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Concreto armado:

análise das resistências de seções transversais


de elementos estruturais

José Samuel Giongo


jsgiongo@gmail.com

São Carlos – SP, março de 2019


Apresentação

Este texto começou a ser escrito na época em que o autor foi professor no
Departamento de Engenharia de Estruturas (SET), Escola de Engenharia de São
Carlos, Universidade de São Paulo, com o objetivo de atender a disciplina SET 409 –
Estruturas de Concreto Armado I.
Este trabalho considera nas análises os conceitos e termos apresentados na
ABNT NBR 6118:2014.
Muitos alunos de graduação por meio de bolsas de monitoria, de iniciação
científica, e alunos de pós-graduação participantes do PAE – Plano de
Aperfeiçoamento de Ensino, na Escola de Engenharia de São Carlos – USP,
contribuíram em várias fases de elaboração dos capítulos. A todos o autor agradece.
Ao final dos capítulos são apresentadas as referências bibliográficas
consultadas e, também, sugeridas para melhorar o conhecimento do aluno de
Engenharia Civil.
O autor é Engenheiro Civil, formado pela Faculdade de Engenharia de Barretos
(1975); Mestre em Engenharia Civil – Estruturas (1983) e Doutor em Engenharia Civil –
Estruturas (1990), ambos pelo Departamento de Engenharia de Estruturas, Escola de
Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo.
Foi professor no Departamento de Engenharia de Estruturas na EESC – USP
desde agosto de 1981 até maio de 2015.
Foi professor na Faculdade de Engenharia de Barretos no período de abril de
1977 a junho de 1981.
Lecionou, também, na Faculdade de Ciências Tecnológicas, curso de
Engenharia Civil, PUC Campinas, Faculdade de Engenharia Civil de Alfenas e
Faculdade de Engenharia de Passos.
Este texto tem sido revisado e, mesmo assim, erros podem ter sido cometidos,
pelos quais o autor pede desculpas.
Sumário
1 INTRODUÇÃO 1
1.1 Histórico 1
1.1.1 Generalidades 1
1.2 Importância do estudo das estruturas de concreto 4
1.3 Materiais constituintes das estruturas de concreto 4
1.3.1 Concreto simples 5
1.3.2 Concreto armado 6
1.3.3 Concreto protendido 7
1.3.4 A família das estruturas de concreto 7
1.4 Estruturas de concreto – vantagens e desvantagens 8
1.5 Normas técnicas para projeto e construções de concreto 10
Referências Bibliográficas 11

2 DEFORMABILIDADE DO CONCRETO 13
2.1 Considerações iniciais 13
2.2 Estrutura interna do concreto 14
2.3 Retração e expansão 17
2.3.1 Causas da retração e da expansão 17
2.3.2 Fatores que influem na retração 18
2.4 Deformações causadas por ações externas 19
2.4.1 Deformação imediata 19
2.4.2 Fluência 19
2.4.3 Relaxação 20
2.4.4 Deformações recuperáveis e deformação residual 21
2.5 Critérios para cálculo da retração e fluência 21
2.5.1 Preâmbulo 21
2.5.2 Deformações do concreto 22
2.5.2.1 Considerações iniciais 22
2.5.2.2 Fluência do concreto 22
2.5.2.3 Retração do concreto 27
2.5.2.4 Idade e espessura fictícias 29
2.5.2.5 Deformação total do concreto 30
2.5.3 Deformações na armadura 31
2.6 Exemplo de cálculo de deformações 32
Referências Bibliográficas 32

3 PROPRIEDADES MECÂNICAS DO CONCRETO 35


3.1 Resistência do concreto 35
3.1.1 Considerações iniciais 35
3.1.2 Fatores que influenciam a resistência 36
3.1.3 Evolução histórica da resistência do concreto 39
3.1.4 Conceito de resistência 40
3.1.5 Influência das formas e dimensões dos corpos-de-prova 41
3.1.6 Velocidade e duração da ação 43
3.2 Resistência à compressão do concreto 45
3.2.1 Resistência característica à compressão do concreto 45
3.2.2 Classes de resistência e consistência do concreto 48
3.2.3 Deformações de ruptura do concreto 50
3.2.3.1 Deformação de ruptura na compressão 50
3.2.3.2 Deformação na flexão simples 51
3.2.3.3 Deformação na flexo-compressão 52
3.2.4 Diagrama tensão-deformação do concreto 52
3.3 Resistência à tração do concreto 55
3.3.1 Preâmbulo 55
3.3.2 Determinação da resistência à tração do concreto 55
3.3.2.1 Resistência por ensaios à tração direta 56
3.3.2.2 Resistência à tração por ensaios à flexão 56
3.3.2.3 Resistência à tração por ensaios à compressão diametral 57
3.3.3 Resistência característica à tração do concreto 59
3.3.4 Resistência à tração do concreto considerada em projeto 60
3.5 Módulo de elasticidade do concreto 61
3.6 Coeficiente de Poisson e módulo de elasticidade
transversal 62
3.7 Resistência no estado múltiplo de tensões 62
Referências Bibliográficas 65

Este capítulo 3 Propriedades mecânicas do concreto, foi


publicado originalmente no livro editado pelo Instituto
Brasileiro do Concreto (Isaia, G. C., Editor (2005), Concreto:
ensino, pesquisas e realizações. São Paulo. IBRACON –
Instituto Brasileiro do Concreto. 2v.) em co-autoria com Ana
Elisabete P. G. de Ávila Jacintho, Professora Doutora no
CEATEC - Centro de Ciências Exatas, Ambientais e de
Tecnologias da Faculdade de Ciências Tecnológicas – PUC-
Campinas

4 PROPRIEDADES MECÂNICAS DAS BARRAS E FIOS DE


AÇOS 67
4.1 Considerações iniciais 67
4.2 Processo de obtenção dos aços 68
4.2.1 Obtenção do produto siderúrgico 68
4.2.2 Tratamento industrial das barras e fios de aços 68
4.2.3 Propriedades mecânicas das barras e fios de aço 69
4.3 Barras e fios de aço para concreto armado 71
4.3.1 Barras de aço de dureza natural 71
4.3.2 Fios de aço encruados a frio 72
4.4 Propriedades das barras e fios de aço 73
4.4.1 Preâmbulo 73
4.4.2 Propriedades geométricas das barras e fios de aço 73
4.4.3 Propriedades mecânicas das barras e fios de aço 74
4.4.4 Propriedades das barras e fios de aço com relação à
aderência 75
4.4.5 Propriedades das barras e fios para projetos 76
4.5 Uso das barras e dos fios de aço nas estruturas 78
4.5.1 Preâmbulo 78
4.5.2 Disposição de barras de armadura em vigas 78
4.5.3 Disposição de barras de armadura em lajes 79
Referências bibliográficas 79

ANÁLISE DO COMPORTAMENTO DE ELEMENTOS


5 81
ESTRUTRUAIS SOLICITADOS POR MOMENTO FLETOR
5.1 Considerações iniciais 81
5.2 Estudo experimental de protótipo de viga de concreto 83
armado
5.2.1 Preâmbulo 83
5.2.2 Viga de concreto armado analisada experimentalmente 84
5.2.3 Etapas do ensaio do protótipo de viga de concreto armado 87
5.3 Estádios elásticos do concreto 93
5.3.1 Preâmbulo 93
5.3.2 Estádios de comportamento de uma viga de concreto
armado 94
5.3.2.1 Estádio I 95
5.3.2.2 Estádio II 96
5.3.2.3 Estádio III 97
Relações entre o módulo do momento resistente e a
5.3.3 97
curvatura da viga
5.3.4 Conclusão da análise 99
5.4 Equações para as verificações dos ELS 100
5.4.1 Preâmbulo 100
5.4.2 Homogeneização da seção transversal 101
5.4.3 Cálculo da medida da profundidade da linha neutra 104
5.4.4 Cálculo do momento de inércia 105
Propriedades geométricas de seções transversais
5.4.5 retangulares no estádio I 105
5.4.5.1 Profundidade da linha neutra considerando o estádio I 105
5.4.2.2 Momento de inércia considerando o estádio I 106
Propriedades geométricas de seções transversais
5.4.6 107
retangulares no estádio II
5.4.6.1 Profundidade da linha neutra considerando o estádio II 107
5.4.6.2 Momento de inércia considerando o estádio II 108
Cálculo das tensões nas barras da armadura de tração
5.4.6.3 108
considerando o estádio II
5.5 Estádio III 109
5.6 Cálculo do momento de fissuração de seção retangular 109
5.7 Projetos propostos de viga de concreto armado 111
5.7.1 Projeto 1 111
5.7.2 Projeto 2 112
Referências bibliográficas 113

DIMENSIONAMENTO DE ELEMENTOS ESTRUTURAIS


6 115
LINEARES SOLICITADOS POR MOMENTO FLETOR
6.1 Considerações iniciais 115
6.2 Hipóteses de cálculo 116
6.3 Análise da resistência da seção transversal retangular 119
6.3.1 Equações de equilíbrio 119
6.3.2 Compatibilidade de deformações 122
6.3.3 Balanço do número de equações e incógnitas 122
6.3.4 Equações constitutivas dos materiais 122
6.3.5 Domínios de deformações 123
Limites para os valores da linha neutra nos três domínios
6.3.5.1 124
de deformações
6.4 Profundidade da linha neutra e condições de dutilidade 127
6.5 Limites para redistribuição de momentos 127
6.6 Análise da necessidade de barras comprimidas 128
6.6.1 Exemplo 1 129
6.6.2 Exemplo 2 130
6.6.3 Considerações para projetos de vigas 130
Limites para as áreas de armadura, armadura de pele e
6.7 130
diâmetro das barras
6.7.1 Preâmbulo 130
Valores limites para as áreas das armaduras longitudinais
6.7.2 131
das vigas
6.7.2.1 Área mínima de armadura de tração 131
6.7.2.2 Área total de armadura 132
6.7.2.3 Área de armadura de pele 132
6.7.2.4 Diâmetro das barras da armadura longitudinal 132
6.8 Espaçamento entre as barras da armadura 133
6.9 Posição correta do centro geométrico das barras da
armadura 135
6.10 Exemplos de dimensionamento de vigas de concreto
armado 136
6.10.1 Exemplo 1 136
6.10.2 Exemplos 2 139
6.10.3 Exemplo 3, 4 e 5 141
6.10.4 Exemplo 6 142
6.10.4.1 Cálculo da posição da linha neutra 142
6.10.4.2 Cálculo da área das barras da armadura longitudinal de
tração 143
6.10.4.3 Cálculo do módulo do momento resistente mínimo 143
6.10.4.4 Arranjo das barras da armadura longitudinal na seção
transversal 143
6.10.4.5 Cálculo da taxa de armadura longitudinal de tração 144
Posição correta do centro geométrico das barras da
6.10.4.6 144
armadura longitudinal
6.10.4.7 Cálculo da área das barras da armadura de pele 145
6.10.4.8 Detalhamento das armaduras 146
6.10.5 Exemplo 7 147
Dimensionamento de vigas solicitadas por momento fletor
6.11 148
com armadura dupla
6.11.1 Equações de equilíbrio 148
6.11.2 Balanço do número de equações e de incógnitas 148
6.11.3 Exemplo 8 148
Dimensionamento de vigas de seção retangular mediante
6.12 152
o uso de tabelas
6.12.1 Armadura simples 152
Equações para montagem das tabelas de kc e ks para
6.12.1.1 153
concretos grupo I
Equações para montagem das tabelas de kc e ks para
6.12.1.2 154
concretos grupo II
6.12.2 Armadura dupla 155
Dimensionamento de vigas de seção transversal em forma
6.13 157
de mediante o uso de tabelas tipo k
6.13.1 Considerações iniciais 157
6.13.2 Equações para o dimensionamento 161
6.13.2.1 Viga com seção T considerada como seção retangular 162
6.13.2.2 Viga de seção T 163
6.13.3 Exemplo de projetos de viga T 164
6.13.3.1 Exemplo 1 166
6.13.3.2 Exemplo 2 168
6.13.3.3 Exemplo 3 170
Referências bibliográficas 170

DIMENSIONAMENTO DE ELEMENTOS ESTRTURAIS


7 LINEARES SOLICITADOS POR FLEXO-COMPRESSÃO 173
NORMAL
7.1 Considerações iniciais 173
7.2 Hipóteses de cálculo 175
Análise de seções transversais solicitadas por flexo-
7.3 177
compressão normal
7.3.1 Caso de duas armaduras tracionadas 178
7.3.2 Caso de uma armadura tracionada e uma comprimida 180
7.3.3 Caso de duas armaduras comprimidas 182
Exemplos de dimensionamento de elementos lineares
7.3.4 185
estruturais com armadura assimétricas
7.3.4.1 Exemplo 1 185
7.3.4.2 Exemplo 2 186
7.3.4.3 Exemplo 3 187
7.3.4.4 Exemplo 4 188
7.3.4.5 Exemplo 5 190
Solução dos problemas de dimensionamento com
7.3.5 191
distribuição simétrica das barras
7.3.5.1 Ábacos para cálculo das áreas de armaduras 191
7.3.6 Exemplo de dimensionamento utilizando ábacos 192
Referências bibliográficas 196

DIMENSIONAMENTO DE ELEMENTOS ESTRUTURAIS


8 LINEARES SOLICITADOS POR FLEXÃO COMPOSTA 197
OBLÍQUA
8.1 Considerações iniciais 197
8.2 Equações de equilíbrio 198
8.3 Condições de compatibilidade de deformações 199
Dimensionamento de seções transversais solicitadas por
8.4 200
força normal e momentos fletores em duas direções
Ábacos para o dimensionamento de seções solicitadas por
8.5 201
flexão oblíqua
Exemplo de dimensionamento de seção solicitada por
8.6 206
flexão oblíqua
Referências bibliográficas 208

DIMENSIONAMENTO DE ELEMENTOS ESTRUTURAIS


9 209
LINEARES SOLICITADOS POR FORÇA CORTANTE
9.1 Considerações iniciais 209
9.2 Tipos de ruína 213
9.3 Efeito de arco 215
Critério do Código Modelo do CEB - FIP (1990) e da ABNT
9.4 217
NBR 6118:2014
9.4.1 Comentários iniciais 217
9.4.2 Condições para aplicação do modelo 218
9.4.3 Dedução das equações para o dimensionamento 219
9.4.3.1 Verificação da diagonal comprimida 220
Dedução da equação para cálculo da área da armadura
9.4.3.2 222
transversal
Contribuição dos mecanismos alternativos na capacidade
9.4.3.3 224
resistente
9.5 Deslocamento do diagrama de força no banzo tracionado 227
9.6 Critérios para o detalhamento das armaduras transversais 230
9.6.1 Armadura mínima 230
9.6.2 Limites de diâmetros e espaçamentos entre estribos 230
9.6.3 Elementos estruturais armados com barras dobradas 231
9.6.3.1 Ancoragem 231
9.6.3.2 Espaçamento longitudinal 231
Expressões práticas para o dimensionamento de vigas
9.7 submetidas à solicitação de força cortante com θ = 45o e α 231
= 90o
9.7.1 Equação para cálculo da força cortante mínima 231
Equação para cálculo da área de armadura transversal
9.7.2 234
mínima
9.7.3 Equação para cálculo da força cortante última 234
Equação para cálculo da área de armadura transversal
9.7.4 235
relativa à força cortante de cálculo
Cálculo dos espaçamentos entre os estribos considerando
9.7.5 236
a área da barra (ou fio)
9.8 Exemplos de dimensionamento da armadura transversal 237
Exemplo 1 – viga biapoiada com ação uniformemente
9.8.1 237
distribuída
9.8.1.1 Preâmbulo 237
9.8.1.2 Cálculos iniciais 237
9.8.1.3 Cálculo da área das barras da armadura longitudinal 239
9.8.1.4 Cálculo da área das barras da armadura transversal 241
Exemplo 2 – viga biapoiada com ações uniformemente
9.8.2 244
distribuída e concentrada
9.8.2.1 Preâmbulo 244
9.8.2.2 Cálculo da força cortante resistente mínima 245
9.8.2.3 Cálculo da força cortante resistente última 245
9.8.2.4 Força cortante solicitante de cálculo 245
9.8.2.5 Cálculo da área dos fios da armadura transversal 245
Exemplo 3 – viga biapoiada com ações uniformemente
9.8.3 248
distribuída e concentrada
9.8.3.1 Preâmbulo 248
9.8.3.2 Cálculo da força cortante mínima 248
9.8.3.3 Cálculo da força cortante resistente última 248
9.8.3.4 Seções nas quais a força cortante é igual a força cortante
resistente mínima 248
9.8.3.5 Cálculo da força cortante solicitante de cálculo 249
9.8.3.6 Cálculo das áreas das barras (ou fios) da armadura
transversal 249
Exemplo 4 viga biapoiada com ações uniformemente
9.8.4 252
distribuída e concentrada próxima de um dos apoios
9.8.4.1 Preâmbulo 252
9.8.4.2 Cálculo da área da armadura transversal 255
9.9 Armadura transversal de suspensão 256
9.9.1 Análise teórica do problema 256
Exemplo de projeto de viga com cálculo e detalhamento de
9.9.2 261
armadura de suspensão
Referências bibliográficas 263

ANÁLISE DA ANCORAGEM POR ADERÊNCIA DE


10 265
BARRAS E FIOS DE AÇO
10.1 Considerações iniciais 265
10.2 Aderência 266
10.2.1 Definições 266
10.2.2 Resistência de aderência 269
10.2.3 Resistência de aderência de acordo com a NBR 6118:2014 271
10.2.4 Barras transversais soldadas 274
10.3 Comprimento de ancoragem 274
10.3.1 Barras isoladas sem ganchos nas extremidades 274
10.3.1.1 Exemplo 1 de cálculo de comprimento de ancoragem 275
10.3.1.2 Exemplo 2 de cálculo de comprimento de ancoragem 276
10.3.1.3 Comprimento de ancoragem necessário 277
10.3.1.4 Armadura transversal na ancoragem 278
10.3.1.3.1 Barras longitudinais com ø < 32mm 278
10.3.1.3.2 Barras longitudinais com ø  32mm 278
10.3.2 Feixe de barras 279
Ancoragem fora dos apoios de barras providas de ganchos
10.3.3 280
nas extremidades
10.3.3.1 Redução no comprimento de ancoragem 280
10.3.3.2 Tipos de ganchos 280
10.3.4 Ancoragem de barras dobradas 281
10.4 Ancoragem de barras comprimidas 282
10.5 Ancoragem de estribos 283
10.6 Emendas das barras 284
10.6.1 Generalidades 284
10.6.2 Emendas por traspasse 285
10.6.2.1 Proporção das barras emendadas 286
10.6.2.2 Comprimento de traspasse de barras tracionadas isoladas 286
10.6.2.3 Comprimento de traspasse de barras comprimidas 287
isoladas
Armadura transversal nas emendas por traspasse em
10.6.2.4 287
barras isoladas
10.6.2.5 Emendas por traspasse de feixe de barras 288
10.6.3 Emendas por luvas rosqueadas 288
10.6.4 Emendas por solda 288
10.7 Ancoragem por meio de dispositivos mecânicos 290
10.8 Comprimento das barras em elementos estruturais fletidos 290
10.8.1 Deslocamento do diagrama de força nas barras 290
10.8.2 Ponto de início de ancoragem da barra 290
10.8.3 Caso de barras alojadas nas mesas 292
10.8.4 Armadura de tração nas seções de apoio 293
10.8.4.1 Generalidades 293
10.8.4.2 Ancoragem da armadura de tração no apoio 293
10.8.5 Barras prolongadas até os apoios 294
10.8.5.1 Apoio de extremidade 294
Barras adicionais nos apoios de extremidade (grampos
10.8.5.2 296
horizontais)
10.8.5.2 Viga engastada elasticamente em pilar de extremidade 298
10.8.5.3 Barras da armadura prolongadas até os apoios internos 299
10.8.5.4 Ancoragem de telas soldadas por aderência 299
Referências bibliográficas 300

DIMENSIONAMENTO DE ELEMENTOS ESTRUTURAIS


11 301
SOLICITADOS POR MOMENTO TORÇOR
11.1 Considerações Iniciais 301
11.1.1 Análise da consideração da torção nas estruturas 301
11.1.2 Tensões principais no caso de torção simples 304
11.1.3 Torção com empenamento impedido 305
11.2 Modelo teórico no caso de torção simples 307
11.2.1 Analogia da treliça 307
11.3 Tipos de ruína em vigas solicitadas por momento torçor 308
11.3.1 Escoamento das barras da armadura 309
11.3.2 Ruptura por compressão do concreto 309
11.3.3 Ruína das quinas 309
11.3.4 Ruína das ancoragens 310
11.4 Expressões para verificação da segurança estrutural no 310
ELU
11.4.1 Torção uniforme 310
11.4.1.1 Condições gerais 310
11.4.1.2 Resistência do elemento estrutural – Torção pura 311
11.4.1.3 Geometria da seção resistente 312
Análise do modelo de treliça espacial associado a
11.4.1.4 313
elementos lineares de concreto armado
11.4.2 Torção em perfis abertos de parede fina 318
11.4.2.1 Considerações gerais 318
11.4.2.2 Rigidez à flexo torção 318
11.4.2.3 Resistência à flexo torção 319
11.5 Estados-limites de fissuração inclinada da alma 320
11.6 Solicitações combinadas 320
11.6.1 Ações de momento fletor e momento torçor 320
11.6.1.1 Armadura longitudinal 320
11.6.1.2 Armadura longitudinal no banzo comprimido 320
11.6.1.3 Resistência do banzo comprimido 320
11.6.1.4 Resistência das diagonais comprimidas (bielas) 320
11.7 Critérios para detalhamento das barras da armadura para 321
torção
Exemplo de projeto de viga submetida a momento fletor,
11.8 321
força cortante e momento torçor
11.8.1 Preâmbulo 321
11.8.2 Projeto da laje em balanço 324
11.8.2.1 Ações na laje em balanço 324
11.8.2.2 Cálculos dos esforços solicitantes na laje 324
11.8.2.3 Verificação da resistência da laje com relação ao momento 325
fletor
11.8.2.4 Verificação da resistência da laje com relação à força 327
cortante
11.8.2.5 Detalhamento das barras da armadura 329
11.8.2.6 Estados-limites de serviço 330
11.8.3 Projeto da viga 330
11.8.3.1 Ações na viga 330
11.8.3.2 Esforços solicitantes na viga 331
11.8.3.3 Esforços resistentes mínimos da viga 332
Verificação da diagonal comprimida quanto à ação
11.8.3.4 333
conjunta do momento torçor e força cortante
Verificação da ruptura da diagonal comprimida por ação do
11.8.3.5 336
momento torçor
Cálculo da área da armadura transversal (estribos) para
11.8.3.6 336
força cortante
Cálculo da área da armadura transversal (estribos) para
11.8.3.7 336
momento torçor
Cálculo da área das barras longitudinais para momento
11.8.3.8 337
torçor
11.8.3.9 Cálculo da área da armadura de pele 338
11.8.3.10 Cálculo da área das barras da armadura longitudinal para
momento fletor 338
11.8.3.11 Cálculo das áreas finais das barras da armadura 339
11.8.4 Estado-limite de serviço 341
11.8.5 Detalhamentos das barras das armaduras 341
Referências Bibliográficas 341

12 EXEMPLOS DE PROJETOS DE VIGAS 343


12.1 Considerações iniciais 343
12.1.1 Desenho inicial 344
12.1.2 Determinação das ações atuantes nos tramos das vigas 345
12.1.3 Cálculos dos esforços solicitantes 347
Dimensionamento das áreas das barras das armaduras
12.1.4 347
longitudinais
Dimensionamento das áreas das barras ou fios das
12.1.5 347
armaduras transversais
Cálculos dos comprimentos de ancoragem das barras fora
12.1.6 347
dos apoios
Verificações da quantidade de barras que precisam ser
12.1.7 347
ancoradas nos apoios
Deslocamento do diagrama de momentos fletores de
12.1.8 348
cálculo
12.1.9 Detalhamento das barras das armaduras 348
12.2 Exemplo de projeto de uma viga biapoiada com força
uniformemente distribuída e concentrada com armadura 348
simples
12.2.1 Determinação dos esforços solicitantes limites de cálculo 348
12.2.1.1 Momento fletor resistente limite 349
12.2.1.2 Força cortante última 350
12.2.1.3 Força cortante mínima 350
12.2.1.4 Cálculo da área e do espaçamento dos estribos 351
12.2.2 Cálculo da área das barras da armadura longitudinal de 352
tração
12.2.3 Cálculo das áreas das barras da armadura longitudinal de 352
pele
12.2.4 Deslocamento do diagrama de momentos fletores 354
12.2.5 Verificação das ancoragens juntos dos apoios 355
12.2.5.1 Ancoragem da armadura longitudinal junto ao pilar P01 355
12.2.5.2 Ancoragem da armadura longitudinal junto ao pilar P02 356
12.2.6 Comprimentos de ancoragem das barras fora dos apoios 357
12.2.7 Comprimentos das barras longitudinais de tração 357
12.2.8 Alojamento das barras na seção transversal 360
12.2.9 Determinação da altura útil efetiva 361
12.2.9.1 Cálculo da ordenada do C. G. das barras da armadura de 361
tração
12.2.9.2 Cálculo da altura útil efetiva 362
12.2.9.3 Critério da ABNT NBR 6118:2014 362
12.2.10 Detalhamento das barras da armadura 363
Exemplo de projeto de uma viga biapoiada com força
12.3 uniforme-mente distribuída e força concentrada com 364
armadura dupla
12.3.1 Determinação dos esforços resistentes de cálculo limites 365
12.3.1.1 Momento fletor resistente limite 365
12.3.1.2 Força cortante resistente última de cálculo 365
12.3.1.3 Força cortante resistente mínima de cálculo 365
12.3.2 Cálculo das áreas das barras das armaduras longitudinais 366
12.3.2.1 Cálculos das áreas das barras da armadura longitudinal de 366
tração
Cálculo da área das barras da armadura longitudinal de
12.3.2.2 367
compressão
12.3.3 Cálculo das áreas das armaduras transversais (estribos) 367
12.3.3.1 Regiões de armadura calculada e armadura mínima 367
12.3.3.2 Área de armadura transversal mínima 368
12.3.3.3 Área para armadura transversal para Vsd = 185,2 kN 368
12.3.3.4 Área para armadura transversal para Vsd = 215,2 kN 369
12.3.4 Cálculo do deslocamento do diagrama de Msd 369
12.3.5 Verificação das ancoragens das barras longitudinais nos 370
apoios
12.3.5.1 Ancoragem das barras longitudinais junto ao pilar P01 370
12.3.5.2 Ancoragem das barras longitudinais junto ao pilar P02 370
12.3.6 Comprimentos de ancoragens fora dos apoios 370
12.3.6.1 Barras da armadura posicionada junto a face tracionada 370
12.3.6.2 Barras da armadura posicionada junto a face comprimida 371
12.3.7 Determinação dos comprimentos finais das barras 371
12.3.7.1 Comprimentos das barras tracionadas 372
12.3.7.2 Comprimentos das barras comprimidas 372
12.3.8 Detalhamento da viga VT02 372
Exemplo de projeto de uma viga contínua com força
12.4 374
uniforme-mente distribuída com armadura simples
12.4.1 Cálculo dos esforços solicitantes 374
12.4.1.1 Vigas contínuas 375
12.4.1.2 Cálculo dos vãos efetivos da viga VT03 376
Cálculo dos comprimentos equivalentes dos tramos dos
12.4.1.3 379
pilares P10 e P12
Cálculos dos momentos fletores atuantes nas
12.4.1.4 380
extremidades da viga
12.4.1.5 Determinação do momento fletor negativo junto ao pilar 382
P11
Verificação do momento fletor negativo na viga junto ao
12.4.1.6 383
pilar P11
Verificação dos módulos dos momentos fletores positivos
12.4.1.7 384
nas tramos da viga
Cálculo e detalhamento das barras das armaduras
12.4.2 385
longitudinais de tração
12.4.2.1 Cálculo áreas das barras das armaduras longitudinais 385
12.4.3 Cálculo áreas das barras ou fios das armaduras 386
transversais
Força cortante de cálculo menor que a força cortante
12.4.3.1 386
resistente mínima
Forças cortantes de cálculo maiores que a força cortante
12.4.3.2 388
resistente mínima
Cálculo do deslocamento (aℓ) do diagrama de momentos
12.4.4 390
fletores de cálculo (Msd)
12.4.5 Cálculos dos comprimentos de ancoragem retos (ℓb) 390
Barras da armadura junto a face inferior (positivas) que
12.4.6 390
precisam ser prolongadas até os apoios
Verificação da área das barras ancoradas no apoio em
12.4.6.1 função da relação entre os módulos dos momentos fletores 390
negativo e positivo
Verificação da área das barras ancoradas no apoio em
12.4.6.2 391
função da força cortante junto aos pilares
Comprimentos das barras negativas junto aos apoios de
12.4.6.3 393
extremidade
Determinação dos comprimentos das barras da armadura
12.4.7 393
longitudinal de tração
12.4.7.1 Divisão proporcional por barra 394
12.4.7.2 Cálculos dos comprimentos de ancoragem necessários 396
12.4.8 Distribuições das barras da armadura transversal (estribos) 397
12.4.9 Detalhamento da viga 398
12.4.10 Anexo à memória de cálculo da viga VT03 400
14.4.10.1 Desenho do diagrama de momentos fletores 400
Referências bibliográficas 402

13 ANÁLISE DE ELEMENTOS ESTRUTURAIS LINEARES


COM RELAÇÃO AOS ESTADOS-LIMITES SERVIÇO – 403
ELS
13.1 Considerações iniciais 403
13.2 Estado-limite de formação de fissuras – ELS-F 404
13.3 Estado-limite de abertura de fissuras – ELS-W 404
13.3.1 Valores limites das aberturas das fissuras 404
Critérios para cálculo das aberturas das fissuras de acordo
13.3.2 405
com a ABNT NBR 6118:2014
Estado-limite de deformação de acordo com os critérios
13.4 407
da ABNT NBR 6118:2014
13.4.1 Avaliação aproximada da flecha em vigas 407
13.4.1.1 Flecha imediata em vigas de concreto armado 408
Cálculo da flecha diferida no tempo para vigas de concreto
13.4.1.2 408
armado
13.5 Exemplo de projeto de viga com relação aos ELS 410
13.5.1 Considerações iniciais 410
13.5.2 Estado-limite de formação de fissuras (ELS-F) 411
13.5.3 Estado limite de abertura de fissuras (ELS-W) 412
13.5.3.1 Cálculo da abertura de fissura para a condição de
fissuração sistemática 413
13.5.3.2 Cálculo da abertura de fissura para a condição de
fissuração não sistemática 414
13.6 Verificação do estado limite de deformação excessiva 414
(ELS-DEF)
Referências bibliográficas 417
1
INTRODUÇÃO
1.1 HISTÓRICO (13 de junho de 2016)

1.1.1 GENERALIDADES

As construções em pedra, naturais ou artificiais, existem, de acordo com relatos


históricos, há quatro mil anos, tomando-se como exemplos as pirâmides de Gisé,
construídas entre 2.650 aC. e 2.550 aC.
As construções em madeira sobre palafitas se iniciaram no Período Neolítico da
pré-história, entre 10.000 aC. e 4.000 aC.
As edificações em estruturas metálicas começaram a ser construídas no século
XVII, como por exemplo o Palácio do Kremlin, em Moscou, Rússia, sendo que os
elementos da treliça eram em barras de ferro fundido justapostos.
A utilização do concreto armado é mais recente. Os primeiros elementos de
concreto armado foram construídos a partir da metade do século XIX, na França,
porém a sua utilização em maior escala aconteceu no início do século XX.
O concreto surgiu com o desejo de se criar uma pedra artificial, resistente,
econômica e durável como aquelas extraídas das rochas naturais e que apresentasse
como vantagens a possibilidade de ser moldada nas formas e dimensões necessárias
à sua utilização.
A associação do concreto com barras e fios de aço foi motivada pela necessidade
de obter maior resistência dos elementos estruturais à tração, que por sua vez fica
protegida com relação à corrosão por ação do meio ambiente.
A pedra artificial (concreto) amplamente usado até nos dias atuais em inúmeras
aplicações, só foi possível com o desenvolvimento do cimento (aglomerante) em
virtude das pesquisas feitas por Smeaton e Parker, no século XVIII. A produção
industrial do cimento ocorreu no século XX, decorrente de estudos e experiências
realizadas por Vicat e Aspdin, no ano de 1824, na Inglaterra, passando o material
aglomerante a ser chamado de cimento Portland. Johnson, em 1845, produziu um
cimento com a mesma tipologia dos usados atualmente.
2 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

O cimento armado, na época assim conhecido, foi usado pela primeira vez na
França, no ano de 1849, quando Lambot construiu um pequeno barco, que foi
mostrado na exposição de Paris em 1855. A França, confiando na data da origem do
concreto armado, comemorou o seu centenário em 1949. De acordo com historiadores
o barco encontra-se no museu de Brignoles (França).
No Brasil diz-se que o material com o qual o barco de Lambot foi construído é a
argamassa armada, material constituído por um compósito de agregado miúdo (areia) e
pasta de cimento (cimento e água), com uma armação feita com fios de aço de
pequeno diâmetro. A Escola de Engenharia de São Carlos – USP, por intermédio de
professores e pesquisadores do Departamento de Engenharia de Estruturas, teve
participação ativa e intensa no desenvolvimento do material argamassa armada, como
pode ser visto no trabalho de, entre outros, Hanai (1981).
François Coignet, na França, em 1861 obteve uma patente para a construção de
elementos de cimento armado.
Joseph Monier, também na França, horticultor e paisagista, construiu em 1861,
vasos para plantas usando argamassa armada (cimento armado). Em 1867 ele obtém
sua primeira patente para construção de vasos de cimento armado, requerendo outras
patentes para a construção de tubos e reservatórios (1868), placas (1869) e pontes
(1873).
Ward, em 1873, em Nova Iorque (EUA), construiu uma casa em concreto armado,
que de acordo com os historiadores existe até os dias atuais.
Thaddeus Hyatt, advogado, também americano, motivado por uma série de
ensaios experimentais com elementos de concreto armado iniciados em 1850, obtém
em 1877 patente para a construção de um sistema de vigas de concreto e aço, com as
barras nas posições corretas para absorver as tensões de tração oriundas das ações
de momento fletor e força cortante (estribos e barras dobradas).
São apresentadas, a seguir, outros feitos e datas importantes do desenvolvimento
na fase pioneira do concreto armado:
1880 – Hennebique, na França constrói a primeira laje armada com barras de aço
de seção circular;
1884 e 1885 – Empresas alemãs, entre elas Wayss e Freytag, adquirem as
patentes de Monier para uso em construções na Alemanha e na Áustria;
1886 – Koenen, na Alemanha, escreve a primeira publicação a respeito do tema
concreto armado;
1888 – Döhring, também na Alemanha, registra a primeira patente acerca do uso
da protensão em placas e vigas de pequenas dimensões;
1892 – Hennebique registra patente da primeira viga com armação semelhante as
usadas atualmente, isto é, com barras longitudinais para absorver as tensões de tração
oriundas da ação de momento fletor e estribos para absorver as tensões de tração por
conta da ação de força cortante;
1897 – Rabut, na França, inicia o primeiro curso a respeito de estruturas de
concreto armado, na “École des Ponts et Chaussées”;
1902 – Mörsch, engenheiro da firma Wayss e Freytag, publica a primeira edição
de seu livro, apresentando resultados de pesquisas acerca de elementos estruturais
em concreto armado e tornando-se um dos contribuintes para o conhecimento do
comportamento e progresso das estruturas em concreto armado;
1904 – Na Alemanha é escrita a primeira norma técnica a respeito de projeto e
construção de estruturas de concreto armado.
Analisando as datas dos principais eventos do início do concreto armado, pode-se
notar que na última década do século XIX, ocorreu um grande desenvolvimento no
conhecimento e, por consequência, na utilização de estruturas de concreto armado que
continuou no início do século XX. Construções de grande porte foram realizadas,
podendo-se destacar uma delas que foi projetada e construída por Hennebique, que
Capítulo I - Introdução 3

marcou época por muitos anos e foi recorde no gênero: a Ponte Del Risorgimento, em
1911, em Roma, com 100 m de vão, com sistema estrutural constituído por um arco
bastante abatido, com relação flecha/vão de 1/10.
Se, na formulação inicial das teorias fundamentais do concreto armado, o Brasil
não apresentou contribuições, face ao avanço tecnológico das nações citadas, pode-se
afirmar que, nas aplicações do material, soube, com arrojo e criatividade, projetar e
construir obras significativas, sendo a engenharia de estruturas brasileira reconhecida
internacionalmente e respeitada.
A origem do concreto armado no Brasil, de acordo com os estudos e análises
feitas pelo Engenheiro Civil e Doutor em Engenharia Augusto Carlos de Vasconcelos,
inicialmente publicado em Modesto dos Santos (1983), com o título “Histórico do
Concreto Armado”, foi com François Hennebique, que já havia sido o primeiro na
Europa a posicionar corretamente a armação em um elemento estrutural, prevendo
barras dobradas, ancoradas na região comprimida de vigas, com a finalidade de
absorverem as tensões de tração por causa da ação de força cortante.
A primeira obra no Brasil foi uma ponte de 9 m de vão, construída no Rio de
Janeiro, em 1908, com mão de obra do empreiteiro Echeverria, com projeto estrutural
de Hennebique.
Riedlinger, cidadão alemão, técnico de nível médio, fundou no Rio de Janeiro em
1912, a Companhia Construtora de Concreto Armado, tendo construído obras
importantes. Em 1913 a firma alemã Wayss e Freytag monta uma filial no Rio de
Janeiro que, posteriormente, adquire a firma de Riedlinger, sendo que este passa a
ocupar o cargo de “engenheiro chefe”. A empresa com essa incorporação contratou, no
mercado internacional, diversos mestres de obras que transferiram suas experiências
para técnicos nacionais.
Um dos primeiros brasileiros que tiveram sua formação fortemente influenciada
por Riedlinger foi Emílio Henrique Baumgart, que além de formar numerosos
profissionais, deixou um imenso acervo de obras importantes, com diversos recordes
mundiais em tamanho e originalidade.
Exemplo de obra importante projetada por Baumgart é a ponte sobre o Rio do
Peixe, em 1928, construída entre os municípios de Joaçara e Herval do Oeste, no
Estado de Santa Catarina, inicialmente denominada Ponte do Herval e, posteriormente,
Ponte Emílio Baumgart. Foi recorde mundial de dimensão do vão para viga reta em
concreto armado com 68 m e construída por processo original na época e hoje
conhecido como processo dos balanços sucessivos. A ponte foi tombada pelo
patrimônio histórico nacional, pelo que representou de pioneirismo para a Engenharia
do Brasil. Infelizmente, por causa das fortes chuvas do verão do ano de 1983 e, com a
consequente enchente do Rio do Peixe, a famosa ponte teve perda de apoio para as
suas estruturas de fundações e, portanto, foi levada pela águas, perdendo-se assim um
patrimônio histórico.
Obra de destaque do notável Engenheiro Baumgart, nascido em Blumenau – SC,
foi o Edifício “A Noite”, construído no Rio de Janeiro, no período entre 1928 e 1930,
com 22 andares, tendo sido na época o edifício mais alto em concreto armado no
mundo.
Muitos outros engenheiros brasileiros merecem destaque por suas obras, entre eles
podem ser citados: Paulo Rodrigues Fragoso, projetista da estrutura em concreto do
Pavilhão de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, sendo que a cobertura em casca de
concreto protendida teve a participação do Laboratório de Estruturas – EESC – USP,
na pessoa do Professor Dante Ângelo Osvaldo Martinelli, nas medidas das
deformações dos cabos de protensão (a cobertura não existe mais por causa de um
incêndio); Antonio Alves Noronha, projeto da estrutura do Estádio do Maracanã (o
primeiro), Rio de Janeiro – RJ; Joaquim Cardoso, projetista dos edifícios da região da
4 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Pampulha, em Belo Horizonte – MG e também dos principais edifícios públicos da


Cidade de Brasília – DF.
A estrutura de uma edificação só é arrojada se o projeto arquitetônico o for.
Assim, há que se destacar o desenvolvimento dos projetos arquitetônicos da
arquitetura brasileira, pelas formas e arrojo incomum, exigiu da Engenharia de
Estruturas soluções inéditas que possibilitaram significativo avanço. O desenvolvimento
da arquitetura adotando estrutura de concreto aparente permitiu que ambas se
desenvolvessem transformando os edifícios em obras de arte. Figura proeminente é,
portanto, Oscar Niemeyer.

1.2 IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DAS ESTRUTURAS DE CONCRETO

As estruturas de concreto estão presentes em todas, ou praticamente todas as


construções, mesmo que as estruturas sejam construídas com outros materiais, como
madeira, metálica, alvenaria estrutural, pelo menos os elementos estruturais de
fundação são em concreto.
Em obras hidráulicas e de saneamento as estruturas em concreto estão presentes
nas construções de barragens, tubos de transporte de águas e esgotos, reservatórios,
canais, galerias etc.
Nas construções de estradas as obras em concreto encontram-se nas pontes,
viadutos, galerias, estruturas de contenção de encostas, túneis, e, também, nos
pavimentos em concreto que por vezes precisa conter armadura para absorver as
tensões de tração. Nas ferrovias, além das estruturas já citadas, têm-se as estruturas
dos dormentes e demais instalações necessárias.
Nos aeroportos os pisos podem ser em concreto armado ou protendido, além de
todas as outras instalações necessárias ao funcionamento dos mesmos, tais como
torres de observação, garagens, reservatórios, hangares etc.
Em edificações industriais metalúrgicas, eletromecânicas, na agroindústria, em
edificações religiosas, em clubes, estádios para a prática de esportes, as estruturas de
concreto se fazem presentes nas construções de pavimentos, fundações de máquinas,
chaminés, silos, muros de arrimo, reservatórios, piscinas, elementos de cobertura etc.
Nos equipamentos urbanos as estruturas de concreto constituem os postes de
iluminação pública, as construções de praças, calçadas, espelhos de água, passarelas
etc.
Nos edifícios residenciais ou comerciais as estruturas de concreto estão
presentes nas construções do sistema estrutural constituído por elementos de
fundação, pilares, vigas, lajes, como também nos reservatórios elevados e enterrados,
piscinas (por vezes nas coberturas, ou uma em cada apartamento), muros de arrimo,
rampas de acesso de veículos, guaritas etc.
O conhecimento do comportamento das estruturas de concreto armado ou
protendido é de suma importância para os engenheiros que venham a trabalhar com
projetos estruturais como também aqueles que optem pela área de produção de
construções, pois é preciso entender as corretas posições das barras das armaduras
nos vários elementos estruturais, os deslocamentos (flechas) dos elementos estruturais
fletidos para poder decidir a retirada das fôrmas e cimbramentos das lajes e vigas.

1.3 MATERIAIS CONSTITUINTES DAS ESTRUTURAS DE CONCRETO

As estruturas de concreto podem ter armaduras passivas (concreto armado) ou


armaduras ativas (concreto protendido, que também tem armaduras passivas), que
podem ser em forma de barras ou fios, no primeiro caso, ou fios e cordoalhas no caso
de armaduras ativas. As armaduras ativas são as pré-tracionadas, por equipamentos
próprios, e, depois da cura do concreto, as tensões são aliviadas e, portanto, os fios e
Capítulo I - Introdução 5

ou as cordoalhas aplicam uma força de compressão no elemento estrutural. A


aderência pode ser posterior à cura do concreto por meio de injeção de nata de
cimento em bainhas metálicas ou plásticas que contém as cordoalhas de protensão. A
aderência pode ser inicial quando não há bainha e os fios ou cordoalhas são pré-
tracionados e o concreto é lançado na fôrma, sendo que a força só é aliviada após a
cura do concreto do elemento estrutural.
Atualmente têm sido construídas estruturas de concreto armado e protendido com
barras não metálicas obtidas por processo industrial, constituídas por fios de fibra de
vidro impregnadas com polímeros resistentes aos álcalis do cimento.
O advento do concreto armado só foi possível por causa da aderência por adesão
entre esses materiais, que já existiam como materiais de construção independentes. A
aderência permite que as deformações na estrutura na região de contato entre as
barras de aço e o concreto sejam as mesmas nos dois materiais. A adesão é o
fenômeno de ligação espontânea entre uma massa de concreto e uma barra ou fio de
aço, como estudado no capítulo 10.

1.3.1 CONCRETO SIMPLES

O concreto simples é um material composto obtido pela mistura, e dosagem


conveniente, de agregados graúdos - pedra britada ou seixos roladas, agregados
miúdos – areia natural ou artificial obtida pela moagem de agregados graúdos, cimento
(aglomerante hidráulico) e água.
Nos concretos podem ser usadas adições com as finalidades de melhorar
algumas propriedades tais como: resistência à compressão (sílica ativa), à tração
(fibras metálicas), resistência à abrasão, diminuição da retração (fibras plásticas),
aumento da densidade (minério de ferro). Podem ser consideradas também a
necessidade de usar aditivos químicos com finalidades específicas de: acelerador de
pega, retardador de pega, incorporadores de ar, melhoria da trabalhabilidade com fator
água/cimento pequeno.
É denominado de aglomerante hidráulico aquele que reagindo com a água
promove a ligação entre os agregados tornando-os participantes de um novo material
com propriedades mecânicas diferentes. Assim, as resistências à compressão e a
tração, o módulo de elasticidade, a densidade, a condutibilidade térmica, o
comportamento químico etc., são diferentes daqueles dos materiais constituintes quer
sejam a areia natural, a pedra britada, o cimento, os aditivos e adições.
Nas aplicações usuais adotam-se o cimento Portland comum, embora possam ser
usados cimentos específicos, como por exemplo os resistentes a sulfatos quando se
projeta uma estruturas de canal destinado a receber águas servidas (esgotos).
Os agregados graúdos são escolhidos em função da disponibilidade das rochas
locais, podendo assim ser oriundos de rochas de granito ou de outras rochas.
Os agregados miúdos podem ser as areias naturais de fundo de rio ou
provenientes da moagem de agregados graúdos.
Os chamados agregados leves, grãos de EPS (isopor) ou argila expandida,
também são usados com a finalidade específica de diminuição do peso próprio dos
elementos estruturais.
A ABNT NBR 7211:1983 Agregados para Concreto, considera agregado miúdo o
material que passa pela peneira número 4, que tem malha quadrada com 4,8 mm de
lado. Agregado graúdo é, portanto, o material que fica retido na peneira número 4.
Nas moldagens dos elementos das estruturais usuais costumam-se usar como
agregado graúdo a pedra britada número 1.
As dimensões dos agregados graúdos são classificadas nas categorias indicadas
na tabela 1.1, de acordo com as dimensões nominais.
6 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Tabela 1.1 - Dimensões nominais dos agregados graúdos (pedra britada)

Tipo Número 0 Número 1 Número 2 Número 3 Número 4 Número 5

Dimensões
4,8 a 9,5 9,5 a 19 19 a 25 25 a 30 50 a 76 76 a 100
(mm)

A dimensão máxima do agregado graúdo adotado para o concreto influi nas


escolhas das dimensões mínimas dos elementos estruturais, nos espaçamentos entre
as barras longitudinais de vigas medidos de acordo com os planos horizontal e
transversal e os espaçamentos entre barras longitudinais de pilares medidos no plano
vertical.
As estruturas de concreto podem ser em concreto simples que são aquelas que
não contém armaduras ou as que as taxas geométrica de armaduras fiquem menores
que os valores mínimos indicados em normas técnicas. Assim, as tensões de tração
são absorvidas pelo concreto. Lembra-se que a resistência à tração do concreto é da
ordem de 1/10 da resistência à compressão. Exemplos de aplicação de concreto
simples em estruturas podem ser citados os blocos de fundação, os tubulões os muros
arrimos de gravidade de concreto ciclópico, constituído por concreto com pedra britada
número 1 e com o lançamento de pedras de grande diâmetro aparente com a finalidade
de ocupar volume.
1.3.2 CONCRETO ARMADO
Os elementos que compõem as estruturas em concreto armado são constituídos
pela associação de concreto e barras ou fios de aço convenientemente posicionados
para absorver as tensões de tração, embora também possa colaborar com a
resistência do elemento absorvendo as tensões de compressão, tais como as atuantes
em pilares e nas regiões (entre a borda mais comprimida e a linha neutra). Como já dito
a adesão entre os dois materiais é fundamental para a aderência, que permite o
trabalho conjunto.
A aderência, conforme estudado no capítulo 10, é constituída pela adesão, atrito e
aderência mecânica, esta por causa das imperfeições das barras lisas e das nervuras
nas barras.
O trabalho solidário entre aço e concreto é que permite o aumento da capacidade
resistente de um elemento estrutural fletido (viga), quando se comparam vigas de
mesma largura (bw) e altura (h) da seção transversal.
Para que se entenda esse trabalho conjunto consideram-se as vigas da figuras
1.1 sem trabalho solidário entre concreto e as barras por haver uma bainha e figura 1.2
com trabalho solidário por causa da aderência.

Figura 1.1 - Viga com barras sem aderência Figura 1.2 - Viga com barras com aderência
Capítulo I - Introdução 7

Analisando a figura 1.1 ao se aplicar uma força uniformemente distribuída na


direção eo sentido da força de gravidade, a viga se deforma de tal modo que as fibras
superiores apresentam encurtamento (cc) e as fibra na borda tracionada tem
alongamento (ct) e as fibras no centro geométrico das barras da armadura tem
deformação igual a zero, pois não há aderência entre os materiais. A resultante das
tensões nas barras da armadura longitudinal de tração é igual a zero.
Considerando agora a viga da figura 1.2, moldada com as barras longitudinais na
região tracionada da viga e com aderência entre estas e o concreto, ao se aplicar uma
força uniformemente distribuída no sentido da força de gravidade, a viga se deforma de
tal modo que as fibras superiores apresentam encurtamento (cc) e as fibras no centro
geométrico das barras da armadura tem alongamento (st). A deformação do concreto
nessa região que envolve as barras de tração é a mesma que a das barras. Assim, os
dois materiais trabalham solidariamente definindo, portanto, um elemento estrutural em
concreto armado.
Supondo que no caso da viga da figura 1.1 as barras da armadura sejam fixadas
em duas chapas metálicas posicionadas nas extremidades com porcas. Ao se aplicar a
força uniformemente distribuída, pode-se perceber que o alongamento total das fibras
tracionadas do concreto é igual ao alongamento total das barras de aço, porém as
deformações específicas em cada seção transversal da viga, constantes nas barras da
armadura, são diferentes ao longo das fibras de concreto em contato com as barras.
Assim, ocorre um deslizamento das barras da armadura em relação às fibras de
concreto em todas as seções transversais intermediárias, definindo uma situação na
qual não há trabalho solidário dos dois materiais. Esse comportamento é típico de
estrutura mista aço e concreto.

1.3.3 CONCRETO PROTENDIDO

As estruturas em concreto protendido, ou com armadura ativa, são aquelas em


que fios ou cordoalhas formadas por fios trançados, são inicialmente tracionados por
equipamento próprio e, posteriormente, com a cura parcial ou total do concreto as
forças de tração são liberadas ocorrendo, portanto, força de compressão no elemento
estrutural, aumentando a sua capacidade resistente.
A protensão pode ser adotada para vigas de pontes com grandes vãos, lajes de
edifícios, painéis de fechamento, sendo que os elementos podem ser pré-fabricados ou
moldados no local.
Os fios são de aço para concreto protendido têm propriedades mecânicas
diferentes daqueles usados em elementos de concreto armado com amadura passiva.

1.3.4 A FAMÍLIA DAS ESTRUTURAS DE CONCRETO

Com o advento dos aditivos e adições, que melhoram certas propriedades das
estruturas de concreto, pode-se obter os concretos de alta resistência com a adição de
sílica ativa e redução do fator a/c por causa dos aditivos superplastificantes.
Quando se procura um concreto resistente a abrasão ou resistente a sulfatos, o
que se espera é que ele tenha um desempenho diferente do que um concreto comum,
independente do valor da resistência, então eles podem ser chamados de concretos de
alto desempenho.
Se os concretos têm resistências características menores do que 50 MPa eles
são ditos de pequena resistência. Essa definição é de acordo com normas da ABNT.
Ao se adotarem em um projeto elementos estruturais de pequena espessura, não
é possível usar na mistura do concreto agregados graúdos e nem barras e fios de
grandes diâmetros. Portanto, é necessário adotar fios de pequeno diâmetro,
normalmente em forma de telas soldadas, que é posicionada ao longo da alma do
8 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

elemento. Esse material é chamado, no Brasil, de Argamassa Armada, ou elementos


estruturais em concreto com pequena espessura.
Como foi visto podem ser adotadas estrutura de concreto protendido. E as
estruturas podem ser moldadas no local ou pré-fabricadas.
Desse modo pode-se entender que as variações nas estruturas de concreto
levam todas a pertencerem à família dos concretos, de tal modo que a escolha de um
tipo para uma dada solução estrutural depende de fatores técnicos e econômicos.

1.4 ESTRUTURAS DE CONCRETO – VANTAGENS E INCONVENIENTES

A escolha por um processo construtivo para uma edificação depende de fatores


técnicos e econômicos, tais como disponibilidades de materiais e mão de obra, tempo
previsto de construção, aporte de recursos pelos investidores etc.
A estrutura de uma edificação pode ser escolhida, de acordo com o projeto
arquitetônico, entre as opções de estruturas: concreto – moldadas no local, pré-
moldada, em concreto armado ou protendido, alvenaria estrutural – armada ou não
armada, metálicas e madeira.
Nos dias atuais em que se pensa na manutenção do que resta do meio ambiente,
e até na sua recuperação, há que se analisar o consumo de energia para se obter os
elementos necessários para se construir com um determinado processo estrutural.
Assim, é necessário avaliar os custos ambientais na coleta e industrialização dos
elementos estruturais em aço, tanto as barras e fios/cordoalhas para construções em
concreto quanto para estruturas metálicas, os custos para obtenção do cimento, da
extração da pedra britada e de areias em minas próprias; os custos para obtenção dos
elementos para as construções de estruturas em madeira e para os elementos de
blocos para alvenaria estrutural. Em uma análise inicial, do ponto de vista ambiental, a
construção de estruturas em madeira é a que menos consome energia no processo de
obtenção dos elementos e, se usar madeira de reflorestamento o meio ambiente é
menos onerado, na sequência encontram-se as estruturas de concreto e, por fim, as
estruturas metálicas.
Nos dias atuais nota-se um número significativo de edifícios, e destinados a
moradia, construídos com a tecnologia da alvenaria estrutural. Alguns edifícios
industriais e comerciais têm sido construídos em estruturas metálicas.
A opção pelo tipo de estrutura a ser adotado pela firma construtora e ou
incorporadora depende de diversos fatores técnicos e econômicos que precisam ser
analisados com cuidado.
A quantidade de estruturas de concreto armado existentes no Brasil atesta a
viabilidade técnica e econômica como material de construção de obras com pequeno e
grande volume de concreto. Embora usado com intensidade pelo mercado da
construção as estruturas de concreto apresentam qualidades e deficiências. As
vantagens e deficiências na adoção de um determinado material estrutural, têm sempre
um caráter relativo, dependendo de um padrão de referência.
As estruturas de concreto, por sua larga utilização, apresentam algumas
vantagens em relação a outros materiais estruturais, entre elas:

a- é um material que apresenta boa resistência à maioria dos tipos de solicitação,


porém a análise do comportamento estrutural precisa ser cuidadosa visando a
segurança estrutural, atentando-se para os cuidados de detalhamento da
armaduras e suas condições favoráveis de construção;

b- economia na construção, pois na maioria das situações os materiais para


concreto (agregados miúdos e graúdos) encontram-se em quantidade
suficientes na região da construção, com custos favoráveis, portanto;
Capítulo I - Introdução 9

c- considerando as estruturas de concreto moldadas no local, o meio técnico


dispõe de conhecimento para construir com facilidade e rapidez;

d- considerando estruturas pré-moldadas de concreto, a viabilidade econômica


depende, também, dos seguintes fatores: transporte, equipamentos
necessários para içamento, posicionamento, solidarização e outros;

e- o concreto é considerado um material durável, porém por ser poroso e com o


meio ambiente quimicamente agressivo por causa da poluição ambiental, é
preciso prever revestimentos protetores e manutenção periódica. Esse fato
fica agravado em edificações construídas em regiões marítimas em virtude da
maresia. As barras das armaduras precisam de proteção dada pelo concreto
do cobrimento;

f- as formas arquitetônicas previstas pelos arquitetos são atendidas com o


correto projeto dos elementos estruturais e verificação da segurança da
edificação e conveniente projeto das fôrmas;

g- a estrutura é monolítica, se moldada no local, possibilitando que toda a


estrutura trabalhe permitindo a redistribuição dos esforços solicitantes;

h- os gastos com manutenção são reduzidos, porém é necessário um programa


de inspeção e manutenção periódica;

i- o concreto é pouco permeável à água, necessitando que sejam atendida boas


condições de plasticidade, adensamento e cura. A permeabilidade pode ser
melhorada com a adição de polímeros;

j- as estruturas de concreto apresenta segurança relativa contra fogo, para tanto


cuidados especiais precisam ser tomados com relação aos cobrimentos das
barras das armaduras;

k- quando convenientemente projetadas as estruturas são resistentes a choques,


vibrações, efeitos térmicos e a desgastes mecânicos.

As estruturas de concreto têm alguns fatores inerentes ao seu comportamento


que podem ser entendidas como deficiências, e precisam ser consideradas na fase de
projeto estrutural e arquitetônico. Entre outras podem ser citadas:

a- o peso próprio é considerado elevado, quando comparado com outros


materiais estruturais e a massa específica aparente é adotada igual a
25 kN/m3. Para o concreto leve estrutural, no qual se adota como agregado
graúdo argila expandida ou esferas de EPS (isopor), considera-se massa
específica aparente de 12 kN/m3 a 20 kN/m3;

b- as reformas e adaptações são trabalhosas e de difícil construção, tornando-se,


em alguns casos, inviáveis. Como opção podem ser adotada no projeto
estruturas pré-fabricadas de concreto;

c- as estruturas de concreto apresentam fissuras em virtude da pouca resistência


do concreto à tração em relação à de compressão. Nas análises das
resistências dos elementos estruturais esse fato é considerado por meio das
10 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

hipóteses de cálculo. As aberturas das fissuras precisam ser controladas para


evitar a ação nefasta do meio no interior do concreto com possível ataque
químico às barras das armaduras. Em estruturas de reservatórios, piscinas e
outras destinadas a conter líquidos, cuidados especiais de impermeabilização
precisam ser adotados;

d- os ambientes arquitetônicos quando a estrutura é de concreto são


desconfortáveis com relação aos comportamentos térmicos e acústicos
necessitando, portanto, de adequado projeto de ventilação e escolha de
materiais que minimizem estes problemas.

Como em qualquer outra decisão econômica, a escolha por um determinado


material para compor uma edificação precisa ser feita após análise das disponibilidades
dos materiais no local da obra, de mão de obra, dos custos financeiros dos aportes
mensais, entre outros.

1.5 NORMAS TÉCNICAS PARA PROJETO E CONSTRUÇÕES DE CONCRETO

Os projetos, as construções, as durabilidades e as manutenções periódicas das


estruturas, particularmente as de concreto, são regidas por normas técnicas que
procuram atender as condições de segurança das estruturas quando em uso.
A primeira norma técnica editada no Brasil foi a “Normas para execução e cálculo
de concreto armado”, publicada em 1937, pela Associação Brasileira de Cimento
Portland, para suprir as necessidade do meio técnico com relação ao projeto e
construção de estruturas de concreto armado. A sociedade técnica brasileira percebeu
com a publicação dessa norma a necessidade de criar fórum de discussão de critérios
e normas técnicas para projeto e uso de produtos comercializados por uma emergente
indústria nacional.
Foi criada, em 24 de Setembro de 1940, a Associação Brasileira de Normas
Técnicas (ABNT) sendo a norma de estruturas de concreto, anteriormente publicada
pela Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), a receber o número 1
constituindo-se, portanto, na Norma Brasileira número 1 (NB 1). As edições sucessivas
são dos anos de 1950, 1960, 1978, 2003, 2007 (que teve ajustes com a finalidade de
inserção no meio técnico internacional) e atualmente tem-se a norma ABNT NBR
6118:2014 – Projeto de Estruturas de Concreto, que é uma norma de Procedimento. A
sigla ABNT indica que é uma norma brasileira e a sigla NBR significa Norma Brasileira
Registrada, nomenclatura adotada pelo Instituto Nacional de Metrologia (INMETRO).
O Brasil, em 1973, criou o Sistema Nacional de Metrologia Normalização e
Qualidade Industrial (SINMETRO), com a finalidade de reger as atividades normativas,
subordinado ao Ministério da Industria e do Comércio (na época). Esse sistema é
composto por dois órgãos: Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e
Qualidade Industrial (CONMETRO), que tem a finalidade de normalizar, coordenar e
supervisionar e o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial
(INMETRO) que é órgão executivo.
A ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, criada pela iniciativa
privada em 1940, em caráter permanente, na condição de Fórum Nacional de
Normalização pela resolução 14/83, de 30 de Dezembro de 1983, do Ministério da
Industria e Comércio (na época). A ABNT, assim, integrou-se definitivamente ao
SIMETRO, passando a fazer parte do CONMETRO.
A ABNT produz os seguintes tipos de normas técnicas: Procedimento (NB),
Especificação (EB), Método de Ensaio (MB), Padronização (PB), Terminologia (TB),
Simbologia (SB), Classificação (CB). Quando um projeto de norma é aprovado pelo
meio técnico com direito a voto, ela é registrada no INMETRO, denominada de Norma
Capítulo I - Introdução 11

Brasileira Registrada (NBR), esta sigla é seguida pelo número de registro e do ano de
publicação, separado por dois pontos (:), por exemplo como a já citada a ABNT NBR
6118:2014.
As atividades de projetos e construção são, portanto, regidas por normas
técnicas, que na maioria dos casos são explicitadas em contratos de prestação de
serviços e norteiam todas as atividades econômicas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) Projeto de estruturas


de concreto. ABNT NBR 6118:2014. Rio de Janeiro, ABNT, 2014.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) Agregados para


concreto. ABNT NBR 7211:1983. Rio de Janeiro, ABNT, 1983.

HANAI, J.B. Construções de argamassa armada: fundamentos tecnológicos para


projeto e execução. São Paulo, Pini, 1992.

SANTOS, L.M. Cálculo de concreto armado. 2v. São Paulo, LMS, 1983 (v.1), primeira
edição publicada no ano de 1976, 1981 (v.2).

VASCONCELOS, A. C. O concreto no Brasil – Recordes, Realizações, História. São


Paulo, Edição Patrocinada por Camargo Corrêa S. A., 1985

VASCONCELOS, A. C. O concreto no Brasil – Professores, Cientistas, Técnicos. São


Paulo, Editora Pini Ltda., 1992

VASCONCELOS, A. C. O concreto no Brasil – Pré-fabricação – Monumentos -


Fundações. São Paulo, Studio Nobel. 2002.

VASCONCELOS, A. C. O concreto no Brasil – Obras Especiais – Contos Concretos.


São Paulo, Edição do Autor. 2011.
2
DEFORMABILIDADE DO
CONCRETO
2.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS (16 de janeiro de 2017)

Como estudado no capítulo 1 o material concreto é composto de cimento,


agregados graúdo e miúdo e água. Recentemente, como visto, existem os concretos
com adições e aditivos, com a finalidade de melhorar uma ou várias propriedades
específicas tanto no estado fresco como no endurecido.
A reação química entre o cimento (aglomerante) e água, a produção e cura do
concreto justificam as condições de deformações que ocorrem inclusive sem ação de
força externa aplicada ao elemento estrutural.
A data escolhida como referência da resistência do concreto é 28 dias. Nessa
data o concreto apresenta resistência da ordem de 60% a 90% do valor de referência,
no caso de concreto feito com cimento de resistência normal.
A estrutura interna do concreto tem influência significativa tanto na resistência
mecânica como na deformabilidade dos elementos estruturais em concreto armado.
No processo de mistura dos agregados graúdos e miúdos com cimento e água,
começa a se processar a reação química do cimento com a água, resultando a
formação de gel de cimento.
A pasta de cimento corresponde à massa coesiva de cimento hidratado, incluindo
os poros do gel, sendo a porosidade característica de aproximadamente 28%. De
acordo com NEVILLE (1997), a origem da resistência do gel não está completamente
esclarecida, mas, provavelmente, deriva de dois tipos de forças de coesão. O primeiro
tipo é a atração física entre superfícies sólidas, separadas somente pelos diminutos
poros de gel (1,5 nm a 2,0 nm). O segundo tipo tem origem nas ligações químicas e
são muito mais fortes que as forças do primeiro tipo.
Durante a mistura do concreto, o gel envolve os grãos dos agregados,
endurecendo gradualmente e formando cristais, os quais vão se associando com o
14 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

tempo. O gel, ao endurecer, liga os agregados resultando um material resistente e


monolítico, ou seja, o concreto.
A quantidade de água necessária para dar suficiente trabalhabilidade ao
amassamento do concreto é da ordem do dobro da quantidade consumida na reação
química de hidratação do cimento. Uma parte da água excedente entra em combinação
química com componentes menos ativos do cimento. Outra parte forma os numerosos
poros e capilares do gel do cimento; esta parte pode evaporar-se.
Os poros do concreto ocupam cerca de um terço do volume de cimento.
Para diminuir a quantidade de água pode-se incorporar ao concreto aditivos
superplastificantes que permitem reduzir a quantidade de água de amassamento,
aumentando, por conseguinte, a resistência do concreto.
A estrutura interna do concreto é heterogênea: tem a forma de retículos espaciais
de cimento endurecido, de grãos de agregados graúdo e miúdo de várias dimensões e
formas, envoltos por grande quantidade de poros e capilares portadores de água que
não entrou em reação química, e, ainda, vapor de água e ar. Fisicamente, o concreto
representa um material capilar poroso, sem continuidade da massa, no qual se acham
presentes os três estados de agregação – sólido, líquido e gasoso. Não havendo
comunicação dos capilares com o meio externo, a água fica retida gerando pressão
interna.
O concreto é, portanto, um material heterogêneo, de comportamento mecânico
não elástico e não linear.

2.2 ESTRUTURA INTERNA DO CONCRETO

O concreto é um material composto, portanto o seu desempenho depende dos


comportamentos e propriedades dos materiais constituintes e, principalmente, como
eles se associam por meio da pasta de cimento, isto é da mistura de cimento e água.
O concreto tem uma microestrutura altamente complexa e heterogênea. (Mehta e
Monteiro, 2008) Estudos e análises experimentais tem sido feitas em vários centros de
pesquisa no Brasil e em outros países com a finalidade de entender o comportamento
do concreto.
A microestrutura do concreto é constituída pelo tipo, pela quantidade, pelo
tamanho, pela forma e a distribuição das fases presentes.
Os elementos macroscópicos do concreto são aqueles que podem ser visto sem
auxílio de equipamentos óticos de aumento.
O conhecimento da estrutura interna do concreto é de suma importância e justifica
as propriedades tais como: resistência, elasticidade, retração, fluência, fissuração e
durabilidade.
Analisando um corpo-de-prova de concreto depois de desintegrado em ensaio
para determinar a resistência à compressão, conforme figura 3.5b, é possível notar
duas fases do concreto: as partículas de agregado graúdo e o meio que as liga, isto é a
argamassa, que por sua vez é constituída por agregados miúdos e a pasta de cimento.
Essa observação permite considerar o concreto como um material bifásico, constituído
de agregados dispersos em matriz de pasta de cimento.
A distribuição da pasta de cimento na massa de concreto não é homogênea; pode
se apresentar densas em algumas regiões, semelhante aos agregados, e, em outras
regiões apresentar-se porosa.
As propriedades dos agregados graúdos são de importância na massa unitária,
no módulo de elasticidade e na condição dimensional do concreto. Essas propriedades
dependem da densidade e da resistência do agregado, que são definidas pelas
propriedades físicas que preponderam em relação às propriedades químicas. As
propriedades físicas que intervém na qualidade do concreto são o volume, tamanho e a
Capítulo 2 - Deformabilidade do concreto 15

distribuição dos poros. Além dessas propriedades a forma e a textura do agregado


graúdo afetam a qualidade do concreto.
Os agregados naturais podem ser as pedras britadas de rochas ou os seixos
rolados. Os seixos rolados (pedregulhos) são arredondados e apresentam superfície
lisa. Os agregados provenientes da britagem de rochas podem ser lamelares ou
achatados, ou com formato próximo de um cubo. Essas formas ocorrem em função do
tipo de rocha e do processo de britagem. As pedras britadas alongadas ou achatadas
(a área superficial é maior) afetam negativamente algumas propriedades do concreto.
Mehta e Monteiro (2008) indicam que agregados de forma lamelar alongada e
achatada, em maior número na massa de concreto, maior será a tendência de ocorrer
acúmulo de água junto a superfície do agregado (exsudação interna), enfraquecendo a
interface pasta-agregado.
Nos casos usuais de concretos com agregados graúdos provenientes de rochas
sãs a fase agregado não tem influencia direta na resistência do concreto. No caso de
concreto de resistência característica à compressão de até 35 MPa, em termos, a
ruptura ocorre na fase argamassa. Nos casos de concretos com maior resistência a
ruptura ocorre na fase agregado, pois a fase argamassa é mais resistente.
Nos concretos, o volume de agregado graúdo (retido na peneira de malha
4,8 mm) é da ordem de 70% do volume total do concreto endurecido. A estrutura
interna do concreto pode, então, ser imaginada como sendo formada pelo agregado
graúdo envolvido pela matriz de argamassa. A argamassa é constituída pelo cimento
hidráulico, agregado miúdo e água.
Os agregados miúdos podem ser as areias naturais, encontradas em minas, ou
as artificiais, obtidas pela britagem em grãos mais finos dos agregados graúdos.
A pasta de cimento hidratada, constituída por cimento Portland e água, apresenta
uma microestrutura que evolui como resultado das reações químicas entre os
compostos do cimento e a água.
O cimento anidro é um pó cinza obtido pela moagem de um clínquer com
pequena quantidade de sulfato de cálcio. O clinquer é uma mistura de compostos
produzidos a alta temperatura entre óxido de cálcio e sílica, alumina e óxido de ferro.
(Mehta e Monteiro, 2008)
Os principais componentes aglomerantes do cimento são o silicato tricálcio
(3Cao.SiO2) e o silicato dicálcio (2CaO.SiO2), os quais por hidratação formam
microcristais de dissilicato tricálcio hidratado (2CaO.SiO2.3H2O), principal elemento
responsável pela resistência do concreto.
A figura 2.1 mostra de modo esquemático o modelo da estrutura interna do
concreto, em que se vê o agregado graúdo envolvido pela matriz de argamassa.

Figura 2.1 - Modelo da estrutura interna do concreto

No estudo da deformabilidade do concreto, porém, precisa ser considerada a


heterogeneidade da matriz de argamassa. A argamassa é constituída principalmente
16 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

pelo agregado miúdo (que passa na peneira de malha 4,8 mm) envolvido pela matriz
de pasta de cimento (figura 2.2).
O cimento que constitui a pasta é um pó cinza composto de partículas angulares
com dimensões que variam de 1 μm a 50 μm.
As propriedades referentes à deformabilidade do concreto decorrem
essencialmente da constituição da matriz pasta de cimento, cuja heterogeneidade é
condicionada pelas reações de hidratação do cimento.
Na pasta de cimento endurecida encontram-se uma rede capilar, preenchida por
água e por ar, poros cheios de ar e hidrogel rígido com dimensões entre 10 μ a 100 μ.
A parcela de água fixada quimicamente An é denominada água não evaporável, a
qual sofre uma contração de volume de cerca de 25% do volume original. Esse
fenômeno de retração química provoca o aparecimento de poros cheios de ar, cujo
volume é em torno de 7,5% do volume total da pasta endurecida.
Para a reação química de hidratação do cimento, seria suficiente uma relação
água/cimento (a/c), em massa, da ordem de a/c = 0,28. A trabalhabilidade do concreto,
no entanto, exige muito mais, resultando usualmente fatores a/c entre 0,45 a 0,60. É
possível considerar-se o uso de aditivo superplastificantes que permitem reduzir o fator
água/cimento, obtendo-se boa trabalhabilidade.
Uma parte do excesso de água é fixada por adsorção aos micro-cristais (ligações
físico-químicas), resultando um hidrogel rígido de estrutura muito complexa. Essa
parcela de água adsorvida constitui a chamada água evaporável Ae, pois pode ser
removida em estufa a 105 °C.
O restante da água de amassamento, chamada de água capilar Ac, permanece
dispersa na matriz de hidrogel rígido, formando uma rede capilar. Essa água capilar
pode evaporar, em função do equilíbrio higrométrico da massa de concreto com o meio
ambiente, produzindo-se forças capilares equivalentes a uma compressão isotrópica da
massa do concreto (ver figura 2.2).

Figura 2.2 - Tensão capilar na massa do concreto.


Essas forças capilares aumentam à medida que se processa a evaporação da
Essas forças capilares aumentam à medida que se processa a evaporação da
água, pois os meniscos caminham para capilares de diâmetros cada vez menores.
Além dos micro-cristais de dissilicato tricálcio hidratado, também são formados
cristais de outros compostos químicos presentes no cimento.
De particular importância são os cristais de hidróxido de cálcio Ca(OH)2, que em
contato com os gás carbônico dão origem ao carbonato de cálcio (expressão 2.01),
com redução do volume da massa, chamada de retração por carbonatação. Este
fenômeno de retração por carbonatação, embora ainda não totalmente esclarecido, não
pode ser desprezado, pois além do hidróxido de cálcio, também os silicatos de cálcio
hidratados reagem com o gás carbônico.

Ca(OH)2  CO 2  CaCO 3  H2O [2.01]


Capítulo 2 - Deformabilidade do concreto 17

Em resumo, para o estudo da deformabilidade do concreto, a matriz que envolve


os agregados pode ser imaginada como composta por um hidrogel rígido, no qual
existem poros decorrentes da contração química da água não evaporável, existindo
também nesta matriz uma rede de poros capilares preenchidos por água e ar, podendo
haver permuta desses elementos com o meio ambiente.
Esse modelo estudado é suficiente para justificar a maioria dos fenômenos
ligados à ruptura do concreto, nos chamados ensaios rápidos, cuja duração máxima é
da ordem de 10 min a 20 min. Os ensaios para a determinação da resistência do
concreto são feitos em prensas hidráulicas por meio corpos-de-prova cilíndricos,
usualmente cilindros com 15 cm de diâmetro e 30 cm de altura, que é o padrão
adotado no Brasil.
Os elementos estruturais de concreto apresentam deformações dependentes do
tempo, que podem ocorrer sem solicitação (retração) e com solicitação (fluência).
Os comportamentos em serviço dos elementos estruturais em concreto armado
precisam levar em conta esses fenômenos.

2.3 RETRAÇÃO E EXPANSÃO

Denomina-se retração a redução de volume que ocorre no concreto, mesmo na


ausência de ações mecânicas e de variações de temperatura. Embora seja mais
comum a redução de volume, também pode ocorrer o fenômeno inverso, de expansão
quando o elemento estrutural estiver em presença de água. A figura 2.3 mostra o
progresso da retração com a idade, notando-se que ela é mais intensa no início, depois
tende assintoticamente a um valor final.

Figura 2.3 - Progresso da retração e da expansão com a idade

A figura 2.3 mostra também o progresso da expansão com a idade, no caso de


elementos estruturais submersos. Nota-se que, no início, ocorre retração. Somente
depois que as tensões causadas pelo fluxo de água no sentido oposto ficam maiores
do que as tensões de retração é que ocorre a expansão.

2.3.1 CAUSAS DA RETRAÇÃO E DA EXPANSÃO

Nas elementos estruturais de concreto curados ao ar livre, existem basicamente


três causas distintas da retração: a retração química provocada pela contração da água
não evaporável que vai sendo combinada com o cimento durante todo o processo de
endurecimento, a retração decorrente da evaporação parcial da água capilar que
18 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

permanece no concreto após o seu endurecimento e a eventual retração por


carbonatação dos produtos decorrentes da hidratação do cimento.
No caso das peças curadas em tanque com água, a expansão pode ser
justificada pela absorção de água, que vai ocupar, pelo menos parcialmente, os vazios
decorrentes da retração química ocorrida durante o período de pega do concreto e os
vazios preenchidos pelo ar incorporado durante a mistura mecânica do concreto e que
não puderam ser eliminados durante o seu adensamento.

2.3.2 FATORES QUE INFLUEM NA RETRAÇÃO

A quantificação da deformação por retração em elementos estruturais de concreto


são estudadas no item 2.5.
Os fatores que influem na retração ao longo do tempo são os seguintes:

a- composição química do cimento

Os cimentos mais resistentes e os de endurecimento mais rápido apresentam


maior retração.

b- quantidade de cimento

A retração também aumenta com a quantidade de cimento, fundamentalmente


por causa da retração química.

c- água de amassamento

Quanto maior a relação água/cimento (a/c), maior será o número de capilares,


resultando, portanto, maior retração.

d- finura do cimento e das partículas dos agregados

Quanto mais fino o grão de cimento maior é a sua superfície específica,


necessitando assim de maior quantidade de água de amassamento; além disto,
mais finos são os capilares. Resultam, portanto, capilares mais numerosos e mais
finos, aumentando a retração.

e- umidade ambiente

O aumento da umidade ambiente dificulta a evaporação, diminuindo a retração.


Pode até provocar expansão, no caso de peças imersas em água.

f- espessuras dos elementos

A retração aumenta com a diminuição da espessura do elemento, por ser maior a


superfície de contato com o ambiente em relação ao volume do elemento
estrutural, possibilitando maior evaporação.

g- temperatura do ambiente

O aumento de temperatura favorece a evaporação, aumentando a retração.

h- idade do concreto
O aumento da resistência do concreto com o tempo dificulta a retração.
Capítulo 2 - Deformabilidade do concreto 19

i- quantidade de armadura

As barras da armadura se contrapõem à retração, sendo uma das soluções


empregadas para minorar os efeitos da retração.

2.4 DEFORMAÇÕES CAUSADAS POR AÇÕES EXTERNAS

As deformações em elementos estruturais de concreto são efeitos causados pelas


ações, por exemplo, as ações relativas às forças atuantes nas estruturas, como as
gravitacionais (forças relativas aos pesos próprios dos elementos), as forças atuantes
relativas ao uso da estrutura (os veículos em uma estrutura de ponte ou viaduto, o
mobiliário e as pessoas que usam um ambiente arquitetônico, por exemplo uma sala de
estar, em um apartamento).
As deformações causas por ações externas podem ser consideradas de dois
tipos:

a- deformação imediata – que são as que ocorrem quando se aplica uma força,
correspondendo ao comportamento do concreto associado a um sólido
verdadeiro;

b- fluência – que corresponde ao acréscimo de deformação com o passar do


tempo se a força causadora da fluência for mantida.

Nos elementos estruturais também ocorrem o fenômeno da relaxação que é a


diminuição da tensão atuante no elemento estrutural quando submetido a deformação
constante.

2.4.1 DEFORMAÇÃO IMEDIATA

A deformação imediata é causada pela acomodação dos cristais que formam o


material. Os vazios entre os agregados também permitem uma acomodação interna;
assim um material que tenha pequeno índice de vazios é menos deformável e o
módulo de elasticidade é maior, neste caso o material é frágil. Como exemplo podem
ser citados os concretos de alta resistência que, de acordo com a norma ABNT NBR
8953:2015 são os concretos de resistências características à compressão iguais a 60
MPa, 70 MPa, 80 MPa e 90 MPa. A ABNT NBR 6118:2014 considera, para fins
estruturais os concretos da classe de resistência I (C20 a C50) e da classe II (C60 a
C90).
Como exemplo de elemento estrutural susceptível a deformações pode-se citar
um pilar de um edifício em concreto armado, solicitado por uma força de compressão
de cálculo (FSd), sendo que a acomodação dos cristais constituídos por cimento e água
e o rearranjo dos vazios levam a uma deformação imediata do elemento. O cálculo da
deformação é feito considerando o quociente da força de compressão de cálculo (FSd)
pela área da seção transversal (Ac) e pelo módulo de elasticidade inicial do concreto
(Eci).

2.4.2 FLUÊNCIA

Considerando o exemplo do pilar citado no item anterior, agora com a força


mantida ao longo do tempo, a acomodação dos cristais gera forças de compressão na
água capilar. Se a força permanecer aplicada, os meniscos caminham para capilares
20 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

cada vez mais finos, aumentando a tensão capilar e provocando deformação lenta
(fluência).
Os efeitos da fluência (deformações) são mais intensos ao se aplicar a ação,
tendendo para um valor limite ao longo do tempo. A figura 2.5 mostra o comportamento
de um elemento estrutural submetido a uma força de compressão no instante t0 sendo
que a tensão relativa a esta força é mantida constante com o passar do tempo.
Analisando a figura 2.4 pode-se definir as seguintes grandezas:

t0 instante de aplicação da força FSd, que é mantida constante ao longo do


tempo;

εce deformação elástica instantânea;

εcc fluência;

εcc, fluência final.

Figura 2.4 - Deformações em elemento estrutural submetido a uma força de


compressão mantida constante no tempo

2.4.3 RELAXAÇÃO

A relaxação é o fenômeno da diminuição da tensão com o passar do tempo com o


elemento estrutural submetido a deformação constante.
Analisando a figura 2.5 pode-se perceber que sob a ação de uma tensão de
compressão σc aplicada a um elemento estrutural no instante t0, que impõem uma
deformação εc (encurtamento) e por conseguinte a tensão é igual a tensão inicial σci.
Ao longo do tempo essa tensão diminui em virtude da relaxação, de tal modo que o
valor da tensão residual tende para um valor final σc.

Figura 2.5 - Efeito da relaxação em elementos estruturais


Capítulo 2 - Deformabilidade do concreto 21

2.4.4 DEFORMAÇÕES RECUPERÁVEIS E DEFORMAÇÃO RESIDUAL

Considerando um elemento estrutural submetido a uma força axial de


compressão, que gere uma tensão constante c, em um instante t0, se em um instante
posterior t esta força deixar de ser aplicada a deformação que era crescente diminui
bruscamente até uma deformação relativa a recuperação elástica instantânea, e as
deformações ao longo do tempo continuam a diminuir em virtude da deformação
elástica retardada até a um valor da deformação chamado de deformação residual.
A figura 2.6 mostra os diagramas da tensão versus tempo e deformação versus
tempo nos casos de aplicação da força e posterior retirada da força.
A partir da retirada da estrutura de serviço, isto é, retirada da ação (força) no
instante t, podem ser consideradas, portanto, as seguintes deformações:
εce deformação elástica instantânea;
εcd deformação elástica recuperável ou deformação elástica retardada;
εcf fluência permanente.
A deformação por fluência final pode ser calculada pela equação 2.02:

     [2.02]
c
c

c
d

c
f

Figura 2.6 - Deformações recuperáveis e residual


2.5 CRITÉRIOS PARA CÁLCULO DA RETRAÇÃO E DA FLUÊNCIA
2.5.1 PREÂMBULO
Os critérios para quantificar a retração e a fluência de elementos estruturais em
concreto são os indicados na ABNT NBR 6118:2014, como a seguir se expõem.
As prescrições da Norma têm caráter informativo que podem, na falta de dados
melhores, ser usadas no projeto de estruturas com concretos indicados nas classes I e
II da ABNT 8953:2015
De acordo com a ABNT 8953:2015 a nomenclatura, por exemplo, C30 indica que
se trata de concreto com resistência característica à compressão (fck) de 30 MPa (trinta
megapascals). Entende-se, também, que essa resistência é definida aos 28 dias de
idade e com quantil de 5%, ou seja, apenas 5% das resistências dos corpos-de-prova
22 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

moldados com a dosagem do concreto relativa à resistência apresentam resistências


menores do que a característica.

2.5.2 DEFORMAÇÕES DO CONCRETO

2.5.2.1 Considerações Iniciais

Quando não há impedimento à livre deformação do concreto, e a ele é aplicada,


no tempo t0, uma tensão constante no intervalo t – t0 sua deformação total, no tempo t,
é calculada pela equação 2.03.
t

t0

     t
    [2.03]
c

c
c

c
s

sendo que:
t0
= Ec
t0
/
E
t0

        é a deformação imediata, por ocasião do carregamento,


c

ct

c
i

com   calculado, para j = t0, pela equação: Eci(t0) = 5.600 f ; 1/ 2


i
0

ckj

εcc (t) = [σc (t0) / Eci,28] φ (t, t0) é a deformação por fluência, no intervalo de tempo
(t, t0), com Eci28 calculado pela mesma equação para j = 28 dias;

εcs (t) é a deformação por retração, no intervalo de tempo (t, t0)

2.5.2.2 Fluência do concreto

a- Generalidades

A deformação por fluência do concreto (εcc) compõe-se de duas partes, uma


rápida e outra lenta. A fluência rápida (εcca) é irreversível e ocorre durante as primeiras
24 h após a aplicação da força que a originou. A fluência lenta é por sua vez composta
por duas outras parcelas: a deformação lenta irreversível (εccf) e a deformação lenta
reversível (εccd). Portanto:

    [2.04]
c
c

c
c
a

c
c
f

c
c
d

ou seja:
1

       [2.05]
c
,
t
o
t

c
c

com:

   [2.06]
a

sendo que:

φa é o coeficiente de fluência rápida;

φf é o coeficiente de deformação lenta irreversível;

φd é o coeficiente de deformação lenta reversível.


Capítulo 2 - Deformabilidade do concreto 23

b- Hipóteses para o cálculo da fluência

Para o cálculo dos efeitos da fluência, quando as tensões no concreto são as de


serviço, admitem-se as seguintes hipóteses:

b.1) a deformação por fluência εcc varia linearmente com a tensão aplicada;

b.2) para acréscimos de tensão aplicados em instantes distintos, os respectivos


efeitos da fluência se superpõem;

b.3) a fluência rápida produz deformações constantes ao longo do tempo; os


valores do coeficiente φa são função da relação entre a resistência do concreto no
instante da aplicação da força e a sua resistência final;

b.4) o coeficiente de deformação lenta reversível φd depende apenas da duração


do carregamento; o seu valor final e o seu desenvolvimento ao longo do tempo
são independentes da idade do concreto no instante da aplicação da força;

b.5) o coeficiente de deformação lenta irreversível φf depende de:

- umidade relativa do ambiente (U);

- consistência do concreto no lançamento;

- espessura fictícia da peça hfic (ver 2.5.2.4b);

- idade fictícia do concreto (ver 2.5.2.4a) no instante (t0) da aplicação da força;

- idade fictícia do concreto no instante considerado (t).

b.6) para o mesmo concreto, as curvas de deformação lenta irreversível em


função do tempo, correspondentes a diferentes idades do concreto no instante do
carregamento, são obtidas, umas em relação às outras, por deslocamento
paralelo ao eixo das deformações conforme a figura 2.7.

Figura 2.7 - Variação εccf (t) [ABNT NBR 6118:2014]

c- Valor da fluência

No instante t a deformação relativa à fluência é calculada pela equação 2.07


24 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

t
,
t0

t
,
t0

c
︵ ︶   

Ec
 c
c
   [2.07]

c
c
a

c
c
d

c
c
f

2
8
com Ec28, módulo de deformação tangente inicial para j = 28 dias, que deve ser
obtido segundo ensaio estabelecido na ABNT NBR 8522:2008. Quando não forem
realizados ensaios e não existirem dados mais precisos a respeito do concreto adotado
no projeto, podem-se utilizar os valores da Tabela 3.8.
O coeficiente de fluência φ(t,t0), válido também para a tração, é calculado por:

(t, t 0 )   a   f   f t    f t 0    d   d [2.08]

sendo que:

t é a idade fictícia do concreto no instante considerado, em dias;

t0 é a idade fictícia do concreto ao ser feito o carregamento único, em dias;

t0i é a idade fictícia do concreto ao ser feito o carregamento, em dias;

φa é o coeficiente de fluência rápida, determinado pela equação 2.09:

 f (t ) 
a  0,8  1  c 0  , para concretos de classes C20 a C45 [2.09]
 fc ( t  ) 

 f (t ) 
a  1,4  1  c 0  , para concretos de classes C50 a C60 [2.10]
 fc ( t  ) 

sendo que:

fc (t 0 )
[2.11]
fc (t  )

é a função do aumento da resistência do concreto com a idade, e calculada,


segundo a ABNT NBR 6118:2014, pela equação 2.13 em função da idade do concreto:

fckj fck
fcd   1 [2.12]
c c
fc
/j
fc

sendo 1 a relação entre calculada pela equação 2.13:


k

 
1
 
e
x
p
s
1
2
8
/
t
1
/
2

      [2.13]
 

adotando-se:

s = 0,38 para concreto de cimento CP III e CP IV;

s = 0,25 para concreto de cimento CP I e CP II;


Capítulo 2 - Deformabilidade do concreto 25

s = 0,20 para concreto de cimento CP V – ARI;

t é a idade efetiva do concreto, em dias.

Essa verificação precisa ser feita aos t dias, para as forças aplicadas até essa
data.
Ainda deve ser feita a verificação para a totalidade das cargas aplicadas aos 28
dias.
Nesse caso, o controle da resistência à compressão do concreto deve ser feito
em duas datas: aos t dias e aos 28 dias, de forma a confirmar os valores de fckj e fck
adotados no projeto.
A equação 2.12 que relaciona as resistências características do concreto aos 28
dias (fck) e aos j dias (fckj) pode ser escrita como:
f cf c

fc
β1

k
j

j
fc

  [2.14]
k

pois, as resistências são proporcionais independente de serem os valores


característicos.
Os valores de β1 nos tempos t0 e t  podem ser calculados por:

fc 0
1 ( t 0 )  [2.15]
fc
f cf c
t


 ︶ 
[2.16]
1

E, portanto, dividindo membro a membro as expressões 2.15 e 2.16 tem-se:

fc ( t 0 ) 1( t 0 )
 [2.17]
fc ( t  ) 1( t  )

Na equação 2.08 para cálculo do coeficiente de fluência, têm-se:

φf = φ1c φ2c é o valor final do coeficiente de deformação lenta irreversível para
concretos de classes C20 a C45;

φf = 0,45 φ1c φ2c é o valor final do coeficiente de deformação lenta irreversível
para concretos de classes C50 a C90;

φ1c é o coeficiente dependente da umidade relativa do ambiente U, em


porcentagem, e da consistência do concreto dado pela tabela 2.1.

φ2c é o coeficiente dependente da espessura fictícia hfic da peça, definida em


2.5.2.4b, calculado por:

42  hfic
2c  [2.18]
20  hfic
26 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

sendo que:
hfic é a espessura fictícia, em centímetros (ver item 2.5.2.4b);

φf (t) ou φf (t0) é o coeficiente relativo à deformação lenta irreversível, função da


idade do concreto (ver figura 2.8);

φd é o valor final do coeficiente de deformação lenta reversível que é


considerado igual a 0,4;

t  t 0  20
d ( t )  [2.19]
t  t 0  70

βd(t) é o coeficiente relativo à deformação lenta reversível função do tempo (t – t0)


decorrido após a aplicação da ação.

t 2 +At+B
βf (t)= [2.20]
t 2 +Ct+D

sendo:
A
4
2
h

3
5
0
h

5
8
8
h
1
1
3
3

      
B
7
6
8
h
3
.
0
6
0
h
+
3
.
2
3
4
h
2
3
3

      [2.21]
C

2
0
0
h

1
3
h
1
.
0
9
0
h
1
8
3
3

      
D
7
.
5
7
9
h

3
1
.
9
1
6
h
3
.
5
3
4
3
h
1
.
9
3
1
3

 ︲    
h é a espessura fictícia, em metros. Para valores de h fora do intervalo
0
,
0
5
h
1
,
6

(   ), adotam-se os extremos correspondentes;

t é o tempo, em dias (t ≥ 3).

Figura 2.8 - Variação βf(t) [ABNT NBR 6118:2014]


Capítulo 2 - Deformabilidade do concreto 27

2.5.2.3 Retração do concreto

a- Hipóteses básicas

O valor da retração do concreto depende da:

- umidade relativa do ambiente;

- consistência do concreto no lançamento;

- espessura fictícia do elemento estrutural.

b- Cálculo da deformação por retração

Entre os instantes t0 e t a retração é calculada por:


t
,
t0

[
t

t0
]

         [2.22]
c
s

c
s

sendo que:

    [2.23]
c
s

1
s

2
s

 é o valor final da retração;


c
s

ε1s é o coeficiente dependente da umidade relativa do ambiente e da consistência


do concreto (ver tabela 2.1);

ε2s é o coeficiente dependente da espessura fictícia do elemento estrutural:


3 2
3
,
0 ,
2 3
h fh f

 
i
c
0
8

  [2.24]
2
s

 
i
c

sendo:

hfic é a espessura fictícia, em centímetros (ver 2.5.2.4b);

βs(t) ou βs(t0) é o coeficiente relativo á retração, no instante t ou t0 (figura 2.9);

t é a idade fictícia do concreto no instante considerado, em dias;

t0 é a idade fictícia do concreto no instante em que o efeito da retração na peça


começa a ser considerado, em dias.
28 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Tabela 2.1 - Valores numéricos usuais para a determinação da fluência e da retração


[ABNT NBR 6118:2014]
Fluência Retração
Umidade 1c1) 3) 1041s2) 3)
Ambiente U Abatimento de acordo com a 4)
(%) ABNT NBR NM 67: :2008 - (cm)
0-4 5-9 10 -15 0-4 5-9 10 -15
Na água - 0,6 0,8 1,0 + 1,0 + 1,0 + 1,0 30,0
Em ambiente
muito úmido
90 1,0 1,3 1,6  1,9  2,5  3,1 5,0
imediatamente
acima da água
Ao ar livre, em
70 1,5 2,0 2,5  3,8  5,0  6,2 1,5
geral
Em ambiente
40 2,3 3,0 3,8  4,7  6,3 – 7,9 1,0
seco
1)
1c = 4,45 – 0,035U para abatimento no intervalo de 5 cm a 9 cm e U  90%.
1041s = - 8,09 + (U/15) - (U2/ 2.284) - (U3/ 133.765) + (U4/ 7.608.150) para abatimentos
2)

de 5 cm a 9 cm e 40%  U  90%.
Os valores de 1c e 1s para U  90% e abatimento entre 0 cm e 4 cm são 25%
3)

menores e, para abatimentos entre 10 cm e 15 cm, são 25% maiores.


4)
 = 1 + exp (- 7,8 + 0,1 U) para U  90%.
NOTAS:
1 Para efeito de cálculo, as mesmas expressões e os mesmos valores numéricos podem
ser empregados no caso de tração.
2 Para o cálculo dos valores de fluência e retração, a consistência do concreto é aquela
correspondente à obtida com o mesmo traço, sem a adição de superplastificantes e
superfluidificantes.

Os coeficientes relativos à retração (βs(t)), para os instantes t e t0, podem ser


calculados pela equação 2.24 ou figura 2.9:
t0

t0

t0
3

2
A

     
1 t0
0 3

1 t0
0 2

1 t0
0

       
t

      [2.25]
  
s

     
1
0

1
0

1
0

       
     

sendo:
A
4
0


B
1
1
6
h
-
2
8
2
h
+
2
2
0
h
4
,
8
3

   ︲
C
2
,
5
h

8
,
8
h
4
0
,
7
3

 ︲   [2.26]
Capítulo 2 - Deformabilidade do concreto 29

7
5
h

5
8
5
h

4
9
6
h
6
,
8
3

2
     ︲

1
6
9
h

8
8
h

5
8
4
h

3
9
h
0
,
8
;
 
4

2
        

h é a espessura fictícia, em metros. Para valores de h fora do intervalo


0
,
0
5
h
1
,
6
(   ), adotam-se os extremos correspondentes;

t
3
t é o tempo, em dias (  ).

Figura 2.9 - Variação βs(t) [ABNT NBR 6118:2014]

2.5.2.4 Idade e espessura fictícias

a- Idade fictícia

A idade a considerar para os elementos estruturais de concreto é a idade fictícia


te

(   ), em dias, quando o endurecimento se faz à temperatura ambiente de 20 ºC e,


f

nos demais casos, quando não houver cura a vapor, a idade a considerar é a idade
fictícia dada por:
Ti
1 0
0
t

te


 
3

 [2.27]
f
,
i
i

sendo que:

t é a idade fictícia, em dias;

α é o coeficiente dependente da velocidade de endurecimento do cimento; na falta


de dados experimentais permite-se o emprego dos valores constantes da tabela
2.2;
30 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Ti é a temperatura média diária do ambiente, em graus Celsius;

tef,i é o período, em dias, durante o qual a temperatura média diária do ambiente,


Ti, pode ser admitida constante.

A equação 2.25 não se aplica quando a cura é feita a vapor.

Tabela 2.2 - Valores da fluência e da retração em função da velocidade de


endurecimento do cimento [ABNT NBR 6118:2014]

Cimento Portland (CP) Fluência Retração
De endurecimento lento
1
(CP III e CP IV, todas as classes de resistência)
De endurecimento normal 1
2
(CP I e CP II, todas as classes de resistência)
De endurecimento rápido (CP V-ARI) 3
Sendo:
CP I e CP I-S – Cimento Portland comum;
CP II-E, CP II-F e CP II-Z – Cimento Portland composto;
CP III - Cimento Portland de alto-forno;
CP IV - Cimento Portland pozolânico;
CP V-ARI – Cimento Portland de alta resistência inicial;
RS – resistente a sulfatos (propriedade específica de alguns dos tipos de cimento
citados).

b- Espessura fictícia do elemento estrutural

A equação com a qual se calcula a espessura fictícia é:


2
A
hf


c
ua

  [2.28]
i
c

sendo que:

 é o coeficiente dependente da umidade relativa do ambiente (U%) (ver tabela


2.1), dado por:

 = 1 + exp (-7,8 + 0,1U); [2.29]

Ac é a área da seção transversal do elemento estrutural;

uar é a parte do perímetro externo da seção transversal da peça em contato com o


ar.

2.5.2.5 Deformação total do concreto

Quando há variação de tensão ao longo do intervalo, induzidas por ações


externas ou agentes de diferentes propriedades reológicas (incluindo-se armadura,
concretos de diferentes idades etc.), a deformação total no concreto pode ser calculada
por:
Capítulo 2 - Deformabilidade do concreto 31

 c (t 0 )  c (t 0 ) t
 c  1    ( ,t 0 ) 
 c (t)    (t,t 0 )   cs (t,t 0 )      d
E c (t 0 ) E c 28  t 0
  E c E c 28 
[2.30]

em que os três primeiros termos representam a deformação não impedida e a


integral, os efeitos da variação de tensões ocorridas no intervalo.

Permite-se substituir a equação 2.31 por:

 1 (t,t 0 )   1 (t,t 0 ) 
c (t)  c (t 0 )     cs (t,t 0 )  c (t,t 0 )    [2.31]
 Ec (t 0 ) Ec28   Ec (t 0 ) Ec 28 

sendo que:

c (t, t0) é a variação total de tensão no concreto, no intervalo (t, t0);

α é o coeficiente característico que tem valor variável conforme o caso.

No cálculo de perdas de protensão de casos usuais em que o elemento estrutural


pode ser considerada como moldada de uma só vez e a protensão como aplicada de
uma só vez, pode-se adotar α = 0,5 e admitir Ec(t0) = Ec28, como indicado na ABNT
NBR 6118:2014. É preciso observar que a ABNT NBR 6118:2014 considera que o
coeficiente de fluência do concreto: φ = φa + φf + φd é um coeficiente de deformação
lenta irreversível com as propriedades definidas para φf.
Nos outros casos usuais pode-se considerar α = 0,8, mantendo Ec (t0) Ec28
sempre que significativo.
Essa aproximação tem a vantagem de tratar como uma única função, sem
separar φa, φf, e φd.
É possível separar φa, φf e φd , mas para isso é necessário aplicar a equação
integral ao problema em estudo. A equação simplificada não se aplica nesse caso.
Especial atenção deve ser dada aos casos em que as fundações são deformáveis
ou parte da estrutura não apresenta deformação lenta, como o caso de tirantes
metálicos.

2.5.3 DEFORMAÇÕES NA ARMADURA

Quando a armadura é solicitada em situação análoga à descrita em 2.5.2.1, sua


deformação é calculada pela equação 2.32:

 s (t 0 )  s ( t 0 )
 s (t )   (t , t 0 ) [2.32]
Es Es

sendo que:

σs (t0) / Es é a deformação imediata, por ocasião do carregamento;

[σs (t0) / Es] (t, t0) é a deformação por fluência, ocorrida no intervalo de tempo
(t,t0) e considerada sempre que σs (t0) > 0,5 fptk.

Quando a livre deformação por fluência é impedida, em situação análoga à


descrita em 2.4.2.2 para o concreto, a deformação total pode ser calculada por:
32 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

s ( t 0 ) s ( t 0 ) s ( t, t 0 )
s (t )   ( t, t 0 )  1  (t, t 0 ) [2.33]
Es Es Es

sendo:

s (t, t0) é a variação total de tensão na armadura, no intervalo (t, t0).

2.6 EXEMPLO DE CÁLCULO DAS DEFORMAÇÕES

2.6.1 EXEMPLO 1

Considerando que uma barra de concreto simples (sem barras de armadura) e de


dimensões hx = 30cm e hy = 60cm e comprimento de 500cm é submetida aos 28 dias, a
uma força normal centrada de compressão com módulo de Nk = 2000kN e que o
concreto é C30 e apresentou na concretagem abatimento de 5cm, no local onde o
elemento está posicionado a umidade relativa do ar é de 70%, a temperatura ambiente
é de 25 graus Celsius e que somente as face laterais estão expostas ao meio
ambiente, pedem-se calcular:

a.- a retração ocorrida aos 28 dias e aos 388 dias;

b.- a deformação imediata, verificada na aplicação da força aos 28 dias;

c.- a fluência após 360 dias da aplicação da força;

d.- a deformação total (retração + deformação imediata + fluência), desde a


concretagem até 360 dias após a aplicação da força, e a porcentagem de cada uma
das três parcelas de deformação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) ABNT NBR 6118:2014.


Projeto de estruturas de concreto. Rio de Janeiro, ABNT, 2014.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) ABNT NBR 8522:2008


Concreto - Determinação do módulo estático de elasticidade à compressão.. Rio de
Janeiro, 2008.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) ABNT NBR 8953:2015


Concreto para fins estruturais – Classificação pela massa específica, por grupos de
resistência e consistência. Classificação. Rio de Janeiro, 2015.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) ABNT NBR NM


67:2008 Concreto - Determinação da consistência pelo abatimento do tronco de cone.
Rio de Janeiro, ABNT, 2008.

FUSCO, P.B. Estruturas de concreto: fundamentos do projeto estrutural. São Paulo,


MCGraw-Hill do Brasil, 1976.

NEVILLE, A.M. – Propriedades do concreto. São Paulo, Editora Pini Ltda., 1997.
Capítulo 2 - Deformabilidade do concreto 33

MEHTA, P.K. & MONTEIRO, P.J.M. Concreto - Microestrutura, propriedades e


materiais. São Paulo, IBRACON – Instituto Brasileiro do Concreto, 2008.

MONTOYA, P.J.; MESEGUER, A.; CABRE, M. Hormigon Armado 14.a Edición


Basada em EHE ajustada al Código Modelo y al Eurocódigo. Barcelona, Gustavo Gili,
2000.
3
PROPRIEDADES MECÂNICAS DO
CONCRETO
3.1 RESISTÊNCIA DO CONCRETO (27 de fevereiro de 2019)

3.1.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O concreto, como material para as estruturas de concreto armado e concreto


protendido, precisa ter resistência mecânica, aderência suficiente com as barras das
armaduras e ter densidade conveniente para garantir impermeabilidade da estrutura e
proteção das armaduras com relação à corrosão.
Para escrever as equações que regem o equilíbrio e, portanto, a segurança dos
elementos estruturais considerando os estados-limites último e de serviço, há
necessidade de se conhecerem as contribuições de cada material que compõem o
concreto armado, isto é, as resistências do concreto e das barras e fios de aço.
Este capítulo trata do estudo da resistência mecânica do concreto, a qual é
influenciada pela granulometria dos agregados, pela resistência mecânica dos
agregados, pelo tipo de cimento e pela sua quantidade em relação à água de
amassamento.
O comportamento mecânico do concreto também é influenciado por outros fatores,
tais como: tipo de solicitação, velocidade de aplicação das ações, relação água/cimento,
idade do concreto, forma e dimensões dos corpos-de-prova. Existem ainda as adições e
os aditivos, que, incorporados ao concreto, podem melhorar o desempenho de uma
propriedade específica, como, por exemplo, aumentar a resistência à compressão. Neste
caso é adicionada sílica ativa na dosagem e, como o fator água/cimento tem de ser
pequeno, há necessidade de usar plastificante.
As análises deste capítulo atendem aos critérios indicados por códigos e normas
internacionais, particularmente a ABNT NBR 6118:2014. São feitas as descrições dos
ensaios para cada situação específica com relação à resistência à compressão e
resistência à tração, de acordo com os critérios de normas específicas. É de suma
36 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

importância conhecer o módulo de elasticidade do concreto, pois com ele são


determinados os esforços solicitantes nas estruturas e são verificados os estados-limites
de serviço.
As equações constitutivas do material concreto são apresentadas em função das
resistências tanto à compressão quanto à tração.

3.1.2 FATORES QUE INFLUENCIAM A RESISTÊNCIA

Muitos são os fatores que influenciam as resistências mecânicas do concreto. Em


Mehta & Monteiro (2008), pode-se encontrar uma forma muito ilustrativa de mostrarem-
se esses fatores (figura 3.1).
Na prática da engenharia, de acordo com o indicado por Neville (1997), considera-
se que a resistência de um concreto, curado em água a uma temperatura constante,
depende apenas de dois fatores: a relação água/cimento e o grau de adensamento.

Resistência do concreto

Resistência
Parâmetros do das fases Parâmetros do carregamento
corpo-de prova componentes
Tipo de tensão
Dimensões Velocidade de aplicação da
tensão
Geometria

Estado de umidade

Porosidade da matriz Porosidade Porosidade da zona de transição


do
Relação a/c Relação a/c
agregado
Adições minerais Adições minerais

Grau de hidratação Características de exsudação

Tempo de cura Granulometria do agregado, dimensão


máxima e geometria
Temperatura
Grau de adensamento
Umidade
Grau de hidratação
Teor de ar
Tempo de cura, Temperatura, Umidade
Ar aprisionado
Interação química entre agregado e
Ar incorporado pasta de cimento

Figura 3.1 - Interação dos fatores que influenciam a resistência do concreto


(Mehta & Monteiro, 2008)

Quando o concreto está plenamente adensado, considera-se sua resistência como


inversamente proporcional à relação a/c. Essa relação foi precedida pela denominada
“lei”, mas, na realidade, uma regra, estabelecida por Duff Abrams, em 1919, que definiu
a resistência do concreto considerando a equação 3.01:
Capítulo 3 - Propriedades mecânicas do concreto 37

K1
fc  [3.01]
K a2 / c

sendo,

a/c = a relação água/cimento em volume da mistura (Abrams);

K1 e K2 = constantes empíricas.

Na figura 3.2, elaborada por Neville (1997), é mostrada a forma geral da curva que
representa a dependência entre a relação a/c e a resistência à compressão do concreto.
Analisando a figura citada observa-se que com aumento da relação a/c há diminuição da
resistência do concreto, levando-se em conta, também, a intensidade de adensamento
do material fresco.

Figura 3.2 - A dependência entre a resistência à compressão e a relação a/c


(Neville, 1997)

Tanto a relação a/c quanto o grau de hidratação do cimento determinam a


porosidade da pasta de cimento endurecida. Sob condições padrões de cura, o cimento
CP V – ARI hidrata-se mais rapidamente que cimento CP I (comum). Portanto, um
concreto com cimento CP V, pouca idade de hidratação e uma dada relação a/c terá
menor porosidade e uma matriz de maior resistência do que um concreto contendo
cimento CP I.
Foi observado por Mehta & Monteiro (2008) que, à temperatura normal, as
velocidades de hidratação e de desenvolvimento de resistência dos cimentos Portland
ASTM tipo II, IV, V, IS (que corresponde ao CP III – cimento Portland com escória de alto
forno) e IP (que corresponde ao CP IV – cimento Portland pozolânico) são um tanto mais
lentas que as do cimento Portland ASTM tipo I. A temperaturas ambientes, para
diferentes tipos de cimentos Portland puros e cimentos Portland com adições, o grau de
hidratação a 90 dias ou acima é normalmente similar. Portanto, a influência da
composição do cimento sobre a porosidade da matriz e a resistência do concreto ficam
limitadas a pequenas idades. A Tabela 3.1 mostra a influência do tipo de cimento na
resistência do concreto com idade menor que 90 dias.
Em geral, a influência do agregado na resistência do concreto não é levada em
conta. De acordo com Mehta & Monteiro (2008), a resistência do agregado normalmente
não é um fator determinante na resistência do concreto porque, à exceção dos
agregados leves, a partícula do agregado é, várias vezes, mais resistente que a matriz
e a zona de transição. Em outras palavras, para a maioria dos agregados naturais, a
38 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

resistência do agregado é raramente utilizada porque a ruptura é determinada pelas


outras duas fases.
Existem, contudo, outras propriedades do agregado além da resistência, tais como
o tamanho, a forma, a textura da superfície, a granulometria e a mineralogia, que
reconhecidamente influem na resistência do concreto.
Uma mudança no diâmetro máximo de um agregado graúdo com distribuição
granulométrica bem graduada e de uma dada mineralogia pode ter dois efeitos opostos
sobre a resistência do concreto. Para mesmo teor de cimento e mesma consistência do
concreto, as misturas contendo grandes partículas de agregados requerem menos água
de amassamento do que aquelas que contêm agregados menores. Mas, ao contrário,
agregados grandes tendem a formar zonas de transição menos resistentes podendo
apresentar maior quantidade de microfissuras. O efeito resultante varia com o fator a/c
do concreto e a ação aplicada ao elemento estrutural.

Tabela 3.1 - Resistência relativa aproximada do concreto segundo


a influência do tipo de cimento (Mehta & Monteiro, 2008)
Tipo de Resistência à compressão
cimento (porcentagem em relação ao Tipo I
Natureza
Portland ou cimento Portland comum)
(ASTM) 1 dia 7 dias 28 dias 90 dias
I Normal ou uso comum 100 100 100 100
Calor de hidratação moderado
II e moderada resistência à 75 85 90 100
sulfatos
III Alta resistência inicial 190 120 110 100
IV Pequeno calor de hidratação 55 65 75 100
V Resistente a sulfatos 65 75 85 100

O efeito do diâmetro máximo do agregado é mais pronunciado em concretos de


alta resistência, pois, para essas resistências, a relação a/c diminui, e a porosidade
reduzida da zona de transição começa a ser importante na resistência do concreto. Além
disso, a zona de transição parece afetar mais a resistência à tração do concreto do que
a resistência à compressão e então, para um dado traço de concreto com relação a/c
constante, pode se esperar que a razão entre a resistência à tração e a resistência à
compressão aumentará com a redução do tamanho do agregado graúdo, como mostra
a figura 3.3.
Diferenças na composição mineralógica dos agregados também afetam a
resistência do concreto. De acordo com Mehta & Monteiro (2008), a substituição de
agregado calcário por agregado a base de sílica conduz a um aumento substancial na
resistência do concreto. Não apenas a redução do tamanho do agregado graúdo, mas
também a substituição do agregado de arenito por agregado de calcário melhoraram
significativamente a resistência final do concreto. Isso também é afirmado por Neville
(1997), como mostra a figura 3.4.
Capítulo 3 - Propriedades mecânicas do concreto 39

Figura 3.3 - Relação entre resistência à tração por compressão diametral e


resistência à compressão de concretos com igual trabalhabilidade preparados
com diversos agregados (Neville, 1997)

Figura 3.4 - Relação entre resistência à compressão e a idade de concretos


preparados com diversos agregados (Neville, 1997)

3.1.3 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA RESISTÊNCIA DO CONCRETO

O concreto, como é do conhecimento dos leitores, é composto basicamente por


agregados graúdos (pedras britadas ou seixos rolados) e agregados miúdos (areias
naturais ou artificiais), cimento hidráulico e água. Assim ele é composto desde as
primeiras utilizações na atualidade. Como os agregados naturais são densos e
resistentes, a capacidade resistente do concreto depende da porosidade da matriz, que
é a pasta de cimento endurecida. A zona de transição entre a matriz e o agregado graúdo
define a resistência dos concretos de resistências usuais. A resistência à compressão,
que depende, também, da relação entre as massas de cimento e de água, às vezes com
quantidades acima do necessário para a reação química com o cimento, para atender a
trabalhabilidade necessária ao transporte, lançamento nas fôrmas e adensamento sem
que o material apresente segregação, ficou limitada a valores pequenos, da ordem de
40 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

30 MPa. Para esse material, a ruptura se dá na região de transição entre a matriz e o


agregado graúdo.
Com o advento dos aditivos plastificantes, que podem ser incorporados durante o
amassamento, foi possível reduzir a relação entre as massas de cimento e água (fator
água-cimento – a/c) com o consequente aumento da resistência à compressão.
Posteriormente, com a introdução da sílica ativa ao concreto, foi possível obter os
concretos de alta resistência, da ordem de 80 MPa; ao se ensaiarem os corpos-de-prova,
foi observado que a ruptura do material ocorre por ruptura do agregado graúdo, e não
na interface pasta agregados, como ocorria com os concretos sem adição de sílica ativa.
A evolução na resistência dos concretos se deu, mais recentemente, pela retirada
do agregado graúdo, compondo-se um material com a presença de agregados miúdos
somente, cada vez mais miúdos, com a finalidade de ocupar todos os vazios entre os
grãos. Esse material constituído por pós reativos, isto é, pós que reagem entre si, tais
como areia de granulometria muito fina, pós de quartzo, sílica ativa, superplastificantes
e água, permitiu obter material com resistências à compressão da ordem de 200 MPa.
O aumento da resistência à compressão do concreto, como comentado anteriormente,
apresentou um inconveniente, pois o material tem pequena dutilidade (o material é frágil).
O aumento da resistência à compressão é acompanhado pelo aumento da
resistência à tração; porém, o aumento da resistência à tração não é proporcional ao
aumento da resistência à compressão. Para conseguir melhor desempenho à tração do
concreto, é possível adicionar fibras que podem ser metálicas, plásticas ou de outros
materiais. A adição de fibras pode também melhorar a dutilidade do elemento estrutural.
Nesta seção, são estudadas as resistências mecânicas dos concretos endurecidos
pertencentes à classes de resistências dos grupos I e II, da ABNT NBR 8953:2015 e
indicados pela ABNT NBR 6118:2014 para uso em elementos estruturais com armaduras
passivas ou ativas.

3.1.4 CONCEITO DE RESISTÊNCIA

A finalidade de um material, particularmente os de construção, é a sua utilização


para o bem do homem. Os materiais de uso comum precisam ter resistência,
durabilidade, algum conforto visual e, se possível, serem econômicos. O concreto
apresenta essas propriedades: é resistente e durável até certos limites de uso e, quando
adotado nos projetos arquitetônicos, pode ser um componente que destaca e enriquece
a construção.
Interessa ao engenheiro de projetos de estruturas a resistência do concreto,
particularmente a de compressão, pois as demais propriedades podem ser relacionadas
a esta.
A resistência do concreto é definida como a capacidade do material de suportar
ações aplicadas sem que ele entre em colapso. O concreto é um material que apresenta
vazios internos por causa do arranjo dos agregados, de tal modo que esses vazios
podem ser entendidos como caminho preferencial de deterioração quando a estrutura
fica submetida a agentes externos agressivos.
O concreto pode apresentar fissuração sem que a estrutura atinja a ruína (real ou
convencional). É o caso típico de elementos estruturais fletidos em que as fissuras se
formam quando a resistência à tração do concreto é atingida.
A resistência pode ser definida como a tensão última aplicada ao elemento (corpo-
de-prova) que provoca a desagregação do material que o compõe. No caso do concreto,
a desagregação pode se dar por ruptura da matriz ou, quando o concreto for de alta
resistência, pela ruptura do agregado graúdo. A quantificação é feita por equipamento
que registra o valor da força de ruptura e, portanto, a tensão que define a resistência do
material. Se o ensaio for realizado com instrumentação adequada (figura 3.5a), é
possível acompanhar a evolução das deformações. A figura 3.5b mostra parte do corpo-
Capítulo 3 - Propriedades mecânicas do concreto 41

de-prova rompido, notando-se que ocorreu a ruptura do agregado graúdo, o que define
um concreto de alta resistência. A resistência desse corpo-de-prova resultou da ordem
de 50 MPa.

a) Corpo-de-prova posicionado b) Parte do corpo-de prova depois do


para o ensaio à compressão do ensaio

Figura 3.5 - Ensaio para determinação da resistência à compressão do concreto


[Laboratório de Estruturas – EESC – USP]

Para o concreto, assim como para todos os materiais de construção civil, é


importante conhecer as resistências à compressão e à tração, lembrando que os
elementos estruturais fletidos podem ser submetidos, em uma mesma seção transversal,
a deformações de compressão e de tração. É importante conhecer também o módulo de
elasticidade do material.
A ruptura do corpo-de-prova de concreto comprimido ocorre com a ruptura das
ligações internas entre os materiais que o compõe, podendo, às vezes, não ocorrer
ruptura externa, porém, o estado-de deformação interna é tal que o material não suporta
acréscimo de solicitação. Por outro lado, a resistência à tração é definida pela fratura das
ligações entre os materiais que compõem o concreto, principalmente da matriz de
cimento.
Nos elementos estruturais, o concreto pode ser solicitado à compressão, à tração
ou a uma combinação de compressão, tração, cisalhamento em várias direções, de
acordo com os esforços solicitantes atuantes no elemento estrutural.
Os ensaios mais comuns são os de compressão uniaxial e tração indireta, como,
por exemplo, o de compressão diametral, em virtude da dificuldade de se realizar o
ensaio de tração direta, pela introdução acidental de momento gerado pela
excentricidade da força aplicada.

3.1.5 INFLUÊNCIA DAS FORMAS E DIMENSÕES DOS CORPOS-DE-PROVA

A resistência à compressão do concreto é avaliada por meio de ensaios de corpos-


de-prova cujas moldagens, curas, preparos e ensaios são especificados por normas.
No Brasil, o corpo-de-prova padronizado é o cilíndrico de 15 cm de diâmetro e 30
cm de altura. Por causa das capacidades das máquinas de ensaios e em virtude do
aumento das resistências dos concretos, também são usados corpos-de-prova
cilíndricos com 10 cm de diâmetro e 20 cm de altura. Pode-se perceber que, em ambos
os moldes, as alturas são iguais a duas vezes o diâmetro do cilindro.
Durante a moldagem, cujo adensamento pode ser feito em mesa vibratória ou com
vibrador de agulha, a face superior pode ficar rugosa, o que interfere no contato com os
42 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

pratos da máquina de ensaio. Assim, é preciso deixar a face plana, o que pode ser
conseguido por usinagem em torno, interposição de um elemento de neoprene, ou
regularização com enxofre. Todos esses procedimentos interferem nos resultados.
Além disso, nos contatos entre as faces superior e inferior do corpo-de-prova,
surgem forças de atrito horizontais que modificam as distribuições de tensões nas faces,
influindo nos resultados, como mostra a figura 3.6. Como alternativa, entre as faces dos
corpos-de-prova e os pratos da máquina são interpostos elementos metálicos
semelhantes a escovas para dissipar as forças de atrito.

Figura 3.6 - Deformação (a) e atrito entre os pratos (b) no ensaio à compressão de
corpo-de-prova cilíndrico

Resultados comparativos obtidos em ensaios de corpos-de-prova de dimensões


diferentes mostram que os que têm maiores dimensões, portanto, com maiores volumes
de concreto, apresentam resistências menores. A justificativa está no fato de que,
corpos-de-prova com maiores volumes, os índices de vazios são maiores e, por
conseguinte, mais deformáveis; por isso, apresentam resistências menores.
Formas prismáticas e cúbicas são adotadas em outros países, com vantagem
operacional para a forma cúbica que não precisa de cuidados especiais com relação ao
contato com os pratos da máquina, pois só uma face do cubo fica sem contato com a
fôrma durante o processo de moldagem. Códigos e livros indicam coeficientes de
conversão entre as resistências obtidas pelos vários tipos de corpos-de-prova, como as
mostradas no Tabela 3.2 adaptado de Montoya et al. (2000). Os vários tipos de corpos-
de-prova considerados pelos autores citados são os cilíndricos, cúbicos e prismáticos,
considerando como referência as resistências determinadas em corpos-de-prova
cilíndricos com 15 cm de medida do diâmetro e 30 cm de altura.
Na tabela 3.2, segunda coluna, a primeira medida se refere ao diâmetro e a
segunda à altura dos corpos-de-prova. No caso de corpos de prova prismáticos os dois
primeiros números se referem às medidas dos lados da seção transversal.
Capítulo 3 - Propriedades mecânicas do concreto 43

Tabela 3.2 - Coeficientes de conversão da resistência tomando por base o corpo-de-


prova cilíndrico (Montoya, Meseguer & Cabre, 2000)
Tipo de Coeficientes de conversão
Dimensões
corpo-de- Valores
(cm) Valor médio
prova limites
Cilíndrico 15  30 1,00
Cilíndrico 10  20 0,94 a 1,00 0,97
Cilíndrico 25  50 1,00 a 1,10 1,05
Cúbico 10 0,70 a 0,90 0,80
Cúbico 15 0,70 a 0,90 0,80
Cúbico 20 0,75 a 0,90 0,83
Cúbico 30 0,80 a 1,00 0,90
Prismático 15  15  45 0,90 a 1,20 1,05
Prismático 20  20  60 0,90 a 1,20 1,05

A figura 3.7 mostra resultados da resistência relativa do concreto em função da


relação altura/diâmetro do corpo-de-prova. A relação de referência é a 2, isto é diâmetro
de medida igual a metade da medida da altura. Como dito anteriormente com o aumento
da relação altura/diâmetro há diminuição da resistência do corpo-de-prova.

Figura 3.7 - Aspecto geral da influência da relação altura/diâmetro na resistência


aparente de um cilindro (Neville, 1997)

3.1.6 VELOCIDADE E DURAÇÃO DA AÇÃO

Os ensaios para determinação da resistência do concreto são feitos com velocidade


constante de aplicação da força na máquina de ensaio. Com isso, o ensaio demora
poucos minutos. O resultado tem a finalidade de controlar a resistência do concreto. Na
estrutura real, as ações permanentes (g) atuam à medida que a edificação vai sendo
construída. As ações variáveis normais (q) agem quando a obra estiver concluída; a
estrutura, então, entra em serviço, isto é, começa a ser usada, como é o caso de um
edifício quando começa a ser habitado.
Pode-se dizer que as ações permanentes (g) são ações de longa duração.
As ações variáveis normais (q) são consideradas de curta duração na estrutura.
44 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

As forças nos corpos-de-prova de concreto ensaiados para as determinações das


resistências são aplicadas com velocidades semelhantes às dos ensaios rápidos, e
mantidas constantes até a ruptura do corpo-de-prova. As resistências obtidas em
ensaios de curta duração (normalizados) são maiores em relação às obtidas em ensaios
quando o incremento da força na máquina de ensaio é constante.
Rüsch (1975) estudou esse fenômeno acompanhando a deformação de corpos-de-
prova de concreto ao longo do tempo para uma tensão relativa (c/fc), aplicada por uma
força na máquina de ensaio, sendo a resistência fc determinada em ensaio rápido. A
força foi aplicada por um ajuste na máquina de ensaio, para que a deformação em cada
etapa do ensaio fosse constante. A figura 3.7 mostra os resultados obtidos para vários
tempos de duração da força. Desse modo, o elemento de concreto com a força de
compressão mantida constante apresenta uma situação de deformação crescente ao
longo do tempo, chamada de fluência (deformação lenta).
Analisando a figura 3.8 percebe-se, pelos resultados obtidos por Rüsch, que ocorre
uma diminuição na resistência do concreto de cerca de 20% em relação à resistência
medida em curto prazo. Em vista disso, a capacidade do elemento estrutural de absorver
a tensão c diminui. Esse fato precisa ser levado em conta por ocasião do
dimensionamento dos elementos estruturais submetidos à compressão, fletidos ou flexo
comprimidos.
Com a tensão mantida em um valor menor que aquele que provoca a ruptura do
corpo-de-prova (ponto A do diagrama), após o tempo t de duração da ação da força (100
min no experimento), não haverá ruptura. Se a força for mantida indefinidamente,
também não ocorrerá ruptura (ponto B do diagrama); ocorrerá apenas aumento de
deformação, definindo uma situação de fluência (deformação lenta).

fc Lim
ite d
e
20 n.

rupt
n.

ura
t = 2 mi
mi

C
t=

D
0,8
dias
t=3
Def. Lenta
A B
0,6
in.
m
0
10
t=

)
as

0,4 (%
di

ta
len
70

Idade do concreto no instante da aplicação da carga = 28 dias


t=

ão

rm
fo
de t = duração do carregamento
0,2 de
ite
Lim

( 0 /00)
1 2 3 4 5 6 7 8 c

Figura 3.8 - Diagrama tensão x deformação com ação de longa duração


(Rüsch, 1975)

Com a tensão c mantida, por ação da força na máquina de ensaios, em uma


intensidade maior que aquela considerada como resistência de longo tempo (ponto C do
diagrama), não haverá ruptura imediata. Mas se a tensão for mantida por mais tempo, a
ruptura poderá ocorrer antes dos 100 min (ponto D do diagrama).
Capítulo 3 - Propriedades mecânicas do concreto 45

Conclui-se que, com o aumento do tempo de aplicação da força, as curvas


representativas dos comportamentos dos corpos-de-prova tendem para uma reta
assíntota, definindo rupturas para relações c/fc menores que a unidade.
Nas verificações de segurança dos elementos estruturais em concreto armado, as
tensões de cálculo cd, função da resistência de cálculo à compressão do concreto (fcd),
são minoradas em 25% para, assim, considerar-se o efeito de longa duração das ações
permanentes.

3.2 RESISTÊNCIA À COMPRESSÃO DO CONCRETO – fC


3.2.1 RESISTÊNCIA CARACTERÍSTICA À COMPRESSÃO DO CONCRETO – (fck)

A resistência à compressão do concreto é considerada a propriedade mais


importante, pois a esta os códigos nacionais e internacionais associam as demais
resistências e propriedades. A determinação da resistência é feita pelos ensaios à
compressão de corpos-de-prova de dimensões padronizadas. Também são
padronizados a moldagem, o tempo em que os corpos-de-prova ficam nas fôrmas, tempo
e tipo de cura depois de desmoldados, aparelhamento da face pela qual ocorreu a
moldagem no caso de corpos-de-prova cilíndricos ou prismáticos. Os corpos-de-prova
cúbicos não precisam ter as faces preparadas pelas quais se realizam os
preenchimentos. A face do corpo-de-prova cilíndrico pode ser aparelhada
mecanicamente em torno ou capeadas com pasta de enxofre.
No Brasil, o corpo-de-prova adotado como padrão é o cilíndrico de 15 cm de
diâmetro por 30 cm de altura, moldado e preparado para ensaio de acordo com o método
indicado na ABNT NBR 5738:2003 e ensaiado à compressão de acordo com os
procedimentos indicados na ABNT NBR 5739:2007. Outros países adotam corpos-de-
prova prismáticos com 15 cm de medidas da aresta e 45 cm de altura ou cúbicos com
medidas das arestas de 15 cm ou 20 cm.
Em virtude das muitas variáveis que influenciam diretamente a resistência do
concreto, os valores das resistências dos corpos-de-prova moldados com os mesmos
rigores de procedimento, adensados por vibração, são díspares. Os resultados das
resistências tanto mais são diferentes quanto mais variáveis estiverem envolvidas, desde
o processo produtivo, tais como, o lançamento nos corpos-de–prova, o adensamento, a
cura, a retificação ou o capeamento e o tipo de ensaio.
Nas construções em concreto ocorrem variações nas resistências, para uma
dosagem previamente estudada, por causa de agentes, tais como: variação da
temperatura, da umidade, mudança de fornecedores de materiais, dentre outros.
Considerando um concreto com determinada dosagem previamente estudada, ou
seja, definidas as quantidades de cimento, pedra britada, areia e água, pode-se moldar
uma quantidade (n) de corpos-de-prova que, depois de ensaiados aos 28 dias, permite
determinar a resistência média à compressão do concreto.
A resistência média não pode ser considerada no dimensionamento de elementos
estruturais, pois 50 % dos corpos-de-prova apresentaram resistências menores do que
a resistência média.
Assim, é preciso definir uma resistência particular que caracterize o material, que
possa ser adotada em projeto e que permita análise e definição da dosagem dos
componentes para atender à resistência especificada. Essa resistência determinada com
critérios estatísticos é a resistência característica à compressão do concreto (fck).
Considerando que fci é a resistência medida no ensaio de um corpo-de-prova,
observa-se que, para n corpos-de-prova representativos de um mesmo concreto, os
resultados obtidos são diferentes, porém eles permitem calcular o valor da resistência
média à compressão (fcm). Quanto maior o rigor em todo o processo de produção e de
tratamento dos corpos-de-prova, menor é a variabilidade dos resultados, ou seja, menor
é a dispersão dos resultados.
46 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

De posse de quantidade significativa de resistências à compressão de corpos-de-


prova, pode-se construir o diagrama de frequência, número de corpos-de-prova com
mesma resistência, definindo-se os retângulos justapostos (histograma). Indicando-se
em abscissas os valores das resistências dos corpos-de-prova (que são divididos em
intervalos) e em ordenadas a frequência relativa dividida pela dimensão do intervalo de
resistência, constroem-se retângulos cujas áreas representam as frequências relativas,
isto é, as porcentagens de resultados ocorridos nos diversos intervalos, conforme figura
3.9.
Freqüência relativa
Intervalo
1,0

0,9

0,8

0,7 f cm
0,6

0,5

0,4

0,3

0,2

0,1

Frequência
Freq. Relativa f c (MPa)
Freq. Relativa
Intervalo

Figura 3.9 - Diagrama de frequência de uma amostra


de n corpos-de-prova de concreto

Observa-se, na figura 3.9, a possibilidade de se desenhar uma curva que


represente a distribuição normal, que é tanto mais precisa quanto maior for o número de
corpos-de-prova ensaiados.
Ao se determinar a área da curva de Gauss, percebe-se que ela vale a unidade, ou
seja, as áreas limitadas pela resistência média valem 0,5, que, em percentagens,
resultam em 100% e 50%, respectivamente.
Como se pode observar, as resistências dos corpos-de-prova foram determinadas
para um concreto com dosagem conhecida usado na construção de determinada
estrutura. Fica, portanto, uma variação muito grande para a consideração de uma
resistência típica do concreto com vistas à análise da segurança da estrutura. Se for
considerada a resistência média do concreto (fcm), há 50% de probabilidade de os
corpos-de-prova não apresentarem a resistência adotada como critério para verificação
da segurança.
Define-se, então, resistência característica à compressão do concreto (fck) aquela
que, de acordo com um quantil definido por consenso pelas comissões de normalização,
não é atendida por diminuto número de corpos-de-prova. A probabilidade de a estrutura
apresentar, em alguma seção transversal, concreto com resistência menor que a
característica se reduz. Mesmo assim, na análise da segurança dos elementos
estruturais, é adotada uma resistência de cálculo à compressão do concreto (fcd), que é
a resistência característica dividida por um coeficiente de minoração da resistência do
concreto (c).
Nas normas brasileiras, a resistência característica à compressão do concreto
corresponde àquela em que 5% das resistências dos corpos-de-prova ficam menores
que este valor, considerando a distribuição estatística adotada. A título de informação, a
Capítulo 3 - Propriedades mecânicas do concreto 47

norma americana do ACI 318 – 02 (2002) adota o quantil de 1% para resistência

f
'c
característica à compressão do concreto ( ).
A adoção de uma resistência característica à compressão do concreto, com um
quantil definido, foi também considerada em virtude da dispersão dos resultados de dois
concretos com dosagens diferentes, porém com mesmo valor de resistência média. Os
resultados das resistências dos corpos-de-prova são mais confiáveis para o concreto
com dosagem que apresentou menor dispersão em torno do valor médio, como é o caso
do concreto B da figura 3.10a. Ao adotar-se a ideia de resistência característica à
compressão do concreto com quantil definido, evita-se adotar valores maiores para o
coeficiente de minoração da resistência do concreto quando a dosagem apresentar
resultados mais dispersos em relação ao valor médio.
A resistência caraterística à compressão do concreto (fck) é definida, conforme
figura 3.10b, considerando a idade convencional do concreto de 28 dias, com desvio
padrão (s) e coeficiente de variação () da série de valores, pela equação 3.02.

fck  fcm  s   [3 02]

Freqüência relativa Freqüência relativa


Intervalo Intervalo
Concreto B

Concreto A

f c (MPa) f c (MPa)
f cm 5% f ck f cm
1,65 . s

a) b)
Figura 3.10 - Diagramas de distribuição normal

Ao se considerar o quantil de 5%, isto é, a existência da probabilidade de apenas


5% do concreto não atingir o valor da resistência característica à compressão do
concreto (fck), o desvio padrão (s), que depende da probabilidade de se obter resultados
menores do que fck, resulta igual a 1,65, ou seja:

fck  fcm  1,65   [3.03]

O coeficiente de variação da resistência () é calculado pela equação 3.04.

2
1 n  fci  fcm 
=    [3.04]
n i1  fcm 

A resistência média à compressão do concreto em função do número de corpos-


de-prova (n) ensaiados pode ser calculada por:
48 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

f ci
fcm  i1
[3.05]
n

A resistência média à compressão do concreto, calculada pela equação 3.05 com


desvio padrão (  ) escolhido, permite que o laboratório de controle tecnológico defina a
dosagem do concreto, com os materiais disponíveis para determinada construção.
A resistência característica à compressão do concreto (fck) é definida para um
número de corpos-de-prova que tende para infinito. Portanto, ela não pode ser associada
com o valor estimado da resistência determinado com o concreto da obra, determinado
com um número relativamente pequeno de corpos-de-prova.
Montoya (2000) diz que o coeficiente de variação () depende das condições de
fabricação do concreto. Para concretos fabricados em central o coeficiente de variação
pode ser adotado entre 0,08 e 0,20, de acordo com o controle de qualidade da fábrica.
É possível ter uma central de concreto na obra. Para concreto fabricados no canteiro
fabricado em pequenas betoneiras, ou sem auxilio destas, o coeficiente pode ser adotado
igual a 0,20.
O controle tecnológico do concreto fornecido ou fabricado na obra é feito
considerando a resistência característica estimada à compressão (fck,est), conforme
indicado na ABNT NBR 12655:2015. A resistência característica estimada à compressão
permite saber se o material com o qual se moldaram os elementos estruturais em
concreto armado estão seguros, pois se espera que fck,est  fck.
O controle tecnológico, no instante da recepção do concreto usinado ou do concreto
produzido ao pé da obra, é feito por ensaio de trabalhabilidade, que permite ao
engenheiro responsável pela obra rejeitar ou aceitar o material. Também são moldados
corpos-de-prova representativos do lote que permitirão, após 28 dias, avaliar a
resistência do concreto.
A resistência característica à compressão do concreto (fck) é a resistência nominal
adotada em projeto de estruturas de concreto, de acordo com os valores indicados nas
tabelas 3.3. e 3.4. Com ela se determina a resistência de cálculo à compressão do
concreto (fcd), que é igual à resistência característica à compressão dividida pelo
coeficiente de minoração da resistência c = 1,4, conforme indicação da ABNT NBR
6118:2014.

3.2.2 CLASSES DE RESISTÊNCIA E CONSISTÊNCIA DO CONCRETO

A ABNT NBR 8953:2015 indica que os concretos são classificados em grupo I e


grupo II conforme a resistência característica à compressão (fck).
Nos grupos, os concretos com massa específica seca, determinada de acordo com
a ABNT NBR 9778:1987, compreendida entre 2.000 kg/m3 e 2.800 kg/m3, são
designados pela letra C seguida do valor da resistência característica à compressão (fck)
em megapascal (MPa), conforme Tabelas 3.3 e 3.4.
A ABNT NBR 6118:2014 indica que, nos projetos de estrutura de concreto com
armadura passiva, o engenheiro projetista precisa especificar o concreto com resistência
característica à compressão não menor do que 20 MPa e, para concreto com armadura
ativa (concreto protendido), resistência não menor do que 25 MPa.
Lembra-se que a classe C15 pode ser adotada nos casos de concretos destinados
a obras provisórias ou em concreto sem fins estruturais.
Capítulo 3 - Propriedades mecânicas do concreto 49

Tabela 3.3 - Classes de resistência de concretos estruturais - Grupo I


(ABNT NBR 8953:2015)
Resistência
Classe de resistência
característica à
Grupo I
compressão (MPa)
C20 20
C25 25
C30 30
C35 35
C40 40
C45 45
C50 50

Tabela 3.4 - Classes de resistência de concretos estruturais - Grupo II


(ABNT NBR 8953:2015)

Resistência
Classe de resistência
característica à
Grupo II
compressão (MPa)
C55 55
C60 60
C70 70
C80 80
C90 90
C100 100

A ABNT NBR 6118:2014 não indica critérios para o dimensionamento de elementos


estruturais construídos com concreto C100.
A ABNT NBR 8953:2015 permite a especificação de concretos com resistência
características à compressão com valores intermediários.
Os concretos conforme a ABNT NBR 8953:2015 são classificados por sua
consistência no estado fresco (S), determinada a partir do ensaio de abatimento indicado
pela ABNT NBR NM 67:2008, de acordo com a Tabela 3.5.

Tabela 3.5 - Classes de consistência do concreto (ABNT NBR 8953:2015)


Abatimento
Classe Aplicações típicas
(mm)
Concreto extrusado, vibroprensado ou
S10 10 < A < 50
centrifugado
Alguns tipos de pavimentos e de elementos de
S50 50 < A < 100
fundações
Elementos estruturais, com lançamento
S100 100 < A < 160
convencional do concreto
Elementos estruturais, com lançamento
S160 160 < A < 220
bombeado do concreto
Elementos estruturais esbeltos ou
S220 A > 220
com alta densidade de armaduras
Nota 1: De comum acordo entre as partes, podem ser criadas classes especiais
de consistências, explicitando a respectiva faixa de variação de abatimento.
Nota 2: Os exemplos desta tabela são ilustrativos e não abrangem todos os tipos
de aplicações.
50 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Os concretos devem ser classificados por sua massa específica em normal (C),
leve (CL) ou pesado (CD), seguida de sua classe de resistência (conforme Tabela 3.4)
e de sua classe de consistência (conforme Tabela 3.5, ou de eventual classe especial
de consistência, e, no caso de concreto auto adensável o que indica a ABNT NBR 15823-
1:2010).
Conforme a ABNT NBR 8953:2015, especificar um concreto como ‘C30 S100’
significa indicar no projeto um concreto de densidade normal (com massa variando entre
2000 kg/m3 e 2800 kg/m3), com resistência característica à compressão (fck) de 30 MPa,
e com consistência (S) correspondente a um abatimento de 100 mm. A consistência é
determinada por ensaio do concreto fresco usando a fôrma tronco cônica de acordo com
norma brasileira pertinente.

3.2.3 DEFORMAÇÕES DE RUPTURA DO CONCRETO

3.2.3.1 Deformação de ruptura na compressão

Nos projetos de elementos estruturais de concreto quando só comprimidos (sem


flexão) o encurtamento de ruptura do concreto a ser considerado nos projetos é, de
acordo com a ABNT NBR 6118:2014:

- para concretos do grupo I de classes até C50:

c2 = 2,0‰ [3.06]

- para concretos do grupo II de classes de C55 até C90:

c2 = 2,0‰ + 0,085‰  (fck - 50)0,53 [3.07]

Esses valores das deformações de ruptura do concreto podem ser observados


experimentalmente por ensaios de corpos-de-prova de concreto das diferentes
resistências. A máquina de ensaios pode ser programada para aplicar força a partir de
uma variação de deformação constante (figura 3.11) em que foi considerada deformação
de 1‰ em 100min. A figura 3.12 mostra os resultados dos ensaios de corpos-de-prova
de concreto em que foram aplicadas forças com velocidade constante.
Analisando a figura 3.12 pode-se perceber que as maiores resistências ocorrem para
a deformação de 2‰, para as várias resistências características dos concretos da classe
I, isto é com resistências características à compressão menores ou iguais a 50 MPa.
Ainda, observa-se que, com o aumento das resistências dos concretos os módulos
de elasticidades aumentam, portanto, os concretos são menos deformáveis,
apresentando, assim, menor ductilidade. Este fenômeno é típico dos concretos da classe
II, com resistências características à compressão entre 55 MPa e 90 MPa.
As deformações dos concretos da classe II (εc2) são maiores do que as observadas
para os concretos classe I (εc2 = 2‰), conforme podem ser calculadas pela equação
3.07.
Capítulo 3 - Propriedades mecânicas do concreto 51

(MPa) (MPa)
c c
60 60

50 f = 50 MPa 50 f = 50 MPa
c c

40 f = 40 MPa 40 f = 40 MPa
c c

30 30
f = 25 MPa fc= 25 MPa
c
20 f = 20 MPa 20 f = 20 MPa
c c

10 10

1 2 3 4 5 6 ( 0 /00) 1 2 3 4 5 6 ( 0 /00)
c c

Figura 3.11 - Ensaios com deformação Figura 3.12 - Ensaios com veloci-
constante dade de aplicação de força
constante

Os ensaios dos corpos-de-prova com deformação controlada permitem observar o


comportamento do material e, por conseguinte, da estrutura, informando qual a
capacidade de deformação (ductilidade). Os concretos com menores resistências são
mais deformáveis, como pode ser observado nos diagramas tensão (σc) - deformação
(εc) da figura 3.11. Os concretos com maiores resistências apresentam maior fragilidade,
sendo que as estruturas moldadas com estes apresentam ruínas (colapsos) bruscos,
sem que nas estruturas apareçam fissuras nas situações de utilização.

3.2.3.2 Deformação na flexão simples

Nos projetos de elementos estruturais de concreto quando só fletidos (sem força


de compressão axial no elemento estrutural) o encurtamento de ruptura do concreto a
ser considerado nos projetos é, de acordo com a ABNT NBR 6118:2014:

- para concretos de classes até C50:


=
3
,
5

 [3.08]
c
u

- para concretos de classes de C55 até C90:


9 1
0 0
- 0
fc
4

︵ ︶
=
2
,
6
+
3
5

 ‰ [3.09]
c
u

‰ 
 

A justificativa para que as normas considerem cu  3,5‰ , para concreto classe I,
pode ser encontrada em Modesto dos Santos (1983), que analisa trabalhos de Rasch e
Rüsch. Estes autores, após análise experimental, indicam que para as seções
retangulares (figura 3.13a) os valores dos encurtamentos de ruptura (εc) ficam entre
3,0‰ e 3,5‰, nos casos da profundidade da linha neutra variando entre
aproximadamente zero (x = 0) e a altura útil da seção transversal (x = d).
No caso de seção transversal de largura (bw) variável, diminuindo a profundidade
da linha neutra (x) para a borda mais comprimida (figura 3.13c), as deformações de
ruptura do concreto podem atingir valor próximos de 5‰.
52 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

c ~= 3,5%º 
2%º < c< 3,5%º
c ~= 5%º
x
x
x

a) b) c)

Figura 3.13 - Deformações de ruptura do concreto em elementos estruturais


submetidos à ação de momento fletor

As deformações últimas para os concretos da classe II são menores que 3,5‰,


observadas durante ensaios de elementos estruturais fletidos, em face das resistências
destes concretos.
A tabela 3.6 apresenta os valores das deformações últimas do concreto a serem
consideradas em elementos estruturais comprimidos (εc2) e em elementos estruturais
fletidos (εcu), para os concretos indicados na ABNT NBR 6118:2014, em partes por mil
(‰) ou em milímetros por metro (mm/m), calculados com as equações 3.7 e 3.9.

Tabela 3.6 - Valores de εc2 e εcu dos concretos indicados na ABNT NBR 6118:2014
Classe de
C20 C60 C30 C35 C40 C45 C50 C55 C60 C70 C80 C90
resistência

εc2 (‰) 2,000 2,199 2,288 2,416 2,516 2,600

εcu (‰) 3,500 3,125 2,884 2,656 2,604 2,600

Os valores das deformações indicados na tabela 3.6 serão considerados nos


dimensionamentos dos elementos estruturais considerando o estado-limite último
conforme será estudado no capítulo 6.
de ruína.

3.2.3.3 Deformação na flexo-compressão

Quando o elemento estrutural for submetido à flexo-compressão, por ação de força


normal (N) e momento fletor (M), a deformação de ruptura varia entre εc2 e εcu, que são
as deformações últimas adotadas para os casos de compressão simples e flexão
simples. A posição da linha neutra (x) fica, portanto, fora da seção transversal, nos casos
de flexo-compressão com grande excentricidade, conforme indicado na figura 3.13b.
Recorda-se que, por hipótese, nas seções transversais submetidas à tensões
normais, casos de flexão simples ou flexo-compressão, a seção transversal plana
permanece plana depois de ocorrerem as deformações de compressão e tração.
Assim, a profundidade da linha neutra é proporcional a essas deformações
(triângulos retângulos semelhantes). Para se estudarem os equilíbrios das seções
transversais é necessário montar as equações que relacionam as deformações e a
profundidade da linha neutra, como será oportunamente estudado.

3.2.4 DIAGRAMA TENSÃO – DEFORMAÇÃO DO CONCRETO

O diagrama tensão (σc) – deformação (εc) do concreto, quando o corpo-de-prova


está submetido a ação de curta duração tem o comportamento indicado pela figura 3.14.
Nota-se que para tensões até 1/3 de fc, sendo fc a resistência do concreto, a variação
Capítulo 3 - Propriedades mecânicas do concreto 53

pode ser considerada aproximadamente linear. Para valores de tensões maiores o


comportamento é elasto-plástico, pois inicia-se o processo de microfissuração da
estrutura interna do concreto, conforme pode ser estudado em Mehta & Monteiro (2008).
As deformações elásticas (εcel) são acrescidas das deformações plásticas (εcpl)
obtendo-se, assim, a deformação total, conforme indicado na figura 3.14.
No caso de se diminuir a intensidade da força aplicada ao corpo-de-prova, pode-se
notar no diagrama da figura 3.14 que as deformações não são as mesmas medidas por
ocasião da aplicação da ação. Observa-se ainda que, na descarga, para tensão igual a
zero a deformação medida não é igual a zero, ocorrendo, portanto, uma deformação
residual, motivada pelo rearranjo dos materiais componentes do concreto que ocorre em
virtude da microfissuração interna.

C a r r e g a m e n to N o v o C a r r e g a m e n to
fc / 3

D e s c a r r e g a m e n to +

cpl
ce c
to t

Figura 3.14 - Diagrama tensão – deformação de um ensaios de corpo-de-prova de


concreto realizado com deformação controlada

Nas estruturas de concreto armado parte das ações são de longa duração, por
exemplo, as ações relativas aos pesos próprios dos materiais concreto, pisos e
revestimentos, alvenarias etc. O comportamento de corpos-de-prova de concreto
submetidos a ações de longa duração foi estudado no item 3.1.6.
Os diagramas tensão – deformação mostrados nas figuras 3.11 e 3.12 são os
diagramas reais observados em ensaios de corpos-de-prova e refletem os
comportamentos do material concreto, para as várias resistências, e com as condições
de aplicação das ações.
Para os dimensionamentos das seções transversais dos elementos estruturais,
submetidos aos esforços solicitantes calculados com as hipóteses da Mecânica das
Estruturas, há que se considerar diagrama tensão – deformação teórico que represente
o comportamento do material concreto com sua equação constitutiva.
A ABNT NBR 6118:2014 indica o diagrama tensão – deformação na compressão
para os concretos especificados na ABNT NBR 8953:2015. Esse diagrama (figura 3.15)
é um modelo teórico do comportamento do concreto à compressão, que pode ser
considerado na análise (projeto) de estruturas de concreto armado.
54 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Figura 3.15 - Diagrama tensão – deformação idealizado


[ABNT NBR 6118:2014]

O diagrama tensão (σc) – deformação (εc) do concreto é constituído por uma


parábola, para concreto de classe C20 a C50 e uma curva para concretos classe C60 a
C90, com origem na intersecção dos eixos das ordenadas e das abscissas e fim no ponto
(εc2, 0,85 fcd), e, um segmento de reta paralelo ao eixo das deformações, com origem
neste ponto e fim na deformação de εcu.
A resistência de cálculo à compressão do concreto (fcd) é igual a resistência
característica à compressão do concreto (fck) dividida pelo coeficiente de minoração da
resistência do concreto (γc) igual a 1,4, isto é:
fc

f c1
fc

k,
4

  [3.10]
d


c

O coeficiente 0,85 leva em conta três outros coeficientes como a seguir se expõe.
Fusco (1989) indica que, para representar a diferença entre a resistência do
concreto da estrutura e a resistência medida nos corpos-de-prova de controle,
proveniente da influência das placas da prensa da máquina de ensaios dos corpos-de-
prova, utiliza-se um coeficiente de redução de valor igual a 0,95.
Admitindo-se que as ações nas estruturas permanecem por longos períodos de
tempo, a resistência do concreto fica reduzida pelo coeficiente 0,75 da resistência
potencial que poderia ser atingida com longos períodos de maturação. Este fenômeno é
conhecido como “efeito Rüsch” por ter sido estudado pelo engenheiro e pesquisador
alemão Hubert Rüsch, conforme analisado no item 3.1.6.
Por fim, quando se utilizam cimentos de endurecimento normal, tem-se um
acréscimo de resistência, obtido depois dos 28 dias até se atingir alguns anos de idade,
da ordem de 20%.
Em resumo, pode-se agrupar esses três coeficientes que representam esses
fenômenos em um único coeficiente de modificação (kmod), o qual irá representar a
relação entre a resistência à compressão do concreto nas condições reais de ações na
estrutura. Assim, tem-se: k mod = k1  k 2  k 3 = 0,95  0,75  1,2 = 0,85 .
A tabela 3.7 indica os valores de n a considerado nas equações da figura 3.16 para
os concretos indicados na ABNT NBR 6118:2014.
Capítulo 3 - Propriedades mecânicas do concreto 55

Tabela 3.7 - Valores de n para os concretos indicados na ABNT NBR 6118:2014


Classe de
C20 C25 C30 C35 C40 C45 C50 C55 C60 C70 C80 C90
resistência

n 2,00 1,75 1,59 1,44 1,40 1,40

A figura 3.16 mostra os diagramas tensão – deformação para alguns dos concretos
especificados pela ABNT NBR 6118:2014. Sugere-se ao leitor elaborar os diagramas
para os demais concretos.

cd (MPa)
60

50
Tensão de Cálculo ‐ MPa

40 C25
C30
30 C40
C50
20 C70
C90
10

0 c (‰)
0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 3,5

Deformação ‐ ‰
Figura 3.16 - Diagramas tensão – deformação para os concretos indicados

Esses diagramas são considerados nos dimensionamentos dos elementos


estruturais de concreto armado.

3.3 RESISTÊNCIA À TRAÇÃO DO CONCRETO – ft

3.3.1 PREÂMBULO

Os elementos estruturais em concreto submetidos à ação de momento fletor e força


cortante apresentam, nas seções transversais em que atuam, deformações e tensões de
tração. Quando a intensidade da tensão ficar próxima da resistência à tração, há uma
grande probabilidade de se iniciar o processo de abertura de fissuras, inerente ao
material. O controle da fissuração é estudado no capítulo 13 que trata das verificações
dos estados-limites de serviço. Aqui se pretende mostrar a importância do conhecimento
dos parâmetros de resistência à tração, pois eles são considerados por ocasião da
determinação do momento de fissuração, da verificação das aberturas das fissuras e da
resistência de aderência.

3.3.2 DETERMINAÇÃO DA RESISTÊNCIA À TRAÇÃO DO CONCRETO

O ensaio de tração direta de corpos-de-prova prismáticos de concreto é de difícil


realização em laboratório em virtude da impossibilidade de se manter a força aplicada
56 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

centrada. Sempre ocorrem excentricidades não previstas, fazendo com que o corpo-de-
prova fique solicitado à flexo-tração.
Por isso, outros tipos de ensaios foram desenvolvidos para determinar de modo
indireto a resistência à tração do concreto, como o ensaio à compressão diametral de
corpos-de-prova cilíndricos e o ensaio à flexão de corpos-de-prova prismáticos.
A resistência à tração direta (fct) pode ser determinada por meio das resistências
à tração indireta por compressão diametral (fct,sp) ou por flexão (fct,f), que podem ser
obtidas por ensaios realizados segundo os critérios indicados na ABNT NBR 7222:1994
e na ABNT NBR 12142:1991, respectivamente. A ABNT NBR 6118:2014 indica que a
resistência à tração direta fct pode ser considerada igual a 0,9 fct,sp ou 0,7 fct,f, quando não
forem feitos ensaios experimentais.

3.3.2.1 Resistência por ensaios à tração direta

O ensaio de corpos-de-prova submetidos à tração direta em máquina universal de


ensaios apresenta dificuldade de realização por causa da incerteza na localização da
força aplicada, como mostra a figura 3.17.

9 cm
A

15 cm
Ft Ft
A

9 cm
9 cm

30 cm
Corte AA
60 cm

Figura 3.17 - Corpo-de-prova para determinação da resistência direta

Algumas associações de normalização internacionais indicam a forma e as


dimensões de corpos-de-prova para determinação da resistência à tração direta do
concreto. A resistência à tração é calculada pela equação 3.11.

Ft
fct = [3.11]
A ct

sendo:

fct = a resistência à tração direta;

Ft = a força de tração de ruptura do corpo-de-prova;

Act = a área da seção transversal do corpo-de-prova para tração direta.

3.3.2.2 Resistência à tração por ensaios à flexão

A resistência à tração pode ser determinada por ensaios à flexão de corpos-de-


prova prismáticos (ensaios de quatro pontos), conforme figura 3.18. No ensaio do prima
de concreto simples biapoiado, podem ser aplicadas duas forças nas seções
transversais que contêm os terços da viga, ou uma única força concentrada na seção de
meio de vão (ensaio de três pontos).
A ruína do corpo-de-prova por ruptura do concreto ocorre na região compreendida
entre os planos de ação das duas forças, pois, nessa região, o momento fletor é máximo
Capítulo 3 - Propriedades mecânicas do concreto 57

e as forças cortantes nas seções são praticamente iguais a zero, considerando-se que
só ocorrem forças cortantes por ação do peso próprio do corpo-de-prova que é de
pequena intensidade.

F/2 F/2
cc cc

LN LN
LN LN

15
fct
20 20 20 15 ct ~ 2fct

5 60 5
c c

70 cm

Figura 3.18 - Corpo-de-prova para determinação da resistência à tração na flexão

A resistência à tração na flexão, também chamada de módulo de ruptura, pode ser


determinada pela equação 3.12, considerando a seção transversal que coincide com o
plano de aplicação da força.
M W

F b
fc
=f


h

 [3.12]
t
,

Nos casos em que a ruptura ocorre em seção transversal entre os planos de ação
das forças concentradas, e pela equação 3.13,
3 b
F h
a 2
fc
=f

 
[3.13]
t
,

quando a ruptura ocorre em seção transversal contida entre o plano de aplicação de


uma das forças e o plano que contém a seção de um dos apoios.
A resistência à tração determinada com corpos-de-prova prismáticos submetidos a
ensaios de flexão é maior que a resistência determinada com corpos-de-prova à tração
axial. A ruptura do prisma de concreto simples ocorre sem distribuição linear de tensões
(hipótese de Navier). As Equações 3.7 e 3.8 foram obtidas adotando como válida essa
hipótese.
Considerando como hipótese que as seções planas permanecem planas depois da
deformação (hipótese de Bernoulli), a distribuição de tensões não é linear, mas se faz
de modo correspondente ao diagrama tensão-deformação, que, na proximidade da
ruptura, afasta-se sensivelmente de uma reta (figura 3.18). Por essa razão, a tensão de
tração que realmente ocorre na fibra mais afastada da linha neutra da peça submetida
as ação de momento fletor, no instante da ruptura, é bem menor que a calculada pela
equação 3.07, admitindo distribuição linear.
Lembra-se que, de acordo com o indicado na ABNT NBR 6118:2014 e escrito no
item 3.3.2, a resistência à tração direta do concreto (fct) é calculada multiplicando-se o
valor da resistência à tração na flexão, calculada pela equação 3.12, por 0,7.

3.3.2.3 Resistência à tração por ensaios à compressão diametral

O procedimento para determinação da resistência à tração por compressão


diametral de corpos-de-prova cilíndricos foi desenvolvido pelo engenheiro, professor e
58 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

pesquisador brasileiro Fernando Luiz Lobo Carneiro no ano de 1943. Esse ensaio
constituiu-se em processo adotado também por códigos de outros países.
O ensaio é feito com corpo-de-prova cilíndrico de 15 cm de diâmetro por 30 cm de
altura que também é usado para determinar a resistência à compressão. Submetendo-o
à ação de forças de compressão linearmente distribuídas e diametralmente opostas,
conforme figura 3.19, surgem tensões de tração perpendiculares ao plano de ação da
força. A distribuição dessas tensões é praticamente uniforme na região central (figura
3.19) e é calculada por:
2 π
F d
fc
=


[3.14]
t ,
s
p

 

sendo:

F = a força de ruptura aplicada pela máquina de ensaio;

d = o diâmetro do corpo-de-prova cilíndrico;

 = o comprimento do corpo-de-prova cilíndrico.

F Tração Compressão

1 +
2
h

F 1

d 0,1d 2

Figura 3.19 - Resistência à tração por compressão diametral de corpos-de-prova

A figura 3.20a apresenta uma fotografia de um corpo-de-prova posicionado na


máquina para ensaio à compressão diametral. A figura 3.20b mostra o corpo-de-prova
depois de rompido, notando-se a homogeneidade do concreto e a ruptura dos agregados
graúdos.
Quando a resistência à tração do concreto é atingida, ocorre a ruptura do corpo-de-
prova, com separação em dois semicilindros. A partir do valor da força atuante nessa
etapa, calcula-se a resistência à tração do concreto pela equação 3.09.
Em virtude das tensões de compressão atuantes ao longo da seção transversal que
coincide com o plano de aplicação da força, as resistências de tração na compressão
diametral são maiores que as obtidas por tração direta. Por esse motivo, os códigos
normativos sugerem coeficientes que relacionam essas resistências. De acordo com o
indicado na ABNT NBR 6118:2014 e escrito no item 3.3.2, a resistência à tração direta
do concreto (fct) é calculada multiplicando-se o valor da resistência à tração indireta
calculada pela equação 3.14 por 0,9.
Capítulo 3 - Propriedades mecânicas do concreto 59

O corpo-de-prova para determinação da resistência à tração por compressão


diametral também pode ser cúbico ou prismático; por isso, a equação para cálculo da
resistência é outra. Coeficientes de conversão entre as resistências obtidas pelos vários
tipos de corpos-de-prova e de ensaios são mostrados na Tabela 3.8, apresentados por
Montoya et al. (2000). Os tipos de corpos-de-prova considerados pelos autores citados
são os cilíndricos, cúbicos e prismáticos, consideradas como referências as resistências
determinadas com corpos-de-prova cilíndricos com 15 cm de medida do diâmetro e 30
cm de altura. Também são apresentadas as correlações para corpos-de-prova
submetidos à tração direta.

a) Corpo-de-prova cilíndrico b) Aspecto do corpo-de prova depois


posicionado para ensaio do ensaio á tração
à tração
Figura 3.20 - Resistência à tração por compressão diametral de corpos-de-prova
[Laboratório de Estruturas – EESC – USP]

Tabela 3.8 - Coeficientes de conversão da resistência à tração tomando por base o


corpo-de-prova cilíndrico 15 cm  30 cm (Montoya et al., 2000)
Tipo do corpo-de- Coeficientes de conversão
Tipo de ensaio prova de dimensões Valor
Valores limites
(cm) médio
Cilindro 15  30 1,00
Compressão diametral 0,91 a 1,16
Cubo de 15 ou 20 1,03
Ensaio de flexão com forças Prisma de 10  10 0,55 a 0,67 0,61
aplicadas nos terços Prisma de 15  15 0,61 a 0,74 0,67
Ensaio de flexão com forças
Prisma de 10  10 0,53 a 0,61 0,57
aplicada no centro do corpo-
Prisma de 15  15 0,54 a 0,64 0,59
de-prova
Tração direta em corpos-de-
Prisma de 15  15 ou
prova com esbeltez maior 0,88 a 1,32 1,10
Cilindro de ϕ 15 cm
que 2

3.3.3 RESISTÊNCIA CARACTERÍSTICA À TRAÇÃO DO CONCRETO

A resistência característica à tração do concreto fctk é o valor da resistência à tração que


tem 5% de probabilidade de não ser atendida pelos corpos-de-prova de um lote de
concreto. A determinação da resistência característica à tração segue, portanto, o
mesmo conceito considerado para a determinação da resistência à compressão do
concreto.
60 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

3.3.4 RESISTÊNCIA À TRAÇÃO DO CONCRETO CONSIDERADA EM PROJETO

A resistência à tração direta e a resistência à tração na flexão podem ser obtidas


em ensaios realizados segundo a ABNT NBR 7222:1994 e a ABNT NBR 12142:1991,
respectivamente.
Nas verificações dos estados-limites de serviço, no cálculo das tensões de aderência e
outras verificações em função da resistência à tração do concreto a ABNT NBR
6118:2014 indica que podem ser adotados os valores que a seguir se expõem.
A resistência à tração direta fct pode ser considerada igual a 0,9 fct,sp ou 0,7 fct,f.
Quando não forem feitos ensaios para a determinação das resistências à tração
por compressão diametral (fct,sp) e tração na flexão (fct,f) para avaliação da resistência à
tração direta (fct), a ser usada em cada etapa do projeto do elemento estrutural, esta
pode ser avaliada por meio das seguintes equações, indicadas na ABNT NBR
6118:2014:

fctk,inf = 0,7  fctm [3.15]

fctk,sup = 1,3  fctm [3.16]

as resistências médias podem ser calculadas com as equações em função da


resistência característica à compressão, por meio das seguintes equações:

- para concretos até classe até C50


fc
=
0
,
3
f
2c
/
3

 [3.17]
t
m

- para concretos de classe C55 a C90

fct,m = 2,12  n (1 + 0,11 fck ) [3.18]

com fctm e fck expressos em megapascals (MPa).

A resistência característica à tração (fctk) é determinada com o mesmo


procedimento estatístico que a resistência característica á compressão (fck). A resistência
característica à tração com o valor inferior (fctk,inf) é calculada com o quantil de 5% e a
resistência característica à tração com o valor superior (fctk,sup) é calculada com o quantil
de 95%.
Nas verificações de segurança (dimensionamento) dos elementos estruturais as
resistências à tração (fct) são calculadas em função dessas resistências, ou sejam, as
características ou a média.
Na fase de projeto de uma estrutura em concreto armado, é adotada a resistência
característica à compressão do concreto. As resistências à tração são calculadas com
as equações indicadas anteriormente.
A tabela 3.9 apresenta os valores das resistências características à tração inferior
(fctk,inf) e superior inferior (fctk,sup) e resistência média (fct,m) calculados em função da
resistência característica do concreto à compressão (fck).
Capítulo 3 - Propriedades mecânicas do concreto 61

Tabela 3.9 - Valores de fctk,inf, fctk,sup e fct,m


para os concretos indicados na ABNT NBR 6118:2014
Classe de
C20 C25 C30 C35 C40 C45 C50 C55 C60 C70 C80 C90
resistência

fctk,inf (MPa) 1,55 1,80 2,03 2,25 2,46 2,66 2,85 2,90 3,01 3,21 3,39 3,54
fctk,sup MPa) 2,87 3,33 3,77 4,17 4,56 4,93 5,29 5,38 5,59 5,96 6,29 6,58

fct,m (MPa) 2,21 2,56 2,90 3,21 3,51 3,80 4,07 4,14 4,30 4,59 4,84 5,06

3.5 MÓDULO DE ELASTICIDADE DO CONCRETO

A ABNT NBR 6118:2014 indica que o módulo de elasticidade (Eci) deve ser obtido
de acordo com o método de ensaio estabelecido na ABNT NBR 8522:2003, sendo
considerado nesta Norma o módulo de deformação tangente inicial, obtido aos 28 dias
de idade.
Quando não forem realizados ensaios, pode-se estimar o valor do módulo de
elasticidade inicial usando as equações 3.19 e 3.20:

- concretos classe I (para fck de 20 MPa a 50 MPa)

E ci =  E  5600  fck [3.19]

- concretos classe II (para fck de 55 MPa a 90 MPa

1/3
f 
Eci = 21,5  10  E   ck  1,25
3
[3.20]
10 

sendo:

E = 1,2 para basalto e diabásio;

E = 1,0 para granito e gnaisse;

E = 0,9 para calcário;

E = 0,7 para arenito;

sendo que:

Eci e fck são dados em megapascals (MPa).


O módulo de elasticidade secante pode ser obtido segundo método de ensaio
estabelecido na ABNT NBR 8522:2003, ou estimado pela equação 3.21:

Ecs = i  Eci [3.21]

sendo:

fck
i = 0,8  0,2   1,0 [3.22]
80
62 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

A Tabela 3.10 apresenta valores estimados arredondados que podem ser usados no
projeto estrutural.

Tabela 3.10 - Valores estimados de módulo de elasticidade em função da resistência


característica à compressão do concreto (considerando o uso de granito como
agregado graúdo) – [ABNT NBR 6118:2014]
Classe de
C20 C25 C30 C35 C40 C45 C50 C55 C60 C70 C80 C90
resistência

Eci (GPa) 25 28 31 33 35 38 40 41 42 43 45 47
Ecs (GPa) 21 24 27 29 32 34 37 38 40 42 45 47

αi 0,85 0,86 0,88 0,89 0,90 0,91 0,93 0,94 0,95 0,98 1,00 1,00

No caso do material concreto a deformação elástica do concreto depende da


composição do traço do concreto, especialmente da natureza dos agregados.
Na avaliação do comportamento de um elemento estrutural ou seção transversal,
pode ser adotado módulo de elasticidade único, à tração e à compressão, igual ao
módulo de deformação secante Ecs.
Na avaliação do comportamento global da estrutura e para o cálculo das perdas de
protensão, pode ser utilizado em projeto o módulo de elasticidade inicial Eci.
O módulo de elasticidade numa idade menor que 28 dias pode ser avaliado pelas
equações 3.23 e 3.24, substituindo fck por fcj:

- concretos classe I (para fck de 20 MPa a 50 MPa)


fc
t
0
,
5

︵︶
E
t

E
k
,
j

︵︶   [3.23]
fc

 
c
i

c
i

 
k

- concretos classe II (para fck de 55 MPa a 90 MPa


fc
t
0
,
3

︵︶
E
t

E
k
,
j

︵︶   [3.24]
fc

 
c
i

c
i

 
k

sendo que:

Eci (t) é a estimativa do módulo de elasticidade do concreto em uma idade entre 7


dias e 28 dias;

fck,j (t) é a resistência à compressão do concreto na idade em que se pretende


estimar o módulo de elasticidade, em megapascal (MPa).

3.6 COEFICIENTE DE POISSON E MÓDULO DE ELASTICIDADE TRANSVERSAL

A ABNT NBR 6118:2014 indica que para tensões de compressão menores que 0,5
fc e tensões de tração menores que fct, o coeficiente de Poisson  pode ser tomado como
igual a 0,2 e o módulo de elasticidade transversal Gc igual a Ecs/2,4.

3.7 RESISTÊNCIA NO ESTADO MÚLTIPLO DE TENSÕES

Nas estruturas, em muitas situações, o concreto está sujeito a tensões que atuam
simultaneamente em várias direções. Enquanto uma propriedade inerente ao material,
como medida na prática, a resistência do concreto também é uma função do estado de
Capítulo 3 - Propriedades mecânicas do concreto 63

tensões atuantes no elemento. Nas vigas, por exemplo, na maioria das seções o
concreto está submetido às tensões normais e tangenciais. Sabe-se que qualquer estado
de tensões em um corpo pode ser reduzido a um outro composto por três tensões
normais 1, 2 e 3, com 1  2  3 denominadas tensões principais, em que se
considera  > 0 para a tração e  < 0 para a compressão. Essas tensões são
perpendiculares entre si e atuam sobre um cubo elementar orientado convenientemente
nesse corpo.
O estudo da resistência do concreto submetido a estados de solicitações triaxiais
ou biaxiais tem aplicabilidade direta nas peças estruturais de concreto armado. Citam-
se, por exemplo, a diminuição de resistência à compressão na solicitação biaxial de
compressão-tração nas mesas comprimidas de vigas T e o acréscimo de resistência à
compressão em pilares cintados ou em colunas metálicas preenchidas com concreto.
Nestes dois últimos exemplos, é importante notar que o concreto, confinado pelos
estribos em pilares cintados e pelo tubo metálico em pilares mistos, não tem sua
resistência aumentada, e sim a do elemento estrutural.
Da análise do comportamento do concreto para estados triaxiais observa-se que a
resistência axial cresce com a pressão de confinamento, apresentando propriedades de
fragilidade plástica.
Fusco (1976) indica que a ruptura do concreto no estado múltiplo de tensões pode
ocorrer de dois modos: por separação ou por deslizamento.
A ruptura por separação é uma ruptura por tração. Apresenta uma superfície de
fratura nítida e tangente em cada ponto ao plano onde atua a tensão principal maior 1.
Admite-se que a ruptura por separação ocorra sempre que as três tensões
principais forem de tração, ou quando uma delas for de compressão e não superar, em
valor absoluto, cerca de três a cinco vezes a maior tensão de tração 1.
A envoltória, que serve de base para as prescrições da ABNT NBR 6118:2014,
referentes aos estados múltiplos de tensões, foi proposta por Langendonck (1944). É
uma envoltória do tipo Coulomb-Mohr como a mostrada na figura 3.21. O emprego da
envoltória de Coulomb-Mohr, de modo geral, restringe-se aos casos em que a tensão
principal 3 é de compressão e a outra, 1, é de tração ou nula. Esses casos são os mais
importantes na verificação da segurança de elementos estruturais.
Quando as tensões principais 1 e 3 forem ambas de compressão, será necessário
o emprego da envoltória de Mohr. No entanto, ainda são encontradas dificuldades
apreciáveis na realização de ensaios adequados para a solução desse problema. Na
literatura, são encontrados, para esses casos, valores muito dispersos para a resistência
do concreto. É provável que essa dispersão seja motivada pela dificuldade de obtenção
de um estado bem definido de tensões normais em mais de uma direção, sem a
interferência de tensões causadas pelo atrito entre os topos do corpo-de-prova e os
apoios da máquina de ensaio.

A
Ruptura por deslizamento

B Ruptura por separação


r

fc
C
c

E
fc ft

Figura 3.21 - Envoltória simplificada Coulomb-Mohr


64 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Quando submetida a estado biaxial de compressão, a tensão de compressão


máxima, atuante em corpos-de-prova de concreto, aumenta. Esse acréscimo é de
aproximadamente 25% para a relação σ 2 σ 1  0,5 e de 1% para σ 2 σ 1  1,0 . Com 1
de tração e 2 de compressão, a resistência à compressão decresce linearmente com o
acréscimo linear da tensão de tração.
No caso de tração biaxial, a resistência do concreto, no estado duplo de tensões, é
praticamente a mesma que a medida na tração pura.
Apoios especiais, providos de filamentos em contato com as faces do corpo-de-
prova, foram adotados por Rüsch (1975) na realização de ensaios de concreto sob
tensões combinadas. A flexibilidade dos filamentos de apoio garante a eliminação de
qualquer contenção lateral no corpo-de-prova. Esse tipo de apoio permite também a
aplicação de tração, empregando-se resina epóxi para fixação do corpo-de-prova.
O fato de a resistência do concreto sob tensões combinadas não poder ainda ser
estimada com razoável precisão por via analítica é uma das principais razões para se
considerarem resultados experimentais, particularmente em muitas situações em que
aparecem esforços solicitantes combinados.
As pesquisas nesse campo ainda continuam, uma vez que o conhecimento dos
mecanismos de ruptura do concreto é de grande importância para uma melhor
formulação dos critérios de dimensionamento e disposição das armaduras das peças
estruturais construídas em concreto.
A figura 3.22 apresenta um diagrama obtido com resultados da pesquisa de Rüsch
(1975). A força foi aplicada com a interposição de escovas de aço entre o corpo-de-prova
e a base do equipamento de ensaio, com a finalidade de evitar a introdução de tensões
tangenciais oriundas do contato direto.

Tração + 2 / fc

-1,4 -1,2 -1,0 -0.8 -0,6 -0,4 -0,2 0 +0,2


+0,2
+0,1
Compressão +0,1 Tração
0

- 1 / fc -0,2 + 1 / fc
Força aplicada
-0,4
por meio de
escovas de aço
2 -0,6
2

-0,8
1

1 1
-1,0
2
-1,15
-1,2
-1,25

-1,4

Compressão - 2 / fc

Figura 3.22 - Concreto sob solicitação biaxial

A ABNT NBR 6118:2014 indica que, no estado múltiplo de tensões, estando o


concreto submetido às tensões principais com

σ 3  σ 2  σ1 [3.25]

as tensões precisam respeitar os seguintes limites:


Capítulo 3 - Propriedades mecânicas do concreto 65

σ 1  fctk [3.26]

σ 3  fck  4σ 1 [3.27]

em que as tensões de compressão são consideradas positivas e as de tração


negativas.

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Janeiro, 2003.

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RÜSCH, H. Hormigon armado y hormigon pretensado. Barcelona: Continental, 1975


4
PROPRIEDADES MECÂNICAS
DAS BARRAS E FIOS DE AÇO
4.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS (15 de junho de 2016)

Nas estruturas de concreto armado, as barras e os fios de aço da armadura são


convenientemente posicionados nos elementos estruturais de tal modo a absorver as
forças resultantes das tensões de tração, que são forças resistentes necessárias para
atender ao equilíbrio dos esforços solicitantes. As forças de tração ocorrem, por
exemplo, nos elementos estruturais fletidos, ou sejam vigas e lajes. As barras também
são usadas para absorver forças de compressão atuantes em pilares, que são
submetidos à flexão oblíqua composta. Nos pilares há necessidade de conveniente
arranjo de estribos para evitar as flambagens localizadas das barras longitudinais.
A viabilidade econômica de se adotar como solução estrutural o material concreto
armado nas construções de edifícios, pontes, reservatórios, canais e galerias,
barragens, pavimentos de rodovias e de edificações industriais etc. é por causa da
facilidade de se encontrarem no comércio as barras e fios de aço. Ainda, do ponto de
vista econômico é possível combinar resistência mecânica, trabalhabilidade,
disponibilidade no mercado, principalmente no Brasil que é produtor de minério de
ferro, com custo de produção compatível. Associado a essas vantagens estão
instaladas no país empresas capacitadas a produzirem as barras e os fios de aço
destinados à construção civil.
A barras e fios de aços encontrados no comércio apresentam formas da
superfície, dimensões dos diâmetros e processo de fabricação diferentes. A escolha do
tipo a adotar em estruturas depende da forma do elemento estrutural, das intensidades
das solicitações e da disponibilidade de fornecimento no local da construção.
Neste capítulo são analisados o processo de fabricação, as propriedades
mecânicas e geométricas dos aços carbono comumente usados na construção civil. Os
aços de alta resistência e pequeno teor de carbono e em liga com outros tipos de
minerais são usados nas usinagens de peças para a indústria mecânica.
68 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

4.2 PROCESSO DE OBTENÇÃO DAS BARRAS DE AÇO


4.2.1 OBTENÇÃO DO PRODUTO SIDERÚRGICO
Os aços são produzidos em usinas siderúrgicas por meio da mistura de minério
de ferro, coque (carvão mineral) ou carvão vegetal e fundentes, como calcário (cal),
que são sinterizados em altos-fornos, com 20m a 30m de altura, e temperaturas
próximas de 1500 oC. Essa é a etapa de redução. A escória resultante por causa das
impurezas do minério de ferro e do oxigênio é utilizada, depois de separada, na
indústria cimenteira. Esse produto o ferro-gusa precisa ser refinada para ser
transformado em aço.
Na etapa de refino são adicionados ao ferro-gusa silício, manganês, fósforo e
oxigênio, que é submetido a uma oxidação em fornos especiais, transformando a
mistura em aço líquido que é moldado em lingotes.
Aço é definido como produto siderúrgico com porcentagem de carbono entre
0,008% e 2%. O limite inferior corresponde à mínima solubilidade do carbono no ferro à
temperatura ambiente e o limite superior à máxima quantidade de carbono que se
dissolve no ferro o que ocorre a 1147 oC. Os aços fabricados no Brasil destinados para
as barras e fios usados em estruturas de concreto armado têm teor de carbono entre
0,4% e 0,6%.
Na terceira etapa os lingotes são reaquecidos e laminados, por deformação
mecânica, que é a redução da seção do tarugo pela passagem por cilindros paralelos
em rotação. Com esse processo obtém-se as barras de aço da categoria CA-25 e
CA-50 (ABNT NBR 7480:2007).
Os fios de aço da categoria CA-60 (ABNT NBR 7480:2007) são obtidos por
trefilação a frio, pela passagem do chamado fio máquina, que é passado por orifícios
com diâmetro definido.

4.2.2 TRATAMENTO INDUSTRIAL DAS BARRAS DE AÇO

O produto siderúrgico apresenta granulação grosseira, quebradiço e com pouca


resistência. Portanto, para aplicações nas estruturas de concreto, ele precisa passar
por processo industrial que melhore as propriedades mecânicas, que é feito de dois
modos: tratamento a quente e tratamento a quente com posterior trabalho a frio.

a.- Tratamento a quente

É chamado tratamento a quente o processo industrial de laminação, forjamento


ou estiramento das barras e fios de aço, realizados em temperatura acima de 720oC.
Por qualquer desses processos, o aço recristaliza na forma de pequenos grãos,
melhorando suas propriedades mecânicas por exemplo a resistência. Assim são feitas
as barras de aço da categoria CA-25 e CA-50.

b.- Tratamento a frio ou encruamento

A recristalização é conseguida com tratamento mecânico (tração, compressão ou


torção das barras e fios) a frio, assim os grãos permanecem deformados e diz-se que o
material fica encruado. Os fios de aço da categoria CA-60 são obtidos com esse
procedimento industrial.
Capítulo 4 - Propriedades mecânicas das barras de aço 69

4.2.3 PROPRIEDADES MECÂNICAS DAS BARRAS E FIOS DE AÇO

É de suma importância conhecer as propriedades mecânicas das barras e fios de


aço para armar os elementos estruturais em concreto armado.
As propriedades mecânicas dos aços, tais como resistência mecânica, dureza,
dutilidade e deformabilidade são inerentes à composição química e à microestrutura.
Com relação à composição química, quando o aço é esfriado no meio ambiente, à
medida que se aumenta o teor de carbono, melhoram as propriedades relativas à
resistência mecânica à tração e a deformação de escoamento e aumenta também a
dureza. Por outro lado, pioram as propriedades relativas à dutilidade e tenacidade.
A microestrutura está intimamente ligada à composição química e depende do
modo de fabricação do aço: se fundido, se trabalhado a quente (laminado ou forjado)
ou se trabalhado a frio (encruado). Depende ainda do tamanho do grão e do tempo de
esfriamento.
No estado “fundido” o aço apresenta granulação grosseira, pois o esfriamento no
interior dos moldes é muito lento.
Quando o aço está no “estado trabalhado a quente”, com temperatura acima de
720 oC, processa-se a laminação, o forjamento ou o estiramento. Com a temperatura
acima da zona crítica (figura 4.1), há uma modificação na estrutura interna do aço, com
as seguintes conseqüências:

a.- homogeneização apreciável da estrutura interna;

b.- destruição da estrutura que havia no estado fundido;

c.- recristalização com redução do tamanho do grão do aço.

O aço submetido a temperaturas acima da zona crítica é mais deformável e,


portanto, apresenta melhor trabalhabilidade. As propriedades finais do aço são
bastante melhoradas em relação às do material fundido.
No “estado encruado” ou quando o aço é deformado a frio, os efeitos mais
importantes são:

a.- aumento da resistência mecânica;

b.- aumento da dureza;

c.- diminuição da dutilidade, ou seja, decréscimo da deformação e do diâmetro


por causa da estricção;

d.- diminuição da resistência à corrosão.

O aço quando trabalhado em temperaturas menores que a da zona crítica, os


grãos permanecem deformados e diz-se que ele está encruado. O processo de
encruamento pode ser mecânico, por aplicação nas barras de uma força de tração, por
compressão radial ou por torção, com a finalidade de se aumentar a resistência de
escoamento e a de ruptura.
A figura 4.1, apresentada em Petrucci (1976), define esquematicamente o
processo de obtenção dos aços por trabalho mecânico à quente e deformados a frio.
70 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Figura 4.1 - Deformação abaixo e acima da zona crítica de temperatura


[Petrucci (1976)]

O aço, se for submetido a aquecimento prolongado ou se for aquecido a


temperatura próxima de 1150 oC, terá uma granulação ainda mais grossa e a
regeneração não será mais possível.
Atenção para o fato que, se o aço encruado for submetido a uma temperatura
acima de 600 oC ele perde o encruamento, readquirindo as propriedades iniciais.
Portanto, cuidados precisam ser tomados ao se especificar em projetos emendas
soldadas para as barras e fios de aço que constituem as armaduras dos elementos
estruturais.
Pensando na segurança da estrutura de concreto em situações de edificações
susceptíveis a incêndios ou em ambientes industriais em que as temperaturas podem
atingir grandes intensidades, por exemplo, acima de 1000 oC, é preciso adotar o tipo de
aço que tenha tido tratamento mecânico compatível com essa temperatura.
Os requisitos fundamentais necessários para os aços destinados ao uso em
estruturas de concreto armado são:

a.- dutilidade e homogeneidade;

b.- elevada relação entre as deformações de proporcionalidade (relativa à


resistência de escoamento - fy) e a de escoamento;

c.- soldável, para permitir emendas;

d.- resistência razoável à corrosão.

Os aços-carbono, de pequeno e médio teor de carbono, obtidos por laminação,


satisfazem os requisitos enumerados, com exceção para a corrosão.
Com relação à corrosão existem aditivos que podem ser incorporados ao concreto
durante a mistura dos agregados graúdo e miúdo, cimento e água com a finalidade de
proteger as barras e fios da armadura se, porventura, ocorrer ataque de agentes
externos que atravessem a região do cobrimento. A medida do cobrimento da
armadura, estando de acordo com a ABNT NBR 6118:2014, é garantia de durabilidade
da estrutura e, portanto, um critério de segurança estrutural.
Capítulo 4 - Propriedades mecânicas das barras de aço 71

Para emprego em estruturas de concreto armado os aços-carbono são


classificados em: aços de dureza natural (CA-25 e CA-50) e aços encruados a frio
(CA-60).
Algumas empresas siderúrgicas oferecem ao mercado barras e fios produzidos a
partir de sucata selecionada e constituída por retalhos de chapas metálicas, cavacos
de usinagem, latarias de carros usados, peças de aço e ferro de equipamentos em
desuso, entre outros.

4.3 BARRAS E FIOS DE AÇO PARA CONCRETO ARMADO

Os aços-carbono comuns são de resistência mecânica aceitável e o custo de


produção é razoável, tendo em vista a utilização nas estruturas de concreto.
Os aços para construção civil são normalizados pela ABNT NBR 7480:2007 que
fixa as condições exigíveis na encomenda, fabricação e fornecimento de barras e fios
de aço para uso como armaduras para concreto armado.
De acordo com essa norma os materiais são classificados como:

barras – são os produtos de diâmetro nominal () igual ou maior do que 6,3 mm,
obtidos exclusivamente por laminação a quente sem processo posterior de
deformação mecânica, e, de acordo com o valor característico da resistência de
escoamento são classificadas nas categorias CA-25 e CA-50;

fios – são os diâmetros nominais iguais ou menor do que 10,0 mm, obtidos a
partir do fio-máquina por trefilação ou laminação a frio, por exemplo, estiramento,
e, de acordo com o valor característico da resistência de escoamento são
classificados na categoria CA-60.

Os caracteres adotados na classificação das barras e fios de aço têm os


seguintes significados: CA indica que o material, barras ou fios, são para uso em
estruturas de concreto e o número indica a resistência característica ao escoamento
(fyk) na unidade kN/cm2 (0,1 MPa), separados por hífen (-). Assim, as barras de aço da
categoria CA-50 apresentam resistência característica ao escoamento (fyk) de
500 MPa.

4.3.1 BARRAS DE AÇO DE DUREZA NATURAL

Os aços de dureza natural são de utilização comum nas estruturas de concreto,


em forma de barra de seção circular, sem conformação superficial (nervuras) na
superfície (barras lisas) e classificadas pela ABNT NBR 7480:2007 na categoria CA-25.
Também são aços de dureza natural, porém com o dobro da resistência
característica ao escoamento as barras classificadas como CA-50, com nervuras na
superfície com a finalidade de melhorar a aderência aço – concreto. A composição
química deste aço difere dos aços CA-25, permitindo aumento significativo de
resistência mecânica.
Lembrando que a grande virtude dos elementos estruturais de concreto armado é
a aderência entre as barras ou fios de aço e o material concreto, que permite o trabalho
conjunto destes dois materiais, e, com o aumento da resistência das barras, nas
regiões tracionadas dos elementos estruturais ocorrem fissuras que precisam ter as
suas aberturas controladas. Esse controle será estudado em capítulo futuro que analisa
os Estados Limites de Serviço – ELS.
As barras de aço de dureza natural (CA-25 e CA-50) têm as suas resistências ao
escoamento (fy) definidas por deformação praticamente constante no diagrama tensão
(s) – deformação (s), conforme figura 4.2a.
72 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

4.3.2 FIOS DE AÇO ENCRUADAS A FRIO

Os fios de aço encruados a frio por tração são da categoria CA-60 e no diagrama
tensão – deformação não apresentam deformação constante relativa a resistência de
escoamento (fy). A resistência de escoamento, para os fios deste aço CA-60 é
determinada geometricamente pelo traçado de um segmento de reta, paralelo à reta
definida pelo trecho elástico do diagrama e com origem na deformação igual a 0,2%
(2 ‰), que é considerada como deformação residual, conforme figura 4.2b.
A ABNT NBR 7480:2007 indica que a resistência ao escoamento de barras e fios
de aço pode ser também calculada pelo valor da tensão sob ação de força
correspondente à deformação de 0,5% (5‰). Em caso de divergência vale o valor da
resistência ao escoamento determinado para a deformação residual de 0,2% (2‰).
Os fios de aço são encruados por tração quando, após laminação a quente e
resfriado, são submetidos a uma trefilação a frio que, ao passarem na fieira, ficam
submetidos a uma força de compressão diametral e a uma força de tração, ocorrendo
uma modificação da estrutura interna do aço, gerando, em conseqüência aumento de
resistência e com deformações não proporcionais às tensões.
Os fios de aço encruados por torção são obtidos por meio de aplicação de uma
força de tração e, simultaneamente, o fio-máquina é torcido.
Os fios encruados por compressão são obtidos pelas aplicações de forças de
compressão radiais, gerando deformações na superfície e produzindo uma modificação
na posição interna dos elementos e com conseqüente alongamento do fio ao longo do
eixo longitudinal.

Figura 4.2 - Diagramas típicos dos aços categorias CA-25 e CA-50 (a) e CA-60 (b)
Capítulo 4 - Propriedades mecânicas das barras de aço 73

4.4 PROPRIEDADES DAS BARRAS E FIOS DE AÇO

4.4.1 Preâmbulo

As barras de aço inicialmente fabricadas para uso em estruturas de concreto


armado eram (e são até hoje) de seção circular, lisas e de pequena resistência ao
escoamento quando comparadas as barras da categoria CA-50. Posteriormente, na
década de 70 do século passado, a indústria siderúrgica passou a produzir barras e
fios aços com maiores resistências, visando, com isto, diminuir o consumo de aço nas
estruturas de concreto. Para que os elementos estruturais em concreto pudessem ser
armados com essas barras e fios foi necessário melhorar as condições de aderência
em relação aos produtos com menor resistência. Assim, as barras (categoria CA-50) e
fios (categoria CA-60) precisaram ser providos de nervuras ou entalhes,
respectivamente, com a finalidade de melhorar as condições de ancoragem.
Hoje o mercado brasileiro por suas várias empresas siderúrgicas oferecem para o
consumo as barras de aço nas categorias CA-25 e CA-50 e fios de aço na categoria
CA-60. Nas obras consideradas de pequeno porte podem ser usadas as barras de aço
da categoria CA-25, por causa dos pequenos valores dos esforços solicitantes. As
barras de aço CA-25 são lisas, isto é, sem nervuras.
Nas construções de maior porte, tais como edifícios, canais, galerias, obras
industriais etc., são usadas as barras de aço CA-50 e os fios de aço CA-60.

4.4.2 Propriedades geométricas das barras e fios de aço

O comprimento normal de fabricação das barras e fios de aço é de 12,0 m com


tolerância de mais ou menos 1%. Na necessidade de outros comprimentos, que
possam melhorar o processo produtivo da construção, comprador e fornecedor
precisam combinar a encomenda, sendo que a ABNT NBR 7480:2007 indica a mesma
tolerância.
As barras de aço da categoria CA-50 são obrigatoriamente provida de nervuras
transversais ou oblíquas. Os fios de diâmetro nominal igual ou menor do que 10,0 mm
(CA-60), quando solicitado, precisam ter obrigatoriamente entalhes ou nervuras, de
modo a atender as condições de aderência solicitada pelo usuário.
O diâmetro nominal () é o número correspondente, em milímetros, ao diâmetro
da seção transversal da barra ou fio do aço.
O fornecimento de barras e fios pela siderúrgica pode ser feito em feixes caso de
barras da categoria CA-50 ou em rolos como para os fios de aço CA-60.
Para aceitação das barras e fios adquiridos para uma determinada construção é
necessário fazer ensaios de tração para a determinação das resistências e de
dobramento, pois aos serem dobradas elas podem romper ou apresentar fissuras.
Esses ensaios são realizados seguindo os critérios da ABNT NBR 7480:2007 ou o
especificado em norma própria.
Os diâmetros padronizados pela ABNT NBR 7480:2007 para barras e fios de aço
produzidos no Brasil, as massas mínimas, máximas e nominais, os valores nominais da
área da seção e o perímetro são mostrados na tabela 4.1.
Os diâmetros de barras e fios de aço normalizados e indicados na tabela 4.1
podem não ser os disponibilizados ao mercado pela indústria siderúrgica.
É importante observar que ao se realizar um projeto de uma estrutura de concreto
armado o projetista, antes de adotar os diâmetros de barras e fios necessários para
armar os elementos estruturais, precisa consultar fornecedores locais e catálogos de
empresas fabricantes para se certificar dos diâmetros disponíveis.
74 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

As normas brasileiras adotam o Sistema Internacional de Unidades (SI), e,


portanto, as medidas dos diâmetros são em milímetros, sendo que se as medidas dos
diâmetros forem cotadas em polegadas lembra-se que 1” (1 polegada) é igual a
25,4 mm. As medidas normalizadas dos diâmetros são as medidas em polegadas
convertidas para milímetros e aproximadas para até uma casa decimal.
As tolerâncias nas massas indicadas na tabela 4.1 são necessárias para a correta
verificação dos diâmetros feita com a massa das barras.

Tabela 4.1 - Propriedades geométricas de fios e barras de aço [ABNT NBR 7480:2007]
Massa e tolerância por unidade
Diâmetro Variação nominal
de comprimento
nominal (mm)
Massa Máxima variação
Área da Perímetro
nominal permitida para
Fios Barras seção (mm²) (mm)
(kg/m) massa nominal
2,4 - 0,036 ±6% 4,5 7,5
3,4 - 0,071 ±6% 9,1 10,7
3,8 - 0,089 ±6% 11,3 11,9
4,2 - 0,109 ±6% 13,9 13,2
4,6 - 0,130 ±6% 16,6 14,5
5,0 - 0,154 ±6% 19,6 15,7
5,5 - 0,187 ±6% 23,8 17,3
6,0 - 0,222 ±6% 28,3 18,8
- 6,3 0,245 ±7% 31,2 19,8
6,4 - 0,253 ±6% 32,2 20,1
7,0 - 0,302 ±6% 38,5 22,0
8,0 8,0 0,395 ±6% 50,3 25,1
9,5 - 0,558 ±6% 70,9 29,8
10,0 10,0 0,617 ±6% 78,5 31,4
- 12,5 0,963 ±6% 122,7 39,3
- 16,0 1,578 ±5% 201,1 50,3
- 20,0 2,466 ±5% 314,2 62,8
- 22,0 2,984 ±4% 380,1 69,1
- 25,0 3,853 ±4% 490,9 78,5
- 32,0 6,313 ±4% 804,2 100,5
- 40,0 9,865 ±4% 1256,6 125,7

4.4.3 Propriedades mecânicas das barras e fios de aço

As propriedades mecânicas das barras e fios de aço para armaduras de


elementos estruturais em concreto armado são as indicadas na tabela 4.2, na qual
estão indicados os valores das resistências características de escoamento, os limites
de resistências, os alongamentos, os diâmetros dos pinos para ensaios de
dobramentos a 180o e os valores dos coeficientes de conformação superficial (b)
mínimos com vista ao cálculo da resistência de aderência.
Capítulo 4 - Propriedades mecânicas das barras de aço 75

Tabela 4.2 - Propriedades mecânicas de fios e barras de aço [ABNT NBR 7480:2007]
C Ensaio de
Ensaio de tração (valores mínimos) Aderência
A dobramento a 1800
T
Resistência Limite Alongamento Diâmetro de pino Coeficiente
E
característica de em 10 de
G
de resistência conformação
O (mm)
escoamento superficial()
R
mínimo para
I
fy (MPa) fst (MPa) (%)  < 20   20   10mm
A
CA-25 250 1,20 fy 18 2 4 1,0
CA-50 500 1,10 fy 8 4 6 1,5
CA-60 600 1,05 fy 5 5 - 1,5

A norma citada indica que no caso de barra com diâmetro igual ou maior do que
32mm da categoria CA-50 o diâmetro de dobramento precisa ser igual a 8.
Para os fios de aço da categoria CA-60 o limite de resistência mínimo é de
660MPa.
A tabela 4.2 indica que para diâmetros menores do que 10mm o coeficiente de
conformação superficial mínimo é igual a 1,0 (ABNT NBR 7480:2007).
4.4.4 Propriedades das barras e fios de aço com relação a aderência
Como já dito a existência do material concreto armado decorre da aderência
existente entre o concreto e as barras e fios de aço. Conforme será estudado no
capítulo 10 a aderência pode ser dividida qualitativamente em aderência por adesão,
aderência por atrito e aderência mecânica.
A adesão se dá por causa das ligações físicas e químicas nas interfaces dos dois
materiais durante as reações de pega do cimento.
O atrito é notado ao se aplicar uma força de tração em uma barra de aço em um
prisma de concreto convenientemente vinculado. A força de atrito depende do
coeficiente de atrito entre os dois materiais, que é função do coeficiente de rugosidade
superficial da barra, e decorre da pressão transversal que o concreto exerce na barra.
A aderência mecânica é em virtude da existência de nervuras na superfície da
barra. As barras lisas de aço categoria CA-25 também apresentam aderência mecânica
por causa das imperfeições geradas no processo de laminação da barra.
A resistência de aderência, de acordo com a ABNT NBR 6118:2014, é
quantificada pelo coeficiente de conformação superficial da barra (1), por um
coeficiente (2) que considera a posição da barra no elemento estrutural (zonas de boa
e de má aderência) e por um terceiro coeficiente (3) para considerar diâmetros
maiores do que 32,0mm. O produto desses três coeficientes é multiplicado pela
resistência de cálculo à tração do concreto, conforme será estudado no capítulo 10.
De acordo com a ABNT NBR 6118:2014 a conformação superficial é medida pelo
coeficiente 1, cujo valor está relacionado ao coeficiente de conformação superficial b
como estabelecido na tabela 4.3.
Tabela 4.3 - Relação entre 1 e b
Coeficiente de conformação superficial
Tipo de superfície b 1
[ABNT NBR 7480:2007] [ABNT NBR 6118:2014]
Lisa CA-25 1,0 1,00
Entalhada CA-60 1,5 1,40
Nervurada CA-50 1,5 2,25
76 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

4.4.5 Propriedades das barras e fios de aço para projetos

Pode-se adotar para massa específica do aço de armadura passiva o valor de


7850 kg/m3.
O valor 10-5/ºC pode ser considerado para o coeficiente de dilatação térmica do
aço, para intervalos de temperatura entre -20 ºC e 150 ºC.
Na falta de ensaios ou valores fornecidos pelo fabricante, o módulo de
elasticidade do aço pode ser admitido igual a 210 GPa = 210.000 MPa.
Para os cálculos de dimensionamento de seções transversais considerando o
Estado Limite Último – ELU e para os cálculos de verificação das seções transversais
com as hipóteses dos Estados Limites de Serviço – ELS, pode-se utilizar o diagrama
tensão - deformação simplificado mostrado na figura 4.3, para as barras de aço das
categorias CA-25 e CA-50 e para os fios de aço da categoria CA-60.

ss (MPa)

fyk
fyd

Es eS (‰)
eyd euk = 10‰
Figura 4.3 - Diagrama tensão - deformação para aços de armaduras passivas

A resistência de cálculo ao escoamento (fyd) é obtido de acordo com a ABNT NBR


6118:2014, considerando os critérios de segurança no Estado Limite Último, pelo
quociente da resistência característica ao escoamento (fyk) e o coeficiente de
minoração da resistência do aço (f) igual a 1,15, ou seja:

fyk f
fyd   yk [4.01]
 f 1,15

Esse diagrama é válido para intervalos de temperatura entre -20 ºC e 150 ºC e


pode ser adotado nos casos de barras tracionadas e comprimidas.
A deformação última (εud) que é considerada em projeto de elementos estruturais
de concreto armado (armadura passiva) é igual a:
1
%
1
0

1
0
m
m
/
m

    ‰ [4.02]
s
t

u
d

Embora as barras e fios de aço apresentem deformações últimas (εuk) maiores do


que esta, as normas limitam a esse valor em virtude da limitação das aberturas das
fissuras.
As deformações de escoamento de cálculo (εyd) para as barras e fios de aço
indicados na ABNT NBR 6118:2014 podem ser calculados considerando o módulo de
elasticidade do aço. A figura 4.4 mostra os diagramas tensão - deformação para as
barras de aço das categorias CA-25 e CA-50 e para os fios de aço CA-60.
Capítulo 4 - Propriedades mecânicas das barras de aço 77

ss (MPa) ss (MPa) ss (MPa)

fyk
fyk 522
435
fyk
217

s(‰) s (‰) s(‰)

1,03 10 2,07 10 2,49 10

CA-25 CA-50 CA-60

Figura 4.4 - Diagramas tensão - deformação para os aços da ABNT NBR 7480:2007
Quando as barras da armadura do elemento estrutural estiverem comprimidas,
para o cálculo das tensões, é preciso considerar as deformações últimas no concreto,
conforme indicado na equação 3.6, para concretos com resistências características à
compressão menores ou iguais a 50 MPa, e equação 3.7 no caso de concretos com
resistências características à compressão entre 55 MPa e 90 MPa.
Assim se o elemento estrutural for só comprimido, a deformação a considerar
para as barras de aço é igual a deformação de ruptura do concreto conforme equações
3.6 e 3.7, em função das resistências características do concreto à compressão.
No caso de barras comprimidas em elementos estruturais submetidos à ação
exclusiva de momento fletor (vigas) ou submetidos a flexo-compressão (pilares
submetidos à ação de força normal e momento fletor) a deformação a considerar nas
barras comprimidas depende do diagrama de deformações da seção transversal.
Os aços CA-25 e CA-50, que atendam aos valores mínimos de fyk/fstk e εuk
indicados na ABNT NBR 7480:2007, podem ser considerados como de alta ductilidade.
Os aços CA-60 que obedeçam também às especificações dessa Norma podem ser
considerados como de ductilidade normal.
Em ensaios de dobramento a 180°, realizados de acordo com a ABNT NBR
6153:1988 e utilizando os diâmetros de pinos indicados na ABNT NBR 7480:2007, não
pode ocorrer ruptura ou fissuração.
Para que um aço seja considerado soldável, sua composição deve obedecer aos
limites estabelecidos na ABNT NBR 8965:1985.
A emenda de barras de aço soldada precisa ser ensaiada à tração conforme o
indicado na ABNT NBR 8548:1984. A força de ruptura mínima, medida na barra
soldada, precisa satisfazer as condições estabelecidas na ABNT NBR 7480:2007 e o
alongamento sob ação de força tem que ser tal que não comprometa a dutilidade da
armadura. O alongamento plástico total medido na barra soldada precisa atender um
mínimo de 2%.
Nas verificações de segurança dos elementos estruturais submetidos a ações
cíclicas, caso das pontes, viadutos, vigas destinadas a receber pontes rolantes em
edifícios industriais etc., há necessidade de se verificar a fadiga da armadura. A ABNT
NBR 6118:2014 tem um capítulo próprio com os critérios de verificação da fadiga em
elementos estruturais.
As tabelas A.1 e A.-2 foram preparadas a partir da tabela 4.1 para facilitar o uso
em projeto de elementos estruturais em concreto armado, pois ás áreas das barras das
armaduras são determinadas em centímetros quadrados (cm2).
78 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

4.5 USO DAS BARRAS E DOS FIOS DE AÇO NAS ESTRUTURAS

4.5.1 Preâmbulo

Os Estados Limites Últimos dos elementos estruturais são atingidos por ruptura
do concreto e/ou por deformação plástica excessiva da armadura (barras ou fios de
aço), ou por instabilidade (caso de barras comprimidas e flexo-comprimidas).
As barras e fios de aço têm a finalidade de absorver as forças de tração que, junto
com as forças resultantes de compressão no concreto, equilibram o momento fletor
solicitantes, por exemplo, nas seções transversais de vigas e lajes de concreto armado.
As vigas e lajes além de solicitadas por momento fletor, que geram tensões
normais, também são solicitadas por força cortante, que geram tensões tangenciais.
O concreto tem resistência adequada em relação às tensões de compressão e
pequena resistência à tração. Assim, é necessário, nas regiões tracionadas dos
elementos estruturais, alojar barras ou fios de aço, com áreas convenientemente
calculadas para absorver as tensões de tração.
Como bem sabe o leitor as regiões dos elementos estruturais tracionadas e
comprimidas são definidas no diagrama de momentos fletores em vigas e pórticos, e
pelas curvas de isomomentos nas lajes.
No caso de seções transversais de vigas solicitadas por força cortante as tensões
de tração são absorvidas pelos estribos, que são armaduras em forma poligonal
alojados na seção transversal.

4.5.2 Disposição de barras de armaduras em vigas

Com os critérios da Mecânica das Estruturas podem-se desenhar os diagramas


dos esforções solicitantes – momento fletor, força cortante, momento torçor e força
normal atuantes nos pórticos e vigas, por exemplo solicitantes das estruturas de
edifícios.
Nas vigas, que são elementos estruturais lineares com força uniformemente
distribuída e concentrada, os esforços solicitantes atuantes, na maioria dos casos, são
solicitadas por momentos fletores e forças cortantes.
As áreas e os arranjos das barras da armadura longitudinal de tração na viga
dependem, portanto, do desenho do diagrama de momentos fletores. O mesmo ocorre
com as áreas e as distribuições dos estribos que dependem dos diagramas de forças
cortantes.
A figura 4.5 mostra as armações de protótipos de vigas de concreto armado
moldadas no Laboratório de Estruturas da Escola de Engenharia de São Carlos – USP,
que fizeram parte de um plano de pesquisa que estudou o comportamento de vigas de
concreto armado com relação à resistência força cortante, quando armadas com telas
soldadas.
Capítulo 4 - Propriedades mecânicas das barras de aço 79

a) Vista geral da armadura, notan- b) Vista geral da armação, observan-


do-se no piso do LE a fôrma da observando-se as barras longitude-
viga na região inferior, e, vendo-se no
piso do LE uma viga moldada
Figura 4.5 - Posições das barras das armaduras em viga de concreto armado
[Silva, R. C., 2003]

4.5.3 Disposição de barras de armaduras em lajes

As lajes dos edifícios são placas, isto é são elementos estruturais bidimensionais
(duas das dimensões – os lados são maiores do que a altura - espessura) sendo que a
força atuante é perpendicular ao plano médio. Os esforços solicitantes são calculados
pela Teoria das Placas Elásticas e são: momentos fletores, forças cortantes e
momentos torçores.
Programas computacionais elaboradas para a análise estrutural das lajes
fornecem esses esforços solicitantes.
Os momentos fletores solicitam a laje nas duas direções paralelas aos lados,
assim as armaduras são dispostas paralelas aos lados, como pode ser visto na figura
4.6. Na figura 4.6a observa-se o trabalho dos ferreiros colocando as barras da
armadura da laje. Notam-se também as fôrmas dos tramos de pilares instaladas, as
barras das armaduras longitudinais dos pilares que, depois da concretagem do
pavimento em destaque, serão emendadas com as barras do tramo seguinte.

a) Colocação das barras da b) armadura posicionada na laje e


armadura em laje maciça processo de concretagem

Figura 4.6 - Posições das barras das armaduras em laje maciça de concreto armado
Cortesia dos Engenheiros Adriano Gradella Robazza e Valter Mattos Junior,
AVR Engenharia, São Carlos - SP.
80 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

A figura 4.6b mostra as barras da armadura posicionadas, o processo de


concretagem da laje que, sendo que o lançamento do concreto é feito com bomba a
partir do caminhão betoneira. Dois dos operadores seguram a mangueira e o que
aparece no meio da fotografia maneja o vibrador de agulha com a finalidade de
homogeneização do concreto.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) Projeto de estruturas


de concreto. NBR 6118:2014. Rio de Janeiro, ABNT, 2014.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) Produto metálico –


Ensaio de dobramento semi-guiado – Método de Ensaio. NBR 6153:1988. Rio de
Janeiro, ABNT, 1988.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) Aço destinado a


armaduras para estruturas de concreto armado - Especificação. NBR 7480:2007. Rio
de Janeiro, ABNT, 2007.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) Barras de aço


destinadas a armaduras para concreto armado com emenda mecânica ou por solda –
Determinação da resistência à tração - Método de Ensaio. NBR 8548:1984. Rio de
Janeiro, ABNT, 1984.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) Barras de aço CA 42S


com características de soldabilidade destinadas a armaduras para concreto armado -
Especificação. NBR 8965:1985. Rio de Janeiro, ABNT, 1988.

PETRUCCI, E. G. R. Materiais para construção. 2.ed. Porto Alegre, Editora Globo,


1976.

SILVA, R. C. Vigas de concreto armado com telas soldadas: análise teórica e


experimental da resistência à força cortante e do controle da fissuração. São Carlos.
Tese (Doutorado) - Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) , Universidade de São
Paulo (USP).
5
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO
DE ELEMENTOS ESTRUTURAIS
SOLICITADOS POR MOMENTO
FLETOR
5.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS (27 de junho de 2016)

Os elementos estruturais são solicitados a flexão simples quando agem nas suas
seções transversais tensões normais geradas pelo momento fletor e tensões
tangenciais causadas pela ação da força cortante. Quando a força cortante não
ocorrer, pensando em um elemento estrutural linear submetido à ação exclusiva de
momento fletor, a flexão é dita pura.
A flexão é composta quando se tem as solicitações de força normal, momento
fletor e força cortante, sendo que o plano de ação do momento fletor é paralelo a um
dos lados quando a seção transversal é retangular. A força pode ser de compressão
(pilares) ou de tração (tirantes).
A flexão composta pode ser ainda normal ou oblíqua: normal quando o plano de
ação do momento fletor é paralelo a um dos lados da seção transversal, segundo um
dos eixos principais de inércia; oblíqua quando os planos de ações dos momentos
fletores não são paralelos aos lados da seção transversal, não contendo os eixos
principais de inércia.
O leitor sabe determinar os esforços solicitantes (momento fletor, força cortante,
força normal e momento torçor) em estruturas lineares (vigas e pilares) desde que se
conheçam as ações que agem nas barras, os momentos de inércia da seção
transversal, o módulo de elasticidade do material, as áreas das seções transversais e
os comprimentos das barras (comprimentos efetivos dos tramos das vigas e
comprimentos equivalentes dos tramos de pilares).
82 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

A Mecânica das Estruturas fornece critérios e procedimentos para as


determinações dos esforços solicitantes, porém na maioria dos textos os materiais que
compõem as estruturas, foram considerados homogêneos e de comportamento elástico
e linear. As barras de aço, que compõem as estruturas metálicas, são exemplos de
materiais homogêneos, não considerando as fissuras internas pré-formadas ou vazios
por deficiência de usinagem.
O concreto armado não pode ser considerado um material homogêneo de
comportamento linear, pois como ele é composto por concreto e por barras de aço,
apresenta comportamento de material heterogêneo – as tensões não são proporcionais
às deformações.
Como o concreto oferece pouca resistência às tensões de tração, quando a
tensão ultrapassa esta resistência, nos elementos estruturais fletidos há grande
probabilidade de ocorrerem fissuras e, se não houver um material resistente à tração,
ocorre a ruína do elemento. Sabe-se que o concreto resiste bem às tensões de
compressão, enquanto que a resistência à tração é da ordem de 10% da resistência à
compressão, nos casos de concretos da classe I da ABNT NBR 8953:1992. Assim, nas
regiões tracionadas é necessário dispor de barras de aço com a finalidade de resistir às
tensões de tração. As barras de aço também podem ser projetadas para resistir às
tensões de compressão como no caso de pilares e nas regiões comprimidas das vigas.
O trabalho conjunto desses dois materiais de comportamentos físicos diferentes
só é possível, de acordo com as suas várias propriedades, por causa da aderência que
é o fenômeno da ligação entre eles. A aderência ocorre em virtude da adesão entre os
dois materiais (por causa das propriedades de adesão do cimento), do atrito entre os
materiais e da aderência mecânica. Esta também ocorre em barras lisas (CA-25) e em
fios lisos (CA-60) e, principalmente, em barras com nervuras de aço CA-50 ou nos fios
entalhados de aço CA-60.
Como visto, o concreto armado é um material heterogêneo e, portanto, as
análises estudadas para materiais homogêneos não se aplicam a ele. Desse modo é
preciso analisar as resistências de seções transversais de elementos estruturais em
concreto armado, como sendo de material não homogêneo e com pequena resistência
à tração.
Em virtude da intensidade da tensão de tração em um elemento estrutural fletido,
caso das vigas, a seção transversal, na região entre a linha neutra e a borda mais
tracionada, pode apresentar fissuras, de tal modo que há uma diminuição na área da
seção transversal resistente, com diminuição da rigidez. O momento de inércia a
considerar, nos cálculos de verificações dos estados limites de serviço (ELS), estado
de deformação excessiva (ELS-DEF) e aberturas de fissuras (ELS-W), não pode ser
considerado como sendo o da seção integra, ou seja, sem levar em conta os efeitos
das fissuras.
Neste capítulo são estudados os casos de elementos estruturais submetidos à
ação de momento fletor. A resistência à ação da força cortante é analisada no capítulo
9, embora ocorram juntas, a menos nos casos de flexão pura que não ocorrem na
prática das estruturas em concreto armado, pois todos os elementos estruturais têm
peso próprio. Lembra-se que o peso próprio de elementos estruturais em concreto
armado são calculados com o peso específico aparente de 25 kN/m3, conforme indica a
ABNT NBR 6120:1980.
As tensões não são proporcionais às deformações e por ser pequena a
capacidade resistente à tração do concreto é preciso conhecer as várias situações em
que os elementos estruturais em concreto armado podem ser submetidos em virtude
das dimensões dos elementos estruturais e das intensidades das ações (Amaral,
1973).
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 83

5.2 ESTUDO EXPERIMENTAL DE VIGA DE CONCRETO ARMADO

5.2.1 PREÂMBULO

Nas várias especialidades das engenharias e, particularmente, na engenharia de


estruturas, os projetos são feitos com base em procedimentos indicados em normas
técnicas, que reúnem os procedimentos práticos comprovados e adotados por
engenheiros e pesquisadores. A prática, por vezes, é baseada em análises
experimentais acerca do comportamento de elementos estruturais e, também, do
comportamento da própria estrutura.
Neste capítulo analisam-se os resultados de ensaio de viga de concreto armado
que fez parte do programa da disciplina SET 411 – Concreto Protendido. O ensaio foi
feito no Laboratório de Estruturas do Departamento de Engenharia de Estruturas da
Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo, pelo Professor
Toshiaki Takeya, em 2007.
Ao se planejar o ensaio é preciso pensar o que se quer observar, como proceder
e procurar associar as condições de contorno com as análises teóricas. Assim, os
apoios do protótipo tem que representar aqueles considerados na análise teórica, as
forças aplicadas e suas posições no elemento estrutural precisam ser tais que
permitam a análise.
As forças concentradas foram aplicadas em seções transversais distando dos
apoios 1,25 m (aproximadamente a medida do vão efetivo dividido por 3), assim, tem-
se um trecho central no qual, desprezando-se a solicitação de força cortante por ser de
pequena intensidade, estas seções ficam solicitadas apenas por momento fletor,
conforme se observa na figura 5.1.
As condições de contorno são as conhecidas da Mecânica das Estruturas, ou
seja, uma rótula fixa e outra móvel, sendo que os apoios são considerados
indeslocáveis na direção vertical.
Como se quer observar o comportamento da viga de concreto armado em todas
as suas fases, as forças concentradas (Fi) variam de intensidades zero (Fi = zero), ou
seja, a viga estava submetida à força uniformente distribuída de peso próprio, até
aquela força que provoca a ruína da viga (Fi = Fu).
A viga é de concreto armado, ou seja, constituída de concreto (que resiste bem às
tensões de compressão) e de barras de aço (que resistem bem às tensões de tração) a
ruína da viga pode ocorrer de três modos diferentes:

a.- escoamento das barras da armadura longitudinal de tração (deformações


maiores que as deformações de escoamento) sem ruptura do concreto;

b.- escoamento das barras da armadura longitudinal de tração (deformações


maiores que as deformações de escoamento) e simultânea ruptura do concreto
comprimido (deformações maiores que as deformações de ruptura do concreto); e,

c- ruptura do concreto comprimido sem que ocorram deformações excessivas das


barras da armadura (deformações no concreto comprimido maiores do que as
deformações de ruptura e deformações nas barras de aço menores que as
deformações de escoamento).

Os aspectos do dimensionamento de elementos estruturais de concreto armado


solicitados por momento fletor serão estudados no capítulo 6.
Com essas informações em mente, se faz o projeto do protótipo de viga de
concreto armado para que a análise experimental contemple todas as etapas do ensaio
sem que ocorra ruína prematura por solicitação de força cortante.
84 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

5.2.2 VIGA DE CONCRETO ARMADO ANALISADA EXPERIMENTALMENTE

A figura 5.1 mostra a viga analisada experimentalmente, observando-se que as


seções transversais entre as forças concentradas variáveis ficam solicitadas
praticamente por momento fletor e não por força cortante, por ser pequena a influência
da força uniformente distribuída de peso próprio. As seções transversais entre essas
forças concentradas e os apoios estão submetidas a tensões normais por solicitação
do momento fletor e por tensões tangenciais por solicitação de força cortante. Os
trechos entre as forças e os apoios medem 125 cm e entre as forças a medida é igual a
130 cm. O vão efetivo da viga, neste caso a distância entre os centros dos apoios, é
igual a 380 cm sendo o comprimento total da viga igual a 400 cm. A altura da viga (h) é
igual a 30 cm. Como a viga tem seção I, as medidas das mesas de compressão (bfc) e
de tração (bft) são iguais a 20 cm e a espessura da alma (bw) é igual a 4 cm, conforme
pode ser observado na figura 5.2.
A região de observação do comportamento da viga quanto às tensões normais é
a que contém as seções transversais entre as forças concentradas, e, a de observação
das tensões tangenciais são as seções nos trechos entre as forças e os apoios.
F F

10 125 130 125 10

400

MS

_
VS

Figura 5.1 - Viga de concreto armado simplesmente apoiada [Takeya, 2007]

O protótipo de viga foi dimensionado para que a ruína ocorresse por escoamento
das barras de aço da armadura e não por ruptura à compressão do concreto, em face
desta ser uma ruína frágil. A ruína por escoamento das barras da armadura ocorre com
fissuração intensa e sem ruptura do concreto na região comprimida, assim, em uma
estrutura real, é possível perceber patologias por causa das fissuras e dos
deslocamentos (flechas).
A figura 5.2 mostra os desenhos da seção longitudinal (figura 5.2a) e seção
transversal (figura 5.2b) da viga protótipo. Apresentam, ainda, os detalhes das barras
das armaduras longitudinais (3  6,3 mm) junto da face comprimida, que são barras de
montagem, para que os estribos não saiam das suas posições durante a concretagem,
e 3  12,5 mm na face tracionada) e transversais (estribos constituídos por 2 barras de
diâmetro (  ) 6,3 mm posicionados a cada 15 cm) com a finalidade de absorver as
tensões de tração oriundas da solicitação por força cortante. Essas barras são da
categoria CA-50.
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 85

N2 - 3 Ø 6,3mm

N1 - 3 Ø 12,5mm

N3 - 2 x 26 Ø 6,3mm a cada 15cm

a) Seção Longitudinal

3 3

N2

N3
30

18

N1
3 3

8 8 N3 - Ø 6,3mm
2,25
4

20

b) Seção Transversal
Figura 5.2 - Detalhamento das barras das armaduras da viga de concreto armado
[Takeya, 2007]

O protótipo de viga de concreto armado foi moldado com concreto tal que a
dosagem em massa (peso) foi 1:2,7:3,7:a/c = 0,6, relativas às quantidades de cimento,
areia, pedra britada e fator água/cimento, respectivamente. As resistências médias
foram obtidas por ensaios de corpos-de-prova cilíndricos de 15 cm de diâmetro e 30 cm
de altura. Para determinar a dosagem do concreto as resistências estimadas foram de
25 MPa aos sete dias e 30 MPa aos 28 dias de idade.
A figura 5.3 mostra a proposta de instalação da viga no pórtico de aço para o
ensaio, as vinculações do pórtico na laje de reação, os macacos hidráulicos, apoiados
em prismas de concreto armado, e, as células de carga para medidas das forças
aplicadas.

Pórtico de aço

Apoio de neoprene

Viga de concreto em ensaio

Célula
de carga

Macaco
hidráulico

Laje de reação de concreto

a) Vista Longitudinal b) Vista Transversal

Figura 5.3 - Instalação do protótipo no pórtico de ensaio;


a) vista longitudinal e b) vista transversal [Takeya, 2007]
86 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

A figura 5.4 apresenta a proposta de instrumentação vendo-se na seção


longitudinal (figura 5.4a) as posições dos transdutores para medidas dos
deslocamentos verticais (flechas) e as instalações dos extensômetros elétricos: seção
transversal. A (figura 5.4b) mostra as posições de extensômetros instalados nos
estribos e, na seção transversal B os extensômetros instalados na face comprimida da
viga, com a finalidade de medir as deformações de compressão (  cc ) e nas barras das
armaduras longitudinal (  st ) para medir as deformações de tração (figura 5.4c). Estas
deformações permitem determinar as posições da linha neutra em cada etapa do
ensaio.

A B

Transdutor
de
deslocamento

10 62,5 127,5 190 10

a) Seção Longitudinal
Extensômetros
no concreto

Extensômetros
no estribo

Extensômetros na
armadura
longitudinal

b) Seção Transversal A c) Seção Transversal B

Figura 5.4 - Instrumentação do protótipo de viga de concreto armado [Takeya, 2007]

A figura 5.5 mostra o protótipo de viga de concreto armado em etapa de ensaio


próxima da que ocorreu a ruína, observando-se os macacos hidráulicos que aplicam as
forças e os pórticos metálicos de apoios do protótipo. A viga é de seção I, com seções
retangulares nas regiões dos apoios em face destas serem as regiões em que ocorrem
as forças de reações.
Como pode ser visto na figura 5.5, a viga foi ensaiada com a face tracionada
voltada para cima permitindo melhor acompanhamento das fissuras nas várias etapas
dos ensaios. Os macacos foram apoiados em prismas de concreto armado que, por
suas vezes, foram apoiados na laje de reação (com 1,1m de espessura) do LE-EESC-
USP. Os pórticos de reação ficam, assim, submetidos a forças de tração.
Os apoios da viga precisam representar no protótipo aqueles considerados na
análise teórica, ou seja, rótulas (uma fixa e outra móvel). Isso se faz com os
posicionamentos nas seções consideradas para os apoios (distantes 10 cm das faces
esquerda e direita, conforme figura 5.1) de cilindros de aço posicionados entre placas
de aço. É possível usar nessas seções elementos de neoprene, que são constituídos
de borracha fretada por chapas de aço (furadas), permitindo os giros e o deslocamento
horizontal.
Os apoios da viga podem ser considerados indeslocáveis em face da rigidez da
laje de reação e dos pórticos de reação.
A figura 5.5 mostra o panorama da fissuração em etapa próxima da etapa de
ruína, porém as fissuras vão ocorrendo com o aumento das forças aplicadas pelos
macacos hidráulicos em cada etapa do ensaio. As fissuras nas seções transversais
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 87

entre as forças concentradas são perpendiculares à face tracionada e as fissuras nas


seções de aplicações de forças e os apoios são inclinadas, mostrando o efeito do
momento fletor “puro” e das solicitações conjuntas de momento fletor e força cortante,
respectivamente.
Na seção transversal central da viga observa-se que foi instalado um
defletômetro, que é um aparelho eletrônico que mede os deslocamentos da viga nesta
seção. Também foram instalados dois defletômetros nas seções de apoios da viga,
com a finalidade de medir deslocamentos que podem ocorrer em virtude das
deformações dos aparelhos de apoios.

Figura 5.5 - Viga de concreto armado em etapa de ensaio no LE – EESC – USP


[Takeya, 2007]

Os equipamentos de medidas foram todos ligados a um computador que


monitorava o ensaio em cada etapa de aplicação das forças (Fi).

5.2.3 ETAPAS DO ENSAIO DO PROTÓTIPO DE VIGA DE CONCRETO ARMADO

A fotografia da figura 5.6 mostra o protótipo de viga de concreto armado de seção


transversal I instalado no pórtico de ensaio na fase antes de aplicação de forças pelos
macacos hidráulicos.
O ensaio do protótipo de viga de concreto armado foi iniciado com as medidas de
todas as deformações e deslocamentos relativas às forças nos macacos iguais a zero;
nesta etapa os macacos aplicam forças iguais à metade da força resultante de peso
próprio da viga que é igual ao produto do volume de concreto ( A c   ) multiplicado pelo
peso específico do concreto armado (25 kN/m3).
Observa-se que, portanto, como não há força aplicada de intensidade maior do
que a referida no parágrafo anterior, a viga não apresenta deformações e
deslocamentos. Nas figuras 5.7, 5.8, 5.9 e 5.10 essa etapa é a relativa à origem dos
eixos cartesianos x e y.
88 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

Figura 5.6 - Protótipo de viga de concreto armado em fase inicial do ensaio


[Takeya, 2007]

Aplicando-se ao protótipo força inicial (F1) nos macacos o momento fletor


solicitante (M1) é igual ao produto desta força pela distância destas até os apoios
(1,25 m), conforme figura 5.1. Nos casos em que os momentos fletores solicitantes em
cada etapa de aplicação de força forem menores que o momento de fissuração (Mr) há
pequena probabilidade de ocorrer fissuras na viga.
Observando-se as figuras 5.7, 5.8 e 5.9 notam-se que os deslocamentos verticais
e as deformações nas barras da armadura de tração aumentam com o aumento das
forças aplicadas no protótipo. Os diagramas de tensões, tanto na região tracionada
como na comprimida, podem ser considerados lineares, situações nas quais os
comportamentos dos materiais são elásticos (ver figura 5.13).
Em uma fase seguinte do ensaio, pode ser observado que na região tracionada o
comportamento não é mais linear, ocorrendo plastificação desta região, situação em
que as fibras tracionadas ficam submetidas à mesma intensidade de tensão de tração,
com exceção da região próxima da linha neutra (ver figura 5.13). O concreto na região
tracionada apresenta tensões de tração (σct) muito próximas da resistência à tração do
concreto (fct).
Essas fases de comportamento são chamadas de Estádios Ia e Ib,
respectivamente, ou seja:

Estádio Ia – etapa do comportamento da viga em que não há fissuras na região


tracionada, os diagramas de tensões são lineares, e as tensões de tração (σct) são
menores do que a resistência à tração do concreto (fct);

Estádio Ib – etapa do comportamento da viga em que há grande probabilidade de


se iniciar o processo de aparecimento de fissuras; na região tracionada, o diagrama de
tensões não é linear, havendo a plastificação do concreto tracionado (  ct  fct ).
Aumentando-se a intensidade do momento fletor solicitante (aumentando-se as
forças aplicadas no protótipo), observa-se nas figuras 5.7, 5.8 e 5.9 que, para a força
4
,
0
1
,
2
5
5
,
0
k
N
m

de 4,0 kN e momento fletor de   , há perda de rigidez da viga,


definida pela mudança de direção dos segmentos de retas (figuras 5.7, 5.8 e 5.9), pois
ocorreu uma fissura na região tracionada da viga e a tensão de tração (σct) ficou maior
do que a resistência à tração do concreto (fct). Na figura 5.11a observa-se a formação
das fissuras causadas pela solicitação de momento fletor, nas seções transversais
entre aquelas em que se aplicam as forças concentradas.
Como não há material (concreto) na região da fissura, as tensões de tração são
absorvidas pelas barras da armadura, exclusivamente. Nas regiões da viga entre
fissuras as tensões de tração são absorvidas pelo concreto e pelas barras de aço.
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 89

50

40
Força aplicada (kN)

30

Experimental
Teórico

20

SET 411 Concreto Protendido


maio/2007
10 Ensaio de viga de concreto armado
Flecha do meio do vão

0
0 10 20 30 40 50 60 70 80
Flecha (mm)

Figura 5.7 – Diagrama força aplicada na viga – deslocamentos verticais


[Takeya, 2007]

50

40

1
Força aplicada (kN)

2
30 3
Média
Teórico

20

SET 411 Concreto Protendido


Maio/2007
10 Ensaio de viga de concreto armado
Deformações da armadura

0
0 2.000 4.000 6.000 8.000 10.000
6
Deformação (x10 )

Figura 5.8 - Diagrama força aplicada na viga – deformações nas barras da armadura
longitudinal [Takeya, 2007]
90 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

50

40

Força aplicada (kN)


1 30
2
3
Média
Teórico 20

SET 411 Concreto Protendido


Maio/2007
Ensaio de viga de concreto armado 10
Deformações do concreto comprimido

0
-2.500 -2.000 -1.500 -1.000 -500 0
6
Deformação (x10 )

Figura 5.9 - Diagrama força aplicada na viga – deformações no concreto na borda


comprimida [Takeya, 2007]
50

40
Força aplicada (kN)

30

1
2
Média
20 Teórico - modelo I
Teórico - modelo II

SET 411 Concreto Protendido


10 Maio/2007
Ensaio de viga de concreto armado
Deformações dos estribos

0
-250 0 250 500 750 1.000 1.250 1.500

Deformação (x106)

Figura 5.10 - Diagrama força aplicada na viga – deformações nos estribos verticais
[Takeya, 2007]

Com acréscimos nas intensidades da forças (Fi) há, portanto, aumento dos
módulos dos momentos fletores, e, as regiões entre fissuras apresentam novas
fissuras, pois as tensões de tração são maiores do que a resistência à tração do
concreto. A figura 5.11a mostra que as fissuras anteriormente formadas têm seus
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 91

comprimentos (diminuição da profundidade da linha neutra) e as aberturas (w)


aumentadas.
Nas etapas seguintes do ensaio do protótipo de viga, com aumento nas
intensidades dos momentos fletores, há majoração das deformações no concreto na
face comprimida e nas barras da armadura tracionada, praticamente não havendo
contribuição do concreto íntegro entre fissuras. Assim, as novas fissuras são formadas
e as já formadas apresentam aumento de comprimento, com diminuição da
profundidade da linha neutra (x), conforme se pode observar nas figuras 5.7, 5.8, 5.9, e
5.11a.
Fissuras inclinadas começam a se formar nas seções transversais contidas entre
as seções transversais dos apoios e aquelas em que se aplicam as forças. Isto ocorre
por causa da solicitação das forças cortantes de maiores intensidades junto aos apoios
(observar as figuras 5.10, 5.11b e 5.11c). A análise da segurança de seções
transversais solicitadas por força cortantes é feita no capítulo 9.
Analisando as figura 5.7, 5.8 e 5.9 nota-se que com aumento das intensidades
das forças e dos momentos fletores, ocorrem aumentos nas deformações, com
consequentes aumentos das tensões na face comprimida da viga e nas barras das
amaduras. A figura 5.7 mostra que há aumento dos deslocamentos das seções
transversais da viga. Por conseguinte as rotações das seções transversais também
aumentam. Nas figuras 5.7, 5.8 e 5.9 observam-se que para forças iguais a 40 kN há
mudanças nas inclinações das curvas quando se tem uma situação em que as
deformações nas barras da armadura tracionada (  st ) ficaram maiores do que a
deformação de escoamento das barras (  y ).
Essa fase de comportamento definida por solicitação de momentos fletores
maiores do que o momento de fissuração (Mr) e menores daqueles momentos fletores
que provocam o início do escoamento das barras da armadura, é chamada de Estádio
II (ver a figura 5.13), ou seja:

Estádio II – etapa do comportamento da viga em que há fissuras na região


tracionada, o diagrama de tensões de compressão é linear, as tensões de tração nas
barras da armadura (σst) são menores do que a resistência de escoamento das barras
(fy); lembra-se que fy depende da categoria das barras (CA-25 e CA-50) e de fios de
aço (CA-60).

Aumentando-se as forças (Fi) aplicadas no protótipo, observa-se que ocorrem


aumentos das deformações no concreto junto à face comprimida e das deformações de
tração nas barras da armadura (  st   y ); analisando a figura 5.13 nota-se que a
profundidade da linha neutra (x) diminui e o equilíbrio ocorre com aumento da tensão
de compressão e com o aumento do braço de alavanca (z), isto é, a distância entre as
forças resultantes de tração nas barras da armadura (Rst) e de compressão no concreto
entre a face comprimida e a linha neutra (Rcc). Como as deformações nas barras da
armadura são maiores do que as de escoamento, conforme se observa na figura 5.8, a
força resultante das tensões de tração nas barras da armadura ( R st  A st  f y ) não tem
seu módulo aumentado, permanecendo constante, pois Ast é constante e fy não
aumenta. Assim, o equilíbrio ocorre pelo aumento da força de compressão
( R cc  A cc   cc ), ou seja, com o aumento da tensão no concreto, que ainda é menor do
que a resistência do concreto à compressão (fc). Com a diminuição da profundidade da
linha neutra (x) por causa do aumento dos momentos solicitantes, o braço de alavanca
(z) aumenta, aumentando o módulo do momento resistente.
Na etapa de ensaio em que a tensão no concreto junto à face comprimida (σcc)
está próxima da resistência à compressão do concreto (fc) há grande probabilidade de
92 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

ocorrer à ruptura do concreto comprimido. Com pequeno aumento na intensidade da


força aplicada ocorre a ruína do protótipo, por ruptura do concreto, ou seja, como o
modelo é simplesmente apoiado, com rótulas nas extremidades, a ruína se dá pela
formação de uma terceira rótula na seção transversal em que há a ruptura do concreto
(observar as figuras 5.7, 5.8, 5.9 e 5.10). Essa situação é chamada de Estádio III, ou
seja:

Estádio III – etapa do comportamento da viga em que ocorre a ruína por ruptura
do concreto.

O mecanismo de ruína ocorre como explicado, com a formação de uma terceira


rótula, na seção transversal em que ocorreu a ruptura do concreto. A ruína ocorre com
intensa fissuração na região central da viga, entre as seções de aplicação das forças
concentradas.

a) região central da viga

b) região do lado esquerdo da viga c) região do lado direito da viga

Figura 5.11 - Vistas das regiões central, esquerda e direita da viga depois da ruína
 Takeya, 2007]

As observações feitas nas várias etapas dos ensaios e considerando a figura 5.11
é possível desenhar a figura 5.12. Nas primeiras etapas de aplicação das forças as
fissuras ocorrem nas seções transversais entre aquelas em que as forças concentradas
atuam; as fissuras apresentam pequenas aberturas e profundidades (figura 5.12a).
Aumentando-se as intensidades das forças as aberturas e as profundidades aumentam
de tamanhos, e, fissuras começam a surgir nas seções transversais contidas entre as
de aplicação das forças e os apoios. Estas fissuras são inclinadas em relação ao eixo
da viga, em virtude da solicitação das forças cortantes (figura 5.12b). Em etapas
seguintes as fissura aumentam em quantidade, aberturas e profundidades até a etapa
do ensaio próxima da etapa de ruína (figura 5.12c).
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 93

F F

a)

F F

b)

F F

c)
Figura 5.12 - Desenhos das fissuras observadas nas várias etapas do ensaio
[Takeya, 2007]

5.3. ESTÁDIOS ELÁSTICOS DO CONCRETO

5.3.1 PREÂMBULO

Conforme estudado na seção 5.2 foram analisadas as várias situações que uma
viga de concreto armado pode apresentar em face da intensidade do momento fletor.
Também influem as dimensões da seção transversal da viga, largura (bw) e altura (h),
por vezes estas medidas são adotadas para compatibilizar o projeto estrutural com o
projeto arquitetônico. Assim, qualquer um dos estádios pode ocorrer nas várias seções
transversais da viga que se analisa na fase de projeto.
Por causa das intensidades dos momentos fletores nas várias seções
transversais da viga (figura 5.1), estas seções podem apresentar deformações e
tensões de acordo com os 3 estádios analisados. As seções transversais da região
central da viga podem apresentar situações de iminência de ruína por ruptura do
concreto (Estádio III) e, nas regiões próximas dos apoios, as seções transversais
podem estar em situação de Estádio I em virtude das deformações e tensões serem de
pequenas intensidades, conforme diagrama de momentos fletores da figura 5.1.
Os projetos das vigas, como também dos outros elementos estruturais, precisam
atender as hipóteses dos estados limites últimos (de ruína) quanto às condições de
segurança estrutural, conforme será estudado no capítulo 5.
Também precisam ser atendidas as condições dos estados limites de serviço que,
no caso de elementos fletidos de concreto armado são: ELS-F – estado-limite de
formação de fissuras, sendo que com as hipóteses do Estádio Ib calcula-se o módulo
do momento de fissuração; ELS-DEF – estado-limite de deformação excessiva, as
hipóteses do Estádio II permitem os cálculos dos deslocamentos; e, ELS-W – estado-
limite de aberturas de fissuras, que são verificadas com base nas hipóteses do Estádio
II. Lembra-se que de acordo com a ABNT NBR 6118:2014 as verificações dos estados
limites de serviço se fazem com as hipóteses dos estádios I e II.
Assim, é de suma importância o estudo das hipóteses dos estádios de
comportamento de uma viga de concreto armado conforme analisado na seção 5.2.
94 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

5.3.2 ESTÁDIOS DE COMPORTAMENTO DE UMA VIGA DE CONCRETO ARMADO

No ensaio do protótipo de viga de concreto armado (Takeya, 2007) observaram-


se as várias etapas do ensaio em que se variaram as intensidades das forças
aplicadas. Agora, considerando uma viga de seção retangular, conforme figura 5.13,
podem-se desenhar os diagramas de deformações e de tensões de acordo com os
vários estádios de comportamento da seção transversal mais solicitada.
Observando a figura 5.13 tem-se que:

bw é a medida da largura da viga;

h é a medida da altura da viga;

d é a altura útil, isto é, a distância entre a face comprimida e o centro


geométrico das barras da armadura de tração;

d' é a distância do centro geométrico das barras das armaduras longitudinais


até as bordas da viga – d'sc das barras comprimidas e d'st das barras tracionadas;

A st
 st  é a taxa geométrica das barras da armadura de tração;
Ac

Ast é a área das barras da armadura de tração;

Asw é a área das barras da armadura transversal – estribos;

A sc
 sc  é a taxa geométrica das barras da armadura de compressão;
Ac

Ac é a área da seção transversal da viga igual ao produto b w  h ;

Asc é a área das barras da armadura de compressão;

x é a medida da profundidade da linha neutra;

z é a medida do braço de alavanca.

As medidas da seção transversal são pré-dimensionadas usando critérios de


projeto estrutural e as áreas das barras das armaduras (Ast e Asc) são dimensionadas
considerando as hipóteses dos estados limites últimos – ELU, conforme estudado no
capítulo 5.
A figura 5.13 apresenta os diagramas de deformações e tensões para cada
estádio de comportamento da seção transversal da viga e solicitada por momento fletor
(MS).
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 95

A sc cc cc<< fc cc cc<< fc cc cc ~= 0,5fc cc cc ~= fc

Asw Rcc

MS x1
d h z

Rst

bw ct st st < fy st st < f y


A st ct < fct ct ct ~= fct

Estádio Ia Estádio Ib

Estádio I Estádio II Estádio III

Figura 5.13 - Viga de concreto armado solicitada por momento fletor variável

De acordo com as observações feitas durante o ensaio do protótipo de viga de


concreto armado relatam-se, a seguir, as propriedades de cada estádio.

5.3.2.1 Estádio I

O Estádio I corresponde a situação em que a viga não apresenta fissuras na


região tracionada, ou seja, a seção transversal está íntegra. Isso ocorre para pequeno
módulo de momento fletor, quando as forças atuantes na viga são de pequenas
intensidades. Assim, o concreto da região tracionada, entre a linha neutra (x) e a borda
mais tracionada (h), resiste às tensões de tração. As barras da armadura posicionadas
na região tracionada também contribuem para absorver as tensões de tração
(aderência) geradas pela ação do momento fletor (MS).
Na região comprimida, o diagrama de tensões é linear e tem continuidade com o
diagrama de tensões de tração, conforme figura 5.13.
Quando as tensões de tração (  ct ) ficam próximas da resistência à tração do
concreto ( fct ), por causa do aumento do momento fletor, que se dá por aumento das
intensidades da força atuantes, não há a proporcionalidade entre as tensões de tração
e as deformações. Assim, ocorre a plastificação do concreto na região tracionada,
onde, as fibras passam a ter praticamente as mesmas tensões ao longo de toda a
região, diminuindo de intensidade nas proximidades da linha neutra (ver figura 5.13).
O Estádio I pode, então, ser subdividido nos Estádio Ia (linearidade das tensões
de tração) e Estádio Ib (iminência da ruptura do concreto à tração).
No Estádio Ia o concreto resiste às tensões de tração e compressão e o regime é
elástico e linear, ou seja, as tensões são proporcionais às deformações, conforme
figura 5.13.
No Estádio Ib o concreto está na iminência de ruptura à tração, nas regiões entre
a linha neutra e a face mais tracionada. Na região comprimida o regime de
deformações é elástico e linear, ou seja, as tensões são proporcionais às deformações
conforme figura 5.13. Conforme já estudado no capítulo 3, a resistência à tração do
concreto é aproximadamente igual a 1/10 da resistência à compressão, ou seja,
fct  0,1 fc , para os concretos da classe I.
96 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

No estádio Ib, quando ocorre a primeira fissura, a tensão de tração é absorvida


pelas barras da armadura por causa da compatibilidade das deformações.
Em virtude da aderência entre as barras de aço e o concreto, as intensidades das
tensões de tração no concreto diminuem, assim, as forças resultantes nos dois
materiais podem ser relacionadas pelo parâmetro (  e  E s / E c ), sendo que Es é o
módulo de elasticidade das barras de aço e Ec é o módulo de elasticidade do concreto.
Com esse conceito, as tensões nas barras de aço são iguais as tensões no concreto no
entorno multiplicada por αe, isto é,  st   e   ct e  sc   e   cc .

5.3.2.2 Estádio II

No Estádio II, também chamado de estádio de fissuração, a resistência à tração


do concreto foi ultrapassada nas fibras tracionadas mais afastadas da linha neutra, pois
MS  Mr e  ct  fct , e, portanto, as fissuras são inevitáveis. São consideradas somente
as tensões de compressão no concreto, desprezando as contribuições das áreas da
seção de concreto correspondente à zona de tração. A resistência à tração é de
responsabilidade das barras de aço, posicionadas na região de tracionada.
O diagrama de tensões é aproximadamente linear na região comprimida,
conforme indicado na figura 5.13. O momento fletor solicitante (MS), relativo a situação
de estádio II da viga, faz com que as seções transversais fiquem submetidas a tensões
de compressão da ordem de 50% da resistência à compressão do concreto
(  cc  0,5  fc ), portanto aquém da capacidade última do concreto.
As forças resultantes nas barras da armadura de tração (Rst) e no centro
geométrico do prisma que representa a distribuição de tensões de compressão (Rcc)
são calculas por:
1 M
R cc  A cc   cc  b w   x   cc  R [5.01]
2 z

MR
R st  A st   st  [5.02]
z

sendo que:

Acc é a área da região comprimida da viga;

σcc é a tensão na borda mais comprimida da seção transversal da viga;

σst é a tensão nas barras da armadura de tração;

MR é o momento resistente da seção transversal;

1
z  d  x , no caso de distribuição triangular de tensões de compressão.
3

Considerando o equilíbrio da seção transversal em análise tem-se que MR  MS .


Conforme visto na análise dos resultados do ensaio, seção 5.2, há perda de
rigidez da viga por ocorrência das fissuras. A profundidade da linha neutra é menor no
estádio II do que a calculada com as hipóteses do estádio I (ver figura 5.13).
As vigas de concreto nas situações de serviço (de utilização plena), apresentam
deformações e tensões compatíveis com as hipóteses do Estádio II, que são as
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 97

consideradas nas verificações de segurança do elemento estrutural em serviço


(Estados Limites de Serviço). As verificações das deformações permitem os cálculos
dos deslocamentos e, por conseguinte, das flechas e dos valores das aberturas das
fissuras, conforme estudado no capítulo 13.

5.3.2.3 Estádio III

No Estádio III, também chamado de estádio de ruptura, o concreto comprimido é


considerado no limite da capacidade resistente total, isto é, na iminência da ruptura. O
concreto, ao atingir a tensão igual à resistência de ruptura na região junto à borda
comprimida, apresenta grande probabilidade de romper. O diagrama de tensões de
compressão é curvo, em virtude da plastificação do concreto, conforme indicado na
figura 5.13. A distribuição das tensões de compressão é considerada, conforme
indicação da ABNT NBR 6118:2014, com variação representada por uma curva
parábola – retângulo.
No Estádio III, a exemplo do que se fez no Estádio II, as tensões de tração não
são consideradas, pois as suas intensidades são maiores do que a resistência do
concreto à tração, fissurando-o, portanto. As tensões de tração são absorvidas pelas
barras da armadura. Esta situação ocorre quando a taxa de armadura de tração não é
maior que um valor limite, que permita o escoamento das barras da armadura, isto é, a
tensão nas barras (σst) não é maior do que a resistência de escoamento (fy).
Conforme analisado na seção 5.2, em que se acompanhou o comportamento
durante o ensaio de uma viga de concreto armado, a fissuração é intensa e os
deslocamentos são de grande intensidade. De acordo com os critérios da ABNT NBR
6118:2014 os estados limites de serviço ELS-W e ELS-DEF foram atingidos.
O equilíbrio da seção transversal ocorre com diminuição da profundidade da linha
neutra e, portanto, com aumento da medida do braço de alavanca, a região comprimida
vai diminuindo até que ocorra a ruptura do concreto comprimido, desagregando-o,
assim, tem-se a ruína da viga. Como a tensão nas barras da armadura tracionada é
maior que a resistência de escoamento, a força de tração nas barras permanece
constante e a resistência da viga aumenta por causa do aumento do braço de
alavanca.
Na figura 5.13, nos diagramas de deformações e tensões considerando o Estádio
III, z se refere a medida entre as forças resultantes das tensões nas barras da
armadura tracionada até a força resultante das tensões de compressão no concreto,
não considerando a força resultante das tensões nas barras comprimidas.
Este tipo de ruína é definido como dúctil, pois ela ocorre com deformações nas
barras da armadura maior do que a de escoamento (εst > εy) e no concreto maior do
que a de ruptura na flexão (εcc > εcu = 3,5‰), no caso de resistência característica à
compressão do concreto menor ou igual a 50 MPa.
Com os critérios de verificação da segurança do estado-limite último por
solicitação de momento fletor, segundo a ABNT NBR 6118:2014, o Estádio III
corresponde, na parte relativa à ruptura do concreto, ao domínio 3 de deformação,
como estudado no capítulo 6.

5.3.3 RELAÇÕES ENTRE O MÓDULO DO MOMENTO RESISTENTE E A


CURVATURA DA VIGA

Nas etapas do ensaio da viga da seção 5.2 e na análise teórica feita na seção
5.3.2 é possível associar o momento resistente da viga (MR) com a curvatura da viga
(θ), calculada com a posição deformada, segundo figura 5.14b.
Analisando o diagrama de deformações pode-se escrever:
98 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor


tg    [5.03]
u

sendo que:

ε é a deformação unitária da seção transversal estudada; e,

u é a medida da distância da fibra que tem deformação ε até a linha neutra.

Considerando que a seção plana permanece plana depois da deformação, pode-


se escrever as equações 5.04 e 5.05 tomando por base a equação 5.03:

 st
 [5.04]
dx

 CC
 [5.05]
x

Conforme visto na seção 5.2, é possível desenhar o diagrama momento resistente


(MR) – curvatura (θ), figura 5.14a, observando-se as várias etapas do comportamento
da viga com relação ao aumento gradativo do módulo do momento solicitante (MS).

MR
Mu
E
D 0

MS MS
Mser C x
L.N
.
h-x
Mr B
A ct
O 0

a) b)
Figura 5.14 - Diagrama momento resistente (MR) – curvatura (  ) de uma viga de
concreto armado [adaptada de desenho de Orler e Donini (2007)]

Considerando distribuição linear das deformações (ε), estas são diretamente


proporcionais às distâncias da fibra à linha neutra (y) e, portanto, o valor da curvatura
(θ) é constante para cada valor do momento fletor (MS).
Na figura 5.14a pode-se observar que:

- os segmentos de retas OA e AB apresentam ângulos de inclinação maiores,


em virtude da maior rigidez da viga (Estádio I), por ser uma situação da viga em que
não há fissuras aparentes;

- nos trechos BC e CD os ângulos de inclinações são menores em relação ao


trecho inicial por causa das fissuras (Estádio II), portanto, a rigidez da viga é menor; o
ponto C define a situação de serviço da viga, ou seja, a situação usual da viga em que
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 99

o momento fletor solicitante (Md,ser) tem intensidade da ordem da metade do momento


fletor de cálculo (MSd) considerando as hipóteses do estado-limite último;

- o ponto D define o início do escoamento das barras da armadura longitudinal de


tração (Ast). O trecho DE apresenta um ângulo de inclinação pequeno; a ruína por

fc
ruptura do concreto comprimido (   ) é iminente.

c
c
Lembra-se que, na análise do equilíbrio tem-se que MS = MR, ou seja, o momento
fletor solicitante tem que ser igual ao momento resistente. As forças resultantes das
tensões nas barras da armadura e na região comprimida do concreto também são
iguais (Rst = Rcc).

5.3.4 CONCLUSÃO DA ANÁLISE

Os estádios de comportamento são, portanto, diferentes fases pelas quais um


elemento estrutural em concreto armado, submetido à solicitação de momento fletor
(MS), pode ser submetido em face da ordem de intensidade deste. A viga pode
apresentar seções transversais sem fissuras, com fissuras ou na iminência da ruína, ou
seja, situação em que o elemento estrutural atinge um estado-limite último (real).
Observando o diagrama da figura 5.14a, nota-se que a situação de serviço da
viga apresenta momento fletor solicitante (MS,ser) da ordem da metade do momento
último (MS,u), ou seja, o momento fletor que provoca a ruína da viga.
A análise do comportamento da viga por seus vários estádios permite definir
procedimentos de projeto com relação às verificações dos estados-limites de serviço.
Com as hipóteses do Estádio Ib é possível calcular o momento de fissuração (Mr)
que, quando comparado com o momento fletor de cálculo de serviço, indica se a viga
está fissurada (MSd,ser ≥ Mr) ou não (MSd,ser < Mr). O MSd,ser é o momento fletor de
cálculo considerando as combinações dos momentos fletores afetados pelos
coeficientes relativos às verificações indicadas pela ABNT NBR 6118:2014 para cada
estado-limite de serviço.
A área de armadura mínima longitudinal de tração, que é calculada com as
hipóteses do Estádio Ib, precisa absorver as tensões geradas pelo momento fletor que
é resistido pela seção de concreto simples, isto é, sem considerar a contribuição das
barras da armadura.
As hipóteses do Estádio Ia possibilitam o dimensionamento de elementos fletidos
quando não é possível ocorrer fissuração, por exemplo, no caso de reservatórios em
que a estanqueidade é primordial. As hipóteses do Estádio Ia são utilizadas para a
verificação das deformações em lajes, uma vez que as lajes apresentam-se, em geral,
com poucas fissuras.
Como a seção transversal não está fissurada (Estádio Ia) o momento de inércia
da seção é o da seção total, porém há necessidade de considerar a seção
homogeneizada, pois se trata de uma seção composta de concreto e barras de aço.
Com as hipóteses do estádio II se fazem as verificações das deformações, ou
seja, dos deslocamentos verticais (ELS-DEF) dos elementos estruturais fletidos e as
verificações das aberturas das fissuras (ELS-W).
As hipóteses dos estádios I e II de análise de elementos estruturais de concreto
armado com base no Método Clássico, que os consideram constituídos de materiais
homogêneos, elásticos e de comportamento linear, permitem o dimensionamento e a
verificação das suas seguranças quando solicitados por momento fletor.
Os elementos estruturais são dimensionados com as hipóteses dos estados
limites últimos (ELU) e verificados considerando os estados limites de serviço (ELS)
com as hipóteses dos Estádios I e II.
100 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

5.4. EQUAÇÕES PARA AS VERIFICAÇÕES DOS ELS

5.4.1 PREÂMBULO

O Método Clássico de dimensionamento dos elementos estruturais, adotado


desde o início da história do concreto armado, é o método que permite a verificação
das tensões admissíveis nas bordas dos elementos estruturais que, por questões de
segurança, tem que ser menores do que as resistências admissíveis dos materiais que
os compõem. As hipóteses são baseadas na teoria de Resistência dos Materiais
(Mecânica dos Sólidos) que consideram as estruturas compostas de materiais
homogêneos, elásticos e lineares.
Observando os resultados dos ensaios da viga analisada na seção 5.2 verifica-se
que a seção transversal que era plana permanece plana depois da deformação, por
aumento do módulo do momento fletor; isto ocorre em qualquer etapa do ensaio.
Essa é a hipótese de Bernoulli, podendo-se escrever que a relação entre a
deformação e a distância da fibra até a linha neutra é constante (  / y  k 1 ).
Nos trechos do diagrama tensão – deformação em que pode ser considerada a
linearidade, as tensões de tração ou compressão e as deformações respectivas são
proporcionais (  /   k 2 ), que é definida pela lei de Hooke.
Analisando as duas leis (Bernoulli e Hooke) chega-se a lei de Navier, que
relaciona as tensões com as distâncias das fibras em que a tensão age até a linha
neutra; as relações entre as várias fibras também são constantes (  / y  k 1  k 2 ).
A equação 5.06 indica que, as tensões normais nos elementos estruturais fletidos
são diretamente proporcionais ao módulo do momento fletor e à distância da fibra até a
linha neutra (y) para a qual se quer determinar a tensão e, são inversamente
proporcionais ao momento de inércia, todos para a seção transversal em análise.

MS
y  y [5.06]
I

sendo que:

MS é o momento fletor solicitante na seção transversal em análise;

I é o momento de inércia da seção transversal;

y é a medida da distância da linha neutra até a fibra considerada.

Assim, é preciso conhecer a medida da profundidade da linha neutra (x), o valor


do momento de inércia e o módulo do momento fletor para se poder calcular as
tensões atuantes na seção transversal, particularmente: na fibra mais tracionada do
concreto (σct), na fibra que contém o centro geométrico das barras da armadura
longitudinal de tração (σst) e na borda mais comprimida (σcc), esta nos casos de
dimensionamento.
Os momentos de inércia, conforme analisados nos itens anteriores, não são os
calculados para as seções íntegras, pois as vigas de concreto armado sujeitas a
fissuração, têm os momentos de inércia de acordo com os estádios I (sem fissuras –
Estádio Ia – na iminência de apresentar fissuras – Estádio Ib) e Estádio II (seções
fissuradas).
Lembra-se que as vigas de concreto armado são dimensionadas com as
hipóteses do ELU, portanto fissuradas, e são verificadas com as hipóteses dos ELS, ou
seja, as aberturas das fissuras são controladas com as indicações da ABNT NBR
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 101

6118:2014 para o ELS-W. Os deslocamentos são verificados com as indicações da


mesma norma para o ELS-DEF.
Faz-se necessário estudar as maneiras de calcular as posições da linha neutra e
dos momentos de inércias nos estádios I e II.
As vigas de concreto armado não são constituídas de material homogêneo, pois
são compostas de dois materiais: concreto, que como visto não tem comportamento
linear (para tensões até 0,3  fc pode ser assim considerado) e barras de aço,
resultando em um material que não é homogêneo.

5.4.2 HOMOGENEIZAÇÃO DA SEÇÃO TRANSVERSAL

Para poder considerar as hipóteses do Método Clássico, há necessidade de se


criar uma seção transversal fictícia, constituída de um único material, no caso o
concreto, pela substituição das áreas das barras das armaduras (comprimida e
tracionada) por áreas equivalentes de material concreto, conforme figura 5.15, que
analisa o caso de seção transversal retangular, porém a idéia é valida para qualquer
tipo de seção transversal.
O centro de rotação e o momento de inércia da seção transversal são alterados
pela posição das barras das armaduras longitudinais (nas regiões comprimida e
tracionada), indicando a necessidade de se considerar a seção homogeneizada.
A seção transversal real da viga é conhecida, pois ela foi dimensionada com os
critérios do estado-limite último (ELU), considerando-a solicitada por momento fletor de
cálculo (MSd), lembra-se que as medidas dos lados da seção transversal foram
adotadas na fase de anteprojeto da estrutura.

cc cc sc


A sc A cc,equ
sc sc e
2
d'c

A cc,hom

d h
_
MS

bw d't st st A ct,equ st


A st ct ct 2 e
Seção Real Seção Homogeneizada
Figura 5.15 - Homogeneização da seção transversal

Em elementos estruturais de concreto armado, levando em consideração a


aderência entre as barras de aço e o concreto que as envolve, é possível entender a
igualdade entre as deformações dos dois materiais.
Para se considerar a seção homogeneizada, as áreas das barras das armaduras
de compressão e de tração submetidas às tensões sc e st, respectivamente, são
substituídas por áreas adicionais de concreto equivalentes de acordo com as equações
5.07 e 5.08 e com tensões equivalentes (σsc,eq e σst,eq, respectivamente) calculadas
pelas equações 5.09 e 5.10. Com esse procedimento, diz-se que a seção transversal
constituída por concreto e barras de aço é homogeneizada (figura 5.15), isto é, passou
a ser constituída por um único material, o concreto.
102 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

A cc,equ   e  A sc [5.07]

A ct,equ  α e  A st [5.08]

No centro geométrico das barras da armadura passou a existir uma área de


concreto (figura 5.15) cujas tensões de compressão (equação 5.09) e de tração
(equação 5.10) são calculadas por:

 sc
 cc,equ  [5.09]
e

σ st
σ ct,equ  [5.10]
αe

sendo:

Asc = área das barras da armadura de compressão na estrutura real;

Ast = área das barras da armadura de tração na estrutura real;

sc = tensão nas barras da armadura de compressão na estrutura real;

st = tensão nas barras da armadura de tração na estrutura real;

Acc,equ = área de concreto equivalente à área da armadura de compressão;

Act,equ = área de concreto equivalente à área da armadura de tração;

cc,equ = tensão equivalente atuante na área de concreto equivalente que substitui


a área das barras da armadura de compressão;

ct,equ = tensão equivalente atuante na área de concreto equivalente que substitui


a área das barras da armadura de tração;

e = relação entre os módulos de elasticidade do aço (Es) e do concreto (Ec).

A ABNT NBR 6118:2014 indica que os seguintes valores de αe na verificação de


estados limites de serviço – ELS:
E sE c

  para o cálculo do momento de inércia da seção fissurada com o critérios


e

do estádio II; sendo Es = 210 GPa e Ecs indicado na tabela 3.8, na verificação do
estado-limite de deformação – ELS-DEF;
1
5

  para o cálculo do momento de inércia no estádio II, na verificação do


e

estado-limite de fissuração – ELS-W

Amaral (1973) indica que sendo εcy a deformação e σcy a tensão em um ponto do
concreto na seção transversal que dista yc da linha neutra, pode-se escrever a equação
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 103

5.11 com base na lei de Hooke, em que a constante k é igual ao módulo de


elasticidade do concreto (Ec).

 cy  E c   cy [5.11]

Analogamente, pode ser escrita a equação 5.12 com relação às áreas das barras,
relacionando a tensão com a deformação, ou seja:

 sy  E s   sy [5.12]

Dividindo membro a membro a equação 5.12 pela equação 5.11 tem-se a


equação 5.13:

 sy E s  sy
  [5.13]
 cy E c  cy

Considerando a relação entre os módulos de deformações dos materiais aço (Es)


e concreto (Ec) igual a αe resulta a equação 5.14:

 sy  sy
 e  [5.14]
 cy  cy

Considerando a aderência perfeita entre barras de aço e o concreto no entorno,


ou seja, situação em que não ocorre escorregamento da barra em relação ao concreto,
e, considerando a hipótese de Bernoulli, pode-se escrever a equação 5.15.

 sy  cy  sy ys
   [5.15]
ys yc  cy yc

Substituindo a equação 5.15 na equação 5.14 obtém-se a equação 5.16.

 sy ys  sy 1  cy
 e     [5.16]
 cy yc e ys yc

A equação 5.16 (lei de Navier) rege o comportamento de viga constituída por


materiais compostos, no caso concreto e barras de aço, que se deformam em conjunto.

Fazendo y s  y c e substituindo na equação 5.16 resulta (5.17):

 sy
  cy [5.17]
e

A equação 5.17 significa que em uma seção transversal de viga de concreto


armado em que existam barras da armadura tracionadas e comprimidas, a tensão que
ocorre no concreto na seção fictícia só de concreto é igual à tensão nas barras da
armadura dividida por αe.
A seção fictícia é uma seção de viga constituída por um só material – seção
homogeneizada, com um único módulo de elasticidade, no caso o do concreto (Ec), e a
104 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

área desta seção é igual a relação entre os módulos (αe) multiplicada pela área da
seção real ( A c  b w  h ) no caso de seção retangular.
Assim, podem-se usar as equações deduzidas com os critérios da Resistência
dos Materiais (Mecânica dos Sólidos) para cálculo das tensões em situação de serviço
dos elementos estruturais.

5.4.3 CÁLCULO DA MEDIDA DA PROFUNDIDADE DA LINHA NEUTRA (x)

Considerando a seção retangular da viga em concreto armado da figura 5.15 as


equações de equilíbrio são deduzidas a partir das verificações das forças resultantes
das tensões resistentes (equação 5.18) e do equilíbrio entre os momentos solicitante e
resistente (equação 5.19).

a.- equilíbrio entre as forças resultante interna e externa

Como a força normal solicitante é igual a zero tem-se:

  dA  zero [5.18]

b.- equilíbrio entre o momento solicitante (externo) e o resistente (interno)

MS  MR [5.19]

O primeiro membro da equação 5.18 é a integral das tensões normais resistentes


na seção transversal da viga. Nesta análise são consideradas só as barras da
armadura tracionada com área de cada barra igual a (Ast) e submetida à tensão (  st ); a
integral relativa a estas pode ser substituída pelo somatório da equação 5.20, e, a área
de concreto da seção transversal total (Ac) é considerada pela integral indicada na
equação 5.20.
Portanto a equação 5.18 pode ser escrita como (5.20):

  cy dA c   A st   st  zero [5.20]

Multiplicando-se membro a membro a equação 5.20 por yc/yc e multiplicando-se o


segundo membro desta equação por αe/ αe resulta:

 cy  st
  y c  dA c   A st    e  y s   zero [5.21]
yc e  ys

Considerando a lei de Navier para materiais compostos indicada na equação 5.16


e substituindo-a na equação 5.21, e considerando que  st   sy , pois as fibras são as
mesmas, tem-se:

y c  dA c    e  A st  y s   zero [5.22]

A equação 5.22 indica que o momento estático da seção de concreto em relação


à linha neutra somado ao momento estático das áreas das barras em relação à linha
neutra é igual a zero.
Assim procedendo-se, para as seções transversais de vigas de concreto armado
nos estádios I e II, montam-se equações em que as únicas incógnitas são as
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 105

profundidades da linha neutra (x). Nota-se no segundo membro da equação 5.22 que a
área das barras da armadura está multiplicada pela relação entre os módulos de
elasticidade das barras de aço e o do concreto, ou seja, o calculo da profundidade da
linha neutra é feito considerando a seção homogeneizada.

5.4.4 CÁLCULO DO MOMENTO DE INÉRCIA

As equações com as quais se calculam os momentos de inércia nos estádios I e II


são montadas a partir do conhecimento da medida da profundidade da linha neutra em
cada estádio.

5.4.5 PROPRIEDADES GEOMÉTRICAS DE SEÇÕES TRANSVERSAIS


RETANGULARES NO ESTÁDIO I

Com as equações deduzidas anteriormente, inicialmente estudadas por Amaral


(1973), montam-se as equações com as quais se calculam as profundidades da linha
neutra e o momento de inércia com as hipóteses do estádio I.
Lembra-se que no estádio I a seção transversal de elementos estruturais em
concreto armado tem pequena probabilidade de apresentar fissuras, portanto, são
consideradas as regiões comprimidas e tracionadas.

5.4.5.1 Profundidade da linha neutra considerando o estádio I (xI)

Como foi visto nas hipóteses do Método Clássico de análise estrutural, em que se
considera material homogêneo, elástico e linear, a posição da linha neutra pode ser
calculada considerando que o centro de gravidade da seção homogeneizada, portanto,
o momento estático da seção transversal em relação à linha neutra é igual a zero
(SLN = zero).
Lembra-se que o momento estático de uma área em relação a um eixo de
referência, neste caso a posição da linha neutra no Estádio I, é calculado pelo produto
da área da seção transversal do elemento – concreto ou barras de aço e da distância
do centro geométrico desta área até o eixo de referência.
Neste caso de vigas de seção transversal retangular (figura 5.16) com
deformações e tensões semelhantes as do Estádio I, a equação 5.22 (usando a
equação 5.23) permite calcular a profundidade da linha neutra (xI).

xI b
b w  xI   α e  A sc  x I  d'  α e  A st  (d  x I )  w  h  x I   (h  x I )  0
2 2
[5.23]

resultando:

b w  x I2 b
 α e  A sc  x I  d'  α e  A st  (d  x I )  w  h  x I   0
2
[5.24]
2 2

sendo:
106 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

cc cc
A sc
sc sc
d'c
Rsc

xI MS Rcc
MS
d h
L.N.
Rct

Rst
bw d't st st
A st ct
ct < fct
Figura 5.16 - Viga de seção retangular – Estádio I

e = relação entre os módulos de elasticidade do aço (Es) e do concreto (Ec);

d’ = distância do centro de gravidade de Asc até a borda mais comprimida do


concreto;

xI = altura da linha neutra no Estádio I.

Para situações em que a viga de seção retangular não tem armadura


comprimida, as equações anteriores são válidas, considerando Asc igual a zero. O caso
de área de barras da armadura comprimida igual a zero se aplica às situações de vigas
e lajes submetidas à flexão simples com armadura simples (sem barras comprimidas),
quando no dimensionamento se considera os domínios 2 ou 3 de deformações com as
hipóteses do estado-limite último de estruturas de concreto.

5.4.5.2 Momento de inércia considerando o estádio I (II)

O momento de inércia em relação à linha neutra é calculado pela soma dos


momentos de inércia de cada parte da seção transversal em relação ao eixo que passa
pelo seu centro geométrico acrescido do transporte do momento de inércia para a linha
neutra. O valor do transporte é igual à área da parte da seção multiplicada pelo
quadrado da distância do centro geométrico até a linha neutra.
No caso da seção retangular da figura 5.16, o momento de inércia em relação à
linha neutra pode ser calculado pela equação 5.25, lembrando que é possível não se
considerarem os momentos de inércia das barras, tanto comprimidas quanto
tracionadas, em relação aos seus próprios eixos ( I     4 / 64 ) por serem pequenos
em relação aos valores das transferências.
b
x

x I2
2
3I
II

b
xI

xI
d
2

  
 
'
w1

 
2

       
w

s
c

 
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 107

h 1
xI

h
xI
2
3
      

h
xI

d
xI
2
w
       

2
     [5.25]

s
t
 

resultando:

b w  x I3 b w  (h  xI )3
 α e  A sc  ( x I  d' )2  α e  A st  d  xI 
2
II   [5.26]
3 3

5.4.6 PROPRIEDADES GEOMÉTRICAS DE SEÇÕES TRANSVERSAIS


RETANGULARES NO ESTÁDIO II

No Estádio II, também chamado de estádio de fissuração, a resistência à tração


do concreto é ultrapassada nas fibras tracionadas mais afastadas da linha neutra e,
portanto, as fissuras são inevitáveis. São consideradas somente as tensões de
compressão no concreto, isto é, nos cálculos é desprezada a contribuição da área da
seção de concreto correspondente à zona de tração. A resistência à tração é de
responsabilidade das barras de aço, posicionadas na região tracionada. Na região
comprimida o diagrama de tensões é linear conforme figura 5.17.
cc cc ~= 0,5fc
A sc
sc sc
d'c
Rsc
MS
x II Rcc
MS
L.N. d h

Rst
bw d't st
A st
Figura 5.17 - Viga de seção retangular – Estádio II

As vigas de concreto, nas situações de serviço (de utilização plena), apresentam


deformações e tensões compatíveis com as hipóteses do Estádio II, que são as
consideradas nas verificações de segurança do elemento estrutural em serviço
(Estados Limites de Serviço). As verificações das deformações permitem os cálculos
dos deslocamentos e, por conseguinte, das flechas e dos valores das aberturas das
fissuras, conforme analisado no capítulo 13.

5.4.6.1 Profundidade da linha neutra considerando o estádio II (xII)

A profundidade da linha neutra, considerando as hipóteses do Estádio II, é


calculada lembrando que o momento estático da seção retangular em relação à linha
neutra é igual a zero (equação 5.22), resultando a equação 5.27 (ver figura 5.17).
108 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

b w  x II2
 α e  A sc  x II  d'  α e  A st  (d  x II )  0 [5.27]
2

sendo:

e = relação entre os módulos de elasticidade do aço e do concreto;

d’ = distância do centro de gravidade de Asc até a borda mais comprimida do


concreto;

xII = altura da linha neutra determinada com as hipóteses do Estádio II.

Para situações em que a viga de seção retangular não possui armadura de


compressão, as equações anteriores são válidas, bastando fazer Asc = 0.

5.4.6.2 Momento de inércia considerando o estádio II (III)

O momento de inércia da seção transversal retangular, conforme figura 5.17, é


determinado pela equação 5.28, de tal modo que foi considerado o momento de inércia
da região comprimida do concreto, posicionada entre a linha neutra e a borda mais
comprimida, com a respectiva transferência à linha neutra, igual à área da região
comprimida multiplicada pelo quadrado da distância do centro geométrico até a linha
neutra, acrescido das transferências dos momentos de inércia das barras à linha neutra
(os momentos de inércia das barras em relação ao seu próprio eixo é desprezado por
ser de pequeno valor em relação ao valor da transferência).

b w  x II3 x
 (b w  x II )  ( II )2  α e  A sc  ( x II  d' )2  α e  A st  d  x II 
2
III  [5.28]
12 2

A equação 5.28, com a qual se calcula o momento de inércia de seções


retangulares no Estádio II, pode ser escrita como (equação 5.29):

b w  x II3
  e  A sc  ( x II  d' )2   e  A st  d  x II 
2
III  [5.29]
3

Se na seção transversal não houver barras da armadura comprimida basta fazer-


se na equação 5.29 Asc igual a zero.

5.4.6.3 Cálculo da tensão nas barras da armadura de tração considerando o estádio II

Com as hipóteses do Estádio II se calculam as aberturas das fissuras


considerando o estado-limite de serviço de abertura de fissuras – ELS-W (com as
hipóteses da ABNT NBR 6118:2014 ), que dependem das tensões nas barras das
armaduras. As tensões nas barras da armadura tracionada calculada com as hipóteses
do Estádio II é obtida com a equação 5.30 de acordo com o estudado em Mecânica dos
Sólidos (Resistência dos Materiais), e considerando a seção transversal
homogeneizada.

 e  MSd,ser
 st   (d  x II ) [5.30]
III
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 109

sendo que MSd,ser é o momento fletor na seção transversal considerada no cálculo


com a combinação pertinente entre os esforços solicitantes.
A área de armadura longitudinal de tração é calculada com as hipóteses do
estado-limite último para as seções transversais submetidas à ação de momento fletor,
conforme analisado no capítulo 6.

5.5 ESTÁDIO III

No Estádio III, também chamado de estádio de ruptura (ruína por ruptura do


concreto), o concreto comprimido é considerado no limite da capacidade resistente, isto
é, na iminência da ruptura. O concreto, ao atingir a tensão igual à resistência de
compressão na região junto à borda comprimida, apresenta grande probabilidade de
causar a ruína do elemento estrutural. O diagrama de tensões de compressão é curvo,
em virtude da plastificação do concreto, conforme indicado na figura 5.18. A
distribuição das tensões de compressão é considerada, conforme indicação da ABNT
NBR 6118:2014, com variação representada por uma curva parábola – retângulo. No
Estádio III, a exemplo do que se fez no Estádio II, as tensões de tração não são
consideradas, pois as suas intensidades são maiores do que a resistência do concreto
à tração, fissurando-o, portanto. As tensões de tração são absorvidas pelas barras da
armadura.

cc
A sc cc ~= f c
sc
d'c
Rsc
x III
MS Rcc
L.N.
d h
MS

Rst
bw d't st
A st
Figura 5.18 - Viga de seção retangular – Estádio III

Com os critérios de verificação da segurança quanto ao estado-limite último, de


acordo com os critérios da ABNT NBR 6118:2014, o Estádio III corresponde, na parte
relativa a ruptura do concreto, ao domínio 3 de deformação, situação em que as
deformações nas barras da armadura tracionada são maiores que as de escoamento
das barras de aço (  st   yd ) e as no concreto na borda comprimida são as que podem
provocar a ruptura (  cc   cu  3,5‰ ).

5.6 CÁLCULO DO MOMENTO DE FISSURAÇÃO DE SEÇÃO RETANGULAR

Nas situações de serviço, as estruturas fletidas têm seções transversais com


deformações e tensões semelhantes as dos estádios I e II. Aquelas seções em que o
momento fletor de serviço de cálculo determinado com a combinação conveniente
(ABNT NBR 8681:2003), for maior do que o momento de fissuração (Mr), há uma
grande probabilidade de se iniciar o processo de fissuração e, portanto, as seções
transversais estão em situação de Estádio II.
110 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

O momento de fissuração é calculado pela equação aproximada (5.31) indicada


na ABNT NBR 6118:2014. Essa equação é uma adaptação da equação 5.06,
substituindo-se M por Mr, σy por fct, o momento de inércia da seção plena I por Ic, e y
por yt, com a introdução do coeficiente α, conforme indicado a seguir:

α  fct  Ic
Mr  [5.31]
yt

sendo:

 = 1,2 para seções T ou duplo T;

 = 1,3 para seções I ou T invertido;

 = 1,5 para seções retangulares;

 é o fator que correlaciona, aproximadamente, a resistência à tração na flexão


com a resistência à tração direta;

yt = distância do centro de gravidade da seção à fibra mais tracionada;

Ic = momento de inércia da seção bruta de concreto;

fct = resistência à tração direta do concreto.

A ABNT NBR 6118:2014 indica que para a determinação do momento de


fissuração (Mr), considera-se na verificação do estado-limite de formação de fissuras
(ELS-F) a resistência à tração direta (fct) igual a resistência característica à tração com
o valor inferior (fctk,inf); e, na verificação do estado-limite de deformação excessiva
(ELS-DEF) a resistência à tração direta (fct) é adotada igual a resistência média à
tração do concreto (fct,m).
A resistência à tração direta fct é calculada com os critérios estudados no item
3.3.4 e obtidos na tabela 3.6.
Para seção retangular o momento de fissuração pode ser calculado, considerando
 = 1,5, pela equação 5.31, ou seja:

1,5  fct  Ic
Mr  [5.32]
yt

sendo:

b  h3
Ic  [5.33]
12

h
yt  [5.34]
2

Portanto, é com a equação 5.35 que se calcula o módulo do momento de


fissuração no caso de seções retangulares de vigas de concreto armado.

Mr  0,25  fct  b  h 2 [5.35]


Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 111

5.7 PROJETOS PROPOSTOS DE VIGAS DE CONCRETO ARMADO

5.7.1 PROJETO 1

Em fase anterior do projeto da viga VT 01 (figura 5.19) a seção transversal de


meio de vão foi dimensionada com as hipóteses do estado-limite último por solicitação
de momento fletor. Também foi dimensionada por ação de força cortante. O concreto é
da classe C30, as barras de aço longitudinais são da categoria CA-50 e os fios
transversais (estribos) de aço longitudinais são da categoria CA-60. A figura 5.19
apresenta o detalhamento completo da viga que é enviado para a obra.
Pedem-se calcular:

- o momento de fissuração (Mr);

- a medida profundidade da linha neutra com as hipóteses do Estádio II (xII);

- o valor do momento de inércia com as hipóteses do Estádio II (III);

- as tensões na barras da armadura longitudinal de tração, considerando que o


momento fletor de serviço (MSd, ser) com o qual se verifica o ELS-W tem módulo igual a
255 kN.m;

Dados: Ast,efe = 20,1 cm2 (10  16,0 mm);

d = 71 cm;

h = 75 cm;

Asc = zero, viga dimensionada com as hipóteses do domínio 3 (ELU)

 e =15, pois se quer verificar o ELS – W.


112 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

VT01 ( 25x75 )
ESC.1:50

44 N1 Ø 5 C/16 25 N2

10
23
6
N1 N3

65
N6
N5 6
P01 A VT02 P02
N8
20 380 20 280 20 N7
N9
N4
CORTE AA
N2 - 2 Ø 6,3 (715)
ESC.1:20

20
N3 - 4 Ø 8 (715)

N1 - 44 Ø 5 (195)
177,5
2,5
N4 - 1 Ø 16 (300) 70
170
137,5

N5 - 1 Ø 16 (375)
205
97,5

N6 - 1 Ø 16 (455)
245
67,5

N7 - 1 Ø 16 (525)
285

2,5 N8 - 1 Ø 16 (662) 19

DETALHAMENTO
19 N9 - 5 Ø 16 (753) 19 ESC. 1:50, 1:20
715

Figura 5.19 - Detalhamento da viga VT01


(desenho impresso sem escala)

5.7.2 PROJETO 2

Deduzir as equações com as quais se calculam as medidas das profundidades


das linhas neutras e dos momentos de inércia da seção transversal duplo T indicada na
figura 5.20, considerando as hipóteses dos estádios I e II. Montar as equações
considerando as possibilidades da linha neutra ficar menor ou igual à medida da mesa
comprimida (hf) e linha neutra na alma.
Como sugestão, pode-se considerar as medidas das abas das mesas comprimida
e tracionadas iguais a (b fc  b w ) / 2 e (b ft  b w ) / 2 , respectivamente, o que facilita no
uso das equações para outras seções transversais compostas por retângulos.
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais 113

b fc

A sc
d'c
h fc

d h
MS bw

h ft
A st d't
b ft

Figura 5.20 - Viga de seção duplo T

A resolução deste projeto permite ao engenheiro ter à disposição as equações


necessárias para resolver os projetos de vigas de seção duplo T (figura 5.20), vigas de
seção I (figura 5.21a), vigas de seção tipo calha (figura 5.21b), viga de seção T (figura
5.21c), viga de seção T invertido (figura 5.21d), viga de seção Z (figura 5.21e)

a) b) c) d) e)

Figura 5.21 - Viga de seções associadas à de seção duplo T

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMARAL, N. A. (1973). Construções de concreto I. v. II, São Paulo, ed. EPUSP.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) NBR 6118:2014.


Projeto de estruturas de concreto. Rio de Janeiro, ABNT, 2014.

_____ NBR 8681:2003 Ações e segurança nas estruturas. Rio de Janeiro, ABNT, 2003.

_____ NBR 6120:1980. Cargas para o cálculo de estruturas de edificações. NBR


6120:1980. Rio de Janeiro, ABNT, 1980

_____ NBR 7222:1994. Argamassa e concreto – Determinação da resistência à tração


por compressão diametral de corpos-de-prova cilíndricos – Método de ensaio. Rio de
Janeiro, ABNT, 1994.
114 Capítulo 5 - Análise do comportamento de elementos estruturais de concreto armado solicitados por momento fletor

_____ NBR 8953:1992. Concreto para fins estruturais – classificação por grupos de
resistência. Rio de Janeiro, ABNT, 1992.

_____ NBR 12142:1991. Concreto – Determinação da resistência à tração na flexão em


corpos-de-prova prismáticos – Método de ensaio. Rio de Janeiro, ABNT, 1991.

ORLER, R. e DONINI, H. (2007). Diseño Básico de Hormigón Estructural Según


CIRSOC 201/05, Córdoba, Argentina, ed. Universitas Córdoba Editora Científica
Universitária.

TAKEYA, T. (2007). Relatório de ensaio de protótipo de viga de concreto armado, São


Carlos. Departamento de Engenharia de Estruturas – EESC – USP. (texto não
publicado).
6
DIMENSIONAMENTO DE
ELEMENTOS ESTRUTURAIS
LINEARES SOLICITADOS POR
MOMENTO FLETOR
6.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS (18 de março de 2019)

A segurança de elementos estruturais é verificada com os critérios indicados na


ABNT NBR 6118:2014 com relação aos estados-limites último e de serviço. Os
elementos estruturais solicitados por flexão simples são submetidos a tensões normais
oriundas da ação de momento fletor e tensões tangenciais por causa da ação de força
cortante. Para efeito da verificação das resistências das seções transversais solicitadas
por esses esforços solicitantes é possível, e os códigos normativos permitem, verificar
cada um separadamente. Este capítulo estuda os critérios para o dimensionamento de
seções transversais de vigas de concreto armado solicitadas por momento fletor.
Os momentos fletores solicitantes são equilibrados por momentos resistentes
gerados por binários cujas forças, uma de tração e outra de compressão, são as
resultantes das tensões normais.
Como o material concreto resiste a tensões de tração de pequena intensidade, com
pouca capacidade de deformação, na região tracionada, delimitada pela linha neutra da
seção transversal, há necessidade de dispor barras de aço (posicionadas próximas da
borda tracionada) com resistência suficiente para compor o tirante cuja resultante
equilibra a resultante das forças de compressão no concreto.
Analisa-se a viga biapoiada indicada na figura 6.1, submetida a ação de força
uniformemente distribuída e concentrada com o respectivo diagrama de momentos
fletores solicitantes. A segurança estrutural precisa ser verificada para cada seção
transversal, inclusive para as seções de apoio onde os momentos fletores solicitantes
são iguais à zero, pois há necessidade de se verificarem as áreas de armaduras para a
correta ancoragem das barras, conforme será estudado no capítulo 10.
116 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Considere-se a seção transversal da viga da figura 6.1 que está solicitada à ação
do momento fletor de maior intensidade e para esta seção verificam-se as condições de
segurança com as hipóteses do estado-limite último. Entende-se que se os valores das
resistências e deformações últimas dos materiais - concreto e barras de aço - forem
atingidas sob ação do momento fletor solicitante, o elemento estrutural apresenta uma
situação de ruína, ou seja, deixa de cumprir a sua finalidade estrutural. A ruína pode se
dar de modo real, por desintegração de uma seção transversal formando um mecanismo
hipoestático, no caso de viga biapoiada, ou de modo convencional, quando as
resistências e as deformações do concreto e das barras de aço atingirem valores
convencionais definidos por normas, aquém dos valores últimos reais.
Na figura 6.1 nota-se que a viga é apoiada sobre os pilares, sem ligação monolítica
entre os elementos estruturais, pois há a colocação sobre os pilares de aparelhos de
apoio (por exemplo, de neoprene), que permitem os giros e o deslocamento horizontal
da viga, os pilares considerados rígidos não permitem deslocamentos verticais dos
apoios.
O objetivo deste capítulo é escrever as equações que representam as condições
de equilíbrio de uma seção transversal e, por meio delas, determinar a sua capacidade
resistente quando solicitada por momento fletor. Com as equações deduzidas e
mediante análise das indicações da ABNT NBR 6118:2014 desenvolve-se rotina de
projeto de vigas de concreto armado sob solicitação de momento fletor.

6.2 HIPÓTESES DE CÁLCULO

Considere-se a seção transversal mais solicitada da viga da figura 6.1 submetida a


ação do momento fletor solicitante característico MSk, calculado considerando as ações
atuantes e as condições de contorno do elemento estrutural.
No estado-limite último a segurança da seção transversal é verificada majorando-
se o valor do momento fletor solicitante característico MSk por um coeficiente de
majoração das solicitações (f), e, minorando as resistências características dos
materiais por coeficientes de ponderação dos materiais (m). Assim, a resistência
característica à compressão do concreto (fck) precisa ser dividida pelo coeficiente c igual
a 1,4 e a resistência característica à tração das barras de aço (fyk) é dividida por s igual
a 1,15, de acordo com o indicado na ABNT NBR 6118:2014 e mostrado
esquematicamente na figura 6.2.
A condição de segurança, com relação a seção transversal, especificada pela
ABNT NBR 8681:2003, é que a solicitação de cálculo Sd precisa ser menor ou igual que
a resistência de cálculo Rd. No caso de seção transversal submetida a momento fletor
solicitante de cálculo (MSd) a verificação da segurança com relação ao estado-limite
último de ruína é feita considerando a equação 6.01.

MSd   f  MSk  MRd [6.01]

O momento resistente de cálculo (MRd) é determinado considerando os momentos


das forças resultantes das tensões de compressão no concreto e das tensões nas barras
das armaduras comprimidas e tracionadas, conforme figura 6.3. A força resultante das
tensões de compressão no concreto situa-se no centro geométrico do diagrama de
tensões, de área Acc, sendo que a linha neutra (x) é medida a partir da borda comprimida.
As forças resultantes das tensões de compressão nas barras das armaduras de
compressão de área Asc e de tração de área Ast também atuante nos centros geométricos
das barras, que podem ser arranjadas em uma ou mais camadas, conforme sejam as
dimensões da seção transversal da viga, largura bw e altura h. As resultantes das forças
de compressão (no concreto comprimido e nas barras da armadura posicionadas junto
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 117

a borda comprimida) e a força de tração formam o binário interno que gera o momento
resistente de cálculo (MRd).

V01 (bw x h)

h
V02 MSd
P01 FSk P02 bw

a b
l
(g+q)1 (g+q)2

MSk

MSd
MSd

VSd FSd

Figura 6.1 - Viga biapoiada com forças distribuídas e concentrada

A figura 6.2 ilustra a ideia de verificação da segurança e dimensionamento da seção


transversal, na qual se vê que a solicitação é majorada e os valores das resistências
características dos materiais são minoradas.

Resistências dos materiais f ck fyk

gc gs

Dimensionamento f cd f yd
Verificação da Segurança M Sd

gf

Solicitações Características MSk

Figura 6.2 - Condições de segurança para o dimensionamento

A figura 6.3 mostra uma seção transversal retangular de viga de concreto armado
solicitada por momento fletor de cálculo (MSd), com intensidade máxima no tramo,
conforme figura 6.1. São desenhados, também, os diagramas de deformações, de
118 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

tensões no concreto com distribuições parábola-retângulo e retangular, que pode


substituir a esse, com as respectivas forças resultantes das tensões.
As hipóteses básicas indicadas na ABNT NBR 6118:2014 para determinação do
momento fletor resistente (MRd) são:

a.- as seções transversais consideradas planas antes da deformação por ação do


momento fletor solicitante de cálculo se mantêm planas após a deformação;

b.- a deformação das barras passivas aderentes submetidas à tração ou


compressão é a mesma do concreto em seu entorno, que é a hipótese básica (aderência)
da existência do concreto armado;

c.- as tensões de tração no concreto, normais à seção transversal, devem ser


desprezadas, por ser pequena a sua contribuição no estado-limite último;

d.- a distribuição de tensões no concreto se faz de acordo com o diagrama

fc
parábola-retângulo da figura 3.15 com tensão de cálculo (  ) igual a   , sendo que

c
d

d
fcd é calculado pela equação 3.10.

O diagrama parábola-retângulo da figura 3.15 pode ser substituído pelo diagrama


retangular de tensões (Figura 6.3.) com altura calculada por:
y
λ
x

  [6.02]

λ
sendo x igual a medida da profundidade da linha neutra e o parâmetro pode ser
adotado igual a:
λ
0
,
8

 para fck ≤ 50 MPa [6.03]


fc

5 0
0

 
λ
0
,
8


k4
0

  para fck > 50 MPa [6.04]

e, nas situações em que a tensão é constante atuante até a altura y pode ser
considerada igual a:
fc

   no caso da largura da seção transversal, medida paralelamente à


c
d

linha neutra, não diminuir a partir desta para a borda comprimida;


[6.05]
0
,
9

fc

    no caso contrário.
c
d

[6.06]

sendo que é  definido como:


c
0
,
8
5

  para concretos de classe I, até C50; [6.07]


c

fc

5 0
0

   
0
,
8
5
1
,
0


k2
0

    para concretos de classe II, C50 até C90. [6.08]


c

 

 é o parâmetro de redução de resistência do concreto na compressão, conforme


c

estudado no capítulo 3.
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 119

Considera-se, na verificação da segurança de elementos estruturais solicitados por


momento fletor o diagrama retangular de tensões, em substituição ao diagrama
parábola-retângulo, para facilitar o cálculo da força resultante. No caso do diagrama
parábola-retângulo há necessidade de calcular a força resultante integrando a área de
concreto comprimido Acc. A diferença não é significativa e a consideração do diagrama
retangular pode ser aceita sem prejuízo do resultado.
A tabela 6.1 mostra os valores de λ e αc para os concretos indicados a ABNT NBR
6118:2014.

Tabela 6.1 - Valores de λ e αc [ABNT NBR 6118:2014]


Classe do C20 C25 C30 C35 C40 C45 C50 C55 C60 C70 C80 C90
Concreto
λ 0,800 0,788 0,755 0,750 0,725 0,700

αc 0,850 0,829 0,808 0,765 0,723 0,680

e.- as tensões nas barras de aço das armaduras podem ser obtidas a partir dos
diagramas indicados na figura 4.4 e a resistência de cálculo ao escoamento é
determinada com a equação 4.01.

A seção transversal atinge o estado-limite último de ruína convencional quando a


distribuição das deformações na seção transversal pertencer a um dos limites dos
domínios definidos na figura 6.4. Lembra-se que as deformações não podem ser
adotadas com valores maiores do que a indicada na equação 3.08, para concretos do
grupo I de resistência (classes de resistência C20 a C50 inclusive), e, que a indicada na
equação 3.09, para concretos do grupo II (classes de resistência C50 até C90), quando
comprimido exclusivamente por ação de momento fletor, e deformação de 10‰ nas
barras de aço conforme estudado no capítulo 4. Este limite de deformações nas barras
de aço longitudinais tracionadas é considerado para que os elementos estruturais
solicitados por momento fletor não apresentem fissuras com grandes aberturas.

6.3 ANÁLISE DA RESISTÊNCIA DA SEÇÃO TRANSVERSAL RETANGULAR

6.3.1 EQUAÇÕES DE EQUILÍBRIO

As equações de equilíbrio são escritas considerando que as forças resultantes das


tensões se equilibram e que o momento destas forças (MRd), calculados em relação a
um pólo escolhido, está em equilíbrio com o momento solicitante de cálculo (MSd).
A figura 6.3 mostra a força resultante das tensões de compressão no concreto (Rcc),
a força resultante das tensões nas barras da armadura comprimida (Rsc) de área Asc e a
força resultante das tensões nas barras da armadura tracionada (Rst) de área Ast. A
largura da alma da viga é bw, h é altura da seção transversal e d é a altura útil, ou seja,
a distância da borda comprimida até ao centro geométrico das barras da armadura
tracionada, x é a medida da profundidade da linha neutra, a partir da borda comprimida,
y é a altura do diagrama retangular de tensões de compressão e d’ é a distância dos
centros das barras das armaduras até a borda mais próxima. Portanto, d’ é a soma da
espessura do cobrimento (c), do diâmetro do estribo (  ) e metade do diâmetro da barra
t
/
2

da armadura longitudinal (  ), quando se tem uma única camada de barras, à qual se


refere d’.
A condição de segurança, com relação a seção transversal, especificada pela
ABNT NBR 8681:2003, é que a solicitação de cálculo (Sd) precisa ser menor ou igual
que a resistência de cálculo (Rd). No caso de seção transversal sob ação de momento
fletor solicitante de cálculo (MSd) a verificação da segurança com relação ao estado-
limite último de ruína é feita considerando a equação 6.01.
120 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

MSd   f  MSk  MRd (equação 6.01)

O momento resistente de cálculo (MRd) é determinado considerando os momentos


das forças resultantes das tensões de compressão no concreto e das tensões nas
barras das armaduras.
A Sc

ecc
d´ scd scd
R Sc
y/2
x Rcc y/2
L.N. (1-l) .x

d h
MSd
MSd

d´ RSt
sSt

bw eSt
ASt

Figura 6.3 - Seção transversal retangular solicitada por momento fletor

Como as forças resultantes das tensões normais (figura 6.3) têm que estar em
equilíbrio pode-se escrever a equação 6.09.

Rcc  R sc  R st [6.09]

Considerando o equilíbrio dos momentos das forças resultantes internas em


relação ao ponto de aplicação da força resultante das tensões nas barras de tração,
distante a altura útil (d) da borda comprimida, com o momento solicitante de cálculo (MSd)
pode-se escrever a equação 6.10.
y 2
M

d
d
'

 
         [6.10]
S
d

c
c

s
c

 

A área de concreto comprimido (Acc) pode ser calculada pela equação 6.11,
considerando o diagrama retangular de tensões (ver figura 6.3), e, substituindo a altura
(y) deste diagrama pela equação 6.02, vem:
A

b
λ
x

   [6.11]
c
c

A força resultante das tensões de compressão no concreto é calculada por 6.12:


R

  [6.12]
c
c

c
c

c
d

A força resultante nas barras da armadura de compressão posicionadas próximas


da borda comprimida, distante a medida d’ desta, é calculada pela equação 6.13.
R

  [6.13]
s
c

s
c

s
c
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 121

A força resultante nas barras da armadura de tração posicionada na região


tracionada da viga com altura útil d, que é a medida da distância da borda comprimida
até o centro geométrico das barras desta armadura, é calculada pela equação 6.14.
R

A
σ
s
t
  [6.14]

s
t

s
t

fc
Substituindo a equação 6.11 na equação 6.12 e fazendo     conforme

c
d

d
equação 6.05, obtém-se:
R

b
λ
x

fc
     [6.15]
c
c

A equação 6.15 pode ser escrita como segue (6.16), multiplicando-se o segundo
membro por d/d.
d d
R

b
λ
x

fc

      [6.16]
c
c

Considerando:
x d

  [6.17]
x

sendo βx a profundidade relativa da linha neutra e substituindo a equação 6.17 na


equação 6.16 resulta:
R

b
d
λ
βx

fc

      [6.18]
c
c

Substituindo convenientemente as equações 6.18, 6.13 e 6.14 em 6.9, vem:


b
d
λ
β

fc

A
σ

         [6.19]
w

s
c

s
c

s
t

s
t

que é a equação que relaciona a força resultante das tensões no concreto, a força
resultante das tensões nas barras da armadura comprimida e a força resultante das
tensões nas barras da armadura tracionada. As forças resultantes nas barras estão
escritas em função das suas áreas e das respectivas tensões. A força no concreto foi
escrita considerando a resistência de cálculo à compressão do concreto, a largura da
alma da viga (bw), a altura útil (d) e a posição relativa da linha neutra (x).
Substituindo as equações 6.2, 6,13, 6.17 e 6.18 na equação 6.10, vem:
M

b
d
λ
βx

fc
1
0
,
5
λ
βx

A
σs

d
d
'
2

                 
S
d

s
c

[6.20]

Esta equação relaciona o módulo do momento fletor solicitante de cálculo (MSd)


com os momentos das força resultantes das tensões de compressão no concreto e nas
barras da armadura comprimida.
122 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

6.3.2. COMPATIBILIDADE DE DEFORMAÇÕES

Considerando a proporcionalidade entre os lados dos triângulos retângulos no


diagrama de deformações (figura 6.3), pode-se escrever a equação 6.21 que relaciona
a posição da linha neutra (x), a altura útil (d) e as deformações na borda comprimida e
nos centros de gravidade das barras das armaduras comprimida e tracionada.
ε cx

ε sx

ε sd
c

t
x
d

  [6.21]
'

 

Multiplicando membro a membro a equação 6.21 por 1/(1/d) e substituindo x/d por
βx, conforme equação 6.17, tem-se a equação 6.22:
ε cβ

εs x

εs
c


d
'd
1

  [6.22]
β


x

Neste caso de seção retangular solicitada por momento fletor de cálculo (flexão
simples) no estado-limite último (ELU), a deformação na borda comprimida da seção

εc
transversal não pode ser maior do que a deformação última ( ) conforme equações 3.8

u
e 3.9 indicadas para concretos das classes até C50 (grupo I de resistência) e para as
classes C50 até C90 (grupo de resistência), respectivamente. A tabela 3.6 apresenta o
valor da deformação última para os concretos normalizados.

6.3.3. BALANÇO DO NÚMERO DE EQUAÇÕES E INCÓGNITAS

Supondo que as dimensões das seções transversais são conhecidas (pois, na fase
de anteprojeto das estruturas de concreto é feito o pré-dimensionamento das dimensões
das seções transversais dos elementos estruturais), têm-se duas equações de equilíbrio
(6.19 e 6.20) e duas equações (6.22) que relacionam as deformações, totalizando quatro
equações. As incógnitas são: x (x), Asc, Ast, st, sc. As duas últimas são dependentes
das deformações nas barras comprimidas (sc) e nas barras tracionadas (st), lembra-se
que os diagramas tensão-deformação das barras de aço são conhecidos como estudado
no capítulo 4.
Assim, têm-se cinco (5) incógnitas e quatro (4) equações.
Para se verificar a segurança da seção transversal, ou seja, determinar se o
momento resistente de cálculo (MRd) é maior ou igual que o momento fletor solicitante de
cálculo (MSd) é necessário adotar uma das incógnitas. Conhecendo-se as deformações
e, portanto, as tensões, ficam para serem determinadas a posição da linha neutra e as
áreas das armaduras (duas). Como solução pode ser adotada a posição relativa da linha
neutra que, para isto, precisa garantir as condições de segurança da seção transversal
e, assim, determinar as duas incógnitas que são as áreas das armaduras.

6.3.4. EQUAÇÕES CONSTITUTIVAS DOS MATERIAIS

A ABNT NBR 6118:2014 indica os diagramas tensão-deformação do concreto


(figura 3.14) e os diagramas das barras de aço (figura 4.3), para serem adotados na
verificação de segurança (dimensionamento) dos elementos estruturais fletidos com as
hipóteses dos estados-limites últimos.
As condições do diagrama para as barras de aço da figura 4.3 foram consideradas
para se obterem os diagramas da figura 4.4, relativos aos aços nacionais indicados na
ABNT NBR 7480:2007, respectivamente os aços das categorias CA-25, CA-50 e CA-60.
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 123

Recorda-se que as deformações últimas dos materiais concreto e barras de aço


são:

- Concretos do grupo I de resistência, classes C20 a C50:


εc

3
,
5
 (equação 3.08)
u

- Concretos do grupo II de resistência, classe C55 a C90:

9 1
0 0
- 0
fc
4
︵ ︶
=
2
,
6
+
3
5
,
0

k
 ‰ (equação 3.09)
c
u

‰ 
 

- nas barras de aço tracionadas;


εs

1
0

 (equação 4.02)
u

Recorda-se que para as barras de aço tracionadas a deformação é limitada a esse


valor para que as fissuras, inerentes ao material concreto armado, fiquem com suas
aberturas controladas. As deformações nas barras posicionadas junto a face comprimida
da viga são calculadas com as equações 6.22 e, portanto, considerando o diagrama
tensão-deformação da barra de aço, determina-se a tensão (σsc).

6.3.5 DOMÍNIOS DE DEFORMAÇÕES

Considera-se que se os valores últimos das deformações no concreto (equações


3.8 e 3.9) e nas barras tracionadas (equação 4.02) forem atingidos, por si ou
simultaneamente, ocorrerá ruína da viga, ou seja, a viga atingirá um estado-limite último
convencional, que pode ser por:

a.- deformação plástica excessiva das barras tracionadas, quando a deformação


for de 10‰, com deformação no concreto na borda comprimida de qualquer valor
maior do que zero e menor do que εcu. Estas situações de deformações definem o
domínio 2 de deformações;

b.- deformação plástica das barras tracionadas, variando entre yd e 10‰ com
simultânea ruptura do concreto (εcu), definindo o domínio 3;

c.- ruptura do concreto (εcu), com deformação nas barras de aço menor do que yd
e maior do que zero, sendo este o domínio 4.

As deformações nas barras da armadura tracionada (st), de acordo com o


diagrama tensão-deformação, que representa a lei constitutiva das barras de aço, variam
entre 0 e yd que é a deformação de escoamento, região em que vale a Lei de Hooke, e
entre yd e 10‰, limite superior convencionado pelas normas brasileiras e estrangeiras,
com a finalidade de limitar os valores das aberturas das fissuras.
A figura 6.4 apresenta as três condições possíveis para escolha das deformações
na borda comprimida do concreto e no centro geométrico das barras da armadura de
tração, no caso de elemento estrutural submetido a ação de momento fletor (flexão
simples), sendo claro que a deformação no centro geométrico das barras da armadura
comprimida depende das outras duas deformações.
124 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

O projetista pode, portanto, adotar qualquer uma das infinitas condições possíveis
para a medida da profundidade da linha neutra, em qualquer um dos domínios de
deformações. A decisão de projeto a ser tomada é no sentido de atender outros
parâmetros, tais como, as dimensões da seção transversal inicialmente adotadas na fase
de anteprojeto, de menor consumo de material e de altura da viga compatível com as
alturas da demais vigas do projeto. É preciso atentar para o fato da ABNT NBR
6118:2014 limitar a profundidade relativa da linha neutra (βx) aos valores indicados nas
equações 6.26 e 6.27.
Analisando as infinitas posições que a linha neutra pode ocupar (figura 6.4), para
garantir o equilíbrio da seção transversal e, portanto, a segurança com relação ao
estado-limite último, percebe-se que no:
domínio 2 - as barras de aço apresentam deformação última convencional (st)
igual a 10‰ e a deformação na borda comprimida (cc) pode ter valores maiores
que zero e menores que εcu, ou seja, as deformações na borda comprimida não
atingem a deformação ultima convencional no concreto (ver figura 6.4). Neste caso
de domínio 2 a capacidade resistente do concreto fica pouco aproveitada;
domínio 3 - para qualquer posição da linha neutra a deformação na borda
comprimida (cc) é adotada igual a deformação última (εcu) e as deformações nas
barras podem variar entre a deformação de escoamento (yd) e a última
εy

1
0

convencional de 10‰, isto é    ‰ . Ao adotar, no projeto de viga, a


d

s
d

posição limite inferior da linha neutra no domínio 3 são consideradas as


capacidades máximas permitidas de deformações dos materiais. É, portanto, a
solução que atende as condições de economia de materiais (concreto e aço);
domínio 4 - a deformação na borda comprimida (cc) é adotada igual a (cu), e as
deformações nas barras de aço (st) podem assumir valores maiores que zero e
menores do que yd. Não é, portanto, uma solução adequada, embora possível em
termos de segurança estrutural, pois, as barras de aço ficam com deformações
aquém da sua capacidade de deformação e, por conseguinte, pouco aproveitadas,
com grande área de barras.
A decisão na escolha da posição da linha neutra e, portanto, do domínio de
deformações depende de cada projeto de viga (ou laje), entendendo que ABNT NBR
6118:2014 limita as profundidades relativas da linha neutra a um valor limite (x,lim) em
virtude de garantir a dutilidade da viga, conforme equações 6.26 e 6.27.

6.3.5.1 Limites para os valores da linha neutra nos três domínios de deformações

Os limites para os valores da profundidade da linha neutra entre os três domínios


de deformações, que regem os elementos estruturais submetidos à flexão simples,
podem ser calculados pela equação 6.22, considerando a primeira e a terceira frações,
e, trabalhando a equação, obtém-se a equação 6.23 com a qual de calcula a
profundidade relativa da linha neutra em função das deformações na borda comprimida
do elemento estrutural (εcc) e no centro geométrico das barras da armadura de tração
(εst):
εc u
x d
βx

u
εc

εs

  [6.23]

t

Com a equação 6.23 é possível determinar as profundidades relativas limites da


linha neutra (βx) para os domínios 2 e 3 e 3 e 4.
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 125

A posição relativa da linha neutra limite entre os domínios 2 e 3 depende do valor


último convencional da deformação na borda comprimida do concreto que é igual a cu,
e a deformação de escoamento das barras é igual a deformação última convencional de
10‰, resultando a equação 6.24:
βx

c
u
 [6.24]
2
3

1
0
 
c
u

O estado-limite último de ruína no domínio 2 ocorre de modo convencional (pois,


os corpos-de-prova das barras de aço ao romperem em ensaios de tração podem atingir
deformações maiores do que 10‰) com deformações na borda comprimida do concreto
menores do que εcu.
Para o cálculo do valor de βx34 consideram-se as deformações cu e yd que é função
da categoria das barras de aço, indicadas na ABNT NBR 7480:2007. Os diagramas
tensão-deformação das barras de aço para concreto armado normalizados no Brasil são
os indicados na figura 4.4, cujos valores das resistências de escoamento de cálculo são
iguais às resistências características à tração divididas pelo coeficiente de minoração
das resistências igual a 1,15.
Retomando a equação 6.23 vem:
βx


c
u
εy

 [6.25]
3
4

 
c
u

Considerando as equações 6.24 e 6.25, com os valores das deformações últimas


no concreto (tabela 3.6) e nas barras de aço (10‰), calculam-se os valores limites de βx
entre os domínios 2 e 3 e 3 e 4, indicados na tabela 6.2.
Tabela 6.2 - Valores limites das profundidades relativas da linha neutra (βx) entre os
domínios de deformações 2, 3 e 4 para os concretos normalizados pela ABNT NBR
6118:2014
βx C20 C25 C30 C35 C40 C45 C50 C55 C60 C70 C80 C90

βx23 0,259 0,238 0,224 0,210 0,206 0,206


CA-25 0,772 0,752 0,736 0,720 0,716 0,716
βx34 CA-50 0,628 0,601 0,581 0,562 0,556 0,556

CA-60 0,585 0,556 0,536 0,516 0,510 0,510

Esses limites podem orientar a adoção das profundidades da linha neutra em


projetos de vigas de concreto armado, desde que não ultrapassem os valores da
profundidade relativa da linha neutra indicados na ABNT NBR 6118:2014 e, neste texto,
no item 6.4.
Conforme analisado nos exemplos (item 6.10), e adiantando o raciocínio, no
dimensionamento de seções transversais de vigas e lajes, submetidas a ação de
momento fletor, o domínio 4 de deformações precisa ser evitado, pois há mal
aproveitamento das resistências dos materiais, principalmente das barras de aço e,
principalmente, por causa das pequenas deformações das barras de aço com valores
menores do que yd. Além disso, as ruínas ocorrem por ruptura do concreto sem que
ocorra o alongamento máximo permitido para as barras de aço. Com as barras com
pouco alongamento (st < yd) as fissuras aparentes no elemento estrutural submetido a
ação de momento fletor não aparecem visivelmente, e, a ruína real ocorre por ruptura
brusca do concreto.
126

ecu ecu ecu


borda superior

x 23
3 x 34 4

2
d h

borda inferior eyd eyd


10‰ 10‰

ss ss ss

f yd f yd f yd

es (‰) es (‰) es (‰)


eyd 10 eyd 10 eyd 10
Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Deformação Plástica Deformação Plástica Ruptura do Concreto sem


Excessiva Excessiva com Ruptura Deformação Plástica

Figura 6.4 - Diagramas de deformações para os domínios 2, 3 e 4


do Concreto Excessiva

vst = 10‰ vyd vst 10‰ zero vst vyd


zero < vcc <vcu vcc =vcu vcc =vcu
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 127

6.4. PROFUNDIDADE DA LINHA NEUTRA E CONDIÇÕES DE DUTILIDADE

A ABNT NBR 6118:2014 indica que a capacidade de rotação dos elementos


estruturais lineares é função da posição relativa da linha neutra no estado-limite último.
Quanto menor for o valor relativo da profundidade da linha neutra (x = x/d), maior é a
capacidade de rotação.
Conforme já estudado neste texto essa situação de maior capacidade de rotação
ocorre quando as deformações atendem as hipóteses do domínio 2, isto é, a deformação
no concreto está aquém da deformação última convencional de εcu e a deformações nas
barras de aço são consideradas iguais a 10‰.
A ABNT NBR 6118:2014 indica que proporcionar o adequado comportamento
dútil em vigas e lajes significa obedecer aos seguintes imites:
x d
0
,
4
5

   para concreto com fck 50 MPa; [6.26]


x

x d
0
,
3
5

   para concreto com 50 MPa < fck 90 MPa. [6.27]


x

Esses limites podem ser alterados se forem utilizados detalhes especiais de


armaduras, como por exemplo os que produzem confinamento nessas regiões.
A ductilidade de elementos lineares de concreto armado é função da resistência do
concreto, tanto maior a resistência do concreto menor é a dutilidade do elemento
estrutural e, portanto, da estrutura. Isso ocorre pelo fato do concreto de maior resistência
apresentar fragilidade.
Nas vigas é preciso garantir as condições de dutilidade por meio dos limites da
profundidade relativa da linha neutra (βx), sendo adotada se necessário, armadura de
compressão.
Adotar barras comprimidas para garantir valores menores da profundidade da linha
neutra (x), que estejam nos domínios 2 ou 3, não conduz a elementos estruturais com
ruptura frágil. A ruptura frágil está associada a posições da linha neutra no domínio 4,
com ou sem armadura de compressão (ABNT NBR 6118:2014).
Podem ser adotadas barras de armadura com detalhes especiais como, por
exemplo, as que produzem confinamento nas regiões comprimidas das vigas.
Pesquisa feita no Laboratório de Estruturas da EESC – USP por Delalibera (2002)
mostra que estribos posicionados na região comprimida, confinando-a, de altura igual a
profundidade da linha neutra definida com as hipóteses do estado-limite último, levam a
uma estrutura de comportamento dúctil.

6.5. LIMITES PARA REDISTRIBUIÇÃO DE MOMENTOS

Nos casos de estruturas constituídas por vigas com continuidade com os pilares,
em pórticos, por exemplo, ou vigas contínuas, a ABNT NBR 6118:2014 indica que
quando for efetuada uma redistribuição, reduzindo-se um momento fletor de MSk para
MSk, em uma determinada seção transversal, e isto é feito nas seções transversais dos
apoios, a relação entre o coeficiente de redistribuição  e a posição relativa da linha
neutra x = x/d nesta seção, para o momento reduzido MSk, pode ser calculada por:
x d

0
,
4 5
4


1
,
2

   para concretos com fck ≤ 50 MPa; [6.28]


x
128 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

x d

0
,
5 5
6


1
,
2
 
x
 para concretos com 50 MPa < fck ≤ 90 MPa; [6.29]

O coeficiente de redistribuição precisa, ainda, obedecer aos seguintes limites:

  0,90 para estruturas de nós móveis; [6.30]

  0,75 em qualquer outro caso (p. e., estruturas de nós fixos). [6.31]

Pode ser adotada redistribuição fora dos limites estabelecidos na ABNT NBR
6118:2014, desde que a estrutura seja calculada mediante o emprego de análise não-
linear ou de análise plástica, com verificação explícita da capacidade de rotação de
rótulas plásticas.

6.6 ANÁLISE DA NECESSIDADE DE BARRAS COMPRIMIDAS (ASC)

Nas deduções das equações que retratam o equilíbrio de uma seção transversal
retangular de elemento estrutural fletido solicitada por momento fletor de cálculo (MSd),
consideraram-se barras da armadura comprimida com área Asc, cuja tensão depende da
deformação sc que, por sua vez, depende do diagrama de deformações e da
profundidade da linha neutra (x). Com a deformação sc determinada pode-se calcular,
considerando o diagrama tensão-deformação das barras da armadura, a tensão (sc) e
verificar o equilíbrio.
Porém, a adoção de barras comprimidas só é necessária quando houver
necessidade de diminuir a profundidade da linha neutra.
Assim, tem-se um momento fletor resistente limite (MRd,lim) que se for maior que o
momento fletor solicitante (MSd) a viga não necessita de armadura comprimida (armadura
dupla) para o equilíbrio da seção transversal.
Para escrever a equação com qual se determina o momento resistente de cálculo
limite (MRd,lim), na equação 6.20 faz-se a área da armadura comprida igual a zero (Asc=0)
e consideram-se as profundidades relativas da linha neutra (βx) limite conforme
equações 6.26 e 6.27, isto significa adotar:

  [6.32]
x

x
,
l
i
m

que é o limite da profundidade relativa da linha neutra (x,lim) para a qual é possível
garantir dutilidade suficiente à viga.
Escreve-se, portanto, a equação 6.33 com a qual se calcula o módulo do momento
resistente de cálculo limite (MRd,lim).
M

b
d
λ
βx

fc
1
0
,
5
λ
βx
2

            [6.33]
R
d
,
l
i
m

,
l
i
m

,
l
i
m

Considerando concretos do grupo I, classes C20 a C50, e de acordo com as


equações 6.03, 6.07 e 6.26 resulta a equação 6.34:
M

0
,
2
5
1
b
d
fc
2

    [6.34]
R
d
,
l
i
m

que permite calcular o momento fletor resistente limite para os casos de estruturas
projetadas com concretos do grupo I das classes C25 a C50.
Para os concretos do grupo II, classes C55, C60, C70, C80 e C90, e de acordo com
0
,
3
5

a equação 6.33, considerando   (equação 6.27) e com os valores de λ e αc


x
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 129

indicados na tabela 6.1, podem ser escritas as equações 6.35, 6.36, 6.37, 6.38 e 6.39
com as quais de calculam os momentos resistentes de cálculo limites (MRd,lim):

a.- concreto classe C55:


M

0
,
7
7
4
4
b
d
2
   (em kNcm) [6.35]
R
d
,
l
i
m

w
b.- concreto classe C60:
M

0
,
7
9
4
2
b
d
2
   (em kNcm) [6.36]
R
d
,
l
i
m

c.- concreto classe C70:


M

0
,
8
7
2
3
b
d
2

   (em kNcm) [6.37]


R
d
,
l
i
m

d.- concreto classe C80:


M

0
,
9
1
5
3
b
d
2

   (em kNcm) [6.38]


R
d
,
l
i
m

e.- concreto classe C90:


M

0
,
9
3
9
8
b
d
2

   (em kNcm) [6.39]


R
d
,
l
i
m

Nota-se nas equações 6.34 a 6.39 que o valor de MRd,lim depende das dimensões
da seção transversal bw e h (pois, depende de d), em centímetros. Na equação 6.34, o
momento fletor resistente mínimo depende da resistência de cálculo à compressão do
concreto (fcd) considerada em kN/cm2, como também nas equações 6.35 a 6.39.

6.6.1 EXEMPLO 1

Calcular o módulo do momento fletor resistente de cálculo limite para uma viga com
espessura (bw) igual 20 cm, altura (h) adotada igual a 45 cm, altura útil (d) igual a 41 cm,
concreto de resistência característica à compressão de 30 MPa (C30).
Substituindo na equação 6.34 e considerando fcd = fck/1,4 = 30/1,4 = 21,43 MPa =
2,14 kN/cm2, resulta:
M

0
,
2
5
1
2
0
4
1
2
,
1
4
1
8
.
0
5
9
k
N
c
m
1
8
0
,
6
k
N
m
2

     
R
d
,
l
i
m

Na avaliação da altura útil, a partir da altura total da seção transversal, é necessário


considerar-se que a viga, quando completamente dimensionada e detalhada, têm
estribos constituídos por dois ramos, para absorver as tensões de tração oriundas da
ação da força cortante, cujas distâncias das bordas, que é o cobrimento das barras da
armadura, precisa atender critérios indicados na ABNT NBR 6118:2014 para garantir a
durabilidade do elemento estrutural.
Para vigas e pilares é adotado cobrimento nominal (c) das barras da armadura mais
próxima da borda de 30 mm quando a classe de agressividade ambiental é a II,
considerada moderada, e que para efeito de projeto esta classe é para atender uma
estrutura a ser construída em região urbana. O diâmetro mínimo para as barras dos
estribos é adotado igual a 5 mm de acordo com a ABNT NBR 6118:2014 e, para efeito
130 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

de anteprojeto, é possível adotar diâmetro das barras longitudinais de 12,5 mm,


resultando, portanto, para o cálculo do valor da altura útil (d) a equação:
d
h
c 

2
    [6.40]
t

substituindo os dados do exemplo tem-se:


1
,
2 2
5
d
4
5
3
0
,
5

4
0
,
8
8
c
m
    

e, assim, a medida da altura útil adotada igual a 41 cm, e agora avaliada, está
adequada, pois 40,88 cm é aproximadamente igual a 41 cm.

6.6.2 EXEMPLO 2

Calcular o momento fletor resistente de cálculo limite para uma viga com espessura
(bw) igual 20 cm, altura (h) adotada igual a 45 cm, altura útil (d) igual a 41 cm, concreto
de resistência característica à compressão de 70 MPa (C70).
Substituindo na equação 6.36 e considerando fcd = fck/1,4 = 70/1,4 = 50,0 MPa =
5,0 kN/cm2, resulta:
M

0
,
1
7
4
5
2
0
4
1
5
,
0
=
2
9
.
3
3
3
,
4
5
k
N
c
m
=
2
9
3
,
3
k
N
m
2

   
R
d
,
l
i
m

6.6.3 CONSIDERAÇÕES PARA PROJETOS DE VIGAS

Quando a viga for solicitada por momento fletor de cálculo tal que:

M Sd  MRd,lim [6.41]

tem-se caso de flexão simples com armadura simples, pois não há necessidade de
considerar a área de armadura comprimida para garantir o equilíbrio da seção
transversal;

e, quando

MSd  MRd,lim [6.42]

tem-se caso de flexão simples com armadura dupla, pois há necessidade desta
para o equilíbrio da viga considerando o valor limite da profundidade da linha neutra
tendo com relação a dutilidade.
Como alternativa à solução com armadura dupla pode-se aumentar as dimensões
da seção transversal, largura (bw) e/ou a altura (h). Em alguns projetos não é possível
aumentar a altura (h), por imposições arquitetônicas.

6.7 LIMITES PARA AS ÁREAS DE ARMADURA, ARMADURA DE PELE E DIÂMETRO


DAS BARRAS

6.7.1 PREÂMBULO

A ruptura frágil das seções transversais de vigas de concreto armado, quando da


formação da primeira fissura, deve ser evitada considerando-se, para o cálculo das
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 131

armaduras um momento resistente mínimo definido pelo valor correspondente ao módulo


do momento fletor que produz a ruptura da seção de concreto simples, por tração na
flexão, adotando para a resistência à tração do concreto a resistência característica
superior do concreto à tração (fctk,sup).

6.7.2 VALORES LIMITES PARA AS ÁREAS DAS ARMADURAS LONGITUDINAIS DE


VIGAS

6.7.2.1 Área mínima de armadura de tração

De acordo com o indicado na ABNT NBR 6118:2014, a área de armadura mínima


de tração, em elementos estruturais armados ou protendidos deve ser determinada pelo
dimensionamento da seção para um momento fletor mínimo dado pela equação 6.43.

MR d,min  0,8  W0  fctk ,sup [6.43]

sendo:
I cy t
W

 [6.44]
0

W0 o módulo de resistência da seção transversal bruta de concreto (sem considerar


a área de armadura longitudinal de tração) relativo à fibra mais tracionada;
Ic

o momento de inércia da seção transversal bruta, sem considerar a área de


armadura;
yt

a distância da fibra mais tracionada da seção transversal até ao centro


geométrico da seção transversal;
fc

a resistência característica superior do concreto à tração, calculada pelas


tk
,
s
u
p

equações 3.16, 3.17 e/ou 3.18.

O dimensionamento da área da armadura mínima para MRd,mín pode ser


considerado atendido se forem respeitadas as taxas geométricas mínimas de armadura
da tabela 6.3. Essa tabela atende os casos de elementos estruturais fletidos armados
com barras de aço CA-50 e relação entre a altura útil (d) e a altura (h) igual a 0,8, isto é
d/h = 0,8.
A ABNT NBR 6118:2014 indica que em elementos estruturais, exceto elementos
em balanço, cujas áreas das barras de armaduras sejam calculadas com um momento
fletor igual ou maior ao dobro de MSd, não é necessário atender à armadura mínima.

Tabela 6.3 - Taxas mínimas de armadura de flexão para vigas


[ABNT NBR 6118:2014]
Valores de ρmin = Ast,min/Ac - em porcentagem (%)
Seção
transversal C20 C25 C30 C35 C40 C45 C50 C55 C60 C65 C70 C75 C80 C85 C90
retangular
0,150 0,150 0,150 0,164 0,179 0,194 0,208 0,211 0,219 0,226 0,233 0,239 0,245 0,251 0,256

Os valores de min estabelecidos nesta tabela pressupõem o uso de aço CA-50, d/h = 0,8 e c = 1,4 e s = 1,15. Caso esses fatores
sejam diferentes, min deve ser recalculado.
132 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Nesse caso, a determinação dos esforços solicitantes tem que considerar de modo
rigoroso todas as combinações possíveis de carregamento, assim como os efeitos de
temperatura, deformações diferidas e recalques de apoio. É preciso ter ainda especial
cuidado com o diâmetro e espaçamento das armaduras de limitação de fissuração.
6.7.2.2 Área total de armadura
A soma das áreas das barras das armaduras tracionadas (Ast) e comprimidas (Asc),
calculada na seção transversal fora da região das emendas das barras, não pode ter
valor maior do que 4%, sendo Ac a área da seção transversal da viga, conforme equação
6.45.
ρ

4
%
A

   [6.45]
s
t

s
c

As condições de dutilidade tem que ser garantidas estudadas no item 6.4.

6.7.2.3 Área de armadura de pele

Em vigas com altura (h) superior a 60 cm há necessidade de se considerar barras


ou fios de aço distribuídos em cada face da alma da viga, cuja finalidade é limitar as
aberturas de fissuras que ocorrem em região entre o plano horizontal que contem a linha
neutra e a borda tracionada da viga. A área das barras da armadura de pele (figura 6.5)
é calculada pela equação 6.46.
0
,
1 0
0 0
A

5
,
0
c
m
/
m
2
1

   (em cada face lateral da viga) [6.46]


s
,
p
e
l
e

c
,
a
l
m
a

ou seja, essa área é igual a 0,10% da área da seção transversal da alma da viga.
Não é necessário dispor de armadura de pele de área maior do que 5,0 cm2/m em
cada face.
As barras que compõem a armadura de pele precisam ser das categorias CA-50
ou CA-60. O espaçamento entre as barras não pode ser maior do que um terço da
medida da altura útil (d/3) e 20 cm, o menor valor entre estes. As áreas das barras das
armaduras de tração e compressão, calculadas no dimensionamento, não podem ser
computadas no cálculo da área da armadura de pele. As barras da armadura de pele
tem que ser convenientemente ancoradas.

6.7.2.4 Diâmetro das barras da armadura longitudinal


A ABNT NBR 6118:2014 não apresenta nenhuma indicação quanto aos diâmetros
mínimo e máximo de barras longitudinais de tração em elementos estruturais fletidos.
Assim, desde que sejam satisfeitas condições construtivas qualquer diâmetro
normalizado pela ABNT NBR 7480:2007 pode ser adotado.
Ao se realizar um projeto é conveniente consultar as empresas construtora e a
fornecedora de barras e fios de aço na região onde a obra será construída a respeito da
disponibilidade dos diâmetros das barras e categoria do aço.
É conveniente adotar diâmetro () mínimo de 8,0 mm para as barras de aço das
armaduras longitudinais de tração das vigas; para as barras da armadura de montagem
(porta estribos) sugere-se que o diâmetro seja igual ou maior que o diâmetro das barras
ou fios adotados para os estribos.
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 133

6.8 ESPAÇAMENTOS ENTRE AS BARRAS DA ARMADURA


As vigas depois de terem a(s) área(s) da(s) barra(s) da(s) armadura(s)
corretamente dimensionadas para absorver o momento fletor solicitante de cálculo (MSd),
precisam ser convenientemente detalhadas. A distribuição das barras das armaduras,
para absorver as tensões de tração ou de compressão, esta no caso de vigas com
armadura dupla, é feita seguindo critérios que consideram as condições de lançamento
na fôrma e adensamento realizado por meio mecânico com auxílio de vibrador.
Assim, os espaçamentos entre as barras precisam levar em conta o diâmetro
nominal do agregado graúdo adotado para o concreto, o diâmetro do vibrador e a direção
e sentido da concretagem que é a vertical. O arranjo das barras tem que ser estudado
com cuidado para que durante a moldagem o concreto preencha toda a fôrma, de tal
modo que as posições das barras das armaduras não prejudiquem este procedimento,
ainda, estas posições permitam a passagem do vibrador para conveniente adensamento.
A segurança estrutural depende de fatores como a correta avaliação das ações que
irão atuar no elemento estrutural quando em serviço, do processo de determinação dos
esforços solicitantes, das condições de contorno (análises das vinculações), das
equações constitutivas dos materiais, das hipóteses para o dimensionamento das áreas
das barras das armaduras, o detalhamento com criteriosa análise dos arranjos das
barras, do processo de construção como moldagem, adensamento, cura, desforma e
retirada do cimbramento.
A distribuição das barras na seção transversal em vigas, é de suma importância
para a correta moldagem e adensamento do concreto. As barras podem ficar justapostas
formando feixes de barras, conforme analisado no capítulo 10, ancoragem por aderência
de barras, sendo que esta fica comprometida por diminuir a área de contato entre o
concreto e as barras do feixe. Assim, o comprimento de ancoragem precisa ser
aumentado quando se tratar de feixe de barra.
A ABNT NBR 6118:2014 indica que os espaçamentos mínimos livres entre as faces
das barras longitudinais (figura 6.5), medidos no plano da seção transversal, precisam
ser iguais ou superiores aos maiores dos seguintes valores:

- no sentido horizontal (ah):

20 mm = 2 cm;

diâmetro da barra (   ), do feixe de barras ou da luva de emenda das barras;

1,2 vez o diâmetro máximo do agregado (agr) usado no concreto.

- no sentido vertical (av):

20 mm = 2 cm;

diâmetro da barra (   ), do feixe ou da luva;


 

0,5 vez o diâmetro máximo do agregado usado (agr) no concreto.


n

Para feixes de barras é preciso considerar o diâmetro do feixe     , sendo n


n

o número de barras do feixe e   o diâmetro das barras longitudinais que compõem o


feixe. É importante salientar que essas indicações se aplicam também às regiões de
emendas por traspasse das barras.
134 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Nos projetos as larguras das vigas são previamente pré-dimensionadas com 12 cm,
que é a medida mínima indicada na ABNT NBR 6118:2014 (bw,min = 12 cm), observando
detalhes arquitetônicos tais como dimensões das paredes de alvenaria e compatibilidade
com o projeto geral. Também, em função da intensidade do momento fletor o número de
barras pode ser tal que não permita o alojamento de todas as barras em uma única
camada, precisando, portanto, serem alojadas em várias camadas. Isso acarreta
mudança na posição da altura útil (d) inicialmente adotada fato que exige verificação
específica como estudado neste capítulo.
Para alojar corretamente as barras em uma camada com as condições indicadas
anteriormente é preciso que a largura da viga (bw) seja compatível com os diâmetros e
quantidades de barras, espaçamentos horizontais (ah) e com o cobrimento especificado
para a classe de agressividade ambiental, conforme indicado na figura 6.5.
Asc ou As,mon
c

h =h
f laje

L.N.
 CG
d

A s, pele As,pele = Ac. 0,10

.
100
av

CG

c
.

A st > A bw
st, min <
10 h
100 c lon ah lon ah lon ah lon c
. . . . . . .

est est
bw
Det. I .

Figura 6.5 - Arranjo das barras da armadura longitudinal

Considerando a figura 6.5 é possível escrever a inequação 6.47 que relaciona a


largura da viga (bw), o diâmetro das barras longitudinais (   ),o diâmetro das barras ou
fios transversais (  ), os espaçamentos entre as barras longitudinais e os cobrimentos
t

das barras (c), lembrando que o cobrimento é sempre medido a partir da face do
elemento estrutural até a barra mais próxima, no caso o estribo.
Assim, para alojar um número (n) de barras em uma única camada tem-se:
b

2
c
2

nb

nb

1
ah

       ︵
 ︶  [6.47]
w

a
r

a
r

ou seja:
b

2
c
2

nb

nb

ah

ah

          [6.48]
w

a
r

a
r

Trabalhando a equação 6.48 determina-se a equação 6.49 que permite calcular o


número de barras por camada de armadura.
b

2
c
2 ah

ah
nb

    
w

 [6.49]
a
r

 
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 135

A distribuição longitudinal das barras nos elementos estruturais solicitados por


momento fletor é feita considerando o diagrama de momentos fletores de cálculo, após
a correta análise do deslocamento (decalagem) do diagrama. Esse deslocamento
depende da análise do equilíbrio da seção transversal submetida a ação do momento
fletor e da força cortante. Assim, a distribuição longitudinal das barras é estudada nos
capítulos 9, 10 e 12.
No caso de vigas com grande número de barras o alojamento é feito em várias
camadas, por exemplo em vigas de pontes, sendo necessário prever distâncias entre as
barras para a introdução do vibrador e de modo a impedir a segregação dos agregados
e a ocorrência de vazios no interior do elemento estrutural.

6.9 POSIÇÃO CORRETA DO CENTRO GEOMÉTRICO DAS BARRAS DA


ARMADURA

Nos projetos de estruturas de concreto armado é comum considerarem-se as


alturas das vigas em função de detalhes arquitetônicos, tais como as cotas das faces
superiores das janelas e das portas, o que faz com que o projetista adote as alturas úteis
estimadas (dest) em função da espessura do cobrimento, dos diâmetros das barras
longitudinais e transversais, ambos estimados.
Após os cálculos serem feitos a área das barras da armadura longitudinal pode ser
distribuída em várias camadas, o que acarreta uma altura útil real (d) menor do que a
altura útil estimada (dest). Portanto, há necessidade de se verificar se a altura útil real(d)
cumpre com a medida indicada na ABNT NBR 6118:2014. Se o limite da relação não for
atendido há que se efetuarem novos cálculos, adotando nova altura útil (dest) e realizar
outra verificação.
A ABNT NBR 6118:2014 prescreve que a força resultante das tensões de tração
nas barras das armaduras podem ser consideradas concentradas no centro de gravidade
correspondente, se a distância deste centro ao ponto da seção de armadura mais
afastada da linha neutra, medida normalmente a esta, for menor que 10% de h.
As armaduras laterais (armadura de pele) de vigas podem ser consideradas no
cálculo do momento resistente, desde que as barras estejam convenientemente
ancoradas e emendadas.
A figura 6.5 mostra que a distância do centro geométrico das barras da armadura
de tração até o plano horizontal tangente às barras longitudinais da primeira camada tem
que cumprir a medida especificada ( 0,10  h ).
Nos casos de projetos de vigas em que a altura útil (d) calculada pode ser adotada,
por não haver imposição arquitetônica, a altura (h) pode ser definida a partir dessa com
conveniente arranjo das barras longitudinais e depois de adotado o diâmetro dos estribos
e a espessura do cobrimento de concreto.

6.10 EXEMPLOS DE DIMENSIONAMENTO DE VIGAS DE CONCRETO ARMADO

Neste item apresentam-se exemplos de projetos de vigas de concreto armado, nos


quais se verifica a segurança no estado-limite último, com solicitação de momento fletor.
Os problemas resolvidos são de dimensionamento, isto é, calculam-se as alturas úteis
(d) e as áreas das barras das armaduras a partir do conhecimento, por meio de pré-
dimensionamento, da medida da largura da seção transversal.
Para a viga da figura 6.6, considerada apoiada nos pilares, determinam-se altura
útil (d) e a área de armadura de tração (Ast), optando-se por considerar armadura
simples, isto é, sem que seja necessária armadura na região comprimida (Asc) para
equilibrar as tensões normais.
Os dados geométricos da viga da figura 6.6 são mantidos para todos os exemplos
seguintes, sendo alteradas as intensidades das forças uniformemente distribuídas
136 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

atuantes. O objetivo em alterar a intensidade da ação em cada exemplo é para que o


leitor perceba as variações nos valores da altura útil (d) e, portanto da altura total (h), e
da área de armadura de tração (Ast).
As vigas dos exemplos podem ser associadas a vigas de estruturas pré-fabricadas,
apoiadas em pilares, sendo interpostos entre eles aparelhos de apoio feitos com
neoprene, capazes de permitir as rotações das seções de apoio.
As forças uniformemente distribuídas na viga são relativas às ações permanentes
(g) e as variáveis normais (q).
Adota-se concreto com resistência característica à compressão de 30 MPa (C30) e
aço categoria CA-50 com resistência característica ao escoamento das barras da
armadura igual 500 MPa.
O cobrimento das barras da armadura é adotado igual a 3 cm nos casos de vigas
e pilares para atender critério indicado na ABNT NBR 6118:2014, que especifica Classe
de Agressividade Ambiental II, com grau de agressividade moderada, relativo ao
ambiente urbano, o que significa que a barra que estiver mais próxima das faces da viga
precisa ser detalhada distando desta 3 cm. A ABNT NBR 6118:2014 permite que se faça
uma redução no valor do cobrimento de c = 0,5 cm quando na obra houver controle de
qualidade e rígidos limites de tolerância de variabilidade das medidas durante a
construção, explicitadas nos desenhos de projeto.

6.10.1 EXEMPLO 1 – AÇÃO g + q = 10 kN/m

Como o objetivo é determinar a altura útil (d) e a área das barras da armadura de
tração (Ast), considerando que a área de armadura de compressão é adotada igual a
zero, ou seja, não se pretende contar com a contribuição desta para absorver as tensões
de compressão, são usadas as equações 6.19 e 6.20 com Rsc igual a zero, o que significa
considerar Asc = zero.
Lembrando o balanceamento do número de equações e incógnitas, faz-se
necessário adotar uma das incógnitas para dimensionar a viga.
Pode ser adotado, portanto, a posição relativa da linha neutra igual ao valor limite
indicado pela ABNT NBR 6118:2014 que é βx,lim = 0,45 (equação 6.26) para concretos
das classes C20 a C50, assim têm-se a garantia da dutilidade pelo controle da
profundidade da linha neutra.
Considerando a força uniformemente distribuída g + q = 10 kN/m e viga biapoiada
o módulo do momento fletor atuante na seção de meio de vão, máximo neste caso, é
g
q

/
8
2

dado por       igual a 80 kNm. Para verificar o estado-limite último é preciso
determinar o momento fletor solicitante de cálculo calculado por
M

1
,
4
8
0
1
1
2
k
N
m

  
S
d

Considerando a equação 6.20 e, substituindo os dados do projeto desta viga 1,


lembrando que o concreto é da classe C30, portanto, λ = 0,80 e αc = 0,85, resulta a
equação com a qual de calcula a medida da altura útil (d).
3
,
0 4
1
1
.
2
0
0
2
0
d
0
,
8
0
,
4
5
0
,
8
5

1
0
,
5
0
,
8
0
,
4
5
2

1
,

            (equação 6.20)

portanto, resulta:
d
=
3
3
c
m
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 137

Com a equação 6.19 pode-se calcular a área das barras da armadura longitudinal
de tração assim, substituindo-se os dados do projeto, tem-se:

3
,
0 4
2
0
3
3
0
,
8
0
,
4
5
0
,
8
5

A
4
3
,
5
1
,
       (equação 6.19)

s
t
ou seja:
A

9
,
9
5
c
m
 2
s
t

Adotando barras de CA-50 de diâmetro 16 mm, com área unitária igual a 2,01
cm2, a área efetiva das barras da armadura resulta:
A

1
0
,
0
5
c
m
2


s
t
,
e
f

ou seja, a área de armadura longitudinal de tração é constituída por 5 barras de


16,0 mm.
Analisando a figura 6.4 e tendo sido adotado βx = βx,lim = 0,45, ou seja domínio 3 de
deformações, sabe-se que a tensão nas barras da armadura tracionada é igual à
resistência de cálculo fyd = fyk = 500/1,15 = 435 MPa = 43,5 kN/cm2.
Conforme analisado no exemplo 6 as 5 barras de 16,0 mm podem ser alojadas na
primeira camada.
De acordo com o especificado pela ABNT NBR 6118:2014, e estudado na seção
5.7, há necessidade de se verificar se essa área de barras é menor que a área mínima,
lembrando que se for menor há que se adotar esta como armadura da viga.
A altura (h) da viga pode ser calculada pela equação 6.40, resultando:
1
,
6 2
h
d
c

3
3
,
0
2
,
5
0
,
5

3
6
,
8
c
m


2

         (equação 6.40)
t

ou seja a altura da viga pode ser adotada igual a 37 cm.


A área de armadura mínima tem que ser verificada com os critérios indicados na
seção 6.7.2.1; se a área de armadura calculada for menor do que a área da armadura
mínima adota-se esta.
O módulo do momento resistente mínimo é calculado de acordo com a equação
6.43, assim:

MR d,min  0,8  W0  fctk ,sup (equação 6.43)

sendo que, com os dados e os calculados no projeto da viga 1 tem-se:


138 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

VT (bw x h)
c

d h

P02 M Sd
P01
c
c
l =8m 20

C30
g+q CA-50

MSk

MSd
MSd

VSd
VSd

Figura 6.6 - Exemplo de viga apoiada


2
0 13
3 27 2
7
3


I cy t

I ch 2
W

4
.
5
6
3
,
3
c
m
3

   
0
fc

1
,
3
0
,
3
3
0

3
,
7
7
M
P
a
0
,
3
8
k
N
/
c
m
2 /
3

     (equações 3.16 e 3.17)


tk
,
s
u
p

substituindo na equação 6.43 obtém-se:


M

0
,
8
4
.
5
6
3
,
3
0
,
3
8
2
.
9
2
0
,
5
k
N
c
m
2
9
,
2
k
N
m
M

1
1
2
k
N
m

      
R
d
,
m
i
n

S
d

As hipóteses para cálculo da área mínima de armadura longitudinal de tração é feita


com os critérios do estádio Ia, conforme estudado no item 5.4.5, figura 5.16, sem
considerar as áreas das barras da armadura longitudinal de tração, isto é, considerando-
se a seção transversal só em concreto. Observando-se a figura 5.16 nota-se que as
forças resultantes das tensões de tração (Rct) e de compressão (Rcc) nos centros
geométricos dos triângulos que representam as variações das tensões, o momento da
força resultante de tração (Rct) em relação ao ponto de aplicação da força (Rcc) é igual
ao momento resistente (MRd,mín), podendo-se escrever:
2 3
M

2
.
9
2
0
,
5
R

1
8
,
5

 
    
R
d
,
m
i
n

c
t


 

resultando:
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 139

1
1
8
,
2
4
k
N

c
t
A área de armadura mínima para absorver essa força de tração é calculada por:

1
1
8
,
2
4
A

2
,
7
c
m
2
4
3
,
5
 
s
t
,
m
í
n

1
0
,
0
5
c
m
2
Como a área das barras da armadura efetiva é igual a  e área de

s
t
,
e
f
A

2
,
7
c
m
2
armadura mínima resultou igual a  que é menor que a área calculada.

s
t
,
m
í
n
É necessário verificar a taxa de armadura mínima (ρmin) que tem que ser maior do
que 0,15%.
Assim, tem-se:
A A

1
0
,
0
5

2
,
7 3
1
,
3
6
%

0
,
3
6
%
0
,
1
5
%
s
,
e
f

2
0
3
7

2
0
7
  
    
s
,


 
c

e, portanto, esse critério é verificado.

d
/
h
3
3
/
3
7
0
,
8
9
Neste exemplo tem-se que a relação entre d e h é   e, portanto,
não é possível considerar-se a taxa mínima indicada na tabela 6.3.
Analisando a viga do exemplo 1 ela tem vão efetivo de 8,0 m, com a profundidade
relativa da linha neutra escolhida igual ao limite indicado pela ABNT NBR 6118:2014,
0
,
4
5

isto é   , pois o concreto é da classe C30, resultou altura (h) igual a 37 cm. Na
x

fase de anteprojeto considera-se a altura (h) próxima de 1/10 da medida do vão efetivo,
para que as condições dos estados-limites de serviço (fissuração e deslocamento) sejam
verificadas, conforme analisado no capítulo 13. Considerando esse critério a viga do
exemplo 1 teria que ter 80 cm de altura.
Embora as condições de segurança, com relação aos estado-limite último de ruína
por ação de momento fletor, tenham sido verificadas a viga pode não ter verificadas as
condições de segurança com relação aos estados-limites de serviço, portanto, a viga do
exemplo 1 não pode ser construída. Como alternativa de projeto se faz necessário
considerar uma altura (h) maior que a calculada.
A seguir apresenta-se o projeto da viga do exemplo 1 considerando-a com altura
(h) igual a 80 cm.

6.10.2 EXEMPLO 2 – AÇÃO g + q = 10 kN/m – ALTURA h = 80 cm

Considerando os mesmos dados para o concreto (C30) e para as barras


b
=
2
0
c
m

longitudinais de aço (CA-50), largura da viga , momento fletor solicitante de


w

cálculo (MSd) igual a 112 kNm e, analisando as equações 6.19 e 6.20 observa-se que
uma das incógnitas é a profundidade relativa da linha neutra (βx), assim substituindo-se
na equação 6.20 os dados da viga e considerando-se d = 76 cm, avaliado de acordo com
a equação 6.40 vem:
3
,
0 4
1
1
.
2
0
0
2
0
7
6
0
,
8

0
,
8
5

1
0
,
5
0
,
8
2

1
,

             (equação 6.20)
x

Resolvendo essa equação de segundo grau obtém-se como resposta para as


raízes:
140 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

2
,
4
3
 
x
1

esta resposta se constitui em um absurdo físico, pois como pode ser visto na figura
6.4, neste caso de flexão simples, com a seção transversal solicitada por momento fletor
solicitante de cálculo, a profundidade relativa da linha neutra tem que ser maior do que
zero e menor do que um, isto é:
z
e
r
o

1
,
0

 
x

e,
0
,
0
7

 
x
2

que é a raiz aceita, e, observando-se a figura 6.4 essa posição relativa da linha
neutra fica contida na situação de domínio 2.
Para o cálculo da área das barras longitudinais de tração considera-se a equação
6.19, entendendo que a área das barras da armadura longitudinal de compressão (Asc)
é igual a zero e que a tensão na armadura longitudinal de tração é igual a 43,5 MPa,
conforme pode ser visto na figura 6.4.
Portanto, tem-se:
3
,
0 4
2
0
7
6
0
,
8
0
,
0
7
0
,
8
5

A
4
3
,
5
1
,

       (equação 6.19)
s

resultando:
A

3
,
5
6
c
m
2


s
t

A intensidade do momento resistente mínimo é calculada de acordo com a equação


6.43, a seguir indicada:

MR d,min  0,8  W0  fctk ,sup (equação 6.43)

com os dados do exemplo 2, W0 e fctk,sup resultam:


2
0 18
8 20 2
0
3


I cy t

I ch 2
W

2
1
.
3
3
3
,
3
c
m
3

   
0
fc

1
,
3
0
,
3
3
0

3
,
7
7
M
P
a
0
,
3
8
k
N
/
c
m
2 /
3

     (equações 3.16 e 3.17)


t k
,
s
u
p

substituindo na equação 6.43 obtém-se:


M

0
,
8
2
1
.
3
3
3
,
3
0
,
3
8
6
.
4
8
5
,
3
k
N
c
m
6
4
,
8
5
k
N
m
M

1
1
2
k
N
m

      
R
d
,
m
i
n

S
d

Portanto, a área de armadura longitudinal calculada é maior que a área mínima.


Dividindo a área de armadura longitudinal calculada 3,56 cm2 pela área de uma
barra de 16,0 mm de diâmetro que é igual a 2,01 cm2, tem-se que 2 barras são suficientes
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 141

para absorver as tensões de tração que ocorrem pela ação do momento fletor de cálculo.

4
,
0
2
c
m
2
A área efetiva das barras da armadura longitudinal é 

s
t
,
e
f
Analisando os exemplos 1 e 2 de dimensionamento de vigas pode-se observar que:

0
,
4
5
- no primeiro exemplo que se calculou altura útil (d) e se escolheu    

x
,
l
i
m
a altura total resultou igual a 37 cm e a área efetiva da armadura longitudinal de tração
foi igual a 10,05 cm2 (5  16,0 mm), porém, o projeto desta viga não é adequado, pois
se for construída a viga pode apresentar aberturas de fissuras e deslocamentos (flechas)
além dos limites indicados na ABNT NBR 6118:2014; o volume de concreto da viga é
0
,
2
0
0
,
3
7
8
,
2
0
0
,
6
1
m
3
igual a    ;

- no exemplo 2 em que se decidiu projetar a viga com 80 cm de altura, em face do


projeto da viga não ter os estados-limites de serviço verificados, embora não calculados
nesse exemplo, obteve-se área da armadura efetiva de tração igual a 4,02 cm2 (2

0
,
2
0
0
,
8
0
8
,
2
0
1
,
3
1
m
3
 16,0 mm); e, volume de concreto igual a    ;

- a altura de viga igual a 80 cm é o limite possível em edifícios usuais em concreto


armado, pois se for considerada distância de piso-a-piso igual a 2,90 m e as alturas de
portas e dos respaldos das janelas e venezianas iguais a 2,10 m.

6.10.3 EXEMPLOS 3, 4 e 5

Os exemplos 3, 4, e 5 de projetos de vigas deste item foram feitos adotando-se os


mesmos critérios para determinar a altura útil (d), em função da profundidade relativa da
linha neutra com βx = βxlim = 0,45, por causa de se ter adotado concreto da classe C30.
Lembra-se que esse valor limite de βx é adotado para garantia de dutilidade da viga.
Foi adotado diâmetro (   ) de 16,0 mm para as barras que compõem as áreas das
armaduras de tração, para melhor entendimento dos resultados, facilitando a
comparação entre os números de barras dos vários exemplos.
Na solução destes exemplos foi usada a mesma rotina empregada no exemplo 1,
ou sejam foram usadas as equações 6.20 e 6.19 para cálculos da altura útil (d) e da área
A

das barras da armadura longitudinal de tração ( ), respectivamente. As alturas (h) das


s
t

vigas foram calculadas com a equação 6.39, depois de alojadas as barras na seção
transversal e calculadas as medidas de seus centros geométricos. Foram adotados
estribos de fios CA-60 de diâmetro (  ) de 5,0 mm e cobrimento das armaduras de 2,5
t

cm.
Os resultados dos projetos das vigas 1, 3, 4 e 5 são apresentados na tabela 6.4.
Tabela 6.4 - Exemplos de dimensionamento das vigas 1, 3, 4 e 5
bw = 20 cm, C30, CA-50
A

E
x
n
s
,
e
f

e g + q. MSk MSd βx=βx,lim d h 


m
p
l kN/m kNm kNm cm cm cm2  em mm
o
1 10 80 112 0,45 33 37 10,05 5  16,0
3 20 160 224 0,45 46 51 14,07 7  16,0
4 40 320 448 0,45 65 71 20,10 10  16,0
5 60 480 672 0,45 79 87 25,12 12  16,0
142 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Pode-se observar pelos resultados apresentados na Tabela 6.4 que ao se aumentar


a intensidade do momento fletor de cálculo (MSd), mantidas a medida da largura da viga
(bw) e a classe de resistência do concreto (C30), a altura da viga tem que ser maior, o
mesmo ocorre com a área das barras da armadura longitudinal de tração.
Sugere-se ao leitor que faça como exercício os projetos das vigas analisadas
adotando concretos das classes C40, C50, C70 e C90.

6.10.4 EXEMPLO 6 – AÇÃO g + q = 40 kN/m – ALTURA h = 75 cm

6.10.4.1 Cálculo da posição relativa da linha neutra (βx)

O exemplo 6 de projeto de viga tem os mesmos dados que o exemplo 4 adotando-


se a altura da viga com 75 cm.
A altura útil (d) pode ser avaliada igual a 71 cm, que é verificada com os critérios
da ABNT NBR 6118:2014 e estudados no item 6.9 deste capítulo.
As incógnitas agora são a profundidade relativa da linha neutra (βx) e a área da
A

A
armadura longitudinal de tração ( ) considerando igual a zero.
s
t

s
c
Substituindo os dados do projeto na equação 6.20 e lembrando que no caso de
concreto classe de resistência C30 λ = 0,8 e αc = 0,85 tem-se:
3
,
0 4
4
4
.
8
0
0
2
0
7
1
0
,
8
βx
0
,
8
5

1
0
,
5
0
,
8
βx
2

1
,

            (equação 6.20)

Resolvendo a equação de segundo grau obtém-se:


2
,
1
5

 
x
1

esta resposta se constitui em um absurdo físico, pois, em se tratando de seção


transversal solicitada por momento fletor, a profundidade relativa da linha neutra tem que
ser maior do que zero e menor do que um;

e,
0
,
3
6

 
x
2

que é a raiz aceita, e, observando-se a figura 6.4 essa posição relativa da linha
neutra fica contida na situação de domínio 3, e é menor do que 0,45.
A medida da profundidade da linha neutra mede, neste exemplo de projeto da viga
6, é:
x 7
0
,
3
6

   (equação 6.17)
x
2

portanto,
x
0
,
3
6
7
1
2
5
,
6
c
m

  
A

6.10.4.2 Cálculo da área das barras da armadura longitudinal de tração ( )


s
t

Substituindo-se os dados do projeto na equação 6.19, com Asc igual a zero, calcula-
se a área da armadura longitudinal de tração, assim tem-se:
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 143

3
,
0 4
2
0
7
1
0
,
8
0
,
3
6
0
,
8
5

A
4
3
,
5
1
,
       (equação 6.19)

s
t
resultando:
A

1
7
,
1
2
c
m
2

s
t

M
6.10.4.3 Cálculo do módulo do momento resistente mínimo ( )

R
d
,
m
i
n
A intensidade do momento resistente mínimo é calculada de acordo com a equação
6.43, a seguir indicada:

MR d,min  0,8  W0  fctk ,sup (equação 6.43)

com os dados do exemplo 6 W0 e fctk,sup resultam:


2
0 17
7 25 2
5
3


I cy t

I ch 2
W

1
8
.
7
5
0
c
m
3

   
0
fc

1
,
3
0
,
3
3
0

3
,
7
7
M
P
a
0
,
3
8
k
N
/
c
m
2 /
3

     (equações 3.16 e 3.17)


tk
,
s
u
p

substituindo na equação 6.43 obtém-se:


M

0
,
8
1
8
.
7
5
0
0
,
3
8
5
.
7
0
0
k
N
c
m
5
7
,
0
0
k
N
m
M

4
4
8
k
N
m
      
R
d
,
m
i
n

S
d

Portanto a área de armadura longitudinal calculada é maior que a área mínima.


Dividindo a área de armadura longitudinal calculada 17,12 cm2 pela área de uma
barra de 16,0 mm de diâmetro que é igual a 2,01 cm2, tem-se que 9 barras são suficientes
para absorver as tensões de tração que ocorrem pela ação do momento fletor de cálculo.
A

1
8
,
0
9
c
m
2

A área efetiva das barras da armadura longitudinal (  )


s
t
,
e
f

6.10.4.4 Arranjo das barras da armadura longitudinal na seção transversal

Tão importante quanto os cálculos de dimensionamento são as verificações em


relação ao conveniente alojamento das barras da armadura longitudinal de tração na
seção transversal, atendendo os cobrimentos das armaduras, o diâmetro dos estribos e
o diâmetro característico do agregado graúdo utilizado no concreto.
As distâncias mínimas horizontais (ah) entre as barras longitudinais podem ser
calculados com as expressões indicadas no item 6.8, considerando que a viga será
construída com concreto com pedra britada número 1, ou seja com diâmetro
característico do agregado graúdo igual a 19,0 mm, assim tem-se:

20 mm = 2 cm;

16,0 mm = 1,6 cm;


144 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

1
,
2
1
,
9
2
,
3
c
m
  .

Portanto, a maior medida para a distância horizontal (ah) entre as barras é igual a
2,3 cm.
As distâncias mínimas verticais (av) entre as barras longitudinais podem ser
calculados com as expressões indicadas na seção 6.8, resultando:

20 mm = 2 cm;

16,0 mm = 1,6 cm;


0
,
5
1
,
9
0
,
9
5
c
m

  .

Assim, a maior medida para a distância vertical (av) é igual a 2,0 cm.
A quantidade de barras que podem ser alojadas em uma camada, junto a face
inferior da viga, adotando-se como estribos fios de CA-60 de diâmetro  5,0 mm, é

t
calculada com a equação 6.49 resultando:
2
0
2
2
,
5 ,
2 2
0
,
5
2
,
3
nb

4
,
2

    
1
6
,
3

  (equação 6.49)
a
r

portanto, até 4 barras de 16,0 mm podem ser alojadas na primeira camada em


relação ao espaçamento mínimo calculado (ah = 2,3 cm).
Neste exemplo pode-se considerar 4 barras na primeira camada,3 barras na
segunda camada e 2 barras na terceira camada, conforme pode ser visto na figura 6.7.
A verificação da segurança da seção transversal com relação ao ELU por
solicitação de força cortante será estudada no capítulo 9. A ABNT NBR 6118:2014 indica
que o diâmetro (  ) mínimo de barras e fios dos estribos é igual a 5,0 mm.
t

6.10.4.5 Cálculo da taxa de armadura longitudinal de tração

De acordo com o especificado pela ABNT NBR 6118:2014, e estudado na seção


6.7.2.1 deste texto, há necessidade de se verificar se área efetiva das barras é maior
que a área mínima, o que foi feito na subseção 6.10.4.3.
Conforme estudado no item 6.7.2.2 a taxa total das barras computando as
tracionadas e comprimidas não pode ser maior do que 4%, o que ocorre neste exemplo
de projeto.

6.10.4.6 Posição correta do centro geométrico das barras da armadura longitudinal

Calcula-se a distância do plano tangente às barras da primeira camada até o centro


geométrico das barras, conforme figura 6.7, considerando que a soma dos momentos
estáticos das barras em cada camada é igual ao momento estático da área total de
barras concentrada no centro geométrico, resultando, conforme figura 6.7:
1
,
6 2

1
,
6 2
4
2
,
0
1
2
,
5
0
,
5

3
2
,
0
1
2
,
5
0
,
5
1
,
6
2
,
0

︵  ︶  
︵ ︶ 
        
   
1
,
6 2
2
2
,
0
1
2
,
5
0
,
5
1
,
6
2
,
0
1
,
6
2
,
0

9
2
,
0
1
y

︵  ︶      

  
C
G


 

portanto:
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 145

6
,
6
c
m

C
G
A altura útil efetiva (def) é calculada por:
de

h
y

7
5
,
0
6
,
6
6
8
,
4
c
m
    
f

C
G
Lembra-se que a altura útil adotado (dado) foi igual a 71 cm e a altura efetiva (def) é
igual a 69,6 cm, portanto erro de 1,04%.
Conforme estudado no item 6.9, figura 6.5, a distância do centro geométrico das
barras da armadura longitudinal de tração até o plano tangente a primeira camada não
1
0
%
h
pode distar mais do que  .
Portanto, neste exemplo de projeto tem-se:
7 1
5 0
6
,
6
2
,
5
0
,
5
3
,
6
c
m

7
,
5
c
m
    

assim, esse critério fica verificado.

6.10.4.7 Cálculo da área das barras da armadura de pele

A ABNT NBR 6118:2014 indica que no caso de vigas com alturas (h) maior do que
60 cm é necessário dispor de barras ou fios na alma de área calculada com a equação
6.46, indicada na seção 6.7.2.3. Com os dados do projeto desta viga 6 tem-se:
0
,
1 0
0 0
A

2
0
7
5
1
,
5
0
c
m
2
1

    (equação 6.46)
s
,
p
e
l
e

Essa área tem que ser distribuída junto a cada face da viga.
Considerando fios de aço CA-60 de 5,0 mm de diâmetro pode-se calcular o número
de fios que serão necessários em cada face. Lembrando que a área de fios de 5,0 mm
é igual a 0,20 cm2, resulta:
1
,
5

7
,
5
0
,
2
0

 (em cada face da viga)

Portanto, são dispostas 8 fios de 5,0 mm em cada face da viga.

Se adotar-se barras de aço CA-50 de diâmetro de 6,3 mm (0,31 cm2) resulta:


1
,
5

4
,
8
0
,
3
1

 (em cada face da viga)

Assim detalham-se 5 barras de diâmetro 6,3 mm em cada face.


Qualquer uma das duas opções pode ser escolhida.
x
0
,
3
6
6
9
,
6
2
5
,
0
c h
m

Como    , calculado com def, a armadura de pele fica


x
7
5
,
0
2
5
,
0
5
0
c
m

distribuída em uma altura igual a    


Lembra-se que a ABNT NBR 6118:2014 indica que o espaçamento em as barras
da armadura de pele não pode ser maior do que d/3 e 20 cm, o que resultar menor.
146 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

6.10.4.8 Detalhamento das armaduras

O projeto da viga se completa quando se faz o detalhamento das barras das


armaduras longitudinais e transversais, estas com a finalidade de absorver as tensões
de tração oriundas da ação de força cortante. O detalhamento da viga 6 é mostrado na
figura 6.7 e, de posse dos desenhos, os engenheiros de obra orientam os armadores a
corta-las, dobra-las, monta-las de acordo com os desenhos e posicionar o conjunto de
barras na fôrma da viga.
Os detalhamentos das vigas são feitos por meio de dois desenhos: uma vista
longitudinal da viga na escala 1:50 e um corte transversal na escala 1:20, em geral.
O desenho longitudinal da viga mostra a vista da forma, as suas medidas, e a
distribuição das barras dos estribos (barras N1), cujo desenho em verdadeira grandeza
e a posição que eles ocupam na seção transversal são vistos no corte transversal da
viga à direita da figura 6.7. A título de ilustração foi adotado diâmetro dos estribos de 5,0
mm distribuídos ao longo do eixo da viga um a cada 15 cm. As medidas dos estribos
estão de acordo com os cobrimentos de 2,5 cm e os comprimentos levam em conta as
medidas das dobras de dois ganchos nas extremidades. Esses ganchos melhoram as
condições de ancoragens das barras junto aos apoios da viga.
As barras N2, em verdadeira grandeza no desenho da vista longitudinal da viga,
são as barras de porta estribos, necessárias para posicionar corretamente os estribos,
adotadas com diâmetro de 10,0 mm em face da massa das barras que compõem a
armação, isto é barras longitudinais, barras da armadura de pele e estribos. As barras
N3 é a armadura de pele que, conforme cálculo feito na subseção 6.10.4.7, representada
por 5 barras de 6,3 mm em cada face. Essas barras, por decisão de projeto, podem ser
distribuídas a mais até a face superior da viga, servindo como armadura de montagem.
As barras N4, N5 e N6 são necessárias para absorver as tensões de tração por ação do
momento fletor, e têm seus comprimentos definidos segundo a análise do deslocamento
do diagrama de momentos fletores de cálculo e do conveniente comprimento de
ancoragem. Por isso, os comprimentos das barras N4 e N5 não são indicados no
desenho. Os comprimentos das barras N6 estão indicados, pois são barras que ocupam
todo o comprimento da viga (de face a face) respeitando as medidas dos cobrimentos.
Os ganchos foram detalhados com as indicações da ABNT NBR 6118:2014, conforme
estudado no capítulo 10.
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 147

V T 0 6 (2 0 x 7 5 ) 20 N2

26
P01 P02
N3 N3

75
20 780 20
N5 N4
53 N 1 c / 15 cm

1,6

1,6
2,0

1,6
2,0
N 2 - 2 ø 1 0 m m (8 1 5 c m ) N6

2,5

0,5
2 ,5 2 ,5
1 ,6 1 ,6
1 ,6
1 ,6
0 ,5 0 ,5
N 3 - 2 x 5 ø 6 ,3 m m (8 1 5 c m ) 2 ,5 2 ,5

15

N4 - 2 ø 16 m m ( ) - 3ª cam ada

N5 - 3 ø 16 m m ( ) - 2ª cam ada
70

20 N 6 - 4 ø 1 6 m m (8 5 5 c m ) 20
815

N 1 - 5 3 ø 5 (1 8 0 c m )

Figura 6.7 - Viga do exemplo 6 – Detalhamento

6.10.5 EXEMPLO 7 – AÇÃO g + q = 60 kN/m – ALTURA h = 80 cm

Para este exemplo 7 considera-se que a altura (h) da viga não pode ser maior do
que 80 cm, para atender as indicações do projeto arquitetônico, ou seja distância de piso-
a-piso igual a 290 cm. Adotam-se concreto C30 e aço CA-50.
O projeto da viga 7 (mesmos dados da viga 5, da tabela 6.4) considera o vão efetivo
() de 8m e uma força uniformemente distribuída g + q = 60 kN/m. O momento fletor
solicitante de cálculo é igual a 672 kNm e pede-se calcular a área das barras da armadura
longitudinal tracionada (Ast). Considera-se que as barras posicionadas junto a borda
comprimida (Asc) não são necessárias para determinação do momento resistente de
cálculo.
É necessário avaliar a medida da altura útil (d), pois a altura (h) é conhecida
(adotada igual a 80 cm). Portanto, para avaliar a altura útil (d) pode-se considerar que a
viga 7 terá área de barras da armadura tracionada maior do que a obtida no exemplo 5.
A altura útil (d) pode ser avaliada como sendo igual a 73 cm.
Substituindo os dados do projeto na equação 6.20 obtém-se, com Asc igual a zero:
3
,
0 4
6
7
.
2
0
0
2
0
7
3
0
,
8

0
,
8
5

1
0
,
5
0
,
8
βx
2

1
,

            (equação 6.20)
x

resolvendo a equação do segundo grau obtém-se as seguintes raízes:


1
,
9
4
e

0
,
5
6

   
x
1

x
2
148 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

A primeira raiz (x1) se constitui em um absurdo físico, pois:


1
,
5
4
1
   que não é válida para o caso de flexão simples, conforme figura 6.4;
x
1

A segunda raiz
0
,
4
5

0
,
5
6

1
   
x
2

x
4
,
4
a
também não pode ser aceita, pois é maior que o limite indicado na ABNT NBR
6118:2014, pois a viga, se construída não terá dutilidade adequada.

0
,
5
6
A área efetiva das barras da armadura tracionada, calculada com   , a título

x
2
2
de exemplo, resulta igual a 28,14 cm , representada por 14  16,0 mm, sendo a taxa de
armadura longitudinal de tração (ρs) igual 1,76%.
Como solução possível, se não puder aumentar a altura (h) da viga, por causa de
limites arquitetônicos, e a largura (bw), pode-se adotar dimensionamento com armadura
dupla.

6.11 DIMENSIONAMENTO DE VIGAS SOLICITADAS POR MOMENTO FLETOR COM


ARMADURA DUPLA

Como visto o aumento do momento fletor solicitante de cálculo (MSd) exige, para
que a segurança da viga submetida a flexão simples fique garantida, que o momento
resistente de cálculo (MRd) também aumente; isto é, ocorrem os aumentos da altura da
A

viga (h) e da área da armadura longitudinal de tração (  ). Na maioria dos casos de


s

projetos de edifícios há restrição na altura de vigas por causa das condições do projeto
arquitetônico, por exemplo distância de piso-a-piso e medida do pé-direito.
Faz-se, portanto, necessário a introdução de barras da armadura de compressão
para garantir o atendimento de valores menores da posição da linha neutra (x), que
estejam nos domínios 2 ou 3, o que faz com que os elementos estruturais tenham ruína
por ruptura frágil do concreto.
É possível adotar barras posicionadas próximas da borda comprimida submetidas
a uma força resultante de compressão que, junto com a resultante de compressão no
concreto, alteram a capacidade resistente da seção transversal. Essa alteração se dá
pelo aumento da resultante total de compressão, agora constituída por duas forças e
pelo aumento da força nas barras da armadura de tração por causa do aumento das
deformações e, consequentemente, pelo aumento da tensão. O braço de alavanca, que
é neste caso a distância entre o centro geométrico das barras da armadura de tração e
o ponto da seção que contém a resultante das forças resultantes de compressão no
concreto e de compressão nas barras junto a face comprimida da viga, também aumenta.
A profundidade relativa da linha neutra (βx) é adotada igual aos limites indicados na
ABNT NBR 6118:2014 com a finalidade de garantir a dutilidade da viga. Os valores da
profundidade relativa da linha neutra limite (x,lim) são os indicados pelas equações 6.26
e 6.27, respectivamente para os concretos das classes até C50 e de C55 a C90.
A rotina de projeto quando é necessário usar armadura dupla é mostrada a seguir.

6.11.1 EQUAÇÕES DE EQUILÍBRIO


Como procedimento de projeto se adotam barras posicionadas junto a borda
comprimida. A profundidade relativa da linha neutra (βx) são as limites indicadas pelas
equações 6.26 e 6.27.
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 149

A rotina que a seguir se expõe é para dimensionar uma viga de concreto armado
com armadura dupla e usando as equações de equilíbrio deduzidas anteriormente.
Com a equação 6.18 calcula-se a força resultante de compressão no concreto com
βx = βx,lim:
R

b
d
λ
βx

fc
      (equação 6.18) [6.50]
c
c

,
l
i
m

d
Considerando a equação 6.20 e substituindo-a na equação 6.50, pode se escrever:

R
d
[
1
0
,
5
λ
βx
]m
R

σ
     
S
d

c
c

,
l
i
d
d
   [6.51]
s
c

s
c

s
c

'

Lembrando que a equação 6.9 representa o equilíbrio das forças resultantes nas
barras da armadura de tração, no concreto comprimido e nas barras da armadura de
compressão, escreve-se:

R st  R cc  R sc (equação 6.9)

pode-se, assim, determinar a resultante da força de tração Rst.

As áreas das barras das armaduras tracionada (equação 6.52) e comprimida


(equação 6.53) são calculadas conhecendo-se as tensões atuantes, assim:

R st
A st = [6.52]
σ st

R sc
A sc = [6.53]
σ sc

6.11.2 BALANÇO DO NÚMERO DE EQUAÇÕES E DE INCÓGNITAS

O número de equações é igual a 2 que fornecem os valores de Rsc e Rst, e o número


de incógnitas é 3, ou seja, é necessário determinar Rsc, Rst e d.
Como o número de equações é menor que o número de incógnitas é preciso adotar
uma relação entre as incógnitas ou adotar uma delas e calcular as outras duas.
Assim, é possível obter a solução considerando:

Solução I: Adotar uma relação entre Ast e Asc, por exemplo. Asc = 0,5 Ast, o que
significa considerar a proporcionalidade entre as forças resultantes nas armaduras, isto
é Rsc = 0,5 Rst.

Solução II: Adotar a altura útil (d) e calcular Ast e Asc.

6.11.3 EXEMPLO 8

Os dados de projeto são os mesmos do exemplo 7, para o qual se calculou a


profundidade relativa da linha neutra (βx) e se notou que ela resultou maior que o valor
limite (βx,lim) indicado na ABNT NBR 6118:2014.
O momento resistente limite (MRd,lim) pode ser calculado com a equação 6.34 é
aquele que se ultrapassado é necessária a adoção de armadura dupla.
150 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Considerando a equação 6.34 com a qual de calcula o momento limite (MRd,lim) para
concreto classe C30 e barras de aço da categoria CA-50. Substituindo os dados do
exemplo 8 na equação 6.34 tem-se:

3
,
0 4
M

0
,
2
5
1
2
0
7
3

5
7
.
3
2
4
,
8
k
N
c
m
5
7
3
,
3
k
N
m
2

1
,
      (equação 6.34)
R
d
,
l
i
m

que é menor que o momento fletor solicitante de cálculo MSd = 672 kNm, indicando,
portanto, que a seção transversal retangular com largura (bw) igual a 20 cm e altura (h)
igual a 80 cm, não é suficiente para resistir ao momento fletor de cálculo com armadura
simples.
A solução para este exemplo pode ser a Solução II (item 6.11.2), pois a altura útil
(d) é conhecida ou pode ser avaliada.
Os módulos das forças resultantes são calculados a seguir.
Considerando a equação 6.50 e substituindo-se os valores conhecido resulta para
módulo da força Rcc, resulta:
3
,
0 4
R

2
0
7
3
0
,
8
0
,
4
5
0
,
8
5

9
5
7
,
3
4
k
N
1
,

       (equação 6.50)
c
c

O módulo da força Rcc calculado com a equação 6.50 é substituindo na equação


6.51 junto com os valores do projeto resultando o módulo da força Rsc:
6
7
.
2
0
0
9
5
7
,
3
4
7 7
3 3
[
1 4
0
,
5
0
,
8
0
,
4
5
]
R

1
4
3
,
3
9
k
N
     
   
s
c

s
c

s
c


(equação 6.51)
Considerando a equação 6.09 determina-se o módulo da força resultante nas
barras da armadura de tração:
R

9
5
7
,
3
4
1
4
3
,
3
9
1
.
1
0
0
,
7
3
k
N

     (equação 6.09)
s
t

c
c

s
c

Para os cálculos das áreas das barras das armaduras é preciso determinar as
tensões às quais as barras estarão submetidas considerando o estado-limite último:
- nas barras da armadura tracionada:
fy

4
3
,
5
k
N
/
c
m
2

  
s
t

pois, ao se adotar βx = βx,lim = 0,45 o domínio de deformações é o domínio 3,


conforme figura 6.4.
- nas barras da armadura comprimida:
Considerando o diagrama de deformações na seção transversal (figura 6.8)
submetida ao momento fletor de cálculo, determina-se sc, com o primeiro e segundo
membros da equação 6.22:
ε s7
3
,
5 7

c,
0
,
4
5
3
,
0
0
,
4
5
3
0
4
,
0

 (equação 6.22)
  

Portanto:
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 151

3
,
0
7
 

s
c

E, portanto, a tensão nas barras da amadura comprimida (figura 6.9) pode ser
adotada:
σs

fy

4
3
5
M
P
a
4
3
,
5
k
N
/
c
m
2
  
c

s
c

0,628 x 73

3,5
4
ss (MPa)

f yd

73

2,07 3,5 10 es (‰)

2,07 3,07

Figura 6.8 - Diagrama de deformações Figura 6.9 - Diagrama σs - εs (CA-50)

As áreas das barras das armaduras são calculadas a seguir:

- equação 6.53, área das barras da armadura de compressão:


1
4
3
,
3
9
A

3
,
3
0
c
m
2
4
3
,
5

 
s
c

a taxa geométrica das barras resulta:


3
,
3
0
ρs

0
,
2
1
%
2
0
8
0

 
c

- equação 6.52, área das barras da armadura de tração:


1
.
1
0
0
,
7
3
A

2
5
,
3
c
m
2
4
3
,
5

 
s
t

a taxa geométrica das barras é calculada por:


2
5
,
3
ρs

1
,
5
8
%
0
,
1
5
%
2
0
8
0

  
t

A ABNT NBR 6118:2014 indica que a soma das taxas das barras das armaduras
ρ

1
,
5
8
%

0
,
2
1
%

tracionada (  ) e comprimida (  ) precisa ficar menor do que 4%, o


s
t

s
c

que ocorre neste caso da viga 8, portanto este quesito fica verificado.
152 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

A título de análise comparativa a respeito do consumo de armadura registram-se a


seguir as taxas totais das armaduras para as duas soluções das vigas:

- Viga 7 sem consideração de armadura comprimida (Asc): ρst = 1,67%;

1
,
7
9
%
- Viga 8 com consideração de armadura comprimida (Asc):     .

s
t

s
c
Percebe-se, portanto, que em termos econômicos, nos exemplos das vigas 7 e 8,
as taxas resultaram praticamente iguais, porém há melhor aproveitamento das
resistências dos materiais.

6.12 DIMENSIONAMENTO DE VIGAS DE SEÇÃO RETANGULAR MEDIANTE O USO


DE TABELAS

Observa-se nas seções anteriores que os procedimentos de dimensionamento de


seções transversais de elementos estruturais lineares construídos em concreto armado,
considerando as hipóteses do estado-limite último, são repetitivos. As verificações se
repetem sempre, ou sejam, faz-se a verificação da resistência da região de concreto
comprimido e se calcula(m) a(s) área(s) das barras da(s) armadura(s).
Um problema típico a resolver é quando se conhecem os dados da seção
transversal com exceção da altura útil (d) e, por conseguinte, a altura (h) e a área das
barras da armadura longitudinal de tração (Ast), pois se não houver imposição para a
medida da altura da viga, opta-se por armadura simples.
Outro problema, é quando se conhece a altura (h) da seção transversal, definida
no projeto estrutural por causa de imposição arquitetônica. Se a altura for insuficiente
para armadura simples, a solução é adotar armadura dupla, alterando o diagrama de
deformações na seção transversal.
Para facilitar a rotina de projeto é conveniente organizar as expressões de
verificação da segurança já deduzidas preparando-as para permitirem a montagem de
tabelas que facilitem o cálculo.
Tendo em mente as expressões de equilíbrio, usam-se tabelas que permitem
resolver os problemas de dimensionamento de modo prático e expedito.
Para facilitar o entendimento, a organização das tabelas é separada em casos de
flexão simples com armadura simples e com armadura dupla.
A rotina de projeto também pode ser organizada programando as expressões já
deduzidas ou montando planilhas eletrônicas, cuidando de atender todos os passos
vistos nas deduções e nas resoluções dos exemplos.

6.12.1 ARMADURA SIMPLES

Lembra-se que para os problemas de vigas submetidas à flexão simples adota-se


solução de dimensionamento com armadura simples quando o momento fletor solicitante
de cálculo (MSd) for menor ou igual ao momento resistente de cálculo limite (MRd,lim), isto
é, nas situações de deformações que a posição relativa da linha neutra (βx) fique menor
que a posição limite (βx,lim) que é igual aos valores indicados pelas equações 6.26 e 6.27,
para atender a dutilidade do elemento estrutural fletido.
Neste caso de flexão simples com armadura simples tem-se que:

MSd ≤ MRd,lim [6.54]

Considerando a equação 6.20, com Asc = zero, tem-se:


M

b
d
λ
βx

fc
[
1
0
,
5
λ
βx
]
2

          (equação 6.20)
S
d

d
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 153

que, pode ser escrita do seguinte modo:

b
d
1

kc

wM
λ

fc
[
β
0
,
5
λ
βx
]
  [6.55]

2
     

S
d
c

x
Em problemas do primeiro tipo que se conhece a espessura (bw), a altura útil (d) e
o módulo do momento fletor solicitante MSd, é possível montar uma tabela de valores de
kc em função da resistência de cálculo à compressão do concreto (fcd) e da posição
relativa da linha neutra (βx).
A equação 6.20 e, por conseguinte, a equação 6.55, por considerar as dimensões
da viga e a resistência à compressão do concreto, permite fazer a verificação de
segurança da seção transversal com relação à ruptura do concreto.
É preciso verificar também a resistência da seção transversal com relação a
resistência ao escoamento das barras da armadura de tração. Ao se usarem as
equações de equilíbrio, o cálculo da área da amadura longitudinal de tração foi feito com
a equação 6.20 fazendo-se Asc igual a zero.
Para cálculo da área das barras da armadura usando tabelas é preciso deduzir
outra equação (6.56), observando na figura 6.3 que se pode montar a equação de
equilíbrio do momento fletor solicitante de cálculo com os momentos das forças
resultantes internas, considerando para pólo de cálculo dos momentos o ponto de
atuação da força resultante de compressão no concreto (Rcc).
Assim procedendo pode-se escrever:
λ
x
M

A
σ

  
2

    [6.56]
S
d

s
t

s
t


 

ou ainda, lembrando que x  x / d (equação 6.16), pode-se escrever:


M

A
σ
d
[
1
0
,
5
λ
β
]x

       [6.57]
S
d

s
t

s
t

A equação 6.57 pode ser escrita como:


A M
d
1 0

ks


s
t
σs
[
1
,
5
λ
βx
]

  [6.58]
   
t

S
d

É possível organizar uma tabela de ks em função de σst e de βx e, conhecendo-se


d e MSd, determina-se Ast.

6.12.1.1 Equações para montagem das tabelas de kc e ks para concretos grupo I

Para os concretos da grupo I, ou seja concretos C20, C25, C30, C35, C40, C45,
C50, considerando os valores de λ (equação 6.02) e αc (equação 6.07), ou estes valores
indicados na tabela 6.1, pode-se escrever as equações 6.55 e 6.58 dos seguintes modos:
b
d
1

kc


w
M
0
,
6
8
fc
[
β
0
,
4
βx
]

  (equação 6.55) [6.59]


2

   
S
d
d

x
154 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

A M
d
1 0

ks

s
t
σs
[
1
,
4
βx
]
  (equação 6.58) [6.60]
t  

S
d
Nessas equações têm-se: MSd em kNcm e bw e d em cm.
Em problemas do primeiro tipo que se conhece a espessura (bw), a altura útil (d) e
o módulo do momento fletor solicitante MSd, é possível montar uma tabela de valores de
kc (Tabela A-3) em função da resistência de cálculo à compressão do concreto (fcd) e da
posição relativa da linha neutra (βx). Na mesma tabela encontram-se os valores de ks em
função da tensão de tração σst e βx.
Sugere-se ao leitor que refaça os exemplos do item 6.5.10, agora utilizando as
tabelas e compare os resultados pelos dois processos.

6.12.1.2 Equações para montagem das tabelas de kc e ks para concretos do grupo II

Substituindo os valores de λ e αc indicados na tabela 6.1 para os concretos do grupo


II de resistência e substituindo nas equações 6.55 e 6.58 obtém-se as equações
seguintes de kc e ks, com as quais é possível montar a tabela A-5.

a.- Concreto da classe C55


b
d
1

kc


wM
2
,
5
6
6
3
5
[
β
0
,
3
9
4
βx
]

  (equação 6.55) [6.61]


2

  
S
d
x

A M
d
1 0

ks


s
t
σs
[
1
,
3
9
4
βx
]

  (equação 6.58) [6.62]


  
t

S
d

b.- Concreto da classe C60


b
d
1

kc


w M
2
,
6
1
4
4
6
[
β
0
,
3
7
7
5
βx
]

  (equação 6.55) [6.63]


2

  
S
d
x

A M
d
1 ,

ks


s
t
σs
[
1
0
3
7
7
5
βx
]

  (equação 6.58) [6.64]


  
t

S
d

c.- Concreto da classe C70


b
d
1

kc


w
M
2
,
8
6
8
7
5
[
β
0
,
3
7
5
βx
]

  (equação 6.55) [6.65]


2

  
S
d
x

A M
d
1 0

ks


s
t
σs
[
1
,
3
7
5
βx
]

  (equação 6.58) [6.66]


  
t

S
d

d.- Concreto da classe C80


b
d
1

kc


w M
2
,
9
9
5
2
9
[
β
0
,
3
6
2
5
βx
]

  (equação 6.55) [6.67]


2

  
S
d
x
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 155

A M
d
1 0

ks

s
t
σs
[
1
,
3
6
2
5
βx
]
  (equação 6.58) [6.68]
  

S
d
e.- Concreto da classe C90

b
d
1

kc

w
M
2
,
8
5
6
[
β
0
,
3
5
βx
]
  (equação 6.55) [6.69]

2
  

S
d
x

A M
d
1 0

ks

s
t
σs
[
1
,
3
5
βx
]
  (equação 6.58) [6.70]
  
t

S
d

Nessas equações tem-se: MSd em kNcm e bw e d em cm.

6.12.2 ARMADURA DUPLA

Como já visto quando MSd > MRd,lim é possível adotar armadura dupla como solução
para o equilíbrio da seção transversal nas situações em que βx > βx,lim.
Para organizar tabelas que possibilitem o dimensionamento de seções submetidas
à flexão simples com armadura dupla, faz-se o artifício de considerar uma seção
transversal em concreto armado submetida a um momento fletor de cálculo igual ao
momento de cálculo resistente limite - MRd,lim (seção 1) e, uma seção fictícia constituída
por barras de aço posicionadas junto as faces tracionada e comprimida (seção 2), como
mostra a figura 6.10.

A sc A sc
d` cd = c. fcd
x y = .x

h d = +

st
A st A st1 A st2

MSd = MS1d + MS2d

Figura 6.10 - Dimensionamento de seção com armadura dupla

Análise da seção 1:

Considera-se que a seção 1 contribui com o equilíbrio com valor de momento igual
a:

MS1d  MRd,lim [6.71]

e, portanto, com a posição relativa da linha neutra igual a:


βx

βx


,
l
i
m

O módulo do momento MS1d é dado por:


156 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

bw  d2
MS1d  MRd,lim  [6.72]
k c,lim

Considerando kc = kc,lim determina-se na tabela A-3 (concretos das classes C20 até
C50) e tabela A-5 (concretos das classes C55 a C90) o valor de ks que possibilita o
cálculo da área da armadura Ast1 pela equação 6.70.

MRd,lim
A st1  k s,lim  [6.73]
d

Análise da seção 2:

O valor do momento que precisa ser absorvido pela seção 2 fictícia é dado por:

MS2d  MSd  MS1d [6.74]

Analisando a seção 2 da figura 6.10 pode-se escrever as equações de equilíbrio


6.75, considerando as forças resultantes nas barras das armaduras de compressão e de
tração, obtendo-se:

MS2d  A sc  σsc  [d - d' ]  A st2  σst  [d - d' ] [6.75]

Lembrando que:

x = x,lim [6.76]

então, a tensão nas barras da armadura de tração é igual a:

σ st = f yd [6.77]

e, a tensão na armadura de compressão é calculada em função do valor da


deformação, com a equação 6.78.

σ sc = f(ε sc ) [6.78]

A equação 6.79 representa a segunda equação de equilíbrio (equação 6.75) da


seção transversal fictícia adotando para pólo de cálculo dos momentos o ponto de ação
da força resultante na armadura de compressão (figura 6.10).

MS2d  A st2  σ st  [d - d' ] [6.79]

O cálculo da área da armadura Ast2 de tração para equilibrar o momento fletor


solicitante atuante na seção fictícia é feito usando a equação 6.80, considerando a
tensão na armadura (st) igual a resistência de cálculo ao escoamento da armadura (fyd):

1 MS2d M
A st2    k s2  S2d [6.80]
fyd [d  d' ] [d  d' ]
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 157

É possível montar um quadro na tabela A-4 para valores de ks2 em função da


categoria do aço.
Com a equação 6.81 se calcula a área das barras da armadura de tração.

A st = A st1 + A st2 [6.81]

Para o cálculo de Asc usa-se a primeira equação (6.75) de equilíbrio da seção 2


fictícia que é obtida considerando para pólo de cálculo dos momentos o ponto de ação
da força resultante da armadura de tração, resultando:

MS2d  A sc  σ sc  [d - d' ] [6.82]

A área das barras da armadura de compressão pode ser calculada por:

1 MS2d MS2d
A sc    k sc  [6.83]
σ sc [d  d' ] [d  d' ]

Como a tensão nas barras da armadura de compressão σsc depende da


deformação destas barras εsc que, por sua vez, depende da deformação na borda
comprimida do concreto, neste caso em que considera βx = βx,lim, é possível organizar
um quadro na tabela A-4 para valores ksc em função de d’/h e da categoria das barras
de aço.
Lembra-se que a ABNT NBR 6118:2014 indica que a taxa total das barras das
armaduras de tração e compressão (ρst + ρsc) não pode ser maior do que 4%.
Nos projetos de vigas de concreto armado solicitadas por flexão simples que exijam
solução em armadura dupla, não é conveniente considerar situações em que o momento
fletor solicitante de cálculo da seção fictícia (MS2d) seja maior que um terço (1/3) do
M
>
0
,
3
3
M
momento de cálculo resistente limite (MRd,lim), isto é  .
S
2
d

R
d
,
l
i
m

Essa indicação é válida para concretos do grupo I e barras de aço CA-50. Ela foi
estudada por Pfeil (1978) e Clímaco (2016), com base em sugestões de normas russas.
Quando o limite citado for ultrapassado é necessário pensar em alternativas como
aumentar a altura ou a largura da viga.
Lembrar que há necessidade de verificar o estado-limite de deformações
excessivas – ELS-DEF, ou seja há que se verificar a flecha da viga.
Sugere-se ao leitor fazer o exemplo do item 6.11.3 usando as tabelas tipo k
transcritas no Anexo e analisar os resultados obtidos.

6.13. DIMENSIONAMENTO DE VIGAS DE SEÇÃO TRANSVERSAL EM FORMA DE T


MEDIANTE O USO DE TABELAS TIPO k
6.13.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS
As estruturas dos pavimentos dos edifícios são compostas por vigas que recebem
as ações das lajes de piso.
Ao se analisarem as ligações entre lajes e vigas (figura 6.11) percebe-se que uma
parte da laje colabora na capacidade resistente da viga desde que as faces comprimidas
das lajes e viga estejam no mesmo plano horizontal. Ensaios experimentais permitem
fazer essa afirmação.
Portanto, uma viga de seção T é constituída por duas partes: a primeira é a alma e
a segunda é a mesa, que correspondente às partes das lajes que se ligam à viga.
Quando ocupar uma posição de extremidade na planta do pavimento só existe laje do
lado interno, permitindo que a viga seja tratada com T, porém com mesa de um só lado.
A decisão de considerar a viga como de seção T fica a critério do projetista. É evidente
158 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

que a viga de seção T tem maior inércia do que a viga de seção retangular quando se
considera só a alma trabalhando. A viga T apresenta menor área de barras tracionadas
quando comparada com a viga retangular, quando sob ações do mesmo momento fletor
de cálculo, e com a mesma largura da alma (bw) e altura (h).
Todos as seções transversais de vigas podem ser tratadas como viga T, desde que
as faces comprimidas de lajes e vigas coincidam. A ocorrência de vigas retangulares
isoladas é usual nas construções pré-fabricadas, quando os tipos de ligações podem não
permitir a consideração de viga T.
Quando as vigas são solicitadas por esforços solicitantes de flexão as lajes
adjacentes a elas contribuem na rigidez do sistema viga-laje, desde que estas estejam
localizadas na zona comprimida pelo momento fletor. Esse ganho de rigidez da viga
considerando as lajes como parte de sua seção transversal ocorre em virtude do
aumento na área de concreto resistente, pois está, agora, é composta pelo retângulo da
própria viga acima da linha neutra com as contribuições das lajes.
A figura 6.11 apresenta parte de uma viga contínua deformada por flexão com
solicitações de momento fletor e força cortante, inclusive mostrando a fissuração por
tensões normais, percebendo-se que nas regiões dos apoios da viga (pilares) as mesas
estão submetidas a forças resultantes de tração e na região de meio de vão a mesa está
submetida a força resultante de compressão. Como a região superior da viga está
submetida a tensões de compressão e as regiões das lajes que ligam a viga também
estão comprimidas justifica as suas considerações na capacidade resistente da viga.

a) b) c)
Figura 6.11 - Análise das seções transversais de viga contínua [MacGregor, 1992]

Na seção transversal A-A da figura 6.11c a região comprida é em forma de T, pois


a linha neutra está contida em plano horizontal que dista (x) da borda comprimida. A
seção A-A é uma seção de meio de vão, isto é de momento fletor positivo, cuja
intensidade necessita de linha neutra mais profunda para ocorrer o equilíbrio. A respeito
dessa situação de linha neutra passando pela alma diz-se que a seção retangular é
seção T.
Na seção transversal A-A da figura 6.11a a região comprimida fica só na mesa e a
linha neutra está contida em um plano que dista (x) da borda comprimida. Quando isso
acontece se diz que a seção é T falsa, pois há contribuição das lajes na capacidade
resistente da viga, porém parte da laje está tracionada.
A seção B-B, junto ao pilar, apresenta a mesa tracionada (figura 6.11b) e, portanto,
não há contribuição das lajes na região comprimida da viga. O dimensionamento é feito
considerando viga de seção retangular.
Por uma decisão de projeto o engenheiro pode considerar a viga como sendo de
seção retangular, quando isto ocorre o dimensionamento fica a favor da segurança, pois,
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 159

a presença da(s) laje(s) é inerente ao projeto e, quando a estrutura entrar em serviço, há


contribuição dos elementos de placa que se apoiam na viga.
As lajes nervuradas moldadas no local ou pré-moldadas são dimensionadas com
os critérios de viga T, pois entre as nervuras é colocado material inerte para servir de
fôrma e permitir que o teto seja plano. Em algumas lajes nervuradas as nervuras são
aparentes.
Normalmente, em estruturas convencionais compostas por vigas contínuas, os
momentos fletores de maior módulo são os atuantes nas seções que coincidem com os
apoios, e, geralmente tais vigas não são invertidas, então, para o dimensionamento à
momento fletor não é possível considerar a viga como de seção T.
A figura 6.12 ilustra as possibilidades da profundidade da linha neutra em seções
tipo T e retangular. A linha neutra pode, no caso de viga T, apresentar duas alturas,
sendo: a primeira quando a linha neutra fica na alma da viga e a segunda quando ela
fica na mesa da viga.

Zona comprimida
Zona comprimida
Zona comprimida

Linha neutra
Linha neutra
Linha neutra

Zona tracionada
Zona tracionada Zona tracionada

Seção transversal de viga T Seção transversal de viga T Seção transversal de viga


Linha neutra na alma Linha neutra na mesa retangular
a) b) c)

Figura 6.12 - Profundidades possíveis da linha neutra para seção T e retangular


[Almeida Filho & El Debs (2003)]

Pode-se ver na figura 6.12 que a seção transversal, de acordo com as hipóteses
adotadas, permanece plana após a deformação tanto para o caso de viga T como de
viga retangular.
A ABNT NBR 6118:2014 indica critérios para a determinação da largura
colaborante de vigas de seção calculada em função das dimensões das lajes que se
apóiam na viga em análise. Esses critérios são descritos a seguir.
A largura colaborante bf é igual à largura da alma da viga (bw) acrescida de no
máximo 10% da distância (a) entre pontos de momento fletor nulo, para cada lado da
viga em que houver laje colaborante.
A distância "a" pode ser estimada, em função do comprimento  do tramo
considerado, como se apresenta a seguir:

- viga simplesmente apoiada a = 1,00 

- tramo com momento em uma só extremidade a = 0,75 

- tramo com momentos nas duas extremidades a = 0,60 

- tramo em balanço a = 2,00 


160 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Alternativamente, o cômputo da distância (a) pode ser feito ou verificado mediante


exame dos diagramas de momentos fletores na estrutura.
No caso de vigas contínuas, permite-se calculá-las com uma largura colaborante
única para todas as seções, inclusive nos apoios sob momentos negativos, desde que
ela seja calculada a partir do trecho de momentos positivo em que resulte mínima.
Precisam ser respeitados os limites b1 e b3 conforme indicado na figura 6.13.

Figura 6.13 - Largura de mesa colaborante [ABNT NBR 6118:2014]


Quando a laje apresentar aberturas ou interrupções na região da mesa
colaborante, a variação da largura efetiva (bef) da mesa deve respeitar o máximo bf e
limitações impostas pelas aberturas conforme mostra a figura 6.14.

Figura 6.14 - Largura efetiva com abertura [ABNT NBR 6118:2014]

A figura 6.15 mostra as propriedades geométricas de uma seção T, que para efeito
de dimensionamento se considera apenas a largura da flange (bf), também chamada de
largura colaborante, a espessura da laje (hf), a altura útil (d) e a altura (h).
A espessura da flange (hf) é a própria espessura da(s) laje(s) maciça(s) apoiada(s)
na viga, determinadas com critérios próprios de resistência e de utilização, ou sejam
deformações (deslocamentos) e fissuração
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 161

bf

hf

Mesa
h d

Alma

bw As

Figura 6.15 - Propriedades geométricas de uma viga de seção T

6.13.2 EQUAÇÕES PARA O DIMENSIONAMENTO

Analisando a figura 6.12 a linha neutra pode ficar na mesa (figura 6.12b) ou na alma
(figura 6.12a) dependendo da intensidade do momento fletor e das dimensões da viga
de seção T.
A distribuição de tensões de compressão no concreto tem a forma parábola -
retângulo, da figura 6.3, com altura (x) do diagrama, que é a medida da profundidade da
linha neutra. Quando, por facilidade, se adota o diagrama retangular de tensões, para
que a resultante de compressão fique com o mesmo valor, a altura deste diagrama é
y
λ
x

  .
Nos casos de vigas de seção T em que somente a mesa, ou parte dela, de
espessura igual a espessura da laje (hf), está comprimida, ou seja, sem participação da
parte da alma abaixo da face inferior da laje, a viga de seção T é dimensionada como
viga de seção retangular com bw = bf, pois:
y
λ
x
hf

   [6.84]

Considerando a equação 6.17:

x
βx  (equação 6.17)
d

E, substituindo a equação 6.84 em 6.17, vem:


y λ
1 d
βx

  [6.85]

Substituindo na equação 6.85, y = hf que é o limite para considerar a viga T como


viga de seção retangular e, chamando, agora, βx de β xf , resulta:
h fd
1 λ
β

  [6.86]
x
f

A medida da profundidade da linha neutra é maior que y = hf, porém a altura do


diagrama parábola-retângulo é no máximo igual a hf, portanto essa medida é igual
x

1
/
λ
hf

a ︵  ︶ .
Na equação 6.86 λ tem os valores indicados nas equações 6.03 e 6.04, quando se
adota concreto do grupo I ou do grupo II, respectivamente.
162 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Nos casos em que a linha neutra está contida na alma da viga T o dimensionamento
é feito considerando a viga como de seção T adaptando as expressões já estudadas
para uso das tabelas tipo k.
A primeira verificação a fazer é com relação à posição da linha neutra para saber
se o tratamento é de viga de seção T ou viga de seção retangular, pois as rotinas de
dimensionamento são diferentes. Essa verificação é feita calculando a posição relativa
da linha neutra (x) que é comparada com a da posição relativa da espessura da mesa
(xf).

6.13.2.1 Viga com seção T considerada como seção retangular


Considerando a figura 6.16 que representa uma seção de viga T, em que a linha
neutra está contida na mesa, ou seja, 0 ≤ y ≤ hf, ou, βx ≤ βxf, e seguindo as hipóteses de
cálculo já estudadas para a viga de seção retangular pode-se reescrever as equações
6.60 (concretos de classe até C50) e as equações 6.61, 6.63, 6.65, 6.67 e 6.69
(concretos das classes C55 a C90), porém chamando k c  k c* que, como visto, é um
valor particular de kc necessário para avaliar se a seção T pode ser considerada como
seção retangular ou seção T.

bf
hf scd
L. N. y
R cc

d h

R st

bw
A st A st

Figura 6.16 - Viga de seção T analisada como seção retangular


Portanto, o valor de k c* , calculado com bw = bf, é dado pela equação 6.87.

b f  d2
k *c  [6.87]
MSd

Consultando as tabela A-3 e A-5, com a resistência característica à compressão do


concreto (fck) escolhido previamente, determina-se o valor de βx.
Comparando β x com β xf calculado pela equação 6.86 tem-se que se β x  β x, f o
comportamento da seção T é semelhante, para efeito da verificação da segurança, ao
de uma viga de seção retangular com largura bw = bf.
Com o valor de k c* , e usando as tabelas A-3 e A-4, encontra-se o valor do
coeficiente ks com o qual se determina a área da seção transversal das barras da
armadura, considerando as equações 6.60 (concretos do grupo I) e equações 6.62, 6.64,
6.66, 6.68 e 6.70 (concretos do grupo II).
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 163

6.13.2.2 Viga de Seção T

No caso da seção transversal de viga apresentar a posição relativa da linha neutra


tal que β x  β xf ela é considerada para efeito de verificação da segurança quanto ao
momento fletor como seção T, pois há contribuição da laje na capacidade resistente à
compressão. Como artifício, para uso das tabelas tipo k, consideram-se duas seções
compostas por retângulos, conforme figura 6.17.
A primeira seção é constituída por um banzo comprimido de altura igual a
espessura das lajes, sem considerar a contribuição da alma (alma fictícia), de largura bw0
= bf – bw, onde, na face inferior são alojadas parte das barras da armadura de tração,
resistindo ao momento fletor solicitante de cálculo (MSd0), com área das barras da
armadura igual a As0; a segunda seção retangular de espessura bw, resistindo ao
momento fletor solicitante de cálculo (MSd1), com área das barras da armadura igual a
Ast1. A soma dos momentos fletores de cálculo parciais resulta o módulo do momento
fletor de cálculo que solicita a viga. A altura (h) da viga é a mesma para as duas seções
transversais 0 e 1. A área das barras da armadura de tração é Ast = Ast0 + Ast1.
bf bf - bw
hf scd
y
R cc

L. N.

d h

R st

bw
As As0 As1

MSd MSd0 MSd1

Figura 6.17 - Viga de seção T – Procedimento para o dimensionamento

A rotina de projeto de viga de concreto considerada como de seção T é a seguir


exposta.

Seção 0 – que contém as lajes (mesa)

A seção 0 é uma seção de alma fictícia de largura (bf – bw) e de banzos paralelos
sendo o comprimido com espessura igual a altura da laje (hf) e tracionado representado
pela área das barras da armadura necessária para equilibrar o momento fletor solicitante
de cálculo MSd0.
Assim, o primeiro passo é determinar:

bw0  bf  bw [6.88]

Considerando que para a seção 0 y = hf calcula-se a posição relativa da linha neutra


para esta seção, usando a equação 6.86, ou seja:
h fd
1 λ
βx

βx

   (equação 6.86)
,
f

Com o valor de βx,f e consultando as tabelas A-3 ou A-5 determinam-se os valores


de kcf e ksf.
164 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

O momento fletor de cálculo (MSd0) que a seção 0 é capaz de suportar é calculado,


considerando as dimensões da viga e o valor de kcf, usando a equação 6.55 (concretos
das classes C20 a C50) e as equações 6.61, 6.63, 6.65, 6.67 e 6.69 (concretos das
classes C55 a C90), resultando a equação 6.89.

(b f  b w )  d2
MSd0  [6.89]
k cf

A área da armadura para a seção 0 é calculada, considerando a equação 6.60


(concretos das classes C20 a C50) e equações 6.62, 6.64, 6.66, 6.68 e 6.70 (concretos
das classes C55 a C90), resultando a equação 6.90.

MSd0
A st0  k sf . [6.90]
d

Seção 1 – Seção retangular


A seção 1 é uma seção retangular de largura bw e de altura h responsável por
absorver o momento fletor de cálculo MSd1, calculado por:
MSd1  MSd  MSd0 [6.91]

Com a equação 6.59 (para concretos das classes C20 a C50) e equações 6.61,
6.63, 6.65, 6.67 e 6.69 (para concretos das classes C55 a C90) calcula-se o valor de kc
para a seção retangular, seção 1.

b w  d2
kc  [6.92]
MSd1

Considerando a tabela A-3 ou A-5, com o valor de kc determina-se o valor de βx que


βx
β1

se for menor do que βx1,lim (  ) tem-se caso de seção retangular submetida a flexão
,
l
i
m

simples com armadura simples.


E a área das barras da armadura para a seção é calculada pela equação 6.60
(concreto de classe C20 a C50) adaptada, ou seja.
MSd1
A st1  k s . [6.93]
d
A área das barras da armadura longitudinal de tração para a viga de seção T é
calculada por:
A st  A st 0  A st1 [6.94]

Nos casos de projetos de vigas de seção T em que a posição relativa da linha neutra
(βx) resultar maior que o valor limite (βx,lim), tem-se uma situação em que a seção
retangular (seção 1) está submetida à flexão simples com armadura dupla. Para o
dimensionamento, segue-se a rotina estudada para seção retangular submetida à flexão
simples com armadura dupla, conforme item 6.12.2.

6.13.3 EXEMPLOS DE PROJETOS DE VIGA DE SEÇÃO T

O objetivo destes exemplos é aplicar a rotina para cálculo das áreas das barras da
armadura para a viga considerada de seção T. Os dados para o projeto são: espessura
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 165

da alma (bw) igual a 25 cm, altura da viga (h) igual a 80 cm, largura da mesa (bf) igual a
80 cm e espessura da mesa (hf) igual a 10 cm, concreto C25 e aço CA-50, submetida a
momento fletor solicitante característico (MSk) indicado em cada caso. A figura 6.18
apresenta os dados geométricos da viga T.
A altura útil (d), que é a distância do centro geométrico das barras da armadura
longitudinal de tração, precisa ser avaliada considerando: classe de agressividade
ambiental II, de agressividade moderada - região urbana, para, de acordo com a ABNT
NBR 6118:2014, determinarem-se os cobrimentos das armaduras igual a 3 cm, neste
exemplo sem redução de ∆c, os espaçamentos vertical e horizontal entre as barras para
que ocorra passagem de concreto durante o lançamento e conveniente adensamento.
As distâncias entre as barras medidas na horizontal precisa ser o maior valor entre
2 cm, o diâmetro da barra longitudinal e 1,2 vez o diâmetro da pedra britada usada no
concreto, normalmente pedra britada número 1 que tem 1,9 cm de diâmetro aparente.
Para o espaçamento vertical são consideradas as duas primeiras indicações e a última
é considerada 0,5 vez o diâmetro aparente da pedra britada. Essas indicações são da
ABNT NBR 6118:2014.

VT (bw x h) 80 cm
c

75 80 cm

P02 M Sd
P01
c
c
l =8 m 25

C25; CA-50
g+q

MSk

MSd
MSd

VSd
VSd

Figura 6.18 - Viga de seção T – Exemplos de projetos

Assim, esperando que a área das barras da armadura a ser calculada possa ser
alojada em uma única camada, posicionada junto a face inferior da viga, a distância do
centro geométrico das barras até a face inferior da viga, conforme equação 6.95:
d
'
c


2

   [6.95]
t

resultando:

1,6
d'  3,0  0,5 
2
166 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

d
'
4
,
3
c
m

e, portanto, pode-se considerar d’ igual a 5 cm e d igual a 75 cm.

6.13.3.1 Exemplo 1 – momento fletor solicitante característico MSk = 300 kNm

Para o dimensionamento da viga, isto é cálculo da área das barras da armadura de


tração, seguem os passos indicados na rotina estudada no item 6.13.2.
É necessário calcular o valor de k c* para determinar βx e com este determinar a
posição da linha neutra e, assim, verificar se a alma da viga está comprimida, caso de
viga T. Estando a alma tracionada, abaixo da face inferior da laje, tem-se o caso de viga
de seção retangular com largura igual a largura da flange (bf).
Assim:

b f  d2 80  752
k *c    10,7 (equação 6.87)
MSd 1,4  30.000

Na tabela A-3 determina-se a posição relativa da linha neutra para concreto C25 e
k c* = 10,7, resultando:

β x  0,08 para k *c  10,6


λ
0
,
8
Com a equação 6.86 determina-se βxf, e adotando  , pois a resistência
característica à compressão do concreto é igual a 25 MPa, resultando:

10
β x, f   0,17 (equação 6.85)
0,8  75

Como,

 x  0,08   x, f  0,17

a viga é dimensionada considerando-a como viga de seção retangular com largura


bw = bf.
O cálculo da área das barras da armadura longitudinal de tração é feito com a
equação 6.60, com ks determinado na tabela A-3, para k c* igual a 10,7, C25 e CA-50,
resultando:
C25 e CA  50
k c  k *c  10,7    k s  0,024

E, portanto, a área das barras da armadura é, de acordo com a equação indicada


na Tabela A-3, ou equação 6.60:
1
,
4
3 7
0
.
0
0
0
A

0
,
0
2
4

1
3
,
4
c
m


2
5

   (equação 6.60)
s
t

Considerando que a área de uma barra de diâmetro 16,0 mm é igual a 2,01 cm2
(Tabela A-1) a viga precisa de 7 barras de 16,0, com área efetiva (Ast,efe) de 14,07 cm2.
Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 167

A ABNT NBR 6118:2014 indica que as vigas precisam ter área de armadura efetiva
maior que a área mínima calculada para o momento fletor de cálculo mínimo determinado
pela equação 6.43 (item 6.7.2.1).
Esta viga é considerada como de seção T e, portanto, tem que ser calculada a
medida do centro geométrico da seção transversal em relação a face inferior da viga, o
momento de inércia e a resistência característica à tração com o valor superior (equação
3.16).
Assim, tem-se:

a.- cálculo do centro geométrico

De acordo com a figura 6.18 pode-se escrever a equação com a qual se calcula a
posição do centro geométrico da seção transversal, ou seja o momento estático da seção
é igual a soma dos momentos estáticos da mesa comprimida e da alma, todos em
relação a fibra mais tracionada.
Ss

 
e
ç
ã
o
,
f
t

m
e
s
a
,
f
t

a
l
m
a
,
f
t

Montando a equação para cálculo de yt tem-se:


8
0
2
5
1
0
2
5
8
0
yt

8
0
2
5
1
0
7
5
2
5
8
0
4
0
            
 

portanto:
yt

4
7
,
6
c
m

b.- cálculo do momento de inércia

O momento de inércia da seção T, considerando a seção sem fissuração, ou seja,


a seção total, calculado em relação ao centro geométrico da seção é igual a:
8
0
2 1
5 2
1
0

2
5 1
8 2
0
3

3
I

8
0
2
5
1
0
4
7
,
6
5
,
0

2
5
8
0
4
7
,
6
4
0
︵  ︶ 
2

 ︵
  ︶  ︵  ︶    ︵  ︶

ou seja:
I
2
.
1
8
4
.
8
8
8
c
m
4

c.- cálculo da resistência característica à tração com o valor superior

No caso deste exemplo de projeto de viga de seção T o concreto é da classe C25


e a resistência característica à tração com o valor superior é calculada pelas equações
3.16 e 3.17, resultando:
fc

=
1
,
3
0
,
3
f

1
,
3
0
,
3
2
5

3
,
3
3
M
P
a
2c /
3

2 /
3

     
t k
,
s
u
p

d.- cálculo do momento mínimo

O momento resistente de cálculo mínimo é calculado com a equação 6.43,


resultando:
168 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

2
.
1 4
8 7
5
.
8 6
8
8
M

0
,
8
W
fc

0
,
8

0
,
3
3
1
5
.
1
5
4
,
3
k
N
c
m
1
5
4
,
5
4
k
N
m
,
       
R
d
,
m
i
n

t k
,
s
u
p
e.- cálculo da área de armadura mínima

As hipóteses para cálculo da área mínima de armadura longitudinal de tração é feita


com os critérios do estádio Ia, conforme estudado no item 5.4.5, figura 5.16, sem
consideração as áreas das barras da armadura longitudinal de tração, isto é,
considerando-se a seção transversal só em concreto. Observando-se a figura 5.16 nota-
se que as forças resultantes das tensões de tração (Rct) e de compressão (Rcc) nos
centros geométricos dos triângulos que representam as variações das tensões.
O momento da força resultante de tração (Rct) em relação ao ponto de aplicação da
força (Rcc) é igual ao momento fletor (MRd,mín), podendo-se escrever:
2 3

2 3
M

1
5
.
1
5
4
,
3
R

3
2
,
4

4
7
,
 

   6 
R
d
,
m
i
n

c
t


 

resultando:
R

2
8
4
,
1
6
k
N


c
t

A área de armadura mínima para absorver essa força de tração é calculada por:
2
8
4
,
1
6
A

6
,
5
c
m
2
4
3
,
5

 
s
t
,
m
í
n

Essa área mínima de armadura (6,5 cm2) é menor a área calculada (13,4 cm2) e
menor que a área efetiva (14,07 cm2).
A taxa de armadura longitudinal efetiva de armadura de tração é calculada por:
A Ac

1
4
,
0
7

0
,
0
0
5
5
2
0
,
5
5
%
s
t

8
0
2
5
1
0
2
5
8
0

    
s
t

 
    
c

Essa taxa de armadura longitudinal é menor do que 4%.


Assim, os critérios de verificação de armadura mínima e máxima ficam atendidos.

6.13.3.2 Exemplo 2 – momento fletor solicitante característico MSk = 690 kNm

O valor do momento fletor de cálculo é:


M

1
,
4
6
9
0
9
6
6
k
N
m

  
S
d

O cálculo do valor k c* , para se verificar se a seção pode ser analisada como seção
T ou seção retangular, é feito pela equação 6.87 considerando bw = bf, resultando:

80  75 2
k 
*
c  4,7 (equação 6.87)
96.600

Com esse valor, na tabela A-3, considerando C25, determina-se:


Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 169

β x  0,20

O valor de βx,f = 0,17 já foi determinado no exemplo 1 (item 6.13.3.1), sendo que βx
= 0,20 é, portanto, maior que esse valor da posição relativa da linha neutra. E, assim, a
seção transversal precisa ser dimensionada com os critérios de seção T.
O cálculo da área da seção transversal das barras da armadura longitudinal de
tração é feita com a rotina do item 6.13.2.2.

Seção 0 – que contém as lajes (mesa)

O primeiro passo é determinar o valor do momento fletor de cálculo MSdo que a


seção 0 é capaz de absorver. A largura da alma da viga de seção retangular fictícia é
dada por:
b

bf
b

8
0
2
5
5
5
c
m
     (equação 6.88)
w
0

A posição relativa da linha neutra para a seção 0 é calculada pela equação 6.86:
h fλ

1 8
0 7
y
hf
1
0
c
m

βx

βx

0
,
1
7
d
0
,

5
       (equação 6.86)
,
f

 

Na tabela A-3 para concreto C25 e aço CA-50 determinam-se os valores de kcf e
βx

βx

0
,
1
7

ksf, considerando   , com os quais se calculam o momento fletor de cálculo


,
f

absorvido pela seção 0 e a respectiva área das barras da armadura.


Assim, na tabela A-3 obtém-se:

k cf  5,2     k sf  0,025
interpolan do

Com a equação indicada na tabela A-3 calcula-se:


d

7 5
5
2

2 2
M

bf
b

8
0
2
5

5
9
.
4
9
5
k
N
c
m
5
9
4
,
9
5
k
N
m

︵  ︶ ︵  ︶
kc

   
S
d
0

A área da seção transversal das barras resulta:


M

5
9
4 7
.
9 5
5
A

ks
.f

0
,
0
2
5

1
9
,
8
c
m
2
Sd
d
0

   
s
t
0

Seção 1 – Seção da nervura

O momento fletor de cálculo (MSd1) que a seção retangular precisa absorver é dado
por:
M

9
6
.
6
0
0
5
9
.
4
9
5
3
7
.
1
0
5
k
N
c
m

  
S
d
1

A rotina para determinação da área de armadura para a seção 1, como não poderia
ser diferente, é a mesma que a estudada para viga de seção retangular de largura bw e
altura h.
170 Concreto armado: análise das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Calcula-se, portanto, o valor de kc relativo ao módulo do momento fletor Md1, e com


este coeficiente, na tabela A-3, determinam-se os coeficientes ks e βx, para cálculo da
área das barras da armadura e verificação da posição relativa da linha neutra, resultando:

b w  d2 25  752
kc    3,8  k s  0,025  β x  0,24
MSd1 37.105

O valor de βx = 0,24 é menor do que o valor de βx,lim = 0,45, o que verifica a condição
de dutilidade da viga, definindo situação de flexão simples com armadura simples.
A área de armadura As1, resulta:
M

3
7
1 7
.
0 5
5
A

ks

0
,
0
2
5

1
2
,
4
c
m
2
S
d
1
d

    
s
t
1

A área das barras da armadura longitudinal de tração é igual a:


A

1
9
,
8
1
2
,
4
3
2
,
2
c
m
2

    
s
t

s
t
0

s
t
1

Essa área de armadura pode ser representada por 16 ϕ 16 mm com área efetiva
A

3
2
,
1
6
c
m
2

de barras da armadura de  .
s
e
f

O cálculo da área de armadura mínima é feito do mesmo modo que do exemplo 1,


de viga de seção T.

6.13.3.3 Exemplo 3 – momento fletor característico MSk = 890 kNm

Sugere-se que o leitor faça o projeto da viga com o valor do momento fletor
característico MSk = 890 kNm.

Referência Bibliográfica

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) Projeto de estruturas de


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ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) Aço destinado a


armaduras para estruturas de concreto armado - Especificação. NBR 7480:2007. Rio de
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ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) Concreto para fins


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Capítulo 6 - Dimensionamento de elementos estruturais solicitados por ação de momento fletor – ELU 171

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SANTOS, L.M. Cálculo de concreto armado. 2v. São Paulo, LMS, 1983 (v.1), 1981
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MONTOYA, P.J.; MESEGUER, A.; CABRE, M. Hormigon Armado 14.a Edición Basada
em EHE ajustada al Código Modelo y al Eurocódigo. Barcelona, Gustavo Gili, 2000.
7
DIMENSIONAMENTO DE
ELEMENTOS ESTRUTURAIS
LINEARES SOLICITADOS POR
FLEXO-COMPRESSÃO NORMAL –
ELU
7.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS (25 de janeiro de 2017)

Nos casos de elementos estruturais lineares solicitados por força normal, momento
fletor e força cortante diz-se que o elemento está submetido a um estado de flexão
composta. A verificação de segurança da seção transversal quanto à força cortante é
feita separadamente, conforme estudado no capítulo 9. Portanto, é preciso analisar as
resistências de seções transversais solicitadas a flexo-compressão normal, com ação de
momento fletor cujo plano contém um dos eixos centrais de inércia da seção transversal,
e a flexão composta oblíqua, situação em que os planos de ações dos momentos fletores
não contém os eixos centrais de inércia da seção transversal.
O Boletim Técnico número 92, editado em 1967 pela Associação Brasileira de
Cimento Portland, define:

tração excêntrica – estado de uma barra em que os esforços solicitantes são só


momentos fletores e forças normais de tração (caso de tirantes), o que é um caso
particular de flexão composta, com força cortante igual a zero.

compressão excêntrica – estado de uma barra em que os esforços solicitantes


são só momentos fletores e forças normais de compressão (caso de pilares), o que é um
caso particular de flexão composta, com força cortante igual a zero.
174 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

A ABNT NBR 6118:2014 adota as seguintes nomenclaturas: flexo-compressão


normal e flexão composta oblíqua, para os casos de momento fletor que agem em um
plano central de inércia e quando os dois momentos fletores atuam nos dois planos
centrais de inércia, respectivamente.
Para efeito didático as análises dos casos de flexo-compressão normal e flexão
composta oblíqua são feitas separadamente. As seguranças dos elementos estruturais
submetidos a esses esforços solicitantes (força normal e momento(s) fletor(es)) são
verificadas com os critérios indicados na ABNT NBR 6118:2014 com relação aos
estados-limites último e de serviço, a exemplo da análise de seções transversais
solicitadas por flexão pura (solicitação de momento fletor).
A análise da segurança de elementos lineares de concreto armado solicitados por
força normal e momento(s) fletor(es) é de suma importância, pois os procedimentos são
usados nos projetos de pilares de edificações.
O leitor sabe que as estruturas de edifícios são compostas por barras verticais
(pilares) e horizontais (vigas), que por suas vezes recebem as ações das lajes, formando
um pórtico tridimensional. As ações nessas estruturas são as verticais provenientes dos
pesos próprios do concreto armado, pesos próprios dos materiais que compõem os pisos
e os revestimentos, das ações das paredes divisórias e das ações variáveis normais
(pessoas, móveis etc.), e, as ações horizontais relativas ao vento. Portanto, todas as
barras horizontais (vigas) e verticais (pilares) estão solicitados por força normal,
momento fletor, força cortante e momento torçor.
Neste capítulo 7 analisa-se a segurança de seções retangulares de elementos
estruturais em concreto armado com relação às situações de flexo-compressão normal.
A segurança estrutural precisa ser verificada para cada seção transversal dos
pilares ou tirantes.
As condições de segurança são verificadas com as hipóteses do estado-limite
último - ELU. Entende-se que, se os valores das resistências e deformações últimas dos
materiais forem atingidas sob solicitações de ação da força normal e do momento fletor,
o elemento estrutural apresenta uma situação de ruína, ou seja, deixa de cumprir a sua
finalidade estrutural. A ruína pode se dar de modo real, desintegração de uma seção
transversal formando um mecanismo hipostático, ou de modo convencional, quando as
resistências e as deformações do concreto e das barras de aço atingem valores
convencionais definidos por normas, aquém dos valores últimos reais.
O objetivo é escrever as equações que representam as condições de equilíbrio de
uma seção transversal e, por meio delas, determinar a sua capacidade resistente quando
solicitada por força normal e momento fletor.
Analisando a planta de forma de um pavimento tipo de um edifício (figura 7.1a)
nota-se que o pilar P01, com medidas dos lados iguais a hx e hy, avaliadas na fase de
pré-dimensionamento dos elementos estruturais, está solicitado pela força normal
característica NSk,P01 = FSk,P01 e pelos momentos fletores iniciais MSkx,P01 e MSky,P01, sendo
que os planos de ações são paralelos aos eixos coordenados locais x e y,
respectivamente, conforme figura 7.1c, pois a estrutura é, neste caso, considerada
formada por pórtico tridimensional. A figura 7.1b mostra o corte longitudinal da estrutura,
destacando-se o pórtico plano formado pelos pilares P04, P05 e P06 e pelas vigas VT02
e VC02. A figura 7.1c mostra os diagramas de momentos fletores e força normal entre
os pavimentos com níveis com medidas i e i + ℓpp.
Capítulo 7 - Dimensionamento de elementos estruturais lineares solicitados por flexo-compressão normal – ELU 175

a.- Forma estrutural do pavimento tipo b.- Corte longitudinal AA

c.- Diagramas de força normal e momentos fletores


Figura 7.1 - Pilar de edifico (P01) solicitado por flexão composta oblíqua

Considerando o pórtico bidimensional formado pelo pilares P04, P05 e P06 e as


vigas VT 02 e VC02, o pilar P04 é solicitado pela força normal NSk,P04 = FSk,P04 e pelo
momento fletor inicial MSkx,P04, por causa da ligação da viga V02 com o pilar P04. Nesta
análise consideram-se os pórticos planos independentes. Assim, o pilar P02 é solicitado
a flexo-compressão normal (reta).
Nos projetos de estruturas reticuladas (constituídas por vigas e pilares) os esforços
solicitantes podem ser calculadas por processos que a considerem como pórtico
tridimensional, assim todos os pilares ficam solicitados por flexão composta oblíqua.

7.2 HIPÓTESES DE CÁLCULO

No estado-limite último a segurança da seção transversal mais solicitada é


verificada majorando-se os valores da força normal (NSk) e dos momentos fletores
solicitantes característicos MSkx ou MSky por um coeficiente de majoração das solicitações
(f) e, minorando as resistências características dos materiais por coeficientes de
ponderação dos materiais (m), conforme estudado no item 6.2. Assim, a resistência
característica à compressão do concreto (fck) precisa ser dividida pelo coeficiente c igual
a 1,4 e a resistência ao escoamento das barras de aço (fyk) é dividida por s igual a 1,15.
Não são estudados nesta seção os casos de instabilidades de barras comprimidas.
As condições de segurança, com relação a seção transversal, especificada pela
ABNT NBR 8681:2014, é que as solicitações de cálculo Sd precisam ser menores ou
176 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

iguais que as resistências de cálculo Rd. No caso de seção transversal solicitada por
força normal e momentos fletores solicitantes de cálculo a verificação da segurança é
feita considerando as equações 7.01.

NSd   f  NSk  NRd


M

M
γ   [7.01]
S
d
x

S
k
x

R
d
x
M

M
γ  
S
d
y

S
k
y

R
d
y

Os valores dos momentos resistentes de cálculo (MRd) são determinados


considerando os momentos das forças resultantes das tensões de compressão no
concreto e das tensões nas barras das armaduras comprimidas e tracionadas. A força
resultante das tensões de compressão no concreto (Rcc) situa-se no centro geométrico
do diagrama de tensões, de área Acc, sendo que a linha neutra (x) é medida a partir da
borda comprimida. As forças resultantes das tensões de compressão nas barras das
armaduras de compressão (Rsc) de área Asc e de tração (Rst) de área Ast também são
consideradas nos centros geométricos das barras. As resultantes das forças de
compressão (no concreto comprimido) e nas barras das armaduras posicionadas junto
às bordas comprimida ou tracionada geram o momento resistente de cálculo.
As hipóteses básicas indicadas na ABNT NBR 6118:2014 para determinação do
momentos fletores resistentes e da força normal resistente são as mesmas estudadas
no capítulo 6, item 6.2. O diagrama tensão – deformação do concreto é o indicado no
capítulo 3, item 3.2.4 e o diagrama tensão – deformação das barras de aço é o indicado
no capítulo 4, item 4.4.5.
O estado-limite último é atingido de modo convencional quando a distribuição das
deformações na seção transversal pertencer a um dos limites dos domínios definidos na
figura 7.2. Lembra-se que as deformações, conforme estudado no capítulo 6, item 6.3.4,
não podem ser adotadas com valores maiores do que εcu para o concreto, quando
comprimido exclusivamente por ação de momento fletor, εc2 para o concreto comprimido
exclusivamente por força de compressão e 10‰ nas barras de aço tracionadas.

Figura 7.2 - Domínios de estado-limite último de uma seção transversal


[ABNT NBR 6118:2014]

Os estados-limites últimos são definidos quando as distribuições das deformações


na seção transversal pertencerem a um dos domínios indicados na figura 7.2.
Capítulo 7 - Dimensionamento de elementos estruturais lineares solicitados por flexo-compressão normal – ELU 177

Os domínios de deformações 2, 3 e 4 foram discutidos no capítulo 6, item 6.3.5,


quando se analisou as resistências de seções transversais de vigas de concreto armado
solicitadas por momento fletor.
Analisando a figura 7.2 observa-se que a ruína da seção transversal do elemento
estrutural pode ocorrer por deformação plástica excessiva das barras de aço e/ou por
ruptura do concreto, assim pode-se ter:

ruptura convencional por deformação plástica excessiva

- reta a: tração uniforme;

- domínio 1: tração não uniforme, sem compressão;


- domínio 2: flexão simples ou composta sem ruptura à compressão do concreto
(εc < εcu e com máximo de alongamento permitido para as barras de aço
tracionadas);

ruptura convencional por encurtamento limite do concreto

- domínio 3: flexão simples (seção subarmada) ou composta com ruptura à


compressão do concreto e com escoamento das barras de aço tracionadas (εs
≥ εyd);

- domínio 4: flexão simples (seção superarmada) ou composta com ruptura à


compressão do concreto e sem escoamento das barras de aço tracionadas (εs
< εyd);

- domínio 4a: flexão composta com armaduras comprimidas;

- domínio 5: compressão não uniforme, sem tração;

- reta b: compressão uniforme.

No domínio 5, caso de compressão não uniforme, sem tração, as deformações de


compressão não podem ser maiores do que εcu, quando as tensões de compressão
forem preponderantes em relação às causadas por momento fletor, as deformações de
compressão precisam ser próximas de εc2 em virtude da ruptura do concreto da seção
transversal quando só comprimida. Assim, a seção plana gira em torno do ponto C,
sendo que, considerando as semelhanças entre os triângulos retângulos formados pelos
vértices definido pelo ponto εc2, B e C e encurtamento zero do concreto, εcu e deformação
zero na borda que dista h da borda mais comprimida, determina-se a distância
ε
-
ε
/
h
/
ε
c
u
c
2
y

  
c
u

 do ponto C até a borda mais comprimida.

7.3 ANÁLISE DE SEÇÕES TRANSVERSAIS SOLICITADAS POR FLEXO-


COMPRESSÃO NORMAL

Considerando a barra solicitada por força normal (NSd) e momento fletor (MSd)
indicada na figura 7.3, analisa-se a resistência da seção transversal retangular com
relação ao estado-limite último. A ruína convencional de uma barra de concreto armado
considerando as hipóteses dos estados-limites últimos pode ocorrer do mesmo modo
que o analisado para seção solicitada por momento fletor, como estudado no capítulo 6.
178 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Nos casos práticos pode-se ter elementos estruturais solicitados por forças normais
de tração (caso de tirantes) e de compressão (caso de pilares), e, estas forças normais
atuando junto com momentos fletores, caso de pilares de pórticos.
Em face das intensidades da força normal (de tração ou de compressão) e do
momento fletor pode-se ter seções transversais com as seguintes situações, em relação
a solicitação das barras das armaduras:

- duas armaduras tracionadas, caso de pequena excentricidade;

- uma armadura tracionada e outra comprimida, caso de grande excentricidade;

- duas armaduras comprimidas, caso de pequena excentricidade.

Na figura 7.3 Asc2 (ou Ast2) é a área das barras comprimidas por ação exclusiva
de MSd e Ast1 (ou Asc1) é a área das barras tracionadas por ação exclusiva de MSd. A
força normal de compressão é considerada positiva (caso típico de pilares) e negativa
nos casos de tirantes.

Figura 7.3 - Seção transversal retangular de barra solicitada por força normal e
momento fletor
A formulação aqui apresentada foi desenvolvida por Lauro Modesto dos Santos
(1983), tomando por base trabalho de Jayme Ferreira da Silva Junior (1971).
No âmbito da EESC – USP, Departamento de Engenharia de Estruturas, encontra-
se o trabalho de VENTURINI (1987), que analisou o problema e construiu ábacos para
dimensionamento de seções retangulares solicitadas à flexão reta, com distribuições de
barras simétricas e laterais simétricas.
A formulação foi estudada também por PINHEIRO e AMARAL (2006) com a
finalidade de construção de ábacos para o dimensionamento das barras das armaduras
bilaterais simétricas. Aqui, neste capítulo 7, faz-se a mesma sequência adotada por
esses autores, adaptando-a.

7.3.1 CASO DE DUAS ARMADURAS TRACIONADAS

Os elementos estruturais solicitados por força normal de tração e momento fletor


são os tirantes de concreto armado, conforme figura 7.4. O concreto tem a finalidade de
proteger as barras da armadura de agentes agressivos externos, pois no estado-limite
último a resistência à tração do concreto não é considerada, por ser pequena a
contribuição. A ruína ocorre de modo convencional por deformação plástica excessiva
Capítulo 7 - Dimensionamento de elementos estruturais lineares solicitados por flexo-compressão normal – ELU 179

das barras da armadura, com deformação última igual a 10‰, conforme estudado no
item 4.4.5.

Figura 7.4 - Barra de seção retangular solicitada por força normal de tração e
momento fletor – caso de duas armaduras tracionadas

A medida da profundidade da linha neutra (x) pode variar de acordo com a


inequação 7.02, conforme figura 7.4.

   x  d' [7.02]

Escrevendo a inequação em função da posição relativa da linha neutra, dividindo-


se membro a membro por d, que é a medida da altura útil da seção transversal, tem-se
a inequação 7.03.

x d'
   x   [7.03]
d d

Os domínios de deformações possíveis são a reta a, domínio 1 e domínio 2a (casos


em que x  d' ).
Para as soluções dos problemas, isto é, cálculo das áreas das barras das barras
de aço, das armaduras, pode-se adotar as seguintes condições de deformações da
seção transversal:

a.- reta a

as deformações nas barras da armadura tracionada são iguais a 10‰ e, por tanto,
as tensões são iguais à resistência de escoamento de cálculo das barras (fyd), e, a
medida da profundidade da linha neutra tende para menos infinito ( x    );

b.- domínio 1

a medida da profundidade da linha neutra (x) varia entre um número que tende para
menos infinito ( x    ) a zero inclusive, ou seja,    x  zero , e, portanto, a
εs

1
0

deformação nas barras da armadura menos tracionada é menor ou igual a ‰ e


t
2
180 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

fy
as tensões nestas barras são menores ou iguais a resistência ao escoamento ( 

s
t
2

d
).
A equação de equilíbrio das forças normais é escrita conforme 7.04.
N

A
fy

σ
    [7.04]
S
d

s
t
1

s
t
2

s
t
2
A equação 7.05 que considera o equilíbrio do momento fletor solicitante de cálculo
e os momentos das forças de tração nas barras das armaduras foi escrita considerando
para polo o ponto que contem o centro geométrico da seção transversal, conforme figura
7.4.
h 2
M

A
fy

    
 
   d
' [7.05]
S
d

s
t
1

s
t
2

s
t
2


 

Analisando a figura 7.4 pode-se escrever a equação de compatibilidade de


deformações.
ε sx

ε sx
t
2

t
1
d
d

 [7.06]
'

   

Por meio da equação 7.06 é possível calcular a deformação nas barras menos
εs

εs
tracionadas ( ) em função das deformações das barras mais tracionadas ( ), a
t
2

t
1
tensão nessas barras pode se calculada por meio do diagrama tensão-deformação em
função da categoria das barras, conforme figura 4.4.

7.3.2 CASO DE UMA ARMADURA TRACIONADA E OUTRA COMPRIMIDA

As seções transversais solicitadas por força normal de tração ou compressão e


momento fletor nos casos de uma armadura tracionada e outra comprimida abrange os
casos de flexo-compressão normal com grande excentricidade, isto é as tensões
causadas pelo momento fletor são preponderantes face as que ocorrem em virtude da
força normal.
Analisando a figura 7.5 percebe-se que a linha neutra pode variar como indicado
na inequação 7.08.

d'  x  d [7.08]

Escrevendo a inequação 7.08 em função da posição relativa da linha neutra tem-


se a inequação 7.09.

d' d
 x   1 [7.09]
d d

A ruína convencional pode ocorrer com deformações relativas aos domínios 2b (


x  d' ), 3 e 4, semelhantes ao estudado para seções retangulares solicitadas por
momento fletor (flexão simples).
Conforme a figura 7.5 as equações de equilíbrio são escritas em função das forças
resultantes das tensões internas que se equilibram e dos momentos resistentes (MRd)
calculados em relação a um polo escolhido (CG da seção transversal).
Capítulo 7 - Dimensionamento de elementos estruturais lineares solicitados por flexo-compressão normal – ELU 181

Na figura 7.5 têm-se a força resultante das tensões de compressão no concreto


Rcc, a força resultante das tensões nas barras da armadura comprimida (Rsc) de área Asc
e a força resultante das tensões nas barras da armadura tracionada (Rst) de área Ast. A
medida da largura do elemento é hx, hy é altura da seção transversal e d é a altura útil,
ou seja, a distância da mais comprimida até ao centro geométrico das barras mais
tracionadas, x é a medida da profundidade da linha neutra, a partir da borda mais
comprimida, y é a altura do diagrama retangular de tensões de compressão e d’ é a
distância dos centros das barras das armaduras até a borda mais próxima. Portanto, d’
é a soma do cobrimento, do diâmetro do estribo e metade do diâmetro da barra da
armadura longitudinal (quando se tem uma única camada de barras) à qual se refere d’.

Figura 7.5 - Barra de seção retangular solicitada por força normal e momento fletor –
caso de uma armadura tracionada e outra comprimida

A equação 7.10 representa o equilíbrio das forças resultantes das tensões nos
materiais concreto e barras de aço e a força normal solicitante de cálculo.
N

   [7.10]
S
d

c
c

s
c

s
t

As forças resultantes das tensões são calculadas por:


d d
R

hx
y
σ

hx
λ
x
αc
fc

hx
λ
x

αc
fc

hx
d
λ
βx
αc
fc

                    [7.11]
c
c

c
d

d
R

A
σ

  [7.12]
s
c

s
c

s
c
R

A
σs

  [7.13]
s
t

s
t

Substituindo na equação 7.10 as equações 7.11, 7.12 e 7.13 obtém-se a equação


7.14 relativa ao equilíbrio das forças normais resultantes.
N

hx
d
λ
βx
αc
fc

A
σs

A
σs

          [7.14]
S
d

s
c

s
t

αc é adotado ou calculado de acordo com as equação 6.07, para concretos da


classe I, e equação 7.08 para concretos da classe II.
λ é adotado ou calculado de acordo com as equação 6.03, para concretos da classe
I, e equação 7.04 para concretos do grupo II.
182 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Considerando o equilíbrio dos momentos das forças resultantes internas em


relação ao centro geométrico da seção transversal, e analisando a figura 7.5, pode-se
escrever a equação 7.15.

h 2
y 2

h 2
M

d
'
   
             [7.15]
S
d

c
c

s
c

s
t
   

Substituindo na equação 7.15 as equações 7.11, 7.12 e 7.13 tem-se:

h x2

h 2
M

hx
d
λ
βx
αc
fc

0
,
5
λ
βx

A
σ

A
σ

d
'
   
2

d
                     [7.16]
S
d

s
c

s
c

s
t

s
t
    

As equações de compatibilidade de deformações (7.17) podem ser escritas


observando a figura 7.5.
ε cx

ε sx

ε sd
c

t
x
d

  [7.17]
'

 

Escrevendo as equações 7.17 em função da posição relativa da linha neutra


resulta:
ε cβ

εs

εs
c


1

 
d

[7.18]
'
βx


x

x
d

Considerando o número de equações e de incógnitas percebe-se que o


dimensionamento é feito calculando as áreas das barras das armaduras tracionada e
comprimida, desde que se adote, convenientemente, a medida da profundidade da linha
neutra (x).
Como solução possível pode-se adotar uma das incógnitas considerando a linha
βx

βx

neutra relativa (  x ) igual a  , de acordo com o indicado na tabela 6.2, em


,
l
í
m

,
3
4

função da resistência característica à compressão do concreto e da resistência


característica à tração das barras de aço.
No caso de seção transversal de barras de concreto armado, solicitadas por força
normal de tração (NSd) e momento fletor (MSd), a equação de equilíbrio 7.11 pode ser
escrita do mesmo modo, porém substituindo (NSd) por (  NSd ).

7.3.3 CASO DE DUAS ARMADURAS COMPRIMIDAS

As seções transversais solicitadas por força normal de compressão e momento


fletor nos casos de duas armaduras comprimidas abrangem os casos de flexo-
compressão normal com pequena excentricidade, isto é as tensões relativas a força
normal são preponderantes em relação às causadas pelo momento fletor.
Na figura 7.6 observa-se os diagramas de tensão de compressão, as forças
resultantes das tensões no concreto comprimido e nas barras das armaduras e o
diagrama de deformações.
Capítulo 7 - Dimensionamento de elementos estruturais lineares solicitados por flexo-compressão normal – ELU 183

Figura 7.6 - Barra de seção retangular solicitada por força normal de compressão e
momento fletor – caso de duas armaduras comprimidas

Analisando a figura 7.2 percebe-se que a medida da profundidade da linha neutra


pode variar como indicado na inequação 7.19.
d
x

   [7.19]

Escrevendo a inequação 7.19 em função da posição relativa da linha neutra,


multiplicando membro a membro por (1/d), tem-se a inequação 7.20.

1   x   [7.20]

A ruína convencional (ELU) pode ocorrer com deformações relativas aos domínios
4a, 5 e reta b.
As medidas das profundidades da linha neutra (x) e as relativas (  x ) podem ser
escolhidas de acordo com o indicado a seguir.

a.- domínio 4a
h yd
d
x
hy

1
βx

     [7.21]

Seções transversais dimensionadas com a condição do domínio 4a têm as


εs

deformações ( ) nas barras da armadura menos comprimida, de área Asc1,


c
1

praticamente iguais a zero.

b.- domínio 5
h yd

βx



hy

      [7.22]

Seções transversais dimensionadas com a condição de domínio 5 tem as


deformações nas barras da armadura menos comprimida de área Asc1 menor que as
deformações nas barras mais comprimidas.
c.- reta b
εc

εs

εs

εc

   [7.23]
c

c
1

c
2

2
184 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Assim, a deformação no concreto (  cc ) tem que ser igual a εc2 na fibra que dista
εc

εc

hy
/
εc
    medida a partir da borda mais comprimida.
u

u
 
As áreas das barras das armaduras são iguais.
As equações de equilíbrio são escritas de acordo com duas possibilidades de
medidas da profundidade da linha neutra (x):
y
hy

λ
x
hy

x
1
,
2
5
hy
a.- <       [7.24]
y
hy

λ
x
hy

x
1
,
2
5
hy
b.-    =    [7.25]

Para esta situação de seção transversal com duas armaduras comprimidas as


equações são escritas considerando as duas situações indicadas pelas inequações 7.24
e 7.25.
A seguir escrevem-se as equações de equilíbrio considerando os domínios de
deformações relativos a este caso de duas armaduras comprimidas.
x
1
,
2
5
hy

a.- domínios 4a e 5a (   )
N

hx
d
λ
βx
αc
fc

σs

σs

          [7.26]
S
d

s
c
2

c
2

s
c
1

c
1
h

h 2
M

hx
d
λ
βx
αc
fc

λ
βx

d
'
   
2

2
d

                    [7.27]
S
d

s
c
2

s
c
2

s
c
1

s
c
1

    
x
1
,
2
5
h

b.- domínios 5b (   ) e reta b

Nesta situação a seção transversal é toda comprimida e a força resultante das


tensões de compressão atua no centro geométrico da seção transversal.
N

hx
h
αc
fc

σs

σs

        [7.28]
S
d

s
c
2

c
2

s
c
1

c
1
h 2
M

σs

d
'

 
          [7.29]
S
d

s
c
2

c
2

s
c
1

s
c
1

 

αc é adotado ou calculado de acordo com as equação 6.07, para concretos do grupo


I, e equação 7.08 para concretos do grupo II.
λ é adotado ou calculado de acordo com as equação 6.03, para concretos do grupo
I, e equação 7.04 para concretos do grupo II.
As equações de compatibilidade de deformações 7.32 e 7.34 podem ser escritas
observando a figura 7.2.

a.- domínio 4a
ε cx

ε sx

ε sx
c

c
2d

c
1d

  [7.30]
'

 

Escrevendo as equações 7.30 em função da posição relativa da linha neutra


resulta:
Capítulo 7 - Dimensionamento de elementos estruturais lineares solicitados por flexo-compressão normal – ELU 185

ε cβ

εs

ε sβ x
c

c
2

c
1
1
 

d
[7.31]

'
βx

d

b.- domínio 5
εc

ε sx

ε sx
cx

c
2d

c
1d
  [7.32]
'

 

Escrevendo as equações 7.32 em função da posição relativa da linha neutra


resulta:
ε cβ

εs

ε sβ x
c

c
2

c
1
1
d

  [7.33]
' d
βx


x

c.- reta b
x

Considerando que  tem-se:


εc

εs

εs

εc

   [7.34]
c

c
1

c
2

e, portanto,
4
2
0
M
P
a
4
2
,
0
k
N
/
c
m
2

     [7.35]
s
1

s
2

s
d

Esses valores das tensões são válidos para aço CA-50 e concretos até C50.
Neste caso de seção transversal com duas armaduras comprimidas o
dimensionamento econômico se dá com deformações relativas à reta b ou considerando
a área das barras menos comprimidas (Asc1) igual a zero.

7.3.4 EXEMPLOS DE DIMENSIONAMENTO DE ELEMENTOS ESTRUTURAIS


LINEARES COM ARMADURA ASSIMÉTRICA

Considerando concreto de resistência característica à compressão de 30 MPa e


aço da categoria CA-50, elementos estruturais construídos em região relativa a classe
de agressividade ambiental II, urbana, com risco pequeno de deterioração da estrutura,
podendo-se, portanto, adotar cobrimento nominal das barras da armadura igual a 2,5
cm, pois foi adotado controle rigoroso de construção, distância do centro das barras
posicionadas nas quinas até a face mais próxima (d’) igual a 4 cm, resolvem-se os
seguintes exemplos de projetos de dimensionamento.

7.3.4.1 Exemplo 1 - Elemento estrutural solicitado por força de tração suposta centrada

A figura 7.7 apresenta os dados geométricos da seção transversal e o detalhe das


barras da armadura. O módulo da força de tração suposta centrada (FSk) é igual 500
kN.
186 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Figura 7.7 - Seção transversal retangular de elemento estrutural solicitado por força
normal de tração suposta centrada

Consideram-se a equação 7.04 adotando como solução as deformações no


elemento estrutural relativas a deformação última convencional de 10‰ nas barras da
armadura que pode ser com distribuição simétrica, pois a força é considerada centrada.
Isso faz com que a tensão nas barras da armadura (σst) seja considerada igual a
resistência ao escoamento de cálculo (fyd) igual a 435 MPa = 43,5 kN/cm2.
Assim, tem-se:
1
,
4
5
0
0
A

4
3
,
5
A

4
3
,
5

     (equação 7.04)
s
t
1

s
t
2

Resultando, portanto:
A

8
,
0
c
m
2


s
t
1

Que pode ser representada por 4 ϕ 16,0 mm dispostas em cada quina do elemento
estrutural, com área efetiva das barras igual a 8,04 cm2, ou por 10 ϕ 10,0 mm distribuídas
no perímetro do estribo, conforme figura 7.7. A área efetiva das barras da armadura é
igual a 7,9 cm2, ou seja 1,02% menor do que a área calculada, sem prejuízo da
segurança.

7.3.4.2 Exemplo 2 - Elemento estrutural solicitado por força de tração e momento fletor

A figura 7.8 apresenta os dados geométricos da seção transversal e o detalhe das


barras da armadura. O módulo da força de tração (FSk) é igual 500 kN e o módulo do
momento fletor igual a 100 kNm, com plano de ação paralelo ao eixo y e ao lado maior
da seção transversal.

Figura 7.8 - Seção transversal retangular de elemento estrutural solicitado por força
normal de tração e momento fletor
Capítulo 7 - Dimensionamento de elementos estruturais lineares solicitados por flexo-compressão normal – ELU 187

Calcula-se a excentricidade por:

M N

1 5
0 0
0 0
e

0
,
2
m
2
0
,
0
c
m
S
k
   

S
k
A distância do centro geométrico até os centros geométricos das barras da
armadura é calculado por:
h 2

6 2
0
d

4
2
6
,
0
c
m
'

   

Como a excentricidade de 20,0 cm é menor que a distância do CG da seção


transversal ao CG das barras da armadura que é 26,0 cm o problema é de flexo-tração
normal com pequena excentricidade, o que indica que pode-se usar as equações 7.04 e
7.05 para cálculo das áreas das barras da armadura longitudinal.
Como o domínio de deformações é o Domínio 1 as tensões nas barras da armadura
são iguais a 43,5 kN/cm2.
1
,
4
5
0
0
A

4
3
,
5
A

4
3
,
5

     (equação 7.04)
s
t
1

s
t
2

6 2
0
1
,
4
1
0
.
0
0
0

4
3
,
5
A

4
3
,
5

 
           (equação 7.05)
s
t
1

s
t
2

 

Resolvendo o sistema de equações resulta:


A

1
4
,
2
c
m
2


s
t
1

Essa área pode ser representada por 7 ϕ 16,0 mm com área efetiva de 14,07 cm2,
com um erro insignificante para menos em relação a área de armadura calculada.
A

1
,
9
c
m
2


s
t
2

Essa área pode ser representada por 2 ϕ 12,5 mm com área efetiva de 2,46 cm2.
A figura 7.8 mostra as barras da armadura posicionadas na seção transversal.
Neste exemplo de projeto não é possível determinar a medida da profundidade da
linha neutra, portanto a situação de deformação é indeterminado.

7.3.4.3 Exemplo 3 - Elemento estrutural solicitado por força de tração e momento fletor

A figura 7.9 apresenta os dados geométricos da seção transversal e o detalhe das


barras da armadura. O módulo da força de tração (FSk) é igual 500 kN e o módulo do
momento fletor igual a 130 kNm, com plano de ação paralelo ao eixo y e ao lado maior
da seção transversal. A excentricidade, que é igual a distância do CG da seção
transversal ao CG das barras da armadura mais tracionada (26,0 cm calculada no
exemplo do item 7.3.4.2), é assim calculada:
M N

1 5
3 0
0 0
e

0
,
2
6
m
2
6
,
0
c
m
S
k

   
S
k
188 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Figura 7.9 - Seção transversal retangular de elemento estrutural solicitado por força
normal de tração e momento fletor

É, portanto, um problema de flexo-tração normal com pequena excentricidade.


Consideram-se, portanto, para cálculo da área das barras mais tracionadas as equações
7.04 e 7.05. É esperado que a área das barras menos tracionadas resulte igual a zero.
Este caso de duas armaduras tracionadas é resolvido adotando-se, como foi dito
anteriormente as tensões nas barras iguais a resistência de escoamento das barras de
aço igual a 435 MPa = 43,5 kN/cm2.
Assim:
1
,
4
5
0
0
A

4
3
,
5
A

4
3
,
5

     (equação 7.04)
s
t
1

s
t
2

6 2
0
1
,
4
1
3
.
0
0
0

4
3
,
5
A

4
3
,
5

 
           (equação 7.05)
s
t
1

s
t
2

 

Resolvendo o sistema de equações resulta:


A

1
6
,
0
c
m
2


s
t
1

e
A

z
e
r
o


s
t
2

A área de 16,0 cm2 pode ser representada por 8 ϕ 16,0 mm com área efetiva de
16,08 cm2, ou por 5 ϕ 20,0 mm com área efetiva igual a 15,70 cm2.

7.3.4.4 Exemplo 4 - Elemento estrutural solicitado por força de tração e momento fletor

A figura 7.10 apresenta os dados geométricos da seção transversal e o detalhe das


barras da armadura deste exemplo. O módulo da força de tração (FSk) é igual 500 kN e
o módulo do momento fletor igual a 140 kNm, com plano de ação paralelo ao eixo y e ao
lado maior da seção transversal. A excentricidade, que é igual a distância do CG da
seção transversal ao CG das barras da armadura mais tracionada (26,0 cm calculada no
exemplo do item 7.3.4.2), é assim calculada:
M N

1 5
4 0
0 0
e

0
,
2
8
m
2
8
,
0
c
m
S
k

   
S
k
Capítulo 7 - Dimensionamento de elementos estruturais lineares solicitados por flexo-compressão normal – ELU 189

Figura 7.10 - Seção transversal retangular de elemento estrutural solicitado por força
normal de tração e momento fletor

É, portanto, um problema de flexo-tração normal com grande excentricidade.


Considerando as equações 7.04 e 7.05, isto é, problema com duas armaduras
tracionadas, com as hipóteses de Domínio 1 de deformações, a área das barras da
A
A

1
6
,
7
c
m
2

armadura iguais a:  e representada por um número menor do que


s
t
2
s
t
1

zero, contrariando a adoção de duas barras tracionadas representadas por números


positivos, entendendo-se que esta área precisa de barras comprimidas, portanto, a
hipótese inicial de duas armaduras tracionadas não se verifica.
Assim, adota-se uma segunda hipótese de uma armadura tracionada e outra
comprimida, considerando as equações 7.14 e 7.15 e domínio de deformações 2b (
A

x  d' ) e igual zero.


s
t
2

Substituindo nas equações 7.14 e 7.15 os dados do projeto e lembrando que λ e αc


são indicados na tabela 6.1 em função da resistência característica à compressão do
concreto igual a 30 MPa, tem-se:
3
,
0 4
1
,
4
5
0
0
2
5
5
6
0
,
8
βx
0
,
8
5

4
3
,
5
1
,

          (equação 7.14)
s
t
1
3
,
0 4
6 5
0 6

6 2
0
1
,
4
1
4
.
0
0
0
2
5
5
6
0
,
8
βx
0
,
8
5

0
,
5
0
,
8
βx

4
3
,
5

   
2

1
,

               
s
t
1

   
(equação 7.16)

Resolvendo o sistema de equações resulta:


A

1
6
,
6
c
m
2


s
t
1

e
A

z
e
r
o
,

 por hipótese.
s
t
2

A área de 16,6 cm2 pode ser representada por 9 ϕ 16,0 mm com área efetiva de
18,09 cm2.
190 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

7.3.4.5 Exemplo 5 - Elemento estrutural solicitado por força de compressão e momento


fletor

A figura 7.11 apresenta os dados geométricos da seção transversal e o detalhe das


barras da armadura. O módulo da força de compressão (FSk) é igual 2.500 kN e o módulo
do momento fletor igual a 50 kNm, com plano de ação paralelo ao eixo y e paralelo ao
lado maior da seção transversal. A excentricidade é calculada por:
M N

5 .
0 5
e

0
,
0
2
m
2
0
,
0
c
m
S
k

2
0
0

   
S
k

Trata-se, portanto de um problema de flexo-compressão normal com pequena


excentricidade, com duas armaduras comprimidas, podendo-se usar as equações 7.26
e 7.27, adotando-se como solução domínio de deformações reta b ou considerando

A
iguais as áreas das barras das armaduras, isto é,  .

s
c
1

s
c
2

Figura 7.11 - Seção transversal retangular de elemento estrutural solicitado por força
normal de compressão e momento fletor

Substituindo nas equações 7.28 e 7.29 os dados do projeto e lembrando que λ e


αc são indicados na tabela 6.1 em função da resistência característica à compressão do
concreto igual a 30 MPa, e, considerando que as tensões de compressão de cálculo nas
barras de aço CA-50 não podem ser maiores do que 42 MPa (equação 7.35), relativas
as deformações indicadas em 7.34, tem-se:
3
,
0 4
1
,
4
2
.
5
0
0
2
5
6
0
0
,
8
5

4
2
,
0
A

4
2
,
0
1
,

         (equação 7.28)
s
c
2

s
c
1
6 2
0
1
,
4
5
.
0
0
0

4
2
A

4
2

 
           (equação 7.29)
s
c
2

s
c
1

 

Resolvendo o sistema de equações resulta:


A

1
2
,
4
c
m
2


s
c
1

e
A

5
,
9
c
m
2


s
c
2
Capítulo 7 - Dimensionamento de elementos estruturais lineares solicitados por flexo-compressão normal – ELU 191

A área de 12,4 cm2 pode ser representada por 6 ϕ 16,0 mm com área efetiva de
12,06 cm2 e a área de 5,9 cm2 por 3 ϕ 16,0 mm resultando 6,03 cm2.

7.3.5 SOLUÇÃO DOS PROBLEMAS DE DIMENSIONAMENTO COM DISTRIBUIÇÃO


SIMÉTRICA DAS BARRAS

As equações deduzidas considerando os três casos de armaduras atendem os


projetos de elementos estruturais de barras solicitadas por força normal de tração ou de
compressão e momento fletor com plano de ação contendo um dos eixos principais de
inércia, com distribuição assimétrica das barras das armaduras junto a dois lados da
seção transversal.
Nos casos de projetos de pilares em estruturas de concreto armado não é usual
adotarem-se armaduras assimétrica, e, sim, armaduras simétricas. Pois, os pilares estão
solicitados por momentos fletores (caso de flexão composta oblíqua) de tal modo que
estes apresentam inversões de sentido, caso dos esforços solicitantes em virtude da
ação do vento. Também, o processo construtivo adequado sugere a consideração de
armadura simétrica com o fim de minimizar a possibilidade de erros de construção.
Os pilares dos edifícios que fazem parte de pórtico tridimensional são naturalmente
solicitados por momentos fletores em duas direções principais e por força normal.
Para facilitar o dimensionamento ábacos com armadura simétrica foram
construídos com a finalidade de atender os projetos.

7.3.5.1 Ábacos para cálculo das áreas de armaduras

Conhecidas as dimensões da seção transversal retangular de um pilar, escolhendo-


se uma distribuição das barras, é possível, para cada par de valores NSd e MSd definir
um ponto do ábaco relativo à capacidade resistente última (ruína) da seção transversal,
ou seja, ruína convencional por ruptura do concreto ou por deformação plástica das
barras das armaduras ou ambas simultaneamente.
Casos de instabilidade do pilar são analisados em particular, pois a ruína pode
acontecer por instabilidade antes da ruína por falta de resistência de alguma seção
transversal.
Os ábacos são construídos de tal modo que os eixos das abscissas (μd)
correspondem ao momento fletor (MSd), e o das ordenadas (νd) à força de compressão
ou força de tração (NSd).
Os ábacos foram feitos considerando a força normal adimensional de cálculo (νd) e
momento fletor adimensional de cálculo (μd) definidos por:
N h
νd

S
d
hx

fc

 [7.36]
 
y

d
M h
μd

S2y
d
hx

fc

 [7.37]
 
d

As equações adimensionais são obtidas dividindo-se membro a membro as


equações de equilíbrio de forças normais por 7.36, e as equações de equilíbrio de
momentos fletores por 7.37. As taxas mecânicas de armadura foram designadas pela
letra (ω).
As condições de segurança são as indicadas pelos domínios de deformação (figura
7.2) para cada situação das barras das armaduras e pelas resistências do concreto
(capítulo 3) e das barras de aço (capítulo 4).
192 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

A seguir no item 7.3.6 apresenta-se exemplo de dimensionamento de elemento


estrutural solicitado por flexo compressão normal, conforme figura 7.12.
A figura 7.13 mostra um ábaco elaborado por Venturini (1987) considerado barras
de aço da categoria CA-50, para a relação d’/h igual a 0,10, com distribuição das barras
paralelas aos lados perpendiculares ao plano de ação do momento fletor de cálculo (MSd)
produto da força normal de cálculo (NSd) pela excentricidade (e). O coeficiente de
minoração da resistência da barra de aço foi considerada igual a 1,15.
Em função dos dados do projeto calculam-se a força normal reduzida (νd) e o
momento fletor reduzido (μd), determinando-se no ábaco a taxa de armadura mecânica
(ω). Considerando-se as resistências de cálculo do concreto (fcd) e das barras de aço
(fyd) calcula-se a área das barras da armadura (As), observando-se na figura 7.13 que
ela é distribuída igualmente nos dois lados da seção transversal (As/2).
A figura 7.14 apresenta ábaco para cálculo das barras da armadura simétricas de
acordo com os eixos que contem o centro geométrico da seção transversal, elaborado
para casos de elementos estruturais (pilares ou tirantes) solicitados por força normal
(NSd) e momento fletor (MSd).
No trabalho citado de Venturini (1987) encontram-se ábacos com várias
distribuições de barras e limitados a concretos da classe I de resistências (até 50 MPa).

7.3.6 EXEMPLO DE DIMENSIONAMENTO UTILIZANDO ÁBACOS

Considerando a seção transversal retangular de um pilar em concreto armado de


dimensões hx = 19 cm e hy = 40 cm (figura 7.12a, sendo que o plano de ação do momento
fletor é paralelo ao lado maior (hy), calcular a área das barras da armadura longitudinal,
supondo-a simétrica e distribuídas segundo os lados menores.
Os módulos dos esforços solicitantes característicos e os materiais são:

Nsk = 900 kN;

Msky = 70 kNm;

Concreto classe C30;

barras de aço categoria CA-50.

Figura 7.12 - Exemplo de dimensionamento de barra solicitada por flexo-compressão


normal. a) Seção transversal b) arranjo das barras da armadura

Observando o ábaco da figura 7.13 (Venturini, 1987) e considerando d’ = 4 cm, ou


seja a distância das barras posicionadas na quinas até a face contigua, pode-se calcular
os valores da força normal e momento fletor reduzidos, assim:
Capítulo 7 - Dimensionamento de elementos estruturais lineares solicitados por flexo-compressão normal – ELU 193

N h

1
,
4
9
0
0

0
,
7
7

S
d

3
0,
,
hx

fc
   

1
9
4
0
 

1
4
 

M h

1
,
4
7
.
0
0
0

0
,
1
5

S 2y
d
y

3
0,
,
hx

fc
   
d
y

1
9
4
0
 

2
d

1
4
 
d

4 4
'

0
,
1
0
hy

 

0
,
7
7
μd
0
,
1
5
e, considerando   ,  e d’/h = 0,10, no ábaco da figura 7.13
d

determina-se:
ω
0
,
3
6

A área de armadura de barras da armadura bilateral simétrica resulta:


1 fy

3
0 .
,

15
A

ω
A
fc

0
,
3
6
1
9
4
0

1
3
,
4
8
c
m
2
01
1
4

         
s

1
,
5

ou seja, por face resulta:


A 2

1
3
,
4 2
8
6
,
7
4
c
m
2
s

 

Considerando barras de aço de diâmetro 16,0 mm com área igual a 2,01 cm2 têm-
se 4 barras de aço de 16,0 mm por face com área efetiva de 8,04 cm2.
A figura 7.12b mostra o arranjo das barras da armadura longitudinal na seção
transversal.
Para uso da ábaco foi considerado hx = b e hy = h.
194 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

Figura 7.13 - Ábaco para cálculo da área das barras da armadura considerada
simétrica, para aço categoria CA-50 - Ábaco A – 2, Venturini (1987)
Capítulo 7 - Dimensionamento de elementos estruturais lineares solicitados por flexo-compressão normal – ELU 195

Figura 7.14 - Ábaco para cálculo da área das barras da armadura simétricas em duas
direções, para aço categoria CA-50 - Ábaco A – 34, Venturini (1987)
196 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CIMENTO PORTLAND Vocabulário de teoria das


estruturas. Boletim Técnico. São Paulo, ABCP, 1967

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) Projeto de estruturas de


concreto: NBR 6118:2014. Rio de Janeiro, ABNT, 2014.

FUSCO, P.B. Estruturas de concreto: solicitações normais. Rio de Janeiro, Guanabara


Dois, 1981.

MODESTO DOS SANTOS, L. Cálculo de concreto armado. 2v. São Paulo, LMS, 1983
(v.1), 1981 (v.2).

PINHEIRO, L. M. e AMARAL, E. C. Flexão Composta. Estrutura de Concreto Armado,


Capítulo 9A. Escola de Engenharia de São Carlos – USP, 2006.

SILVA JUNIOR, J. F. Concreto armado (Dimensionamento): Flexão normal composta no


estádio III. Edições Arquitetura e Engenharia. Belo Horizonte, 1971.

VENTURINI, W. S. Dimensionamento de peças retangulares de concreto armado


solicitadas à flexão reta. São Carlos, EESC, 1987.
8
DIMENSIONAMENTO DE
ELEMENTOS ESTRUTURAIS
LINEARES SOLICITADOS POR
FLEXÃO COMPOSTA OBLÍQUA
8.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS (06 de agosto de 2016)

As seções transversais de elementos estruturais em concreto armado estão


solicitadas por flexão composta oblíqua quando os planos dos momentos fletores não
contém os planos centrais de inércia. Na flexão composta oblíqua, também não é
conhecida a direção da linha neutra (LN), além da medida da profundidade (x), que é a
distância da borda mais comprimida até a LN.
Casos de flexão composta oblíqua também ocorrem quando o plano do momento
fletor contém um dos eixos principais de inércia, porém o arranjos das barras da
armadura longitudinal não é simétrico ou quando a seção transversal não tem plano de
simetria.
Conforme já estudado (figura 7.1) os pilares são solicitados por flexão oblíqua
composta, ou seja força normal de compressão e momentos fletores com planos de
ação paralelos aos eixos principais de inércia.
Nos casos de flexão normal composta a incógnita era a profundidade da linha
neutra (x) desde que conhecidas as medidas dos lados da seção transversal
retangular.
Quando a seção transversal está solicitada a flexão oblíqua composta as
incógnitas são a medida da profundidade da linha neutra (x) e seu ângulo de inclinação
(θ), dificultando a solução.
A resolução de problemas de cálculo das áreas da armadura em pilares
solicitados a flexão oblíqua composta é feito por ábacos construídos para este fim.
198 Concreto armado: análises das resistências das seções transversais de elementos estruturais

A solução para verificação da resistência da seção transversal com profundidade


da linha neutra (x) e inclinada de um ângulo (θ), pode ser feita por processos
aproximados que nem sempre são a favor da segurança e que podem ser estudados
em Modesto dos Santos (1981) e Fusco (1981).

8.2 EQUAÇÕES DE EQUILÍBRIO

Considerando a seção transversal de um elemento estrutural linear em concreto


armado (figura 8.1) solicitado por força normal de compressão (NSd) e momentos
fletores (MSxd) e (MSyd), podem ser escritas as seguintes equações de equilíbrio:

n
N

d
x
d
y
+

A
σs
=

[8.01]
S
d

R
d

      
s
i

i
d
A

i
=
1
c
d
c
c

n
M

e
=
M

X
d
x
d
y
+ i
A
σ

X
[8.02]
S
x
d

S
d
x

R
x
d

c
d

s
i
s
i
d
s
i
          
A
c
c

=
1
n
M

ey
=
M

Y
d
x
d
y
+ i
A
σ

Ys
[8.03]
S
y
d

S
d

R
y
d

c
d

s
i
s
i
d

i
          
A
c
c

=
1

sendo que:

- Acc é a parte da área da seção transversal comprimida;

- n é o número de barras em uma camada;

- Asi é a área da seção transversal de uma barra de aço de ordem i;

- id é a tensão na b