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UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA E SUAS VICISSITUDES NA FORMAÇÃO DO

PSICÓLOGO ESCOLAR BRASILEIRO 1

Rafael Roballo Wanderley


Universidade Federal de Pernambuco 2
rafaelroballo@hotmail.com

Pensar no amanhã é fazer profecia, mas o profeta não é um velho de barbas longas e
brancas, de olhos abertos e vivos, de cajado na mão, pouco preocupado com suas
vestes, discursando palavras alucinadas. Pelo contrário, o profeta é o que, fundado no
que vive, no que vê, no que escuta, no que percebe (...) fala, quase adivinhando, na
verdade, intuindo, do que pode ocorrer nesta ou naquela dimensão da experiência
histórico-social.
(FREIRE, 2000).

Contextualização histórica da Psicologia e a Educação

Olhar para o passado é uma forma de repensar o presente, e possibilitar novas


construções para o futuro na formação do psicólogo educacional. Segundo o teórico John
Dewey (1959), a educação deveria ser considerada por uma perspectiva de constante
reconstrução da experiência. Ter uma atitude de inquietação, diante das transformações
existentes na escola contemporânea, é uma atitude, antes de tudo, de re-significação das bases
que constituem a formação básica do contexto escolar atual.
Dentro do contexto histórico, pensar a psicologia como uma ferramenta propiciadora
de mudanças no meio social e educacional é algo que esta intimamente ligada à própria
existência da psicologia. Como afirma Coll (et. al., 1996), Herbart (1776-1841) já afirmara
1
Trabalho desenvolvido na graduação em Psicologia, com a supervisão do Professor Carlos Alberto
Gomes de Brito, psicólogo, fonoaudiólogo, especialista em Metodologia do Ensino Superior (Unicap/PE), Mestre
em Fonoaudiologia (PUC/SP), professor adjunto do Departamento de Psicologia da Unicap/PE e professor de
Literatura Infantil.
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Psicólogo, especialista na área clínica (Unicap/PE), Mestrando em Ciências da Computação
(UFPE/PE).
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que a Filosofia Moral deve indicar à Pedagogia os objetivos a serem alcançados, enquanto
que a Psicologia deve procurar os meios apropriados para isso.
Coll (et. al. 1996) destaca que três grandes áreas foram responsáveis pelas primeiras
formações da psicologia educacional no início do século XX: as pesquisas experimentais da
aprendizagem, o estudo e a medida das diferenças individuais e a Psicologia da Criança.
Conforme Coll (et. al. 1999, pp.18), há alguns autores que indicam que a finalidade principal
da psicologia da educação consiste em criar um conhecimento específico com relação aos
processos educativos, sempre utilizando, com esse objetivo, os princípios e as explicações da
psicologia como um instrumento de indagação e de análise.
Ainda na perspectiva histórica e contextual da psicologia ligada à educação, podem-se
destacar quatro grandes fases do desenvolvimento teórico e prático da psicologia dentro do
contexto escolar. Coll (ibid) aponta:

 Período até 1890, aproximadamente: fundamentalmente caracterizada pela


presença da filosofia como intermediadora da psicologia e a educação. Sabemos
que a estrutura da psicologia científica tal qual conhecemos nos dias de hoje ainda
encontrava-se em um momento de formação, onde as faculdades mentais e a
realidade do homem eram os principais objetos de discussão;

 De 1890 até 1920, aproximadamente: período marcado pelo surgimento da


psicologia como ciência. Grandes teóricos ficaram marcados na história da
psicologia neste período, como o experimentalista J. M. Catell (1860-1844), o
desenvolvimentista G. Stanley Hall (1844-1924) e o psicanalista Sigmund Freud
(1856-1839). Todos os três teóricos trouxeram contribuições significativas para o
pensamento educacional, marcada pela fundamentação da psicologia enquanto
ciência e o distanciamento do campo especulativo-filosofal;

 De 1920 até 1955, aproximadamente: há um crescimento na orientação do estudo


da psicologia social voltada para a educação. Destacam-se três grandes teóricos da
psicologia durante este período: os trabalhos do suíço Jean Piaget (1896-1980) e o
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surgimento do construtivismo (marcadamente pelo estudo do desenvolvimento


cognitivo da criança e do adolescente); os trabalhos do bielo-russo Lev S. Vigotsky
(1896-1934) levantando a tese da gênese social do psiquismo, estruturada por meio
de um sistema de signos; e por fim, Henri Wallon (1879-1962), com sua teoria
pedagógica que afirma que o desenvolvimento intelectual envolve muito mais do
que um simples cérebro (introduzindo os conceitos de afetividade, o movimento, a
inteligência e a formação do eu como pessoa);

 A partir de 1955, aproximadamente: os movimentos que se seguem a partir da


década de 50 em todo mundo transformaram a psicologia da educação por
completo. Talvez pelas grandes transformações que o mundo vivenciara nesta
época pós-guerras mundiais. Podemos destacar os trabalhos de Paulo Freire (1921-
1997) com a educação libertadora e os movimentos de alfabetização no Brasil e em
diversos países no Mundo; os trabalhos do norte-americano Carl Roger (1902-
1987), sua psicologia humanística e as relações do aluno-professor; além da
psicolinguista argentina Emília Ferreiro (1936-...), discípula do suíço Jean Piaget,
que trouxe contribuições significativas para o processo de ensino da leitura e da
escrita.

Psicologia e Educação no Brasil

O processo de educação no Brasil pode ser entendido como um movimento marcado


pelo antes e depois do surgimento da educação libertadora, proposta pelo educador Paulo
Freire. É preciso entender, antes de tudo, que o processo da educação no Brasil sempre teve
um caráter fenomenalmente sócio-político. Desde a chegada dos portugueses ao Brasil, e a
implantação dos centros de estudos católicos, até os movimentos em prol da alfabetização no
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país (como o MOBRAL 3 , por exemplo) nunca tiveram em seu âmago a observação do
contexto social em que se vivia a criança ou adolescente em seu processo de aprendizagem.
Destacamos que a desigualdade social no Brasil sempre foi um dos fatores mais
marcantes no contexto amplo, influenciando, assim, a maneira como a educação era aplicada
nas mais diversas escolas do país. Conforme apontam Scocuglia (1999) e Gadotti (1988), é
sabido que em grande maioria, os setores elitistas impõem suas práticas educativas visando
conservar e reproduzir seus interesses, como se fossem interesses de toda a sociedade.
Paulo Freire ganhou muita força no Brasil em meados das décadas de 1950 e 1960,
diante dos movimentos nacional-desenvolvimentista, e pelo populismo progressista,
enveredados pelos presidentes Juscelino Kubitschek (período 1955-1960) e por João Goulart
(período 1961-1964). Scocuglia (1999, pp.29) destaca que isto ocorreu, principalmente, por
força da propaganda oficial do governo neste período, pelo qual as políticas de alfabetização
deveriam ter uma ênfase especial, pois sem elas o país no avançaria em direção ao progresso.
O surgimento do “Método Paulo Freire” de alfabetização condiz com as problemáticas
vividas no Brasil, onde a ausência do brasileiro nas questões políticas do país tornava-os
completamente submissos ao sistema vigente. Para Freire (apud. PATTO, 1985), o professor
que apenas deposita o conhecimento nos alunos age como um detentor pleno do saber; onde o
saber é visto como uma doação dos que se julgam seus detentores. Freire denominará esta
instância como uma “educação bancária”.

Em lugar de comunicar-se, o educador faz “comunicados” e depósitos que os


educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis aí
a concepção “bancária” da educação, em que a única margem de ação que se oferece
aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los. Margem para
serem colecionadores ou fichadores das coisas que arquivam. No fundo, porém, os
grandes arquivados são os homens, nesta (na melhor das hipóteses) equivocada
concepção “bancária” da educação. (...) Educador e educandos se arquivam na
medida em que, nesta distorcida visão da educação, não há criatividade, não há
transformação, não há saber. Só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca
inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem do mundo, com o mundo e
com os outros.
(ibid, pp.55)

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Movimento Brasileiro de Alfabetização.
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Diante desta manifestação presente na educação do Brasil, Freire propõe uma educação
libertadora, método pelo qual levam em consideração as manifestações culturais presentes nos
alunos que se expõem a ato do aprendizado. A valorização da cultura do aluno é um dos
pontos centrais no processo de conscientização do educador, e esta no cerne de seu método de
alfabetização, formulado inicialmente para o ensino de adultos.
Em contrapartida à educação bancária, Freire destaca que

A educação libertadora, problematizadora, já não pode ser o ato de depositar, ou de


narrar, ou de transferir, ou de transmitir “conhecimentos” e valores aos educandos,
meros pacientes, à margem da educação “bancária”, mas um ato cognoscente. Como
situação gnosiológica, em que o objeto cognoscível, em lugar de ser o término do ato
cognoscente de um sujeito, é o mediatizador de sujeitos cognoscentes, educador, de
um lado, educandos, do outro, a educação problematizadora coloca, desde logo, a
exigência da superação da contradição educador-educandos. Sem esta, não é possível
a relação dialógica, indispensável à cognoscibilidade dos sujeitos cognoscentes, em
torno do mesmo objeto cognoscível.
(PATTO, 1985, pp.64)

A grande contribuição de Paulo Freire, sem dúvidas, foi destacar que se a educação
sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. Para Freire (1979),
a alfabetização não se pode fazer de cima para baixo, nem de fora para dentro, mas de dentro
para fora do próprio analfabeto, somente ajustado pelo educador.

Das vicissitudes da formação do Psicólogo Escolar

A partir do que se observa na contextualização histórica da psicologia e a educação, é


preciso pensar quais as propostas existentes na formação prática do psicólogo enquanto agente
mediador na educação de crianças e adolescentes, que tendências moldam a formação teórica
do psicólogo no contexto da educação, e qual o futuro da psicologia escolar no Brasil.
É preciso, acima de tudo, pensar no contexto social em que se insere a criança e o
adolescente nos dias atuais. Problemáticas que não se observavam no passado do Brasil, por
exemplo, emergem a todo o momento no contexto atual. Bzuneck (1999) aponta que os
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desafios são os mais diversos: lidar com famílias não-nucleares, gravidez na adolescência,
inserção da tecnologia no ambiente cotidiano – ou novas formas de comunicação,
criminalidade crescente no período da infância, uso de novas drogas, entre outros.
Para Bzuneck (ibid) é preciso ser criativo na prática da psicologia educacional. Ele
destaca a seguinte afirmativa:

Anita Woolfolk 4 , em seu texto de Psicologia Educacional, conclui cada capítulo


com citações de experiências reais de professores: como uma leva os alunos a
permanecerem em cima da tarefa, mediante um programa de uso de reforçadores;
como outra faz ligar os textos com a vida; outra, como usa a vida real, os conceitos
dos alunos para com eles trabalhar seu conteúdo. Esta forma habitual de exposição
praticada pela autora cria nos alunos de Psicologia Educacional a idéia de que é
preciso ser criativo na prática (educação é alie, é criatividade); e que, ao mesmo
tempo, os princípios e teorias têm real aplicabilidade; e que na aplicação, devem
levar-se em conta as nuanças do contexto, do tipo de alunos, as circunstâncias
históricas e sociais etc. Em suma, a Psicologia Educacional hoje trabalha menos com
os aspectos gerais do que com a aplicabilidade criativa a cada situação.

O que observamos é a real necessidade do entrelaçamento das diferentes práticas


existentes no contexto escolar. Na atualidade, o Brasil vivencia um processo de transição,
onde as práticas escolares estão cada vez mais em evidência, acentuando-se, assim, a
necessidade pelas melhorias da escola, e consequentemente, na maior inserção do psicólogo
dentro do contexto escolar. Para Joly (2000),

A Psicologia Escolar esta a serviço de todos os que são educados e influenciam o


processo de desenvolvimento do educando sob todos os aspectos, considerando-se,
de modo geral, o processo ensino-aprendizagem baseado no desenvolvimento motor,
cognitivo, emocional e social, a estrutura curricular, a orientação e formação
continuada dos professores e o estabelecimento de parcerias com as famílias desde a
Educação Infantil ao Ensino Universitário.

Tendências que moldam a formação teórica do profissional atuante no campo da


Psicologia e a Educação precisam ser as mais amplas possíveis. Observa-se, na atualidade, que
os cursos de psicologia proporcionam cada vez mais uma formação ampla e condizente com a

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Teórica no campo da psicologia da educação, Anita Woolfolk (Ph.D em Psicologia da Educação –
professora pesquisadora da Universidade do estado de Ohio, Estados Unidos) destaca-se pelo uso da realidade
cotidiana (problemas) dentro do processo de aprendizagem e ensino, no geral.
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realidade social em que se vive o homem inserido na realidade. Contudo, é preciso erradicar a
noção persistente que determinadas teorias, quando aplicadas, obtêm resultados mais eficazes
no contexto amplo e social. Os atravessamentos teóricos são características cada vez mais
presentes nas teorias modernas de aprendizagem e educação.

Para Morin (2003, pp.191) o objetivo do conhecimento não é fornecer uma resposta
absoluta e completa em si como última palavra, mas é abrir o diálogo e não enclausurá-lo, não
só arrancando desse universo o que pode ser “determinado claramente, com precisão e
exatidão, como as leis da natureza, mas, também, entrar no jogo do claro-escuro que é o da
complexidade”.
As vicissitudes que decorrem da formação do psicólogo escolar no Brasil estão muito
relacionadas a práxis decorrente da sua formação acadêmica. Para Sawaya e Cabral (2001,
pp.154),

Apesar do aumento crescente de publicações e relatos de experiência voltados para a


revisão crítica do conhecimento acumulado pela psicologia e dos resultados positivos
dos novos rumos da psicologia escolar em alguns centros de pesquisa e intervenção,
o que aparece em cena ainda é uma prática profissional baseada em discursos, muitas
vezes não sustentáveis do ponto de vista científico, havendo coexistência de recortes
de várias teorias que utilizam modelos de intervenção baseados apenas em
procedimentos técnicos e preconceitos de moda.

Assim, concluímos o presente artigo afirmando que é preciso uma revisão histórico-
conceitual da prática em formação do psicólogo escolar, e principalmente da revisão histórica
das teorias utilizadas em processos de educacional. Dentro de uma perspectiva de futuro, o
psicólogo que se coloca diante do contexto educacional precisa se inserir, antes de tudo, na
realidade social vivenciado pelas crianças e adolescente nos seus respectivos cotidianos. É
preciso trabalhar, sobretudo, na ampliação dos conhecimentos teóricos, não se limitando a
determinadas práticas bem sucedidas na clínica, porém, menos eficazes no contexto
educacional.
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Referências Bibliográficas

Bzuneck, J. A. (1999). A psicologia educacional e a formação de professores: tendências


contemporâneas. (Vol.3, n.1, pp.41-52) Online: Psicologia Escolar e Educacional.

Cabral, E. & Sawaya, S. M. (2001). Concepções e atuação profissional diante das queixas
escolares: os psicólogos nos serviços públicos de saúde. (Vol.6, n.2, pp. 143-155). Online:
Estudos de Psicologia: Natal.

Coll, C., Palacios, J. & Marchesi, A. (1996). Desenvolvimento psicológico e educação –


Psicologia da Educação. (Volume 2). Porto Alegre, RS: Artes Médicas.

__________ et. al. (1999). Psicologia da Educação. Porto Alegre, RS: Artes Médicas.

Dewey, J. (1959). Democracia e educação: introdução à filosofia da educação. (3a ed.).


São Paulo, SP: Nacional.

Freire, P. (1985). Educação bancária e educação libertadora. In: PATTO, M. H. S. (Org.).


Introdução a psicologia escolar. (3a ed., pp.54-70). São Paulo, SP: T. A. Queiroz.

__________. (1979). Educação e mudança. Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra.

__________. (2000). Pedagogia da indignação – cartas pedagógicas e outros escritos. (1a


ed.). São Paulo, SP: Editora Unesp.

Gadotti, M. (1988). Pensamento Pedagógico Brasileiro. (2a ed.). São Paulo, SP: Ática.

Joly, M. C. R. A. (2000). A formação do psicólogo escolar e a educação no terceiro


milênio. (Dez., vol.4, n.2, pp.51-55.). Online: Psicologia Escolar e Educacional.
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Morin, E. (2003). Ciência com consciência. (7a ed.). Rio de Janeiro, RJ: Bertrand Brasil.

Scocuglia, A. C. (1999). A história das idéias de Paulo Freire e a atual crise de


paradigmas. (2a ed.). João Pessoa, PB: Ed. Universitária / UFPB.