Você está na página 1de 9

O Caso dos Bem-te-vis

Era um casal de bem-te-vis apaixonados. Voavam e pousavam, naquela primeira fase de amor de
passarinho; namoro de asa e bico, entre o céu claro e a copa mais alta das árvores, ai, tão parecido com namoro
de gente – com a diferença de que gente não pode voar.
Aliás, não seria o namoro desses bem-te-vis passados entre árvores; bem-te-vis urbanos, seu pouso
natural são postes e fios elétricos. Esses dois voejavam e curtiam o amor junto à linha-tronco abastecedora da
rede aérea da Central do Brasil, a qual serve os trens com 44 mil volts. Era perto de uma subestação, onde os
fios de distribuição (em três fases) ficam muito próximos uns dos outros.
Fios juntos, paralelos – haverá poleiro mais lírico para passarinhos em estado de amor? A bem-te-vi
donzela pousou no fio à direita, o bem-te-vi mancebo impetuosamente baixou sobre o fio fronteiro. E, naquela
confrontação de fio a fio, trocaram o primeiro beijo.
Jamais, na história dos homens e dos bichos, teve um beijo tão tremendas consequências. Porque os
inocentes passarinhos, cada um pousado no seu fio condutor de 44 mil volts, naquela rápida carícia e bico a
bico, criaram um curto-circuito. Passando pela frágil cadeia dos seus corpos, a terrífica corrente os eletrocutou;
mas o curto também atingiu o aparelho automático que desligou a corrente, paralisando instantaneamente
todos os trens. O interruptor automático funcionou como um kamikase – conseguiu interromper a corrente,
como era da sua obrigação, mas morreu no posto –, quer dizer, incendiou-se. Segundo diz o jornal, “o fogo
foi nele mesmo e não chegou a desligar a energia”.
O sacrifício do automático protegeu os transformadores da subestação; assim mesmo houve tanta
queima de fios e outros desastres menores que, durante quatro horas, ficou paralisada toda a rede de trens
elétricos da Central do Brasil.
Por um beijo de passarinhos, meio milhão de pessoas – que é esse o número de usuários dos trens da
Central no período – ficaram durante meio dia sem poder chegar ao trabalho: só o beijo imortal trocado por
Helena e o pastor Páris, que desencadeou o lançamento de mil navios e causou a guerra de Tróia, pode lhe ser
comparado.
E é por fatos assim que a gente verifica a fragilidade da chamada civilização. Como é que dois bem-
te-vis – tão pequeninos que os dois juntos não pesarão meio quilo - podem determinar tão gigantesca
perturbação na vida da metrópole, tal confusão e prejuízo a tão imensa quantidade de homens: meio milhão.
Isso acontece para quebrar o orgulho dos técnicos; eles podem muito, mas não podem tudo, e de vez
em quando Deus Nosso Senhor suscita um fenômeno – servindo-se das mais pequeninas e frágeis entre as
suas criaturas – no caso dois passarinhos – para pôr em xeque a soberba do homem com as suas máquinas.
A gente vê as imensas composições passando, carregadas de gente até do lado de fora, naquele estrépito
de trovão que abala as pontes de concreto e ao – e aí vêm de dois bem-te-vis – novo Romeu, nova Julieta – e
tocam de leve os bicos numa carícia fugitiva – e as dezenas de trens se imobilizam e os automáticos se
incendeiam e vai tudo numa confusão de fim de mundo.
Vocês morreram, é certo, pobre casal de bem-te-vis apaixonados; morreram, mas serviram para provar
um ponto importantíssimo de filosofia: de que adianta a arrogância dos homens, se um singelo amor de
passarinho tem força para reduzi-la a cinza e fumaça?
(QUEIROZ, Rachel de. O caso dos bem-te-vis. In: Coleção Melhores Crônicas. São Paulo: Global
Editora, 2004. p.192-194.)

HERÓI. MORTO. NÓS.


[Crônica publicada em 1º de setembro de 1977, no jornal Folha de S.Paulo]
https://www1.folha.uol.com.br/folha/80anos/tempos_cruciais-02a.shtml
Neste texto foi mantida a grafia original da época
Lourenço Diaféria

Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma
palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para
salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.
O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.
Que nome devo dar a esse homem?
Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou
nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.
Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois
quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói -como o santo- é aquele que vive sua vida até as últimas
consequências.
O herói redime a humanidade à deriva.
Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão,
major.
Está morto.
Um belíssimo sargento morto.
E todavia.
Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.
O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue
ao ar aqui na Praça Princesa Isabel -onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer- oxidou-se no
coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo
desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas
professoras que não acreditam no que mandam decorar.
O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à
mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.
No instante em que o sargento -apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher- salta no fosso das
simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país,
de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro
de todos.
Esse sargento não é do grupo do cambalacho.
Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou
militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da
farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.
É apenas um homem que -como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando
pressentiu o roteiro de sua última viagem- não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.
O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.
Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.
É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre
o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o
sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles
cobramos.
Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino
de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.
Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.
E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis -tarde demais.

O mito de Hércules
Marcos Faber

Hércules foi um dos maiores heróis da Mitologia Grega. Filho de Zeus, deus e senhor do Olimpo, e
da mortal Alcmena, que era esposa de Anfitrião. Ser filho de um deus com uma humana fazia de Hércules
um semideus.
Segundo o mito, Zeus desejava ter Alcmena por mulher. Assim, o deus, aproveitou-se que Anfitrião
estava em batalha, para tomar sua aparência e, com isso, ter relações sexuais com Alcmena. Ao retornar da
guerra, Anfitrião descobriu a traição. Para piorar, Alcmena estava grávida. Irado, Anfitrião construiu uma
grande fogueira para queimar Alcmena viva. Porém, Zeus, mandou nuvens de chuva para apagar o fogo, o
que acabou fazendo com que Anfitrião aceitasse a situação.
Quando soube do nascimento do bebê, a deusa Hera, esposa de Zeus, enciumada pela traição, enviou
duas serpentes para matar o pequeno Hércules (filho de Zeus com Alcmena). Porém, não teve êxito, pois
mesmo sendo um bebê, Hércules, que, graças a uma artimanha de Zeus adquiriu uma extraordinária força,
estrangulou as serpentes com as próprias mãos.
Quando Hércules já era adulto, Hera provocou nele um ataque de fúria, que o levou a matar sua
esposa Mégara e seus três filhos. Como punição pelo crime, o oráculo de Delfos ordenou que Hércules
realizasse doze tarefas de extremo risco. Essas tarefas foram batizadas de “Os Doze Trabalhos de Hércules”.

Adaptado de História Livre. Disponível em: http://www.historialivre.com/mitologia/mito_de_hercules.pdf

PENÉLOPE SECRETA

Mônica Aquino

Um homem chegou no dia


em que não havia espera.

Na porta, somente o cão


guardava o tempo.

E o tempo era correr


atrás do rabo.

O homem tomou o castelo,


a cama, o arco.

Agora, dorme ao meu lado


descansa da travessia.

Não sabe seu gosto de mar

não sabe que traz, na pele, a alma


do mar.

Preciso partir para esse lugar


de onde o homem voltou

(o amor, agora, é o mar).

Comecei a tecer uma rede


de pesca.

Comecei a tramar
certo corpo de barco.

Agora, tranço os cabelos


e olho pela janela.

É quando ele desperta


desfaz a cama, desfia os planos
desata a trança, pisa na rede
e sinto, de novo, o mar.

De repente, partir é igual


a ficar.

In: Revista Piauí. Edição 79, abril de 2013

ÍTACA

Se partires um dia rumo à Ítaca

Faz votos de que o caminho seja longo

repleto de aventuras, repleto de saber.


[...]
Tem todo o tempo Ítaca na mente.

Estás predestinado a ali chegar.

Mas, não apresses a viagem nunca.

Melhor muitos anos levares de jornada

E fundeares na ilha velho enfim.

Rico de quanto ganhaste no caminho

Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

Uma bela viagem deu-te Ítaca.

Sem ela não te ponhas a caminho.

Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu

Se a achas pobre.

Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.

E, agora, sabes o que significam Ítacas.

Constantino Kavafis (1863-1933) in: O Quarteto de Alexandria - trad. José Paulo Paz
Marcel Camp

Interesses relacionados