais  ou  institucionais  relevantes  no
campo podem não aparecer antes de vários dias de exposição repetitiva. A paciência sendo uma virtude,
você  provavelmente  não  deve  fazer  julgamentos  apressados  e  somente  cogitar  uma  mudança  de  rotina
depois que já ter havido uma certa repetição (improdutiva).

Requisitos mínimos para a conversão diária de notas de campo originais


Existem  muitas  maneiras  de  converter  as  notas  de  campo  originais  durante  a  rotina  noturna.  Um  passo
essencial  precisa  ser  dado  mesmo  que  você  não  tenha  tempo  de  fazer  outras  melhorias:  você  precisa
esclarecer os fragmentos, abreviaturas ou outros comentários cifrados, que depois talvez não compreenda.
Este  requisito  inclui  expandir  ou  corrigir  frases  cujos  significados  não  estejam  absolutamente  claros.
Também  pode  ter  deliberadamente  deixado  pontos  de  interrogação  junto  a  determinadas  partes  de  suas
notas de campo originais, porque sabia que tentaria interpretar o significado das notas durante esta rotina
noturna.
Ninguém deve subestimar a importância desse requisito mínimo. Se você já fez muitas anotações sua
vida inteira, você já sofreu a experiência constrangedora, assim como nós, de não conseguir decifrar seus
próprios  escritos,  ou  (pior)  não  conseguir  entender  suas  próprias  expressões  ou  frases  escritas  algum
tempo antes. Além disso, como a experiência de campo provavelmente consistiu de costumes, linguagem
e ações não familiares em comparação com sua vida normal, o risco de posteriormente não ser capaz de
compreender suas próprias notas será maior.

Quatro modos adicionais de aperfeiçoar as notas de campo originais


Além do requisito mínimo, você pode aperfeiçoar suas notas de campo originais de quatro outras formas.
Primeiro, ler suas notas pode estimular­lhe a recordar detalhes adicionais sobre os eventos observados ou
entrevistas realizadas durante o dia. Sinta­se livre para adicionar esses enfeites, mas escreva­os com um
instrumento  de  escrita  diferente  ou  com  um  código  simbólico  separado,  de  modo  que  você  possa
diferenciar entre as notas originais e os enfeites.
Segundo,  você  pode  ter  suas  próprias  conjecturas,  interpretações  ou  comentários  sobre  determinados
trechos das notas de campo originais. Alguns dos comentários podem ser apenas lembretes “pendentes”
para você mesmo de que certos temas precisavam ser examinados mais de perto durante suas posteriores
oportunidades  de  campo,  por  exemplo.  Tais  lembretes  não  precisam  ser  literalmente  escritos  sobre  as
notas originais, podendo ser mantidos em uma lista separada que depois é anexada às notas originais.
Terceiro,  sua  revisão  das  notas  para  o  dia  anterior  pode  sugerir  alguns  temas,  categorias,  ou  mesmo
soluções  e  respostas  provisórias  relacionadas  a  suas  questões  de  pesquisa.  Essas  ideias  são  claramente
dignas de registro e podem ser conectadas a trechos ou itens específicos de suas notas que estimularam as
ideias. Fazendo assim, você também poderia começar a antever alguns dos “códigos” que serão usados
em sua posterior análise de seus dados (ver Cap. 8, item B).
Quarto,  você  deve  adicionar  as  notas  dos  dias,  de  algum  modo  organizado,  a  suas  outras  notas  de
campo.  O  modo  organizado  deve  tentar  criar  algumas  categorias  de  preen chimento  que  vão  além  da
simples  manutenção  das  notas  em  ordem  cronológica.  O  objetivo  é  evitar  que  todas  as  suas  notas,
possivelmente do trabalho de campo, bem como dos documentos que você leu, tornem­se simplesmente
parte de uma “pilha” cada vez maior. Deixando que suas notas se acumulem, você está se expondo a uma
experiência altamente frustrante ao fim de seu trabalho de campo.

Aprofundando a compreensão de seu próprio trabalho de campo


Esse  período  noturno  para  expandir  suas  notas  originais  oferece  grandes  oportunidades  e  substantivo
valor.  Você  deve  esclarecer  seu  próprio  entendimento  do  que  está  acontecendo  no  campo.  O
esclarecimento  pode  envolver  uma  ampla  gama  de  itens,  desde  determinados  detalhes  até  novas
conjecturas relacionadas a suas questões de pesquisa original. Essas vantagens se perderão se você pensar
a tarefa apenas como uma tarefa de transcrição “recordar e pôr no papel” (Emerson, Fretz, & Shaw, 1995,
p. 63).
Quaisquer  pensamentos  esclarecedores  podem  ter  um  valor  pragmático:  identificar  pendências  que
precisam  de  trabalho  de  campo  adicional. A  Tabela  7.1  contém  um  exemplo  dessas  pendências  de  um
estudo  dos  esforços  de  “reforma”  escolar,  para  melhorar  as  escolas  em  algum  aspecto  fundamental,
reorganizando  simultaneamente  os  currículos,  a  programação  diária,  o  recrutamento  e  treinamento  de
professores  e  o  envolvimento  da  família  e  dos  pais  –  para  que  os  alunos  aprendam  de  maneira  mais
efetiva. Cada exemplo no quadro mostra como alguma parte das notas revelou a necessidade de coletar
evidências adicionais no trabalho de campo em andamento.

Exemplos de itens que necessitam de esclarecimento adicional em campo, como revelado durante a revisão
noturna de notas

Exemplo de item Exemplo ilustrativo de um estudo sobre reforma escolar

Detalhes factuais sobre


informantes-chave

Colocalização de uma
escola de ensino
fundamental e
intermediária

Saliência da visão de
reforma

Comparecimento em
oficinas de professores

Verificando notas de campo


As revisões noturnas das notas de campo também lhe dão a oportunidade de dar um passo metodológico
importante, às vezes ignorado ao fazer pesquisa qualitativa: verificar os dados que estão sendo coletados.
Examinar as notas e registros dessa perspectiva, enquanto o trabalho de campo ainda está em andamento,
fornece oportunidades para reforçar sua coleta de dados (ver “Verificando as coisas”, Quadro 7.4). Além
disso,  de  outra  perspectiva,  as  atividades  de  verificação  podem  ser  consideradas  o  início  da  análise  de
seus dados.
Verificando as coisas

Ver também a Quadro 10.6

Muitos tipos de verificação serão relevantes. Por exemplo, pontos­chave em suas notas que você acha
que  podem  levar  a  descobertas  importantes  merecem  ser  verificados  novamente,  possivelmente  várias
vezes  (Pelto  &  Pelto,  1978,  p.  194).  Outro  exemplo,  a  credibilidade  de  cada  entrevistado  não  deve  ser
presumida,  mas  também  merece  algum  esforço  de  verificação  (Bec ker,  1958).  Como  mínimo,  você
gostaria  de  saber  que  um  entrevistado  estava  realmente  presente  no  momento  e  lugar  referente  a  suas
observações diretas, em vez de arriscar a possibilidade de que ele lhe repassou o que ouviu dizer sobre
aqueles eventos.
Mais importante entre possíveis verificações, você pode querer começar a comparar informações das
diferentes  fontes  de  evidência  que  se  tornaram  disponíveis  durante  seu  trabalho  de  campo,  para  ver  se
vem  acumulando  versões  conflitantes  ou  complementares  dos  mesmos  acontecimentos  da  vida  real. A
Tabela  7.2  apresenta  diferentes  exemplos  dessas  verificações.  Cada  um  deles  ilustra  as  verificações
provenientes de uma diferente combinação de fontes. Embora os exemplos sejam de um estudo de uma
parceria  comunitária,  eles  devem  prontamente  evocar  instâncias  paralelas  para  estudos  qualitativos  em
outros temas.

Tipos ilustrativos de verificações entre diferentes fontes de evidências de campo

Exemplo de combinação
de fontes Exemplo ilustrativo de um estudo de uma parceria comunitária

Entre entrevistas
diferentes com pessoas
diferentes

Entre evidências de
Entre evidências de
entrevistas ou
documentais

Entre entrevistas e
dados observacionais

Entre diferentes fontes


documentais

Entre dois
pesquisadores de
campo (se o estudo
envolve uma equipe de
pesquisa)

Os exemplos na Tabela 7.2 foram deliberadamente escritos para representar verificações concluídas e
mostrar  como  fontes  diferentes  podem  apontar  para  a  mesma  conclusão.  Entretanto,  um  benefício
adicional  de  assumir  essa  postura  proativa  com  suas  notas  e  registros  nesta  etapa  inicial  é  que
provavelmente você estará no meio de seu trabalho de campo e atividades de coleta de dados. Você tem,
portanto, uma oportunidade para fazer alguma certificação adicional se necessário. Talvez você não tenha
essa oportunidade em uma data posterior.

D. REGISTRANDO DADOS DE OUTRAS FORMAS QUE NÃO


ESCRITAS

O que você deve aprender nesta seção:

As notas escritas, incluindo esboços associados, têm dominado a discussão até aqui. Contudo, eventos de
campo podem ser registrados de diversas formas, não apenas pela escrita. Os meios que se sobressaem
fazem uso basicamente de dispositivos de gravação e incluem registros em áudio, vídeo e fotografias.
Esses aparelhos podem criar valiosos subprodutos porque representam réplicas literais dos eventos em
campo,  dada  a  evidente  advertência  sobre  a  seletividade  ao  decidir  quando,  onde  e  o  que  registrar
(Fetterman, 2009, p. 564­572). Ao mesmo tempo, o uso desses dispositivos pode envolver complicações
que podem superar o valor dos produtos.
Todo pesquisador precisa tomar sua própria decisão sobre o equilíbrio adequado entre as complicações
e  o  valor  agregado.  Uma  possível  prática,  adotada  por  muitos  pesquisadores  experientes,  é  basear­se
principalmente em anotações e usar aparelhos de gravação apenas em circunstâncias especiais. Assim, em
vez  de  gravar  todas  as  entrevistas,  esses  pesquisadores  podem  cogitar  gravar  apenas  uma  entrevista
específica,  que  provavelmente  será  prolongada  ou  crucial.  Contudo,  em  outras  situações,  tais  como
filmagens do comportamento em sala de aula, discutidas ao fim desta seção, o uso de um dispositivo de
registro é inerente a todo o processo de coleta de dados.
Entretanto,  as  possíveis  complicações  são  suficientemente  fortes  para  que  você  tenha  que  proceder
com cautela. Essas complicações são discutidas a seguir.

Obtendo permissão para gravar


Para começar, usar aparelhos de gravação de qualquer tipo exigem que você obtenha a autorização das
pessoas que serão gravadas. A solicitação mais simples poderia ocorrer para gravações de áudio. Pouco
antes da entrevista iniciar, muitos pesquisadores dizem que costumam perguntar algo semelhante a “você
se importa se eu gravar essa conversa?”. Se o participante não fizer objeção e o pesquisador está apto a
usar  o  aparelho,  ele  é  colocado  em  um  lugar  adequado  e  então  acionado. A  entrevista  prossegue,  com
mínima interferência do aparelho na entrevista.
Fazer  registros  visuais,  seja  em  videoteipe  ou  fotografia,  envolve  uma  situação  um  pouco  diferente.
Mesmo  que  o  registro  não  se  concentre  em  um  determinado  participante  ou  conversa  –  como  ao  fazer
registros de pessoas no trabalho ou de crianças brincando – algum tipo de permissão ainda é necessário.
Uma  pessoa  com  autoridade  precisa  aprovar,  e  em  algumas  situações  a  aprovação  pode  ter  que  ser  por
escrito.
Uma regra de ouro é compreender que, independentemente da situação, todos os pesquisadores devem
se  assegurar  de  que  possuem  permissão  de  alguma  pessoa  relevante  para  fazer  qualquer  registro
específico. Sem obter essa permissão, problemas certamente surgirão posteriormente. A questão também
deve  ter  sido  parte  do  procedimento  de  aprovação  de  sujeitos  humanos  discutida  anteriormente  no
Capítulo 2, item E.

Dominando os dispositivos antes de usá-los


Nada  é  mais  perturbador  do  que  uma  interrupção  causada  pelo  mau  funcionamento  de  um  aparelho  de
gravação  durante  uma  entrevista.  Por  exemplo,  o  mau  funcionamento  de  um  gravador  de  som  pode
prejudicar  o  bom  entendimento  que  talvez  você  tenha  estabelecido  com  o  participante.  Este  pode
inclusive questionar (silenciosamente) se você sabe o que está fazendo – possivelmente estendendo essa
dúvida  a  suas  questões  substantivas  (a  lógica  é  a  seguinte:  se  você  não  se  preparou  o  suficiente  para
aprender  como  o  seu  gravador  funciona  ou  poderia  não  funcionar,  em  que  medida  se  preparou  para
formular as perguntas que está propondo?).
Todo mundo conhece os típicos constrangimentos sofridos quando viajantes relatam que estavam em
uma cena histórica ou vivenciando um momento preciso – e um gravador não funcionou, muitas vezes
por  falta  de  carga  na  bateria. Além  dessas  falhas  no  funcionamento,  o  uso  negligente  de  aparelhos  de
gravação  pode  chamar  uma  indesejável  atenção  para  o  uso  do  dispositivo,  desviando  a  atenção  da
essência de uma conversa ou observação.
Familiaridade essencial com um aparelho também significa saber que ele vai funcionar adequadamente
e gerar o produto esperado. Em muitos casos, os pesquisadores pensavam que tinham obtido gravações de
imagens  e  vídeos  para  depois  descobrirem  que  a  qualidade  das  gravações  era  ruim,  inviabilizando  seu
uso.  Uma  gravação  de  áudio  pode  ficar  muito  baixa,  ou  posteriormente  constata­se  que  conversas
pertinentes  ficaram  abafadas  por  algum  ruído  do  ambiente  que  não  foi  percebido.  Da  mesma  forma,
videoteipes e fotografias podem ficar fora de foco, ter iluminação insuficiente, ou serem prejudicados por
uma luz traseira que foi ignorada na hora de fotografar.
Um último ponto sobre o uso de gravadores refere­se aos aparelhos que não fazem parte de seu estudo.
Assegure­se  de  que  esses  outros  aparelhos,  como  um  telefone  celular  ou  um  bipe,  estejam  desligados
quando estiver fazendo seu trabalho de campo. Pelo menos um pesquisador de campo relatou como seu
bipe tocou em um momento crucial em uma entrevista de campo, com isso mudando o clima de toda a
entrevista (Rowe, 1999, p. 9).

Compartilhando os registros e preservando sua segurança


Uma  vez  bem­sucedido  o  registro,  a  fita  ou  fotografia  resultante  levanta  novas  questões.  A  exibição
pública  desse  material  também  exige  permissão  por  escrito  das  pessoas  ou  proprietários  dos  itens  que
aparecem na gravação ou na foto. Os participantes também podem pedir para ficar com uma cópia do seu
material, e você precisa decidir as condições para conceder ou negar­lhes sua permissão. Dada o pronto
uso da internet pelo público para compartilhar informações registradas ou gravadas, as questões podem
ficar complicadas bem rapidamente.
Além  de  decidir  como  os  materiais  devem  ser  compartilhados,  existe  a  questão  de  como  eles  serão
armazenados e como sua segurança será mantida. Dada a desejada proteção dos sujeitos humanos, uma
ameaça  importante  resultaria  da  indevida  divulgação  das  identidades  das  pessoas  ou  lugares  em  seu
trabalho  de  campo.  Consequentemente,  você  pode  ter  um  plano  para  deletar  tais  informações  antes  de
armazenar  seus  registros.  Essa  tarefa  tornar­se  mais  difícil  com  o  armazenamento  automático  de
informações como parte das fotos e registros digitais da atualidade.

Estar preparado para dedicar tempo à revisão e edição dos registros


Registros bem­sucedidos ajudarão a aumentar a precisão de seu trabalho de campo. Eles podem inclusive
estimular  suas  próprias  reminiscências  de  outros  acontecimentos  no  campo  que  não  fizeram  parte  do
registro,  tais  como  a  expressão  facial  ou  a  linguagem  corporal  de  um  entrevistado  de  quem  só  houve
registro da fala.
Para  aproveitar  esses  registros  ao  máximo  será  necessário  analisá­los  de  maneira  exclusiva  e
sistemática. Tal análise pode consumir muito tempo, porque as gravações produzem imensos volumes de
informação. Além disso, a menos que você seja perito em localizar aleatoriamente trechos diversos em
gravações  de  áudio  ou  vídeo,  a  análise  terá  que  ser  realizada  de  maneira  linear,  o  que  pode  tornar  o
processo mais tedioso do que estimulante. Investir o tempo necessário neste processo de análise pode ter
valiosas compensações. Contudo, não deixe de fazer uma previsão do tempo que será necessário para isso
antes de finalmente decidir se vai realmente usar algum dispositivo de gravação.

Quando as gravações são a principal técnica de coleta de dados


Apesar de todas as complicações expostas acima, algumas pesquisas qualitativas dependem bastante do
uso de dispositivos de gravação. Exemplos importantes são os estudos do comportamento em sala de aula
ou  de  situações  de  trabalho,  nos  quais  os  videoteipes  são  o  principal  método  de  coleta  de  dados.  As
gravações  capturam  tanto  as  ações  como  os  sons  dos  ambientes,  permitindo  que  os  pesquisadores
estudem as práticas de instrução (na sala de aula) ou as ações e interações dos funcionários (no local de
trabalho). Como exemplo, um estudo qualitativo poderia tratar das interações entre médicos e pacientes
(p. ex., Stewart, 1992).
Nessas  e  em  circunstâncias  semelhantes  nas  quais  o  dispositivo  de  gravação  torna­se  o  principal
instrumento de coleta de dados, o trabalho de campo tende a se formalizar pelo menos de duas formas.
Primeiro, pessoas especialmente hábeis serão necessárias para, em primeiro lugar, garantir sua qualidade
e posterior utilidade.
Segundo,  a  análise  dos  produtos  provavelmente  irá  exigir  que  protocolos  formais  sejam  usados  ao
ouvir/assistir  às  gravações  posteriormente  (Erickson,  2006).  Por  exemplo,  estudos  baseados  em  análise
da conversação estão interessados em ir além das palavras faladas. Esses estudos precisam desenvolver
um conjunto detalhado de símbolos para codificar as peculiaridades dos interlocutores, tais como pausa,
ritmo,  entonações  e  interrupções  (Drew,  2009).  Os  protocolos  também  devem  prever  os  procedimentos
para realizar verificações de confiabilidade – por exemplo, fazendo com que duas ou mais pessoas façam
sua própria codificação ou pontuação das gravações (p. ex., Hall, 2000). Os videoteipes podem então ser
pausados  em  quadros  específicos  para  que  a  pesquisa  possa  se  concentrar  nos  menores  detalhes.  Ao
mesmo tempo, uma câmera de vídeo tem muitas limitações, se comparada com o olho humano, e não irá
captar o que observadores humanos veem (Roschelle, 2000).
É interessante que os principais pesquisadores nesses estudos podem ainda tomar suas próprias notas,
enquanto a ação está ocorrendo e sendo gravada. As notas assim assumem um papel mais casual, porque
o dispositivo de gravação está produzindo os dados reais.

Elaborando produtos acabados


Muitas pessoas, inclusive você, podem pensar em usar os produtos dos dispositivos de gravação (p. ex.,
uma  foto  ou  um  segmento  de  uma  gravação  de  vídeo  ou  áudio)  como  parte  de  suas  apresentações
profissionais.  Fotos  também  podem  aparecer  em  manuscritos  e  publicações  finais  (p.  ex.,  Brubaker,
Feischmidt, Fox, & Grancea, 2006; Pedraza, 2007), como também discutido no Capítulo 10, Seção B.
Quando  estiver  cogitando  usar  essas  apresentações,  atente  para  uma  palavra  de  advertência.  Como
quase todas as pessoas já foram expostas a meios visuais de alta qualidade, um produto visual (ou sonoro)
de  qualidade  apenas  “caseira”  tende  a  não  ser  apreciado  pelo  público.  Produtos  visuais  fracos  podem
inclusive prejudicar o que de resto seria um excelente estudo. Uma resposta óbvia para esse problema é
citar e incentivar o uso de programas de edição digital fáceis de usar (p. ex., Fetterman, 2009, p. 571).
Esses  programas  podem  aperfeiçoar  significativamente  o  seu  produto.  Imagens  visuais  altamente
refinadas são encontradas especialmente em estudos educacionais, nos quais os pesquisadores geralmente
apresentam  imagens  das  interações  entre  um  professor  e  um  aluno,  ou  de  estudantes  ou  professores
sozinhos.
A  advertência  é  a  seguinte:  a  excessiva  edição  dos  produtos  visuais  ou  sonoros  pode  distorcer  as
imagens em sua representação como dados qualitativos. Como resultado, especialmente quando a edição
gerou  um  produto  de  qualidade  genuinamente  alta,  o  risco  é  que  a  “cena”  seja  interpretada  como  não
plenamente  representativa  de  uma  versão  espontânea  ou  autêntica.  O  excesso  de  edição  também  pode
levar a outras suspeitas. Por exemplo, as audiências podem não aceitar simplesmente que a edição foi a
única  intervenção;  elas  podem  se  perguntar  se  os  professores  ou  estudantes  representados  foram
orientados a olhar para uma câmera (ou desviar o olhar dela), para tornar o produto mais atraente.
Dadas  essas  possibilidades,  você  pode  optar  por  não  fazer  nenhuma  edição  e  declarar  claramente  a
ausência  de  edição,  quando  imagens  (especialmente  digitais)  são  apresentadas.  Para  tornar  as  imagens
mais atrativas possíveis, o desafio então seria fazer a gravação original com técnicas apuradas, de modo
que  o  produto  final  seja  apresentável  sem  edição.  Da  perspectiva  de  um  fotógrafo,  o  objetivo  seria
produzir uma imagem de alta qualidade, mas ainda honesta, da realidade estudada.

E. MANTENDO UM DIÁRIO PESSOAL


Toda a energia e atenção dedicadas à tomada de notas e outras gravações podem esgotar totalmente sua
capacidade de escrever. Entretanto, existe uma outra atividade de escrita, paralela aos processos de coleta
de  dados  (e  outros),  em  um  estudo  investigativo.  Ela  envolve  a  manutenção  de  um  diário  pessoal,
capturando seus sentimentos e reflexões sobre seu trabalho de pesquisa.
Os registros nesse diário não precisam ser compridos ou conter frases completas. Como acontece com
suas notas de campo, esses registros também podem conter abreviaturas e siglas pessoais suas – contanto
que posteriormente você entenda o que elas significam.
Em  pesquisa  qualitativa,  um  diário  pode  desempenhar  mais  do  que  um  papel  privado.  Uma  vez  que
você  enquanto  pesquisador  é  provavelmente  o  principal  instrumento  de  pesquisa,  as  eventuais
introspecções  e  revelações  sobre  suas  próprias  reações  ou  sentimentos  sobre  o  trabalho  de  campo  em
andamento  (ou  sobre  o  estudo  como  um  todo)  podem  posteriormente  revelar  vieses  indesejáveis.  A
manutenção  de  um  diário  também  pode  revelar  suas  próprias  tendências  metodológicas  ou  pessoais  no
decorrer do tempo. Talvez você não estivesse consciente de tais tendências, mas reconhecê­las pode trazer
ideias úteis sobre como abordar sua análise posterior.
O Capítulo 11 (item D) irá sugerir que o relatório final de seu trabalho deve incluir uma cobertura de
seu self reflexivo. Qualquer diário seria naturalmente uma boa fonte de informações para este aspecto do
relato final.
8
Analisando dados qualitativos I
Compilando, decompondo e recompondo

A análise de dados qualitativos geralmente ocorre em cinco fases, e o presente capítulo aborda
as  três  primeiras. A  primeira  fase  analítica,  compilar  dados  para  formar  uma  base  de  dados
formal,  exige  uma  organização  cuidadosa  e  metódica  dos  dados  originais.  A  segunda  fase,
decompor  os  dados,  pode  envolver  um  procedimento  de  codificação  formal,  embora  não
necessariamente. A terceira fase,  recompor, é menos mecânica e se beneficia da capacidade
do pesquisador de identificar padrões emergentes. Diversas formas de criar arranjos de dados
podem ajudar a revelar tais padrões nessa terceira fase.
Existem à disposição programas de computador em constante aperfeiçoamento para auxiliar
em  todo  o  processo  analítico.  Entretanto,  quer  os  pesquisadores  decidam  usar  esses
programas  quer  não,  todas  as  decisões  analíticas  devem  ser  tomadas  pelo  pesquisador.  Um
risco na utilização de softwares é a atenção adicional necessária para seguir os procedimentos
e  a  terminologia  do  programa. Tal  atenção  pode  prejudicar  o  desejado  pensamento  analítico,
gastar muita energia e dificultar as decisões necessárias para realizar uma análise robusta.

Tudo bem, agora vem o momento mágico. Você vai de alguma forma reunir e classificar todos os seus
dados qualitativos de uma maneira eficiente. Você vai seguir algum livro de receitas com instruções para
dar rigor a seu procedimento. E esse procedimento analítico determinará diretamente sua capacidade de
tirar e redigir as necessárias conclusões de seu estudo.
O cenário exposto acima pode produzir duas reações opostas. Primeiro, algumas pessoas gostariam que
o  cenário  fosse  verdadeiro.  Elas  podem  inclusive  acreditar  que,  usando  um  software  especialmente
projetado  para  analisar  dados  qualitativos,  elas  encontrarão  o  necessário  santuário.  Segundo,  outras
pessoas  sabem  que  o  cenário  não  corresponde  à  verdade.  Entretanto,  elas  celebram  a  oportunidade
apresentada pela pesquisa qualitativa e a liberdade de não ser tolhido por alguma metodologia fixa.
Seja  qual  for  a  visão  que  você  adote,  e  independentemente  do  modo  como  acabe  analisando  seus
dados, o aspecto mais importante do cenário é o referente ao rigor. O rigor é fruto do exercício de três
precauções:
1. verificar e reverificar a precisão de seus dados;
2. tornar sua análise mais minuciosa e completa possível, em vez de pegar atalhos; e
3. reconhecer  constantemente  os  vieses  indesejáveis  impostos  por  seus  próprios  valores  quando
estiver analisando seus dados.

Esses  e  outros  itens  relacionados  são  mais  bem  monitorados  se  você  também  criar  e  mantiver  um
conjunto de notas metodológicas (às vezes chamadas de memorandos – ver “Redigindo os memorandos”
na item C) para sua própria referência.
Técnicas  específicas,  discutidas  posteriormente  neste  capítulo,  também  ajudam  e  devem  ser
plenamente  utilizadas,  tais  como  fazer  comparações  constantes,  mantendo­se  especialmente  atento  a
instâncias negativas,  desenvolvendo  explicações  rivais  e  constantemente  propondo questões  sobre  seus
dados,  e  para  si  mesmo,  ao  prosseguir  na  análise.  Manter,  organizar  e  revisar  com  frequência  notas
metodológicas  ou  memorandos  sobre  o  processo  analítico  também  é  uma  prática  vigorosamente
recomendada. Todos esses procedimentos são importantes porque a análise em pesquisa qualitativa não
possui uma rotina universalmente aceita.

A. APANHADO GERAL DAS FASES ANALÍTICAS

O que você deve aprender desta seção:

Ao mesmo tempo, embora a análise de estudos qualitativos não siga um livro de receitas, tampouco ela é
totalmente desregrada. Na verdade, a experiência prática na realização de pesquisa qualitativa, bem como
os estilos analíticos representados em numerosos textos sugerem que a maior parte da análise qualitativa
– seja qual for a orientação qualitativa particular adotada – segue um ciclo geral de cinco fases. Assim, o
restante deste capítulo está estruturado em torno deste ciclo, descrito de maneira breve a seguir.

Introdução a um ciclo de cinco fases: (1) compilar, (2) decompor, (3) recompor
(e arranjar), (4) interpretar e (5) concluir
A Figura 8.1 representa o ciclo completo e suas cinco fases, as setas indicando a sequência entre elas. As
setas  bidirecionais  significam  que  você  pode  oscilar  entre  as  duas  fases.  Consequentemente,  a  figura
como um todo sugere como a análise tende a ocorrer de uma maneira não linear. A introdução ao ciclo a
seguir  define  cada  fase,  depois  da  qual  o  restante  do  Capítulo  8,  bem  como  todo  o  Capítulo  9,  discute
como funciona cada fase.
FIGURA 8.1
Cinco fases de análise e suas interações.

A análise se inicia1 pela compilação e classificação das notas de campo reunidas no trabalho de campo
e de outra coleta de dados. Você terá refinado essas notas todas as noites, como descrito anteriormente no
Capítulo 7 (item C), podendo ter reunido notas separadamente de fontes arquivais. Mas nenhum conjunto
terá  sido  organizado  em  qualquer  ordem  a  não  ser  aquela  em  que  foram  criados.  A  primeira  fase  –
compilar – significa, portanto, colocá­los em alguma ordem. A compilação obtida pode ser considerada
uma base de dados.
A  segunda  fase  exige  decompor  os  dados  compilados  em  fragmentos  ou  elementos  menores,  o  que
pode  ser  considerado  um  procedimento  de  decomposição.  O  procedimento  pode  (mas  não  precisa)  ser
acompanhado  por  uma  atribuição  de  novos  rótulos,  ou  “códigos”,  aos  fragmentos  ou  elementos.  O
procedimento de decomposição pode ser repetido muitas vezes como parte de um processo de tentativa e
erro de testar códigos, o que explica a seta bidirecional entre essas duas primeiras fases.
A  segunda  fase  é  então  seguida  pela  utilização  de  temas  substantivos  (ou  mesmo  códigos  ou
aglomerações  de  dados)  para  reorganizar  os  fragmentos  ou  elementos  em  grupamentos  e  sequências
diferentes das que poderiam estar presentes nas notas originais. Essa terceira fase pode ser considerada
um  procedimento  de  recomposição.  Os  rearranjos  e  recombinações  podem  ser  facilitados  pela
representação gráfica dos dados ou por sua ordenação em listas e outras formas tabulares. Mais uma vez,
a  seta  bidirecional  na  Figura  8.1  sugere  como  as  fases  de  composição  e  decomposição  podem  ser
repetidas diversas vezes de maneira alternada.
A  quarta  fase  envolve  o  uso  de  material  decomposto  para  criar  uma  nova  narrativa,  com  tabelas  e
gráficos quando pertinentes, que se tornarão a parte analítica fundamental do rascunho de seu manuscrito.
A  quarta  fase  pode  ser  considerada  de  interpretação  dos  dados  recompostos.  Interpretações  iniciais
podem levar a um desejo de recompilar a base de dados de uma nova maneira, ou decompor ou recompor
os  dados  de  maneiras  diferentes,  todas  essas  sequências  representadas  pelas  setas  unidirecionais  e
bidirecionais.
A quinta e última fase pode ser considerada uma de  conclusão. Ela exige a extração de conclusões de
todo  o  seu  estudo. Tais  conclusões  devem  estar  relacionadas  à  interpretação  na  quarta  fase  e,  por  meio
dela, a todas as outras fases do ciclo.
De maneira geral, você agora já deve ter uma compreensão preliminar das cinco fases. Você também
deve agora ver como elas não se encaixam em uma sequência linear, mas possuem relações recursivas e
iterativas. Todo o processo analítico deve ocorrer durante um período prolongado de tempo – semanas, se
não  meses.  Durante  esse  tempo,  sua  exposição  a  outras  experiências  não  relacionadas  a  seu  estudo
poderiam acidentalmente influenciar seu pensamento sobre uma ou mais dessas cinco fases.
Nem  todos  os  pesquisadores  qualitativos  atentam  de  forma  igualitária  para  as  cinco  fases.
Pesquisadores mais experientes podem ser capazes de percorrer todas as três primeiras fases e chegar à
fase de interpretação mais precocemente. Pesquisadores menos experientes podem dar excessiva atenção
à fase de decomposição e depois ter dificuldades com a fase de recomposição, atrasando a interpretação e
a conclusão para além de prazos originais ou de sua própria paciência.
Uma  vez  que  as  cinco  fases  consomem  espaço  para  explicar,  este  livro  as  divide  de  uma  forma  um
pouco  arbitrária,  para  que  o  presente  capítulo  cubra  as  três  primeiras  fases,  ao  passo  que  o  Capítulo  9
cobre a quarta e quinta fases. O material concreto será acompanhado de quadros e exemplos, mas também
de um único Exemplo de Estudo 1, também dividido entre os Capítulos 8 e 9 (as três primeiras fases do
estudo são apresentadas ao fim deste capítulo, e as duas finais são apresentadas ao fim do Cap. 9).

Usando programas de computador como auxílio na análise de dados


qualitativos
Este  capítulo  irá  referir­se  intermitentemente  ao  uso  de  programas  de  computador  especificamente
projetados para auxiliar na análise de dados qualitativos. Há muitos desses programas no mercado, cada
um  de  um  fabricante  diferente,  e  os  preços  para  qualquer  programa  podem  exceder  mil  dólares.  Cada
fabricante  também  lança  versões  atualizadas  periodicamente.  Os  programas  mais  usados  parecem  ser
ATLAS­ti,  NVivo  e  MAXqda  (Lewins  &  Silver,  2007).  Outros  programas  incluem  HyperRESEARCH6,
QDA Miner, Qualrus e Transana.
Os diversos programas de computador se enquadram sob um rótulo genérico conhecido como software
de  “Análise  de  dados  qualitativos  assistida  por  computador”  (ou  CAQDAS,  que  se  pronuncia  como
cactus  em  inglês)  (p.  ex.,  Fielding  &  Lee,  1998).  Como  este  livro  não  se  posiciona  a  favor  de  um
programa ou outro, a discussão irá se referir apenas a CAQDAS de forma genérica e aos procedimentos
analíticos gerais para usar esse tipo de software.
A referência ao CAQDAS também pretende incluir o uso de programas menos especializados, porém
altamente  úteis  e  mais  comuns,  tais  como  Word,  Excel  e  Access.  Quase  todo  mundo  sabe  usar  esses
programas, e eles podem auxiliar em todo o processo de análise de dados qualitativos:
Usar ou não o CAQDAS ou um programa comum é outra questão. Pesquisadores mais velhos podem
ter se acostumado a suas próprias técnicas manuais para analisar dados qualitativos. Esses profissionais
experientes podem considerar a adoção de técnicas baseadas em computador incômoda e relativamente
restrita, pelas próprias limitações inevitáveis, se não rigidez, do software. Os  mais jovens  podem nunca
ter visto, muito menos usado, uma máquina de escrever. Elas podem estar acostumadas a usar programas
de  computador  para  uma  ampla  variedade  de  funções  diárias.  Esses  jovens  pesquisadores  podem
considerar os programas CAQDAS uma parte integrante, se não essencial, de sua pesquisa qualitativa.
Ao longo dos anos, os programas CAQDAS melhoraram significativamente. Sua funcionalidade imita
as  etapas  mais  importantes  na  realização  da  análise,  ainda  que  cada  nova  função  também  venha
acompanhada  de  procedimentos  e  regras  de  navegação  mais  complicadas.  No  entanto,  a  principal
advertência quanto à utilização de software continua valendo: você precisa fazer toda a reflexão analítica.
Você terá que instruir o software em cada etapa do caminho. Esta tarefa será uma carga extra, pois você
terá que usar a linguagem do programa e ao mesmo tempo ficar de olho em seu próprio caminho analítico
(substantivo).
Expectativas  possivelmente  inadequadas  e  exageradas  sobre  a  capacidade  do  software  CAQDAS
provêm do que a maioria das pessoas sabe sobre análise quantitativa assistida por computador. Naquela
situação,  as  rotinas  de  computador  geralmente  realizam  operações  matemáticas  complexas,  que  variam
desde  a  modelagem  de  equações  estruturais  (structural  equation  model)  até  a  testagem  de  modelos
hierárquicos  lineares  (hierarchical  linear  models)  de  dois  e  três  níveis,  e  testagem  de  modelos  de
crescimento latente (latent growth models). Nessas situações quantitativas, o analista fornece um conjunto
de dados de entrada, e o computador chega ao resultado. Entretanto, o analista não precisa conhecer as
fórmulas  subjacentes  às  operações  matemáticas,  muito  menos  como  deduzir  as  fórmulas.  (Uma  boa
aposta  seria  que  a  maioria  dos  analistas  quantitativos  não  sabe  como  deduzir  uma  fórmula  de  qhi­
quadrado, muito menos as utilizadas nos modelos mais complexos.)
O desafio apresentado pela análise qualitativa é que não existem tais fórmulas. Você enquanto analista
ainda precisa fornecer um conjunto de dados de entrada, geralmente em forma de texto, não de números.
Mais  importante,  você  não  pode  apelar  para  uma  fórmula  predefinida  como  na  pesquisa  quantitativa,
devendo  você  mesmo  desenvolver  todo  o  procedimento  substantivo  subjacente,  tal  como  classificar,
codificar,  combinar  e  recombinar  partes  do  texto.  Você  também  deve  dar  ao  computador  instruções
detalhadas para realizar o procedimento.
Posteriormente,  você  precisa  defender  a  lógica  e  a  validade  de  toda  a  operação.  Você  não  pode  se
esconder atrás de um enunciado como usado em pesquisa quantitativa, em que os investigadores podem
simplesmente  mencionar  que  usaram  uma  determinada  versão  de  um  modelo  estatístico  de  um
determinado  software.  Nesse  sentido,  as  potencialidades  do  computador  para  análises  quantitativa  e
qualitativa diferem acentuadamente.
Tendo compreendido isso, você pode cogitar a utilização de um programa CAQDAS, especialmente se
for  capaz  de  configurar  o  software,  e  especialmente  se  possuir  uma  grande  quantidade  de  dados.  Se
realmente fizer uso dos CAQDAS, não deve se basear totalmente na documentação que acompanha esses
programas, mas também ter ao lado um ou mais livros especiais sobre o tema (ver “Um guia útil para usar
o programa CAQDAS”, Quadro 8.1). Além disso, examinar tais textos antes de selecionar um programa
pode  ajudar  a  levar  em  consideração  os  diferentes  fatores  relacionados  ao  processo  de  seleção.  Por
exemplo,  os  programas  diferem  quanto  à  facilidade  de  uso,  bem  como  quanto  a  suas  vantagens.
Diferentes  pacotes  podem  ter  sua  preferência  conforme  suas  necessidades  estejam  mais  dirigidas  à
recuperação de texto, manejo de base de texto, codificação e recuperação, construção de teoria baseada
em código ou à construção de redes de contatos (p. ex., Weitzman, 1999, p. 1246­1248).

Um guia útil para usar o programa CAQDAS

software

B. COMPILAR UM CONJUNTO ORDENADO DE DADOS

O que você deve aprender nesta seção:

A primeira fase no ciclo analítico é um prelúdio essencial para a análise de quaisquer dados qualitativos.
A fase pode ser comparada à da criação de uma “base de dados” – termo que não costuma aparecer em
livros  didáticos  de  pesquisa  qualitativa.2 A  maioria  dos  livros  didáticos,  não  obstante,  parece  presumir
que os pesquisadores terão compilado suas notas de campo e outras notas e materiais comprobatórios de
alguma maneira ordenada.
A  importância  dessa  presunção  leva  à  necessidade  de  reconhecer  o  desejado  resultado  final  mais
formalmente.  Por  essa  razão,  a  sugestão  de  compilar  um  conjunto  ordenado  de  registros  ou  “base  de
dados” parece apropriada. O objetivo é organizar seus dados qualitativos de maneira ordenada antes de
iniciar a análise formal, mais ou menos como arrumar sua mesa e organizar seus arquivos antes de iniciar
uma tarefa. Dados mais organizados levarão a análises mais robustas e fundamentalmente a uma pesquisa
qualitativa mais rigorosa.
No  mínimo,  tal  organização  ajuda  os  pesquisadores  a  encontrar  e  acessar  suas  próprias  notas  e
materiais. Mais vantajosamente, ela ajuda na análise de dados. Embora nem todos usem um rótulo formal,
como  “base  de  dados”,  qualquer  pessoa  que  tenha  completado  um  estudo  de  pesquisa  qualitativa
provavelmente terá realizado algum tipo de esforço de organização e criado uma base de dados útil.
Uma vez organizados, e, portanto, compilados, os dados podem ser considerados sua base de dados. Os
modos úteis de organizar os dados são discutidos a seguir.

Semelhante à pesquisa quantitativa?


Em  pesquisa  quantitativa,  uma  base  de  dados  geralmente  consiste  em  um  arquivo  eletrônico  contendo
registros  distintos.  Cada  registro  tem  um  conjunto  de  campos  uniforme,  com  dados  inscritos  em  cada
campo.  Um  dicionário  de  dados  então  contém  a  definição  de  cada  campo  e  define  precisamente  suas
possíveis entradas. Antes que a base de dados possa ser usada, é preciso “limpar” e “verificar” os dados,
averiguando a lógica, coerência e precisão das entradas ou dados em cada registro.
A pesquisa qualitativa pode se basear em funções análogas e em procedimentos quase paralelos, quer a
base de dados qualitativos seja eletrônica quer não. Provavelmente a principal diferença, comparada com
a  análise  quantitativa,  é  que  dados  textuais  (em  vez  de  numéricos)  precisam  ser  ordenados  de  alguma
maneira sistemática. Na análise qualitativa, um glossário pode ajudar a definir a terminologia importante
encontrada no texto qualitativo, assegurando seu uso uniforme. O papel do glossário pode ser semelhante
ao uso de um “dicionário de dados” em análise quantitativa.
O  grau  de  formalidade  do  conjunto  de  dados  qualitativos  que  você  reuniu  depende  de  seu  estilo  de
trabalho e preferências pessoais. Você pode carregar seus dados em um conjunto eletrônico de registros,
agrupando­os  também  de  acordo  com  um  conjunto  significativo  de  arquivos.  Você  também  pode
armazenar  seus  dados  em  um  meio  não  eletrônico,  reorganizando­os  em  um  conjunto  de  fichas
catalográficas antiquadas. Mais importante do que sua formalidade ou formato é a atenção e cuidado com
que você compila os dados.

Relendo e reouvindo: “conhecendo” suas notas de campo


A primeira função cumprida pela fase de compilação é familiarizar­se com suas próprias notas de campo.
Você deve revisar constantemente suas notas e outros registros, como discutido no Capítulo 7. A releitura
deve fazê­lo recordar de suas observações e entrevistas de campo, bem como de sua leitura anterior de
documentos ou uso de outras fontes de evidência.
Na medida em que você gravou suas entrevistas em áudio, mas não as transcreveu, reouvi­las em vez
relê­las será a tarefa pertinente. Você vai querer verificar os registros repetidamente, para se familiarizar
com  os  dados  coletados.  Se  você  já  transcreveu  os  registros  ao  pé  da  letra,  você  vai  querer  reler  as
transcrições. (Se você ainda não transcreveu os registros, você pode querer considerar transcrever algum
trecho deles neste momento.)
Durante a revisão de suas notas e materiais de campo, entretanto, você não está mais fazendo trabalho
de  campo.  Você  pode,  portanto,  assimilar  as  informações  mais  ponderadamente  e  em  um  ritmo  mais
calculado. A  revisão  deve  ser  altamente  analítica  e  pode  levar  muito  tempo  (talvez  semanas  ou  meses,
dependendo  da  extensão  do  trabalho  de  campo  e  do  escopo  da  pesquisa). Você  deve  fazer  a  si  mesmo
perguntas como:

✓ Quais são as características distintivas de seu estudo?
✓ Como os dados coletados podem ser relacionados às questões de pesquisa originais?
✓ Surgiram conhecimentos potencialmente novos?
Questionamentos como esses e semelhantes devem marcar todo o processo analítico.

Colocando tudo em um formato consistente


Os  dados  ou  base  de  dados  organizados  irão  se  distinguir  de  suas  notas  anteriores,  porque  você  vai
começar  a  organizá­las  em  um  formato  consistente.  Para  isso  será  fundamental  que  você  atente  para
alguma  falta  de  uniformidade  nas  palavras  e  expressões  utilizadas.  Por  exemplo,  enquanto  revisa  suas
notas  e  considera  como  reorganizá­las  de  uma  maneira  mais  ordenada,  você  pode  constatar  que  usou  a
mesma  terminologia  de  duas  maneiras  inteiramente  diferentes,  se  não  contraditórias,  em  suas  notas,
porque  elas  cobriram  duas  entrevistas  ou  observações  de  campo  diferentes.  Esse  emprego  díspar,  até
incoerente, pode posteriormente criar problemas de análise e deve ser resolvido neste momento.
Ao  mesmo  tempo,  o  processo  deve  ser  feito  de  maneira  delicada.  Alguns  entrevistados  podem  ter
usado um determinado conjunto de palavras que possuem um significado importante, e essas palavras não
devem ser eliminadas apenas porque você está tentando estabelecer um vocabulário uniforme entre seus
dados. Escolher o que pode ser rerrotulado e o que não deve ser alterado será outra decisão a tomar. Criar
um glossário para não perder de vista suas deliberações será muito útil, quer você decida mudar algumas
palavras quer opte por preservar sua forma original.
Igualmente importante, colocar seus dados em um formato consistente também significa separá­los em
algum  conjunto  de  registros.  O  que  constitui  um  registro  variará  de  um  estudo  para  outro. A  unidade
apropriada  pode  ser  uma  fonte,  como  uma  entrevista  ou  um  documento. Assim,  se  um  estudo  teve  57
entrevistas  e  informações  de  13  documentos,  pode  haver  70  registros,  mesmo  que  tenham  sido  feitas
várias entrevistas com a mesma pessoa. Por outro lado, cada registro pode representar um dia diferente
em campo. Por fim, um registro pode refletir um dos focos de um estudo. Por exemplo, em um estudo
focado  nas  relações  interpessoais,  cada  registro  pode  representar  uma  interação  entre  duas  ou  mais
pessoas que fazem parte do estudo.
Para  pesquisadores  experientes,  o  registro  pode  ser  uma  categoria  conceitual  de  informações,  cada
categoria compilando as informações de notas de campo. Neste caso, o pesquisador corre o risco de criar
registros  que  não  representam  corretamente  ou  plenamente  todas  as  notas  de  campo,  mas  as  categorias
conceituais podem ter rapidamente levado o pesquisador à terceira fase de (recomposição e ordenação) de
uma análise.
O conteúdo dos dados também não deve ser limitado a informações textuais ou narrativas. Suas notas
anteriores podem ter incluído tabelas, gráficos ou outros materiais visuais, e estes também precisam ser
organizados e tornar­se parte da base de dados. Se sua pesquisa envolveu videoteipes, a mesma atenção
precisa ser dada à criação de gravações editadas que sigam alguma forma consistente (Erickson, 2006).

Usando para compilar seus registros


O uso de software especializado (CAQDAS) ou de programas comuns, mencionados anteriormente, pode
ajudar  nesta  etapa.  A  maioria  dos  diferentes  tipos  de  programas  é  organizada  em  torno  de  registros
separados de algum tipo. Cada registro pode se tornar um arquivo ou “caso” separado. Alguns programas
CAQDAS  também  aceitam  materiais  em  formato  não  narrativo,  incluindo  videoteipes,  como  registros
que serão parte integrante de sua base de dados.
O  software  vai  ajudar  a  compilar  os  dados  de  maneira  mais  formal.  Por  exemplo,  se  você  criar  um
arquivo  diferente  para  cada  registro,  o  programa  exigirá  um  nome,  uma  data  e  outros  possíveis
identificadores para cada arquivo. O software também reforçará a utilização de um glossário para garantir
o uso uniforme de sua terminologia, lembrará você de marcar seus dados com identificadores específicos
atribuídos às diferentes pessoas em suas entrevistas, e permitirá que você adicione novas notas ou marcas
eletrônicas, tais como as que talvez façam parte dos seus próprios memorandos, a cada registro.
Decidir ou não usar algum software CAQDAS como auxílio na criação de uma base de dados formal
depende  mais  uma  vez  de  sua  preferência  pessoal.  Se  você  for  usar  software  como  auxílio  na  fase  de
decomposição descrita a seguir, você terá de qualquer forma que organizar seus dados nestes registros.
Você também pode considerar usar o soft ware de uma maneira limitada, como auxílio apenas na fase
de compilação. Reconhecendo o tempo necessário para aprender a usar o programa, você deve proceder
de  forma  cautelosa  antes  de  adotar  esta  aplicação  mais  limitada  do  programa,  também  comparando  o
processo com o uso de outras ferramentas de software mais comumente utilizadas.
Quer você esteja usando formatos eletrônicos quer não eletrônicos, leve em conta que a compilação de
suas notas em um conjunto de dados organizados será um procedimento difícil e demorado. Lembre­se de
que,  no  processo,  você  estará  adquirindo  completa  familiaridade  com  seus  dados  originais,  o  que  é
essencial para realizar uma pesquisa qualitativa aceitável. Em geral, os dados recém­compilados devem
conservar os detalhes originais de suas notas anteriores o máximo possível. Assim, esteja ciente de que a
criação  da  necessária  base  de  dados  irá  requerer  muito  esforço  e  paciência  de  sua  parte,  sem  falar  do
cuidado com o qual você fará este trabalho.
De  maneira  geral,  a  criação  de  uma  base  de  dados  será  uma  das  partes  mais  importantes  de  sua
pesquisa.  Consequentemente,  você  deve  estabelecer  altos  padrões  de  rigor  e  detalhamento  e  evitar  a
tomada  de  atalhos.  O  controle  de  seus  procedimentos  como  parte  de  seu  diário  pessoal  também  é
desejável.

C. DECOMPONDO OS DADOS

O que você deve aprender nesta seção:

Supondo que você já organizou adequadamente seus dados, você está pronto para iniciar a segunda fase
no  ciclo  de  cinco  fases,  que  exige  decomposição.3  Lembre­se  novamente  de  que  as  fases  podem  ser
recursivas,  o  que  significa  que  enquanto  você  está  em  uma  fase,  pode  retornar  ou  avançar  ao  mesmo
tempo – retornar para alterar alguma coisa feita em uma fase anterior, e avançar prevendo ou trazendo à
tona uma ideia para uma fase que está por vir.

Redigindo os memorandos
Da  mesma  forma,  considere  que  a  fase  de  decomposição  pode  conter  etapas  iterativas.  Você  irá
constantemente  ir  e  vir  entre  suas  ideias  iniciais  sobre  como  decompor  os  dados  e  os  dados  reais,
potencialmente  levando  a  modificações  de  suas  ideias  iniciais.  Esses  tipos  de  pensamentos  devem  ser
registrados  como  parte  de  uma  série  de  memorandos  mantidos  durante  toda  a  sua  análise.  Bons
memorandos podem preservar o que a princípio pareciam ideias “mal cozidas” que posteriormente podem
se tornar valiosas, bem como reduzir a frustração de não ter certeza se você já tinha considerado e depois
rejeitado uma ideia. A maioria dos pesquisadores experientes na realização de análise qualitativa diria que
essa  redação  de  memorandos  é  imperativa.  Nas  palavras  de  um  deles,  “sempre  que  qualquer  coisa
relacionada e significativa sobre a codificação ou análise dos dados vem à mente, para o que você está
fazendo e escreva um memorando sobre ela imediatamente (Saldaña, 2009, p. 33, ênfase original).

Codificar ou não codificar


Você pode decompor seus dados de muitas formas. Algumas delas são discutidas aqui, mas você também
pode criar seu processo de decomposição porque não existe uma rotina fixa.4
Os diversos métodos, incluindo todas as versões criadas em casa, irão se reduzir a uma escolha crucial:
codificar parcelas do texto – ou seja, atribuindo novos rótulos ou códigos a palavras, expressões ou outros
blocos de dados em uma base de dados – ou não. Os partidários da abordagem da teoria fundamentada à
pesquisa qualitativa estiveram na vanguarda da descrição de como tal codificação poderia funcionar (ver
“Orientação  para  codificar  dados  qualitativos”,  Quadro  8.2).  Entretanto,  decidir  se  você  deve  codificar
(ou  não)  não  é  bem  uma  proposição  “mutuamente  excludente”.  Você  pode  codificar  seus  dados  para
alguns  temas  em  seu  estudo,  mas  não  outros,  e  você  pode  usar  ambas  as  abordagens.  Cada  escolha  é
discutida a seguir.

Orientação para codificar dados qualitativos

codificação aberta

codificação axial
codificação seletiva

codificação processual

codificação aberta codificação axial codificação seletiva codificação


processual

Codificando dados
Na maior parte da pesquisa qualitativa, o texto original em um conjunto de notas de campo e, portanto,
em  sua  base  de  dados  organizada  consistirá  de  itens  específicos,  tais  como  ações  e  eventos  de  campo,
objetos  e  opiniões  específicas,  explicações  e  outras  visões  expressadas  por  entrevistados. Associados  a
esses  itens  haverá  detalhes  altamente  contextualizados,  tais  como  a  hora  do  dia,  o  lugar  e  as  pessoas
envolvidas em cada item. Cada item será, portanto, único.
O propósito de tentar codificar esses itens é começar a passar metodicamente para um nível conceitual
um pouco mais alto. A singularidade das ações de campo originais não deve ser ignorada, mas itens que
parecem essencialmente semelhantes receberão o mesmo código. O nível conceitual mais alto permitirá
posteriormente que você classifique os itens dos diferentes registros de modos diferentes, tais como em
grupos  semelhantes  e  dessemelhantes.  Uma  vez  classificadas,  as  características  relacionadas  desses
grupos podem ser examinadas e melhor compreendidas.
A natureza dos códigos iniciais, que podem ser chamados de códigos de Nível 1 ou códigos abertos (p.
ex.,  Hahn,  2008,  p.  6­8),  pode  variar.  Esses  códigos  podem  ater­se  estreitamente  aos  itens  originais,
inclusive reutilizando as palavras exatas do item original, às vezes chamados de códigos in vivo (p. ex.,
Saldaña, 2009, p. 3). À medida que você for avançando nesse primeiro nível de codificação, você pode
começar a pensar de que modo os códigos de Nível 1 se relacionam entre si, e seu próximo objetivo é
passar progressivamente para um nível conceitual ainda mais alto, reconhecendo as categorias nas quais
os códigos de Nível 1 possam se enquadrar. Assim, a codificação prossegue para um segundo conjunto de
códigos, de nível superior, que pode ser chamado de códigos de Nível 2 ou de categoria.

O problema da colaboração no dever de casa, I
A  Tabela  8.1  ilustra  esses  dois  primeiros  níveis  de  uma  maneira  supersimplificada.  As  amostras  de  texto  são
oriundas  de  um  conjunto  hipotético  de  notas  de  um  pesquisador  de  campo.  O  estudo  envolveu  observações
domésticas  e  entrevistas  com  a  família  de  uma  estudante  que  estava  tendo  dificuldade  para  conseguir  que  sua
mãe a ajudasse a fazer os deveres de casa (essa ajuda fazia parte do programa de ensino promovido pela escola
da estudante).
A  primeira  coluna  na  Tabela  8.1  mostra  o  texto  original,  a  segunda  coluna,  o  código  de  Nível  1  atribuído  a  cada
trecho do texto, e a terceira coluna, os códigos de Nível 2 que foram então atribuídos.
Presumindo  que  estas  amostras  de  texto  eram  os  únicos  dados  disponíveis  neste  exemplo  supersimplificado,  o
processo  de  decomposição  produziu  quatro  categorias  de  Nível  2:  “barreiras”,  “expectativas  positivas”,
“conhecimento materno relevante” e “apoio externo adicional”.
(Reunir  essas  categorias  tornar­se­ia  então  a  tarefa  da  fase  seguinte  de  Recomposição  dos  dados.  Mas
primeiramente vamos passar para a outra opção de Decomposição.)
(continua)

Decompondo dados sem codificá-los


Especialmente dado o caráter supersimplificado do exemplo do dever de casa, você também poderia ter
decomposto os dados sem codificá­los. O processo pode ser mais arbitrário e menos rotineiro, mas nas
mãos de um pesquisador experiente, ele tem o benefício potencial de ser mais ponderado e interessante.
Isso porque as rotinas de codificação podem produzir suas próprias distrações – por exemplo, tendo que
atentar para a mecânica do processo de codificação, em vez de se empenhar em refletir sobre os dados.
Sem  a  codificação  dos  dados,  contudo,  o  processo  pode  levar  a  julgamentos  não  sistemáticos  e
inconsistentes.  Portanto,  um  pesquisador  que  opta  por  não  codificar  os  dados  precisa  tomar  precauções
relacionadas à manutenção de um procedimento analítico rigoroso, incluindo as três precauções descritas
no início deste capítulo.
Se você não codificar seus dados, seu processo de decomposição provavelmente envolverá identificar
texto  da  base  de  dados  original  e  criar  um  novo  conjunto  de  notas  substantivas  (não  metodológicas).
Nessas  novas  notas  substantivas,  você  irá  essencialmente  tomar  notas  sobre  seus  dados  originais,  mas
suas novas notas podem abranger os dados em alguma ordem diferente ou segundo diferentes conceitos e
ideias. Você poderia colocar essas novas notas em fichas catalográficas ou em folhas separadas de papel
digitadas,  para  facilitar  sua  capacidade  de  testar  diferentes  arranjos  –  parte  da  próxima  fase  de
recomposição.
Criar notas substantivas úteis e proveitosas não será um processo necessariamente eficiente. Você pode
inicialmente redigir algumas notas só para depois descobrir que elas não fornecem pistas suficientes sobre
o que fazer com os dados. Por exemplo, pode começar com um novo tema, extrair itens relevantes das
notas originais e depois descobrir que os itens não se encaixam bem no novo tema. Pode então modificar
o tema. Retornando a sua base de dados com o tema modificado em mente, pode descobrir à seleção de
itens adicionais a serem extraídos. Pode posteriormente descobrir que mesmo o tema modificado no fim
não  foi  muito  útil  e  iniciar  todo  o  processo  novamente.  De  maneira  geral,  pode  haver  dias  de  grande
incerteza que você vai ter que aprender a tolerar.
Apesar  da  incerteza,  muitos  pesquisadores  preferem  decompor  seus  dados  sem  codificação  formal,
porque  ideias  criativas  parecem  se  movimentar  mais  rápido  e  melhor.  Para  superar  as  inevitáveis
armadilhas  da  inconsistência  e  imprecisão  que  podem  ocorrer,  os  pesquisadores  retornam  a  seus  dados
originais  muitas  vezes  e  asseguram  que  seus  temas  decompostos  sejam  tão  fiéis  aos  dados  originais
quanto possível.

Usando programas de computador como auxílio na decomposição de dados


Software  CAQDAS  ou  de  outros  tipos  podem  definitivamente  ajudar  no  processo  de  decomposição,
especialmente se sua base de dados é grande e justifica codificação formal. Depois de atribuir códigos ao
texto, o programa oferece muitas vantagens na verificação e reverificação dos materiais codificados, em
sua recuperação e manipulação e em sua posterior atribuição ao nível seguinte de códigos de categoria.
Quando você usa software como auxílio no processo de codificação, esteja preparado para as rotinas do
software exigindo sua própria atenção. Você provavelmente terá que aprender a terminologia adicional do
programa e se preocupar com a realização correta de suas rotinas. Tal atenção tem o custo potencial de
diminuir o tempo disponível para pensar sobre padrões e temas substantivos em seus dados. Essas últimas
reflexões constituem o início da terceira e quarta fases do ciclo analítico, e por ter sua atenção desviada
para as operações do software, você corre o risco de perder de vista algumas das reflexões iniciais que
podem se revelar valiosas.
Lembre­se  também  de  que  o  software  não  faz  a  codificação.  Você,  sim.  O  software  então  registra
convenientemente seus códigos e itens codificados, tornando sua posterior recuperação muito mais fácil
do que se você tivesse trabalhado apenas manualmente. A eficiência de fazer essas revisões assim como
da  posterior  recuperação  e  adicional  manipulação  analítica  dos  itens  codificados  é  uma  vantagem
importante do software, especialmente quando você tem uma grande base de dados.

D. RECOMPONDO DADOS

O que você deve aprender nesta seção?

software
Procurando padrões
Durante  a  fase  de  decomposição  (i.e.,  ou  quando  estiver  codificando  e  classificando  suas  notas
substantivas ou quando estiver apenas revisando­as sem codificação formal), você pode se conscientizar
de padrões potencialmente mais amplos nos dados. A meticulosidade do processo de decomposição não
deve  tê­lo  impedido  de  pensar  sobre  o  significado  mais  amplo  dos  dados  –  por  exemplo,  como  eles
poderiam informar as questões originais do estudo ou fazer algumas revelações importantes no tema de
estudo original. Observar tais padrões é o início da terceira fase no ciclo de análise, a de recomposição
dos dados.
Se você continuar usando um processo de codificação formal, a recomposição consistirá em levar seus
códigos  de  Nível  1  e  Nível  2  para  um  plano  conceitual  ainda  mais  alto,  no  qual  temas,  ou  mesmo
conceitos teóricos, comecem a emergir e possam ser considerados códigos de Nível 3 e Nível 4 (p. ex.,
Hahn, 2008, p. 6­8).
Quer esteja seguindo a opção de codificar quer a de não codificar, durante o processo de recomposição
você  deve  constantemente  interrogar  a  si  mesmo  (e  questionar  seus  dados).  O  processo  de
questionamento é inerente ao processo de análise. Talvez mais importante do que as respostas específicas
aos questionamentos seja que você está preventivamente filtrando e classificando suas ideias, buscando
padrões.  Questões  típicas  poderiam  ser:  Os  padrões  fazem  sentido?  Eles  estão  levando  a  um  plano
significativamente  importante?  Como  os  padrões  se  relacionam  aos  conceitos  e  hipóteses  aventadas  no
início  de  seu  estudo?  Os  padrões  (desejavelmente)  tornam­se  mais  complicados  ou  expansivos  quando
você analisa itens adicionais de sua base de dados (p. ex., Nespor, 2006, p. 298­302)?

Usando arranjos para ajudar a recompor os dados


O  processo  de  recomposição  pode  envolver  “jogar  com  os  dados”,  o  que  significa  considerá­los  em
diferentes arranjos e temas e depois alterar e realterar os arranjos e temas até que surja alguma coisa que
pareça satisfatória. Por exemplo, com software CAQDAS, você pode usar lógica booleana para examinar
diferentes  combinações  de  códigos.  Por  outro  lado,  se  seu  novo  conjunto  de  notas  substantivas  foi
registrado  manualmente  em  fichas  catalográficas,  você  pode  manipular  as  fichas  em  diferentes
combinações. As manipulações podem seguir um ou mais dos seguintes padrões (Nespor, 2006, p. 298­
302):  acompanhar  como  o  mesmo  indivíduo  é  representado  em  diferentes  momentos  e  lugares;
examinando  a  estrutura  de  ações  em  termos  das  pessoas,  coisas  ou  ideias  envolvidas;  ou  comparando
alguns padrões com os encontrados por outros.
Além de usar suas próprias intuições (ou na ausência de intuições), um modo específico de “jogar com
os  dados”  é  arranjá­los  de  uma  maneira  organizada,  como  nos  seguintes  três  exemplos,  discutidos  nas
próximas seções:

✓ Criando arranjos hierárquicos.
✓ Delineando matrizes como arranjos.
✓ Trabalhando com outros tipos de arranjos.

Criando arranjos hierárquicos


Uma maneira comum é construir hierarquias, com o item mais concreto da base de dados em um extremo
da hierarquia, um conceito mais abstrato representando os itens concretos em um nível superior, e assim
por diante. Na maioria das vezes, cada nível da hierarquia ajuda a reunir um grupo mais amplo de itens
semelhantes no nível inferior seguinte. Recompondo os dados para que dados semelhantes se enquadrem
em  conceitos  semelhantes  e  dados  dessemelhantes  se  enquadrem  em  conceitos  diferentes,  a  hierarquia
pode  apontar  para  grupamentos  diferentes  (i.e.,  possíveis  “classes”  ou  “tipologias”  de  coisas).  A
hierarquia  também  pode  sugerir  associações  entre  grupamentos  (i.e.,  as  relações  entre  as  “classes”  ou
“tipologias”). Para a opção de codificação, a hierarquia pode simplesmente ser vista como uma ordenação
dos  códigos  e  conceitos  do  Nível  1  para  o  Nível  4;  para  a  opção  de  não  codificação,  uma  hierarquia
semelhante pode ser desenvolvida – provavelmente de uma forma mais conceitual do que literal – a partir
do novo conjunto de notas substantivas tomadas durante a fase de decomposição.
Dessa forma, você pode criar mais do que uma única hierarquia. Uma ou mais delas pode então tornar­
se a base para estruturar os dados para organizar todo o seu estudo, com a análise resultante focada nos
grupamentos  e  suas  relações.  Detalhes  adicionais  poderiam  então  ser  adicionados  em  cada  nível  da
hierarquia, para garantir que seu posterior relato contenha uma representação dos dados originais tão rica
quanto se deseja.

(continuação)
O problema da colaboração no dever de casa, II
Retornando agora ao exemplo ilustrativo do dever de casa da estudante, os temas emergentes de Nível 3 (do uso
das  opções  de  codificação  ou  de  não  codificação)  poderiam  ter  sido  os  mesmos:  para  melhorar  a  desejada
colaboração  da  mãe  da  estudante,  a  família  precisava  resolver  as  barreiras  originais  porque  as  expectativas,  os
conhecimentos da mãe e as condições lar­escola pareciam ser todos favoráveis. Esse tema emergente se coaduna
bem com a literatura educacional que sugere que os pais com frequência estão ocupados demais para ajudar seus
filhos  na  realização  dos  deveres  de  casa  –  muitas  vezes  por  trabalharem  em  tempo  integral  ou  precisarem  cuidar
de outras crianças ou entes queridos em casa.
Para  avançar  mais  um  passo  hipotético,  e  sob  as  opções  de  codificação  ou  não  codificação,  o  pesquisador  de
campo  neste  exemplo  não  estava  plenamente  convencido  desta  recomposição.  Outras  pendências  haviam  se
revelado  –  em  especial,  uma  aparente  disposição  da  mãe  de  permitir  ser  interrompida  (ver  item  3, Tabela  8.1),  a
despeito de estar familiarizada com os conceitos no dever de casa (item 7, Tabela 8.1).
O  ceticismo  fez  o  pesquisador  rever  dados  contextuais  que  tinham  sido  coletados,  mas  não  tinham  feito  parte  da
opção  original  de  codificação  ou  de  não  codificação.  Os  dados  revelaram  que  o  estudo  tinha  acontecido  em  uma
comunidade com uma economia e população em declínio há décadas.
Embora tais informações contextuais originalmente não tivessem parecido relevantes, o pesquisador recordou que
os  adultos  na  comunidade  estavam  preocupados  com  a  possibilidade  de  os  filhos  saírem  da  comunidade  para
iniciarem novas vidas fora dela. Isso levou à especulação de que a mãe não estava ocupada demais ou distraída
para  ajudar  nos  deveres  de  casa,  mas  na  verdade  podia  temer  que  o  destaque  da  filha  na  escola  aumentaria  as
chances  de  ela  posteriormente  sair  da  comunidade  –  um  tema  assinalado  com  menos  frequência  na  literatura
educacional. A possibilidade deste tema mais amplo tornou­se, então, objeto de uma investigação de seguimento
pelo pesquisador.

Exemplos de codificação em nível 1 e nível 2

Código de categoria (Nível


Palavras ilustrativas das notas de campo originais Código inicial (Nível 1) 2)

1. “Samanta trazia tema para casa, mas ela nem
sempre tinha a tarefa certa.”

2. “Toda vez que Samanta pedia à mãe ajuda para
fazer os temas, sua mãe geralmente estava
ocupada.”

3. “Quando estava disponível, sua mãe
frequentemente permitia ser interrompida e não
voltar ao trabalho com Samanta.”

4. “A Professora de Samanta relatou que ela parecia
ser excepcionalmente talentosa, e a professora não
ser excepcionalmente talentosa, e a professora não
entendia por que as tarefas do dever de casa eram
um problema.”

5. “Samanta demonstrou gostar de fazer os deveres
de casa e aguardava ansiosamente pelas tarefas.”

6. “A mãe de Samanta também achava que Samanta
era suficientemente habilidosa para desempenhar
bem na escola.”

7. “A mãe de Samanta parecia estar familiarizada
com os conceitos abordados nos deveres de casa.”

8. “A mãe de Samanta teve ao menos um encontro
produtivo com a professora e nenhuma outra
interação aparentemente negativa.”

Igualmente pertinente para o presente capítulo, observe que o ceticismo do pesquisador no problema da
colaboração no dever de casa foi o atributo importante, independentemente de as fases de decomposição
ou  recomposição  terem  envolvido  codificação  formal  ou  não.  Assim,  e  para  repetir  advertências
anteriores,  o  pesquisador  e  não  qualquer  rotina  de  computador,  encarrega­se  de  fazer  todo  o  trabalho
analítico.

Delineando matrizes como arranjos


Um segundo modo de organizar os dados toma a forma de algum tipo de matriz (ver “Criar matrizes para
recompor dados qualitativos”, Quadro 8.3). A matriz mais simples é essencialmente uma tabela de filas e
colunas. As filas representam uma dimensão e as colunas representam outra.

Criando matrizes para recompor dados qualitativos

Se  você  não  tem  ao  menos  duas  dimensões  que  são  de  interesse  imediato,  você  pode  começar  com
algumas das dimensões mais comuns que provavelmente se aplicam a quase todo estudo qualitativo. Por
exemplo,  dados  qualitativos  geralmente  capturam  ações  e  eventos  que  ocorrem  durante  um  período  de
tempo. Uma dimensão pode, portanto, ser cronológica, cada fila representando um período cronológico
diferente.  Você  pode  ter  estudado  várias  pessoas  individualmente  e  suas  experiências  ou  situações  no
decorrer  do  tempo,  e  as  experiências  ou  situações  para  cada  pessoa  podem  aparecer  em  uma  coluna
separada. A matriz resultante então pede que você coloque os itens pertinentes de seus dados originais em
cada  célula,  indicando  a  experiência  ou  situação  específica  de  cada  indivíduo  em  cada  período
cronológico.
Por outro lado, você pode ter estudado vários grupos, organizações, ou bairros no decorrer do tempo.
Você  pode  recompor  todos  os  seus  dados  de  acordo  com  essas  situações  e  posteriormente  desenvolver
uma narrativa completa sobre cada um (ver “Estudando mudanças em bairros”, Quadro 8.4). Para dar os
primeiros  passos  neste  processo,  uma  matriz  cronológica  permitiria  que  você  buscasse  padrões  de
mudança. Por exemplo, em um estudo de 30 escolas, 15 haviam adotado algum tipo de novo currículo ou
prática de ensino com apoio federal, ao passo que as outras 15 não tinham recebido nenhuma concessão.
Os  padrões  cronológicos  foram  colocados  em  uma  matriz  de  múltiplas  páginas  de  todas  as  30  escolas,
para comparar os dois grupos (ver Quadro 8.3 para um exemplo, mostrando cinco das 30 escolas).

Estudando mudanças em bairros

Exit, Voice, and Loyalty

Ver também Quadro 5.8.

Além de terem filas e colunas, todas as matrizes também têm outro componente – suas células. Para
recompor  os  dados,  o  objetivo  é  colocar  alguns  dados  em  cada  célula  (inclusive  observar  quando  não
existem  dados  para  aquela  célula).  Uma  matriz  concluída  então  permite  que  você  examine  seus  dados
reais entre as filas e colunas.
A  quantidade  e  a  natureza  dos  dados  que  você  coloca  em  cada  célula  podem  ajudar  ou  atrapalhar  o
processo de varredura. Primeiro, as entradas devem ser seus dados reais, quer representados diretamente
ou por códigos atribuídos no processo de decomposição.
Segundo, e especialmente quando não se usam códigos, a transferência dos dados para as células pode
tornar  as  células  muito  grandes  ou  abarrotadas.  A  matriz  pode  tornar­se  muito  grande  e  volumosa,
tornando mais lenta a desejada varredura por convertê­la em um processo fragmentado e desconexo em
vez de desimpedido. Nessa situação, você pode ter que fazer alguma criteriosa abreviação, de modo que
somente a essência dos dados apareça em cada célula. Contudo, a versão abreviada deve ter uma nota de
rodapé que remeta aos dados originais em sua base de dados, permitindo que você reveja a relação entre
as  versões  abreviadas  e  originais  dos  dados.  Você  deve  rever  a  relação  com  frequência  suficiente  para
assegurar que a versão abreviada representa fielmente a original.
Terceiro,  o  conteúdo  das  células  não  deve  conter  suas  próprias  opiniões  ou  conclusões.  A  matriz
desejada  deve  ser  uma  matriz  de  dados,  que  permita  que  você  examine  seus  dados  e  somente  então
comece a tirar conclusões (observe o conteúdo das células na Tabela 8.2). Em outras palavras, nesta etapa
de  sua  análise,  o  principal  objetivo  é  recompor  seus  dados,  e  a  matriz  desejada  deve  ser  considerada
apenas como uma forma de documentação, não um meio para se comunicar com seus posteriores leitores.
Como  acontece  com  outros  tipos  de  documentação,  a  matriz  desejada  pode  então  reaparecer,  se  for  o
caso,  em  um  apêndice  do  relato.  (A  partir  dessa  documentação,  e  para  o  corpo  do  texto  de  seu  estudo,
você  pode  posteriormente  criar  tabelas,  gráficos  e  outros  elementos  de  apresentação  de  dados  mais
simplificados e atrativos [ver Cap. 10, item B].)

Matriz cronológica ilustrativa

Escola A Escola U (educação Escola Q (educação Escola G (educação Escola K


(7º ao 9º ano) infantil ao 6º ano) infantil ao 6º ano) infantil ao 9º ano) (ensino médio)

Quatro Blocos de
Alfabetização

Grupos de
Alfabetização

Recuperação da Leitura

Quatro Blocos de
Alfabetização

Pontos de Inflexão
(PI)
Comunidades de
Escolas Aprendizagem
Focadas na Urbana )
Aprendizagem (EFA) conectar (Jan.);

CAU

PI

EFA

Quadra Aberta

conectar

Quadra Aberta

Fonte:

Em  suma,  matrizes,  como  hierarquias,  são  uma  forma  central  de  análise  qualitativa.5  Os  dados
decompostos  foram  agora  recompostos  de  uma  maneira  ordenada  e  conceitualmente  significativa. Você
pode constatar que uma ou mais de suas matrizes gerou temas conceituais mais amplos relacionados a seu
estudo. Por sua vez, esses temas mais amplos começam a formar a base para interpretar e depois compor
a narrativa para todo o seu estudo. Por outro lado, uma de suas matrizes pode ela mesma servir como toda
a base empírica para a narrativa.

Trabalhando com outros tipos de arranjos


Hierarquias  e  matrizes  são  apenas  duas  formas  de  organizar  seus  dados. A  literatura  metodológica  tem
muitos  outros  arranjos  ilustrativos,  os  quais  incluem  o  uso  de  recursos  mais  visuais,  tais  como
fluxogramas e modelos lógicos (p. ex., Yin, 2009, pp. 149­156), organogramas, mapas conceituais (p. ex.,
Kane & Trochim, 2007) e diagramas de modo geral.
Arranjos  mais  complexos  também  não  precisam  ser  bidimensionais.  Você  pode  prontamente
conceitualizar como uma terceira dimensão poderia ser adicionada a uma matriz bidimensional, embora
representar  graficamente  as  três  dimensões  possa  ser  mais  difícil.  Mais  difíceis  de  imaginar  seriam
dimensões adicionais, mas o único limite é sua imaginação e a relevância de tais dimensões múltiplas aos
objetivos de seu estudo.
Resumindo o processo de ordenação dos dados
A formalidade de perseguir o processo de ordenação varia de acordo com o estilo e preferências de um
pesquisador.  Não  existe  uma  maneira  única  correta  ou  um  conjunto  recomendado  de  arranjos. Alguns
pesquisadores podem até pular a necessidade de ordenar seus dados e passar para a quarta fase do ciclo
analítico  como  posteriormente  coberto  no  Capítulo  9  (item  A),  a  fase  de  interpretação.  Outros
pesquisadores podem ser capazes de conceitualizar os arranjos relevantes criando mais um novo conjunto
de  notas  substantivas  ou  expandindo  suas  notas  anteriores,  mas  sem  dedicar  tempo  para  a  construção
formal de arranjos.
Outros pesquisadores trabalham melhor quando esquematizam as diversas possibilidades em arranjos
formalmente  construídos.  Caso  o  façam  manualmente  e  coloquem  seus  arranjos  em  grandes  fontes  de
papel, os arranjos podem preencher uma grande parte do espaço no piso ou parede, conforme as folhas de
papel sejam penduradas na parede ou se espalhem pelo chão.

Procedimentos importantes durante o processo de recomposição


O processo de recomposição inevitavelmente envolve um número cada vez maior de escolhas arbitrárias.
Cada escolha – por exemplo, sobre o que recuperar da base de dados, além de como construir relações
hierárquicas e delinear matrizes – envolve julgamentos do pesquisador. Sua análise emergente é, portanto,
vulnerável  a  vieses  desconhecidos. Você  precisa  tomar  muitas  precauções  para  minimizar  ou  ao  menos
revelar tais vieses, e três procedimentos podem ajudar: fazer comparações constantes, atentar para casos
negativos e praticar pensamento rival.
Como  um  comentário  preliminar,  observe  que  a  sugestão  de  realizar  esses  três  procedimentos,  tais
como pensamento rivais, não significa mais uma vez que você assumiu uma orientação positivista (p. ex.,
Eisenhart, 2006; Rex et al., 2006). Você pode ter exercitado uma visão Interpretativista, e não positivista
(ou alguma outra perspectiva), durante sua pesquisa. Em caso afirmativo, seu uso dos três procedimentos
pode adotar a mesma visão – isto é, como comparações, casos negativos e rivais podem ser conjeturados,
dadas as suas lentes particulares de pesquisa.
O primeiro procedimento é fazer comparações constantes – por exemplo, atentar para semelhanças e
dessemelhanças entre os itens em seus dados – e questionar por que você pode ter considerado os itens
como sendo semelhantes ou dessemelhantes na recomposição de seus dados:

recomposição

O  segundo  procedimento  é  atentar  para  instâncias  negativas  –  por  exemplo,  revelar  itens  que
superficialmente  podiam  ter  parecido  semelhantes,  mas  em  uma  análise  mais  minuciosa  revelaram­se
incongruentes. Os casos negativos podem assim desafiar a robustez do código ou rótulo:
O  terceiro  procedimento  é  praticar  constantemente  o  pensamento  rival  –  por  exemplo,  buscar
explicações alternativas para suas observações iniciais:

recomposição

explicações rivais

Em  resumo,  uma  vez  que  o  processo  de  recomposição  continua  sendo  um  processo  intensamente
analítico,  você  deve  evitar  qualquer  abordagem  exclusivamente  mecanicista.  Você  pode  aumentar  a
precisão e solidez de seu trabalho dando plena atenção a comparações constantes, a casos negativos ou
contrários, e ao pensamento rival.

Usando programas de computador como auxílio na recomposição dos dados


Programas de computador podem ser de grande auxílio ao testar­se diferentes maneiras de recompor os
dados. Por exemplo, construir hierarquias é inerente a quase todo tipo de CAQDAS. Um benefício extra é
que  o  software  pode  então  apresentar  a  hierarquia  resultante  graficamente.  Parte  do  software  também
pode recompor e apresentar os dados de acordo com outros tipos de arranjos, inclusive matrizes e mapas
conceituais.
Existe  uma  importante  advertência  no  uso  de  CAQDAS  para  criar  arranjos  em  algumas  situações  e
com alguns programas específicos: se você não sabe de antemão que tipo de arranjo vai querer, você pode
ter que revisar seus códigos ou categorias originais ao encontrar um arranjo que seja do seu interesse. Por
exemplo, as categorias usadas para construir uma hierarquia podem não ser exatamente os mesmos tipos
de categorias necessárias para construir matrizes.
O software pode também não ser capaz de ajudar no desenvolvimento de arranjos mais criativos. Nessa
situação,  você  pode  considerar  uma  combinação  de  operações  manuais  e  com  o  uso  de  computador.  O
principal  objetivo  é  ter  a  flexibilidade  de  pensar  analiticamente  –  isto  é,  pensar  de  maneira
anticonvencional e não se limitar a fazer o que o software pré­programado se limita a fazer.
Outra  advertência  geral,  mas  essencial  no  uso  de  CAQDAS,  é  rejeitar  sua  utilização  para  contar  a
frequência  de  ocorrência  de  palavras  como  principal  estratégia  de  recomposição,  exceto  possivelmente
para três situações:

1. Seu  estudo  tinha  especificamente  conjeturado  certa  frequência  como  parte  de  suas  questões  de
pesquisa originais (mas tal questão não seria uma questão qualitativa muito interessante).
2. Itens de levantamento abertos como parte de seu estudo qualitativo mais amplo (não apenas como
parte de um estudo de levantamento) foram especificamente delineados para serem codificados e
contados, como ao tentar estabelecer a frequência de diferentes tipos de razões ou explicações que
os  entrevistados  deram  para  uma  questão  fechada  anterior  (p.  ex.,  a  sequência  em  uma  pesquisa
representada por uma “Em quem você votou?” fechada, seguida por uma “Por quê?” aberta); ou
3. A frequência do emprego de palavras foi considerada uma parte importante de um estudo de análise
de conteúdo (p. ex., Grbich, 2007).

Apesar dessas três situações, recompor os dados contando frequências não é uma estratégia analítica
que  resultará  em  uma  pesquisa  qualitativa  especialmente  reveladora.  Contudo,  o  perigo  é  grande,  tanto
por causa de uma inclinação a pensar a pesquisa como uma atividade de “contagem”, quanto porque os
programas  de  computador  farão  tal  contagem  com  facilidade.  Você  corre  o  risco  de  decepcionar
grandemente  sua  audiência  qualitativa  seguindo  tal  caminho  (e  talvez  você  não  tenha  demonstrado  seu
domínio sobre pesquisa qualitativa desta maneira)
Colocado de outra forma, o principal desafio ao utilizar CAQDAS com êxito seria sua habilidade de
levar uma orientação qualitativa para a tarefa, ainda que a inclinação natural de um computador possa ser
envolvê­lo  na  contagem  como  uma  estratégia  convencional,  mas  quantitativa.  O  desafio  pode  ser
equiparado  a  diversas  outras  situações  que  contrapõem  sua  criatividade  contra  algum  modo  pré­
programado de pensar, tais como vasculhar as estantes de uma biblioteca diretamente em vez de fiar­se
apenas  em  um  catálogo  de  fichas;  ou  formar  o  perfil  individualizado  de  um  novo  estudante  sem  ser
influenciado  pelos  formatos  mais  comuns  que  parecem  relevantes;  ou,  finalmente,  resolver  um  caso  de
detetive relacionando os elementos singulares de um crime.

Palavras finais sobre recomposição


Uma recomposição bem­sucedida, juntamente com arranjos satisfatórios (graficamente representados ou
não), significa que você deve estar vendo os temas mais amplos ou a essência de toda a sua análise. Se
tais  temas  não  apareceram,  você  precisa  manter­se  fiel  às  iterações  adicionais  entre  as  fases  de
decomposição e recomposição. Se os temas mais amplos ou a essência realmente apareceram, você está
pronto para interpretar e depois concluir, que são a quarta e a quinta fases do ciclo analítico, abordadas
pelo próximo capítulo.
Exercício para os Capítulos 8 e 9: decompondo, recompondo e interpretando dados
autobiográficos

compilação

decomposição

recomposição

1. Em  uma  ou  duas  páginas,  e  citando  pontos  específicos  de  seus  arranjos  (a  partir  do  exercício  no  Cap.  8),
discuta  como  as  experiências  que  você  selecionou  possuem  alguma  coisa  em  comum,  ou  se  elas  se
enquadram  em  alguns  novos  temas  importantes  (e,  nesse  caso,  quais  são  eles?).  Se  as  experiências  não
possuem  nada  em  comum  ou  não  se  enquadram  em  novos  temas  importantes,  discuta  por  que  as
experiências tendem a não estar ligadas ou relacionadas umas às outras.
2. Continuando  sua  interpretação  por  mais  uma  ou  duas  páginas,  cite  materiais  ou  arranjos  codificados
específicos  para  sustentar  o  que  você  alega  que  a  autobiografia  pode  revelar  ao  leitor:  “As  pessoas
importantes em minha vida” e “Relações duradouras com diferentes tipos de instituições ou organizações”.
Em uma página final, discuta em que medida sua autobiografia é totalmente singular, comparada com uma
que possa fornecer uma base para generalizar para as experiências de outras pessoas.

Exemplo de Estudo 1: estudo dos convênios entre universidades e escolas,


como exemplo para os Capítulos 8 e 9 (parte relativa ao Cap. 8)

Introdução ao exemplo de estudo
Este exemplo é de um estudo das parcerias entre universidades e escolas de ensino fundamental e médio.
Uma  vez  que  o  tema  do  estudo  é  o  da  educação  escolar  que  todo  mundo  recebeu  ou  está  recebendo,  o
exemplo  pode  ser  facilmente  compreendido  por  quase  todos  os  leitores  deste  livro.  O  contexto  e  as
questões serão evidentes para não especialistas.
Mais  especificamente,  o  exemplo  cobre  48  convênios.  Em  cada  parceria,  os  docentes  de  um
departamento universitário de matemática ou de ciências colaboraram com as escolas para melhorar seu
ensino  nessas  disciplinas. A  principal  questão  de  pesquisa  envolveu  as  perspectivas  de  essas  parcerias
tornarem­se autossuficientes após a expiração do financiamento inicial do governo federal. (O exemplo e
sua  questão  de  pesquisa  fazem  parte  de  uma  avaliação  mais  ampla  que  abrange  muitas  facetas  desses
convênios –  ver  Moyer­Packenham  et al.,  2009; Wong et  al.,  2008.) A  questão da sustentabilidade  tem
sido comum na política pública, mas esses tipos de convênios em matemática e ciências não haviam no
passado  demonstrado  muita  sustentabilidade  na  ausência  de  buscas  por  novas  fontes  de  financiamento
externo.
O  estudo  envolveu  extenso  trabalho  de  campo,  incluindo  entrevistas,  observações  e  análises  de
documentos. O estudo, portanto, usou métodos qualitativos e ilustra as técnicas analíticas discutidas em
relação ao ciclo de cinco fases.
O estudo será chamado a partir daqui de Exemplo de Estudo 1. As fases de compilação, decomposição
e recomposição do estudo são descritas a seguir; as fases de interpretação e conclusão são discutidas no
fim do Capítulo 9.

Base de dados compilada para o Exemplo de Estudo 1
O estudo de 48 parcerias teve uma base de dados direta que, não obstante, demorou para ser compilada.
Cada convênio estava localizado em um lugar diferente no país, e cada um foi submetido a um trabalho
de campo separado, e também a buscas separadas por material arquival.
A  equipe  de  pesquisa  compilou  todas  essas  notas  de  campo  e  notas  de  materiais  arquivais  em  um
relatório separado sobre cada convênio (cada relato constituiu um registro separado). Os relatórios foram
escritos principalmente em forma narrativa, embora às vezes contivessem tabelas numéricas e gráficos,
bem como diagramas. Entretanto, os relatórios foram compostos para que seguissem o mesmo plano geral
de temas (que apareceram como títulos em cada relatório), e todos os relatórios usaram uma terminologia
semelhante (ver Quadro 8.5 para um esboço e uma versão resumida do glossário que foi usado). Os 48
relatórios separados, que não fizeram parte de nenhum CAQDAS, formaram a base de dados a ser usada
para análise.
Títulos e exemplo de glossário para um registro único no Exemplo de Estudo 1

Seção 1. Apanhado geral do modelo lógico (Como o convênio é organizado para melhorar a educação de
matemática e ciências no ensino fundamental e médio)
Seção 2. Exemplo de coleta de dados e outras atividades de avaliação
Seção 3. Qualidade, quantidade e diversidade de professores
Seção 4. Cursos e currículos desafiadores
Seção 5. Papel dos docentes de disciplinas universitárias
Seção 6 Explicações rivais
Seção 7. Inovações e descobertas
Seção 8. Fontes e referências

Formação pré­serviço: Treinamento para professores prospectivos de ensino fundamental e médio.
Formação em serviço: Treinamento ou educação para professores de ensino fundamental e médio já
atuantes.
Currículos desafiadores: Programas de ensino fundamental e médio selecionados para atender normas
governamentais (não os programas usados na formação Pré­Serviço e Em Serviço).
Docentes de disciplinas: Professores universitários de ciência, tecnologia, engenharia, ou matemática
como seus campos de pesquisa, geralmente localizados em um departamento acadêmico da disciplina em
uma escola de arte e ciências.
Explicações rivais: Explicações alternativas, que não as do trabalho da parceria, que poderiam explicar as
mudanças na educação em matemática e ciências no ensino fundamental e médio.
Sustentabilidade: Capacidade da parceria de continuar suas atividades além do período original de
concessão de verbas do governo federal.

Procedimento de decomposição no Exemplo de Estudo 1
Com a finalidade de manter o exemplo simples para seu uso neste livro, o procedimento de decomposição
focou  em  um  único  tema:  o  papel  dos  docentes  na  condução  de  atividades  relacionadas  à  educação  de
matemática e ciências no ensino fundamental e médio. A codificação ocorreu em duas etapas e foi feita
manualmente.
Primeiro, a base de dados foi revisada minuciosamente para qualquer menção de uma universidade ou
corpo  docente.  Muitas  menções  foram  encontradas,  e  estas  foram  colocadas  entre  colchetes.  Segundo,
quando  uma  menção  selecionada  envolvia  uma  atividade  entre  os  docentes  e  algum  aspecto  do  ensino
fundamental  e  médio,  a  atividade  recebia  um  código  de  Nível  1  (ou  um  rótulo).  (Se  a  menção  não
envolvia  tal  atividade,  ela  não  recebia  nenhum  código.)  Os  códigos  deliberadamente  apontaram  para  o
aspecto de educação que pareciam estar envolvidos, e oito categorias de atividades (Nível 2) apareceram
(ver Quadro 8.6).
Oito atividades oriundas da análise da base de dados, então usadas como códigos no Exemplo
de Estudo 1

1. Formação  pré­serviço:  A  faculdade  oferece  cursos  e  programas  em  departamentos  de  matemática  e
ciências, para inscrição de estudantes que podem se tornar professores de ensino fundamental e médio.
2. Formação em serviço para professores já atuantes: A faculdade oferece oficinas específicas, escolas de
verão e apoios de mentores para professores de matemática e ciências.
3. Cursos  universitários  para  professores  já  atuantes: A  faculdade  cria  novos  cursos  de  graduação  ou  pós­
graduação  oferecidos  por  seus  departamentos  para  fortalecer  as  oportunidades  de  que  professores  já
formados obtenham certificação ou títulos avançados.
4. Assistência para distritos escolares: A faculdade ajuda os distritos a definir estruturas curriculares, guias
de ritmo, ou avaliações de matemática e ciências em sala de aula.
5. Contato  direto  com  alunos  do  ensino  fundamental  e  médio:  A  faculdade  instrui  alunos  do  ensino
fundamental e médio como parte do programa informal de ciências (p. ex., um centro de ciências), como
estagiários trabalhando em laboratórios de pesquisa universitários, em julgamentos de feiras de ciências,
ou em alguma função semelhante.
6. Educação  comunitária:  A  faculdade  participa  de  reuniões  assistidas  por  famílias  de  alunos  do  ensino
fundamental e médio, como nas jornadas de matemática familiares patrocinadas por escolas locais.
7. Pesquisa:  A  faculdade  realiza  seus  próprios  estudos  focados  nos  temas  educacionais  do  ensino
fundamental e médio, tais como currículos ou métodos didáticos do ensino fundamental e médio.
8. Ensino  universitário:  A  faculdade  modifica  seus  próprios  cursos,  adotando  novos  métodos  de  ensino
aprendidos  como  resultado  de  ser  exposto  a  princípios  pedagógicos  do  ensino  fundamental  e  médio  (p.
ex., uso de ciência ou matemática baseado em investigação).

Todos  os  rótulos  e  categorias  foram  então  anotados  às  margens  do  relatório  ao  lado  do  item  entre
colchetes, juntamente com um número de identificação exclusivo. Esses itens numerados serviram como
códigos (Nível 3), que foram usados na fase posterior da análise.
O procedimento manual teve o benefício de criar um texto impresso no qual os itens entre colchetes e
seus rótulos podiam ser revisados e rerrevisados, para obter uniformidade na rotulação ou para qualquer
outro  propósito.  O  uso  de  CAQDAS  teria  fornecido  o  mesmo  benefício,  mas  também  mais  –  por
exemplo, o software teria permitido rápida varredura, bem como facilitaria a busca de itens específicos.
Não  obstante,  a  equipe  de  pesquisa  no  Exemplo  de  Estudo  1  não  considerou  a  quantidade  de  registros
grande  o  suficiente  para  justificar  o  esforço  envolvido  no  emprego  de  programas  de  computador  e
conversão dos materiais ao formato digital – ilustrando uma decisão que confrontará todo pesquisador em
uma etapa comparável do trabalho.

Exemplo de arranjo de recomposição usado no Exemplo de Estudo 1
Os  dados  codificados  foram  recompostos  de  acordo  com  uma  matriz  bidimensional  (entretanto,  esta
grande matriz não foi reproduzida como parte do presente texto). Uma dimensão (as filas) representava
cada uma das oito atividades anteriormente definidas no Quadro 8.6. A segunda dimensão (as colunas)
representava os 48 convênios no estudo. Dentro de cada célula da matriz foi colocado o item real da base
de  dados  que  tinha  sido  codificado  como  uma  das  oito  atividades,  juntamente  com  seu  número  de
identificação  exclusivo,  criando  uma  matriz  com  8  x  48  células.  Essencialmente,  a  matriz  ajudou  os
pesquisadores a organizar sistematicamente os dados originais, de acordo com os oito tipos específicos de
atividades  escolares  que  estavam  sendo  conduzidas  pelos  professores  universitários  de  cada  um  dos  48
convênios.

NOTAS
1.  A  palavra  “inicia”  é  usada  apenas  por  conveniência.  Uma  característica  que  distingue  a  pesquisa  qualitativa,  como
assinalado ao longo deste livro, é a necessidade de fazer análise durante as primeiras fases de um estudo, especialmente
durante a coleta de dados.
2. Para pesquisa de estudo de caso, este autor tem defendido a compilação de uma “base de dados de estudo de caso” desde
1984 nas diversas edições do texto em Case Study Research: Design and Methods (2009).
3. O uso da palavra decompor teve preferência a duas outras palavras frequentemente encontradas na literatura. Alguns
textos  e  metodologias  referem­se  a  fraturar  os  dados.  Esse  emprego  foi  rejeitado  devido  à  conotação  do  significado
cotidiano de fraturamento – de que o resultado pode ser prejudicial aos dados, ou que os dados podem ser fragmentados
de alguma maneira indesejável. Os estudiosos também se referem à decomposição como um processo de redução de
dados  (porque,  por  exemplo,  muitas  palavras  em  um  registro  original  estão  sendo  codificadas  em  uma  versão  mais
curta). Essa segunda palavra também foi rejeitada porque decompor os dados nem sempre resulta na redução dos dados,
nem deve a redução de dados ser o objetivo dominante para o processo de decomposição.
4. Dependendo da quantidade de dados textuais que você coletou, um passo preliminar pode ser tornar o procedimento de
decomposição  mais  manejável  analisando  somente  a  parte  do  texto  que  parece  relacionada  a  seu  tema  específico  de
estudo  (p.  ex., Auerbach  &  Silverstein,  2003,  p.  37).  Embora  você  deva  omitir  texto  que  seja  totalmente  irrelevante,
observe que reduzi­lo a proporções manejáveis sempre envolve o risco de ignorar alguma informação possivelmente
interessante porque ela não lhe pareceu relevante naquele momento.
5. Matrizes também podem ser uma forma central de análise quantitativa. Para saber mais sobre esta possibilidade, ver a
Discussão no Capítulo 12.
9
Analisando dados qualitativos II
Interpretando e concluindo

Estudos  investigativos  não  terminam  com  a  simples  análise  de  seus  dados  ou  com  a
apresentação de seus achados empíricos. Bons estudos devem dar dois passos adiante para
interpretar  os  achados  e  depois  extrair  uma  ou  várias  conclusões  gerais  do  estudo  como  um
todo.  Infelizmente,  a  capacidade  de  dar  esses  dois  passos  adicionais  muitas  vezes  não  é
questionada.  Por  exemplo,  muitos  estudos  empíricos  (não  apenas  em  pesquisa  qualitativa)
concluem  pela  repetição  ou  reformulação  de  seus  resultados.  Para  reforçar  a  capacidade  de
fazer  pesquisa  qualitativa,  o  presente  capítulo  apresenta  uma  série  de  escolhas  e  exemplos
para  ambos  os  passos.  Três  maneiras  de  fazer  interpretações  e  cinco  maneiras  de  extrair
conclusões são discutidas detalhadamente.

Não  há  uma  introdução  marcante  para  este  capítulo.  Ele  continua  o  ciclo  analítico  em  cinco  fases,
introduzido no Capítulo 8, abordando a quarta fase, interpretação, e a quinta fase, conclusão.  Contudo,
ausente qualquer introdução marcante, essas fases da análise qualitativa são as mais intrigantes de toda a
pesquisa  em  ciências  sociais.  Elas  desafiam  o  pesquisador  a  colocar  os  resultados  em  ordem,  criar  as
palavras e conceitos certos e relatar ao mundo o significado de sua pesquisa.
Um lembrete constante é a relação recursiva entre todas as fases analíticas. A Figura 9.1 condensa as
cinco  fases  originais  (exibidas  anteriormente  na  Fig.  8.1)  focando  apenas  nas  quatro  últimas.  Este  foco
salienta o papel crítico da fase interpretativa.
FIGURA 9.1
Relações recursivas entre quatro fases analíticas.
(Foi omitida a fase de compilação de uma base de dados, apresentada anteriormente na Figura 8.1.)

Como  sugerem  as  setas  bidirecionais  na  Figura  9.1,  suas  interpretações  iniciais  podem  fazer  você
retornar à fase de recomposição – por exemplo, para revisar os arranjos de dados relevantes. Você pode ir
e vir entre essas duas fases mais do que uma ou duas vezes. A Figura 9.1 também sugere que a fase de
interpretação pode até fazê­lo rever a fase de decomposição, possivelmente para recodificar alguns itens.
Os  itens  recodificados  produziriam  então  novos  temas  na  fase  de  recomposição.  Da  mesma  forma,  as
fases de interpretação e conclusão também podem ter uma relação recursiva.
Ao  iniciar  a  fase  de  interpretação,  você  deve  ter  desenvolvido  alguns  arranjos  de  dados  ou  outras
formas de recompor seus dados. Você deve ter em mente como uma interpretação empírica de seus dados
surgiu.  O  uso  deliberado  da  palavra  interpretação  sinaliza  a  possibilidade  de  que  os  outros  possam
interpretar os mesmos dados de outra maneira. Se você for ambicioso, você pode querer empenhar­se por
uma  interpretação  que  preveja  as  principais  alternativas  e  responda  por  que  elas  podem  ser  menos
convincentes.
Ao iniciar a quinta fase, de conclusão, você deve ter uma versão firme mesmo que ainda preliminar de
sua  interpretação.  Você  deve  ter  dado  alguma  reflexão  para  as  conclusões  a  serem  extraídas  de  sua
pesquisa. Conclusões convincentes conferem integridade ao restante de um estudo. Se as suas ainda não
alcançaram essa condição, você pode querer retrabalhar sua interpretação, para que ela se construa com
mais  força  para  uma  conclusão  prevista.  Continuando  o  exemplo  ilustrativo  que  se  iniciou  no  final  do
Capítulo  8,  o  fim  deste  capítulo  mostra  como  o  Exemplo  de  Estudo  1  lidou  com  suas  fases  de
interpretação e conclusão.
Um esclarecimento final: este capítulo tem um objetivo diferente do Capítulo 11, embora na superfície
os  dois  capítulos  possam  parecer  cobrir  temas  semelhantes.  O  próximo  capítulo  presume  que  você
elaborou sua interpretação e conclusão e sugere modos de apresentá­las da maneira mais vigorosa, porém
sensível no que for possível. Este capítulo visa ajudá­lo a elaborá­las.

A. INTERPRETAÇÃO

O que você deve aprender nesta seção:

Interpretar pode ser considerada a arte de dar seu próprio significado a seus dados recompostos e arranjos
de dados. Esta fase articula toda a análise e ocupa seu topo.
Esta  quarta  fase  em  sua  análise  exige  um  emprego  abrangente  de  suas  habilidades  interpretativas,
cobrindo os aspectos cruciais – se não a maior parte – de seus dados, bem como seus significados mais
profundos. Em outras palavras, a referência aqui à “interpretação” não é estreita, tal como interpretar os
dados  de  uma  tabela  específica.  Em  vez  disso,  o  objetivo  é  desenvolver  uma  interpretação  abrangente,
todavia  levando  em  conta  dados  específicos,  mas  cujos  principais  temas  tornar­se­ão  a  base  para
compreender todo o seu estudo.
O  que  constitui  uma  interpretação  abrangente  ou  boa  não  tem  definição  fixa.  Você  pode  querer
considerar empenhar­se por tantos dos atributos a seguir quanto possível:

✓ Completude (Sua interpretação tem um começo, meio e fim?)
✓ Justeza  (Considerando  sua  postura  interpretativa,  outros  com  a  mesma  postura  chegariam  à  mesma
interpretação?)
✓ Precisão empírica (Sua interpretação representa seus dados corretamente?)
✓ Valor  agregado  (A  interpretação  é  nova,  ou  é,  sobretudo,  uma  repetição  da  literatura  sobre  o  seu
tema?)
✓ Credibilidade  (Independente  de  sua  criatividade,  como  os  colegas  mais  valorizados  em  sua  área
criticariam ou aceitariam sua interpretação?)

Pesquisadores qualitativos experientes já terão uma boa ideia das condições que satisfazem esses cinco
critérios.  Os  iniciantes  em  pesquisa  qualitativa  ainda  estarão  à  procura.  O  melhor  conselho  é  obter  um
retorno regular dos colegas, mesmo enquanto você desenvolve sua interpretação.
Dados não falam “por si mesmos”. A ocasião mais próxima pode ser quando a interpretação de todas
as pessoas do mesmo conjunto de dados tende a coincidir. Entretanto, tal convergência de opiniões pode
não ocorrer exceto em raras circunstâncias.1 Assim, a qualidade de sua interpretação pode fazer diferença
no modo como seu estudo é visto. Dois extremos devem ser evitados: dispor de uma grande quantidade
de dados, mas fazer uma interpretação superficial que não “minere” os dados, ou fazer uma interpretação
insistente  que  exagere  a  qualidade  dos  dados.  Um  meio  termo  mais  uma  vez  não  pode  ser  facilmente
definido, mas você deve se empenhar por isso.

B. MODOS DE INTERPRETAÇÃO
O que você deve aprender nesta seção:

Não  existe  uma  tipologia  das  interpretações.  Ao  produzir  uma  interpretação,  você  estará  pisando  em
território comum, porém ainda relativamente desconhecido. Não obstante, uma abordagem indutiva pode
atender a um propósito útil: determinar se algumas lições comuns podem ser derivadas revisando­se as
interpretações encontradas nos estudos qualitativos disponíveis.
Tal  revisão,  para  ser  empreendida  momentaneamente,  sugere  uma  lista  curta  e  simples  dos  modos
potenciais  de  interpretação  (separadamente,  você  pode  querer  realizar  sua  própria  revisão  de  algum  de
seus estudos qualitativos e ver se é possível aumentar ou modificar esses modos):

✓ descrição;
✓ descrição e um pedido de ação e
✓ explicação.
À  primeira  vista,  a  lista  pode  parecer  trivial.  Por  exemplo,  todo  mundo  sabe  que  dados  qualitativos
fornecem um forte alicerce para o primeiro modo, “descrição”; portanto, referir­se a ela não parece muito
revelador.
Contudo, produzir uma boa descrição não é necessariamente fácil. Sair­se com uma descrição mundana
que  transita  em  todo  o  lugar  sem  objetivo  aparente  é  uma  das  possíveis  armadilhas  nas  análises
qualitativas. Assim,  vamos  ver  se  conseguimos  desenvolver  algumas  ideias  que  podem  ajudar  a  tornar
suas  descrições  representações  de  ciências  sociais  mais  interessantes. Também  são  discutidos  os  outros
modos: “descrição e um pedido de ação” e “explicação”.

“Descrição” como um tipo importante de interpretação


Nossa estratégia indutiva se inicia pela revisão de dois estudos qualitativos clássicos: Middletown (Lynd
&  Lynd,  1929)  e  Coming  of  Age  in  Samoa  (Mead,  1928).  Esses  trabalhos  foram  deliberadamente
extraídos  das  duas  disciplinas  que  mais  contribuíram  para  a  pesquisa  qualitativa  –  sociologia  e
antropologia.  Notavelmente,  as  datas  de  publicação  são  quase  idênticas,  e  ambas  estão  se  aproximando
dos  100  anos  de  idade.  Durante  esse  tempo,  ambos  os  estudos  foram  tema  de  repetidas  novas  edições,
demonstrando sua condição clássica e agora presumivelmente atemporal. Ambos os trabalhos adquiriram
uma posição de respeito em suas respectivas disciplinas.2
As  interpretações  em  ambos  os  trabalhos  são  principalmente  interpretações  descritivas.  Middletown
descreve a vida cotidiana em uma pequena cidade “mediana” do meio­oeste dos Estados Unidos durante
o  início  do  século  XX.  O  escopo  de  sua  descrição  parece  extremamente  direto,  capturando  os  aspectos
potencialmente  universais  da  vida  familiar  e  comunitária  que  podem  ser  encontrados  em  qualquer
sociedade, como refletidos pelos títulos dos seis capítulos do estudo:

A  singularidade  do  trabalho  pode  ser  oriunda  de  duas  características.  Primeiro,  poucos  cientistas
sociais haviam anteriormente coletado uma ampla gama de dados de campo sobre a vida em uma cidade
norte­americana mediana. A equipe de estudo, composta de dois líderes assim como de outros membros,
abriu  um  escritório  na  cidade  que  estavam  estudando. A  equipe  passou  dois  anos  participando  da  vida
local, também compilando estatísticas locais, usando questionários para realizar entrevistas e examinando
inúmeros materiais documentais. Segundo, o período histórico particular em estudo capturou um estilo de
vida americano em uma época em que a economia agrícola ainda dominava uma cidade mediana como
essa, e antes do pleno advento de uma economia industrial, assim abrangendo uma época significativa na
história dos Estados Unidos.3
Já  Coming  of  Age  in  Samoa  (Chegando  à  Maioridade  em  Samoa)  trata  de  um  mundo  totalmente
diferente. O livro se concentra no ciclo de desenvolvimento de meninas adolescentes. O estudo coletou
dados  de  todas  as  68  meninas,  de  9  a  20  anos,  que  moravam  em  três  aldeias  no  litoral  de  uma  ilha
samoana,  na  qual  o  autor  coletou  dados  durante  seis  meses. As  entrevistas  foram  rea lizadas  no  idioma
samoano, incluindo um teste de inteligência improvisado aplicado em samoano, e o estudo também fez
um exame detalhado da estrutura social das famílias nos três povoados.
Os capítulos do livro foram organizados de acordo com a vida de uma adolescente:

I. Introdução

II. Um dia em Samoa

III. A educação da criança samoana

IV. A família samoana

V. A moça e seu grupo etário

VI. A moça na comunidade

VII. Relações sexuais formais

VIII. O papel da dança

IX. A atitude frente à personalidade

X. A experiência e a individualidade de uma moça mediana
XI. A moça em conflito

XII. Maturidade e idade avançada

XIII. Nossos problemas educacionais à luz dos contrastes samoanos

XIV. Educação para escolha

Como  Middletown,  a  singularidade  de  Coming  of  Age  in  Samoa  também  reside  na  riqueza  de  seus
dados,  neste  caso  sobre  um  lugar  do  mundo  que  até  então  não  se  conhecia.  Contudo,  e  também  como
Middletown, o estudo aborda um tema muito mais amplo, tentando compreender melhor os “sintomas de
conflito e estresse” que parecem existir entre moças americanas, mas aparentemente ausentes entre moças
samoanas (p. 136). Um dos principais objetivos do estudo foi determinar se “estas dificuldades se devem
a ser adolescente ou a ser adolescente nos Estados Unidos” (p. 6), e o estudo usou a situação samoana
como  um  modo  de  compreender  a  situação  americana.  Esse  objetivo  mais  amplo  é  o  tema  do  capítulo
introdutório, bem como dos dois capítulos finais do livro de Mead.
Em  ambos  os  trabalhos,  as  descrições  são  intensas  e  reveladoras,  especialmente  porque  os  temas  do
estudo não tinham sido sistematicamente examinados por cientistas sociais anteriores. Mas, além disso,
ambos os trabalhos demonstram como suas descrições visam chegar a conclusões sobre questões muito
mais amplas – um tipo de conclusão generalizante ilustrando a quinta fase do ciclo analítico e discutido
posteriormente neste capítulo. Por enquanto, contudo, vamos explorar mais a natureza da descrição como
um modo de interpretação.
Continuando  nossa  revisão,  a  natureza  da  descrição  como  um  tipo  importante  de  interpretação
qualitativa  é  adicionalmente  revelada  examinando­se  alguns  trabalhos  contemporâneos.  Esses  trabalhos
fornecem  compreensão  da  substância  das  descrições.  Você  deve,  portanto,  examinar  esses  e  outros
trabalhos atentamente, obtendo­os e lendo­os.
Para  o  propósito  da  discussão  neste  livro,  contudo,  um  modo  de  adquirir  uma  visão  geral  dessas
descrições é considerar os subtítulos dos estudos existentes. A Tabela 9.1 cita nove dos estudos de acordo
com  seus  subtítulos  exatos  (não  seus  títulos).  Notavelmente,  e  apesar  de  sua  brevidade,  os  subtítulos
como exibidos no topo de cada trabalho na Tabela 9.1 geralmente capturam o tema e abrangência de todo
o estudo.

Descrição como interpretação: autores, subtítulos e títulos de capítulos de estudos ilustrativos

Autor 1 2 3
Liebow (1993) Anderson (1999) Sharman (2006)

Subtítulo do As vidas de moradoras de Dignidade, violência e a vida moral Os inquilinos do East Harlem
estudo rua nos bairros pobres

Introdução

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5
Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Conclusão

Autor 4 5 6
Napolitano (2002) McQueeney (2009) Pérez (2004)

Subtítulo do Vivendo no México urbano Raça, gênero e sexualidade em Migração, deslocamento e


estudo congregações afirmativas de gays e famílias porto-riquenhas
lésbicas

Introdução

Autor 4 5 6
Napolitano (2002) McQueeney (2009) Pérez (2004)

Capítulo 1
barrios

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4 Los de afuera

Capítulo 5 mujercita

Capítulo 6

Conclusão

Autor 7 8 9
Hays (2003) Bogle (2008) Padraza (2007)

Subtítulo do Mulheres na era da Sexo, namoro e relacionamentos Desafetos políticos na


estudo reforma da previdência nos campi universitários evolução e êxodo de cuba
social

Introdução

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Autor 7 8 9
Hays (2003) Bogle (2008) Padraza (2007)

Capítulo 4

Capítulo 5 campus

Capítulo 6 Los marielitos

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Conclusão

A Tabela 9.1 então lista os títulos dos capítulos de cada estudo. Esses títulos fornecem pistas sobre a
estrutura da descrição decorrente. (Para estudos qualitativos publicados no formato de artigos de revista,
os  subtítulos  no  artigo  podem  cumprir  uma  função  semelhante  à  dos  títulos  de  capítulos  para  estudos
qualitativos que foram publicados como livros.)
Alguns estudos tratam da vida cotidiana de pessoas dentro de um grupo social ou dentro de uma área
geográfica.  Uma  estrutura  para  essas  descrições  se  desenvolve  apresentando  as  funções  rotineiras  para
enfrentar a vida cotidiana, incluindo:

✓ o estudo de Liebow (1993) da vida de moradoras de rua; e
✓ o estudo de Anderson (1999) da vida nas ruas em um bairro pobre.
✓ (Ver itens 1 e 2, Tab. 9.1.)
Alternativamente, a descrição pode se basear na diversidade de pessoas ou grupos sociais em uma área
geográfica, tal como:

✓ No estudo de Sharman (2006) dos moradores do East Harlem, um conhecido bairro misto na cidade
de Nova Iorque.
✓ (Ver item 3, Tab. 9.1.)
Outros estudos, embora também abordem a vida cotidiana das pessoas, podem tratar mais da natureza
das  instituições  sociais.  Nessas  situações,  as  descrições  são  estruturadas  de  acordo  com  estruturas
institucionais, funções ou temas, incluindo:

✓ o estudo de Napolitano (2002) da vida urbana no México;
✓ o estudo de McQueeney (2009) dos dilemas morais enfrentados por duas igrejas cristãs;
✓ o estudo de Pérez (2004) da migração porto­riquenha; e
✓ o estudo de Hay (2003) das vidas das mulheres depois que novas políticas de reforma na assistência
social foram adotadas nos Estados Unidos.
✓ (Ver itens 4, 5, 6 e 7, Tab. 9.1.)
Os  estudos  que  examinam  processos  ao  longo  do  tempo  podem  organizar  suas  descrições  em  uma
sequência  temporal,  os  quais,  quando  seguem  uma  variante  da  pesquisa  qualitativa  de  investigação
narrativa,  podem  incluir  incursões  ao  passado  e  mesmo  ao  passado  distante  (p.  ex.,  Connelly  &
Clandinin, 2006). As estruturas descritivas podem variar amplamente, de:

✓ o  estudo  de  Bogle  (2008)  sobre  sexo  nos  campi  universitários,  o  qual  segue  uma  sequência  de
namoro­sexo­namoro;
✓ a abrangente cobertura de Padraza (2007) das três ondas de imigração cubana durante várias décadas.
✓ (Ver itens 8 e 9, Tab. 9.1.)
Todas as estruturas descritivas precedentes podem servir como modelos para analisar e interpretar seus
dados. Além disso, as descrições podem ser apresentadas com variáveis níveis de detalhe. Uma descrição
densa  (Geertz,  1973,  1983)  ou  relatos  altamente  detalhados  permitem  aos  leitores  apreciar  e
fundamentalmente  derivar  uma  compreensão  profunda  das  condições  sociais  estudadas.  Quando  bem­
sucedida,  a  densidade  da  descrição  distancia  a  interpretação  das  perspectivas  centradas  no  pesquisador,
retratando  em  vez  disso  pessoas,  eventos  e  ações  dentro  de  seus  contextos  localmente  significativos.
Independentemente  de  conterem  descrições  altamente  detalhadas,  uma  característica­chave  é  que  a
maioria  dos  estudos  então  procura  representar  algum  tema  social  mais  amplo,  relativo  à  literatura  de
pesquisa dominante.
As  melhores  descrições  incluem  os  dados  de  um  estudo.  Esses  dados  podem  ser  altamente  diversos,
incluindo perfis de pessoas baseados nas entrevistas de um estudo, dados históricos baseados em buscas
de documentos e dados numéricos escolhidos de fontes arquivais. Como lembrete, a terceira fase de sua
análise  de  dados  teria  incluído  alguma  mínima  tentativa  de  recompor  esses  dados.  Entretanto,  a
recomposição também pode continuar à medida que você constrói sua interpretação descritiva.

Descrição e pedido de ação


Um tipo um pouco diferente de descrição ocorre quando um estudo também tenta promover alguma ação
subsequente – normalmente sugerindo mudanças na política pública ou nas agendas públicas – seguindo a
apresentação de uma interpretação meramente descritiva (ver os subtítulos e títulos de capítulos para três
estudos adicionais na Tabela 9.2). Alguns desses estudos podem ter sido realizados com uma motivação
explícita  de  proteção  desde  o  início.  Assim,  estruturalmente,  a  pesquisa­ação  envolve  abertamente  o
pesquisador e os participantes em um modo colaborativo desde o início de um estudo (p. ex., Reason &
Riley,  2009). Ainda  como  no  outro  exemplo,  investigações  autoetnográficas  colocam  o  pesquisador  no
meio do ambiente que está sendo estudado (Johns, 2005).

Descrição-e-pedido-de-ação como interpretação: autores, subtítulos e títulos de capítulos de estudos ilustrativos

1 2 3
Autor Bales (2004) Sidel (2006) Newman (1999)

Subtítulo A nova escravidão na economia Mães solteiras e o sonho americano Os trabalhadores pobres
do estudo mundial nos bairros decadentes

Introdução

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3
Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Conclusão

Inversamente, o pedido de ação pode não ter sido considerado de antemão, e sua relevância pode ter
surgido apenas em decorrência dos resultados de um estudo. Independentemente da sequência, os estudos
diferem do tipo dominante de descrição recém­descrito, da seguinte maneira:
Em primeiro lugar, o pedido de ação tende a dominar as conclusões do estudo. Os títulos dos capítulos
fornecem pistas sobre como isso é feito, tais como:

✓ o estudo de Bales (2004) da “nova escravidão” na economia mundial e
✓ o estudo de Sidel (2006) de mães solteiras e o sonho americano.
✓ (Ver itens 1 e 2, Tab. 9.2.)
Segundo, o pedido de ação pode fazer com que os leitores reinspecionem os dados do estudo com um
tipo  de  exame  diferente.  Mesmo  quando  os  dados  são  apresentados  de  forma  predominantemente
descritiva, existe agora a possibilidade de que a apresentação seja fortemente inclinada de alguma forma,
para apoiar o pedido de ação. A possível inclinação vem a se somar à preo cupação sobre a reflexividade e
viés  de  seleção  normalmente  associado  à  pesquisa  qualitativa:  consequentemente,  quanto  mais  forte  o
pedido, maior o exame.
Terceiro,  o  pedido  de  ação  pode  abranger  temas  de  política  pública  altamente  complexos  e
controversos.  Na  política  contemporânea  dos  Estados  Unidos,  os  temas  ilustrativos  podem  incluir
aumento  do  salário  mínimo,  fornecimento  de  um  sistema  de  saúde  universal,  expansão  do  sistema  de
creches e assemelhados. Esses temas têm uma literatura (qualitativa e quantitativa) extensa e merecem ser
abordados em um livro à parte; a necessária profundidade excede o que pode ser oferecido em um único
capítulo. Assim, ao incluir um pedido de ação, o pesquisador qualitativo corre o risco de apresentar uma
versão  ingênua  dos  temas  de  políticas.  Isso  por  sua  vez  pode  ter  um  efeito  de  ceticismo  em  relação  à
qualidade da parte empírica do estudo.
Muitos estudiosos creem que um papel aceitável da pesquisa em ciências sociais é coletar e apresentar
evidências  que  sustentem  ou  contestem  posturas  políticas.  Outros  estudiosos  levam  o  argumento  ainda
mais longe – que a seleção dos temas e métodos em qualquer estudo de pesquisa implicitamente reflete
um  sistema  cultural  de  valores  que  possui  seus  próprios  vieses.  Por  exemplo,  como  discutido
posteriormente  neste  livro  (ver  Cap.  12,  item  B),  a  postura  modernista  postula  que  mesmo  cientistas
naturais podem involuntariamente impor seus próprios valores pessoais a sua pesquisa, tal como em sua
definição e, portanto, seleção de temas que merecem ser estudados (p. ex., Butler, 2002). Diante de todas
essas circunstâncias, fazer um pedido de ação pode não ser tão condenável quanto inicialmente parece.
Não obstante, um alerta a fazer é que se você quer incluir algum tipo de pedido de ação como parte de
seu estudo, faça­o com cuidado acadêmico. Apresente os temas de política ou questões substantivas de
proteção no contexto de sua própria literatura científica, possivelmente adicionando um apêndice amplo a
seu estudo para indicar seu domínio sobre o tema. Alternativamente, você pode incluir notas de rodapé
extensas  e  detalhadas,  discutindo  as  questões  políticas  em  maior  profundidade  e  citando  a  literatura
relevante, como feito em um exemplo:4

✓ o estudo de Newman dos “trabalhadores pobres” em bairros urbanos decadentes.
✓ (Ver item 3, Tab. 9.2.)
Dessa forma, a inclusão de um pedido de ação levantará menos questionamentos quanto à credibilidade
da parte empírica de sua pesquisa.

“Explicação” como um tipo de interpretação


Explicação sempre pode ocorrer como parte de uma interpretação descritiva. Por exemplo, em seu estudo
de  empregados  recém­contratados  em  restaurantes  de  fast  food,  Newman  (1999),  como  mostramos  na
Tabela 9.2, incluiu um esforço para explicar como os empregados superam o estigma social de trabalhar
em tais empregos, mas este esforço era apenas parte do estudo descritivo mais amplo.
A  diferença  enfatizada  aqui  é  que  todas  as  interpretações  são  dedicadas  a  explicar  como  ou  por  que
eventos  ocorreram,  ou  alternativamente  como  ou  por  que  as  pessoas  foram  capazes  de  perseguir
determinados  cursos  de  ação.  Nessa  situação,  a  estrutura  interpretativa  assume  um  modo  explicativo,
ilustrada pelos subtítulos e títulos de cinco outros estudos, apresentados na Tabela 9.3.

Explicação como interpretação: autores, subtítulos e títulos de capítulo de estudos ilustrativos

Autor 1 2 3
Royster (2003) Williams (2006) Edin & Kefalas (2005)

Subtítulo Como redes de trabalho brancas Trabalhar, fazer Por que mulheres pobres colocam
do estudo excluem negros de empregos de compras e a maternidade antes do
colarinho azul desigualdade casamento

Introdução

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5
Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Conclusão

Autor 4 5
Allison & Zelikow (1999) Neustadt & Fineberg
(1983)

Tema Explicando a crise dos mísseis de Cuba A epidemia que nunca


Principal existiu

Introdução

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo
10

Capítulo
11

Capítulo
12

Capítulo
13

Conclusão

Quando  um  estudo  está  preocupado  com  uma  explicação  abrangente,  a  explicação  guia  o  estudo
inteiro, não apenas parte dele. Algumas interpretações explicativas se iniciam, no capítulo introdutório ou
inicial, com uma declaração sobre uma condição humana que necessita explicação. Na maioria das vezes
em pesquisa qualitativa, a condição humana de interesse é de natureza normativa – tal como a existência
de desigualdade social:

✓ o estudo de Royster sobre a exclusão de negros de empregos de colarinho azul (operários); e
✓ o estudo de Williams sobre a desigualdade no comércio varejista.
✓ (Ver itens 1 e 2, Tab. 9.3.)
Outros estudos podem se iniciar com uma afirmativa sobre alguma preferência social como o tema que
necessita de explicação, como em:

✓ O  estudo  de  Edin  e  Kefalas  (2005)  de  por  que  mulheres  pobres  colocam  a  maternidade  antes  do
casamento
✓ (Ver item 3, Tab. 9.3.)
Ainda  como  outro  exemplo,  em  ciência  política,  estudos  qualitativos  podem  ser  orientados  por  uma
necessidade  de  explicar  algum  evento  geopolítico  crucial.  A  condição  de  interesse  geralmente  é  um
evento com algum significado nacional, se não internacional, tal como:

✓ o esforço de Allison e Zelikow (1999) para explicar a crise dos mísseis de Cuba; e
✓ o estudo de Neustadt e Fineberg (1983) de uma ameaça de epidemia de gripe no final da década de
1970 nos Estados Unidos.
✓ (Ver itens 4 e 5, Tab. 9.3.)
Sejam  quais  forem  os  fatos  humanos,  sociais  ou  políticos  de  interesse,  os  capítulos  resultantes
permitem que o autor construa a explicação desejada. Cada capítulo acrescenta uma parte da explicação
ou agrega informações sobre condições contextualmente relevantes. Ao longo do caminho, a explicação
mais eficaz também considera explicações alternativas ou rivais.
A consideração de explicações rivais durante todos os procedimentos metodológicos, como discutida
anteriormente  no  Capítulo  4  (Opção  2),  é  uma  das  maneiras  importantes  de  aperfeiçoar  a  qualidade
técnica de sua análise. Ao chegar à fase de interpretação de sua análise, e quando a interpretação se basear
em  uma  estrutura  explicativa,  a  relevância  de  explicações  rivais  é  duplamente  obrigatória.  Você  deve
formular  e  apresentar  evidências  relacionadas  a  rivais  realistas  ou  plausíveis,  procurando  demonstrar
como as evidências poderiam favorecer a rival, como se ela fosse sua explicação principal. Idealmente, as
evidências compiladas devem por seu próprio peso eliminar a rival, sem que você tenha que fazer uma
argumentação  expositiva  forte.  O  resultado  geral  deve  ser  a  apresentação  de  uma  explicação  sólida  e
plausível para os resultados obtidos.
Um excelente estudo qualitativo no campo da administração apresentou suas explicações rivais de um
modo  pouco  comum  (Schein,  2003). Todo  o  estudo  foi  organizado  em  torno  de  uma  explicação  para  a
morte de uma importante empresa de computação que tinha estado entre as 50 maiores corporações do
país. Embora o autor tenha apresentado muitas evidências a partir de entrevistas e documentos em favor
de sua própria explicação, ele também incluiu capítulos complementares ao final do livro. Cada capítulo
complementar  deu  a  um  dos  executivos­chave  da  extinta  empresa  a  oportunidade  de  apresentar  sua
própria explicação rival.
Construir  uma  boa  explicação  não  é  fácil.  É  improvável,  portanto,  que  você  o  faça  sem  auxílio.  O
principal  auxílio  virá  de  colegas  e  profissionais  informados  –  aqueles  que  sabem  alguma  coisa  sobre  o
assunto ou o delineamento de seu estudo. O desejado relacionamento com esses colegas e profissionais
inclui um diálogo constante durante o processo de construção de explicação, assim como análises de seus
esboços preliminares.
As perspectivas externas de seus colegas podem revelar lacunas ou esquisitices na estrutura explicativa
que  você  pode  querer  corrigir.  Assim,  esta  não  é  a  etapa  de  sua  pesquisa  de  encasular­se.  Fale  com
amigos  e  colegas  e  comece  a  contar­lhes  a  história  de  sua  pesquisa.  Quanto  mais  você  interagir  com
outras pessoas, maior será sua chance de criar alguma estrutura interpretativa reveladora para seu estudo.

Criando perspicazes e úteis interpretações


Alegre­se por saber que as possibilidades analíticas são ilimitadas, contanto que tenham fundamentação
empírica.  Somente  sua  desatenção  a  seus  próprios  dados  ou  falta  de  criatividade  impedirão  que  você
encontre  uma  boa  estrutura  interpretativa.  As  interpretações  ideais  ligarão  as  ideias  de  interesse  –
refletidas, por exemplo, pela literatura pertinente – a seus dados recompostos.
Você pode iniciar a interpretação de diversas maneiras. Primeiro, talvez você já saiba o principal tema
de  sua  pesquisa,  refletido  como  vimos,  colocando  um  possível  subtítulo  para  um  estudo  qualitativo.
Segundo, você pode ter analiticamente observado novos padrões importantes persistentes em seus dados
de pesquisa – por exemplo, entre indivíduos ou fatos diferentes. Os padrões dignos de atenção vão além
de um único conjunto de dados – por exemplo, permeando uma boa parte de todos os seus dados. Esses
novos padrões encontrados podem se tornar os pilares para criar uma interpretação inovadora. Terceiro,
você deve sempre poder iniciar uma interpretação com suas questões de pesquisa originais e construir em
torno delas.
Você também não precisa pensar a interpretação como parte de uma sequência linear – ou seja, esperar
até  a  quarta  fase  analítica  antes  de  tentar  fazer  qualquer  interpretação.  Alguns  estudos  qualitativos
revelam e então apresentam suas interpretações de maneira bem antecipada. Por exemplo, Adrian (2003)
tece sua interpretação ao longo de toda a apresentação de seu estudo (ver “Um tema interpretativo que
permeia  todo  um  estudo  qualitativo”,  Quadro  9.1).  Essa  estratégia  envolve  riscos  atinentes  à  possível
seletividade  na  escolha  dos  dados  a  serem  apresentados.  Entretanto  (e  como  no  exemplo  do  estudo  de
Adrian),  a  apresentação  de  amplos  dados  detalhados,  abrangendo  uma  gama  de  temas  relevantes  em
capítulos separados, pode ajudar a compensar esses riscos.

Um tema interpretativo que permeia todo um estudo qualitativo

a globalização de uma sociedade de consumo

Em  retrospectiva,  o  que  pode  fazer  qualquer  uma  e  todas  essas  alternativas  funcionar  é  um
conhecimento  profundo  da  literatura  relevante.  Se  a  literatura  é  fraca  (p.  ex.,  há  poucos  estudos
publicados  sobre  seu  tema  ou  uma  base  temática  e  teórica  confusa),  desenvolva  uma  interpretação  que
aponte  para  um  nicho  que  talvez  ainda  não  tenha  sido  explorado.  Se  a  literatura  está  em  um  ponto
intermediário,  expanda  os  limites  convencionais  e  desenvolva  uma  interpretação  que  demonstre  um
pensamento “fora dos padrões”.

C. CONCLUINDO
O que você deve aprender nesta seção:

Além  da  fase  de  interpretação  está  a  quinta  fase  analítica,  conclusão.  Estudos  empíricos  concluídos,
baseados  em  pesquisa  qualitativa  ou  não,  devem  ter  sempre  uma  ou  mais  conclusões.  A  lógica
preferencial  é  que  a(s)  conclusão(ões)  estejam  ligadas  tanto  à  fase  interpretativa  precedente  quanto  aos
principais dados ou resultados empíricos de um estudo. Neste sentido, extrair conclusões ainda pode ser
considerado como parte da análise de um estudo e, portanto, serve como a quinta fase.
De  certa  forma,  as  conclusões  de  todo  estudo  podem  ser  altamente  específicas,  possivelmente  até
únicas. Por essa razão, pouco discurso inicialmente pareceria relevante. Entretanto, observar os tipos de
conclusões  que  foram  extraídas  por  outros  pode,  mais  uma  vez,  produzir  sugestões  sobre  como  pensar
sobre as conclusões para sua própria pesquisa.
Uma  conclusão  é  algum  tipo  de  declaração  abrangente  ou  uma  série  de  declarações  que  elevam  os
resultados de um estudo a um nível conceitual mais elevado ou conjunto mais amplo de ideias. Em um
sentido,  a  conclusão  captura  o  “significado”  mais  amplo  de  um  estudo.  O  espírito  de  uma  conclusão
reside  em  conceitos  como  “lições  aprendidas”  e  “implicações  da  pesquisa”,  assim  como  slogans  mais
pragmáticos,  tais  como  “implicações  práticas”  (mas  nenhum  desses  conceitos  ou  slogans  precisa
necessariamente  aparecer  como  frases  reais  em  sua  conclusão).  Sua  liberdade  de  escolha,  mais  do  que
para qualquer outra parte de um estudo de pesquisa, permite que você faça inferências da pesquisa como
um  todo.  Não  é  desejável  apresentar  conclusões  que  apenas  reafirmem  os  resultados  usando  outras
palavras.
Os parágrafos a seguir dão cinco exemplos de conclusões. Você pode imitá­los individualmente ou em
qualquer  combinação.  Ou  você  pode  preparar  uma  conclusão  própria  que  seja  totalmente  diferente  de
todos os cinco exemplos.

Concluindo com um pedido por novos estudos


Uma  rica  tradição  de  pesquisa,  possivelmente  nascida  da  pesquisa  básica,  pede  que  os  estudos  sejam
concluídos  mostrando  como  os  resultados  de  um  estudo  (p.  ex.,  proposições  originais  que  foram
confirmadas  ou  refutadas)  agora  aponta  para  novos  estudos  que  precisam  ser  realizados.  A  principal
conclusão segue o molde de “o que ainda não sabemos”.
Nesta situação, a conclusão ou conclusões normalmente assumem a forma de uma questão ou questões
a serem abordadas por futuras pesquisas. As questões podem inclusive ser acompanhadas por sugestões
para  os  métodos  de  pesquisa  necessários. A  conclusão  mais  completa  deste  tipo  começaria  assim  a  se
assemelhar ao delineamento de um novo estudo.
Pesquisadores qualitativos podem seguir essa tradição, mas também têm escolhas mais atraentes que
podem ser usadas no lugar ou em acréscimo à indicação de temas para nova pesquisa.

Concluindo com uma contestação de generalizações convencionais e


estereótipos sociais
Um  segundo  tipo  de  conclusão,  comumente  encontrada  entre  estudos  qualitativos,  deriva­se  do  fato  de
que  a  pesquisa  qualitativa  geralmente  se  concentra  em  um  conjunto  concreto  e  particular  de
circunstâncias.  Para  tirar  conclusões,  um  novo  estudo  qualitativo  pode  se  iniciar  usando  estudos  já
publicados como um ponto de partida. A pesquisa anterior, muitas vezes baseada em outros métodos não
qualitativos, pode ter produzido um amplo conjunto de evidências, de certa forma representando ou até
estereotipando  o  comportamento  humano,  seus  rituais,  ou  sua  organização.  Em  contraste,  um  estudo
qualitativo recém concluído poderia ter mostrado padrões de comportamento diferentes e inesperados, e
esses podem formar a base para as conclusões do estudo.
Por exemplo, uma das generalizações mais convencionais diz respeito à representação de pessoas que
vivem  na  pobreza  –  que  elas  são  vítimas  de  seu  próprio  comportamento  disfuncional,  falta  da
perseverança  necessária  para  fazer  um  dia  de  trabalho  honesto  e  criar  bairros  e  ambientes  de  vida
desorganizados  e  insalubres.  Além  disso,  por  meio  de  estruturas  familiares  “rompidas”,  essas  pessoas
perpetuam sua condição às futuras gerações.
As resultantes generalizações relativas às vidas de pessoas que vivem na pobreza foram realçadas ao
longo  dos  anos  por  numerosos  estudos  qualitativos.  Entre  os  primeiros  estão  os  conhecidos  estudos
antropológicos de Oscar Lewis (1959, 1961, 1965). Ele propôs que o conceito de pessoas que vivem uma
“cultura  de  pobreza”  representa  uma  possível  barreira  aos  esforços  de  superação  de  importantes
problemas sociais (1965, p. xlii­lii).
Trabalhos  mais  contemporâneos  têm  procurado  contestar  a  premissa  básica  da  generalização  –  a
representação  da  desorganização  social  e  da  disfunção  individual  entre  pessoas  de  renda  inferior,  para
começar. Por exemplo, Pérez (2004) usou seu estudo de migrantes porto­riquenhos de primeira e segunda
geração (ver “Conclusões que contestam generalizações convencionais”, Quadro 9.2). Da mesma forma,
o estudo de Hays (2003, p. 180­181) das mães sob a reforma da previdência social nos Estados Unidos
também  concluiu  com  uma  contestação  ao  estereótipo  da  típica  mãe  que  recebe  o  benefício  como  uma
assalariada inepta ou relutante (Tab. 9.1, item 7). Finalmente, Bourgois (2003) estudou os traficantes de
drogas  e  outros  atores  no  submundo  econômico  urbano  e  concluiu  argumentando  “como  a  história,  a
cultura e as estruturas político­econômicas restringem as vidas das pessoas” (p. 16).

Conclusões que contestam generalizações convencionais

De  modo  análogo,  resultados  de  estudos  qualitativos  contestaram  muitas  outras  generalizações
prevalecentes sobre temas como o papel das mulheres no trabalho; o papel dos homens no trabalho e no
lar;  relações  antagônicas  entre  empregados  e  empregadores  baseadas  em  interesses  econômicos
presumivelmente contrastantes; conflitos entre grupos étnicos e raciais; e um número variado de outros
estereótipos importantes nas sociedades humanas.
Ao  abordar  esses  estereótipos,  uma  contribuição  típica  da  pesquisa  qualitativa  tem  sido  revelar  a
existência  de  condições  mais  diversas  do  que  as  reconhecidas  por  estudos  anteriores,  uma  vez  que  a
pesquisa qualitativa oferece uma oportunidade de lidar com culturas e condições sociais minoritárias. Tal
pesquisa  foca  em  grupos  sociais  que  historicamente  foram  alvo  de  racismo,  discriminação  e  exclusão
(Banks,  2006,  p.  775).  Assim,  a  pesquisa  qualitativa  pode  acrescentar  riqueza  e  profundidade  de
compreensão  aos  perfis,  por  exemplo,  da  “família  (estatisticamente)  mediana”,  que  podem  deixar  de
conotar a plena diversidade e complexidade da real composição ou comportamento familiar.
A pesquisa qualitativa também pode ir além da contestação de generalizações convencionais sugerindo
como elas podem ser alteradas, adaptadas ou enriquecidas. Por exemplo,

Concluindo com novos conceitos, teorias e mesmo “descobertas” sobre o


comportamento social humano
Quer conteste o pensamento convencional quer não, as conclusões da pesquisa qualitativa podem apontar
para a necessidade e utilidade de novos conceitos e teorias. Estas podem ser consideradas um terceiro tipo
de conclusão encontrado em estudos qualitativos.
Entre os estudos ilustrativos neste capítulo, o “código das ruas” de Anderson (1999) se destaca como
um  conceito  culminante  que  o  autor  promove  como  forma  de  compreender  as  vidas  dos  moradores  de
zonas urbanas desfavorecidas (ver “Usando pesquisa qualitativa para criar e testar um construto teórico: o
código  das  ruas”,  Quadro  9.3).  Sobre  um  tema  totalmente  diferente,  o  trabalho  de  Allison  e  Zelikow
(1999)  sobre  a  crise  dos  mísseis  de  Cuba  (Tab.  9.3,  item  4)  conclui  apontando  para  a  importância  de
compreender a subordinação de decisões internacionais significativas ao comportamento organizacional
complexo, e não às ações individuais de líderes políticos.
Usando pesquisa qualitativa para criar e testar um construto teórico: o código das ruas

Ver também Quadros 7.1 e 11.5.

Conclusões  também  podem  sugerir  novos  modos  de  pensar  que  possuem  amplas  implicações
disciplinares.  Por  exemplo,  no  final  de  seu  estudo  da  transição  em  um  bairro  (Tab.  9.1,  item  4),
Napolitano  (2002)  levanta  a  possibilidade  de  que  esses  bairros  poderiam  ser  melhor  estudados  da
perspectiva  da  “cultura  como  um  processo  aberto  e  inacabado”  em  vez  de  pela  apresentação  de  uma
“antropologia  usual  de  um  barrio”)  (ver  “Estudando  a  transição  em  um  bairro  no  México  urbano”,
Quadro 9.4).
Estudando a transição em um bairro no México urbano

barrio

Quanto  às  descobertas,  destaca­se  um  estudo  clássico  com  metodologia  mista  (quantitativa  e
qualitativa) baseado em um levantamento de ampla escala, bem como em extenso trabalho de campo. O
estudo foi produzido em cinco volumes e se concentrou na estrutura de classes sociais de uma pequena
cidade na Nova Inglaterra. A principal descoberta foi exposta no primeiro dos cinco volumes. Uma parte
da descoberta era mostrar como a designação de classe de uma pessoa era independente de sua condição
econômica. Uma segunda parte da descoberta foi o surgimento de evidências de uma estrutura altamente
diferenciada  de  seis  classes.  Com  seus  dados,  os  pesquisadores  puderam  estimar  a  porcentagem  da
população  total  em  cada  classe,  desenvolvendo  também  uma  terminologia  que  sobreviveu  até  hoje
(Warner & Lunt, 1941, p. 81­91):

✓ classe alta alta (1,4%),
✓ classe alta baixa (1,6%),
✓ classe média alta (10,2%),
✓ classe média baixa (28,1%),
✓ classe baixa alta (32,6%),
✓ classe baixa baixa (25,2%).

Um resultado desse estudo de referência foi chamar atenção para as sutilezas da estratificação social
dentro das comunidades, tema que vem recebendo atenção da pesquisa desde que o estudo foi concluído.

Concluindo com proposições substantivas (não metodológicas)


Um quarto tipo de conclusão assume uma postura mais forte. O autor pode amarrar um estudo com uma
ou  mais  proposições.  Essa(s)  pode(m)  tentar  explicar  uma  faceta  fundamental  de  um  estudo  ou  mesmo
fazer uma previsão. Por exemplo, o estudo de Liebow (1993, p. 223) de moradoras de rua (Tab. 9.1, item
1)  conclui  com  uma  proposição  que  ele  admite  parecer  a  princípio  uma  tautologia:  “moradores  de  rua
estão  nesta  condição  porque  não  têm  onde  morar”.  Entretanto,  ele  prossegue  para  contrastar  e  discutir
essa  proposição  à  luz  de  outras  alegações  mais  frequentes,  de  que  o  problema  dos  sem­teto  é  uma
consequência  de  suas  condições  físicas  ou  mentais  ou  da  falta  de  emprego.  Mostrando  como  uma
proposição  pode  tomar  a  forma  de  uma  previsão,  Wilson  e  Taub  (2006),  depois  de  estudarem  vários
bairros com moradores de origens raciais e étnicas mistas, concluem com a previsão de que “os bairros
nas cidades dos Estados Unidos ... tendem a permanecer divididos, racial e culturalmente” (p. 161). As
principais  revelações  são  oriundas  das  explicações  do  estudo  sobre  a  sensibilidade  dos  moradores  na
preferência por bairros em que se sentem confortáveis em algum sentido econômico ou cultural.

Concluindo com uma generalização para um conjunto mais amplo de situações


Um  quinto  e  último  tipo  de  conclusão  vem  de  práticas  de  pesquisa  prevalecentes  que  consideram  as
conclusões de um estudo a ocasião para generalizar seus resultados para outras situações além daquela(s)
que fez (fizeram) parte do estudo.
O  Capítulo  4  (Opção  6)  revisou  anteriormente  este  tipo  de  conclusão  descrevendo  um  processo  de
generalização  analítica  que  segue  um  processo  em  duas  etapas.  Definir  um  determinado  conjunto  de
conceitos,  construtos  teóricos,  ou  sequência  hipotética  de  eventos  serve  como  uma  chave  para  esse
processo. Dados esses construtos como o veículo, a primeira destas duas etapas conecta os resultados de
um estudo qualitativo aos construtos, e a segunda então argumenta como os construtos se aplicam a novas
situações  além  daquela(s)  que  foi  (foram)  estudada(s).  Como  anteriormente  indicado  neste  e  em  outros
capítulos deste livro, as duas etapas são ilustradas pela generalização de:

✓ Uma  única  crise  de  mísseis  para  o  modo  de  confrontação  entre  duas  potências  mundiais  em  outras
condições (Allison & Zelikow, 1999);
✓ Experiência  dos  jovens  imigrantes  mexicanos  para  a  experiência  de  “escolarização  subtrativa”  de
outros alunos limitados falantes de inglês (Allison & Zelikow, 1999);
✓ Setor nupcial para a “globalização de uma sociedade de consumo” (Adrian, 2006).
“Confrontação  de  potências  mundiais”,  “escolarização  subtrativa”  e  “globalização”  representam
exemplos dos construtos necessários.
Menos desejável para estudos qualitativos são dois outros tipos de generalização comuns em estudos
qualitativos.  O  primeiro  é  proveniente  dos  métodos  de  levantamento.  Ele  presume  que  um  estudo  se
concentrou deliberadamente em alguma amostra de pessoas, locais ou fatos numericamente conhecidos.
Nesse caso, as conclusões generalizantes vão inferir que os resultados de um estudo se aplicam à toda a
população  ou  universo  dessas  pessoas,  locais  ou  eventos.  Essa  maneira  de  concluir,  chamada  de
generalização estatística e também discutida anteriormente no Capítulo 4 (Opção 6), faz uma contribuição
meramente numérica e não conceitual sobre o significado mais amplo de um estudo. Estudos qualitativos
podem tentar aplicar este tipo de generalização, mas mesmo quando uma amostra de pessoas, locais, ou
eventos foi cuidadosamente selecionada para ser representativa de algum grupo mais amplo, o número de
pessoas,  locais,  ou  eventos  em  um  estudo  qualitativo  provavelmente  será  muito  pequeno  para  justificar
qualquer generalização estatística.
O segundo tipo de generalização menos desejável provém de métodos experimentais. Ele supõe que os
resultados de um experimento podem ser suficientemente replicados em situações semelhantes e que os
resultados podem ser generalizados para outras situações semelhantes. Na metodologia experimental, essa
segunda  maneira  de  generalizar  tem  sido  chamada  de  “validade  externa”  (p.  ex.,  Cook  &  Campbell,
1979). Esse segundo modo de generalizar tem um paralelo na pesquisa qualitativa.
O paralelo ocorre nas ocasiões em que parte ou todo um estudo de pesquisa qualitativa é objeto de uma
tentativa  de  replicação.  Por  exemplo,  dentro  de  um  único  estudo  de  pesquisa  qualitativa,  uma  possível
ocasião para tal replicação poderia ser a realização de um estudo de múltiplos casos, em que dois ou mais
casos  são  selecionados  por  acreditar­se  que  são  semelhantes  (Yin,  2009).  Quanto  mais  semelhantes  os
resultados dos casos, mais uma replicação pode ser reivindicada. Entretanto, a oportunidade de replicar só
pode  existir  quando  se  faz  um  estudo  de  múltiplos  casos,  delineamento  este  que  não  é  frequente  em
pesquisa qualitativa. Os modos mais frequentes de fazer pesquisa qualitativa não apresentarão a mesma
oportunidade.  Por  essa  razão,  esse  segundo  tipo  de  generalização  é  provavelmente  um  modo  menos
desejável de buscar uma conclusão para um estudo qualitativo.
Exercício para os Capítulos 8 e 9: decompondo, recompondo e interpretando dados
autobiográficos

compilação

decomposição

recomposição

1. Em  uma  ou  duas  páginas,  e  citando  pontos  específicos  de  seus  arranjos  (a  partir  do  exercício  no  Cap.  8),
discuta  como  as  experiências  que  você  selecionou  possuem  alguma  coisa  em  comum,  ou  se  eles  se
enquadram  em  alguns  novos  temas  importantes  (e  nesse  caso,  quais  são  eles?).  Se  as  experiências  não
possuem  nada  em  comum  ou  não  se  enquadram  em  novos  temas  importantes,  discuta  por  que  as
experiências tendem a não estar ligadas ou relacionadas umas às outras.
2. Continuando  sua  interpretação  por  mais  uma  ou  duas  páginas,  cite  materiais  ou  arranjos  codificados
específicos  para  sustentar  o  que  você  alega  que  a  autobiografia  pode  revelar  ao  leitor:  “As  pessoas
importantes em minha vida” e “Relações duradouras com diferentes tipos de instituições ou organizações”.
3. Em uma página final, discuta em que medida sua autobiografia é totalmente singular, comparada com uma
que possa fornecer uma base para generalizar para as experiências de outras pessoas.

Exemplo de Estudo 1: um estudo dos convênios entre universidades e escolas


como exemplo para os Capítulos 8 e 9 (parte relativa ao Cap. 9)

Interpretação no Exemplo de Estudo 1
Recorde que os dados recompostos para o Exemplo de Estudo 1, descrito no Capítulo 8, destacaram oito
tipos de atividades envolvendo colaboração entre faculdades e escolas. Durante a fase de interpretação,
uma revisão de literatura foi apresentada como pano de fundo para mostrar que os tipos de atividades que
foram identificadas, com uma exceção, não diferiam das previamente relatadas por outros estudos.
A revisão da literatura também indicou que as diversas colaborações entre faculdades e escolas eram
difíceis de se manter ao longo do tempo porque raramente produziam benefícios mútuos aos parceiros.
Em quase todos os tipos de atividades, ou a faculdade ou as escolas (mas não ambas simultaneamente) se
beneficiavam  (p.  ex.,  prover  treinamento  em  serviço  para  professores  do  ensino  fundamental  e  médio
beneficiava  os  professores,  mas  não  promovia  o  desenvolvimento  profissional  dos  docentes
universitários).  Consequentemente,  as  perspectivas  para  as  parcerias  estudadas,  na  ausência  de
continuação do financiamento externo, pareciam desfavoráveis.
Contudo, na única atividade excepcional, ambos os parceiros pareciam obter algum benefício: quando
treinamento  em  serviço  é  oferecido  como  parte  de  um  curso  universitário  formal  (comparado  com  o
treinamento em serviço típico, que ocorre em oficinas ou escolas de verão ocasionais que não fazem parte
dos programas universitários formais), os professores do ensino fundamental e médio ainda obtêm algum
benefício do treinamento; mas agora, o departamento universitário (e seus docentes) podem se beneficiar
com a expansão do programa e com o crescimento das matrículas no departamento. Essa atividade pode
assim se manter sem uma contínua injeção de fundos externos. A interpretação no Estudo de Exemplo 1,
portanto, explicitou toda essa linha de raciocínio.

Concluindo no Exemplo de Estudo 1
Com base na identificação de um tipo de atividade que pareceu oferecer mútuos benefícios para os sócios
colaboradores  (formação  em  serviço  envolvendo  ofertas  de  cursos  formais  por  departamentos
universitários),  o  Exemplo  de  Estudo  1  concluiu  que  futuras  parcerias  poderiam  ser  autossuficientes  na
medida em que promovessem essa atividade.
As implicações práticas de tal conclusão significaram que as escolas de ensino fundamental e médio no
futuro  poderiam  direcionar  seus  professores  e  recursos  de  formação  em  serviço  para  cursos  de  base
universitária  em  vez  de  promover  a  participação  em  oficinas  e  escolas  de  verão  ocasionais.  Os
professores  das  escolas  poderiam  se  beneficiar  ganhando  educação  substantivamente  mais  rica  em
matemática e ciências (porque, diferentemente dos currículos para oficinas e escolas de verão ocasionais,
os conteúdos de cursos universitários formais precisam ser revistos e aprovados antes de serem listados
pelos departamentos acadêmicos). Os departamentos acadêmicos poderiam se beneficiar, como observado
anteriormente, pela existência de programas mais amplos, com mais matrículas do que existiam sem suas
parcerias com as escolas.

NOTAS
1. Aqueles que poderiam considerar isso uma limitação dos dados qualitativos devem lembrar­se da falta de consenso e das
interpretações totalmente diferentes que emanam de um campo dominado por dados quantitativos – a economia.
2. Como acontece com trabalhos de pesquisa consagrados (quer nas ciências sociais, quer nas naturais), os estudos originais
muitas vezes são submetidos a novos exames. No caso do trabalho de Mead, Coming of Age in Samoa, pesquisadores
posteriores  constataram  que  a  vida  em  Samoa  era  muito  diferente  –  sexualmente  mais  limitada  –  do  que  Mead
representou  (p.  ex.,  Gardner,  1993,  1993, The  great  Samoan  hoax,  Skeptical  Inquirer,  17,  131­35,  como  descrito  em
Reichardt  &  Rallis,  1994b,  p.  7). A  suspeita  dos  pesquisadores  contemporâneos  é  que  o  conhecimento  limitado  do
idioma local por parte de Mead tornou­a vulnerável a ser iludida por seus informantes, que pensaram que a linha de
investigação  da  pesquisadora  sugeria  que  ela  estava  procurando  uma  sociedade  sexualmente  promíscua,  e  assim  os
informantes disseram a ela o que achavam que ela queria ouvir (Reichardt & Rallis, 1994b, p. 7).
3. A  transição  da  economia  agrícola  para  industrial  é  estudada  mais  diretamente  em  um  trabalho  de  continuação  (ver
Middletown in Transition, de Lynd & Lynd, 1937).
4. O livro de Newman tem 376 páginas, sem incluir o índice. Destas, 65 são dedicadas a um extenso conjunto de notas de
rodapé detalhadas, em sua maioria sobre a agenda política e não a pesquisa qualitativa. Desta forma, a autora parece ter
feito extensa pesquisa sobre os temas políticos, transmitindo uma forte impressão de domínio sobre seu pedido de ação.
parte III

Apresentando os
resultados da pesquisa
qualitativa
10
Apresentando dados
qualitativos

Estudos  qualitativos  têm  um  desafio  especial  na  apresentação  de  seus  dados  porque  esses
geralmente  incluem  as  narrativas  dos  participantes.  Os  pesquisadores  possuem  diversas
opções de apresentação, desde o material diretamente ou indiretamente citado até histórias de
vida  ao  longo  de  um  capítulo.  Fazer  o  melhor  proveito  dessas  escolhas  supõe,  em  primeiro
lugar, que os pesquisadores coletaram os dados apropriados – tais como gravar entrevistas em
áudio,  caso  se  pretenda  apresentar  narrações  extensas  com  as  palavras  do  próprio
participante. Afora  os  dados  narrativos,  estudos  qualitativos  também  podem  se  beneficiar  do
uso  de  muitos  tipos  de  apresentações  não  verbais,  tais  como  o  uso  de  recursos  gráficos,
fotografias e reproduções. Alguma versão de quaisquer desses tipos de materiais, narrativos e
não  narrativos,  também  costuma  aparecer  na  forma  de  slides  que  podem  ampliar  as
apresentações  orais  posteriores  de  um  pesquisador  sobre  os  resultados  de  um  estudo.  Este
capítulo  discute  como  proceder  com  todas  as  situações  mencionadas  para  criar  as  versões
mais precisas, mas também atraentes dos dados de um estudo qualitativo.

Dados  qualitativos  são  mais  alfabéticos  do  que  numéricos.  Os  dados  costumam  ser  representados  em
narrativas  ou  em  arranjos  de  dados,  tais  como  os  quadros,  hierarquias,  matrizes  e  outros  tipos  de
diagramas discutidos nos dois capítulos anteriores.
À  primeira  vista,  apresentar  dados  alfabéticos  nestes  formatos  pode  parecer  não  trazer  qualquer
dificuldade. Afinal,  todo  mundo  sabe  como  colocar  palavras  em  uma  folha  de  papel  ou  em  um  slide.
Entretanto,  se  você  trabalhou  com  dados  qualitativos,  as  melhores  escolhas  não  são  facilmente
reconhecíveis.  Se  você  fizer  más  escolhas,  seus  dados  podem  parecer  terrivelmente  tediosos,
verborrágicos, ou demasiado vagos. Este capítulo procura ajudar a evitar esse destino.
Não ignore a seriedade do desafio. Para começar, e ignorando o formato narrativo por um instante, os
arranjos de dados usados anteriormente em sua análise podem não ser a melhor forma de apresentar seus
dados  para  o  propósito  de  se  comunicar  efetivamente  com  sua  audiência.  Embora  os  arranjos  originais
devam  estar  disponíveis  para  inspeção,  lembre­se  de  que  eles  foram  criados  para  sua  própria  análise  e
para  a  porção  (provavelmente  pequena)  de  sua  audiência  que  possa  querer  examinar  ou  verificar  seu
trabalho  analítico.  Entretanto,  os  arranjos  podem  ser  muito  detalhados  ou  extensos  para  aparecerem  no
corpo  principal  de  seu  estudo  final,  muito  menos  como  parte  de  uma  apresentação  de  slides.  Pode  ser
melhor colocá­los em um apêndice ou como parte de outros materiais de apoio.1
Um  pressuposto  seguro  é  que  a  maioria  das  audiências  está  interessada  em  aprender  sobre  seus
resultados e conclusões, bem como adquirir uma noção condensada de seus dados, e os arranjos originais
podem não atender prontamente a esse propósito. Assim, permanece o desafio de como melhor apresentar
dados qualitativos para se comunicar efetivamente com as audiências.
Retornando  ao  formato  narrativo,  a  narrativa  de  um  estudo  irá  conter  suas  próprias  palavras  (como
discutido  integralmente  no  Cap.  11)  –  como,  por  exemplo,  quando  você  interpreta  seus  resultados.
Entretanto, as narrativas também podem ser a ocasião de apresentar dados qualitativos, como abordado
pelo  presente  capítulo.  Este  uso  é  especialmente  importante  porque  a  principal  parte  de  um  estudo
qualitativo  pode  ser  baseada  em  uma  investigação  narrativa,  oferecendo  aos  participantes  a  chance  de
fazerem relatos detalhados de suas experiências, incluindo as histórias de sua vida ou suas biografias (p.
ex., Labov & Wiletsky, 1997; Murray, 2009).
Como  mínimo,  um  tipo  comum  de  narrativa  tomaria  a  forma  de  citações  e  trechos  parafraseados,
representando  as  descrições  dos  participantes  do  estudo  de  suas  próprias  vidas,  ações  e  opiniões.  Em
pesquisa  qualitativa,  mesmo  essas  descrições  mais  breves  servem  como  um  importante  tipo  de  dados.
Como seria de esperar, as escolhas sobre como apresentar essas narrativas são mais do que uma questão
de estilo literário. Questões metodológicas também são relevantes. Contudo, esse tipo de narrativa – quer
curta quer comprida – não recebeu muita atenção nos manuais disponíveis para fazer pesquisa qualitativa.
Este  capítulo,  portanto,  se  concentra  em  como  você  pode  querer  apresentar  os  dados  de  seu  estudo.
Primeiramente  no  item A  discutem­se  as  formas  narrativas  de  apresentar  os  dados  dos  participantes.  O
item B então analisa como quadros ou figuras – tais como tabelas, elementos gráficos e quadros – podem
aparecer  em  seu  estudo  final.  Por  fim,  o  item  C  dá  especial  atenção  à  conversão  desses  materiais  em
slides para acompanhar uma apresentação oral que você poderia fazer.

A. DADOS NARRATIVOS SOBRE OS PARTICIPANTES EM UM


ESTUDO QUALITATIVO

O que você deve aprender nesta seção:

Quase todos os estudos qualitativos conterão informação sobre as ações e atitudes dos participantes. Quer
essas  pessoas  sejam  identificadas  por  nome  quer  por  pseudônimo,  elas  serão  uma  parte  central  de  um
estudo qualitativo. Seu estudo pode ser sobre uma coletividade de pessoas, tal como um pequeno grupo,
uma cultura, ou um processo coletivo, como uma campanha política. Nestas configurações de grupo, um
ingrediente essencial do estudo irá, em algum ponto, incluir informações narrativas sobre um ou mais dos
indivíduos  que  fazem  parte  ou  participam  de  um  pequeno  grupo,  cultura,  ou  processo  coletivo. Assim,
todo  estudo  qualitativo  tende  a  coletar  dados  sobre  determinadas  pessoas  e  relatar  alguma  coisa  sobre
suas percepções, aspirações, crenças ou comportamentos.
Em pesquisa quantitativa, uma estratégia típica seria coletar dados numéricos e apresentar estatísticas
sobre  características  coletivas  dos  indivíduos,  tais  como  a  composição  familiar  das  pessoas  que  moram
em um bairro que está sendo estudado, os comportamentos entre diferentes grupos etários (p. ex., taxas de
abuso  de  substâncias  entre  adolescentes)  ou  as  características  demográficas  (p.  ex.,  origens  étnicas  e
gêneros)  das  pessoas  de  uma  organização.  Você  pode  usar  estatísticas  semelhantes  como  característica
básica para seu estudo qualitativo, mas a essência de seu estudo seria o foco em pessoas específicas em
seus ambientes da vida real, não em perfis estatísticos. Igualmente importante, você pode querer retratar
os eventos da vida real a partir das perspectivas dos participantes. Sua narrativa poderia então apresentar
as vozes deles por meio da utilização de material extensamente citado.
Ainda que os estilos difiram, todo mundo sabe escrever e apresentar esse material. Menos óbvio é que
você  dispõe  de  várias  opções  para  fazer  essas  narrativas.  Elas  podem  ser  mais  curtas  ou  mais  longas  e
podem  conter  passagens  limitadas  ou  extensamente  citadas.  Como  as  opções  não  são  mutuamente
excludentes,  você  pode  usar  todas  elas.  Entretanto,  cada  uma  exigirá  diferentes  quantidades  de  dados.
Cada uma também exigirá registros de campo com diferentes níveis de detalhamento. As opções a seguir
são organizadas de acordo com sua extensão e complexidade, as mais curtas e mais simples aparecendo
primeiro.

Intercalando passagens citadas dentro de parágrafos selecionados


A  apresentação  mais  curta  sobre  pessoas  geralmente  ocorre  quando  as  palavras  citadas  por  um  dos
participantes de um estudo aparecem como parte de todo o fluxo narrativo de um estudo. A narrativa de
Elliot  Liebow  (1993)  sobre  moradoras  de  rua  fornece  um  bom  exemplo.  O  excerto  provém  de  sua
discussão  mais  ampla  das  relações  das  moradoras  de  rua  com  suas  famílias  (p.  114);  as  palavras  do
participante aparecem em itálico:

“Era a mesma pessoa quando estava sem moradia” “Não mudei, foi apenas minha
situação que mudou. Agora tenho minha casa e minhas coisas. Essa é a única diferença.”

A mesma abordagem de inserir um diá logo citado em um texto narrativo pode ser usada para capturar a
interação  entre  duas  ou  mais  pessoas.  Passando  a  noite  no  abrigo,  o  que  ele  fez  muitas  vezes,  Liebow
registrou essas interações como no seguinte exemplo em que ele escreve (p. 132):

“Não se esqueça de se lavar


“Tenho 53 anos de idade!” “Tenho filhos mais velhos do que
você e não preciso que você me diga para me lavar antes de ir me deitar
Em ambos os exemplos anteriores, as passagens citadas são curtas. A combinação da própria narrativa
do  autor  intercalada  com  as  passagens  citadas  produz  um  estilo  de  apresentação  fácil  e  atrativo.  Você
pode imaginar que uma sequência prolongada deste tipo de escrita pode induzir no leitor a realidade da
cena no abrigo e mesmo a sensação de fazer parte daquela cena.
A  brevidade  dos  materiais  citados  também  corresponde  com  os  métodos  de  trabalho  de  campo  do
autor. Nessas ocasiões específicas, em vez de usar um gravador, ele fez breves anotações. Posteriormente,
ele  digitou  essas  notas  e  as  combinou  com  suas  próprias  recordações  em  seu  escritório  todos  os  dias.
Liebow comenta (1993, p. 322­323) sobre o procedimento da seguinte maneira:

Em outras ocasiões, Liebow gravou entrevistas mais longas que levaram ao desenvolvimento de vinte
histórias  de  vida.  Elas  aparecem  no  apêndice  do  livro.  (As  histórias  de  vida  são,  em  sua  maioria,
narrações do autor, também intercaladas com citações da moradora de rua no estudo.)
Outros estudiosos qualitativos respeitam e praticam uma distinção semelhante entre diálogos citados e
parafraseados,  embora  possam  estabelecer  um  limite  entre  as  duas  situações  ligeiramente  diferentes.
Alguns,  como  Ruth  Sidel  em  seu  estudo  de  mães  solteiras,  seguem  a  prática  de  Liebow,  sentindo­se
seguros para usar citações diretas em função de sua destreza para tomar notas e regimes de transcrição
todas  as  noites  (Sidel,  2006,  p.  15),  mesmo  quando  as  conversas  não  foram  gravadas.  Outros,  como
Mitchell Duneier em seu estudo do papel dos vendedores de rua na vida nas calçadas da cidade de Nova
Iorque,  só  utilizarão  citações  quando  uma  conversa  tiver  sido  gravada;  do  contrário,  citações  indiretas
serão usadas (Duneier, 1999, p. 13).

Usando apresentações mais extensas, abrangendo múltiplos parágrafos


O  desafio  de  apresentar  informações  sobre  os  indivíduos  de  seu  estudo  –  e  especialmente  citar  suas
próprias  palavras  –  torna­se  maior  se  seu  estudo  apresenta  material  mais  extenso  desses  indivíduos. A
necessidade de maior cobertura pode surgir por pelo menos duas razões.
Primeiro, uma determinada pessoa ou pessoas podem ter uma circunstância de vida pouco usual que
desempenha um papel importante em todo o estudo. Segundo, uma cena ou significado significativo pode
se estender por um prolongado período de tempo, diferente das interações mais breves abordadas pelos
exemplos do estudo de Liebow. Cada uma dessas circunstâncias exigiria material sobre um indivíduo que
poderia se estender por múltiplos parágrafos, se não páginas, de sua narrativa.
Se  você  não  previu  essas  necessidades  ou  oportunidades  como  parte  de  seu  delineamento  de  estudo
inicial, você terá que considerar retornar a seus participantes para coletar mais dados deles, palavra por
palavra  ou  não,  e  depois  ampliar  sua  base  de  dados.  Essa  revelação  é  outra  razão  para  permitir  uma
sobreposição deliberada entre a fase de coleta de dados e de análise de dados de seu estudo.
Em  outras  situações,  como  parte  de  sua  planejada  coleta  de  dados,  você  pode  ter  deliberadamente
decidido limitar a uma maior profundidade de cobertura a alguns participantes, ainda que tenha coletada
quantidades menores de dados de todos os participantes. Por exemplo, você pode ter iniciado seu estudo
com um delineamento em dois níveis – algumas pessoas fazendo parte de seu estudo por períodos mais
longos de tempo e em muitas situações da vida real, e outras pessoas incluídas ou entrevistadas apenas
durante  períodos  de  tempo  mais  curtos.  Esse  padrão  em  dois  níveis  também  oferece  uma  abordagem
viável (ver “Coletando material em profundidade sobre um subgrupo de pessoas de um estudo”, Quadro
10.1).
Coletando material em profundidade sobre um subgrupo de pessoas de um estudo

Como outra variação, seu estudo poderia ter focado em um grupo menor de pessoas – como no estudo
de  Valdés  (1996)  de  10  famílias  de  imigrantes  (consulte  também  o  Quadro  10.3).  Os  diálogos  citados
relatados por Valdés – geralmente de meia página de extensão – são especialmente convincentes, porque
são  apresentados  tanto  na  língua  espanhola  original,  usada  nas  entrevistas,  quanto  em  sua  tradução
inglesa.  Leitores  familiarizados  com  o  espanhol  têm  assim  a  escolha  de  decifrar  por  si  o  significado
original dos diálogos ou fiar­se nas traduções inglesas.
Com  qualquer  dessas  variações,  seu  contato  pessoal  com  os  participantes  em  seu  estudo  também
significa  que  você  terá  passado  bastante  tempo  com  eles,  seja  entrevistando,  participando,  seja
observando. Normalmente, quando uma abordagem em profundidade é empregada, os autores de estudos
qualitativos  relatam  que  passaram  tempo  nos  lares  de  seus  informantes,  participaram  de  eventos
comunitários e familiares e estiveram envolvidos em outras situações como um observador­participante.
Essas apresentações mais extensas ainda contêm uma mistura das descrições em terceira pessoa feitas
pelo  pesquisador  intercaladas  com  diálogos  citados  ou  parafraseados.  Ao  relatarem  uma  experiência
como observador­participante, os pesquisadores também podem ter que escrever sobre si mesmos como
em uma autoetnografia, e esses escritos geralmente serão em primeira pessoa. Um estilo menos frequente
é o de pesquisadores se referirem a si mesmos na terceira pessoa ao relatarem esses diálogos, como faz
Circe Sturm (2002) em seu estudo da política racial na nação Cherokee no nordeste de Oklahoma.

Fazendo apresentações de um capítulo de extensão sobre os participantes de


um estudo
Um desafio ainda maior ocorre quando a situação de vida de um único participante é tão importante que
um capítulo inteiro é dedicado ao relato sobre aquela pessoa.
O estudo de Anderson (1999) do “código das ruas”, ou da vida nos bairros decadentes, conclui dessa
maneira  em  seus  dois  capítulos  finais.  Cada  capítulo  é  dedicado  ao  principal  tema  de  estudo,  o  qual
aborda de que maneira os jovens afro­americanos sentem­se encurralados “na tensão básica entre a rua e
o mundo digno mais convencional dos empregos legítimos e das famílias estáveis” (p. 285). O penúltimo
capítulo  destaca  uma  pessoa  que  não  foi  capaz  de  superar  essa  tensão,  ao  passo  que  o  capítulo  final
mostra o esforço e a capacidade de adaptação de outra pessoa que parece lidar melhor com a tensão.
Nesses  dois  capítulos,  Anderson  facilmente  oscila  entre  suas  descrições  de  cada  participante  em
terceira pessoa e citações extensas de suas próprias palavras. A capacidade do autor de misturar esses dois
modos reflete uma mistura de métodos de campo. Eles incluíram (1) extensa observação­participante (por
exemplo,  ele  acidentalmente  encontrou  uma  das  pessoas  em  um  restaurante  que  ele  frequentava
regularmente como parte de sua rotina diá ria de campo, e ele posteriormente tentou encontrar advogados
e empregos para essa pessoa durante um período de tempo de vários anos), combinada com (2) inúmeras
conversas informais, bem como registros de áudio de algumas (mas não todas) as suas interações com as
duas pessoas (1999, p. 237­238).
Um  exemplo  relacionado  surge  quando  um  estudo  não  apenas  dedica  um  capítulo  inteiro  a  um
participante, mas também se estende sobre as opiniões e a voz da pessoa, em vez de usar descrições em
terceira pessoa, feitas pelo pesquisador. Tal apresentação requer extensas gravações das conversas com o
participante,  seguidas  por  análises  completas  das  transcrições  resultantes.  Para  tornar  o  material
apresentável,  o  pesquisador  pode  ter  que  editar  e  reordenar  as  passagens  transcritas  –  mas  esse
procedimento precisa ser seguido com o máximo de cuidado, para evitar a reimposição da perspectiva do
pesquisador sobre o material que aparecerá como parte do estudo final.
Possivelmente o mais conhecido desse tipo de abordagem é oriundo dos trabalhos de Oscar Lewis. Um
deles, The children of Sanchez (1961), é inteiramente baseado nas palavras dos cinco integrantes de uma
família  mexicana  (ver  “Um  estudo  baseado  inteiramente  nas  vozes  das  pessoas  que  foram  estudadas”,
Quadro  10.2).  Outro,  o  premiado  La  Vida  (1965),  apresenta  uma  única  família  porto­riquenha  em  um
livro de quase 700 páginas.

Um estudo baseado inteiramente nas vozes das pessoas que foram estudadas

La vida: uma família porto-riquenha na cultura da pobreza San Juan e Nova Iorque

Apresentando informações sobre diferentes participantes sem focar na


história de vida de nenhum deles
Uma  abordagem  mais  complexa  e  totalmente  diferente  aparece  quando  o  propósito  de  um  estudo
qualitativo  é  examinar  questões  intercruzadas,  e  não  as  histórias  da  vida  de  determinadas  pessoas  ou
famílias.  A  narrativa  ainda  inclui  misturas  de  citações  e  diálogos  com  certos  participantes,  mas  os
mesmos  indivíduos  não  são  necessariamente  rastreados  de  uma  questão  para  a  outra  (ver  “Citando  as
experiências e palavras de diferentes pessoas, sem compilar uma única história de vida”, Quadro 10.3).

Citando as experiências e palavras de diferentes pessoas, sem compilar uma única história de
vida

Ver também Quadro 6.9.

Uma variação atraente é ilustrada pelo estudo de Liebow (1993). À medida que o texto principal passa
de um tema para outro, ele remete às experiências dos diferentes participantes, conforme a relevância e
compatibilidade de suas experiências com o assunto. O leitor pode então aprender mais sobre o contexto e
as circunstâncias gerais de cada participante consultando as 20 histórias de vida que aparecem no final do
livro. Como consequência deste arranjo, o leitor pode, se quiser, ir e vir entre o texto e as histórias de vida
para entender o contexto mais completo das interações dos participantes mencionadas no texto.
Ao organizar uma narrativa dessa forma, as vozes dos participantes de um estudo não são apresentadas
com profundidade. Embora suas percepções e opiniões sobre temas específicos tenham sido preservadas,
o  objetivo  geral  é  chamar  a  atenção  para  os  temas  e  questões,  não  para  as  pessoas.  Essa  abordagem
interpessoal não deve ser confundida com uma estratégia composicional totalmente diferente, indesejável
do  ponto  de  vista  metodológico,  quando  os  autores  podem  criar  uma  pessoa  compósita,  mas  fictícia,
integrando as experiências de diferentes pessoas reais. Nessa última situação, hoje raramente praticada, a
pessoa compósita é apresentada como se fosse uma pessoa real.

B. APRESENTAÇÕES TABULARES, GRÁFICAS E PICTÓRICAS

O que você deve aprender nesta seção:


Muitos, se não a maioria, dos estudos qualitativos limitam­se a apresentações narrativas abordando todas
as  questões,  fenômenos  e  eventos  que  foram  estudados.  Como  discutido,  essas  apresentações  também
podem incluir descrições individualizadas dos participantes de um estudo, quer apresentadas na terceira
pessoa, quer em extensões variáveis na primeira pessoa.
Ao  mesmo  tempo,  alguns  estudos  qualitativos  engrandecem  suas  narrativas  com  outras  formas  de
apresentação  que  aparecerão  em  quadros  ou  figuras,  incluindo  tabelas  (e  listas),  elementos  gráficos  e
fotografias.  Cada  alternativa  apresenta  uma  oportunidade  distintiva  para  apresentar  os  dados,
possivelmente tornando­os mais compreensíveis do que quando limitados a apenas descrições narrativas.
As outras formas também podem criar imagens na mente do leitor para tornar o estudo mais vívido. Ao
apresentar  os  dados  de  seu  próprio  estudo  qualitativo,  você  pode,  portanto,  querer  considerar  essas  e
outras formas além de apresentar os dados em um formato narrativo.
A Tabela  10.1  apresenta  as  três  formas  de  apresentação  juntamente  com  exemplos  ilustrativos.  Cada
forma é discutida nos parágrafos decorrentes.

Três maneiras de apresentar dados qualitativos

Tipo de exibição Exemplo ilustrativo

Tabelas e listas
de palavras Resumo dos resultados, colocados em uma matriz de linhas e colunas
Cronologia
Características agregadas de pessoas estudadas ou entrevistadas
Lista de pessoas de um estudo e suas características de estudo (não necessariamente
são as características demográficas rotineiras)

Elementos
gráficos Mapa geográfico; mapa de áreas censitárias
Plano espacial de uma área de estudo
Diagrama hierárquico (p. ex., organograma)
Fluxograma (p. ex., sequência de eventos em uma linha de tempo)
Árvores genealógicas e outros esquemas

Imagens
Fotografias
Reproduções (p. ex., de trabalhos artísticos ou de desenhos ou fotos feitas por outras
pessoas)

Tabelas e listas
As tabelas geralmente representam duas dimensões: linhas e colunas. Tabelas multidimensionais são mais
complexas,  mas  também  seguem  princípios  de  apresentação  semelhantes. A  característica  distintiva  de
tabelas  em  estudos  qualitativos  é  que  elas  tendem  a  consistir  de  palavras,  não  de  números  (ver  Cap.  8,
item C). Essas tabelas costumam ser chamadas quadros.
Também  mencionado  no  início  deste  capítulo,  comunicar­se  efetivamente  com  suas  audiências  pode
requerer tabelas e arranjos diferentes daqueles que você usou para fazer sua análise. Menos evidente para
muitos pesquisadores é que as tabelas desejáveis tendem a ser mais curtas e menos detalhadas do que as
usadas na análise.
As tabelas desejadas também devem ter um título informativo, mas sucinto (possivelmente declarando
a  interpretação,  e  não  apenas  o  tema  de  uma  tabela,  com  algumas  palavras  selecionadas),  e  claras
estruturas  de  títulos  de  linhas  e  colunas  (incluindo  sub­linhas  e  subcolunas  se  pertinente).  Os  leitores
devem poder examinar as tabelas com facilidade, derivando as relações­chave entre as linhas e as colunas
e  rapidamente  interpretando  as  informações  nas  células  de  uma  tabela  (ver  “Usando  os  quadros  para
sintetizar um resultado analítico”, Quadro 10.4 e Tab. 10.2).

Usando quadros para sintetizar um resultado analítico

status quo

Ver também Quadro 10.5.

Variações entre tipos de domicílios (acompanha o Quadro 10.4)

Fatores de formação

Tipos de Padrão de
famílias imigração Relação com o mercado de trabalho Esquema para cuidar das crianças

Tradicional
Os homens Os homens têm alto status As mulheres ficam em casa
são os As mulheres têm baixo ou o mesmo status As crianças ficam em Kerala
principais com parentes ou em
imigrantes internatos

Participação
Forçada As mulheres As mulheres têm alto status Os homens são obrigados a
são as Os homens têm menos status em relação a participar
principais seus empregos na Índia e aos empregos de Os casais trabalham em
imigrantes suas esposas nos Estados Unidos turnos alternados
Algum auxílio no cuidado das
crianças é oferecido nos
crianças é oferecido nos
Estados Unidos ou em
Kerala.

Parceria
As mulheres As mulheres têm alto status Os homens participam
são as Os homens têm menos status em relação a Os casais trabalham em
principais seus empregos na Índia e aos empregos de turnos alternados
imigrantes suas esposas nos Estados Unidos Existe pouco auxílio externo

Liderada
pela mulher As mulheres As mulheres têm alto status As mulheres geralmente não
são as Os homens são ausentes, não ativos, ou recebem ajuda
principais têm baixo status Parentes e a comunidade
imigrantes proveem alguma ajuda

Fonte:

Uma lista  pode  ser  considerada  uma  versão  de  uma  coluna  de  uma  tabela,  com  qualquer  número  de
linhas.  Listas  também  podem  ser  úteis  na  apresentação  de  dados.  Por  exemplo,  se  seu  estudo  tem  uma
sequên cia  importante  de  eventos  no  tempo,  você  pode  colocar  os  eventos  em  ordem  cronológica  como
parte de uma lista. Os leitores poderiam examinar a lista inteira. Eles talvez possam seguir a cronologia
com  mais  facilidade  do  que  se  você  tivesse  inserido  a  mesma  sequência  como  parte  de  seu  texto
narrativo.
Para  muitos  estudos  qualitativos,  tanto  tabelas  como  quadros  podem  tratar  das  características  dos
participantes. As características podem ser relatadas em termos agregados – por exemplo, referindo­se ao
grupo  de  participantes  do  estudo  como  um  todo,  tal  como  sua  idade  média,  a  porcentagem  em  cada
gênero  e  a  distribuição  de  especialidades  de  emprego.  Cable,  Shriver  e  Mix  (2008)  usaram  uma  tabela
desse tipo para apresentar essas características em relação aos participantes que tinham sido entrevistados
como  parte  de  seu  estudo  (p.  387).  A  tabela  poderia  ainda  comparar  dois  grupos  diferentes  de
participantes – por exemplo, os que haviam participado de uma pesquisa de levantamento e os que tinham
participado de um trabalho de campo etnográfico mais intensivo (p. ex., Moore, 2008, p. 342).
Uma situação mais delicada surge se a lista apresenta as características dos participantes individuais,
em  vez  de  agrupá­las.  Por  exemplo,  um  estudo  de  homens  e  mulheres  americanos  árabes  listou  38
participantes individuais por pseudônimo e também forneceu dados demográficos detalhados sobre cada
pessoa  (Read  &  Oselin,  2008,  p.  305).  Esse  tipo  de  lista  individualizada  pode  ocasionalmente  ser
encontrado também em outros estudos. Por exemplo, esses estudos incluem:

✓ os 54 entrevistados em Stone, 2007;
✓ os 25 grupos de foco e sua composição em Valenzuela, 1999; e
✓ as  tabelas  que  enumeram  as  características  dos  pais  específicos  no  estudo  de  10  famílias  de Valdés
(1996).

Algumas  dessas  listas,  mesmo  usando  pseudônimos,  têm  o  risco  de  tornar  os  participantes
identificáveis e devem ser rejeitadas a menos que o risco de tal identificação tenha sido acordado com os
participantes.
Quando a questão do anonimato foi abordada de maneira adequada, listar as pessoas que fizeram parte
de  um  estudo  é  desejável  e  pode  permitir  que  os  leitores  adquiram  uma  noção  muito  mais  forte  de  um
estudo e seus dados. Por exemplo, as características pertinentes das pessoas podem refletir diretamente o
tema  de  estudo,  não  apenas  as  dimensões  demográficas  típicas  (ver  “Listando  informações  sobre  as
pessoas de um estudo”, Quadro 10.5).
Listando informações sobre as pessoas de um estudo

Ver também Quadro 10.4.

Elementos gráficos
Os  recursos  gráficos  incluem  qualquer  tipo  de  desenho,  esquema  ou  trabalho  manual.  Esse  tipo  de
apresentação oferece numerosas oportunidades para exibir dados qualitativos.
De  especial  relevância  para  muitos  estudos  qualitativos  é  o  uso  de  recursos  gráficos  para  esclarecer
relações espaciais. Um mapa bem escolhido ou a composição visual de um local de estudo pode orientar
os leitores melhor do que qualquer descrição narrativa do local. Por isso, é frequente a utilização desses
mapas e diagramas para complementar as descrições narrativas. Essa prática tem maior relevância quando
um estudo qualitativo se concentra em uma área geográfica, como, por exemplo, um bairro. Por exemplo,

✓ Sharman (2006) estudou os diversos grupos culturais em um único bairro da cidade de Nova Iorque.
Do lado oposto ao da página de título de seu livro, ele fez uma introdução a todo o seu texto com um
mapa  esquemático das quadras  e pontos de referência do  bairro.  O  mapa  forneceu aos  leitores uma
imagem visual das relações espaciais dentro de seu ambiente de campo.

Mapas também podem ser relevantes mesmo quando o foco de um estudo não é uma área geográfica.
Por exemplo, estudos de grupos imigrantes podem representar as regiões de origem dos imigrantes. Os
mapas podem ser completos ou esquemáticos e são especialmente úteis quando as regiões se encontram
em partes menos conhecidas do mundo. Bons exemplos são:

✓ o leste da Espanha junto ao Mar Mediterrâneo (Narotzky & Smith, 2006, mapa em frente à p. 1);
✓ a região sul do México que se estende ao longo da Costa do Pacífico.
Os mapas também podem orientar os leitores em áreas metropolitanas complexas, tais como a região
de cinco municípios ao redor de Los Angeles (Waldinger & Lichter, 2003, p. 27).
Da  mesma  forma,  estudos  usaram  mapas  de  áreas  censitárias  –  e,  portanto,  dados  censitários  –  para
mostrar a distribuição dos diferentes grupos populacionais relacionados ao tema de estudo (p. ex., Edin &
Kefalas, 2007, p. 15, 17­18; Smith, 2006, p. 31­33).
Mapas podem também ser históricos, como em um estudo que mostrou as relações geográficas entre
dois  grupos  étnicos  do  leste  europeu  em  1910,  um  prelúdio  para  o  estudo  mais  contemporâneo  das
relações dos grupos (Brubaker et al., 2006, p. 31).
Além  de  mapas,  áreas  censitárias  e  mapas  históricos,  os  recursos  gráficos  podem  tratar  de  uma
variedade mais ampla de temas mais abstratos, tais como:

✓ o fluxo dos eventos ao longo do tempo (p. ex., fluxogramas);
✓ relações hierárquicas (p. ex., organogramas);
✓ árvores genealógicas e
✓ Relações  conceituais  (p.  ex.,  diagramas  de  Venn  mostrando  a  sobreposição  e  não  sobreposição  de
conjuntos de dados importantes).

Com  suficiente  habilidade  artística,  praticamente  qualquer  esquema  pode  ser  graficamente
representado. A principal limitação é sua própria imaginação, mais a possível necessidade de encontrar
alguém que possa fazer um desenho ou um mapa de maneira precisa e atraente. Feitos adequadamente,
contudo, os recursos gráficos podem dar vida a um estudo qualitativo e seus dados.

Fotografias e reproduções
Estas  representam  uma  terceira  forma  de  apresentação  de  dados  qualitativos. As  fotografias  podem  ser
dos  participantes  ou  dos  lugares  de  um  estudo  ou  de  outros  artefatos  e  características  do  ambiente
relevantes. Muitos dos estudos qualitativos citados neste livro fazem uso frequente de fotografias (p. ex.,
Adrian, 2003; Bourgois, 2003; Brubaker et al., 2006; Duneier, 1999; Lee, 2009; Pedraza, 2007; Rabinow,
2007; Sharman, 2006; Smith, 2006).
Dado o uso muito frequente de fotografias na vida cotidiana, inclusive o fato de que qualquer pessoa
com um telefone celular pode ser um fotógrafo, as audiências de hoje tornaram­se consumidores cada vez
mais  perceptivos  da  boa  fotografia.  Os  estudos  que  usam  fotografias  devem,  portanto,  estabelecer  altos
padrões  de  qualidade  para  as  fotografias  –  em  termos  técnicos  (p.  ex.,  iluminação,  foco  e  tamanho  da
imagem)  e  em  composição  artística.  Também  deve­se  ter  cuidado  ao  decidir  se  as  fotografias
originalmente  brilhantes  e  coloridas  ficarão  bem  reproduzidas  no  formato  opaco  e  preto  e  branco
geralmente  exigido  pela  maioria  das  publicações  acadêmicas.  As  fotografias  também  devem,
evidentemente, ser bem escolhidas para refletir uma faceta central de um estudo e seu contexto.
Fotografias  ruins  podem  ter  um  reflexo  negativo  sobre  um  estudo  e  sobre  a  deduzida  qualidade  do
resto do estudo. Boas fotografias podem dar sentido ao aforisma, usado excessivamente, mas interessante,
de  valer  por  mil  palavras  (ver  “Fazendo  bom  uso  de  fotografias  como  parte  de  estudos  qualitativos”,
Quadro 10.6). Além de aparecerem em livros, fotografias também podem aparecer nas principais revistas
contemporâneas.  Por  exemplo,  como  elemento  fundamental  de  um  estudo  sobre  as  interações  que
ocorrem  nas  ruas,  o  artigo  de  Lee  (2009)  incluiu  17  fotografias  organizadas  em  cinco  conjuntos  de
interações, mostrando os gestos e posturas das pessoas.
Fazendo bom uso de fotografias como parte de estudos qualitativos

Ver também Quadro 7.3.

As  reproduções  são  semelhantes  às  fotografias  porque  são  cópias  de  algum  trabalho  pictórico  já
disponível. Elas podem ser cópias de obras de arte, de desenhos e de fotografias antigas produzidas por
outras pessoas. Elas também podem representar artefatos, tais como fotografias das páginas do diário de
uma pessoa; um mapa antigo, um uniforme ou estilo de vestimenta; ou quaisquer outros itens relevantes
para um estudo qualitativo.
A  diferença  entre  uma  reprodução  e  as  fotografias  recém­discutidas  é  que  você  é  o  criador  de  uma
fotografia, ao passo que uma reprodução é uma cópia do trabalho de outra pessoa, inclusive a reprodução
das fotografias feitas por outra pessoa. Citar a fonte do trabalho é, portanto, um aspecto importante do uso
correto de reproduções. Como no caso das fotografias, quaisquer reproduções adicionadas à narrativa de
um  estudo  devem  ser  apresentadas  da  maneira  mais  atrativa  possível,  tanto  em  termos  de  qualidade
técnica da reprodução, quanto de composição e centralidade do assunto.

C. CRIANDO SLIDES PARA ACOMPANHAR APRESENTAÇÕES ORAIS

O que você deve aprender nesta seção:

slides
slides slides
slides

Em teoria, qualquer dos materiais discutidos neste capítulo, incluindo pequenas partes de narrativa, tais
como citações breves, podem aparecer como slides que podem acompanhar uma apresentação oral de um
estudo  qualitativo.  Existem  programas  de  computador  que  permitem  converter  facilmente  qualquer
material em formato de slide.
Mas, qualquer conjunto de slides vai servir? Pense nas ocasiões em que você assistiu a apresentações
em  reuniões  profissionais.  Quantas  vezes  as  informações  nos  slides  eram  muito  pequenas  ou  apagadas
para serem facilmente lidas e reconhecidas? O apresentador leu o que estava nos slides, usando­os como
roteiro para sua apresentação? Os slides lhe impressionaram de alguma maneira – por exemplo, deixando
em você uma imagem visual da essência dos resultados do estudo?
Slides bons e efetivos não são difíceis de produzir, mas os apresentadores podem não levar em conta as
opções de que dispõem. As páginas a seguir contêm algumas dicas que você pode considerar ao preparar
seus slides.

Arte em : diferente da arte para apresentações em impressos


A  primeira  dica  é  que,  sem  alguns  retoques,  o  mesmo  item  que  serviu  bem  no  formato  impresso
provavelmente  não  poderá  ser  usado  em  slide  sem  algumas  alterações  de  formatação.  Observe  que  os
leitores  podem  examinar  detalhadamente  os  quadros  em  uma  publicação  escrita  por  um  período
indefinido  de  tempo.  Em  contraste,  uma  audiência  vê  um  slide  apenas  brevemente  (geralmente  uns
minutos), com os comentários do apresentador produzindo uma potencial distração.
Consequentemente, você pode ver por que os slides devem de preferência conter menos  informações
do  que  seus  equivalentes  impressos.  Em  comparação  com  impressos,  slides  precisam  usar  uma  fonte
tipográfica maior, serem conceitualmente mais simples e mais facilmente compreensíveis. Por exemplo,
bons quadros de dados para uso impresso podem ter notas de rodapé de esclarecimento, mas essas não
aparecerão bem em um slide. Assim, de um ponto de vista prático, você vai precisar retocar a arte dos
quadros para convertê­los em slides comunicáveis.
Uma dica subjetiva é que quando você transfere seus slides  para  uma  folha  de  papel,  eles  devem  de
preferência parecer um pouco grandes demais – como se fossem um “superestímulo” para seus olhos. Os
slides quando impressos parecerão muito “fortes”. Inversamente, os melhores quadros parecerão obscuros
demais ou “apagados” quando se tenta convertê­los em slides sem retocá­los.
Como  orientação  geral,  e  especialmente  se  você  estiver  falando  para  audiências  sentadas  a  certa
distância da tela, procure usar fontes de 18 pontos ou maiores em seus slides. (Lembre­se de que os slides
precisam  ser  vistos  pelas  pessoas  sentadas  à  maior  distância,  e  não  à  distância  mediana,  de  sua  tela.)
Ironicamente, não tenha receio de criar slides  com  as  margens  mais  estreitas  possível,  porque  a  porção
externa vazia da tela, que um slide projetado não cobre totalmente, acrescentará mais margem quando os
slides forem exibidos por meio de um projetor.
Dados os detalhes anteriores, você pode chegar até 15 linhas de texto facilmente visíveis (incluindo os
espaços entre as linhas) em um slide. Entretanto, raramente será necessário usar tantas linhas. Na maioria
dos casos, um slide assim terá informações demais para serem absorvidas pela audiência.

apenas com palavras (“ de texto”)


O tipo mais básico de slide pode conter apenas palavras. Por exemplo, palavras podem aparecer em seu
primeiro slide, apresentando uma série de itens numerados que descrevem os temas que você vai abordar
em  sua  apresentação.  Inversamente,  palavras  podem  aparecer  ao  final  de  sua  apresentação,  capturando
sua(s) principal(is) conclusão(ões).
Ao  apresentarem  tais  textos,  muitos  oradores  colocam  palavras  demais  em  um  slide.  Em  vez  de
identificarem as palavras ou frases essenciais para comunicar uma ideia, o slide apresenta uma sentença
inteira – ou, ainda pior, um parágrafo inteiro (ainda que curto). O orador então passa a “ler” o slide em
voz alta, como se o slide estivesse servindo de roteiro para aquela parte da apresentação oral.
Se  você  pretende  colocar  palavras  em  um  slide,  limite­as  às  principais  palavras,  dísticos  (p.  ex.,
dísticos  de  adjetivo  +  substantivo  ou  verbo  +  substantivo),  locuções  ou  fragmentos  de  sentenças  que
representem  a  essência  de  suas  observações.  Seu  objetivo,  preparando  tais  slides,  é  fazer  as  audiências
lembrarem­se das principais palavras, dísticos, locuções ou fragmentos de sentença como sinais mentais
para se recordarem de seus comentários mais completos.

Aproveitando o formato livre dos


Colocar linhas de texto em um slide, independentemente do número que couber, não seria, contudo, o uso
mais  vantajoso  dos  slides.  Melhor  seria  preencher  o  espaço  em  branco  de  um  slide  com  tabelas,
elementos  gráficos  e  materiais  pictóricos  discutidos  anteriormente  neste  capítulo.  Muitas  das
apresentações orais mais atraentes prescindem do uso de slides de palavras.
Por  exemplo,  mesmo  uma  matriz  de  dois  por  dois  pode  ser  difícil  de  descrever  oralmente.  Um  slide
pode realizar a mesma função que um quadro e prontamente comunicar essa relação. A Figura 10.1 é de
um estudo da escolha de escola – uma política cada vez mais popular em que os alunos podem escolher
entre  as  escolas  públicas,  em  vez  de  serem  designados  para  elas.  O  quadro  destaca  as  diferentes
combinações de qualificação produzidas por uma matriz de dois por dois. Uma vez estabelecida a relação,
o orador pode apresentar oralmente mais detalhes sobre os conteúdos da matriz.

FIGURA 10.1
Matriz ilustrativa de 2x2.

Um modo mais criativo de apresentar conceitos abstratos, tais como matrizes ou mesmo listas, envolve
embuti­las  em  um  formato  geométrico,  como,  p.  ex.,  uma  pirâmide.  Na  Figura  10.2,  ainda  que  os
principais conceitos sejam apenas palavras em uma lista, as audiências podem dar mais atenção ao slide
se essas formas geométricas ou outros objetos aparecerem em acréscimo a simplesmente palavras. Você
também pode posteriormente se referir à forma, tal como dizer a “pirâmide da efetividade” (que aparece
como subtítulo do slide na Fig. 10.2) como uma abreviatura concreta que será mais facilmente absorvida
pela audiência do que se você se referir diretamente a um conceito abstrato, tal como “prevenção baseada
em evidências”.

FIGURA 10.2
Uma apresentação mais gráfica de uma lista de palavras.

Usando ícones e outros símbolos


Da mesma forma, ícones e outros símbolos podem ajudar a esclarecer relações conceituais mais difíceis.
Por exemplo, o estudo da “escolha” da escola havia identificado quatro tipos de combinações de escolha
como  um  resultado  preliminar  importante.  Além  de  listar  essas  combinações,  o  slide  usou  ícones
“ônibus” e “escola” para elucidar a direção do fluxo de alunos de uma escola para outra em cada uma das
quatro combinações (ver Fig. 10.3)
FIGURA 10.3
Usando ícones para ilustrar relações conceituais.

Da mesma forma, ícones e outros símbolos podem agregar um sabor artístico a um slide. Um conjunto
óbvio de linhas de texto pode ser complementado por um conjunto de ícones bem­escolhidos que ilustram
os  principais  conceitos,  tais  como  as  representações  dos  três  outros  campos  –  jornalismo,  trabalho  de
detetive e técnica forense na Figura 10.4. Da mesma forma, a colagem de relatos na Figura 10.5 dá a uma
audiência  imagens  concretas  dos  relatórios  que  foram  então  caracterizados  no  conjunto  de  itens  com
marcadores que se encontram abaixo da colagem.
FIGURA 10.4
Adicionando ícones para ilustrar temas específicos.
FIGURA 10.5
Ilustrando itens textuais dentro de uma colagem.

Escolhendo cores e estilo artístico


Os  programas  para  produzir  slides  possuem  configurações  automáticas  para  que  você  possa  criar
rapidamente um slide. As  configurações  automáticas  incluem  alguma  arte  modesta,  incluindo  uma  cor,
geralmente um tom de azul.
Para  personalizar  seus  slides  e  possivelmente  toda  a  sua  apresentação,  você  deve  tentar  ir  além  das
configurações  automáticas.  Para  começar,  você  pode  descartar  a  cor  automática  porque  slides  atrativos
podem  ser  criados  em  preto  e  branco.  Entretanto,  se  você  deseja  trabalhar  com  cores,  três  observações
podem servir como dicas úteis.
Em  primeiro  lugar,  as  cores  não  devem  ser  usadas  em  demasia  (a  menos  que  uma  imagem  pictórica
realmente contenha muita cor e seu slide seja uma reprodução fiel daquela imagem). A mensagem de um
slide consiste em seu conteúdo substantivo, não sua gama de cores. Pense que as cores devem enfatizar
seu recado, não ofuscá­lo.
Em  segundo  lugar,  algumas  cores  não  são  facilmente  discernidas  por  pessoas  sentadas  às  distâncias
mais  comuns  de  um  apresentador. As  cores  em  um  slide  tornam­se  ainda  mais  difíceis  de  discernir  se
forem  obscurecidas  por  uma  cor  de  fundo.  Por  exemplo,  na  maioria  dos  casos,  o  público  terá  que  se
esforçar  para  ver  a  diferença  entre  um  azul  escuro  e  uma  linha  preta.  Da  mesma  forma,  os  matizes  de
alguns tons pastéis podem estar muito próximos para serem distinguidos entre si. Cores de fundo fortes
demais agravarão ainda mais o problema, geralmente tornando todo o slide muito apagado e difícil de ver
ou decifrar.
Você  quer  que  sua  audiência  atente  para  o  conteúdo  de  seus  slides  e  de  sua  apresentação,  sem  parar
para  pensar  nas  cores  de  um  slide.  Para  se  empenhar  por  esse  efeito,  imagine  quais  grupos  de  cores
contrastam facilmente, mas continuam sendo compatíveis, em vez de chocarem­se uns com os outros (p.
ex., azul brilhante, prata e ouro; em vez disso, vermelho, laranja e amarelo). Mantenha essas cores para
enfatizar  seus  slides,  cujas  principais  características  podem  permanecer  em  preto  e  branco.  Se  quiser
inverter  o  efeito  dos  slides  com  palavras  e  figuras  em  branco  contra  um  fundo  mais  escuro  ou  preto,
verifique se o esquema de cores funciona bem com essa condição inversa.
Terceiro, usar tons da mesma cor (p. ex., um marrom escuro e um marrom claro) para fazer distinções
substantivas  pode  ser  uma  questão  delicada. As  diferenças  entre  os  tons  podem  ser  visualmente  muito
sutis. O problema também ocorre quando você deixa os slides em preto e branco e depois usa mais de
dois  tons  de  cinza.  Por  exemplo,  para  representar  os  diferentes  setores  de  um  gráfico  setorial,  um  tom
mais  claro  e  um  tom  mais  escuro  geralmente  serão  distinguíveis,  mas  ir  além  desses  pares  é  arriscado.
Para gráficos setoriais e de barras, considere o uso de padrões diferentes, tais como listras, no lugar de um
terceiro tom.

como um auxílio a sua apresentação


Mesmo tendo criado um conjunto de slides de alta qualidade, lembre­se de que eles continuam sendo uma
ferramenta  suplementar.  Você  e  seu  desempenho  ainda  ocupam  o  centro  das  atenções.  Entre  outras
estratégias  controláveis,  isso  significa:  (1)  esforçar­se  ao  máximo  para  não  simplesmente  ler  sua
apresentação para a plateia; (2) cuidar para não usar um número excessivo de slides em um período muito
curto de tempo; e (3) manter o foco de sua audiência no conteúdo de seu trabalho.

slides
slides
slides

slides

NOTA
1. Ao  menos  uma  revista  de  ciências  sociais  está  usando  arquivos  eletrônicos  para  que  os  leitores  possam  ter  acesso  a
instrumentos, livros de códigos, arranjos de dados e outra documentação para suplementar os artigos publicados (p. ex.,
ver os materiais suplementares disponíveis em relação a um estudo de caso de Randolph & Eronen, 2007). Em outro
campo, a famosa revista Science, publicada pela American Association for the Advancement of Science, segue a mesma
prática (p. ex., ver a seção de métodos, tabelas e quadros não publicados que acompanham um relato [quantitativo] sobre
desempenho estudantil na Califórnia, de Bryant et al., 2008).
11
Compondo a pesquisa para
compartilhá-la com os outros

Quer  em  forma  escrita  ou  em  forma  oral,  uma  composição  de  pesquisa  final  deve  descrever
com  precisão  os  resultados  e  conclusões  de  um  estudo,  mas  também  de  uma  maneira
convincente  e  atrativa.  O  objetivo  não  é  apenas  apresentar  um  estudo,  mas  comunicá­lo  a
audiências  específicas.  A  pesquisa  qualitativa  impõe  um  ônus  adicional  por  exigir  que  a
composição  inclua  narração  pelo  self  declarativo,  bem  como  reflexivo,  de  um  pesquisador.
Como tudo isso pode ser reunido é o tema do presente capítulo.
O  capítulo  inicia  descrevendo  uma  estratégia  “às  avessas  e  retrocedente”  para  evitar
bloqueios e depois discute as maneiras de comunicar as identidades declarativa e reflexiva. O
tempo  todo,  a  discussão  sugere  maneiras  de  tornar  as  composições  sedutoras,  e  ao  mesmo
tempo representar dados empíricos de um estudo. O capítulo então se conclui com o processo
de retoques necessário para produzir composições fortes, incluindo as maneiras de responder
a  diversos  tipos  de  comentários  de  analistas  e  antever  as  necessidades  de  revisão  da
composição final.

Você agora está pronto para concluir seu estudo investigativo. O objetivo é redigir seu estudo qualitativo
por inteiro, para ser comunicado aos outros.
Para  começar,  vou  contar  uma  breve  história  sobre  mim  mesmo:  quando  estou  escrevendo  em  meu
computador, as pessoas que estão por perto vão esporadicamente me ouvir falando. Algumas pensam que
estou  dizendo­lhes  alguma  coisa,  e  rapidamente  resolvemos  esse  equívoco.  Outras  pensam  que  estou
resmungando para mim mesmo.
O  que  estou  realmente  fazendo  é  lendo  minhas  próprias  palavras  em  voz  alta.  Por  alguma  razão,
preciso  ouvir  sentenças  ou  parágrafos  selecionados,  para  decidir  se  ambos  contêm  o  conteúdo  do  que
quero  dizer  e  também  se  parecem  fáceis  de  ler.  De  certa  forma,  tenho  uma  audiência  imaginária  na
cabeça, perguntando a mim mesmo se meus ex­professores, meus colegas e concorrentes, meus amigos e
minha família compreenderão a sentença. Se uma sentença ou parágrafo passa neste teste (imaginário), eu
por ora me sinto bem em relação a ele.
Tenho  esse  hábito  desde  quanto  sou  capaz  de  me  lembrar.  É  algo  tão  idiossincrático  que  nunca
comparei notas sobre isso com outros cientistas sociais. Mas quer seja uma peculiaridade minha quer algo
comum  a  muitas  pessoas,  quer  o  hábito  funcione  bem  quer  não,  ele  fornece  uma  dica  útil:  você  deve
pensar  constantemente  em  suas  audiências  enquanto  cria  suas  composições  escritas  ou  orais.  É  preciso
rejeitar seu primeiro impulso de compor para si mesmo.
A cada momento, pense nos outros quando você compõe. Pense da seguinte maneira: sua mensagem
está apenas sendo enviada para o exterior (disseminada), ou é provável que seja recebida e compreendida
da maneira como você quer, por aqueles que são importantes para você (comunicar)?
Dois  temas  podem  refletir  essa  orientação  à  comunicação.  Primeiro,  as  distinções  superficiais  entre
redigir seus resultados e apresentá­los oralmente pode ser menos importante do que lembrar que ambos
são esforços para se comunicar com os outros. Você deve pensar em aplicar a maioria das ideias sobre
apresentar pesquisa qualitativa tanto a sua escrita quanto a suas apresentações orais. Consequentemente,
este capítulo usa os termos compor, apresentar e relatar de maneira intercambiável. Todos eles visam a
incluir tanto o modo escrito quanto oral.
Segundo,  como  acontece  com  toda  pesquisa  empírica,  seu  objetivo  deve  ser  compartilhar  ideias  de
maneira  aberta  e  ampla.  Esse  segundo  tema  faz  parte  de  outro  maior  ao  fazer  pesquisa  empírica.  O
famoso  estudioso  e  filósofo  Michael  Polanyi  (1958,  1966)  escreveu  sobre  como  o  progresso  científico
depende de os pesquisadores converterem seu conhecimento pessoal em conhecimento público – permitir
que os  outros  repliquem ou  contestem  seus resultados.  Este  capítulo desenvolve o  mesmo  tema no que
tange  à  pesquisa  qualitativa.  Como  demonstraremos  em  breve,  você  precisa  não  só  compartilhar  os
resultados,  mas  prover  elementos  que  revelem  as  lentes  de  pesquisa  com  as  quais  você  conduziu  sua
pesquisa.
O  restante  deste  capítulo  primeiramente  fornece  o  contexto  atentando  para  as  questões  gerais
envolvidas  na  composição  de  pesquisa  qualitativa.  O  meio  do  capítulo  salienta  o  fato  de  que  as
composições  do  pesquisador  geralmente  expressam  duas  identidades  –  um  self  declarativo  e  um  self
reflexivo.  A  última  parte  do  capítulo  discute  como  você  pode  reformular  seus  esboços  iniciais,  um
processo  às  vezes  extenso  que  inclui  obter  comentários  de  analistas  bem  como  revisar  e  alterar  seu
trabalho.
Como prelúdio final, pense sobre adquirir e ler outros trabalhos sobre composição, tanto antes quanto
durante  seus  esforços  composicionais.  Não  tenha  receio  de  procurar  dicas  composicionais  em  campos
relacionados,  tais  como  jornalismo,  história  e  escritos  de  não  ficção  em  geral  (ver  “Lendo  sobre
composição, em diversos campos relacionados”, Quadro 11.1). As leituras podem conter bons conselhos
além  de  exemplos  úteis.  Intercalar  sua  composição  com  a  leitura  esporádica  de  alguns  capítulos  desses
outros trabalhos não só oferecerá uma pausa, como também estimulará sua própria escrita.
Lendo sobre composição, em diversos campos relacionados

Writing for Social Scientists


Reporting and Writing

The
Modern Researcher

Telling True Stories

A. COMPONDO: DICAS GERAIS

O que você deve aprender nesta seção:

As composições podem assumir diferentes formas. Na pesquisa em ciências sociais, a forma que mais se
sobressai  é  a  escrita  narrativa.  Entretanto,  formas  alternativas  podem  ser  estatísticas,  visuais,  orais  ou
poéticas  (ver  “Correndo  riscos  ao  usar  apresentações  não  convencionais”,  Quadro  11.2),  em  qualquer
combinação. Para pesquisa qualitativa, as formas mais frequentes são provavelmente as formas narrativa
e visual.
Correndo riscos ao usar apresentações não convencionais

Ver também Quadro 2.4.

Conhecendo o público para sua pesquisa qualitativa


Praticamente única entre as ciências sociais, a pesquisa qualitativa tem a capacidade de atingir uma vasta
diversidade  de  audiências.  Entre  as  potenciais  audiências,  aqueles  que  já  fazem  pesquisa  podem  ser  de
tipos  diferentes.  Um  tipo  de  audiência  poderia  ser  a  de  outros  pesquisadores  qualitativos.  Eles  podem
esperar  que  sua  composição  apresente  técnicas  e  estratégias  inovadoras,  mesmo  que  elas  “forcem”  o
limite entre o convencional e o exótico, o conservador e o arriscado.
Um  segundo  tipo  de  audiência  pode  ser  composto  de  outros  cientistas  sociais  que,  apesar  de
apreciarem  a  pesquisa  qualitativa,  também  respeitam  métodos  de  pesquisa  alternativos  e  especialmente
não  qualitativos.  Essa  audiência  pode  esperar  que  sua  composição  apresente  característica  pragmáticas
condizentes  com  o  que  acredita  serem  métodos  de  ciências  sociais  “padrão”  –  ou  histórias  mais
“realistas”, no jargão qualitativo (ver Van Maanen, 1988, discutido a seguir).
Um  terceiro  tipo  de  audiência  pode  ter  uma  mentalidade  mais  prática.  Ela  pode  acreditar  que  a
pesquisa qualitativa nos leva diretamente a revelações úteis e, portanto, ela pode tentar encontrar lições
práticas de sua pesquisa.
Comunicação efetiva significa identificar a audiência e selecionar as formas que provavelmente terão
significado para aquela audiência. Uma vez que a pesquisa qualitativa pode ter tamanha diversidade de
audiências, sua primeira meta é identificar e conhecer suas audiências e suas predisposições.
Esteja  consciente  das  diferenças  possivelmente  extremas  entre  suas  audiências  e  suas  diferentes
preferências. Alguns adorarão pesquisa qualitativa, ao passo que outros não estarão convencidos. O que
você apresenta em uma reunião com antropólogos provavelmente não será apreciado pelos diretores de
uma fundação particular que patrocinou seu estudo. Talvez seja necessário destacar diferentes aspectos de
seu  trabalho  com  essas  diversas  audiências,  inclusive  escrevendo  diferentes  relatos  e  elaborando
diferentes apresentações orais.
Ter jeito com as palavras
Não  obstante,  para  quase  toda  audiência,  a  comunicação  da  pesquisa  qualitativa  ainda  tem  algumas
características comuns. A primeira é que a pesquisa qualitativa por definição lida mais com palavras do
que  com  números  e  símbolos.  Quer  suas  palavras  venham  de  seu  trabalho  de  campo,  de  suas  notas  de
campo, quer de seus arranjos de dados. Você precisa se sentir à vontade, se não empolgado, colocando as
palavras no papel ou escrevendo um roteiro para uma apresentação oral.
Para concluir sua pesquisa qualitativa com êxito, ter jeito com as palavras – ter talento para escrever –
seria  uma  clara  vantagem.  Na  verdade,  muitos  pesquisadores  qualitativos  podem  ter  enveredado  por
carreiras  em  pesquisa  qualitativa  porque  ela  lhes  dá  uma  oportunidade  de  escrever  –  muitas  vezes
escrever muito. Gostar de escrever não significa necessariamente escrever um texto refinado. Você apenas
precisa ser capaz de manter o fluxo de palavras e apreciar a sua escolha de palavras.
Para  se  sentir  mais  confortável  usando  palavras,  a  sugestão  mais  comum  oferecida  pelos  outros  é
simplesmente  compor  mais  texto,  de  maneira  repetida  e  assídua,  tal  como  produzindo  trabalhos
semestrais ou artigos de pesquisa com máxima frequência. Entretanto, mesmo sua vida diária pode trazer
modos de lhe sensibilizar para as palavras (ver Quadro 11.3).

Sete exemplos do uso de palavras cotidianas

Mantenha um diário, com registros diários, ou até com mais frequência.
Tome notas enquanto observa alguma coisa ou ouve alguém.
Trabalhe com um teclado (ou mesmo em seu telefone celular), e veja a agilidade dos seus dedos ao
escrever as frases.
Envie mensagens de texto ou instantâneas com frequência.
Faça as palavras cruzadas do jornal.
Ao escrever, observe o estilo de escrita, não apenas o conteúdo, do texto: se a leitura é envolvente (ou
não), isso se deve ao estilo de escrita e não apenas ao conteúdo do texto?
Fique atento aos erros de escrita em tudo que ler.

Ter  habilidade  suficiente  com  palavras  não  elimina  o  grande  desafio  de  compor  sua  pesquisa.  Na
verdade, você pode já ter tido problemas porque tentou começar no início, mas não sabia o que escrever
ou dizer. Você pode ter sido aconselhado a iniciar com um esboço de seu relato – ao menos definindo os
prováveis  títulos  dos  capítulos.  Entretanto,  se  você  não  tem  certeza  do  que  dizer  ou  escrever,  criar  um
resumo ou mesmo uma série de títulos de capítulos ainda pode trazer dificuldades.
Existem  muitos  conselhos  sobre  como  lidar  com  os  problemas  de  não  saber  como  iniciar  ou  mesmo
desenvolver  um  resumo  (p.  ex.,  Becker,  1986;  Wolcott,  2009).  Normalmente,  estes  são  considerados
modos  de  superar  “bloqueios”  para  escrever.  Se  você  quer  considerar  mais  uma  alternativa  que  passou
pelo teste do tempo, meu próprio trabalho no decorrer dos anos beneficiou­se com a opção de compor um
relatório  “às  avessas”  e  “de  forma  retrocedente”.  Quando  repassei  esse  conselho  para  outras  pessoas,  a
opção também funcionou bem com meus colegas. O procedimento pode assim representar uma maneira
confiável de iniciar sua escrita. Vamos examinar o que significam “às avessas” e “de forma retrocedente”.

Compondo “às avessas”


Para qualquer relato ou apresentação oral, o “lado de dentro” consiste das experiências ou outros arranjos
de dados e evidências que você pretende apresentar. Essas informações geralmente são apresentadas na
forma de:

✓ diálogos citados de extensões variáveis, descritos anteriormente no Capítulo 10 (item A);
✓ quadros;
✓ vinhetas  (materiais  de  casos  ilustrativos,  tais  como  as  vinhetas  deste  livro  ou  a  apresentação  de
histórias de vida resumidas);
✓ apresentações gráficas e outros arranjos de dados (p. ex., as matrizes discutidas no Cap. 10, item B);
✓ outros elementos como fotografias, desenhos, anedotas, ou narrativas que você gostaria de ver em sua
apresentação; e mesmo
✓ tabelas numéricas (tabelas com números).
O “lado de fora” é a narrativa que cerca essas experiências e dados de campo específicos, e que contém
toda a sua linha de pensamento, da introdução às conclusões. O “lado de fora”, portanto, entrelaça todos
os ingredientes para formar uma composição completa.
Iniciar o processo composicional esboçando primeiro os ingredientes de dentro oferece duas principais
vantagens. Uma é que você estará na verdade iniciando uma parte­chave de sua composição. A segunda é
que  a  atividade  lhe  obriga  a  esclarecer,  de  maneira  precisa,  os  materiais  de  campo,  os  dados,  ou  as
evidências específicas que você vai usar. Isso significa rever suas citações e arranjos selecionados, como
descritos no Capítulo 10, e finalizar os materiais integralmente ou selecionar as partes específicas a serem
apresentadas em sua composição final.
Finalizar esses materiais exigirá muito trabalho cuidadoso, pois precisam ser editados e refinados para
sua apresentação pública. Entretanto, você pode começar em qualquer parte desses materiais, tais como as
partes  prediletas  de  suas  análises.  Você  também  pode  fazer  primeiro  as  partes  mais  fáceis.  Mais
importante, você pode prosseguir com elas sem se preocupar com o “lado de fora” de sua composição.
O trabalho com o “lado de dentro” de seu relato pode continuar por algum tempo. Você pode constatar
que as citações inicialmente esboçadas ou os arranjos de dados não atendem a seus objetivos iniciais, e
você  pode  revisá­los,  deixá­los  de  lado,  ou  substituí­los.  Além  disso,  você  pode  descobrir  que  suas
análises originais estavam incompletas. Você pode precisar rever suas evidências.
Quando um conjunto mínimo desses materiais “do lado de dentro” lhe trouxerem satisfação, você pode
ter  um  desafio  agradável  e  contornável.  Pode  testar  como  esses  materiais  poderiam  ser  colocados  em
sequências diferentes. A sequência simulada testará quais partes dos materiais devem preceder ou seguir
quais  outras  partes.  Por  exemplo,  alguns  dos  seus  materiais  internos  descreverão  o  tempo,  o  lugar  e  as
pessoas  de  seu  estudo;  eles  podem  normalmente  aparecer  primeiro  em  uma  sequência.  Como  outro
exemplo, seus arranjos de dados podem incluir uma série de histórias de vida breves sobre as pessoas de
seu  estudo. Agora  você  pode  jogar  livremente  com  essas  histórias  de  vida  para  testar  a  atratividade  de
colocá­las em sequências diferentes.
Quando você tiver montado uma representação provisória do “lado de dentro”, incluindo a sequência
das diversas partes, você se surpreenderá ao descobrir que já está a meio caminho de pensar sobre como
compor o “lado de fora” necessário. Sua dissecação dos dados e evidências, assim como sua testagem de
sequências alternativas, devem ter estimulado automaticamente suas ideias sobre o início, meio e fim de
toda a sua composição. O processo deve ter levado a um esboço mental da estrutura do “lado de fora”, se
não sua capacidade de agora produzir um esboço formal.
Para pesquisa qualitativa, a abordagem “às avessas” tem mais uma importância. A abordagem honra a
natureza  predominantemente  indutiva  da  pesquisa  qualitativa  –  que  muitas  das  revelações  e  resultados
iniciais  provêm  de  eventos  concretos  e  específicos  de  seu  trabalho  empírico.  Embora  você  possa  ter
iniciado  todo  o  seu  estudo  com  algumas  hipóteses  e  questões  teóricas,  uma  vantagem  importante  da
pesquisa  qualitativa  é  sua  atenção  ao  que  pode  ser  aprendido  das  evidências  e  dados  de  campo.  Elas
levantam a possibilidade de descobrir e revelar novas ideias e explicações não sugeridas pelas hipóteses
ou questões teóricas originais.
Da  mesma  forma,  toda  a  abordagem  às  avessas  caracteriza  a  pesquisa  empírica.  Compor  pesquisa
difere de compor um romance ou outra obra de ficção: você precisa construir seu relato em torno de suas
evidências empíricas (e suas limitações, para o bem ou para o mal). Iniciar com as evidências não é uma
opção disponível para os que escrevem romances ou ficção.

Compor “de forma retrocedente”


Escritas  ou  orais,  todas  as  apresentações  terão  uma  forma  linear.  Sua  composição  final  pode  inclusive
começar  com  as  conclusões  do  estudo  –  que  então  precisam  ser  explicadas  no  restante  do  texto.  Mais
convencionalmente,  uma  composição  pode  se  iniciar  com  as  questões  de  pesquisa  e  da  literatura  que
deram início ao estudo.
Sempre  que  a  composição  se  inicia,  ela  terá  um  início,  um  fim  e  um  meio.  Entretanto,  embora  a
composição seja linear,  isso não significa que  ela  precisa  ser  produzida  em  uma  sequência  linear. Você
pode  compor  a  extremidade  final  antes  da  extremidade  inicial,  ou  o  meio  antes  de  qualquer  um  dos
extremos.
A maior parte das composições tem material no extremo final que não se enquadra no texto principal e
suas conclusões ou resumo final. Esses materiais suplementam o texto principal: notas de fim, apêndices
(que  podem  ser  relatos  breves  independentes)  e  uma  lista  de  referências.  Embora  os  materiais
suplementares  possam  não  ser  tão  essenciais  quanto  o  texto  principal,  eles  ainda  servem  como  parte
integrante de qualquer relato de pesquisa valorizado.
Trabalhar “de forma retrocedente” é iniciar compondo tantos desses materiais finais quanto possível,
mais  uma  vez  evitando  a  necessidade  de  lidar  com  o  corpo  da  apresentação.  Embora  talvez  não  seja
possível  compor  notas  de  fim  até  que  o  corpo  do  relato  seja  iniciado,  você  pode  tratar  de  apêndices  e
referências. Entre os apêndices, um em especial é essencial para a pesquisa qualitativa: alguma declaração
extensa sobre os métodos usados em seu estudo. (Mais será dito em breve sobre o conteúdo desta seção
de métodos e como ela deve abordar as lentes de pesquisa com as quais você fez seu trabalho.)
Você provavelmente está pronto para escrever um esboço de sua discussão de métodos antes de tratar
de  seu  relato. A  seção  esboçada  pode  aparecer  ao  final  do  texto  na  forma  de  um  apêndice. A  mesma
discussão  também  pode  posteriormente  ser  proposta  e  colocada  no  corpo  do  texto  principal  ou  mesmo
aparecer  como  um  prefácio  prolongado.  Independentemente  de  onde  a  discussão  de  métodos  seja
colocada, compor a discussão lhe dará um grande salto na escrita de seu relato, ainda que você ainda não
esteja pronto para fazer o texto principal.
Primeiro, você pode querer incluir uma história de vida ilustrativa, um ou mais estudos de caso, ou um
conjunto  de  tabelas  de  apoio  como  apêndices  adicionais.  Compor  esses  elementos  pode  ajudar  a
completar  uma  parte  real  do  relato  final,  enquanto  lhe  permite  pensar  sobre  os  materiais  a  serem
discutidos no texto principal.
Por fim, você pode montar sua lista de referências ou outro material de apoio antes de tratar das outras
partes do relato. Enquanto as primeiras fases de sua pesquisa estavam acontecendo, você deve ter mantido
um  controle  de  todas  as  suas  referências.  Você  pode  inclusive  tê­las  colocado  em  ordem  alfabética,
incrementando a lista durante toda a sua pesquisa. Ao prepará­las, certifique­se de registrar a referência
completa. Qualquer que seja o formato usado posteriormente, alguns detalhes (autor, título, editor, lugar
de publicação, números de páginas para capítulos de um livro) serão necessários. Nada mais frustrante do
que  ter  que  atentar  para  esses  detalhes  depois  que  tudo  o  mais  já  foi  composto. Assim,  esforce­se  ao
máximo para registrar esses detalhes cada vez que acrescentar uma nova referência a sua lista.

B. COMPONDO PESQUISA QUALITATIVA


O que você deve aprender nesta seção:

Além das questões gerais de composição, o fato de que você irá apresentar pesquisa qualitativa significa
que você deve atentar para algumas características que são típicas desse tipo de pesquisa. Por exemplo,
uma  qualidade  essencial  da  pesquisa  qualitativa  é  que  sua  composição  vai  colocar  o  leitor  em  contato
com o cenário da vida real ou ambiente que você vem estudando. Você tem algumas escolhas sobre como
fazer isso.
Primeiro,  as  escolhas  refletem  opções  que  são  em  parte  metodológicas  (ver  sua  “localização
epistemológica”  no  Cap.  1,  item  C)  e  em  parte  podem  ser  associadas  ao  uso  de  diferentes  vozes
gramaticais – ou seja, primeira, segunda e terceira pessoas.
John Van Maanen (ver “Três maneiras diferentes de relatar os resultados de seu estudo”, Quadro 11.4)
define as diversas opções descrevendo três maneiras de relatar seu aprendizado com o trabalho de campo:
narrativas  realistas  (contadas  de  uma  perspectiva  neutra,  em  terceira  pessoa),  narrativas  confessionais
(contadas em primeira pessoa, um estilo que constantemente lembra o leitor da presença do pesquisador
no ambiente) e narrativas impressionistas (visando a dar vivacidade ao relato, como se o leitor estivesse
presente  no  ambiente).  Você  pode  escolher  qualquer  uma  das  três  maneiras,  combiná­las  de  alguma
forma,  ou  criar  seus  próprios  cenários.  Entretanto,  como  cada  maneira  exige  uma  tomada  de  notas
ligeiramente diferente durante a coleta de dados, é preciso considerar essas opções em uma etapa precoce
da pesquisa, não apenas quando você estiver pronto para compor.
Três maneiras diferentes de relatar os resultados de seu estudo

Ver também Quadro 7.1.

Segundo,  o  aspecto  de  “pesquisa”  da  “pesquisa  qualitativa”  significa  dar  cuidadosa  atenção  às
evidências  empíricas.  Os  métodos  qualitativos  não  oferecem  formatos  fixos  para  apresentar  essas
evidências,  como  poderiam  fazer  os  programas  estatísticos  que  ordenam  automaticamente  os  dados  em
tabelas de contingência, ou em outros modelos analíticos. Assim, a ordenação das evidências qualitativas
– de forma narrativa, gráfica ou pictórica – como parte do processo de apresentação abordado no Capítulo
10, mas também agora ao compor, precisa ser feita com cuidado. Por fim, sua composição baseada em
pesquisa, exceto quando adequadamente indicado ser especulativa, não deve ir muito além das evidências
em mão.
Algumas outras características valorizadas da pesquisa qualitativa são descritas a seguir.

Envolver os cinco sentidos


“Estar  lá”  significa  participar  de  interações  humanas  em  um  ambiente  da  vida  real.  Quanto  mais  você
puder transmitir essa experiência representando o que está acontecendo com todos os cinco sentidos, mais
você estará acentuando uma das principais vantagens de fazer pesquisa qualitativa.
Existe também um “sexto” sentido que pode ser importante – as intuições e sentimentos vivenciados
ou pelas pessoas estudadas ou por você mesmo. Capturá­los, com seus devidos rótulos, também distingue
a pesquisa qualitativa de outros tipos de pesquisa.

Representar as múltiplas vozes e perspectivas e também lidar com questões


de anonimato
Outra virtude da pesquisa qualitativa é sua capacidade de apreciar diferenças entre perspectivas humanas.
Anteriormente  já  discutimos  como  representar  as  perspectivas  dos  participantes  de  seu  estudo  de
diferentes maneiras, incluindo a apresentação de relatos em primeira pessoa, desde a citação de materiais
breves até histórias de vida mais longas que ocupam um capítulo inteiro (ver Cap. 10, item A).
Identificar esses participantes ou mantê­los anônimos é um problema básico que surge ao apresentar
suas perspectivas (p. ex., Guenther, 2009). A questão pode fazer parte de outra, mais ampla – identificar
ou  não  o  local  onde  um  estudo  qualitativo  foi  realizado.  Em  quase  todos  os  estudos,  o  anonimato  dos
participantes, juntamente com o uso de pseudônimos, é a opção preferencial. Ao mesmo tempo, a maioria
dos estudos identificará suas localizações, a menos que essa identificação (p. ex., o nome de uma escola)
possa levar à identificação de um participante que, se não fosse por isso, permaneceria anônimo (p. ex., o
diretor da escola). Essas questões, evidentemente, devem ter sido consideradas anteriormente como parte
do processo de obtenção de aprovação de um comitê institucional de ética e proteção de sujeitos humanos
(ver Cap. 2, item E) e como parte de seu delineamento de pesquisa (ver Cap. 4, Opção 6).

Ser sensível à natureza interpretativa de suas composições


Pesquisadores  qualitativos  compreendem  cada  vez  mais  a  natureza  interpretativa  de  seus  relatos  de
pesquisa. Essa situação também deriva diretamente de seu papel como um instrumento de pesquisa.
A natureza interpretativa da pesquisa qualitativa é inevitável e também é uma vantagem essencial de
fazer pesquisa qualitativa (ver “Espasmos ou piscadas? Construções interpretativas da realidade”, Quadro
11.5). Sua tarefa constante é estar ciente e ser sensível à função interpretativa, especialmente ao compor.
Mais  será  dito  sobre  como  monitorar  a  si  mesmo  nesta  tarefa,  ao  discutirmos  sobre  o  self  reflexivo  do
pesquisador.

Espasmos ou piscadas? Construções interpretativas da realidade

Na  verdade,  esta  referência  ao  self  reflexivo  chama  atenção  para  o  fato  de  que  todo  pesquisador
qualitativo  tem  tanto  um  self  declarativo  quanto  um  self  reflexivo.  Seu  self  declarativo  quer  dizer  ao
mundo o que você sabe ou aprendeu. Seu self reflexivo precisa admitir como você aprendeu o que sabe,
incluindo  possíveis  reservas  sobre  seus  métodos  (de  aprender  e  saber).  A  boa  pesquisa  qualitativa
expressa  ambos.  Descreveremos  como  você  poderia  apresentar  seu  self  declarativo  na  próxima  seção,
seguida pelo item D, sobre apresentar seu self reflexivo.
C. APRESENTANDO SEU DECLARATIVO

O que você deve aprender nesta seção:

Você  e  outros  podem  considerar  a  “narração  de  histórias”  uma  metáfora  aceitável  para  descrever  como
você irá relatar os resultados de sua pesquisa e suas implicações. Entretanto, se você usar essa metáfora,
seja extremamente cuidadoso para que ela não dê a impressão de que seu estudo indevidamente se baseia
apenas  em  sua  imaginação,  como  no  significado  literal  de  uma  “história”  verídica.  Em  pesquisa
qualitativa,  a  “história”  precisa  ser  derivada  de  suas  experiências  de  campo  e  outras  evidências  (com
concessões para especulações depois de terem sido pré­anunciadas), não uma fábula de sua imaginação.
Relatar a história de sua pesquisa é o ponto crucial do desafio do self declarativo.
Iniciar  a  história  em  um  ponto  interessante,  e  depois  manter  seu  andamento  de  uma  maneira
convincente até sua conclusão, deve ser sua meta fundamental. Entretanto, não espere que o desafio seja
fácil, pois você não está escrevendo ficção e deve construir sua história em torno de uma base empírica.
Seus dados influenciarão muito a natureza de seu relato. Às vezes, você vai querer contar uma história
mais  “forte”  do  que  os  dados  podem  respaldar.  Em  outras  vezes,  seus  dados  surpreendentemente  lhe
permitirão acrescentar uma nova ruga ou mesmo uma guinada importante em sua história. Para evitar ser
prematuramente engolfado por essas situações, um caminho prático é primeiro delinear e completar um
estudo modesto e depois realizar uma sucessão de aperfeiçoamentos cada vez maiores e mais complexos
e significativos.
Como  acontece  com  outras  formas  de  composição,  nenhuma  abordagem  funciona  em  todas  as
circunstâncias.  Além  disso,  você  pode  ter  seu  modo  bem  desenvolvido  de  relatar  efetivamente  sua
pesquisa  qualitativa  para  diferentes  audiências.  Entretanto,  caso  você  precise  de  mais  ajuda  ou  esteja
aberto a sugestões adicionais para apresentar seu self declarativo, seguem algumas mudanças e exemplos.
Evidentemente, se você compilou com êxito um conjunto de diá logos, tabelas, vinhetas e outros materiais
porque  você  vem  trabalhando  “às  avessas”  (ver  item A),  as  linhas  gerais  de  sua  história  já  devem  ter
aparecido.

Iniciando sua composição em um ponto interessante


O início da história irá exigir simultaneamente seu pensamento mais criativo e analítico. Seu objetivo é
atrair a audiência para o universo do seu texto, mas usando os parágrafos ou páginas iniciais que ainda
estejam fortemente vinculados à principal parte de sua história de pesquisa e suas evidências.
Você  pode  fazer  isso  descrevendo  um  incidente  ou  episódio  concreto.  Essa  mais  uma  vez  pode  ser
considerada  uma  estratégia  indutiva  que  imita  a  vantagem  da  pesquisa  qualitativa.  Entretanto,  você
também pode iniciar enunciando uma generalização ampla, mas provocativa. Em muitas circunstâncias,
essa generalização também pode ser atraente, ainda que ela represente um começo dedutivo.
Como outra opção, considere uma metáfora imediatamente compreendida ou uma citação convincente
de algum outro trabalho. Esses recursos muitas vezes representam palavras vistosas, mas certifique­se de
que eles estejam diretamente conectados a alguma parte mais importante de seu estudo e seus temas (ver
“Três exemplos de pontos de partida atraentes”, Quadro 11.6).

Três exemplos de pontos de partida atraentes

longa citação

Ver também Quadros 2.2, 6.3, 7.1 e 9.3.

Diferentes “formatos” de composições


Em algum ponto depois de ter estipulado a cena e os temas iniciais, você vai ter que envolver a audiência
em detalhes adicionais sobre sua pesquisa.
Uma estrutura composicional convencional é a conhecida forma da “ampulheta” (p. ex., Scanlan, 2000,
p.  168).  A  composição  se  inicia  com  as  questões  mais  amplas  em  uma  seção  (ou  capítulo)  ou  duas,
aprofunda­se em resultados detalhados e suas análises por várias seções, e termina com um retorno a um
nível mais amplo, discutindo as questões e conclusões gerais. Ambas essas últimas seções ecoam de certa
forma  as  questões  levantadas  pelas seções  iniciais  e  mostram  como os  resultados e análises  levaram as
lições  e  interpretações  a  um  plano  mais  alto.  O  significado  substantivo  do  plano  mais  alto  representa  a
contribuição de seu estudo para o novo conhecimento.
A maior parte da pesquisa segue este formato de ampulheta. Seguindo o incidente concreto inicial ou
fato revelador, os primeiros capítulos então passam a abordar as questões mais amplas expandindo o tema
do estudo e as principais preocupações substantivas que motivaram o estudo. Os capítulos intermediários
examinam as evidências empíricas relevantes em um nível altamente detalhado. Finalmente, os últimos
capítulos apresentam as interpretações e conclusões a serem extraídas do estudo, retornando a um plano
mais amplo para discutir o significado da pesquisa.
Quer  você  siga  o  formato  de  ampulheta  quer  não,  sua  composição  terá  longos  trechos  em  que  você
precisa manter o interesse das audiências. Por exemplo, um detalhe empírico relevante não pode ser tão
obscuro que faça a audiência perder a noção de sua ligação com questões mais amplas.
Uma estratégia para esses longos trechos, que se adapta bem à pesquisa qualitativa, é um forte senso de
“estar lá” que também envolve o desenrolar das ações (Degregory, 2007). Enquanto pouco a pouco retira
as cascas da conhecida cebola, o desenrolar dos acontecimentos não deve fazer o público sentir que está
sendo  conduzido  a  detalhes  cada  vez  mais  remotos  e  obscuros.  Em  vez  disso,  as  seções  (ou  capítulos)
devem ser sequenciadas para que apontem cada vez mais para a essência de seu trabalho. A parte mais
central poderia então ser destacada de todo o seu arranjo de evidências, como se estivessem finalmente
divulgando os segredos mais íntimos e preciosos de seu estudo.
Aceitando essa abordagem geral para contar sua história, você agora pode apreciar melhor a vantagem
de trabalhar “às avessas”. Você deve ser capaz de ver com mais facilidade a importância de ter ordenado e
reordenado  o  material  interno  sem  o  inconveniente  de  ter  que  compor  e  recompor  a  história  “externa”
real. Assim,  mesmo  antes  de  fazer  grande  parte  da  composição,  você  deve  ter  determinado  o  destaque
empírico  de  seu  estudo.  O  destaque  poderia  ser  a  apresentação  de  uma  pessoa  cuja  história  de  vida
captura toda a abrangência de seu estudo, a convergência de informações sobre várias pessoas desse tipo,
ou mesmo a ocorrência dos eventos­chave no ambiente. Como outra opção, imagine selecionar e destacar
a história de vida de uma pessoa diferente para acompanhar cada capítulo (ver “Usando uma história de
vida diferente em cada capítulo para salientar sua mensagem essencial”, Quadro 11.7). Além do destaque,
você também deve ter começado a saber se sua história tem um final, qual ele poderia ser e a sequência
mais arriscada para chegar lá.

Usando uma história de vida diferente em cada capítulo para salientar sua mensagem
essencial

Observe que, em todo o processo, a revelação de lacunas nas evidências necessárias permitiria então
que  você  reexaminasse  resíduos  de  seus  dados  que  talvez  não  tenham  sido  usados,  para  ver  se  tais
resíduos podem agora servir ao propósito útil de reforçar o fluxo de sua história.

Usando palavras simples e minimizando o jargão de pesquisa


A maioria das áreas de pesquisa possui seu jargão próprio, compartilhado pela comunidade de estudiosos
de  um  determinado  campo.  Embora  a  comunidade  de  estudiosos  possa  se  sentir  à  vontade  e  use  esse
jargão, audiências fora da área – ou fora da área da pesquisa de maneira geral – provavelmente não. Elas
não reagirão bem a muito jargão, e você deve minimizar seu uso em sua composição.
O  aviso  acima  diz  respeito  a  maior  parte  da  pesquisa  em  ciências  sociais.  Entretanto,  a  pesquisa
qualitativa está em uma posição privilegiada para evitar o problema. Isso porque a pesquisa qualitativa e
seu estudo provavelmente tratam de interações humanas que ocorrem em contextos cotidianos. Aproveite
essa  faceta  da  pesquisa  qualitativa  para  usar  palavras  simples  sempre  que  possível.  Você  deve
constantemente usar:

✓ termos concretos, não abstratos;
✓ palavras  que  sua  família  e  amigos  pessoais,  não  apenas  seus  colegas  de  profissão,  provavelmente
entendem; e
✓ palavras menores e mais curtas em vez de palavras maiores e mais compridas.
Ao mesmo tempo, se sua audiência é composta principalmente de sua comunidade de acadêmicos, sua
composição  precisará  estar  cuidadosamente  conectada  à  pesquisa  anterior  e  às  questões  teóricas
importantes  em  sua  área  –  e  consequentemente  com  jargão  selecionado.  Nesta  situação,  você  pode,
contudo,  querer  contar  a  história  cotidiana  em  palavras  simples,  mas  empregar  uma  discussão  mais
carregada de jargão na introdução e interpretação de sua história.

Fazendo os cabeçalhos (ou os títulos de quadros) transmitirem uma


mensagem substantiva
Cabeçalhos  e  títulos  (de  quadros,  tabelas  e  slides)  podem  desempenhar  um  papel  especial  para  atrair  a
atenção  de  sua  audiência.  Por  exemplo,  a  maioria  das  pessoas  possui  um  determinado  modo  de
inicialmente  examinar  um  relato  de  ciências  sociais.  Se  for  um  livro  ou  um  artigo  de  revista,  elas
certamente prestam atenção ao título do trabalho, e elas podem ler o resumo, se houver. Continuando o
exame, elas observarão o sumário e depois folhearão no corpo do texto para ver se ele merece uma leitura
mais detida. Da mesma forma, a maioria das pessoas ouve o início de uma apresentação oral para saber se
precisa continuar ouvindo com mais atenção ou se podem “ficar à deriva”.
Em todo esse exame inicial (observe que as tarefas da audiência provavelmente são qualitativas, não
quantitativas),  os  cabeçalhos  e  títulos  podem  ser  decisivos.  Se  contiverem  uma  mensagem  instantânea,
eles  captarão  o  olhar  que  perscruta  ou  o  ouvido  semidistraído.  Entretanto,  alguns  títulos,  tais  como  os
termos introdução, seção 1, método e conclusões só transmitem a superestrutura de uma composição, não
seu conteúdo. Pior, alguns pesquisadores (que tendem a escrever manuscritos como se fossem trabalhos
de conclusão do semestre) podem não usar nenhum título.
No  outro  extremo  mais  desejável,  tente  fazer  os  títulos  consistirem  de  uma  expressão  ou  mesmo  de
uma frase (extremamente) curta que diz o que você quer que o leitor saiba da leitura daquele parágrafo ou
seção. Por exemplo, os títulos de uma seção introdutória ou de conclusão devem conter conteúdo real –
isto  é,  o  que  a  introdução  ou  conclusão  está  tentando  dizer.  Da  mesma  forma,  o  título  de  uma  tabela,
quadro,  ou  slide  deve  ao  menos  informar  o  tema  daquele  elemento,  se  não  afirmar  explicitamente  o
resultado representado pelos dados. Essas práticas com títulos e cabeçalhos atrairão as pessoas que olham
seu trabalho e também ajudarão audiências mais sérias a entender melhor o seu conteúdo.

D. APRESENTANDO SEU REFLEXIVO

O que você deve aprender nesta seção:

self
self

O self reflexivo expressa como você sabe o que o seu self declarativo apresentou. Você pode considerar
que a essência da tarefa é descrever seus métodos de pesquisa ou apresentar outras reservas e advertências
que você tem sobre as informações propostas pelo self declarativo.
O self reflexivo está presente em toda investigação cientifica. Entretanto, diferente de outras áreas de
pesquisa,  os  métodos  de  pesquisa  qualitativa  são  mais  complicados  neste  aspecto,  e  o  self  reflexivo,
portanto  necessita  de  maior  exposição.  Por  exemplo,  você  pode  considerar  que  a  tarefa  inclui  alguma
declaração e descrição de sua posição epistemológica.

Explicitando suas lentes de pesquisa o máximo possível


A  principal  complicação  surge  do  fato  de  que  você  enquanto  pesquisador  é  provavelmente  o  principal
instrumento  de  pesquisa  na  coleta  de  dados.  Diferentemente  de  outros  tipos  de  pesquisa,  a  pesquisa
qualitativa  valoriza  a  direta  observação  e  interação  entre  o  pesquisador  e  os  fenômenos  estudados,
possivelmente  incluindo,  mas  certamente  indo  além  do  uso  de  questionários  e  outros  instrumentos
mecânicos para medir o comportamento e as opiniões das pessoas. E, como assinalado anteriormente no
Capítulo 5 (item D), você enquanto instrumento de pesquisa usa determinadas lentes ou filtro no processo
de coleta de dados.
Nenhuma lente está livre de viés; toda lente tem qualidades subjetivas e objetivas. Ao apresentar seu
self reflexivo, o objetivo é identificar as qualidades das suas lentes da maneira mais reveladora possível.
O objetivo é fornecer à audiência informações suficientes para que ela possa fazer sua própria avaliação
dos potenciais efeitos (desejáveis e indesejáveis) de suas lentes. Assim, você deve prover interpretações
sobre a relação entre o que você está relatando (como, p. ex., sobre os participantes em seu estudo) e as
circunstâncias da coleta de dados (p. ex., Gubrium & Holstein, 1998). As circunstâncias poderiam incluir:

✓ sua orientação cultural e como ela pode interagir com a cultura das pessoas em seu estudo;
✓ a potencial relevância de seus outros atributos físicos (gênero, idade, aparência);
✓ sua motivação, interesses prévios e opiniõ es que poderiam se relacionar com o tema de estudo e
✓ como você obteve acesso ao ambiente do mundo real e as redes humanas no ambiente da vida real
que você estudou.

Em outras palavras, você deve se esforçar para identificar as características de suas lentes que podem
de alguma forma influenciar os resultados feitos por seu self declarativo. Dependendo de sua audiência,
você  pode  apresentar  todas  essas  características  de  uma  maneira  afável  e  interessante  ou  como  uma
discussão metódica de virtudes, fraquezas e advertências.
A  descrição  de  suas  lentes  deve,  portanto,  aparecer  em  algum  lugar  do  seu  texto. A  discussão  pode
aparecer  em  qualquer  um  de  três  lugares.  Primeiro,  ela  pode  estar  no  prefácio  de  seu  trabalho  (ver
“Usando  um  prefácio  para  discutir  as  lentes  do  pesquisador  de  campo”,  Quadro  11.8).  Essa  colocação
tende a permitir que os métodos sejam discutidos de uma maneira menos formal e até amistosa, em vez
de  maneira  rígida.  Segundo,  os  métodos  podem  ser  discutidos  no  corpo  do  texto,  como  parte  de  uma
seção  formal  ou  capítulo  que  também  inclui  outros  materiais  introdutórios  (ver  “Usando  uma  seção
intitulada ‘autorreflexividade’ para discutir as ‘lentes’ do trabalho de campo”, Quadro 11.9). Finalmente,
a descrição pode ser apresentada em um apêndice.
Usando um prefácio para discutir as “lentes” do pesquisador de campo

Ver também os Quadros 1.1 e 5.6.

Usando uma seção intitulada “autorreflexividade” para discutir as “lentes” do trabalho de


campo

Ver também os Quadros 4.4 e 7.1.


Descrevendo suas lentes de pesquisa como um importante procedimento de
controle de qualidade
Do  ponto  de  vista  das  pessoas  que  julgam  a  qualidade  de  sua  pesquisa,  e  especialmente  um  estudo  de
pesquisa  qualitativa,  não  tenha  dúvida  de  que  sua  consciência  e  sensibilidade  para  apresentar  as
características de suas lentes assume grande importância. As lentes de todo mundo levam à seletividade
no escopo do estudo, à escolha de dados a serem coletados em campo e à interpretação dos resultados.
Sua  representação  do  ambiente  da  vida  real  e  de  todo  o  seu  estudo  são  tingidas  por  suas  intenções  e
interpretações, quer você queira que seja assim quer não.
Estudiosos de pesquisa qualitativa também têm apontado cada vez mais para o papel das lentes como
um  filtro  que  pode  não  ter  sido  adequadamente  divulgada  em  estudos  não  qualitativos,  nos  quais  os
pesquisadores  podem  às  vezes  não  ter  consciência  de  seus  potenciais  vieses.  Por  exemplo,  uma  crítica
pós­modernista (Butler, 2002, p. 37­43) postula que todos os pesquisadores, inclusive aqueles em áreas
não  qualitativas,  revelem  suas  lentes  estabelecendo  prioridades  de  estudo  e  selecionando  determinados
delineamentos e instrumentos de estudo e ignorando outros (ver Cap. 12, item B).
Em  pesquisa  qualitativa,  os  melhores  estudos  não  podem  eliminar  essas  influên cias,  mas  precisam
reconhecê­las  da  maneira  mais  explícita  possível.  O  objetivo  é  fornecer  informações  suficientes  que
permitam  que  a  audiência  reinterprete,  se  necessário,  suas  interpretações.  Ou  seja,  uma  composição  de
pesquisa  qualitativa  alcança  maior  qualidade  quando  o  self  declarativo  apresenta  muitas  evidências  e
quando o self  reflexivo  fornece  informações  suficientes  sobre  as  circunstâncias  nas  quais  as  evidências
foram procuradas e coletadas.

Mantendo seu reflexivo sob controle


Revelar seu self reflexivo não deve, entretanto, levar ao uso excessivo de duas construções textuais: notas
de  rodapé  narrativas  (comparadas  com  notas  que  contêm  uma  citação)  ou  observações  parentéticas
(palavras entre parênteses).
Ambas as formas lhe dão a oportunidade de adicionar detalhes reflexivos, para embelezar o texto com
alguma  auto­observação  adicional  ou  para  expressar  uma  advertência  sobre  alguma  argumentada  no
texto. Qualquer que seja a função, o tom dessas notas de rodapé e observações parentéticas geralmente é
o de um “aparte” teatral (também considerado um “comentário lateral”). Se você tivesse que apresentar
esse material oralmente, não apenas pela escrita, seu tom de voz provavelmente baixaria um pouco, para
indicar à plateia que você estava fazendo um aparte.
O  “aparte”  tende  a  ser  uma  expressão  feita  por  seu  self  reflexivo.  Você  está  comentando  sobre  seu
trabalho, não apresentando o real trabalho abordado pelo self declarativo (se não, o material poderia ter
igualmente  aparecido  no  corpo  do  texto  e  não  em  uma  nota  ou  entre  parênteses).  (A  declaração
parentética anterior, assim como a presente, são exemplos do self reflexivo neste livro.)
Quase  todos  os  estudiosos  fazem  apartes,  tanto  na  escrita  quanto  em  suas  apresentações  orais.
Entretanto, se você dá muita atenção a este aspecto do self reflexivo, você arrisca confusão: um leitor (ou
ouvinte)  deve  constantemente  alternar  a  atenção  entre  as  vozes  declarativa  e  reflexiva.  Como  disse  um
crítico sobre as notas de rodapé narrativas muito longas, “parece haver dois autores, um ‘acima da linha’
(demarcando a nota de rodapé do texto) e outro ‘abaixo da linha’”. Essa personalidade dividida dificulta a
leitura  ou  a  escuta.  Você  corre  o  risco  de  fazer  sua  audiência  prestar  excessiva  atenção  ao  self  errado
(reflexivo) e perder de vista a história principal.
Portanto,  limitar  seus  apartes  e  manter  seu  self  reflexivo  sob  controle  ao  escrever  ou  fazer
apresentações orais acarretará uma melhor comunicação sobre a história principal. Um benefício extra é
que você terá mais tempo para investir na história principal em vez de compor e reformular as notas de
rodapé e comentários parentéticos.
Tornando observações prefaciais interessantes e atraentes
O self reflexivo também se revela em seus comentários prefaciais, que podem aparecer no prefácio de um
livro  (além  de  alguma  declaração  metodológica  formal)  ou  nos  comentários  introdutórios  de  uma
apresentação  oral.  O  conteúdo  da  maioria  dos  prefácios,  não  apenas  em  pesquisa  qualitativa,  pode
abranger  ao  menos  duas  linhas  de  pensamento.  Primeiro,  o  prefácio  pode  conter  um  pouco  da  história
sobre como você se interessou e se envolveu no tema estudado. Para pesquisa qualitativa, você pode ver
como isso poderia prontamente levar a uma discussão mais sistemática de suas “lentes” de pesquisa.
Segundo, um prefácio substantivo pode também contextualizar o tema que está sendo estudado. Esses
comentários prefaciais seriam diferentes do que poderia aparecer na seção ou capítulo introdutório formal
de um estudo, porque a perspectiva seria mais personalizada, sem a obrigação de citar referências formais
ou pesquisa anterior. O material contextual pode ser útil, mas não deve, novamente, ser exagerado, para
que os comentários prefaciais não se tornem efetivamente sua introdução.
Para livros, o prefácio é outro lugar explorado por potenciais leitores, ajudando­os a determinar se o
livro  merece  maior  exame.  Portanto,  você  deve  compor  o  prefácio  com  algum  cuidado  e  apresentar
alguns  comentários  interessantes  ou  provocativos.  Esses  comentários  podem  estimular  os  potenciais
leitores  a  se  aprofundar  mais  em  seu  trabalho.  Da  mesma  forma,  fazer  algumas  observações  prefaciais
estimulantes em uma apresentação oral também acarretará uma escuta mais ativa por parte de sua plateia.
Uma  lacuna  lastimável  na  literatura  é  a  ausência  de  orientação  na  composição  de  prefácios  sólidos,
porém  atraentes.  Dada  esta  carência,  você  deve  dedicar  cuidadosa  atenção  ao  que  aparece  em  seu
prefácio. Uma abordagem excessivamente pessoal, que pode parecer autocentrada, corre o risco de perder
o  interesse  dos  leitores  que  desejam  saber  se  um  trabalho  vai  ser  significativo.  Uma  abordagem  muito
distante  corre  o  risco  de  parecer  fria  e  mecânica,  o  que  pode  ser  desalentador  para  um  trabalho  sobre
pesquisa qualitativa. Rever os comentários prefaciais de outros autores, decidindo quais são atraentes e
por  quê,  e  pedir  a  seus  colegas  que  revejam  seus  esboços,  pode  lhe  ajudar  a  encontrar  um  nicho
confortável.

E. REFORMULANDO SUA COMPOSIÇÃO

O que você deve aprender nesta seção:

Depois  de  ter  criado  um  esboço  de  alguma  parte  ou  de  toda  a  composição,  você  está  pronto  para
reformulá­la.  Um  esboço  perfeito,  como  acontece  com  as  composições  de  Mozart,  exigirá  pouca  ou
nenhuma  reformulação.  Contudo,  a  maioria  das  pessoas  não  é  capaz  de  produzir  essa  perfeição  na
primeira tentativa, e então precisamos dedicar um tempo para reformular nossos esboços.
O  tempo  dedicado  à  reformulação  varia  conforme  o  nível  acadêmico.  Para  a  maioria  dos  trabalhos
universitários  uma  boa  estimativa  é  que  a  reformulação  representará  apenas  de  5  a  10%  do  esforço
dedicado  ao  estudo  inteiro.  Entretanto,  para  teses,  dissertações  e  estudos  mais  extensos  e  complexos,  a
reformulação  pode  exigir  uma  proporção  muito  maior  do  esforço  total. A  reformulação  também  pode
ocorrer  durante  todo  o  esforço  de  composição,  com  algumas  partes  dela  concluídas  e  agora  sendo
reformuladas, enquanto outras ainda estão sendo concluídas pela primeira vez.

A utilidade das revisões no processo de reformulação


Ao fazer pesquisa, seu primeiro instinto deveria ser ter seu trabalho lido por outras pessoas. Dois tipos de
“outras pessoas” são mais importantes: as que participaram de seu estudo e os seus pares.

Participantes
Você já deve ter vindo conferindo suas notas de campo com os participantes em seu estudo como parte da
“verificação das coisas” durante todo o trabalho de campo (ver Cap. 7, item C). Entretanto, nesta etapa
posterior  da  composição  de  seu  esboço  final,  você  tem  a  oportunidade  de  pedir  um  retorno  adicional.
Idealmente, você deve estar seguindo os procedimentos anteriormente cogitados durante o delineamento
de seu estudo (ver Cap. 4, Opção 6).
Um  dos  propósitos  deste  retorno  é  confirmar  a  precisão  das  informações,  e  este  propósito  pode  ser
atendido  mostrando­se  partes  selecionadas  de  seu  esboço  aos  participantes.  Observe  que  a  busca  de
“precisão” não implica uma realidade singular, como ao tentar determinar a correção de um fato relatado,
mas ainda reconhece a possibilidade de múltiplas perspectivas. Por conseguinte, verificar a precisão entre
seus  participantes  significa  sobretudo  confirmar  que  eles  disseram  o  que  seu  texto  afirma  que  eles
disseram.
Outro  propósito  de  pedir  um  feedback  pode  ser  obter  lampejos  e  reações  adicionais,  pois  os
participantes  agora  podem  ver  o  que  você  compôs  pela  primeira  vez.  Nessa  situação,  você  pode
compartilhar o rascunho inteiro. Entretanto, esteja advertido de que disponibilizar o rascunho inteiro pode
produzir resultados imprevistos porque os participantes podem considerá­lo demasiado acadêmico e por
isso  distanciado  de  seu  próprio  senso  de  realidade.  Se  você  pretende  compartilhar  todo  o  rascunho,
provavelmente você precisa apresentá­lo e discutir sua orientação antes de compartilhá­lo. Você também
deve prever sua própria rea ção caso os participantes discordem de partes importantes de seu rascunho (p.
ex., Locke & Velamuri, 2009).

Pares
O  segundo  tipo  de  “outras  pessoas”  são  colegas  acadêmicos  e  pares  –  por  exemplo,  pessoas  que  estão
bem­informadas sobre o conteúdo ou os métodos de seu estudo (ou ambos) ou, alternativamente, quem
possui  um  aguçado  senso  analítico  ou  olho  crítico  para  seu  trabalho.  Esses  pares  e  colegas  podem  ser
parecidos com aqueles que vão analisar seu trabalho em nome de revistas e outras publicações e podem
ser considerados parte do processo convencional de “revisão por pares”.
A pesquisa em ciências sociais não é a única a aderir à revisão por pares. Existem procedimentos de
revisão em todas as áreas de pesquisa (p. ex., ciências naturais e medicina), assim como em profissões
como  arte  e  arquitetura.  Nessas  profissões,  os  procedimentos  podem  ser  bastante  rígidos. As  revisões
também podem ser em forma escrita ou oral.
Durante o processo de revisão por pares, mantenha a confiança e seja responsivo. Obter um retorno de
um colega ou grupo de colegas, e depois ter que revisar ou repensar sua composição com resultado de tal
retorno, irá inevitavelmente reforçar o estudo. Lembre­se que a pesquisa aparecerá com o seu nome, não
com  os  nomes  dos  revisores.  Nesse  sentido,  você  é  o  beneficiário  da  orientação  dos  outros,  devendo
sentir­se  grato  por  tal  orientação  ser  dada  gratuitamente.  Sei  de  um  experiente  estudioso  que  se
comprometeu desde o início de sua carreira a sempre responder aos comentários dos revisores, qualquer
que fosse seu conteúdo. No decorrer do tempo, essa prática ajudou­lhe a alcançar uma taxa de aceitação
de 100% em todas as suas publicações.
A revisão por pares pode oferecer um número variado de comentários. A maioria das revistas dirige
seus  revisores  para  uma  orientação  positivista  –  por  exemplo,  comentar  se  as  evidências  de  um
manuscrito  foram  coletadas  de  maneira  metódica  e  se  elas  parecem  respaldar  as  conclusões.  Alguns
revisores  podem  escrever  de  uma  maneira  direta  e  revelarem  abertamente  suas  maiores  apreensões.
Outros  escreverão  sua vemente,  mas  na  verdade  ainda  estarão  levantando  questões  altamente
ameaçadoras. A Tabela 11.1 oferece ilustrações dos comentários dos revisores, suas maiores ameaças e as
soluções que você pode querer considerar para responder aos comentários.

Respostas a tipos ilustrativos de comentários de revisores

Mensagem potencialmente mais


Mensagem escrita dos revisores profunda dos revisores Respostas/soluções a serem consideradas

1. Conclusões  não  são


apoiadas  pelas  evidências
empíricas

1. Resultados,  interpretações
e  conclusões  não  estão
concatenados logicamente

1. Trabalho  de  campo  ou


outros  métodos  de
pesquisa  não  são  descritos
de forma adequada

1. Dados  não  são  tratados


adequadamente  para
analisar  ou  apresentar  os
fatos

1. Texto contém diversos erros

Como parte do processo de revisão por pares, as revistas e outros publicadores muitas vezes pedem aos
autores  que  sugiram  revisores  pertinentes  (em  caso  negativo,  outra  prática  comum  é  se  aproximar  das
pessoas  cujos  principais  trabalhos  você  pode  ter  citado  em  suas  referências).  Os  revisores  geralmente
aparecem  de  maneira  anônima.  Contudo,  em  algumas  situações,  tais  como  comitês  de  revisão  de
propostas, ou bancas examinadoras de teses e dissertações, o conhecimento das identidades dos revisores
está plenamente disponível. Nessas circunstâncias, você deve tentar saber alguma coisa sobre o trabalho
ou  prática  de  seus  revisores.  Todo  revisor  tem  uma  opinião  pessoal  sobre  a  melhor  forma  de  fazer
pesquisa, e essas preferências geralmente são reveladas por seu próprio trabalho. Assim, uma forma de
aprender sobre a pesquisa ou as práticas dos revisores é acessar e ler seus trabalhos.
Para  pesquisa  qualitativa,  tal  preparação  é  altamente  recomendada.  É  provável  que  aqueles  que
provavelmente  servem  como  seus  revisores  tenham  opiniões  consideravelmente  diferentes  da  pesquisa
qualitativa em geral e também variem em suas preferências por abordagens diferentes dentro da pesquisa
qualitativa. Você  não  tem  que  aceitar  todos  os  comentários  de  um  revisor,  mas  você  também  não  quer
ignorar alguns comentários que você pode ter interpretado mal porque não apreciou o ponto de vista de
um revisor.

Tempo e esforço na reformulação


O  processo  de  reformulação  pode  envolver  diversas  versões  modificadas  de  sua  composição  original,
com  os  mesmos  ou  outros  revisores  fornecendo  retorno  para  cada  versão.  Esteja  preparado  para  o
processo  ser  frustrante,  mas  continue  lembrando  a  si  mesmo  de  que  toda  a  reformulação  só  tem  um
beneficiário: você! Quanto mais processada a composição, melhor ela tende a ser, e será você quem vai
receber o crédito pela qualidade do trabalho.
Reformular pode envolver muitas facetas diferentes de sua composição. Essas incluem:

✓ corrigir  erros  técnicos,  que  podem  variar  de  erros  na  apresentação  de  suas  evidências  a  erros  na
citação de trabalhos de outros autores;
✓ aprimorar suas interpretações e a lógica que conecta suas evidências, interpretações e conclusões;
✓ reexaminar seus dados de formas alternativas, o que ainda pode ser viável embora a coleta de dados
provavelmente já tenha sido concluída;
✓ considerar interpretações alternativas fornecidas por outros autores cujos trabalhos são levados a sua
atenção pelos revisores e que talvez você não tenha originalmente citado (ou desconhece); e
✓ ampliar  (ou  limitar)  seus  comentários  sobre  o  significado  de  seu  trabalho  em  relação  a  condições
teóricas ou práticas mais amplas.

Preparando originais e revisando – e analisando o trabalho dos revisores


Esse processo também pode ocorrer durante um período prolongado de tempo e sobre múltiplas versões
de sua composição. Você deve querer saber como a maior parte disso é feito mesmo que existam outras
pessoas para preparar os originais e revisar em seu nome. Você também deve querer revisar o que essas
pessoas  fizeram  em  sua  composição  e  assegurar  que  você  concorda  com  as  eventuais  modificações  ou
pode até aperfeiçoá­las. Fique alerta de que no universo editorial de hoje, estes ajudantes externos podem
não  ser  totalmente  sensíveis  ao  “dialeto”  adequado  associado  a  seu  tema  substantivo  ou  linguagem
preferencial.  Por  exemplo,  o  inglês  americano  pode  ser  diferente  do  inglês  falado  em  outras  partes  do
mundo.
Em  última  análise,  é  seu  trabalho  e  sua  autoria.  Sua  audiência  irá  julgar  a  qualidade  de  seu  produto
acabado,  sem  saber  ou  se  importar  se  outras  pessoas  podem  ter  ajudado  a  alterá­lo  ou  revisá­lo.
Consequentemente, orgulhe­se de seu trabalho concluído. Compartilhar ideias e resultados em um fórum
público  revisado  por  pares  é  um  privilégio,  não  um  direito.  O  privilégio  é  concedido  apenas  a  uma
minoria de pessoas que estudam ou fazem ciências sociais. Regozije­se por ser uma delas.

Self Self
slides
parte IV

Levando a pesquisa
qualitativa um passo
adiante
12
Ampliando o desafio de fazer
pesquisa qualitativa

Este  capítulo  situa  a  pesquisa  qualitativa  no  domínio  mais  amplo  da  pesquisa  em  ciências
sociais. Tratadas na primeira parte do capítulo e especialmente relevantes são as semelhanças
e  contrastes  entre  a  pesquisa  qualitativa  e  não  qualitativa  (ou  “quantitativa”).  As  diferenças
também refletem diferentes visões de mundo (pressupostos sobre a qualidade da pesquisa e
como ela é mais bem executada), e essas diferenças têm sido objeto de considerável diálogo e
debate.  O  diálogo  inclui  uma  visão  pós­modernista  de  que  uma  pesquisa  verdadeiramente
objetiva,  em  ciências  sociais  ou  em  outros  contextos,  pode  ser  impossível  de  executar  em
qualquer situação.
O capítulo revisa o diálogo e indica como a pesquisa com metodologia mista, que combina
métodos qualitativos e quantitativos, pode ser um abo opção. Assim, o capítulo apresenta uma
introdução a esse tipo de pesquisa, ilustrando­o detalhadamente com um estudo de exemplo.
De maneira geral, o capítulo fornece uma compreensão mais completa do papel da pesquisa
qualitativa  e  conclui  pedindo  aos  leitores  que  pensem  sobre  novas  ideias  para  fortalecer  a
futura pesquisa qualitativa.

Os  Capítulos  1  a  11  apresentaram  um  conjunto  abrangente  de  ideias  e  procedimentos,  juntamente  com
muitas  vinhetas  retratando  as  experiências  de  outros  estudiosos,  para  fazer  pesquisa  qualitativa.
Absorvendo  essas  ideias  e  compreendendo  os  procedimentos,  você  já  progrediu  muito  no  aprendizado
sobre pesquisa qualitativa. Praticando os procedimentos, você terá superado o desafio de realmente fazer
pesquisa  qualitativa.  Não  tenha  dúvidas:  terá  atingido  um  marco  importante. Agora  deve  ser  capaz  de
redigir um estudo qualitativo concluído e discutir os resultados e procedimentos pertinentes.
Ao  mesmo  tempo,  um  desafio  importante  ainda  está  por  vir.  Você  pode  adiá­lo  e  confrontá­lo  mais
tarde  em  vez  de  mais  cedo.  Entretanto,  no  longo  prazo,  você  provavelmente  não  poderá  ignorá­lo
completamente,  especialmente  se  quiser  ir  além  de  fazer  apenas  um  único  estudo  qualitativo  e  desejar
perseguir ou já estiver perseguindo uma carreira mesmo que modesta fazendo vários estudos qualitativos.
O desafio provém do reconhecimento de que a pesquisa qualitativa não existe em um vácuo, mas faz
parte  de  um  conjunto  mais  amplo  de  métodos  das  ciências  sociais.  Fazer  pesquisa  qualitativa  é  apenas
uma  forma  de  fazer  pesquisa  em  ciências  sociais.  O  domínio  mais  amplo  inclui  outros  métodos  de
pesquisa  não  qualitativos.  Em  algum  ponto  de  sua  carreira  em  pesquisa,  você  provavelmente  precisará
demonstrar algum conhecimento de como a pesquisa qualitativa se relaciona com essa esfera mais ampla
da pesquisa em ciências sociais.
Este capítulo final ajuda a estabelecer algumas relações. Ao longo do capítulo, um contraste importante
se  revela  entre  a  pesquisa  qualitativa  e  não  qualitativa  –  um  grupo  de  outros  métodos  comumente
chamados  de  métodos  quantitativos. Até  aqui,  este  livro  só  usou  o  termo  quantitativo  moderadamente,
preferindo  o  termo  mais  global  e  necessariamente  mais  vago  métodos  não  qualitativos,  porque  não  foi
feita nenhuma tentativa de definir o que podem ser considerados métodos quantitativos. Como uma breve
prévia, tais métodos poderiam incluir as pesquisas de levantamentos, experimentos, semiexperimentos, ou
estudos  estatísticos  de  dados  arquivais,  como  poderiam  ser  usados  em  demografia,  epidemiologia  ou
economia.
Seu compromisso em aprender sobre a esfera mais ampla da pesquisa em ciências sociais se aprofunda
à  medida que  você  lê este capítulo. Assim,  para  fazer  um  estudo  investigativo com  metodologia mista,
como  discutido  posteriormente  no  item  C,  você  precisará  saber  não  apenas  como  fazer  pesquisa
qualitativa,  mas  também  como  usar  um  ou  vários  métodos  quantitativos.  Para  usar  esses  métodos
adequadamente, você vai precisar aprender sobre eles por conta própria ou com um colaborador que os
utiliza. Tudo isso se soma a sua necessidade de dominar a pesquisa qualitativa. Por conta própria ou com
um colaborador, você também vai precisar aprender a combinar métodos qualitativos e não qualitativos.
Ao fim do capítulo, a perspectiva aprofundada deve deixá­lo ainda mais bem preparado para apreciar a
pesquisa  qualitativa. Assim,  como  consideração  final,  o  item  D  aborda  sucintamente  como  você  pode
contribuir  para  o  contínuo  desenvolvimento  do  ofício  da  pesquisa  qualitativa,  destacando  três
necessidades  que  ainda  não  foram  satisfeitas,  mas  que  poderiam  ser  consideradas  prioridades  para  o
futuro.

A. PESQUISA QUALITATIVA COMO PARTE DO DOMÍNIO MAIS


AMPLO DA PESQUISA EM CIÊNCIAS SOCIAIS

O que você deve aprender nesta seção:

Um  bom  número  de  procedimentos  da  pesquisa  qualitativa  imita  os  procedimentos  mais  genéricos  que
dizem respeito a toda pesquisa em ciências sociais. Outras características da pesquisa qualitativa são mais
características e contrastam com os outros modos de fazer pesquisa em ciências sociais. Você pode querer
se familiarizar com essas semelhanças e contrastes.

Exemplos de semelhanças do ofício


Em diversos aspectos óbvios, o ofício de fazer pesquisa qualitativa não difere do ofício de fazer pesquisa
em ciências sociais. Seguem alguns exemplos.
Um dos paralelos mais evidentes diz respeito aos procedimentos para iniciar um estudo qualitativo (ver
Cap. 3). Os procedimentos de iniciação incluem uma pesquisa prévia, na forma de um banco de estudos,
que ajude a sugerir novos temas para estudo. Este procedimento não se limita de forma alguma à pesquisa
qualitativa.  Ele  também  se  aplica  à  maioria  dos  outros  estudos  em  ciências  sociais.  Da  mesma  forma,
existem paralelos no outro extremo do ciclo de estudos. Por exemplo, os modos sugeridos de reformular
uma composição de pesquisa final, discutidos no Capítulo 11, também são relevantes para a maioria dos
outros  estudos  de  pesquisa  em  ciências  sociais.  Todos  os  estudos  empíricos  podem  se  beneficiar  dos
comentários  de  revisão  por  pares,  quer  um  estudo  tenha  se  baseado  em  métodos  qualitativos  ou  não
qualitativos.
É  possível  observar  ainda  outros  paralelos.  Por  exemplo,  entre  as  características  de  delineamento
apresentadas  no  Capítulo  4,  as  preocupações  sobre  validade,  o  uso  de  triangulação  e  a  importância  de
empregar pensamento rival – tudo para reforçar os resultados de pesquisa – não são exclusivos à pesquisa
qualitativa.  Da  mesma  forma,  uma  autêntica  busca  de  casos  negativos,  bem  como  a  utilidade  de
comparações constantes como referências analíticas (ver Cap. 8, item D), representam procedimentos que
vão na mesma direção que em todos os outros tipos de pesquisa em ciências sociais.
Com  respeito  a  outros  procedimentos  de  análise  de  dados,  algumas  semelhanças  subjacentes  muitas
vezes  não  foram  apreciadas.  Por  exemplo,  ao  preparar­se  para  a  análise,  o  Capítulo  8  indicou  que  um
estudo  qualitativo  pode  se  beneficiar  da  criação  de  um  glossário  de  termos  especiais  para  o  estudo  em
questão. A função do glossário tem uma contrapartida aproximada para analisar dados não qualitativos,
uma  vez  que  o  glossário  desempenha  funções  semelhantes  aos  de  dicionários  de  dados  usados  na
preparação para analisar dados não qualitativos.
É  interessante  que,  mesmo  o  uso  sugerido  de  arranjos,  hierarquias  e  matrizes  na  recomposição  de
dados qualitativos, também discutida no Capítulo 8, pode ter equivalentes em outros tipos de pesquisa em
ciências  sociais.  A  principal  advertência  ainda  seria  que  dados  qualitativos  consistem  de  palavras  e
narrativas,  ao  passo  que  dados  para  outros  métodos  tendem  a  consistir  de  números.  Apesar  dessa
diferença, o uso de matrizes em pesquisa qualitativa (como representada pelos quadros ou cronologias)
como  uma  etapa  analítica  preliminar  pode  não  diferir  funcionalmente  do  mesmo  papel  preliminar  de
conduzir  testes  qui­quadrados  ou  correlações  (observe  que  eles  também  são  matrizes)  antes  de  testar
modelos mais estatísticos, ao fazer pesquisa não qualitativa.1

Exemplos de práticas do ofício contrastantes


A  pesquisa  qualitativa  também  tem  procedimentos  distintivos  que  diferem  dos  de  outra  pesquisa  em
ciências sociais. Seguem alguns exemplos.
Uma  diferença  importante  resulta  de  uma  característica  central  da  pesquisa  qualitativa  –  a  coleta  de
dados de campo em que você, o pesquisador, é o principal instrumento de pesquisa. Embora você possa
usar diversos métodos de coleta de dados, incluindo questionários para fazer entrevistas estruturadas, sua
principal guia para coletar os dados qualitativos será um protocolo de pesquisa – quer você o desenvolva
formalmente quer não (ver Cap. 4, Opção 8).
O protocolo especifica a estrutura mental (ou linha de investigação) que você seguirá à medida que o
estudo  avança.  A  estrutura  abrangerá  os  temas  de  importância  para  suas  entrevistas  qualitativas  ou
observações de campo. O protocolo de pesquisa pode então especificar o uso de outros instrumentos. Por
exemplo,  esses  instrumentos  poderiam  incluir  um  questionário  de  pesquisa  de  levantamento  caso  o  seu
estudo qualitativo pretenda ter entrevistas estruturadas como parte de sua coleta de dados. Entretanto, o
uso de um protocolo de pesquisa e a realização de entrevistas qualitativas ou não estruturadas (ver Cap. 6,
item  C)  são  peculiares  à  pesquisa  qualitativa,  especialmente  em  comparação  com  outros  métodos  de
pesquisa em ciências sociais.
A  pesquisa  qualitativa  também  difere  por  exigir  a  coleta  de  dados  narrativos.  Seu  objetivo  é  coletar
dados  suficientemente  ricos  para  que  seu  estudo  aprecie  plenamente  e  compreenda  melhor  o  contexto
para  os  eventos  que  você  está  estudando. Ao  mesmo  tempo,  como  ao  prover  dados  censitários  básicos
sobre um bairro que poderia ser o ambiente para um estudo, dados numéricos podem complementar seus
dados narrativos. Entretanto, os dados narrativos continuam sendo peculiares à pesquisa qualitativa.
Possivelmente  mais  difícil  de  apreciar  é  outro  contraste  –  aquele  entre  generalização  analítica  e
generalização  estatística.  A  distinção  surge  no  delineamento  de  um  estudo  qualitativo,  bem  como  na
etapa  de  análise  (ver  Caps.  4  e  9).  Nem  todos  os  estudos,  qualitativos  ou  não  qualitativos,
necessariamente pretendem generalizar seus resultados. Entretanto, na medida em que qualquer estudo se
preocupa  com  generalização,  um  resumo  sucinto  poderia  ser  o  seguinte:  estudos  qualitativos  tendem  a
generalizar  para  outras  situações  (com  base  em  alegações  analíticas),  ao  passo  que  estudos  não
qualitativos tendem a se generalizar para populações (com base em alegações estatísticas).
De  maneira  geral,  o  breve  resumo  precedente  de  semelhanças  e  diferenças  deve  aperfeiçoar  sua
compreensão do lugar da pesquisa qualitativa no domínio mais completo da pesquisa em ciências sociais.
Essa compreensão pode lhe ajudar a ir além de fazer apenas um estudo qualitativo. Você pode cogitar usar
tanto  métodos  qualitativos  quanto  outros  métodos  no  mesmo  estudo,  potencialmente  produzindo
resultados  mais  convincentes.  Esse  uso  combinado  ou  “misto”  subjaz  o  interesse  na  pesquisa  com
metodologia  mista. Assim,  para  acrescentar  a  seu  repertório  para  fazer  pesquisa  qualitativa,  você  pode
querer  considerar  fazer  um  estudo  com  metodologia  mista;  a  Seção  C  deste  capítulo  fornece  uma
introdução a esse desafio mais amplo.

Diferenças nas visões de mundo na pesquisa em ciências sociais


Ao  mesmo  tempo,  os  contrastes  do  ofício  entre  pesquisa  qualitativa  e  outras  formas  de  pesquisa  em
ciências sociais também refletem diferenças nas visões de mundo.
Uma visão de mundo consiste em um conjunto de crenças sobre as qualidades aceitáveis da pesquisa e
como  ela  deve  ser  feita.  Durante  o  passado  recente,  a  comunidade  de  ciências  sociais  não  encarou  as
principais  diferenças  nas  visões  de  mundo  levianamente.  Você,  portanto,  pode  querer  saber  um  pouco
sobre o curso dos acontecimentos, que são descritos a seguir.
O  Capítulo  1  apresentou  o  mundo  multifacetado  na  pesquisa  qualitativa.  O  ponto  de  partida  para  o
mosaico  originou­se  da  possibilidade  de  que  o  mundo  das  relações  humanas  poderia  ser  interpretado
como possuidor não apenas de uma realidade única, mas de realidades múltiplas (p. ex., as visões êmica e
ética do mesmo conjunto de eventos).
O mosaico da pesquisa qualitativa pode na verdade refletir diferenças muito maiores na pesquisa em
ciências sociais de maneira mais geral. Consequentemente, suposições alternativas sobre a realização de
pesquisa em ciências sociais (p. ex., Hedrick, 1994, p. 46­49; Reichardt & Rallis, 1994b; Tashakkori &
Teddlie, 1998, p. 6­11) incluem não apenas a questão de:

✓ realidades múltiplas versus singulares, mas também
✓ se a pesquisa é vinculada a, ou livre de valores,
✓ se generalizações de pesquisa, quando de interesse, podem ser feitas de uma maneira livre do tempo e
do contexto (ou não) e
✓ se  as  causas  precedem  temporalmente  os  efeitos,  permitindo  que  os  métodos  de  ciências  sociais  se
empenhem  na  identificação  de  relações  causais,  ou  se  causas  e  efeitos  ocorrem  praticamente
simultaneamente e podem ser impossíveis de distinguir.

Para estereotipar duas visões de mundo diferentes, as pessoas que fazem pesquisa qualitativa tendem a
supor que existem múltiplas realidades que também são vinculadas a valores, tempo e contexto, e que a
complexidade de causas e efeitos as torna praticamente impossíveis de distinguir. As pessoas favoráveis à
pesquisa não qualitativa tendem a fazer as suposições contrárias.
Admitir essas diferenças pode levar à conclusão de que as pesquisas qualitativa e não qualitativa não
são  apenas  diferentes,  mas  incompatíveis.  Pesquisadores  qualitativos  podem  ver  a  pesquisa  não
qualitativa,  em  seu  empenho  para  usar  medidas  livres  de  valores  que  visem  a  estabelecer  relações  de
causa  e  efeito,  como  voltadas  para  focar  nos  aspectos  mais  triviais,  se  não  irrelevantes,  das  relações
humanas;  pesquisadores  não  qualitativos  podem  ver  a  pesquisa  qualitativa,  em  sua  adesão  a  múltiplas
realidades  e  a  complexidade  da