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A experiência de intervenção feita por alunos de Psicologia numa escola pública em Minas 334

A experiência de intervenção feita por alunos de


Psicologia numa escola pública em Minas Gerais

The intervention experience made by a group of Psychology


students in a public state school in Minas Gerais

Sônia Regina Corrêa Lages1; Ananda Martins Carvalho; Heloisa


Armond Couto Garcia; Gabriel de Oliveira; Karina Dias Géas &
Paulo Henrique Dias
Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil

Resumo
O presente trabalho relata a experiência da intervenção feita por alunos de Psicologia de um a
universidade mineira, durante o Estágio Básico. A prática ocorreu numa escola pública estadual de
uma comunidade rural. As atividades tiveram como objetivo refletir sobre o tema da diversidade e
sobre a cultura como instrumento político de valorização das identidades culturais minorizadas. Os
resultados apontam para o despreparo da escola em lidar com a diversidade cultural e para a
necessidade de um investimento na relação escola-alunos. Aponta também a importância dessa
aprendizagem para a construção de uma visão crítica da realidade brasileira nos estudantes de
Psicologia.
Palavras-chave: Escola Pública; Preconceitos; Diversidade Cultural; Identidade Coletiva

Abstract
This work reports on an experience made by psychology students from a university of Minas Gerais
during basic internship. The experience was carried out at a public state school, in a rural area. The
activities were designed to reflect on the theme of diversity and culture as a political tool for the
appreciation of minority cultural identities. The results show that the school is not prepared to
handle cultural diversity and indicates the necessity of investment in actions which improve the
relationship between school and students. The results also show the importance of this learning
experience for the building of a critical view of the Brazilian reality by psychology students.
Keywords: Public School, Prejudices, Cultural Diversity, Collective Identity

1 Contato: sonialages@ig.com.br

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As disciplinas de Estágio Curricular caracterizado pela escola, como


Básico I e II são oferecidas para o currículo necessitando de uma intervenção, uma vez
novo dos cursos de Psicologia, no terceiro e que, cotidianamente, alunos e alunas
quarto períodos, e tem como objetivo a comparecem à coordenação com queixas de
realização de atividades básicas de agressões verbais, que na maioria das vezes
investigação e intervenção. Elas são giram em torno de apelidos ofensivos, o que
decorrentes das Diretrizes Curriculares para gera um ambiente de constantes brigas e
os cursos de graduação em Psicologia, disputas. Foi-nos solicitado, ainda, a inclusão
conforme Resolução nº 8, de 07 de maio de de mais uma turma, a 1ª série do ensino
2004, e visam o treinamento em práticas médio, considerada pelos docentes da escola
integrativas relacionadas a competências como sendo muito problemática devido aos
básicas características no núcleo comum. conflitos entre os estudantes e professores.
A disciplina foi organizada em torno do O segundo módulo da disciplina, então,
eixo temático dos Direitos Humanos. passou a preparar os alunos para o trabalho
Durante o primeiro módulo, seguiu a de campo, oferecendo subsídios teóricos e
orientação teórica dos estudos que colocam que relatavam as experiências de
em debate a diversidade e a diferença de profissionais psicólogos que atuaram em
identidades (Bobbio, 2004; Hall, 2003; escolas com temas similares (Afonso, 2006;
Souza Santos, 2006; Bauman, 2001; Silva Cassab, 2006). Em um segundo momento,
Bento, 2003; Guareschi, 1999; Camino, uma série de atividades foi realizada com o
2001; Lane, 2009; Gonçalves & Silva, 2006; objetivo de preparação para a intervenção
Ciampa, 2009; Foucault, 1975; Sawaia, 1999, através da metodologia rodas de conversa
dentre outros). No segundo módulo, as (Afonso & Abade, 2008). Estas simularam o
atividades foram direcionadas para a ambiente escolar, levantando pontos de
preparação dos alunos para a atuação reflexão que pudessem subsidiar o diálogo
prática, e o campo de intervenção foi eleito com os adolescentes, através de uma escuta
como sendo o da adolescência, com e olhar críticos sobre os diferentes
estudantes do ensino fundamental de uma dispositivos sociais, culturais, econômicos e
escola pública estadual. institucionais que constroem as diferenças
Dois encontros foram realizados com a entre as pessoas de forma a hierarquizá-las,
direção da escola com a finalidade de excluí-las e estigmatizá-las, submetendo-as a
apresentar a proposta de trabalho que controles que atendem aos interesses de
envolvia os temas estudados no primeiro e uma sociedade movida pelo capitalismo
segundo módulos da disciplina, e de individualista segregador e por uma mídia
conhecer as demandas da mesma sobre a que serve a estes interesses.
referida questão. A intervenção recebeu o nome de
O relacionamento dos alunos e alunas do “Semana VIVA”, que abarcou os
5º ao 9º ano do ensino fundamental foi significados de V - Voz, I - Identidade, V -

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Valores e A - Amizade, compreendendo a de se expressar a afetividade e a


importância do desenvolvimento da subjetividade, sendo esse um dos caminhos
consciência crítica dos sujeitos - para o combate à exclusão social, seja ela
adolescentes, para questionarem suas relacionada às questões de gênero, de
relações, sejam pessoais, interpessoais, orientação sexual, das diferentes
intergrupais e coletivas, de forma a religiosidades, da diversidade étnico-racial,
desvendar de que maneira são construídos das diferentes classes sociais.
os estereótipos e preconceitos, como eles Nosso pressuposto foi de que tais
atuam, que grupos sociais são mais atingidos reflexões seriam fundamentais para os
(mulheres, população negra e indígena, adolescentes incorporarem novas práticas
homossexuais, portadores de sofrimento coletivas e instrumentos de combate a não
mental, usuários de drogas), as ideologias aceitação das diferenças e é, neste sentido,
que são favorecidas por estas atitudes, de que o presente artigo trata desta experiência
como esses processos acumulam realizada. Acreditamos que esses pontos
desigualdades sociais históricas e, seriam alguns dos fatores que poderiam
naturalizando-as, promovem a exclusão explicar os conflitos entre aqueles
social e a violação dos direitos humanos. adolescentes e, que sendo geradores de
A escola fica situada numa comunidade preconceitos, se desdobravam em apelidos,
rural, na região metropolitana de Belo que são formas de sua manifestação.
Horizonte, e, de acordo com o CEDEFES –
Centro de Documentação Eloy Ferreira da Procedimentos metodológicos
Silva, aquela região é um remanescente A metodologia utilizada na intervenção
quilombola. No entanto, essa identidade não foi a das Rodas de Conversa sobre direitos
é reconhecida nem reivindicada pelos humanos e cidadania, método participativo
moradores do local, conforme informação em que se busca a colaboração e cooperação
do referido Centro. (CEDEFES). com o grupo (Afonso, 2007). A coleta de
Essa questão de uma possível identidade dados foi realizada a partir das impressões,
étnica quilombola tornou-se, também, alvo percepções dos mediadores e as falas dos
das atividades dos estagiários, considerando- sujeitos (os estudantes), as quais foram
se a importância desses fatos para a registradas após a intervenção, através do
construção da identidade dos adolescentes. diário de campo (Da Matta, 1978).
Diante de tal contexto, os objetivos da
intervenção foram: a produção de uma Participantes
reflexão com os jovens a respeito do Os estagiários, em número de quatorze,
individualismo, da visão hegemônica que que se colocaram na posição de
desrespeita a diversidade cultural, do mediadores/facilitadores do diálogo, foram
consumismo, da força da identidade e da distribuídos em seis grupos, atendendo
participação social e política, da importância alunos do 6º ao 9º ano do ensino

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fundamental e os alunos do 1º ano do pela família.


ensino médio, totalizando 118 alunos
atendidos, com idades entre 12 a 17 anos. Resultados e discussão
Quanto ao encontro do primeiro dia,
Procedimentos e descrição das tiveram destaque as reflexões sobre o
atividades significado do acróstico “VIVA”. A ideia de
Os encontros aconteceram em dois dias Voz foi identificada pelos alunos como
seguidos, com duração de duas horas cada diálogo, meio de comunicação, gestos e
encontro, sendo que cada turma foi atendida sinais. Os estagiários tentaram ampliar o
por uma dupla de estagiários. No primeiro entendimento e a importância da voz como
dia, todos os grupos tiveram como foco a a possibilidade dos jovens se manifestarem a
conversa sobre o significado da “Semana respeito de seus relacionamentos pessoais,
VIVA”, levando os jovens a refletirem sobre com os professores e a escola de forma
a importância da voz, da identidade, dos autêntica, crítica, demonstrando seus
valores e da amizade para sua intervenção sentimentos em relação ao que vivem nestas
no mundo e nos relacionamentos sociais. interações. Muitos adolescentes relataram
Para alcance deste objetivo, o encontro foi que se sentem desrespeitados na escola, por
dividido em três momentos: (1) parte de colegas, professores, funcionários e
apresentação dos membros do grupo, pela família, denominando essa situação de
acolhimento e aquecimento. As estratégias autoritarismo. Quando indagados sobre a
utilizadas para este movimento variaram de busca de soluções para isto, apesar de
grupo para grupo, pois dependiam de suas aparecer a necessidade do diálogo entre as
habilidades para desenvolvê-las. Elas pessoas, foi percebido, pelos mediadores,
consistiram em brincadeiras e jogos. um desânimo e sentimentos de impotência,
Procurou-se, a partir destas, criar um clima de que não há nada a fazer, de que as coisas
de descontração entre os jovens e são e vão permanecer assim, o que foi
estagiários, fazendo um apelo ao lúdico e à trabalhado pelos estagiários que apontaram
afetividade, como forma de desinibir o o caminho da participação social e política
grupo e preparar o campo de diálogos, como uma forma de transformar as relações
baseados na confiança. (2) as rodas de sociais.
conversa que abrangeram os significados da O significado da palavra Identidade foi
“Semana VIVA” - voz, identidade, valores e correlacionado, pelos estudantes, como
amizade e sua relação com a vida dos sendo aquele referente aos documentos,
jovens; e (3) fechamento das atividades. como a Carteira de Identidade e a Certidão
No segundo dia, as atividades foram de Nascimento. A roda de conversa propôs
direcionadas para o diálogo sobre o resgate outras direções e a identidade passou a se
de valores a partir dos valores culturais referir ao que é singular de cada pessoa. A
veiculados pela comunidade, pela escola, e partir daí, algumas falas surgiram: identidade

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é “poder ser você mesmo”; “Sou um ser daí vários preconceitos foram sendo
individual no universo e não vai ter ninguém construídos a respeito da população negra,
igual a mim daqui a milhões de anos.” produzindo as desigualdades sociais na
Temas relacionados ao gênero, como o que educação, no mercado de trabalho, na saúde,
é ser mulher e homem, preconceitos contra na moradia.
as mulheres e o machismo apareceram e Quanto às correspondências para a
alguns jovens se colocaram de forma crítica, palavra Valores, seu significado foi
levantando as maneiras sobre como esse inicialmente dinheiro, salário, o preço das
preconceito aparece: “mulher dirige mal”, coisas. Depois, a conversa fez vincular a
“mulheres não podem trabalhar”, “os palavra valores a direitos e deveres.
homens é que têm que pagar as contas”. Aproveitou-se o momento para conversar
Outros posicionamentos mais sobre a importância tanto de um, quanto do
conservadores também surgiram: o que é ser outro para conviverem entre si. Algumas
uma “moça piriguete”, aquelas que gostam outras palavras ligadas a valor foram:
de expor o corpo usando saias curtas e liberdade, família, ser estudante, respeito e
blusas decotadas e que possuem liberdade educação. Também se vinculou à palavra
sexual. valor os sentimentos positivos em geral.
O que é “ser negro” foi uma questão que Meninas de uma das séries apresentaram
apareceu de forma tímida e recebeu o tema da beleza como valor, elegendo
diferentes posicionamentos entre os jovens: atores de novelas como a beleza masculina.
ao mesmo tempo em que reconheciam que Os rapazes se colocaram de forma mais
as pessoas negras e afro-descendentes eram crítica dizendo que “Aquelas mulheres não
consideradas como inferiores, diziam que existem! São só silicone, maquiagem,
isto já tinha acabado, pois existiam leis. photoshop.” Os estagiários procuram
Outros negaram a existência da diferença de envolver tal tema com a padronização de
tratamento entre pessoas brancas e afro- beleza promovida pela mídia e pela indústria
descendentes. Um adolescente que defendeu de consumo, e como elas constroem os mais
essa posição, no final da atividade, tomou variados tipos de preconceitos.
uma nova posição e deu dois exemplos: Quase a totalidade dos adolescentes não
“Quando a gente fala ‘Você está na minha soube responder sobre o significado de
lista negra!’, só coisa negativa é que é capitalismo, e nem como ele constrói
negra!”, e, “Quando uma menina olha e fala: desigualdades sociais através dos diferentes
‘Com aquele neguinho, eu não vou ficar padrões de consumo que ele cria. Foi a
não!’. Ela nem olha pra gente direito, mas só oportunidade dos mediadores chamarem a
porque é negro!”. A questão do racismo foi atenção dos jovens para o fato de que o
trabalhada neste momento, e os estagiários consumismo cria hierarquias que tentam
colocaram em discussão o tema da controlar grupos sociais desprivilegiados
colonização, da escravidão e como, a partir, socioeconomicamente, e que isto gera

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consequencias que acabam atingindo os vários casos que foram noticiados pela
relacionamentos entre eles, como a mídia. A partir dessa questão, o tema da
estigmatização através de apelidos que, na diversidade social foi debatido e de como o
verdade, tentam é expor o indivíduo a repúdio às pessoas diferentes ou às minorias
situações ridicularizantes, por fugirem ao sociais causam o bullying, sendo este, na
que é padronizado. verdade, o preconceito contra determinadas
Para a palavra Amizade, foram elencados pessoas e grupos sociais.
os seguintes significados: confiança, afeto, Alguns mediadores chegaram a relatar, no
solidariedade, amor e liberdade. Avaliaram final dos encontros, que tiveram muita
as relações que têm uns com os outros com dificuldade em lidar com este tema, pois
expressões como: brigas, conversa fiada, viam-no acontecendo o tempo inteiro:
inveja, mágoa, fofoca, apelido, falta de “tratavam uns aos outros com apelidos
respeito, falsidade e ignorar o outro. pejorativos, cochichavam e davam risinhos
Chamou a atenção, praticamente em todos olhando para determinados colegas”. Estes,
os grupos, a referência às fofocas que os humilhados, por sua vez, demonstraram
permeiam o dia-a-dia da comunidade, e de visível constrangimeno, vergonha, e
como isto afeta a vida dos adolescentes: acabaram acuados, não participativos e
“basta alguém ver uma menina conversando calados.
com algum garoto, que estava ‘ficando’ com No dia seguinte, realizou-se o segundo
eles e ela é criticada e mal vista por isso”. encontro e foi solicitado aos jovens que
Quanto aos garotos, alguns disseram sofrer falassem um pouco sobre os seguintes
por serem vistos em companhias de alguns temas: “Como surgiu a comunidade, que
colegas usuários de drogas, pois fofocas histórias as pessoas contam sobre o lugar?”,
chegavam aos ouvidos dos seus pais, “Que tipo de manifestações culturais
dizendo que eles também estavam usando. existem no local?”; “O que eles mais
Fica claro, nessas falas, os preconceitos e gostam, o que menos gostam e o que
esteriótipos veiculados na comunidade sobre desejam para a comunidade em que
determinados comportamento dos jovens vivem?”, e “Que percepção eles têm da
(liberdade sexual, uso de drogas), mas escola?”.
percebe-se que os adolescentes questionam Com referência ao lugar em que moram,
esses posicionamentos. poucos souberam falar de sua origem,
A palavra bullying apareceu na maioria dos demonstrando muito constrangimento em
grupos e seus significados foram associados falar sobre o tema. Alguns poucos
a: “chamar alguém de preto”, “apelido”, adolescentes relataram que lá, em tempos
“briga”, “algo que começa na escola e muito antigos, havia sido um lugar em que
termina na rua”. Muitos alunos moravam índios e escravos. Outros disseram
demonstraram estar inteirados do que é e que já tinham ouvido os pais falarem a
quais são as causas do bullying, apresentando respeito. Um rapaz fez questão de colocar

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que não era de lá e que havia morado em muitas experiências dos jovens com relação
outra cidade a maior parte de sua vida. à comunidade emergiram. Alguns desenhos
A identidade étnica quilombola não foi que surgiram foram: panelas de barro (na
apresentada pelos adolescentes como uma comunidade há a tradicional confecção de
realidade local e, como já havia acontecido panelas pelas paneleiras), casarões antigos,
no primeiro dia de atividade (“o que é ser igrejas e figuras do congado local. Muitos
negro”), de difícil abordagem. De uma desenhos representaram as festas
forma geral, em todos os grupos houve promovidas pela igreja. Diante disto, foi
silêncio, muita inibição e falta de disposição tratada a importância da memória cultural
para conversar sobre o tema. Em um dos para uma comunidade, como ela é
grupos, um dos alunos, com certo receio, responsável pela construção da identidade
disse que um dos colegas dele era cultural de um povo e de como ela pode ser
descendente de negros. Esse colega, então, utilizada para promover o reconhecimento e
negou essa afirmação. Quando foi lhe a igualdade social.
perguntado o motivo, ele disse que não era Sobre o que faltava na comunidade,
descendente de escravos. Apesar de ter foram apresentados: desenhos de um
muitos colegas negros, parece que seus hospital, um banco, um posto de gasolina e
colegas consideravam que apenas ele era uma farmácia. Incentivados a falar sobre
negro, por sua pele mais escura. Outro isso, os alunos deram uma série de
aluno perguntou aos estagiários se era exemplos: “Se alguém fica doente, tem que
verdade que os negros tinham mais ir para a cidade pra se tratar, se o carro
resistência às doenças. Foram retomadas as estiver sem gasolina, não tem como
reflexões obre o preconceito contra as abastecer, tendo que ir lá também, e se tiver
pessoas negras e afro-descendentes: sua sem dinheiro não tem como tirar dinheiro
genealogia, o mito da democracia racial, o no banco”. Conversaram também sobre a
desrespeito às diferenças culturais, a falta que faz um campo de futebol e um
desigualdade social, as formas sutis como o posto policial. Essas colocações
racismo aparece (Da Matta, 1990; Camino, demonstraram uma forma crítica de se
2001; Silva Bento, 2003). pensar o bairro, elegendo os serviços
Em algumas turmas, em que foi mais públicos como direitos humanos.
difícil o diálogo sobre o tema do racismo, os Um dos jovens levou uma reportagem de
mediadores buscaram por outra alternativa um jornal que relatava a situação precária do
de expressão. Foi solicitado, então, que em posto de saúde local, o que possibilitou um
vez de falar, eles desenhassem em cartolinas debate interessante sobre as dificuldades
imagens que representassem as questões enfrentadas pelos moradores quanto à falta
colocadas. O envolvimento dos alunos, de de atendimento médico e ausência de
maneira geral, foi grande nessa atividade, o cuidado com os pacientes. Foi levantado
lúdico facilitou a abordagem da questão e também a questão do lixo acumulado nas

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ruas, que deveria ser mais bem observada frutas e suco natural na merenda.
pela prefeitura, e, ainda, sobre o alcoolismo, Ainda quanto à escola, foi apontado que
que foi representado como fazendo parte do eles não são ouvidos, que o diretor
cotidiano dos jovens, das famílias e raramente está presente na escola e que
moradores do lugar, sendo relacionado à muitas coisas deveriam ser mudadas: a
pobreza e à falta do que fazer. merenda, a qualidade dos professores, o
Todas essas experiências foram pequeno espaço físico da escola, o acesso à
relacionadas à importância da participação direção e coordenação da escola, a biblioteca
pública das pessoas, e dos adolescentes, nos considerada deficiente e a falta de
espaços de reivindicação dos direitos do funcionários. Este momento foi importante
cidadão e da importância de eleger para tornar evidente, por parte dos
governantes comprometidos com essas estagiários, a importância da voz dos alunos
causas. para se posicionarem de forma crítica ao
Os estagiários, numa atuação sócio- modelo educacional vigente no país, uma
educativa, conversaram com os jovens sobre vez que, apesar desses problemas estarem
a importância das tradições culturais como localizados num lugar específico, eles são
transmissora de valores sociais, como decorrentes das políticas de educação no
integradora dos membros da coletividade e Brasil.
fornecedora de uma identidade social e Motivados a refletir sobre possíveis
política, pois instrumentaliza as pessoas e soluções para os questionamentos
grupos para a luta em prol de seus colocados, mais uma vez demonstraram
interesses, para a participação e controle desânimo e sentimentos de impotência para
social dos bens públicos. Foram sugeridas mudar a situação. Foi sugerido pelos
aos jovens atitudes que podem contribuir estagiários que eles deveriam se organizar e
para mudanças na sociedade como a apresentar para a direção da escola
participação no grupo de congado local e a propostas de criação de um espaço de
solicitação de reuniões junto à direção da diálogo em que pudessem expressar seus
escola para tratar de assuntos de seus sentimentos e afetos, assim como reivindicar
interesses. alternativas e soluções para os pontos
Quanto à percepção sobre a escola, levantados por eles.
muitos concordaram que deveria ter aulas de A avaliação dos estagiários a respeito de
dança, educação física e uma quadra de seus papéis nos encontros variou bastante.
futebol. Um grande número de jovens Alguns relataram que tiveram muitas
comentou que a merenda da escola poderia dificuldades em lidar com o comportamento
ser melhor, porque muitas vezes eles têm dos jovens devido às conversas paralelas,
que comer sopa quando está fazendo calor, desinteresse pelos temas tratados, falta de
ou então, se ganham biscoito ele está participação, atitudes irônicas e debochadas
murcho. Levantaram a necessidade de incluir dos participantes quanto a determinados

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mediadores. descendentes, contra os que são usuários de


Foi relatado pela maioria dos mediadores drogas, contra as mulheres, contra as
que o receio dos adolescentes de se tradições, contras as pessoas pobres, entre
manifestarem diante de determinados outros. Foi observado que os adolescentes
assuntos dava a impressão de que sentiam constroem hierarquias entre eles,
medo de falarem coisas que seriam reproduzindo dentro de sua própria classe
consideradas erradas e que gerariam social (que é desfavorecida
punições. Este fato, segundo a percepção socioeconomicamente) as mesmas
dos estagiários, pode ter sido gerado pelas hierarquias e lógicas que os poderes e
recomendações dos professores sobre o discursos oficiais constroem para controlar e
comportamento adequado que deveriam ter. manipular pessoas e grupos sociais.
Em alguns grupos, em que esta situação foi Essa realidade é bastante perigosa, pois
na hora percebida, levou os mediadores a coloca esses jovens – inseridos em grupos
colocarem a situação em reflexão, sociais desfavorecidos e estigmatizados –
incentivando-os a se manifestarem sem o uns contra os outros, o que faz perder a
julgamento do certo e do errado, o que é possibilidade da construção de uma
imprescindível para que a pessoas possam identidade crítica, de uma consciência
discutir suas necessidades em qualquer coletiva, de um espírito de luta e de
espaço, seja o das relações afetivas e sentimentos de indignação contra as
familiares, ou políticas, em seu sentido mais injustiças, as desigualdades sociais e as
amplo. violações dos direitos humanos. Em
Outros consideraram que se sentiram decorrência disto, surge a formação e
confiantes e seguros, e que as turmas foram fortalecimento de coletivos alienados que
receptivas e participativas, acreditando que servem de massa de manobra às ideologias
contribuíram para que aqueles jovens dominantes.
despertassem para alguns questionamentos Nenhuma liderança ou pessoa de
nunca antes realizados, possibilitando que referência foi citada, seja na escola ou na
uma maneira nova de pensar suas relações comunidade, apesar do incentivo dos
interpessoais, intergrupais e coletivas, mediadores para que essas pessoas
surgisse desses encontros. pudessem aparecer na fala dos jovens. Esse
dado é de fundamental importância, pois
Considerações Finais pessoas de referência, que são aquelas
As atividades realizadas junto a estes portadoras da admiração e respeito por
jovens levaram às seguintes considerações: parte dos membros da coletividade, são
as brigas entre eles, que surgem através dos essenciais no período da adolescência. São
apelidos, são reflexos de uma série de esses outros significativos os mediadores
preconceitos sociais existentes na sociedade entre os adolescentes e o mundo social; são
brasileira, seja contra os negros e afro- através destes que eles aprendem e

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internalizam a confiança no mundo, a crença escola não foi alvo de investigação. No


de que é possível modificar o meio em que entanto, cabe enfatizar, que a educação deve
vivem, os valores de igualdade, justiça e ser entendida num sentido muito mais
cidadania. No entanto, não se pode afirmar amplo, em sua roupagem política e humana:
que não existem essas pessoas na a de formar crianças e jovens como sujeitos
comunidade e, para isto, um trabalho mais históricos capazes de mudar a sociedade que
aprofundado deveria ser realizado. os exclui dos bens simbólicos culturais,
Apesar de algumas tradições da sociais e econômicos, contribuindo com a
comunidade terem aparecido, como as festas aprendizagem em direitos humanos.
da igreja, o congado, as paneleiras, parece Concluímos, afirmando a necessidade de
que estes símbolos culturais estavam implantação e desenvolvimento de ações
desconectados dos seus sentidos mais que objetivem melhorar as interações entre
profundos, o de memória e identidade os alunos e a escola como um todo, e, ainda,
cultural. As críticas à escola foram muitas, enfatizando a importância do estágio de
desde o seu espaço físico, qualidade da núcleo básico para a experiência dos alunos
merenda, falta de funcionários, papel fora da sala de aula, que, considerando os
higiênico nos banheiros, até a relação com a contextos sociais, propicia a construção de
direção e com os professores. Chamamos a uma visão crítica da realidade e da
atenção, em particular, para estas últimas Psicologia.
queixas, feitas de maneira geral, por todas as
turmas, que se referiram, principalmente, às Referências
Afonso, M. L. & Abade, F. L. (2007). Para
pessoas responsáveis pela direção, como reinventar as rodas. Belo Horizonte: Rede de
sendo autoritárias, desrespeitosas, e sem Cidadania Mateus Afonso Medeiros.

uma real preocupação com os alunos e a sua Baumann, Z. (1999). Globalização: as consequências
humanas. Rio de Janeiro: Zahar.
aprendizagem. Alguns, de forma mais
enfática, relataram que as turmas e alunos Bobbio, N. (2004). A era dos direitos. Rio de
Janeiro: Campus.
são rotulados de forma pejorativa (como
“alunos problema”, “turmas que professor Camino, L. I. E, da Silva, P., Machado, A. &
Pereira, C. (2001). A face oculta do racismo no
nenhum gosta de dar aula”, “mau exemplo”) Brasil: uma análise psicossociológica. Revista de
Psicologia e Política, 1(1), 13-36.
por determinados professores e pela
direção, e que, inclusive, estes rótulos os Cassab, M.A. J. (org.) (2006). Para construir espaços
solidários: uma metodologia de trabalhos com jovens. Juiz
atingem na comunidade. de Fora: EdUFJF.
As queixas levantadas pelos alunos Cedefes/Centro de Documentação Eloy Ferreira
parecem apontar para uma dinâmica já da Silva. Pinhões. Retrieved October, 10, 2011
from
existente nos processos sociais e que visam http://www.cedefes.org.br/index.php?p=projeto
s_detalhe&id_pro=110
à criação de estereótipos e preconceitos. No
entanto, seria prematuro afirmar que tais Ciampa, A. C. (2009). Identidade. In S. T. Lane
& W. Codo. (orgs.) Psicologia Social – o homem em
queixas coincidem com a realidade, pois a movimento (pp. 58-75). (13a ed.). São Paulo:

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Recebido em: 12/05/2011


Aceito em: 27/03/2012

▲ Gerais: Revista Interinstitucional de Psicologia, 5 (2), jul - dez, 2012,334-344