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LEI DAS DOMÉSTICAS

O que mudou após o anúncio da Lei Complementar nº 150, popular


Lei das Domésticas

O que mudou então?


A partir da Lei Complementar 150, que também ficou conhecida como PEC
das domésticas, o recolhimento do FGTS por parte do empregador passou
a ser obrigatório, assim como seguro-desemprego, seguro contra acidentes
de trabalho e indenização em caso de dispensa sem justa causa. Estes
foram pontos polêmicos pois aumentaram os gastos que os empregadores
têm com os seus funcionários. Entretanto, ainda seriam menos gastos do
que comparado aos trabalhadores de qualquer outra categoria.
Segundo a advogada Marilinda Marques Fernandes, o que aumentou de
gastos para os empregadores foram os 8% para o FGTS.  Até a publicação
da PEC das Domésticas, o empregador pagava 12% para o INSS. Após a lei
foram fatiados no seguinte modo: 8% INSS , 0,8% para Seguro Acidente de
Trabalho e 3,2% para o Fundo de demissão . Perfazendo 12%.
Simulação de gastos pela nova
regulamentação
1 salário mínimo (R$ 937) 2 salários mínimos (R$ 1874)
INSS R$ 74,96 R$ 149,92
FGTS R$ 74,96 R$ 149,92
Antec. Multa R$ 29,98 R$ 59,96
Seguro acidente R$ 7,49 R$ 14,99

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Outros direitos que a PEC das Domésticas trouxe foram o salário família,
que é um auxílio para quem tem filhos até 14 anos. Para obter esse auxílio o
próprio trabalhador precisa encaminhar o pedido através da Previdência
Social nesse link.

Trabalhadores domésticos também passaram a ter direito ao adicional


noturno. Qualquer trabalho realizado das 22h até as 5h tem um ganho de
20% sobre a hora diurna. A lei prevê também um auxílio-creche, porém isso
fica a cargo de acordos realizados entre sindicatos e patrões.

Dados do Ministério do Trabalho, divulgados em julho de 2016, apontam


que entre dezembro de 2014 e março de 2016, o número de empregadas
com acesso ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) aumentou
de 187,7 mil para mais de 1,3 milhão de trabalhadoras.

Ainda assim, em 2014, apenas um terço das empregadas domésticas


tinham carteira assinada, e quase 70% trabalhava na informalidade. Isto
reflete não apenas na perda dos direitos básicos que a carteira de trabalho
representa como também no salário recebido. A média do salário com
carteira assinada em 2014 era de 924 reais. Já no trabalho informal este
número caia para 578 reais.

A empregada doméstica Janaína Vital é natural de Quixadá, no Ceará. Em


2009, ela se mudou para o Rio Grande do Sul com a esperança de uma vida
melhor. O seu primeiro emprego na capital gaúcha foi como doméstica em
uma casa de família. Ná época, o salário mínimo era de R$ 465,00 e Janaína
recebia R$ 200,00 para trabalhar cinco dias da semana. A Lei
Complementar 150 vem para combater esses acordos entre patrão e
empregado. O juiz títular do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região de
Porto Alegre, Marcelo Bergmann Hentschke, afirma que a PEC das
Doméstica substitui o acordo “no fio do bigode” por um dispositivo legal.
Hoje Janaína trabalha em outro local como diarista. Até meses atrás ela
trabalhava nessa mesma casa como empregada doméstica, mas foi
demitida. Sua empregadora demitiu-a e pediu que ela fosse fazer limpezas
eventuais na casa. A justificativa foi o aumento nos custos com a
trabalhadora devido à lei Complementar 150. Além de atender sua antiga
patroa, Janaína também faz faxinas em ao menos outras três casas para
complementar a renda familiar, já que ela vive apenas com seu marido.

Dados do IBGE provam que o número de diaristas está aumentando em


relação às empregadas domésticas. A Pesquisa por Amostra de Domicílio
Contínua divulgada em novembro de 2016, mostra que desde 2012,
diminuiu em 4% o número de empregados domésticos que trabalham em
apenas uma casa. E aumentou em 12,5% o de empregados trabalhando em
mais de uma casa. Como a pesquisa conclui que a inversão vem ocorrendo
desde 2012, não se pode afirmar que a PEC das Domésticas tenha afetado
o mercado de trabalho.

Domésticas x Diaristas
Segundo trimestre de 2012 Segundo trimestre de 2016
Domésticas

76%
Diaristas

23.8%

0 10 20 30 40 50 60 70

Em 4 anos, houve um aumento de 12,5% de diaristas no Brasil

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Laura Lúcia Strauss, que tem 44 anos e é natural de Rolante, trabalha em


uma casa de família há quatro anos e vive uma situação diferente da de
Janaína. Laura considera seu salário muito bom em relação à quantidade de
serviço. Ela cuida de duas crianças, além de limpar a casa e fazer comida.
Para Laura, a Lei Complementar 150 trouxe benefícios, já que antes as
empregadas domésticas não tinham segurança sobre uma eventual
demissão por não ter direito ao seguro desemprego nem ao Fundo de
Garantia do Tempo de Serviço.

O perfil das empregadas domésticas no Brasil

Em um estudo publicado pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social


(MTPS) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em março de
2016, sobre a inserção das mulheres no mercado de trabalho, apresenta
dados sobre o emprego doméstico no Brasil, no período entre 2004 a 2014.
Em 2014, 5,9 milhões de brasileiras eram trabalhadoras domésticas,
representando 14% da população feminina brasileira. 92% de todo o
emprego doméstico remunerado no Brasil é realizado por mulheres.
 Quando o recorte racial é feito este número vai para 17,7% das mulheres
negras trabalhando como domésticas, sendo esta a principal ocupação
entre elas enquanto entre as mulheres brancas este número diminui para
10%. Atualmente, a maioria (40%) das domésticas têm mais de 45 anos e a
escolaridade, que em 2004 era de cinco anos e meio, aumentou para seis
anos e meio.

Gênero dos Domésticos no Brasil 

8%

92%

Homens Mulheres

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Os problemas ainda enfrentados com a atual legislação


Um dos principais direitos adquiridos pelas trabalhadoras domésticas é o
auxílio acidente de trabalho, como queimaduras por produtos químicos,
quedas eventuais ou lesões por esforço repetitivo. Porém, segue a
dificuldade em relação à fiscalização do local de trabalho. Os fiscais
precisam de hora marcada para visitar o patrão, portanto se há algum
desrespeito à lei, os contratantes das empregadas tem tempo para corrigir
tudo. A advogada Marilinda Marques considera que há uma distinção entre
as trabalhadoras domésticas e os demais trabalhadores. “Esse é um direito
que vai levar tempo para ter essa igualdade, pois elas trabalham na casa, na
família, no espaço sagrado privado”.

A presidente do Sindicato dos Empregados Domésticos, Salete Silveira,


afirma que o empregado pode provar ter sofrido um acidente de trabalho
através do horário de entrada no hospital. “Se o empregado está indo para
o trabalho, e no caminho sofre um acidente, ele está em horário de
trabalho, portanto é um acidente de trabalho. E para provar pode usar o
horário de atendimento no Pronto Socorro”. destaca Salete.

O juiz Marcelo Hentschke afirma que para denunciar algum tipo de


irregularidade no serviço, a trabalhadora pode entrar com uma ação direta.
“Na justiça do trabalho, ela pode fazer uma reclamação verbal. Eu
aconselho procurar o sindicato, que já existe, narrar aquela situação e ele
vai ajuizar uma ação trabalhista”, destaca o juiz. Na delegacia, a
trabalhadora também pode fazer uma queixa de crime.

Juiz Marcelo Hentschke. Foto: João Pedro Godoi

A Lei Complementar 150 também instituiu o banco de horas, o que para


outros  trabalhadores fica a cargo de decisão coletiva da categoria.
 Durante um mês, as primeiras 40 horas extras trabalhadas pelo
empregado doméstico devem ser pagas obrigatoriamente no salário do
mês correspondente. As horas extras que ultrapassem essas 40 horas,
podem ser colocadas em um banco de horas para serem compensadas em
até um ano, através de folgas ou diminuição da jornada de trabalho.
A barreira que o banco de horas encontra quanto a trabalhadoras
domésticas é a falta de registro. Enquanto trabalhadores de empresas
possuem o registro do ponto através de ponto eletrônico ou livro ponto,
empregadas domésticas normalmente não dispõe dessa estrutura. Porém,
o registro pode ser feito numa folha simples, pela própria empregada, à
mão, anotando a hora de entrada, saída e almoço do trabalhador e sendo
assinado pelo patrão e empregado. Isso gera uma segurança para casos em
que haja qualquer discordância em relação ao número de horas
trabalhadas.

Outra questão enfrentada pelas trabalhadoras domésticas são os acidentes


de trabalho. São extremamente comuns, porém poucos ligados ao exercício
da profissão. Lesões nas mãos por contatos com produtos químicos fortes,
quedas de escadas, lesões por esforço repetitivo e assim por diante. A
dificuldade é provar o chamado nexo causal entre o dano e o trabalho, pois
para isso é necessário o testemunho de alguém. No caso da trabalhadora
doméstica, que normalmente trabalha sozinha, as únicas testemunhas
possíveis seriam os próprios patrões.

O que o empregador deve fazer em caso de acidente de trabalho é emitir a


CAT, Comunicação de Acidente de Trabalho, o que pode ser feito inclusive
de maneira online aqui. O empregador é obrigado a informar à Previdência
Social todos os acidentes de trabalho ocorridos com seus empregados,
mesmo que não haja afastamento das atividades, até o primeiro dia útil
seguinte ao da ocorrência. Se a empresa não fizer o registro da CAT, o
próprio trabalhador, o dependente, a entidade sindical, o médico ou a
autoridade pública (magistrados, membros do Ministério Público e dos
serviços jurídicos da União e dos estados ou do Distrito Federal e
comandantes de unidades do Exército, da Marinha, da Aeronáutica, do
Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar) poderão efetivar a qualquer
tempo o registro deste instrumento junto à Previdência Social, o que não
exclui a possibilidade da aplicação da multa à empresa/empregador.
IR PARA ”SINDICATO DAS DOMÉSTICAS”: 

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