Você está na página 1de 55

Introdução dos tradutores1

Daniela Fernandes CRUZ


Julio Cesar Aquino Teles FERREIRA

Ao estudar temas como a história e o nacionalismo indiano, Ramachandra Guha surge


como leitura obrigatória. Historiador e biógrafo indiano, foi professor nas Universidades de
Yale e Stanford, ocupou a carreira de ​Arné Naess na Universidade da Califórnia em Berkeley.
Nos anos de 2011 e 2012 lecionou como Professor ​Phillipe Roman de História e Assuntos
Internacionais na ​London School of Economics, ​atualmente vive na cidade de Bangalore2. A
contribuição do autor para os estudos nessa temática é expressa por meio de uma vasta
bibliografia, a qual boa parte ainda não dispõe de traduções para a língua portuguesa.
Os capítulos sétimo e oitavo da obra ​India After Gandhi3 foram indicados na
bibliografia do curso de História da Ásia da Universidade Federal de São Paulo, como forma
de complementar e embasar as discussões em sala de aula. Contudo, em decorrência das
barreiras linguísticas que muitos estudantes enfrentam em relação à língua inglesa,
observou-se que sua leitura foi bastante negligenciada. Desse modo, considerando a
relevância do texto e a forma como este pode contribuir para um melhor aproveitamento do
curso, o presente trabalho traduz estes dois capítulos – respectivamente ​The Biggest Gamble
in History ​e ​Home and the World –, a partir dos conhecimentos do idioma que a dupla dispõe.
Uma observação importante é que as notas do texto não foram mantidas por indicarem apenas
a numeração e não constarem ao final da edição utilizada para tradução.
A presente tradução não foi realizada por especialistas e pode conter erros,
antecipadamente pedimos desculpa aos leitores. Contudo, o principal objetivo da mesma foi
tornar o texto de Ramachandra Guha acessível aos estudantes lusófonos que não dispõe de
facilidades com a língua inglesa, permitindo a estes uma leitura em português de um texto
referencial aos estudos da Índia. Além disso, visa-se também contribuir para um melhor
aproveitamento do curso de História da Ásia, de modo que o texto possa ser utilizado como
parte da bibliografia do curso.

1
Tradução elaborada como trabalho monográfico para UC de História da Ásia da Universidade Federal de São
Paulo em 2017.
2
RAMACHANDRA GUHA. ​About the author​. Disponível em: <http://ramachandraguha.in/about-the-author>
Acesso em: 21 mai. 2017.
3
​ ​GUHA, Ramachandra​. Índia After Gandhi: The History of the World’s Largest Democracy​. Pan Books.
1
A MAIOR APOSTA DA HISTÓRIA

Nós somos pequenos homens servindo a grandes causas, mas por ser uma grande causa, algo
dessa grandeza cai também sobre nós.

​ ​EHRU​, 1946
J​AWAHARLAL N
Índia significa apenas duas coisas para nós - famintos e Nehru.
Jornalista norte-americana, 1951.

NOS PRIMEIROS ANOS DE LIBERDADE, o Partido do Congresso4 enfrentou ameaças


externas e internas. Os nacionalistas, como rebeldes contra o Raj, têm sacrificado idealistas,
mas como governadores vieram muito mais para aproveitar os frutos do ofício. Como um
jornalista veterano de Madras afirmou: "na guerra pós-Gandhi pelo poder, a primeira vítima é
a decência”. A revista ​Time comentou que, após a independência ter sido alcançada, o
Congresso se encontrou sem um propósito unificador. Ele cresceu gordo e preguiçoso, os
portos de hoje servindo muitas vezes a funcionários públicos [e] não a poucos comerciantes
negros. Um semanário influente de Mumbai observou que “de Bengala Ocidental ao Utar
Pradesh, ao longo do Vale do Ganges, o Congresso está dividido. O velho glamour da
primeira organização política está desaparecendo, facções estão se tornando mais agudas e a
impopularidade do partido está aumentando”.
Havia facções partidárias a nível distrital, bem como provincial. No entanto, a mais
impressionante das clivagens foi entre os dois mais confiáveis Pandit Jawaharlal Nehru e
Sardar Vallabhbhai Patel. Esses dois homens, respectivamente, primeiro-ministro e
vice-primeiro ministro, tiveram grandes diferenças nos primeiros meses após a
Independência. A morte de Gandhi os aproximou novamente. Mas em 1949 e 1950 as
diferenças ressurgiram.
Em caráter e personalidade, Nehru e Patel certamente contrastavam. O
primeiro-ministro era um brâmane de classe alta cujo pai também havia sido uma figura

4
N. da T.: Indian National Congress ou Partido do Congresso Nacional Indiano, fundado em 1885 e
frequentemente mencionado apenas como “O Congresso”.
2
proeminente no movimento nacionalista. Seu vice, por outro lado, era de uma casta agrícola,
descendente de um amotinador de cipaios de 1857. Nehru gostava de boa comida e vinho,
apreciava as belas artes e a literatura e viajava muito para o exterior. Patel era vegetariano,
não fumava, praticava a abstenção total de bebidas alcoólicas5 e, em geral, era "um mestre de
tarefas difíceis com pouco tempo para brincadeiras". Levantava às quatro da manhã, cuidava
de suas correspondências por uma hora e então saía para uma caminhada pelas ruas mal
iluminadas de Nova Deli. Além disso, "um exterior grave e uma fisionomia fria e cínica [fez]
de Sardar uma personalidade realmente difícil”. Nas palavras do ​New York Times, ele era
"couro duro".
Havia também semelhanças. Ambos tinham uma filha como governanta, companheira
e confidente. Ambos eram políticos de uma integridade notável. E ambos eram patriotas
ferozes, mas suas ideias nem sempre estiveram de acordo. Como um observador muito
delicadamente apontou, "a oposição do Sardar aos elementos esquerdistas no país é um dos
grandes problemas de ajuste político que a Índia enfrenta". Ele quis dizer que Patel era
amigável com os capitalistas, enquanto Nehru acreditava no controle estatal da economia; que
Patel estava mais inclinado a apoiar o Ocidente na Guerra Fria emergente; e que Patel era
mais indulgente com o extremismo hindu e mais severo com o Paquistão.
Em fins de 1949, Nehru e Patel tiveram grande desentendimento. No Ano Novo, a
Índia se transformaria de um "domínio", onde o monarca britânico era chefe de Estado, para
uma república de pleno direito. Nehru pensou que, quando o posto de governador geral se
tornasse uma presidência, o titular, C. Rajagopalachari, deveria se manter nesse posto.
"Rajaji" era um especialista em estudos urbanísticos com quem o então primeiro-ministro se
deu muito bem. Patel, no entanto, preferiu Rajendra Prasad, que estava perto dele, mas que
também tinha maior aceitação dentro do Congresso. Nehru assegurou a Rajaji que ele seria o
presidente, mas muito para o seu constrangimento e irritação, Patel teve os recrutas do partido
para nomeá-lo em vez disso.
A data original da independência indiana, 26 de janeiro, foi escolhida como o primeiro
Dia da República. O novo chefe de Estado, Rajendra Prasad, foi saudado no que se tornaria
um desfile anual e cada vez mais espetacular. Três mil homens das forças armadas
marcharam diante do presidente. A artilharia disparou uma saudação de trinta e uma armas

5
N. da T.: No original, ​teetotaller​, termo usado para definir os adeptos do ​teetotalism​, que prega a abstenção
total de bebidas alcoólicas.
3
enquanto aviões ​Liberator ​da Força Aérea Indiana sobrevoavam. A Índia de Gandhi estava se
anunciando como um Estado-nação soberano.
A primeira rodada foi para Patel. Alguns meses mais tarde, a segunda começou: a
batalha pela presidência do Congresso Nacional da Índia. Para esse posto, Patel havia
indicado Purushottamdas Tandon, um veterano do Congresso, das Províncias Unidas e de
fato, de Allahabad, a própria cidade natal do primeiro-ministro. Tandon e Nehru eram amigos
próximos, mas dificilmente companheiros ideológicos. Para o candidato à presidência foi um
“um hindu ortodoxo venerável e barbudo (...) que admiravelmente representava o
extremo-comunalismo do partido [do Congresso]”. Ele era, em suma, “a personificação dos
anacronismos políticos e sociais”, um “hindu anti-muçulmano e pró-castas que apoiava a
ressurreição de uma cultura morta junto a um sistema social extinto”.
Anteriormente, Nehru já havia criticado Tandon por seu desejo de impor a religião
hindu a regiões da Índia que não conheciam a língua e particularmente se chateou quando seu
companheiro Allahabad se dirigiu a uma conferência de refugiados e falou de uma vingança
contra o Paquistão. A Índia, acreditava Nehru, precisava de um toque de cura, uma política de
reconciliação entre hindus e muçulmanos. A eleição de Tandon como presidente do primeiro
partido político, o partido político do próprio primeiro ministro, passaria más impressões.
Quando a eleição para a presidência do Congresso foi realizada em agosto de 1950,
Tandon ganhou confortavelmente. Nehru então escreveu a Rajagopalachari que o resultado
foi “a mais clara das indicações que a eleição de Tandon é considerada mais importante que
minha presença no governo ou no Congresso (...) todos os meus instintos me dizem que
esgotei minha utilidade tanto no Congresso quanto no governo”. No dia seguinte, escreveu
uma vez mais a Rajaji, dizendo: “estou me sentindo cansado – física e mentalmente. Eu não
acredito que posso funcionar de forma satisfatória no futuro”.
Rajaji então tentou encontrar um acordo entre as duas facções. Patel era maleável,
sugerindo uma declaração conjunta sob ambos os nomes, onde ele e Nehru proclamariam sua
adesão a certos fundamentos da política do Congresso. Contudo, o primeiro-ministro decidiu
fazê-lo sozinho. Depois de duas semanas de contemplação, ele decidiu trocar a resignação
pela truculência. Em 13 de setembro de 1950, ele emitiu uma declaração à imprensa
lamentando o fato das “forças reacionárias e comunalistas terem abertamente expressado
alegria diante da vitória de Tandon”. Ele ficou angustiado, disse, pelo “espírito do
comunalismo e do revivalismo ter gradualmente invadido o Congresso, e às vezes afetar à

4
política governamental”. Mas, diferentemente do Paquistão, a Índia era um Estado secular.
"Temos que tratar as nossas minorias exatamente do mesmo modo que tratamos a maioria",
insistiu Nehru. "De fato, tratamento justo não é suficiente; precisamos fazê-los sentir que são
bem tratados. Agora, “em vista da atual confusão e da ameaça da falsa doutrina, é essencial
que o Congresso declare sua política a este respeito da forma mais clara e com termos
inequívocos”.
Nehru sentiu que era responsabilidade do Congresso e do governo fazer com que os
muçulmanos na Índia se sentissem seguros. Patel, por outro lado, estava inclinado a colocar a
responsabilidade nas próprias minorias. Uma vez, ele havia dito a Nehru que os "cidadãos
muçulmanos na Índia têm a responsabilidade de remover as dúvidas e apreensões que uma
boa parcela das pessoas tem acerca de sua lealdade, fundada, em grande parte, na antiga
associação com a exigência pelo Paquistão e as ações infelizes de alguns deles”.
Sobre a questão das minorias, tal qual outros assuntos de filosofia e política, Nehru e
Patel jamais as veriam olho a olho. Agora, porém, no rescaldo da amarga disputa pela
presidência do Congresso, o mais velho não pressionou. Patel sabia que a destruição de seu
partido poderia muito bem significar a destruição da Índia. Assim, ele disse aos membros do
Congresso que o visitaram para "fazer o que Jawaharlal diz" e "não prestar atenção a essa
controvérsia". Em 2 de outubro, durante a inauguração de uma centro de mulheres em Indore,
ele aproveitou a ocasião do aniversário de Gandhi para afirmar sua lealdade ao
primeiro-ministro. Descreveu a si próprio em seu discurso como apenas um dos muitos
soldados não violentos do exército de Gandhi. Agora que o Mahatma se foi, “Jawaharlal
Nehru é nosso líder”, disse Patel. “Bapu [Gandhi] o nomeou como seu sucessor e até o
proclamou como tal. É dever de todos os soldados de Bapu realizar o seu legado (...) E eu não
sou um soldado desleal.”
Tal é a evidência colocada diante de nós pelo biógrafo de Patel, Rajmohan Gandhi.
Isso confirma, de fato, o que o biógrafo de Nehru (Sarvepalli Gopal) expressou
emocionadamente: o que preveniu "uma ruptura visível [entre os dois homens] era a
consideração mútua e a decência estoica de Patel". Patel lembrou sua promessa a Gandhi de
trabalhar junto com Jawaharlal. E, no momento da controvérsia sobre a presidência do
Congresso, ele também era um homem muito doente. Foi da sua cama que ele enviou uma
carta manuscrita de felicitações para Nehru em seu aniversário, 14 de novembro. Uma
semana depois, quando o primeiro ministro o visitou em sua casa, Patel disse: "Quero falar

5
com você a sós quando tiver forças (...) tenho a sensação de que você está perdendo a
confiança em mim.” E Nehru respondeu: “Estive perdendo a confiança em mim mesmo”.
Três semanas mais tarde, Patel estava morto. Sobrou para o primeiro-ministro elaborar
uma nota do gabinete em luto pelo seu falecimento. Nehru destacou sua devoção a uma
"Índia unida e forte" e a “habilidade com a qual solucionou o problema complexo dos estados
principescos". Para Nehru, Patel era tanto camarada quanto rival; Mas para seus
compatriotas, ele era "um guerreiro inigualável na causa da liberdade, um amante da Índia,
um grande servo do povo e um estadista de conquistas geniais e importantes”.

II

A morte de Vallabhbhai Patel em dezembro de 1950 excluiu o único político do Congresso


que era igualável a Nehru. Já não havia mais dois centros de poder dentro do partido
governante na Índia. Contudo, o primeiro-ministro ainda precisava lidar com dois rivais
menores: o presidente do Congresso, Purushottamdas Tandon, e o presidente da República,
Rajendra Prasad. O biógrafo de Nehru diz que Prasad era "proeminente nos ​ranks d​ o
medievalismo". A respeito de um patriota que muito sacrificou pela liberdade da Índia, esse
julgamento talvez seja excessivamente áspero. Ainda assim, é claro que o primeiro-ministro e
o presidente diferiam em pontos cruciais, como o lugar da religião na vida pública.
Essas diferenças vieram à tona na primavera de 1951, quando o presidente decidiu
inaugurar o recém restaurado Templo De Somnath em Gujarate. Reconhecida pela sua
riqueza, Somnath foi invadida inúmeras vezes por líderes muçulmanos, incluindo o notório
saqueador do século XI, Mahmud de Gázni. Cada vez que o tempo era arrasado, ele era
reconstruído. Eis que Aurangzeb, imperador de Mogol, ordenou sua destruição total, que
permaneceu em ruínas por dois séculos e meio até o próprio Sardar Patel visitá-lo em
setembro de 1947, prometendo ajudar a reconstruí-lo. K. M. Munshi, colega de Patel, aceitou
a tarefa da reconstrução.
Quando o presidente da Índia decidiu prestigiar a consagração do templo com sua
presença, Nehru ficou chocado. Ele escreveu a Prasad o aconselhando a não participar da
"espetacular abertura do templo de Somnath [o qual]... infelizmente traz consigo inúmeras
implicações. Particularmente, achei que não houvesse tempo para priorizar as operações de

6
larga escala em Somnath. Isso poderia ser feito depois, efetiva e gradualmente. Porém, já foi
feito. [Ainda] sinto que seria melhor se você não presidisse essa função."
Prasad ignorou o conselho e foi à Somnath. Para seu mérito, contudo, seu discurso ali
enfatizou o ideal gandiano de harmonia entre as diversas religiosas. De fato, ele
nostalgicamente evocou uma Era de Ouro, onde o ouro nos templos indianos simbolizavam
riqueza e prosperidade. A lição da história posterior de Somnath, contudo, foi que a
"intolerância religiosa apenas fomenta ódio e conduta imoral". No mesmo sentido, a lição da
sua reconstrução não foi "abrir velhas feridas, as quais foram curadas ao longo dos séculos",
mas muito mais "ajudar cada casta e comunidade a alcançar a completa liberdade". Pedindo
por "total tolerância religiosa, o presidente impulsionou sua ausência a tentar entender a
grande essência da religião", mais especificamente, "que não é necessário seguir um único
caminho para perceber a Verdade e Deus". Pois "assim como todos os rios se misturam no
vasto oceano, as diferentes religiões ajudam os homens a chegar a Deus".
Ninguém sabe se Nehru leu o discurso. De qualquer forma, ele definitivamente teria
preferido que Prasad não fosse. O primeiro-ministro pensava que autoridades públicas jamais
deveriam ser ​publicamente associadas com crenças e santuários. O presidente, por outro lado,
acreditava que isso deveria ser igual e publicamente respeitoso. Embora ele fosse hindu,
Prasad disse em Somnath: "Eu respeito todas as religiões e ocasionalmente visito uma igreja,
uma mesquita, um ​dargah​ e um ​gurdwara.​ "
Ao mesmo tempo, a crescente coloração Hindu do Congresso impulsionou a partida de
alguns dos seus mais efervescentes líderes. Já em 1948, um grupo de ilustres jovens membros
do Congresso saíram para integrar o Partido Socialista. Agora, em junho de 1951, o
respeitado gandiano J. B. Kripalani saiu para formar seu partido, ​Kisan Majdoor Praja Party
(KMPP), o qual, como o nome indica, apoiava os interesses dos fazendeiros, funcionários e
outros trabalhadores. Assim como os socialistas, Kripalani alegava que o Congresso sob o
governo de Purushottamdas Tandon se tornou uma organização profundamente conservadora.
Como aconteceu, a formação do KMPP reforçou a mão de Nehru contra Tandon. O
Congresso, agora ele poderia dizer, teve que se afastar do caminho reacionário que havia
adotado recentemente e reivindicar sua herança democrática e inclusiva. Em setembro,
quando o todo o Comitê do Congresso se reuniu em Bangalore, Nehru confrontou Tandon e
aqueles que o apoiavam. A classe mais baixa do partido estava cada vez mais preocupada
com o resultado das eleições gerais. E, como uma jornalista sulista apontou, estava claro que

7
o AICC colocaria o primeiro-ministro contra Tandon, quem dera porque o “presidente do
Congresso não é um meio de atrair votos”. Pelo contrário, “Pandit Nehru é um apanhador de
votos inigualável. Na véspera das eleições gerais são os votos que contém e Pandit Nehru tem
um valor para o Congresso que ninguém mais possui”.
O que, de fato, aconteceu em Bangalore, onde Tandon renunciou à presidência do
Congresso, com Nehru eleito em seu lugar. Como chefe de ambos, partido e governo, “Nehru
poderia agora declarar guerra total a todos os elementos comunais no país.” Uma guerra cuja
primeira batalha seria a eleição geral de 1952.

III

A primeira eleição geral da Índia foi, entre outras coisas, um ato de fé. Um país
recém-independente que escolhe ir direto ao sufrágio universal adulto ao contrário de – como
tem sido o caso do Ocidente – reservar antes o direito ao voto aos homens bem abastados,
excluindo a classe trabalhadora e as mulheres dessa parcela por um bom tempo. A Índia se
torna independente em agosto de 1947, e dois anos mais tarde criou uma Comissão Eleitoral.
Em março de 1950, Sukumar Sen foi nomeado comissário eleitoral chefe. Ao propor a lei, o
primeiro-ministro, Jawaharlal Nehru, mostrou-se esperançoso de que as eleições ocorressem
tão logo a primavera de 1951 chegasse.
A pressa de Nehru era compreensível, mas foi vista com certas reservas pelo homem
que teve que fazer a eleição possível. É uma pena que saibamos tão pouco sobre Sukumar
Sen. Ele não deixou memórias e pouquíssimos papéis. Nascido em 1899, foi educado no
Presidency College e na Universidade de Londres, onde recebeu uma medalha de ouro em
matemática. Ele se juntou ao Serviço Civil da Índia (ICS) em 1921 e serviu em vários
distritos e como juiz antes de ser nomeado secretário-geral da Bengala Ocidental, de onde ele
foi enviado à deputação como comissário eleitoral chefe.
Talvez tenha sido o matemático em Sen quem o fez pedir ao primeiro-ministro que
esperasse. Nenhum funcionário do Estado, e certamente nenhum funcionário indiano, teve
diante de si uma tarefa estupenda como aquela. Considerando, primeiramente, a dimensão do
eleitorado: 176 milhões de milhões de indianos com 21 anos ou mais, os quais 85% não
sabiam ler ou escrever. Cada um precisava ser identificado, nomeado e registrado. O registro

8
dos eleitores era apenas o primeiro passo. Como era possível criar símbolos dos partidos,
urnas e cédulas para um eleitorado analfabeto? Assim, as estações nas quais as eleições
ocorreriam precisaram ser identificadas, e nelas recrutados oficiais honestos e eficientes.
Além disso, simultaneamente à eleição geral aconteceriam as eleições às assembleias estatais.
A respeito disso, os comissários eleitorais de diferentes províncias, e às vezes alguns homens
do ICS, trabalhavam com Sukumar Sen.
As votações foram finalmente agendadas para os primeiros meses de 1952, embora
alguns distritos periféricos fossem votar mais cedo. Um observador norte-americano
recentemente escreveu que os mecanismos da eleição “apresentam um problema de
proporções colossais”. Alguns números nos ajudariam a entender a escala do
empreendimento de Sen. Em questão, eram 4.500 lugares – cerca de 500 para o Parlamento, o
resto para as assembleias provinciais; 224.000 cabines de votação foram feitas e equipadas
com 2 milhões de urnas de aço, para as quais foram usadas 8.200 toneladas de aço; 16.500
funcionários contratos por seis meses para digitar e coletar os rolos eleitorais por eleitorado;
cerca de 380.000 resmas de papel foram usadas para imprimir esses rolos; 56.000 presidentes
escolhidos para supervisionar as votações, os quais seriam auxiliados por outros 280.000
ajudantes; 224.00 policiais trabalhando para que não houvesse violência ou intimidação.
A eleição e o eleitorado foram espalhados sobre uma área de mais de um milhão de
milhas quadradas. O terreno era imenso, diverso e – para piorar – às vezes horrendamente
difícil. No caso de aldeias em colinas remotas, foi preciso construir pontes sobre os rios
especialmente para este fim; no caso de pequenas ilhas pelo Oceano Índico, embarcações
foram usadas para levar os rolos até as estações. Um segundo problema era muito mais social
que geográfico: a desconfiança de muitas mulheres no nordeste da Índia para dar seus nomes,
pois em vez disso preferiam serem registradas como a “mãe de A” ou a “esposa de B”.
Sukumar Sen ficou indignado com essa prática, “uma relíquia curiosa e sem sentido” e
ordenou os oficiais a corrigirem os rolos inserindo os nomes das mulheres “no lugar de meras
descrições sobre elas”. Não obstante, 2.8 milhões de eleitoras foram finalmente excluídas da
lista. O furor resultante dessa omissão foi considerado por Sen como sendo “algo bom”, para
o qual ajudaria que o preconceito desaparecesse antes das próximas eleições, de modo que as
mulheres pudessem ser novamente incluídas sob seus próprios nomes.
Onde nas democracias ocidentais a maioria dos eleitores poderiam reconhecer os
partidos pelo nome, aqui símbolos pictóricos foram usados para facilitar a tarefa. Tirados da

9
vida cotidiana, esses símbolos eram facilmente reconhecíveis: um par de bois para um
partido, uma cabana para o segundo, um elefante para o terceiro, uma lâmpada de barro para
o quarto. Uma segunda inovação foi o uso de múltiplas urnas. Em uma única urna, o (em
geral iletrado) eleitor indiano poderia cometer um erro; assim, cada partido tinha sua urna
com seus símbolos de sucesso marcados em cada local de votação, de forma que os eleitores
pudessem simplesmente ali depositar seus papéis. Para evitar falsidade ideológica, cientistas
indianos desenvolveram uma variedade de tintas indeléveis, as quais aplicadas sobre os dedos
dos eleitores, não saíam por uma semana. Um total de 389.816 frascos dessa tinta foram
usados nas eleições.
Ao longo de 1951, a Comissão Eleitoral usou a mídia do cinema e rádio para educar o
público sobre esse novo exercício da democracia. Um documentário sobre o direito ao voto,
suas funções, e os deveres do eleitorado, foi exibido em mais de 3.000 cinemas. Muitos mais
indianos foram alcançados via rádio All-India, o qual transmitiu inúmeros programas sobre a
constituição, o propósito do direito ao voto adulto, a preparação dos rolos eleitorais e o
processo de votação.

IV

É instrutivo refletir sobre a situação internacional nos meses que precederam as primeiras
eleições gerais da Índia. Em outros lugares da Ásia, os franceses estavam lutando contra o
Viet-Minh e as tropas da ONU impediam a ofensiva norte-coreana. No Sul da África, o
Partido Nacional Africânder havia privado os ​Cape Coloureds do direito ao voto, o último
grupo não-branco a votar. A América tinha acabado de testar a primeira bomba de
hidrogênio; Maclean e Burgess tinham sido desertados para a Rússia. Aquele ano
testemunhou três assassinatos políticos: o rei do Jordão, o primeiro-ministro do Irã e o
primeiro-ministro do Paquistão, Liaqat Ali Khan, assassinado com um tiro em 16 de outubro
de 1951, nove dias antes dos primeiros votos terem sido lançados na Índia.
Ainda mais interessante, os votos na Índia coincidiriam com as eleições gerais no
Reino Unido. O veterano de guerra Winston Churchill buscava trazer colocar seus
conservadores no poder outra vez. No Reino Unido, a eleição era basicamente um caso entre
dois partidos. Na Índia, porém, havia uma diversidade deslumbrante de partidos e líderes.

10
Estava no poder o Partido do Congresso Nacional Indiano de Jawaharlal Nehru, o chefe
herdeiro e beneficiário do movimento pela liberdade. Em oposição a ele, havia uma variedade
de novos partidos formados por alguns indivíduos extremamente talentosos.
Proeminente entre os partidos da esquerda eram o KMPP de J. B. Kripalani e o
Partido Socialista, cujos principais líderes incluindo o jovem herói da rebelião ​Quit India de
1942, Jayaprakash Narayan. Esses partidos acusavam o Congresso de trair seu compromisso
com os pobres. Eles afirmavam apoiar os ideais do antigo Congresso gandiano, que tinha
espaço para os interesses dos trabalhadores e camponeses antes dos senhores de terra e
capitalistas. Uma crítica diferente foi oferecida por Jana Sangh, que buscou consolidar os
maiores agrupamentos religiosos da Índia, os hindus, em um bloco de votação único e sólido.
Os alvos do partido eram bem expressados no simbolismo de seu encontro inaugural, que
aconteceu em Nova Deli em 21 de setembro de 1951. A sessão começou com uma
declamação de Vedas e cantando o hino patriótico ​Vande Matram.​ Na tribuna, o fundador do
partido, Shyama Prasad Mukherjee, sentou-se junto com outros líderes, atrás deles um Fundo
branco [com] fotos de Shivaji, o Senhor Krishna persuadindo o Arjunato derrotado pelo
arrependimento de tomar armas para lutar contra as forças malignas dos Kauravas no campo
de batalha de Kurukshetra, Rana Pratap Singh e de uma lâmpada de barro, no açafrão. Do
Pandal foram penduradas bandeiras escritas com "Sangh Shakth Kali Yuge", adictum tirado
do Mahabharata, professando dizer às pessoas que participaram da convenção que na era de
Kali havia força apenas em [Jana] Sangh.

As imagens eram impressionantes: tiradas dos épicos hindus, mas também invocando aqueles
guerreiros híndis que mais tarde confrontaram os invasores muçulmanos. Mas quem, alguém
perguntaria, representava Kauravas, o inimigo mau? Era ele o Paquistão, os muçulmanos,
Jawaharlal Nehru ou o Partido do Congresso? Todos figuram como objetos de ódio nos
discurso dos líderes de Sangh. O partido apoiava a reunificação da pátrias por meio da
absorção (e talvez conquista) do Paquistão. Suspeitava-se dos muçulmanos indianos como
uma minoria problemática, a qual “ainda não tinha aprendido a possuir essa terra e cultura e
tratá-los como seu primeiro amor”. O Partido do Congresso foi acusado de “apaziguar” esses
muçulmanos equivocadamente patrióticos.
S. P. Mukherjee já havia sido membro do Gabinete da União. Assim como B. R.
Ambedkar, o grande advogado Intocável que, como ministro de direito da União, ajudou a

11
elaborar a Constituição Indiana. Ambedkar tinha renunciado ao cargo para reavivar a
Federação de Castas Identificadas (SCF) a tempo para as eleições. Em seus discursos, atacou
severamente os governantes do Congresso por terem feito pouco para elevar as castas mais
baixas. Liberdade para esses povos não tinha significado mudança alguma: era “a mesma
tirania de antes, a mesma opressão de antes, a mesma discriminação de antes...” Após a
liberdade vencer, disse Ambedkar, o Congresso havia se degenerado em uma ​dharamsala ou
casa de repouso, sem qualquer unidade de propósitos ou princípios, e “abertos a todos, tolos e
patifes, amigos e inimigos, comunalistas e secularistas, reformistas e ortodoxos, capitalistas e
anticapitalistas.
Ainda mais para a esquerda do Partido Comunista da Índia. Como vimos, em 1948,
muitos ativistas do CPI foram a fundo em busca de liderar uma insurreição camponesa, a qual
eles esperavam que resultassem em uma levante revolucionário em todo o país, seguindo o
modelo chinês. Porém, a polícia e, em algumas regiões, o exército os reprimiram duramente.
Então, os comunistas surgiram a tempo para disputar as eleições. A luta de Telangana, disse o
secretário geral do partido, foi incondicionalmente retirada. Uma anistia temporária foi
concedida e os militantes deixaram de lado as armas, buscando votos. Essa mudança de
papéis abrupta produziu dilemas que nenhum texto de Marx ou Lênin seria capaz de resolver.
Assim, uma mulher comunista procurando um lugar em Bengala não sabia se vestia sáris
amassados, os quais assegurariam sua identificação com os pobres, ou sáris limpos e bem
passados, a fim de atrair a classe-média. E o candidato parlamentar em Telangana (onde
ocorrera a revolta camponesa mais intensa) lembrava sua confusão ao lhe ser oferecida uma
bebida por um alto funcionário: ele disse “sim” e engoliu o que lhe foi oferecido, apenas para
que sua cabeça fosse atingida por aquela “sensação de tontura”, como aconteceu, já que era
uísque em vez de um suco de frutas.
A campanha eleitoral de 1951-2 foi conduzida por meio de amplas reuniões públicas,
apuração porta a porta, e o uso da mídia visual. “A essa altura da febre eleitoral”, escreveu
um observador britânico, “pôsteres e emblemas estavam em todos os lugares – nas paredes,
nas esquinas, e mesmo decorando as estátuas em Nova Deli, desafiando a dignidade de uma
antiga geração de vice-reis”. Um novo método publicitária estava em exibição em Calcutá,
onde em Bengala vacas dispersas tinham a frase “Vote no Congresso” escrita em suas costas.
Discursos e pôsteres foram usados por todos os partidos, mas apenas os comunistas
tiveram acesso às ondas aéreas. Não aquelas transmitidas pela rádio All-India, que havia

12
banido propagandas políticas, mas as da rádio de Moscou, que transmitiam seus programas
via estações em Tashkent. Ouvintes indianos podiam, se quisessem, ouvir como os partidos
não comunistas da eleição eram “opressores da classe trabalhadora e corruptos vendidos aos
imperialistas anglo-americanos”. Para os alfabetizados, um semanário de Chennai
esperançosamente traduzira um artigo de ​Pravda o qual chamava o Congresso governante de
“um governo de proprietários de terra e monopolistas, um governo de traidores da nação,
cassetetes e balas”, e anunciava que a alternativa para esse “longo sofrimento, que desgastava
o povo indiano era o Partido Comunista”, acerca do qual “todas as forças progressivas do país
e todos aqueles que apreciam os interesses vitais de sua pátria estava reunidos”.
Adicionando à lista (e ao interesse, e animação) estavam os partidos regionais
baseados nas afiliações de etnicidade e religião. Esses incluíam o Dravida Kazhagam em
Chennai, que apoiava o orgulho de Tamil contra a dominação do norte da Índia; os Akali em
Punjab, que eram o partido principal contra os Sikhs; e o Partido Jharkhand em Bihar, o qual
queria separar o estado do povo tribal. Havia também numerosos grupos dissidentes na
esquerda, assim como dois partidos hindus mais ortodoxos que Jana Sangh: o ​Hindu
Mahasabha​ e o ​Ram Rajya Parishad.​
Todos esses líderes carregam consigo anos de serviço político. Alguns foram para a
cadeia pela causa nacionalista; outros pela causa comunista. Homens como S. P. Mookerjee e
Jayaprakash Narayan eram oradores incríveis, com habilidade para encantar uma imensidão
de pessoas e torná-las suas seguidoras. Na véspera da eleição, o cientista político Richard
Park escreveu que “os partidos indianos liderantes e os trabalhadores do partido não eram
superados por nenhum outro país em habilidades eleitorais, questões de apresentação
dramática, oratória política ou domínio da psicologia política.”
Alguns celebrariam essa diversidade como prova da robustez do processo
democrático. Outros não estavam assim tão certos. Eis que uma tirinha de desenhos animados
em ​Shankar’s Weekly satirizou a hipocrisia da coleta de votos. Ela mostrava um homem
gordo em um casaco preto entre diferentes grupos de eleitores: este disse a um agricultor
franzino que “terra para os camponeses é o objetivo”. Assegurou a um rapaz jovem e bem
vestido que os direitos dos senhores de terra seriam bem protegidos. Em um lugar, disse ser a
favor da “nacionalização completa”, em outro ele insistiu que “encorajaria à iniciativa
privada”. Ele disse a uma senhora trajando um sári que apoiava a declaração do Código

13
Hindu (uma reforma destinada especialmente à melhoria dos direitos das mulheres), mas
também disse a um brâmane que “manteria nossa antiga cultura”.

Toda essa variedade de partidos tinha um único alvo: o Congresso governante. Seu líder,
Jawaharlal Nehru tinha sobrevivido ao desafio de liderar o partido. Com a morte de
Vallabhbhai Patel ele também era a presença dominante dentro do governo. Mas enfrentou
inúmeros problemas. Estes incluíam furiosos refugiados do Paquistão Oriental e Ocidental,
ainda não assentados em suas novas casas. Os ​Andhras no sul e os ​Sikhs ao norte estavam
começando a se rebelar. A questão da Caxemira era, aos olhos do mundo, ainda insolúvel. E a
Independência ainda não tinha provocado efeito no que diz respeito à pobreza e à
desigualdade: um Estado de ​affairs os quais, naturalmente, o partido governante era o
provável responsável.
Uma forma de contar a história da campanha eleitoral é por meio das manchetes de
jornal. Estas permitem uma leitura interessante, não apenas porque as questões que eles
levantaram permaneceram em primeiro plano nas eleições indianas desde então.
“MINISTROS ENFRENTAM UMA DURA OPOSIÇÃO” dizia uma manchete em Utar
Pradesh; “RIVALIDADES ENTRE CASTAS ENFRAQUECEM O CONGRESSO EM
BIHAR”, dizia outra. Da região nordeste vinha esta linha: “MANIPUR EXIGE
AUTONOMIA”. De Gauhati vinha esta: “PERSPECTIVAS DO CONGRESSO EM
ASSAM: IMPORTÂNCIA DO VOTO TRIBAL E MUÇULMANO”. Gwalior oferecia
“DESCONTENTAMENTO ENTRE DEPUTADOS: LISTA DE INDICADOS GERA UMA
DIVISÃO AINDA MAIS AMPLA”. Uma manchete de Calcutá discorria: “CHEFE DO
CONGRESSO EM BENGALA OCIDENTAL VAIADO DURANTE ENCONTRO” (e
vaiado por refugiados do Paquistão Oriental). “SEM ESPERANÇAS DE ELEIÇÕES
LIVRES E JUSTAS”, começava uma notícia datando Lucknow: esse era o veredito de J. B.
Kripalani, que acusava funcionários do Estado de falsificarem pesquisas em favor do partido
governante. E a cidade de Mumbai oferecia, em três momentos diferentes da campanha, estas
manchetes mais ou menos atemporais: “CONGRESSO APOSTA NO APOIO
MUÇULMANO”; “APATIA DO CONGRESSO SOBRE AS CASTAS IDENTIFICADAS:

14
COBRANÇAS REITERADAS PELO DR. AMBEDKAR”; e “QUATORZE FERIDOS EM
CONFRONTO NA CIDADE DAS ELEIÇÕES”. Mas havia também uma manchete
ocasional que era dessa época, mas enfaticamente não é nosso, e notavelmente estava no
Searchlight de Patna, que afirmava “VOTAÇÕES PACÍFICAS SÃO ESPERADAS EM
BIHAR”.
Diante de uma oposição externa de grande alcance, e com algumas dissidências dentro
de seu próprio partido, Jawaharlal Nehru pegou a estrada – e, no caso, também um avião e
trem. Desde 1º de outubro, ele havia começado um tour o qual um funcionário do partido sem
fôlego descreveria como “comparável às campanhas imperiais de Samudragupta, Asoka e
Akbar”, assim como a(s) “viagem(ns) para Fhien e Hieun Tsang”. Em um espaço de nove
semanas Nehru correu o país do começo ao fim. Ele viajou 25.000 milhas no todo: 18.000
sobrevoando, 5.200 de carro, 1.600 de trem e mesmo 90 de barco.
Nehru iniciou a campanha de seu partido com um discurso na cidade de Ludhiana em
Punjab no domingo, 30 de setembro. A escolha do local era significante: como era o impulso
de sua fala, a qual declarava “uma guerra total ao comunalismo”. Ele “condenava os grupos
comunais os quais em nome do hinduísmo e da cultura Sikh estava espalhando o vírus do
comunalismo assim como fizera Liga Muçulmana uma vez”. Esses “elementos comunais
sinistros poderiam”, se alcançassem o poder, “trazer morte e destruição ao país”. Ele pedia ao
público de meio milhão de pessoas para, em vez disso, “manter as janelas de suas mentes
abertas, permitindo que entrasse nela uma brisa fresca de todos os cantos do mundo”.
A sensação remetia aos tempos de Gandhi, e de fato o maior dos discursos de Nehru
foi aconteceu em Deli na tarde de 2 de outubro, no aniversário de Mahatma. Ele falava para
uma multidão imensa, em hindustani, a respeito da determinação do governo em abolir tanto
o ​landlordismo como a intocabilidade. Uma vez mais, ele identificou os comunistas como os
principais inimigos, que “não seriam expostos em quarteirão algum” e que seriam
“dominados com todas as nossas forças”. Seu discurso de 95 minutos foi pontuado por
saudações altas, e não menores foram elas quando ele fez essa vibrante declaração: “Se por
motivos religiosos alguém levantar a mão para derrubar outra pessoa, eu vou lutar contra ele
até o meu último suspiro, esteja ele de fora ou diante do governo”.
Onde quer que fosse, Nehru discursava fortemente contra o comunalismo. Em
Bengala, nativo de S. P. Mookerje, ele descartou Jana Sangh como “uma criança bastarda do
RSS e do Hindu Mahasabha”. Para se certificar, ele também tocou em outros pontos. Em

15
Bihar, ele deplorou o “monstro do casteísmo”. Em Mumbai, ele lembrou o público que votar
no Congresso é também votar no princípio de neutralidade da política externa. Em Bharatpur
e Bilaspur, ele lamentou a impaciência das críticas da esquerda, as quais ele compartilhou os
fins, mas não os meios: como disse, “nós só poderemos construir o edifício do socialismo
tijolo por tijolo. Em Ambala, ele pediu às mulheres que rejeitassem os ​purdahs e dessem um
passo a frente para construir o país. Em muitos lugares ele expressou sua admiração pelo que
havia de melhor na oposição: por homens como Ambedkar, Kripalani e Jayaprakash Narayan,
com quem já fora colega dentro do partido ou do governo. “Nós queremos homens [tão]
íntegros e habilidosos”, disse ele. “Eles são bem-vindos. Mas todos eles correm em direções
diferentes e, no fim, não fazem nada”. Nehru particularmente se desculpou por ser oposição
ao Partido Socialista, que, dizia ele, “contém muitos dos meus amigos íntimos os quais
admiro e respeito”. Não partilhava desses sentimentos sua filha, Indira Gandhi, que em seus
próprios discursos alegou que os socialistas eram financiados pelos dólares americanos.
No curso de sua campanha, Nehru “viajou mais que dormiu e falou mais que viajou”.
Ele dirigiu mais de 300 comícios por dezenas de lados. Ele falou para cerca de 20 milhões de
pessoas diretamente, enquanto um mesmo número tivera pelo menos seu ​darshan,​
acompanhando ansiosamente as estradas para vê-lo assim como seu carro barulhento.
Aqueles que viram e ouviram Nehru incluíam mineradores, camponeses, pastoralistas,
trabalhadores das fábricas e da terra. Mulheres de todas as classes saíram aos montes para
suas reuniões. Algumas vezes, havia uns pontos hostis entre a multidão. Em partes do
nordeste indiano, os apoiadores de Jana Sangh dispararam em um de seus comícios que
Nehru era indigno de confiança porque ele comia carne bovina. Atravessando um grupo de
comunistas que erguiam suas foices e martelos, Nehru pediu que se fossem “embora e
vivessem no país da bandeira que estavam carregando”. “Por que você não vai para Nova
York morar com os imperialistas de Wall Street?”, eles responderam.
Mas a maior parte das pessoas que vieram para ouvir Nehru eram simpáticas, e
frequentemente aduladoras. Esse somatório feito por um livreto do Congresso exagera, mas
não muito:

[Em] quase todos os lugares, cidades, vilas e beiras de estrada, pessoas viraram a noite
esperando para dar as boas-vindas ao líder da nação. Escolas e lojas fechadas: leiteiros e
pastores tiraram folga; o ​kisan e seu ajudante tiraram uma pausa temporária de seus trabalhos

16
árduos no campo e em casa. Em nome de Nehru, estoques de refrigerante e limonadas foram
esgotados. Até a água se tornou escassa (...) trens especiais foram direcionados a sair das
rotas tradicionais para levar pessoas aos encontros de Nehru, entusiastas viajavam não
somente nas plataformas como também no topo das transportações. Dezenas de pessoas
desmaiaram nas multidões.

A imprensa independente forneceu muitos exemplos do humor popular. Quando


Nehru discursou em Mumbai, uma procissão, principalmente de muçulmanos, marchou para
Chowpatty acompanhados de címbalos e pratos. Foi liderada por um pai de bois e um arado
(o símbolo do Congresso). Em todos os lugares, multidões começaram desde o início da
manhã as coletas para as conversas agendadas para a tarde; em quase todo lugar, barricadas
foram quebradas pelo “entusiasmo de vislumbrar o Sr. Nehru por um instante”. Depois de
terminar seu discurso em Déli, Nehru, assim que saiu do estrado, foi encontrado por um
lutador famoso, Massu Pahalwan, que lhe ofereceu uma corrente de ouro e observou “Isso é
apenas um símbolo. Estou preparado para minha vida por você e pelo país”. A mídia foi
tomada por uma mulher falante de Telugu que veio ouvir o discurso de Nehru na cidade
ferroviária de Kharagpur. Assim que o primeiro-ministro começou sua palestra, ele foi
tomada pelas dores do parto. Imediatamente, um grupo de companheiros Andhras a cercaram:
o bebê foi entregue com segurança, sem dúvidas, enquanto as esposas ao redor esticavam as
orelhas para ouvir o que seu herói lhes dizia. O extraordinário apelo popular do primeiro
ministro indiano é ainda melhor percebido através do testemunho de alguém que
confirmadamente odiava Nehru, D. F. Karaka, editor de um semanário popular em Mumbai,
o Atual. Ele estava na vasta multidão na praia de Chowpatty, uma das 200.000 pessoas ali
reunidas, muitas de pé no mar. Karaka percebeu – sem dúvida para seu arrependimento – a
“afinidade instantânea entre o orador e seu público”. Foi assim que o editor reportou o
discurso de Nehru:
Ele veio para Mumbai depois de muito tempo, ele nos disse. Muitos anos.
Ele parou e olhou para eles com um olhar melancólico no qual era especialista.
Naquela pausa, sinistra para seus oponentes políticos, mil votos devem ter virado a
seu favor.
Sim, ele sentiu uma ligação pessoal com aquela cidade.
Pausa.

17
Dois mil votos. Era como voltar para casa. Pausa.
Cinco mil votos.
Em Mumbai ele passou alguns dos momentos mais felizes de sua vida.
Sim, um dos mais felizes.
Cinco mil votos...
Ele se lembrava tão nitidamente daqueles momentos incríveis. E alguns dos mais
tristes também – os dias tristes e difíceis da luta [pela liberdade].
Dez mil votos para o Congresso.
Pausa. “Ao olhar as pessoas que estiveram comigo na luta pela liberdade, eu me
sinto livre e forte”, ele disse.
A afinidade era completa.
Vinte mil votos!
Pausa.
Um olhar profundo, triste, cheio de alma no momento em que o crepúsculo está
desaparecendo, o ar carregado de emoção... Ele disse na reunião que havia assumido
o papel de um mendigo pedinte. Em meio a saudações, disse “Se, de tudo, sou um
pedinte, eu mendigo o amor de vocês, a afeição de vocês, e a cooperação de vocês
na solução dos problemas que o país enfrenta”.
Trinta mil votos certamente seriam para Nehru.
Pausa.
Uma agitação no público. Uma lágrima no rosto de um homem ou mulher sentados
na praia ou de pé no mar. Duas lágrimas, a barra de um sári limpando-as suavemente
do rosto de uma mulher. Ela daria seu voto a Nehru não importa o que dissessem.
Memórias de Gandhi estavam de volta para o povo – os dias em que Nehru esteve ao
lado de Mahatma. Nehru... foi o homem que ele nos deixou como seu herdeiro
político.
Cinquenta mil votos! Cem mil! Duzentos mil!

As multidões estavam emocionadas com Nehru; e ele, por sua vez, emocionado com elas.
Seus próprios sentimentos foram melhor capturados por uma carta que escreveu a alguém
que, com sinceridade e delicadeza pode ser dita como sua amiga mais próxima, Edwina
Mountbatten:

18
Onde quer que eu estivesse, vastas multidões se reuniam ao meu encontro e eu
amo comparar seus rostos, suas roupas, suas reações a mim e ao que eu digo. Cenas
do passado daquela mesma parte da Índia que se levanta diante de mim e minha
mente se torna uma galeria de imagens e eventos passados. Mas, mais que o
passado, o presente enche minha mente e eu tento investigar as mentes e os corações
naquelas multidões. Tenho passado um bom tempo preso no secretariado de Deli, eu
prefiro muito mais o revigorante contato com o povo indiano... O esforço para
explicar em uma linguagem simples nossos problemas e nossas dificuldades, e
atingir as mentes desses povos simples é tão exaustivo quanto emocionante.
Como eu havia divagado a respeito, o passado e o presente se fundem e isso
me faz pensar no futuro. O tempo se torna como um rio de movimento contínuo
cujos eventos se conectam um com o outro.

VI

Um lugar que Nehru não alcançou foi o ​tahsil de Chini em Himachal Pradesh. Aqui residiam
os primeiros indianos para voltar em uma eleição geral, um grupo de budistas. Eles votaram
em 25 de outubro de 1951, dias antes de uma nevasca levar para longe seus vales. Os aldeões
de Chini deviam fidelidade ao Panchen Lama no Tibete, e eram governantes por rituais
administrados pelos sacerdotes locais. Estes incluíam ​gorasang, um serviço religioso para
celebrar a conclusão de uma nova casa; ​kangur zalmo,​ uma visita cerimonial à biblioteca
budista em Kanam; ​menthako “onde homens, mulheres e crianças escalam colinas, dançam e
cantam”; e ​jokhiya chug simig​, o intercâmbio de visitas entre parentes. Agora, embora eles
ainda não soubessem, foi adicionado um novo ritual, a ser realizado em um intervalo de cinco
anos: votar nas eleições gerais.
As votações para as eleições gerais do Reino Unido começaram no mesmo dia,
embora os primeiros eleitores não fossem camponeses budistas em um vale do Himalaia, mas
“leiteiros, artesãos, pessoas que trabalhavam à noite, voltando para suas casas após a
jornada”. Contudo, nessas pequenas ilhas os resultados das eleições só eram divulgados no
dia seguinte – o trabalho havia sido varrido do poder e Winston Churchill retornou como

19
primeiro-ministro. Na Índia, os primeiros eleitores tiveram que esperar meses, o resto do país
não foram votar até janeiro ou fevereiro de 1952.
A participação mais alta, 80,5%, foi registrada no parlamento no distrito parlamentar
de Kottayam, no atual Kerala; o menor, 18%, estava em Shahdol no que é agora Madhya
Pradesh. Para o país como um todo, cerca de 60% dos eleitores registrados exerceram seu
direito de voto, apesar do alto nível de analfabetismo. Um estudioso da London School of
Economics descreveu como uma jovem em Himachal andou várias milhas com sua mãe para
votar: “por um dia, pelo menos, ela sabia que ela foi importante”. Um semanário de Mumbai
se maravilhou com a alta participação nos distritos florestais de Orissa, onde os tribais
chegaram às cabines de votação com seus arcos e flechas. Um estande na selva reportou mais
de 70% de votos; Mas, evidentemente, Sukumar Sen conseguiu errar em algo, pois o estande
vizinho só foi visitado por um elefante e duas panteras. A imprensa ressaltou especialmente
os idosos: um homem de 110 anos em Madurai que veio apoiado em seu bisneto; uma mulher
de 95 anos em Ambala, surda e corcunda, que ainda assim decidiu votar. Havia também um
muçulmano com mais de 90 anos da área rural de Assam, que teve que retornar chateado
depois de ter sido avisado que um oficial que “não poderia votar para Nehru”. Um
nonagenário no Maharashtra rural emitiu seu voto para as eleições da Assembleia, mas caiu e
morreu antes que ele pudesse fazer o mesmo pelo Parlamento. E houve uma reivindicação da
democracia indiana nas eleições no rolo eleitoral de Hyderabad, onde entre os primeiros que
votavam estava o próprio Nizam.
Um lugar no qual as votações eram especialmente ativas era Mumbai. Deli era onde
os governantes moram, mas essa metrópole era a capital financeira da Índia. Era também uma
cidade politicamente consciente. No total, 900 mil residentes de Mumbai ou 70% do
eleitorado da cidade, exerceram seu direito democrático no dia das eleições. Os trabalhadores
vieram em números muito maiores em comparação com a classe média moderna. Assim,
informou o ​Times da Índia, “nas áreas industriais, mesmo com uma manhã particularmente
fria, os eleitores formam longas filas muito antes das estações se abrirem”. Contrastando com
isso, o WIAA Club [em Malabar Hill], que abrigava duas mesas de voto, parecia que as
pessoas tinham saído de um jogo de tênis ou de bridge para apenas votar de maneira
incidental.
Um dia depois de Mumbai ir às urnas, era a vez de Mizo. No que diz respeito à
cultura e à geografia, não poderia ter havido um maior contraste. Mumbai tinha uma grande

20
densidade de estações de voto: 1.349 no total, reunidos em 92 milhas quadradas; Mizo, uma
área tribal, que faz fronteira com o Paquistão Oriental e a Birmânia, precisava de apenas 113
cabines espalhadas por uma área de mais de 8.000 milhas quadradas. As pessoas que viviam
ali, disse uma vez um escriba, “não conheciam filas, senão àquelas das batalhas”. Mas eles,
no entanto, “acabaram gostando” do exercício, chegando às suas cabines depois de caminhar
durante dias por “trilhas perigosas em meio a selvas, acampamentos noturnos e músicas e
danças em volta do fogo”. E assim 92.000 mizos, que “ao longo dos séculos tudo resolviam
com suas flechas e lanças, foram adiante para tomar uma decisão pela primeira vez através
das urnas”.
Uma fotógrafa norte-americana a trabalho em Himachal Pradesh ficou profundamente
impressionada com o compromisso demonstrado pelos funcionários que atuaram na eleição.
Um funcionário tinha caminhado por seis dias para comparecer da oficina preparatória
organizada pelo magistrado distrital; outro passou quatro dias em uma mula. Eles voltaram
para suas estações distintas, com sacos costurados, cheios de urnas, cédulas, símbolos do
partido e listas eleitorais. No dia da eleição, um fotógrafo escolheu assistir os procedimentos
de uma aldeia montanhosa obscura chamada Bhuti. Ali, as cabines de votação ficavam em
uma escola que tinha apenas uma porta. Uma vez que as regras prescreviam uma entrada e
uma saída diferentes, uma janela foi usada como porta, com passos improvisados em ambos
os lados para permitir que os mais velhos e os doentes pudessem pular após as votações.
Pelo menos na primeira eleição, políticos e o público eram tanto (para citar o
comissário eleitoral chefe) “essencialmente pacíficos e obedientes à lei”. Havia apenas 1.250
crimes eleitorais relatados. Estes incluíam casos de falsidade ideológica, 106 tentativas de
tirar as cédulas das urnas e 100 instâncias de “apuração dentro de cem jardas dos locais de
votação”. Algumas dessas últimas ofensas sem dúvidas foram cometidas por vacas pintadas
desorientadas.

VII

As votações para as eleições gerais terminaram na última semana de fevereiro de 1952.


Quando os votos foram contados, o Congresso confortavelmente venceu. O partido assegurou
364 dos 489 lugares no Parlamento e 2.247 dos 3.280 lugares nas assembleias estatais. Como

21
os críticos do Congresso se apressaram em apontar, o sistema ​first-past-the-post produzira
um resultado distante do representativo. Mais de 50% do eleitorado votou para candidatos ou
partidos que não eram do Congresso. Para o Parlamento como um todo, o Congresso havia
recebido 45%dos votos e venceu com 74,4% dos lugares; os números correspondentes aos
estados eram 42.4% e 68.6%. Ainda assim, vinte e oito ministros do Congresso não
conseguiram um lugar. Estes incluíam homens de influência como Jai Narayan Vyas, em
Rajasthan, e Morarji Desai, em Mumbai. Mais impressionante ainda foi o fato de que foi um
comunista, Ravi Narayan Reddym – ele, que bebeu seu primeiro copo de uísque durante a
campanha – que alcançou a maioria, mais ainda que o próprio Jawaharlal Nehru.

Kuthe to Ghatnakar Ambedkar,


Aani Kuthe ha Lonivikya Kajrolkar?

Que, grosseiramente traduzido, quer dizer:

Onde está o (grande) construtor de constituição Ambedkar


E onde está o (obscuro) vendedor de manteiga Kajrolkar?

Ainda, no final, com o prestígio e a presença do Congresso, e o fato de que Nehru fez
inúmeros discursos em Mumbai, carregaram Kajrolkar à vitória. Como um alguém
maliciosamente comentou, até um poste no estande do Congresso poderia ter sido eleito. Ou,
como um cientista político mais desapaixonadamente afirmou, a eleição foi vencida “pela
popularidade pessoal de Nehru e sua capacidade de expressar as aspirações de uma Índia
recém-independente de maneira viva e contundente”.
Na véspera das eleições, Sukumar Sen sugeriu que eles constituíam “o maior
experimento democrático na história humana”. Um veterano editor de Chennai foi menos
neutro; ele reclamou que “uma larga maioria [irá votar] vota pela primeira vez: não muitos
sabem o que é o voto, por que eles devem votar, e para quem votar; não é de se admirar que
essa aventura seja qualificada como a maior aposta da história”. E recentemente um
maharaja despossuído disse a um casal de norte-americanos visitante que qualquer
constituição que sancionasse o sufrágio universal em uma terra de analfabetos fosse “louca”.

22
“Imagine a demagogia, a desinformação, a desonestidade possível”, disse ele, acrescentando:
“O mundo é incerto demais para permitir uma experiência dessas”.
Penderel Moon, um rapaz de ​All Souls College,​ e um ex-membro da ICS que escolheu
permanecer na Índia, compartilhava desse ceticismo. Em 1941, Moon falou aos estudantes da
graduação da Universidade de Punjab sobre a inadequação da democracia ao modelo
ocidental no contexto social em que eles vivem. Agora, onze anos mais tarde, ele era o
comissário chefe do estado de Manipur, e teve que instruir funcionários eleitorais e
supervisionar as eleições e as contagens. Como as pessoas de Manipur foram votar no dia 29
de janeiro, Moon escreveu ao seu pai que “um futuro e uma era mais iluminada verá com
espanto a absurda farsa de registrar os votos de milhões de pessoas analfabetas”.
Tão cético quanto o homem de ​All Souls era o ​Organizador​, um semanário publicado
pelo grupo revanchista hindu, o RSS, que esperava que Jawaharlal Nehru “viveria para
confessar o fracasso do sufrágio universal adulto na Índia”. Afirmou que Mahatma Gandhi
havia advertido contra essa “dose precipitada de democracia”, e que o presidente, Rajendra
Prasad, estava “cético quanto a esse salto no escuro”. Ainda assim, Nehru “que sempre viveu
sob slogans e acrobacias, não lhes daria ouvidos”.
Houve tempos em que Nehru tinha segundas intenções a respeito do direito ao voto
universal. Em 20 de dezembro de 1951, ele brevemente se afastou da campanha para dirigir
um simpósio na UNESCO em Deli. Em seu discurso, Nehru afirmou que a democracia era a
melhor forma de governo ou autogoverno, mas ainda se perguntava se

a qualidade dos homens que eram selecionados por esses métodos democráticos
modernos do direito ao voto adulto gradualmente se deteriorava, devido à pensar
pouco e ao barulho da propaganda... Ele [o eleitor] reage ao som e ao ruído, ele
reage à repetição e pode produzir tanto um ditador quanto um político burro que é
insensível. Tal político pode suportar todo o barulho do mundo e continuar de pé,
portanto, ele é selecionado. No fim, porque todos os outros entraram em colapso
devido a esse barulho.

Essa era uma rara confissão, baseada sem dúvidas em suas experiências recentes na
estrada. Uma semana mais tarde Nehru sugeriu que seria melhor ter eleições diretas em níveis
mais baixos – digo, dentro de uma aldeia e de um distrito – e indiretas para os níveis mais

23
altos. Pois, como apontou, “as eleições diretas para um número tão grande são um problema
complicado e os candidatos talvez nunca entrem em contato com o eleitorado, tornando tudo
distante”.
Nehru tinha uma capacidade fora do comum – não usual entre políticos, de qualquer
forma – para ver os dois lados de uma questão. Ele poderia ver as imperfeições dos processos
mesmo estava comprometido com ele. No entanto, no momento em que vieram à tona os
resultados finais, e o Congresso surgiu como um partido incontestável as dúvidas de Nehru
desapareceram. “Meu respeito pelo chamado eleitor analfabeto”, ele disse, “aumentou”.
“Quaisquer dúvidas que eu poderia ter sobre o sufrágio adulto na Índia foram completamente
removidas”.
A própria eleição também, compreensivelmente, acalmou as dúvidas do novo
embaixador norte-americano na Índia, Chester Bowles. Esse, representante da democracia
mais rica do mundo, assumiu seu cargo em Deli no outono de 1951. Ele confessou que estava
“consternado com a perspectiva de uma votação de 200 milhões de eleitores elegíveis, a
maioria dos quais eram moradores analfabetos”. Ele “temia uma fiasco”, e mesmo (como
escreveu o Madras Mail), “a maior farsa já encenada em nome da democracia em qualquer
lugar do mundo”. Mas uma viagem pelo país durante a votação o fez mudar de ideia. Uma
vez, ele pensou que países pobres precisavam de um período sendo governados por um
ditador benevolente como uma preparação para a democracia. Mas tendo a vista vários
partidos contestando livremente, e dos intocáveis e brâmanes parados sobre uma mesma
linha, o persuadiu do contrário. Ele não mais pensava que a alfabetização era um teste de
inteligência, já não acreditava que a Ásia precisa de “uma série de Ataturks” antes de estarem
prontos para uma democracia. Resumindo seu relatório sobre as eleições. Bowles escreveu:
“Na Ásia, como na América, eu não conheço visão mais grandiosa que essa: o governo pelo
consentimento dos governados”.
Um jornalista turco visitante focou no conteúdo das eleições muito mais que em sua
forma. Ele admirava a decisão de Nehru de não seguir outros países asiáticos na tomada de
uma “linha de menor resistência” desenvolvendo uma “ditadura com centralização do poder e
intolerância aos dissidentes e críticos”. O primeiro-ministro teria “sabiamente se mantido
longe dessas tentações”. Mesmo que “os créditos principais”, de acordo como escritor turco,
“vá para a nação em si; 176.000.000 de indianos foram deixados a sós com suas próprias
consciências diante das urnas. Votos diretos e secretos. Eles tiveram que escolher entre

24
teocracia, chauvinismo, separatismo comunal e isolacionismo de um lado; secularismo,
unidade nacional, estabilidade, moderação e relações amigáveis com o resto do mundo, de
outro. Eles mostraram maturidade na escolha da moderação e do progresso, desaprovando a
reação e agitação”. Tão impressionado era esse observador que ele procurou, com seus
compatriotas, conhecer Sukumar Sen. O comissário eleitoral chefe mostrou a eles amostras
de urnas, cédulas, símbolos, assim como o planejamento das cabines de votação, para que
eles pudessem retomar o interrompido progresso da democracia em seus próprios países.
Por um lado, o jornalista turco estava certo. Havia, de fato, 176 milhões de heróis; ou,
pelo menos 107 milhões – aqueles entre os elegíveis que realmente tiveram dificuldades para
votar. Ainda assim, alguns heróis eram mais especiais que outros. Como observou o
respeitado sociólogo de Lucknow, D. P. Mukerji, “o grande crédito é devido àqueles que se
encarregaram desse primeiro e estupendo experimento na história da Índia. A burocracia
certamente provou seu valor ao cumprir honestamente os deveres impostos por um
primeiro-ministro honesto.
A justaposição é importante, mas também irônica. Pois, houve um tempo no qual
Nehru teve pouco, mas certo desprezo pela burocracia. Como apontou em sua autobiografia,
“poucas coisas são mais marcantes hoje na Índia que a progressiva deterioração, moral e
intelectual, dos altos serviços, mais especificamente dos Serviços Civis indianos. Isto é mais
evidente nos altos funcionários, mas funciona como um fio puxando todos os outros
serviços”. Isso foi escrito em 1935, quando os objetos de seu escárnio tinham poder suficiente
para colocar ele e seus gostos na prisão. E ainda, quinze anos mais tarde, Nehru foi obrigado
a colocar votos nas mãos de homens que teria uma vez demitido como servos imperialistas.
A respeito disso, a eleição de 1952 foi um roteiro juntamente escrito por forças
históricas que por muito tempo se opuseram: o colonialismo britânico e o nacionalismo
indiano. Entre eles, essas forças deram essa nova nação que poderá ser justamente descrita
como o salto inicial para a democracia.

25
​A CASA E O MUNDO

Pandit Nehru está no seu melhor quando ele não está preso aos detalhes.
Economic​ Weekly, 28 de julho de 1951

NÃO MUITO APÓS as eleições de 1952, o escritor indiano Nirad C. Chaudhuri escreveu um
ensaio sobre Jawaharlal Nehru para uma revista popular. Nessa época, o escritor era
moderadamente conhecido, mas o seu assunto continuava dominando não só a ele como
todos a sua volta. A liderança de Nehru, observou Chaudhurim “é mais importante força
moral por trás da unidade da Índia”. Ele era “o líder não de um partido, mas do povo indiano,
coletivamente, o legítimo sucesso de ​Gandhiji​”. Como disse,

Nehru está mantendo a máquina governamental e o povo unidos, e sem esse elo a
Índia provavelmente seria privada de um governo estável nesse período crucial. Ele
não apenas garantiu uma cooperação entre ambos, mas é provável que também tenha
realmente impedido conflitos culturais, econômicos e políticos. Não só a liderança
de ​Mahatmaji ​continuou, mas teria sido bastante parecida com ela.
Se, dentro do país, Nehru é a vital ligação entre os governantes da
classe-média e o povo soberano, ele não menos o vínculo entre a Índia e o mundo.
[Ele serve como] O representante da Índia para as grandes democracias ocidentais, e,
devo acrescentar, o representante deles na Índia. As nações ocidentais certamente o
consideram como tal e esperam dele a garantia de que a Índia os apoie, razão pela
qual eles tanto se decepcionam quando Nehru adota uma política neutra ou
anti-ocidental. Eles se sentem traídos por um dos seus.

Através de seu longo mandato como primeiro-ministro, Nehru foi simultaneamente


Ministro das Relações Exteriores da Índia. O que era natural, pois entre as lideranças do
Congresso, ele tinha uma perspectiva genuinamente internacionalista. Que Gandhi tinha sido
universal é uma perspectiva estranha, mas ele quase não viajou ao exterior. Outros líderes do

26
Congresso como Vallabhbhai Patel, eram determinadamente voltados para causas internas.
Por outro lado, Nehru,, “sempre foi fascinado pelos movimentos e tendências mundiais”.
No período entreguerras, Nehru permaneceu como um observador próximo e,
ocasionalmente, um participante nos debates europeus. Em 1927, ele visitou a Rússia
soviética, e na década seguida viajou muito pelo continente. Na década de 1930, ele exerceu
um papel ativo em apoio à causa republicana na Espanha. Tornou-se um pilar da esquerda
progressista, frequentemente falando sobre as plataformas públicas na Inglaterra e França. A
respeito disso, seu nome e fama foram ajudados pela publicação e do sucesso comercial de
sua autobiografia, que apareceu em Londres em 1936.
Representante das ideias de Nehru é um discurso que ele fez sobre “Paz e Império” na
Friends House, em Euston, em julho de 1938. Tudo começou falando sobre “a agressão
fascista”, mas acabou por ver que o fascismo é apenas mais uma variante do imperialismo.
No Reino Unido, a tendência era distinguir um do outro. Mas na mente de Nehru, era claro:
aqueles que “buscam a liberdade para os mais diversos povos do mundo” tinham que se opor
tanto ao fascismo como ao imperialismo.
A crise dos tempos, disse Nehru, tinha promovido uma “solidariedade crescente entre
os mais variados povos” e um “sentimento de camaradagem e companheirismo
internacional”. Sua própria fala foi largamente disseminada ao redor do mundo. Ele foi da
Espanha, da Abissínia, da China, da Palestina e, mais sensivelmente, da África. O "povo da
África merece nossa consideração especial", ressaltou ele, pois “provavelmente nenhum outro
povo no mundo sofreu tanto e foi tão explorado”.
Ao final do verão de 1939, Nehru planejou uma viagem ao grande vizinho asiático da
Índia, a China. Ele amigavelmente correspondia com Chiang Kaishek, pois, como disse a um
colega, “cada vez mais penso na Índia e China caminhando juntas no futuro”. Ele esperava ir
de avião a Chungking, passar lá três semanas viajando pelo interior do país, e voltar para casa
pela estrada da Birmânia. Infelizmente, a guerra na Europa pôs um fim ao passeio.
Nehru foi preso pela sua participação no movimento ​Quit India em 1942. Quando foi
liberto em julho de 1942, dedicou suas energias a finalizar o jogo do império. Porém, ficou
claro que a Índia seria logo libertada, e seus pensamentos se voltaram então a causas externas.
Em uma transmissão de rádio de setembro de 1946, ele destacou os Estados Unidos, a União
Soviética e a China como sendo os três países mais relevantes para o futuro da Índia. No ano
seguinte, ele falou na Assembleia Constituinte sobre como a Índia seria uma boa amiga para

27
tanto para os EUA como para a URSS, em vez de se tornar uma mera seguidora de um só
lado com a “esperança de que algumas migalhas caíssem em sua mesa”. Como disse, “nós
mesmos nos lideramos”.
Uma articulação precoce do que veio a ser conhecido como “não-alinhamento” está
contida em uma carta escrita por Nehru a K. P. S. Menon em janeiro de 1947, como os
últimos preparos para assumir sua missão como o primeiro embaixador da Índia na China.
Nossa política geral é evitar confusões no poder, e não nos unir a nenhuma potência
contra outra. Os dois principais grupos hoje são o bloco russo e o bloco
anglo-americano. Nós precisamos ser amigáveis com ambos, mas ainda assim não
nos juntarmos a eles. Tanto a América como a Rússia são extraordinariamente
suspeitas a respeito uma da outra, mas também sobre outros países. Isso dificulta
nosso caminho e é provável que também suspeitem que estejamos inclinados para
este ou aquele lado. Isso não pode ser resolvido.

Nehru viu a independência da Índia como parte de um amplo ressurgimento asiático.


Passados séculos de pertencimento à Europa, ou aos brancos em geral, mas já era tempo dos
povos não brancos e anteriormente subordinados seguirem seus próprios caminhos.
Uma iniciativa notável a esse respeito foi a Conferência das Relações Asiáticas,
realizada em Nova Deli na última semana de março de 1947. Vinte e oito países enviaram
representantes - estes incluem vizinhos próximos da Índia (Afeganistão, Birmânia, Ceilão
britânico e Nepal), as nações ainda colonizadas do Sudeste Asiático (como Malaya, Indonésia
e Vietnã), China e Tibete (cada qual enviando uma delegação separada), as sete "repúblicas"
asiáticas da União Soviética e da Coréia. A Liga Árabe também estava representada e havia
uma delegação judaica da Palestina. Como um jornalista ocidental, que cobria o evento,
observou, por uma semana a cidade de Deli “foi preenchida com a mais complexa variedade
de pessoas, curiosos nos trajes e semblantes: brocas do sudeste asiático, calças estilo boca de
sino vindas das repúblicas soviéticas orientais, cabelos trançados e vestes acolchoadas do
Tibete (...) dezenas de línguas curiosas e títulos polissilábicos. De uma forma ou de outra,
enquanto nos lembramos um do outro, essa multidão representava quase metade da
população mundial”.
A conferência foi realizada no Purana Qila, estrutura de pedra larga, um tanto
precária, mas ainda assim majestosa, construída por Sher Shah Suri no século XVI. As

28
sessões de abertura e encerramento foram abertas ao público, e atraíram multidões imensas –
cerca de 20.000 pessoas. A língua oficial era o inglês, mas foram providenciados intérpretes
para as delegações. Os palestrantes falaram em um pódio; atrás deles fora montado um mapa
enorme do continente, com “ASIA” escrito no topo em luzes neon. As frases inaugurais
foram ditas por Nehru: “Surgindo para a grande aclamação pública”, ele falou sobre como
“depois de um longo período de quietude” a Ásia “subitamente se tornou importante nas
pautas mundiais”. Seus países já “não poderiam ser usados pelos outros como meros peões”.
No entanto, como lembrou jornalista G. H. Jansen, o discurso de Nehru “não era direta ou
fortemente anti-colonial”. “Os antigos imperialismos estão desaparecendo”, ele disse. Com
um movimento quase desdenhoso, ele fez algo pior que atacá-los, ele pronunciou uma um
discurso de despedida.
Depois da fala de Nehru, cada país participante, em ordem alfabética, enviou um
palestrante ao pódio. Isso levou dois dias inteiros, depois dos quais a reunião foi finalizada
com mesas redondas temáticas. Havia duas sessões separadas: “movimentos nacionais pela
liberdade”, “problemas raciais e migração inter-asiática”, “desenvolvimento econômico e
serviços sociais”, “problemas culturais”, e “situação das mulheres e movimentos femininos”.
A conferência foi concluída com uma fala de Mahatma Gandhi. Ele lamentou que a
conferência não tenha acontecido na “Índia real das aldeias, mas nas cidades que são
influenciadas pelo ocidente”. A “mensagem da Ásia”, Gandhi insistiu, era “não ser ensinado
por meio dos espetáculos ocidentais ou imitando a bomba atômica (...) quero que vocês
voltem para casa tendo em mente que a Ásia precisa conquista o mundo através do amor e da
verdade”.
Gandhi apareceu, mas esse espetáculo pertencia a Nehru. Seus admiradores o viram
como uma confirmação de seu status, da autêntica voz de uma Ásia ressurgente. Seus críticos
foram menos generosos. Em seu relato da conferência, o jornal da Liga Muçulmana, ​Dawn,​
reclamou da “forma habilidosa com a qual ele [Nehru] desenvolveu um tipo de liderança
asiática. Isso era o que ele ambicioso líder hindu tinha pretendido fazer – jogar-se sobre as
nações asiáticas como seu líder e, através dessa conquista desse prestígio e fama, promover
projetos expansionistas do hinduísmo indiano”.

29
II

Nehru ia frequentemente à Europa antes da Independência. Sua primeira viagem aos Estados
Unidos, contudo, aconteceu dois anos após assumir o cargo de primeiro-ministro. A
imaginação política de Nehru não tinha muita consideração pelos EUA. Seus ​Glimpses of
World History​, por exemplo, dedicou muito menos espaço a isso que à China ou à Rússia. E o
que ele diz nem sempre é elogioso. O capitalismo ao estilo americano tinha levado à
escravidão, ao gangsterismo, e ao extremo massivo de riqueza e pobreza. O financista
norte-americano J. Pierpont Morgan adquiriu um iate avaliado em 6 milhões de euros, e ainda
assim Nova York era conhecida como a “cidade faminta”. Nehru admirava as tentativas de
Roosevelt de regular a economia, mas ele não estava muito esperançoso de que o plano FDR
seria bem sucedido. Pois “o ​American Big Business p​ ode ser considerado o mais poderoso
investimento do mundo moderno, e ele não vai desistir de seu poder e privilégios unicamente
pela vontade do presidente Roosevelt”.
Antes da viagem de Nehru para a América no final de 1949, um repórter
empreendedor passou por seus escritos na revista ​Time​. O exercício revelou que ele
“simplesmente nunca havia dado muita importância ao assunto [os Estados Unidos]. Como
homem de uma universidade britânica, talvez ele tenha olhado para as deficiências culturais
norte-americanas de forma esnobe. Como um socialista sentimental, riscou os EUA da lista
como incomparável tecnologicamente, mas predatório em seu capitalismo.”
Os sentimentos de Nehru foram amplamente compartilhados. Como os aristocratas
britânicos, a elite indiana tendia a pensar nos Estados Unidos e nos norte-americanos como
grosseiros sem cultura. Representando esses pensamentos, as opiniões de P. P.
Kumaramangalam, descendente de uma família ilustre do sul da Índia. Seu pai, o Dr. P.
Subbaroyan, foi um rico senhor de terras e um político influente – que mais tarde trabalhou
no gabinete de Nehru. O filho estudou em Sandhurst – seus irmãos em Oxford e Cambridge.
Destes, um irmão chamado Mohan e uma irmã chamada Parvathi, tornaram-se uma luz para o
Partido Comunista da índia. Isso os predispôs a serem avessos aos Estados Unidos. Mas, a
respeito disso, o irmão que era oficial do exército os superou. Após a independência indiana,
ele foi enviado para treinar para a escola de artilharia em Fort Sill, em Oklahoma. Daqui ele
escreveu para um mentor de Chennai sobre como

30
Esse país não é o lugar no qual eu algum dia vou me encontrar. Eu não tenho um
conceito muito alto sobre eles. As pessoas com as quais eu lido são sempre gentis,
hospitaleiras, e sempre foram muito boas para nós dois. Mas de alguma forma sinto
que há um traço de artificialidade nisso e também o resultado de certo esforço para
impressionar. Penso que eles têm muita inveja do velho mundo, de suas experiências
e cultura e isso resulta em um agressivo complexo de inferioridade. Quanto à
moralidade, não há nenhuma. As pessoas parecem se deliciar tentando superar umas
às outras de todas as formas, principalmente as desonestas. Os políticos são
corruptos e os grandes negócios controlam tudo no país com mão de ferro. Penso
que o pequeno comerciante e o grande fazendeiro têm suas mãos atadas pelos
grandes homens. Espero que nosso país avance com cautela e não fique totalmente
sob a influência dos Estados [Unidos].

Os norte-americanos, por sua vez, tinham os seus próprios preconceitos sobre a índia. Eles
admiravam Gandhi e sua luta pela independência nacional, mas seus conhecimentos sobre o
país em si eram escassos. Como Harold Isaac apontou uma vez, para os americanos do
pós-guerra, estes eram: 1) os indianos fabulosos, os maharajas e mágicos acompanhados de
animais exóticos como tigres e elefantes; 2) os indianos místicos, pessoas que “intensas,
contemplativas, tranquilas, profundas”... 3) os indianos ignorantes, que adoravam aos animais
e ao deuses de muitas canecas, vivendo em um país que conseguia ser mais pagão que a
China; e 4) os indianos patéticos, atormentados pela pobreza e paralisados pela doença –
“crianças cercadas por moscas, com estômagos inchados, crianças morrendo nas ruas, rios
repletos de corpos...”. Destas imagens talvez as duas últimas fossem as predominantes. Não
por acaso o livro mais conhecido sobre o subcontinente fosse ​Mother India de Katherine
Mayo, um livro que Gandhi havia descrito como “o relatório de um inspetor de drenagem”.
Nehru, em partes, compartilhava os preconceitos sobre os indianos, e era sensível aos
dos norte-americanos. Mas este primeiro encontro de alto-nível entre os mais jovens e os
mais ricos era para deixá-los em espera. Em agosto de 1949, como havia planejado para sua
viagem, Nehru estava estranhamente nervoso. “Com que humor devo me dirigir aos Estados
Unidos?”, perguntou à sua irmã Vijayalakshmi. “Como devo abordar as pessoas? Como devo
lidar com o governo e empresários de lá? Qual faceta de mim devo colocar diante do público

31
norte-americano? O indiano, o europeu... Eu quero ser amigável com os norte-americanos,
mas sempre deixando claro o que defendemos.”
Nehru passou três semanas nos Estados Unidos, discursando uma vez ao dia para
públicos tão diversos quanto o congresso dos Estados Unidos e uma congregação na capela
de Chicago. Foi premiado com um doutorado honorário pela Universidade da Columbia e
ouvido por uma multidão de 10.000 pessoas na Universidade da Califórnia e Berkeley.
Revelou um lado comum, sendo fotografado com um motorista de táxi em Boston, mas
também deixou claro sua pertença à aristocracia intelectual, como em uma visita amplamente
divulgada a Albert Einstein em Princeton.
Dirigindo-se ao Congresso, Nehru falou respeitosamente sobre os fundadores da
América, mas então os contrapôs a um grande homem de seu próprio país. Este era Gandhi,
cuja mensagem de paz e verdade inspirara a política externa da Índia independente. Mahatma,
contudo, “foi muito bom para as fronteiras circunscritas de qualquer país, e a mensagem que
passou pode nos ajudar a respeito dos mais amplos problemas do mundo”. Pois das coisas
que mais faltam no mundo, disse Nehru, estão a “compreensão e entendimento entre as
nações e povos”.
Isso foi colocado diplomaticamente, mas em outros lugares Nehru foi mais direto em
seus discursos. Na Universidade de Columbia, Nehru lamentou o desejo de “direcionar o
mundo a dois campos de batalha hostis”. A Índia, ele disse, não se alinharia a nenhum, mas
procuraria “uma abordagem independente para questão controversa ou muito contestada”. Na
sua opinião, a principal causa da guerra era a persistência do racialismo e do colonialismo.
Paz e liberdade só seriam asseguradas se a dominação de um país ou uma raça sobre a outra
chegasse ao fim.
A imprensa norte-americana ficou impressionada com o primeiro-ministro. A
Chicago Sun Times chegou a dizer que “de muitas maneiras Nehru é o mais próximo que essa
geração tem de um Thomas Jefferson no modo como dá voz às aspirações universais pela paz
dos povos em todos os lugares” A ​Christian Science Monitor o descreveu como um “titã do
mundo”. Quando ele foi embora, um colunista no ​St. Louis Post-Dispatch observou que
“Nehru se foi, e deixou para trás nuvens de mulheres com olhos marejados”. Até mesmo a
revista ​time admitiu que, enquanto os norte-americanos não estivesse certos da posição de
Nehru, “eles podiam sentir nele, se não uma verdade rara, um coração raro”.

32
Contudo, havia um conjunto de pessoas que não se empolgaram com o visitante
indiano – os mandarins do Departamento Estadual​. ​Nehru teve várias discussões longas com
o secretário de Estado, Dean Acheson, mas estas não foram a lugar algum. Em seus
memórias, Acheson escreveu desdenhosamente e com certo desespero sobre a vista de Nehru.
Em suas conversas, ele o encontrou “espinhoso”, arrogante (“ele falou comigo... mas como se
fosse uma reunião pública”) e também pronto para colocar a culpa nos outros (notavelmente
os colonialistas franceses e holandeses) sem reconhecer a sua própria. Quando Acheson
abordou a questão da Caxemira, ele curiosamente combinou um discurso público, momentos
de raiva, e um profundo desgosto pelos seus oponentes. Ao todo, ele encontrou em Nehru
“um dos homens mais difíceis com os quais já teve que lidar”.
Outras autoridades americanas foram mais simpáticas com Nehru. Um deles foi
Chester Bowles, que foi embaixador em Nova Déli de 1951 a 1953. Testemunhando o
trabalho de Nehru em seu ambiente próprio, Bowles ficou visivelmente impressionado com
seu compromisso com a democracia e procedimentos democráticos e com o direito das
minorias. Dean Acheson e muitos outros americanos, dividiam o mundo em duas categorias:
amigos e inimigos. Essa não era uma leitura que Bowles endossaria. Ele insistia que “para
nós [americanos] é imaturo e ridículo concluir que por ele [Nehru] não ser 100% a nosso
favor, que deve ser contra nós”.
Durante o mandato de Bowles, a Índia e os Estados Unidos se aproximaram. Os EUA
enviaram especialistas e equipamentos para ajudar com programas indianos de
desenvolvimento agrícola. Mas a desconfiança popular persistiu. Um escritor de Delaware,
visitando o subcontinente no início dos anos cinquenta, encontrou muitos indianos educados
para quem os Estados Unidos eram um país “isolado por falhas grosseiras, seguindo sozinhos
nos pecados impensáveis do materialismo, ambições imperialistas, guerra, corrupção política,
pobreza cultural e espiritual, discriminação racial e injustiça”.
A mútua desconfiança se aprofundou após 1953, quando os republicanos se
encontraram de volta ao poder depois de vinte anos longe dele. No final daquele ano, William
F. Knowland, o líder republicano no senado, realizou uma turnê de seis semanas. Ao retornar,
disse ao ​US News e ao ​World Report que Jawaharlal Nehru não representava todas as nações
ou povos da Ásia. O senador Knowland disse, enfaticamente: "Certamente Nehru não fala
pela República da Coréia, pelo Japão, pela China livre ou Formosa, pela Tailândia, Vietnã,
Laos ou Camboja. Ele certamente não fala pelo Paquistão. Os únicos países com os quais ele

33
estaria apto a falar com alguma autoridade, ou pelo menos representar seus pontos de vista,
seriam a própria Índia, a Indonésia, que também tem uma perspectiva neutra e talvez a
Birmânia...”
Esses pontos de vista eram compartilhados pelo novo secretário de estado, John
Foster Dulles. Dulles era o mais frio dos guerreiros da Guerra Fria, cuja política externa era
dominada pela sua obsessão com o comunismo. Na batalha contra a União Soviética, Dulles
estava preparado para ignorar os sistemas políticos internos de outras nações. De modo geral,
ditadores que diziam que preferiam as linhas americanas a democratas que não o faziam: “Se
ele é um bastardo, que pelo menos seja o nosso bastardo, como ele deveria ter dito”.
Dulles e Nehru não se gostavam desde o começo. O norte-americano dizia que “o
conceito de neutralidade é obsoleto, imoral e de uma visão limitada. Aqueles que o professam
são, de fato, cripto-comunistas”. Nehru, naturalmente, não aceitou essa interpretação
gentilmente. Como o diplomata australiano Walter Crocker escreveu, o primeiro-ministro
indiano não deixou escapar a ironia que

no que diz respeito à santidade do Mundo Livre e da Vida Livre proclamada por
Dulles, ele, condenado por Dulles, estava carregando a Índia através de um enorme
esforço em direção a uma democracia parlamentarista, sob a lei, liberdade e
igualdade para todas as religiões, reformas sociais e econômicas, enquanto, entre os
países elogiados e subsidiados por Dulles, por estarem “dispostos a se levantar e
serem considerados” como anti-comunistas, eram exauridos perseguindo tiranias,
oligarquias ou teocracias, e às vezes eram também corruptas e retrógradas.

Dulles ofendeu ainda mais as sensibilidade indiana quando sugeriu que Portugal – um aliado
confiável dos Estados Unidos – poderia manter sua colônia em Goa tanto quanto quisesse.
Contudo, a contribuição decisiva do secretário para destruir as relações indo-americanas foi o
pacto militar por ele assinado com o Paquistão em fevereiro de 1954, Como um historiador
observou, “O senhor Dulles queria alianças. O Paquistão queria armas e dinheiro”.
Quase na época da independência, o Reino Unido viu o Paquistão como um potencial
aliado na Guerra Fria; de fato, como um “forte bastião contra o comunismo”. Ao contrário
disso, a Índia era vista como sendo muito flexível aos soviéticos. O próprio Winston
Churchill ficou muito impressionado com o argumento de que o Paquistão poderia ser

34
manipulado para permanecer firme no flanco oriental da Rússia, tanto quanto o confiável
cliente do Ocidente, a Turquia, permaneceu firme no oeste. O jovem e brilhante professor de
Harvard, Henry Kissinger endossou tal ideia – em sua opinião, a “defesa do Afeganistão [dos
soviéticos de theb] depende da força do Paquistão”.
Para republicanos como Dulles, a luta contra o comunismo era primordial.
Consequentemente, a virada em direção ao Paquistão, o qual ele via como um dos
membros-chave do círculo defensivo em torno da União Soviética. Das bases no Paquistão,
aviões norte-americanos poderiam penetrar profundamente a Ásia central soviética. A visão
de Dulles era apoiada pelo vice-presidente Richard Nixon e seus esforços combinados
finalmente prevaleceram sobre o presidente Eisenhower, que estava preocupado com a queda
na Índia, na sequência de qualquer aliança formal com o Paquistão.
O apoio militar norte-americano para o Paquistão girou em torno de 80 milhões de
dólares por ano. Os EUA também encorajaram os paquistaneses a integrar forças militares
anti soviéticas no centro e sudeste da Ásia conhecidos como CENTO e SEATO. Dois meses
antes de Dulles assinar seu pacto com o Paquistão, um missionário americano que havia
trabalhado por anos no subcontinente os alertou que “puxar militarmente o Paquistão contra a
Índia iria aliená-la”. Isso certamente aconteceu, embora também existissem outras tensões nas
relações indo-americanas. Nos conflitos em curso da Guerra Fria – como na Coréia e na
Indochina – a Índia era vista como sendo, de longe, neutra demais. As vigorosas apurações de
Nehru sobre o reconhecimento da República Popular da China, e sua insistência para que
fosse dado um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, então ocupado por
Taiwan, também não foi bem interpretado por Washington. Havia um crescente número de
americanos que sentiam que Nehru tinha “adentrado a área da política mundial como um
campeão desafiando a sabedoria americana”.
E talvez ele tenha mesmo. Pois, como Nehru escreveu ao industrial G. D. Birla em
maio de 1954, “não acho que existam muitos exemplos na história, de uma sucessão de
políticas equivocadas que são seguidas por um país como é o caso dos Estados Unidos e o
Extremo Oriente durante os últimos cinco ou seis anos. Eles deram um passo errado atrás do
outro... Pensam que podem resolver qualquer problema com dinheiro e armas. Esquecem o
elemento humano. Esquecem as necessidades nacionalistas do povo. Esquecem o forte
ressentimento das pessoas na Ásia contra essas imposições”.

35
O próprio industrial se interessava muito mais em forjar melhores relações entre os
dois países. Em outubro de 1954, Birla visitou os Estados Unidos e falou para uma série de
pessoas influentes. Ele até teve meia hora com John Foster Dulles, que reclamou sobre a
Índia “mal representá-los como guerreiros e assim por diante”. Em fevereiro de 1956, Birla
fez uma nova visita aos Estados Unidos na ocasião da construção de uma ponte. Pediu um
conselho a Nehru, mas recebeu um sermão. “A declaração de Dulles sobre Goa irritou a todos
nós”, disse o primeiro-ministro. “As relações indo-americanas são muito mais afetadas por
esse tipo de coisa que pela ajuda que poderiam dar. Depois, há o apoio militar ao Paquistão,
que é uma ameaça constante e crescente para todos nós e, de fato, aumenta muito mais o
nosso fardo do que nos ajuda”.
No mês seguinte, John Foster Dulles foi corajoso a ponto de visitar Nova Déli. O
registro de suas conversas com o governo indiano ainda é secreto, mas temos os trabalhos de
uma conferência de imprensa dirigida por ele. Nela, o secretário de estado esteve sujeito a
uma série de perguntas hostis. Ele foi perguntado acerca do motivo pelo qual disse que Goa
era parte de Portugal. Dulles não o negou, mas esclareceu que ele era a favor de uma “solução
pacífica” para essa controvérsia. Então, a conversa se voltou para o apoio militar ao
Paquistão, e a possibilidade disso gerar um agravamento no conflito da Caxemira. Dulles
respondeu defensivamente que “o fornecimento de armas aos paquistaneses não significa, de
forma alguma, uma ameaça à Índia”. Diante da persistência do questionador, Dulles observou
raivosamente que “nós não acreditamos que, por causa da disputa da Caxemira, o Paquistão
precisa ser desarmado, porque assim ele não seria capaz de resistir à agressão comunista dos
soviéticos”. O secretário de estado ameaçou ir embora se fizessem mais alguma pergunta
sobre Goa ou Caxemira.
Índia e Estados Unidos não pareciam ter muito em comum – a forma democrática de
viver, o compromisso com a pluralidade cultural e (não menos importante) o mito de origem
nacionalista que foi ressaltado pela luta contra a opressão britânica. Mas, em questão de
política internacional, eles eram resolutamente diferentes. A América pensava que a Índia era
amena em relação ao comunismo, a Índia pensava que a América era amena em relação ao
colonialismo. No final, o que os separava parecia oprimir o que os unia; em partes pela
química pessoal – ou, melhor, pela falta dela - entre os principais jogadores de cada lado.

36
III

Jawaharlal Nehru visitou a União Soviética duas décadas depois de ter visitado a América do
Norte. Chegando de trem, via Berlim, ele alcançou a fronteira russa em 7 de novembro de
1927, o décimo aniversário da tomada do poder pelos bolcheviques. O "culto a Lênin" era
exposto abundantemente. Havia bandeiras vermelhas e bustos do herói bolchevique em todos
os lugares. Nehru foi para Moscou, uma cidade que o impressionou tanto pela sua grandeza
física quanto pelo seu aparente nivelamento social. "Os contrastes entre luxo extremo e
pobreza não são visíveis, nem se pode perceber hierarquias de classe ou castas”.
Nehru escreveu um diário sobre sua viagem; seu tom era incansável, seja falando
sobre os coletivos camponeses, a constituição da URSS, a tolerância das minorias ou o
progresso econômico. Uma visita ao túmulo de Lênin o levou a um devaneio sobre o homem
e a sua missão, terminando com um respaldo da afirmação de Romain Rolland de que o líder
bolchevique era o “o maior e mais ativo dos homens do nosso século e ao mesmo tempo o
mais generoso”. Ele foi levado a um modelo de prisão, que considerou uma ilustração da
“melhor ordem social e do direito penal humano” do sistema socialista.
Em comparação com os países burgueses, concluiu Nehru, a União Soviética trata
melhor seus trabalhadores e camponeses, suas mulheres e crianças, e até mesmo seus
prisioneiros. A credulidade da narrativa é completada por uma epígrafe ao seu diário de
viagem – palavras de Wordsworth sobre Revolução Francesa: “Ventura, em tal alvorecer, era
estar vivo / mas ser jovem era o paraíso.”
O biógrafo de Nehru observa que ele visitou "a União Soviética nos últimos dias de
seu primeiro período de falecimento”. Se sua reação fosse idealista, era em parte porque
ainda havia algum idealismo no ar. Isso é verdade, depois de um modismo, pois ainda um
brilho sobre Lênin (cuja própria intolerância ainda não era amplamente conhecida fora da
Rússia). Enquanto o fim dos gulags e dos campos de extermínio da Sibéria ficavam para o
futuro. E, claro, houve outros endossos fornecidos pelos companheiros de viagem na década
de 1920. Como eles, Nehru tinha vindo a fim de ficar impressionado; e ele ficou.
Era, sobretudo, o sistema econômico soviético que mais atraía Nehru. Como
intelectual progressista, ele preferia a propriedade estatal a privada, o planejamento estadual
ao mercado. Seus ​Glimpses of World History contém um admirável relato de cinco anos de

37
planos soviéticos. Ainda assim, em nenhum momento ele foi atraído pelo modelo
bolchevique de revolução armada ou pelo Estado de partido único. Seu treinamento com
Gandhi o predispôs à política de não violência, e sua exposição ao liberalismo ocidental
tornou-o entusiasta da democracia eleitoral e de uma imprensa livre.
Após a independência, as relações com a União Soviética foram instantaneamente
congeladas. Isso aconteceu porque o Partido Comunista da Índia, com a benção de Moscou,
tentou derrubar o Estado. Mas a insurreição falhou, e os soviéticos também derreteram.
Agora, eles procuravam cortejá-la, para afastar a Índia do campo ocidental. Em 1951,
enquanto o Congresso norte-americano debatia a respeito de um pedido da Índia de auxílio
alimentar, os soviéticos – livres de procedimentos democráticos – ofereceram 50 mil
toneladas de trigo de uma só vez. Os esforços indianos em mediar o conflito coreano também
eram apreciados por Moscou. Anteriormente, os estados asiáticos eram julgados pela sua
adequação ao comunismo... Mas (tal qual a América de Dulles) a Guerra Fria tornou a
ideologia mais flexível. Não mais importava se o país era socialista, o crucial era saber de que
lado estava.
A consumação desta mudança foi a recepção dada a Jawaharlal Nehru quando ele
visitou a União Soviética em 1955. "Na União Soviética, onde quer que Nehru fosse",
escreveu um observador, "havia grandes multidões para cumprimentá-lo. Em todas as
fábricas, os trabalhadores se reuniram aos montes para vislumbra-lo”. "Na Universidade de
Moscou, os alunos deixaram as salas de aula para aclamá-lo”. (Um dos alunos era Mikhail
Gorbachev, que anos mais tarde recordaria em suas memórias o impacto que Nehru causou
nele e em sua ideia de uma política moral). No seu último dia ali, o primeiro-ministro indiano
estava convencido a falar em uma reunião pública no parque Gorky. Mas a multidão se
mostrou muito maior que o esperado e assim o local foi transferido para o estádio do time de
futebol Dínamo de Moscou.
Seis meses depois, os líderes soviéticos Bulganin e Khrushchov vieram visitá-lo. Os
indianos, por sua vez, fizeram de tudo para que a visita fosse bem sucedida. Antes que os
visitantes chegassem em Déli, alto-falantes estimulavam o público a vir aos montes, em uma
grata resposta à recepção que os russos deram a Nehru. No evento, houve aglomerações
espetaculares em todas as cidades que a dupla visitou. Havia vários motivos para esse
entusiasmo: a curiosidade pelo exótico e o estrangeiro, o amor indiano por um bom show e,
não menos importante, o sentimento anti-ocidental profundo em suas veias, o qual assumiu

38
um orgulho indireto no desafio da Rússia aos Estados Unidos. As maiores aglomerações se
deram na radical e anti-imperialista Calcutá, onde os estudantes e os trabalhadores das
fábricas constituíam uma boa parcela do meio milhão que saudava os líderes soviéticos.
Mesmo Nova Déli se iluminou. “Delhi Stock Exchange, brilhantemente iluminada, competia
com o escritório do Partido Comunista em um desafio de luzes festivas”.
Em suas três semanas na Índia, Bulganin e Khrushchov vistaram usinas siderúrgicas e
hidrelétricas, falaram em reuniões públicas e em não menos de sete capitais. Sem dúvidas, a
mais significativa destas foi a capital de Jammu e o estado da Caxemira. Foi ali que deixaram
claro que aceitaram o Vale como sendo parte do Domínio da Índia e a Caxemira como sendo
um dos “povos talentosos e industriosos da Índia”. Nada poderia soar mais doce aos ouvidos
indianos.

IV

Na véspera da partida de Nehru para Moscou em 1955, um crítico indiano se preocupou com
a possibilidade de Nehru fosse mantido em Moscou pelos seus hospedeiros. Pois, como para
muitas outras naturezas sensíveis, acostumadas no final dos anos 1920 e 1930 a considerar a
União Soviética como verdadeiramente progressista, o primeiro-ministro nunca pareceu ter
superado a visão daqueles dias. Apesar de tudo o que aconteceu desde então, a União
[Soviética] ainda conserva uma parte desse encanto. Para suas virtudes ele continua sendo
muito gentil, e para seus vícios e crueldades, ele é quase cego.
O escritor era A. D. Gorwala, um liberal influenciado pelo ocidente. Havia outros
como ele, indianos que acreditavam que a Índia deveria se aliar mais fortemente às
democracias na Guerra Fria. Mas esses foram superados em número e certamente
ultrapassados por aqueles indianos que suspeitavam dos Estados Unidos em favor da União
Soviética. Uma razão para tal era que enquanto os americanos não queriam pedir aos seus
aliados europeus que dissolvessem seus impérios na Ásia e na África, os russos falavam
frequentemente sobre os males do racismo e do colonialismo.
No começo, Nehru evitou tomar partido na Guerra Fria. Mas, como ele costumava
dizer, esse não-alinhamento não era uma mera evasão, isso tinha uma carga positiva. Um
terceiro bloco poderia vir a atuar como um saudável efeito moderador na arrogância das

39
superpotências. Já falamos das Conferências de Relações Asiáticas em 1947. Outro esforço
desse tipo, foi a Conferência Afro-Asiática, realizada na cidade de Bandung na Indonésia em
1955.
Apenas os países de governos independentes eram convidados para Bandung. Vinte e
nove delegações foram enviadas, incluindo a Índia e a China. Quase nações africanas foram
representadas (as outras ainda estavam sob o laço do colonialismo), e as delegações do Irã,
Iraque, Arábia Saudita e Síria vieram. A reunião discutiu métodos de cooperação econômica
e cultural, e se compromissou firmemente a colocar um fim ao domínio colonial. Pois, como
o presidente Sukarno da Indonésia observou, “como podemos dizer que o colonialismo está
morto se áreas tão vastas na Ásia e África não estão livres?”
Nehru considerou a Conferência de Bandung uma “grande conquista”: ela “anunciou
emergência política em questões de mais da metade da população mundial. [Mas] ela não
apresentou nenhum desafio pouco amigável ou hostilidade a ninguém...”. Como disse ao
Parlamento indiano em seu retorno, os laços históricos entre países asiáticos e africanos
foram separados pelo colonialismo. Agora, à medida que a liberdade surgiu, eles podem ser
revividos e reafirmados.
Este último protesto foi em resposta à acusação de que Bandung e similares eram, na
essência, anti-ocidentais. Como o “não-alinhado” era, de fato, não estava alinhado? Na índia,
seus ideais foram severamente testados no segundo semestre de 1956. Em julho daquele ano,
Gamal Abdel Nasser nacionalizou a empresa que gerenciava o Canal de Suez. A
Grã-Bretanha (cujos interesses estratégicos foram mais ameaçados pela ação) reagiu pedindo
o controle internacional sobre o Canal. Nehru, que conhecia muito bem ambas as partes, fez o
máximo para mediar o conflito. Mas ele falhou e, finalmente, no final de outro, os britânicos
em conluio com os franceses e israelenses, empreenderam uma invasão militar no Egito. Esse
ato de agressão neocolonial foi condenado mundialmente. Por fim, sob pressão americana, a
aliança anglo-francesa foi forçada a se retirar.
Ao fim da invasão do Egito, os tanques soviéticos entraram em Budapeste. Isso foi
seguido de uma revolta popular que derrubou o Estado cliente soviético favorecendo um
governo mais representativo. Moscou reagiu de forma brutal para restaurar seu antigo ​status
quo​. Suas ações, como a dos britânicos e franceses no Oriente Médio, foram vistas como uma
inaceitável violação da soberania nacional.

40
Os comentaristas indianos viram as invasões do Egito e da Hungria como
perfeitamente comparáveis. Ambas foram “atos de depredação internacional por poderes que
possuíam assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU” – ambos “espalharam
uma onde de cinismo em todo o mundo”. Como um jornal de Chennai observou, enquanto a
independência do Egito ameaçava os recursos petrolíferos da Grã-Bretanha e da França, “a
independência da Hungria não só ameaçaria o fornecimento de urânio tão essencial para
manter o Exército Vermelho em forma, como também abriria uma perigosa brecha no
império soviético. Londres não podia admitir o primeiro e Moscou não toleraria o último. Daí
os seus atos de pura agressão, as quais equivalem a uma exibição selvagem de um instinto
animal predatório”.
Nehru criticou a intervenção anglo-francesa assim que ela aconteceu. Mas agora,
quando as Nações Unidas se reuniram para discutir uma resolução, convidando a União
Soviética a “rapidamente retirar todas as forças do território húngaro”, a Índia representada
por V. K. Krishna Menon se absteve. Isso provocou um grande ressentimento no mundo
ocidental, expôs o governo indiano à acusação de manter um padrões duplos.
Havia também muito criticismo doméstico a respeito da posição da Índia. Houve um
debate furioso no Parlamento, e as seções da imprensa lamentaram “nosso vergonhoso
sicofantismo aos governantes soviéticos...”. “Ao aceitar a Rússia, abdicamos nossas
pretensões morais”, escreveu um jornalista. Foi especulado que o governo pode ter sido
influenciado pela sua incerta retenção da Caxemira, desde que uma das resoluções da ONU se
absteve de pedir um plebiscito internacionalmente supervisionado na Hungria.
Pesquisas posteriores revelaram que Nehru estava, na verdade, profundamente infeliz
a respeito da invasão soviética. Ele tinha enviado inúmeras mensagens privadas para Moscou,
incentivando a retirada de suas tropas. Mais tarde, a índia também falou em público, mas o
mal estava feito. Tinha sido combinado quando Nehru apoiou a abstenção original de Krishna
Menon, baseado no fato de que não havia informações suficientes naquele momento.
O fiasco sobre a Hungria prejudicou a credibilidade internacional de Nehru. O
"não-alinhamento" foi visto por alguns como "uma condenação feroz do bloco ocidental
quando suas ações dão errado”, mas “uma linguagem ambígua quando é o bloco soviético
quem sai dos trilhos”. O episódio também expôs o primeiro-ministro à acusação de colocar
sua lealdade pessoal acima dos propósitos nacionais. Mas, por enquanto, ele lamentava em
privado o que Krishna Menon havia feito, e o apoiava em público.

41
Krishna Menon era um velho amigo de Nehru e, a seu modo, um homem notável.
Formado pela ​London School of Economics​, foi também o primeiro editor de uma impressão
de não-ficção da Penguin e Pelican Books. Na década de 1930, ele trabalhou incansavelmente
na busca do apoio britânico à independência indiana. Mas ele também encontrou tempo para
atuar como um porta-voz não oficial e agente literário de Nehru. Foi recompensado com um
trabalho no alto comissariado de Londres após a Independência. Aqui ele trabalhou muito,
mas também fez inimigos por conta de sua arrogância e por frequentemente anunciar sua
amizade com o primeiro-ministro.
Após retornar de Londres, Krishna Menon foi nomeado ministro do gabinete6. Ele se
tornou uma espécie de embaixador itinerante, representando a Índia na ONU e em reuniões
de desarmamento em Genebra. Ele se tornou uma espécie de embaixador itinerante,
representando a Índia na ONU e em reuniões de desarmamento em Genebra. Um homem de
opiniões fortes, ele era controverso tanto em sua terra natal como fora dela. “A “lucidez do
seu intelecto”, escreveu um jornalista que o conhecia bem, "às vezes está “coberta por
paixões e ressentimentos”. Uma vez que seus “gostos e desgostos eram mais fortes do que
seria seguro para um homem em sua posição”, parecia “estranho que um homem tão
tempestuoso fosse responsável por missões diplomáticas delicadas”.
Mesmo antes da Hungria, houve um comentário desfavorável a respeito da confiança
do primeiro-ministro em Krishna Menon. Dentro do Congresso, havia muitos que estavam
desconfortáveis com suas inclinações pró-comunistas. E a imprensa ocidental cordialmente o
odiava: um jornal de Nova York falava sobre sua “falta de amabilidade” em seu “ainda menor
tato de diplomata”.
Mas Nehru ainda ficaria ao lado de Menon. Já em 1953, estava sendo noticiado que
em Deli o primeiro-ministro se “chateava quando alguém criticava seu diplomático bicho de
estimação, o senhor Krishna Menon”. Sua cegueira lhe custara muito caro a respeito da
Hungria em 1956, mas ainda assim ele não o descartava. Por quê? Uma resposta útil é
fornecida por Alva Myrdal, que na época era embaixadora da Suécia na Índia e conhecia bem
a Nehru. “O primeiro-ministro”, concluiu Myrdal, "conhecia as deficiências de Menon, mas
continuava a ouvi-lo por causa do seu brilho. Menon era o único papel intelectual genuíno

6
N. d. T.: No original, ​Cabinet Minister without portfolio.​ Cargo cujas responsabilidades incluem contribuir
para a política governamental e tomar decisões, entre outros. Fonte: GOV.UK. ​Minister without portfólio​.
Disponível em: < https://www.gov.uk/government/ministers/minister-without-portfolio >. Acesso em 10 Mai.
2017.
42
que Nehru tinha no governo ", o único homem com quem ele poderia discutir Marx e Mill,
Dickens e Dostoiévski”.

Voltemo-nos à relação da índia com sua maior e ainda mais populosa vizinha, a China. As
duas civilizações por muito tempo foram ligadas pelos laços do comércio e da cultura. Mais
recentemente, uma observou a luta da outra contra a dominação europeia. O Congresso, e
Nehru, tiveram uma consideração particular pelo líder do Kuomintang, Chiang Kai-shek, que
havia impulsionado os americanos, por sua vez, a pedir aos britânicos que concedessem a
independência aos indianos.
Em 1949, no entanto, os Kuomintang foram derrubados pelos comunistas. Como
seriam as relações agora? Para indicar continuidade, a Índia manteve seus embaixadores em
Pequim, que era o historiador K. M. Pannikar. Em maio de 1950, foi concedida a Pannikar
uma entrevista com Mao Zedong, que ficou muito impressionado. O rosto de Mao, como
mais tarde ele se lembraria, era “benevolente e agradável e seu olhar era gentil”. Não “havia
crueldade ou dureza nem em seus olhos nem em sua boca. De fato, ele me deu a impressão de
uma mente filosófica, um pouco sonhadora, mas absolutamente segura de si. O líder chinês
tinha “experimentado muitas dificuldades e suportou sofrimentos tremendos”, mas ainda
assim “seu rosto não mostrava nenhum sinal de amargura, crueldade ou tristeza”. Mao
lembrava a Pannikar seu próprio chefe, Nehru, pois “ambos são homens de ação com
temperamentos idealistas e sonhadores” e tanto um quanto o outro “podem ser considerados
humanistas no sentido mais amplo do termo”.
Isso seria risível se não fosse tão sério. Os intelectuais sempre tiveram um fascínio
curioso por um homem poderoso; George Bernard Shaw escreveu sobre Lênin quase da
mesma forma. No entanto, Shaw era um escritor não-oficial, responsável apenas por si
próprio. Pannikar era o representante oficial de seu governo. O que ele disse e acreditava
carregava um peso considerável. E aqui ele estava representando um dos mais implacáveis
ditadores da história como um tipo poético, suave e sonhador.
Em outubro de 1950, não muito depois de Mao ter encontrado Pannikar, a China
invadiu o Tibete anexado. Há muito eles reivindicavam suserania sobre aquele paios, e no

43
passado exerceram controle sobre ele. Mas também houve períodos em que o Tibete foi
genuinamente independente, como nas como nas quatro décadas anteriores à invasão
comunista. Depois de tudo, Tibete e China enviaram delegações separadas para a Conferência
de Relações Asiáticas em 1947.
Nehru estava agora em uma posição absolutamente não invejável. A índia mantinha
relações próximas com o Tibete, tanto econômicas quanto culturais. Mas uma Índia
recém-livre e ainda vulnerável dificilmente poderia ir à guerra em nome do Tibete. Falando
no Parlamento algumas semanas após a ação chinesa, Nehru esperava que a questão fosse
resolvida de forma pacífica. Ele esclareceu que ele acreditava que, embora a China
historicamente exercesse algum tipo de "suserania” sobre o Tibete, isso não equivalia a
“soberania”. Ele também acrescentou que não via como o Tibete poderia representar uma
“ameaça” à China naquele momento.
Em particular, Nehru pensou que "os chineses agiam duma forma bastante tola” ao
anexar o Tibete. Havia "um forte sentimento aqui [na Índia] de ser decepcionado por eles".
Ainda assim, pensou o primeiro-ministro, "temos que ter cuidado para não exagerar" nas
críticas feitas a um país vizinho que também estava emergindo das sombras da dominação
europeia.
Outros membros do governo pediram uma linha mais forte. No caso, Vallabhbhai
Patel, estava convencido de que os chineses enganaram Pannikar. Eles o acalmaram com um
“falso senso de confiança” que levou o embaixador a ignorar completamente os planos para a
invasão. Mas agora que a ação foi feita, a Índia está mais atenta. Escrevendo para Nehru em 7
de novembro, Patel alertou que “a China não está mais dividida. É unida e forte”. “A história
recente e amarga” disse o ministro da Casa,

também nos diz que o comunismo não é um escudo contra o imperialismo e que as
áreas comunistas boas ou imperialistas ruins são como quaisquer outras. As
ambições chinesas a esse respeito não apenas cobrem as encostas do Himalaia do
nosso lado, como também incluem partes importantes do Assam. O irredentismo
chinês e o imperialismo comunista são diferentes do expansionismo ou imperialismo
das potências ocidentais. O primeiro tem um manto de ideologia que o torna dez
vezes mais perigoso. Sob a forma de expansão ideológica, mentiras escondem
reivindicações raciais, nacionais ou históricos.

44
Patel impulsionou Nehru a se “alertar para o novo perigo” da China, e fazer da Índia “forte
defensivamente”. Ele então delineou uma série de etapas para melhorar a segurança. Pensou
que, em vista da “rejeição sobre o Tibete, a Índia não deveria mais apoiar a questão da
entrada da China na ONU”. Finalmente, ele argumentou que esses últimos desenvolvimentos
precisam levar a uma nova reconsideração da “nossa relação com a China, Rússia, América,
Grã-Bretanha e a Birmânia”. Patel parecia aqui insinuar que a Índia deveria reconsiderar sua
política de não alinhamento em favor de uma aliança com o ocidente.
Esta última mudança foi defendida de forma mais vigorosa pelo jornalista D. F.
Karaka. Como Patel, Karaka ficou consternado com o descuido de Pannikar. (Aparentemente,
o embaixador não ouviu sobre a invasão chinesa até que foi anunciado na Rádio All-India.) A
anexação do Tibete mostrou que o Himalaia já não era invencível. E o exército indiano
precisava de equipamento ou treinamento para dar conta de um inimigo determinado e
focado. Assim, concluiu Karaka, “qualquer que seja nossas infelizes relações passadas com a
Grã-Bretanha, por mais que tenhamos medo que o imperialismo americano se espalhe pela
Ásia, nós precisamos decidir agora se vamos continuar com essa política de neutralidade,
colocando em perigo nossas fronteiras, ou se assumiremos um risco menor fazendo um pacto
militar com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha”.
Nehru não se dignou a tomar conhecimento de jornalistas como Karaka. Mas ele
respondeu a Patel, em uma nota sobre o assunto distribuída ao Gabinete. Ele achou uma pena
que o Tibete não pudesse ser “salvo”. Ainda assim, ele considerava “extremamente
improvável” que a Índia agora enfrentasse um ataque da China. Era “inconcebível” que eles
"empreendessem uma aventura selvagem pelo Himalaia”. Pensava que "a ideia de que o
comunismo inevitavelmente significa expansão e guerra, ou, mais precisamente, que o
comunismo chinês significa inevitavelmente uma expansão em relação à Índia, é bastante
ingênua”. Independentemente dos acontecimentos no Tibete, a Índia ainda deveria procurar
"algum tipo de entendimento" com Pequim, pois "a Índia e a China em paz um com o outro
fariam uma grande diferença para toda a configuração mundial e seu equilíbrio”.
Um mês depois Patel morreu. Agora já não existia oposição alguma à política de
“compreensão” com a China. Os dois países compartilhavam longas fronteiras – milhares de
quilômetros, em sua maioria de territórios não explorados. No oeste da índia, a fronteira
percorria o distrito dominado por budistas de Ladakh em Jammu e o estado da Caxemira, o
qual tocava às províncias chinesas do Tibete e do Sinkiang. Ao leste, a fronteira foi definida

45
pela linha McMahon, desenhada na crista do Himalaia, como resultado de um tratado
assinado pelos britânicos e pelo Tibete em 1914. Ao meio, ambos os países se tocavam
próximo à bacia do rio Ganges, que dividiu o Tibete do estado indiano de Uttar Pradesh.
A fronteira no centro era relativamente certa, enquanto nos dois extremos a situação
era mais problemática. Os chineses consideram que a linha de McMahon, em particular,
significava uma imposição imperialista. No momento em que deixaram o assunto passar, e
focaram em obter a boa vontade da Índia, foi necessário construir uma ponte com o mundo
ocidental. No verão de 1952, uma delegação governamental liderada pela Sra. Vijayalakshmi
Pandit visitou Pequim. A Sra. Pandit serviu como embaixadora da Índia em Moscou e, mais
que isso, era a adorada irmã mais nova de Nehru. Ela se encontrou com Mao uma vez e duas
vezes com Chou Em-lai, e ficou profundamente impressionada com ambos. Mao, escreveu a
Sra. Pandit ao seu irmão, era “quieto, [e] preciso”, com “um grande senso de humor”. Suas
aparições em público traziam à mente a figura de Gandhi. Assim como com Mahatma, “o
público não apenas o aplaudiam, como o veneravam. Havia tanto amor como adoração nos
olhares direcionados para ele. E ele ficava emocionado ao percebê-lo”. Sobre Chou Em-lai,
ele “era um grande estadista e possuía uma charme e vitalidade abundantes. Ele era polido, e
tinha um senso de humor terrivelmente contagiante. Era preciso se juntar a suas risadas – e
ele ria muito frequentemente. Em um instante ele fazia alguém se sentir em casa, e a conversa
em nada perdia com a tradução”.
A carta também tinha uma nota ambivalente e estranha. “Nós jantamos e bebemos”,
escreveu a Sra. Pandit, “e falamos de amizade e cultura e paz até que me cansei”. E ela não
sabia ao certo se o grande Helmsman a lembrava mais Gandhi ou Stalin. Pois enquanto “Mao
passava a impressão de ser gentil e tolerante e sábio”, a “parte tolerante me parece ser uma
pose, pois é uma reminiscência dos líderes russos, particularmente Stalin. Ele usa o mesmo
gesto de saudação e tem a mesma técnica com o público. Ainda assim, o que se destacou foi
"a grande vitalidade das pessoas e a maneira dedicada em que eles estão trabalhando. A
opressão que se sente em Moscou está ausente aqui. Todo mundo parece feliz e determinado
a tornar o país próspero”.
A Sra. Pandit parece ter reagido à China em 1952, assim como seu irmão reagiu à
Rússia em 1927. Talvez esse amanhecer não se torne falso depois de tudo. Então, Nehru
estava inclinado a considerá-lo também. Em breve, o romanticismo teve que ser reforçado
pela ​realpolitik.​ Os Estados Unidos começaram a se marcadamente se inclinar sobre o

46
Paquistão, dando a Nova Déli uma razão a mais para ser amiga de Pequim. Em um amplo
acordo assinado em abril de 1954, a Índia reconheceu oficialmente o Tibete como parte da
China. A declaração conjunta delineou cinco princípios de coexistência pacífica (​panch
sheel​), que incluíam não-agressão mútua e respeito mútuo pela integridade territorial um do
outro.
Alguém que não recebeu esse acordo de bom grado foi o ex-secretário-geral do
Ministério das Relações Exteriores, Sir Girija Shankar Bajpai. Escrevendo a um colega,
Bajpai advertiu que a China comunista não era "diferente do comunismo russo em seus
objetivos expansionistas...”. O que se pensava em Nova Déli era “a naturalidade da
continuidade indefinida da paz e da amizade entre nós e a China”. Bajpai temia que "aqueles
em quem o P[rimeiro]-M[inistro] agora confiava para pedir conselhos, pudessem completa e
veementemente rejeitar qualquer possibilidade de uma mudança no que parece ser a atual
política de paz da China com seus vizinhos asiáticos”.
É improvável que esse aviso tenha alcançado Nehru e mesmo que o tivesse, ele
provavelmente o teria desconsiderado. Próximo ao fim de 1954, ele visitou a China pela
primeira vez. Como na Rússia seis meses antes, multidões enormes se mobilizaram para
saudar o visitante. Que apreciou essa “retorno extremamente afetivo do povo chinês”. Nehru
discutiu com Chou En-lai acerca da questão das fronteiras e com Mao sobre a situação
mundial. Ele também pressionou o caso da autonomia tibetana, os chineses assegurando-lhe
na presença do Dalai Lama que o estado budista gozaria de um status que "nenhuma outra
província desfrutava na República Popular da China".
Ao retornar da China, Nehru dirigiu-se a uma gigantesca reunião pública em Maidan
(Calcutá). Um milhão de pessoas o ouviram afirmar que "o povo da China não quer guerra";
Eles estavam muito ocupados unindo seu país e se livrando da pobreza. Ele falou com
admiração do espírito de unidade na China, a ausência dos interesses provinciais e sectários
que prejudicaram a Índia. Quanto à "grande recepção” que recebeu na República Popular,
isso não foi "porque eu sou Jawaharlal com qualquer habilidade especial, mas porque eu sou
o primeiro-ministro da Índia para o qual o povo chinês estima em seus corações com o maior
amor e com o qual querem manter relações amigáveis”.
Dois anos mais tarde, devolveram o elogio quando Chou En-lai visitou a índia. Com
ele estavam os Dalai e Panchen Lamas, que tinham sido convidados como parte das
celebrações do 2500º aniversário de nascimento do Buda. Em um passeio pelo campo, o

47
Dalai Lama escapou de seus guardas chineses e viajou com Nehru. Uma revolta estava se
preparando no Tibete contra os ocupantes, ele disse; Ele próprio estava fortemente tentado a
buscar asilo na Índia. Se isso não fosse possível, pelo menos a Índia poderia enviar um cônsul
a Lhasa, que não era pró-chinês ou pró-comunista. Quando Nehru perguntou a Chou sobre a
situação no Tibete, o líder chinês admitiu que havia "incidentes infelizes" lá e prometeu
pensar sobre isso.
Então, lá o assunto descansou. O Dalai Lama voltou para Lhasa, e a Índia e a China
continuaram a ser irmãos de armas, e como dizia o slogan da época: Hindi-Chini bhai-bhai. O
principal responsável por isso foi o charmoso Chou. Ele impressionou Nehru, é claro, mas de
longe era também um homem mais cínico, o político veterano C. Rajagopalachari. "Rajaji"
almoçou com o primeiro-ministro chinês e depois escreveu a um amigo que, "francamente,
minha impressão foi muito favorável. Além do descongelamento geral de todos os
comunistas, o primeiro-ministro chinês é, creio eu, um bom homem digno de confiança”.
Em público, Índia e China expressaram amizade eterna, mas no fundo cada um estava
trabalhando para proteger seus interesses estratégicos. A Índia estava mais preocupada com o
setor oriental; China com o ocidente. Os britânicos tinham desenhado a linha de Mcmahon
para proteger os prósperos patrimônios do chá de Assam de uma invasão do Himalaia. Havia
uma “linha interna ao pés das colinas, além da qual ninguém podia se aventurar sem uma
autorização Entre esta e a fronteira havia cerca de 50.000 milhas quadradas de um território
densamente arborizado, habitado por muitas tribos autônomas e auto administradas, as quais
eram pequeno demais para formar um estado separado, e remotas demais para ser
subordinado a qualquer um existente. Algumas das tribos eram budistas, e também havia um
antigo mosteiro budista em Tawang. Esta era uma homenagem às autoridades tibetanas e foi
uma matéria “eclesiástica” para Lhasa.
Sob o tratado de 1914, os britânicos persuadiram os tibetanos a abandonar o controle
sobre Tawang. Pois, como afirmou um dos oficiais coloniais, era necessário obter este
"território indubitavelmente tibetano" na Índia britânica, "caso contrário, Tibete e Assam se
juntariam e, se o Tibete voltasse ao controle chinês, esta seria uma posição perigosa para
nós”.
Outras tribos que viviam entre as Linhas Interna e Externa estavam além da influência
tibetana. Estes, como os budistas, naturalmente se tornaram cidadãos indianos em agosto de
1947, quando o novo governo herdou as fronteiras legadas pelos britânicos. Lentamente,

48
Nova Deli mudou-se para preencher o vácuo administrativo que os britânicos deixaram para
trás. Em fevereiro de 1951, uma pequena força acompanhada por um político visitou Tawang
e instruiu os lamas que eles já não precisavam pagar tributos a Lhasa. Os funcionários
também começaram a se destacar para o que agora era chamado North East Frontier Agency,
ou NEFA. Foi formado um Serviço Administrativo de Fronteira da Índia (IFAS), cujos
recrutas foram treinados sobre a melhor maneira de lidar com as tribos às vezes truculentas
segundo o antropólogo britânico Verrier Elwin, que agora era um cidadão indiano e um
confidente de Nehru.
Os chineses, por sua vez, concentraram-se na expansão da pegada no setor ocidental.
Aqui, também, o território indiano adjacente, conhecido como Ladakh, era budista em sua
coloração religiosa. No entanto, tinha sido um estado independente já no século X. E, nos
últimos 150 anos, fazia parte do principado da Caxemira, cujas próprias lealdades eram todas
para o lado indiano da fronteira.
Entre o nordeste de Ladakh e Sinkiang, do lado chinês, havia uma terra alta chamada
Aksai Chin, "absolutamente nua" na maior parte, com manchas ocasionais de "escassas
plantas”. No passado, os pastores de Ladakh haviam usado Aksai Chin para pastagem e
coleta de sal. Por um acordo de 1842, essa área foi identificada como sendo parte da
Caxemira. Isso foi confirmado pelos britânicos, que estavam preocupados com o fato dos
russos, seus adversários no “Grande Jogo”, poderem usar o platô para para avançar a
artilharia pesada sobre a Índia britânica.
Isso não aconteceu, mas, depois de 1950, os chineses viram no mesmo terreno plano
uma rota para a problemática província do Tibete da cidade de Sinkiang, Yarkand. Peking
enviou topógrafos para explorar a terra e, em 1956, começou a construir o caminho em Aksai
Chin. Em outubro de 1957, a estrada estava pronta, equipada para transportar caminhões
militares de 10 toneladas com armas e pessoal de Yarkand para Lhasa.
Devemos essa informação às contas prestadas muito mais tarde. Na época, no entanto,
as atividades chinesas no oeste, e as atividades indianas no leste, eram levadas para longe do
olhar um do outro. Para o mundo em geral, e para seus próprios cidadãos, os dois vizinhos
asiáticos estavam vinculados por uma relação exemplar de amizade e cooperação.

49
VI

“Se já houve dois países onde cada um prometesse compreensão e amizade fraternalmente”,
escreveu um jornal de Mumbai em janeiro de 1952, “estes eram a Índia e o Paquistão. Todo
os tipos possíveis de laço existe entre ambos; laços raciais, linguísticos, geográficos,
econômicos e culturais.”
No entanto, as relações da Índia com o Paquistão foram envenenadas desde o início.
O país havia sido dividido sob cenário violento. E a suspeita e hostilidade mútua persistiram.
No inverno de 1949/50 houve uma onda de manifestações comunais no leste do Paquistão.
Várias centenas de hindus atravessaram a fronteira para a Índia. Nehru então sugeria a Liaqat
Ali Khan, que eles juntos visitassem as áreas afetadas para promover a paz. Sua oferta foi
recusada; Mas Khan concordou em vir a Deli e assinar um acordo que liga ambos os países a
um tratamento humano a suas respectivas minorias. Porém, o pacto "Nehru Liaqat" não
conseguiu conter a onda de refugiados. Havia uma fúria enorme entre os hindus em Bengala
Ocidental, alguns dos quais queriam que o governo fosse à guerra com o Paquistão a seu
favor.
Os dois conflitos principais eram, contudo, a respeito aquelas necessidades humanas
elementares: terra e água. O primeiro, ao qual este livro já aludiu e ao qual retornará,
relacionado à situação não resolvida com a Caxemira. O segundo pertencia ao uso justo do
Indus e seus cinco afluentes principais. Esses rios corriam de leste a oeste, isto é, da Índia
para o Paquistão. O Indus e o Jhelum entraram no Paquistão antes que qualquer grande
extração fosse possível, mas os outros quatro rios correriam por muitas milhas no território
indiano. Isso permitiu que a Índia regulasse seu fluxo e contivesse a água antes que os rios
chegassem ao outro país.
Após a Partição, os governos do Punjab Ocidental e Oriental assinaram um "Acordo
Permanente" pelo qual a água continuou a fluir ininterruptamente. Quando este expirou, em
abril de 1948, a Índia parou as águas do Ravi e os Sutlej fluíam para o oeste. Eles alegaram
que nenhum novo acordo havia sido assinado, mas acreditava-se amplamente que a ação era
uma vingança pela invasão da Caxemira, com o apoio do Paquistão. De qualquer forma, a
secagem de seus canais criou pânico entre os agricultores. Dentro de um mês, um novo
acordo foi assinado e o abastecimento de água restaurado. No entanto, a construção da

50
barragem de Bhakra-Nangal, no lado indiano do rio Sutlej, provocou novos protestos pelo
Paquistão.
Ambos os lados agora buscavam uma solução permanente para o problema. O
Paquistão pediu que o assunto fosse encaminhado à arbitragem internacional, que a Índia
instantaneamente recusou. O Banco Mundial entrou para desempenhar o papel de pacificador.
Conhecendo a teimosia de ambos os lados, o Banco ofereceu uma solução cirúrgica - as
águas de três rios iriam para o Paquistão, as águas dos outros três rios para a Índia. Esta
proposta foi apresentada em fevereiro de 1954. Levou cerca de seis anos para ambos os lados
assinassem.
Com o Indus, tal como a Caxemira ou qualquer outro assunto sob o sol
subcontinental, o acordo tornou-se mais difícil pela política interna. Um chefe de governo
indiano ou paquistanês que promovesse o diálogo era inevitavelmente acusado de se vender
para o outro lado. Um exemplo mais antigo disso foi a guerra comercial de 1949-51,
provocada pela desvalorização da rúpia indiana. Paquistão parou o embarque de juta em
protesto; A Índia retaliou por se recusar a fornecer cobalto. O conflito foi resolvido apenas
quando, em fevereiro de 1951, Nehru concordou em reconhecer o valor nominal da rúpia
paquistanesa. Sua decisão foi bem recebida pelas câmaras de comércio, mas amargamente
rejeitadas por políticos de todos os tipos. O consenso geral em Nova Deli foi que "a Índia foi
completamente derrotada". Um membro do Congresso informou que o sentimento no partido
era que "tal humilhação não poderia ter sido possível se o Sardar Patel estivesse vivo". Um
líder de refugiados observou: “A verdadeira questão a ser considerada agora é descobrir a
próxima questão sobre a qual Jawaharlal se renderá ao Paquistão - Caxemira, ou mais
provavelmente a Propriedade Evacuada”. Um porta-voz do Mahasabha hindu disse: "Para se
tornar um líder mundial, Nehru pode entregar toda a Índia ao Paquistão”. E um organizador
do RSS afirmou: “Isso mostra o que virá a seguir. Mais apaziguamento e entrega se as massas
não ficarem atentas a Nehru”.
Do lado paquistanês, qualquer concessão à Índia era vista pelos opositores políticos
como apaziguamento do inimigo. No nível popular, no entanto, os sentimentos sobre o outro
lado foram claramente misturados. A ideologia nacionalista os separou; Mas a cultura das
massas mexiam com eles novamente. Não era só comer a mesma comida e viver sob o
mesmo teto. Eles também tinham o mesmo senso de diversão. As estrelas de cinema indianas

51
ficaram imensamente admiradas com o Paquistão, e os paquistaneses também provaram dessa
recepção a respeito da Índia.
Essa ambivalência é registrada em uma troca impressa pelo jornal Karachi Dawn em
1955. Uma senhora que havia recentemente visitado seus parentes na Índia, escreveu suas
experiências enquanto viajava de trem de Amritsar para Ambala. Quando então ouviu que era
do Paquistão, ela foi atacada por passageiros que eram refugiados de Sidh e de Punjab
ocidental. Aparentemente, "alguns dos passageiros hindus não-refugiados foram
repreendidos, mas os hindus e os sikhs refugiados escaparam, dizendo que os não-refugiados
não conseguiam perceber o sofrimento dos refugiados do Paquistão". Este relato da
animosidade indiana provocou várias cartas contando a hospitalidade do outro lado da
fronteira. Um homem aconselhou qualquer futuro viajante na Índia a "entrar em Amroods and
Pans que estão no seu melhor destes dias, em vez de se entregar a tais conversas que tendem
a ferir o desenvolvimento do Acordo indo-paquistanês. Uma mulher correspondente
reclamara que tais declarações equivocadas criavam amargura e impediam a amizade entre
Índia e Paquistão. Este último ideal fora endossado pelo escritor original das cartas, o qual
dizia: “Desejo, contudo, que como um paquistanês, o que suponho que ela seja, ela tenha a
delicadeza de dizer ‘Paquistão e Índia’ em vez de ‘Índia e Paquistão’”.

VII

A política externa indiana se opunha à continuação do domínio colonial em qualquer lugar.


Isso, naturalmente, significava recuperar as outras partes da pátria que ainda estavam sob o
controle de estrangeiros. Quando os britânicos partiram em 1947, os portugueses
permaneceram em Goa em seus outros domínios na Índia, enquanto os franceses continuaram
controlando três fragmentos de terra ao sul – o mais importante era o porto de Pondicherry –
bem como o enclave oriental de Chandernagore. Em junho de 1949, a população de
Chandernagore votou por uma maioria excessivamente abrupta para se fundir com a Índia. A
eleição tinha testemunhado uma ressonante demonstração de patriotismo, com cartazes que
representavam uma mãe em vestido indiano que buscava reivindicar uma criança vestida de
vestuário ocidental. Um ano depois, o território foi transferido. Mas os franceses
continuaram. Na primavera de 1954, a situação tornou-se "cada vez mais tensa"; Houve um

52
vigoroso movimento pró-fusão em Pondicherry e manifestações diárias em frente ao
consulado francês em Chennai. Em 1 de novembro, os franceses finalmente entregaram seus
territórios, que os indianos celebraram com uma exibição espetacular de fogos de artifício.
Ao dar as boas-vindas a esses fragmentos, Jawaharlal Nehru elogiou os governos dos
dois países por sua "tolerância, bom senso e sabedoria", assim resolvendo o problema da
Índia francesa "com graça e boa vontade". Essas observações foram destinadas, acima de
tudo, aos portugueses, que, no entanto, não estavam ouvindo. Eles estavam determinados a se
manter em Goa o tempo que pudessem. À medida que a transferência de Pondicherry estava
sendo finalizada, o ditador português Antonio de Oliveira Salazar falou na rádio nacional de
suas colônias indianas como pertencentes à "Nação Portuguesa por injunção da História e da
força da Lei”. "Goa constitui uma comunidade portuguesa na Índia", ele insistiu: "Goa
representa a queda do Ocidente em terras do Oriente. Deve ser mantido, para que possa
continuar a ser o memorial das descobertas portuguesas e um pequeno coração do espírito do
Ocidente no Oriente”. Além de Goa, os portugueses também mantinham inúmeros pequenos
territórios até a costa de Konkan. Um era Daman. Isso aproximava a província indiana de
Mumbai. Havia agora um comércio florescente no contrabando de licor.
Os indianos mais conscientes politicamente ficaram indignados com a atitude
portuguesa em relação a suas colônias. Nehru, em princípio, se movia devagar, esperando que
o assunto pudesse ser resolvido por meio do diálogo, mas estava sendo forçado a agir pelo
Partido Socialista. Em julho de 1954, um grupo de ativistas de Mumbai, confiscou o
minúsculo enclave de Dadra, um enclave um tanto maior de Nagar-Haveli também caiu sem
resistência. Então, 1.000 voluntários tentaram atravessar Daman no Dia da Independência.
Eles foram detidos pela polícia indiana e com isso pediram apoio do primeiro-ministro.
Nehru voltou a dizer que confronto não ajudava à causa. Os socialistas só foram
temporariamente dissuadidos. Um ano depois, um grupo liderados por N. G. Goray se
integrou aos gritos de Goa. Caminharam várias milhas até o território antes de ser atacado
pela polícia. Vários manifestantes foram feridos. Durante esses protestos em 1954 e 1955, os
portugueses prenderam mais de 2 mil pessoas.

53
VIII

Para Jawaharlal Nehru, política externa significava um meio de fazer a presença da Índia ser
sentida no mundo. Depois da Independência, ele pessoalmente supervisionou a criação do
Serviço de Relações Internacionais da Índia (IFS), transferindo seus oficiais do ICS e fazendo
novas seleções. Um trabalho no IFS tinha uma combinação quase original de idealização e
glamour; Também ofereceu a possibilidade de contato pessoal com o primeiro-ministro. Um
oficial da IFS lembrou que, no início de 1948, Nehru o chamou para o quarto dele e
mostrou-lhe um mapa do mundo. Os olhos do primeiro ministro atravessaram o globo e seus
dedos apontaram para lugares do norte, sul, leste e oeste. "Teremos quarenta embaixadas!",
Exclamou. "Teremos quarenta missões!” Cinco anos depois, quando a Índia teve quarenta
missões, Nehru escreveu-lhes uma carta parabenizando-os. O "prestígio da Índia aumentou
muito desde a Independência, disse ele", “nós sempre evitamos desempenhar um papel
chamativo nos assuntos internacionais... Gradualmente, uma apreciação cresceu em outros
países a respeito de nossa própria sinceridade. Embora tenha havido algum desentendimento.
Ele pediu a todos aqueles que representam a Índia no exterior – do chefe ao empregado mais
humilde – que trabalhe e se sinta como uma família feliz, cooperando uns com os outros...
Nós somos todos companheiros em uma ótima aventura, e todos parceiros da mesma
empresa”.
Embora tivesse se apresentado como se fosse uma empresa coletiva, essa aventura
particular “criada pelo primeiro-ministro” foi estampa por toda parte. Em 1950, um dos mais
inteligentes e menos humildes ministros do gabinete falou de como Nehru estava se tornando
"o homem mais poderoso do mundo, superando os dos EUA, do Reino Unido e todos os
outros”. Através de seu líder, um país "sem material, homens ou dinheiro - os três meios de
poder - foi" agora rápido, vindo a ser reconhecido como o maior poder moral no mundo
civilizado... Suas palavras foram ouvidas respeitosamente pelos conselhos dos grandes.
Mesmo os políticos da oposição apreciaram o que Nehru fez pela posição internacional da
Índia. O não-alinhamento pareceu-lhes ser uma aplicação criativa dos princípios gandhianos
nos assuntos mundiais. A confiança na sua viabilidade foi reforçada quando a Índia foi
chamada a desempenhar um importante papel mediador nos conflitos e guerras civis da
época.

54
Estrangeiros inteligentes também elogiaram o não alinhamento de Nehru. Quando a
agora grande editora, Feltrinelli de Milão, começou a operar em 1955, um dos dois primeiros
livros que publicou foi a autobiografia de Nehru, que celebrou tanto pelo seu "anti-fascismo
consistente e coerente" como por ser “uma autêntica voz dos países que emergiram da
dominação colonial (...) para assumir o seu lugar com força no sistema político global”, e
partir de seu cargo na embaixada sueca de Nova Deli, Alva Myrdal escreveu ao seu marido
Gunnar como Nehru estava “naturalmente desempenhando um papel autoritário, para não
dizer histórico mundial, sem A menor tendência ao Cesarismo. E não é que ele talvez seja a
única pessoa que vimos alcançar uma posição elevada e poderosa sem assumir se deixar
consumir pelo ego?”
Assim como era a posição de Nehru entre os povos dos Estados que se mantinham na
linha de frente durante a Guerra Fria, aqueles estavam entre os Estados Unidos e a União
Soviética. Em 1955, o não-alinhamento ainda tinha um brilho e uma aura moral sobre isso.
No ano seguinte, foi o fiasco da Hungria, e o começo da desilusão ocidental com Nehru.
Levou mais tempo para que ele perdesse o apoio apaixonado de seus compatriotas.

55