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Tema III

Política Fiscal e a Crise Econômica Internacional


Política Fiscal e a Crise Econômica Internacional – Menção honrosa

Fernando Motta Correia*

Preferências Fiscais e
Limites Cíclicos Orçamentários

* Doutor em Economia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professor do Departamento de Economia
da UFPR.
Resumo
O objetivo deste trabalho é mostrar os custos e os limites envolvidos na
consecução de uma política fiscal anticíclica, incorporando essa nova roupagem
em relação ao instrumental de política monetária. É desenvolvido um modelo
macrodinâmico que incorpora na sua dinâmica de longo prazo o efeito da decisão
cíclica do planejador orçamentário sobre trajetória de crescimento econômico,
tendo por base o cálculo das variações. O principal resultado da pesquisa mostra
que a escolha da trajetória temporal do orçamento público, sobretudo em se tra-
tando de uma política fiscal anticíclica, depende da propensão coletiva por maio-
res déficits públicos no futuro.

Palavras-chave: política fiscal; macrodinâmica; preferências coletivas.


Sumário
1 Introdução, 5

2 Velhos e novos argumentos para a política fiscal, 6

3 Preferências fiscais temporais num modelo dinâmico, 11

3.1 Equilíbrio de curto prazo, 16

3.2 Dinâmica de longo prazo, 19

4 Racionalidade da política fiscal e escolhas coletivas, 22

5 Considerações finais, 25

Referências, 26

Quadro
Quadro 1. Sistema de equações, 17
Política Fiscal e a Crise Econômica Internacional – Fernando Motta Correia

1 Introdução
As prescrições de política econômica desencadeadas com a ruptura do ar-
cabouço keynesiano a partir do início da década de 1970 denotaram uma nova
roupagem acerca da conduta da política fiscal, tendo em vista os efeitos neutros
que tal política exerce sobre as demais variáveis.
Não é demais lembrar que a crítica que se fundamentou em relação aos mo-
delos tradicionais, e por assim dizer aos efeitos do receituário keynesiano, teve
por base os elementos tradicionais do instrumental IS-LM. Contudo, a mudança
do instrumental monetário a partir do início da década de 1990 em muitas eco-
nomias sob a roupagem do regime de metas de inflação reflete-se numa relação
diferente daquelas verificadas no instrumental tradicional, sobretudo em relação
à operacionalização do regime monetário do tipo metas de inflação. Economias
que utilizam esse regime monetário acabam por restringir a capacidade de finan-
ciamento dos déficits públicos devido à necessidade de subordinação de algumas
variáveis macroeconômicas quando da utilização de tal mecanismo, como é o
caso do financiamento do déficit via instrumentos monetários, ou, mais especifi-
camente, via imposto inflacionário. Dado que o financiamento monetário do dé-
ficit tende a reduzir a taxa de juros de curto prazo devido ao aumento do estoque
nominal de moeda, tal efeito acaba descaracterizando a submissão de todas as
variáveis em favor da utilização da taxa de juros como principal instrumento na
perseguição da meta de inflação pelo Banco Central.
O receituário fiscal a partir do início da década de 1990 associa-se a um
novo arcabouço operacional de política monetária, de modo que o enfoque novo-
clássico de orçamento equilibrado que faz uso de programas de ajuste fiscal tem o
controle do estoque da dívida pública, medido em relação ao PIB, como objetivo
central de curto prazo.
Esse novo consenso teórico em relação à sustentabilidade da dívida pública
trabalha com a ideia da centralidade da política monetária em relação ao papel ati-
vo que esta desempenha na formulação de políticas econômicas ativas. Todavia,
além da necessidade de se preservar uma dívida pública sustentável, a literatura
aponta outra estratégia pela qual o planejador orçamentário é tentado a guiar suas
decisões: a necessidade de conduzir o orçamento de maneira cíclica, em que,
dependendo do tipo de economia que se está analisando, a política fiscal terá um
caráter anticíclico e decisivo na minimização das flutuações econômicas.
O objetivo deste trabalho é mostrar os custos e os limites envolvidos na
consecução de uma política fiscal anticíclica, incorporando essa nova roupagem
em relação ao instrumental de política monetária.

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Para atingir o objetivo proposto, o estudo está organizado em quatro se-


ções, além desta introdução. Na segunda seção é feito um breve apanhado teórico
acerca dos velhos e dos novos argumentos para a política fiscal, com o objetivo
de identificar os principais elementos macroeconômicos que possam contribuir
para a análise da conduta fiscal. Em seguida, na terceira seção é desenvolvido um
modelo macrodinâmico que incorpora na sua dinâmica de longo prazo o efeito da
decisão cíclica do planejador orçamentário sobre trajetória de crescimento eco-
nômico, tendo por base o cálculo das variações. Na quarta seção discutem-se a
racionalidade da política fiscal e as escolhas coletivas, com o objetivo de apontar
a principal contribuição do modelo macrodinâmico. Por fim, na quinta seção es-
tão as considerações finais.

2 Velhos e novos argumentos


para a política fiscal
Segundo o princípio da demanda efetiva, a natureza instável, presente nas de-
cisões de investimento, proporciona – tanto para a produção como para o emprego
corrente nas economias de mercado – oscilações entre períodos de superemprego
e de desemprego involuntário. Assim, as expectativas e o risco associados a todos
os investimentos, num mundo onde prevalecem a incerteza e a ignorância sobre o
futuro, tornam-se variáveis fundamentais que explicam as crises do capitalismo.
Nos períodos em que as expectativas desfavorecem o investimento, am-
pliando o desemprego, segundo Keynes, não há qualquer tendência endógena que
favoreça sua recuperação, ao passo que como os gastos em investimento deter-
minam a renda agregada, sua retração acaba prejudicando a renda das empresas,
o que contribui para realimentar o pessimismo das expectativas. Tal tendência
fortalece-se devido ao efeito multiplicador que a queda nos investimentos exerce
sobre a renda agregada a partir da retração induzida no consumo.
Assim, as implicações de política econômica apontam ao orçamento pú-
blico um papel anticíclico no qual é atribuído ao gasto, sobretudo o déficit do
governo, o instrumento capaz de reverter cenários de desemprego, presentes nas
economias de mercado.
Conforme exposto por Carvalho (1995), nos períodos de recessão o go-
verno deve ampliar suas despesas em investimento, na tentativa de expandir a
demanda agregada no curto e no médio prazos, contribuindo para uma melhor
expectativa de lucro das empresas, o que, por sua vez, motiva a recuperação dos
investimentos privados.

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Embora a política fiscal anticíclica seja, na ótica keynesiana, um importan-


te instrumento que permite ao policy maker minimizar os efeitos gerados pelas
flutuações econômicas, aplicado amplamente do pós-guerra até fins da década de
1960 nas diversas economias do mundo, as experiências e os resultados de políti-
ca econômica permitiram suscitar elementos de avaliação de tais políticas fiscais.
O cenário de instabilidade e desequilíbrio macroeconômico que se iniciou
na década de 1970 desafiou as propostas keynesianas, sobretudo em relação aos
efeitos colaterais dos déficits públicos, questionando a conveniência, a eficácia e
a sustentabilidade das proposições teóricas da política fiscal keynesiana. As crí-
ticas associadas ao receituário keynesiano compreendiam de maneira geral duas
questões: a primeira estava associada ao chamado efeito crowding out, no qual
as expansões do déficit público gerariam a expulsão dos gastos privados e dos
investimentos, comprometendo um ritmo mais acelerado de crescimento econô-
mico; o segundo apontamento dos críticos1 estava na origem da inflação presente
nas diversas economias do mundo a partir da década de 1970, quando a inflação
de demanda continha um componente expectacional em função do financiamento
monetário dos déficits públicos.
Em razão disso, o embate teórico que se configurou após a queda do recei-
tuário keynesiano de conduta fiscal apontava para os programas de ajuste fiscal,
com o objetivo de induzir os diversos países que detinham no plano do orçamento
público uma ameaça à estabilidade macroeconômica à gradativa redução da dívi-
da pública.
A principal hipótese que acompanha esse novo receituário sustenta a ideia
de neutralidade da política fiscal, tendo em vista o teorema da equivalência ricar-
diana. Diz o teorema que o aumento de déficits públicos faz com que os indiví-
duos antecipem a necessidade de aumento futuro nos impostos, uma vez que tais
agentes observam seu horizonte de tempo com base em expectativas racionais.
Assim, tendo em vista que o aumento de déficits públicos implica uma maior dívi-
da e por consequência um maior volume de encargos financeiros, presume-se um
aumento futuro nos impostos para que as condições de solvência do setor público
sejam preservadas intertemporalmente. Nessa hipótese, agentes racionais retêm o
aumento atual da renda gerada pelo acréscimo no déficit público sob a forma de
poupança na tentativa de financiar o aumento futuro dos impostos.
É importante associar ao conteúdo crítico da escola novo-clássica em re-
lação ao receituário keynesiano a forma como é conduzida a política monetária,
uma vez que a hipótese de neutralidade fiscal está associada à possibilidade de
financiamento do déficit público por meio da emissão de moeda, tendo como re-

1 As críticas neomonetaristas eram comandadas inicialmente por Milton Friedman e, a partir da década de 1970, pelos
economistas da escola novo-clássica.

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ferência a simplicidade do modelo IS-LM convencional. O que está presente nas


entrelinhas é o questionamento da validade da análise crítica da escola novo-clás-
sica pautada sob bases do arcabouço do modelo IS-LM de origem keynesiana, em
que a política monetária, por meio do regime de metas monetárias e expectativas
racionais, torna neutra a política fiscal.
A lógica da crítica novo-clássica perpassa, portanto, pela teoria convencio-
nal, que sugere que os aumentos dos déficits e da dívida pública geram importantes
consequências no comportamento e na inter-relação das variáveis macroeconômi-
cas. Essas consequências estão associadas a um arcabouço no qual as variáveis
fiscais têm na sua exogeneidade uma importante fonte de distúrbios que poderá
refletir-se em desequilíbrios macroeconômicos. Tradicionalmente, o aumento dos
déficits públicos conduz a um aumento da renda e do produto agregado, que se
reflete numa expansão da taxa de juros devido à pressão da demanda agregada
sobre o mercado monetário. Esse resultado pode ser verificado no modelo IS-LM,
no qual o equilíbrio entre os mercados de bens e monetário torna tanto a renda
nacional como a taxa de juros as variáveis endógenas do sistema. Mas em que
medida mudanças na conduta monetária, ou melhor, no regime monetário, podem
redefinir a natureza e a conduta das variáveis fiscais? A pergunta que se coloca
refere-se aos efeitos da sofisticação dos instrumentos de política monetária sob a
conduta das variáveis fiscais que estão associadas ao sistema macroeconômico.
Por exemplo, a partir do início da década de 1990, várias economias passa-
ram a utilizar o mecanismo de metas de inflação como regime de conduta monetá-
ria; junto com essa âncora monetária, o comprometimento das variáveis fiscais no
atendimento da restrição do governo por meio da instrumentalização das receitas
e dos gastos públicos, uma vez que o financiamento público por meio da senho-
riagem pode provocar desajustes macroeconômicos, impedindo o alcance dos ob-
jetivos estabelecidos, como a convergência da inflação a uma meta estabelecida.
A característica maior desse arcabouço de política monetária é o anúncio
público de metas quantitativas oficiais para a taxa de inflação, tendo como prin-
cipal objetivo de longo prazo uma inflação baixa e estável (BERNANKE et al.,
1999). Ou seja, existe no longo prazo a preocupação da autoridade monetária em
guiar a taxa de juros (i) com base nos desvios da inflação (π) em relação a uma
meta preestabelecida (π*), tendo em vista os eventuais distúrbios na atividade
econômica ( ). Essa relação pode ficar mais clara observando-se a equação
diferencial a seguir:

Nesse novo arcabouço monetário, a utilização da taxa de juros como princi-


pal instrumento de política monetária possibilita aos Bancos Centrais uma flexibi-

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lidade para reagir aos choques macroeconômicos de curto prazo, reintroduzindo


essa variável instrumental, a taxa nominal de juros, como elemento exógeno de
curto prazo, sendo esta um elemento endógeno nos modelos tradicionais key-
nesianos. Assim, no curto prazo teríamos a seguinte especificação para a taxa
nominal de juros:

onde os movimentos de curto prazo da taxa de juros são estabelecidos exogena-


mente de acordo com as decisões da autoridade monetária. Assim, no curto prazo
a autoridade monetária age de forma discricionária diante de uma regra de longo
prazo tanto da estabilidade inflacionária quanto do ritmo de atividade econômica.
O uso da taxa de juros como principal instrumento de política monetária
desempenha ainda um efeito relevante em relação ao equilíbrio das contas ex-
ternas. Sendo esse componente macroeconômico uma importante fonte de disse-
minação de choques, dependendo da economia que está sendo considerada (em
desenvolvimento ou desenvolvida), algumas relações devem ser explicitadas. Por
exemplo, nas economias com baixo nível de renda, expansões da renda devem se
refletir em redução no volume de poupança, dada a necessidade de expansão do
consumo num primeiro momento, assim a taxa de juros deve exercer um efeito
negativo sobre a poupança com o objetivo de dotar a autoridade monetária de ins-
trumentos para controlar o movimento de capitais e, com isso, exercer indireta-
mente influência sobre o câmbio. Sendo R o montante de reservas internacionais
e S o volume de poupança, dependendo do tipo de economia, choques no volume
de reservas influenciados pelo movimento da taxa de juros exercem impacto na
dinâmica de longo prazo, dados os possíveis efeitos ambíguos considerados.
Por conta disso, do ponto de vista temporal, o déficit público é uma variá-
vel-chave quando avaliados os instrumentos e os objetivos das políticas macro-
econômicas, sobretudo quando estas contemplam na sua política monetária um
regime monetário do tipo metas de inflação.
As economias que se utilizam do mecanismo de metas de inflação neces-
sitam de um comprometimento das variáveis fiscais no atendimento da restrição
fiscal do governo por meio do uso das receitas e dos gastos públicos. Num cenário
em que a política monetária busca uma meta de inflação preestabelecida, os des-
vios da inflação em relação a essa meta proporcionarão efeitos sobre os déficits
públicos, dado que a taxa nominal de juros é também um importante indexador
dos títulos do governo, onerando demasiadamente a dívida pública.
Nesse caso, a conduta fiscal, considerando uma lógica ricardiana, ou seja,
com o objetivo de manter sustentável a restrição intertemporal do setor público,
subordina-se a manter na sua dinâmica um comportamento crível em relação aos
gastos e às receitas do governo.

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Em resumo, embora as prescrições de política econômica desencadeadas


com a ruptura do arcabouço keynesiano a partir do início da década de 1970
tenham denotado uma nova roupagem acerca da conduta da política fiscal, ten-
do em vista os efeitos neutros que tal política exerce sobre as demais variáveis,
não é demais lembrar que a crítica que se fundamentou em relação aos modelos
tradicionais, e por assim dizer aos efeitos do receituário keynesiano, teve por
base os elementos tradicionais do instrumental IS-LM. Contudo, a mudança do
instrumental monetário a partir do início da década de 1990 em muitas econo-
mias sob a roupagem do regime de metas de inflação reflete-se numa relação
diferente daquelas verificadas no instrumental tradicional, sobretudo em relação
à operacionalização do regime monetário do tipo metas de inflação. Economias
que utilizam esse regime monetário acabam por restringir a capacidade de finan-
ciamento dos déficits públicos devido à necessidade de subordinação de algumas
variáveis macroeconômicas quando da utilização de tal mecanismo, é o caso do
financiamento do déficit via instrumentos monetários, ou, mais especificamente,
via imposto inflacionário. Dado que o financiamento monetário do déficit tende a
reduzir a taxa de juros de curto prazo devido ao aumento do estoque nominal de
moeda, tal efeito acaba descaracterizando a submissão de todas as variáveis em
favor da utilização da taxa de juros como principal instrumento na perseguição da
meta de inflação pelo Banco Central.
Preservar a restrição fiscal do setor público num cenário em que a política
monetária contempla um regime de metas de inflação é essencial para o alcance
dos objetivos macroeconômicos, qual seja: estabilidade de preços e controle do
endividamento público.
Diante dessa análise, o receituário fiscal a partir do início da década de 1990
associa-se a um novo arcabouço operacional de política monetária, de modo que
o enfoque novo-clássico de orçamento equilibrado que faz uso de programas de
ajuste fiscal tem o controle do estoque da dívida pública, medido em relação ao
PIB, como objetivo central de curto prazo.
Todavia, mesmo que o enfoque novo-clássico da conduta fiscal tenha trans-
plantado as prescrições de política keynesiana, vale destacar que nos momentos
de crise as políticas fiscais anticíclicas desempenham um importante instrumento
que minimiza as flutuações econômicas. Se a autoridade monetária opera com a
taxa de juros com o objetivo não só de guiar a inflação para uma meta preesta-
belecida como também os eventuais distúrbios do produto, não se pode ignorar
a capacidade dos multiplicadores fiscais de minimizar os choques suscetíveis a
qualquer economia.
Nesse sentido, devem-se avaliar, considerando uma política fiscal mante-
nedora de um orçamento público equilibrado, os limites quanto a sua capacidade

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de comportamento anticíclico ante esses eventuais choques. A questão que se


coloca é avaliar o trade off entre minimizar as variações da dívida pública e gerar
um orçamento público anticíclico. Esse questionamento envolve antes de tudo
a propensão da sociedade de suportar aumentos no déficit público diante da ne-
cessidade de uma política fiscal anticíclica que atenda a uma demanda social de
retardamento dos choques econômicos.
Tendo em vista a trajetória da dívida no tempo, há uma possível relação
entre fragmentação temporal das preferências fiscais, ou seja, a escolha entre po-
líticas anticíclicas ou pró-cíclicas, e as preferências sociais em aumentos ou redu-
ções dos déficits. Assim, existe uma taxa de desconto intertemporal β do déficit
público que sinaliza o quanto a sociedade está propensa a aceitar maiores déficits
públicos em favor de políticas fiscais anticíclicas para minimizar os eventuais
choques e instabilidades do produto.

3 Preferências fiscais temporais


num modelo dinâmico
Considere inicialmente a equação que identifica a dinâmica temporal do
endividamento público:

(1)

Em (1) B representa os títulos públicos, G, os gastos públicos, T são os tri-


butos e i é a taxa de juros que incide sobre os títulos. Assumiremos em (1) duas
hipóteses: a primeira é que a política fiscal busca preservar a sustentabilidade da
dívida pública, minimizando suas variações temporais, de modo que ; a se-
gunda hipótese é a de que tanto os gastos públicos como os tributos são funções
do nível de atividade econômica, ou seja:

(2)

(3)

Nas equações (2) e (3), Y representa o produto da economia.


Especificadas as funções gastos e receitas, podemos reescrever a equação
(1) no seguinte formato:

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(4)

Se a política fiscal é por vezes conduzida de modo que minimize as flu-


tuações do produto, vamos considerar que a trajetória do orçamento público no
tempo seja dada pela seguinte equação diferencial no tempo:

(5)

Em (5) representa o orçamento público por meio da diferença entre os


gastos públicos e os tributos no tempo, de modo que a política fiscal tem um
comportamento anticíclico com o valor de θ menor que zero; ao contrário, se a
política é tida como pró-cíclica, θ será maior que zero.
Assim, as equações (4) e (5) exibem o importante dilema do planejador
orçamentário: conter a expansão do endividamento público ou minimizar as flu-
tuações econômicas?
Diante dessa situação podemos identificar o seguinte problema para o pla-
nejador orçamentário:
Minimizar (6)

s.a.

Estamos diante de um problema de cálculo variacional em (6), onde o pla-
nejador orçamentário busca minimizar sujeito à necessidade de contemplar um
orçamento cíclico.
A variável controle é aquela que frequentemente o policy maker deseja con-
trolar, na qual nosso problema é a flutuação do produto, ou seja, a trajetória de
Y(t). A variável estado é a variável cujo valor no tempo é determinada com base
nas decisões passadas da autoridade fiscal, denotadas pelos déficits públicos ou
superávits fiscais, V(t). Finalmente, acompanhando o valor da variável estado,
temos a variável coestado, a qual denotaremos por λ(t).
Com essas informações, o valor presente do hamiltoniano é dado pela se-
guinte expressão:

(7)

A primeira condição que caracteriza o comportamento ótimo é aquela em


que a derivada do hamiltoniano em relação à variável controle a cada ponto no
tempo é zero:

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(8)

A segunda condição é aquela em que a derivada do hamiltoniano com res-


peito à variável estado é igual à dinâmica no tempo da variável coestado:

(9)

A condição final é a condição de transversalidade dada por:

ou (10)

Da equação (8) temos

(11)

Extraindo a derivada do tempo de ambos os lados da equação (11):

(12)

Como um dos objetivos da autoridade fiscal é manter estável no tempo a


trajetória da dívida pública, em (12) é suposto steady-state para a dinâmica da
dívida pública no tempo:

(13)

Levando (13) em (9):

(14)

Fazendo algumas manipulações em (14):

(15)

Em (15) podemos isolar e obter a trajetória do produto sujeita à decisão do


planejador orçamentário de estabelecer uma política fiscal anticíclica ou pró-cíclica:

(16)

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Esta última equação mostra que a capacidade do multiplicador fiscal, no


sentido de gerar taxas de crescimento positiva no produto, está associada à mag-
nitude dos parâmetros α e ϕ, ou seja, uma política fiscal anticíclica com θ < 0 gera
taxas de crescimento econômico positivas quando α > ϕ. Ao contrário, um orça-
mento pró-cíclico com θ > 0 contribui positivamente para a expansão do produto
quando α < ϕ.
Na equação (16) devemos desagregar os componentes de curto prazo da
demanda agregada, ou seja, os componentes de Y no lado direito da equação (16).
O produto agregado é definido na equação (17), sendo este decomposto em
consumo, C, investimento, I, gastos públicos, G, e exportações líquidas, NX.
(17)
O investimento e o consumo têm uma relação positiva com a renda, e o con-
sumo, uma relação negativa com a taxa de juros, como mostram respectivamente
as equações (18) e (19).

(18)
(19)
A equação (20) relaciona as exportações líquidas com a taxa real de câmbio,
possuindo estas duas variáveis uma relação positiva.
(20)
A equação (21) define a taxa de câmbio nominal, sendo esta determinada
pela taxa de câmbio real, ε, pelo nível de preços internos, P, e pelo nível de preços
externos, P*.

(21)

A equação (22) lembra que o câmbio real tem uma relação de causalidade
com o volume de reservas disponível no país; pressupõe-se que quanto maior a
quantidade de reservas internacionais mais valorizada é a taxa de câmbio real.
(22)
A inflação no curto prazo é definida com base na curva de Phillips, como
mostra a equação (23).
(23)
Uma hipótese importante do modelo é que a poupança privada no curto pra-
zo, S, é determinada pelo nível de renda, Y, de modo que essa relação poupança/
renda é dada por uma função quadrática, conforme especificado na equação (24).

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(24)

A ideia presente na função poupança é que expansões da renda provocam


reduções da poupança até um determinado nível de renda, de modo que a partir
desse ponto aumentos na renda são acompanhados por incrementos de poupança.2
A equação (25) descreve a dinâmica das reservas internacionais no tempo,
em que esta é determinada aqui em dois componentes, o termo ρMK (S – I ), que
mede o impacto da entrada dos capitais de curto prazo com base no diferencial
entre poupança e investimento, e o segundo componente, ρNX NX, que expressa
o efeito do saldo líquido da balança comercial sobre a dinâmica dos fluxos de
capitais. Os sinais dos parâmetros ρMK (S – I ) e ρNX NX foram a priori omitidos,
uma vez que, dependendo do grau de abertura em determinadas economias, esses
parâmetros podem ser positivos ou negativos.

(25)
A taxa de juros de curto prazo é definida exogenamente pelo Banco Central,
uma vez que no longo prazo esta persegue uma meta de inflação; assim, de acordo
com a equação (26), temos .

(26)
Para a dinâmica da taxa de juros no longo prazo é assumido um regime de
metas de inflação, utilizando uma equação proxy para a função reação do Ban-
co Central ao longo do tempo. Essa equação apenas inclui a taxa de câmbio na
regra de Taylor, o que nos leva ao conhecido Índice de Condições Monetárias,
que mostra o impacto total da taxa de câmbio e da taxa de juros sobre a demanda
agregada, tornando a taxa de juros dependente tanto da política crível do Banco
Central quanto da dinâmica financeira dos capitais internacionais e das políticas
econômicas de outros países.

(27)

O mercado monetário está representado pela equação (28), uma vez que a
oferta de moeda se iguala à função demanda por moeda.

(28)

2 É suposto na equação (24) uma função quadrática com concavidade para cima, ou seja, , sendo S a
poupança e Y a renda e com S2 > 0. Assim, para valores da renda superior ao vértice da referida função parábola teremos
; ao contrário, com valores da renda inferior ao vértice da função parábola temos .

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O Quadro 1 apresenta por completo o sistema macroeconômico que está


sendo considerado. A próxima etapa é encontrar o equilíbrio de curto prazo e a
dinâmica de longo prazo.

3.1 Equilíbrio de curto prazo

Inserindo os componentes da demanda agregada, a equação (17) pode ser


reescrita da seguinte forma:
(17.1)
Subtraindo os impostos nos dois lados da equação anterior:
(17.2)
Uma hipótese estabelecida nas equações (2) e (3) foi a de que tanto os gas-
tos públicos como os tributos são funções do nível de atividade econômica, assim,
temos em (17.2):
(17.3)
Coletando termos em (17.3):

(17.4)

16 Finanças Públicas – XIV Prêmio Tesouro Nacional – 2009


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(16)

(17)

(18)

(19)

(20)

(21)

(22)

(23)

(24)

(25)

(26)

(27)

(28)

Quadro 1
Sistema de equações
Fonte: elaboração do autor

Levando (22) em (21) e supondo P = P*, a taxa de câmbio real pode ser
determinada pela seguinte equação:
(21.1)
Com base em (26) e (21.1), podemos reescrever a equação determinante da
demanda agregada no seguinte formato:

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(17.5)

Onde

O efeito de curto prazo da taxa de juros e das reservas internacionais sobre


o produto agregado é dado pelas seguintes estáticas comparativas:

É importante destacar que os resultados dessas estáticas comparativas se


confirmam para o caso de SY – IY > α, sendo a demonstração simples.
Seja

Fazendo alguns arranjos

Sabe-se que 1 – CY = SY , ou seja, preserva-se a relação macroeconômica


convencional entre a propensão marginal a consumir e a propensão marginal a
poupar. Assim, temos

Para ω > 0, temos de impor SY – IY > α. Ao contrário, se SY2 – IY > α, temos


ω < 0.
A inflação, determinada pela curva de Phillips, pode ser reescrita inserindo
a demanda agregada (17.5) em (23):

(23.1)

Os efeitos da taxa de juros e dos fluxos de capitais sobre a inflação podem


ser apresentados da seguinte forma:

Um efeito importante que deve ser considerado é o impacto dos choques de


oferta sobre a inflação, ou seja:

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Assim, expansões da capacidade produtiva contribuem para a queda do ní-


vel inflacionário.
Sabendo que a poupança é determinada pela renda, vamos inserir (15.5) em
(24), assim, temos

(24.1)

Onde

A função investimento pode ser expandida no seguinte formato, inserindo


(17.5) em (18):

(18.1)

Onde

No mercado monetário, com a taxa de juros definida exogenamente no curto


prazo por decisão da autoridade monetária, levando (26) e (17.5) em (28) temos a
seguinte equação de equilíbrio desse mercado:

(28.1)

3.2 Dinâmica de longo prazo

A análise das condições de estabilidade do sistema envolve a resolução da


dinâmica de longo prazo, composta pelas equações (16), (25) e (27), ou seja:

Finanças Públicas – XIV Prêmio Tesouro Nacional – 2009 19


Política Fiscal e a Crise Econômica Internacional – Fernando Motta Correia

Uma vez que no curto prazo foram identificadas as estáticas comparativas,


podemos montar a matriz jacobiana com base em três equações que determinam
a dinâmica de longo prazo do sistema. Para isso, devemos linearizar o sistema de
equações dinâmicas no entorno da sua posição de equilíbrio de longo prazo con-
siderando a primeira expansão de Taylor, ou seja:

Escrevendo o sistema na forma matricial, obtemos:

A equação característica do sistema, obtida pelos autovalores da matriz, é


dada por:

Onde I é uma matriz identidade de ordem 3 x 3 e

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Política Fiscal e a Crise Econômica Internacional – Fernando Motta Correia

Para verificar a estabilidade do polinômio descrito na equação característica


do sistema, devem-se destacar as condições de Routh-Hurwitz, como especifica-
do a seguir:
i)
ii)
iii)
iv)
A verificação dessas condições exige algumas relações importantes no que
tange às variáveis incorporadas no modelo. Num primeiro momento, a escolha da
política fiscal, seja pró-cíclica (θ > 0) ou anticíclica (θ < 0) está associada ao sinal
da taxa de desconto β, ou seja, para θ > 0 exige-se que β > 0 e com θ < 0 temos
β < 0. Assim, o uso do orçamento pela autoridade fiscal com o objetivo de mini-
mizar as flutuações do produto está condicionado à propensão das preferências
fiscais da sociedade, medida pela taxa de desconto intertemporal da dívida; ou
seja, a escolha de uma política fiscal anticíclica no presente depende do sinal da
taxa de desconto intertemporal da dívida pública, de modo que a sociedade deve
estar propensa a assumir uma maior dívida pública no futuro, dado que a política
fiscal anticíclica no presente exige uma taxa de desconto intertemporal negativa.
Independentemente da trajetória do orçamento ser pró-cíclica ou anticí-
clica, devemos impor a seguinte condição: PMK < 0; assim, o efeito de um fluxo
positivo de capitais sobre a dinâmica das reservas internacionais no tempo é
negativo. Além disso, há duas possíveis situações que devem ser incorporadas
à dinâmica do modelo: a primeira considera economias em fase de desenvolvi-
mento em que a relação poupança-renda seja negativa; a segunda leva em conta

Finanças Públicas – XIV Prêmio Tesouro Nacional – 2009 21


Política Fiscal e a Crise Econômica Internacional – Fernando Motta Correia

economias desenvolvidas em que a relação poupança-renda seja positiva. No


primeiro caso, com , deve-se confirmar o efeito negativo entre poupança e
taxa de juros, . No segundo caso, com , exige-se que o efeito da taxa
de juros sobre a poupança seja positivo, .
Vale destacar outras condições necessárias para que a dinâmica do sistema
seja considerada estável, porém tais condições são dadas como secundárias, dado
que sua relevância é incorporada em função da parametrização que se faz neces-
sária ao objetivo de identificar a situação de repouso do sistema.3
Portanto, os resultados da análise de estabilidade do modelo apontam para
o seguinte corolário: para os diferentes tipos de economia, em desenvolvimento
ou desenvolvidas, uma política fiscal anticíclica está condicionada às preferências
fiscais, de modo que um orçamento anticíclico no presente reflete uma propensão
por maiores déficits públicos no futuro.
Esse resultado é plausível em virtude dos custos associados à formulação
de políticas fiscais anticíclicas, ao passo que as preferências fiscais por maiores
déficits públicos se associam a um maior grau de incerteza da economia. Assim,
quanto mais instável as condições estruturais maior será o desejo social em as-
sumir um maior endividamento público no futuro, com o objetivo de utilizar o
orçamento presente para minimizar as flutuações do produto.

4 Racionalidade da política
fiscal e escolhas coletivas
A literatura acerca da racionalidade da política fiscal envolvendo escolhas
fiscais coletivas enfatiza o caráter cíclico da política fiscal, permitindo à autori-
dade fiscal utilizar o orçamento público como um importante instrumento com o
intuito de minimizar os efeitos gerados pelas flutuações econômicas.
Em contrapartida, nos momentos em que ocorrem ajustes macroeconômi-
cos a autoridade fiscal é obrigada a formular políticas de ajustes fiscais com o
objetivo de conter a expansão do endividamento público.
Assim, duas questões merecem destaque quando avaliada a conduta do pla-
nejador orçamentário. A primeira leva em conta os diferentes objetivos da auto-

3 São três as condições consideradas secundárias: (i) ; (ii) e (iii) .

22 Finanças Públicas – XIV Prêmio Tesouro Nacional – 2009


Política Fiscal e a Crise Econômica Internacional – Fernando Motta Correia

ridade fiscal, qual seja, minimizar as flutuações econômicas ou desenvolver pro-


gramas de ajustes fiscais. A segunda refere-se aos custos envolvidos na escolha
de qualquer uma das opções.
Com o objetivo de explicar os efeitos dos programas de ajustes fiscais, os
modelos tradicionais relacionam os gastos públicos como um importante compo-
nente de demanda agregada, e, dessa forma, políticas fiscais que priorizam cortes
nas despesas com aumento dos tributos acabam gerando efeitos sobre o nível de
endividamento público.4 É bom lembrar que o sucesso de programas fiscais, no
intuito de conter a expansão da relação dívida/PIB, está associado, na maior parte
das vezes, aos efeitos convencionais que os déficits públicos desempenham sobre
a demanda agregada.
Uma vez que períodos de austeridade fiscal são sucedidos por períodos de
incremento no déficit público, segundo Alesina e Tabellini (1990), a dívida do
governo pode ser usada estrategicamente por cada policy maker para influenciar
as escolhas de seus sucessores. Para os autores, se diferentes policy makers dis-
cordam acerca da composição desejada dos gastos públicos, a economia exibe
um déficit viesado devido à mudança na taxa de impostos, e assim a acumulação
da dívida seria maior do que a situação em que prevalecem as decisões de um
planejador central.
Para Alesina e Tabellini (2005), o gerenciamento da política fiscal está as-
sociado a um problema de agenda política, uma vez que devido à demanda por
bens públicos e a uma menor incidência de impostos os governantes geram um
comportamento pró-cíclico para a política fiscal, induzindo a um endividamento
público excessivo.
Quando se avalia o efeito dos ciclos sobre a política fiscal, a literatura dis-
tingue duas possibilidades. No caso dos países desenvolvidos, as análises empí-
ricas indicam um comportamento anticíclico da política fiscal. Segundo Perotti
(2002), as propriedades cíclicas da política fiscal, no caso dos países da OCDE,
parecem indicar uma natureza anticíclica. Os resultados obtidos por Perotti pa-
recem confirmar as análises de Melitz (1997), Arreaza et al. (1999), Wyokisz
(1999) e Gali e Perotti (2003), em que estes autores buscam estimar a resposta da
política fiscal ao ciclo econômico nos países da OCDE. Ao contrário, quando se
trata dos países em desenvolvimento a resposta da política fiscal em relação ao
comportamento da atividade econômica exibe um efeito pró-cíclico. Gavin e Pe-
rotti (1997) foram os primeiros a observar que na América Latina a política fiscal
é pró-cíclica, ou seja, os gastos do governo como parcela do produto crescem nas
expansões e decrescem nas contrações econômicas, com os déficits aumentando

4 Para uma discussão mais detalhada sobre a política de gerenciamento dos déficits e da dívida pública, ver Cukierman e
Meltzer (1989).

Finanças Públicas – XIV Prêmio Tesouro Nacional – 2009 23


Política Fiscal e a Crise Econômica Internacional – Fernando Motta Correia

nas fases de crescimento da economia e reduzindo nas fases de desaceleração da


economia. Talvi e Vegh (2005), Catao e Sutton (2002) e Kaminski, Reinhart e
Vegh (2004) observaram que políticas fiscais pró-cíclicas também são registradas
em outros países em desenvolvimento além dos latino-americanos.
Uma resposta para o comportamento pró-cíclico da política fiscal pode ser
apontada por Haque e Montiel (1989). Para os autores, os programas fiscais nos
países em desenvolvimento enfatizam a importância da redução dos déficits pú-
blicos na tentativa de aperfeiçoar o desempenho da poupança e do investimento
agregado. Assim, um baixo ritmo de crescimento econômico pode desencadear
uma redução do déficit público ou até mesmo a verificação de superávits orça-
mentários na tentativa de eliminar o efeito crowding out, ou seja, num cenário de
baixo ritmo de atividade econômica o policy maker pode estimular a economia di-
minuindo os gastos públicos para que o investimento privado seja potencializado.
O estímulo ao investimento privado deve levar em conta o papel das expec-
tativas em relação à política futura, ou seja, se a contração fiscal é interpretada
pelo setor privado como um sinal de que a parte dos gastos públicos no produto
está sendo permanentemente reduzida, as famílias revisarão as estimativas de sua
renda permanente, elevando seu consumo corrente e planejado.5 Para Giavazzi
e Pagano (1990), a conduta fiscal deve levar em consideração a frequência com
que o efeito contracionário de uma consolidação fiscal prevalece sobre seu efeito
expectacional expansionário.
A discussão de Giavazzi e Pagano perpassa pelos mecanismos tradicionais
de gerenciamento do orçamento público, que, na maior parte das vezes, não le-
vam em consideração os efeitos positivos de uma contração fiscal sobre a deman-
da agregada. Por conta disso, a resposta do planejador orçamentário às flutuações
econômicas pode estar associada a efeitos fiscais não convencionais.
Todavia, nos momentos de graves recessões a política fiscal não deveria de-
sempenhar efeitos fiscais não convencionais, haja vista que o orçamento público
desempenha um papel estratégico na minimização das flutuações do produto.
Independentemente do tipo de economia que se está avaliando, o planeja-
mento orçamentário leva em conta não só o caráter cíclico dos multiplicadores
fiscais, e por assim dizer dos convencionais modelos macroeconômicos, mas tam-
bém a necessidade de preservação de uma dívida pública sustentável, ou seja, um
ambiente fiscal solvente.
Em resumo, a literatura aponta duas estratégias pelas quais o planejador
orçamentário é tentado a guiar suas decisões: a primeira envolve a necessidade

5 Alguns trabalhos, como o de Sutherland (1997), sugerem que a política fiscal tem efeitos tradicionais quando a dívida
pública se encontra em níveis moderados.

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Política Fiscal e a Crise Econômica Internacional – Fernando Motta Correia

de conduzir o orçamento de maneira cíclica, em que, dependendo do tipo de eco-


nomia que se está analisando, a política fiscal terá um caráter anticíclico ou pró-
cíclico; a segunda estratégia envolve a necessidade de preservação de uma dívida
pública sustentável.
A questão que se coloca vai além dessas duas estratégias. Na seção anterior,
o resultado da análise macrodinâmica mostrou que os limites para a construção de
uma política fiscal anticíclica envolvem preferências coletivas acerca da propen-
são social da dívida pública futura. Assim, a principal contribuição da pesquisa
foi mostrar que decisões orçamentárias vão além do trade off orçamento cíclico-
sustentabilidade fiscal, e que o limite de uma política fiscal anticíclica envolve o
desejo coletivo de assumir os eventuais custos futuros, expresso por uma taxa de
desconto temporal dos déficits públicos negativa.

5 Considerações finais
O objetivo do trabalho foi mostrar os custos e os limites envolvidos na con-
secução de uma política fiscal anticíclica incorporando uma nova roupagem em
relação ao instrumental de política monetária.
Os programas de ajuste fiscal de inspiração novo-clássica procuram justifi-
car a necessidade de atendimento da restrição intertemporal do governo tendo por
base que os aumentos dos déficits e da dívida pública geram importantes consequ-
ências no comportamento e na inter-relação das variáveis macroeconômicas, de
acordo com o instrumental convencional keynesiano do tipo IS-LM.
As estratégias pelas quais o planejador orçamentário é tentado a guiar suas
decisões envolvem tanto a necessidade de conduzir o orçamento de maneira cí-
clica, em que, dependendo do tipo de economia que se está analisando, a política
fiscal terá um caráter anticíclico ou pró-cíclico, bem como a necessidade de pre-
servar uma dívida pública sustentável.
Os resultados da análise macrodinâmica mostraram que a escolha da trajetó-
ria temporal do orçamento público, sobretudo em se tratando de uma política fiscal
anticíclica, depende da propensão coletiva por maiores déficits públicos no futuro.
Assim, os limites para a construção de uma política fiscal anticíclica envolvem
preferências acerca do desejo coletivo por uma maior dívida pública futura. Nesse
sentido, a principal contribuição da pesquisa foi mostrar que decisões orçamentárias
vão além do trade off orçamento cíclico-sustentabilidade fiscal e que o limite de uma
política fiscal anticíclica envolve o desejo coletivo de assumir os eventuais custos
futuros, expresso por uma taxa de desconto temporal dos déficits públicos negativa.

Finanças Públicas – XIV Prêmio Tesouro Nacional – 2009 25


Política Fiscal e a Crise Econômica Internacional – Fernando Motta Correia

Como resultado da pesquisa é proposta uma reflexão acerca do papel da po-


lítica fiscal no campo teórico, haja vista o caráter de subordinação que tal política
exerce no mainstream quando da centralidade dos instrumentos monetários na
gestão da política macroeconômica.

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