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Universidade Federal do Paraná Programa de Pós-Graduação em Administração Curso de Doutorado em Administração

Disciplina: Epistemologia, Metodologia e Teoria em Estudos Organizacionais.

Professores: José Henrique de Faria e Natalia Rese

4º Encontro: As Dimensões da Matriz Epistemológica (08 de abril de 2019)

BIBLIOGRAFIA BÁSICA:

FARIA, José Henrique de. Dimensões da Matriz Epistemológica em Estudos em Administração: uma proposição. Rio de Janeiro: XXXVI EnANPAD, 2012.

OUTRAS REFERÊNCIAS CONSULTADAS:

FARIA, José Henrique de. Introdução à Ontologia e à Epistemologia em Estudos Organizacionais. Curitiba: EPPEO, 2019. Caps. 1 e 2.

RESENHA

Discente: Guilherme Cavicchioli Uchimura

Trata-se do primeiro encontro da segunda parte do curso, denominada A matriz

epistemológica e suas dimensões. No texto, formalmente apresentado em comunicação no

XXXVI Encontro Nacional da ANPAD Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa

em Administração no ano de 2012, Faria apresenta parcialmente os resultados da pesquisa sobre

epistemologia por ele iniciada sete anos antes, em 2005. Em aula, o professor comentou que já

há coisas novas algumas expostas no texto objeto do primeiro encontro do curso (FARIA,

2019), outras ainda em processo de organização e revisão.

Como o próprio título bem adianta, o núcleo central do artigo consiste na apresentação

das dimensões da matriz epistemológica: desde sua formulação categorial e analítica até a

proposição inovadora de uma matriz que organiza as seis dimensões epistemológicas e seus

elementos constitutivos. Ainda que haja certa delimitação da contribuição ao campo de estudos

em administração, a matriz epistemológica apresentada por Faria abrange a produção de saberes

científicos, tecnológicos e filosóficos em geral.

De certo modo, as dimensões epistemológicas, de acordo como Faria (2012, p. 4) são

o meio pelo qual se move o texto ou a linha de investigação, ou seja, os dois momentos

fundamentais e complementares da pesquisa. Conceitualmente, de acordo com o que formula o

autor, [o] que caracteriza uma dimensão epistemológica como única é o fato de ter, ao mesmo

tempo, elementos constitutivos próprios e únicos bem como combinações específicas próprias de elementos constitutivos comuns (ainda que peculiares) a uma ou mais Dimensões(FARIA, 2012, p. 6). Operacionalizando esta conceituação, foram identificadas três categorias de análise por Faria: (i) a produção do conhecimento, (ii) o método de investigação e (iii) as técnicas de pesquisa. Apresenta, a partir disso, a formulação do Quadro 01(cf. FARIA, 2012, p. 4-5), relacionando cada umas destas categorias com elementos constitutivos e seus descritores. O quadro, de acordo com comentário em sala de aula, foi realizado a partir do estudo de uma miríade de obras e da formulação de uma proposta inicialmente arbitrária (a arbitrariedade é do pesquisador, comentou em aula) de organização deste estudo. Por contraste, distingue-se da matriz proposta por Ana Paula Paes de Paula, conforme comentado em sala de aula e no texto Introdução à Ontologia e à Epistemologia em Estudos Organizacionais (2019). Faria (2012, p. 7) também formula, como proposta de organização dos estudos epistemológicos, a categoria área de domínio epistemológico, correspondente

[a]o âmbito de pertença de determinados Elementos Constitutivos da Matriz Epistemológica Geral de acordo com uma dada integridade (inteireza; completude) na qual se encontram definidas as relações que tais elementos mantêm e desenvolvem entre si no processo de construção do conhecimento (científico), segundo oito postulados básico.

No último e mais complexo momento do artigo, Faria apresenta a sua proposta de matriz epistemológica em seis quadros, com as respectivas dimensões, categorias de análise e elementos constitutivos. As dimensões epistemológicas são as seguintes: (i) positivismo, (ii) pragmatismo, (iii) funcionalismo, (iv) estruturalismo, (v) fenomenologia e (vi) materialismo histórico. O teste realizado com outras concepções, tais quais o pós-modernismo, o construtivismo e o pensamento sistêmico, resulta na impossibilidade, ao menos por ora, de ampliação das seis dimensões epistemológicas para além destas seis. Nas palavras colocadas por Faria (2012, p. 15), cada dimensão é única. São estas que, com seu vigor epistemicamente fundante, misturam-se ou desdobram em uma variedade de outras possíveis abordagens, que até podem ser nominalmente originais, mas não o epistemicamente necessário para serem posicionadas como uma dimensão própria na matriz. O importante é que este conjunto de quadros (02 a 07), resultado de reconhecido esforço de estudo e síntese, pode funcionar a nós, pesquisadores, como um guia para a uma investigação mais crítica e consciente do próprio que-fazer investigativo; mais do que isso, fornece uma visão articulada do todo: como distintas dimensões epistemológicas se distinguem na mesma matriz pela qual se movem os saberes científicos, tecnológicos e filosóficos.

Por fim, Faria posiciona a sua própria matriz no terreno de uma prática crítica e, vale dizer, de uma inspiração materialista-histórica: é justamente a realidade e não a ciência, metafisicamente considerada, que tem primazia. A consequência final não é outra senão situar o saber epistemológico coerentemente no processo histórico da produção dos saberes: isto não significa que os enfrentamentos não possam ser realizados, pois ao mesmo tempo em que as Dimensões Epistemológicas circunscrevem os conceitos, o desenvolvimento do conhecimento reclama sua circulação(FARIA, 2012, p. 16). Ao final da produção desta resenha, a questão que permanece a mim, tendo outras sido aproximativamente resolvidas nos debates de sala de aula, é a seguinte: (i) considerando a conceituação de epistemologia como “o estudo dos conhecimentos”, o que seria propriamente “estudar”?; (ii) considerando o plano da exposição como um conjunto de mediações ao rela, qual o sentido da utilização da grafia em maiúscula para expressões como Dimensões Epistemológicas no corpo do texto?

ANOTAÇÕES DA AULA

1)

Trata-se de artigo que relata parcialmente os resultados de uma pesquisa

iniciada em 2005. Já há coisas novas.

2) “Na epistemologia, as características são apenas nominativas”. A categoria

prática, por exemplo, está presente em diversas dimensões epistemológicas. Mas a coincidência é apenas nominativa. A praxologia de Bourdieu é distinta da praxologia de Marx, que é distinta da praxologia de Foucault, que é distinta da praxologia do pragmatismo. “Na área do domínio,

os nomes podem ser iguais [

maneira, [

no entanto, no interior da operação, não funcionam da mesma

],

]

diga-me com quem andas é o que se deve perguntar ao elemento”.

3) A construção da noção de ato epistemológico veio depois do texto. “A dimensão é a área de domínio em ato, trata da produção mesma do conhecimento”. “Uma coisa é a área de domínio, outra é o domínio em ação”.

4)

proposta arbitrária (arbitrariedade é do pesquisador) de organização deste estudo em categorias. Por contraste, distingue-se da matriz de Paula.

A formação do Quadro 01 foi realizada a partir do estudo das obras e de uma

5)

Cada dimensão tem a qualidade de produzir uma unidade de diversidades.

6)

“Não se deixem pegar pelo quadro geral, não se deixem apanhar pela

palavra”. A área de domínio permite identificar o que está ali, a dimensão permite identificar como está.

7) Sobre o curso. “Quando vocês enfrentarem um tema, os autores com que você for trabalhar estão em algum lugar aqui”.

8) É possível trazer conceito de outros campos, desde que fazendo a devida reconfiguração. “Tenho que fazer este trabalho de limpeza”. Tomar cuidado com as armadilhas epistêmicas. Saber de onde vem o autor.

9) A defesa do rigor é no sentido de tentar se aproximar o máximo possível da realidade, com idas e vindas, tensionando o objeto. Subordinar o objeto ao método é matar o processo de pesquisa. Trata-se do contrário, de subordinar o método ao objeto. “Deixar o objeto falar como ele fala”.

10) Relação entre epistemologia e produção científica. “O que mata muito a ciência hoje são os critérios de avaliação.”

O pós-modernismo ainda não alcançou todos os critérios para se tornar uma

dimensão. Na arte é forte, mas na ciência ainda não conseguiu se desvencilhar do moderno. É possível que um dia seja. Valoriza a doxa, o que é um retrocesso na perspectiva científica. Há fragilidades, ausência de rigor que implica a ausência de um ato epistêmico.

11)

12) Sobre o conceito de epistemologia. Já houve revisão em relação ao conceito expresso na p. 3. A epistemologia vem da filosofia, historicamente relacionada a um esforço de contraposição à doxa. É o estudo sobre como o conhecimento se produz. Um tom mais concreto:

colocá-lo no lugar. Delimitação para saber científico, filosófico e tecnológico. Como metodologicamente o estudo é produzido e transmitido, considerando o rigor e a exposição.

13)

O importante no processo de produção do conhecimento é investigar; mas se

não expor, na verdade, não tem importância.