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118 Revista da Faculdade de Direito da UFRGS – nº 32, 2014

Linhas Gerais sobre Direito


Sucessório na Antiguidade:
do Egito ao Direito Romano

Débora Cristina Holenbach Grivot1

Introdução do povo que se está observando. Nes-


te procedimento, a primeira civiliza-
Este artigo tem por objetivo dis- ção que se analisa é a do antigo Egito.
correr a respeito do direito sucessório Em seguida, como demonstração da
na Antiguidade. A ideia que se propõe cultura mesopotâmica, analisa-se o
afasta-se inteiramente da completude, direito da Babilônia, máxime o Códi-
tanto de argumentos como de fontes. go de Hamurabi. Logo em seguida, se
O que se pretende é um sumário apon- observa o direito hebreu como forma
tamento sobre as mais remotas formas de finalizar os povos do Oriente Pró-
de atribuir titularidade de bens a partir ximo para, então, ser objeto de con-
da morte do proprietário, verificando sideração, as linhas gerais do direito
como, em linhas gerais, isso se deu na Grécia Antiga. Por fim, o direito
nas civilizações mais antigas. Romano. Este, pela sua grandiosida-
A abordagem é simples, pelo mé- de, foi observado em sentido sumário
todo de sinalização de características e restritivo, com o único propósito de
elementares da civilização e do direito apontar a existência das mais ordiná-
que nela existe para então demonstrar rias regras de direito no que tange ao
as linhas gerais do direito sucessório direito sucessório.

1 Doutoranda em Direito Civil pela UFRGS, mestre em Direito Civil pela UFRGS,
professora de Direito Romano e História do Direito das Faculdades São Judas Tadeu
de Porto Alegre, Faculdade Dom Bosco de Porto Alegre e professora substituta por
concurso público da Faculdade de Direito da UFRGS.
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Não seria possível, nesta sede, menos um dentre os mais antigos a


realizar investigação profunda acer- compor a história da humanidade. A
ca deste tema. Por isso, as próximas geografia, vale dizer, muitíssimo con-
correu para a veracidade dessa asser-
linhas pretendem mais do que de- tiva. Sabe-se que o Egito conheceu a
monstrar o direito sucessório, instigar primazia de poder desenvolver a sua
a curiosidade e incentivar a pesquisa notória civilização, às margens de um
e o estudo dos direitos antigos como rio – “festejado Nilo” – que significa-
forma de demonstrar a historicidade va a diferença entre a vida e a morte
do fenômeno jurídico, conforme será para populações ribeirinhas essen-
cialmente agrárias.
visto a seguir.

Ainda que não caiba esse assunto


nesta etapa de estudo, enfocado no
Primeira Parte:
direito, vale dizer, com as palavras de
o Direito mais remoto
Rodrigo Palma (2001, p. 57):
– Antiguidade Pré-
Clássica Os egípcios destacaram-se de modo
evidente nas artes, arquitetura, me-
1 O Antigo Egito e o dicina e agricultura. Mas, apesar de
Direito Sucessório toda a grandeza a eles atribuída por
gerações de pesquisadores, é fato
que, no âmbito do Direito, deixaram
1.1 Noções Gerais da história e
exígua contribuição. Sendo assim,
do Direito no Antigo Egito quais foram as razões, pois, que os fi-
zeram a distanciar-se da prática legis-
Muitas são as divisões apresen- lativa, arvorada com tanta ênfase por
tadas pela historiografia como fases praticamente todas as nações que os
do Antigo Egito. Aquela adotada por rodeavam? Grimberg será o primeiro
a buscar lançar luz ao problema. O
John Gilissen (2008, p. 51) divide em
autor, diligentemente informa: “Ape-
(1ª) Antigo Império, (2ª) Médio Im- nas uma coletânea de leis do Egito
pério e (3ª) Novo Império, sendo que Antigo chegou até nós; é, além dis-
cada uma delas tem, intercalado, um so, muito incompleta”. Logo adiante,
momento de transição. o mesmo declara: “infelizmente – e
Da mesma forma que a historio- é o caso de muitas outras perdas – o
texto está tão estragado que nenhum
grafia, riquíssima é a história geral da-
parágrafo completo chegou até nós”.
quela civilização. Como bem informa Giordani também admite: “Não é
Rodrigo Palma (2001, p. 57): fácil sintetizar a História do Direito
no Egito Antigo por duas razões: a
O Egito dos faraós foi, senão o reino longa duração da história do país que
de maior projeção política na longa assistiu a inúmeras transformações
trajetória do Oriente Próximo, pelo das instituições políticas e sociais e a
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carência de coleções legislativas tais próprio patrimônio em vida ou após a


como as que encontramos referentes morte (Gilissen, 2008, p. 55). De outra
à vida jurídica dos povos da Antiga parte, não há distinção entre os filhos,
Mesopotâmia”.
nem de gênero nem mesmo primoge-
nitura. Além de poder ter patrimônio
A respeito do direito, o Egito não próprio, o filho tem liberdade de dispor
transmitiu à modernidade códigos ou do mesmo. Quanto às regras sucessó-
livros jurídicos. Para Gilissen (2008, rias, sabe-se que a liberdade de testar é
p. 52): completa (Gilissen, 2008, p. 55).
Na segunda fase, ainda com raí-
o nosso conhecimento do direito egíp-
zes no período anterior, a evolução do
cio é baseado quase exclusivamente
nos actos da prática: contratos, tes- direito no sistema jurídico egípcio di-
tamentos, decisões judiciárias, actos reciona-se à formação de uma oligar-
administrativos etc. Os egípcios quase quia sacerdotal, com hereditariedade
nada escreveram de livros de direito, dos cargos, onde a evolução do direito
nem deixaram compilações de leis ou público corresponde à evolução para-
costumes. Mas não deixaram de se
lela do direito privado: poder paternal
referir frequentemente a “leis”; essas
leis deviam ser escritas, pois, em pe- e marital, desigualdade nas sucessões
ríodo de confusão, foram lançadas á pela primogenitura e privilégio da li-
rua, “espezinhadas” e “laceradas”. nha masculina.
Na terceira fase, deixando de
Mas o certo é que, foi a primeira lado o regime feudal fechado, o di-
civilização na história da humanidade reito egípcio evolui novamente para
que desenvolveu um sistema jurídico a preponderância da lei, da igualdade
que pode chamar-se de individualista, jurídica dos filhos e filhas, liberdade
rompendo com as solidariedades para dispor do patrimônio em vida e
ativas e passivas dos direitos arcaicos depois da morte. Ao final, depois da
e feudais (Gilissen, 2008, p. 52). ocupação persa e romana, tal regime
é tolerado por um período, até que en-
1.2 A sucessão no Antigo Egito tão sucumba ao poderio romano.

Na primeira fase, as características


da família determinam diretamente o 2 Os Direitos
direito sucessório. A família no Antigo Cuneiformes
Império Egípcio era formada pelo pai,
pela mãe e pelos filhos, sendo que o 2.1 Noções gerais
casal apresenta-se em pé de igualda-
de (não há prevalência do homem na Chama direitos cuneiformes o
família), podendo ambos dispor do conjunto dos direitos da maior parte
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dos povos do Oriente Próximo da an- O Código de Hammurabi e os nume-


tiguidade que utilizaram de um tipo rosos atos da prática do mesmo perí-
de escrita parcialmente ideográfica odo dão-nos a conhecer um sistema
jurídico muito desenvolvido, sobre-
em forma de cunha, tendo como lín- tudo no domínio do direito privado,
gua culta a acádica (Gilissen, 2008, p. principalmente dos contratos. [...]
58). Por isso, é possível afirmar que Subsistem no entanto, na época de
não há um direito cuneiforme único, Hammurabi, sobrevivências do pe-
mas conjunto de sistemas jurídicos de ríodo anterior, por exemplo, na me-
diferentes regiões localizadas na Me- dida em que o poder paternal é mais
extenso do que no Egipto (o pai in-
sopotâmia. solvente podia entregar a sua mulher
Dos povos que habitavam a re- ou os seus filhos ao credor para que
gião, tem destaque o povo babilô- eles trabalhassem ao seu serviço), ou
nico em face do famoso Código de ainda no facto de a poligamia subsis-
Hammurabi, que não é o mais remoto, tir, permitindo ao marido cuja esposa
mas com certeza é o mais famoso e é estéril tomar uma outra mulher, e
enfim, na medida em que o direito
também o mais completo e extenso. penal continua extremamente severo.
Segundo John Gilissen (2008, p. 61):
“o monumento jurídico mais impor- Além disso, o texto legal propria-
tante da antiguidade antes de Roma é mente dito distingue as diferentes
o Código de Hammurabi (rei da Ba- classes das pessoas em: “awilun”, o
bilônia, possivelmente entre 1726- senhor, “muskenun”, plebe livre e es-
1686 a.C.). O texto provavelmente cravos, estabelecendo em cada caso
redigido por volta de 1694 a.C, está diferentes sanções, conforme a classe
gravado numa estela descoberta da pessoa.
em Susa, em 1901, e atualmente Do estudo do Código de Hammu-
conservada em Paris no Museu do rabi deriva duas hipóteses distintas.
Louvre”. Para a primeira, o imperador simples-
Trata-se de uma compilação dos mente desenvolveu melhor a legisla-
costumes já vigentes entre os povos ção de códigos vigentes em períodos
mesopotâmicos e contém 282 pará- anteriores, classificados como “Di-
grafos, iniciando-se pelo direito pe- reito babilônico pré-hammurabiano”,
nal e depois regulando as relações de ou seja, desvalorizando a inteligência
agricultura e domésticas, comércio, de seu criador. A outra hipótese seria
casamento e herança, contratos de aquela mesma acentuada no proêmio
parceria e arrendamento agrário, limi- do Código, segundo o qual Hammura-
tes de preços, juros e salários e, por bi ditou o Código sob direta inspiração
fim, normas sobre o regime escravo. divina e como um justiceiro e protetor
Para Gilissen (2008, p. 63): dos fracos: “Como Marduk [Deus pro-
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tetor dos babilônios] me encarregou de selado” lida em conjunto com a ideia


reger o povo com justiça e de dar uma de “ser aberto após a morte” do
direção ao país, dei ao país ordem jurí- homem que o redigiu, faz aproximar
dica e justiça, dei aos habitantes bem- do instituto moderno do testamento.
-estar. E então ordenei: [...].” Porém, no que diz respeito à
Pela grandiosidade da obra, como sucessão legítima, outros parágrafos
dizia o próprio, é impossível concor- do Código revelam algum esboço
dar ter sido uma simples “cópia”, com de sistema hereditário. Passamos a
algumas alterações. Hammurabi foi, analisá-los.
de certa forma, um criador de muitos
princípios, não só judiciais, mas que Herança da Mulher
em sua teoria possuíam temas que § 162: Se um awilum tomou uma
hoje são abordados de forma parecida. mulher como esposa e ela lhe gerou
filhos e (depois) essa mulher morreu,
2.2 Direito Sucessório seu pai não poderá reclamar o dote,
seu dote é de seus filhos.
§ 163: Se um awilum tomou uma
No que diz respeito ao direito
mulher como esposa e ela não lhe
sucessório especificamente, Ronaldo obteve filhos e (depois) morreu, se
Leite Pedrosa (2008, p. 79) afirma que, seu sogro lhe devolveu a terhatum,
pelo fato de o testamento não estar que esse awilum enviara para a casa
contemplado de forma expressa no de seu sogro, seu marido não poderá
código, pressupõe-se que tal instituto reclamar o dote desta mulher. Seu
(testamento) não existia no direito dote é da casa de seu pai.
§ 164: Se seu sogro não lhe devolveu
mesopotâmico com as características
a terhatum, ele deduzirá do seu dote
de hoje. Mas o mesmo autor ressalva o correspondente à sua terhatum e
a importância da interpretação do restituirá o seu dote à casa de seu pai.
parágrafo 150, que tem a seguinte
redação: Segundo as explicações de
Emanuel Bouzon, (1987, p. 160)
§ 150: Se um awilum deu de presente
à sua esposa um campo, pomar, casa
estes parágrafos citados tratam do
ou um bem móvel e deixou-lhe um falecimento da esposa antes do
documento selado, depois (da morte) marido, e regulamentam a devolução
de seu marido, os seus filhos não ou não do dote que a mulher trouxe da
poderão reivindicar contra ela. A mãe casa do seu pai:
dará a sua herança aos filhos que ama,
mas não poderá dá-la a um estranho. o §162 trata do caso de uma mulher
que teve filhos no seu casamento. A
Para Ronaldo Leite Pedrosa lei determina “a seriktum é de seus
(2008, p. 80), a expressão “documento filhos”. Depois da morte da mãe, os
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filhos herdam, automaticamente, § 167: Se um awilum tomou uma


a seriktum de sua mãe. Mas para esposa, ela lhe gerou filhos e (depois)
evitar qualquer reivindicação por essa mulher morreu, se depois de
parte da família da esposa morta, a sua morte ele tomou outra mulher e
lei acrescenta a cláusula: “seu pai (da ela (lhe) gerou filhos, depois que o
mulher) não poderá reclamar o seu pai morrer, os filhos não dividirão
dote”. conforme as mães. Eles tomarão o
dote de suas mães e os bens da casa
Se houver filhos, estes herdam au- paterna eles (os) dividirão em partes
iguais.
tomaticamente. Se não houver filhos,
o procedimento depende da conduta
Deserdação
do sogro vivo ter ou não devolvido § 168: Se um awilum resolveu
um preço que o marido “pagou” pela deserdar seu filho e disse aos juízes:
esposa (terhatum). Se devolveu, en- “eu quero deserdar meu filho”,
tão o marido deve devolver o dote os juízes examinarão a questão.
integralmente, se não devolveu, o Se o filho não cometeu uma falta
suficientemente grave para excluí-lo
marido tem o direito de deduzir o va-
da herança, o pai não poderá deserdar
lor já pago pela esposa do dote a ser o seu filho.
devolvido ao pai dela (Bouzon, 1987, § 169: Se ele cometeu contra seu pai,
p. 160). uma falta suficientemente grave para
excluí-lo da herança, a primeira vez
Igualdade entre os filhos do eles o perdoarão. Se, pela segunda
vez, ele cometeu uma falta grave, o
homem
pai poderá deserdar seu filho.
§ 165: Se um awilum deu de
presente a seu herdeiro preferido
um campo, um pomar ou uma casa Legitimação dos filhos e
e escreveu para ele um documento sucessão
selado, depois que o pai morrer, § 170: Se a primeira esposa de um
quando os irmãos dividirem, ele awilum lhe gerou filhos e a sua
tomará o presente que o pai lhe deu; escrava lhe gerou filhos, (se) o pai,
além disso, dividirão os bens da casa durante a sua vida, disse aos filhos
paterna em partes iguais. que a escrava lhe gerou: “vós sois
§ 166: Se um awilum tomou esposas meus filhos” e contou com os filhos
para os filhos que teve e para o da primeira esposa, depois que o pai
filho menor não tomou uma esposa, morrer, os filhos da primeira esposa
depois que o pai morrer, quando os e os filhos da escrava dividirão em
irmãos dividirem (a herança), dos partes iguais os bens da casa paterna,
bens da casa paterna eles colocarão à mas o herdeiro, filho da primeira
disposição de seu irmão mais novo, esposa, escolherá entre as partes e
como adicional à sua parte, a prata tomará para si.
da terhatum e fá-lo-ão tomar uma § 171a: Mas se o pai, durante a
esposa. sua vida, não disse aos filhos que a
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escrava lhe gerou: “vos sois meus 3 O Direito Sucessório


filhos” depois que o pai morrer, os Hebraico
filhos da escrava não dividirão os
bens da casa paterna com os filhos
da primeira esposa. Será efetivada 3.1 Noções Gerais da História e
a libertação da escrava e de seus do Direito Hebreu
filhos. Os filhos da primeira esposa
não poderão reivindicar os filhos da Os hebreus foram um povo semi-
escrava para a escravidão. ta que vivia na região da Palestina em
tribos nômades, conduzidas por chefes
Posição da Primeira esposa familiares. Está descrito no Êxodo a
§ 171b: A primeira esposa tomará
consigo o dote e o presente nupcial sua condução como escravos ao Egi-
que o esposo lhe deu e registrou to e depois o retorno à Palestina, sob a
numa tábua. Ela morará na casa de guia de Moisés, por volta de 1500 a.C.,
seu marido e enquanto viver terá que recebeu as tábuas da lei (os dez
usufruto. Não poderá vender; sua mandamentos), base do direito hebreu.
herança é de seus filhos.
Eram diferentes por seus costumes,
§ 172: Se seu marido não lhe deu um
presente nupcial, devolver-lhe-ão seu mas principalmente por retratarem-
dote integralmente e ela tomará dos -se como o povo escolhido por Deus,
bens da casa de seu marido a parte único e onipotente. Assim, para os he-
correspondente a de um herdeiro. Se breus, ao contrário de outros povos da
seus filhos a maltratarem para fazê-la região, não existia diferença de clas-
sair de casa, os juízes examinarão sua
questão e imporão uma pena sobre
ses, todos eram irmãos, filhos de Deus
os filhos: essa mulher não sairá da e de direitos iguais perante Ele.
casa de seu marido. Se essa mulher Uma vez que a lei divina é procla-
resolveu sair, deixará para seus filhos mada por Deus, sendo imutável, se-
o presente nupcial que seu marido lhe gundo as disposições religiosas a or-
deu e levará consigo o dote da casa
ganização social, política e jurídica é
de seu pai, o marido de seu coração
poderá esposá-la. estabelecida pelo autor supremo. Es-
tas disposições compõem a Torah: os
Igualdade dos filhos em relação cinco primeiros livros da Bíblia tam-
à herança da mãe bém chamados de Pentateuco. Neles,
§ 173: Se essa mulher, lá onde entrou, Gênesis trata do início da criação do
gerou filhos a seu segundo marido, mundo e vida dos patriarcas; Êxodo
(e) depois essa mulher morreu, os trata do cativeiro no Egito, os Dez
filhos do primeiro e do segundo
Mandamentos e o Código da Aliança;
(casamento) dividirão o seu dote.
§ 174: Se não gerou filhos a seu Levítico trata do conjunto de prescri-
segundo marido, os filhos do seu ções religiosas e culturais; Números
primeiro marido receberão seu dote. trata da descrição da organização das
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tribos hebraicas e Deuteronômio é a a que é desdenhada, se o filho desta


repetição da lei, livro que completa os última for o filho primogênito, esse
quatro anteriores. Esta é a mais primi- homem, no dia em que repartir seus
bens entre os seus filhos, não poderá
tiva organização jurídico-religiosa do
dar o direito de primogenitura ao
povo hebreu. filho da que é amada, em detrimento
do primogênito, filho da mulher
3.2 A Sucessão descrita no desdenhada. Mas reconhecerá por
Direito Hebreu Antigo primogênito o filho da mulher
desprezada, e dar-lhe-á uma porção
dupla de todos os seus bens, porque
a) Primogenitura e Sucessão
esse filho é o primeiro fruto de seu
Ainda dentro da lei de família vigor, é a ele que pertence o direito
podemos considerar alguns aspec- de primogenitura.
tos quanto a questão de sucessão e
herança. De modo geral, a liderança b) Herança das mulheres
era transmitida ao filho mais velho Na ausência de filhos homens, as
quando da morte do pai. No entanto, filhas passavam a ter direitos sobre a
essa passagem não era automática, herança desde que estivessem casadas
tendo de ser conferida pelo pai me- com pessoas do próprio clã (Números
diante uma bênção especial (Gênesis 27:1-11).
27:29,37). Porém, era permitida ao
pai a liberdade de escolher um filho Aproximaram-se então as filhas de
mais novo como seu sucessor no caso Salafaad, filho de Hefer, filho de
de considerar o mais velho indigno Galaad, filho de Maquir, filho de
para a função (Souza, 2008, p. 62). Manassés, filho de José. Seus nomes
eram Maala, Noa, Hegla, Melca e
Com respeito à partilha da
Tersa. Elas apresentaram-se diante
herança, Deuteronômio 21:15-17 de Moisés e do sacerdote Eleazar,
determinava que o primogênito e diante dos principais e de toda a
tinha direito a duas partes de tudo assembleia, à entrada da tenda de
que o pai possuísse sendo o restante reunião: “Nosso pai, disseram elas,
dividido em partes iguais com os morreu no deserto, e não tomou
demais filhos, incluindo inclusive, os parte na sedição excitada por Coré
contra o Senhor; mas morreu por
filhos das concubinas (estes indicados
causa de seu próprio pecado. Ora, ele
em Genesis 25:5-6). A passagem não teve filhos. Por que razão há de
apresenta o seguinte texto: desaparecer o nome de sua família,
por não ter tido filho algum? Dá-nos
Deut. 21:15-17: Se um homem tiver uma propriedade entre os irmãos de
duas mulheres, uma que ele ama, nosso pai.” Moisés levou a sua causa
outra que ele desdenha, e lhe tiverem diante do Senhor, que lhe disse:
dado filhos, tanto a que é amada como “As filhas de Salafaad têm razão.
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Dar-lhes-ás uma propriedade como Quando chegar o jubileu dos filhos


herança entre os irmãos de seu pai, de Israel, a sua herança será unida
para que elas lhe sucedam na herança. à da tribo a que pertencerem, e
Dirás aos israelitas: se um homem separada da de nossos pais”. Moisés,
morrer sem deixar filhos, a herança então, respondeu aos filhos de Israel
passara à sua filha; se não tiver filhas, por ordem do Senhor: “Tem razão
será dada aos seus irmãos. Se não a tribo dos filhos de José. Eis a
tiver irmãos, a herança passará aos ordem do Senhor para as filhas de
irmãos de seu pai, e se seu pai não Salfaad: casem com quem quiserem,
tiver irmãos, será dada ao seu parente contanto que seja com alguém de
mais próximo em sua família, e este uma família da tribo paterna; desse
último tornar-se-á seu possessor. modo as possessões dos israelitas
Esta será para os filhos de Israel uma não passarão de uma tribo à outra,
prescrição de direito, assim como o e cada israelita ficará na herança da
Senhor ordenou a Moisés”. tribo de seus pais. Todas as mulheres
que possuírem um patrimônio em
uma tribo israelita, tomarão marido
c) Ressalva de o patrimônio na tribo paterna, a fim de que cada
continuar no clã israelita conserve o patrimônio de
No entanto, normalmente não família. Herança alguma poderá
possuíam direitos sobre qualquer par- passar de uma tribo à outra: deve
te das propriedades do pai de modo a cada tribo israelita permanecer no
evitar que parte dos bens de uma fa- que é seu”. As filhas de Salfaad
comportaram-se segundo a ordem do
mília se transferisse para outra família Senhor. Maala, Tersa, Hegla, Melca
pelo casamento (Números 36). e Noa, filhas de Salfaad, casaram-se
com filhos de seus tios; casaram-se,
Números 36: Os chefes de família pois, em famílias saídas de Manassés,
dos filhos de Galaad, filho de Maquir, filho de José, e a possessão que lhes
filho de Manassés, da raça de José, tocava permaneceu na tribo de seu
apresentaram-se diante de Moisés pai. Tais são as leis e as ordenações
e dos principais chefes das famílias que o Senhor transmitiu aos israelitas
israelitas: “O Senhor, disseram eles, por intermédio de Moisés nas
ordenou ao meu senhor que desse, planícies de Moab, perto do Jordão,
por sorte, a terra em herança aos defronte de Jericó.
israelitas; e o Senhor ordenou ao meu
senhor que desse às filhas de Salfaad, Não existe na Tanakh qualquer
nosso irmão, a herança devida ao seu menção a respeito do pai herdar
pai. Mas se homens de outra tribo
bens dos filhos na morte deste.
as receberem por mulheres, a sua
herança será retirada do patrimônio Uma possível explicação é a de que
de nossos pais e acrescentada ao da enquanto o pai estivesse vivo, o filho
tribo na qual elas se casarem; e assim não possuiria bens (Souza, 2008,
será diminuída a nossa herança. p. 62).
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4 O Direito Sucessório 4.2 A sucessão na Grécia antiga


na Grécia Antiga
a) Problemática das fontes
4.1 Noções Gerais da História e Talvez em face da prevalência do
do Direito Grego aspecto político e não propriamen-
te jurídico dos traços gregos, não há
A península balcânica, região cos- muita bibliografia a respeito do di-
teira com difícil acesso, cercada de reito legislado. Assim, a formulação
montanhas e com agricultura compli- do conhecimento se dá muitas vezes
cada abrigou, por volta de 2000 a.C., por reconstituição de fontes e infor-
uma migração de povos guerreiros mações historiográficas externas. A
vindos da Ásia Menor via mar Egeu maior delas parece ser a famosa obra
para a região que denominaram de de Fustel de Coulanges, A Cidade An-
Grécia. Graças ao aspecto geográfico, tiga, demonstrando que é preciso con-
duas consequências podem ser identi- siderar a força da contribuição religio-
ficadas. A primeira diz respeito ao fato sa para a formação do direito antigo.
dessas dificuldades impulsionarem o Tal é verdade, principalmente na ideia
povo grego a desenvolver métodos de que a propriedade e sucessão são
de sobrevivência, criando rico comér- decorrentes desta concepção religiosa
cio e poderosos exércitos. A segunda da vida (Coulanges, 2012, p. 12).
consequência pode ser vista como um
resultado geopolítico, já que, isola- b) Legislador Sólon e o direito
das, as localidades desenvolveram sucessório
políticas unitárias – as polis. Assim, Na reforma legislativa que ocor-
a Grécia Antiga jamais foi um estado reu em Atenas, foram destaque os
unificado (desconsiderando o império personagens de Drácon (cerca de 620
de Alexandre Magno), pois era divi- a.C.) e de Sólon (cerca de 594/593
dida em diversas cidades-estados que a.C.). Das Leis de Drácon, cujos tex-
comerciavam e guerreavam entre si, tos se perderam, sabe-se que no âmbi-
cada qual com sua cultura e traços to penal elas seriam muito rígidas (daí
diferenciados, umas bélicas (Espar- o epíteto “leis draconianas”). Sabe-se,
ta) outras voltadas para o pensamento também, que elas puseram fim ao sis-
(Atenas), cada uma com suas formas tema de gens e clãs patriarcais. Sobre
de governos diferenciados. Diante as Leis de Sólon três medidas foram
dessas características diferenciadas, o mais populares: primeiro, a proibi-
direito na Grécia não poderia ser di- ção da servidão pessoal por dívidas;
ferente: cada polis tinha suas regras segundo, a possibilidade de qualquer
jurídicas e ornamentos próprios, não pessoa mover ação contra quem lhe
havendo uma uniformidade. causou injustiça e, terceiro, o direito
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de apelo à Assembleia Popular. Esta do sua herança logo que atingisse a


última foi referida especialmente por maioridade.
Aristóteles como fator de fortaleci- Além disso, a reforma legislativa
mento de um povo: “pois quando o de Sólon introduz o direito de dispor
povo se assenhora dos votos, asse- por testamento, já que como visto, o
nhora-se do governo” (In: Constitui- patrimônio hereditário é obrigatoria-
ção de Atenas, Capítulo IX). mente transmitido aos homens que
No que diz respeito especifica- pertencem ao mesmo grupo familiar
mente ao direito sucessório, nova- religioso. Uma ressalva é válida: tal
mente, muita controvérsia. A esmaga- disposição somente pode ser conside-
dora maioria dos textos jurídicos que rada na falta de filhos naturais. Alguns
abordam a temática, o fazem superfi- autores referem à circunstância do
cialmente. Segundo Guilherme Braga testamento estar ligado mais à amiza-
da Cruz (1979, p. 55): de do que ao parentesco (Nascimento,
2009, p.77):
Tratava-se de um sistema de paren-
tela combinado com o privilégio de No direito grego, a sucessão por tes-
masculinidade, de forma que a paren- tamento só era reconhecida no caso
tela do lado materno só é chamada à exclusivo da falta de filhos. Pelo me-
sucessão depois de esgotadas todas nos, a partir de Sólon, era esta a re-
as do lado paterno, e sempre com gra do direito sucessório em Atenas,
preferência do sexo masculino sobre segundo informação que nos vem
o feminino. de Plutarco. Uma outra lei famosa é
aquela que concerne aos testamentos:
Ainda, existia na Grécia antiga outrora não eram permitidos; os bens
o instituto do “Epiclerado” (1979, e as casas deviam permanecer no ge-
nos do defunto. Sólon permitiu aos
p. 56) que consistia na circunstância
que não tivessem filhos dar seus bens
pela qual, não havendo herdeiros ho- a quem o desejassem; assim, ele pre-
mens, cabia à filha que sucederia na feriu a amizade ao parentesco, a livre
linha paterna a obrigação de casar-se beneficência ao constrangimento.
com o mais próximo dos parentes ag-
natícios do seu pai, para, assim, gerar Desta forma, o direito sucessório
um descendente da mesma estirpe, num período mais remoto como o da
considerado para fins jurídicos e re- reforma legislativa em Atenas esteve
ligiosos filho do avô materno (pai da atrelado mais ao conteúdo da vontade
epiclera) e que nesta qualidade conti- do testador do que aos lações de
nuaria seu culto doméstico, receben- sangue ou parentesco
Revista da Faculdade de Direito da UFRGS – nº 32, 2014 129

Segunda Parte: deiro, que possibilitam a ocorrência


Noções Gerais de da sucessão), eram requisitos da here-
direito sucessório ditas a morte de alguém, a delação da
romano herança e a aceitação da herança pela
pessoa a quem foi deferida. Estas dis-
5 Noções Gerais posições foram aplicadas no direito
romano em conjunto com as demais
Se compreende-se por sucessão regras que se passa a analisar (Alves,
em geral, a substituição de uma pes- 2007, p. 703).
soa por outra em determinada relação
jurídica, de forma plena o Direito Ro- 5.1 Conceito e conteúdo da
mano criou, desenvolveu e estabele- hereditas
ceu esse direito para a posteridade.
Tanto na modalidade de sucessão Originariamente ou primitiva-
universal, quando se transmite uma mente, a palavra heres designava a
universalidade, como na modalidade pessoa indicada pelo paterfamilias
singular, quando se transmite uma que era chamada a ficar no seu lugar
determinada relação jurídica ou um quando este morresse, administrando
conjunto delas sem ser uma universa- e gerindo toda a hereditas que consis-
lidade, foi criação do direito romano tia justamente no conjunto de todos
(Kaser, 1999, pg. 365). Ainda, existiu os poderes do pater falecido (Alves,
no direito romano tanto a sucessão in- 2007, p. 704):
ter vivos quando em vida das pessoas
Quanto à palavra herança (hereditas),
envolvidas, como nos casos de capitis além de designar o fato simplesmente
deminutio, adrogatio e convenção de da sucessão universal mortis
manus, como a sucessão causa mortis causa, pode ser empregada em dois
quando ocorre por causa da morte de sentidos: a) no objetivo, designando
alguém (Alves, 2007, p. 703). o patrimônio de uma pessoa que
faleceu – hereditas, ao menos nos
No direito romano eram requisi-
direitos pós-clássico e justinianeu, se
tos para a sucessão universal mortis usa, nessa acepção, como universitas
causa, de natureza subjetiva (cir- iuris (universalidade de direito); ou
cunstâncias que se referem à pessoa b) no subjetivo, significando o direito
do falecido e à pessoa do herdeiro), a subjetivo de que alguém (heres – o
capacidade para ter herdeiros, a capa- herdeiro) é titular com relação a esse
patrimônio; hereditas nesse sentido se
cidade para ser herdeiro e a capacida-
utiliza como ius sucessionis (direito
de para aceitar a herança. De natureza de sucessão). Para CarIo Longo e
objetiva (circunstâncias, independen- Bonfante (e a maioria dos romanistas
tes das pessoas do falecido ou do her- os acompanha), hereditas, no direito
130 Revista da Faculdade de Direito da UFRGS – nº 32, 2014

clássico, não era empregada, em (Schulz, 1960, p. 202). Passado o


sentido objetivo como universitas tempo, com o desenvolvimento e a
iuris, o que só foi ocorrer no direito modificação da família, muda também
pós-clássico, quando teria surgido a
distinção entre sucessão singular e
a natureza da hereditas, sem, contudo,
sucessão universal. Por outro lado, perder a conexão com a sua origem:
em síntese, são objeto da hereditas
em sentido objetivo todas as relações D.50.17.62: Hereditas nihil aliud est,
jurídicas (inclusive algumas de quam successio in universum uis
caráter extrapatrimonial) de que era quod defunctus habuerit.
titular o falecido, exceto as que são D.50.17.62: A hereditas não é outra
intransmissíveis por força de lei coisa senão a sucessão no complexo
expressa, ou de sua extinção pela de direitos que teve o falecido.
morte de seu titular. Assim, quanto
às relações jurídicas patrimoniais, Assim, o testamento, isto é,
são elas, em regra, transmissíveis ao
a designação do novo chefe que
herdeiro; excetuam-se, porém, pelo
seu caráter personalíssimo, o usu- assumirá a família com a morte do
fruto, o uso, a habitação, as obrigações pater, exerceu na primitiva família
do sponsor e do fideipromissor, e romana a importante função de
as obrigações decorrentes do delito preservação. No ius civile, a sucessão
(são estas sempre intransmissíveis do regular e prevalente é a testamentária.
lado passivo – o débito –, mas nem
Se não houver deixado testamento,
sempre do lado ativo – o crédito);
demais, com a morte de um dos a herança do de cujus vai para os
contratantes, extingue-se, por via de agnados e não havendo esses para os
regra, o contrato de sociedade e o de gentiles (época arcaica):
mandato. Intransmissíveis, também,
são as relações jurídicas familiares, Tábua 5, passo 4: Se morre intestado
como, por exemplo, a tutela; e as de quem carece de um “herdeiro seu”,
direito público, como a magistratura tenha a herança o agnado mais pró-
desempenhada pelo falecido. ximo. Passo 5: Se não existe agnado,
recorram a herança aos gentis.
Por isso, a origem da sucessão
hereditária se apresenta muito conexa Na época clássica a herança trans-
com o direito de família, já que a formou-se de “política” para “patri-
sucessão mortis causa se apresentava monial”, além de surgir a permissão
como a perpetuação da própria de instituir-se herdeiro fora da família.
família. Assim, a finalidade originária Em face da exclusão dos filiusfamilias
e primordial da sucessão hereditária ou agnados emancipados da herança
não era a transmissão do patrimônio intestada, assim como os cognados, se
do falecido, mas a de assegurar instaura, pela atividade pretoriana, um
a continuidade do grupo familiar novo sistema fundado em princípios
Revista da Faculdade de Direito da UFRGS – nº 32, 2014 131

de equidade e consoante o conceito potestas a título de heres (herdeiro); e


moderno de sucessão no patrimônio: que do antecessor passam ao sucessor
é a chamada bonorum possessio, que toda a sorte de direitos, inclusive os
surge como contraposição ao direito que de outro modo seriam intransmis-
civil e a sua finalidade primeira é a de síveis (D’Ors, 2006, p. 327).
ampliar a ordem da vocação hereditá- No Direito Clássico, a única for-
ria (Alves, 2007, p. 708). ma de sucessão que os romanos co-
No direito pós-clássico são mo- nheceram foi a sucessão universal
dificados os direitos civil e pretório (só no direito pós-clássico surgirá a
até chegar na fusão dos dois sistemas. sucessão singular), sendo que o su-
Com as Novelas 118 e 127 se instaura cessor recebia tanto os créditos como
uma nova ordem sucessória na qual os débitos do sucedido e deveria pa-
triunfa o princípio da cognação, os gar inclusive com o seu patrimônio
direitos dos legítimos se coloca no (Schulz, 1960, p. 203).
primeiro plano por força de razões
morais, caindo em desuso as soleni- 5.3 A Bonorum Possessio
dades de instituição do herdeiro e em
geral as formas antigas de testamento Ao lado da herança civil (heredi-
(Alves, 2007, p. 709). tas) existe a herança pretória, a cha-
mada bonorum possessio, que con-
5.2 Concepção dogmática da siste na posse das coisas hereditárias
herança conferidas pelo Pretor a determinadas
pessoas e com fins que ora respondem
Para os romanos, “succedere” não aos velhos princípios da família ag-
significa somente “seguir”, mas seguir natícia, ora aos novos de parentesco
ou continuar uma situação jurídica. cognatício e do vínculo matrimonial
Por isso que, juridicamente, successio (Schulz, 1960, p. 206). A obra do Pre-
significa não apenas a transferência tor não tem por objeto, a princípio, re-
de um direito, mas a entrada de uma formar o direito sucessório civil, mas
relação, o preenchimento de uma regular a posição das partes numa
posição jurídica (Kaser, 1999, p. 365). controvérsia hereditária (Alves, 2007,
Assim, segundo o direito romano, p. 711). Acerca das diferenças entre
é possível afirmar que no Direito Ar- a bonorum possessio e a hereditas,
caico, o sucessor se coloca na mesma Moreira Alves retrata o seguinte
posição jurídica do antecessor; que o (2007, p. 711):
sucessor adquire um patrimônio em
bloco, e de modo mediato, isto é, por a) o bonorum possessor dispõe, contra
consequência da aquisição de uma os devedores do de cujus, apenas das
132 Revista da Faculdade de Direito da UFRGS – nº 32, 2014

ações do herdeiro concedidas por o fundo, terá de restituir a herança, a


via útil (eram, em geral, actiones não ser que no intervalo tenha feito
ficticiae), e isso porque na bonorum a chamada usucapio pro herede.
possessio não há, em rigor, successio
(o bonorum possessor, à diferença
Por não ser definitiva, a adjudicação
do heres, não substitui o de cujus do patrimônio hereditário (que o
na posição jurídica por este então herdeiro pode cobrar por meio de
ocupada); b) o bonorum possessor uma hereditas petitio) se diz que a
– ao contrário do que ocorre com o bonorum possessio é sine re (Kaser,
herdeiro – não adquire a propriedade
1999, p. 371).
quiritária sobre os bens hereditários,
mas apenas a propriedade pretoriana Na época clássica, a função do
(posteriormente, por usucapião, pode Pretor é fundamentalmente corretora,
ele transformar-se em proprietário conferindo os bens hereditários a pes-
quiritário desses bens); c) O heres soas que o direito civil não contempla
adquire a herança ipso iure, ou como herdeiros (Alves, 2007, p. 713).
mediante simples declaração de
Para que tal concessão ou adjudica-
vontade independente de prazo: o
bonorum possessor somente obtém ção não resulte vazia, o magistrado
a bonorum possessio se a requerer outorga sua proteção também frente
ao magistrado dentro de certo prazo, aos herdeiros civis, negando a estes
que, em geral, é de cem dias; e o direito que lhes assiste (denegatio
d) a bonorum possessio pode ser actionis) como também facultando ao
obtida por meio de representante; o
bonorum possesor a oposição da ex-
heres não pode ser representado na
aquisição da herança. ceptio doli na hereditas petitio, e as-
sim, junto da bonorum possessio sine
A bonorum possessio não é mais re, aparece a bonorum possessio cum
do que a adjudicação interina das re (Schulz, 1960, p. 2.067). A bono-
coisas hereditárias a fim de facilitar rum possessio pode ser conferida em
a instauração do processo quando conformidade com o testamento (bo-
é duvidosa ou equívoca a situação norum possessio secundum tabulas),
de fato nas quais deve centrar-se. ou em ausência deste (bonorum pos-
Importa, em tal caso, que o Pretor sessio sine tabulis ou ab intestato),
designe aquele que tem de possuir ou contra o disposto no testamento
a herança e tem de ocupar a posição (bonorum possessio contra tabulas)
mais favorável de demandado. (Alves, 2007, p. 714):
Depois de uma indagação sumária, o
No direito justinianeu, embora os tex-
Pretor confere a posse para aquele que tos que se encontram no Corpus Iuris
considera como herdeiro e que, se não Ciuilis ainda se refiram ora à bono-
é, sucumbindo no processo principal rum possessio ora à hereditas e não
subsequente, no qual se discute sobre haja uma constituição imperial que,
Revista da Faculdade de Direito da UFRGS – nº 32, 2014 133

taxativamente, equipare a bonorum desdobram as seguintes consequên-


possessio à hereditas, a equiparação, cias: 1) Se houver testamento, não
na realidade, está realizada, continu- procede a delação ab intestato; 2)
ando-se somente a dar denominação
Quando o herdeiro é instituído em
exclusiva de bonorum possessio às
hipóteses de concessão provisória e à
uma parte do patrimônio (pro parte)
sucessão legítima dos cônjuges. o restante do total se acresce aquele
(Alves, 2007, p. 715).
5.4 A delação da herança no Essa situação se explica e se jus-
Direito Romano tifica pela primitiva concepção de
herança como transmissão da posi-
ção política familiar uma e indivisa.
No direito Romano, delação é
Quando pelo passar das épocas histó-
o chamamento feito a uma ou mais
ricas a herança admite outras funções
pessoas para adquirir uma determina-
(patrimoniais) é possível nomear vá-
da herança. A herança é deferida ou
rios herdeiros, ainda que o título seja
oferecida, os romanos chamam de de-
o mesmo (Kaser, 1999, p. 391). Sur-
ferre hereditatem e de vocare ad here-
gida nos começos do Império, a cha-
ditatem e afirmam que se entende de- mada “sucessão legítima contra testa-
ferida a herança que uma pessoa pode mento” a regra da incompatibilidade
conseguir adir (D’Ors, 2006, p. 329). entre ambas as formas de sucessão so-
Assim, a herança se defere por fre importantes modificações (Schulz,
testamento ou pela lei. Hoje cha- 1960, p. 254). Passa-se a observar,
mamos de herança testamentária ou ainda que sumariamente, ambas as
herança legítima, o que não corres- possibilidades de delação em linhas
ponde ao sentido romano, já que o gerais no direito romano.
sentido romano é o de legítima tanto
a herança com testamento como sem A Sucessão Testamentária no
testamento, já que as duas são disci- Direito Romano
plinadas pelo ius civile. Assim que, Os textos apresentam duas defi-
para os romanos, legitima hereditas é nições de testamento (testamentum).
a herança do direito civil contraposta Uma, atribuída a Ulpiano (Liber Sin-
a bonorum possessio ou sucessão pre- gularis regularum, XX, 1):
tória (Schulz, 1960, p. 205).
A delação testamentária prevale- Testamentum est uoluntatis nostrae
iusta sententia de eo, sollemniter fac-
ce sobre a intestada (Alves, 2007, p.
tum, ut post mortem nostram valeat.
715). Segundo um antigo princípio O testamento é a declaração, confor-
romano, a sucessão testamentária e a me o direito, da nossa vontade, feito
sucessão intestada são absolutamente de forma solene para que valha de-
incompatíveis, e por causa disso se pois de nossa morte.
134 Revista da Faculdade de Direito da UFRGS – nº 32, 2014

Outra, atribuída a Modestino duas vezes por ano: provavelmente,


(D.XXVIII.1.1).: em 24 de março e em 24 de maio.
Como os textos são parcos de
Testamentum est uoluntatis nostrae informes sobre essa forma primitiva
iusta sententia de eo quod quis post de testamento, há controvérsia entre
mortem suam fieri velit. os romanistas acerca do conteúdo
O testamento é a declaração de desses testamentos e do papel
nossa vontade, conforme o direito, a desempenhado, para sua feitura, pelo
respeito daquilo que cada qual quer povo reunido nos comícios.
que se faça depois de sua morte.
Havia ainda o Testamentum in
O testamento é um ato solene e de procinctu que era outorgado quando
última vontade pelo qual se nomeia o homem saía para a batalha, ante
herdeiro e se podem fazer outras ao exército em pé de guerra. Já as
disposições de caráter patrimonial formas de testar do direito clássico
ou pessoal, sendo um ato de direito são o Testamentum per aes et libram
civil e por isso privativo dos cidadãos que se dava quando quem não tinha
romanos (D’Ors, 2006, p. 329). feito testamento, e estava em perigo
Porém, esta regra é atenuada com o de morte, mancipava todo o seu
fideicomisso aberto a todas as gentes. patrimônio a um amigo, rogando-lhe
O testamento advém de um ato do que entregasse à pessoa destinada
testador e, por isso, se classifica como no testamento. Nesta modalidade
ato unilateral, não existindo de forma primitiva, havia a presença do
nenhuma o concurso de vontades “comprador da herança” (familiae
(Alves, 2007, p. 716). emptor) que se comprometia de passar
As formas mais antigas de testar ao herdeiro instituído. No desenrolar
são o Testamentum calatis comitiis desta modalidade aparece o instituto
que era outorgado perante os comícios da nuncupatio, nomeação em público
por cúrias, convocados em duas do herdeiro (Alves, 2007, p. 718):
datas fixas ao ano, com significado
O testamento nuncupativo é tam-
público-religioso, e em tempos de
bém (à semelhança do testamento
paz. Segundo Moreira Alves (2007, pretoriano) uma simplificação do
p. 717): testamento per aes et libram; mas, à
diferença do testamento pretoriano, é
O testamento calatis comitiis, que uma forma de testamento reconheci-
era utilizado em tempo de paz, se da pelo ius ciuile, e portanto, a pessoa
fazia diante dos comícios por cúrias, nele designada para receber é heres
sob a presidência do Sumo Pontífice (herdeiro), e não, simplesmente, bo-
(ou, às vezes, segundo parece, do norum possessor. O testamento nun-
Rex Sacrorum), os quais se reuniam cupativo se faz por declaração oral do
Revista da Faculdade de Direito da UFRGS – nº 32, 2014 135

testador, na presença de, a princípio, não se aplica. Depois, porque além do


cinco testemunhas (e isso porque, das soldado poder fazer vários testamen-
sete exigidas no testamento pretoria- tos, pode instituir herdeiro para uma
no, duas eram o familiae emptor e o
libripens, as quais, com a desnecessi-
coisa certa (Alves, 2007, p. 721).
dade da mancipatio para a celebração No direito romano, para
do testamento nuncupativo, deixam que alguém possa dispor de seu
de ser exigidas), e, posteriormente, patrimônio para depois da sua morte,
de sete. é preciso que tenha aptidão para
testar. Em princípio, isso inclui todas
No direito pós-clássico caem em as pessoas sui iuris, mas no curso do
desuso essas modalidades, substituí- direito romano, houve amenização
das pelo Testamento Privado. O testa- deste rigor. Entre os sui iuris ainda
mento nuncupativo (nomeação oral do havia restrições: a mulher não podia
herdeiro), o testamento ológrafo (tes- fazer testamento colatis comitti nem
tamento escrito a mão), o testamento in procinctu porque ela não podia
tripertium (junção de três vertentes: participar de comícios nem ir à
ius civile, bonorum possessio secun- guerra. Algumas mulheres (libertas
dum tabulas e as constituições im- e não ingênuas) podiam pedir para o
periais). Também pelo Testamento seu tutor para fazer a solenidade do
Público: O testamento apud acta con- testamento. Quando acabou a tutela
ditum, o testamento oblatum principi. das mulheres, elas puderam testar
Existiam ainda os Testamentos Es- de forma legítima (Kaser, 1999, p.
peciais ou Extraordinários e o Testa- 387). Além disso, é preciso verificar
mento Militar, além do Testamentum a capacidade de fato para testar:
ruri conditum (feito no meio rural), o não possuíam capacidade de fato
Testamentum pestis tempore, feito em para testar os impúberes, os loucos,
tempo de peste, se o testador está ata- os pródigos. Da mesma forma, a
cado por doença contagiosa; o Testa- capacidade para ser beneficiado em
mentum parentum inter líberos, que se um testamento tem regras específicas
trata de testamento de pai para filhos no direito romano. Em princípio,
(segundo Justiniano não precisava de podem ser instituídos herdeiros no
testemunhas) e o Testamento Militum testamento tanto a pessoa física
que era o testamento dos soldados. Há como o nascituro e a divindade. De
a dispensa de formalidades e também outra sorte, são incapazes de serem
de algumas regras importantes relati- instituídos herdeiros em testamento: a
vas ao testamento em geral. Primeiro, mulher pela previsão da lex voconia,
porque a regra de que ninguém pode as pessoas incertas, os intestáveis
falecer em parte testado em parte não, entre outros (Alves, 2007, p. 723).
136 Revista da Faculdade de Direito da UFRGS – nº 32, 2014

Por outro lado, no direito romano inválido, é depois anulado: chama-


o testamento pode conter diferentes se testamentum irritum factum quan-
disposições de ordem patrimonial ou do sobrevém a perda da capacidade
pessoal, como por exemplo, a insti- jurídica, salvo que, tratando-se de
tuição de herdeiro, as manumissões, a capitis demunutio máxima, sobre-
designação de tutor, os legados e os venha a aplicação do post-liminium.
fideicomissos (Kaser, 1999, p. 385). Testamentum ruptum é a expressão
De todas essas citadas, a primeira empregada quando nasce um heres
(instituição do herdeiro) é a única suus depois da morte do testador, e
imprescindível, e regras deveriam ser este não o tinha levado em conta, seja
rigorosamente observadas, como por para instituí-lo ou deserdá-lo. Assim,
exemplo, o local onde deverá estar a o testamento é ineficaz quando, em-
nomeação do herdeiro: na “testa” do bora válido, não produz os seus efei-
testamento. Tudo o que tiver antes é tos em virtude de, por exemplo, o
inválido (caput et fundamentum totius herdeiro não ter aceito a herança (fa-
testamenti, Gaio, p. 2.229). Também la-se aqui de testamento desertum ou
se deve observar que a instituição do destitutum). Ainda, porque é um ato
herdeiro é feita in perpetuum: para de última vontade, o testamento pode
sempre. O herdeiro deve ser instituí- ser revogado, que segundo o ius civile
do para receber toda a herança, e não só pode acontecer com a sobrevinda
apenas uma parte dela (ninguém pode de um novo testamento. Mesmo que o
falecer em parte testatus e em parte segundo não produza nenhum efeito,
intestatus) (Alves, 2007, p. 720). o testamento revogado está acabado
Além disso, no direito romano, o (Alves, 2007, p. 725).
testamento pode adoecer de um vício
ou defeito que impede desde o seu A Sucessão Ab Intestato no
princípio a sua própria existência. O Direito Romano
testamento afetado por invalidade ra- O caráter da primitiva organização
dical ou inicial recebe qualificações familiar implica na necessidade de
diversas (Kaser, 1999, p. 389). alguém suceder o pater falecido no
Trata-se de testamentum iniustum seu supremo poder que tem sobre o
quando na outorga não se observa a grupo, e isso se dá com a instituição do
forma devida ou, ainda, quando falta herdeiro no testamento. Pode, porém,
o ius testamenti factio. Diz-se inutile acontecer de o pater falecer antes
ou nullius momenti o testamento no de designar o seu sucessor, o que,
qual os sui heres são preteridos. Vá- se ficasse sem regulação seria muito
rias denominações recebe também o grave para os preceitos da época. Por
testamento que, sendo inicialmente isso, desde os mais remotos tempos
Revista da Faculdade de Direito da UFRGS – nº 32, 2014 137

existe um modo de regular a sucessão sem o pai morto ou com capitis de-
de quem faleceu intestato, isso é, minutio, bisnetos na mesma situação,
sem testamento, ou com testamento a mulher in manus. Assim, era o pa-
inválido. É, então, uma forma rentesco agnatício que determinava a
supletiva, subordinada, excepcional, e qualidade de heredes. Para estes sui
não se baseia nos vínculos de sangue, heredes não havia a possibilidade de
mas nas relações de agnação e, ainda, renunciar a herança, que adquiriam
gentílicas. Hoje chamamos esta automaticamente. Se faltasse o he-
modalidade de “sucessão legítima” redes sui, é chamado o agnado mais
(Alves, 2007, p. 742): próximo. A mulher sui iuris, ao fale-
cer, somente tem como heredes legi-
Somente o cidadão romano é que, timi os agnados próximos e, na falta
com sua morte, dá ensejo à abertura deles, os gentiles, porque a mulher
da sucessão ab intestato, uma vez
que essa sucessão foi organizada
nunca poderia ser pater familias, e
pelo ius ciuile, cujos preceitos só se por isso não poderia ter heredes sui, e
aplicavam aos cidadãos romanos. A assim o agnado é o primeiro a ser cha-
sucessão ab intestato dos estrangeiros mado a sucedê-la ab intestato (Kaser,
é disciplinada pela sua lei nacional, 1999, p. 374).
e não pelo direito romano. Por outro O sistema do ius civile era muito
lado, a princípio, além de cidadão
romano, é necessário que o de cuius
restrito e a prática da valorização
se sui iuris; a partir do século IV do parentesco cognatício foi sendo
d.C., começa-se a admitir a sucessão respeitada. Assim, a reação do pretor
ab intestato do filius familias (pessoa ao sistema da sucessão ab intestato da
alieni iuris, no tocante ao pecúlio, Lei das XII Tábuas se fez mediante
e Justiniano, na Novela CXVIII, as bonorum possessiones ab intestato
admitindo que o filius familias possa
ter herdeiros ab intestato, o equipara,
(Kaser, 1999, p. 375). Num primeiro
nesse particular, ao paterfamilias. momento, as bonorum possessios
não eram protegidas contra o heredes
Como já foi visto, preconiza a Lei legitimus que recuperava a herança
das XII Tábuas: “Se morre intestado pelas ações do ius civile, mas, pouco
quem carece de um ‘herdeiro seu’, a pouco, passaram a ser concedidas
tenha a herança o agnado mais próxi- cum re, isso é, protegidas contra os
mo. Se não existe agnado, recorram a herdeiros legítimos. Pessoas a quem
herança aos gentis”. Sui Heredes são eram deferidas a bonorum possessio:
aqueles que estavam sob o pátrio po- 1. unde liberi: os sui heredes do ius
der ou sob a manus do de cujus: os civile e mais os filhos emancipados,
filhos vivos, inclusive adotivos e não desde que tivessem nascido de
emancipados, seus netos caso tives- justas núpcias, não estivessem sob
138 Revista da Faculdade de Direito da UFRGS – nº 32, 2014

a potestas de outro pater. 2. unde No Corpus Iuris Civilis, as regras


legitimi: todos os legítimos do ius que vinham dos períodos anteriores
civile eram novamente chamados. 3. vigoraram com pequenas modifica-
unde cognati: nesta terceira classe, ções, mas o sistema da reunião dos
colocavam-se os cognados do falecido princípios até então válidos, não eram
até o sexto grau; 4. unde vir et uxor: harmônicos e não correspondiam
quarta e última classe, encontravam- às tendências do direito justinianeu.
-se o cônjuge que sobrevivera ao de Então, Justiniano promoveu a refor-
cujus, desde que o casamento fosse ma com as Novelas 118 e 127. Não
legítimo. Essa ordem era observada, e se faz mais distinção entre agnados e
o pretor dava 100 dias para cada classe cognados, pessoas sui iuris e alieno
sucessivamente requerer a bonorum iuris, homens e mulheres, parentes da
possessio (Alves, 2007, p. 747). linha masculina e da linha feminina.
A tendência a valorização da fa- Acontece a assimilação das bonorum
mília natural prevalece na época im- possessiones à sucessão ab intestato,
perial (Kaser, 1999, p. 377). Nessa falando-se somente em hereditas (Ka-
época, os senatusconsultos Tertuliano ser, 1999, p. 378). Essas mudanças
e Orficiano estabeleceram a sucessão determinaram o modelo que chegou
ab intestato recíproca, como herdei- até nós. E, assim, os heredes legiti-
ros civis, entre mães e filhos, inde- mi são agrupados em quatro classes:
pendentes de serem parentes agnados. 1ª classe: os descendentes: todos os
Senatusconsulto Tertuliano: (117- descendentes do de cujus, que se en-
138 d.C.), chamou a mãe à sucessão contrem ou não sob sua potestas; 2ª
ab intestato dos filhos, desde que ela classe: os ascendentes, paternos e
gozasse do ius liberorum (três filhos maternos, irmãos e irmãs germanos
se ingênua, quatro filhos se liberta), e seus filhos. Entre os ascendentes,
e também que o filho de cuja suces- o grau mais próximo exclui o mais
são se trata tivesse sido ingênuo e sui remoto. Se houver mais de um as-
iuris. Se preenchesse estes requisitos, cendente na mesma linha, a herança
a mãe é colocada na frente dos agna- se divide por cabeça, se em graus di-
dos do filho, com algumas exceções. ferentes, por estirpe; 3ª classe: a dos
Senatusconsulto Orficiano (178 d.C) irmãos e das irmãs consanguíneos ou
chamou os filhos (ainda que nascidos uterinos e seus filhos (são os meio ir-
de matrimônios diversos) à sucessão mãos: só de pai, consanguíneos; só de
nos bens de sua mãe e na frente de mãe, uterinos); 4ª classe: a do colate-
todos os agnados dela, mas não esten- ral mais próximo, obedecendo a regra
deu esse chamado aos netos (Alves, segundo a qual o mais próximo exclui
2007, p. 748). o mais remoto (Alves, 2007, p. 751).
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Conclusão sório, como ramo do caráter jurídico


de todo o conjunto de leis, é afirmado
Como no direito de família, o di- e desenvolvido na forma mais plena de
reito sucessório tem seu fundamento proteção da família e da propriedade.
num fato biológico: se o homem não Já o direito hebreu foi caracteri-
fosse mortal, o direito hereditário zado pelo caráter religioso das dispo-
careceria de sentido. O homem sem- sições jurídicas que, por fenômenos
pre quer saber com quem ficará tudo históricos, puderam chegar até os dias
aquilo que uma determinada cultura atuais tendo influenciado diversos di-
entende por imperecível, o que não reitos formados no seu percurso his-
desaparece com a pessoa. Correspon- tórico, como o direito canônico por
de-se a um comportamento instintivo exemplo. Nesse conjunto de regras,
de deixar para os descendentes como o direito sucessório demonstrou ser
modo de garantir-lhe a sobrevivência, protecionista não só da família (clã),
e assim o direito hereditário ratifica o mas, principalmente, da mulher.
caráter da família como centro assis- Sobre a Grécia Antiga faltam fon-
tencial. Essas brevíssimas linhas pre- tes precisas para demonstrar o con-
tenderam, antes de tudo, apresentar teúdo exato do direito sucessório, mas
um sumário explicativo das principais é certo que suas leis consagravam
manifestações civilizatórias da Anti- um caráter de disposição por parte
guidade no seu perfil sucessório. do titular do patrimônio, mesmo em
Para tanto, se observou que o detrimento da linha sanguínea ou de
direito sucessório no Antigo Egito, parentesco.
diante da envergadura de sua cultura, No direito Romano, a ideia de su-
não pode ser retratado nas fontes de cessão pode tomar forma e ser prepa-
direito, já que manifestadas em pou- rada para ser perpetuada na História.
cos e raros documentos que chegaram Desde terminologias até conteúdos
para nós. Sabe-se, porém que como mais densos correspondentes ao direi-
direito religioso, manifestado na fi- to do indivíduo de passar o patrimônio
gura de grandes e poderosos deuses, após a sua morte, no direito ocidental,
o Egito viveu um direito mítico que têm a sua origem no direito romano. É
pode significar a harmonia pretendida algo comum a todos os ordenamentos
pelos deuses para os homens. o conteúdo patrimonial das titularida-
No direito babilônico, a figura de des e o fenômeno da sua transmissão
um dos maiores reis da Antiguidade mortis causa, da mesma forma, é tra-
transformou o Poder em Direito pro- tado de maneira especifica conforme a
mulgando o seu código: O Código de cultura de cada povo. O ocidente, po-
Hammurabi. Por isso, o direito suces- rém, tem a marca do direito romano.
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Nestas acintosamente breves linhas humana não reclamam direitos para


não se pretendeu completar o tema, além da sua existência. Mas o pró-
mas, ao contrário, mostrar um sumário prio direito sucessório representa um
tópico sobre como eram as principais transpassar de direitos para depois do
linhas de direito sucessório em Roma, fim da existência humana. Essa ex-
mesmo que sem considerar os treze pressão da vida nada mais é do que
séculos de transformações sociais, po- fruto de um estágio cultural do povo
liticas, econômicas e, evidentemente, que a emprega. Diante disso, a mara-
jurídicas pelas quais passou tal direito. vilha é perceber a proximidade jurídi-
Resta, por fim, asseverar que é ca que nos encontramos em relação a
verdade que as necessidades da vida povos tão distantes no tempo.

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