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PARTIDA PARA
O ESPAÇO

Autor
WILLIAM VOLTZ

Tradução
AYRES CARLOS DE SOUZA

Revisão
ARLINDO_SAN
(De acordo, dentro do possível, com o Acordo Ortográfico válido desde 01/01/2009)
Desde o dia em que o Projeto Laurin foi executado,
passaram-se exatamente seis meses.
Para todos os que estão por fora e os não-iniciados, a Terra
e os outros planetas do sistema natal da Humanidade pereceram
juntos com o Sol, numa formidável erupção energética.
Os que vivem dentro do Sistema Solar, entretanto sabem de
tudo: foram transplantados, em exatos cinco minutos, para o
futuro, para que as frotas da Coalizão Anti-Solar topassem com o
vazio, e deste modo não houvesse uma luta entre irmãos.
Perry Rhodan, o Administrador-Geral do Império Solar,
para evitar um banho de sangue, e com total consciência, efetuou
uma espetacular retirada. Este lance cósmico é parte do Plano
Terrano dos Quinhentos Anos. A Terra desaparece para poder
operar em completa anonimidade.
E uma operação como esta torna-se necessária, pela
primeira vez, em maio do ano de 3.431: Um povo que esqueceu-
se da herança da Humanidade, precisa de ajuda urgente. Mais de
oitocentos milhões de homens estão próximos da Partida Para o
Espaço...
***
Em maio do ano de 2.401, terranos valentes emigraram
para o sistema solar Sapa, que fica a uma distância de 19.316
anos-luz da Terra. Quando os colonos atingiram o seu destino,
desistiram do seu plano original de povoar o planeta Firmer. Este
mundo primitivo, com seus mares fumegantes, seus animais
monstruosos e bactérias e vírus totalmente desconhecidos, era
demasiadamente sinistro para os colonos. Por isso os emigrantes
examinaram Conyers, a lua do planeta Firmer, e a acharam boa,
para se transformar na nova pátria desse pequeno grupo de
homens e mulheres...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Flaman Pantalone — Um pioneiro da Astronáutica.
Lytton Addis, Faolain Strachey e Neiman Korhu —
Acompanhantes de Pantalone na primeira expedição ao
espaço, dos saparos.
Mous Makalet — Árbitro do povo dos saparos.
Bascomb Canton — Principal adversário político de Makalet.
Staebler-Beer — Sobrinho do Imperador Dabrifa.
Perry Rhodan — O seu nome é desconhecido aos homens do
Sistema Sapa.
1
1.030 Anos Depois...

Firmer subira no horizonte. A Vanguard destacou-se nitidamente, com sua torre de


lançamento, contra o disco claro do planeta.
Flaman Pantalone saiu para a noite. Era a noite antes do lançamento e Pantalone
sabia que não encontraria sossego. Agora, tão perto da realização dos seus sonhos, ele era
torturado por dúvidas. Sacudiu a cabeça. Talvez fosse apenas um pouco de cansaço,
provocado pela luta de anos, mantida junto com o Árbitro Mous Makalet, contra todos os
adversários do projeto. Mas a sensação de que ele não voltaria deste voo, não se deixava
afugentar tão facilmente.
Pantalone começou a andar. Atravessou o grande campo, sem destino, do qual nos
últimos dez anos todos os satélites tripulados tinham sido lançados para as suas órbitas. O
acaso, ou um impulso inconsciente, levou-o para as proximidades da placa
comemorativa, que fora erguida em honra dos pioneiros do espaço, na borda do
espaçoporto.
Perto da placa uma sombra se mexeu.
— Olá! — gritou Pantalone, admirado de que, além dele, ainda houvesse mais
alguém aqui fora, a esta hora tardia da noite.
A sombra aproximou-se e tomou a forma de Lytton Addis.
— Olá! — disse Addis, e sua voz soou esquisita.
Pantalone alcançara a placa e apoiou-se na mesma com ambos os braços.
— Não é curioso que nos encontremos aqui, bem no meio da noite? — perguntou
Addis.
Ele parecia inquieto. Talvez estivesse pensando nos impulsos secretos que reunira
dois homens, conhecidos por seu controle emocional, num lugar tão estranho a uma hora
tão estranha.
Pantalone viu um fósforo arder. Addis acendera um cigarro.
— Você não responde — disse Addis.
Os olhos de Pantalone estavam voltados para a torre de lançamento. Firmer,
entrementes, subira um pouco mais, de modo que agora apenas o primeiro estágio da
Vanguard se destacava contra o disco do planeta. A nave com suas asas-delta parecia um
triângulo, que apontasse para determinado ponto do disco luminoso.
Addis jogou fora o seu cigarro — aparentemente não gostara dele.
Pantalone passou a mão espalmada pelo lado da placa comemorativa, e cada sulco
que seus dedos tocavam, era a letra dó nome de um homem morto.
— Talvez você esteja pensando que em breve eles também gravarão nossos nomes
aqui — continuou Addis, insistente. — Os nossos e os de Faolain Strachey e Neiman
Korhu.
— É possível — disse Pantalone.
Os dois silenciaram por algum tempo. Um sabia que o outro estava pensando na
partida e naquilo que viria depois.
— Você acredita realmente que nossos antepassados vieram de Firmer? —
perguntou Addis, depois de algum tempo.
— Muita coisa aponta para isso — retrucou Pantalone. — Os destroços das naves
esféricas escavadas parecem ser uma prova irrefutável.
Addis disse, pensativo:
— É uma lástima que durante a guerra atômica, há oitocentos anos atrás, todos os
documentos foram destruídos. Seria tranquilizador se soubéssemos o que nos espera em
Firmer.
— Nenhum telescópio e nenhum raio de rastreamento é capaz de penetrar naquela
atmosfera nublada saturada de oxigênio — retrucou Pantalone. — Quem quiser saber o
que acontece nesse planeta, terá que voar até lá, por bem ou por mal, e exatamente isso
nós vamos fazer amanhã.
— Flaman?
— Hum?
— Você acha que nós voltaremos?
— Por algum tempo eu estava convencido disso — disse Pantalone. — Somente
assim foi possível que eu me dedicasse com todas as minhas forças psíquicas e físicas ao
projeto. Agora, quando a partida está acertada, devo confessar que existe uma série de
fatores incertos.
— Vamos encontrar nossos antepassados em Firmer?
Pantalone ouviu-se rir amargamente.
— A História ensina que a guerra atômica passou de Firmer para Conyers —
respondeu ele. — Temos que contar com a possibilidade de que os saparos de Firmer se
mataram todos mutuamente.
Com um entusiasmo crescente Addis disse:
— Vamos encontrar as ruínas de sua cultura. Com toda certeza. Isso será de valor
inestimável para nós. Algum dia talvez as nossas espaçonaves poderão deixar o Sistema
Sapa e voar para outras estrelas.
Pantalone encolheu os ombros.
— Que sentido teria isso? — achou ele. — Nós saparos somos as únicas criaturas
inteligentes dentro do Universo, isso é praticamente certo.
— Eu sei — concordou Addis. — Mesmo assim eu me interesso em saber como são
as coisas em outros mundos.
A voz de Pantalone assumiu uma nuance de escárnio:
— Você se interessa por tudo que é novo e variado.
Addis mudou de assunto.
— Eu ouvi dizer que ontem você esteve mais uma vez com o Supremo Árbitro.
— Correto — anuiu Pantalone.
— Como vai ele?
— Não muito bem. A agitação desses últimos meses foi demais para ele. Nós não
podemos aquilatar o que ele fez pelo projeto. Ele... — a voz de Pantalone morreu.
— Ele vê um filho em você — disse Addis, calmamente. — Já uma vez um
Pantalone fez História. A oitocentos anos foi um homem do seu nome que terminou a
guerra atômica e criou um governo de coesão, unitário, em Conyers.
— Isso já faz muito tempo — disse Pantalone.
— Eu vou dormir — anunciou Addis de repente, e se afastou.
Pantalone puxou-se para cima da rocha com a placa comemorativa, deixando as
pernas penderem de um lado para o outro. Ele perguntou-se o que Strachey faria neste
momento, ou Korhu. Faolain Strachey certamente era o único membro do time que agora
estava dormindo. Pantalone sorriu, quando pensou em Strachey.
Neiman Korhu entretanto estaria lendo. Korhu era um homem que ia ao fundo das
coisas. Certamente não era por acaso que Korhu fazia parte da tripulação da Vanguard.
Pantalone lembrou-se de uma conversa entre Korhu e Proctor, o chefe técnico do
projeto. Proctor perguntara a Korhu o que poderia mover um homem a participar deste
voo perigoso. E Korhu, o homem da voz tranquila, retrucara:
— Mas isso é evidente. Firmer me apresenta enigmas que eu quero solucionar.
Korhu era desses homens que juntam uma pedra à beira do caminho para examinar
o que há por baixo dela.
“Como nós somos quatro homens radicalmente diferentes”, pensou Pantalone,
surpreso.
Os saltos de suas botas bateram uma melodia conhecida contra a placa
comemorativa.
Ele pensou:
“E mesmo assim vamos estar metidos juntos numa nave e voaremos para Firmer.
Faolain Strachey, Neiman Korhu e Lytton Addis.
E eu, Flaman Pantalone.”
***
Sempre fora torturante para Mous Makalet ficar sentado na extremidade de uma
mesa comprida, para deliberar com o seu Gabinete. Fios invisíveis pareciam esticados por
cima da mesa, para se reunirem à sua frente num nó inextricável. Em debates acalorados,
Makalet costumava bater com o punho fechado no lugar onde supunha o nó. Um gesto
que os seus adversários políticos lhe incriminavam como de falta de bom senso.
Agora, quando lã fora já subia a aurora, o Supremo Árbitro tinha a sensação de que
teria que destruir o tampo da mesa com um só golpe. Estava quente dentro da sala de
conferências, e os rostos dos homens estavam vermelhos.
— Árbitro! — gritou Bascomb Canton, o chefe da Oposição. — O senhor poderia
dar-nos, mais uma vez, o nome dos médicos que foram responsáveis pelos exames
conclusivos dos astronautas?
Os olhos de Makalet se repuxaram, de modo que inúmeras rugas se formaram no
seu rosto. Quem conhecia o Árbitro Supremo sabia que este era um sinal de extrema
agitação interna.
— O senhor conhece estes nomes exatamente — disse Makalet. — É supérfluo eu
os enumerar mais uma vez.
Canton olhou em torno do círculo de deputados, como se quisesse proclamar a
todos como testemunhas de um ato irresponsável.
— Certamente, eu conheço esses nomes — disse Canton. — Por isso mandei
confeccionar para cada um dos senhores uma lista com estes nomes. — Ele abriu uma
pasta da qual retirou uma pilha de papéis. — Meus senhores! Os senhores poderão
convencer-se de que se requisitaram, em primeira linha, psicólogos para tratar dos quatro
astronautas. Para o público, entretanto, sempre se afirmou que não se encontrariam em
toda Conyers homens mais equilibrados que Flaman Pantalone e o seu grupo.
Canton levantou-se de um salto e apontou, acusador, para Makalet.
— Agora, entretanto, fica-se sabendo que o Árbitro não dá qualquer valor à
adequação psíquica dos astronautas. Isto, especialmente num caso: Flaman Pantalone. É
evidente que o Árbitro quis tirar proveito publicitário da popularidade deste homem, e foi
isto que fez. É sabido que...
As próximas palavras de Canton desapareceram no tumulto. Todos, exceto Makalet,
tinham-se levantado de um salto e gritavam por cima da mesa. Mãos foram estendidas
ameaçadoramente.
Makalet sentiu como os olhos de Canton se fixaram nele, triunfantes.
Se Bascomb Canton conseguisse, nesta noite, adiar a partida, para sugerir um outro
grupo, a Vanguard jamais seria lançada.
Finalmente o presidente do Conselho conseguiu fazer-se ouvir.
— Meus senhores! — gritou ele. — Por favor, deixem o deputado Canton falar até
o fim.
— Não há mais nada para dizer — Canton terminou o seu discurso. — Com a
presente eu apresento moção para que a partida seja adiada. Um novo grupo deverá ser
treinado.
Todos olharam para Makalet.
Makalet sabia que não podia deixar que houvesse uma votação. O seu grupo
dispunha apenas de uma maioria de quatro deputados, e na situação do momento era
questionável que todos os partidários dó Árbitro votassem a favor da partida.
Stanwell Rebbie, a quem Makalet certa vez chamara zombeteiramente de bobo da
corte de Canton, pediu a palavra, por gestos. Makalet sabia o que viria agora. Rebbie
requisitaria que agora fosse efetuada uma votação sobre um adiamento da partida da
espaçonave. Isso era tão transparente que Makalet teve que sorrir inconscientemente,
apesar de nunca ter visto antes o projeto tão fortemente ameaçado quanto neste instante.
— O Deputado Stanwell Rebbie com a palavra! — gritou o presidente do Conselho.
Neste momento Makalet ergueu-se. Como se os outros homens sentissem que
alguma coisa fora do comum iria acontecer, todos dirigiram o olhar para a ponta da mesa,
onde estava de pé este homem idoso, que há doze anos era o Árbitro Supremo de
Conyers.
— Eu estou convencido de que o honorável deputado Stanwell Rebbie preparou um
discurso muito bem pensado — disse Mous Makalet. Ele ergueu a mão para a boca e
bocejou. Depois virou-se com uma lentidão irritante e olhou para o relógio acima da
entrada. — Por outro lado — continuou ele calmamente — a hora já está adiantada
demais, para que pudéssemos discutir mais longamente este problema. No interesse de
sua saúde e da minha, eu declaro encerrada a sessão extraordinária.
Seguiram-se alguns segundos de uma calma sinistra, depois ouviu-se a voz
indignada de Canton.
— O senhor não tem o direito de encerrar a sessão, Arbitro! De acordo com a lei
somente o presidente da sessão pode fazê-lo.
— Certamente não sou o primeiro saparo morto de sono que não se importa com a
lei — retrucou Makalet.
— Mas isso é... isso é ditadura! — gritou Canton.
O conselheiro de Makalet levantou-se e segurou o Arbitro pelo braço.
— O senhor não deve fazer isso, Mous — disse o homem, perturbado. — Isso lhe
custará o título e a chefia do nosso partido.
— Sim, eu sei — concordou Makalet, afastando-se da mesa.
— O nosso partido, tanto quanto eu, realizou a sua tarefa — disse Makalet, ao
voltar para a mesa. — Canton, com razão, nos substituirá, com seus amigos. Mas isso
ainda demorará alguns dias. — Makalet sorriu, irônico. — E onde, acredita o senhor,
deverá estar a Vanguard, nessa hora?
O seu conselheiro olhou-o de boca aberta.
— Essa velha raposa pérfida — disse Canton, com uma nuance de admiração na
voz. — Agora ele certamente conseguiu o que queria. Mas quem poderia adivinhar que
ele estava disposto a sacrificar tudo, para despachar esses quatro malucos, num
gigantesco ataúde de metal, para Firmer?
***
Quase ao amanhecer Flaman Pantalone caiu num sono inquieto, do qual acordou
novamente, quando o telefone da mesinha tocou. Primeiro Pantalone pensou que o iriam
chamar para a torre de lançamento, porém um olhar para o relógio mostrou-lhe que ele
ainda tinha duas horas de tempo.
Pantalone pegou o fone.
— O senhor pode ligar o vídeo, tranquilamente, jovem — disse a voz familiar de
Mous Makalet. — Nenhum de nós dois é tão feio que precise envergonhar-se de sua cara.
Pantalone sorriu e ligou o vídeo. Ele assustou-se ao ver o Árbitro. O rosto de
Makalet estava magro e cinzento. Mesmo assim o Árbitro dava a impressão de que estava
de bom humor.
— Se eu suspeitasse que estava dormindo, não teria chamado — disse Makalet. —
Pensei que não conseguiria dormir.
— Realmente foi assim — confirmou Pantalone. — Eu estava justamente sonhando
que tinha sido sequestrado com Strachey, por amazonas firmerianas.
— Não deixe que Canton ouça isso — disse Makalet. — Ele lhe imputa uma
neurose sexual e adia o lançamento.
Pantalone não deixou-se enganar pela atitude do Árbitro. Alguma coisa acontecera.
Mas Makalet nunca teria sido tão falante se alguém tivesse seriamente ameaçado o
projeto.
— O que aconteceu, Arbitro? — perguntou o astronauta.
— Logo depois da partida da Vanguard, pedirei minha demissão — informou
Makalet. — E isso também é válido para o meu Gabinete.
— O quê? — deixou escapar Pantalone.
— Foi a única maneira de salvar o projeto — disse Makalet. — Canton queria
conseguir um adiamento, a qualquer custo. Eu tive que fazer uso de um estratagema
bastante... ah... incomum, para evitá-lo. Canton agora está pedindo a minha cabeça, mas
eu vou jogá-la diante dos seus pés, antes que ele possa me decapitar.
Pantalone não sabia o que dizer.
— Não é tão terrível assim — continuou Makalet. — Quando o senhor voltar,
também os adversários desse voo espacial reconhecerão a necessidade deste projeto.
— Cada saparo sensato... — começou Pantalone.
— Pare com isso! — interrompeu-o o Árbitro. — Em oitocentos e setenta milhões
de saparos, nem todos podem ser sensatos. Às vezes, aliás, eu suspeito que os insensatos
somos nós. Aliás, eu não vou estar presente ao lançamento, nem mesmo o verei pela
televisão. Dentro de uma hora voarei para Gove, ficando por lá, até que precisem de mim
mais uma vez.
“Gove!” — pensou Pantalone, aturdido. — “Um jardim gigantesco, um lago, um
bangalô branco e um par de águias-aljew domesticadas. Exatamente o lugar certo, para
se deixar morrer um homem como Makalet.”
— Eu gostaria que o senhor pudesse vir conosco, Árbitro — disse Pantalone. — É a
sua nave.
— É tanto a minha nave quanto a sua — retrucou Makalet. — É uma nave que
pertence a cada saparo. O senhor não voa para Firmer para mim, Flaman, mas para o
povo dos saparos. Não se esqueça disso.
— Certamente que não! — prometeu Pantalone.
Makalet interrompeu a ligação, sem se despedir. Pantalone sabia que agora não
conseguiria dormir mais com certeza. Ele levantou-se, e se vestiu. O seu desjejum já
estava preparado. Apesar de Makalet ter se mostrado certo da partida, Pantalone estava
preocupado. Ele conhecia Bascomb Canton. Esse homem era esperto. Canton era capaz
de ainda evitar a partida, apesar de tudo.
Pantalone saiu do seu quarto e foi até o de Strachey. O navegador estava deitado na
cama, de costas, e roncava. No chão havia duas latas de cerveja, vazias. Pantalone
empurrou-as com os pés para baixo da cama. O barulho acordou Strachey.
— Já está na hora? — quis saber ele, quando viu Pantalone parado do lado de sua
cama. Depois olhou para o relógio e respondeu-se a si mesmo. — O que quer dizer isso?
— quis ele saber, chateado.
— Você tomou cerveja — disse Pantalone.
— Naturalmente — confirmou Strachey, irritado. — E o que tem isso?
— O Dr. Kelsonoby não gosta de ver isso.
— Faolain Strachey, raciocine, por favor, que consequências tem o saborear de
meio litro de cerveja, para o projeto — disse Strachey, imitando a maneira de falar do
médico.
— Makalet está deixando o posto — disse Pantalone.
Strachey sentou-se na cama.
— Por isso você está tão irritado — disse ele. — Eu logo imaginei que alguma coisa
não estava em ordem. E o projeto?
— Parece assegurado. De qualquer modo nós partiremos. Quando voltarmos, talvez
nos coloquem numa fogueira.
Strachey olhou fixamente para suas unhas. Só muito raramente ele parecia tão
pensativo.
— Nós não somos tolos? — perguntou ele.
Pantalone sentiu que esta pergunta não valia para ele. No fundo Strachey estava
tentando obter sua própria resposta para isso.
— Por que estamos fazendo isso, na realidade? Provavelmente não vamos
sobreviver. Talvez vamos explodir, ou morrer sufocados. Mas também é possível que
acabemos em chamas. Há pelo menos vinte maneiras de morrer, com as quais estamos
ameaçados.
— Cale a boca, Faolain!
— Por que devo calar a boca? É a pura verdade. — Strachey botou as pernas para
fora da cama, e ficou tamborilando com os pés no chão, como se quisesse esquentá-los.
Depois disse um palavrão, dos piores. Pantalone ficou observando-o. Strachey era
fleumáuco, mas agora aquilo o pegara. Pantalone sorriu. Ele estava contente de que
Strachey também estava nisso com o coração e não apenas com o cérebro.
— Me passa as minhas calças — disse.
Pantalone fez-lhe a cortesia. Enquanto Strachey tomava o desjejum, Korhu entrou.
Norman Korhu era baixo e magro. Ele chamava a atenção especialmente pela cor pálida
do seu rosto. Quase todos os saparos eram morenos no rosto. Korhu tinha cabelos pretos,
que estavam já ficando grisalhos nas têmporas.
— Bom dia, comandante! — ele saudou Pantalone. — Bom dia, Faolain.
— Olá, bruxo! — resmungou Strachey.
— Agora só falta o garoto — disse Pantalone.
Porque Lytton Addis, o radioperador era o mais jovem, eles muitas vezes o
chamavam de “garoto”, mas somente quando ele não estava presente.
Pantalone achou que Strachey estava levando muito tempo com o seu desjejum.
Korhu dera a entender ao comandante que ainda queria discutir alguns problemas. Como
engenheiro e cibernético Korhu era o homem mais importante do time, depois de
Pantalone. Algumas de suas ideias geniais tinham facilitado decisivamente a construção
da Vanguard. Nos bolsos de Korhu agora se encontravam alguns bilhetes cheios de graxa,
nos quais ele escrevia rapidamente suas anotações, que mais tarde geralmente se
mostravam de grande utilidade.
Neiman Korhu era o membro do grupo com o qual Pantalone tinha maior
dificuldade de contato. Korhu vivenciava demasiadamente problemas científicos.
— Ontem à noite estive com Proctor — disse Korhu, quando Strachey finalmente
recostou-se na cadeira, e respirou fundo, satisfeito. — Nós tivemos uma discussão feia
devido aos booster.
Os booster, lembrou-se Pantalone, eram quatro propulsores adicionais do mais
baixo estágio do foguete, impelido por força atômica. Eles trabalhavam com carga de
combustível sólido e deviam levar um peso inicial de 13.500 toneladas a uma altura de
45.000 metros. Depois disso tinham que ser desacoplados, e o primeiro estágio teria
ignição automática.
— Alguma coisa não está em ordem? — quis saber Pantalone, preocupado. Ele
sabia que uma suspensão da contagem regressiva afinal de contas poderia levar a uma
vitória de Canton.
— O problema é que Proctor vê os booster como perdidos — declarou Korhu. —
Eu entretanto sou de opinião que numa construção pequena todos os quatro propulsores
adicionais, depois de consumido o combustível, certamente poderão ser trazidos de volta
para a superfície de Conyers.
Pantalone abafou um respirar aliviado.
— Quanto tempo seria necessário para equipar os booster conforme você quer? —
perguntou ele.
— Quatro dias — retrucou Korhu.
— Tanto tempo não podemos esperar — interveio Strachey. — Flaman disse-me
que Makalet hoje vai renunciar. Portanto teremos que partir hoje.
— Strachey tem razão — disse Pantalone.
Korhu estava decepcionado. Ele não conseguiu entender que quatro valiosos
containers de combustível deviam cair vítimas de manipulações políticas.
— Há ainda outra coisa, sobre a qual eu
gostaria de falar com vocês — disse Korhu
aos outros dois. — Entretanto seria melhor se
o garoto pudesse estar presente, pois se trata
da instalação de rádio.
— Você quer reconstruí-la — disse
Pantalone, chateado.
Korhu piscou, perturbado.
— Como é que você sabe disso? — quis
ele saber, admirado.
Pantalone abriu os braços e sorriu, irônico.
— Eu sou o comandante — disse ele.
***
De dois em dois eles saíram juntos para a luz do sol, os capacetes debaixo dos
braços e metidos em trajes disformes, mais parecidos com animais exóticos que com
saparos.
Na ponta iam Flaman Pantalone e Faolain Strachey, que atravessava o campo com
passadas pesadas. Atrás vinham Addis e Korhu, de cabeças abaixadas, a mão livre metida
nos cinturões.
Dos dois lados dos astronautas rolavam carros com câmeras. A grande tribuna de
tubos de aço, entre os edifícios administrativos e a torre de controle, estava lotada. Meia
hora antes do lançamento os espectadores deixariam os seus lugares, tendo que recuar
pelo menos uns dois mil metros.
Pantalone raciocinou que também os adversários do projeto se contavam entre os
espectadores da partida, não importando se estivessem sentados próximos, ou diante de
aparelhos de televisão. O que estariam pensando os saparos que achavam o voo para
Firmer uma coisa insensata? Eles estavam desejando um fracasso? Eles estariam
desejando a morte de quatro homens, que queriam tornar realidade o sonho de um
homem idoso?
A lembrança de Makalet fez com que Pantalone esquecesse o que lhe ia em volta,
por alguns momentos. Ele julgava o velho capaz de agora estar calmamente no seu jardim
em Gove, dando comida às águias.
— Ainda haverá algum lugar, sem uma câmera instalada? — perguntou Faolain
Strachey.
— Acho que não — disse Addis.
— Teriam poupado muito dinheiro se tivessem seguido minha sugestão de
colocarem câmeras automáticas teleguiadas sobre trilhos — observou Korhu.
— Lá está o veículo — disse Pantalone e apontou para um carro, que os levaria à
torre de lançamento.
Antes de embarcar, Pantalone lançou o olhar mais uma vez pelo espaçoporto.
Parecia-lhe inacreditável que dentro de duas horas, na ponta desse monstro de aço de
cento e vinte metros de altura, eles estariam sentados, tendo que suportar as torturas de
uma pressão fantástica. Tudo neste momento parecia inacreditável. Pantalone quase tinha
a impressão de estar sendo espectador de algum filme cinematográfico.
No interior do veículo um técnico vestido de branco os esperava.
— Abram por favor todos os zíperes dos seus trajes — disse ele.
O carro os levaria até o elevador. Antes de entrarem na cápsula com a qual
pousariam em Firmer, os cientistas tentariam limpar os astronautas e os trajes espaciais
de germes, pois não queriam levar nenhum microorganismo para Firmer.
O técnico evitou olhar nos olhos dos quatro homens.
— Eu estou preocupado com o primeiro estágio — declarou Korhu, enquanto
puxava o zíper do peito do seu traje.
— Quem diria — observou Strachey, chateado.
— O propulsor químico-atômico não foi testado suficientemente — disse Korhu. —
Pela primeira vez é usado um dos novos reatores compactos baseados na fissão nuclear,
para uma tarefa dessas. — Ele fechou os olhos e ficou imaginando como a energia
térmica liberada fluía para o trocador de calor, onde o hidrogênio que se usava como
meio de trabalho era esquentado e impulsionado para os reatores com elevada velocidade
de saída e com alta densidade de impulso.
Os dois outros estágios eram menos problemáticos, porque trabalhariam de
conformidade com o muito comprovado princípio de propulsores químicos.
O módulo propriamente dito possuía, além de um propulsor químico de foguete, um
propulsor de jatos represados, com o qual poderiam deixar para trás grandes trechos na
atmosfera de Firmer. Mas isso ainda ficava no futuro.
— Agora pare de pensar no que pode acontecer — disse Pantalone para Korhu.
O carro parou.
— Agora não podemos mais voltar — disse Strachey.
— Existem pelo menos ainda cem possibilidades que podem impedir uma partida
— retrucou Addis, irritado.
Eles desembarcaram do carro. Um técnico os esperava, para acompanhá-los ao
elevador. Em muitas tentativas de lançamento simulado, Pantalone já se vira no mesmo
lugar, mas nunca antes o foguete lhe parecera tão gigantesco.
Eles entraram no elevador. Addis tossiu nervosamente.
Sozinho eu não aguentaria isso, pensou Pantalone neste instante. É bom que os
outros estejam aqui.
***
Pouco depois do lançamento, Mous Makalet viu uma faixa branca no céu. Ele achou
que devia ser a Vanguard. Mas também era possível que se enganasse.
O seu ajudante veio até o jardim.
— Eu observei o lançamento, Árbitro — disse o homem, agitado. — Tudo
funcionou maravilhosamente.
— Não fique gritando desse jeito por aqui — censurou-o Makalet. — Não vê que
está deixando as águias nervosas?
2
1o Dia (do diário de Flaman Pantalone).

Provavelmente ninguém de nós teria achado possível que a agitação passasse tão
depressa. Já agora, dez horas depois da partida, tudo a bordo é rotina. Addis está deitado
na cabine-dormitório, mas não dorme. Strachey está sentado na central de rádio e mantém
contato com a estação de solo. O piloto-robô me dá oportunidade de fazer estas
anotações. Através de uma pequena janela posso ver Firmer. O planeta agora está um
pouco maior do que é visto de Conyers. Parece uma gigantesca bola de neve com
manchas cinzentas.
Korhu já está fazendo cálculos novamente. Nossa carga útil, de trinta e duas
toneladas, parece-lhe elevada demais. Ele quer sacrificar uma parte dela. Preciso prestar
atenção para que ele não escolha o pequeno veículo de transmissão por correntes, que
provavelmente vamos precisar muito em Firmer, para podermos nos movimentar.
Ninguém de nós agora ainda está duvidando de que vamos alcançar Firmer.
O como é inteiramente negro. As estrelas parecem solitárias, apesar de diferentes
das que se vêem nas noites de Conyers, maiores e mais brilhantes. O nosso sol apenas
podemos observar através de óculos especiais.
Korhu acaba de interromper sua escrituração, para ir à toalete. Que luxo incrível!
Nós temos até mesmo uma toalete de verdade no foguete.

2o Dia (do diário de Flaman Pantalone).

Esta manhã (eu conservo a marcação de tempo usual em Conyers) houve uma
discussão entre Strachey e Addis, o que me comprovou que realmente estamos sob
grande tensão nervosa. Entretanto foi fácil acalmar os dois. A falta de gravidade está
dando o que fazer a todos nós. Korhu reclama de vontade de vomitar e náuseas. Também
eu não me sinto exatamente bem. Mesmo assim pude dormir durante uma hora, quando
chegou a minha vez. O contato com a estação de solo funciona sem problemas, mas agora
demora um pouco mais, até chegar a resposta.
Strachey pôde até falar com sua esposa. Ele ficou tão encabulado, que mal
pronunciou algumas palavras.
Conyers é um mundo lindo. Eu não sabia que a nossa pátria era tão bonita. Por isso
não me admiro de que, há muitos séculos, os saparos abandonaram Firmer, para
colonizarem Conyers.

4o Dia (do diário de Flaman Pantalone).

Ontem o demônio andou solto a bordo, de modo que não consegui tempo para
anotar alguma coisa. Apesar dele o negar veementemente, eu acho que Korhu foi o
responsável por toda a assombração. Tudo começou repentinamente, quando o contato
com a terra falhou. Addis, que imediatamente examinou a aparelhagem de rádio, não
pôde encontrar qualquer defeito e achou que fortes campos eletromagnéticos poderiam
ser os responsáveis. Logo em seguida falharam alguns instrumentos do rastreamento e de
navegação.
Strachey acusou Korhu, dizendo que ele tinha mexido na aparelhagem de rádio, mas
o engenheiro afirmou que apenas a havia examinado.
Addis precisou de duas horas para examinar toda a instalação. Korhu quis ajudá-lo
nisso, porém Strachey foi contra. Para evitar uma briga, eu encarreguei Korhu de
examinar os aparelhos de rastreamento.
Logo em seguida tudo terminara. Nós conseguimos novamente contato com
Conyers. Naturalmente uma correção da rota foi necessária. Esse trabalho me ocupou
durante o resto do dia.
O ambiente a bordo melhorou novamente, mas eu não consigo me livrar da
sensação de que, a qualquer momento, pode haver problemas novamente. Strachey e
Korhu não se dão bem um com o outro como na realidade seria de desejar. Isso nunca se
cristalizara formalmente em Conyers. Eu estou inclinado a culpar Strachey. Até agora eu
sempre o tomei como um fleumático, mas agora acredito que esta designação não o
caracteriza suficientemente. Sorrateiro, ele parece se ocupar com diversos problemas,
dois quais agora um ou outro vem à superfície. Preciso tomar cuidado.
Ao contrário, Addis, com o qual me preocupara um pouco a princípio, é
extraordinariamente calmo. Apesar de estar no espaço pela primeira vez, ele se comporta
como um astronauta experimentado.
Eu tenho certeza de que todas as tensões acabarão, quando chegarmos a Firmer.
Nós deixamos para trás mais de dois terços dos 620.000 quilômetros. Em Conyers
eles continuam recebendo nossas mensagens sem qualquer problema.
Da superfície de Firmer ainda não se consegue ver detalhes. Conyers, ao contrário,
parece uma pérola pintada. Eu gostaria que todo saparo pudesse ver esta imagem.
Hoje tudo tomou o seu curso habitual. Os trabalhos de rotina foram executados. Nós
estamos nos preparando para a manobra de pouso com o módulo. Strachey vai ficar a
bordo da espaçonave, quando Korhu, Addis e eu pousarmos em Firmer. Ele não está
muito entusiasmado com a tarefa, mas um de nós precisa ficar para trás. Que seria
Strachey, estava decidido desde antes de nossa partida.
Se ainda existirem saparos em Firmer, pertencentes a uma civilização altamente
desenvolvida, eles talvez possam nos observar.
Um pensamento fascinante.

6o Dia (do diário de Flaman Pantalone).

Nós chegamos!
O terceiro estágio da Vanguard entrou numa órbita de Firmer. Algumas fotos
infravermelhas não trouxeram resultados dignos de nota. Achamos que lá embaixo existe
uma selva impenetrável. Com a ajuda do radar pudemos verificar que existem inúmeras
montanhas em Firmer. Vai ser difícil encontrarmos um lugar adequado para o pouso.
Korhu, Addis e eu agora vamos embarcar no módulo de desembarque.
Faolain Strachey parece completamente mudado. Comporta-se como uma mãe que
precisa despedir-se dos seus três filhos. Pena que ele não possa vir conosco.
Provavelmente esta é minha última anotação, nestes próximos dias. Eu vou deixar o
diário a bordo do terceiro estágio.
3

— De conformidade com os meus cálculos, agora vem a parte mais difícil da


missão — declarou Neiman Korhu. — Com isso não quero dizer apenas a pouso, mas
também a partida, planejada para alguns dias depois, com o módulo. Nessa ocasião
vamos ter que acionar os propulsores do foguete e...
— Você quer guardar isso para mais tarde? — resmungou Pantalone.
Eles tinham colocado seus trajes espaciais e embarcado no módulo de desembarque.
Pantalone já tinha fechado a eclusa, de modo que podiam falar com Faolain Strachey
somente ainda por rádio. Strachey os cumulara de medidas de segurança.
— Agora vamos ficar sabendo se o nosso lindo veículo vai prestar nessa atmosfera
de lavanderia — disse Pantalone. — Logo que nós nos desligarmos do estágio final com
o módulo de desembarque, eu levo o mesmo em tangencial para a atmosfera. Logo que
tivermos mergulhado, vamos descer numa larga parábola.
— Por que você está nos contando isso? — quis saber Addis.
— Talvez porque eu esteja nervoso — respondeu Pantalone.
Ele já testara o módulo de desembarque em voo simulado por uma centena de
vezes, porém agora a vida deles dependia de como o mesmo funcionaria.
Pantalone sentou-se na cadeira do piloto. Os assentos eram bastante estreitos. A
maior parte do espaço interior era consumida pela carga útil. Addis e Korhu estavam
sentados em diagonal atrás de Pantalone. Addis conversava com Strachey, enquanto
Korhu observava os controles.
— Dois e meio minutos ainda — disse Pantalone.
— Eu gostaria que pudéssemos reconhecer alguma coisa na superfície — disse
Korhu. — Não estou gostando, pois vamos ter que voar praticamente em voo cego para
uma região desconhecida.
— Antes de pousarmos ainda poderemos ver o bastante. — disse Pantalone.
— Flaman! — gritou Korhu neste instante. — Impulsos!
Do alto-falante veio a voz agitada de Faolain Strachey, que evidentemente também
fizera a descoberta.
Pantalone curvou-se para trás, na direção de Korhu. Na tela do aparelho redondo de
rastreamento apareceram manchas claras em intervalos regulares.
— Impulsos de radar! — disse Korhu, com voz abafada.
— Eles vêm da superfície do planeta.
— Você tem certeza?
— De onde mais poderiam vir?
Pantalone ligou para transmissão e falou com Strachey.
— Eu vejo nos meus aparelhos a mesma coisa que vocês. — disse o navegador. —
Evidentemente agora nos descobriram.
— O que devemos fazer? — perguntou Korhu.
— Faolain! — gritou Pantalone. — Vamos interromper a manobra de pouso agora.
— Vai levar horas para que possamos começar com isso novamente — retrucou
Strachey.
Pantalone anuiu.
— Eu sei — disse ele. — Mas agora é mais importante esperarmos pelo que vai
acontecer daqui em diante. Talvez mandem uma espaçonave ao nosso encontro. Pode ser
até que tentarão nos derrubar a tiros.
— Eu estou convencido de que estes impulsos de radar são transmitidos por uma
estação-robô, que é um resto da civilização antiga — disse Korhu.
— Não creio nisso — disse Addis.
— Mas é isso! — insistiu Korhu. — Se em Firmer existisse uma civilização em
nosso sentido, os responsáveis não se contentariam com alguns poucos impulsos de radar.
Eles tentariam entrar em contato conosco pelo rádio ou então nos dariam qualquer outro
sinal. Como isso não acontece, em Firmer devem viver somente alguns poucos saparos,
ou então os impulsos são irradiados por alguma estação que ainda esteja funcionando
automaticamente.
— Isso me soa lógico — disse Pantalone. — Eu acho que você tem razão, bruxo.
Do alto-falante veio um palavrão. Era Strachey, que evidentemente lastimava que a
manobra fora interrompida.
— Talvez possamos goniometrar a localização da estação na superfície do planeta
— disse Pantalone. — Depois então pousaremos na região onde ela se encontra.
— Eu acho isso perigoso — interveio Korhu.
— Nós estamos aqui, em última análise, para fazermos contato com saparos ainda
vivos — disse Pantalone. — Por isso não devemos desviar-nos de riscos.
Apesar de Pantalone possuir o mando, como
comandante, colocou a sua sugestão em votação.
Strachey e Addis votaram a favor de pousarem nas
proximidades da estação de radar, caso fosse possível
goniometrar o transmissor. Korhu deixou de votar, mas
Pantalone não se importou muito com isso. Neiman
Korhu estava interessado nos acontecimentos em
Firmer, mais que qualquer outro.
— Nós agora estamos novamente chegando na
parte do planeta virada para nosso mundo natal — veio a voz de Strachey novamente. —
Vamos comunicar à estação de terra, o que supomos?
— Não — decidiu Pantalone.
— Mas eles devem estar interessados em saber por que ainda não começamos com
as manobras de pouso — interveio Strachey.
— Diga-lhes que eu senti náuseas e que por isso o pouso foi adiado para outra hora
— disse Pantalone.
A espaçonave logo em seguida chegou a um ponto de sua órbita, do qual os
impulsos de rádio não podiam mais ser rastreados. Em compensação, a voz que se
anunciava de Conyers, podia ouvir-se bem mais nitidamente.
— Aqui fala Proctor — disse a voz do chefe técnico. — Estão me ouvindo?
— Nós o ouvimos excelentemente — retrucou Strachey.
— Precisamos adiar a manobra de pouso, já que...
— Bascomb Canton quer falar com os senhores — disse Proctor, sem dar
oportunidade para Strachey dar uma resposta conclusiva.
Pantalone curvou-se para o microfone:
— Deixe-me falar com Canton, Faolain. Logo em seguida ouviram a voz de
Canton.
— Os senhores podem me ouvir? — perguntou o político.
— Sim — respondeu Pantalone. — O que é que o senhor quer de nós?
— Makalet renunciou logo depois da partida da Vanguard. — informou Canton. —
Há duas horas atrás eu fui eleito para novo Árbitro Supremo de Conyers.
Pantalone repuxou a cara.
— Minhas felicitações! — gritou ele, irônico.
— Eu gostaria que o senhor voltasse imediatamente — disse Canton. —
Interrompam o projeto imediatamente.
Pantalone e Korhu trocaram um rápido olhar. Addis bateu com o punho fechado no
encosto da cadeira.
— Por que deveríamos desistir agora? — quis saber Pantalone. — Tudo está
funcionando excelentemente.
— O governo atual é contra o projeto — disse Canton. A sua voz tornou-se mais
indistinta, mas ainda era possível entender-se o que ele dizia: — A maioria de todos os
saparos também. Regresse, Flaman Pantalone.
— Nunca! — Pantalone levantou-se.
Por um instante ouviu-se apenas um rumorejar no receptor, depois Canton falou
novamente.
— Eu o ordeno!
Pantalone desligou o aparelho.
— Receio que a partir desse instante vamos ter que passar sem o apoio da estação
de solo — disse ele, calmamente.
A partir desse instante não se falou mais sobre os acontecimentos em Conyers. Os
três outros aceitaram a decisão de Pantalone, que não se sentiu molestado com a manobra
de estorvo de Canton. Ele sabia que quando voltassem para Conyers, ele e os seus
acompanhantes seriam submetidos a um processo judicial. Mas isso não o inquietou. Se
eles trouxessem consigo resultados importantes de Firmer, mesmo Canton enfiaria a viola
no saco.
Além disso Makalet esperava lealdade dele. O velho não entenderia, se eles
desistissem do projeto agora. Décadas de investigações intensas não deviam ser
sacrificadas aos caprichos de um político.
Quatro horas mais tarde eles conheciam a localização aproximada do transmissor
misterioso, que ininterruptamente enviava suas ondas ultracurtas para o espaço.
— A situação exata da estação, vamos investigar do módulo de desembarque —
disse Pantalone. — Agora vamos finalmente dar início ao pouso.
Entrementes nenhum dos quatro homens ainda duvidava de que os impulsos vinham
de uma estação automática. As diversas mensagens de rádio, transmitidas em língua
sapara, não tinham obtido qualquer resposta. Pantalone começou a se familiarizar com a
ideia de que em Firmer ele não encontraria qualquer ser vivente.
Medições da atmosfera tinham resultado em que a densa atmosfera de vapor de
hidrogênio possuía um alto teor de dióxido de carbono. A consequência disso era
temperaturas muito elevadas, pois o dióxido de carbono armazenava o calor do sol.
Pantalone perguntou-se se antigamente teriam reinado outras condições em Firmer,
pois era difícil imaginar-se que os antepassados dos saparos tivessem nascido num
mundo semelhante. Outra explicação era que os saparos que viviam em Conyers tinham
se adaptado às condições deste mundo, enquanto seus antepassados ainda tinham vivido
numa atmosfera de vapor de hidrogênio.
Pantalone não queria quebrar sua cabeça por muito tempo, sobre isso. Ele esperava
que todas as suas perguntas teriam uma resposta, logo que tivessem pousado na
superfície de Firmer.
Os preparativos para a manobra de pouso foram concluídos. Desta vez não houve
nenhum incidente.
No sétimo dia depois da partida o módulo destacou-se na espaçonave e orbitou o
planeta uma vez. Depois disso mergulhou na atmosfera. Nos primeiros instantes o atrito
com a resistência do ar ofereceu um perigo agudo para o pequeno veículo, depois
Pantalone tinha diminuído tanto a velocidade, que a nave descia lentamente em direção à
superfície de Firmer.
4

O agente disse:
— Sem dúvida o Imperador Dabrifa não se importou muito com os tratados com
Ertrus. De conformidade com nossos documentos Dabrifa agiu, a princípio, sem saber da
presença de um povo inteligente no Sistema Sapa.
— Quer dizer que ele queria incorporar o Sistema Sapa ao Império Dabrifa — disse
o homem sentado diante do agente.
— Sim, Sir. — O agente empurrou uma pasta gorda por cima da mesa, depois de
abri-la. — Dabrifa não modificou os seus planos. Os tratados com Ertrus entretanto
mencionam, claramente, que nenhum mundo deverá ser colonizado, no qual já existam
seres inteligentes.
— O senhor não precisa me citar as leis de cuja elaboração participei pessoalmente.
— Desculpe, Sir.
O agente observou que o homem à sua frente retirou aleatoriamente alguns papéis
de dentro do material cuidadosamente recolhido, lendo-os cuidadosamente.
— A presença de especialistas de Dabrifa no diminuto planeta do Sistema Sapa,
somente pode significar que Dabrifa tenta contornar as leis — disse o agente. — Temos
até que temer que Dabrifa tenha planejado exterminar todos os seres inteligentes no
Sistema Sapa, para incorporar este sistema, como base importante do seu Império.
— Isso nós vamos impedir — disse o homem atrás da escrivaninha, decidido.
— O que pretendo fazer, Sir?
— Vamos fazer uma visita ao Sistema Sapa — disse o homem.
Ele levantou-se e pediu uma ligação com o espaçoporto.
O agente respirou, aliviado. Ele cumprira a sua tarefa. O que viria agora ficava fora
da sua área de competência.
5

Também bem perto, acima da superfície, a visibilidade ainda era ruim. Entrementes
eles haviam goniometrado exatamente a estação de radar, mas a mesma ficava numa zona
montanhosa, de modo que um pouso ali era impossível.
Pantalone circulara umas duas vezes por cima da área, com o módulo de pouso, até
ter reconhecido um vale comprido, à beira de um terreno pantanoso, que poderia ser
usado como local de pouso. Naturalmente este lugar não era ideal, mas eles podiam ficar
satisfeitos em tê-lo encontrado. A maior parte da superfície do planeta era coberta de
florestas espessas e mares pantanosos.
Pantalone desceu os esquis de pouso do módulo. Devia-se a Korhu o fato de a
pequena nave não possuir rodas e sim esquis. O engenheiro construíra o trem de pouso
ele mesmo, e Pantalone tinha certeza de que o mesmo funcionaria melhor do que as rodas
duplas, que originalmente tinham sido planejadas.
— A que distância o nosso local de pouso fica da estação de radar? — perguntou
Addis.
— A cerca de quinze milhas — retrucou Pantalone. — Certamente vai ser possível
vencer a serra que nos separa da instalação, com nosso veículo de esteiras. Caso
contrário, vamos ter que circundar a montanha.
Addis olhou para fora da nacele. Na borda do local de pouso ele viu dois grandes
animais de couraça, envolvidos numa luta. Eles usavam suas longas caudas maleáveis
como armas, golpeando-se mutuamente com as mesmas.
Também Korhu descobriu os animais e chamou a atenção de Pantalone para os
mesmos.
— Jamais vi criaturas tão enormes — disse o comandante. — Elas não parecem ser
exatamente pacíficas.
— Eu duvido que, nestas circunstâncias, nós vamos poder abandonar o módulo de
pouso — disse Addis.
Pantalone apontou para trás, onde estava a caixa de armas com os lançadores de
foguetes.
— Se esses animais nos atacarem, vamos usar nossas armas — disse ele. — Eu
estou decidido a alcançar a estação de radar. Não vou deixar que animais me impeçam
isto.
— Um de nós precisa ficar no módulo — disse Addis. — O veículo de esteiras só
oferece lugar para dois homens.
— Neiman vai ficar a bordo do módulo de desembarque — decidiu Pantalone. —
Tal como eu, ele tem treinamento de piloto. E tem capacidade de levar a pequena nave de
volta ao espaço, caso alguma coisa nos aconteça.
Korhu teria gostado de acompanhar os dois homens, mas deu-se conta de que a
decisão de Pantalone era correta.
— Atenção! — gritou Pantalone. — Nós vamos agora pousar. Esperem um forte
tranco.
Pantalone segurou firme o manche de comando e olhou para fora da nacele. O chão,
assim de perto, estava bem mais irregular do que visto de algumas centenas de metros de
altura. Os esquis tinham amortecedores hidráulicos, mas não eram capazes de evitar
obstáculos maiores.
Korhu olhou para o comandante, por cima do ombro. E assobiou baixinho.
— Espero que tudo termine bem — disse ele.
Pantalone não respondeu, mas concentrou-se no pouso.
Os esquis agora estavam com uma inclinação quase vertical, para cima. No
momento de tocarem o solo eles cairiam para a frente e amorteceriam a violência do
impacto.
O módulo de pouso pousou.
Pantalone foi jogado para o alto, na sua poltrona, mas o cinto de segurança o
segurou. O módulo de pouso foi sacudido num dos lados por fortes golpes, e começou a
balançar. Por duas vezes ele ameaçou virar para o lado, porém os esquis suportaram a
carga excessiva.
A parede da selva próxima parecia vir aceleradamente ao encontro dos homens
dentro da pequena nave.
Pantalone mantinha-se totalmente calmo. Ele agora agia mais ou menos
instintivamente — de qualquer modo acreditava nisso. Na realidade as suas decisões
eram feitas pelo seu raciocínio treinado.
Um buraco de vários metros de profundidade quase foi fatal para o módulo de
desembarque. Um esqui externo ficou dependurado. O pequeno aparelho foi jogado de
um lado para o outro, e acabou virando lateralmente.
Pantalone estava sentado diante dos controles sem nada poder fazer. Ele escutou um
estalar, depois seguiu-se um golpe, como se metal batesse contra metal. E logo em
seguida o módulo de desembarque parou.
O comandante olhou para os controles.
— Nós nos encontramos parados mais favoravelmente do que eu temera — disse
ele. — A partida não deverá nos causar dificuldades. Vamos sair para observarmos os
danos que o módulo sofreu durante o pouso.
Korhu colocou-lhe a mão no ombro e o cumprimentou. Também Addis encontrou
algumas palavras de elogio.
— Vamos informar Strachey — disse Pantalone, encabulado. — Ele já deve estar
esperando tensamente por notícias.
Enquanto Lytton Addis falava com Strachey, Pantalone e Korhu abriram a caixa de
armas, da qual retiraram os dois lançadores de foguetes.
— O veículo de esteiras vamos descer mais tarde — decidiu Pantalone. — Antes de
mais nada vamos dar uma olhada lá fora.
Korhu voltou para os controles, com um lançador de foguetes embaixo do braço. Na
sua testa formou-se uma ruga vertical, ao ver o indicador de combustível. Ele chamou
Pantalone.
— Um de nossos tanques de combustível escorreu — constatou Pantalone.
— Espero que seja somente esse tanque — disse Addis, que passou a má notícia
para Strachey.
— Sim — disse Pantalone. — O ponteiro está caindo cada vez mais. A quantidade
de combustível que ainda temos, de qualquer modo é suficiente para alcançarmos a
espaçonave novamente.
Ele fez deslizar para os lados a abertura da eclusa. Eles não confiaram em que o ar
podia ser respirável, mas usaram os seus capacetes. A tensão dos últimos momentos
fizera com que Pantalone esquecesse que ele estava vivendo um momento histórico.
Depois de muitos séculos os saparos tinham se refeito tanto das consequências da guerra
atômica, que voltavam ao seu planeta ancestral, para investigar sobre os seus
antepassados.
Addis, que estava de pé junto da eclusa, deu um passo para o lado.
— O bruxo e eu queremos que você seja o primeiro a sair — disse o radioperador.
Pantalone riu, agradecido. Usando a pequena escada ele desceu para fora. Os seus
pés tocaram o chão mole. Bem próximo dali, saíam vapores de inúmeras fendas do solo.
Animais rastejantes, semelhantes a caranguejos, puseram-se em fuga, quando Pantalone
se aproximou. Um caracol do tamanho de um prato recolheu-se a sua casinha, quando
Pantalone o tocou com a ponta do seu pé.
Ele notou que Korhu e Addis tinham se colocado logo atrás dele. A visão daquele
mundo estranho prendeu Pantalone tanto que esqueceu inteiramente que tinha
abandonado o módulo de desembarque para examinar possíveis danos ocasionados
durante o pouso.
Um berro o fez estremecer.
Do nevoeiro na borda da selva surgiu um animal do tamanho de uma casa. O
mesmo caminhava sobre suas duas pernas traseiras. Com as curtas pernas dianteiras ele
batia agressivamente no ar. Sua cabeça triangular estava sobre o pescoço muito
comprido, em forma de S. O chão vibrava, quando o monstro se encaminhou na direção
dos três homens.
Korhu preparou o disparo do lançado de foguetes. Pantalone colocou a mão sobre o
braço do engenheiro.
— Espere mais um pouco! — murmurou ele. — Talvez a fera ainda volte atrás.
Indeciso, se devia atacar ou não, o monstro girou uma vez no seu próprio eixo. Nas
suas costas cresciam plantas parasitas, cujas ramificações, semelhantes a cipós, pendiam
como cabelos por cima do tronco. No início do rabo Pantalone viu um ferimento
supurado de um metro de tamanho, no qual enxames de insetos tinham se instalado.
O animal ergueu a cabeça e berrou. Os dentes que mostrava desse modo, fez a
esperança de Pantalone, de encontrar-se diante de um devorador de plantas, tornar-se sem
sentido.
— Atirem! — gritou Pantalone, quando o monstro se pôs em movimento na sua
direção.
O projéteis dos foguetes deixaram as duas armas sibilando e explodiram dentro do
corpo do grande animal. Um grito horrendo fez Pantalone estremecer. O monstro
empinou-se e bateu selvagemente em sua volta com as pernas dianteiras. Depois torceu o
pescoço e ruiu sobre si mesmo. E ficou tremendo violentamente, até finalmente morrer.
Enxames de urubus de diferentes tamanhos, que evidentemente apenas esperavam
por uma oportunidade semelhante, saíram de dentro da selva, e se atiraram sobre o animal
morto. Os seus berros, miaus e latidos ainda pareceram mais desagradáveis para
Pantalone do que os berros do gigante.
— Lytton, você fica de guarda, enquanto Neiman e eu examinamos o módulo de
desembarque — ordenou Pantalone.
Addis instalou-se, com seu lançador de foguetes, entre a selva e o módulo de
desembarque.
Pantalone e Korhu descobriram um rasgão sem importância na parede externa do
módulo de desembarque. Além disso o ventil de um tanque de combustível arrebentara,
de modo que este escoara. Quanto ao resto tudo parecia em ordem.
— Tivemos sorte — disse Korhu. — Podemos voltar, a qualquer momento, a uma
órbita com o módulo e acoplá-lo com a nave.
Pantalone insistiu num segundo exame, mais exato. Quando não encontraram outros
resultados negativos, o comandante tranquilizou-se.
Enquanto Korhu e Pantalone retiravam o veículo com esteiras pela eclusa, Addis
teve que defendê-los mais uma vez do ataque de um animal selvagem.
— O que é que você acha desse mundo? — perguntou Korhu, quando eles estavam
parados ao lado do veículo de esteiras.
— Como assim?
Korhu fez um gesto, englobando tudo.
— Parece-me estranho que nós saparos tenhamos nos originado num mundo como
este — respondeu ele. — Firmer é decisivamente diferente de Conyers.
Pantalone confessou ao engenheiro que também já pensara nisso.
— A História entretanto não deixa dúvidas de que nossos antepassados emigraram
de Firmer para Conyers — disse ele.
— Talvez Firmer somente se modificou depois da guerra atômica. Estes grandes
animais podem ser mutantes.
— Eu fico contente que desenterramos os destroços de algumas grandes naves
globulares em Conyers — disse Korhu.
— Caso contrário eu duvidaria da História sobre a nossa origem.
Pantalone esperava que eles iriam topar com os restos da antiga cultura sapar nas
proximidades da estação de radar. Somente então eles encontrariam respostas a cada
pergunta que os preocupava.
O comandante entrou no veículo de esteiras, e deu ignição no motor. O veículo para
todo terreno consistia de um container em forma de cilindro, com focinho levantado e
duas esteiras largas. Os dois ocupantes estavam sentados um atrás do outro, dentro do
cilindro, mas somente o motorista tinha uma visão sem problemas para todos os lados.
— Você agora pode voltar para o módulo — disse Pantalone para Korhu. — Nós
ficaremos em contato pelo rádio.
Korhu voltou para o módulo e Lytton Addis embarcou no carro, junto de Pantalone.
— Quanto tempo você acha que vamos precisar para atravessar as montanhas? —
perguntou Addis, ao tomar lugar atrás de Pantalone.
Pantalone encolheu os ombros. Durante a viagem eles poderiam topar com um
sem--número de obstáculos. Era possível, inclusive, que tivessem que abandonar o
veículo e seguirem a pé. Pantalone tinha esperanças de que o ar deste planeta não fosse
tão nocivo quanto parecia. Era possível que a provisão de oxigênio chegasse ao fim, e
neste caso eles teriam que retirar, bem ou mal, seus capacetes.
Quando o veículo partiu, Neiman Korhu tinha tomado um assento de observação
muito apropriado no interior do módulo. Ele viu como o pequeno veículo ia na direção da
selva. No momento ele não podia informar nada a Strachey sobre o que estava
acontecendo, pois a espaçonave encontrava-se acima, do outro lado do planeta. Korhu
olhou o relógio. Dentro de dez minutos ele poderia falar novamente com o navegador.
O veículo de esteiras alcançou a selva e desapareceu dentro dela. Infelizmente o
mesmo tinha somente um transmissor/receptor de rádio muito fraco, de modo que não se
sabia ao certo se Pantalone e Addis também poderiam falar com Strachey. Korhu
duvidava disso.
Ele pegou duas grandes folhas de papel e as colocou à sua frente, no colo. Agora
tinha tempo para efetuar alguns cálculos, que eram necessários para a partida. Como eles
tinham que desistir da utilização da estação-terra, era importante que estivessem
preparados para qualquer incidente.
A mão de Korhu deslizou sobre o papel. Por algumas vezes ele fez uso da pequena
calculadora, para ganhar tempo. Depois Pantalone chamou.
— Esta selva é um verdadeiro labirinto — disse ele. — Mesmo assim estamos indo
bem adiante.
— Saiam do caminho dos animais — disse Korhu. — Eu receio que o veículo não
resistiria se fosse atacado por um desses monstros encouraçados.
Durante alguns minutos houve silêncio, depois Faolain Strachey chamou de bordo
da espaçonave.
— Pantalone e Addis partiram para o carro de esteiras — informou Korhu ao
navegador. — Eles pretendem passar por cima das montanhas, e alcançar a estação.
Flaman acabou de me informar que estão progredindo bem.
Sentia-se em Strachey que ele estava nervoso.
— Se pelo menos pudesse reconhecer-se alguma coisa aqui de cima — disse ele.
Korhu quis responder, quando um raio muito claro iluminou o horizonte. Quase no
mesmo instante ele ouviu Strachey gritar. Depois o silêncio. Até mesmo o rumorejar
característico do receptor parou.
Korhu engoliu em seco.
— Faolain — murmurou ele. — Depois mais alto: — Faolain!
Ele não obteve resposta.
Korhu bateu ambas as mãos no rosto e ficou por alguns segundos nessa posição. O
seu raciocínio treinado abarcou em todos os detalhes o que acontecera nos minutos
passados.
A espaçonave não existia mais.
Faolain Strachey estava morto.
***
O zunido monótono do motor morreu. O utilitário parou de soco.
Lytton Addis curvou-se para a frente, para saber do motivo para a parada.
Pantalone apontou para os controles.
— Precisamos voltar — disse ele. — A bateria de isótopos não funciona como
devia. Por sorte temos peças de reposição a bordo do módulo de desembarque.
Addis apertou os lábios. Este era um incidente muito chato. Devido aos reparos
necessários, eles perderiam no mínimo quatro horas.
Addis chamou o módulo pelo rádio, para informar Korhu de sua volta.
— Ninguém responde — disse ele, admirado, quando não recebeu resposta.
— Tente mais uma vez — disse Pantalone. — Talvez ele esteja justamente falando
com Faolain.
Korhu entretanto somente atendeu depois de mais três tentativas.
— Vamos voltar outra vez — informou Addis. — A bateria de isótopos do veículo
não está funcionando bem.
— Vocês não podem consertá-la aí mesmo? — perguntou Korhu, asperamente.
Pantalone e Addis trocaram um olhar surpreso. O que estava havendo com o
engenheiro?
O comandante conseguiu pôr o motor novamente em funcionamento. Eles giraram o
veículo e se puseram em movimento na direção do módulo de pouso. Pantalone respirou
aliviado, quando chegaram à borda da floresta e viram o módulo. O animal gigante, que
eles haviam abatido, estava roído até praticamente os ossos. Diversos animais fugiram
quando o veículo de esteiras surgiu.
A cinquenta metros do módulo de pouso o motor do utilitário falhou novamente.
Pantalone encolheu os ombros e apontou para a saída.
— Vamos buscar as ferramentas — disse ele para Addis.
Eles desembarcaram e se aproximaram do módulo de pouso. Quando o tinham
alcançado, Neiman Korhu apareceu na eclusa. Ele segurava um lançador de foguetes
debaixo do braço, cujo cano apontava para os dois outros homens.
— Fiquem onde estão! — disse Korhu.
— Que bobagem é essa? — perguntou Pantalone, irritado. — Não temos tempo
para esse tipo de brincadeira.
Quando ele continuou andando, Korhu disparou um tiro, que passou bem perto da
cabeça dos dois homens.
— Estou falando sério — disse Korhu. — Se não ficarem onde estão, terei que
matá-los.
— Você está maluco? — deixou escapar Addis.
— O que aconteceu? — perguntou Pantalone.
— Faolain Strachey está morto — disse Korhu. — Ele morreu quando nossa
espaçonave explodiu.
Flaman Pantalone estremeceu como se tivesse recebido um golpe violento. Ele não
duvidou nem por um momento que Korhu estava falando a verdade.
— Como foi que isso pôde acontecer? — perguntou ele ao engenheiro.
— Alguém atirou na espaçonave com canhões energéticos — informou Korhu. —
As armas devem estar posicionadas na mesma região da qual captamos os impulsos de
radar.
— Este é o motivo por que você não nos deixa entrar no módulo?
— Sim — disse Korhu.
— Eu não entendo isso — disse Addis. — Você talvez está pensando que nós já
tivemos contato com nossos adversários desconhecidos, e que voltamos apenas para
dominar você?
— Tolice — disse Korhu. — Uma ideia maluca como esta só você poderia ter. Eu
acho que Flaman sabe por que eu não deixo vocês entrarem no módulo.
— Sim — confirmou Pantalone. — Eu acho que sei.
Addis olhou de Korhu para Pantalone. No seu rosto havia perplexidade.
Pantalone riu amargamente.
— Neiman Korhu é bom de cálculo — disse ele. — Durante nosso pouso um tanque
de combustível vazou. O módulo naturalmente poderia levar-nos de volta para a
espaçonave, mas para um voo até Conyers o combustível não é suficiente.
— A não ser que se faça tudo para diminuir o peso do lançamento — acrescentou
Korhu. — Se eu deixo para trás toda a carga útil, talvez possa alcançar Conyers.
Addis deu um passo na direção do módulo.
— Seu ordinário...
— Pare! — gritou Korhu e levantou o lançador de foguetes. — Mais um passo e eu
derrubo você!
Com dois passos Pantalone estava do lado do jovem radioperador e o puxou para
trás. Pantalone tinha certeza de que Korhu levava a sério as suas ameaças. Addis
contorceu-se sob as mãos do homem mais forte.
— Solte-me! — resmungou ele.
Pantalone disse:
— Korhu tem razão. Somente
uma pessoa, sozinha, tem chance de
alcançar Conyers com o módulo.
— E esse tem que ser
exatamente Korhu — disse Addis,
furioso. — Você e eu temos os
mesmos direitos que ele.
Korhu sorriu depreciativo. Atrás
da viseira do capacete o seu rosto
estreito parecia pálido como o de um
fantasma.
— Você não tem direito algum, porque é um cabeça oca — disse ele para Addis. —
Você não é capaz de fazer o módulo voar. Pantalone poderia fazê-lo, mas o seu
treinamento é unilateral. — Korhu fez um movimento decisivo com a mão. — Eu sou o
membro mais inteligente do grupo. Além disso, sou capaz de me adaptar a qualquer
incidente inesperado. Por isso tenho a maior chance de alcançar Conyers. Logo que
chegar ali, farei tudo para iniciar uma missão de socorro.
Addis riu, irônico.
— Isso é uma piada? — quis saber ele. — Vai levar cinco anos até que um segundo
foguete esteja à disposição. Além disso, Canton jamais concordaria com projeto
semelhante.
— Minha decisão é irrevogável — disse Korhu.
Pantalone puxou Addis de volta consigo para o veículo de esteiras.
— Precisamos conferenciar — disse ele.
— Não tentem nenhum truque — preveniu Korhu.
Pantalone notou que o jovem radioperador tremia no corpo todo. A agitação de
Addis não diminuiu nem quando eles já se encontravam novamente no interior do
veículo. Somente a muito custo Pantalone conseguiu dominar sua própria agitação, e
conduzir seus pensamentos para vias ordenadas. Sem dúvida alguma Neiman Korhu tinha
razão, quando dizia que apenas um deles poderia voltar para Conyers. A maneira,
entretanto, como Korhu fizera a escolha, quase poderia ser designada como criminosa.
Pantalone perguntou-se como ele teria agido, se tivesse ficado para trás no módulo, no
lugar de Korhu. Certamente não teria enfrentado os seus acompanhantes com a força de
armas.
Com o seu regresso, eles tinham estorvado Neiman Korhu nos preparativos para a
sua partida.
— Nós deveríamos atacá-lo, de qualquer maneira — a voz de Addis interrompeu os
pensamentos do comandante.
Pantalone sentiu que Addis estava desesperado. Perguntou-se por que o rapaz de
repente sentia tanto medo de morrer, quando desde o princípio tinha participado de uma
missão que oferecia perigo de vida. Provavelmente Addis tinha mantido longe dele o
pensamento de um fim violento, porque o transcorrer da manobra até agora correra de
conformidade com o planejamento. Mas agora ele era confrontado com isso, bem de
perto.
— Talvez nós tenhamos uma chance de sobrevivência, em Firmer — disse
Pantalone.
Addis girou rapidamente no seu assento.
— Você está querendo encobrir-me a realidade dos fatos? — perguntou ele, furioso.
— Parece certo que em Firmer existem criaturas inteligentes — disse Pantalone,
calmo.
— Sim — confirmou Addis. — Elas destruíram a nossa espaçonave e mataram
Strachey.
— Mas permitiram que nós pousássemos — disse Pantalone. — Se são saparos,
certamente existe uma possibilidade de entendimento.
— Naturalmente que são saparos — disse Addis. — Quem mais poderiam ser? Mas
eles não simpatizam nada conosco.
Pantalone tentou manter contato com Korhu, através do aparelho de rádio do
veículo de esteiras, mas o engenheiro não respondeu.
— É inútil querer convencê-lo com argumentos — disse Addis. — Temos que
atacá-lo, mesmo com o perigo de sermos mortos no processo. Morrer vamos ter de
qualquer jeito. Eu prefiro morrer sendo atingido por um lançador de foguetes, do que
morrer asfixiado, ou ser despedaçado por alguns desses monstros.
— E se nós conseguíssemos dominar Korhu?
— O que quer dizer com isso?
— Se liquidarmos Korhu, surge a questão que nos preocupou até aqui, novamente.
Então estaríamos diante do debate de quem de nós dois voaria para Conyers — disse
Pantalone.
— Nós voaríamos ambos para Conyers — retrucou Addis, rouco. — Um homem a
mais ou a menos, certamente não vai pesar muito. — Ele fechou os olhos. Os seus lábios
tremiam.
— Ou você me deixaria para trás?
Pantalone sacudiu a cabeça. Era inútil explicar o problema, em todos os seus
detalhes, para Addis. O garoto não entendia do que tudo dependia. Ele não queria
entendê-lo.
— O que ainda estamos esperando? — perguntou Addis. — Ele vai dar a partida a
qualquer instante.
— Sem dúvida alguma — confirmou Pantalone, sem erguer-se do seu lugar.
Addis saiu pela pequena entrada e olhou para Pantalone, hesitante.
— Se você não me acompanhar, eu vou sozinho — ameaçou ele. — Vou obrigar
Korhu a me levar com ele.
— Muito bem, vá — desafiou-o Pantalone. — Eu não estou segurando você.
Addis baixou a cabeça e praguejou. Depois começou a andar, nervosamente, de um
lado para o outro, diante do veículo. Alguns minutos mais tarde Pantalone viu-o caminhar
na direção do módulo.
— Neiman — disse Pantalone ao microfone da aparelhagem de rádio. — O garoto
está indo para aí. Não é necessário que você o mate.
Não houve qualquer resposta. Pantalone girou no seu assento, de modo que podia
olhar na direção do módulo. Addis parara novamente. De repente saíram línguas de fogo
dos reatores do módulo. Em volta dos propulsores ergueram-se nuvens de fumaça, que se
espalharam para todos os lados. Apesar de usar capacete e se encontrar no interior do
veículo, Pantalone pôde ouvir o trovejar dos propulsores. Addis se jogara no chão,
cobrindo a cabeça com os dois braços. O módulo agora quase desaparecera por trás das
nuvens de fumaça. Ele tremia violentamente.
Pantalone apertou as mãos nos braços do seu cadeirão. Ele tinha esperanças de que
Korhu o conseguiria.
Depois a pequena nave ergueu-se do solo e rapidamente ganhou altura.
Pantalone respirou aliviado. Addis se levantara de um salto, e sacudia o punho
fechado, ameaçadoramente.
Quando o módulo chegou a cerca de mil metros de altura, relampejou atrás das
montanhas. Pantalone deu um grito.
Nas nuvens, por cima da floresta, espalhou-se uma luz muito clara, que rapidamente
perdeu novamente a sua intensidade. A cabeça de Pantalone caiu para a frente. Ele tinha a
sensação de ter sofrido uma derrota dolorosa. A sua fraqueza — saber que nada poderia
fazer-se — paralisou sua atividade. Ele só se mexeu novamente quando Lytton Addis
apareceu no embarcadouro do utilitário. O garoto tinha tirado o capacete. Respirava com
dificuldade.
— Eles o derrubaram com seus tiros — disse ele.
— Exatamente como fizeram com Strachey — disse Pantalone.
A ira de que era tomado agora, deu-lhe forças para levantar-se e sair de dentro do
carro. Ele olhou em torno.
— Como está o ar?
— É difícil respirar — retrucou Addis. — Entretanto acredito que podemos nos
acostumar a ele.
“E agora?”, pensou Pantalone, aturdido.
Se não fosse pelo garoto, ele não estaria se preocupando. Mas sentia-se responsável
por Addis, que evidentemente fora demasiadamente exigido pelos acontecimentos.
Pantalone sabia que não havia mais possibilidade de salvamento para eles.
Pantalone tirou o capacete. Como sua aparelhagem de oxigênio mais cedo ou mais
tarde se tornaria inútil, ele poderia respirar o ar morno e úmido de Firmer já agora.
Addis começou a tirar o seu traje espacial, e Pantalone seguiu-lhe o exempla O traje
agora representava apenas um estorvo.
— O que devemos fazer? — perguntou Addis.
— Ainda temos um lançador de foguetes e cerca de cem tiros de munição — disse
Pantalone. — Isso deveria ser o bastante para atravessar as montanhas e entrar em
contato com as inteligências que são responsáveis pelas mortes de Strachey e de Korhu.
— E se eles nos matarem?
— Eu não creio que eles farão isso — retrucou Pantalone. — Eles somente atiraram
no módulo de pouso porque queriam evitar que um de nós voltasse para Conyers. E esta
também é a razão para a destruição da espaçonave, que ficou em órbita com Strachey a
bordo.
— Não posso estender a mão a saparos que são responsáveis pelas mortes de Korhu
e de Strachey — declarou Addis, passionalmente.
— É mesmo? — Pantalone franziu a testa. — Há poucos minutos atrás você não
teria hesitado em matar Korhu pessoalmente.
Addis ficou vermelho e silenciou.
Pantalone começou a raciocinar, como eles deviam proceder. Ele simplificara o
problema para Addis. No fundo, temia um encontro com os assassinos de Strachey e
Korhu. Eram saparos que faziam uso das armas, sem muito falar. Na opinião de
Pantalone, os estranhos pelo menos teriam a obrigação de se informarem sobre as razões
da chegada de uma espaçonave.
Pantalone duvidava de que ele e Addis seriam recebidos amistosamente.
Por outro lado a marcha até a estação era a sua única chance. Eles não tinham
qualquer esperança de sobreviverem na selva. Mais cedo ou mais tarde certamente
cairiam vítimas de algum animal, se envenenariam com frutos, ou então sucumbiriam
com alguma doença desconhecida.
Estas eram as razões por que eles teriam que fazer contato com os estranhos.
— O que é que você acha de fazermos nosso quartel-general aqui no veículo, e
fazermos excursões daqui para os arredores mais próximos? — perguntou Addis.
— Isso não funcionaria por muito tempo — respondeu Pantalone. — Pense bem.
Precisamos de alimentos. Os animais da selva nos veriam como presas fáceis.
Addis olhou na direção das montanhas. Será que eles as alcançariam?
Pantalone empurrou o jovem astronauta, pela abertura, para dentro do carro de
lagartas.
— Importante, antes de mais nada, é que nós descansemos por algumas horas —
disse ele. — Você deveria tentar dormir. Por enquanto ainda podemos viver com os
concentrados alimentícios que temos aqui no carro.
— Dormir? — Addis tentou rir. — Não consigo fechar um olho.
Pantalone não respondeu. Ele procurou uma posição cômoda e fechou os olhos.
Entretanto não dormiu. Os seus pensamentos sempre voltavam para a mesma palavra. Ela
se chamava “sobreviver”.
***
Quando Pantalone notou que Addis adormecera, deixou o carro silenciosamente.
Convenceu-se de que não havia animais maiores nas proximidades, depois abriu o
revestimento do motor do veículo de lagartas. Com as poucas ferramentas que tinha à sua
disposição, ele desmontou a bateria de isótopos. Examinou-a detidamente, sem conseguir
determinar a sua falha. Depois iniciou a verificação de todos os cabos e contatos.
Também aqui tudo parecia em ordem. Para desmontar inteiramente a bateria de isótopos,
Pantalone precisaria de ferramentas especiais. Entretanto ele achava que a falha não era
da bateria propriamente dita.
Continuou procurando, sem ter qualquer ponto de apoio. Com o barulho que ele
fazia com as ferramentas, Addis acordou e veio para fora.
— O que é que você está fazendo aí? — perguntou o radioperador.
— Estou tentando encontrar o defeito — declarou Pantalone. — Talvez tenhamos
sorte e consigamos fazer o carro andar. Então poderemos viajar pelo tempo que durar a
bateria.
Apesar de Addis não acreditar num sucesso, ele ajudou o comandante. Depois de
duas horas de trabalho sem interrupção, Addis recuou um passo e se espichou.
— É inútil — disse ele.
Pantalone cocou o queixo. O trabalho numa atmosfera cujo conteúdo de vapor
d'água era de noventa e cinco por cento, cansava rapidamente. Pantalone teve a sensação
de que seus ossos eram de chumbo. Aquele aperto surdo no seu peito não diminuía.
— Vamos tentar mais uma vez — decidiu Pantalone. — Vamos trocar todos os
cabos de ligação e todos os contatos.
Contra sua vontade, Addis reiniciou o trabalho.
— Agora vamos ver o que conseguimos com isso — sugeriu Pantalone, quando
ficaram prontos.
Ele subiu no carro e acionou a ignição. O motor não reagiu. Addis sacudiu a cabeça.
— Nada feito! — gritou ele.
Pantalone, entretanto, não desistiu, e depois de mais quatro tentativas sem êxito, ele
teve sorte. O motor começou a funcionar irregularmente.
Pantalone passou a cabeça pela entrada.
— O que é que você me diz agora?
— Fantástico — disse Addis. — Espero que o motor aguente!
Para alegria de Pantalone o motor funcionava cada vez mais regularmente. Por isso
o comandante decidiu-se pela partida. Addis embarcou e deixou-se cair no seu assento.
— Como agora temos muito tempo, vamos poupar-nos as montanhas — disse
Pantalone. — Vamos circundá-las.
Para Addis era indiferente o que eles fariam agora. O conserto bem-sucedido do
veículo despertara nele um otimismo reprimido. Para sua segurança, o cano era
insubstituível. Ele impediria a aproximação da maioria dos animais.
— Vamos viajar até escurecer — decidiu Pantalone. — Depois faremos uma pausa.
Eles não sabiam exatamente quanto tempo duraria um dia em Firmer. A densa
camada de nuvens sempre impedira um cálculo de duração de sua rotação. Pantalone
entretanto presumiu que a noite chegaria dentro de poucas horas. A noite em Firmer seria
completa, pois nem a luz do sol refletida de Conyers nem a luz das estrelas seriam
suficientes para penetrar na densa atmosfera.
Pantalone pensou com mal-estar na completa escuridão que tinham pela frente. Eles
tinham que contar com o fato de que neste mundo existiriam animais que deviam ter
adaptado seus órgãos de visão às circunstâncias existentes. E criaturas como essas
também sairiam para caçar durante a noite.
Pantalone não falou com Addis sobre seus pensamentos, pois não queria inquietar o
“garoto” desnecessariamente.
Eles mergulharam na selva no mesmo local que Pantalone já escolhera uma vez.
Irresistivelmente o trator rolou pela densa mata baixa. Pantalone desviava-se de lugares
muito enredados e fez esforços para reconhecer antes rochedos recobertos de plantas.
Algumas vezes o cano ameaçou ficar preso em lugares pantanosos, porém Pantalone
sempre reconheceu esse perigo em tempo, e dirigia o veículo numa outra direção.
— Não entendo que não descobrimos nenhum indício da guerra atômica, que
ocorreu em Firmer — disse Addis.
— Afinal de contas isso já foi há oitocentos anos atrás — disse Pantalone.
— Você acha que sob a selva se encontram os restos de cidades destruídas? —
perguntou Addis.
— Isso seria possível — disse Pantalone. — Aliás, muita coisa em Firmer não se
parece com o que eu imaginara que fosse.
— Você acha que a História Sapara tem falhas?
— Pelo menos nos detalhes — retrucou Pantalone.
— Talvez o nosso povo desenvolveu-se em Conyers — disse Addis.
— E como é que me explica a existência dos destroços de gigantescas naves
espaciais?
— Não seria possível que em Firmer se desenvolveu, paralelamente aos saparos, um
outro povo inteligente, que depois do desenvolvimento da astronáutica nos fez uma
visita?
— Você está maluco! — disse Pantalone, áspero. — Em todo o Universo só existe
um povo inteligente, que somos nós, os saparos.
— É o que eu também acredito. — Addis recostou-se com os olhos semicerrados.
— Ainda existe uma outra explicação. Não seria possível que o nosso povo, antes da
guerra atômica, era altamente desenvolvido? Não são, talvez, as nossas próprias
espaçonaves, as que nós desenterramos?
Pantalone não deu resposta ao seu jovem acompanhante. Também em Conyers
havia alguns sectarianos malucos que espalhavam essas teorias. Pantalone achou que
Addis dizia estas coisas devido ao péssimo humor em que se encontrava.
— Eu gostaria que, antes da chegada da noite, chegássemos a terreno aberto — o
comandante levou a conversa para outro assunto. — Antes de pousarmos vimos algumas
regiões, perto das montanhas, que não eram cobertas de florestas. Pode até ser que
encontremos uma caverna por lá.
Porém logo se veria que as esperanças de Pantalone não se realizariam. O
crepúsculo começou e os dois homens puderam observar diversos animais à procura das
suas covas para passar a noite.
— Talvez ainda encontremos um lugar mais ou menos seguro, antes que escureça
definitivamente — disse Pantalone.
Entre as raízes aéreas de algumas árvores gigantes ele parou o trator. Addis
abandonou o carro, para examinar os arredores quanto a animais grandes. Levou consigo
o lançador de foguetes. Quando voltou trouxe consigo um animal roedor, que balançou
de um lado para o outro, triunfalmente.
— Isso vai ser nosso jantar — disse ele.
Pantalone disse, cético:
— Receio que, nessa atmosfera, não vamos poder acender um fogo. Além disso, as
folhas e os galhos caídos estão úmidos.
Addis ficou decepcionado e ofereceu-se a fazer mais uma excursão à procura de
frutas.
— E melhor se nos alimentarmos por enquanto com os concentrados alimentícios
que ainda possuímos — disse Pantalone.
Addis atirou a caça para longe.
— De futuro só vamos atirar se for inevitável. Não sabemos para que ainda vamos
precisar da munição.
No rosto de Addis mostrou-se irritação.
— Você é o comandante — disse ele, chateado.
— Exatamente — reforçou Pantalone. — Você terá que se conformar com isso.
A rápida discussão influenciou mal o ambiente. Durante o jantar eles silenciaram.
Pantalone aproveitou o silêncio. Ele dava-lhe oportunidade para pensar.
Foi Addis quem quebrou o silêncio.
— Eu acho que nós devemos nos revezar na guarda — sugeriu ele.
Pantalone não via muito sentido num arranjo desses, mas declarou-se conformado,
para não chatear Addis mais ainda. Addis ofereceu-se para ficar de guarda no primeiro
turno. Entrementes escurecera tanto que os homens não podiam ver mais o que se
passava do lado de fora do veículo de lagartas. Como de vez em quando o barulho de
animais rondando penetrava no interior do carro, a situação ficou ainda mais
fantasmagórica.
Addis agarrou o lançador de foguetes e sentou-se no chão, perto da entrada.
Pantalone estava decidido a dormir, apesar de todas as circunstâncias adversas, até
ter que render Addis. Deitou-se por entre os assentos. O seu sono foi interrompido por
pesadelos. Pantalone achou que isso era devido a dificuldade que tinham em respirar. Ele
duvidava que Addis e ele se acostumariam àquela atmosfera. Mais provável era que os
dois adoeceriam.
Quando Addis finalmente o acordou, Pantalone sentiu-se moído no corpo todo.
Entretanto não disse nada sobre isso a Addis, para que o garoto não se preocupasse
desnecessariamente.
— Lá fora tudo está calmo — disse Addis. — Há cerca de uma hora deve ter
passado um animal muito grande. Eu escutei os rumores que ele provocou.
Pantalone ocupou o lugar do lado da porta, enquanto Addis se deitava, bocejando. O
comandante perguntou-se se os estranhos que haviam derrubado o módulo de pouso e a
sua espaçonave sabiam da presença dos dois homens. Se positivo, por que nada faziam
para entrar em contato com eles?
Addis gemia dormindo, jogando-se de um lado para o outro, inquieto. Pantalone
tentou encontrar um lugar mais confortável, para também dormir mais um pouco. Seus
pensamentos perdiam em concentração.
De repente o veículo de esteiras foi abalado por um golpe violento.
Com um pulo, Pantalone ficou de pé. Addis acordou e se ergueu. A luz que caía
através da cúpula para fora, nada podia ser visto.
— Eu acho que foi um terremoto — disse Pantalone. — As montanhas, em cuja
extremidade nos encontramos, são vulcânicas.
Durante meia hora eles olharam tensamente para fora, sem verem alguma coisa.
— Eu acho que você tem razão — disse Addis. — Mas agora não posso mais
dormir.
A noite durou mais de quatorze horas e transformou-se numa tortura para os dois
homens solitários. Finalmente veio a manhã, e com ela a chuva, que caiu para a terra, em
verdadeiras enxurradas, do céu nublado.
Pantalone guiou o veículo de lagartas, retirando-o do meio das raízes aéreas. Cada
movimento lhe era difícil. Ele teve que tossir, sempre que tentava respirar
profundamente. Addis também não passava melhor. O rosto do radioperador estava
cinzento e intumescido. No espelho Pantalone viu que seus olhos estavam avermelhados.
Chuvas e nuvens de nevoeiro lhe toldavam quase totalmente a visão. Durante
trovoadas como aquelas até os bichos pareciam preferir ficar nas suas tocas. Com
velocidade uniforme o veículo de lagartas arrastou-se através da selva. À direita deles
ficavam as montanhas, mas eles não podiam vê-las. Sete horas depois de sua partida, o
veículo ficou preso num buraco de lama, e todos os esforços de Pantalone para libertá-lo
naufragara naquela massa viscosa e resistente, na qual as largartas mergulhavam cada vez
mais.
Pantalone passou o motor para ponto morto.
— Estamos atolados — disse ele.
— Você não prestou atenção! — censurou-o Addis. — Você devia ter visto o
pântano.
Pantalone estava cansado demais, exausto demais, para brigar com Addis. Ele abriu
a portinhola e saltou para fora. Dentro de poucos instantes estava completamente
molhado. A chuva que lhe chicoteava o rosto tornava a respiração ainda mais difícil. O ar
cheirava a enxofre. Pantalone viu que o carro, de um lado, afundara quase até a metade.
Ele circundou o veículo e depois voltou para a entrada.
— Saia daí! — ordenou ele a Addis. — Precisamos procurar galhos e pequenos
troncos, que possamos empurrar por baixo das lagartas. Talvez assim consigamos apoio,
quando eu der partida.
Eles trabalharam durante duas horas, até terem formado um trançado de galhos por
baixo das esteiras. Pantalone estava tão casado que se sentiu mal. Diante dos seus olhos
apareceram círculos pretos. Addis deixou-se cair ao solo, do lado do carro. O seu peito
subia e descia irregularmente.
Pantalone subiu no veículo. Com suas roupas molhadas e enlameadas ele sujou
tudo, mas isso agora lhe era indiferente.
Deu partida no motor. Ouviu-se um rangido, quando as lagartas se enterraram no
trançado de galhos. Pantalone ouviu os troncos se partindo. O veículo de lagartas
avançou. — Adiante! — gritou Addis, do lado de fora. Pantalone passou para a ré. O
motor superexigido gemia fortemente. Com violentos abalos, o veículo pôs-se em
movimento.
Addis pulou para dentro. Cambaleou para o seu assento. Logo depois o carro estava
livre e Pantalone deixou-se cair de volta na sua cadeira. Os seus olhos ardiam.
— Por que nós nos cansamos desse jeito? — gritou Addis. — Para que, afinal?
Pantalone silenciou, chateado, lutando contra o seu mal-estar. Passou a mão
espalmada pelos cabelos molhados e pelo rosto, e continuou dirigindo. A selva verde-
-azulada, diante deles, parecia querer se diluir naquela chuvarada.
À tarde, parou de chover passageiramente. Eles encontraram um bando de animais
encouraçados, gigantescos, que atravessavam a selva, uns atrás dos outros, mas que não
lhes deram qualquer atenção. Addis estava sentado na entrada, tremendo muito, e
segurando o lançador de foguetes pronto para atirar. Logo em seguida teve um tremor de
febre. Pantalone parou e pôs a mão na testa do seu acompanhante. — Você está com
febre — verificou ele.
Os dentes de Addis batiam uns nos outros. Pantalone ordenou-lhe que se deitasse.
Depois cobriu Addis com uma lona de barraca.
A febre de Addis subia de hora em hora, até que ele já não reconheceu mais
Pantalone, quando este se curvou por cima dele. Nos seus sonhos febris, Addis
continuava a falar sem parar de Conyers. De vez em quando gritava os nomes de
Strachey e Korhu.
Pantalone tentou alimentar o jovem, mas Addis vomitou, quando Pantalone
obrigou-o a comer.
Pantalone teve que amarrar Addis, porque havia o perigo do doente se ferir dentro
do espaço diminuto, se continuasse batendo à sua volta, como fazia.
Quando escureceu, Pantalone já não tinha mais forças para procurar por um
esconderijo adequado. Ele caiu sobre o assento e dormiu imediatamente.
***
Quando Pantalone acordou, já estava claro. Addis estava deitado embaixo da lona,
sem se mexer. Estava inconsciente. Pantalone estava com fome. Ele avaliou isso como
bom sinal. Addis, entretanto, tinha um aspecto assustador. O seu rosto estava encovado, e
os seus olhos estavam fundos nas órbitas. Ele mal respirava ainda. Pantalone conseguiu
acordar o rapaz, para dar-lhe alguma comida. Addis murmurava frases desconexas e
parecia não reconhecê-lo.
Pantalone sabia que nada mais podia fazer pelo radioperador. Eles não possuíam
medicamentos. Somente na estação, que Pantalone tinha esperanças de alcançar logo, o
rapaz poderia receber ajuda.
O comandante por isso decidiu não perder mais tempo e continuar imediatamente a
viagem.
Lentamente a selva ficou mais aberta. Uma hora mais tarde o veículo-lagarta
chegou a uma extensa savana, limitada ao norte por algumas montanhas. Apesar de mal
poder ver os seus cumes, Pantalone descobriu alguns vulcões. Entre as duas serras havia
um corte profundo. Ali ficava o objetivo dos dois homens.
Pantalone abandonou o assento do piloto para dar uma olhada em Addis.
Addis estava acordado. Sua febre baixara. Entretanto ele sentia-se tão fraco, que não
conseguia erguer-se. Pantalone o alimentou, informando-o também das novidades.
— Agora vamos conseguir andar bem mais depressa — disse ele, para melhorar a
disposição de Addis.
Pouco mais tarde, entretanto, eles sofreram um forte revés. O motor do veículo de
lagartas parou, e todos os esforços de Pantalone para pô-lo novamente em funcionamento
não obtiveram êxito. Mais uma vez ele trocou todos os cabos e contatos, mas desta vez
esta providência de nada adiantou.
— Vamos ter que deixar o resto do caminho para trás a pé mesmo — disse ele para
Addis.
Addis sorriu apático e não disse nada.
6

O chefe-cosmopsicólogo Prof. Dr. Thunar Eysbert levantou-se e ajeitou a sua


poltrona. Ele terminara o seu trabalho, mas ao contrário do que ocorria normalmente,
desta vez não se sentiu aliviado com isso. A tarefa que lhe atribuíra o chefe, ainda lhe
parecia, agora que ele aparentemente a solucionara, complicada demais para poder
explicá-la suficientemente em algumas folhas de papel.
“Provavelmente eu apenas estou me preocupando, porque se trata de gente”,
pensou Eysbert.
Mesmo os astronautas de Dabrifa eram gente, apesar de membros de um Império
governado ditatorialmente. E isso é que tornava a coisa tão terrivelmente difícil.
Eysbert passou a mão, pensativamente, pelos seus cabelos brancos. Também o
chefe parecia não se sentir exatamente bem, com a ideia de ter que ensinar uma lição a
Dabrifa. E isto provavelmente, em última instância, devia-se ao fato de ser esta a primeira
vez que eles tinham que abandonar o seu esconderijo, para influenciar a história da
Humanidade, espalhada por toda a galáxia.
Eysbert apontara para as consequências dessa intervenção, no seu trabalho.
Psicologicamente a situação da Humanidade dentro da galáxia era altamente interessante,
mas depois da primeira intervenção de uma potência misteriosa, seria pelo menos
excitante observar-se o desenvolvimento.
Eysbert achava que o caminho que eles tinham tomado era o certo. Ele não
escondera este otimismo no seu relatório. O chefe ficaria contente ao ler as passagens,
nas quais Eysbert mencionava as obrigações, que, apesar de tudo, eles ainda tinham para
com a Humanidade.
Eysbert ligou o intercomunicador na sua mesa e efetuou um contato com a central
de comando.
— Sim, Lacuert — disse uma voz pouco amistosa.
Eysbert não se deixou irritar. A bordo da nave de dois mil e quinhentos metros de
diâmetro, não poderia haver apenas gente amável.
— O chefe está na central? — quis saber o cosmopsicólogo.
— Ele saiu há poucos minutos atrás — informou Lacuert. — Suponho que esteja na
sua cabine.
— Tanto melhor — disse Eysbert e desligou o intercomunicador.
Ele pegou o seu trabalho e abandonou o pequeno recinto. Através de um poço do
elevador antigravitacional chegou ao convés K, onde se encontrava a cabine do chefe.
Fez-se anunciar e imediatamente o fizeram entrar.
O chefe estava deitado sobre a cama, com os braços cruzados atrás da nuca. Quando
Eysbert entrou, ele ergueu-se e ajeitou uma cadeira para o cosmopsicólogo.
— Eu estou pronto, Sir — disse Eysbert, sem rodeios.
Ele entregou os papéis ao outro homem.
— Espere — disse o chefe. — Eu vou dar uma olhada rápida, depois vamos
conversar sobre isto.
Eysbert anuiu e sentou-se.
— Eu creio que alcançaremos o Sistema Sapa em dois dias — disse o chefe, antes
de começar a ler. — Não vamos intervir imediatamente, mas a princípio nos
contentaremos com rastreamentos.
Eysbert estava decepcionado. Um rápido golpe de surpresa certamente teria
aumentado o efeito da intervenção. Por outro lado ele tinha compreensão para o fato do
chefe se cauteloso. Tratava-se de gente. Um erro poderia ter consequências desastrosas.
— O senhor dá grande significação ao fato de estarmos intervindo, de nosso
esconderijo, pela primeira vez — disse o interlocutor de Eysbert, depois de ler as
primeiras páginas.
— Sim, Sir — confirmou Eysbert. — Estamos inclusive criando um caso de
precedência. Sucesso ou insucesso desse empreendimento serão normativos em grande
escala em operações vindouras.
— Eu entendo o que o senhor quer dizer, doc.
Eysbert disse:
— O senhor tomou uma decisão de grande alcance, Sir.
Nossa intervenção será significativa para o desenvolvimento de todos os povos da
galáxia.
— Agora o senhor está exagerando.
— Não! — disse Eysbert, decidido. — Nós somos um fator de força, com o qual
ninguém mais calculou. Agora, repentinamente saímos de nosso esconderijo, sem
entretanto mostrarmos nossa identidade. Para todos os outros reinos estelares isso quer
dizer que de futuro eles terão que calcular com uma potência misteriosa, parecida com
aquela que o misterioso mutante Ribald Corello representa.
O chefe leu adiante em silêncio. Eysbert tinha esperanças de ter encontrado a
formulação correta, para convencer este homem experiente.
Finalmente o interlocutor de Eysbert pôs o relatório de lado.
— Isso tudo me parece como uma justificativa — disse ele para o cosmopsicólogo.
Eysbert apoiou-se na mesa com ambos os braços.
— Eu achei que o senhor faria empenho nisso — disse ele.
7

O dia estava terminando, sem que aparecesse alguma melhora notável no estado de
Addis. O radioperador exigiu diversas vezes que Pantalone iniciasse a marcha para a
estação sozinho, porém Pantalone sabia que com isso condenaria Addis à morte.
A febre enfraquecera Addis de tal maneira, que já depois de poucos passos os
joelhos lhe tremiam. Ele fazia esforços para esconder sua dificuldade de Pantalone,
porém a sua arte de representar fracassava no máximo depois de terem se afastado uma
dúzia de passos do carro.
À noite Pantalone tentou acender um fogo, com peças desmontadas do veículo de
esteiras. As pequenas chamas, entretanto, que subiam do material reunido, não eram
suficientes para ferver água ou assar carne.
— Você tem que me prometer que amanhã sai marchando sozinho, caso eu ainda
não me sentir melhor — disse Addis.
— Vamos esperar — retrucou Pantalone, mudando de assunto.
Ele sabia, porém, que logo não teria outra escolha a não ser deixar Lytton sozinho.
Os concentrados alimentícios estavam terminando. Repetidas vezes os olhos de Pantalone
buscaram as montanhas cobertas de nuvens, pois esperava ver ali um comando de busca,
enviado da estação. Suas esperanças entretanto foram em vão. Ou não sabiam no interior
da estação que ainda havia dois sobreviventes, ou se tratava de uma estação robotizada,
que preenchera os seus fins ao destruir o módulo de pouso e a espaçonave.
Ao anoitecer um dos vulcões maiores entrou em atividade. O chão tremia. O céu
por cima das montanhas tingiu-se de vermelho-escuro. O fluxo de magma desenhava
rastros de fogo nas encostas das montanhas.
Acordados pela primeira erupção, também vulcões menores tornaram-se ativos.
Pantalone e Addis, que tinham se recolhido dentro do carro, foram sacudidos
violentamente. Entrementes a noite caíra, de modo que as montanhas cuspindo fogo
ofereciam um espetáculo imponente. Pantalone sabia que a lava não atingiria a savana. O
único perigo para os dois homens eram aqueles tremores incessantes, através dos quais
surgiam muitas fendas no terreno.
Quando os rumores dos vulcões diminuíram, Addis caiu num sono profundo.
Pantalone esperava que o jovem na manhã seguinte estivesse suficientemente forte, para
poder partir com ele.
No decorrer da noite o veículo foi atacado por diversos animais, que andavam pela
savana em busca de caça. Pantalone foi tirado do sono por ruídos estranhos. Ele ouviu
sons rosnados e o raspar de pelo cerdoso na superfície externa do carro. Pantalone pegou
o lançador de foguetes e acendeu a luz. Diante do veículo tinham se reunido uma dúzia
de animais de seis pernas, com corpos em forma de tonel. As cabeças compridas das
criaturas terminavam em trombas curtas. Jamais em sua vida Pantalone vira olhos tão
enormes num animal, como os dessas criaturas. A luz parecia fazer-lhes, mal, pois
recuaram. Logo, entretanto perderam a timidez e se arrastaram novamente para perto do
carro. Nenhum dos animais tinha menos de metro e meio. Pantalone pôde ver suas garras
afiadas, quando erguiam as pernas dianteiras, para arranhar o veículo.
Os animais fizeram um barulho tão grande, que também Addis finalmente acordou.
Ao ver Pantalone parado na entrada, com o lançador de foguetes, ele levantou-se para ver
o que estava acontecendo.
— Fique deitado! — disse-lhe Pantalone. — Não nos ameaça qualquer perigo.
Addis olhou para fora, onde sempre surgiam alguns animais no círculo de luz.
— Espero que desapareçam antes de amanhã de manhã. — disse ele.
— Certamente — disse Pantalone. — São animais noturnos.
— Dê-me o lançador de foguetes! — pediu Addis.
— O que é que você pretende fazer? — perguntou Pantalone, hesitante.
— Eu liquido alguns deles — disse Addis, furioso.
Pantalone olhou-o sem entender.
— Não vejo nenhum sentido nisso — disse ele.
Addis tentou arrancar-lhe o lançador de foguetes. Pantalone empurrou-o para trás.
— Por que você não me deixa atirar? — disse Addis, ofegante. — Eu teria
queimado o pelo deles.
A repentina agressividade do rapaz chocou Pantalone. Ele esperava que esse estágio
de inquietação interior logo passaria.
— O que está acontecendo com você? — perguntou a Addis. — Você está querendo
atentar contra alguns animais?
Addis acocorou-se, de cara fechada, no seu assento e não respondeu. Pantalone
ficou contente quando os animais reconheceram a inutilidade de seus esforços,
desaparecendo na escuridão. Addis ficou menos tenso. E adormeceu novamente.
Pantalone escondeu o lançador de foguetes embaixo do assento do piloto e deitou-se
na sua frente, para dormir.
Ele sonhou com erupções vulcânicas e animais gigantescos. Uma vez acordou
molhado de suor e pensou que iria morrer sufocado.
Estava firmemente decidido a partir na manhã seguinte. Se fosse necessário,
deixaria Lytton Addis para trás.
Quando clareou, ele acordou Addis, que dava a impressão de estar muito melhor,
estando até com fome. Juntos eles comeram o restante das provisões.
— Eu estou suficientemente forte para poder arriscar a marcha — afirmou Addis.
— Nós devíamos partir logo, para não precisarmos pousar na montanha à noite.
Pantalone mostrou-se cético. Era preciso verificar se Addis realmente estava
bastante forte para enfrentar as dificuldades de uma marcha.
Quando partiram, Pantalone fechou cuidadosamente a entrada do veículo de
lagartas. Era possível que eles tivessem que voltar, neste caso era bom ter uma pequena
base de apoio. Pantalone carregava o lançador de foguetes e a barraca de lona. Desde o
princípio ele andou rapidamente. Addis não se queixou, mas aparentemente o
acompanhava sem esforço.
Quanto mais próximo chegavam das montanhas, mais raro ficava o crescimento de
plantas. Finalmente eles estavam caminhando apenas ainda por cima de lava endurecida.
Em alguns séculos isto viraria solo fecundo.
Quatro horas depois da partida Addis descobriu, sobre uma pequena colina, uma
edificação em forma de cúpula, toda de metal. A mesma tinha um diâmetro de cerca de
dois metros. Diversas hastes, semelhantes a antenas, sobressaíam da cúpula. Apesar de
significar um desvio de rota, os dois homens aproximaram-se do misterioso objeto.
— Faz parte da estação — disse Pantalone, quando se viram diante do mesmo. —
Provavelmente são aparelhos de medição, o que ele abriga.
Addis disse:
— Eu tenho uma ideia. Se nós destruirmos a pequena cúpula os habitantes da
estação principal provavelmente virão até aqui, para verificarem o que aconteceu. E então
nos levarão com eles.
— Eu não creio que este seja o caminho certo — declinou Pantalone. — Acho que
nos levariam a mal a destruição da estação de medições. Não queremos ter o mesmo
destino de Strachey e Korhu.
Addis estava decepcionado. Pela primeira vez eles tinham descoberto rastros
definidos de uma civilização de alta tecnologia.
Continuaram a marcha. Addis causava cada vez mais, de modo que tinham que
fazer repetidas pausas. Também Pantalone sentia que suas forças diminuíam. Nesta
atmosfera, esse caminho sobre campos de lava e formações rochosas significava um
grande esforço.
Addis, chateado consigo mesmo, tornou-se novamente agressivo e culpou Pantalone
de ter desperdiçado uma chance única, ao deixarem para trás a estação de medição, sem a
terem destruído.
— Até a colina, lá do outro lado, ainda vamos conseguir chegar — disse Pantalone,
apontando para uma elevação próxima. — Se de lá não pudermos ver a estação, vamos
procurar um refúgio para passar a noite.
Eles precisaram de três horas para chegar ao destino apontado por Pantalone.
Quando tinham apenas ainda alguns metros para chegar ao cume, Addis caiu e ficou
deitado. Pantalone esforçou-se para chegar até o cume.
Abaixo dele ficava um extenso vale, em cujo centro via-se um edifício em forma de
cúpula, brilhando num azul prateado. Nas proximidades da cúpula movimentavam-se,
silenciosamente, alguns veículos teleguiados.
Pantalone, que tanto quisera essa visão, para seu espanto sentiu uma estranha
angústia tomar conta dele.
“Lá embaixo não vivem saparos!” — passou-lhe pelo pensamento.
Ele virou a cabeça e olhou para trás.
Addis se levantara e o olhava interrogativamente.
Pantalone acenou-lhe.
— Venha cá! — chamou ele. — Venha até aqui e dê uma olhada nisso!
8

Quando a nave globular, com um diâmetro de dois mil e quinhentos metros, ainda
se encontrava a uma distância de oitenta milhões de milhas do Sistema Sapa, ela
abandonou o espaço normal, continuando o voo com seus propulsores energéticos. O
comandante deu ordens para que se começasse com os rastreamentos.
9

— Fantástico! — murmurou Lytton Addis, impressionado. — Os saparos que


vivem lá embaixo devem estar mais adiantados que nós, no seu desenvolvimento.
Pantalone estava de garganta seca. Os seus pensamentos eram um turbilhão. Ele
calculava que encontrariam um ou mais edifícios. O que ele não esperara, entretanto, era
que encontrassem indícios de uma técnica aperfeiçoada.
— Olhe só para aqueles carros — disse Addis, ainda falando com voz abafada. —
Eles são comandados automaticamente. E entram na cúpula através de uma eclusa.
Pantalone abriu os braços.
— As elevações do nosso lado da cúpula são as torres de canhões energéticos —
disse ele. — Daqui, tanto o módulo de pouso como a espaçonave foram destruídos.
Addis olhou para o homem mais velho. Nos seus olhos Pantalone leu uma pergunta
muda.
— Eu não sei se agora devemos simplesmente descer até lá embaixo — disse o
comandante.
Addis sorriu, inseguro.
— Para isso, afinal de contas, viemos até aqui — achou ele. — Não podemos mais
esperar muito, pois logo vai escurecer.
Pantalone procurou controlar-se. Ele precisava tomar uma decisão.
— Por enquanto você fica aqui — disse ele para Addis. — Você pode observar o
que vai acontecer quando eu me aproximo da cúpula. Se algum perigo me ameaçar, você
foge. Então terá que tentar chegar até o veículo de esteiras.
Pantalone entregou o lançador de foguetes ao radioperador.
— Cuide-se bem — disse ele.
Depois começou a descida. Deste lado as montanhas desciam quase verticalmente,
de modo que Pantalone tinha uma estafante descida à sua frente. Ele tinha certeza de que
estava sendo observado. Ele sempre procurava, sem querer, usar rochas ou saliências para
cobertura.
De Addis não se via mais nada. A cada metro que Pantalone conseguia deixar para
trás, crescia a sua inquietação interior. Ele tinha que contar em ser morto imediatamente.
Os desconhecidos não tinham mostrado escrúpulos quando da destruição das duas naves.
Desde que Pantalone vira os veículos robotizados, ele acreditava firmemente que
dentro da estação haveria criaturas viventes. Achava que se tratava de descendentes dos
saparos, que tinham conseguido escapar da guerra atômica em Firmer.
Aliás, raciocinava Pantalone, até agora eles não tinham encontrado quaisquer
indícios de um litígio nuclear. Do mesmo modo não havia nenhuma prova de que os
saparos tivessem se desenvolvido neste planeta.
A História, que tinham ensinado a Pantalone em Conyers, parecia pelo menos ter
algumas lacunas, se não inteiramente errada. Mas qual era a verdade?
De onde vinham os saparos, se não de Firmer?
Os pensamentos de Pantalone se perderam. O terreno estava cada vez mais difícil, e
ele tinha que concentrar-se na descida. Por umas duas vezes ele estivera muito próximo
da morte. E sempre era salvo por sua rapidez de reações.
O cansaço de Pantalone se fora. A sua razão, instigada pelos acontecimentos das
últimas horas, trabalhava com lógica e esforço.
De vez em quando o comandante da Vanguard destruída fazia uma pausa, para
observar a cúpula. Nada indicava que tivessem visto a sua aproximação. Os veículos
robotizados deslizavam como antes de dentro da cúpula, ou voltavam para ela. Eles
deixavam o vale pelo outro lado, de modo que Pantalone não podia ver onde ficava o seu
objetivo. Ele achou que deviam transportar material para dentro da cúpula.
Todo o edifício não dava a impressão de já ter sido construído há mais tempo. Tudo
parecia novo. A praça em volta da estação estava limpa e plana. O crescimento de novas
plantas provavelmente foi impedido com o uso de substâncias químicas.
Pantalone sabia que devia estar enganado. Esta cúpula já devia estar há séculos
neste lugar. Ela apenas parecia nova devido ao material com o qual fora construída.
Pantalone repuxou a cara, chateado. Ele confessou-se que estava em vias de
remendar a sua imagem do mundo esmigalhada, com explicações insuficientes. Ele
afastou perguntas diretas no seu inconsciente, apesar de saber que nas próximas horas
elas aflorariam novamente.
Respirando com dificuldade ele chegou à praça aberta diante da cúpula.
Olhou em volta.
Em nenhum lugar podia ver-se um ser vivente. Flaman Pantalone dirigiu-se para a
cúpula. De um dos grandes portais de eclusas saiu um grupo de robôs, que pairavam
pouco acima do chão. Os seus corpos consistiam de um cone pontudo, do qual
sobressaíam diversos tentáculos metálicos. Também em Conyers havia robôs, mas
nenhum deles chegava à perfeição desses autômatos.
Os robôs aproximaram-se de Pantalone. O astronauta ficara parado, para observar
os recém-vindos. Ele viu que a maioria deles tinha braços de ferramentas e de armas.
Eles o rodearam e indicaram por gestos, que ele devia segui-los em direção à
cúpula.
Pantalone sabia que uma resistência seria insensata. Quando se pôs em movimento,
houve um estampido seco. Perto de um dos robôs explodiu um projétil de foguete.
Pantalone parou e olhou para o declive da montanha, onde Lytton Addis
aparentemente abrira fogo. Um segundo tiro acertou um autômato, sem entretanto pô-lo
fora de combate. — Lytton! — gritou Pantalone, agitando ambos os braços. — Pare com
isso!
No mesmo instante ele foi agarrado por vários robôs, e arrastado sem qualquer
consideração. Novamente soaram dois tiros. Pantalone teve sorte de não ser atingido.
Addis parecia ter perdido completamente a noção das coisas.
Diante de Pantalone surgiu a eclusa. Mais uma vez ele ouviu o sibilar de um projétil
de foguete, depois se encontrou no interior do edifício em cúpula.
***
Addis encostou-se com as costas contra a parede rochosa e olhou para o vale, lá
embaixo. O lançador de foguetes estava deitado do seu lado, pronto para disparar.
Pantalone ordenara-lhe que voltasse ao veículo de esteiras, caso acontecesse algum
incidente inesperado. O radioperador entretanto nem pensava em seguir essa ordem.
Quando os robôs tinham surgido e levaram Pantalone, Addis entrara em pânico e apenas
chamara a atenção para si, com o tiroteio.
Para seu alívio, ninguém parecia interessado nele. Os robôs tinham sumido com
Pantalone no interior da cúpula, e até agora ainda não haviam ressurgido. Uma vez que
tinham levado Pantalone consigo, Addis tinha quase certeza de que eles não queriam
matar o comandante imediatamente.
No cérebro de Addis uma ideia fixa ganhou espaço: de que ele tinha que libertar
Flaman Pantalone. Até agora ele não tinha nenhum plano de como proceder para isso,
mas estava decidido a pelo menos ousar uma tentativa. Ao cair da noite pretendia descer
para o vale.
O que é que tinha a perder?
Nem Pantalone nem ele sairiam vivos desse empreendimento. Mesmo se lá
embaixo, na cúpula, viviam saparos, eles eram seus inimigos.
Quanto mais Addis pensava na situação, maior se tornava o seu convencimento de
que não Mous Makalet e sim Bascomb Canton era o mais inteligente político de Conyers.
Se eles não tivessem empreendido esse voo maluco, Faolain Strachey e Neiman Korhu
agora ainda estariam vivos. Além disso, havia o perigo de que aqueles desconhecidos que
haviam construído a cúpula, agora atacariam Conyers com suas espaçonaves. Que havia
espaçonaves em Firmer, Addis não duvidava absolutamente. Se ele conseguisse libertar
Pantalone, eles talvez pudessem arrebatar uma dessas naves juntos, e voar com ela para
Conyers. Addis confiava muito na capacidade de Pantalone. O seu único problema —
achava o radioperador — consistia em salvar o comandante da prisão dos estranhos.
Todo o resto Pantalone liquidaria.
Addis bocejou de cansaço.
Ele ainda tinha meia hora de tempo até a noite cair. Levantou-se para dar uma
olhada nos arredores. Neste momento ele viu os robôs.
Sem serem notados, eles tinham subido pelo outro lado e o tinham cercado. Eram
pelo menos vinte. Eles se mantiveram na espera. Provavelmente calculavam que com ele
teriam o mesmo jogo fácil que tiveram com Pantalone. — Vocês não me pegam! —
gritou Addis. Ele girou rapidamente e atirou-se ao chão. Conseguiu agarrar o lançador de
foguetes e disparou uma série de tiros com a arma. Com um impacto, por acaso ele
conseguiu pôr um robô fora de combate. A máquina rodopiou algumas vezes,
descontrolada, no seu próprio eixo, para depois cair. Os seus tentáculos tremiam como os
membros de um ser vivente.
Os outros robôs se aproximaram. Addis compreendeu que somente conseguiria
liquidá-los se acertasse o seu órgão central de comando. Entretanto ele não sabia em que
lugar naquele corpo metálico ficava esse órgão.
Ele debateu-se como um selvagem, quando os robôs quase o agarraram. Ao recuar,
tropeçou. Caiu ao chão e escorregou por cima do declive. Suas mãos agarraram o vazio.
Ele rodopiou algumas vezes, até ficar dependurado numa saliência de rocha pontuda. Os
robôs pairaram atrás dele. Gemendo de dor, ele se puxou pela pedra acima. Naquele
declive íngreme os robôs naturalmente eram bem mais maleáveis do que o saparo.
Naturalmente Addis tentou fugir, porém os robôs o haviam alcançado, antes que pudesse
chegar a alguns metros de distância. Dois autômatos o agarraram firmemente e saíram
voando com ele na direção da cúpula.
Addis aceitou o seu destino com resignação. Ele esperava que agora poderia logo
reunir-se com Flaman Pantalone. Ele falou aos robôs algumas vezes, mas não recebeu
nenhuma resposta. Provavelmente os autômatos não sabiam falar. Entre eles parecia que
se entendiam através de impulsos de rádio. E também recebiam as suas ordens da cúpula
do mesmo modo.
Um portal de eclusa surgiu diante de Addis. A câmara para dentro da qual voaram
com ele dava uma impressão de prática e limpeza esterilizada.
Em seguida Addis foi trancado num grande recinto. Diversos consoles de controles
encontravam-se junto à entrada, e também um armário aberto com trajes de proteção, de
jeito que apenas poderiam servir a saparos.
Addis olhou em volta admirado. Os construtores dessa cúpula (depois que Addis
vira os trajes de proteção não duvidava mais que se tratava de saparos), deviam ter
desenvolvido uma técnica atômica, em relação à qual o campo de investigação nuclear
dos saparos de Conyers parecia quase primitivo.
Os robôs depositaram Addis e recuaram. A porta fechou-se atrás deles. Addis, que
imediatamente tentou abandonar a cúpula novamente, não conseguiu abrir a porta de
entrada. Não levando em consideração o zunido de diversas máquinas, havia silêncio.
Addis duvidou que se encontrasse na central de comando do edifício em forma de
cúpula. Este aqui era apenas um vestíbulo.
— Passe pelo pequeno corredor lateral — disse uma voz impessoal na língua dos
saparos. Ela parecia vir do teto. Os olhos de Addis procuraram inutilmente um alto-
-falante escondido.
Entre duas paredes de controles, Addis descobriu o corredor mencionado. Ele
hesitou. Devia resistir aos desejos dos estranhos?
— Não espere até que nós precisemos obrigá-lo — veio aquela voz mais uma vez.
Com o coração batendo forte, Addis pôs-se a caminho. O corredor no qual entrou
era apenas fracamente iluminado. Ele conduziu Addis para o recinto contíguo.
Numa espécie de mesa de formato redondo Flaman Pantalone estava deitado.
Estava atado com presilhas de metal.
Lytton Addis, entretanto não deu tanta atenção ao seu amigo quanto aos dez
estranhos, que estavam de pé atrás da mesa, vendo com interesse o seu aparecimento.
Eram todos saparos.
10

Flaman Pantalone tinha chegado a ver os dez homens poucos instantes antes de
Addis. Os robôs o haviam trazido para este recinto, colocando-o em cima da mesa.
Largas presilhas de metal impediam-no de se levantar.
Quando os dez homens tinham entrado, a sua visão causara um choque em
Pantalone. Ele já tinha se conformado de não encontrar-se com saparos em Firmer — e
agora eles estavam ali, diante dele. A não ser por sua maior palidez no rosto, eles não se
diferenciavam em nada dos saparos de Conyers.
Os dez homens davam uma impressão petulante, arrogante mesmo. Ele viu neles os
assassinos de Strachey e de Korhu. Teve que abafar um forte sentimento de rejeição,
porque temia logo passar para o ódio, e assim impedir uma discussão sensata.
Logo depois que os saparos tomaram posição junto da mesa, Addis entrou.
Pantalone ficou admirado ao ver que o rapaz estava sozinho e não acompanhado por
robôs. Addis dava a impressão de indeciso. Parecia não saber como deveria comportar-se.
— Flaman! — gritou ele, curvando-se por cima da mesa. — Tudo em ordem?
— É o que você está vendo — retrucou Pantalone, chateado. — Eu aliás ficaria
agradecido se me tirassem as algemas.
Se os dez estranhos entenderam a sugestão, não reagiram a ela. Em silêncio eles
ficaram observando os dois astronautas.
— Eu poderia tentar libertar você, mas não sei como eles reagiriam a isso — disse
Addis.
— Como é que você chegou aqui? — quis saber Pantalone.
Ele não via outra possibilidade que a de ignorar os dez espectadores. Como os mais
fortes, os estranhos tinham que tomar a iniciativa.
— Os robôs me cercaram lá em cima na montanha, e me trouxeram para cá. Num
recinto anexo primeiramente fui deixado sozinho e depois me exigiram, em idioma
saparo, que viesse a esta sala.
Os dez homens riram. Eles pareciam se divertir com a declaração de Addis.
Addis olhou-os de modo pouco amistoso.
— Soltem-no! — gritou-lhes ele. — Ele é tanto um saparo quanto vocês.
Novamente os homens riram. Dois deles se bateram no ombro mutuamente.
Pantalone e Addis se entreolharam, sem entenderem. Addis encolheu os ombros. Se
a instalação desta sala não demonstrasse o contrário, ele estava pronto a pensar que os
dez homens eram malucos.
— Vocês mataram nossos dois companheiros — continuou Addis. Sua impotência o
deixava furioso. — Vocês não tinham o direito de fazê-lo.
Um dos dez homens deu um passo para a frente. Ele tinha os cabelos pretos e era
largo de ombros. Tinha ambas as mãos apoiadas nos quadris.
— Dentro desta galáxia vale o poder do mais forte — disse ele em língua sapara. —
E isto, neste caso, indubitavelmente somos nós.
— Essa atitude eu acho abominável — disse Addis com a voz tremendo. — Nós
viemos para Firmer para sabermos a respeito de nossos antepassados. E agora ficamos
sabendo que vocês podem ser tecnicamente superiores a nós, mas em contrapartida têm
noções morais detestáveis.
O homem de cabelos pretos voltou-se para os outros nove e sorriu irônico.
— Ouçam só o garotinho — disse ele. — Ele não é formidável?
— Você devia esclarecer-lhe o que realmente se passa aqui — disse um dos
homens. — Eu gostaria de ver a cara dele quando ficar sabendo a verdade.
— Fique quieto, Lytton — disse Pantalone para Addis. — Alguma coisa não está
em ordem aqui.
— Ah! — fez o dos cabelos pretos. — Então é você o grande pensador, não é?
Ele bateu no rosto de Pantalone com a mão espalmada. Era mais um gesto
brincalhão, mas teve um efeito degradante. O rosto de Pantalone ardia. Ele fechou os
olhos, para poder dominar-se melhor.
Addis saltou na direção da mesa, querendo atirar-se sobre o chefe dos estranhos.
Este, entretanto, deu um passo para o lado, quando Addis saltou sobre ele com um pulo.
Addis perdeu o equilíbrio e foi ao chão. O homem dos cabelos pretos colocou um pé
sobre o peito de Addis e puxou a sua arma. Ele dirigiu o cano para o rosto do
radioperador.
— Não o mate, Staebler-Beer — gritou um dos homens. — Você sabe que ainda
precisamos dele.
Staebler-Beer riu depreciativamente, e colocou sua arma novamente no cinturão.
— Levante-se! — ordenou ele a Addis.
— Faça o que ele está mandando — interveio Pantalone.
Addis ergueu-se.
— Quem é você? — perguntou Staebler-Beer.
— Meu nome é Lytton Addis — disse Addis, empertigando-se. — Eu sou saparo de
Conyers.
Pela primeira vez ele estava orgulhoso de ter vindo ao mundo em Conyers.
Staebler-Beer apontou para a mesa.
— E esse sujeito?
— Ele é Flaman Pantalone — disse Addis. — Nosso comandante.
— E quem, acham vocês, somos nós?
— Descendentes dos saparos que em Firmer e em Conyers desencadearam uma
guerra atômica — disse Addis. — Não acreditamos que, além de vocês, ainda existam
muitos saparos em Firmer.
Staebler-Beer voltou-se para os nove outros homens.
— Esses idiotas acreditam que o seu povo se originou em Firmer — disse ele. —
Provavelmente até estão convencidos que, além dos saparos, não existem seres
inteligentes no Universo. Não é assim?
— Sim — reconheceu Addis, hesitante.
— Somente nesta galáxia existem mais de dois mil povos astronautas — disse
Staebler-Beer incisivo.
— Não! — disseram Addis e Pantalone ao mesmo tempo.
Pantalone disse:
— O senhor mente, Staebler-Beer. Com isso está querendo fazer-nos esquecer o
crime que o senhor e seus cúmplices cometeram.
— Nós somos membros do Império Dabrifa — informou Staebler-Beer, sem
deixar--se impressionar. — E somos descendentes dos terranos como vocês também são.
— Terranos? — repetiu Pantalone. — Quem são eles?
Agora um dos outros homens aproximou-se. Ele era baixinho e magro. E dava a
impressão de estar se impacientando.
— Nós estamos nos atrasando com explicações — disse ele para Staebler-Beer. —
O acaso nos colocou estes dois nas mãos. Nós devíamos aproveitar a graça do destino. Eu
acho que devíamos testar o emotio-raio neles.
— Isso faremos de qualquer maneira — disse Staebler-Beer. — Mas eu não sei por
que antes não possamos nos divertir um pouco com eles.
Pantalone não entendia mais o que os dois estranhos falavam. Sua cabeça estava um
turbilhão. Se Staebler-Beer dissera a verdade — e Pantalone estava firmemente
convencido disso — a imagem do mundo dos saparos certamente ruiria.
Dois mil povos astronautas!
E os saparos só agora tinham dado início nas viagens ao espaço. Isso os deixava
automaticamente em último lugar numa lista de dois mil nomes.
Pantalone sentiu um calafrio. O reconhecimento que ele ganhara nos últimos
minutos, significava uma imensa carga psíquica para ele. No fundo, isso ele reconheceu
agora, já calculara sobre tais revelações.
— Vocês são descendentes de colonos terranos, que emigraram para o Sistema Sapa
há mais de mil anos atrás — continuou Staebler-Beer com suas explicações. — Eu
suponho que durante a guerra atômica desencadeada por vocês, toda a documentação
tenha sido destruída. O vosso povo esqueceu de onde veio.
— Mas nós encontramos grandes espaçonaves em Conyers — interveio Addis.
— Que eram suas próprias naves, as naves com as quais vocês emigraram da Terra
para o Sistema Sapa — esclareceu Staebler-Beer. — Também nossos descendentes
emigraram da Terra há muito tempo atrás. Hoje o Império Dabrifa possui seiscentos e
quatorze sistemas coloniais próprios. — Ele sorriu. — Logo mais um sistema novo se
juntará a estes.
— O Sistema Sapa — adivinhou Pantalone.
Urna nova pergunta insinuou-se no seu cérebro, que o forçava a perguntar o que
havia acontecido com o planeta original dos terranos. A Terra ainda existia? Havia uma
possibilidade de chegar-se a ela?
— Eles querem atacar Conyers — disse Addis para Pantalone. — Por isso ergueram
uma base em Firmer.
— Que palavra dura — disse Staebler-Beer. — Existem leis que proíbem uma
colonização de mundos com nativos inteligentes. O que poderá haver mais importante do
que a tentativa de apagarmos a inteligência destes seres?
Pantalone começou a temer pelo futuro do seu povo. A insinuação do estranho
deixava supor o pior. O Império Dabrifa tinha enviado um grupo de homens, que deviam
conquistar Conyers. Pantalone tinha certeza de que aquilo seria uma invasão sem
derramamento de sangue. Os estranhos tinham a possibilidade de transformar os saparos
em escravos sem vontade própria. Com isso o caminho ficaria livre para eles.
— O que pretendem fazer? — perguntou Pantalone.
— Isso — respondeu Staebler-Beer — o senhor logo ficará sabendo.
— O senhor pode me dizer alguma coisa sobre a Terra? — perguntou Pantalone. —
Por que nossos antepassados não intervém, quando Dabrifa quer aumentar sua influência,
usando de meios criminosos?
Novamente ouviu-se uma risada geral. Depois de ter-se acalmado um pouco,
Staebler-Beer disse:
— A Terra levou, por tempo suficiente, as suas colônias na direção que queria. O
velho planeta-natal não existe mais. Ele explodiu, e com ele o sistema solar ao qual
pertencia. Para a Humanidade isso é uma sorte.
— Quem é a Humanidade? — quis saber Addis.
— Todos os terranos e os descendentes desse povo.
— Por que vocês querem destruir a nossa civilização? — perguntou Pantalone. —
Em Conyers existem políticos inteligentes. Certamente poderia encontrar-se uma solução
satisfatória para ambos os lados. Nós estamos prontos a ceder Firmer.
— Nós não queremos Firmer, mas sim Conyers — retrucou Staebler-Beer. — E
temos certeza de que todas as negociações seriam inúteis. Nenhum povo deixa, de livre e
espontânea vontade, o seu mundo natal a uma outra potência. Por isso vamos pegar
aquilo que gostaríamos de possuir.
Esta declaração nada ambígua fez Pantalone desesperar. O que deviam fazer os
saparos para proteger-se contra a invasão que certamente viria? Ninguém em Conyers
sabia alguma coisa sobre o perigo que ameaçava os saparos. E agora, ainda por cima,
Canton estava no governo, e ele certamente mandaria suspender todos os projetos de
astronáutica.
Um maior desamparo do que este em que se encontravam os saparos agora, era
difícil imaginar. Ao Sistema Sapa haviam chegado representantes de uma potência que
estava adiante dos saparos, em desenvolvimento técnico, vários séculos.
Pantalone raciocinou que certamente esta não era a primeira vez que um reino
estelar aumentava o seu tamanho deste modo. Quantos povos já tinham visto, impotentes,
como lhes roubavam a sua pátria?
O pensamento no futuro de seu mundo natal fez com que Pantalone esquecesse todo
o resto. A verdade chocante que ele chegara a saber pareceu-lhe insignificante em
comparação.
— Eu não quero deixá-lo no escuro quanto ao seu destino pessoal — continuou
Staebler-Beer. — Nós construímos em Firmer um emotio-raio cuja irradiação faz com
que a atividade psíquica de todo ser vivente fique enfraquecida para sempre. No máximo
dentro de dois dias da contagem de tempo de Firmer, nós vamos poder usá-lo contra
Conyers. Antes, entretanto, vamos experimentá-lo em duas pessoas adequadas.
Addis saltou sobre o dabrifano, porém Staebler-Beer estava preparado para um
ataque desses, e jogou Addis no chão com um só golpe.
— Levem esses dois daqui, agora! — ordenou ele aos seus acompanhantes. — Do
jeito que eles se comportam, eu duvido que precisemos fazer uso do emotio-raio.
Suas palavras provocaram muitas risadas, e Pantalone soube definitivamente que se
encontravam nas mãos de assassinos inescrupulosos e sedentos de poder.
Era possível que os homens de Dabrifa e os saparos de Conyers tivessem origem
num mesmo povo?
“Terranos”, — pensou Pantalone. — “Que criaturas eram essas? E ainda haveria
terranos, no sentido original do conceito? O que diriam eles, se ficassem sabendo que os
seus herdeiros não hesitavam em destruir todo um povo, que também pertencia aos
descendentes da Humanidade?”
***
Flaman Pantalone e Lytton Addis eram mantidos prisioneiros numa pequena sala
quadrada, cuja instalação consistia de dois leitos metálicos e uma mesa redonda. Apesar
de já estarem há duas horas nesta prisão, ninguém se incomodara com eles. Não lhes
trouxeram nem alguma coisa para comer nem para beber. Pantalone tinha certeza de que
os soltariam logo que o experimento com o emotio-raio fosse concluído.
Addis estava sentado na borda da cama, mantendo a cabeça apoiada em ambas as
mãos.
Pantalone andava de um lado para o outro, inquieto. Ele examinara a sala à procura
de possibilidades de fuga, mas não havia nenhuma chance de escaparem dali.
— O que é que podemos fazer? — perguntou Addis, deprimido.
Pantalone não tinha nenhuma resposta para isso. Nas circunstâncias atuais ele
estava pronto para sacrificar a sua vida se, com isso, pudesse contrariar os planos dos
dabrifanos. Ele duvidava, entretanto, que estes lhe dariam uma oportunidade para isso.
— Talvez eles estejam mentindo — disse Addis. — Afinal é possível que nos
contem tudo isso para nos enganar. Eles parecem saparos e falam até a nossa língua.
— Staebler-Beer disse que esta língua se chama intercosmo e que é falada por todos
os povos coloniais terranos — lembrou-lhe Pantalone. — Não temos razão para
duvidarmos das palavras desse homem.
— Antes de me deixar transformar num monstro sem vontade, eu me mato — disse
Addis.
Pantalone foi até ele e colocou-lhe a mão no ombro.
— Isso você não vai fazer, Lytton — disse ele com firmeza. — Nós temos o dever
de tentar tudo para salvar o nosso povo. Nesta estação provavelmente só vivem esses dez
homens que nós vimos. Todo o trabalho é feito por robôs. Os dabrifanos são presunçosos
e arrogantes. Eles nos subestimam. Isso talvez nos dê uma chance para empreendermos
alguma coisa contra eles.
Addis bateu com a mão espalmada na testa.
— Há uma hora atrás eu ainda estava pronto para aprovar as ideias de Bascomb
Canton — disse ele. — Agora eu abomino homens como ele. Se nós tivéssemos iniciado
mais cedo nosso projeto espacial, talvez teríamos oportunidade de impedir a invasão.
Pantalone encolheu os ombros.
— De nada nos adianta lamentarmos oportunidades perdidas — disse ele. —
Precisamos agir. Logo que vierem nos buscar, vamos ficar ã espreita de uma
possibilidade de ataque. Eu lhe farei um sinal, quando achar que está na hora certa.
— De acordo — disse Addis.
Pantalone ficou contente por ter arrancado o garoto de sua letargia. Ele pensou em
Mous Makalet. A ideia de que este homem idoso seria apenas uma criatura sem iniciativa
própria e sem inteligência o deixou mais horrorizado que qualquer outra coisa.
Para Pantalone, Makalet era algo como um símbolo do progresso. O Árbitro
Supremo tinha resistido a todas as forças inimigas.
Mas contra o perigo que desta vez ameaçava Conyers, nem mesmo Makalet podia
fazer alguma coisa. Quando a radiação atingisse a zona de Gove, Makalet estaria
passeando inocentemente no jardim.
Pantalone mordeu o lábio inferior, para não ter que gritar.
***
Sempre que um membro da família do Imperador Dabrifa não fosse exatamente
imbecil, poderia assumir tarefas importantes dentro do Império. Staebler-Beer, o chefe
dos saparos no Sistema Sapa, era sobrinho do imperador. Dabrifa confiava plenamente no
seu parente. Staebler-Beer não tinha uma sabedoria abrangente, porém sua esperteza inata
e sua personalidade descomplicada chegavam perfeitamente, na opinião do imperador,
para o qualificar como chefe. Além disso, Staebler-Beer tinha o hábito de tratar todos os
adversários de maneira cruel e brutal.
Os acompanhantes de Staebler-Beer eram exclusivamente cientistas. Dabrifa era
suficientemente inteligente para dar a maior liberdade possível às camadas da inteligência
do seu Império. Até poucas exceções, os cientistas eram leais. Os homens que tinham
vindo com Staebler-Beer para Firmer desprezavam o sobrinho do Imperador, mas
aceitavam o seu papel de chefe.
Staebler-Beer sabia que não gozava de muito prestígio junto aos cientistas, mas isso
pouco lhe importava. Os seus interesses diferenciavam-se basicamente dos desses
homens. Enquanto eles executassem as suas ordens, ele não dava atenção à vida privada
deles.
O aprisionamento dos dois astronautas saparos, Staebler-Beer considerou como um
nítido caso de sorte. Os cientistas muitas vezes haviam reclamado que teriam que usar o
emotio-raio sem experimentá-lo previamente. E agora eles tinham duas pessoas
excelentes para os seus ensaios.
Quando Staebler-Beer deixou seus aposentos privados, para observar os cientistas
na montagem final do emotio-raio, ele ficou pensando no destino dos saparos. O
Imperador Dabrifa não sabia que no Sistema Sapa havia colonos. Entretanto ele já gastara
tempo e dinheiro demais, para desistir dos seus planos. O Império Dabrifa não podia
permitir-se fracassos. O alvo de Dabrifa era criar um império semelhante ao Império
Solar, que entrementes deixara de existir. Entretanto não ergueria uma democracia
englobando toda uma galáxia. O que acabaria acontecendo com isso, provava o destino
do Império Solar. Logo que estivesse suficientemente forte, Dabrifa faria proclamar-se
Imperador da Galáxia. E lutaria sem quartel contra os seus inimigos.
Depois da destruição do Império Solar, os inimigos de Dabrifa estavam sobretudo
na poderosa Liga Carsuálica, que englobava quase mil sistemas solares e na União
Central Galáctica, com seiscentos sistemas.
Reinos estelares políticos, como a Coalizão Rosa, os Estados do Sistema Fracowitz,
a Irmandade Tarey e a Ordem Shomona, eram apenas grupos de ligas, mais ou menos
desarticulados, que no estágio decisivo não ofereceriam grande resistência a Dabrifa.
Os sistemas solares autárquicos também não interessavam como adversários.
Staebler-Beer tinha esperanças de que Dabrifa, nas próximas três décadas, subiria
até ser o homem mais poderoso na galáxia. Ele, Staebler-Beer, então teria setenta anos, e
poderia viver o resto de sua vida como cônsul em algum sistema paradisíaco.
Este era o maior sonho de Staebler-Beer. Se ele quisesse torná-lo realidade, teria
que fazer de tudo para que o Sistema Sapa fosse incorporado ao Império Dabrifa.
O sobrinho do imperador entrou no grande pavilhão de montagem, no qual estava
armado o emotio-raio.
Rob Hofsess, o dirigente científico do projeto, interrompeu o seu trabalho e veio ao
encontro de Staebler-Beer.
Hofsess era um homem reservado, de olhos grandes e um rosto afilado. Os seus
ombros eram caídos, e ao andar ele puxava a perna esquerda. Não se importava com
coisas políticas. Se durante a construção do emotio-raio ele sentira escrúpulos, conseguira
ocultá-los muito bem.
O bom humor de Staebler-Beer expressou-se ao saudar o cientista com um sorriso.
— Nós estamos prontos — disse Hofsess. — Se o senhor quiser, agora podemos
fazer um teste com os dois prisioneiros.
Staebler-Beer anuiu e deu uma volta em torno da perigosa arma. De vez em quando
ele batia a cabeça, apesar de não poder simular qualquer reconhecimento de causa aos
cientistas.
Hofsess ficou do seu lado.
— Já alinhamos o emissor de raios — disse ele para Staebler-Beer. — Quando o
senhor der a ordem, nós o usaremos contra Conyers.
Staebler-Beer estava satisfeito. Logo o Sistema Sapa pertenceria ao Império
Dabrifa.
Para os observadores, que provavelmente viriam de outros reinos estelares, Dabrifa
poderia usar o grau de inteligência semelhante ao dos animais, dos saparos, como
argumento suficiente para a colonização desse mundo
Staebler-Beer acenou, chamando um técnico.
— Leve consigo alguns robôs e traga os dois prisioneiros para cá — ordenou ele.
O homem quis executar a ordem, mas Staebler-Beer segurou-o pelo braço.
— Não confie em nada do que lhe disserem — preveniu ele. — Tome muito
cuidado.
— O senhor acha que os prisioneiros estejam pensando numa fuga? — perguntou
Hofsess.
Staebler-Beer riu, às gargalhadas.
— Eles tentarão uma fuga, de qualquer maneira — disse ele. — Eles estão
desesperados e sabem que têm à sua frente um destino que é pior do que a morte. Por
que, portanto, eles deveriam hesitar em arriscar tudo?
Hofsess mordeu o lábio inferior. Depois de algum tempo, ele perguntou:
— Por que o senhor não determinou medidas de segurança melhores? Eu não tenho
certeza de que o técnico Watts vai trazer os saparos para cá.
O sobrinho do imperador não respondeu.
— Provavelmente o senhor se diverte em brincar com os prisioneiros? — perguntou
Hofsess, irritado.
Staebler-Beer colocou-lhe a mão no ombro.
— Durante nossa estada em Firmer, ainda queremos nos divertir um pouco — disse
ele.
Hofsess virou-lhe as costas.
“Sujeito fraco!”, pensou Staebler-Beer, quando o cientista se afastou.
***
A porta da prisão abriu-se e Flaman Pantalone viu aparecer na entrada um dos dez
homens com os quais eles já tinham se encontrado. O homem tinha uma arma na mão,
pronta para atirar. Atrás dele estavam quatro robôs.
— O meu nome é Watts — disse o homem. — Recebi ordens para vir buscá-los
aqui. Se não fizerem tolices, estará tudo bem entre nós. De outro modo terei que fazer uso
de minha arma, ou então largar os robôs para cima de vocês.
— Muito cordial! — disse Pantalone, sarcástico.
— O que vai acontecer se nos recusarmos a acompanhá-lo? — quis saber Addis.
Watts repuxou a cara.
— Isso eu não o aconselharia.
— O senhor é uma criatura inteligente como nós. — disse Pantalone. — Por que o
senhor permite que o nosso povo seja submetido à imbecilidade? Eu não acredito que o
senhor concorde com isso.
Watts disse, áspero:
— Não me venha com essa conversa. — Ele agitou a arma. — Agora venham!
— Temos que ir — disse Pantalone para Addis. — Não faz sentido resistir-lhe. —
Ele voltou as costas para Watts e piscou para Addis.
Pantalone imaginava que Watts os estava buscando para o experimento planejado
com o emocio-raio. Isso significava que a caminho do emotio-raio eles tinham que tentar
uma fuga.
Watts deu um passo para o lado para deixar passar os dois saparos.
— Os senhores vão na frente — disse ele. — Lembrem-se que atrás vão ter um
homem e quatro robôs armados.
— É inútil! — murmurou Addis ao comandante.
Pantalone não respondeu.
— Silêncio! — ordenou Watts. — Eu não quero que vocês agora ainda conversem.
O grupo pôs-se em movimento.
— Caminhem até o final do corredor, depois virem para a direita — disse o
dabrifano. — Dali em diante, eu explico.
O olhar de Pantalone era dirigido em frente. Aqui no corredor uma fuga seria sem
sentido. Talvez houvesse uma oportunidade melhor no lugar onde, pelas palavras de
Watts, eles deviam dobrar à esquerda. Os dabrifanos precisavam deles vivos, por isso não
devia esperar-se que Watts ou os robôs imediatamente os acertassem com tiros mortais.
Originalmente Pantalone esperara poder dominar os seus guardas, porém o
armamento deles tornava um plano desses impossível.
— Mais depressa! — ordenou Watts.
Pantalone lançou um olhar furioso para trás. Ele perguntava-se como poderia
desviar a atenção de Watts dele e de Addis.
Eles chegaram ao fim do corredor. Pantalone viu uma porta aberta, atrás da qual
ficava uma espécie de armazém. No meio desse recinto, em diagonal, havia diversas
armações e estantes de parede.
— Agora! — disse Pantalone para Addis.
Ele deu um salto enorme e aterrissou além da entrada. Mal tinha tocado o chão
rolou para o lado, para procurar cobertura atrás de uma armação. Ele não teve tempo para
preocupar-se com Addis. Respirando forte, jogou-se através das armações.
— Pare onde está! — ouviu Watts gritar.
Logo em seguida soou o sibilar de uma arma energética e o grito de Addis.
Pantalone jogou-se ao chão e esgueirou-se através das armações para o outro lado
do armazém. Junto de uma estante de parede ele viu uma porta, que não estava trancada.
Um tiro de arma energética quase o acertou.
Ele jogou-se contra a porta. Ela cedeu. Pantalone cambaleou para dentro de outro
recinto, que era iluminado apenas pela luz que vinha do armazém. Sem hesitar, Pantalone
adiantou-se. Com as mãos tateando ele atravessou a escuridão. Sentiu a parede e deslizou
por ela, cheio de esperança de poder encontrar uma porta.
Atrás dele entraram os robôs que o perseguiam.
De repente clareou.
Pantalone apoiou-se de costas na parede. Em nenhuma parte via-se uma saída, e na
porta através da qual ele entrara estavam Watts e os robôs.
Pantalone entrara num beco sem saída.
— Venha! — exigiu Watts. — O seu amigo também já pegamos novamente.
11

— Estamos recebendo mensagens de rádio da lua do planeta Firmer, Sir — avisou o


radioperador-chefe Donald Freyer na central da nave globular de dois mil e quinhentos
metros de diâmetro. — Elas estão em intercosmo e não estão em código.
— São para nós? — quis saber o homem alto, que estava parado junto do
comandante, na central de comando.
— Não, Sir — respondeu Freyer. — Eu verifiquei pelas mensagens que, pela
primeira vez na história dessa colônia, mandaram uma espaçonave com quatro
astronautas a bordo, para Firmer. A ligação com estes quatro homens entretanto foi
interrompida.
— Posso imaginar por quê — disse o homem da central, furioso, e colocou a mão
no ombro do comandante, junto dele, no cadeirão. — Não acha também que os
dabrifanos estão por trás disso, Korom-Khan?
— Disso eu tenho certeza, chefe — retrucou o comandante. — As informações que
recebemos dos agentes da USO parecem ser corretas.
— De acordo com elas os dabrifanos se estabeleceram em Firmer — disse o homem
junto da poltrona de comando. — A partir desse mundo eles querem agir contra os
saparos.
Ele curvou-se sobre o intercomunicador. — O que mais há para informar, Freyer?
— Em Conyers, logo depois da partida, parece ter havido uma revolução política —
informou o radioperador. — O Árbitro atual chama-se Bascomb Canton e não dá muita
importância a projetos de astronáutica. Ele culpa o seu antecessor, Mous Makalet, pela
morte dos quatro astronautas, e além disso fala de uma aventura financeira, na qual diz
que Makalet lançou os saparos.
— Aparentemente a astronáutica, a princípio, tem que lutar com os mesmos
problemas, em todos os planetas — disse o homem alto, sorrindo.
— O que é que o senhor pretende fazer agora, Sir? — quis saber Korom-Khan.
— Conyers naturalmente é interessante, mas antes de mais nada vamos ocupar-nos
com Firmer, depois de ficarmos sabendo o que aconteceu no interior desse sistema —
veio a resposta. — Vamos voar para Firmer. Logo que encontrarmos a estação dos
dabrifanos, vamos colocar os seus ocupantes fora de combate, com raios narcóticos.
Talvez ainda possamos ajudar os saparos que ousaram encetar o voo para Firmer.
12

— Estão aí fora alguns homens, que não quiseram ir embora — disse o ajudante de
Makalet. — Eles afirmam que vieram por ordem do novo Árbitro Supremo, para prendê-
-lo.
Makalet estendeu o braço direito e a águia-aljew que estava pousada na sua mão
abriu as asas. Makalet ficou olhando como o grande pássaro pousou num galho de uma
árvore próxima, gritando faminto.
— O senhor pode fugir pela saída dos fundos — disse o ajudante. — Um carro está
pronto, à sua espera.
— Eu sempre soube prezar a sua imaginação — disse Makalet, sorrindo. — Às
vezes, entretanto, eu preferiria que o senhor pensasse com um pouco mais de lógica.
— O senhor não pretende, por acaso, ir com eles?
— E por que não? — achou o ex-Árbitro de Conyers. — Eu posso imaginar que
Canton precisa do espetáculo de um tribunal público, para me humilhar. Somente desse
modo ele conseguirá talvez diminuir o círculo de meus partidários. — Ele anuiu para o
ajudante. — Deixe os homens entrar.
O ajudante saiu do jardim e poucos minutos depois voltou com quatro homens.
— Stanwell Rebbie! — disse Makalet, ao ver o chefe dos policiais. — Sua vingança
pessoal tem tanta importância que o transformou em beleguim?
O rosto de Rebbie estava branco. Os seus lábios tremiam. Ele sofria, porque mesmo
nesta situação não conseguia elevar-se acima da personalidade desse homem velho.
— O senhor está preso! — disse ele, rapidamente.
Makalet cruzou os braços sobre o peito.
— Dê-me os motivos — disse ele. — Eu suponho que Canton deve ter pensado
neles.
Rebbie tirou o libelo acusatório do bolso.
— “Com o presente comunicamos que sua imunidade, com efeito até a última
sessão do Gabinete sob a direção do Árbitro Supremo Bascomb Canton, foi revogada”,
leu ele. “O senhor é acusado de ter dissipado dinheiro do povo saparo de modo
irresponsável. Além disso, é acusado de haver menosprezado as leis do povo em pelo
menos três vezes. Diante do tribunal o senhor terá que responder ainda por amotinação.”
— Não me diga! — deixou escapar Makalet. — Eu fico orgulhoso em verificar do
que ainda me julgam capaz, na minha idade.
— Eu o convido a nos seguir de livre e espontânea vontade. — As mãos de Rebbie
procuraram inutilmente um objeto com o qual pudessem se ocupar, depois de ter
novamente colocado o libelo acusatório no bolso do seu casaco.
— Traga-me o meu sobretudo — disse Makalet ao seu ajudante. — Eu vou
abandonar Gove com esses indivíduos.
13

— Pelo que ouvi dizer houve dificuldades no caminho? — perguntou Staebler-Beer,


quando Watts conduziu os dois saparos para dentro do recinto.
— Sim — disse Watts, nervoso. — Os prisioneiros tentaram fugir. Entretanto eu
estava preparado para isso e frustrei os planos deles.
— O que foi que eu lhe disse? — voltou-se Staebler-Beer para Hofsess. — Os dois
heróis estão desesperados.
Pantalone mal dava ouvidos às palavras que os dabrifanos trocavam. Sua atenção
foi atraída pelo emocio-raio, que preenchia a maior parte do pavilhão. Ele chegava até o
alto da cúpula, cujo telhado podia ser aberto para um dos lados.
Então era essa a arma, com a qual os saparos deviam ser transformados em criaturas
semelhantes a animais. E os dabrifanos pretendiam testar este irradiador em Lytton Addis
e nele. Sem dúvida alguma este teste terminaria com sucesso, no sentido dos dabrifanos,
pois era de se esperar que os cientistas responsáveis já deviam ter examinado a arma
anteriormente.
— Para que saibam o que terão pela frente, eu lhes explicarei rapidamente o que
pretendemos fazer — voltou-se Staebler-Beer para Pantalone. — Dois robôs de cada vez
levarão o senhor e seu amigo para fora, voando por cima da cúpula. Então ligaremos o
emocio-raio. A arma já está apontada para Conyers, de modo que não podemos poupar-
-lhes este pequeno voo. — Staebler-Beer riu, ironicamente, — Quando chegarem no raio
de irradiação da arma, não sentirão qualquer dor, porém o efeito sobre o seu cérebro terá
início imediatamente. Isso significa que perderão sua inteligência, ainda antes dos robôs
os trazerem de volta para cá. E depois de um rápido exame pelos nossos colaboradores
médicos, nós os libertaremos.
— Pare com isso! — gritou Addis. — Eu não posso mais ouvir o que está dizendo.
Pantalone disse, controlado:
— Pense mais uma vez no que vai fazer, Staebler-Beer. Eu apelo para a sua razão.
O senhor também não acha que seria melhor se o seu povo negociasse com o nosso?
Talvez os saparos possam se tornar aliados do Império Dabrifa. Como aliados somos
valiosos para o seu povo.
— Eu acho que o raciocínio do prisioneiro não está inteiramente errado — interveio
Hofsess.
Staebler-Beer virou-se rapidamente.
— O senhor pretende me dizer o que devo fazer?
— Não, não! — acalmou-o o cientista.
Pantalone disse rapidamente:
— Este homem tem razão, Staebler-Beer. Provavelmente todos os outros dabrifanos
também pensam como ele. Por que o senhor não cede? Precisamos mesmo...
Staebler-Beer aproximou-se dele e deu-lhe um soco violento.
— Vamos! — gritou ele para Watts. — Os robôs devem voar com os dois
prisioneiros por cima da cúpula. Eu preciso finalmente saber se o emotio-raio funciona.
Ninguém o contradisse. Hofsess apertara os olhos e olhava fixamente para Staebler-
Beer. Watts estava ocupado com os robôs. Os outros homens rodeavam o emocio-raio.
Pantalone tinha certeza de que aquilo teria acabado numa rebelião generalizada, se
apenas um daqueles homens tivesse ousado opor resistência ao chefe.
Porém os minutos tão críticos para o sobrinho do imperador se escoaram sem que
alguma coisa acontecesse.
Pantalone deu-se por vencido.
Addis se debateu desesperadamente, quando os robôs se aproximaram dele, porém
os tentáculos de metal, que se fecharam em volta do seu corpo, não admitiam resistência.
Também Flaman Pantalone foi agarrado por dois autômatos.
— Espere mais um pouco! — gritou Staebler-Beer para Watts.
Ele colocou-se entre os robôs.
— Os senhores são homens valentes — disse ele para Pantalone e Addis. — Caso
contrário não teriam voado, com um foguete primitivo, para Firmer. Eu vou fazer-lhes
uma proposta. Se os dois operarem o emotio-raio contra a sua pátria, eu poupo-os do
tratamento que ameaça o seu povo.
Pantalone cuspiu no chão.
— E o senhor, meu jovem amigo? — voltou-se Staebler-Beer para Addis. — Não
quer salvar a sua nação, e acionar o emocio-raio?
Addis não conseguiu responder, mas sacudiu a cabeça, decidido.
— Que pouco inteligente — disse Staebler-Beer. Ele anuiu para Watts. — Os robôs
agora devem levá-los para fora.
Levando os dois saparos, os robôs pairaram para fora do recinto. Eles atravessaram
diversos corredores e pavilhões, até que uma eclusa surgiu à sua frente.
Pantalone agora também começou a se debater contra as garras dos robôs.
— Flaman! — gritou Addis. — O que podemos fazer?
Pantalone não respondeu.
Antes dos robôs alcançaram a eclusa, com a sua carga viva, as instalações de alarme
dentro da cúpula começaram a uivar.
No mesmo instante os robôs interromperam o seu voo e permaneceram no mesmo
lugar. Evidentemente estavam esperando por novas ordens.
— O que... o que pode significar isso? — perguntou Addis.
— Não sei — retrucou Pantalone. — De qualquer maneira conseguimos um
adiamento.
***
Quando as sirenes começaram a uivar, Staebler-Beer estremeceu. O alarme veio de
modo totalmente inesperado. Os cientistas ficaram parados nas proximidades do emocio-
-raio, como que paralisados.
Staebler-Beer conseguiu controlar-se em primeiro lugar.
— Todos para a central de comando! — gritou ele.
E saiu correndo, sem certificar-se se os outros o seguiam. Confuso, Watts voltou-se
para Hofsess, parado do seu lado.
— O que vamos fazer com os prisioneiros? — quis saber ele do chefe dos cientistas.
— Devo dar ordem de matá-los, aos robôs?
— Vamos esperar mais um pouco — decidiu Hofsess. — Primeiro vamos descobrir
o que deflagrou o alarme. Suponho que se trate de um erro. Talvez até uma segunda
espaçonave dos saparos tenha surgido nas proximidades de Firmer.
Ele não esperou por uma resposta, mas seguiu os outros homens na direção da
central da cúpula, onde ficavam todas as instalações de rastreamento, bem como de rádio.
Watts ainda hesitou um instante. Com o pequeno transmissor que tinha nas mãos,
ele podia dar ordens aos robôs. Não faria sentido voar os dois saparos agora por cima da
cúpula, pois não havia ninguém junto do emotio-raio que pudesse ligar a arma.
Watts encolheu os ombros e também abandonou o recinto. Que Staebler-Beer
decidisse o que deveria acontecer com os prisioneiros.
Quando Watts entrou na central, os homens já se haviam distribuído diante dos
diversos controles. A agitação dos cientistas era grande. Logo em seguida Watts pôde ver
numa tela de imagens a razão para a agitação geral.
Uma nave espacial globular, de pelo menos dois quilômetros de diâmetro, tinha
penetrado na atmosfera do planeta Firmer, e lentamente descia para a sua superfície.
Watts ouviu a voz de Staebler-Beer, acostumado a mandar.
— Ligar os campos defensivos energéticos! — gritou o sobrinho do imperador.
Watts tomou o seu lugar junto das instalações de rádio. Perto dele estava sentado
Dirkah, um dos mais conhecidos engenheiros hiperenergéticos dabrifanos, curvado para a
frente, no seu cadeirão.
— De onde vem essa nave? — balbuciou Watts.
Dirkah ergueu os ombros, sem entretanto tirar os olhos dos controles.
— Watts! — gritou Staebler-Beer.
Watts girou rapidamente o seu assento.
— Procure conseguir contato pelo rádio — ordenou Staebler-Beer. — Pergunte o
que os estranhos querem aqui.
— Esta é uma nave do Império Solar — observou Hofsess.
Staebler-Beer olhou fixamente para o cientista.
— O senhor está maluco! — gritou ele para Hofsess. — Não existe mais nenhum
Império Solar!
Watts começou a irradiar. Ele exigiu da tripulação da nave estranha que informasse
a sua origem, bem como suas intenções. Mas não obteve qualquer resposta.
— Vamos atacar a nave! — decidiu Staebler-Beer. — Aprontem os canhões
energéticos!
Na tela de vídeo, Watts conseguia ver que a nave estranha estava voando com o seu
campo energético defensivo ligado. Ele não acreditava que a força de fogo dos canhões
energéticos montados na cúpula fossem suficientes para seriamente pôr em perigo a nave
gigantesca.
— Estamos sendo atacados com raios narcóticos — avisou o homem diante dos
aparelhos de medição. — O campo energético defensivo evita que os mesmos penetrem
até nós.
— Neste caso somente pode tratar-se de uma nave terrana — disse Hofsess. — Pois
corresponde à mentalidade terrana evitar, a qualquer custo, o derramamento de sangue.
O rosto de Staebler-Beer tingiu-se de vermelho. Ele arrancou a sua arma do cinturão
e a apontou para Hofsess.
— Mais uma palavra sobre o Império Solar ou a Terra, e eu o mato! — gritou ele,
fora de si.
Hofsess ficou pálido, pois ele sentiu que Staebler-Beer perdera totalmente o
controle.
Staebler-Beer deu outras ordens. A nave com a qual os dabrifanos tinham vindo
para Firmer, e que mantinham escondida na selva próxima, devia ser preparada para a
partida. Staebler-Beer reconhecera que com os meios que tinha à sua disposição, nada
poderia fazer contra os estranhos. A única saída era a fuga.
Os canhões energéticos da cúpula começaram a atirar. Os seus tiros, entretanto,
eram absorvidos sem problemas pelo campo defensivo energético da astronave globular.
— Cessar fogo! — ordenou Staebler-Beer. — Watts, quanto tempo ainda vai
demorar até que consiga contato pelo rádio?
— Mas eu estou tentando! — retrucou Watts. — Os estranhos não reagem aos
nossos apelos.
Por um instante Staebler-Beer ficou calmo. Quando ergueu a cabeça novamente
havia um sorriso astucioso nos seus lábios.
— Afinal de contas ainda temos uma arma — disse ele. — O emocio-raio.
Ele levantou-se.
— Eu vou dispará-lo pessoalmente contra a nave estranha — disse ele. — O senhor,
entrementes, fica aqui e observa o que vai acontecer.
Watts escutou-se respirar aliviado, quando Staebler-Beer deixou a central. Ele
jamais se sentira bem na presença deste homem, porém depois do alarme o
comportamento de Staebler-Beer se tornara quase insuportável.
Hofsess abandonou o seu lugar junto aos controles.
— O que ainda estamos esperando? — gritou ele para os outros. — Ainda vamos
precisar de outras provas de que Staebler-Beer ficou louco?
— O que está querendo dizer, Hofsess? — perguntou Dirkah. — Está querendo nos
induzir a uma traição ao império?
Hofsess ergueu ambas as mãos.
— Tudo que ainda pode nos ajudar é uma fuga rápida — disse ele. — Vamos para
bordo da nave, antes que seja tarde demais.
— Os estranhos interromperam o seu ataque com os raios narcóticos — avisou o
homem diante dos aparelhos de controle.
— Tanto melhor! — disse Hofsess. — Isso nos dá uma oportunidade de
alcançarmos a nave. Desliguem o campo defensivo energético.
Todos olharam fixamente para o cientista-chefe. Watts estava pensando em
Staebler-Beer, que entrementes estaria junto do emotio-raio que dispararia.
— Hofsess tem razão — ouviu-se ele dizendo. — Vamos fugir, enquanto ainda
temos tempo.
Suas palavras deram um fim àquela tensão quase insuportável. Para aqueles homens
hesitantes, elas significavam uma redenção. Vozes, concordando, fizeram-se ouvir. Os
dabrifanos abandonaram os seus lugares e cercaram Hofsess. Eles esperavam pelas suas
ordens.
— O campo defensivo energético foi desligado? — perguntou Hofsess.
— Sim!
— Watts! — gritou Hofsess. — Mande mais uma mensagem, dizendo que nós
capitulamos. Isso fará os recém-chegados desistirem de outros ataques.
Watts imediatamente executou a ordem. Entrementes os outros homens tinham
reunido todos os documentos importantes.
— Sigam-me! — disse Hofsess. — Vamos abandonar a cúpula e nos dirigir para
nossa nave.
— E o que vai acontecer com Staebler-Beer? — perguntou um dos homens.
Hofsess não respondeu, mas pôs-se em movimento na direção da saída.
Os outros o seguiram.
***
Staebler-Beer estava acocorado atrás do emotio-raio e esperava que a nave estranha
alcançasse a ótica de mira. O dabrifano tinha certeza de que a nave globular voaria por
cima da cúpula. E nesta oportunidade forçosamente ela deveria entrar na gama de
dispersão dos raios do emocio-raio. Staebler-Beer precisava apenas esperar. Sozinho ele
não era capaz de dirigir o irradiador para um novo objetivo.
Staebler-Beer esperava que os modernos emocio-raios penetrariam no campo
defensivo energético da nave gigante.
Ele não se preocupava em saber de onde esta nave estava vindo. Uma vez que a
mesma se aproximara de Firmer, sem ter pedido permissão ou dar a conhecer sua
identidade pelo rádio, a mesma era automaticamente vista como inimiga.
— Esse Hofsess é um imbecil! — murmurou Staebler-Beer, irritado. — Não
existem mais naves terranas.
Staebler-Beer decidiu castigar o cientista, logo que esta situação estivesse liquidada.
Um sobrinho do imperador não podia permitir ser contraditado.
Neste instante ele lembrou-se dos dois prisioneiros. Os robôs já teriam voado com
eles por cima da cúpula? Staebler-Beer olhou para a tela de imagens.
— Não! — disse ele. Ele deveria ter visto os saparos e os robôs, quando chegassem
ao seu destino.
Staebler-Beer ligou o aparelho de rádio dos controles e chamou a central. Mas não
obteve qualquer resposta.
— Watts! — gritou ele. — Por que não responde?
Como continuava a não receber qualquer resposta, Staebler-Beer levantou-se de um
salto. Saiu correndo pelo corredor para a central. Tremendo de raiva, ficou parado na
entrada do grande recinto.
Eles o haviam abandonado!
Por alguns segundos Staebler-Beer ficou como que paralisado. Ele podia imaginar
para onde os outros tinham ido. Ele também sabia quem os tinha convencido para isso.
Hofsess era culpado dessa fuga insensata. Staebler-Beer gemeu. Sozinho ele não era
capaz de executar os planos do imperador. Se os cientistas fugissem de Firmer com a
nave, ele seria obrigado a ficar até o fim de sua vida no interior da cúpula.
Ele praguejou e correu de volta para o emocio-raio. Imediatamente depois que se
acomodara atrás da arma, uma nave espacial globular apareceu na tela de imagens.
Sem prestar muita atenção, Staebler-Beer disparou o emocio-raio. Depois caiu no
cadeirão e soluçou baixinho. Ele era um indivíduo perdido e desamparado.
***
O chefe do rastreamento disse:
— Eles estão fugindo, Sir!
O homem alto na central de comando da nave espacial globular olhou para a tela de
imagens, onde a nave dabrifana surgira. Só pensou alguns momentos se deviam ou não
atacar essa nave. Decidiu-se contra. Seria um combate unilateral, sem qualquer chance
para os dabrifanos em fuga.
— Nós medimos uma radiação desconhecida, Sir! — veio um novo aviso da central
de rastreamentos. — A nave, com os fugitivos a bordo, voou através desta região de
radiação.
A bordo da grande nave globular a tripulação observou pelo telerastreamento o voo
da nave dabrifana que partira de Firmer. Para espanto geral esta nave não passou para o
voo linear.
— Eu gostaria de saber o que é que eles pretendem fazer — disse o homem alto, na
central de comando da nave globular. — Se eles realmente pretendem fugir, agora teriam
que passar ao voo linear.
— Observe o voo irregular dessa nave, Sir — disse o comandante Korom-Khan.
— Parece até que os propulsores ou os comandos deixaram de funcionar —
acrescentou Senco Ahrat, o Primeiro-Oficial Cósmico.
— Vamos tentar conseguir contato de rádio com os fugitivos — ordenou o homem
alto, para a central de rádio.
Logo depois o radioperador-chefe Donald Freyer avisou que ninguém respondia ao
seus sinais de rádio.
— É estranho — murmurou Korom-Khan. — Quando eles ainda estavam em
Firmer, tentaram entrar em comunicação conosco pelo rádio. E agora não reagem aos
nossos chamados pelo rádio.
— Eu acho que a bordo da nave dabrifana aconteceu uma catástrofe — disse o
homem alto.
— O senhor acredita que a tripulação da nave dabrifana, quando voou através da
região de radiações estranhas, sofreu danos? — perguntou Ataro-Kusumi, da central de
rastreamentos.
— É o que parece.
Korom-Khan sentou-se melhor no seu cadeirão.
— Olhe só isso, Sir! — gritou ele, agitado. — A nave está tomando o curso do sol
Sapa.
Na central fez-se o silêncio. Os astronautas ficaram observando como a pequena
nave corria velozmente na direção do sol. Ninguém parecia poder impedir a desgraça.
— Talvez seja apenas um truque — achou o Cosmo-Psicólogo Eysbert.
— Não creio nisso — disse o homem alto. — Korom-Khan, prepare tudo para a
pouso. Vamos pousar na savana, perto da estação dabrifana, depois nos aproximamos da
cúpula com naves auxiliares.
A grande nave globular tomou velocidade novamente. Pairou por cima da estação
que os dabrifanos tinham erguido em Firmer e depois desceu para a savana, levada pelos
seus propulsores energéticos. A terra tremeu sob o rumorejar forte dos propulsores.
— A terra é vulcânica! — gritou o homem alto. — Cuidado durante a manobra de
pouso.
Novamente a central de rastreamentos chamou. Junto das imagens do mundo
exterior, agora apareceram tomadas da nave dabrifana na tela de vídeo.
— A nave está caindo na direção do sol, Sir — gritou Ataro-Kusumi. — Parece
estar sem comando.
Korom-Khan mordeu o seu lábio inferior:
— Talvez os dabrifanos ainda estejam dentro da cúpula e voaram essa nave, de
forma teleguiada, para o sol. Eles querem simular que todos morreram.
— Eu acho que está enganado, comandante — disse Thunar Eysbert. — Eu acho
que a tripulação dessa nave não é mais capaz de evitar a catástrofe.
Poucos minutos mais tarde a nave dabrifana pegou fogo nas zonas periféricas do sol
Sapa.
Quase ao mesmo tempo, as sapatas de pouso da grande nave globular tocaram o
solo do planeta Firmer.
14

Staebler-Beer ouviu o barulho da nave gigante pousando. Ele deu-se conta de que a
nave que ele bombardeara com o emotio-raio era a sua própria espaçonave. O sobrinho
do imperador não arrependeu-se do seu engano. Hofsess e os outros tinham merecido
esse castigo. Provavelmente agora eles errariam pelo espaço ou então acabariam caindo
dentro de algum sol.
Staebler-Beer ficou imaginando no que poderia fazer para se salvar. Ele agora já se
tinha novamente sob controle completo. Ainda tinha a possibilidade de fazer uso do
emotio-raio contra Conyers. Naturalmente ele não conseguiria mais varrer toda essa lua
com os raios, porém poderia lançar na desgraça uma parte da povoação sapara.
Entretanto não via mais sentido em agir assim, na situação atual. Mais importante
era salvar sua própria vida. A sua situação já não lhe parecia tão desesperadora. Se ele se
mantivesse esperto, talvez ainda pudesse voltar para Dabrifa. Dabrifa o festejaria como
um herói, se ele voltasse como único sobrevivente do empreendimento, e com isso
comprovasse a sua lealdade.
Staebler-Beer abandonou o seu lugar atrás do emocio-raio. Para poder realizar o seu
plano, ele precisava encontrar os dois prisioneiros saparos. Ainda antes que os primeiros
membros da tripulação da nave gigante pousada entrassem na cúpula, ele tinha que
conseguir um acordo com esses dois homens. Precisava obrigá-los a que o designassem
como um dos seus.
O dabrifano abandonou o recinto e começou com a busca dos dois saparos. Ele
esperava que Watts não tivesse cometido o erro de ter ordenado aos robôs que
assassinassem os dois homens. Esse raciocínio levou Staebler-Beer à ideia de que ele
precisava de um radiotransmissor, para obrigar os robôs a libertarem os prisioneiros. Por
sorte ele fizera com que Watts lhe mostrasse, durante sua permanência em Firmer, como
era possível transmitir ordens aos robôs com um aparelho desses.
Na central da cúpula Staebler-Beer encontrou o aparelho que procurava. Um rápido
olhar para as telas de imagens mostrou-lhe que a grande espaçonave havia pousado atrás
das montanhas, e neste momento estava abrindo suas eclusas dos hangares. Logo as
primeiras naves auxiliares pousariam dentro do vale.
Staebler-Beer ligou o aparelho transmissor e imediatamente obteve contato. Isso lhe
provava que os robôs estavam por perto. Ele deu uma risadinha, satisfeito.
Por que deveria procurar mais tempo pelos prisioneiros?
Um rápido impulso era suficiente, para que os robôs os trouxessem até aqui. O
dabrifano transmitiu a ordem correspondente. Colocou o aparelho de lado e dirigiu-se
para os controles. Rapidamente apagou todas as telas de imagens. Os saparos não
precisavam saber o quanto a ajuda para eles estava próxima. Depois Staebler-Beer fechou
todas as eclusas da cúpula. Os estranhos iriam precisar de algum tempo, até que se
decidissem penetrar ali pela força. Esta demora Staebler-Beer tinha que aproveitar.
Ele sentou-se num cadeirão e esperou, até que os quatro robôs pairaram para dentro
do recinto com os prisioneiros. Os dois saparos pareciam exaustos, o homem mais jovem
parecia até demaiado.
Staebler-Beer apanhou o transmissor de ordens e parou os robôs. Depois ordenou-
-lhes que libertassem os dois homens. Addis caiu para o chão, totalmente sem forças, e
também Pantalone tinha dificuldades para manter-se em pé.
— O senhor pode me entender? — perguntou Staebler-Beer.
— Sim — disse Pantalone.
— Nós vamos fazer um acordo — disse Staebler-Beer. — Eu desisto de fazer uso
do emotio-raio contra Conyers. Em contrapartida o senhor dirá aos estranhos que logo
entrarão na cúpula, que eu sou um saparo. O senhor terá que dizer aos estranhos que
todos os dabrifanos fugiram a bordo de uma espaçonave. Eu faço parte dos senhores e
cheguei a Firmer a bordo da espaçonave saparense.
Pantalone ergueu a cabeça. Os seus olhos estavam injetados de sangue. Ele parecia
não entender absolutamente o que queriam dele.
Staebler-Beer foi até o saparo e o sacudiu.
— O senhor me entendeu?
Pantalone anuiu com dificuldade.
— E então? O que decide?
— Eu... eu preciso pensar — disse Pantalone.
Staebler-Beer puxou uma poltrona para perto e empurrou o astronauta sobre a
mesma. Depois agarrou o braço de Pantalone e o sacudiu.
— Apresse-se! — gritou ele. — Tem apenas um minuto de tempo. Se até então não
aceitar minha proposta, eu o carrego à sala de armas, para que possa ver como eu disparo
o emotio-raio sobre Conyers.
— Isso não deve acontecer — murmurou Pantalone.
— Quer dizer que está de acordo?
— Com o quê?
Staebler-Beer deu uma bofetada no saparo.
— Já disse que me ouvisse! Eu sou um dos astronautas saparos. E isso que eu quero
que diga aos estranhos.
Pantalone levantou a cabeça e olhou fixamente para Staebler-Beer.
— Que estranhos?
— Nós fomos atacados — disse Staebler-Beer. — Os meus amigos estão mortos.
— Por isso, o alarme — disse Pantalone.
Staebler-Beer ficou impaciente. Ele tinha a sensação de que Pantalone já havia
compreendido há muito tempo qual era a questão, mas que se fazia de tolo para ganhar
tempo. Ele arrancou Pantalone da poltrona, e arrastou-o para fora da central. Addis, que
estava inconsciente, ele deixou para trás. Pantalone não resistiu, quando Staebler-Beer o
arrastou até a sala de armas, jogando-o ao chão ao lado do emocio-raio.
Staebler-Beer tomou lugar atrás da instalação de comutação do irradiador. Suas
mãos agarraram a alavanca de ligação.
— Eu posso disparar o raio agora, e colocá-lo em irradiação permanente — disse
ele para Pantalone. — Está entendendo agora o que eu quero do senhor?
— Sim — disse Pantalone. — Eu concordo com tudo. Mas quem lhe dá a certeza de
que, depois que os estranhos surgirem, eu cumpra a minha parte do acordo?
Staebler-Beer levantou o radiotransmissor, que trouxera da central.
— Com isto eu posso ligar o emocio-raio, mesmo à distância — disse ele. — E isso
eu farei na primeira palavra errada que o senhor ou Addis deixarem escapar.
— O senhor não precisa temer nada — garantiu Pantalone. — O futuro do meu
povo para mim é mais importante do que o castigo de sua pessoa.
Staebler-Beer triunfara. Ele estava convencido de que Pantalone não percebera o
blefe com o aparelho transmissor, e que tudo faria para convencer os estranhos de que o
dabrifano fazia parte dos astronautas saparos.
— Acho melhor irmos para a central, para nos ocuparmos com Addis — disse o
dabrifano. — O senhor terá que explicar-lhe o que está acontecendo, para que ele não
cometa nenhum erro.
Pantalone apoiou-se em Staebler-Beer e deixou-se levar de volta para a central. Da
eclusa principal vinha o sibilar de pesadas armas energéticas. Os estranhos atacantes
estavam ocupados em criar uma passagem para sua entrada na cúpula.
Staebler-Beer não se preocupou com isso. Quando voltou com Pantalone à central,
Addis já recuperara a sua consciência, arrastando-se até uma poltrona. Pantalone falou
insistentemente com o jovem astronauta.
— Essa é a única maneira de salvarmos Conyers — disse Pantalone, insistente. —
Pense nisso, Lytton. Nenhum dos estranhos deve ficar sabendo quem Staebler-Beer é
realmente.
— Está bem — conseguiu dizer Addis. — Eu entendi.
Staebler-Beer começou a rasgar a sua jaqueta, e colocou-se diante de Pantalone.
— Dê-me alguns socos — exigiu ele. — Eu gostaria de parecer genuíno. Mas não
se exceda. Eu sou mais forte que o senhor.
Pantalone bateu algumas vezes na cara do dabrifano. Do corredor veio uma
confusão de vozes e tropel de passos.
Staebler-Beer sorria.
— Aí vêm nossos salvadores — disse ele, fazendo troça.
15

Mais uma vez Pantalone achou que tinha saparos diante de si, quando os estranhos
entraram na central. Seu pensamento era que poderiam ser dabrifanos, porém Staebler-
Beer mantinha uma atitude que lhe comprovava claramente que não era assim.
Na ponta dos trinta astronautas armados, um homem alto entrou na central da
cúpula. Os estranhos vestiam trajes espaciais, mas tinham tirado seus capacetes.
O estranho alto ficou parado bem perto dos dois saparos e de Staebler-Beer. O
dabrifano tinha recuado um passo. Evidentemente ele queria conseguir que Pantalone
falasse com os recém-chegados.
Pantalone não conseguia desviar-se dos olhares do estranho alto. Os olhos que
estavam fixados sobre ele irradiavam inteligência e calor.
— Eu tenho que prendê-los, por violação da lei de colonização, válida em toda a
galáxia — disse o estranho.
Ele não falava alto, mas parecia acostumado que ouvissem quando ele dizia alguma
coisa.
— Nós não somos dabrifanos, estranho — disse Pantalone. — Somos três
astronautas saparos, que foram aprisionados pelos dabrifanos. Os dabrifanos fugiram
numa espaçonave.
Espontaneamente o estranho pegou a mão de Pantalone e a sacudiu.
— O senhor chegou exatamente em tempo, quem quer que seja — disse Pantalone,
comovido.
— Eu sou terrano — disse o estranho.
Pantalone pôde ouvir como Staebler-Beer gemeu baixinho.
— Nossos especialistas estão fazendo uma busca nesta estação e destruirão todas as
armas — disse o terrano. — O senhor não precisa preocupar-se mais.
Pantalone apertou os lábios. O terrano não podia saber que Staebler-Beer mantinha
preparado o aparelho para a ligação do emocio-raio. O dabrifano não esperaria até que os
terranos iniciassem a desmontagem do irradiador. Inquieto, o saparo perguntava-se como
poderia dar algum sinal aos estranhos.
— Felmer! — chamou o terrano, neste instante. — Eu quero apresentar-lhe três
astronautas saparos.
Um segundo homem em traje espacial aproximou-se. Ele movia-se lentamente,
como se estivesse mergulhado nos seus pensamentos. Depois, entretanto, ele deu um
pulo, rápido como o raio, na direção de Staebler-Beer, levando o dabrifano para o chão
consigo.
— O senhor não precisa preocupar-se — disse o terrano alto para Pantalone. —
Felmer Lloyd é telepata. Ele parece não concordar com o seu amigo.
Quando Felmer Lloyd levantou-se novamente, ele trazia o aparelho transmissor na
mão. Dois outros astronautas mantinham Staebler-Beer em cheque, com suas armas.
— Ele é um dabrifano! — gritou Pantalone.
A terrível tensão a qual ele se vira submetido nas últimas horas, dissolveu-se, e ele
cambaleou na direção de uma poltrona. Um dos terranos e apoiou.
O homem dos olhos grandes sentou-se ao lado de Pantalone e olhou-o com
simpatia.
— O senhor deve ter passado por maus momentos — disse ele, compreensivo. —
Conte-me as suas experiências, depois que se restabelecer.
***
Flaman Pantalone e Lytton Addis há três horas encontravam-se a bordo da grande
astronave dos terranos. Ambos haviam dormido por um longo tempo, e tinham sido
tratados pelos médicos de bordo. Depois tinham contado suas aventuras aos terranos.
Pantalone e Addis ficaram sabendo, dos estranhos, a espantosa História da
Humanidade.
Sobretudo Pantalone ansiava por poder repassar essa História para os outros
saparos. Os estranhos haviam prometido cuidar dos saparos e apoiá-los em outros
projetos de astronáutica.
— O senhor, entretanto, não pode esperar que nós nos ocupemos com seus
problemas políticos — disse o terrano alto para Pantalone. — Eu posso entender que a
sorte de Mous Makalet preocupa o seu coração, mas os saparos terão que escolher o seu
governo, eles mesmos. Bascomb Canton pode ser pouco compreensivo, mas foi eleito de
modo democrático para Arbitro Supremo de Conyers.
— Já irá nos ajudar muito, se o senhor ficar alguns dias em Conyers, depois de nos
levar para lá — disse Pantalone. — Os saparos ficarão sabendo que o seu mundo não é
mais o centro do Universo. Ficarão sabendo que existem inúmeros povos inteligentes,
que em parte já fizeram um progresso bem maior no seu desenvolvimento que nós.
O terrano riu.
— Eu me lembro que nos começos de nosso desenvolvimento, tivemos que lutar
com os mesmos problemas — disse ele.
— O senhor se lembra — repetiu Pantalone, incrédulo. — Qual é a sua idade, afinal
de contas?
O estranho de repente ficou sério. Ele não deu nenhuma resposta a Pantalone, mas
levantou-se e deixou a cabine. Um outro terrano entrou para responder às perguntas dos
dois saparos.
Pantalone e Addis estavam muito tensos durante o voo para Conyers. Eles
regressariam por outro caminho a Conyers, que aquele que tencionavam usar
anteriormente, mas nem por isso o seu regresso seria menos triunfal.
16

Mous Makalet ouviu o barulho da chave e pensou que era o carcereiro que vinha
para trazer-lhe o jantar. Ele não se importava de ficar sob custódias, até o início do
julgamento.
Makalet ergueu, espantado, ambas as sobrancelhas, quando reconheceu o visitante.
— Canton! — disse ele, perplexo. — Está querendo alegrar-se com a visão de um
homem velho na prisão?
Canton dava a impressão de estar acanhado e acossado por alguma coisa. Makalet
sentiu que algo estava errado. Durante a sua curta estada aqui nesta prisão, devia ter
acontecido alguma coisa.
— Não me venha com piadas — disse Canton. — Eu vim para pedir-lhe ajuda.
— Se isso é verdade, quem está fazendo piadas é o senhor — achou Makalet
calmamente.
— O senhor não sabe o que aconteceu — disse Canton apressadamente. — Conyers
mais parece um hospício. Há sete horas atrás uma espaçonave com dois e meio
quilômetros de diâmetro pousou no espaçoporto, e com isso acabou arrebentando quase
todas as torres de controle e o restante das edificações. Por sorte eu já mandara evacuá-las
logo depois da partida da Vanguard.
— Que história inacreditável é essa? — resmungou o ex-Árbitro Supremo.
— Mas ela é verdadeira — insistiu Canton. — E há ainda coisa pior. Nós cercamos
a nave estranha com homens armados. Depois, entretanto, abriram-se as eclusas da nave,
e Flaman Pantalone e Lytton Addis saíram lá de dentro.
— Flaman! — gritou Makalet. — Quer dizer que ele encontrou nossos antepassados
e os convidou para uma visita a Conyers?
Canton escondeu a cabeça em ambas as mãos.
— O senhor está livre — disse ele. — Ajude-me a pôr essa história em ordem. Os
estranhos que vieram com Pantalone e Addis se dizem terranos. Aparentemente nos
salvaram de uma pretendida invasão dos dabrifanos. — Canton aproximou-se de
Makalet. — O senhor tem que me ajudar — disse ele. — Eu não sei mais o que fazer.
— Acalme-se — disse Makalet. — Vamos ouvir juntos o que esses pretensos
terranos têm para nos contar.
***
A última das vinte conferências com a imprensa tinha passado. Bascomb Canton
tinha renunciado. Dentro de duas semanas deviam efetuar-se novas eleições. Uma vez
que Mous Makalet declinou de candidatar-se mais uma vez, o seu partido indicou Flaman
Pantalone como candidato. O outro partido desistiu de nomear um candidato seu.
Dentro de poucos dias a imagem do mundo dos saparos se modificara totalmente.
Os terranos prometeram ao povo em desenvolvimento uma rápida ajuda na construção de
uma frota astronáutica própria. E que eles não faziam promessas vazias os terranos
provaram, deixando em Conyers praticamente tudo que continham os grandes depósitos
de sua nave, especialmente todas as máquinas das quais não precisavam.
No dia 18 de maio de 3.431, tempo standard, os terranos aprontaram a sua nave
para a partida.
Staebler-Beer foi entregue à jurisdição de Conyers. Depois de um retreinamento
psíquico ele devia ser recebido na sociedade dos saparos.
— Afinal de contas — disse Flaman Pantalone, durante a despedida, em tom
conciliador — todos nós somos humanos.
O terrano alto concordou com Pantalone, mas ele abafou um pouco o entusiasmo do
saparo.
— A Humanidade está dispersada por toda a galáxia e até além dela — disse ele. —
Reinos estelares inteiros, todos descendentes de terranos, estão fazendo guerra entre si.
Provavelmente o ideal de uma Humanidade unida no cosmo, jamais se tornará realidade.
— Pelo menos foi feito um começo — achou Pantalone.
— Já houve muitos começos — disse o terrano. — O desenvolvimento desses
planos geralmente fracassava ao encontrarem a ânsia de poder e o egoísmo de indivíduos
isolados. Eles naufragavam diante da inveja e da falta de compreensão.
Pantalone ergueu a mão direita, como se quisesse fazer um juramento.
— Enquanto eu for Árbitro Supremo de Conyers, todos os saparos terão apenas uma
meta: a coesão da Humanidade.
O estranho estendeu a mão para Pantalone. Eles estavam parados na extremidade
inferior da grande astronave, que os terranos chamavam de Intersolar.
— Antes de nos deixar, eu ainda gostaria de fazer-lhe uma pergunta, cuja resposta
talvez lhe pareça pouco importante, mas que para mim é essencial — disse Pantalone.
— Muito bem — disse o estranho. — Pergunte.
— Os membros da tripulação da Intersolar o chamam somente de “Sir” ou “chefe”
— disse Flaman Pantalone. — Estes são os seus nomes?
O terrano riu, e as inúmeras ruguinhas em volta dos seus olhos provavam que ele
era um homem que gostava de rir e que ria com frequência.
— Não — disse ele. — Estes não são meus nomes verdadeiros.
— Eu gostaria de saber o seu nome certo — disse Pantalone. — Pois quero que
todos os saparos o mantenham na sua lembrança.
O terrano disse:
— Eu me chamo Perry Rhodan.

***
**
*

A Intersolar, a nova nave-capitânia de Perry


Rhodan, deixou o mundo dos saparos e voltou para o
Sistema Solar, que está deslocado cinco minutos para o
futuro.
Logo, entretanto, a Intersolar é requisitada
novamente. Trata-se do surgimento dos acalauries, os
terríveis espectros do quarto século.
A história do próximo número da série tem por
título Ufos na Galáxia.
Visite o Site Oficial Perry Rhodan:
www.perry-rhodan.com.br

O Projeto Tradução Perry Rhodan está aberto a novos colaboradores.


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