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T

-_
-
Imagine-se como ori~ntadora de
monografias de graduäs;äo: A cada
semestre, diferentes esh..\dantes a
procuram em busca de orientas;ä.o.
Em um unico encontro voce fala
de leituras, textos, fichamentos,
plagio, escrita, uma list.a
interminavel de regras e preceitos.-
Ha muito o que ensinar e o tempo
e curto. Mas agora se imagine
como sendo a estudante a espera
· de sua primeira orientas;ä.o. A
ansiedade em se descobrir autora
-de um texto academico e
inquietante. Todas as orientadoras
ja foram orientadas em seu Carta de uma orientadora-
primeiro texto academico e tem a
o primeiro projeto de pesquisa
mem6ria vivida desse momento.

Este livro trata exatamente desse


encontro magico na vida
universitaria: a orientas;ä.o
academica. 0 livro e uma carta
que combina fatos, emos;öes e
segredos. Nela, uma orientadora
oferece as boas-vindas a sua ainda
desconhecida orientanda de
monografia de graduas;ä.o. A carta
percorre afetos e surpresas, mas
tambem manuais de metodologia
e etica na pesquisa. Trata-se de
obra indispensavel para todas as
areas do conhecimento, que
facilitara a vida de professoras e Brasilia
estudantes. 2013
lnstltutodf!Bio6Uc.a,
Ol...,lto~ Hum01oos I!
Gine~o

Editora.r fVspon.rtil't'i.s
Debora Diniz
Malu Fonres

Conse/ho Edit01ial
Crisriano Guedes
Florencia Luna :_,
Maria Casado
Marce\o 1\{edeiros
1\larilena Corrca
Paulo Lei,-as
Roger Raupp Rios
Sergio Rego

Carta de uma orientadora


o primeiro projeto de pesquisa

Debora Oiniz

Brasilia
2013
© 201.3 Lerra:;Livres.
Todos os dirciros resen·ados. E permirida a reprodw;ä.o parcial ou total deS[a ohra, desde que
citada a fo""'lle ~ 9-ue näo seja para vcnda ou qualquer flm comercial.
Tiragem: I; edic;äo ~ 20l2 ~ 500 exemplares.
Ja reimpressao- 2012 ~ IOOO excmplares.
2• cdi~ao- 2013- 1000 exemplares.
Esta publica~äo possui vcrsäo digital (ISBN: 978-85-98070-30-8).

Este livro obedece as normas do Acordo Onogrihco da Lingua Portugucsa promulgado pelo
Decr<ro n. 6.583, de 29 de sctcmbro de 2008.
Coordenn(tio Editoritd
Fai.Jiana Paranhos

Coordellfl{do de Tecnologia
Joäo Neves

Revisdo de Lbzgua Portuguesn


Ana Terra Mejia lvlunhoz

Arte da Capa
Rarnon Navarra
Editoraftio EletrOnicn e ltzJ•out
Joäo Neves

Dados lmernacionais de Cataloga~o na Publica~o (CIP)


Bibliotecirio Responsavel: Seänio Sales Avelino (CRB/DF 2394)

Diniz. Debora.
Cana de uma orienradora.: o primeiro projero de pe.squisa I Debora Diniz. - 2. ed. rev. -
Brasilia: LerrasLivres, 2013.
108p.
ISBN 978-85-98070-31-5

I. Merodologia de pesquisa. 2. TrabaJho academico. 3. Ciencia- metodologia. I. Diniz, Debora.


II. Tirulo: _o primeiro projeto de pesquisa

CDDOOL.4
CDU 001.8
As primeiras leitoras desta carta, ainda como
aprendizes de autoras e jovens pesquisadoras.

A matilha.

Todos OS direiros reservados a Edirora LerrasLivres, um projero culrural da


Anis- Instiruro de Bioc!rica, Oireitos Humanos e Gc!nero
Caixa Postal 80 ll - CEP 70.673-970 Brasilia-DF
Tel/Fax: 55 (61) 3343.1731
lerraslivres@anis.org.hr J www.anis.org.br

A LerrasLivres e filiada a Cämara Brasileira do Livro.


Foi feiro dep6sito legal.

Impresso no Brasil.
r

SuMARIO

UMA CARTA: ............................................................................... I I-


- - .

ANTES DO -rRIMEi:RO ENCONTRO ..._............................................ I9

0 PRIMEIRO ENCONTRO ............................................................ 25

0 ENCONTRO COM A PESQUISA .................................................. JI

0 ENCONTRÖ COM 0 TEMP0 ..................................................... 4I

0 ENC-oNTRO COM 0 TEXTO ..................................................... 5 I

Ü ENCONTRO COM A·ESCRITA .................................................... 63

APöS A LEITURA ........................................................................ 8 I

E 0 FUTURO? ............................................................................. 85 -~

MAPA-DEi:i:I:ERATURA ............................................................... 89

CRONOGRAMA ........... ········ ........................................................ 93

SOBRE A AUTO RA .................................... ·················· ............... I07


r

Por uma coerencia textual a minha existencia, escrevo


no feminino. A referencia a "orientandas", "orientadoras",
"professoras" e "autoras" nao significa que esta carta nao
tenha destinatarios homens ou__que OS autores nao sejam
referencias confiaveis a pesquisa. Ao contririo, exatamente
porque o lugar dos homens esti tao bem assegurado na
pesquisa academica e que arrisquei a transgressao de
escrever esta carta no feminino universal. Nao se sinta
-if:'_
obrigada a seguir essa regra. Acolherei as escolhas de genero
que fizer no seu texto. 56 tenho um pedido: nao use sinais
graficos inexistentes no idioma, tais como "~" ou "@", para
representar os limites de genero. Se o m:ascuHno universal e
neutro tambem a incomoda, escolha uma subversao dentro
da norma.

I
~
Minha iniciac;:ao ao _curioso posto de "orientadora de
ideias" se deu ap6s uma longa experiencia como esrudante.
Um dia, me desc_o~ri orientanda e, logo em seguida,
--.- autora de uma mo.nögtafia de graduac;:ao. Imagino que a
leitora desta carta seja uma estudante de graduac;:äo que se
prepara para escrever sua monografia de final de curso. 1
E uma experiencia singular e inquietante - a estudante
se descobrira autora de um texto academico. Ao me
!!
I! converter em orientadora, passei a ouvir as inquietac;:öes
<!e minhas estudantes sobre essa experit~ncia, e elas eram
muito parecidas coni minha pr6pria hist6ria. Passei a
registrar os questionamentos de cada uma delas e, devagar,
respondia a eleS por escrito em formato de mensagens.
Muito lemamente, a carta foi se desenhando sob a forma
_ d~ repetidas resposras as duvidas. As mensagens passaram
1
E possivel que pesquisadoras em outros estagios da carreira academica
(especializas;ao, mesrrado ou doutorado) se identifiquem com esta carta, mas escrevo
para uma estudante de graduas;ao. Considero que a singularidade da primeira
experiencia me autoriza a escrever obviedades sobre o encomro de orienta<;äo, o
que seria um r~sco caso me dirigisse as pesquisadoras mais experiemes.
I
II
Carc1 de um.-l orienr~1dora Debora Diniz

a ser lidas por minhas. ariemandas e pelas ariemandas de academica, explorara suas inquietay6es, ~cendera suas
minhas colegas, tambe~- orientadoras. Foi ai que tive a preferencias textuais, e rapidamente desenvÖlveri uma voz
c~rteza de q ue o sentimento de angustia era compartilhado de autora. Näo importa que venha a ser uma voz timida.
---::: ~r todas aquelas que se descobriam repentinamente
Eu, particularmente, gosto de autoras dmidas. Elas säo
au~oras de um texto acadetnico. E, curiosamente, a carta cautelosas e guardam a pulsäo subversiva para um futuro
_acalmava os espiritos inquietos m.äis do que minha voz ao em que näo mais precisaräo de uma orientadora. Talvez a
pe do ouvido. experiencia autoral näo se estenda _no tempo, 0 que näo e
nenhum demerito. Esta carta e para quem deseja escrever
Esta carta e resultado de uma troca de ideias, dos 0 unico texto da vida, a monografia de graduayäo, ou

comentirios aos questionamentos que ouvi das jovens para quem busca o oficio de escritora academica e tera
pesquisadoras com quem tive n prazer de trabalhar na monografia sua primeira experiencia. Por isso, ja me
durante muitos anos. Ela antecipa · äs principais pergunras permito esqtiecer a impessoalidade do discurso e passo a _____ _
que muitas orientadoras ja responderam as suas orientandas escrever diretamente para aquela a q_uem a carta se endereya
nessa etapa. da carreira academica. As orientandas de~n a - a voce, jovem pesquisadora e aprendiz de es~ritora.
reescrita permanente. Foram elas que me mostraram o que
precisaria ser contado para que alguem se descobrisse como
autora de uma monografia de graduayäo. Por isso, este e Texto publico
um texto concreto que busca guiar o encontro intelectual
entre duas pessoas - a orientadora e a orientanda, ou, Voce sera autora de uma monografia de graduac;:ao.
como prefiro nos descrever, a leitora-ouvidora e a aprendiz Ela sera eterna, näo ~e esqueya dessa sentenya. Se ja escreve
de escritora. Ha muitos e h0ns livros de metodologia poemas, cartas ou mensagens de amor, blogs ou panfletos
disponiveis, mas esta carta näo concorre com eles. Näo politicos~ esse e um bom comeyo para desinibir as mäos
i,,
I'
,. escreverei sobre como fazer uma pesquisa, mas sobre como e chacoalhar seu filtro afetivo que so reconhece Clarice
se preparar para a fascinante experiencia da criayäo e da Lispector ou Virginia Woolf como autoras. Pratique a
autoria academicas. escrita como quem~ercita o corpo. As ideias precisam
de musculos solto~ para fluirem como nossas. Acredite
Por que uma carta? Porque orientar e comunicar-
que esse e um jog~ue a transformari, e voce aprendera
se por hist6rias, saberes e exp_eri~qcias. Orientar e ler
consigo mesma. Fu serei sua parceira, por isso __e.ermita
atentamente e ouvir delicadamente. Entre a atenyäo e a
me apresenrar a voce por meio desta carta, u~enero
delicadeza, descobri que a carta me permitiria dar as boas-
narrativo que combina fatos, emoy6es e segredos. A carta
vindas as jovens pesquisadoras sem pressiona-las mais
,.i· do que o jogo das regras e dos prazos ja exigiria. Sim,
e uma narrativa intima, mas neste-taso tambem impessoal.
Eode parecer paradoxal escrever uma carta para uma
havera um jogo em curso quando esta carta for lida pela ; I
destinatiria que ainda näo se imagina quem seja. E mais
primeira vez - em dois semestres, a estudante se descobri~__
estranho ainda: ela sera usada por outras orientadoras que
autora. Ern dois semestres revigorara sua formayäo

13
12
Carra de uma orienradora Debora Diniz

sequer a escreveram, mas que tomaräo para si o conteudo monografia de gradua<;:äo. 2 0 tempo para preencher as
desta carra. Sim, esta carta e uma metamorfase - eu e lacunas e sufic1~nte. Aquelas com ritmos teimosos que
rodas as orientadoras que conhe<;:o, as minhas e rodas as preferem 0 vaguear a labuta academica nos finais de semana
orientandas possiveis teräo suas vozes, alegrias e angustias talvez o considerem curro; ja outras o sentiräo em excesso,
aqui representadas. Por isso ela e- Öti$ada e täo fntima ao pois näo suporram o presente sem controlar o futuro.
mesmo tempo. A ansiedade pode ser intensa e a vontade de descobrir a
confundiri dianre de. tanras possibilidades de pesquisa e de
Minhas primeiras leimras senriram rensöes, leituras. E eu, entre Ieitara e ouvidora, aperfei<;:oarei minhas
alegrias e angustias ao lerem esta longa carra. Algumas habilidades manuais de costureira - cada retalho de ideia,
me amea<;:aram de abandono, outras se sentiram mais cada -requinte de luxo precisa ganhar sentido no tecido que
confiantes com minha honestidade. Muitas riram sozinhas a desenhista esbo<;:a dianre de. mim. Säo tantas regras sobre
e depois zombamos junras de minha falsa crueldade sobre como corrar o tecido, como- escolher cores, tendencias,
as regras i::lo Jogo academico. Ao menos no texto, represento modelos e movimentos, que ja houve momento_s em qu~
o papel mais difundido das orientadoras - alguem que me senti distanre da leitora-ouvidora e mais proxima das
näo entende atrasos, näo gosta de pregui<;:a e rompe irmäs escutadeiras. As irmäs -escutadeiras eram comuns nos
rela<;:öes se a orientanda se mostra uma miserivel copista monastedas cat6licos do passado, e seu trabalho consistia
das ideias de outras ailtoras. Um segredo: näo fuja, nem em ouvir os segredos do parlat6rio para delatar as jovens
me leve täo a serio na· carra. Eu e sua orienradora de carne freiras a madre superiora pelos equivocos da palavra. Elas
e osso merecemos a chance de lhe apresenrar as regras ouviam sem serem vistas. Uma cortina as escondia das
como _.Se -n6s näo fössemos as vigias de seu funcionamento. visitas que conversavam livremente com as novi<;:as como se
'
i Pe<;:o-lhe uma caurelosa proximidade com esta carta - eu näo houvesse censura na_ealavra.
;
escrevo para voce, mas sua orientadora de verdade sera
.i/ alguem ainda mais competente do que eu, porque foi A carta me permite abandonar as pretensöes das
!~ '

ela quem voce verdadeiramente escolheu para 0 posto de irmäs escutadeiras sentadas em um parlat6rio e escondidas
"orientadora de ideias". Isso facilitara o estranhamento pela cortina. Por isso, adoto a alegoria da costureira,
de algumas passagens do texto. Sua orientadora podera dar que le, ouve e sente cores e texturas. Ao final, serei uma
cores e sabores diferentes a alguns de meus conselhos ou costureira que experimenta sabores e admira bordados.
senren<;:as. Mas a carta tambem falari de mim. Cabe a voce Come<;:o por um desnuc!amenro do lugar da orientadora e
---~---

descobrir alguns evenros semelhantes da rrajet6ria de sua


2
-&Fientadora, caso ela deseje conti-los. Eu imagino que o seu rrabalho de conclusäo de curso se desenvolved. em dois
semestres: o primeiro para a elaborac;:äo do projero de pesquisa, o segundo para
a realizac;:äo da pesquisa e a escrira do texro. Com algumas variac;:öes, esse e o
Esta e uma carta com lacunas que voce esta prestes. cronograma regular de grande parte dos cursos de graduac;:äo em humanidades no
a biografar durante seus dois semestres reservados a pafs. Cada semestre possui quarro meses. Ao final desta carra, voce encontrara uma
proposta de organizac;:äo desses meses por semanas. E uma sugestäo que voce deve
adaptar ao seu ritmo de esrudo e as particularidades do curso e da p~uisa. Ha
cursos que alongam esse perlodo para tres semestres, permitindo um tempö-maior
para o trabalho de campo ou a colera de dados.

14 15
Carra de tuna oric:ncadora
Debora Diniz

das regras do jogo academico. _!::Jäo pode haver corrina em mas como espa<;:os livres -para a elabora<;:äo inc!-ividual
nossa troca de palavras. Nossa .media<;:äo sera o seu texto e de quem ler esta carta. A verdade e que o ritual da
nossas motiva<;:öes, os mais nobres valores que estimulam orienta<;:äo foi continuamente provocado pela minha
a vida academica: o respeito, a admira<;:äo e a _paciencia. expenencia como professora. 9-e metodologia. Desde que
Corno uma costureira, nosso trabalho sera arresanal, ·_ me descobri como professora,_ ensin.o metodos e tecnicas de
uma combina<;:äo que repete um oficio aprencÜdo e se pesquisa, um conjunto d~ falsos segredos sobre a arte
atualiza na estetica i_ndividual da cria<;:äo. Seremos boas da pesquisa que, quando .descobertos, mostram que
parceiras na composi<;:äo de uma pe<;:a textual. N osso nossas autoras näo säo täo geniais assim, mas apenas
encontro e intelectual e profissional. Seremos duas boas cozinheiras que inventam novos sabores quando
mulheres em busca de um texto que voce se orgulhara de reproduzem as receitas de sucesso da pesquisa academica.
ser a sua primeira cria<;:äo. Esse texto precisa ser belo, forte
·· e original, como se espera da cria<;:äo acad~Il:llca e _<i_e seu Se ensinar metodologia e trabalhar na cozinha
~ poder de transforma<?o social e politico. da vida academica, orientar e descobrir-se costureira.
Pe<;:o perdäo pelas alegorias täo antiquadas sobre oficios
femininos para descrever a elegancia da cria<;:äo academica.
Remetente
Uma boa pesquisadora e orientadora inspira-se em boas
costureiras e cozinheiras. Saber e sabor se misturam näo
s6 na etimologia, mas no manejo do tecido. Esta carta e
Serei sua oriemadora. Esta carta e uma combina<;:äo
resultado dessa dupla inspira<;:äo. Mas, por favor, näo espere
de exEeriencia pessoal com observa<;:äo __etnografica sobre
um manual de metodos ou tecnicas de pesquis~ois eu
esse eiicontro - foram as estudantes que- me ensinaram
näo falarei de hip6teses, entrevistas, levantamentos oa-
i I
o que precisaria ser dito nesse momento, mas percebi
analises de dados. Sobre tecnicas e metodos de pesquisa, ha
que havia uma permanencia ritualistica no encontro.3
j.: dezenas de bons manuais disponiveis. Voce veri que fa<;:o
Corno antrop6loga, adoro descrever rituais e esta carta
referencia aos que mais me inspiram nas notas de rodape.
e recordat6ria do ritual chamado "orienta<;:äo", que
0 unico escorregäo no campo dos metod6logos sera a
com~~na repeti<;:äo e recria<;:äo a cada peiformanc;. Falarei,
inquieta<;:äo provocada pelo "problema de pesquisa".4 Esta
portanto, das perman~ncias do oficio de orienRl<;:äo, mas
carta näo e sobre como fazer uma pesquisa, mas sobre o
muiras cria<;:öes säo resultado de minha --experiencia na
encontro de duas artes manuais - a cozinha e a costura.
I'
I' execu<;:äo do ritual. Espero que essas cria<;:öesnäo sejam
,I
entendidas como regras absolutas._sobre etapas rituais,
f I

3 Aetnografia e um metodo de pesquisa fusciname e bastante familiaras amrop6logas.


Consiste em realizar um mibalho de campo com grupos ou comunidades entre as
quais se deseja uma aproximas:äo para melhor compreender trac,:os culturais ou
praticas sociais. A etnografia exige um trabalho de campo denso, em que diferemes 4
0 USO do masculino aqui e intencionaf. 0 tema da metodologia de pesquisa
tecnicas de pesquisa säo utilizadas, sendo as mais comuns a observac,:äo, a entrevista e ainda distante das mulheres como autoras. Uma obra de referencia em lingua
e 0 USO do diario de campo. A etnografia e 0 metodo que orienta OS filmes que ja inglesa para metodologia feminista e Shulamit, Reinharz; Davidman, Lynn.
dirigi. Feminist methods in social research. Oxford: Oxford Universiry Press, 1992.

16 17
r
i

Carc.1 de uma orienn1dora

Desti_.Q.ataria

Voce sera minha orientanda. Escrevi esta carra sen'l


conhece-la. Voce me procurou para sermos orientadora e
oriemanda, um vinculo que fara parte de nossas hist6rias,
mesmo depois de- -encerrado. Ate entrar na universidade,
esse posto de "orientadora das ideias" me era desconhecido.
Durante um tempo, estranhei que alguem pudesse ocupar
lugar täo ousado na.vida de outra alguem. Por ser um posto
ousado, entenda-o como transit6rio, apesar de eterno se
finalizado com suä !llonografia de graduac;:äo. Sim, e um
paradoxo. Talvez~~ venha a ser a unica orientadora de NTES DO PRIMEIRe--ENmNTRO
sua trajet6ria academica. Se näo _a _unica, provävelmente a
primeira. E em respeito a esse momento_ täo especial em sua
vida que escrevi esta carta para dar-lhe boas-vindas.

Grienrar alunas e parte de meu oficio como Ainda sem nos conhecer, faremos ~m acordo. Nosso
professora. Eu poderia resumir meu papel de orientadora primeiro encontro seri dmido. Se possivel, ripido, apenas
como um clever. -Mas prefiro descreve-lo como uma para que eu lhe de boas-vindas- e recomende a leitura
descoberta fascinante. A abstrac;:äo desta carta somente fari :.desta carta. Ela foi escrita para ac.olhe:..-J:a nessa experic~ncia
sentido ao coahecer voce, ao ouvir suas ideias e ler seus intelectual. Acredite que, mesmo sem conhece-la, esta
textos. Sempre que tiver duvidas sobre o nosso encontro, carta foi escrita para voce e para esse momento de sua vida
volte a esta carta, me conte sobre partes que ainda näo fui academica. Leia-a do inicio ao firn, deitada na rede com a
capaz de imaginar que precisariam ser ditas. Quero ouvi-la brisa do mar, se puder estudar a beira da praia. Se vive no
e aprender com voce. Esta e uma carta abstrata, mas nosso centro do pais, como eu, a leitura ao cair- da tarde e uma
encontro se realiza na concretude de nossas singularidades. -~ sugestäo. Mas a geografia para a leitura e s6 a moldura do
Seremos a partir de agora um par, eu e voce, n6s e suas -= quadro, pois espero que ajude a afugenta:J as suas angustias.
ideias. Como-umft-fl.G-vela em cadeia, esta carta teri outras Voce teri oportunidade de voltar aos trechos que suspirou
vozes e hist6rias. E näo s6 a sua ou a minha, mas as de por humor, ansiedade ou s'::!EPresa. Mas tente percorrer a
outras oriemadoras e orientandas que a usaräo como suas carta de uma unica vez. Samente depois da leitura, teremos
pr6prias vozes para descrever esse encontro. nosso primeiro _encontro de orientac;:äo. Voce estara bem
mais segura e preparada para essa primeira conversa. E eu,
ansiosa por escud-la.

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Cur;J dc_~ unJ<l orienr:-1dora Debom L)iniz

Esse e o momento mais precioso_d~ sua formas;ao para, depois de algum tempo, alcans;armos nosso problema
academica. Voce passau varios semestres- na universidade de pesquisa. 0 desafio e sair do terna, ehegar a urri-
para poder escolhe~ livremente con1o pensar e sobre o problema razoavel, realizar a pesquisa e escrever a
- < que escrever. Eu imag_ino que voce esteja em um curso de monografia etn dois semestres. Acho que esse foi seu
graduas;ao que autorize escolher a leitora-ouvidora de sua primeiro suspiro ao ler esta carra, estou certa?
preferencia. Defen~o que voce deva ser Iivre para fazcr- essa
escolha, e esta carta foi escrita imaginando esse primeiro Nao pense ainda na monografia. 0 problema de
ato de arbitrio individual de sua trajeroria academica pesquisa, aquelas duas linhas em que anunciari o que deseja
como aprendiz de escritora -e- pesquisadora. 0 meu p~pel pesquisar, e sua meta de labuta intelectual. Enquamo me le,
seri auxilia-la neste momemo de descoberra e crias;ao. escreva as melhores ideias. Voce nao ira me apresenrar todas,
0 caminho, no entanto, e seu. Inteiramente seu. Meu fugar aperras as tres que considerar mais viaveis e interessantes.
e secundario nessa trajeroria, e nao se assuste com ess~eito Se possivel, tenha o miximo de segurans;a quanto as
que passo a escrever. Corno ja me descrevi, sau uma leitora- _ cores e. detalhes que nao Cleseja explorar sobre o-seu tema.
ouvidora interessada em suas ideias, uma companhei-ra de A pes;a que ira costurar seri sua, e voce deve decidir o estilo
reflexao. Mas a crias;ao sera sua. Talvez voce ainda nao da composis;ao. -
saiba exatamente o que deseja fazer. Nao se apresse para
Talvez um exemplo a ajude a entender a imp_ortincia
agora, o logo e suficiente. Eu poderei ajuda-la a encontrar o
de um problema claro e preciso. Um de meus temas
rumo, mas para isso preciso que responda a duas perguntas:
de pesquisa e a homofobia na educas;ao. Ja fiz estudos
que tema deseja estudar? E, sobre esse tema, por onde -ndo
quantitativos e qualitativos, escreyi artigos de jornais, dei
,, deseja seguir?
•' palestras e participei de audiencia~ publicas. Mas nunca
Nosso leque de imeresses e desejos de pesquisa e me interessei em conhecer as motivas;öes e desrazöes de
sempre maior do que nossas condis;öes efetivas de explori- um individuo homofobico. Meu imeresse e pensar como
lo. Isso aconteceri com voce, mas tambem atormenta as a homofobia restringe direitos e liberdades e provoca
pesquisadoras experientes. Ha um conselho que ouviri de sofrimento. As primeiras historias que ouvi de pessoas que
mim e de quem mais conversar sobre seu tema de pesquisa: sofreram violencia homofobica~-foram inesqueciveis - eu
"Reduza seu tema de pesquisa, deixe-o mais especifico". nao conseguia conviver com a ideia de que alguem poderia
0 curioso e 0 quanto 0 tema ja pareceri daro e~m temer sair a rua sob a ameas;a<fe violencia. As historias,
resolvido para voce, mesmo neste momento tao inicial somei minha atuas;ao em movimentos sociais e, assin1,
da pesquisa. Nao acredite nesse seu impeto inicial de pesquisa e intervens;ao polirica passaram a se misturar.
clarividencia - do tema ao objetivo geral da pesquisa, um Voce nao precisa listar o que nao deseja pesquisar, mas
bom tempo de conversas e leituras seri consumido. Com deve descobrir essas fronteiras para nao se confundir em
algumas varias;öes de estilo, chamo esse de o conselho da nossa primeira conversa. Isso a deixari mais segura para a
suspeita, uma regra inicial para qualquer aprendiz de _explosao de ideias e entusiasmos que nos acompanharao no
pesquisa: duvide de voce mesma. Iniciamos com um tema pr1meiro encontro.

20 21
r
f

Carca de uma oricncadora DeborJ Diniz

0 interludio dp_ encontro mim, poderemos ir juntas comut:ica-la sobre sua vomade
de mudans:a. Uma orientadora especializada em seu tema
Fico feliz que tenha me procurado para orient:i-la. acelerara slja pesquisa bibliogrifica, conheceri as autoras-
Acredite: seri uma troca de -saberes, expenencias _e chave dcr c-a1ppo e teri produ<;:ao na area que permitiri o
expectativas sobre o futuro. Imagino duas razöes que dialogo inici-al entre voo~s. Nao acredite em quem diz nos
a motivaram a me procurar. A primeira e pÖrque devo corredore:s das universidades que a mudan<;:-a· de orienta<;:ao
trabalhar com temas de seu interesse. A segunda e porque e sempre tr-aumatica - essa e uma hist6ria com muitos
procura uma boa leitora, mesmo que nao especialista em seu enredos. N6s pod~mos tomar essa decisao_ se ela for a
tema de pesquisa_ Se voce ja e pesquisadora de meu grupo melhor para o seu c~escimento intelectual. Juntas, iremos
de pesquisa, pode pular este parigrafo. Se nao e o seu caso, a coordena<;:ao do curso e informaremos sobre nossa
acesse o meu curriculo Lattes e veja sobre o que ja escrevi, decisao.
que p~ojetos ja desenvolvi, de--que otienta<;:Öes ja participeP
Se voqe for trabalhar em temas diretamente vinculados a Mas se estiver segura de que e comigo que deseja
minha produ<;:äo te6rica, meu primeiro conselho: leia o que trabalhar, saiba que seu esfor<;:o intelectual seri ainda- -
ja escrevi. ~aiba~o que penso sobre as _questöes que iremos maior e mais solitario. Isso nao e uma amea<;:a de abandono
trabalhar. Isso facilitara nosso encontro -imelectual. Ha antecipada, por isso rejeito seu suspiro. E a verdade sem
muita coisa disponivel nas bases_ e bibliotecas virtuais com rodeios sobre os desafios intelectuais de uma orientadora
acesso aberto. Comece por elas. 0 passo seguinte e percorrer iniciante em um tema de pesquisa. Eu nao terei como
as autoras que eu admirq e tambem se aproximar delas. socorre-la no pomo de partida, assim como uma especialista
Elas estarao listadas na s~<;:ao äe referencias bibliogrificas faria com facilidade. Seremos aprendizes juntas; eu serei sua
de meus textos. E facil descobri-las. boa e paciente leitora. Mas, para tranquili-za-la, saiba que ja
vivi essa experiencia antes. Orientei a tese de uma arquiteta,
Se nao sou uma especialista em seu tema de pesquisa, cujo tema era mobilidade, transporte e urbaniza<;:ao. Foi um
meu conselho: pense se sou a melhor pessoa para ajuda- belo encontro imelectual, que exigiu muito de n6s duas.
la. Eu terei prazer em aprender e aescobrir novas questöes Quando a provoquei se nao seria melhor a mudan<;:a de
com ~oce, mas uma orientadora especializada trara orienta<;:ao, ouvi um convicto "nao", que me deixou ainda
vantagens para o seu crescimento intelectual. Considere, mais contente ao conhecer as razöes da decisao: ela queria
por isso, mudar a orienta<;:ao.--Nao tenha medo dessa uma boa leitora. Eu sempre ,~~mprirei com--pr-azer o posto
decisao, nem suspire por minha franqueza. Assim como de leitora, mas. ~aiba qu.-e~ es!a e uma escolha que exigiri
pediu a coordenadora do curso que fosse orientada por uma maturidade imelectual e uma seguran<;:a afetiva ainda
maior de voce. E ha uma diferen<;:a entre voce e a arquiteta:
5
A plataforma Lattes e publica e, em 2012, congregava um milhäo e oitocentos mil ela estava no doutorado e voce inicia sua vida academica.
curriculos de professoras, pesquisadoras e estudantes do Brasil. A plataforma Lattes
permitira que voce encontre o meu curriculo e o de todas as ouuas professoras
Ela ja havia passado por essa primeira experiencia que voce
de seu curso ou da area que lhe interessa. Isso a ajudara a conhecer as pesquisas, agora vive, o que a deixava mais segura em nosso encontro.
orientac;:öes e publicac;:öes das pesquisadoras (www.lattes.cnpq.br). Voce pode fazer
buscas por autoras, temas ou palavras-chave.

22 23
Carra de un1a orienradora

Por firn, uma dica que acalma os espilj_tos mais


inquietos que anseiam pela monografia ja nesta fase
de defini<;äo inicial de temas e perguntas: proeure :.

conhecer o que suas colegas de curso ja escreveram


como monografia de gradua<;:äo sobre o seu tema. Ern
geral, as monograflas de gradua<;:äo estäo disponiveis
na secretaria de seu curso ou em uma biblioteca da
universidade. Muitas delas estäo inclusive disponiveis em
formaro eletronico, o que facilitara sua busca. Essa ser:l uma
pesquisa com poderes terapeuticos: acalmar:l sua ansiedade
por conhecer o que a espera ao final dos dois semestres.
PRIMEIRQ ENCONTRO

Eu preciso que em nosso primeiro encontro voce


tenha temas de interesse ou de desejo lisrados em um papel
ou registrados na mem6ria. Usarei interesse (que pode
ser pessoal ou politico) e desejo (de ordern privada) como
sinonimos para suas motiva<;:öes academicas. Interesses e
desejos säo duas for<;:as que nos movem intensamente na
vida academica. Eu, particularmente, acredito muito nas
motiva<;:öes politicas - elas däo semido para alem de n6s
mesmas, alem de permitir que nos conectemos a outras
i,
! , pessoas e ideias. Suas motiva<;:öes seräo resumidas em nosso
prirneiro encontro por seus titulos funcionais e problemas
de pesquisa. 6 Tente ser o mais espedfica possivel, o que
exigir:i de voce uma concentra<;:äo inicial bastante solitiria.
Torne notas sobre seus temas de interesse- eles podem ser
curtos como palavras-chave (discrimina<;:äo, cor, educa<;:äo),
rnas o ideal e que ja estejam se conectando para formar
os titulos funcionais (discrimina<;:äo racial e educa<;:äo).
---
6 John Creswell e um claro defensor do titulo funcional (Creswell, John. Projetode

pesquisa: merodos qualitativos, quantitivos e misto~ Porto Alegre: Arrmed, 2011).

24
c.:1rra de tun.? orienradori.l Debora Diniz

Os titulos funcionais devem dialogar com os enunciados aquilo que nos inquieta, que provoca nossa curiosidade
provis6rios, que neste--rnomemo chamaremos de problemas academica, mas que tem a possibilidade de ser explorado
~ de pesquisa ("eu quero analisar a discrimina<;:äo contra e, para as mats ousadas, ate mesmo de ser solucionado.
~ := estudantes negros")_ Ao escrever seus titulos e problemas, Ha problemas de pesquisa que podem ser muitC?_
:Yoce teri de eliminar os menos provaveis de motiva-la, interessantes, mas näo dispomos de meios para investiga-
~o que a for<;:ad. a fazer as primeiras escolhas. los. Durante muiro tempo eu quis realizar pesquisas co~- -
mulheres que tinham provoca9-o o aborto em si mesmas.
Alguns manuais de merodologia de pesquisa prop6em Porem, como voce sabe, o aborto e um crime no Brasil e
exerdcios para essa primeira busca de ideias e declara<;:äo as mulheres tem, compreensivelmente, medo de falar com
de imer~sses. Um deles chama-se A arte da pesquisa e tem pesquisadoras desconhecidas sobre um tema que pode ter
boas dicas. 7 Se voce fez algum- curso de pesquisa ou de consequencias penais para elas.
metodologia durante a gradua<;:äu, volte aos seus textos.
Eles ganharäo um semido diferente agora. De um~ volta I--I;i mais de 15 anos eu -esrudo esse tema: pesCfUlSe~t-­
nos curriculos de suas ex-pro~essoras ou de- autoras que como a midia impressa enquadrava o aborto; estudei como
admira. Anote os temas de pesquisa, os titulos dos projetos os filmes _comavam hist6rias de mutheres que haviam
e as publica<;:6es mais recemes que chamarem sua aten<;:äo. abortado; analisei processos j udkiäis-- que autorizaram
Fa<;:a uma pequena grade de temas e iniciativas que sua mulheres a imerromper gestä~öes inviaveis, etc. Depois
comunidade de autoras trabalha - isso poderi ajuda-la a de ter acumulado uma boa experiencia, em parceria com
afinar seus interesses com a p~mta do debate nacional um coautor, Marcelo Medeiros, e uma dedicada equipe
e internacional sobre os temas que deseja pesquisar. Näo de pesquisado~s, realizamos um estudo ousad~ ----:-_ a
confie aperras em SUa intuisj.o Oll nas leituras acumuladas Pesquisa Nacional do Aborto (PNA). Com esse estudo,
durante sua gradua<;:äo. Fa<;:a uma pequena revtsao n6s conseguimos apresenrar dados e perfis nacionais nunca
bibliogrifica sobre as publica<;:Öes dessas autoras ames antes conhecidos sobre as mulheres que ja abortaram.
de nossa primeira conversa. Näo precisa ainda estudar os Liderarnos uma equipe de dezenas de pesquisadoras de
textos, seja uma turista textual. Uma visita panorimica campo, o que exigiu uma habilidade diferente da pesquisa_
aos textos sera muito util. Seu produto deve ser uma grade solitiria - a capa:cidade de gerendar uma equipe diversa e
em duas colunas: a coluna da esquerda deve ter os titulos numerosa.
funcionais; a coluna da direita, os_2roblemas de pesquisa.
0 nosso problema de pesquisa era conhecer a
Mas o que e um problema de pesquisa? Um problema magnitude do aborto ilegal e inseguro no Bt:.asil, alem de
de pesquisa näo e um incömodo, no sentido em que idemificar metodos, percursos e redes de cuidado utilizados
usamos a palavra "problema" rotineiramente: "Estou com pelas mulheres para abortar. Para-levantar essas informa<;:6es,
um problema: dor de cabe<;:a". Ern pesquisa, problema e seria preciso falar diretamente com as mulheres, mas como
localiza-las, sem fragiliza-las? Depois de muito revisar a
7Wayne, Booth; Colomb, Gregory; William, Joseph. A arte da pesquis_a. Sao P:i~~: literatura nacional e internacional, e tendo acumulado
Manins Fonres, 2005.

26 27
Carca de um;1 oriencadora
Debora Diniz

uma boa experiencia com outta§ pesquisas sobre o ~~r:na, Nem todos os manuais de metodologia trabalham
resolvemos utilizar uma tecnica de levantamento de dadäs com esse conceito de probleina de pesquisa. Seu principal
conhecida como "tecnica de urna" em um desenho quali- substituto no linguajar de metodos de pesquisa e 0 de
_q!J-antitativo de pesquisa. 8 PerGOrl:emos as capitais do pais, objetivo geral ou pergunta. 9 Entenda-os como sinönimos.
entrevistamos 2.002 mulheres co.gl a urna e 122 mulheres Eu gosto de trabalhar com a ideia de objetivo geral, pois
co~ entrevistas gravadas. Nen}:luma mulher se recusou a facilita a defini<;:äo de objetivos espedficos, que säo os nossos
participar de nosso estudo e -COI)seguimos mostrar uma guias para a metodologia e as tecnicas de levantamento de
realidade escondida sobre o aborto. Desde que comecei dados. So nesta fase inicial de sua imersäo no universo
a pesquisar e a publicar sobre o tema do aborto, eu tinha essa da pesquisa e que manterei a men<;:äo a "problema de
inquieta<;:äo sobre a magnitude e as hist6rias das mulheres, pesquisa", pois acredito que seja um chamamento mais
mas tive que esperar quase 15 anos para soluciona-la. intuitivo a reflexäo. Assim, para nosso pri!lleiro encontro
depois desta carta, ja chegue com resposras a pergunta:
Esse exemplo näo e para assusra-la Oll faze-la imaginar qual o seu problema de pesquisa? 0 turismo texmal nos
que precisara necessariamente esperar uma decada para curricul~s -e pu.:blica<;:Öes, inspirado por alg~mas horas de
conduzir Üma pesquisa. Durante esses 15 anos, fiz estudos reflexao solitaria, resultara em uma bela tabela em duas
que considero muito importantes para o debate politico colunas. Seu primeiro exerdcio de contri<;:äo seri me
e academico sobre o tema. E todos eles me satisfizeram apresenrar aperras tres possibilidades de titulo funcional,
intelectualmente. Alguns deles foram locais, pontuais com seus respectivos problemas. Corno ja deduziu, o titulo
ou mesmo timidos quanto ao uso da evidencia empirica. funcional e uma frase curta que representara seu tema de
0 primeiro texto que escrevi sobre o tema analisa~~m pesquisa. Para cada titulo funcional, um unico pioblema.
unico processo judicial. 0 que eu queria compartilhar Nem mais nem menos do que isso por enquanto.
COffi VOCe e que nao basta um bom tema Oll uma boa
ideia, e preciso seriamente pensar em como explora-la para
ter uma pesquisa academica que se realize no intervalo
disponivel para uma monografia de gradua<;:äo. Alem disso,
nao se espera de voce um estudo nacional com milhares
de participantes ou sobre temas täo sensiveis quanto o };

aborto ou o trafico de drogas. Ha questöes que rondam t-


-r-----
i!
seu cotidiano e que näo exigiräo tantos recursos para sua };

investiga<;:äo. Por isso, pense nos seus interesses e desejos


para a pesquisa, mas tambem avalie de que materia-prima
dispöe para costurar sua produ<;:ao textual.
a A tecnica de urna consistia na apresentas;äo de uma urna secreta onde a mulher
depositava uma cedula com respostas a cinco perguntas. Na cedula que utilizamos
estava a pergunta se ela ja havia realizado um aborto. A cedula era anönima; o que 9Os manuais de metodologia dos saberes biomedicos utilizam preferencialmente
permitia a protec;:äo da identidade da mulher. "objetivo geral".

28 29
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ENCONTRO COM A PESQUISA

Eu tinha dito que esta carta nao era um tratado de


metodologia. Acredite que nao mudei de ideia nem me
perdi nas palavras. 56 nao consigo escrever sobre nosso -
encontro de orienta<;:ao sem enfrentar trc~s unidades basicas
de um projeto que os manuais de metodologia consideram
indispensaveis para pensar a pesquisa: dtulo funcional,
problema de pesquisa e palavras-chave. Talvez seja um
vicio de professora de metodologia, por isso pe<;:o desculpas
as orientadoras sem esse duplo percurso. Ha muito mais
~
t- nos manuais de metodologia - a depender da ousadia
dos autores, e possivel encontrar desde filosofia da ciencia
ate questÖes de formatayaO do teXto Oll revisao etica dcrs---
dados. Esta carta nao e um minitratado de metodologia
resumido em met:iforas de cozinha ou costura. Os bons
manuais de metodologia serao algumas de suas pr6ximas
leituras. Alguns deles estarao referendadas nas notas de
rodape, mas, como todas as sugestöes de leitura, essas sao
preferencias minhas, que voce certamente descobrira se
r
Carc;l de uma orienradora Debora Diniz

tambem serao boas escolhas para voce. Voce tambem fari 0 meu papel nesta fase e antecipar que ingrediemes-=
suas escolhas, tera suas preferencias. nao combinam em uma mesma receita. 0 sabor s6 sera .
degustado ao finaL :.
Por isso, ouso resumir o tema da carta, imaginando
que eu seja capaz de conter a sua interpretac;:ao do que leu Tente näo ser metaf6~ka, aleg6rica ou ironica com
ate agora. Esta e uma carta sobre o encontro intelectual o titulo- funcional. Seja generosa com ele. Ate mesmo
que se chama orientardo. 0 sentido da orientac;:ao. seri porque a metifora exige precisäo para que o referente sejä-
exatamente seus interesses e desejos de investigac;:äo, aqui eficaz na comunicac;:ao. Nesse momento de sua pesquisa,
resumidos pelo problema de pesquisa. 0 titulo funcional precisäo e algo ainda distante a ser alcanc;:ado. A cena
e a primeira coisa que escreveri para nossa conversa e que gosto de imaginar e que 0 dtulo funcional precisa
descobrira que seri o derradeiro arremate da costura de descrever e antecipar sua pesquisa para uma interlocutora
seu texto daqui a um ano, ao terminar a monografia. Que d~_elevador, aquelas cenas rapidas da vida cotidiana em que
tai interromper a leitura desta~arta e ja pensar quall_:itulo as pessoas iräo lhe pergunrar "o que voce esta estudando?".
funcional e 0 melhor dos tres desenhados na tabela que Consiga respander com clareza e objetividade "eu
sugeri? Näo se acanhe. Talvez eu näo leia o que voce escreve _ estou estudando ...". E, tao importa~te quanto essas duas
neste momento, portanto, näo deixe que seu filtro afc:tivo ä propriedades, dareza e objetividade, e preciso tambem
impec;:a de criar livremente. brevidade, por_isso no maximo 15 palavras. Nao sofra com
a atuäl pobreza estetica de seu dtulo funcional, pois ele näo
Se nao sabe o que um titulo deve conter, fac;:a o _fari parte de sua mem6ria academica. Eie e funcional, e
exerdcio de turismo textual que s~Jogeri ha pouco nos -- sua ..utilidade esta em resumir, antecipar e controlar seus
curriculos, artigos e livros de autoras que admira. Anote impetos criativos, que serao vados nesta fase inicial de
alguns dos titulos das obras, avalie quais deles comunicam definic;:ao da pesquisa.
melhor os conteudos e pense nas razöes. Esse passeio
poderi inspira-la para as primeiras tentativas de dizer em Talvez voce esteja se perguntando de onde satrao
15 palavras o que certamente precisara de muitas paginas as 15 palavras do titulo funcional. U ma saida e o senso
em breve. 10 A verdade e que voce- H!idari seu texto pelo comum academico, aquele conjunto de informac;:öes
titulo funcional e, ao final de um_ ano, seri em iorno q\le.....voce acumulou durante a graduac;:ao. Outra saida
dele que fari seu arremate final. D.urante muitos meses, e es~her as 15 palavras a partir de fontes seguras. Uma
0 titulo funcional sera como um termometro que vigia a estrategia consiste em buscar algum tesauro disponivel
temperatura do forno para o cozimento do bolo. Mas ele sobre o tema de seu interesse. Tesauro e um dicionario de
seri permanenterneute modificado, revisado, melhorado. termos reconhecido pelos campos que apresenta um bom
apanhado das palavras-chave utilizadas pelas autoras.
10 Alguns manuais sugerem 12 palavras Oohn Creswell defende essa proposta para Ern geral, quem elabora OS tesauros sao autoras de referencia
a Hngua inglesa). Minha experiencia e que tres palavras adicionais sao rerapeuticas
para as-escritoras mais prolixas. V:irias revisras academicas j:i determinam o limite
em um campo em parceria com cientistas da informac;:ao.
m:iximo de palavras para o drulo e institulram a categoria tirulo corrido, ou seja, Para quem estuda educac;:ao, por exemplo, o Instituto
uma versao prinissaia-do titulg p~ra a publica~ao.

32 33
Liuc:1 de um:1 oäencadora

Nacional de: Estudos e Pesquisas Educacionais (lnep)


possui um tesauro on-line. 11 0 tesäuro ira ajuda-la, pois
r exagerado: sem contar as virgulas, foram 41 pal~vras. 15
Com · o tempo, o longo titulo se viu reduzido a Sobre
Debora Diniz

resume o que outras pesquisadoras ja consideraram como a liberdade de imprensa. Talvez voce considere que as 41
boas palavra&-chave para descrever seus estudos. Campos palavras de Diderot foram mais precisas que as cinco a que
de pesquisa c~nsolidados possuem seus pr6prios tesauros. se viu reduzido o titulo, mas na comunicac;äo ciendfica e o
Eu ja trabaihei com um tesauro para estudos de genero, resumo quem ocupa esse espa<;o da precisäo. Com revisöes
ourro parä e~tudos legislativos e pöliticos, outro para de ponruac;äo e enquadramento na linguagem academica,
estudos em direito penal e outro para bioetica, so para citar o titulo-tratado de Diderot estaria bem pr6ximo do que
algunsY Sugiro que 'fac;a uma cuidadosa busca eletronica voce desenhari como o resumo de sua monografia de
por tesauros, e näo se limite a Hngua portuguesa. Essa sera graduac;äo.
uma boa surpresa que ajudari seu primeiro -exerdcio de
criac;äo textual.B Superada a aflic;äo sobre a economia do drulo
funcional, ha uma--=-dica preciosa para pensar em como
Outra inquietac;äo comum e a pergunt;I. de por que elabora-lo. Tome nota das palavras-chave =u_rilizadas pelas
reduzir sua imaginac;äo a 15 palavras, se Denis Diderot autoras nos artigos err:t peri6dicos academicos. p..1gumas
adotou como titulo de um de seus manuscritos o seguinte revisras utilizam "descritores" ou "unitermos" -como
tratado: Carta historica e politica endererada a um magistrado sinonimos para palavras-chave. Se o titulo funcional
sobre o comircio da livraria, seu estado antigo e atual, suas resume sua intenc;äo de pesquisa em 15 palavras, as
regras, seus privilegios, as permissoes tdcitas, os _censores, os palavras-chave devem ser ainda mais precisas: em geral,
vendedores ambulantes, a travessia das pontes e outras objetos as autoras se limitam a tres ou cinco palavras para descrever
a
relativos politica literdria. 14 Uma resposta..bem-humorada o assunto de cada artigo. Eu sugiro que trabalhe com
seria porque voce ainda näo conquistou a liberdade tn~s nesta fase da pesquisa. Tente näo inventar palavras-
panfletaria de Diderot, que escrevia contra a censura a chave, evite expressöes metaf6ricas e persiga a exatidäo.
livre circulac;äo das obras literirias. Mas, mesmo para Certarnente voce se sentiri um pouco constrangida em
o autor de A enciclopidia, esse titulo deve ser considerado sua capacidade criativa e expressiva tendo que traduzir suas
ideias em palavras-chave j~stabelecidas por outras autoras,
11
0 tesauro do Inep esd. disponivel em: <http://portal.inep.gov.br/pesquisa- mas lembre que esta e uma. etapa ainda basfante inicial de
rhesaurus>. Acesso em: 10 mar. 2012. -
12
Bruschini, Cristina; Ardaillon, Danielle; Unbehaum, 5;ndra G:'Tesauro para
sua pesquisa. Voce teri tempo suficiente para redescrever
estudos de genero e sobre mulheres. Sao Paulo: Editora 34/Funda.,:ao Carlos Chagas, o que, hoje, pode parecer insuficiente. 0 dominio- das--
1998; Burton, William C. Burtons legal thesaums. 4. ed. New York: McGraw-Hili,
2007; Kennedy Institute. Bioethics thesaurus 2001. Washington: Kennedy Institute
palavras-chave e um passo seguro para 0 desenho oo-
of Ethics, 2001; Tribunal Superior Eleitoral. Tesauro da fustifa EleitoraL 7. ed. titulo funcional. Esse seri seu primeiro produto de escrita
Brasilia: Coordenadoria de Edirora,.a_o e Publica.,:öes, 2010. academica.
13
Os melhores tesauros estao em Hngua inglesa, o idioma mais utilizado pela
pesquisa academica. Uma boa referencia e o tesauro da Unesco: <http://databases.
unesco.orglrhesaurusl>. Acesso em: 10 mar. 2012.
14
Charrier, Roger. Diderot e seus corsarios. In: _ _ _. Inscrever & apagar. Sao
Paulo: Unesp, 2007. p.285. _ _n 0 ljvro foi-e~cri~ em parceria com Jean D'Alembert no seculo :xyn.

34 -35
Carra de un1a orienr~?dor:l
Debora Diniz

Mas como escrever um problema de pesquisa? Voce


-_ que as possibilidades säo muitas -, port~nto, seu primeiro
ja tem 0 titulo funcional e ele sera seu termörÄetro para 0
exerdcio sera selecionar quais demarcam a identidade de
problema de pesquisa. Os dois precisam estar-_ em estreita
sua pesquisa. A seles:äo das palavras-chave dara boas dicas
conexao e harmonia. Vou sugerir uma forrrm.l~ta, bastante
do percurso que voce deseja explorar na pesquisa, na
simples, mas q1,1e tem ajudado jovens pes5Iuisadoras
revisäo da literatura e, mais importante ainda, na escrita
a orgarlizar suas· ideias. Essa formuleta e tÜn resumo
de seu- texto. Sobre esse mesmo conjunto de palavras-
intelectual de dezenas de manuais de pesqui~a que me
chave e esse mesmö problema de pesquisa, exemplos
inspiram, muitos deles bem detalhados e sofisticados
de titulos funcionais poderiam ser: Mulheres e educariio
quamo a apresentas;ao da ses:äo "declaras;äo de objetivö _de
superio;: uma etnograjia do estigma na Universidade de
pesquisa". Entenda minha formuleta como uma dica que,
Brasilia, ou Educariio e estigma: uma andlise de programas
certamente, voce ira aprimorar com suas leituras durante 0
universzt_drios para pessoas com deficiencia fisica. Novame0:te,
semestre. Ela se transformari em sua declaras:äo de objetivo
perceb~ como os titulos indicam estudos muito difere~es,
geral. Mas confesso que eu mesma parto dela quando vou
mesmo que em torp_~ de palavras-chave semelhantes e
iniciar um novo projeto. E um guia seguro para organizar os
"'
do mesmo problema de pesquisa. As combinas:öes sä.o
primeiros pensamentos, pois me obriga a pensar o objetivo
:I
:,
I'
em termos de suas unidades basicas de texto e de l6gica
inumeras, por isso dedique-se a pensar sobre a mensagem
que cada um deles transmitira a sua leitora. Voce fad. seu
I
argumentativa. A declaras:äo de um problema de pesquisa
primeiro exerdcio efetivo de comunicas:äo cientifica.
deve seguir a ordern direta, sem adjetivos, com verbos claros
e de investigas:äo, com delimitas:äo da unidade de analise e
recorte temporal. Aqui esti a formuleta nada secreta:
0 grilo do tremor
Meu problema de pesquisa e [verbo] [variavel]
[unidade de analise] [recorte temporal] Eu sei que näo e facil enfrentar de saida seu titulo
funcional, seu problema de pesquisa e as palav.r;as-chave.
Um exemplo: Meu problema de pesquisa e [analisar] Eies seräo o coras:äo pulsaute de seu projeto e estou lhe
[o estigma da deficiencia] [entre mulheres cadeirantes pedindo que inicie exatamente por eles. Todas as vezes que
estudantes da Universidade de Brasilia] [ap6s a cria<;äo do escrevo essas ses:öes de um novo projeto, experimento um
Programa de Atendimemo a Deficiencia]. misto<:le tremor e felicidade. 0 tremor nos acompanhari
por -rod~ a trajet6ria academica. Meu conselho e que
Imagine que palavras-chave inspiraram esse '[
aprenda a conviver com ele. De tanto tremer pela crias:äo,
problema e que titulos funcionais poderiam descreve-lo.
As palavras-chave poderiam ser: estigma; discriminas;äo;
t resolvi corporificar esse espirito teimoso que faz minhas
mäos oscilarem no tedado. Eu o chamo de meu grilo do
deficiencia; deficiencia fisica; impedimemo corporal;
tremor: nunca 0 deixo me dominar, mas näo esques:o que
genero; mulher; ensino superior; politica de educas:äo. Veja
ele acena para a prudenda. ~<: _imagina que ser:i feliz na
que ha palavras-chave em excesso nessa lista - um sinal de

36
37
Carra de uma orienrador,? Debora Diniz

companhia do grilo, interrompa a leittua uns mim1tos e seu caso no projeto de pesquisa - ~Ü ao falar pela primeira. _
apresente-se a ele. vez sobre uma pesquisa säo sinais ~ de caurela academic·a~- -
nossas intuic;öes ainda precisam ser ttstadas e esses säo ritos
E nesse jogo entre reconhecimento e silenciamenro ptibliGos de enunciac;äo. Conheceremos nossas cdticas pela
do grilo do rremor que o prazer me acompanha enquanto _ prime1ra vez, e o grilo ja ted. ficadö para td.s. 0 temor,
pesquiso e escrevo. As ideias entram em ebuli<;:äo e o ao contririo, impedira que voc~- se lance como autora.
resultado e um certo rremor nas mäos enquanto digito. Ao Manteri voce no silencio imposto· pelo medo. Näo se
me desnudar pelo que escrevo, como acontece agora, um esquec;a: aceite-me como sua leitora-ouvidora e afugente o
novo ciclo de exposic;äo ptiblica se inicia. Sim, eu ainda näo temor de sua iniciac;äo a pesquisa academica·. So o rremor
havia lhe dito isso: escrever e se expor publicamente. Mas e criativo.
pensar _e tambem curar as feridas da inquietac;äo, como diz
Mia c0uto.l6 Se voce ja teve _um blog na adolescencia,----stta-~
nova experiencia como autor;:t seri diferente - agora voce
teri leitQras externas a rede social aurrn:_izada a ler seu blog.
Eu serei uma delas, e seu grilo, s~u primeiro critico. Par
favor, näo suspire: o seu gril0-e_~o seu e dele e que ouvira as
cdticas mais importantes. Voces sempre estaräo sozinhos.
Os humanos viräo depois de seu grilo. Eu so farei a leitura
seguinte e pro~eto que serei cuidadosa com sua a_~siedade.

Mas näo ·confunda o tremor que acompanha a


criac;äo com temor. Tremor e temor säo estimulos corporais
e mentais muito diferentes e levaräo voce por diferentes
caminhos na criac;äo. 0 temor inibiri sua liberdade de
pensar e, em breve, de escrever. Ele a emudeceri. Nem ö
grilo nem eu--podemos lhe impor medo, pois essa e a J:lli>r
censura que _püde existir para U"ma aspirante a pesquisaäDra
e escrirora academica. 0 tremor e um sinal da prudencia
criativa que rodas temos que desenvolver. ··Ete se expressa
pela excitac;äo da descoberta, pelas pausas em que os dedos
näo nos obedecem no tedado ~ nada e escrito na tela, ou
pelas explorac;öes sem rumo pela bibliografia. Os tremores
que sinto ao escrever sobre um tema novo - como seri o

1 Couto, Mia. Quebrar armadilhas. In: ~~-· E se Obama fosse. africano? Sao
6

Paulo: Cia. das Letras, 2011. p. 99-106. ·

38 39
-ENCONTRO COM 0 TEMPO

Assim como von~, -eu valorizo o tempo. Bem


planejado, ele me permite ouvir, ler, aprender, criar, escrever
ou vaguear._ Eu tenho diferentes formas de vaguear -
a leitura e s6 uma-delas. Por isso, cuido de como USO meu
tempo e o tempo de quem se relaciona comigo. Assim, pe<;:o
que rambem considere seriamente como iri usar o meu
tempo para ouvir, ler e conversar sobre suas ideias e textos.
Eu sei o quanto a espera e angustiante para quem ainda
tateia a voz de autora e deseja ouvir sua primeira leitora.
Ao terminar um __rexto, voce aguardad. com ansiedade
minha leitura~ ·Nan precisa se angustiar antecipadamente,
voce tem nesta carta uma promessa escrita - se cumprirmos
nossos--acordos quanto ao uso do tempo, voce näo sofrera a
angusba da espera pela leitora-ouvidora. Eu estarei ao seu
lado, mas para isso voce precisa cumprir os acordos que
a
firmamos quanto vivencia do tempo em comum.

Para que o seu tempo se encontre com o meu tempo,


e preciso que desembrulhemos uma palavra adorada
Carca dc uma oricnrador.1 DebomDiniz

pelas administradoras---e pelas professoras de pesquisa Chamo essa regra de pacto do tempo. Quero que sinta
"planejamento". Aqui ;. usaremos intuitiv~~ente quanto qualquer ruptura do pacto do tempo como uma quebra de
ao sentido: o planejam~nto e aquilo que organiza etapas, promessa que firmaremos neste irrstarrte pelo periodo que
tarefas e produtos-:-=-~ra cada um dos momentos da durar nosso encontro de pesquisa. Corno em um c6digo
produ~äo academica, pr~cisamos derermirrar prazos. Par de honra entre duas mulheres, pare a leitura e assuma o
isso, a unidade basica de_planejamento e 0 "uso do temp9!'. pacto do tempo como seu. A partir de agora, nenhuma
Viveremos a partir dc:(h?je um encontro entre pelo menos de n6s desrespeitari prazos e acordos. Com algumas
dois tempos - o seu na elabora~äo do projeto de pesquisa diferen~as e particularidades, acredito que esse e um estilo
e na reda~äo da monografia e· 9 meu como sua leitora:. compartilhado por quase todas as orientadoras que ja
ouvidora. Mas, na verdade, e mais do que isso: nossas conheci, entäo näo me considere exagerada.
hist6rias intelectuais se cruzaräo intensamente durante esses
dois semestres. Nossas leituras, inquieta~öes e descobertas·
seräo temas permanentes de nossas conversas. Iremos trocar
_lJso do tempo
leituras e desventuras do texto. A felicidade e a riqueza de~se
~ncomro dependeräo mais de voce do que de mim. Por -_
Näo acredite em pessoas gema1s. Muito menos
isso, falarei mais sobre como organizaremos conjuntamente
em inspira~äo criativa apenas pelo 6cio. Corno ja disse,
nossos tempos do que sobre qualquer expectativa de
vaguear ajuda a pensar, mas näo e suficiente para produzir
genialidade criativa solitiria, pois 0 planejamento e 0 que
uma monografia de gradua~äo. A produ~äo academica
permite o trabalho em equipe. Sim, outra novidade: n6,.,
e resultado de um grande esfor~o intelectual, de uma
duas somos uma equipe ou, como prefiro_ nos descrever,
curiosidade insaciavel e de um imenso ~senso de suspeita
somos um par intelectual.
sobre o que achamos ja saber. Uma suspeitä deve se manter
Acredite que hi muitas vantagens nesse momento de com voce a partir de agora: antes de se crer diante de
exerdcio da autonomia academica, mas a cria~äo dependeri uma grande descoberta, desconfie de sua ingenuidade e
Forternente da organiza~äo de seu tempo. Abaixo exponho lembre-se de quantas pesquisadoras vieram antes de voce.
a forma como gosto de trabalhar, o que permitiri a voce A cada impeto de genialidade soliti_:.~a, saia a procura
avaliar antecipadamente como poderemos negociar estilos de um nome de autora que desconhecia:Veri que beleza_4e
e ritmos de trabalho. Alem de minha pr6pria agenda--de enciclopedia estari a sua disposi~äo. Isse: näo significa que
pesquisa e de atividades profissionais, voce e uma entre o passado deva intimida-la, mas aperras que a certeza da
vanas ariemandas que tambem aguardam a leitura anterioridade nos manteri sempre como autoras cautelosas
atenta dos textos. Isso significa que, para honrar minhas diante do texto e da pesquisa. Conhecer quem escreveu e
responsabilidades academicas com rodas elas, e agora com pensou sobre seu tema e um ato de sabedoria e de firmez.a
voce, näo pode haver quebras em nossos acordos. Quebrar intelectual. Acredit~ que hi um efeito tranquilizador no
um acordo näo a levari a um cadafalso, mas rompera com exerdcio de "revisäo da literatura": conhecer outras autoras
a regra mais basica de funcionamento de nosso encontro.

42
Carr.?. de uma orienr:1dora Debora Diniz

e vozes acalma nosso espLnto inquieto, que se movimenta _ chamar ~- atenc;äo sobre o tempo que se prometeu para essa
como se tudo ainda precisasse ser feito. tarefa: a tiriii::a censora de si mesma seri voce. Quero aperras
que acredite nesse meu primeiro conselho de planejamento
Hoje voce inicia o se~ projero de condusao de cursG- -:= - sem a organizac;ao do tempo, näo ha ritmo criativo que
de gr<!.duac;ao. Registre o mar~o zero no cronograma que responda as regras do jogo que lhe säo irnpostas neste
acompa~ha esta carta. Sera um dia memoravel para sua mornento. Voce tem_äpenas dois semestres para apresenrar
hist6ria academica. Eu tenho uma certa melancolia por nao- um produro · que seri avaliado por uma banca. 18 Esse
conseguir me lembrar do primeiro dia em que pensei em produro seri sua monografia de graduac;äo.
meu projeto de pesquisa de graduac;ao. Era inicio dos anos
1990 e eu estudava a rnigrac;äo japonesa para o Distrito Assumiremos que suas resposras de hoje seräo validas
Federal na epoca da construc;ao de Brasilia. Trabalhei para o semestre, certe? Errado. Sei que acabo de tirar de
C01ll~_!llem6ria dos migrantes mais velhos. Para acalmar voce o senso de descoberta solitaria sobre o primeiro
esse vacuo de lembranc;a, tento guardar 0 registro vivido desafio de planejamento do tempo: conter o otimismo.
das ultimas horas em que terminei c!_e revisar minha tese Veri na terceira sem~na que teri riiu1to menos tempo do
de doutorado, um estudo te6rico sobre o relativismo e os que irnaginou. Ao menos, aliviarei seu constrangimento
universais femif!istas de direitos humanos, em finais dos de ver corno seu primeiro planejam@nto näo funcionari.
anos 1990. Ritualize esse momento inicial de seu projeto, Bem, isso a forc;ari a uma escolha: ou se reorganizari e
ele e especial para 0 seu presente e mais ainda para 0 seu aurnentara seu tempo para a pesquisa; ou assumira que tem
futuro. menos tempo do que jmaginou e organizari melhor suas
tarefas de pesquisa. Descubra qual tempo e minimo para
Depois desse momento solene, acredito que esteja que possa comple_t.ar cada fase do projeto de pesquisa e näo
preparada para as pergunras que provocam profundas se permita menos do que o minimo. Mas a consciencia do
suspiros. Voce tera cerca de 15 semanas para elaborar o mfnirno exige um exerdcio permanente de superac;äo. Tente
seu projetoY Olhe para os 105 dias, distribuidos em 15 a cada semana se dedicar mais a pesquisa. Vera que e uma
semanas., e responda a estas duas perguntas: a) quantas tarefa repleta de prazeres. E sua endorfina intelectual sera
horas Q_or dia reservarei para o projero?; b) quantos dias por exponencial: a medida que mais pesquisar, rnaior prazer
serna!?;a reservarei para o projeto? Para respander a elas, tera ern descobrir. Mas, para isso, esquec;a o otimismo
ignor.e_o tempo em que se dedica a disciplinas de seu curso, nos planos, seja-sempre_realista em suas possibilidades e
caso ainda tenha que cursa-las enquanto avanc;a ern seu afugente com vigor o espiriro da dispersäo.
projeto. As pergunras sao exclusivas sobre a sua pesquisa.
Eu nao preciso conhecer suas respostas, mas voce deve Por experit~ncia, sei que a pergunta que acompanha
mira-las como um segredo recem-desvendado. Esse segredo seus suspiros e "em quanto devo aumentar meu tempo
sera a mem6ria de um compromisso que voce assume dedicado a pesquisa semanalmente?". 56 posso respander se
consigo mesma. Eu näo serei um espectro de Chronos a lhe 18
Aqui considero que seu trabalho de conclusäo de curso--.se.r:i Iido por sua
orientadora, mas tambem por uma banca de outras professoras. Se näo for esse o
17 lmagino que seja uma disciplina de quatro horas semanais durante 15-semanas. caso em seu curso, a avaliac;äo ser:i feita por sua orientadora.

44 45
Carca de un1a oriencadora Debora Diniz

souher quanto tempo dedicad. ao seu projeto de pe~uisa. cachorro, telefone, televisäo ou detox virtual. 19 0 pfgblema
Se qtiiser, me conte no pr6ximo encontro. Mas considero e que no dia seguinte estavam desperras pelas manhäs para
que e muito dificil levar adiante 0 conjunto de tarefas que outras atividades academicas ou pessoais, fossem aulas ou
a esperam com menos de 10 horas semanais dedicadas ao _ passeios com o cat;:h,o!ro. Havia um ritmo soclli que as
projeto, a pesquisa e a escrita da monografia. 0 ideale que ~~mstrangia e elas acabavam näo conseguindo mante!~ uma
todos os dias voce trabalhe em algum dos eielos basicos da rotina de pesquisa, pois .os momentos de exaustäo e _ruptura
monografia- pesquisa bibliogrifica ou de .campo, leitura, eram condnuos.
escrita e revisäo. Se näo for possivel organizar seu tempo
de forma a cobrir os quatro dominios diariamente, que Eu, particularmente, descobri que prefiro estudar
ao menos os organize no decorrer da semana. 0 ideal e pelas manhäs e escrever a tarde. Dias inteiros livres sao
que esse seja um ritmo pensado em unidades diarias de perfeitos para escrever. lntervalos de pequenas horas
atividades. Assim, vdlte a resposta que me deu sobre seu podem ser preenchidos com a leitura de arrigos breves.
tempo reservado a pesquisa e veja se dispoe das 10 horas Nunca trabalho a noite em atividades que exigem criac;:ao.
semanais e como pensa em distribui-las diariamepte. Se Caso eu tenha que realizar alguma tarefa a noite, somente
näo esta pr6xima desse- minimo, sugiro que se es(orc_e para fac;:o revisäo do texto. Mas para isso testei minha relac;:ao
atingi-lo. 0 quanto antes assumi-lo como _a meaida de sua coni o tempo e dominei meu ritmo corporal. A medida
ampulheta, melhor para o seguimento das ·etapas que nos que anoitece, minha leitura muda de estante - esquec;:o
esperam durante OS dois semestres. Lembre-se: pesquisa e - Donna Haraway e leio Osamu Dazai. 20 Assim como as
essencialmente um oficio cumulativo e permanente. horas importam para a leitura e a escrita, o espac;:o em que
repousad. seus apetrechos pode ser importante para sua
concentrac;:äo. Ha pessoas que s6 gostam de ler em casa,
vestindo pijama. Outras preferem respander a mensagens
Rittnos
ou realizar pesquisas bibliognificas em cafes ou bibliotecas.
Ha uma geografia da produc;:ao intelectual que e singular
Considerando que voce tenha reservado mais de
· -para cada uma de n6s: fac;:a um esforc;:o para descobrir como
10 horas semanais para ..g.~ quatro dominios - pesquisa
-= ira ocupar esses diferentes espac;:os no tempo de que dispöe.
bibliogd.fica ou de campÖ, leitura, escrita e revisäo -,
a organizac;:äo de seus dias para a execuc;:ao de cada um A organizac;:äo do tempo entre essas quatro tarefas -
deles deve ser um ajuste entre seus afazeres diarios e um pesquisa bibliografica e de campo, leitura, escrita e revisäo
autoconhecimento sobre o seu ritmo circadiano. ExpliGG- - sera estabelecida por voce. S6 voce sabe quando e melhor
me sobre esse ponto. Conheci muitas jovens pesquisadoras
19
De todos esses agentes de perturbac;:äo, so näo reconhec;:o os cäes. Detox virtual
que me diziam que seu ritmo de estndo- era noturno, eo universo de redes e comunicac;:öes virtuais que passam o tempo e perturbam o
isto e, -s6 conseguiam trabalhar no projeto a noite, quando espfrito. E facil reconhecer no dia seguinte uma sobrevivente de overdose de detox
näo tinham interrupc;:öes, sendo as mais comuns: mae, virtual.
20
Ha quem diga que so consegue ler ou escrever com a televisäo ligada. Sem
qualquer evidencia de pesquisa, rejeito essa tese. A leitura exige solidäo, silencio
e concentrac;:äo.

46 47
Carra de u1na orienradora Debora Diniz

escrever ou ler. Se ainda näo sabe, fa<;:a testes, descubra-se päes: algumas ~zes a pressa näo permitia que o fermento
- ---- no tempo. Reserve a primeira semana de sua inicias:äo a crescesse a n1_assa, outras vezes eu nio ajustava corretamente
pesquisa para conhecer seus ritmos e tempos. Inspirada a temperatura do forno. Rapidamente descobri que meu
nas nutricionistas que prescrevem dieras para engordar desafio era a quantidade de a<;:uca-r- um erro de punhado e
ou emagrecer, anote em uma Moleskine, a legendaria o päo ficava sovado.
caderneta de Ernest Hemingway, seus horirios e estimulos
-para cada uma das quatro tarefas. Mas, assiin como quem Para praticar ioga, eu estudei, viajei a fndia e me
esti em dieta nio pode mentir no diario alimentar, näo mantenho ativa nas aulas. Meu equipamento basico se
se engaU:e. Eu nio lerei sua caderneta, por isso näo ha por reduz a um tapere e um cronometro. Durante muito
que sentir vergonha. Ela seri uma pe<;:a secreta e privada tempo, eu conseguia praticar ioga sem tapere, mas näo
sua; a fun<;:äo e permitir um estranhamento de sua rotina sem cronometro. 22 Fas;a o tnesmo: para comec;:ar, una-
intelectÜ~l no tempo. Acredite em mim: seu bem m~"is se a um cronometro enquap_tQ__busca descobrir seu ritmo
precioso, mas tambem mais escasso, sera o tempo. Ha de pe_squisa. Seu celular deve ter essa funs;äo, senäo
muito ~ que ler, pois o uniyerso da encidopedia que nos troque 0 apar~lho ou arrume um cronometro charmoso.
antecede e acompanha e fascinante. Mes:a o tempo_~de que voce necessita para algumas tarefas
corriqueiras de pesquisa. Ja listarei älgu.9-s itens basicos,
Eu acredito em "treino intelectual para o uso do mas antes me permita acalmar seus suspiros. Essas säo
tempo". A primeira vez que pratiquei ioga me Iernbrei pergunras que sempre atemorizaram minhas orientandas
dos primeiros päes que assei. Näo sou iogue nem cozinheira. e bastava eu enuncia-las para algumas me ameac;:arem de
56 que descobri que, ate mesmo para me manter firme abandono. Elas achavam -g_tie-äi era uma neur6tica com o
em-- uma posi<;:io, o tempo importava - em posi<;:öes tempo. Näo vou contesrar esse possivel diagn6stico, mas
musculares de for<;:a, eu nio conseguia mais do que trinta me de a chance de provocar em voce a sensatez no uso do
segundos, ao passo que, nas posi<;:öes de alongamento, tempo. Ern breve, podera abandonar o cronometro, mas
eu facilmente atingia os cinco minutos. Meu treino por enquanto ele sera um bom companheiro. 23 Prepare-
concentrou-se em aumentar o tempo de permanencia nos se para suspirar, pois estas sio pergunras aleat6rias sobre
asanas de fors:a e aperfeis:oar a estetica da permanencia diferen~es tarefas de pesquisa:
nos asanas de flexibilidade. 21 Hoje tenho ritmos mais
equil4f.ados, mas minha preferencia pela flexibilidade me a) de quanto tempo preciso para ler uma pagina de
exige continuamente praticar a permanencia na fon;:a ou texto te6r:ico?
no equilibrio. E esse mesmo jogo entre autoconhecimento
e disciplinamento do corpo que voce tera que desenvolver
para avans;ar nas quatro tarefas basic~ da pesquisa. 22 Hoje, eu vivo sem cronömerro e sem tapere, mas näo abandono meu iPad e as

aulas virtuais.
Algumas serio suas preferidas, mas tera que trabalha-las 23 Algumas pesquisadoras contestarn o cronömetro e defendem planos de leirura

conjuntamente. Da mesma ~!lla me observei assando diaria ou semanal, tais como um livro por semana e dez artigos por mes. Os
sistemas säo parecidos, desde que se conhec;:a qua! o ritmo de leitura para cada
2' "A.sana" e o termo em sanscrito que representa__:H:ecaica-corpor:JJ d~ioga. tarefa. 0 cronömetro e a materializac;:äo do tempo. Emenda-o dessa forma.

48 49
C1rra de uma orienradora

b) de quanto tempo preciso par:a localizar uma font~- _


confiavel nas bases de bibliografia? ~ --

_ ~)_ de quanto tempo precisopa;; fazer o fichamento


de um tc;xto de 20 paginas? -

d) de quanto tempo preciso _para escrever uma


pagina?

e) de quanto tempo preciso para revisar uma pagina


escrita?

Para contar o ternpo, anote suas atividades em uma ENCONTRO COM 0 TEX-TO
segunda Moleskine. Seu diario de leitura nao precisa ter
hist6ria mitic:r para funcionar, pode ser uma caderneta
qualquer ou um peda<;:o de papel que nao desapares:a em
sua escrivaninha. Mas seja honesta com voce: anote as A leitura sera sua atividade mais basica de pesquisa.
interrup<;:öes, as distra<;:Öes, os telefonemas, os lanches, Ela tera de ser feita durante todo o periodo de elabora<;:äo
as idas ao banheiro. E nao ponha a culpa em seu cachorro. do projeto e de redas:ao da monografia. Ler e escolher,
As caminhadas com ele ajudam a pensar. Saiba exatamente - muito mais do que deixar se dominar pelo que cr~zar o
de quanto tempo precisara para enfrentar uma nova~­ seu caminho. Nao haveri um momento finalem que ~oce
leitura ou iniciar um novo capitulo da monografia. Mas poderi dizer "acabei a revisao da literatura", semelhante ao
antes de tudo saiba por quanto tempo consegue manter- marco zero da pesquisa que ja registrou em seu calendario.
se em regime de concentra<;:ao. Cada uma de n6s comes:a Esse anuncio e apenas uma pausa ficticia enquanto se
com um intervalo de tempo e, como qualquer pratica, descobre na escrita. Sim, voce tera de diminuir a· ritmo da
ele aumenta a cada dia. A ideia desse exerdcio e conhecer revisao da literatura para escrever, mas jamais abal!4o.Rara
as unidades de tempo necessarias para as atividades basicas a leitura, nem mesmo quando estiver prestes a me entregar
da pesquisa. Veja se essas säo boas pergunras para o seu o texto final para a derradeira revisao. A leitura nos mspira,
treino intelectual para uso do tempo ou se gostaria de ------permite desvendar segredos nos dados de campo, estimula
substitui-las. os dedos para a escrita. Nao sei se a medicina concorda
com o que sinto, mas acho que ha uma conexao neuronal
entre os olhos e as maos - quanto mais leio, mais meus
dedos fluem na escrita. T alvez para as escritoras cegas, essa
conexao seja entre~ ouvidos e os dedos. 24
24 J:i conheci autoras cegas que utilizavam programas de conversao de voz em texto.

A conexao deve ser entre voz e dedos. -

5o
C·ur,a de un1;1 orienr.-1dor~1 Debora Diniz

~
Na minha expenencia como leitora-ouvidora, tue ~er pega na c6pia inf2-_me. Minha impressao e que a leirora
surpreendo como essa relas:ao entre olhos e dedos, ou burocrara nio experinienta a delicia das mios tremendo
entre ouvidos e dedos, se repete entre as pesquisadoras. para a cria<;äo. Eu a imagino repleta de fichas, notas,
A repetis:ao me inspirou a descreve-las por -est!los. Eu nunca ---=- arguivos, tudo milimetricamente organizado e separado
acompanhei minhas-ori~ntandas lendo, mas p~lo texto que e!:lJ. sua escrivaninha enquanto escreve a n1onografia. Nada
me apresentaram fui capaz de imaginar que leitoras seriam. _ha de errado em ser organizada,_ eu admiro pesquisadoras
Sem querer com.eter a imprudencia da classificas:ao, ate ll'!Uito organizadas, e me esfors:o para ser uma delas. Mas a
n1esm.o porque todas n6s somos {micas nessa descoberta organiza<;io e um meio para a cria<;ao e nio um firn em si
de livros e escrituras, desenhei quarro estilos de leitora: mesmo. Q merito da leitora burocrata e ser excessivamente
a burocrata, a atriz, a desnorteada e a criadora. Claro que responsavel e alguem com acumulo suficiente de
ha variantes desses estilos; este e s6 um exerdcio bem- conhecimento para algum dia romper o medo e vir a
humorado para -OFg-a-flka.J: minhas ideias sobre leituras e possuir uma voz. Ern geral, a joverü-pesquisadora burocrara
leitoras. Antes de apresend.-las, assumo minha preferencia- nao me traz dissabores - eu e que~e mantenho _a espera de
sej~ uma leitora criadora. Meu esfors:o sera por descrever OS um surto criativo.
_simulacros da criadora par~ inibir-lhe qualquer aproximas:äo
A leitora atriz e 0 COntrario da bur-ocr-ata. Todas as
com esses outras espectros d~ leitora. Antecipo que nio
professeras ja riveram alguma aluna assim: ela näo le, mas
sou neurra na descrj.s:äo que- fas:o dos estilos de leitura e
insrantes antes de a aula iniciar passa os olhos no texro
lembro que jamais etnografei minhas ariemandas lendo.
ou assunta o tema com suas colegas burocratas. Isso e o
0 que agora lhe escrevo baseia-se em "fontes secundarias"
suficienre para assumir um ar compenetrado e rebuscado
de pesquisa, particu-Iarrnente os rextos que das produziram
na linguagem, e acreditar partidpar ativamente da aula.
no periodo de orienta<;ao. 25 Ern termos merodol6gicos,
Ela e uma fingidora de leitora. A leirora arriz nunca me
considere minhas fontes como pouco confiaveis para o que
convence, e sinto por da uma piedade muiro maior que em
passo a escrever.
rdas:äo a burocrata. A burocrara me inspira a provod-la, ao
A leitora burocrata e aquela capaz de cumprir com passo que a arriz me afasra da escuta ativa. Acredito que a
as regras formais da-=IJesquisa e, por isso, realiza uma bela Ieirara arriz seja uma pregui<;osa por habiro que cre enganar
revisäo da literatura. Le incansavelmente, repete com a audiencia. Minha duvida e se da se reconhece em algum
precisäo o que muitrs autoras disseram. Mas dificilmente momento fora do papel de iarelecrnal que representa. Ern
i :.
!

cria, p~Tisso tenho dificuldade em identificar sua voz no geral, o momento da banca da monografia de graduas:äo
rexto que me apresenta. Sinto que as vozes das autoras que e um choque de realidade para ela - 0 fingimento näo
I. a inspiram emudecem sua porencia criadora. Seu regime a salvara da arguis:äo oral. 26 Ao contrario da Ieitara
I
de escritura e tambem burocratico - uma costura de burocrata, que e uma cumpridora das regras, a leitora atriz
dta<;öes. Näo e uma plagiadora, lange disso. Seu espirito
cumpridor das regras a afasra do risco do plagio; da reme 26
Imagino que seu curso tenha o rito da argui~o oral com defesa ao fina.l-,da
monografia. Se nao o river, sugiro que inicie uma discussao para sua implemenrayao,-
- 25 Fonres secund:irias sao aquelas nao direramente coletadas pela pesquisadora. pois e um momento rico de formayäo para a oralidade academica.

52 53
Carca de uma oriencador.1 Debora Diniz

ea que mais rapidarn.ente sucumbe ao planejamento, ao antigo. Ela nao acredita em teses prontas, duvida de quem
ritmo permanente e profundo das leituras, as exigencias lhe diz que as teorias serao capazes de respander a todas as
de cria<;:ao com consistencia. Ern geral, e a leitora atriz quem suas inquieta(_(Öesa A leitora criativa aprende rapidamente a :.
fracassa na pesquisa academica seria, apesar de ser uma respeitaLseu grilo do tremor ~ ~uvida tambem de si mesma~ =
sobrevivente durante o curso de graduacrao e ate mesmo E caut~lC?s_a no que le, e seleti~a em suas autoras, e tem
fazer sucesso em audiencias superficiais. calma para avan<;:ar. Nao se intimida com suas colegas que
procuram impressionar pelo obscurantismo do texto ou -
A leitora desnorteada provoca compaixao em sua pela arrogancia de autoras e conceitos enquanto discursam.
orientadora, apesar de algumas vezes desafiar a paciencia. Ela me ouve com respeito, mas tambem com cautela. Nao
Estou sendo honesta com voce. Eu descubro as leitoras sau uma mentora, so uma leitora-ouvidora atenta. Serei so
desnorteadas na primeira conversa sobre sua revisao da m:ais uma opiniao entre varias outras.
literatura- ela nao consegue diferenciar a tese central de um
artigo, perde:-se em detalhes perlfericos de um argumento Corno ve, nao tenho limites para elogiar a leitora
e sofre por essa perdi<;:ao. Ela anda repleta de livros e' faz criativa. Eu näo tenho uma formuleta, como a que
ques-tao de me mostrar OS praZOS-Qa biblioteca, as ultimas apresentei para enunciar o problema- de pesquisa, para
aquisi<;:öes, os textos que arquivou em seu programa_de - ensina-la a ser uma leitora criativa e afugentar os espectros
bibliografia. 27 0 principal desafio da leitora desnorteada- e das outras leito_r~s. Todas nos ja famos burocratas Oll
encontrar rumos, por isso e a que mais demanda aten<;:ao desnorteadas na leitura, em especial quando iniciamos
de sua orientadora. Ha aqui uma diferen<;:a importante ~ ~nvestiga<;:ao sobre um novo tema. Mas muitas de nos
entre desnorteamento e inocencia, esse__:llltimo um estado coriseguimos evitar o espectro da leitora atriz. Ela e uma
natural de uma jovem pesquisadora diante do universo da fantasia alimentada pela arrogancia academica que ignora o
enciclopedia que a ronda. A leitora desnorteada nao sabe que ha de mais sublime na intelectualidade - o verdadeiro
por onde seguir e, algumas vezes, mesmo apos boas listas prazer de ler e descobrir seu proprio texto nas vozes de
de leitura oferecidas pela orientadora, ela nao e capaz de outras autoras. Par isso, eu lhe pe<;:o: nunca se camporte
encontrar o rumo para ter uma voz. Mas eu sempre acredito como uma leitora atriz comigo. Eu me comprometo a ter
que o norte pode ser encontrado na vidaaeademica. paciencla com seus surtos burocratas ou desnorteados,
e~cial se eles forem se tornando raros a medida que
Certarnente ha outras tipos de leitoras, mas a leitora avan<;:armos na pesquisa. N ao ha um ciclo evolutivo entre
criativa e a que mais me encanta. Ela tem em si o espirito os estilos de leitoras. Algumas ja iniciam a vida academica
ironista da duvida, mas e tambem capaz de ouvir e repetir como leitoras criativas e, rapidamente, explodem como
com honestidade e paciencia. Ela cultiva a sabedoria, sem autoras. Seja paciente com voce mesma, mas nao esque<;:a
pressa pelo acumulo arquivista que assola algumas lettoras que a leitura e o que fari seus dedos tremerem no teclado e
burocratas. A leitüra criativa e capaz de combinar um seu espirito se inquietar para a criacrao.
senso ~__g~<;:ado para o novo com um respeito suspeito pelo

2
7 Adian~ fal~r~i-dos.p.r;.ogramas _5ie ~ibliografia.

54 55
F'''',.
'

C1rr;1 dc Luna orie11radora

Sa~~ por que falei da leitura em uma carra sobre poHcias de fronteira do conhecimento que supöem haver
orienta<_;:aet-Porque tenho uma suspeita que queria dividir credenciais para a autoridade,--As boas autoras podem estar
com voce. A leirura e um habito associaL Ela ira desafia- na filosofia ou na literatura.
la a ter prazer sozinha, em silencio, afastada do convivio
de outras pessoas. Voce sentiri que essa e uma experiencia
impossivel de ser CQlnparrilhada com outras humanos.
Habitos de leitura
Os cachorros ·sao bons parceiros nessa jornada. Eu batizei
minha cadeira de leitura de "poltrona da disc6rdia", pois
Ler nao e um ato mecamco resultado de uma boa
basta me senrar para meus dois cachorros disputarem espa<_;:o
alfabetiza<_;:ao. E um exerdcio solid.rio de prazer. Ha autoras
para se aninharem. Algumas vezes, um livro e o sinal para
mais faceis, outras mais dificeis. 0 estaruto de dificuldade
que eles se amecipem -a mim em dire<_;:ao a poltrona. Somas
de um texto nao e absoluto, mas um julgamento situado em
tres no silencio da leitüra dividindo o espa<_;:o de uma s6
um determinado J:l!.Omento de nossa trajet6ria academica.
leitora. Para mim, ler e ter prazer na solidao, acalentada
Par isso, e sempre ,uma avalia<_;:ao singular feita por uma
pela companhia de dois velhos caes.- -
leitora individualmente ern-_ um determinado momemo.
Voce tera de ler muito e intensamente para conseguir Mas algumas autoras säQ eorihecidas pelo estilo he~;:metico
construir um texto com voz de autora. Roland Barthes disse e ate mesmo rude de~scrita. A primeira vez que li Harrnah
que ha niveis de leitura- a leitura na extensao e a leitura que Arendt duvidei de minha capacidade de compreensao.
provoca deslocamento~. 28 Prefira sempre essa ultima. Os Recorri a manuais, dieionarios especializados, a autoras
desloca~entos nos inquietam, afugentam nossas certezas expe!"ientes que me ajudaram a entend~r· _o que eu deveria
temporirias, mas_nos movem rumo ao desconhecido de buscar nas leiruras. 29 Ja fui uma leitora voraz de Arendt e
onde nasceri a cria<_;:ao genuina. E do deslocamemo que nao m"ais preciso de auxilio para compreende-la. Ha outras
nascera sua voz de autora. E somente a leitora criativa autoras que mesmo OS anos de solidao intelectual nao foram
experimentari deslocamentos com as palavras de outras suficientes para uma aproxima<_;:ao imelectual tao pacifizada.
autoras. Voce nao sera a mesma depois que conhecer Para elas, dei o meu veredito do abandono: nao me interessa
uma autora forte. Os deslocamentos serao sentidos em conhece-las. Ao menos agora. Essa e uma liberdade de
seu texto, por isso poderei identifici-la de acordo com esc~ha que em br=eve voce conquistari, -a<::redite. Par
seu estilo de leitura~l<';itura de uma autora forte e o que enquanto, evite o veredito do abandono, pmR natural que
nos desloca para sempre, seja no pensamento ou no texto. algumas autoras lhe pare<_;:aln densas e impenetriveis como
Eu me lembro da primeira vez que li Judith Butler, um
deslocamento definitive na forma como penso o corpo e 29Ha quem sustente que a leitura de uma autora forte exige imersäo absoluta,
a vida. Ou quando descobri Mia Couto e Kenzaburo Oe näo devendo ser mediada pör obras secundirias. Minha opiniäo e a mesma: as
autoras fortes merecem essa experiencia de solidäo, mas algumas vezes a barreira
na literatura. Busque as autoras fortes, e nao acredite nas
da compreensäo e täo intensa que obras criticas e comentaristas facilitam a
aproximayäo. A verdade e que näo hi substitutos para o encantamento provocado
28
Barthes, Rol_:md. Leron inaugurale de Ia chaire de simiologie l:;ir~ire du College de por uma autora forte em n6s. No entanto, precisamos de treino intelectual para
France. Paris: Editions du Seuil, 1978. -_ aprecii-las.
-
56 57
C1rca de uma orienmdora Debora Diniz

Immanuel Kam. Insista, näo abandone aind=a as leimras no -_ registros mnemönicos a Iapis ao lado do texto ou em minha
meio do caminho. terceira Moleskine, reservada para a pesquisa. A Moleskirre
para notas de leitura e larga e sem pautas, pois me permite
Precisei _de bons habiros de leirura para ~uperar meus registrar ideias, pensamenros, diagramas. Tenho diferentes
desafios. Voce 4eve fazer o mesmo. Vim de uma geras:äo em cade-'c:netas, como ja viu: uma para leitura, outra para
que as pessoas seguravam o livro em uma_ .rrräo e na outra novas ideias, outra para usar como diario de campo, uma
mantinham um cigarro aceso. Os tempos mudaram, por minuscula para rompantes de ideias no aviäo, e por ai vai.
isso minhas dicas säo rodas livres de vicio. 30 Descre:ra para
si mesma como säo seus habiros de leitura: onde le? Qt~.anto ) amais facro o resumo de um texro antes de ter
tempo consegue ler sem pausas? Precisa de silencio para a dele uma avalias:ao global. Nem todas as leituras valem
leitura? Anota enquanto le? Que tipo de anotacräo realiza: o fic~amenro. Quando resolvo faze-lo, ja o facr<;> em
visual ou registro literal de trechos da obra? 0 primeiro um.j>rograma de bibliografia para que seja um r~istro
passo para melhorar seus habitos de leirura e conhece-los. permanente. 32 Ha_ vftrios prograhlas de acesso livre que
Sim, eu adoro provocar a consciencia sobre nossos habiros, podem ser utilizados PO!" voce. Meu conselho e que_ nao
acho que ja percebeu isso. A verdade e que a leitura e uma inicie seu projeto de pesquisa sem se vincular a um desses
-dessas experiencias que vivemos diariamente, mas sobre as programas de bibliografia. Facra uma busca na interner e
- quais pouco refletimos. Se puder, anote seus habiros. Trace descobriri dezenas deles. Eles sao intuitivos e rapidamente
uma avaliacräo sobre suas priticas cotidianas de leitura. voce aprendera a utiliza-los. E nele que devem ficar seus
textos integrais e suas notas sobre a leitura, quando forem
Eu descobri que preciso ler textos academicos com pertinentes. A vantagem e que podera dividir comigo e
um marca-texto amarelo na mäo. A cor amarela provoca -Cbm suas colegas de pesquisa a revisäo da literatura. Iremos
minha atencräo. No passado ja foi um lapis de cor vermelho. trocar nossas bibliotecas virtuais em um programa de
Essa Certarnente e uma avalias:ao estetica, mas que tem bibliografia.
razöes psiquicas para mim. 0 amarelo foi uma escolha
afetiva e estetica que pode mudar em breve, e s6 serve
para os livros. Para os artigos que leio em meu tablet, uso
Mapa de autoras
todas as cores disponiveis como marca-texto, mas ainda
prefiro o amareloY Nao fas:o notas enquanto leio, apenas -~--~--

A revisao da literatura abre um universo quase infinito


30
Para ser honesta, tenho um vicio inocente. Sempre renho um jarungjit a mao
de autoras. A busca e exponencial. Ao levantar uma fonte,
enquanro leio. Trata-se de uma mistura de ervas tailandesa que refresca a respirac;:ao. a analise de referencias cruzadas permite a recuperas:ao de
31
Um instrumeneo importante para a pesquisa bibliogr:Hica e a leitura de artigos
de peri6dicos cientificos e um tablet com Ieitor para textos em pdf. Facilita o 32Um programa de bibliografia e um gerenciador de rextos, informac;:öes e registros
armazenamento e e ecologicamente sensivel. Umberto Eco, em parceria com Jean- bibliogd.ficos. Se voce der uma olhada na biblioteca virtual Scielo, vera que ha
Claude Carriere, escreveu um livro para reafirmar a importancia do livro e sua um icone sobre importac;::io da referencia para um programa de bibliografia. 0
perenidade na era digital (Eco, Umberto; Carriere, Jean-Claude. Nao contem com texto migrara para o seu programa deo1bliografia, sed arquivado, e as referencias
o firn do livro. Sao Paulo: Record, 2010). Ern entrevisra mais recente, no entanto, bibliograficas serao importadas. Voce nao digitara os dados, o que diminui
apresentou-se maravilhado com o poder dos talilets para a pesquisa academica.__ consideravelmente os riscos de erro n:l formatac;:aö dä bibliögEafia.

58 59
C.""'arra dc U1n~1 orienc.1dord
Debor.1 Diniz

dezenas de outras auroras. Cruzar as referencias e ir ao final Nao ire1 reproduzir o modela ~e John Creswell aqui
do texto e ver quetn sua fonte citou para escrever o artigo. para evitar a c6pia banal de uma ideia.täo geniaL 56 queria
Voce agora ira buscar as mesmas fontes, refazer o percurso que soubesse gue, alem de considerar essa uma boa tecnica
da autora e descobrir por voce mesma novas iqeja_s. para a orga:niz~s;äo da revisäo da literatura, eu sofro por
Lembre-se de que a busca de fon~es deve ser precisa, por näo ter sido a_sua criadora. Tente aprimorar essa ideia de
isso suas palavras-chave sao tao imp~rtantes para guia-la n~ mapa visual_ as- suas necessidades. Sempre que -inicio uma
pesqu~sa. A medida que levamar os textos, monte um mapa nova pesqui~a,_passo horas revisando o- mapa visual a cada
de autoras a partir das palavras-chave. 33 Continuamente nova leitura. Sim, ele lhe consumiri um bom tempo, pois
tera que ampliar, revisar, reduzir, rever o escopo de seu a agenda de leitura e dererminada por ele. Ele lhe mostrari
projeto, guiada pelo seu problema de pesquisa. o que ja recuperou e o que planeja ler. De minha parte,
poderei ajuda-la a rever suas prioridades de leitü:a e temas
0 mapa de autoras e _um~r_epresentas;ao visual do com maior facilidade. Ao resumir suas buscas bibliogrificas
Universo das fontes com que VOCe ira dialogar em seu e escolhas de leituras no mapa visual, afugentaremos dois
texto. ,_.Nao e facil elabori-lo, pois ele nos obriga a um espectros de leitoras - a atriz e a desorientada. -
duplo movimel?:to: de precisäo do tema e do problema de
pesqui~a, he~ como de reconhecimento . de quais fontes
importa-m para a pesquisa. Ha uma relas;ao de dependencia
entre as palavras-chave e as autoras que irao explorar as
questöes de cada bras;o d~ pesquisa. Para ter uma ideia de
como desenha-lo, sugiro a -leitura do manual de metodologia
de John Creswell, que diz ter sido o criador dessa tecnica
visual de registro da literatura. Em anexo a esta carta ha o
exemplo de um mapa visual realizado por uma orientanda
com quem trabalhei. Inspirada em Creswell, ela organizou
seu pr6prio mapa e me autorizGu a reproduzi-lo nesta
carta. 0 tema de pesquisa era o_enquadramento do crack
na midia impressa nacional. F@- queria entender como a
midia impressa apresentava o cra.ck, se como uma questä.o
de saude publica ou---Ge segurans;a publica. Considero um
dos melhores mapa:s=visuais que ja revisei.

33Um mapa visual de autoras e um organograma que voce preencheri com os ·,


temas e com as autoras que lera para compor seu marco conceitual e/ou te6rico
do projeto. E um registro visual das ideias que ira compondo para desenhar seu
projeto.

60 61
ENCONTRO COM A ESCRITA

Nao vale sofrer para escrever. A verdade e essa: nao


vale. Entenda-me em um duplo sentido: por um lado,
porque a angustia nao seri criativa; por outro, porque
esse deve ser nosso acordo afetivo. Nao acredite ~ quem
diz que a escrita e sempre sofrida - essa me par~ce ser
uma narrativa heroica sobre as conquistas ou desafios.
A escrita pode ser uma experiencia fascinante de descoberta
e superas:ao. E um momento em que nos descobrünos em
um novo papel - o de autora. Aprendemos com nossas
proprias palavras: ao escrever, produzimos nov~bores.
Os dedos no tedado sao criativos: e o momemo em que
os deslocamentos causadas pela leitura das autoras fortes
provocam a escritura. E veja quem e voce agora: uma
aprendiz de autora, iniciando a carreira academica. Assuma
esse momento de sua trajet6ria como de experimenta<;:ao,
por isso nao suspire pela sombra das autoras fortes que
admira. Relaxe seus dedos, --respeite o grilo do tremor e
siga em frente._ Mas, antes, leia muito e intensamente.
Experimente os deslocamentos, nao se refugie nas certezas.
c:ura de l/111~1 oriencadora
Dehora Diniz

Näo esques:a que s6 a leitora criativa e capaz de escrever tem competidoms_- voce se basta, näo ha ninguem ao seu
cotn tremor nos dedos. lado mais veloz- Ö~- na sombra de sua chegada. 0 ritmo
e dado por voce mesma. Nossos limites säo o calendario
Nenhuma autora, nem mes~q as 1nais experientes, academico, 0 qual voce conhece antecipadamente e cujo
finaliza um te~to e o envia para public;yäo. Näo se conhece ritmo diario foi estabelecido_ por voce. Mas acredito que
o sabor do päo ~~m ele ainda no forno: E preciso deixa-lo haja um outro lado desse relato de angustia. Samos mal
esfriar para provar a primeira fatia. Da mesma maneira, as treinadas para a cririca. 0 sucesso e medido pela ausencia
autoras testam o sentido das argumentos, a clareza do texto de ~orres:öes ou coment:irios. _Esperarnos aplausos, mesmo
ou a fors:a da crias:ao com sua comunidade de leitoras. Näo em uma fase ainda muito inicial da descoberta, em que,
pense que essa seja uma cmnunidade iniciatica e secreta como autoras, somos mais leitoras burocratas que criativas.
da qual somente as autoras fortes participam. E algo bem
mais prosaico~ Vo_ct certamente tem um grupo de colegas Veja como isso e falso_e, se me permite a franqueza,
de curso em quem confia e que, como voce, experimentam Uffi pouco tolo: quanto mais Crlticas e _C<:Hre<_;:Öes voce
a angustia de se descobrir como autoras. Forrpe um grupo receber nas rodadas de leit;ura, seja de mim o~ de sua
de leitoras com elas. N6s duas teremos um cronograma de comunidade de leitoras, melhor. Seu texto saira mais
etapas e revisöes que cUJ;nprirei para cada momento de sua seguro e pronto para novas leitoras. Se sua angustia tiver
escrita. Mas näo confie s6 em mim, tenha outras filtros origem nessa dificuldade de receber criticas, prepare-se: e o
antes e depoi~ de minha leitura. 0 mais importante e ter que mais ouvira de mim. E, mesmo que näo gaste da ideia,
esses filtros antes da minha leitura. Seu texto chegar:i mais voce est:i sob avalias:äo. Ao final desses dois semestres, voce
.,'·''
denso para minha aprecias:ao. E como se a primeira prova e eu seremos av2.liadas por uma banca externa que dar:i o
do päo avaliasse se o fermento funcionou ou näo. 0 päo veredicto sobre o seu texro. A banca e independente e n6s
pode ser refeito ou retornar ao forno antes mesmo que eu o näo temos como influencia-la. Certarnente convidaremos
prove. Eu chamo esses movimentos de leitura e revisäo de leitoras sensiveis ao seu tema e, näo suspire, algumas
rodadas de leitura. delas talvez conhes:am o tema ainda mais do que n6s, o
que sera fasciname. :E um privilegio ter leitoras preparadas
Ha que_m descreva as rodadas de leitura como e capacitadas se debrus:ando sobre nossos textos recem-
experienci~gustiantes. Eu tento entender essa reas:ao. saidos do forno da crias:ao._Elas faräo leimras originais e
Par um lado~äo exerdcios de superas:ao e aprendizagem. provocativas de seu texto, mcrsc-näo ha garantias sobre qual
H4-algo a ser alcans:ado, mas ainda näo se sabe bem o sera 0 veredicto sobre 0 sabor.
qrre- e, nem como atingi-lo. E natural que isso provoque
ansiedade, assim como deve acontecer em provas de
competis:äo nos esportes. Tente imaginar os sentimentos Plagio
de uma nadadora cujos anos de treinos säo medidos pelos
segundos finais da competi<;äo. A diferens:a para a atleta Tenha pamco do plagio. Leve-o a seno__ como
e que, neste momento de sua vida academica, voce näo uma ameas:a irrefletida. E, quanto mais jovem nä- vida
academica, ma10res os riscos do plagio inadvert-ido.
64 65
Carca de uma oriencadora Debora Diniz

0 que e 0 plagio? Uma copta Oll um pastiche do texto nunca passau pelas mäos de boas leitoras. Bastam poucas
de autoras que admiramos. A c6pia literal e resultado de boas leitoras para o pligio ser descoberro. Eu sau uma boa
um procedimento simples no teclado: recortar e colar. leitora, e sua banca seri composta de boas leiroras. Busque
Uma maquina e capaz de perseguir esse tipo de plagio a hist6ria do ex-minisrro alemäq_ q~e perdeu o cargo porque
preguic;oso. 0 pastiche e uma reconstruc;äo vulgar do foi descober.t'? plagio em sua tese de doutorado. 36 Alem da
texto original em simulacros que s6 enganam a maquina. vergonha, ele foi destituido do carg~ de minisrro de Estado.
Para entender o pastiche no texro, minha recomendac;äo Ha dezenas de hist6rias rragicas como essas. Lembre-se
e que o visualize na arte. Interraropa a leitura desta carta e de que sua monografia talvez seja o seu primeiro produro
busque duas obras na interner: a Monalisa de Leonardo da irrteleemal publico. Näo importa seu fururo profissional,
Vinci e a Monalisa de Jean-Michel Basquiat. A segunda e o que voce fizer agora seri sempre parte de sua trajet6ria.
um pastiche da primeira. Diferen~e da arte, o pastiche na Orgulhe-se dessa sua primeira criac;äo.
escrita ciendfica e uma fraude acidemica. 34 Sua primeira
_lejrura depois -desta carta sera um texto que escrevi cÖm Quando me formei em ctencias sona1s, na
Ana Terra Mejia Munhoz sobre plagio, no qual propusem'os Universidade de Brasilia, escolhi como tema de pesquisa a
o conceito de pligio-pastiche para diferencia-lo do pligio- migrac;ao japonesa para o Distrito FederaC Eu era fascinada
c6pia.35 Leia-o antes de nosso primeiro encontro. Estude-o pela cultura japonesa, ate acho que estudava a lingua
texto, conversaremos juntas sobre ele. Quero conhecer suas japonesa mais do _que a antropologia, e meu sonho era
duvidas sobre a escrita e a etica na comunicac;äo ciendfica. vaguear p-elo Japäo e ler mangas da Sazae-san no original.
Esc_revi uma monografia sobre os migrantes de colönias
Voce jamais copiari a criac;äo int~lectual de outra agr1c6las-do Distrito Federal, o que me rendeu a primeira
autora - essa e uma regra inviolavel entre n6s. Ern nenhum publicac;ao em peri6dico ciendfico, um ano depois
momento irei perseguir suas palavras, sempre as assumirei da defesa. Grande parte das migrantes que conheci ja
como suas. Mas incorpore a delicia da criac;äo - näo se morreram, eram ja idosos rra epoca da pesquisa de campo.
afugente com a sabedoria de quem veio antes de voce. Hoje, leio o artigo e sei que e um texro de uma pesquisadora
Minha experiencia como orienradora me mostrau que as inicianre, mas me orgulho dele - fiz uma pesquisa seria,
jovens pesquisadoras näo plagiam por rltisonestidade, m~s ouvi hist6_r_ias, aprendi com os trabalhadores rurais, escrevi
por inocencia, descuido Oll pressa. Evit:e qualquer uma um text<EUriginal. Ele e parte de minha hist6ria. Faz mais
dessas motivac;öes näo intencionais do pligio. A c6pia de vinte anos que o escrevi.
näo aurorizada seri sempre descoberta, se näo \hoje, no
futuro; se näo por uma boa leitora, por uma maquina de Mas eu poderia ter errado. A angustia ou a inocencia
cac;a-plagios. Se nao for descoberta, e porque seu texro poderiam ter me feito plagiar alguem. Eu poderia nao ter
dado atenc;äo ao meu grilo do tremor, talvez por nunca
34 0 pastiche na literatura pode ser uma forma original de par6dia.
36
35 Diniz, Debora; Munhoz, Ana Terra Mejia.. C6pia e pastiche: phigio na Universidade cassa titulo de doutor de ministro alemäo por plagio. Folha de S.
comuni~ eiendfica. Argumentum, ano 3, n. 3, v. 1, p. 11-28, jan./jun. 2011. Paulo, 24 fev. 2011. Disponivel em: <http://wwwl.folha.uol.eom.br/dw/880360-
0 ·arrigo esra disponivd em formatö eletrönico no endew;:o: http://periodicos. universidade-cassa-titulo-de-doutor-de-ministro-alemao-por-plagio.shtml>.
ufes.br/argumen!_um/artide/view/143!). Acesso em: 4 jul. 2011.

67
w
'·.;

Carca de un1a orienradora Dcbora Diniz

ter siclo _apresentada a ele. E o que eu faria agora? Um pedido o apud como um interdi~o. Se eu localizar algum em seu
de desc-u-lpas sobre algo que escrevi ao final de minha texto, ter:i uma orientadora em sofrimento.
graduac;:äo? Sera que a comunidade cientifica aceitaria
A verdade e que, por raz6es muito divc:_rsas, o medo do
a justificativa de que eu era uma jovem pesquisadora
plagio vem crescendo, o que aumenta a vi~ilancia as origens
aos vinte anos? Minha hip6tese e que näo. Eu sofreria as
do texto. 38 E isso näo apenas entre as escritoias academicas.
sanc;:6es reservada~ a alguem que plagia. Elas säo terriveis
Ha dois carnpos onde a noc;:äo de plagio se confundia com
e implaciveis, e em geral resultam no ostracismo e na
a de apropriac;:äo criativa: a culinaria e a literatura ficcional.
aparrac;:äo da vida ~cademica. Näo importa se por um erro
Recentemente, uma cozinheira portuguesa foi processada
de hoje ou do passado, ao plagiar, viola-se um interdito.
por ter publicado em seu blog receitas proposras por
A comunidade cientifica perderi a confianc;:a na sua voz
outras cozinheiras. Ern sua defesa, a cozinheira acusada de
de autora. Por iss~,_ näo erre nem se arrisque. Va ate onde
plagio tentou dizer que fez acrescimos minimos as receitas
conseguir com seu~ pr6prios passos, explore os seus limites
originais, o que resultaria em novos sabores nos pratos. 39
e desejos, mas näo corra riscos impruäentes. E näo confie
A justificativa näo convenceu, e a cozinheira portuguesa
em sua mem6ria:-sempre cheque suas citac;:6es e parafrases.
foi demitida. Ja na literatura, em particular nas narrativas
hist6ricas em que as -es~ritoras se baseiam em pesquisas
Ha um recurso de dtac;:äo que tanto denuncia as
para corretamer;te localizar suas personagens, vestu~rios ou
leitoras fracas quanto acende o meu sinal para o plagio: o
linguagens, as acusac;:6es de plagio passatam a tumultuar
apud. 37 Formalmente, o apud e um registro em latim que
significa "citado por", ou, em termos informais, "eu näo li o mercado editorial protegido P?~ direitos autorais e
o que-----Gito, mas cito mesmo assim". Ha quem o descreva propriedades intelectuais. Um bgm siP.al de mudanc;:a
como "citac;:äo- indireta". 0 apud e um resquicio de um de mentalidades e a mais recente obra de Philip Roth,
tempo da comunicac;:äo cientifica em que 0 acesso as fontes
Nemesis. 40 A pagina de abertura do romance e um registro
das fontes utilizadas para os eventos hist6ricos narrados,
nao era tao amplo quanto hoje: as bibliotecas nao eram
informatizadas e os livros em outro idioma eram raros cujo plano de fundo foi uma epidemia de p6lio_ nos anos
entre n6s. 0 apud permitia que uma escritora alcanc;:asse
1940 nos Estados Unidos.
obras que nao tinha como ler, mas, como desejava ser --=-
honesta em suas fontes, registrava quem a havia conduzido
aos novos territorit5s--textuais. De um sinal de honestidade - JB Na busca pelas fonres de inspira<;äo das auroras e que algumas vezes se esbarra
e transparencia do passado, o apud hoje deve ser para voce nos plagios ou simplesmenre-se rra<;am as--get'leal~gias cri,a~ivas~ 0 _conro_ "~unes, ~
memorioso" narra a saga de um personagern cup memona nao nnha hmJtes. Ha
um icone da preguic;:a intelectual. Por isso, de uma maneira uma especula.;:äo entre os especialistas em Jorge Luis Borges s~ Funes näo teria si_do
bem mais informal, descrevo-o como 0 acronimo de um paciente descrito pelo neurologisra russo Alexander Luna, na obra 7he mmd
ofthe mnemonist. · .
"a preguic;:a, uma desgrac;:a: a-p-u-d". Nao esquec;:a:_ trate 39 Anne Fadiman ironiza a pirada de oregano na p!Zza como sendo um ato de

criac;:äo so nos livros de receita (Fadiman, Anne. Nada de novo sob o sol. In:
_ _ _ . Ex-Libris: confissöes de uma Ieitara comum. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
37 0 apud e tambem um sinal de fraqueza qu indolencialbiniz, Debora; Munhoz,
2002. p. 107-114).
Ana Terra Mejia. Copia e pastiche: plagio na comunicac;:äo cientlfica. Argumen~um,
4oRoth, Philip. Nemesis. Säo ~aulo: Cia. das Letras, 2011.
ano 3, n. 3, v. 1, p. 11-28, jan./jun. 2011). - - -
69-
68
Debora Diniz

0 plagio sed. uma infra<;:io etica sua. Eu näo serei Se a resposta for "para me formar, pois a monografia de
corresponsavel por ela, tampouco terei como protege-la -~ --g"I"adua<;:ao e uma exigencia formal do nuso", dou um
das implica<;:öes, do estigma ou do ostracismo. Se o pligio conselho: jamais permita que eu conhe<;:a essa sua resposta
for descoberto pela banca de julgamento da ffiQ115grafia e pense seriamente em mudar de orientadora, pois, se eu
de gradua<;:io, voce- ser:i reprovada. Ha quem s~s_teme perceber que essa e sua motiva<;:ao, teri uma orientadora
·que 0 plagio /:_ uma viöla<;:ao que justificaria ate mes_mo a em sofrimento. Aproveite o periodo de matdcula e troque
expuls:io da aluna da universidade. 41 Acredito que; depois de orient;dora. Mas me mantenha na inocencia de suas
de ler esta carta, voce estara muito mais atenta ao risco do razöes. Seja generosa comigo e alegue que deseja pesquisar
pl:igio inadvertido e, portanto, mais preparada para evita- outro tem<r, um bem distante de minha area de pesquisa.
lo. Par isso, entenda minha honesridade como uma suplica Ficarei honestamente convencida de suas razöes e juntas
para que afugente a c6pia fraudulenta de seu texto. Se for falaremos <:om a coordenadora de gradua<;:äo.
identificado plagio em seu texto, eu a deixarei sozinha.
l\1eu sentimento por voce sera um misto de compaixäo e Eu nao espero beleza de seu texto, mas precisao.
reprova<;:io, mas n:io me sentirei corresponsavel. Näo me argument;_ativa. E näo e porque eu duvide de sua voz de
pe<;:a socorro, pois eu näo estarei ao seu lado. Sua primeira autora. A estetica facilita a corriunica<;:ao, as leitoras gastarn -
pe<;:ä de- cria<;:äo nao seri exibida publicamente e voce tera de reconhecer o est:Ho-das autoras fortes, mas, diferente da
vergonha de te-la produzido.
poesia, podemos ser autoras ordinarias e, ainda assim, serias
pesquisadoras. Näo sou ousada como Rainer Maria Rilke,
que, em cartas a um jovem poeta que o consultava sobre
Escrita academica __a qualidade de seus escritos, sentenciou: "Investigue o
motiv-a que o impele a escrever; comprove se ele estende as
A escrita academica tem suas regras - algumas raizes ate o ponto mais profundo do seu cora<;:äo, confesse
esteticas, outras de conduta. Assim como na costura a si mesmo se o senhor morreria caso fasse proibido de
ou na cozinha, nem todas as texturas ou ingredientes escrever".42 Ha muitas outras coisas que me-· matariam
-combinam entre si. Ha sempre espa<;:o para a cria<;:ao, antes de ser proibida de escrever. Ser proibida de ler, talvez.
-.::= mas ele depende do reconhecimento inicial das regras Tenho livros ao redor da cama, na mala do aviao, para a fila
~ basicas de corte de um tecido ou da quimica culinaria. de espera da dentista ou na bolsa de passeio dos cachorros.
0 interdito do plagio e uma regra etica de conduta. Ja E, -sem~u abale sua admira<;:ao e respeito por mim, na
falamos dele e voce ainda me ouvira muito sobre esse minha lista de prioridades vitais, talvez vaguear seja mais
tema. A clareza da escrita e claquelas normas na fronteira importante que escrever. Mas, mesmo näo sendo a principal
da estetica e da moral academica. Para entender o que razao de minha existencia, escrever e uma potencia criativa
digo, primeiro me responda: por que voce escreve? emmim.
41
Sugiro que voce leia o regimento geral de sua universidade no capftulo sobre
expulsäo e outras penas. 0 tema do plagio esta previsto em alguns desses
documentos. 42
Rilke, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Por~ Alegre: L&PM, 2011. p. 25.
70 71
C;Jrca de l/Jllil orienr.ador~1
Debora Diniz

A verdade e que, sem as raizes de Rilke, eu tambem bula de enteqditnento para o que ~~crevemos. Nossos textos
acredito que a modvacrao para a escrita e de uma ordem seräo Iidos por leitoras reais e aqui:tas ainda por vir, por
existencial. Ela e Intima e politica. Escrevemos para existir quem pensa eomo n6s, por pessoas que estäo do outro lado
em nossas ideias, para habita-las, para possui-las e, cOf!l_ da mesa oo ckJ:>ate argumentativo. E seräo Iidos com muita
isso, provocar nossas leitoras que n_äo suportam conhece- atencräo por ~quelas que sequer sentarn conosco para o
las. Sem a escrita, as ideias sao como -~ ar que respiramos, debate polit_ice. Por isso, reconhecra a potenci~-da escritura
se me pe_rmite uma alegoria bem coloquial - todas se academica,-mas seja humilde no uso desse poder. 56 assuma
apropriam dele, tnas nao pensamos de onde ele vem, como seu o que sair de suas entranhas e se expressar por
tampouco lembramos que precisamos dele para existir. seus dedos, s6 anunde. o que conseguira susteni:ar por toda
Eu quero conhecer a autoria das ideias que leio, eu quero a eternidade de sua vida. Lembre-se: sua assinatura em um
produzir novas ideias. Näo e a toa que Friedrich Nietzsche texto e uma inscricräo existencial nas palavras. -
dizia que, "de tudo o que se escreve, aprecio somente o que
alguem e~creve com seu pr6prio sangue"Y Näo entenda Näo tenha medo da escrita. Explore, aescubra seu
sangue como um _pedido de martirio fisico para a escrita, estilo. Mas seja clara, objetiva, näo use jargöes~ evite ironias, -
mas de desnud?-r~ento pela escritura. Par isso, escrever näo facra acusacröes. Seu argumento se sustenta em evidencias
e arriscar_-~e. E expor-se ao debate publico, ~ provocar a e näo na forcra dos adjetivos ou das generaliza<;:Öes. Os
ordern esta-belecida, mas por meio de um- instrumento verbos säo seus traidores, pois sempre poderäo dizer coisas
permanente e poderoso de intervencräo - o texto. 44 Da diferentes de suas inten<;:Öes. Os adjetivos operam como
mesma forma, o texto nos ap.~:oxima de pessoas e Iugares e:xigencias a quem le: näo e 0 argumento 0 q~e importa,
nunca vistos. Conheci mulheres--g homens espetaculares mas sua conviccräo de que devo acreditar nele. Descubra
que se aproximaram de mim pelo que escrevi. Sai a procura seus cacoetes, seus vicios, suas repeticröes._$6 se anuncie na
de muitas autoras pelos textos que li. Fui ate elas apenas conclusäo. A conclusäo e seu espacro de liberdade e, para
para demonstrar minha admiracräo. Hoje somos, alem de algumas autoras, de libertinagem. Näo confunda seu te:xto
fraternas colegas, leitoras mutuas. com um pasquim, tampouco com um blog. E-'uma pe<;:a
que busca transformar a realidade, mas se realiza apenas na
Mas o texto ganha vida sem_ n6s. E uma criatura leirura e se processa na escritura. Nos precisamos de nossas
paradoxal:-=- sempre Sera llOSSO,----=ftlaS, uma vez criado leitoras. E nem tudo precisa ser dito para elas.
e publicado, näo poderemos l:Uais altera-lo. Ele e
independente, por isso---na.o lll.ais pedira licencra a criadora
0 texto em contexto
para se expressar em diferemes tempos e espa<;:os. Ele passa
a existir em seus pr6prios termos e as leitoras passam a ser
Näo acredite que para iniciar um tema e preciso
coautoras na criacräo. 0 que isso significa? Que näo existe
hist6ria - a historiografia e um campo para especialistas,
43
Nietzsche, Friedrich. Zaratustra, Primeira Parte, Do ler e du escrever. Rio de e ha metodos para a pesquisa hist6rica. Uma historiadora
Janeiro: Civiliza<;äo Brasileira, 1998. p. 66.
44
0 texm pode ser escrim ou visuai. Corno documentarista, tambern reconhe<;o
busca as fontes originais e compöe um percurso. Näo
essa potencia no filmt;. - vale s6 repetir a historiografia de outras autoras. E menos

72 73
_...."
w
Ii Carra dc uma oriencadora Debora Diniz

;_,-f ainda sair das cavernas para a Id~de Media e, em um Sua unidade de texto e o pad.grafo. Roland Banhes
-1 .----
1
I
salto, para o amanha. 56 fat;a percursos hist6ricos se eles dizia que era a frase, mas serei mais generosa com nossa
forem necessarios para compreender algum conceito, e 0 escritura. Fat;a uma nova pausa na leitura desta carta.
mais importante: ele deve ser circunscrito a uma questao Busque um texto de de-z paginas que voce-tenha escrito
e _baseado em diferentes fontes autorais. Mas ele deve ser durante a graduat;ao. ·Analise seu folego. Coino? Veja
feito por voce. A hist6ria de um evento näo e uma narrativa de quanras linhas precisa para escrever uma unidade de
neutra - importa saber a hist6ria da violencia contra a pensamento, isto e, um paragrafo. Veja com quantos
mulher no Brasil, mas igualmente importante e saber quem pontos, virgulas, pantos e virgulas, travessöes voce pausa
escreveu essa hist6ria, que tipos de evidencias usou, e quais seus argurnentos para que as leitoras possam respirar. Se
ig_norou. Por isso, näo confunda as set;öes Introdut;ao ou näo hauver ritmo, permita-se um reparo texmaL Voce
R~visäo da Literatura de sua monografia com histor_iografia deve buscar um ritmo, que deve ser estivel e permanente:
<k segunda mao, sem autoras e fontes. A hist6ria- nao se nao ha parigrafos de dez linhas e outras de duas lin has.
resume ao senso. comüm de um campo de pesquisa·. Percorra esta carta e descobrira que eu tenho um folego
- ritmaclo na escritura. Preciso entre nove e dezesseis linhas
Menos ainda se confunda com uma etimologista de par:r cada respirat;äo de ideias.. 46 Esse ritmo näo veio como
seus conceitos. A etimologia e outro ramo importante - -__ um dom, foi treinado, domesticado e sempre controlado
do conhecimento que nossas colegas linguistas ou fil6sofas pelas sucessivas revisöes. Ha algo de estetico na impressäo
se desdobram em explorar com competencia. Näo vale do texto nessa harmonia.
citar dieionarios de referencia, nao vale dizer que a palavra
"etica" Veffi do latim, do grego Oll de OUtra lingua da~ Alguns ma-~uais-sugerem que o parigrafo na lingua
origens. Nunca se esque<;a: nao se cita dicionario. Percorrer - portuguesa se alonga entre seis e quinze linhas. Näo sei de
a etimologia das palavras näo nos da autoridade para onde tiraram essas regras, mas 0 importante e que ela faz
compreender as redes de poder e saber que nossos temas sentido. De uma passeada nos textos nos quais admira os
provocam na atualidade. Loucura näo foi a mesma coisa estilos narrativos. Apreeie o folego de suas autoras fortes.
nos ultimos trezentos anos da hist6ria - Michel Foucault Devagar, tente desenvolver seu estilo entre esses limites.
nos mostrau como e recente a significat;io desse tennÖ -=- Voce näo e Jose Saramago, cujo dialogo entre deus, Jesus e
<:;QffiO doen<;a mental. 45 Falar de loucura na Grecia Ant-ig-a o diabo em 0 Evangillio segundo ]esus Cristo tomou quase
· - -e-fa:lsamente pressupor uma longa permanencia na hist6na: trinta paginas do livro sem pausas longas. 47 Saramago
0 que antes era loucura nao e a mesma coisa que hoje a subverteu os parigrafos, reinventou a estetica textual e
psiquiatria dassifica como doent;a mental. Sempre que ganhou o Premio Nobel de Literatura. Näo se imagine
pensar em metodo, seja relativista com as culturas e as . tampouco como a corporificat;äo ocidental de Matsuo
sociedades, mas tambem com a hist6ria. Bashö, cujas tres linhas do haicai metaforizam a cultura
46 Esse ritmo se expressa em uma folhaA4 na tela do computador. A depender das
dimensöes de um livro, ele pode variar.
47 Saramago, Jose. 0 Evangelho segundo fesus Cristo. Säo Paulo: Cia. das Lerras,
45
Foucault, Michel. Hist6ria da loücuril.-E.fio Päu1ö: Perspectiva, 2010. 2005.

74 75
Carca de un1a oriencadora
Dehora Diniz

japonesa e encantam q!Jem o le quatrocentos anos depois ideias de outras autoras e autores quando~estudo questöes
(0 velho tanque- Uma -fa-saltao Barulho de agua)o 48 Entre de generoo Importa saber se säo mulheres ou homens
S~amago e Bashö e que n6s estaremoso que respandem pelos textos que admiro ou dos quais me
distancioo Por isso, ao citar pela primeira vez uma fonte -
~ Näo entendeu o haicai? Eu tambem demorei muito em meu texto, referencio-a pelo nome e sobrenomeo Volte
tempo para senti-loo Mais temp_o ainda para estudar uns paragrafos e se dara coma de que fiz isso ate aqui.
i cultura japonesa e o periodo Edo para identificar os 0 principal sistema de normaliza<;:äo bibliogd.fica utilizado
sentidos ocultos do poemao A poesia pode ser metaf6rica, pela comunica<;:äo ciendfica em humanidades no Brasil,
mas 0 te·x~o academico que voce escrevera deve ser a Associa<;:äo Brasileira de Normas Tecnicas (ABNT), näo
cauteloso quanto a metaforao Ao menos nesse momento reconhece a regra de transparencia de genero, mas essa e
de sua escriturao Sei que e um pedido estranho, pois uma viola<;:äo compartilhada e aceita por autoras feministaso
lhe retiro uma potencia narrativao- -Entenda como uma Alguns d~ · seus Ieitores näo feministas a consideracio ..Uffi.___
moratona, por isso näo me conteste com as metaforas excesso, mas se justifique dizencfo que essa provoca<;:äo näo
de Judith Butler sobre "perform_ance de genero~' para compromete a neutralidade da 'cienciao -9s meus Ieitores
dernonstraf 0 quanto a metafora e a alegoria estäo na sabem que- sau uma feminista antes __rnt;smo de me lero
ordern da escritura academica feministao E mais ainda o Eies tambem sabem que neutr<!lidade foi a mentira mais
quanto eu gosto delas e as incorporo em meu textoo Näo bem contada na ciencia para nos-dar poder de voz como
vale me usar como contraprova de mim mesmao Essas säo cientistas diante dos näo cientistaso
metaforas conceituaiso Eu pe<;:o que v:oce evite as meraforas
pela insuficiencia do argumentoo E mais: eu imploro que Voce deve estar inquieta, sentindo-se talvez liinii:ada.
esque<;:a os adjetivos e os adverhios totalizames, tais como com tantas regras- e prescri<;:öeso De uma voltao Teste a
" sempre",,
, nunca",,, to d"
os e ((•
ntnguem, )) 0
pausa do cronometro que ja e seu companheiro de leiturao
Releia o que escrevi ate agorao Entenda esse amontoado
Sempre evite a historia de longa permanenciao Nunca de palavras como a abertura de uma caixa que ·antes era
cite dieionarios ou use metdforaso Todos os pardgrafos devem secretao Agora voce conhece cada uma das regraso Juntas, -
ter ritmoo Ninguem deve escrever pardgrafos de tres linhaso inventaremos orruaso Esse e o melhor caminho para violat_
as prescri<;:öes, afugentar os tabus:ctescobrir-se como auto~
Mas ha outra regra - ~nM:- provoca<;:äo feminista
antes mesmo ~e suas leimras o fa<;:amo Samente nes-5@-
na escritura academica que se c;e neutrao Eu gosto que
momento de pleno dominio das regras do joge-e que voce
me reconhe<;:am como uma autorao 0 que escrevo sobre
estara preparada para viola-las e descobrir-se-como uma
mulheres se mistura a minha existencia femininao Muitos
criadorao Se näo acredita nesse metodo de conhecer para
de meus temas näo fazem parte de minha intimidade, mas 0

subverter, olhe as primeiras ob ras de Salvador Dalio Eram


säo explorados a partir de minha vivencia como mulher
uma repetis;äo elegante da pintura academicao 0 surrealista
em convivio com outras mulhereso Eu quero conhecer as
--- de Persistencia da memoria explode como um estilo ap6s
48
essa fase inicial. Algumas artistas sofrem com esse periodo
Bashö, Matsuoo Tri/ha estreita ao conjimo Säo Paulo: Iluminuras, 19970

76 77
'.

CiJrril de um.1 odenmdom Debora Diniz

~inicial de submissao as regras, como foi o caso de Yayoi Eu disse qu..e. a se<;:äo de agradecimentos era uma
Kusama, artista japonesa contemporinea que descreve pe<;:a curiosa da corriunicas:äo ciendfica. Ern geral, eu me
seus anos iniciais de aprendizagem da arte tradicional de divirto lendo-a. Ela e repleta de excessos, de equ1vocos
pintura (nihonga} como limitames para ~ua pulsäo criativa. - - _de intimidade, de um desnudamento da privacidade para
A verdade e que a, ?-rte se move por percq.rsos mais livres e _- a eternidade. As jovens autoras acreditam ser essa ses:ao
singulares que a pesquisa academica, onde o aprendizado - um espa<;:o livre para o regisrro dos afetos, das filia<;:Öes
inicial e fundamental para a subversäo no futuro. _ rdigiosas, ou mesmo para a disputa amorosa. Nao fas:a
isso. Se quer agradecer a sua mäe pelo amor, fa<;:a uma
dedic~tDria manuscrita a da. Se quer se lembrar de seu
Eierneutos pre e pos-textuais cachorrinho, carimbe as patinhas dele no texto finalizado.
A se<;:äo de agradecimentos e parte argumentativa de seu
Pode - parecer excesso de zdo mencionar os texto, nao e um espa<;:o em _gue se suspendem as regras
dementos pre e p6s-textuais de sua monografia de formais da comunicas:ao ciendfica. Corno qualquer outra-
-_ graduas:ao nesta carta. Os dementos pre-textuais säo parte da monografia, e passi'\Ld de avalias:a~, Cle leitura e
- aqudas ses:öes que CE>mpöem sua monografia como uma de critica. 50 56 deve ser mencionada nos agradecfmentos
moldura da comunica<;:~Ö ciendfica: a capa, o sumario, quem diretamente contribuiu para o seu texto. Näo valem
os agradecimerrtos, a lista de tabelas ou a epigrafe. Os referencias misticas sobre a existencia ou a sobrevivencia
dementos p6s-textuais säo as referencias, os indices, humana. Os agradecimentos sao um registro secular e
os glossario~ ~u os anexos. Queria me dedicar a uma academico, cujas destinatirias -säo pessoas concretas que
das se<;:öes pre-texruais mais curiosas da comunica<;:ao fazem parte de sua-rede de pesquisa. 56 agrades:a a quem
ciend:fica- a de agradecimemos. 49 Ela pode estar presente efetivamente colaborou com seu rrabalho de pesquisa: essa
em sua monogra:fia, mas nao faz parte de seu projeto. Nos e uma ses:ao de teconhecimento pela cooperas;ao mutua.
agradecimentos, as pessoas que colaboratarn com alguma
atividade da pesquisa sao mencionadas. Quem säo das?
Uma delas sou eu. Ha algo de egoico em lhe escrever sobre
essa regra .r:t.äo 3'1ita nos manuais de reda<;:äo academica,
mas estamos abrindo a caixa de segredos. Alem de mim,
I\

:'l podem estar mencionadas a bibliotecaria que levamou as


fontes, as colegas das rodadas de leitura, outras colegas de
1.]
::.·j pesquisa, ex-professoras, etc. Ou seja, pessoas concretas que
1!:
efetivamente cooperaram para o sucesso de seu texto.
ru 49
Segundo a norma tecnica ABNT NBR 14724, "texro em que o autor faz
agradecimemos dirigidos aqueles que contribulram de maneira relevante a 50Na publicat;:äo cientifica em periodicos, a se<;:äo de agradecimenros e parrelOrmal
elaborat;:äo do trabalho" (ABNT. Informartio e documentartio ~ Trabalhos do texro, ao ponro de se exigir a comprovat;:äo de concordancia das pessoas citadas
academicos- Apresentarao. Rio de Janeiro: ABNT, 2011. p. 1). e de ser contada no total de caracteres do artigo.

78- 79
PÖS A LEITURA

i . ~ .

Agora posso lhe dizer com seguran<;a: bem-vinda. Eu


serei sua orientadora para a elabora<;io do projeto e para a
escrita da monografia. Esta carta expressa e antecipa meu
mais sincero acolhimento as suas ideias e expectativas.-
Nosso primeiro encontro sera em breve. Voce me conhece
melhor agora, e acalmou seu espirito inquieto que nao ve
a hora de come<;ar a pesquisar, deslocar-se por aU,toras e
! ;
obras, para descobrir-se em seu proprio texto. Considere
esta carta como uma proposta de rumo, mas me permita
saber o que fez sentido, o que precisa ainda ser dito e foi
esquecido. Eu terei prazer em falar das ausencias, em afagar_
OS seus suspiros. Esta nao e uma carta em que tudo foi
dito. Na verdade, e apenas um preambulo de um encontro
genuino entre nos duas, cuja motivac;:äo sera sua cria<;io
intelectual. Samente nossas biograflas darao o verdadeiro
sentido ao encontro que nos espera.
~I

Carra de uma oriencadora Debora Diniz

Eu nunca vt carras com anexos ou apendices, organizac;äo do seu tempo, das etapas e dos produtos para
uma· ·Ctaquelas ses;öes de dementos pos-textuais · que ja o periodo que vivera. Espero que lhe sejam uteis. Antes das
mencioneiY Por isso, entenda as paginas que acompanham P.S., ha um suspiro final sobre o futuro.
esta carra como os antigos P.S. (post scriptum). Os P.S. estao
desaparecendo do texto escrito nos computadores. Eles
eram arremates_ äe uma carta escrita a mao. Apareciam
quando · a memoria traia sobre algo fundamental que Com meus melhores votos de sucesso e felicidade,
deveria ter sido escrito ou sobre algo tao futil que nao
merecia estar na carta, mas precisava ser registrado nem que
fasse como um fechamento. Os P.S. eram os camplernentos
charmosos das cärtas de amor entre os apaixonados ou das
cartas de saudade -de maes para filhos que partiam para a sua orientadora
guerra. Nunca vi P.S. em documentos oficiais;-relatorios do
governo ou comunicados politicos. Tambem nunca os vi
nos manuais de pesquisa. Para mim, ~s P.S. säo um sinal de -_
que a comunicac;ao se deu entre duas pessoas que trocam
historias, saberes ou confidencias. E de que sempre ha algo
ainda por ser dito.

---na dois P.S. nesta carta. 0 primeiro e o mapa visual


de uma de minhas ex-oriemandas, que pos em pratica o
modelo de John Creswell. 0 mapa dela pode ser util para
voce pensar 0 seu.52 0 segundo e um cronograma para a
pesquisadora que usa o cronömeuo. 53 :E uma proposta de

.' 5 Ha uma diferen~a entre anexo e apendice, segundo a ABNT NBR 14724.
1

0 anexo e o ~'t__exto-ou documento näo elaborado pelo autor, que serve de


fundamenta~äo, comprovac;:äo e ilustrac;:äo"; e 0 apendice e 0 "texto Oll documento
elaborado pelo autor, a firn de complementar sua argumentac;:äo, sem prejuizo da
unidade nudear do trabalho" (ABNT. lnformariio e documentariio - Trabalhos
academicos- Apresentariio. Rio de Janeiro: ABNT, 2011 p. 2). Esta carca tem um
anexo e um apendice, ambos descritos como P.S.
52
Agrade~o a Patricia Al.vares pela gentileza de cessäo do mapa de autoras.
53 0 cronograma foi um exerdcio coletivo de construc;:äo entre oriemandasque näo
se conheceram. Era uma heran~ de meu grupo de pesquisa as jovens pesquisadoras.
Muitas delas deram sua comribuic;:äo na forma de peqtte-noJ> arremates ou bordados
esteticos. 0 modelo final recebeu uma contribuic;:äo singular de Juliana Paiva, a
quem agrade~o.
I: 82 83
Ti

::

-_

E 0 FUTURO?

Itala Calvino e um escritor italiano, nascido em


Cuba. Seu primeiro livro, intitulado A trilha dos ninhos de
aranha, foi publicado aos 23 anos. Calvino o define como
um romance engajado, um projeto de conto que ganhou
folego ao ser escrito, inspirado em -uma epoca de intensa
participas:ao na resistencia politica italiana ao final da II
Guerra Mundia!. Ao prefaciar uma nova edis:ao da obra,
vinte anos apos a publicas:ao original, sua inquieras:ao se
resumia pelo refrao repetido quarro vezes no breve texto:
"Este romance e o primeiro que-~screvi". Apos descreve-
lo como sua primeira obra, Calvino dividia suas ailgustias
com quem o lia: "Que impressäo me causa, retoma-lo
agora.~", " que eretto
r · me causa, ao re1·e-lo h OJe.
. ?", " como
posso defini-lo, agora, ao reexamina-lo tantos anos depois",
"o que posso dizer dele, hoje?". 54

!:

54 Calvino, ltalo. Pref:icio. In: _ _ _ . A trilha nos ninhos da aranha. Säo Paulo:
qa. d~s l&tr~, ~.!)04. p~ 5-25.
,, Carca de um.1 orienrador.1 Dehora Diniz

Essas p~untas tambem seräo suas, assim como säo para a cria<;:a9 academica. Por issQ,_ näo tema o futuro, mas
minhas sobre ~s primeiros artigos que escrevi. A conclusäo lembre-se sempre de que ele existe--como uma proje<;:äo
de Calvino e um paradoxo que tambem sera de todas as desse instant~ inicial da escritura academica.
escritoras: "0 primeiro livro, __melhor seria nunc~ _te-lo
escrito". A verdade e que, enqtJanto o primeiro livro ai~da
näo foi escrito, vivemos a sua e~pera. Sonhamos com sua
perfd<;::io que jamais seri alcan<;:ada. T alvez voce nunca
venha a escrever um livro, e sua monografia venha a ser
seu inicio e firn na experiencia da escrita. Näo importa-
assim como Calvino, voce viveri a inquietude da primeira
obra e, talvez mais tranquila da que ele, näo experimenrari
as pergunras que o pertur_baram ap6s ter se tornado um
escrftor mundialmente conhecido e admirado. A primeira
obra·: e a exR_eriencia original de todas as auroras, sejam
elas fortes_ o~ n:io. Algumas se manter:io eternamente
orgtJlhosäs dessa primeira experiencia,_ outras sentiräo,
como -calvino, uma pitada de remorso pela ingenuidade e
pelo excesso de ativismo politi~o da primeiro romance.

N:io pense em seus ·sentimentos para daqui a vinte


55
anos. Planeje o que conseguira executar neste momento
com suas pr6prias palavras, seja responsavel pelo que
seus dedos conseguir:io criar dianre da tela a·espera das
argumentos. Sua primeira cria<;:io a acompanhara por toda
a vida, e n:io apenas por ter si<.lo o marco inicial da sua
trajet6ria como autora. Se voce se tornar verdadeiramente
uma -=-autora forte, e nao ~enas uma escritora para
conclus:io de seu curso de gradua<;:äo, o seu primeiro texto
seri lido e neleser-ä:e--desarquivadas suas inspira<;:öes juvenis
55
E sempre possivel e desejivel se redescrever. Susan Sontag escreveu Sobre a
fotoJQ:_afia, em 1973, onde defendeu uma posi<;:ao cr{tica em rela<;:ao a fotografia
como e~idencia poHtica. Duas decadas depois, publicou um novo livro sobre
o mesmo tema. Na nova obra, duvidou de si mesma como autora e de sua tese
e
"conservadora sobre a fotografia': "Isso verdade?", inquietou-se duvidando de
seus argurnentos de vinte anos antes. "Pensei que era quando escrevi, mas nao estou
tao segura agora' (Sontag, Susan. Regarding the pain of others. New York: Farrar,
Straus and Giroux, 2002. p. 82). .

87
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MAPA DE LITERATURA
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BRASIL. Politica Nacional


Drogas
. sobr~ Drbgas (2005)

ANTUNES, Elton (2009)


CARVALHO, Anabela (2000) Seguranc;:a publica Saude publica
CHARAUDEAU, Patrick (2006)
D'ANGELO, Paul (2002) • I
,+,I I

OE VREESE, ·Claes H. (2005) I· I


BRASIL. A Politica do Ministerio da
DOWLER, Kenneth (2008) ALLEN, Chris (2005)
BEST, David (2001) Saude para atenc;:äo integral a
ENTMAN, Robert M. (i993) usuarios de alcool e outras drogas
ESPINOZA, Fernando (2009) BOWLING, Benjamin (1999) 1
HOPE, Vivian D. (2005) 1
1 11 (2003) .
GADRET, Debora L (201 0) 1
MENA, Fernanda (2009)
GUTSCHOVEN, Kla~s ~2005)
NADELMANN, Ethan A. (1989)
HYE-JIN, Paek (20pi7) I
KITZINGER, Jenny (2doO)
WORRAL, John L. (2008) DUAILIBI, Ugia B. (2008)
•, I
FISCHER, Benedikt (2006)
JACOBS, Bruce A. (1999) ~
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JOHNSON, Jennifer .E. (2011)
I 1
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JONSSON, Patrick (2011)
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CRONOGRAMA

1° SEMESTRE

ELABORA<;AO DO PROJETO DE PESQUISA

Sumärio de Projeto de Pesquisa


1. lntrodw;:ao e revisäo da literatura
1. Objetivo geral, objetivos especificos, hip6tese ou perguntas de pesquisa
~

3. Metodologia, unidade de analise, sujeitos, tecnicas de pesquisa e analise


dos dados
4. Cuidados eticos e revisao etica em pesquisa
5. Cronograma, orc;:amento, referencias bibliogräficas e anexos
!!l'f'"
1i:
Debora Diniz
Carca. de UJlJ;J orienc-adora

Semana 2 Semana 1 Semana 2


Semana 1
1. Levantamento de palavras-~have 1. Elaborat;:äo de tftulo, palavras-
1. Ambientat;:äo 1. Pesquisa sobre temas de chave, objetivo geral e objetivos
interesse da area de pesquisa -
2. Levantamento da bibliografia especificos - apresentat;:äo para a
basica para elaborat;:äo de 2. Escolha do tema ~e pesquisa 2. Levantamento de fonres-- orientadora
monografia (manuais de observacäo dos titulos f"lmc1onais
3. Leitura da produc;:äo da e objeti~os gerais e especif~cos 2. Levantamento bibliogritfico em
metodologia) orientadora sobre o tema bases nacionais
3. Leitura da Carta de uma 3. Leitura dos manuais de
4. Primeiro encontro com a metodologia sobre titula.s 3. Organizac;:äo do levantamento -
orientadora- o primeiro projeto orientadora bibliogritfico
de pesquisa funcionais, objetivos gerais ~
especificos e palavras-chave 4. Leituras das referencias
. recuperadas (listar as leituras)

Concluido. ltens: _____ 0 Concluido. ltens: _ _ _ __ 0 Concluido. ltens: _____ 0 Concluido. ltens: - - - - -

Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que?

Semana 3 Semana 4 Semana 3 Semana 4


1. Levantamento bibliogritfico na 1. Revisäo do titulo, das palavras-
1 . Elaborat;:äo e entrega do 1. Levantamento bibliografico em chave, do objetivo gerate dos
cronograma para o s.emestre bases nacionais Biblioteca Nacional de Livros
objetivos especificos
2. Organizat;:äo do tempÖ- 2. Organizat;:äo do levantamento 2. Levantamento bibliogritfico de
literatura alternativa no 2. Referenda cruzada das fontes
(planejamento semanal de bibliogritfico em-base de
estudo): leitura, organizat;:äo da bibliografia curriculo Lattes de autoras-chave 3. Leitura sobre metodos e tecnicas
bibliografia e pesquisa 3. Levantamento bibliogritfico de de pesquisa
3. Revisäo ~o tempo de estudo
~ibliogritfica teses e dissertat;:öes dos dois 4. Leitura e selet;:äo das fontes
4. Listagem das leituras em recuperadas (tlsGI:r as leituras)
3. Cevantamento bibliogritfico em ultimos anos
andamento
bases nacionais 4. Organizat;:äo do levantamento
bibliogritfico

Concluido. ltens: - - - - - - ' 0 Concluido. ltens: _ _ _ __ 0 Concluido. ltens: _ _ _ __ 0 Concluido. ltens: - - - - -

Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que?

95
94
Carra de l/Jlla orienc.1dor.a.

Semana 1 Semana 2 Semana 2


Semana 1
1. Leitura dos manuais de 1. Delineamento da metodologia
1. Solicita<;äo das autoriza.:;:öes 1 . Constru<;äo do mapa de autoras
metodologia - partes sobre (cinco paginas)
justificativa, metodos, tecnicas, institucionais para realiza<;äo da 2. Primeira versäo do projeto de~
2. Delineamento da justificativa e pesquisa pesquisa
instrumentos e cuidados eticos dos cuidados eticos (cinco
2. Atualiza<;äo da pesquisa paginas) 2. Fech_a!llento da introdu.:;:äo do · 3. Leitura e estudo das fontes 1?'
bibliogratica projeto · recuperadas
3. Leitura e estudo das demais 3. Constru<;äo do mapa de autoras
fontes recuperadas
; '·'

Concluido. ltens: _ _ _ __ D Concluido. ltens: - - - - -


D Concluido. ltens: - - - - - 0 Concluido. ltens: - - - - -
Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que?
0 Näo conclufdo. Por que? 0 Näo concluido. Por que?

Semana·3 Semana 4 Semana 4


Semana 3
1. Leitura e estudo das fontes 1. Fechamento da metodologia, da 1. Revisäo final do projeto
recuperadas justificativa e dos cuidados - -__ 1 . Revisäo e normatiza<;äo do
eticos projeto de pesquisa 2. Submissäo do projeto ao Comite
2. Atualiza<;äo da pesquisa de Etica em Pesquisa
bibliogritfica 2. Fechamento do instrumento de 2. Alualiza<;äo e revisäo do mapa de
pesquisa autoras 3. Leitura e estudo das fontes
3. Revisäo do delineamento da recuperadas
metodologia 3. Delineamento da introdu<;äo 3. Coleta das autoriza<;öes
_institucionais para realiza<;äo da
4. Revisäo do delineamento da pesquisa
justificativa e dos cuidados
eticos
5. Elabora<;äo do instrumento de
~esquisa
U Concluido. ltens: - - - - - D Conclufdo. ltens: _____
D Concluido. ltens: - - - - - 0 Concluido. ltens;:.·- - - - -
0 Näo concluido. Por que? 0 Näo conclufdo. Por que?
0 Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que?

96 97
Carra de uma orien(adorJ

Semana 1 Sernana 2
1. Leitura e estud<} das fontes 1 . Leitura e estudo das fontes
recuperad~ - recuperadas
2. Atualizac;äo da pesquisa 2. Atualizac;äo da pesquisa
bibliogrcifica bibliogrcifica

2° SEMESTRE

Concluido. ltens: _ _ _ __ 0 Concluido. ltens: ..:;-=------


Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por"tjue?
ELABORA<;AO DA MONOG~FIA

Semana 3 ·Semana 4 -_
1. Leitura e estudo das fontes 1 . Leitura e estudo das fontes
recuperadas recuperadas
2. Atualizac;äo da pesquisa 2. Atualizac;äo da pesquisa
bibliogrcifica bibliogrcifica
3. Revisäo do projeto de acordo 3. Nova submissäo do projeto
<;om as orientac;öes do Comite de revisado de acordo com as
Etica em Pesquisa orienta<;öes do Comite de Etica
em Pesquisa

0 Concluido. ltens: _____ 0 Concluido. ltens: _____ Sumario de Monografia de Graduac;ao


0 Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que? • Elementos pre-textuais: capa, agradecimentos, dedicat6ria, sumario
• Resumo/abstract, palavras-cha~key-words
-
• lntroduc;äo
• Capitulo 1
• Capitulo 2
• Capitulo 3
• Conclusäo
• Elementos p6s-textuais: anexos, Indices, referenciiiSbibliogrcificas

- - -- ~ - - - . ' - ' '

'1I • ;;;::;,)'];;• ~~- -~ _;.'L;:~:,;·~~:J:J:J:~~;il~c'~\~~~- C~ '1 '1~C.I~~~:~I•;~~ ~\',;I~)·:,:~~-~\:.~>


1

~ ' - - -~- '--~~- - ~ -- ~ . - - - -

98
C?rca de un1a orientadora

Dehnra Diniz

Semana 1 Semana 2 Semana 1 Semana Z


1 . Leitura e estudo das fontes
recuperadas 1. Aprovac;:äo do projeto pelg
1. Fichamentos das leituras 1 . Fichamentos das leituras
Comite de Etica e~qUisa
2. Atualizac;:äo da pesqois-a- 2. Trabalho de campo 2. Trabalho de campo
bibliogrilfica 2. Contato com a instituic;:äo e os
sujeitos da pesquisa
3. Fichamentos-das leituras
3. Leitura e estudo das fontes
recuperadas
4. Fichamentos das leituras -
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I
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Concluido. ltens: _ _ _ __
0 Concluido. ltens: _ _ _ __ 0 D
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Näo concluido. Por que?
0 Näo concluido. Por que? 0
Conduido. ltens: _ _ _ __
Näo..c-oncluido. Por que? 0
Concluido. ltens: _ _ _ __
Näo concluido. Por que?
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Semana 3 Semana 4 Semana 3 Semana 4


1. lnicio do trabalho de campo
1. Leitura e estudo das fontes 1 . Fichamentos das leituras
2. Leitura e estudo das fontes recuperadas 1. Fichamentos das leituras
recuperadas 2. Trabalho de campo 2. Trabalho de campo
2. Atualizac;:äo da pesquisa
3. Fichamentos das leituras bibliogrilfica 3. Marcac;:äo da banca de defesa
3. Fichamentos das leituras
4. Trabalho de campo

D Concluido. ltens: _ _ _ __
0
D
Concluido. ltens: _ _ _ __
0 Concluido. ltens: - - - ' - - - 0 Concluido. ltens: ...,.-----
I~
Näo concluido. Por que?
0 Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que?
II
1,,

-1:

100
101
1 Debora Diniz
Carca de unw orienradora

Semana 1 Semana 2~ Semana 1 Semana 2


1 . Sistematiza<;:äo e analise dos 1. Sistematiza<;:äo e analise dos 1. Reda<;:äo da introdu<;:äo, do 1. Reda<;:äo:da introdu<;:äo, do
dados coletados dados coletados resumo e das considera<;:öes resumo _e das considera<;:öes
finais_ finais-
2. Reda<;:äo dos capitulos 1 e 2 2. Reda<;:äo dos capitulos 1 e 2

0 Concluido. ltens: _ _ _ __ 0 Concluido. ltens: _____ 0 Concluido_ ltens: _ _ _ __ 0 Concluido. ltens: _ _ _ __

0 Näo conc_luido. Por que? 0 Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que?

Selllana 3 Semana 4--_ Semana 3 Semana4

t 1. Reda<;:äo do capitulo 3
2. Analise dos dados
1. ß.e~isäo dos capitulos 1, 2 e 3
2. Anatise dos dados
1. Elabora<;:äo da versäo da
monografia completa
1. Revisäo da monografia
2. Envio da monografia para a
'I 2. Envio da monografia para a banca

J orientadora

0 Concluido. ltens: _ _ _ __ 0 Concluido. ltens: _____ 0 Concluido. ltens: - - - - - 0 Concluido. ltens: - - - - -


0 Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que?

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103
102
l
Carra de un1a orienradora

Semana 1 · Semana 2
1. Elaborac;äo dos slides para a 1. Defesa da monografia
defesa da monografia

Concluido. ltens: _ _ _ __ 0 Concluido. ltens: _ _ _ __


Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. 1?or que?

Semana3 Semana 4 i -_
1 . Revisäo da monografia com os
comentarios da banca
1. Conclusäo dos trämites para a
obtenc;äo do titulo
1--
2. Envio para impressäo

0 Concluido. ltens: _ _ _ __ 0 Concluido. ltens: _ _ _ __


0 Näo concluido. Por que? 0 Näo concluido. Por que?

l.M_
~
I

-_

s OBRE A AUJ'ORA

Debora Diniz e uma hibrida academica. Descobriu-


se antrop6loga, mas dirige document:irios e vagueia com o
marido e os dies na praia. E autora de livros e artigos sobre
remas diversos, mas marivados pela mesma inquieta<;:ao -
os direiros humanos. Ensina merÖdologia, document:irio,
feminismo, bioerica e direiros humanos na Universidade
de Brasflia. Ja foi pesquisadora visitante no Canad:i,
nos Esrados Unidos, no Japao e no Reino Unido. Adora
arienrar e esr:i sempre as valras com novas pesquisadoras
para descobrir o que ainda d~hece. Desde que se
transformou em professora-orient1tdora, ja acomp~nhou o
rrabalho academico de quase 1(}(}:: pesquisadoras. Recebeu
81 premios por pesquisas, livros efilmes (http://lattes.cnpq.
br/3865117791041119).

---
Debora Diniz descobriu-se
antrop6loga e dirige documentarios.
E autora de livros e artigos sobre
temas diversos, mas motivados pela
mesma inquietac;ao - os direitos
humanos. Ensina metodologia,
documentario, feminismo, bioetica
e direitos humanos na Universidade
de Brasilia. Ja- foi pesquisadora
visitante no Canada, nos Estados
Unidos, no Japao e no Reino Unido.
Adora orientar e esta sempre as
voltas com novas pesquisadoras
para descobrir o que ainda
desconhece. Desde que se
transformou em professora-
orientadora, ja acompanhou o
Anis- lnsriruro de Bioerica, Direiros Humanos e Genera trabalho academico de quase 100
Caixa Posral8011 - CEP 70.673-970- BrasHia-DF pesquisadoras. Recebeu-81 premios
Fone/Fax: 55 (61) 3343.1731 por pesquisas, livros e filmes
lerraslivres@anis.org.br
www.anis.org.br