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AS MARIONETES
DE ASTERA

Autor
HANS KNEIFEL

Tradução
AYRES CARLOS DE SOUZA

Revisão
ARLINDO_SAN
(De acordo, dentro do possível, com o Acordo Ortográfico válido desde 01/01/2009)
Os calendários registram meados de março do ano de
2.432. Desde o dia em que foi executado o Projeto Laurin,
passaram-se cerca de dezessete meses.
Para quem está de fora ou para os não-iniciados, a Terra e
os planetas restantes do sistema-pátrio da Humanidade
pereceram, juntos com o sol, numa formidável erupção
energética.
Os que vivem no Sistema Solar entretanto estão por dentro:
eles foram deslocados em exatos cinco minutos para o futuro,
para que as frotas da coalizão anti-solar topassem com o nada, e
deste modo fosse evitado que houvesse uma luta entre irmãos da
mesma raça.
Perry Rhodan, o Administrador-Geral do Império Solar,
para evitar derramamento de sangue, efetuou, conscientemente,
uma retirada espetacular. Este lance cósmico é parte do Plano
Solar de Quinhentos Anos. A Terra desaparece, para poder
operar na anonimidade.
E isto é amargamente necessário para continuação da
Humanidade galáctica, pois os soberanos dos reinos estelares
isolados movem uma brutal política de força e não recuam diante
de nada.
Além disso, ainda outros grupos bem mais misteriosos fazem
das suas na Via Láctea. Há, por exemplo, Ribald Corello, um
mutante com capacidades fantásticas. Ele faz uso desses dons
contra os habitantes do planeta Astera — e transforma as pessoas
em marionetes...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Norman Yoder — Um homem numa “pequena” máscara.
Gil Delaterre — Comandante da astronave comercial Canis
Venatici.
Joak Cascal — Um ex-oficial da Frota Solar.
Hima Kaszant — Comandante de uma divisão de naves
blindadas.
Major Knud Kunutson — Homem de contato de Perry Rhodan
no planeta Astera.
Masters — O duble do Major Kunutson.
Ribald Corello — Um misterioso supermutante.
1

A Canis Venatici era uma nave esférica, enferrujada e maltratada. O nome da nave,
pintado em letras gigantescas no casco globular externo, estava meio apagado pelo
tempo, e a camada de verniz especial, aplicado a fogo, estava descascando. Nas longas
fileiras de arrebites faltavam formações inteiras, e ao longo das poucas escotilhas havia
largas faixas de óleo queimado, de ácidos que tinham corroído o metal, e rastros
originados por aparelhos de desembarque. Mal ainda podia distinguir-se a insígnia dos
livre-mercadores — a nave e a insígnia eram velhas e corroídas. A cúpula côncava da
região polar superior era quase cega, arranhada e coalhada de pequenas fendas, como
uma coleção de teias de aranha. O nome da nave significava “Cão de Caça”. Não havia
qualquer relação com as condições da Canis Venatici. Podia antes pensar-se num vira-
lata já meio paralítico. Ela voava através do hiperespaço, na direção do seu destino, que
ficava horas a sua frente. Os cinquenta homens desta nave honravam o estado da mesma,
com sua aparência exterior.
A Canis tinha levantado voo em Olimpo, o novo planeta comercial recentemente
aberto ao tráfego, e voava na direção do planeta Astera.
Gil Delaterre e Norman Yoder estavam sentados na cantina da nave. Yoder, um
homem magro de olhos cinzentos e uma jaqueta de couro, de três quartos de
comprimento, toda rebordada de pérolas de vidro, ergueu a sua xícara.
— O chá Habasky realmente só tem algum gosto se o melhoramos com álcool —
resmungou ele. — Nojento!
Delaterre riu, irônico.
A luz do recinto iluminou sua cabeça, com o cabelo branco espesso, que era seguro
acima da orelha esquerda por uma fivela colorida. Por baixo de um nariz de águia havia
um bigode hirsuto. Delaterre parecia um homem jovem que tinha envelhecido
precocemente devido a algum acontecimento surpreendente. A sua maneira de
movimentar-se e a frieza do seu tom confundiu essa impressão novamente. A pesada
arma energética, que brilhava azulada no seu cinturão, enfiada frouxamente atrás do largo
cinto de couro, certamente não dava uma aparência de inocente a este homem. Com uma
voz rouca ele respondeu ao seu hóspede, vestido de forma pitoresca:
— Se eu soubesse que hóspede honorável a minha soberba nave transportaria, eu
teria trazido bebidas caras para bordo. Deste modo, entretanto, o senhor terá que beber o
que eu e a tripulação bebemos.
Yoder sorriu, divertido.
Ele usava botas de cano alto, em cujas laterais estavam enfiadas facas esguias. Por
cima, uma calça de couro preto, não tratado. A mão esquerda estava enfiada numa luva
de couro, também preto, que Yoder não tirara desde o momento em que viera para bordo.
No dedo mindinho desta mão brilhava um anel que chamava atenção, mas visivelmente
barato.
— O que o senhor e a sua tripulação bebem, Gil, ainda acabará por nos matar a
todos, ainda antes de termos desembarcado nossa carga.
Gil enfiou um cigarro comprido e fino na boca, riscou um fósforo comum e acendeu
o cigarro.
— O senhor acha que vamos descarregar esta carga com toda a tranquilidade?
Yoder anuiu.
— Talvez. Ou talvez não. Este é o risco que se tem quando se voa em uma nave
desta, com uma tripulação como a sua. É um milagre que a carga ainda não tenha sido
devorada pelos ratos.
Delaterre retrucou:
— Não há ratos a bordo!
Chateado, o seu interlocutor fez um gesto impaciente e tocou a tecla do
intercomunicador com o indicador de sua mão esquerda enluvada. O alto-falante deu de
si uma sequência de sons esquisitos, enquanto interferências coloridas azuis e amarelas se
ligaram numa padronagem verde. Dessas nuvens surrealistas finalmente surgiu o rosto do
piloto.
— Sim?
Yoder aproximou o rosto do alto-falante. Ele usava costeletas pretas compridas, que
lhe iam até os cantos da boca, e com um corte cesáreo. Na sua orelha direita estava
enfiada uma pérola artificial, que se iluminava em intervalos de quartos de segundo.
— Quanto tempo ainda vamos precisar para chegarmos a esse planeta Muul?
O piloto olhou um relógio de bolso, que retirara do decote da camisa, num barbante,
e retrucou:
— Três horas, Sir.
Yoder respondeu, baixinho:
— Excelente! Neste caso ainda posso tirar uma soneca rápida. Dizem que dormir
deixa a gente bonito.
O piloto — que estava cuidadosamente penteado — disse, cortante:
— O senhor precisa disso, Sir, com a sua aparência?
Yoder sacudiu a cabeça, reprovando, e fixou os olhos cinzentos no comandante da
nave, o capitão livre-mercador.
— Jogue este homem aos ratos, Gil. Ele está muito bem penteado!
O piloto desligou o rádio, indignado.
— Eu lhe digo mais uma vez, Yoder — declarou Gil. — Não há ratos a bordo!
Yoder lançou um olhar à cantina desarrumada, que estava cheia dos traços
característicos que um cozinheiro descuidado, que além de tudo era chefe de carga, e
quarenta e nove outros marinheiros, cabos e astronautas haviam deixado para trás. A
inscrição CANIS VENATICI tinha empalidecido, como no casco esférico. No chão havia
restos de embalagens, principalmente de legumes prontos, desses que é só enfiar no forno
de radar para esquentá-los.
— Uma sociedade que faz seguro para uma nave como esta deve ser maluca, ou
então tem dinheiro demais — observou Yoder, sensatamente, mas com um sarcasmo que
não podia ser deixado de ouvir. — O que é que se diz nos círculos dos livre-mercadores a
respeito de Corello?
— A respeito de quem? — perguntou Delaterre.
— Sobre Ribald Corello, aquele misterioso mutante que torna as estrelas invisíveis.
Gil Delaterre tossiu e respondeu ofegante:
— Todas as centrais do serviço secreto da contra-espionagem solar e da USO
receberam instruções. Eles devem avisar, com a maior urgência possível, quaisquer
acontecimentos misteriosos. Perry Rhodan parece que teve sua atenção chamada para o
mutante.
Yoder apontou para a escotilha, que estava muito aberta, e que deixava ver a
iluminação, em parte apagada, do corredor.
— Vamos para a cabine do comandante — sugeriu ele. — Ali, pelo menos, reina
um mínimo de ordem.
— Está bem — disse Gil.
Minutos mais tarde chegaram ao recinto quadradão, que ficava na terça parte
superior da nave. Uma nave que tinha um diâmetro de cem metros, era tripulada por
cinquenta homens, e estava equipada com um space-jet e uma pequena nave esférica
auxiliar de trinta metros de diâmetro. Nos departamentos de carga havia caixas e
pequenos containers, que estavam amarrados e empilhados em volta das máquinas
especiais, protegidas por espuma de borracha envolvente. Estas máquinas representavam
um capital que valia milhões de solares. Eram exclusivamente máquinas que
funcionavam em bases de módulos de construção. Era possível montar-se, junto aos
motores, uma quantidade de aparelhos adicionais.
Máquinas semeadeiras, colheitadeiras, máquinas para
arrotear e desbravar terrenos duros... e mais vinte outras
utilidades de uso. Num planeta como Astera elas podiam
ser vendidas com grande lucro.
Norman Yoder jogou-se numa das poltronas, cruzou
as pernas compridas e disse, num resmungo:
— Perry Rhodan tem a desagradável sensação de ter
topado com um perigo. Ele continua dominado pela
pergunta: Quem é Ribald Corello, e que capacidade ele
tem, que ultrapasse as de um homem normal?
Gil anuiu, compreensivo.
— Em si — disse ele depois, amassando o resto do
cigarro com o salto de sua bota — a situação no Sistema
Solar e em Olimpo é tranquila, pelo que se ouve por aí,
como um pobre livre-mercador.
— Sim. O grande comércio e a economia solar estão
afinados. No momento não há razão para preocupações.
Mas aqui eu estou pensando em povos que ainda não têm
nenhuma noção dessa nova estratificação.
Delaterre riu, rapidamente.
— Mesmo assim isso não o impede de ver o planeta
Olimpo como o maior local de transbordo de cargas em
toda a galáxia, o que, afinal de contas, ele é realmente.
Yoder apontou para a vista panorâmica que, meio
desenhada e meio feita com fotografias, tomava toda a
parede traseira da cama do livre-mercador. Ela mostrava o continente com o porto em
forma de estrela.
— O que ainda nunca foi tentado — disse ele — com Olimpo aconteceu: dentro de
poucas semanas conseguiu-se elevar um planeta desconhecido até então, no porto de
comércio número um.
Gil Delaterre puxou a arma energética do cinturão, ajeitou a fivela num outro furo e
cruzou as mãos sobre o estômago.
— Tudo isso nossos inteligentes superiores conseguiram fazer maravilhosamente
dentro do quadro do Plano de Quinhentos Anos — observou o comandante.
Yoder anuiu.
— De forma maravilhosa! — disse ele, rindo alegre.
Na mesa baixa, cujo pé central ficava fixado ao chão, havia mapas e folhas de
plástico, com muitas anotações feitas a mão. Norman Yoder girou a cadeira. Depois o
homem esguio pegou os mapas para estudá-los.
— As legitimações e os papéis da Canis Venatici estão em ordem? — perguntou
Yoder, irônico, e repuxou a cara morena.
— Na medida em que se pode esperá-lo de um livre-mercador, os papéis estão
completos — disse Delaterre. — O senhor gostaria de estudá-los, Yoder?
O outro sacudiu a cabeça.
— O que é que o senhor sabe de Knud Kunutson? — perguntou ele depois de algum
tempo.
Gil disse:
— Ele é o chefe da Central-Solar em Astera. Um homem confiável, pelo que me
disseram.
— O quanto eram urgentes, as notícias?
Gil respondeu, irritado:
— Escala um de urgência; é o que o senhor sabe desde o começo.
Yoder sorriu na cara de Gil e retrucou baixinho:
— Eu só queria me certificar de que o senhor não deixou de perceber toda a
seriedade dessa responsabilidade.
— Eu? — resmungou Gil. — Eu certamente que não. Ele acentuou a segunda
palavra da sentença, para que o outro não tivesse dúvida do que queria dizer.
Ele silenciou e aprofundou-se novamente nas anotações.
Era inacreditável que um livre-mercador possuísse dados tão detalhados sobre um
planeta praticamente ainda não colonizado. Astera pertencia ao Sistema Muul. O planeta
movia-se como segundo em torno do sol — era um sistema de três planetas. O planeta
mais próximo ao sol, nestes documentos, era descrito como um planeta do tipo Mercúrio.
Quente e sem rotação própria visto do sol. O terceiro planeta era distante demais, e
portanto ficava fora da órbita ecológica, sendo gelado. Um tipo Plutão.
— Um mundo muito simpático, não é verdade? E com uma enorme capacidade de
desenvolvimento! — disse Gil Delaterre.
— Qual?
— Astera, naturalmente. Do tamanho da Terra, ou quase do tamanho da Terra...
aliás, é curioso como os mesmos sistemas, que estão afastados do Sistema Solar em
17.406 anos-luz, ainda se atem às normas que foram estabelecidas há muitos séculos
atrás.
Norman ergueu os olhos, admirado.
— O que é que o senhor acha curioso nisso, Gil? — perguntou ele.
— Que esse tipo de noções se mantêm teimosamente.
Norman bateu com os nós dos dedos num rápido tamborilar sobre a mesa. O
plástico muito fino produziu um som esquisito.
— Talvez exista alguém que cuida para que este tipo de noções também não se
extingam, mesmo nos próximos séculos. Quem sabe?
Gil anuiu significativamente.
— Sim — disse ele — quem sabe!
Quanto mais se aproximava o momento em que a nave sairia do hiperespaço, tendo
que frear à velocidade da luz a uma grande distância de Astera, mais aumentava a tensão
dos cinquenta homens a bordo.
Norman murmurou:
— Diâmetro onze mil e vinte quilômetros, um centésimo de gravidade abaixo da
norma terrana, a temperatura média em todos os continentes, verificada num ciclo de dez
anos, é de 39,6 graus centígrados; o planeta gira em vinte minutos a cada vez sobre o seu
eixo. Um mundo bastante quente, muitas florestas virgens, grande quota de umidade e
vapor d'água na atmosfera equatorial. Astera faz parte do âmbito de influência da
Irmandade Tarey, Vinte milhões de habitantes, dos quais mais de oitocentos e cinquenta
mil na capital, Silomon. É ali que vamos pousar, Gil?
Gil fez um gesto indeciso com a mão.
— Ali vamos tentar pousar. Sim. E agora eu lhe explico tudo pela segunda vez.
Como é, aliás, que aconteceu que o senhor acabou se apresentando como astronauta e
agente comercial? Herdou esse título?
Norman sorriu sarcástico e retrucou secamente:
— Mais ou menos. Herdei, sim.
— Pois então!
Podia-se ouvir nitidamente o sinal de exclamação atrás da última palavra.
Astera era um mundo exterior, o planeta fora colonizado há apenas poucos anos
atrás, e por isso o comércio com máquinas de tratamento da terra, de todos os tipos, mas
de um só sistema, era uma coisa que prometia sucesso. Além de Silomon, a povoação
central, existiam ainda outras cidades, mas as mesmas estavam espalhadas por todo o
planeta, e eram totalmente insignificantes para contatos com astronaves, e com isso com
outros mundos. O que acontecia, acontecia em Silomon.
Um som estridente interrompeu os pensamentos do homem de casaco de couro.
Gil Delaterre ligou o intercomunicador e resmungou:
— Delaterre. O que há?
O piloto da nave desleixada ergueu dois dedos e traçou uma linha com a mão, pelo
centro da imagem.
— Mais duas horas, Gil!
— Obrigado. O senhor ouviu?
A tela escureceu, os alto-falantes fizeram um estrépito.
— Naturalmente. Eu não sou surdo!
— Às vezes parece.
Por uma última vez ele repassou o seu plano.
O Major Knud Kunutson era chefe da central do serviço secreto, pequeno em
número, mas muito ativo, em Astera. Ele fazia parte dos agentes da Contra-espionagem
Solar, que estavam perfeitamente camuflados, e que não podiam se expor. Se eles fossem
reconhecidos uma vez, isso custava-lhes a vida, ou pelo menos eles estavam liquidados
de uma vez por todas para este planeta e muitos outros. Kunutson não tinha muita carta
branca, mas o seu equipamento técnico era muito vasto. Cada central do serviço secreto
possuía um equipamento deste ainda que parecesse muito insignificante.
E justamente Knud Kunutson tinha reagido.
Ele mandara, escondido na carga de uma nave comercial, que era uma nave-correio
disfarçada, um aviso de alarme. Esta era a razão por que Perry Rhodan pessoalmente
avocara o assunto — os acontecimentos com o misterioso supermutante Ribald Corello o
tinham tornado cauteloso e muito atento.
O que estava sendo tramado?
Para saber disso exatamente, e poder agir no próprio local, Norman Yoder entrara
no circuito. De Astera e dos misteriosos acontecimentos ali, o separavam ainda duas
horas.
— Yoder?
Norman abriu um olho e piscou para Delaterre.
— O quê?
— O que realmente está acontecendo em Astera?
Yoder sorriu novamente, depois disse:
— Eu não sei mais do que aquilo que acabei de ler para o senhor. Em Astera há
andorinhas. Elas são chamadas darsobirds. Elas têm duplamente o tamanho das
andorinhas terranas, e dizem que, de acordo com Kunutson, ultimamente têm
demonstrado um comportamento estranho. O serviço secreto verificou, pelo menos foi o
que eu li, que uma grande parte, mas um número desconhecido desses grandes pássaros
parecidos com andorinhas, são perfeitas imitações-robôs. Dizem que os pássaros atacam
os habitantes do planeta com raios. Não era possível, escreveu Kunutson, distinguir as
imitações dos pássaros verdadeiros. Além disso, dizia que diversas pessoas têm
comportamento estranho. O major tem a impressão de que há forças desconhecidas em
ação. Oficiais de alto escalão em Astera, o Exército, o governo e técnicos e cientistas
importantes, ou seja, tudo pessoas que mantêm posições-chave, estariam se comportando
como marionetes.
— Fantástico — achou Delaterre, calmo — é que, em vista dessas notícias, o senhor
continua tão calmo!
— O perigo faz parte de minha vida — observou Yoder, secamente.
— O senhor tem razão para esta suposição?
— Uma razão muito boa — disse Yoder.
— Mais alguma coisa?
— Sim. Os paradetetores em Astera estão medindo uma frente de ondas
hipnossugestivas que está ficando constantemente mais forte. Essa notícia já tem treze
dias, e depois disso ninguém mais ouviu mais nada do Major Knud Kunutson.
— E se não está bêbado, ele ainda hoje vai escrever uma segunda mensagem —
concluiu Delaterre. — Levante-se, Yoder, o seu equipamento parece estar pronto!
Ele apontou para um homem da tripulação da nave, que aparecera na entrada da
cabine.
— O negócio está pronto, Gil! — disse ele. Delaterre levantou-se e murmurou:
— Frente de ondas... de caráter hipnossugestivo... paradetetores... quando é que essa
gente do serviço secreto finalmente vai aprender a se expressar compreensivelmente?
Os homens deixaram a cabine do comandante e foram atrás do livre-mercador, que
ia expressamente devagar pelo corredor, na direção do hangar da nave auxiliar globular.
Rhodan estava preocupado.
A bordo dessa nave encontravam-se quarenta e nove homens, com Yoder eram
cinquenta, que além de seu ofício como livre-mercadores ainda traziam consigo dons que
eram surpreendentes. Psicomímica era um desses dons... total camuflagem que aguentava
qualquer exame facilmente. Os homens pareciam legítimos livre-mercadores. Rhodan
desistira de pôr em uso a melhor arma da Terra: os mutantes. Sabia que cada mutante
imediatamente seria rastreado por Corello, e liquidado no ato.
Agora eles estavam parados ao lado da nave auxiliar. Yoder examinou o
equipamento.
— Gil!
— Sim, Norman?
— Eu me ocupo de tudo isso aqui. Volte para a central e chame o espaçoporto de
Silomon. E ligue o intercomunicador para cá.
Os homens trocaram um rápido e forte aperto de mão.
— Boa sorte, Norman.
Yoder anuiu e sorriu, quase imperceptivelmente.
— É algo de que vou precisar, Gil!
Com passadas rápidas, Gil Delaterre desceu para a central. Ele sabia que Norman
Yoder voava ao encontro de uma missão difícil, que poderia matá-lo. Ele não lastimava o
agente, mas também não o invejava.
Segundos mais tarde, Astera respondeu, como se por lá tudo estivesse na mais
perfeita paz.
A missão de Yoder teve início...
2

Três homens eram suficientes para manobrarem a nave auxiliar.


Norman Yoder meteu-se no traje de combate, ligou os diversos sistemas de
alimentação e escutou, pela comunicação de bordo, como Delaterre negociava com o
espaçoporto de Astera. Pelo hiperrádio o convidavam, em tom amistoso, a pousar e
oferecer suas mercadorias.
Delaterre respondeu que havia máquinas de tratamento de solo, com muitos
aparelhos adicionais a bordo.
Esta carga poderia ser-lhes muito útil, foi a resposta.
Yoder ficou desconfiado.
Enquanto acenava para os três homens parecendo aventureiros, ele embarcou nos
recintos de carga da nave auxiliar.
— Engraçado — murmurou ele, fechando com o zíper magnético o capacete do
traje. — Normalmente os povos livres que pertencem a um grupo tão solto como a
Irmandade Tarey, geralmente não são muito amistosos em relação aos livre-mercadores e
terranos. Bem... talvez eles precisem realmente destas máquinas.
Um leve movimento giratório passou através da Canis Venatici.
Uma vez que o rastreamento fora efetuado, o planeta fora determinado exatamente à
sua frente. No mesmo segundo em que a nave comercial atravessou para o espaço
normal, a nave auxiliar soltou-se da nave-mãe e tomou o curso de Astera.
Yoder estava parado, esperando, a mão sobre o comutador que faria deslizar para o
lado a pequena escotilha de carga. No videofone diante dele desenharam-se as imagens,
que uma telecâmera de funcionamento excepcional retransmitia. O porto de Silomon.
A cidade ainda era mais provisória que uma povoação normal. Faltava-lhe a
previsão e o planejamento das autoridades coloniais terranas. As edificações que
rodeavam a praça central, tinham todos os estilos imagináveis. Todas as formas algum
dia existentes de construção, podiam ser vistas. Balcões, torrinhas e muros, muito verde e
um tráfego intenso, que se congestionava nos cruzamentos. Dominantes eram os pesados
planadores de transporte que deixavam a cidade.
— Aqui fala Norman Yoder — disse ele. — Quantas naves se encontram no
espaçoporto?
A espaçonave aumentou sua velocidade aproximando-se mais, a imagem ficou mais
nítida e a câmera efetuou um giro.
— Exatamente vinte e quatro naves, Sir!
Yoder perguntou novamente:
— Há unidades da Frota ou de outras potências entre elas?
A resposta veio imediatamente, e o piloto barbudo da nave auxiliar ampliou a
imagem de uma única nave.
A mesma era iluminada pelos potentes holofotes dos mastros do porto. Comandos
de robôs e aparelhos pesados estavam justamente tratando do descarregamento. Sobre a
cidade e o espaçoporto estendia-se a noite.
— Não. Somente cargueiros levemente armados. Eles vêm das mais diversas
regiões da Via Láctea.
Yoder estava com os sentidos e os músculos tensos, forçando-se a não puxar a
alavanca da eclusa ainda. A nave auxiliar agora estava afastada apenas poucos
quilômetros do círculo luminoso e descia sem parar.
— Será que eles nos rastreiam tão exatamente... — começou o piloto, pelo
intercomunicador.
— Eu não sei! — retrucou Yoder. — Vamos esperar. Ele ouviu uma conversa em
tom baixo entre o controle do porto e a nave. A Canis Venatici foi dirigida a um
determinado número do porto, que estava iluminado, dentro da escuridão — um número
vermelho no meio de um piso de cimento armado amarelo-acinzentado.
Um barulho leve e um solavanco passaram através da construção metálica da nave.
Uma voz disse, concisa:
— Baixar trem de pouso.
Mais alguns segundos se passaram. Yoder puxou a alavanca para baixo e viu,
através da primeira abertura, que a pequena escotilha de carga se abria na direção da beira
do espaçoporto. Ele respirou aliviado, deixou o capacete espacial aberto, e apoiou a mão
sobre a instalação de comutação. Um aperto do dedo ativava o agregado de voo, um
segundo ligaria o campo artificial de gravidade.
Agora, quase todos ao mesmo tempo, os apoios de pouso com suas largas sapatas
tocaram o cimento do espaçoporto e ao mesmo tempo os alto-falantes entraram em
atividade, vibrando muito, distorcidos e estridentes.
Yoder entendeu somente algumas palavras.
— ...levantar voo novamente, imediatamente, Canis! ...existe grande perigo...
População está... dominada... hipnótica e sugestivamente... Perigo. Repito... Dêem partida
imediata...
A um só tempo, Yoder girou o botão dos alto-falantes para trás, ligou o campo
antigravitacional, e sentiu que lentamente se elevava do chão do recinto de carga. Ele
segurou-se com uma mão e gritou no intercomunicador:
— Ayed, dê partida imediata! De volta para a Canis. Entre na eclusa e dê partida.
Vamos! Isso é uma ordem!
— Entendido!
Enquanto Yoder colocava a aparelhagem de voo em funcionamento e se dava um
empurrão, ainda ouviu quando as máquinas da nave auxiliar trovejaram. Com um
solavanco fundo, com o qual a nave pousara, agora era novamente lançada para o alto. As
máquinas trabalhavam em carga máxima — quando Yoder, na proteção da escuridão,
voou por cima do porto tentando, o mais depressa possível, sair do alcance dos canhões
energéticos, e a nave subia em velocidade total. Yoder escutava as conversas pelo rádio.
Os homens a bordo enfiaram seus pesados trajes de combate e se garantiram através da
ligação dos seus escudos de proteção energética individual. Os raios de fogo ficaram mais
finos e menores, e finalmente a nave pairou para o alto, um pontinho luminoso, que agora
passou a um curso de violento ziguezague. Os livre-mercadores usaram de todos os
truques, para não serem atingidos pela defesa planetária.
A luz tornou-se mais fraca.
Yoder encontrava-se por cima de uma língua de terra verde, que praticamente se
estendia até a borda do espaçoporto e que se misturava, dentro de alguns quilômetros,
com a selva dessa região. Yoder achou ter reconhecido a voz de Kunutson. Ele acionou a
alavanca de pilotagem, deitou-se de costas e deixou-se derivar. O ponto luminoso
continuava voando no seu curso desordenado, e agora certamente estava afastado
algumas centenas de quilômetros. Um segundo ponto aproximou-se de lado: a
espaçonave de carga.
— Primeiramente esconder-se, depois negociar! — pensou Yoder em voz alta,
aumentando a velocidade.
Como um pássaro enorme ele pairou para o norte sem ser notado, negro na
escuridão, somente uma sombra diante das estrelas. Antes de poder procurar a central da
Contra-espionagem Solar ele tinha que se familiarizar com as condições existentes aqui.
E isto tinha que acontecer o mais depressa possível.
“Uma sorte que fomos tão cautelosos!”, pensou Yoder, dirigindo-se para uma
enorme árvore que surgiu na selva, depois de colocar-se novamente em posição de voo.
Ele freou e agarrou-se firmemente num galho grosso. Depois desativou os
aparelhos. Desde a partida da nave auxiliar tinham se passado exatamente trinta
segundos.
Yoder segurou-se e olhou fixamente para o céu noturno. O ponto luminoso ficou
menor, mas ainda era visível. O piloto da nave auxiliar voava com a maior velocidade
possível e parecia saber exatamente em que perigo ele se metera. Depois apareceu, no
lugar onde há pouco ainda se vira o pontinho diminuto, um relâmpago luminoso maior,
que se alargou em frações de segundos para um sol em miniatura, de cor branco-cal,
azulada, mostrando a estrutura característica de explosões atômicas. Yoder tinha
esperanças de que os três homens tivessem desembarcado antes, como era previsto numa
missão planejada destas, afastando-se com suas aparelhagens de voo, para serem
recolhidos depois pela Canis Venatici.
Mas ele não tinha certeza disso.
Lentamente aquele pequeno sol transformou-se num véu de gases ardentes, difuso,
que acabou se diluindo e depois sumiu. A defesa planetária tinha derrubado a nave
auxiliar de uma nave comercial pacífica, que ela mesma identificara como nave
comercial. Sem aviso prévio... e isso era assassinato premeditado.
“Inimaginável, o que teria acontecido se a própria Canis tivesse pousado!”, pensou
Yoder, e agora tinha certeza absoluta de que aqui em Astera estavam acontecendo coisas
que não eram nada normais.
Ele ligou sua aparelhagem de rádio. E lembrou-se exatamente do canal, no qual ele
captara o aviso da nave auxiliar. Ele executou essa sintonia, e apertou o diminuto alto-
falante no ouvido. Mas somente escutou o distante sibilar de estática. Ninguém irradiava
nesta onda. Lentamente ele girou o condensador adiante. Captou fragmentos de
transmissão do rádio do espaçoporto, uma estação local, a conversa de uma central com
um comando externo e algumas mensagens cujo sentido ele não entendeu. A central do
serviço secreto entretanto não estava mais transmitindo. Ela via a sua tarefa terminada,
com a tentativa da partida da nave, pelo menos por enquanto, e naturalmente não queria
ser rastreada. Nas condições reinantes isso significaria a morte dos homens que
ocupavam a mesma.
— Está bem! — resmungou Yoder. — Portanto, não há jeito de uma mensagem de
rádio sobre a situação presente. Por isso vamos tentar nos aproximar da capital sem
sermos vistos.
Ele trouxe a sua memória o mapa desta parte do planeta. Rodeado de uma massa
confusa de desertos de areia, pântanos salgados e montanhas de altura mediana,
encontrava-se aqui, na linha de intersecção dos dois hemisférios, um pedaço de selva em
forma de L. A vertical desse L tinha quinhentos quilômetros de comprimento, a
horizontal pouco mais de trezentos. A largura desta faixa angular tinha, no seu lugar mais
estreito, duzentos, e, no seu mais amplo, trezentos quilômetros — medidos
aproximadamente. Esta faixa de terra acomodava o espaçoporto e a colônia maior, na
parte horizontal do ângulo, separados por cinquenta quilômetros de selva e ligados em
ambas as direções por uma pista de planadores com quatro vias, que serpenteavam
suavemente através das florestas, e com quatro pontes e uma construção de cimento e
aço, que venciam um vale sem água.
Yoder encontrava-se agora na parte interior do joelho norte entre as ruas retas, a
cerca de vinte quilômetros de distância do espaçoporto e distante outro tanto da cidade.
Se ele agora voasse em linha reta para o sul, logo toparia diretamente com a estrada de
ligação, e lentamente se esgueiraria, com muito cuidado, na direção da cidade de Silomon
Norman Yoder desligou o aparelho de rádio, depois de mais uma vez ter escutado
em todas as frequências. Depois orientou-se pelas luzes do espaçoporto, e saltou do
galho, dando-se um empurrão. Com cerca de quarenta quilômetros horários ele voou
lentamente para o sul, sempre atento para ficar por entre as cúpulas das árvores. Vapor e
neblina subiam por entre as árvores. Yoder sentiu que começava a suar e elevou o
impregnador do aparelho de ventilação do pesado traje de combate.
Quando ele viu o holofote do primeiro planador, procurou um lugar, onde as árvores
eram menos densas em número, e lentamente pairou para baixo, com muito cuidado.
Segundos mais tarde a selva o envolvera.
***
Um ruído surdo encheu a noite.
Parecia as vozes murmurantes de muitas pessoas, além do tape-tape dos pés no
cimento riscado de branco da estrada. As quatro cantoneiras eram ocas, munidas de
luminárias, e cobertas de plástico. As duas pistas cortavam os muros escuros da selva
espessa como uma fita luminosa, com as árvores subindo a poucos metros junto da luz. A
zona entre a beira da estrada e os troncos das árvores era coberta de capim alto e arbustos.
No ar havia ainda, adicionalmente ao murmúrio e tape-tape, o som de respirações e o
zunido de rápidas batidas de asas.
Cautelosamente, para não causar ruídos, Norman Yoder passou através das cortinas
grossas de cipós entre dois troncos de árvores, passou a mão no rosto para afastar alguns
insetos, e deu três passos em frente. Ele parou a respiração, e sua mão pegou
instintivamente a coronha de sua arma, metida no cinturão. O metal irradiava um frescor,
cujo efeito tranquilizador era apenas relativo — em vista do que Yoder estava vendo.
Cerca de trezentas pessoas.
Lentamente o seu olho movimentou-se da esquerda para a direita.
Em grupos de mais ou menos três pessoas, de todas as idades, elas passavam por
ele, a cerca de trinta metros de distância. O que primeiro chamou a atenção de Norman
Yoder, era que aquelas longas filas se movimentavam de uma forma nada natural. Davam
passadas rígidas. Os trezentos homens e mulheres — poucas crianças havia no meio deles
— faziam movimentos como marionetes bem manipuladas. Yoder olhou melhor. As
marionetes olhavam fixamente para o oeste, na direção da capital. Deste modo elas
passavam, como sombras. Ninguém as vigiava, ninguém as tangia para a frente.
Os últimos grupos desapareceram, e por um instante a faixa larga da estrada ficou
vazia, branca e quieta à luz das luminárias laterais, meio encobertas. Uma sombra
falciforme varreu rapidamente por cima da largura da pista e depois subiu novamente,
logo acima da beira, sendo tragada pela escuridão. Yoder ficou muito quieto e
praticamente fundiu-se com o tronco da árvore, no qual se segurava.
— Isso foi um pássaro? — pensou ele em voz alta.
Os ruídos de passos e estes zunidos estranhos, parecendo murmúrios, perderam-se à
direita, e os mesmos ruídos vieram da esquerda, tornando-se mais fortes. Sombras
apareceram na pista, e as primeiras passadas de um outro grande grupo se aproximaram.
Também este grupo era confuso, movimentando-se como robôs imperfeitos. O olhar,
pelo que Yoder podia determinar, era fixo. Estas pessoas pareciam hipnotizadas. E agora
ele também pôde distinguir o murmúrio — era a triste tentativa de uma conversação. As
marionetes falavam consigo mesmas e passavam lentamente, na velocidade normal de
gente marchando, mas sem passo uniforme, quase tropeçando e preguiçosamente, como
se houvesse ali uma força invisível que as puxava meio sem e meio por sua vontade, na
direção da capital Silomon.
E novamente apareceu aquela sombra em forma de foice.
— Pássaros-darso?
A agente murmurou muito baixinho e olhou rapidamente para a outra parede da
selva, separada dele pela largura da pista de planadores. Um veículo de carga,
pesadamente carregado, ultrapassou as pessoas, em alta velocidade.
À luz dos holofotes, Yoder viu os pássaros.
Eles voavam em voltas e espirais por cima das pessoas e praticamente as envolviam
do ar. Yoder contou cerca de trinta pássaros, mas ele poderia ter errado na contagem, já
que os bichos se movimentavam muito depressa. Ou não eram bichos?
As gigantescas plantas trepadeiras, nas
quais a luz lateral da pista se refletia
facilmente, o trançado quase sem lacunas de
uma massa de plantas parecidas com hera,
um paredão sem fim de verde e de plantas
exóticas, não ofereciam um bom fundo para
uma observação da cena. Yoder
movimentou-se mais uma vez alguns metros
para fora daquela sombra impenetrável, mas
repentinamente teve sua atenção desviada.
Naquela massa de pessoas, surdamente
trotando adiante, de repente houve uma
movimentação inesperada.
Um homem grande, forte, jogou-se
lateralmente para fora do grupo de pessoas,
correndo com a velocidade do raio na
direção dos altos capins, e com um salto
gigantesco saltou por cima da borda
iluminada da estrada. Ele conseguiu chegar
ainda a três metros de distância.
O pássaro parecido com uma
andorinha que lhe estava mais próximo,
interrompeu o seu círculo, girou sobre si
mesmo e atirou-se sobre o homem. Quando
aquele corpo escuro, falciforme, ainda
estava longe uns três metros do homem
tropeçando e correndo, uma língua luminosa, brilhando azulada, foi atirada na direção da
nuca do homem.
O fugitivo parou, como se alguém o tivesse golpeado com um soco.
Yoder estava com a arma na mão, mas dominou-se e continuou esperando.
O pássaro voou novamente para o alto e aproximou-se do grupo do meio dos
homens marchando, como se nada tivesse ocorrido. Quando ele alcançou as pessoas,
começou o grito longo, espichado. O homem rolou pelo chão, batendo furiosamente os
braços a sua volta e gritou... gritou.
Era menos um grito de dor e mais um de violenta raiva por uma tentativa de fuga
malsucedida — como se alguém tivesse de conformar-se em estar decididamente perdido.
O crânio, o homem que gritava mantinha num ângulo pouco natural, puxado para as
costas, como se tivesse uma paralisia do pescoço. Yoder recuou novamente para a
proteção da escuridão e esperou.
— Portanto, tínhamos mesmo razão — murmurou ele, e o desejo de acender um
cigarro ficava cada vez mais forte.
Ele lutou contra este desejo do mesmo modo que lutava com sucesso contra as
moscas e mosquitos que voavam a sua volta sem parar. Ele não ousava ligar o seu escudo
protetor. Temia ser rastreado.
As pessoas desapareceram novamente atrás da curva. Yoder viu nitidamente,
quando olhou atrás das últimas, que as suas nucas mostravam uma mancha azul bem
visível.
— Pássaros que atiram raios azulados, homens gritando e marionetes murmurantes!
Parece mesmo que já era tempo de eu aparecer aqui em Astera — observou Yoder para si
mesmo, e continuou esperando.
Agora não havia mais pássaros no ar, mas ainda se encontrava diante dele, a dez
metros de distância, caído no capim alto, o homem que tinha uma tentativa de fuga
frustrada atrás de si. Os seus gritos tinham emudecido, só de vez em quando ele
estremecia.
Yoder esperou vinte e cinco minutos.
Depois ele viu, vindos da esquerda, os holofotes que tateavam através de uma curva
longa, iluminando e tornando visíveis, partes isoladas da floresta.
Yoder continuou esperando.
Um silêncio assustador o envolveu, um silêncio espreita-dor, em que tudo podia se
esconder. Todo tipo de perigo, invisível, rápido e mortífero.
E então o pesado planador de passageiros tinha chegado perto.
Ele estava cheio de gente, colonos de Astera. Novamente havia adultos de todas as
idades, e somente poucas crianças ali. Yoder inalou forte o ar, quando sentiu o impulso
que evidentemente vinha dos pássaros-darso. Era uma radiação fortemente hipnótica, que
os pássaros emitiam.
Somente um impulso.
Ele era forte e conciso, não colocado em palavras, mas corporificava uma única
noção:
Obediência!
O planador passou rapidamente. Os darsos, semelhantes a andorinhas, por cima dele
e atrás se afastaram para a esquerda. O agente esperou outros vinte minutos. Agora a vida
voltou ao homem que tentara fugir. Ele levantou-se, hesitante, apoiou-se nos cotovelos e
fez um esforço para levantar-se. Depois sacudiu a cabeça e olhou na direção de Yoder.
Mas mesmo que tivesse sido dia claro, ele não poderia ver Yoder...
Os seus olhos estavam vazios.
Eles olhavam fixamente em frente. O olhar do homem era obtuso, e na sua nuca
podia ver-se também a grande mancha azul, que chegava-lhe até as orelhas. O homem
agora estava parado sobre pernas inseguras; respirou fundo e se virou. Como um
autômato, sozinho e não vigiado por qualquer pássaro-darso, ele caminhou na direção da
cidade. Sacudindo ligeiramente a cabeça, Yoder ficou olhando atrás dele. Ele agora
esperou por mais uma hora, e desde o planador de passageiros ninguém mais passara por
ali. Somente um planador passara uma vez por cima do corte da floresta virgem, a toda
velocidade e com as luzes abaixadas.
O que significava aquele impulso?
— Obediência — murmurou o agente, aprestando-se a deixar o chão da floresta. —
Quem deve obedecer?... isso é claro. As pessoas deste planeta. Mas a quem? E por quê?
Ao contrário das marionetes, ele não precisava obedecer a esta exigência hipnótica,
pois a sua mente era imune a esse tipo de ordens. Norman Yoder estava estabilizado
contra qualquer influência de radiações parapsíquicas, ou suas consequências. Qualquer
influência hipnossugestiva ou de qualquer tipo paramecânico não podiam prejudicá-lo.
Ele levantou rapidamente a alimentação de oxigênio do pesado traje, que dificultava
seus movimentos, limpou o suor da testa, e olhou para as estrelas. Não lhe era claro se
devia ainda esperar ou não. Ele ainda tinha tempo. A noite durava pelo menos nove horas
ainda.
Este homem tinha sido controlado pelos pássaros, mas pôde fugir rapidamente.
Então um dos misteriosos raios azuis o havia atingido e ele se transformara numa
marionete total.
Portanto, somente o impulso hipnótico não podia ser tão forte que influenciasse
todos os atingidos.
Todo mundo, de uma só vez, não poderia ser transformado, com isso, numa
marionete.
Portanto, somente pessoas isoladas...
“Evidentemente as forças desse transmissor são limitadas”, pensou Yoder.
Pessoas, especialmente as de grande força de vontade, podiam defender-se contra o
influenciamento e eram submetidas a um tratamento especial, que se mostrava na mancha
azul.
Novamente o agente solitário sentiu uma influência da vontade.
— Submeta-se ao Poderoso...
Norman Yoder sorriu, irônico.
— ...deponha as armas!...
Yoder deu uma ligeira risada.
— Era só o que ainda me faltava! — resmungou ele.
— ...dirija-se à cidade para a manifestação de gratidão... imediatamente...
imediatamente...!
— Imediatamente, é claro! — disse ele.
Ligando o campo antigravitacional artificial, ele neutralizou a gravidade do planeta
Astera, e voou cuidadosamente e devagar através de cipós, folhagens e galhos para o alto.
Parou a uma altura de cem metros, orientou-se pela fita iluminada da estrada, e ligou o
seu aparelho de voo. A uma velocidade de mais ou menos quarenta quilômetros por hora
ele voou na direção oeste. O vento do voo refrescou o suor no seu rosto, e Yoder viu,
muito à sua frente, as primeiras luzes de Silomon.
As estrelas por cima dele soltaram de dentro do negror, tornando-se nítidas, duras e
estranhas, como a corporificação dos perigos, na direção dos quais o agente solitário
agora estava voando. Os seus três camaradas tinham perecido, tinham conseguido salvar-
se — ou tinham se acabado, junto com a nave auxiliar, dentro da nuvem radioativa?
Yoder sentiu a amargura subir dentro dele, e depois escutou novamente aqueles
impulsos.
3

— ...Venham para a capital... depressa... depressa..!


As luzes se tornaram mais nítidas e mais claras, e o halo leitoso por cima da enorme
cidade se diluía, quanto mais Norman Yoder se aproximava. A cidade tinha crescido
organicamente em volta de uma praça redonda, mas a mesma não tinha qualquer
imaginação construtiva. Tinham construído ruas que saíam em forma de estrela, e quando
a cidade se estendera o suficiente, puxaram outro círculo de ruas em volta do centro.
Entre os espaços redondos, as retas e as curvas, ficavam os edifícios da cidade. Yoder
reconheceu as formas duras, tecnicamente bonitas de prédios novos de influência terrana,
viu as ameias de castelos, que pareciam ter se originado na Idade Média, e outras formas
muito variadas: redondas, cubistas, bizarramente encaixadas, cimento armado e pedra de
cantaria, nos meio pesados trailers de moradia, casas pré-fabricadas e cabanas de telhados
de zinco. Por toda parte tinham deixado de pé partes isoladas da selva, que faziam
daquele triste conjunto de falta de formas, naqueles estilos variados, uma imagem
relativamente unificada: edificações em extensas áreas verdes.
— ...obedeça ao Poderoso...!
Yoder anuiu.
Quanto mais ele se aproximava da cidade, mais fortes e mais duras ficavam as
frentes sugestivas. Elas pareciam irradiadas por uma única estação, como ondas de rádio,
que, além do mais, não parecia estar funcionando sem problemas — a intensidade dos
impulsos transmitidos ininterruptamente variava. Já estava claro para Yoder que as vinte
milhões de pessoas do planeta Astera deviam ter sido escravizadas. O mutante Corello
estaria por trás dessa ação diabólica?
— Devagar! — disse ele, para si mesmo. — O que era mais urgente?
Os pássaros-darso eram passarinhos legítimos, que tinham sido treinados e
equipados com alguma aparelhagem técnica — ou tratava-se de imitações?
— ...depõe todas as tuas armas e vem... vem...!
Yoder decidiu ocupar-se em primeiro lugar com estes pássaros misteriosos.
Chegado à borda da cidade, ele deixou-se baixar para uma árvore, olhou
rapidamente o relógio e verificou que lhe restavam ainda praticamente dois terços da
noite para agir. Ele sintonizou na sua aparelhagem de rádio o comprimento de onda, na
qual se anunciara o centro do serviço secreto, durante a tentativa de pouso, e olhou em
volta. Não muito longe dele, uma fila de pássaros dormiam num galho comprido e seco.
Eles pareciam darsos. Cautelosamente Yoder sacou sua arma energética, deixou-a
engatilhada, e examinou algumas comutações e botões no cinturão do seu traje de voo.
— ...vem... vem...!
Ele podia ligar dois efeitos com uma ação. Dentro de poucos segundos tentaria uma
rápida transmissão de rádio com a central do serviço secreto. Ao mesmo tempo testava o
equipamento técnico daqueles que queriam escravizar vinte milhões de homens... ou os
pássaros-darso. Ele refletiu nas suas palavras, ligou o transmissor e disse:
— Aqui fala Norman Yoder chamando Kunutson: eu estou perto da cidade para dar
uma olhada por aqui.
Imediatamente ele desligou o aparelho de rádio. Os pássaros não muito longe dele
tiraram as cabeças debaixo de suas asas, olharam-no e depois continuaram a dormir. No
típico formato da cabeça, ligeiramente como um martelo, com um penacho de penas em
cima, o agente solitário reconheceu que se tratava, sem dúvida alguma, de darsos. A boca
da arma afastou-se dos pássaros inofensivos e apontou para a cidade.
Depois Yoder ligou o seu escudo energético protetor.
Ele agora pairou novamente até alguns metros da árvore solitária.
— Lá estão eles! — disse para si mesmo, desengatilhando a arma.
Batendo as asas audivelmente, veio chegando, visíveis contra as luzes da cidade, um
bando de pássaros-darso pretos. Eles eram muito firmes nos seus voos, e se espalharam.
Vinham de todos os lados, mais ou menos uns vinte. Yoder modificou lentamente o leque
de sua arma de raios, até que o seu efeito se distribuísse num cone pontudo.
Agora ele tinha a prova.
Havia darsos legítimos e de imitação, manipulados!
Os legítimos ficaram tranquilamente pousados num galho, quando o agente
novamente ligou sua aparelhagem de voo, afastando-se outra vez da cidade. Onde ficava
a central do serviço secreto ele não sabia — mas ela ficava muito longe do povoamento,
numa montanha deserta. Kunutson parecia ser um homem que não gostava de correr
riscos.
As imitações agora atacaram.
Enquanto o agente voava através de copas e galhos, colocando-se de tal modo que
geralmente havia folhagens e galhos entre ele e os pássaros atacantes, voaram a sua volta
pelo menos umas vinte imitações. Yoder mirou e atirou, e o tiro em leque fez dois
pássaros explodirem.
— Aha! — resmungou Yoder, furioso. — Imitações-robôs!
A segunda prova. Estes pássaros predatórios possuíam aparelhos de rastreamento
capazes de reconhecer vibrações energéticas. Como o domínio de todos os indivíduos
deste planeta necessariamente devia ser a meta dos agressores desconhecidos, os pássaros
procuravam e encontravam automaticamente a fonte energética e liquidavam aqueles que
faziam uso dela. E eles também aqui utilizaram aquele estranho raio azulado, que
repetidas vezes bateu contra o escudo protetor de Yoder, sendo absorvido com uma
pequena explosão. Alguém devia ter construído esses robôs, trazendo-os em quantidades
enormes para Astera. Isso queria dizer que...
Dois pássaros tinham ultrapassado Yoder, voaram na sua direção e atiraram os seus
raios azuis. Yoder fez uma mira exata, apertou o gatilho e voou para dentro dos restos da
explosão das pequenas máquinas. Estilhaços, faíscas e fumaça resvalaram contra o
escudo energético protetor, e os restos dos robôs caíram ao chão através das folhagens
das árvores da floresta virgem.
Isso significava, raciocinou Yoder, que alguém dispunha de quantidades gigantescas
de espaços para o transporte, ou que os controlava. Sem ter provas concretas, Yoder
estava convencido que Corello estava por trás disso. Ele derrubou mais duas imitações de
darsos, e achou que na cidade, presumivelmente, só existiam apenas marionetes, cujo
interesse certamente não seria despertado para um ruído quase inaudível e algumas
aparições luminosas ligadas ao mesmo. Portanto ele poderia continuar fazendo fogo
tranquilamente. Um grupo de cinco darsos voou diretamente para dentro de um tiro e
terminou em quatro explosões, que pareciam uma só.
Norman Yoder voou velozmente adiante, por cima das copas das árvores, e por
entre as mesmas.
Ele atirou furiosamente à sua volta e reduziu o número dos atacantes para quatro.
Três deles ele derrubou no decorrer dos próximos segundos, o último parecia ter ou um
relê danificado ou então ter um equipamento especialmente bom — ele manobrou de tal
modo que Yoder atirou diversas vezes, sempre errando os tiros.
A luz da cidade ficou atrás deles e desapareceu completamente quando os dois
combatentes tinham sobrevoado o pequeno trecho de terra coberto de vegetação.
— ...depõe as armas... venha para a capital...
O último impulso, quase inaudível, sumiu. Em algum lugar, por entre os troncos,
uma horda de animais gigantescos se movimentava. Um pássaro grande passou voando
por cima de Yoder, completamente calmo apesar dos dois tiros que o agente precisou
para liquidar o último darso. Trovejando e rebrilhando, os restos destruídos da diminuta
máquina de precisão desapareceram em algum lugar por baixo dele no escuro. Alguns
caíram na água.
Os raios paralisantes, saídos dos bicos dos pássaros, não tinham conseguido
atravessar o escudo energético protetor do agente. Mas os robôs tinham uma mira
infalível. Sempre a parte de trás da cabeça e a nuca tinham sido os alvos dos golpes
paralisantes.
— Fim do primeiro ato! — murmurou Yoder, e de repente sentiu-se cansado e
exausto.
Ele desligou o escudo energético defensivo.
Depois procurou um lugar onde pudesse sentar ou deitar-se.
***
Ele encontrou o lugar ideal no início do lusco-fusco da manhã.
Envolto pela floresta, um lago quase perfeitamente redondo se formara sobre uma
camada de solo impenetrável à água, alimentado por um pequeno riacho tortuoso.
Exatamente na frente de Norman Yoder erguia-se uma enorme rocha branca, calcária, de
uns quarenta metros de altura. Ela era toda perfurada, sendo flanqueada por árvores
gigantescas de ambos os lados, as quais envolviam a rocha com seus galhos maiores.
Tudo estava cheio de cipós secos, esbranquiçados. Yoder sobrevoou o lago, ligando o
holofote diante do rochedo, iluminando bem o primeiro buraco. Depois disparou cinco
tiros para dentro, usando o seu pequeno catalisador, apenas por cautela, pois assim podia
ter certeza de que tudo que estava na caverna estaria paralisado. Em seguida esgueirou-se
para dentro, a cabeça na frente, vendo, logo depois de cinco metros, que a gruta se
alargava. A mesma estava vazia. A saída apontava para o oeste.
Yoder deitou-se, esticando-se bem e abrindo cuidadosamente as bainhas magnéticas
do seu traje de combate, sentindo o infinito alívio proporcionado pela abertura do traje
muito rijo. Depois comeu alguns cubinhos de concentrados, fumou um cigarro, examinou
o terreno que ficava a sua frente com o binóculo, e recuou novamente. Ele dormiu por
nove horas, e quando acordou novamente, sentia-se bem descansado.
Algumas coisas tinham ficado claras nas últimas dezoito horas passadas:
Os aparelhos de rastreamento nos pássaros-darso são incontestavelmente dirigidos
para impulsos mentais humanos. Evidentemente as imitações de pássaros somente atacam
aquelas pessoas que ainda não se transformaram em marionetes. Portanto, eles devem
estar capacitados a distinguir um cérebro sugestivamente influenciado e sem vontade
própria, de um cérebro saudável — uma mente que ainda não se tornou sem vontade
própria naturalmente ainda é capaz de defender-se.
Estes raciocínios tornavam-se cada vez mais nítidos e mais claros, quanto mais ele
os formulava para si mesmo com exatidão.
Os pássaros artificiais, portanto, poderiam ter apenas uma tarefa:
Junto com os impulsos do transmissor, que pouco a pouco colocaria todo o planeta
sob o seu alcance de irradiação, eles cuidavam para que dos vinte milhões de pessoas
nem uma só conservasse a sua vontade própria nem o seu raciocínio claro.
Uma dança infernal de marionetes seria a consequência.
Norman Yoder controlou o ajuste do pesado traje, no qual novamente se metera.
Verificou o grau de força das armas, ligou o seu rastreador para um rápido teste, e depois
regulou a aparelhagem de calefação do traje. O seu primeiro problema, ou seja, certificar-
se do que a mensagem do agente realmente significava, estava liquidado — ele conhecia
esses pássaros. Para descobrir quem estava por trás dessa invenção infernal, ele precisava
achar a central da Contra-espionagem Solar.
— E exatamente isso eu vou tentar agora! — garantiu-se ele.
Cautelosamente ele esgueirou-se para fora da gruta e ficou deitado perto da entrada.
Pegou o pesado binóculo e examinou a região sistematicamente. Atenção especial ele
dedicou à direção na qual se encontrava a cidade, da qual ele fugira na noite anterior.
Três minutos mais tarde ele viu o que estava procurando inconscientemente.
Três pontos luminosos, que se destacavam fortemente da faixa violeta, que era
visível como zona de lusco-fusco, estendendo-se do sul para o norte, por cima da selva.
Eles voavam numa formação combinada de três.
— Estarão me procurando? — perguntou-se Yoder, baixinho.
De qualquer modo ele havia revelado a sua localização aproximada, através de sua
transmissão radiofônica. Agora a coisa estava ficando crítica. Se ele ligasse o seu escudo
energético protetor, poderia ser tranquilamente rastreado. Se ele não o fizesse, estaria sem
defesa quando os pássaros-darso chegassem com os planadores. Ele ficou deitado, sem se
mexer, e apenas sacou a sua arma, de um azul brilhante, da bolsa do cinturão.
Ele observou os planadores que continuavam se aproximando inexoravelmente.
Eram veículos aéreos pesados, rápidos e jeitosos e tinham um raio de ação muito grande.
Eles poderiam caçá-lo pela metade do planeta. Os pássaros-robôs estariam em ligação
direta com alguém, que os dirigia nas operações, ou eles operavam autônomos e
independentes? Esta era a pergunta cardinal.
— Receio que logo o saberei! — resmungou Yoder.
Embaixo de Yoder estava a selva. As diminutas luzes dos planadores espelhavam-se
na superfície intocada do lago. Podia ouvir-se alguns animais. Eles causavam ruídos, mas
o agente não os via. O seu interesse estava concentrado nos três planadores. Eles ainda
continuavam mantendo a rota que ia dar no rochedo branco.
E... Norman Yoder não deu-se conta dos darsos.
Quando ele arrancou a arma para cima, já era tarde demais.
Os seis pássaros voavam rapidamente à sua volta, em espirais e curvas, em volta do
buraco da caverna, sem jamais se esbarrarem, e no segundo em que Yoder hesitou para
ativar sua arma energética, o primeiro pássaro disparou. Apavorado, Yoder arrastou-se
para trás, pois ele sabia que um único tiro o trairia, já que o mesmo seria rastreado tal
como o escudo energético protetor. Foi quando ele foi acertado pelo segundo raio, indo
ao chão.
Ainda no desmaio, que o fez cair como um martelo, ele apertou os dentes. Tudo que
aconteceu foram alguns movimentos selvagens, incontroláveis, depois o agente ficou
deitado sem se mexer.
Inconsciente.
No mesmo segundo em que ele foi acertado pelo raio brilhante e azulado que saiu
do bico do robô, parecido com uma andorinha, os três planadores mudaram de rumo,
numa curva suave e elegante, dirigindo-se para o norte.
Lentamente passou-se uma hora.
Yoder se mexeu.
Primeiramente sentiu uma pontada nos pulmões, quando encolheu os braços,
tentando erguer-se um pouco. Ele respirou e expirou profundamente, e a pontada
desapareceu. O seu olhar tornou-se claro, e ele viu que o perigo tinha passado.
Novamente ele escutou as frentes de ondas sugestivas, desta vez mais claras e mais
intensas.
Evidentemente tinham elevado a capacidade do transmissor;
Yoder escutou cada impulso, mas ao mesmo tempo observou que não precisava
obedecer aos mesmos. A sua mente estabilizada também tinha resistido a esse ataque. Os
planadores não estavam mais no ar. O perigo passara, portanto ele podia novamente
encetar a sua procura.
Lembrou-se do homem que recebera um tiro e perguntou-se se também ele não
estaria agora com a mancha azulada na nuca. Lentamente deixou a gruta e pairou para
baixo até a borda do lago. Por poucos instantes ligou o holofote que retirara do cinturão.
Quando ele se virou e girou, viu pelo canto dos olhos uma grande mancha azul, que se
estendia até os ouvidos. A aparência elegante, mas incomum, do agente sofrerá um
pouco. Ele lavou o rosto, procurou limpar a mancha azul, esfregando-a com um pouco de
areia, mas ela resistiu.
— Não faz mal! — murmurou ele, irritado. Enxugou-se o melhor que pôde e teve
consciência: também ele se transformara num Azul.
— De qualquer modo — garantiu-se ele — esta cor é uma excelente legitimação em
Astera. Eu só preciso, de vez em quando, me comportar como uma marionete!
Ele aceitou esta pane, que no máximo o tinha retido um pouco, com um senso de
humor feroz.
A energia da qual ele precisava para voar muito rapidamente, em grandes círculos,
em volta da cidade, era-lhe fornecida pelo reator siganês, na mochila do seu traje de
combate. Yoder sabia apenas que a central do serviço secreto ficava em algum lugar
distante sessenta quilômetros da cidade. Se ele incluísse no cálculo a incerteza de que se
tratava do centro de Silomon ou da sua periferia, ele teria que voar um círculo em volta
da capital, mais ou menos nesta distância, sendo que poderia deixar de fora a região na
qual ficava o espaçoporto — ou a estação se encontrava justamente ali, porque os
rastreamentos eram especialmente difíceis numa região na qual eram movimentadas
constantemente massas metálicas gigantescas com as correspondentes quantidades de
energia?
Yoder resolveu não incorrer em qualquer risco, e começar aqui a voar um círculo
fechado. Ele comparou nos próximos minutos a sua localização com a distância desejada
e determinou, naquela luz difusa, alguns pontos de marcação, pelos quais pudesse se
orientar melhor.
Depois, bebeu um pouco da água do lago para matar a sede, e pairou para o alto.
A longa procura começou.
4

A noite era o seu melhor e mais seguro aliado neste planeta, no qual ele operava
sozinho.
Ela era escura, silenciosa e o acolheu, enquanto ele pairava por cima da selva, e ele
podia confiar em que ela ainda duraria mais sete horas e meia. Talvez ele conseguisse,
com velocidade máxima e seus aparelhos de rastreamento, encontrar ainda nesta curta
noite a estação, para pôr-se em contato com os homens da mesma.
O pequeno aparelho, muito eficiente e capaz, na mochila que levava às costas do
seu pesado traje, não o deixaria na mão. Os microaparelhos instalados no largo cinturão
do seu traje perscrutavam a selva e suas clareiras, as margens dos rios e as montanhas
curiosamente formadas e de picos nus, e o aparelho mal do tamanho de uma palma de
mão, junto da janela transparente do relógio-pulseira mostravam as indicações do
oscilógrafo. Os ponteiros, há duas horas, ainda circulavam tranquilos sobre os
mostradores, destacando-se nitidamente à esquerda, e ficavam quase empalidecidos,
quando saíam à direita do âmbito da tela redonda, convexamente arqueada.
— Nada! Maldição! — murmurou o agente.
O seu trabalho não era absolutamente simples. Ele tinha que prestar atenção para
que à sua esquerda a claridade não aumentasse, nem que ficasse especialmente mais
fraca. Isso, então, significaria que ele modificava a sua distância em relação à cidade,
quando esta distância deveria ser sempre de no máximo sessenta quilômetros. Norman
Yoder pairava a três quilômetros de altura, carregado pelo campo antigravitacional e
impulsionado para a frente pelo microaparelho de voo. Lá embaixo, a formação de
terreno passava sob ele. Como proteção contra o vento de voo, ele puxara a parte
transparente do capacete por cima de sua cabeça, mesmo assim de vez em quando ele
precisava limpar a água nos cantos dos seus olhos. Aqui em cima, a três mil metros de
altura, o ar era claro, limpo e rico em oxigênio.
Mais uma vez ele olhou fixamente a telinha redonda.
Mais uma hora se passou.
— Devagar isso está ficando chato! — verificou Yoder, procurando pescar do bolso
do peito do traje um pacotinho de ração com alimentos combinados. Era uma pequena
dificuldade, mas ele conseguiu-o. Yoder abriu o laminado transparente com os dentes e
meteu os cubinhos na boca.
Quando, depois dessa tentativa, voltou o seu interesse novamente para a telinha, viu
impulsos diferenciados. Estes não permaneciam iguais, mas mostravam, exatamente no
meio da tela, fortes flutuações.
— Aha! — resmungou Yoder.
Ele girou o corpo em voo e controlou desse modo a direção da qual vinham os
impulsos. A mesma ficava abaixo dele, em diagonal. Imediatamente ele diminuiu a
velocidade e voou em espirais na direção do solo. Ele anotou o trecho com vegetação
mais clara e aproximou-se do sul, quando tinha vindo do norte. Voando bem junto das
copas das árvores, ele colocou a rota e a indicação do rastreamento exatamente em
concordância e viu que no fim desta clareira devia estar o seu objetivo.
Ele desligou os aparelhos de rastreamento.
Antes de fazer-se baixar inteiramente entre os troncos, ele observou os arredores.
Por toda a parte estava a selva intransponível. Aqui entretanto começavam a elevar-
se as montanhas. Em dois lados a capital estava circundada por um cordão arredondado
de montanhas, cuja maior elevação não atingia mais de mil e quinhentos metros. A selva
neste lugar começava a ficar um pouco menos densa, libertando-se dos muitos cipós
entrelaçados e das grandes raízes afloradas de enormes plantas. Uma escarpa rochosa,
uma quantidade de arbustos da altura de um homem e um gramado livre, podiam ser
vistos claramente à luz das estrelas.
Yoder pousou cerca de cem metros distante do lugar do qual os ecos energéticos
tinham sido repelidos. Entre ele e a extremidade rochosa da clareira ficavam os arbustos e
um declive forte, mas ele também tinha pousado no ponto mais elevado deste declive. Ele
desligou o aparelho de voo e o regulador de gravidade, e fez algumas flexões com os
joelhos.
Será que ali atrás estaria a entrada para a central? — perguntou-se ele, caminhando
pela crista do talude. Ele ficou parado na sombra dos arbustos, a arma na mão, e
esforçando-se para pisar o mais levemente possível, apesar do seu traje pesado e rígido.
Lentamente ele aproximou-se e viu que no final do atalho havia um objeto metálico
brilhando no chão, bastante grande e imóvel. Essa devia ser a fonte da radiação
energética.
Dez metros mais adiante ele teve a certeza de que aquele objeto metálico era um
veículo espacial, uma pequena astronave, para ser mais explícito... agora ele podia vê-la
nitidamente... um space-jet.
Yoder parou, perplexo.
Em algum tempo — e isso podia ver-se claramente — este jet devia ter efetuado ali
um pouso de emergência. Um propulsor da protuberância equatorial parecia ter sido
muito afetado. Yoder viu chapas rasgadas e ligações de alimentação entortadas. As quatro
pernas dos esteios de pouso estavam torcidas, ainda que somente descidas até a metade.
A parte inferior dos dois pratos estava semeada de feias mossas, como se o jato tivesse
caído de barriga.
O som estalante com o qual Yoder desbravou a sua arma rasgou o silêncio.
Lentamente ele aproximou-se do jato e colocou a mão esquerda no revestimento da
protuberância circular.
Um modelo obsoleto, pensou ele, eles eram usados
antigamente na Frota Solar. Se ele quisesse tentar ler a
marca e o número de série, teria que andar em volta do
aparelho. Tirou a mão do metal, girou a cabeça
vigilante, e deu uma olhada nos arredores.
Nada se mexia, não se ouvia nenhum
passo, e ele também não via
pássaros-darso nos ares.
Cautelosamente ele circundou o space-jet. Pelo que ele podia ver, o mesmo estava vazio,
e a emissão de energia provinha das baterias do aparelho, ou então de um dos
microaparelhos de alimentação que funcionavam praticamente sem cessar. Diante dele
encontrava-se o propulsor arrebentado.
Yoder incorreu no risco de acender a sua lâmpada, rapidamente.
O círculo fraco da luz abafada passou por cima do gigante e das ligações torcidas.
Com uma rápida visão, Norman Yoder viu que o dano no propulsor não era tão ruim
quanto ele achara à primeira vista — o mecanismo de regulagem do impulsor de ré tinha
sido arrebentado de suas ligações. Um reparo que era possível efetuar com duas horas de
trabalho e usando ferramentas de bordo. Um esteio de pouso tinha sido entortado e se
espichava num ângulo curioso, mas ainda suportava a carga do apoio. Yoder retirou os
parafusos quebrados, jogando-os ao chão, depois ficou imaginando o que poderia fazer
com este jato. A pergunta de como ele teria chegado aqui, somente poderia ser
solucionada depois que ele entrasse no jato.
Yoder desligou a lâmpada e virou-se.
Alguma coisa despertara a sua atenção. Não fora nenhum ruído, nenhuma voz, mas
uma espécie de percepção telepática de que, de algum modo, atrás dele algum perigo o
ameaçava. Norman apertou os olhos e procurou enxergar dentro da escuridão. Depois
encolheu os ombros e afastou-se diversos passos lateralmente do jato, indo parar entre
dois arbustos. Daqui ele tinha uma visão melhor do declive. De repente...
— Trave a sua arma! Depressa!
A três metros perto dele falava uma voz fria. Yoder, que aprendera a distinguir entre
uma ameaça à qual devia obedecer e uma que poderia ser ignorada, teve que calcular que
a voz era do primeiro tipo. Ele moveu o polegar e travou a pesada arma.
— Deixe cair a arma!
Yoder hesitou ligeiramente.
— Eu o aconselho a fazer exatamente o que estou lhe pedindo. Eu tenho uma arma
apontada para a sua mochila energética. Rápido, estou começando a ficar impaciente!
Yoder abriu a mão, e com um ruído mole, oco, a arma caiu na grama. Passos se
aproximaram; depois, num movimento rápido como o raio, um homem alto, de ombros
largos, saiu da sombra. Ele usava um uniforme preto da Frota, totalmente em farrapos.
Yoder começou a se sentir incomodado.
Ele virou-se e olhou o homem, que agora apontava duas armas para ele.
Depois ele retrucou, calmamente:
— Ao que parece a vantagem é sua.
— Exatamente! — disse o outro.
5

Ele ligou um holofote manual e apontou o cone de luz para Norman Yoder. Yoder
piscou e quis saber, fingindo calma:
— O senhor viu o bastante?
O outro disse:
— Vi o bastante para ficar espantado. O senhor parece ter uma noção um tanto
pessoal do aspecto exterior de um agente, não importa de que lado ele esteja.
Cuidadosamente Yoder tocou a pérola pulsante na sua orelha.
— Realmente — retrucou ele, cansado, enquanto os seus músculos ficavam cada
vez mais tensos para poderem agir no momento decisivo. Ele queria pegar o seu
adversário de surpresa. — Eu me interesso bastante por coisas da moda.
O outro riu friamente. Os seus olhos cinza-claros, gelados, continuaram totalmente
indiferentes.
— O que procura aqui? — perguntou ele.
Yoder fez um gesto indefinível e movimentou-se lentamente na direção do outro.
Não depressa demais, nem lento demais — o outro não devia ficar desconfiado.
— O senhor está muito bem onde está agora — disse o outro. — Fique entre os
arbustos.
Ele desligou a lâmpada novamente.
Yoder soltou a fita magnética do pequeno oscilógrafo chato do seu pulso e
acomodou a telinha nos seus bolsos protegidos, no peito do traje de combate. De repente
sentiu calor. Ele não sabia o que devia achar da situação. Isso o deixava inseguro.
Com sua voz funda, quase chateada, perguntou o outro:
— Ainda há pouco perguntei o que procura por aqui! Será que não ouviu minha
pergunta? Parece-me suficientemente inteligente para poder me entender.
— Obrigado — respondeu Yoder. — Muito amistoso. Eu procuro tudo o que possa
interessar um homem aqui em Astera: informações, perspectivas, certezas e amigos.
O outro anuiu silenciosamente e enfiou a arma de Yoder atrás do seu cinturão. A
sua própria arma apontava para o peito de Yoder. Era uma arma de termointervalo de
cano curto e rápida repetição. A luz das estrelas o metal da arma energética rebrilhava. O
dedo do homem certamente estava no gatilho, e a pequena lâmpada do controle de
carregamento brilhava vermelha.
— O senhor parece ser exigente — disse o homem atrás da arma.
Yoder respondeu-lhe calmamente:
— Bastante. Além disso eu gostaria de olhar rapidamente no seu rosto. O que
procura por aqui?
Agora riu o homem, um riso nada cordial, frio.
— Pegue a sua lâmpada. Se me ofuscar, eu atiro, e não será no vidro da lanterna.
Yoder iluminou o homem rapidamente, e então ele viu o que presumira.
E agora o medo realmente começou a tomar conta de Yoder...
6

O outro estava em farrapos. Semanas passadas aqui na selva tinham deixado o


uniforme da Frota preto e em pedaços. As partes de couro do mesmo estavam brancas,
devido ao mofo mal retirado, cheio de estrias, somente a arma estava muito bem cuidada.
O homem tinha aproximadamente um metro e noventa de altura, ombros muito largos, e
quadris surpreendentemente estreitos. Com cerca de quarenta e cinco anos de idade, ele
era muito jovem para este tempo e este lugar. E emanava esse tipo de determinação
mortal, que tem alguém que nada mais tinha a perder e só tinha ainda a ganhar. Yoder
evitou de imediato subestimar este homem, e além do mais aquela arma dirigida para ele
era um argumento definitivo.
— Terrano? — perguntou ele, curto.
— Sim, infelizmente.
Yoder ficou surpreso. Realmente não era tido como uma vergonha ser descendente
do centro da cultura galáctica destes milênios, mas certamente haveria razões pessoais
para esta afirmação.
— Por que infelizmente? — perguntou ele, frio.
— Diversas razões. O seu nome?
Yoder disse, como quem não quer nada:
— Yoder. Norman V. Yoder. Satisfeito?
O cano da arma não se mexeu nem num milímetro. Os dois homens estavam
parados um diante do outro, à espreita, tentando reconhecer o outro e saber de suas
intenções.
— Joak Cascal.
— Obrigado — disse Yoder.
Na luz fraca do holofote dirigido ao solo ele viu aqueles olhos curiosamente
parecendo sem cor e o rosto de corte duro, escuro e queimado, com a barba muito
crescida.
Cascal trazia também aquela mancha azul característica — porém Cascal não se
movimentava absolutamente como uma marionete.
— Cascal... — murmurou Yoder, baixinho e desligou a lanterna. — ...Cascal. Eu
conheço este nome. Também conheço o senhor, a sua voz tem um som que eu não
esqueci. O senhor não esteve em Terrânia, durante estes últimos meses, não é?
Cascal riu, amargo.
— Não, com toda certeza, não.
— Mesmo assim eu o conheço.
Cascal retrucou friamente:
— Mesmo que isto seja certo, dificilmente irá salvá-lo de ser morto com um tiro.
Uma circunstância que eu lastimo, pessoalmente, mas as marionetes de Astera não me
deixam outra alternativa. Eu não tenho nada contra o senhor, acredite!
Yoder sabia perfeitamente que Cascal não estava brincando. Aquele tom de
conversa inofensiva não podia iludi-lo.
— Isso me acalmará enormemente — disse Yoder. — O senhor tem certeza de que,
com isso, não vai cometer um erro?
— Não, não tenho. Mas não tenho outra escolha. Trata-se de minha vida, e como
isto é a única coisa que ainda possuo, dou-lhe um valor bastante elevado,
compreensivelmente.
Yoder anuiu.
— Muito compreensível — disse ele. E depois lembrou-se, repentinamente, com
clareza. — Não gostaria de esperar pelo veredicto do tribunal de guerra, Cascal? —
perguntou, com uma calma da qual ele mesmo se espantou.
Cascal ficou sem ar.
— Como é que... o senhor sabe que...? — perguntou ele.
Yoder respondeu, rápido:
— É minha profissão saber o mais possível. O senhor realmente contrabandeou esse
howalgônio?
Quase em desespero, Cascal retrucou:
— É claro que não. Mas essa gente tem razão!
Yoder girou o parafuso-borboleta que aumentava o decote do pescoço do traje de
combate e perguntou:
— Que gente, Joak?
— Aqueles da Frota terrana que afirmam que individualistas e pessoas que
interpretam ordens idiotas por sua própria medida devem ser punidas com imediata
expulsão.
Yoder riu quase cordialmente; mesmo assim ele continuou tenso e pronto a golpear
a qualquer momento.
— O senhor parece estar bem amargurado.
Cascal anuiu e disse baixinho:
— Com boas razões. O senhor conhece a história?
A sua arma energética abaixou-se alguns centímetros.
— Sim, eu conheço este caso. Afinal de contas ele ficou por tempo suficiente em
cima de minha escrivaninha. Eu me lembro cada vez mais nitidamente. Mas, afinal de
contas, eu não estou constantemente em Terrânia, mas de vez em quando também saio
em excursões como esta.
Yoder estava conseguindo confundir Cascal cada vez mais. Ele o sentia claramente.
— O que é que o senhor faz na Administração, Yoder? — perguntou o outro
homem, desconfiado. — Isso, por acaso, é um truque?
Yoder sacudiu a cabeça e retrucou, a meia voz:
— Não. Apesar de muitas vezes desejar ter um outro trabalho que não este que
tenho neste momento.
Cascal riu, duro, e depois disse, depreciativo:
— O senhor só precisa ainda me dizer que é o próprio Administrador-Geral! Eu
acredito praticamente em tudo que me está dizendo!
Calmamente Yoder retrucou:
— Era exatamente isso que eu pretendia fazer, Joak!
— O quê?
— Provar-lhe que eu sou Perry Rhodan.
— Um momento!
Perto da boca da arma que subira novamente e agora apontava entre os olhos de
Yoder, apareceu o disco do holofote manual, que girou rapidamente e depois iluminou
Yoder no rosto.
— O senhor, Rhodan! Isso é realmente uma piada!
Yoder arrancou o mascaramento do rosto e a pérola da orelha.
— Já mais parecido, não? — perguntou ele, secamente.
— Eu não compreendo... O senhor...
Yoder levantou a mão, abriu a parte do pescoço do traje de combate e expôs o
ativador celular do tamanho de um ovo, incrustado até a metade no seu peito.
— Ativador celular! — disse ele. — Também gostaria de ver minha cicatriz de
apendicite, Joak?
O cano da arma foi abaixado e, muito surpreso, Joak Cascal murmurou:
— Mas... o senhor é realmente o Administrador-Geral! O que está procurando aqui
em Astera, Sir?
Enquanto Perry Rhodan fazia deslizar o ativador celular novamente entre a camisa e
a pele, respondeu:
— Eu já lhe disse: amigos e informações!
Cascal emitiu uma risada estridente, levemente histérica.
— Neste caso veio ao lugar certo, aqui em Astera, Sir! — disse ele.
Perry Rhodan deixou cair os braços frouxamente e não respondeu.
Ele lembrava-se exatamente da história deste homem: Joak
Cascal fora comandante de um cruzador leve da Frota Solar. Tinha o posto de
major. Pouco antes do desaparecimento do Sistema Solar no futuro, uma acusação fora
feita contra o major, e este colocado diante de uma corte marcial. Era acusado, com
provas dificilmente contestáveis, de ser responsável pelo contrabando de howalgônio. O
Major Cascal tentou de tudo, até determinado ponto do julgamento, para provar a sua
inocência, e lutou como um tigre. Depois, repentinamente e de forma inexplicável para
acusadores e defensores, o homem desapareceu da Terra.
— Por que razão, aliás, o senhor queria matar-me com um tiro, Major Cascal? —
perguntou Rhodan, calmo.
Cascal travou a sua arma e jogou-a para as costas. Apesar do uniforme estar rasgado
e o homem parecer sujo e maltratado, a arma estava muito bem conservada. Ela oferecia
mais oportunidade de sobrevivência que um uniforme em ótimas condições.
— Todo o planeta, exceto eu, está tiranizado por estes pássaros e por ondas
sugestivas. O senhor também deverá ser uma marionete como os habitantes de Silomon e
todas as pessoas que há dias estão vindo para a capital a pé e com todos os meios de
condução.
— Em primeiro lugar sou portador de ativador celular — declarou Rhodan, que
recebeu sua arma de volta de Cascal, e a pesou brincando na mão — e em segundo lugar
tenho uma mente que foi estabilizada. Eu sou imune aos pássaros-darso e às ondas
sugestivas. Apesar do tiro com que me acertaram na nuca.
Cascal anuiu lentamente.
— Eu compreendo — disse ele. — E o que pretende fazer agora?
Rhodan destravou a arma e apontou-a para o pescoço do major.
— Antes de mais nada fazer uma pergunta, Joak! — disse ele. — Como é possível
que apesar da mancha azulada o senhor não apresenta as características de uma
marionete? Para mim esta é uma prova de que o senhor tem ligações com nossos
inimigos conhecidos daqui.
Sem uma palavra, Cascal levantou a mão, ligou novamente o holofote e curvou a
cabeça para a frente, de modo que Rhodan pôde ver o cabelo ralo da parte traseira de sua
cabeça. Cascal passou a mão ali e desnudou uma superfície calva, que brilhava como aço,
mais ou menos do tamanho da palma de uma mão.
— Aço terconita! — disse ele, com uma voz sonora, dura.
— Ferimento? — quis saber Rhodan.
— Sim. O senhor deve conhecer-me bem. Eu voei num sem-número de missões,
que foram bastante difíceis. Não me deram nenhuma comenda, mas me acusaram de uma
coisa que é ridícula: o que é que eu poderia fazer com howalgônio? Em vez de me honrar,
por eu ainda ter escapado com vida... isso aqui foi um tiro quase certeiro que recebi.
Quase tão certeiro que levou cabelos, pele, ossos do crânio e alguns nervos, mas sem ferir
a meninge. E me implantaram esta placa de terconita. É o que eles chamam de
agradecimentos do Império ou coisa assim.
Rhodan perguntou:
— “Eles” quem? Eu?
Sem nada dizer, Cascal sacudiu a cabeça e fez um gesto indefinido na direção do
céu noturno.
— Não, o senhor não. Os seus funcionários. A direção da Frota. Os advogados.
Rhodan travou a sua arma e recolheu-a. Cascal era um homem orgulhoso,
consciente e inteligente. Aqui em Astera um aliado dessa classe era uma vantagem
formidável.
— Eu acredito que o cérebro não foi afetado, mas eles me deram um tratamento
dispendioso, uma operação cara e finalmente me meteram essa placa. Ela me lembra
vivamente da história do homem que trataram de sarar a muito custo, para depois
poderem enforcá-lo. Depois de me darem alta do hospital, me confrontaram com o
processo. O que achei muito simpático da parte deles. — Depois de um silêncio, Cascal
perguntou: — O senhor não tem por acaso um cigarro, Sir?
Rhodan tirou a cigarreira à prova d'água do bolso do peito, ofereceu um cigarro a
Cascal e acendeu um para si mesmo, depois de ter dado fogo para o major.
Eles continuaram fumando por alguns minutos, em silêncio; depois o
Administrador-Geral disse:
— O senhor deve a sua estabilidade no que se refere a estas ondas sugestivas e
contra os tiros dos darsos, a essa operação. Não é assim?
Laconicamente Cascal respondeu:
— Provavelmente. Não saberia explicá-lo sob o ponto de vista médico, mas deve
ser assim. Meus cinco camaradas também foram atacados, e foram submetidos a essa
influência.
— O que me faz perguntar — disse Rhodan, sorrindo: — Como veio a esse planeta
e o que está procurando aqui?
Cascal sacudiu a cinza e declarou:
— Isso posso lhe dizer rapidamente, Sir. Eu fugi, retirei todas as minhas contas
bancárias, e entrei em contato com os livre-mercadores. Pude comprar uma nave usada,
depois liguei-me a mineradores galácticos, e consegui subir na vida com bastante rapidez,
atingindo uma posição de mando.
Rhodan disse:
— Meus respeitos! O treinamento para a Frota, aparentemente, e em detrimento de
todas as opiniões em contrário, realmente parece ser muito bom, em todos os sentidos.
— Certamente. Em seguida voei para Astera, porque aqui há uma grande
quantidade de minérios, que ainda não foram descobertos pela população. Nós temos
aparelhos de prospecção a bordo, e queríamos estabelecer aqui uma pequena estação de
comércio, depois de havermos obtido os direitos e coisas assim.
— O que não foi tão fácil! — verificou Rhodan, amassando o toco do cigarro com a
bota.
— De modo algum. O senhor sabe que a principal tarefa de mineiros é a prospecção
de minérios de todos os tipos. Nós tripulamos aquele jato ali do outro lado, viemos
voando para cá, e fomos atacados justamente quando íamos pousar. Sentimos os
impulsos hipnóticos, os pássaros nos atacaram com seus tiros, quando desembarcamos, e
os meus cinco camaradas se reuniram aos outros como marionetes, depondo as suas
armas, para irem prestar homenagens ao “Poderoso”. Eu fiquei deitado, esgueirei-me
para o jato, fui derrubado e caí aqui. Ou melhor, eu tentei um pouso de barriga. O
resultado está ali, do outro lado, em cima de três pernas. Venha, vamos até lá dentro!
— Está bem — disse Rhodan. — Desde quando está aqui?
— Há exatamente treze dias. Treze dias e... — ele olhou para o relógio — ...e onze
horas.
Eles se dirigiram para o jato, um ao lado do outro. Ali Cascal acendeu uma lâmpada
num recinto que estava protegido de vista direta, e esquentou duas porções de café. A
instalação de ar-condicionado da pequena nave estava ligada, e tinha sido este impulso
que Perry Rhodan — ex-Norman Yoder — tinha rastreado.
Rhodan tomou o seu café com muito gosto.
— O que aconteceu com a astronave que o trouxe para cá?
— Derrubada — disse Cascal. — Nós deixamos a nave para trás, numa órbita. Eles
simplesmente a derrubaram. Aquela era a sua nave, que na noite de ontem explodiu lá em
cima?
— Nós fingimos. Era apenas uma nave auxiliar, que pousou no lugar de uma nave.
Entrementes o especialista deve ter alertado a contra-espionagem ou uma formação da
Frota, que espera por mim. Provavelmente três homens morreram; eles não imaginavam
que eu estava a bordo. O senhor tem algum espelho?
Cascal apontou para um armário embutido, para trajes de proteção e equipamentos
especiais.
— Lá do outro lado. O seu rosto, não é? Ótima camuflagem. Eu não o reconheci,
Sir.
Rhodan anuiu e retrucou, secamente:
— Essa é que era a intenção, Joak.
Ele afixou as costeletas novamente, penteou, com os dedos, o seu cabelo para a
frente, e depois ajeitou a pérola brilhante novamente no lóbulo da orelha. Depois voltou
para a mesa e curvou-se para a frente, as mãos apoiadas no tampo.
— O que fazemos agora?
Joak Cascal olhou novamente para o relógio, silenciou por alguns segundos e depois
disse calmamente:
— Ainda temos pouco menos de quatro horas até a aurora. Não devíamos nos
apressar demais; vamos dormir, e tentar nos esgueirar até a capital, amanhã de noite.
— Concordado — disse Rhodan.
Também encontraram para o Administrador-Geral um lugar no pequeno jato onde
ele pôde tirar a roupa e se deitar. Calor, tensão e a umidade da selva deixaram os homens
exaustos mais depressa que qualquer outra coisa.
A noite passou rapidamente e sem qualquer acontecimento. Os homens tentaram
fazer um desjejum com o que restava de provisões no jato, bem como dos concentrados
que Rhodan trazia nos bolsos do seu traje. Mais ou menos ao meio-dia eles se puseram ao
trabalho.
E continuaram escutando as ondas da frente sugestionadora, que chegava até eles
vinda da capital.
— ... venha para a capital... depõe as tuas armas...
7

Eles trabalhavam na câmara da eclusa, cuja rampa fora colocada para fora e tocava
o chão da selva virgem. Rhodan achara no equipamento do space-jet alguns cabos de
plástico forte e fez com eles uma espécie de arreio de suspensão em combinação com os
cintos de suspensão do seu aparelho de voo. Cascal ajudou-o, observando-o de esguelha.
— Os mineradores infelizmente não têm o equipamento maravilhoso e caro da
Frota Solar! — disse ele, irônico. Rhodan sorriu ligeiramente.
— Eu compreendo o seu sarcasmo, Joak. Mas sou inocente disso. Aliás...
O major ajeitou um nó, apertando-o bem, e enganchou uma argola no seu gancho de
carabina.
— Sim? O senhor ia dizer alguma coisa?
Rhodan declarou tranquilamente:
— O senhor não tem a menor ideia de que Perry Rhodan está vivo. O senhor está
cem por cento convicto de que eu sou Norman Yoder, agente da Contra-espionagem
Solar. O senhor me entendeu corretamente?
— Entendido — disse Cascal. — O senhor pode confiar em mim, Sir.
— A camuflagem é importante! — insistiu Rhodan. — E a única possibilidade de
agirmos certo.
Cascal olhou-o, tranquilo.
— Eu já lhe disse que o entendi.
Rhodan levantou-se e flexionou os seus músculos.
— Ótimo — concluiu ele. — Nós partimos dentro de uma hora.
A noite desceu rapidamente, depois de um curto lusco-fusco.
Os dois homens deslizaram através da eclusa inferior, para dentro da escuridão lá
fora, e para o capim alto do grande declive. Por cima da clareira estavam as estrelas, uma
árvore isolada ainda se espichava para o alto, como uma sombra escura contra o céu. De
muito longe vinham os ruídos de uma manada de animais, que se adiantava através das
picadas sinuosas, na direção do bebedouro. Ouviu-se também o grito de um pássaro, mas
não era nenhum pássaro-darso, que passou voando por entre as folhagens, surpreendido
por um predador de ninhos. E depois: novamente aquele silêncio que parecia manter todo
o planeta sob o seu guante.
— Esse ambiente idiota eu já estou vivendo há três semanas, toda a noite! —
resmungou Cascal e agarrou aquela espécie de arreio de suporte, enfiou as pernas no
mesmo e segurou-se nas cordas compridas.
Os olhos de Rhodan estavam sérios quando ele respondeu:
— Este ambiente e ambientes ainda piores eu já vivencio há mais de mil anos, Joak.
E a cada vez ele é novo e assustador.
Rhodan parou e aumentou a capacidade do campo que neutralizava a gravidade do
planeta. Lentamente o Administrador-Geral ergueu-se no ar. Um metro, dois metros... os
cabos e cintos se esticaram, o gerador trabalhou por segundos sobrecarregado, depois
Cascal estava pairando por baixo dele.
— Pronto? — perguntou Rhodan. — Está sentado confortavelmente?
Joak sorriu, sem respeito.
— Confortável e seguro como no colo do Administrador-Geral — disse ele em voz
alta.
O voo começou. As diminutas máquinas carregaram os dois homens sem esforço, e
quando Rhodan alcançou altura suficiente, ligou a aparelhagem de voo. Seguindo a
luminosidade que se destacava no horizonte, os homens pairaram na direção de Silomon,
naquele seu arranjo improvisado.
Durante meia hora nada aconteceu.
Eles sobrevoaram um mundo escuro, silencioso, exótico e enigmático. Árvores
grandes, brilhando azuladas, cheirando forte a almíscar e eucalipto, apareceram no seu
caminho, e sem fazerem ruído aquela parelha estranha sobrevoou as suas copas.
Novamente as ordens mentais tinham se tornado nítidas.
— ...venham para a cidade de Silomon...
Com olhos estreitados Cascal olhou a paisagem, depois perguntou tão baixo que o
vento deslocado por eles quase o tornou inaudível:
— Chefe?
— Sim?
— Está ouvindo essas ordens?
— Sem dúvida. Um crime hediondo. Vinte milhões de marionetes!
Joak engoliu em seco e retrucou:
— O senhor acha que em Silomon ainda existam pessoas que não são marionetes?
Rhodan puxou a cabeça para cima e olhou para a selva.
— É possível — respondeu ele, baixinho.
Nada se mexia. Nenhum pássaro, nenhum planador, nada de holofotes de busca. A
tela do oscilógrafo no seu pulso também não mostrava nenhum eco especial — os
impulsos continuavam tranquilos e se dirigiam como fantasmas para a esquerda e para a
direita.
Menos de uma hora mais tarde, eles se aproximaram dos subúrbios da cidade.
Cascal disse, amargo:
— Silomon, pérola do planeta, cidade dos sonhos, centro de cultura e civilização,
palco giratório de homens e criaturas de outras raças... o que foi que fizeram com esta
cidade?
— Isso — disse Rhodan, numa calma pouco natural — nós logo veremos.
Durante dois longos minutos eles pairavam para a frente, sempre ainda acobertados
pelas altas copas das árvores. E então estendeu-se diante deles, cada vez mais alta no
centro, a cidade com suas luzes. Rhodan desceu e tentou ficar consequentemente na
sombra de muros, torres e nos restos da floresta, que não fora derrubada.
— O senhor conhece a cidade, Joak? — perguntou Perry Rhodan.
— Não — disse o major. — Infelizmente não me deram oportunidade para alegrar-
me com a beleza dessa cidade meio caótica. Mas isso ainda poderemos fazer depois de
nossa vitória, que graças a nossa habilidade certamente não vai demorar muito, não é
mesmo?
— Homem! — resmungou o Administrador-Geral, com respeito. — O senhor
certamente não é nada modesto!
— A Frota e o tratamento especial que recebi da mesma, transformaram-me numa
ruína psicológica, Sir. O senhor não tem culpa disso.
— Não foi isso que eu quis dizer. E também não posso modificá-lo. Por mim,
continue assim. Eu gosto de rir.
— Neste caso — retrucou o major, cortante — o senhor também deixou de entender
a ironia.
Rhodan respondeu secamente:
— Provavelmente o senhor tem razão. Aquilo lá do outro lado pode ser a torre de
transmissão com o seu mastro, ou será que é alguma torre comum?
Esta última hipótese devia ser pouco provável numa cidade construída a toda pressa.
As luzes duplas piscando naquela coluna esguia de aço indicavam a construção como
uma torre de rádio.
— E dali que também vêm os impulsos! — disse Rhodan.
— Correto!
Eles precisaram de um quarto de hora para se aproximarem do mastro de
transmissão. Duzentos metros antes, Rhodan parou perto de uma torre espigada, depois
pousou e saltou em cima de um contraforte. Perto dele segurava-se Joak, ainda dentro
dos cintos, nas saliências de um reservatório plástico de água.
— O exército! — disse Rhodan e apontou para baixo. Ambos viram o anel que
rodeava a estação de rádio, as construções parecidas com bangalôs com seus corredores
de ligação e o pequeno muro. A estação de rádio estava cercada por unidades do exército
de Astera.
Cascal deixou-se escorregar para junto da parede e fechou os olhos, como se em
profunda resignação. Depois ele disse, em voz baixa:
— Como a estação de rádio transmite esses impulsos, e além disso o exército não
está bloqueando o edifício, mas protegendo-o contra um ataque, a situação está clara.
— Mesmo o exército, são todas marionetes! — observou Rhodan.
Um cordão fechado rodeava a estação.
Este anel tinha mais ou menos um quilômetro de diâmetro. Ele consistia de
blindados voadores, que lentamente voavam em círculos, de armas energéticas fixas, com
as quais até poderia se defender de um ataque vindo do espaço, e de uma série de escudos
energéticos defensivos. No meio de tudo viam-se pessoas em uniforme, soldados em
trajes de combate, armados até os dentes. Mas ninguém tentava jogar nem mesmo uma
pedrinha na direção do edifício de rádio planetário. Num ataque regular ninguém
pensava. Todos eles eram marionetes. Nesta cidade parecia haver apenas marionetes,
alguns milhões deles. Eles tinham vindo para cá de todas as partes do planeta — a pé, em
planadores, em todos os tipos de veículos aéreos, até mesmo em space-jets. Eles
enchiam, nos seus veículos, todas as ruas, formando uma massa homogênea, e as
instalações de aprovisionamento certamente já deviam ter desmoronado completamente.
Rhodan observou, furioso:
— A tentativa de irrompermos por ali, seria suicídio. O senhor tem disposição para
isso, Major Cascal?
— De modo algum, Sir! — retrucou o outro homem. As sobrancelhas de Rhodan
subiram, e ele tocou, pensativo, a pérola na sua orelha.
— Sugere alguma alternativa, Joak? — quis ele saber, depois de algum tempo.
— Nós poderíamos tentar avançar até o edifício do governo, apesar de, também
neste caso, continuar cético.
— O senhor tem razão. Vamos tentá-lo. Neste caso não teremos mais nada para nos
censurar. Eu tenho uma ideia...
Ele ligou o aparelho de rádio, girou o diminuto alto-falante, abrindo-o, e sintonizou
o comprimento de onda no qual ele irradiara para a base do serviço secreto.
Durante trinta segundos eles silenciaram, perturbados, enquanto os ruídos passavam
sobre a cidade.
Rhodan estava assustado.
— Fogo de pesados canhões automáticos — disse ele.
— As suas observações têm uma virtude muito desagradável — retrucou Cascal
lentamente — pois sempre são constatações exatas.
— Isso significa apenas que por aqui ainda há pessoas que não são subjugadas por
estes malditos impulsos mentais.
Com um rosto impassível Cascal apontou para o norte e explicou:
— Dali é que vieram os tiros. Tiros do norte, trazem tristeza e morte.
Sem querer, Rhodan teve que rir. Ele conhecia este homem já bastante bem. Cascal
era forte e valente, e sempre tentava brincar com sua própria situação difícil. Brincava
primeiro consigo mesmo, depois com os outros.
— No senhor perdeu-se um poeta — disse ele, irônico.
— Entre outras coisas. O senhor poderia movimentar suas asas, Sir?
— Com prazer — disse Rhodan e aumentou novamente a capacidade do gerador
antigravitacional.
Eles subiram, só alguns metros, e depois pairaram para o noroeste, onde Rhodan
podia presumir, levado pelas luzes, encontrar o palácio do governo.
— Majestoso, não? — perguntou ele, quando eles pairavam entre as paredes altas
de duas casas. O seu braço apontou para a frente.
— Muito apropriado. Um palácio renascentista. Tão legítimo quanto a generosidade
do Império! — retrucou Joak Cascal.
— Mas tão bem assegurado, não é mesmo?
— Desculpe, Sir — respondeu Joak — eu acho que não vamos conseguir penetrar
ali.
Um golpe forte, três tiros repetidos rapidamente e uma detonação surda o
interromperam.
— Cercado! — verificou o Administrador-Geral. Também aqui via-se a mesma
imagem que no edifício da estação de rádio. Um cordão de blindados aéreos, canhões e
escudos defensivos energéticos, envolvia a frente extensa, com suas grandes escadarias e
os leões junto das colunas sobre os degraus.
Novamente tiros, novamente duas explosões.
— Neste caso temos só mais uma possibilidade — disse Rhodan em voz alta. —
Nós vamos nos colocar do lado dos não-marionetes deste planeta, e tentaremos convencê-
los de que somos perfeitamente normais e inofensivos.
Friamente retrucou o major:
— E o senhor já pode começar a rezar para que este empreendimento muito
corajoso também obtenha sucesso.
— Com muito gosto.
Rhodan continuou pairando adiante, o outro homem embaixo dele, dentro dos cintos
provisórios do traje de combate. Eles precisaram de cerca de dez minutos para
alcançarem o local da luta. Parecia ser uma extensa fábrica de mercadorias para a
indústria pesada, pela qual lutavam, e na qual os dois grupos adversários tinham se
entrincheirado.
Rhodan manteve-se atrás de uma parede meio derrubada pelos tiros, toda de tijolos
plásticos e disse, voltando-se para Cascal:
— Aqui nós temos a frente da luta. São sem dúvida unidades do exército que ainda
não foram influenciadas.
Joak Cascal deixou pender a cabeça e perguntou em voz baixa:
— Quais são agora as marionetes? Aqueles que estão lutando diretamente aí
embaixo de nós, ou o grupo que fica mais ao norte e que derrubou o blindado voador
ainda agora? Isso, em determinadas circunstâncias, pode ser de vital importância.
Rhodan tirou o binóculo do pescoço e olhou por ele.
Ele observou atrás de um escudo de proteção energética, duplamente erguido,
alguns homens que arrastavam um novo gerador para as proximidades de um canhão
energético. Ele ajustou as lentes para os homens individualmente e descobriu abaixo da
borda traseira do capacete as conhecidas manchas azuis.
— Os Azuis — disse ele, tranquilizando — estão aqui por baixo de nós e à nossa
frente, major. O senhor agora está satisfeito?
— Infelizmente. O senhor agora poderia fazer a fineza de voar cautelosamente até
os nossos amigos, eles ainda não têm a menor ideia da sorte que terão em travar
conhecimento conosco.
— Para o senhor — disse Rhodan, curto — eu faço muita coisa mas não faço tudo.
— Mais tarde eu voltarei a isso, em ocasião mais condizente, caso nós
conseguirmos escapar com vida desse planeta engraçado.
A voz de Rhodan não tinha qualquer dúvida, quando falou:
— Nós vamos deixar Astera vivos, major, disso o senhor pode ter certeza.
Joak Cascal respondeu secamente:
— Eu acho que a gente precisa, no mínimo, chamar-se Perry Rhodan, para poder
acreditar nisso. Eu me junto ao senhor, Sir.
Através do terreno extenso da fábrica havia inúmeras escaramuças. Ações de dois
ou três blindados voadores e alguns canhões. Como as armas eram iguais, a força do
armamento de ambos os lados também, as lutas ficavam sem qualquer decisão por muito
tempo, além de não fazerem vítimas. Os escudos protetores energéticos resistiam ao
tiroteio, e a falta de senso de um litígio guerreiro foi mais uma vez comprovada aqui, na
noite sobre a cidade de Silomon, da forma mais clássica.
Num grande arco, os dois homens pairaram para o norte e aproximaram-se
cuidadosamente dos homens em luta — dos homens que ainda não eram marionetes.
— Quietos! — disse Rhodan de repente. Através do barulho da luta ele ouvira
alguma coisa.
Ele girou, em teste, o alto-falante do traje, para abri-lo mais, e ouviu que uma
mensagem de rádio vinha através da onda sintonizada. Ele não ouvira o começo — ele
não sabia há quanto tempo a mensagem já estava sendo transmitida.
— ...aqui Kunutson. Chamo o agente que chegou há dois dias atrás. Urgente. Por
favor dirija-se ao comandante do Primeiro Comando de Blindados Voadores. Ele o
espera. Urgente. O senhor reconhecerá o blindado pelo escudo defensivo energético e
pela numeração: Oito, traço, um... aqui Kunutson... o agente deve dirigir-se ao
comandante. Eu repito...
Baixinho Rhodan ia traduzindo tudo para o major, até ver a cara deste.
Joak Cascal estava sorrindo, divertido. Imediatamente Rhodan teve certeza que o
major traduzira o código do mesmo modo que ele.
Para preveni-lo, ele disse:
— O senhor sabe: eu sou Norman Yoder!
— Eu acho que o senhor realmente me acha meio arrebentado, sim! Eu já ouvi tanto
isso aí, que já sei tudo de cor. Caso ainda tenha outros desejos, diga-o logo de uma vez.
Nosso blindado de combate está justamente virando em torno de um monte de destroços
que já foi uma cara portaria de edifício.
O seu dedo apontou além do rosto de Rhodan, para um blindado que ia passando
rapidamente em diagonal a um grupo de canhões, ao mesmo tempo em que fazia fogo
ininterruptamente, tudo para poder tomar uma melhor posição estratégica.
— Agora só precisamos deixar para trás cento e cinquenta metros para chegar ao
blindado — disse Rhodan. — Linha aérea. E ali... pássaros-darso!
Abatido, Cascal concordou:
— Se irradiamos eles nos descobrem, e uma hora de desmaio é o mínimo que
poderá nos acontecer. O senhor tem um escudo, eu não. Portanto, o interesse público
mais uma vez concentra-se em mim.
Rhodan disse, frio:
— Mas o senhor também aprendeu a atirar na Frota, além de falar, quero dizer!
— Sim. Certa vez ganhei um campeonato e recebi um diploma de Reginald Bell por
isso, e duas semanas de licença para voltar à pátria. Eu me diverti muito nos jardins e no
zoológico de Terrânia City.
— Nós irradiamos durante o voo, e voamos atirando. Os pássaros nós
conseguiremos abater com os tiros em leques bem abertos, e a tripulação do blindado
também vai nos ajudar.
Cascal anuiu e tirou a sua arma das costas, engrenou-a e ajustou a largura da
projeção.
— Vamos! — disse ele, calmamente.
Agora, repentinamente, quando o perigo tornava-se visível, na forma de quase
cinquenta imitações de pássaros que se mantinham voando em círculos e espirais do lado
de fora dos escudos defensivos energéticos, Cascal manteve-se calmo e evitou suas
observações sarcásticas. Ele calculou a distância entre eles e a localização do blindado
voador, que agora se aproximara mais, e anotou mentalmente um bom número de pontos
de referência, onde eles, em caso de necessidade, poderiam buscar cobertura.
— Texto decifrado! — disse Rhodan e tirou sua arma energética para fora.
Eles voaram lentamente ao longo da cobertura.
— Entendido.
Rhodan sintonizou a onda normal da Frota e disse ao microfone:
— Aqui fala o agente da Contra-espionagem Solar. Eu chamo o comandante
Kaszant.
Dois segundos de pausa. Somente a estática rumorejava nos alto-falantes.
— Aqui fala Hima Kaszant! — disse uma voz dura, agitada. O sotaque revelou,
depois das primeiras duas palavras, que Hima Kaszant era um homem que nascera em
Astera.
— Nós estamos pairando aqui, a uma distância de cento e trinta metros do senhor.
Dois homens, não somas marionetes. Nós lhe pedimos, olhe para o oeste e nos espere.
Provavelmente seremos perseguidos por darsos.
— Nós lhes daremos cobertura de fogo! Venham!
Ao mesmo tempo, com o solavanco com que Rhodan acelerou, começou o fogo.
Das escotilhas do blindado saíram as armas automáticas, apontadas para os pássaros e
dando início ao tiroteio. Num túnel formado pelos raios e pelos relâmpagos, os dois
homens aproximaram-se do blindado, reconhecendo nitidamente a marcação e a fenda
enorme na grande escotilha lateral. Um soldado armado olhou para fora e levantou a sua
arma automática. Uma rápida sequência de tiros de Cascal fez com que bem perto dos
dois homens três pássaros explodissem, e Rhodan também atirou.
Eles pairaram em linha reta na direção da escotilha, o Administrador-Geral freou o
voo muito veloz, de modo que Cascal rodopiou e errou o disparo, depois Rhodan parou
inteiramente. Cascal estava de pé sobre o estribo, uma mão saltou para fora e puxou-o
através da escotilha. Rhodan atirou três vezes para trás, viu um pássaro explodir e
desligou a aparelhagem de voo e a de antigravidade. Ele caiu para dentro da abertura da
escotilha, diretamente em cima das costas do major.
— Entre com alegria! — gemeu Cascal.
jogou a sua arma às costas e desabotoou o cinturão.
— Sejam cordialmente bem-vindos — resmungou o soldado. — Olhem só isso!
Ele apontou para a escotilha. Os darsos voavam sem sentido, mas teimosamente
contra o escudo energético defensivo novamente erguido. Alguns deles acabavam
entrando no âmbito do mesmo e caíam torrados e soltando fumaça, para o chão; os outros
ergueram-se e continuaram circulando acima do blindado voador.
Rhodan levantou-se e desatou os amarrados e conexões do seu traje.
— O senhor é Kaszant? — perguntou ele, calmo.
O homem armado ergueu a pesada carabina automática para ele e apontou com a
boca para dentro da semi-escuridão do recinto interior.
— Não.
Rhodan, novamente na máscara e no comportamento do agente Yoder, ergueu as
sobrancelhas, interrogativamente.
— Por favor, leve-me até ele.
O homem estava parado bem perto dele e parecia indeciso sobre quem devia
apontar a arma. Rhodan notou que o olhar do homem se fixara na mancha azulada, para
depois passar rapidamente para Cascal.
— Eu vou levá-lo para Kaszant. Ele espera um agente, mas nenhum Azul.
Cascal riu, irritado.
— Faz semanas que não toquei numa gota de álcool. Eu sei que dizem na Frota que
quando se toma um porre se fica “azul”. Mas eu não toquei em álcool, sargento. E deixe
desse teatro. Nós dois somos algo muito especial. Somos “Azuis”, mas normais; duvido
que o senhor consiga imitar isso.
O sargento apontou para a frente, em resposta, e vigiou cuidadosamente cada passo
deles. Quando chegaram à pequena e apertada central de comando do blindado voador,
um homem baixo, atarracado, com um enorme bigode, girou na sua poltrona.
Na sua mão rebrilhou uma arma pesada. Ela estava apontada diretamente para o
peito do agente.
— Levante as mãos! — disse ele, ameaçador.
Yoder sorriu. Cascal também. Mas ambos ergueram, obedientes, as mãos, até que
tocaram no teto baixo, no qual estavam afixados os condutos de renovação de ar.
Lentamente Norman Yoder falou:
— Não atire antes que eu lhe explique tudo. Poderia ser um erro.
Hima Kaszant não se deixou absolutamente impressionar e disse abruptamente:
— Informe. Rápido!
Um forte solavanco fez o blindado voador estremecer, quando Rhodan-Yoder
começou o seu relatório.
8

Norman Yoder e Joak Cascal tinham um total de quatro armas apontadas para eles.
Hima Kaszant, um dos homens que já tinham nascido neste planeta, trinta anos de idade,
e extremamente desconfiado devido aos acontecimentos, pelos quais esta cidade foi
perturbada, não tirava os olhos dos homens. Ele apontava a sua pesada arma para Yoder.
Um agente se parecia assim?
Descontando-se os traços dos dias passados, que estavam nitidamente visíveis, este
homem mais parecia um janota, um homem na moda e não um dos homens duros como o
aço que serviam de ligação com a Contra-espionagem Solar. O cabelo, as costeletas
compridas, esta pérola idiota na orelha, a luva fina de pele preta — este homem era um
enganador? Hima Kaszan pigarreou e ficou escutando, enquanto Yoder se justificava. O
agente tinha argumentos difíceis de serem derrubados. Kaszan estava informado de que
há dois dias atrás um agente chegara — Kunutson o informara sobre isso. Também fora
Kunutson quem captara a curta mensagem de rádio de Yoder, mas que não pudera
respondê-la, porque neste caso teriam rastreado a estação do serviço secreto. Kaszan, que
tinha construído suas esperanças sobre o conhecimento e o saber deste homem,
naturalmente não imaginava nem de longe que Yoder e Rhodan eram a mesma pessoa.
— Está bem — disse Kaszant depois de algum tempo, olhando nos olhos cinzentos
do agente. Ele os achava conhecidos, mas não sabia de onde. — Eu estou disposto a
acreditar em você. Onde arranjou esse outro pássaro? — O sorriso de Cascal era bastante
desagradável, quando ele retrucou:
— Eu vim voando para ele. Confiado e faminto pela sua comidinha.
Também Kaszant teve que sorrir.
— Livre-mercador?
Cascal anuiu e corrigiu:
— Minerador, Comandante Kaszant. Meus cinco camaradas encontram-se lá fora,
em algum lugar entre o exército sem nome das marionetes. E se quiser saber por que,
apesar da mancha azul, eu ainda posso falar e agir tão normalmente, olhe aqui...!
Ele mostrou também para Kaszant a placa de aço na parte de trás de sua cabeça.
— Acredita agora? — perguntou Cascal, incisivo.
Hima Kaszant observou primeiro Yoder, depois Cascal, pensativamente.
Era óbvio que lhe custava algum esforço, quando ele disse:
— Eu acredito nos senhores. No momento em que eu sentir que me enganam, eu os
mato sem compaixão.
Yoder confirmou:
— Com isso o senhor fará bem, comandante.
E Cascal disse sarcástico:
— Isso eu estou acostumado da Frota, como por todos os exércitos: atirar primeiro,
pensar depois, e mesmo assim não chegar a nenhum resultado.
Kaszant fez um gesto irritado.
— O que é que o senhor pretende fazer agora? — perguntou Yoder, curto. Ele viu
como o comandante pegou o microfone na mão para dar novas instruções ao piloto do
pesado blindado voador. Novamente um tiro energético bateu contra os escudos
protetores do blindado, atirando-o alguns metros para trás. Os amortecedores gemeram
protestando, e todo o veículo estremeceu barulhentamente.
— Vamos voar até a estação de comutação, Yoder. Yoder sacudiu a cabeça e disse,
num tom duro de quem está acostumado a dar ordens:
— Na realidade eu deveria entrar em contato com Kunutson.
Kaszant ouviu alguma coisa que não suspeitara no tom daquela voz e virou-se,
incrédulo.
— É exatamente isso que vamos fazer. Mas vamos ter que fazer alguns desvios
necessários.
— Eu compreendo! — disse Yoder, segurando-se no encosto do assento estreito.
Com as máquinas trovejando, o blindado voador virou-se dentro de uma nuvem de
poeira. Kaszant ordenou que suas unidades se colocassem em cobertura de fogo; ele
queria voar para o objetivo vinte e dois e queria estar de volta dentro de meia hora.
Enquanto o pesado veículo se deslocava para fora da formação de combate,
movimentando-se de ré na cobertura da proteção de fogo e dentro da nuvem de poeira,
que subia muito alto, os grupos de marionetes atacaram. Eles pareciam imaginar que o
blindado voador Oito-um tinha algo especial pela frente e atiraram-se em cima dele. Sem
intervalo, os tiros batiam contra os escudos protetores energéticos, abalando o veículo,
que agora deixou o solo, começando a pairar para cima. Por trás e junto do blindado, as
próprias unidades abriram fogo em cima das marionetes, colocando uma larga frente de
explosões e destruição entre ele e os atacantes. O blindado tornava-se cada vez mais
veloz, aumentou sua altura de voo, e voou velozmente por cima de uma selva. Depois o
fogo amainou, os abalos terminaram. Cascal gritou, no meio do barulho das máquinas:
— Para onde estamos voando, comandante?
— Trinta quilômetros. No vale da montanha.
— Obrigado.
Cascal pediu um cigarro ao radioperador do blindado, acendeu-o e recostou-se
confortavelmente. Ele fechou os olhos e procurou livrar-se da tensão, e os homens
acharam que ele adormecera.
Os seus pensamentos voltaram para trás.
O seu nome completo era Joaquim Manuel Cascal. Ele nascera no oeste de Terrânia
City, onde crescera, vendo cada dia e cada noite as naves que subiam do grande
espaçoporto da Frota, ou nele pousavam. O seu sonho era — desde os dias em que
aprendera a ler e escrever — voar para os mesmos lugares para os quais voavam essas
naves. Ele viu as fotos de mundos distantes e paisagens exóticas, e jurou a si mesmo
fazer de tudo para poder trilhar por esse caminho. Para isso precisou de quinze anos, e
então finalmente ele era primeiro-oficial de um cruzador leve. O seu comandante era um
homem esperto e valente e Joak, como o chamavam, aprendeu muito e depressa. Certo
dia ele teve que substituir o comandante; depois de uma missão arriscada foi promovido
— o resto da história ele mesmo contara para Rhodan-Yoder. Há longos meses ele tentou
não amargurar-se demais com estas coisas, mas as três semanas de selva de Astera o
tinham deixado com os nervos em frangalhos. O que nem Rhodan nem Kaszant sabiam,
era que os acontecimentos que durante os longos anos de estudo e de trabalho, de
aprendizado e de exames, tinham passado por ele — ou talvez não. Estas inumeráveis
coisinhas o tinham marcado muito mais do que os anos na Frota. Ainda queimava dentro
dele o desejo de sair voando para o espaço com a sua própria nave, para descobrir coisas,
para ver e explorar... sem a pressão de uma instituição ou de uma Frota atrás de si.
Joaquim Manuel Cascal era um aventureiro nato, mas ao contrário de naturezas que
viam as suas vidas como uma sequência de acasos arriscados, Joak continuava um cético,
era reservado e sabia esperar. Ele pensava primeiro para só depois agir. E quando agia o
fazia rapidamente e se possível de modo exaustivo. Como geralmente quarenta e cinco
anos vividos muito conscientemente ofereciam inúmeras oportunidades, pelas normas
terranas, de experimentar esta maneira de ser, Cascal hoje estava em situação de saber de
tudo isto.
Ele estava vendo as coisas em Astera e Silomon com tensão e curiosidade.
E justamente ao lado de Perry Rhodan!
Ele abriu os olhos, olhou com olhar preguiçoso o perfil do Administrador-Geral e
decidiu, neste segundo, de tornar realidade os seus sonhos infantis de mundos exóticos,
distantes, com a ajuda desse homem. O que ele podia fazer para ajudar Rhodan, ele faria.
— Comandante! — disse ele, em voz alta, esmagando o cigarro numa placa dizendo
“PROIBIDO FUMAR”.
Kaszant, que observava as telas de vídeo e as de infravermelho, virou-se
rapidamente.
— Cascal?
— Diga ao seu piloto lá na frente que eu já voei de modo bem mais luxuoso.
Kaszant sorriu sem graça e respondeu, cortante:
— Por que não diz isso para Rhodan? Sugira-lhe que mande equipar estes blindados
voadores com poltronas de veludo e com um molejo de compensação positrônico.
Cascal levantou os braços depois de encolher os ombros.
— Ora — disse ele — eu vou mesmo fazer-lhe essa sugestão, algum dia. Afinal de
contas, nada é impossível para Rhodan.
E então ele sentiu que o blindado voador freava, seguindo as sinuosidades de um
vale. O objetivo parecia estar próximo.
E lá estava ele!
No meio de um rochedo apareceu um desenho retangular. Eram as superfícies de
corte de um portal excelentemente camuflado e revestido de pedra, através de cujas
bordas, há segundos, tinham mandado uma corrente elétrica para que se esquentasse e se
tornasse visível na tela infravermelha do blindado. O blindado voador dirigiu-se para ali,
alguns comandos de rádio foram trocados, e então o portal abriu-se para dentro, como um
basculante, sendo puxado para cima. Com uma manobra rápida mas cuidadosa, o piloto
pairou para dentro e dirigiu-se novamente pelas lâmpadas sinaleiras, que brilhavam no
âmbito infravermelho. Atrás da nave o portal camuflado fechou-se novamente, tornando-
se invisível. O isolamento evitava que a base secreta fosse rastreada.
Kaszant voltou-se para Yoder e falou:
— Nós organizamos aqui um centro de controle muito secreto para uma
emergência. Só muito poucos oficiais sabem disso, e felizmente nenhum deles está entre
as marionetes. Aqui está erigido um pequeno transmissor.
O blindado baixou, deu um solavanco forte, e depois freou com suas lagartas. O
campo energético defensivo foi desligado, e no mesmo instante a iluminação normal do
bunker foi ligada. As escotilhas do blindado se abriram, e ar puro e fresco entrou no
veículo. Os homens desligaram os aparelhos, colocaram o serviço de rádio para conexão
interna e desembarcaram em fila.
Cascal tocou o braço do comandante.
— Diga-me uma coisa, será que por aqui vamos ter possibilidade de tomar banho de
chuveiro e fazer a barba?
Kaszant lançou-lhe um olhar intrigado, depois anuiu em silêncio.
O recinto encheu-se com os homens da tripulação do blindado e oficiais mais
jovens. Eles tinham vindo através de um pontilhão metálico e levaram a tripulação para
dentro. Aqui estava bem mais quente, e uma sala de banho foi indicada a Cascal.
Também lhe arranjaram novas botas e um uniforme usado, mas limpo, que até lhe
assentava nos ombros.
Kaszant abriu uma porta diante de Yoder e deixou o agente passar adiante dele, para
dentro de uma sala grande, surpreendentemente mobiliada com bastante conforto.
— Precisa de alguma coisa, Norman? — perguntou ele, num tom familiar.
Rhodan abriu o comprido zíper do traje de combate e anuiu pesadamente.
— Três coisas: uma comida decente, um relato dos acontecimentos aqui em Astera
e um contato com Knud Kunutson.
Kaszan encomendou a refeição e ajudou Yoder a tirar a pesada mochila energética.
— A refeição está pedida — disse ele. — As informações o senhor também vai
receber. Antes porém ainda uma pergunta. Que é bastante pessoal.
Alguma coisa no rosto de Yoder mostrou a Kaszant que o homem ficara vigilante.
— Sim? — perguntou Yoder, devagar.
— O que se deve achar a respeito de Joak Cascal? Quero dizer, o que o senhor acha
dele pessoalmente?
Yoder refletiu por três segundos, depois respondeu, a meia voz:
— Cascal é um homem que foi muito maltratado. Eu estou bastante entusiasmado
com ele. Além disso, eu o acho confiável.
— Obrigado — disse Kaszant quase aliviado — era isso que eu queria ouvir do
senhor. Agora já me sinto melhor.
— Por que exatamente o senhor?
Kaszan fez um movimento rápido, abrangente, com ambas as mãos.
— Porque sou responsável por tudo aqui.
No mesmo instante tocou a campainha da porta.
Kaszant gritou:
— Sim! Entre!
Um jovem suboficial entrou, trazendo consigo material de escrita de uma
impressora automática nas mãos. O papel estava dobrado e fechado com um grampo.
— Comandante Kaszant... eu estou procurando o agente da Contra-espionagem
Solar.
O comandante apontou para Yoder, que estava justamente lavando as mãos.
— Lá está ele.
O suboficial aproximou-se e entregou o papel para Yoder.
— Eu estou contente, todos nós estamos contentes, porque o senhor está aqui, Sir.
Esta mensagem veio há uma hora atrás pelo telex. Os homens da sala do transmissor a
mandaram para nós, aqui em cima. Remetente: Major Kunutson.
Yoder enxugou as mãos embaixo do aparelho de ar quente e depois examinou
cuidadosamente suas unhas.
— Obrigado — disse ele.
Pegou o papel e rasgou a sua margem, abrindo-o.
Ele o leu, uma vez em voz baixa, depois em voz alta:
— “Peço ao agente da Contra-espionagem Solar que me procure imediatamente. O
Comandante Kaszant arranjará tudo. Cuidado. Rastreamento pode acontecer durante o
salto pelo transmissor. Nós o esperamos na central. Assinado: Kunutson.”
Yoder notou que mesmo os homens desta estação estavam pesadamente armados e
usavam trajes de combate leves. Os homens em volta de Kunutson e Kaszant não
queriam correr qualquer risco.
Para si mesmo Rhodan pensou que Kunutson se comportara de modo excelente. O
seu nome — Rhodan — nunca fora mencionado.
— Nós iremos à sala do transmissor logo que estivermos prontos. Dentro de cerca
de trinta minutos.
— Obrigado, Sir — disse o jovem oficial e saiu do recinto. Na porta ele encontrou-
se com um outro ordenança que trazia a comida. Três metros atrás, vinha um homem
desconhecido que também segurava uma bandeja, com uma formidável porção de
comida.
— Não tenham receio — disse ele, e o seu sorriso e a voz o traíram. — Sou eu, Joak
Cascal, cuidadosamente recuperado novamente.
Ele estava limpo, depois da ducha, e sem barba. Sua arma estava dependurada às
costas, pois ele não gostava de separar-se dela, ao que tudo indicava. De resto ele parecia
como se estivesse satisfeito consigo mesmo e com o mundo.
— Vamos! — disse Yoder. — Nós comemos e Kaszant nos informará.
Eles sentaram-se a uma mesa, ajeitaram as cadeiras e começaram. Enquanto Yoder
e Cascal caíram em cima da comida, o comandante relatou o que sabia. O que coincidia,
relativamente, com o que Yoder e Cascal já sabiam, mas agora eles recebiam números e
dados exatos em mãos.
— Onde fica a estação do serviço secreto? — perguntou Cascal, mastigando,
enquanto servia-se de café.
Kaszant encolheu os ombros.
— Isto nós não sabemos. Naturalmente a estação tem uma entrada e uma saída
secretas, mas normalmente nós nos comunicamos ou por videofone ou por escrito. Deve
ficar em algum lugar profundamente abaixo das camadas de rocha da capital. Uma
segunda estação de evasão, praticamente uma pequena duplicata da primeira, encontra-se
em algum lugar fora da cidade.
— Vamos! — disse Yoder. — Nós comemos e Kaszant nos informará.
Eles sentaram-se a uma mesa, ajeitaram as cadeiras e começaram. Enquanto Yoder
e Cascal caíram em cima da comida, o comandante relatou o que sabia. O que coincidia,
relativamente, com o que Yoder e Cascal já sabiam, mas agora eles recebiam números e
dados exatos em mãos.
— Onde fica a estação do serviço secreto? — perguntou Cascal, mastigando,
enquanto servia-se de café.
Kaszant encolheu os ombros.
— Isto nós não sabemos. Naturalmente a estação tem uma entrada e uma saída
secretas, mas normalmente nós nos comunicamos ou por videofone ou por escrito. Deve
ficar em algum lugar profundamente abaixo das camadas de rocha da capital. Uma
segunda estação de evasão, praticamente uma pequena duplicata da primeira, encontra-se
em algum lugar fora da cidade.
Lentamente e com gosto Yoder tomou sua segunda xícara de café, e refletiu um
pouco.
Apesar do Major Kunutson ter sido informado de que Rhodan queria dar uma
olhada no planeta pessoalmente, tinha sido instruído para guardar isso apenas para si.
Kunutson fazia parte dos Informados Secundários. Isso significava que ele naturalmente
sabia que Rhodan vivia. Mas ele não sabia que o Sistema Solar tinha sido deslocado em
trezentos segundos para o futuro.
Cascal apertou diversas vezes a região do seu estômago e disse para Kaszant:
— E inacreditável como uma boa refeição tem um efeito salutar. Logo nos sentimos
uma outra pessoa, uma nova pessoa. E por isso eu lhe pergunto, meu caro comandante: o
senhor tem, por aqui, um traje de combate para mim?
Kaszan apontou com o polegar para algum lugar atrás.
— O senhor receberá de Kunutson tudo que precisar, major. Podemos começar?
Cascal e Yoder levantaram-se e Norman pegou o seu pesado traje de combate, que
estava dependurado nas costas de uma cadeira. Um tecido pesado, firme, com inúmeros
bolsos embutidos, e com a mochila energética levemente abaulada, além do aparelho de
voo.
— Choque de transmissor! — disse ele. — O que fazemos contra isso? Eu sugiro
uma bomba de hipereco. O senhor tem algo assim nos seus arsenais, comandante?
Não sem orgulho, Hima Kaszant respondeu:
— Até mesmo a bordo do meu blindado, agente.
— Ótimo. Quanto tempo vamos precisar para podermos ser transmitidos?
Kaszan não precisou refletir. Ele fechou a correia no queixo do seu capacete e disse:
— Cerca de dez minutos.
Yoder flexionou o braço e pegou o pequeno parafuso de ajustagem do relógio entre
o polegar e o indicador.
— Conferir relógios! — disse ele cortante.
— O senhor tem um modelo bonito, valioso — observou Cascal, comparando o seu
relógio.
— Eu faço explodir a bomba exatamente às onze horas e trinta — disse o
Comandante Kaszan. — Ela será explodida entre a cidade e aqui, para evitar que o
transmissor de tempo venha a ser rastreado. Se tivermos muita sorte, até mesmo o choque
do salto pode ser sobreposto. Se tivermos sorte!
— Concordo — disse Yoder. — Vamos!
Ele jogou o seu traje de combate sobre o ombro e deixou o recinto junto com
Kaszant e Joak. No corredor eles se despediram do comandante, que logo depois reuniu
novamente a sua tripulação, correndo de volta para a câmara rochosa. O ordenança
conduziu Cascal e Yoder através de um sistema de corredores, que eram assegurados por
pesadas escotilhas de aço, até um pequeno elevador.
— Cuidado. Esse negócio dispara como um foguete! — preveniu o rapaz.
— Pelo arco de Orion — disse Cascal. — Estes mundos coloniais, ou como quer
que se chamem hoje em dia, são muito bem equipados. Todo o planeta é uma selva, mas
os militares têm elevadores expressos!
O rapaz olhou Cascal, surpreso, mas silenciou. O elevador caiu velozmente para o
fundo e freou com quase dois G. Os homens sustentaram a pressão com os joelhos e
esperaram pelo abrir da porta.
— Ali, atrás da escotilha C, está a sala do transmissor — disse o oficial e se
despediu. — A equipagem já está informada.
Também ele estava fortemente armado e trazia um gerador de escudo energético
protetor no seu cinturão.
Yoder olhou o relógio, enquanto se dirigiam para a escotilha designada.
— Faltam ainda nove minutos e três segundos! — disse ele.
Cascal disse, lentamente:
— Himan Kaszant me deu uma excelente impressão. Ele vai explodir a bomba no
momento certo.
A escotilha abriu-se para um lado e os técnicos receberam Yoder e Cascal.
O microtransmissor estava bem no centro da sala e em situação de funcionar.
Alguns homens estavam parados diante dos consoles de comutação; outros pareciam
funcionar somente como guardas. Os dois homens pararam diante do transmissor, depois
Yoder dirigiu-se ao homem que estava sentado no console de comando central.
— Ouça-me — disse ele, incisivo. — O Comandante Kaszan vai explodir uma
bomba lá em cima. Esta ação terá que coincidir temporalmente. Por favor acople o
comutador com o cronômetro.
O homem anuiu para Yoder e efetuou algumas ligações.
— Hora exata?
Yoder colocou o seu antebraço com o relógio em cima do console, de modo que o
homem podia ver o ponteiro dos segundos.
— Exatamente às onze horas e trinta minutos Kaszan explode a bomba. No mesmo
segundo o transmissor tem que ser ligado.
— Isso são agora exatamente quinhentos segundos... eu faço a regulagem... três,
dois, um. Em exatamente quatrocentos e oitenta segundos nós ligamos. Está bem assim?
Agora o duro tique-taque rítmico do relógio encheu a sala do transmissor.
Uma segunda vez Yoder comparou o seu relógio com o do aparelho, depois disse
em voz alta:
— Excelente. Exatamente este tempo eu também tenho.
Ele voltou para o transmissor, juntou o seu traje de combate e colocou-se ao lado de
Cascal, entre as duas colunas. Se tudo transcorresse conforme fora calculado, eles seriam
transmitidos dentro de poucos segundos.
— Que destino está ajustado? — gritou Yoder, em voz alta.
— A central há poucos dias se mudou. Ela se encontra na base de apoio de desvio
— disse um dos homens.
Isso combinava com as informações de Rhodan. Também ele procurara a estação
fora da cidade.
Os segundos passaram-se rapidamente. O tique-taque transformou-se no ruído
decisivo dentro da pequena estação cilíndrica do transmissor, depois o arco energético
descarregou. Os dois homens desapareceram...
...e apareceram no mesmo segundo numa sala diferente, mas que tinha a mesma
conformação.
— Devagar isso está ficando bem chato — observou Cascal, apontando para o anel
de homens em trajes de combate, e que apontavam armas suficientes para os agentes,
capazes de transformar uma pequena lua em gases cósmicos.
— Cale a boca e levante as mãos — disse um homem pequeno, magro, com uma
cara inexpressiva e branca, totalmente imberbe e sem rugas. Os olhos pretos, faiscantes,
não combinavam muito bem com a cabeleira loura em desalinho.
Yoder desceu lentamente os degraus do transmissor, sem mostrar qualquer intenção
de levantar as mãos. Atrás de Joak uma voz abafada disse:
— Isso são Azuis, major!
Cascal cutucou Yoder levemente e disse, sem mexer os lábios:
— Acho que eles prefeririam se fossem verdes. Então eles poderiam nos
impressionar, demonstrando o quanto são espertos e cuidadosos. Homem! Nós estamos
vindo de Kaszant. O senhor acha que ele vai mandar-lhe uma gaiola cheia de pássaros-
darso?
O rosto mole, quase infantil, do major, não se mexeu, quando ele respondeu, calmo
e decidido:
— O que eu acredito não tem mais nenhuma importância, neste estágio do
desenvolvimento. O que eu vejo é que é decisivo. E eu vejo que a sua nuca está azulada.
Nós somos muito desconfiados com “Azuis”, isso deveria ser compreensível. Levantem
as mãos. Os dois!
Desta vez foi o sarcasmo de Yoder que se manifestou.
— Ambas as mãos? — perguntou ele e olhou fixamente para o Major Kunutson.
— O senhor não deve discutir, mas levantar as mãos. Ao todo quatro mãos!
Lentamente Yoder levantou suas mãos até a altura da cabeça e se virou lentamente.
Entre os homens, que o vigiavam e a Cascal, pelo menos a metade também era de Azuis.
— Ora vejam só — observou ele. — Nós estamos em boa companhia. De onde vêm
esses senhores, afinal? Eles também têm uma cor esquisita na nuca.
— São todos, em primeira linha, agentes da Contra-espionagem Solar e homens de
confiança do exército, que por diversas razões não tinham reagido ao influenciamento e
em seguida foram atacados pelas imitações de pássaros.
A situação era tensa, mas grotesca.
Ambos os homens estavam parados diante do Major Knud Kunutson, de mãos
levantadas, e com uma pesada arma energética apontada para eles. Enquanto na capital o
caos entre os habitantes de Astera continuava quando a hiperbomba fora detonada e
durante alguns segundos deixara todos os aparelhos de rastreamento, num âmbito de
algumas centenas de quilômetros, em total confusão, dois homens trouxeram caixas
quadradas com uma espécie de antena de radar, apontando-as para Yoder e Cascal.
— Aha! Os ajudantes metálicos! — observou Joak, pragmático.
— Espero que todos os robôs ainda estejam em ordem, caso contrário acabam
demonstrando que na realidade nós somos robôs.
Os dois homens nos indicadores dos detectores mentais anuíram depois de alguns
segundos.
Depois ouviu-se o ruído de dois pesados comutadores.
— Major!
Lentamente aquele que os homens achavam ser Knud Kunutson virou a cabeça.
— O que verificaram?
— Eles são normais. Aquele com a pérola na orelha é mentalmente estabilizado, o
outro parece ter uma operação na parte de trás do cérebro. Eles são tão normais como
todos nós.
Com desprezo, Cascal gritou:
— Ha! Normal!
O major travou a sua arma, fez um sinal para os seus homens e guardou a arma
energética. Depois aproximou-se dos homens, com a mão estendida.
— Meus senhores, eu estou encarregado de saudá-los cordialmente aqui, e depois
levá-los à presença do Major Kunutson. De certo modo eu sou apenas o sósia dele. Por
favor, perdoem nossas medidas de segurança... nós aqui só podemos contar conosco, e
não podemos nos permitir qualquer erro.
Silenciosamente Yoder anuiu, depois seguiu o pequeno oficial magricela.
— Quantos homens têm aqui? — perguntou Cascal.
Eles caminhavam através de corredores estreitos, sinuosos, cortados na rocha com a
ajuda de pequenos escavadores. Ligações, tubos e luminárias, podiam ser vistos no teto e
nas paredes. No chão haviam aplicado uma massa preta, macia.
— Cento e dois homens; com os senhores cento e quatro. Aqui estamos a trezentos
metros de profundidade, dentro da rocha de uma montanha.
— Pelo que suponho, os cento e dois homens conseguiram salvar-se, em todas as
partes do planeta, com seus trajes de combate? — quis saber Joak, depois de uns três
minutos. Eles estavam justamente descendo por uma estreita escada em caracol, em cujo
centro havia uma coluna de módulos de construção de vidro e metal, dentro do qual havia
grossos feixes de cabos.
— É isso mesmo. Temos entre eles alguns com lesões cerebrais que são imunes,
outros que são personalidades excepcionalmente fortes psiquicamente, que chegaram até
aqui logo no começo, quando as irradiações da estação transmissora ainda não eram
muito fortes... e alguns homens mentalmente estabilizados. Quase que exclusivamente
agentes e homens do exército.
Cascal perguntou, por sua vez:
— Gente pobre?
O oficial sorriu, irônico, e retrucou:
— Também há alguns com não mais de cem mil solares de fortuna particular entre
nós. — Logo em seguida o homem acionou um botão perto de uma escotilha retangular,
em rápida sucessão, e a escotilha abriu-se. Yoder e Cascal entraram na sala, e detrás de
uma grande escrivaninha, coberta com um grande mapa, o verdadeiro Kunutson
levantou-se de um salto e veio rapidamente ao encontro deles.
— Obrigado, Masters! — disse ele.
Atrás de Masters a escotilha fechou-se.
— Podemos ser escutados? — quis saber Yoder secamente, sacudindo a mão de
Kunutson.
Kunutson perguntou de volta, quase não querendo acreditar:
— Aqui? No escritório do chefe do serviço secreto de Astera? O que está pensando?
— Depois ele lançou um olhar desconfiado para Cascal, e o agente Yoder respondeu
calmamente:
— Este homem é importante e valioso. Como ele queria matar-me com um tiro, não
consegui evitá-lo. Ele sabe quem eu sou.
— Eu o saúdo, Administrador-Geral. Espero que o conhecimento sobre a sua visita
esteja limitado a três homens. Aos três homens que se encontram nesta sala.
— Concordo com o senhor.
O Major Kunutson realmente se parecia quase com o homem de nome Masters, que
os recepcionara na sala do transmissor. Pequeno, quase magro, mas com um corpo que
revelava uma inacreditável força de resistência. Fracotes nunca são nomeados para
planetas desse tipo. Embaixo do cabelo louro, faiscavam dois olhos negros, penetrantes, e
o seu aperto de mão era duro e curto.
— O que é que o senhor sabe? — perguntou ele.
Os homens sentaram-se em volta da escrivaninha, depois que Rhodan colocara o
seu traje de combate numa poltrona.
— Tudo o que Kaszant podia dizer. O que é que o senhor sabe a respeito das
imitações de pássaros?
Kunutson apontou para uma caixa, na qual as peças isoladas de um pássaro-robô
desmontado se encontravam, cuidadosamente colocadas e afixadas, umas ao lado das
outras.
— Sabemos que os pássaros artificiais paralisam as pessoas excepcionalmente
capazes de resistência. Depois que isso aconteceu, as marionetes são assumidos pelas
ordens do transmissor e podem ser manipulados à vontade, com a ajuda de ordens
modificadas de ondas sugestivas. Nós avaliamos que das vinte milhões de pessoas, pelo
menos dezenove milhões são influenciadas. O resto é imune ou se encontra escondido em
algum lugar da selva virgem do planeta, para onde os pássaros ainda não chegaram. Mas
nós descobrimos ainda mais que isso.
Rhodan cruzou as pernas, e disse, batendo com a mão sobre o mapa:
— Quando o senhor terminar, nós aqui — ele apontou para Cascal e para si mesmo
—, vamos poder fazer algumas sugestões.
— Ótimo. Nós efetuamos medições de grande envergadura. Foi quando topamos
com uma coisa estranha. Por toda parte na atmosfera do planeta pairam coisas de forma
cúbica. Elas são semelhantes a cones pontudos, com cento e vinte centímetros de base e
cento e cinquenta centímetros de altura. Exatamente na ponta há uma esfera de trinta
centímetros de diâmetro; trata-se de uma antena!
Cascal, que se servira, mesmo sem ser convidado, de um cigarro da caixa do major,
soprou a fumaça por entre os dentes, num assobio.
— Quantos, acha o senhor, estão pairando acima de nós?
— No total devem ser milhares, Major Cascal — disse Kunutson. — De
conformidade com nossas medições, pudemos descobrir que estes cones correspondem a
paraamplificadores. Eles captam as radiações de um desconhecido: Elas ali são captadas,
amplificadas e depois irradiadas para a superfície do planeta. Os raios atingem um
círculo, e somente nos diminutos triângulos, nos quais os círculos limítrofes não se
sobrepõem, não existe nenhuma radiação primária. Entretanto os efeitos secundários de
três cones são tão fortes que podemos dizer que cada metro quadrado da superfície
planetária pode ser dominado pelos impulsos amplificados. Eu afirmo: o desconhecido
deve ser uma criatura orgânica. Devido às ordens nítidas eu suponho que se trate,
inclusive, de uma pessoa que pertence à raça terrana, não importa de onde venha.
Rhodan disse, pensativo:
— Isso poderia explicar por que a hipnorradiação é muito forte e constantemente
aumenta na força do influenciamento sugestivo. O que podemos fazer contra isso,
Kunutson?
Kunutson respondeu, lacônico:
— Derrubá-los a tiros. Mas isso pressupõe que estes cones sejam atacados a tiros
por espaçonaves operando no cosmo...
O Administrador-Geral o interrompeu imediatamente.
— As marionetes destruíram pelo menos uma espaçonave e uma nave auxiliar. Eles
receberiam a tiros até mesmo uma frota inteira.
— Correto. Estas operações terão que ser controladas. Quando as naves aparecerem
nós teremos que ocupar os canhões e colocá-los fora de combate.
Rhodan observou o mapa, no qual o espaçoporto e a cidade estavam detalhadamente
indicados. Restavam uma única área verde, mal interrompida por rios, e pequenas serras
de montanhas insignificantes. A uma distância de cerca de sessenta quilômetros um
círculo fino envolvia o centro, mas em nenhum lugar a localização da base de apoio do
serviço secreto estava marcada. Kunutson realmente era um homem cuidadoso.
— Bem — disse Rhodan. — Vamos tentar golpear de dois lados ao mesmo tempo.
Nós aqui embaixo precisamos, pelo menos, causar tanta confusão, que a Frota possa
penetrar na atmosfera sem ser molestada.
Cascal curvou-se para a frente e resmungou:
— E como é que o senhor pretende alertar a Frota, Sir?
Rhodan respondeu rapidamente:
— Com uma espaçonave!
— A única coisa que tem uma vaga semelhança com uma espaçonave capaz de
funcionar é o meu space-jet. E ele está meio destruído no meio da selva em volta de
Silomon.
Rhodan apertou os olhos. Ele disse, a meia-voz:
— E exatamente esse space-jet que eu tenho em mente, Joak.
— Posso saber do que, exatamente se trata? — quis saber o Major Kunutson.
Cascal explicou.
— Tudo que precisamos — disse ele, rápido — são alguns homens. Eu acho que
seis são suficientes. Além disso, as peças para a propulsão em ré de um motor da
protuberância equatorial do jato, alguns novos módulos dos esteios de aterragem, um
esteio de pouso completo e uma plataforma antigravitacional, com a qual seja possível
erguer o jato como um macaco. Então se poderia novamente voar com este veículo.
Mas... voar, nestes dias, parece ser muito perigoso.
O Major Kunutson respondeu com firmeza:
— Não será possível rastrear o jato, se ele vai para o espaço no lugar antípoda do
planeta.
Rhodan não parecia confiar nessa possibilidade, e disse:
— A frota local do planeta provavelmente estará voando em patrulhas. Quando
tivermos consertado esse jato, vamos fazer outra coisa. De alguma maneira, e em lugares
diferentes, vamos causar confusão para que o jato possa levantar voo. O senhor tem
homens e material, Major Kunutson?
Kunutson anuiu, sério.
— Imediatamente, Sir?
— Sim — disse Rhodan. — Certas coisas não podem esperar. Chame os homens até
aqui, por favor. Joak vai mostrar-lhes onde poderão encontrar a nave. O senhor tem trajes
de combate suficientes?
Com um traço formalmente demais, o pequeno e magro major respondeu, mas
piscando o olho ao mesmo tempo:
— Nós, aqui em Astera, Sir, somos um grupo pequeno mas pronto para o combate.
Isso quer dizer que da emergência pessoal tivemos que fazer uma virtude. Esta virtude
chama-se: equipamento de primeira linha. Temos mais ou menos tudo de que precisamos.
Até mesmo peças de reposição para o jato.
— Muito bem. Estamos esperando.
Três minutos mais tarde seis homens, entre os quais Masters, estavam enfileirados
diante da escrivaninha.
Com algumas frases curtas, Joak Cascal relatou o que estava precisando de reparos
no space-jet, e Rhodan observou, sorrindo, que as sugestões dele se igualavam à metade
de uma inspeção geral. No estado em que o jato se encontraria depois dos reparos, ele
certamente não estivera, quando caíra.
— Nós anotamos tudo — disse Masters, desligando o pequeno gravador.
Kunutson disse, num tom que era uma ordem e um pedido pessoal ao mesmo
tempo:
— Masters! Meta os homens em trajes de combate, leve provisões suficientes e as
peças necessárias. Utilize a saída secreta, fiquem entre rochedos e árvores, e não corra
qualquer risco que possa custar-nos os preciosos colaboradores.
“Trabalhem tão depressa quanto possam. Façam uma camuflagem, depois que essa
coisa possa voar novamente, com galhos vivos; o senhor sabe. que através de fotos de
cores falsas, galhos mortos podem ser notados nitidamente. E não se detenha com
miudezas. Voltem logo que estejam prontos. E agora: muita sorte. Caso a estação esteja
vazia, escondam-se e esperem, nós estaremos a caminho da cidade.”
Esta última frase ele disse num tom como se Yoder, Cascal e ele fossem sair num
passeio para ver vitrines, sob a noite morna no equador de Astera.
Os seis homens se despediram e deixaram o recinto.
— Satisfeito, Cascal? — perguntou Kunutson.
Cascal anuiu e disse, baixinho:
— Muito satisfeito, major. Muito obrigado.
— Não tem de quê. Espero que tudo saia como nós calculamos. E agora: à nossa
missão, Administrador-Geral.
Enquanto eles discutiam os detalhes, os seis homens puseram-se a caminho, com a
ajuda dos seus trajes de voo. Atrás deles pairava a plataforma, em cima da qual estavam
embaladas as peças. Chegados ao jato, imediatamente puseram-se aos consertos, e
armaram o pequeno depósito de materiais embaixo dos galhos de uma árvore gigantesca.
9

O Major Knud Kunutson ficou deitado, descansando por alguns minutos na sua
poltrona. Há três minutos os técnicos tinham chegado ao jato — eles teriam enviado um
sinal automático, caso tivessem sido atacados, presos ou postos fora de combate. Este
sinal não viera e os três homens aqui no birô tinham respirado aliviados. Kunutson
mostrara os outros recintos para Rhodan, e o Administrador-Geral tinha se informado
sobre as possibilidades técnicas. Kunutson e Cascal estavam sentados em silêncio no
birô. O major de cabelos pretos olhava fixamente para a projeção que se destacava na
grande tela de videofone de mais ou menos quatro metros. Cores brilhantes, traços negros
e campos verdes, intercambiantes, tremulavam, repassadas de faixas brancas. Era o mapa
da cidade de Silomon, aumentado imensamente.
— W 16, aquele edifício redondo, é o palácio do governo — disse Kunutson.
— Entendo.
De esguelha Kunutson olhava o major. O seu olhar foi desde as botas muito limpas,
nas quais estava enfiada uma faca vibradora, para a calça verde-clara do uniforme, e o
cinturão largo, no qual havia uma bolsa com a arma energética, e para cima até a camisa,
cujas mangas estavam arregaçadas e cujo centro estava aberto no peito. Um relógio-
pulseira, com uma tira de metal perfurado podia ser visto no pulso. O rosto do major
estava concentrado e formalmente preso com o olhar no mapa.
— Nós só chegaremos lá se usarmos todos os caminhos secretos possíveis —
resmungou Cascal finalmente. — O rio... ele poderia ser uma dica.
Kunutson disse, tranquilo:
— E é uma dica. Eu ainda tenho alguns outros truques na manga.
Cascal estendeu a mão.
— Como está a curva de medição? — perguntou ele, impaciente.
— Inequívoca!
Kunutson entregou uma folha de medições para Cascal.
— A cidade foi medida no lugar em que se encontra o edifício do governo. Nisto
verificou-se que a irradiação mental na periferia da cidade é apenas fraca, no centro
muito forte e depois novamente mais fraca do outro lado da periferia. A curva aqui
mostra isto claramente.
A divisão da folha de medições era em unidades, cada uma de cem metros, e a linha
demarcada parecia um triângulo obtuso com as linhas de base na extremidade inferior da
folha de medições.
— Qual é a distância daqui até o palácio? — quis saber Cascal, depois de ter
devolvido a folha para Kunutson.
Sem hesitar o major falou:
— Sessenta e um quilômetros. Destes podemos voar cinquenta sob a proteção da
selva.
— Portanto haverá onze quilômetros críticos. Onze mil metros de obstáculos —
disse Joak, pensativo. Vamos consegui-lo?
Os seus pensamentos ficaram tumultuados. O plano somente teria êxito se os
homens do Major Kunutson conhecessem cada centímetro quadrado do terreno com seus
esconderijos e trilhas escondidas.
— Com um pouco de sorte, sim. Nós precisamos de gente boa. Esse tipo de homens
temos aqui. E nós precisamos também de apoio do exército, o que traz alguns problemas.
Mas nós vamos conseguir passar. Como não temos a intenção de lutar diretamente com o
exército de marionetes, temos que nos restringir a operações de perturbação e tentar, de
algum modo, penetrarmos no palácio. Vamos partir amanhã de noite. Até lá precisamos
ter um plano detalhado. Podemos usar o resto desta noite para desenvolver este plano.
Rhodan vai colocar a sua capacidade estratégica na balança. Nós vamos consegui-lo, Joak
Cascal!
— É o que espero! — disse Cascal.
***
Os homens encontraram-se novamente no birô de Kunutson, depois de uma refeição
copiosa. Kunutson abriu a discussão.
— Eu escolhi cinco homens. Todos eles são como nós Azuis, ou seja, têm a nuca
com esta coloração. Todos os outros homens naturalmente poderiam proteger-se contra
os darsos com seus trajes de proteção, mas parecem bastante inverossímeis como
marionetes. Eles seriam rastreados e atacados.
Rhodan disse, mais para si mesmo:
— O caminho até o palácio do governo é bastante difícil, mas parece ser bem
seguro.
— E é mesmo — retrucou Cascal. — Kunutson o desenvolveu comigo, no que eu
banquei o recém-chegado cético. Quais, exatamente, são as tarefas desse comando, Sir?
Ele se dirigira para Rhodan.
Perry Rhodan, apesar de ter se asseado bastante, estava na mesma: continuava na
máscara do estranho agente da Contra-espionagem Solar.
— Duas tarefas. Penetrar no edifício do governo e desviar a atenção das tropas de
vigilância com operações concentradas.
Joak Cascal levantou a cabeça e olhou Rhodan de frente. A sua resposta estava
formulada de tal modo, como se ele esperasse uma resposta exata em todos os sentidos.
— Quem, acha o senhor, está no palácio do governo, agindo como responsável por
isso tudo?
Rhodan disse, friamente:
— Corello. Ribald Corello. Eu praticamente posso sentir o seu cheiro.
Surpreso, Kunutson perguntou, por sua vez:
— O senhor conhece Corello, Sir?
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Não, apenas ouvi falar dele. Até agora nunca falei com ninguém que o tivesse
visto pessoalmente, ou que saiba como ele se parece. Aos poucos este homem assume o
caráter de uma figura dos contos da carochinha.
Os três homens ainda discutiram com os cinco outros o plano; depois Kunutson
indicou a Rhodan e Cascal os seus alojamentos. Enquanto os homens descansavam,
dormindo, os outros preparavam o equipamento, cujas peças principais o Administrador-
Geral indicara. A noite da decisão aproximava-se cada vez mais, e nas próximas horas
aconteceram muitas coisas.
Os homens consertaram completamente o space-jet, e depois o arrastaram para a
proteção de muitos galhos entrelaçados. O aparelho não devia dar partida, porque podia
ser rastreado, mas estava totalmente capaz de funcionar.
Na capital as pessoas continuavam a chegar. Uma massa imensa enchia as ruas,
bloqueando-as e fazendo com que os serviços de aprovisionamento falhassem.
Os comandos do mutante continuavam sendo reforçados e distribuídos por todo o
planeta. As sombras incansáveis dos pássaros-darso artificiais giravam por toda parte,
quebrando resistências individuais.
Um planeta silencioso parecia estar esperando por um acontecimento.
A situação corria formalmente ao encontro de um ponto no qual ela teria que se
modificar.
O que queria Ribald Corello, essa criatura que ninguém conhecia, realmente de
Astera?
Ninguém o sabia. Nem mesmo Rhodan.
***
Há anos o bloco de pedra do cume da montanha se desprendera e rolara para baixo.
Era uma rocha de cantos afiados de cerca de vinte metros cúbicos.
Em volta da rocha cresciam grama, arbustos e árvores esguias, curiosamente
torcidas. Um casal de passarinhos construíra um ninho em cima de uma raiz aflorada, e a
fêmea estava sentada em cima de três ovos vermelhos.
De repente ouviu-se um zunido penetrante.
O bloco de pedra começou a girar, como se uma força invisível o movimentasse.
Girou lentamente, ao longo de um eixo vertical fictício. Então apareceu, entre os cipós e
capins, um buraco exatamente redondo. De dentro deste buraco saiu pairando um homem
em traje de combate, com o capacete semelhante a um capuz colocado na nuca, e uma
arma pesada, pronta para atirar, nas mãos.
Ele olhou em torno, procurando, girando lentamente.
— Livre! Vamos! — disse ele, abafado.
Atrás dele pairavam outros sete homens, saindo do buraco, orientando-se pelas
estrelas e por uma microbússola, não esperando até que a formidável pedra se fechasse
novamente.
Depois de terem saído do pequeno vale montanhoso, eles voaram ao encontro do
distante fulgor das luzes da cidade.
Mantinham uma formação solta, bem aberta, para evitar um rastreamento em
qualquer caso; eles voavam por entre as cúpulas das árvores, o mais rapidamente
possível. No horizonte escureceu a última faixa de penumbra do ocaso. Agora era noite e
os homens se mantinham tão afastados uns dos outros, que ainda mal podiam ver-se.
Durante trinta minutos eles voaram velozmente através da escuridão, respirando os
odores pestilentos da mata virgem, e se reuniram apenas quando viram as primeiras
casas.
Oito homens.
Cinco nativos do planeta, o Major Kunutson e Rhodan, bem como Cascal. Os seus
trajes voadores estavam pesados, devido aos muitos objetos de equipamento trazidos.
Eles se reuniram nas proximidades de um grupo de árvores saliente, discutiram em voz
baixa, depois continuaram o seu voo, isoladamente. O seu destino era uma morada
abandonada, um penthouse, cobertura que ficava, não muito longe do centro da cidade, a
dois quilômetros em linha aérea de distância do palácio do governo.
O Major Kunutson saiu voando primeiro.
Ele voou a uma velocidade incrível pelas estradas iluminadas, mantendo-se sempre
bem perto das paredes. Saltava de telhado para telhado, ficando constantemente na
sombra e desaparecendo quando suspeitava de algum perigo. Dez minutos mais tarde ele
pousou no telhado da moradia, que estava escura e vazia, destravou sua arma e esgueirou-
se, na medida em que o permitia o seu traje de combate, em direção à entrada da casa.
Era a casa de um arquiteto, que há anos, e por desvios, tinha se ligado à organização. Ele
ficara para trás na estação, mas dera a chave a Kunutson — e uma dica valiosa, sem a
qual a operação teria ficado ainda mais incerta.
O objetivo era conhecido dos outros sete homens; eles chegariam aqui em intervalos
de dois minutos cada.
Kunutson, numa mão a pesada arma, na outra a pequena pistola sinaleira, foi até a
porta, abriu-a e encontrou o interruptor certo. Diante de todas as portas e janelas,
desceram as persianas de aço.
Kunutson revistou cada quarto isoladamente. Ninguém encontrava-se na grande
residência, e não havia sinais de que alguém a tivesse arrombado. Ele jogou a arma
sinaleira descuidadamente num cesto cheio de luvas e outras miudezas e começou a tirar,
rapidamente, o seu traje de combate. Um paralisador pesado e uma arma energética ele
colocou em bolsos especiais sob os ombros, depois desenrolou a suja jaqueta de lenhador,
vestindo-a. Justamente quando estava metendo o braço na manga esquerda, dez metros
diante dele Rhodan pousou no telhado e veio correndo.
— Tudo em ordem? — murmurou ele, da escuridão. Kunutson sorriu e retrucou,
conforme combinado:
— Nada está em ordem. Levante as mãos e se aproxime. Rhodan correu
rapidamente pelo telhado e ficou parado no corredor.
— Confortável vive essa gente aqui — disse ele, satisfeito, e depositando o pesado
paralisador numa mesa. — O que há com a casa?
— Os apartamentos por baixo de nós estão vazios, pelo menos não há luz acesa.
Mais para baixo há escritórios, e nestes dias ninguém trabalha em Silomon. Lá embaixo,
no térreo, há lojas. Estão abertas, mas não tem clientes. Marionetes calculam mal,
portanto mandaram os vendedores embora.
Também o Administrador-Geral tirou o seu traje de combate. Minutos mais tarde,
dois homens parecendo inofensivos estavam parados um diante do outro, com uma
mancha azulada aparecendo nas suas nucas.
Um terceiro homem veio, um quarto, e por Cascal eles esperaram mais tempo.
Finalmente ele veio voando por cima do telhado, com o seu escudo energético protetor
ligado, e freou duramente bem perto do corredor.
Escudo protetor e aparelho voador foram desligados.
— Nenhum rastreamento! — disse Cascar rapidamente, quando Kunutson abriu a
boca. — Eu tenho três rodadas atrás de mim. A região é relativamente calma, e ninguém
viu vocês. A trezentos metros daqui, uma patrulha do exército vem voando para esta casa,
ou pelo menos na sua direção. São marionetes.
Rhodan sorriu, perplexo. Cascal comprovara que raciocinava. Se estes homens aqui
tivessem entrado numa armadilha, ele sempre poderia ainda tirá-los daqui. Alguns
minutos mais tarde, oito homens que pareciam lenhadores saíram do elevador e se
misturaram aas marionetes na rua. Os seus olhos eram obtusos, sem brilho, seus
movimentos duros, como se fossem teleguiados.
Quando a patrulha-marionete passou voando por eles, os homens atrás dos
paralisadores não notaram nada. Os oito homens do serviço secreto se movimentavam
devagar, mas com um objetivo certo: o Palácio do Governo.
— À direita ou à esquerda? — perguntou Cascal, sem mexer os lábios.
Ele andava duro e meio em transe ao lado de Kunutson.
— Em frente — disse o major.
Os oito marionetes iam arrastados através de uma passagem, abrindo caminho entre
inúmeras pessoas, que aqui estavam deitadas, sentadas ou de pé. Eles tomaram uma
travessa e chegaram a umas ruas mais perto do centro, novamente a uma pequena praça.
— Cuidado. Ali na frente está bloqueado!
Kunutson respondeu:
— Aqui para a esquerda. Nós vamos circundar o bloqueio.
Eles derreteram a fechadura de um gigantesco supermercado, atravancaram a porta
cuidadosamente com uma pilha de caixas, e seguiram, à luz de um único holofote, ao
longo de infindáveis prateleiras de mercadorias, quase quatrocentos metros em frente.
Depois saíram novamente por uma entrada de fornecedores. Diante deles começava a
plataforma de carga e diante deles estava o Palácio do Governo. Rhodan verificou:
— Tudo está iluminado. Lá dentro teremos poucas chances, se continuamos
correndo desse jeito.
Kunutson virou-se e sorriu para Rhodan, de frente.
— Felizmente eu tenho os planos do palácio. Eu conheço cada recinto, cada escada,
e também conheço a única possibilidade que leva lá para dentro.
Cascal respondeu, sem respeito:
— Como o Papai Noel pela lareira?
Kunutson murmurou de volta:
— Muito mais original. Vamos nadar. Através do rio e para dentro do porão. — Ele
apontou para os três blindados bloqueando a ponte.
Um dos cinco homens do serviço secreto disse baixinho:
— Esta é a nítida desvantagem da gente, que se tornaram sem vontade, com a ajuda
da hipnose. Eles não pensam autonomamente, mas reagem apenas a determinados
estímulos.
Kunutson concluiu:
— Isto nós tomamos em consideração. Por esta razão eles não tiveram a ideia de
controlar o rio. Nós vamos nadar.
Cascal voltou-se para ir embora.
— Obrigado — disse ele — eu acabei de tomar um banho. Em voz baixa Rhodan,
Cascal e Kunutson certificaram-se de que as mesmas condições que tinham sido levadas
em consideração no planejamento, horas atrás, ainda estavam válidas. Os homens
pretendiam dividir-se e formar dois grupos de comando.
— O palácio está hermeticamente bloqueado.
Kunutson apontou para o sul.
— Nós voamos ao redor de tudo e ficamos com aquilo que havia sido combinado.
Masters fica conosco. Os outros quatro avançam, conforme planejado.
Joak disse, curto:
— Vamos, depressa. Vamos pegar os trajes e o equipamento.
— Entendido.
Eles voltaram pelo mesmo caminho pelo qual tinham vindo. E sentiram agora,
novamente, com maior nitidez: a cidade parecia alojar um gigantesco ninho de abelhas,
que estava bem perto do enxamear. A tendência estava se aproximando de um ponto alto,
e a escolha da hora da operação parecia ser exatamente a ideal. Com o elevador eles
checaram novamente a casa vazia na cobertura e colocaram seus trajes de combate.
As pequenas plataformas antigravitacionais, teleguiadas, foram carregadas.
Os quatro homens do segundo grupo enfiaram as pesadas e disformes bombas nos
seus cinturões, metendo os muitos magazines, aparelhos e máquinas nos bolsos. Na casa
vazia, as caixas ficaram para trás, nas quais o equipamento fora transportado para cá.
— O senhor sabe o que fazer, Verner? — perguntou Yoder, pela última vez.
— Tudo em ordem, Sir! O senhor pode confiar em nós.
Silenciosamente os quatro homens pairaram para o telhado lá fora, depois saíram
voando na escuridão, na direção de quatro objetivos diferentes. Caso se visse os pontos
num mapa, poderia reconhecer-se que os objetivos eram os quatro cantos de um
quadrado, em cujo centro se erguia o Palácio do Governo.
A operação decisiva começou.
***
A três quilômetros de distância do palácio, Rhodan-Yoder, Cascal, Masters e
Kunutson desceram novamente para o chão. Isso aconteceu numa pequena praça, agora
maltratada, que estava quase abandonada. Somente alguns marionetes estavam deitados
na grama, cobrindo-se com peças de roupa e dormindo exaustos.
O rumorejar das águas era ouvido nitidamente.
O rio, que praticamente dividia a cidade em duas partes iguais, aqui era dirigido por
cima de um sem-número de altos degraus, para enriquecê-lo de oxigênio, e ao mesmo
tempo limpá-lo de sujeira flutuante. Todos fecharam os capacetes, colocaram os trajes de
alimentação interna e lançaram-se na água, perto do último degrau.
Foram ao fundo e se seguraram com um comprido cabo, muito fino. Depois
derivaram rio abaixo, bem devagar e alguns metros abaixo da superfície. Kunutson tinha
regulado a profundidade do seu traje de tal modo, que logo poderia reconhecer as luzes
da terceira ponte, sem ser visto ele mesmo. Somente ele conhecia o caminho de fuga
subterrâneo, que os construtores do Palácio do Governo calculadamente tinham
construído, uma vez que isto lhe fora contado pelo arquiteto.
Em determinado momento Kunutson puxou a corda — o sinal!
Eles agora estavam bem perto da ponte ocupada.
O acaso ajudou, mas o efeito dificilmente poderia ser melhorado. A plataforma
voadora, pilotada por um homem do outro grupo, fora voando em volta da ponte, por um
caminho exatamente calculado previamente. De vez em quando ela tinha jogado
pequenas bombas, do tamanho de uma bola de tênis, que deveriam ser explodidas através
de um impulso de rádio.
Finalmente a plataforma pousou no cume de uma árvore, da aléia beira-rio.
O agente estava sentado na balaustrada perto do rio e não tirava os olhos da ponte.
Ele apertou agora o detonador, e uma depois da outra as pequenas bombas explodiram. E
o faziam com um raio luminoso violento e uma onda de choque que arrebentava todas as
vidraças num âmbito de cem metros em torno. Em volta da ponte espalhou-se uma grossa
cadeia de relâmpagos, acompanhados do terrível ribombar das bombas.
Um décimo de segundo depois da detonação as bombas tinham se queimado — uma
nuvem de neblina irritante espalhou-se e envolveu a ponte com uma névoa impenetrável.
Era gás lacrimogêneo e o efeito sobre as marionetes estacionados ali foi terrível. A sua
ordem se desfez, e a vantagem era de que os danos que a operação causara eram
unicamente de natureza financeira — as fábricas de vidro de Astera, depois desta noite,
teriam muitos clientes.
As detonações, os relâmpagos e a fumaça branca, foram notados até pelos homens
embaixo da água. Eles esperaram pelo segundo sinal, e depois aumentaram o calado dos
trajes. No fundo do rio, doze metros abaixo do espelho d'água, eles lutaram contra a
correnteza até chegarem ao lado esquerdo, e esperaram pelo terceiro sinal de Kunutson.
O mesmo veio, quando o major descobriu o primeiro anel de aço terconita inoxidável no
muro da margem.
Os homens continuaram tateando adiante. Vinte metros atrás do anel havia a
saliência de uma mureta, atrás da qual se formavam pequenos torvelinhos de água. Atrás
desta mureta havia um buraco no talude firme da margem. Quando Kunutson ligou o
holofote do capacete, muitos peixinhos saíram, velozes, de dentro do buraco. Rhodan
avaliou isto como um bom sinal — há muito tempo este caminho de fuga não fora
utilizado, nem do lado de fora nem de dentro. Um depois do outro os quatro homens
entraram pela abertura. Eles tocaram largos degraus e notaram que estavam dentro de
uma galeria que tinha a forma de S, e que com a ajuda de uma zona cheia de ar tinha o
efeito de um vidro de fermentação. Uma espécie de eclusa natural, formada por água, ar e
mais uma vez água. Os degraus primeiramente levavam para o alto, depois novamente
para baixo, quando a zona de ar tinha sido vencida, e mais uma vez para cima. Ela
terminava num recinto escuro do porão.
Kunutson desligou o escudo protetor e abriu o capacete. Ali, onde estavam os
homens, espalhava-se a água.
— Fui informado de que não há medidas de segurança por aqui. Só uma fechadura
que pode ser aberta de dentro.
Ele tirou a carga térmica de um dos bolsos do seu traje e colou-a por cima da
fechadura, cujos contornos podiam ser reconhecidos pelas fortes cabeças dos pinos. Os
outros três homens entrementes revistaram o recinto à procura de ligações ou detectores,
mas a informação do arquiteto parecia correta.
***
Um minuto antes tinha começado a segunda operação.
O agente, que tinha colocado as marionetes sobre a ponte em total confusão, e assim
diminuído o perigo de que Rhodan e sua gente pudessem ser descobertos, jogou o
aparelho de rádio ligado no rio. Ao bater na água o envoltório de plástico inchou, e as
unidades de rastreamento tinham um entretenimento bastante movimentado para
encontrarem este alvo flutuante e destruí-lo. Eles tinham simplesmente que concluir que
ali onde se encontrava um aparelho de rádio ligado, também deveria encontrar-se um
homem. Depois o agente pairou, sob a proteção das árvores da margem do rio, para o
telhado de um edifício próximo, e começou a montar, com toda a tranquilidade, a sua
pesada arma energética.
Dois outros homens, com a ajuda de suas plataformas, jogaram bombas, que se
quebravam ao impacto no chão. Produtos químicos liberados se misturavam, produziam
uma espuma, que se espalhava como gás. Diante de uma porção do escudo defensivo
hermético diante do palácio de repente subiram estranhas formas cônicas, que
balançavam no vento morno, como se crescessem do solo. Eram violetas e vermelhas,
fediam horrivelmente e espalhavam um gás que causava pânico. Alguns minutos mais
tarde as formas isoladas se reuniram numa verdadeira parede, que cobria tanto os escudos
defensivos, como também tornava invisíveis os canhões. As marionetes não sabiam como
deviam reagir.
O primeiro agente disparou, com seu morteiro leve, trinta tiros.
Eles descreveram uma curva íngreme, passaram por cima dos escudos defensivos e
caíram ao chão, atrás dos veículos do exército. Detonaram em relâmpagos que faziam
cegar olhos desprotegidos durante horas. Depois de trinta tiros a munição acabou e o
agente voou lentamente e com cuidado para um terceiro objetivo — onde se encontrou
com os outros dois homens.
***
Com um pontapé, que evidentemente devia ser creditado a Astera e a sua selva,
Joak Cascal abriu a porta de aço.
A carga tinha queimado e acabara fundindo a fechadura. Agora a porta abriu-se
violentamente e Kunutson saltou para a frente, para segurá-la, antes de poder bater
estrondosamente contra a parede.
O corredor atrás da porta estava vazio e escuro.
Dois holofotes manuais foram acesos.
Masters disse:
— As bombas, Yoder!
Yoder anuiu e afixou na parede, à altura da cabeça, duas caixas do tamanho de três
vezes a palma de uma mão, com dez centímetros de grossura e meio quadradas. Ele
enganchou cordas finas em dois anéis na parte inferior e anuiu satisfeito.
— Um de nós vai ter que dar um puxão nisto, quando deixarmos o palácio. Vamos
em frente!
Os homens puxaram as armas, engrenaram as mesmas e saíram num trote não muito
rápido.
Ninguém parecia saber, pelo menos nenhum dos poderosos que estavam neste
palácio, da existência deste caminho de fuga. Os quatro homens chegaram até uma
segunda porta, que foi fácil abrir para dentro. Quando eles entraram num recinto
retangular, iluminado, atrás da porta, eles viram por quê. Esta porta não existia. Sua
superfície era cimento liso, cuja estrutura superficial ainda mostrava partes de cobertura.
Masters fechou a porta e enfiou a sua faca no caixilho, porque careciam de tempo para
procurar o mecanismo de abertura.
Kunutson apontou para os degraus de uma escada, que consistiam de material
autoluminoso.
— Por aqui, para cima!
Enquanto os quatro homens subiram velozmente a escada, ocorreu o ataque à
estação de rádio transmissora do planeta. Um dos agentes preparou o último sinal, mas os
três outros trabalhavam com uma parte do exército que ainda não pertencia aas
marionetes.
Um pesado planador subiu além da linha de combate, sobrevoou na proteção de
fogo as próprias linhas, e depois dirigiu-se velozmente para cima do esguio mastro da
torre de rádio. Quando se encontrou por cima das tropas de combate, jogou algumas
bombas. Foi atacado por um canhão, que abriu fogo contra ele. Agora os três agentes
sabiam até que distância era possível avançar sem maiores perigos.
Apoiados pelo exército, os três homens prepararam uma falta de energia. A mesma
deveria servir para interromper as linhas de corrente subterrâneas, que forneciam energia
ao radiotransmissor. Enquanto material caro era destruído e as tropas de marionetes
tinham sua atenção desviada, um comando especial ampliado avançou. O seu objetivo era
uma estação de comutação na Administração Comunal.
A duzentos metros deste edifício eles começaram a disparar os seus projetis. Eram
foguetes de construção simples, com uma cabeça de procura de calor e uma ponta
explosiva, que arrebentava um cilindro de pressão. Este cilindro continha um gás do
medo, que fazia efeito em segundos, que despertava, já em doses mínimas, o desejo
incontrolável de simplesmente fugir do local correndo.
Rhodan, no meio da escada, levantou a arma e disse baixinho:
— Onde é que nós estamos, Knud?
— Mais ou menos três andares abaixo do centro do palácio. Esta escada leva a
aposentos perto da residência privada do presidente em exercício.
Rhodan lembrou-se do plano e anuiu.
— Ótimo. Agora já estou informado. Adiante.
Eles correram para cima e chegaram a um pequeno recinto iluminado. Atrás de uma
porta de vidro estavam parados quatro robôs pesados.
Rhodan e Cascal reagiram, rápidos como o raio, e quase instintivamente.
Eles ligaram os seus escudos energéticos defensivos e começaram a atirar. Os robôs
diante deles se desfizeram em detonações, chamas e fumaça. E então também os outros
dois homens estavam parados ali com seus escudos defensivos ligados.
Rhodan apontou para a frente.
Os quatro homens atiraram-se através dos restos do portal de vidro, abriram fogo
em cima de mais dois robôs, que reagiram tarde demais, por frações de segundos
decisivos. Eles ainda estavam ocupados com a identificação dos recém-chegados, quando
foram atingidos pelos raios das armas pesadas. Os computadores foram destruídos, os
robôs detonaram e caíram barulhentamente ao chão.
— Em frente. Mais duas salas! — gritou Kunutson.
A porta seguinte estava trancada, mas não deteve os quatro homens mais do que três
segundos, de que precisaram para arrancar a fechadura e os gonzos dos seus pontos de
fixação. E então toda a porta caiu inteira, diante deles, para dentro do salão anexo. A
poeira levantou-se. Os homens saltaram para a frente, as armas prontas para atirar.
Este salão possuía janelas. Era uma pequena sala de estar, recheada com as estantes
de bobinas de uma grande biblioteca. Além da frente de vidro Rhodan e seus três
acompanhantes viram os raios das explosões e ouviram o trovejar do ataque efetuado por
vinte homens — quatro agentes e dezesseis homens do exército.
— Ótimo. Ali o inferno está solto! — observou Masters.
— E lá do outro lado há uma porta de ligação! — disse Joak e saiu correndo na sua
direção.
Eles agora estavam no centro absoluto dos acontecimentos em Astera. Aqui, nestes
recintos, residia aquele que era o responsável por tudo. Os impulsos hipnossugestivos,
nestas salas, tomavam uma força que dificilmente poderia ser aumentada.
Joak Cascal, que ia erguer o pé para dar um pontapé na porta e derrubá-la, de
repente levantou a mão.
— O que é isso, Norman? — perguntou ele, confuso. Com rostos tensos os três
homens aproximaram-se da porta de ligação. Agora ouviam aquilo nitidamente; antes
acharam que estes ruídos intensos faziam parte da luta. Além da porta ouviam-se sons
como se uma máquina pesada estivesse soprando vapor, mais ou menos como a
sequência da respiração humana. Um rumorejar profundo, um pouco gargarejante, como
sob grande pressão.
— A respiração de Corello? — disse Yoder, em voz alta.
O Major Kunutson encolheu os ombros, confuso, e depois disparou um raio sobre a
fechadura. Chispas de fogo espalharam-se por todos os lados, e além da porta ouviu-se
um barulho enorme. Como se alguém estivesse fugindo, derrubando objetos e móveis na
tentativa de tirá-los do caminho.
— Vamos! Para dentro! Cascal deu um pontapé.
Com um único formidável empurrão ele jogou ambos os batentes da porta para
dentro do salão. A grande sala, luxuosamente decorada e mobiliada, estava escura. Os
homens, ainda com os seus escudos energéticos defensivos ligados, se espalharam
rapidamente e Kunutson ligou um interruptor.
Luzes acenderam-se em vinte pontos diferentes.
— Vazio!
O salão estava vazio.
— Maldição! — disse Knud Kunutson. — Fugiram.
— Correto! — retrucou Rhodan e apontou para a escrivaninha, semeada de papéis.
Numa tela de um videofone ligado podia-se ver parte do espaçoporto. A imagem
mostrava os apoios de pouso e a eclusa aberta de uma pequena nave espacial globular.
De repente Cascal girou rapidamente sobre si mesmo, enfiou-se entre uma das
portas e começou a disparar. A sua arma cuspia relâmpagos ininterruptamente, raios que
se quebravam no escudo energético protetor de um pesado robô de combate que vinha
correndo. Parecia que os fugitivos, quem quer que fossem, tinham ativado o robô.
— Cuidado! Para trás. Ali atrás há mais autômatos! — berrou Cascal e recuou,
sempre atirando, até a porta de comunicação semidestruída.
Rhodan disse, calmo:
— Nós perdemos nossa chance. Vamos voltar e abandonar o edifício pelo mesmo
caminho.
Os quatro homens viram agora que por diversas entradas vinham chegando robôs,
para dentro do ricamente decorado escritório. Com fogo concentrado os homens
liquidaram mais um robô, durante a sua retirada, e depois um após outro, mas parecia que
em algum lugar devia haver uma fonte secreta que constantemente cuspia novos
autômatos.
A escada salvou os quatro homens, já que oferecia lugar apenas a uma máquina.
Cascal, que garantia a retirada, liquidou o robô depois de uma violenta troca de tiros e
depois correu escada abaixo, porque a máquina fumegante, que se auto-destruía com um
grande número de pequenas detonações, mesmo assim vinha atrás dele como uma
trovoada de aço.
Depois os homens se precipitaram através do corredor vazio.
Masters gritou:
— Vai explodir as bombas, Yoder?
— Sim!
Quando Norman Yoder passou pelas duas cargas de retenção, ele puxou os cordéis
e ativou as bombas.
Na última câmara diante da água os homens pararam. Ainda não se via nenhum
robô.
Rhodan apontou para Cascal.
— Joak! — disse ele, sério. — No instante em que nós aqui abandonamos o
edifício, o senhor surge e dá o sinal. Todo o resto já foi combinado. Eu preciso do senhor
vivo e totalmente pronto para entrar na luta. Faça o melhor que puder.
Cascal sorriu, cansado, e retrucou:
— Isso eu já venho fazendo desde os meus quinze anos de idade. Foi um prazer
conhecê-lo, Norman Yoder!
Ele acentuou as duas últimas palavras de modo que apenas Rhodan e Kunutson
sabiam exatamente o que ele queria dizer. Os homens começaram a agarrar-se nos
grampos de aço, para passar através do duto em S, para fora dali e para dentro do rio.
Conseguiram o que queriam sem esforço, e o que deixaram para trás era só pânico e
destruição.
Cascal surgiu das águas e olhou rapidamente em torno, vendo que tinha derivado rio
abaixo. A cem metros atrás dele encontrava-se a ponte, cujos ocupantes lentamente se
afastavam do edifício, penetrando mais para a cidade, colocando uma zona de bombas de
bloqueio diante deles no chão.
Cascal deixou-se levar mais pelas águas e ligou o aparelho de rádio. Ele viu a
lâmpada diminuta e disse ao microfone do capacete:
— Cascal para Cleming! Chamando!
Um segundo mais tarde ouviu nos receptores de ouvido:
— Aqui Cleming. Estou ouvindo, Cascal. O que há?
— Ative essa coisa! — disse Cascal, calmo, desligando o aparelho radiotransmissor
depois da última palavra, e ligando o aparelho de voo, depois de ter saído de dentro da
água.
Ele ainda ficou por algum tempo na cobertura, depois passou voando pelo
penthouse do arquiteto, e só depois de estar seguro de não mais poder ser rastreado,
devido à geral confusão dentro e em volta de Silomon, tomou a direção do seu space-jet.
O primeiro sinal que alcançou o quarto agente, era o sinal de que os homens tinham
abandonado sãos e salvos o palácio. Um segundo sinal, deu ao homem a certeza de que
Cascal chegara ao seu jato.
Um quilômetro depois do lugar onde Joak Cascal ressurgira do rio e saíra voando,
Rhodan e os outros dois homens treparam para a terra, nas margens do rio. A área da
cidade em volta do palácio estava uma confusão geral por duas razões. As operações de
perturbação constantes provocavam contramedidas descontroladas, e lentamente
espalhou-se o pânico.
Este vinha, como também as hipnoondas que agora tinham terminado de golpe, do
palácio.
Desta vez não provocadas por um mutante, mas por um aparelho do equipamento da
USO. A bomba que Rhodan ativara produzia à sua volta uma zona de radiação circular.
As pessoas que eram atingidas por esta radiação, corriam rapidamente para longe do
centro da radiação. Este centro era a parede do corredor do porão.
Ao lado desta trabalhava ainda a segunda bomba.
Que era uma bomba hiperacústica.
Uma máquina, cujo efeito se esgotava depois de trinta minutos. Mas nestes trinta
minutos ele se elevava de tal modo, com tamanha intensidade, até um ponto máximo que
era tão forte que destruía a própria bomba. Os impulsos ficaram cada vez mais fortes,
mas se limitavam a uma zona exatamente delimitada. Eles destruíram sem piedade todo
tecido celular orgânico, depois toda matéria conhecida. As marionetes agora fugiam do
palácio, tangidos pelas radiações do medo. Depois as paredes começariam a desmoronar,
fazendo tudo ruir.
Os três homens abriram os capacetes e como que brincando Kunutson derrubou um
pássaro-darso que se perdera por aqui.
— Para onde vamos agora, Norman? — perguntou ele, sério.
— Vamos tentar chegar aos combatentes que querem silenciar o radiotransmissor.
Eu continuo ainda recebendo radiações secundárias dali.
— Ótimo. Nesta direção. Basta voarmos atrás do barulho.
Eles subiram, giraram para a posição correta, e depois ligaram seus aparelhos de
voo. Atrás deles o palácio se esvaziava, e as primeiras paredes começaram a ruir.
***
Joak Cascal sacudiu a cabeça, quando entrou no jato, pela rampa descida. O veículo
espacial fora consertado novamente de modo irrepreensível. Ele ligou o aparelho de
rádio, enquanto acendia um cigarro, muito merecido.
— Cascal chamando Cleming! — disse ele, em voz alta.
Ao mesmo tempo fechou-se a eclusa polar, a rampa foi recolhida, e as máquinas
funcionaram em ponto morto. Com uma mão Cascal curvou o microfone para si, com a
outra ele comutava os diferentes sistemas. Depois ouviu a resposta pelo alto-falante
diante de si.
— Falando Cleming. Este é o segundo sinal?
— Sim, Cleming. Quanto tempo vai precisar?
— Trinta segundos. Então o senhor já deveria estar nos ares.
— Entendido. Desligo. Cascal olhou o relógio.
Enquanto o jato se erguia do solo, retraindo o trem de pouso e subindo
cautelosamente, ainda sem os escudos energéticos protetores ligados, da periferia da
cidade, um projétil rápido, protegido, subiu velozmente para os céus.
O mesmo seria rastreado, claro, mas a reação viria somente quando já seria tarde
demais, e em segundo lugar, mesmo se viesse cedo, detonaria o mesmo efeito. Este
projétil carregava uma microbomba atômica de construção limpa, ou seja, uma
construção que não produzia nenhum sinal radioativo.
Depois de trinta segundos, enquanto Cascal, com toda a força de suas máquinas,
atravessava o limite dos mil metros, a bomba detonou. Ela encontrava-se a oito
quilômetros de altura, e produziu um relâmpago formidável por cima da cidade de
Silomon. Este relâmpago chamou para o plano os cruzadores de vigilância, tripulados por
marionetes. As ordens que estes homens tinham recebido ainda eram determinantes,
apesar dos cones flutuantes não mais reforçarem impulsos de Corello.
As naves saíram em disparada para ajudar a cidade — naturalmente a bomba
atômica fora rastreada como o que era realmente. Somente podia significar uma coisa:
ataque. Joak Cascal rastreou as naves, voou uma rota que ia mais em ziguezague que em
linha reta, e mesmo assim subia cada vez mais.
Com muito esforço e a utilização de toda a sua sabedoria de voo ele desviou-se das
naves de vigilância, projetou-se em grande velocidade para fora, para o espaço cósmico, e
acelerou tão fortemente, que logo depois podia entrar no espaço linear.
A bomba desviara a atenção das naves, e nem um só disparo fora feito contra ele.
— Ótimo! — resmungou Cascal, quando as estrelas ao seu redor tinham sumido. —
Acho que isso nós conseguimos. Espero ter decorado o texto corretamente.
Ele ligou o hiper-radiotransmissor, sintonizou a onda correta, e depois chamou a
Frota. Ela esperava, em cerca de quinhentos anos-luz de distância, e Cascal pôde
imediatamente falar com o responsável.
Ele disse formalmente:
— Aqui fala Joak Cascal em nome de Perry Rhodan. Senha: “Dente-Canino”. Estão
me ouvindo?
A resposta:
— A senha está correta. Temos ordens do Administrador-Geral de esperar aqui e
não intervir em nenhum caso, apesar de Gil Delaterre também estar esperando aqui com a
Canis Venatici. Os três homens puderam colocar-se em segurança; a nave auxiliar
perdeu-se. Que instruções Rhodan tem para nós?
Calmamente o major explicou tudo. As naves aceleraram e se aproximaram.
Uma formação de cem grandes espaçonaves de combate com a Canis cento e uma
unidades, aproximou-se em alta velocidade. Rhodan mesmo aqui não correu nenhum
risco O comandante desta Frota tinha instruções severas de não interferir em nenhuma
circunstância, acontecesse o que acontecesse Somente depois que a senha foi dada é que
os dirigentes das naves reagiram. Cento e uma naves entraram no espaço linear
ressurgiram depois e voaram velozmente em direção ao planeta Astera.
Cascal, que não podia arriscar-se a participar de uma luta com a sua nave
quebradiça, esperou no espaço linear, e quando, conforme seus cálculos, se passara o
tempo que as naves precisavam, também ele ressurgiu novamente bem perto por cima de
Astera.
Em tempo certo para poder ver que cem naves de combate nada podiam fazer contra
uma espaçonave globular de sessenta metros de diâmetro.
Esta nave, numa manobra louca, projetou-se exatamente na direção do space-jet do
major.
— Maldição! — disse Joak Cascal, e acelerou.
10

Ele seguiu a rota maluca da pequena nave nas telas, e com uma rápida manobra
tirou-se da rota de colisão. Esta nave saía com tamanha velocidade da camada de
atmosfera do planeta Astera, que uma cauda de ar ionizado se destacava claramente.
Ainda dentro de uma zona, da qual se podia falar de invólucro de gás, ou seja, depois de
menos de cem quilômetros, esta pequena nave entrou no espaço linear.
Cascal ligou na onda da Frota, e ficou escutando o que se dizia em vista dessa
manobra. E ouviu coisas interessantes.
— ...não podemos persegui-la. Nosso sensor de semi-espaço está intacto, mas não
mostra nada, além de algumas cores...
Um outro comandante disse:
— Isso é algo inteiramente novo! A nave parece ter um aparelho que coloca fora de
funcionamento nosso sensor de semi-espaço.
Alguém perguntou:
— Isso é fato ou suspeita?
Um outro comandante interveio no debate:
— Isso é apenas uma suspeita. Como é que esta nave pode ter tal coisa? Não há
nada que possa colocar fora de funcionamento um sensor de semi-espaço!
— Engano seu!
Cascal esperou calmamente até que a última das cem espaçonaves tinha baixado
para dentro da camada de atmosfera do planeta, e depois começou com o seu pouso. Ele
tinha executado claramente a sua tarefa, e tudo que aconteceria daqui para frente, poderia
acontecer sem ele. As cem naves executaram uma espécie de tiro ao alvo, enquanto a
Canis Venatici pousava no espaçoporto.
Eles atacaram os paraamplificadores.
Depois, quando o jato circulava por cima de um subúrbio de Silomon, Cascal ativou
novamente o radiotransmissor e ficou chamando por Norman Yoder, até que este
respondeu.
Cascal pousou.
***
Ainda antes das primeiras das cem naves começarem a circular por cima da cidade,
Rhodan entrou em contato com o comandante da formação, usando o seu codinome.
Ele relatou, assistido pelo Major Knud Kunutson, a altura média e a distribuição dos
paraamplificadores. Na noite escura os homens do exército que não tinham sido
transformados em marionetes viram a derrubada dos amplificadores.
A irradiação diminuiu, novas ordens não foram mais dadas.
As naves de vigilância, cujas tripulações não sabiam mais o que fazer, pousaram.
Depois dos resultados dos primeiros exames, levaria cerca de vinte e quatro horas até que
as marionetes se transformassem novamente em pessoas normais.
A troca de tiros entre as duas partes do exército terminou.
Em algum lugar no terreno da fábrica destruída, na qual os cones de avanço dos
dois exércitos se haviam entrincheirado, Hima Kaszant levantou a escotilha do seu
blindado e apontou para onde os escudos tinham sido desligados e os canhões
emudecidos. Como bêbados, os soldados-marionetes perambulavam por entre os objetos
do seu equipamento, olhando, sem entender, a destruição que tinham causado.
— Olhem só isso — disse Kaszant, chateado. — Durante meses, teremos que usar
nossos veículos para fins diferentes, se quisermos arrumar isso por aqui.
O piloto virou-se e inalou o ar fresco da manhã profundamente. Depois disse,
calmamente:
— Quem lhe diz que este será um uso diferente? Por acaso foi um uso útil de nossos
veículos, termos causado esta terrível destruição?
Kaszant teve que concordar que o homem tinha razão.
— Onde está, afinal, este estranho agente? Parece ter sido um homem muito
habilidoso — disse um dos radioperadores do pesado blindado de combate.
— Ele está em algum lugar próximo do Palácio do Governo. Há pouco solicitou o
envio de um space-jet.
Agora, com a manhã começando, e as tripulações das naves invadindo a cidade,
procurando afastar a destruição e minorar o caos, tudo parecia aquietar-se em Silomon.
Nenhum tiro caiu mais, depois que o Palácio do Governo se transformara num imenso
monte de lixo, pedras e areia. Os terranos reuniram os soldados do exército que não
estavam influenciados e organizaram os meios de transporte. Lentamente gigantescos
rebocadores cheios de gente deixavam a capital, na qual a falta de gêneros alimentícios
lentamente se tornava aguda.
Por toda a parte viam-se os traços da destruição.
Vidraças partidas, parques destruídos, os rastros de tiros energéticos, os habitantes
feridos do planeta... os prejuízos se elevavam a milhões.
Norman Yoder estava na central de uma nave auxiliar, que agora estava parada
junto à ponte abandonada sobre o rio. Aqui fora organizada a central da operação. Junto
de Yoder encontrava-se Kunutson, e os homens ouviram os relatórios que vinham de
todas as partes da cidade.
— Nós colocamos o total de três tripulações de naves no espaçoporto. Eles
procedem metodicamente, levando as apáticas marionetes para alojamentos adequados,
alimentando-os com rações das naves, além de medicamentos. Dentro de dez horas o
espaçoporto estará novamente capacitado a operar normalmente.
Yoder anuiu, satisfeito.
Todos os hospitais da cidade e muitos alojamentos particulares estavam
superlotados. Nem todas as pessoas tinham vencido bem a violência contra a sua mente e
sua paralisação temporária. Também as manchas azuladas desapareciam dentro de alguns
dias, os médicos tinham verificado isto.
— Tente alcançar o jato com Joak Cascal, — disse Yoder para o radioperador muito
exigido.
— Naturalmente, Sir!
Na grande mesa, tinham aberto o mapa detalhado da cidade. De todas as partes da
cidade vinham informações. Pesadas perdas em edifícios, pesadas destruições nas ruas,
fornecimento de água cortado, falta de eletricidade em outros bairros. O caos só muito
lentamente seria desfeito.
— Consegui, Cascal! — disse o radioperador.
Yoder fez um gesto com a mão, e a imagem de vídeo foi transferida para uma tela
diante do seu cadeirão. Tenso, Joak olhou para o agente.
— Aqui estou eu.
Yoder anuiu.
— Onde está?
— Próximo da radiotransmissora. Os soldados estão evacuando a mesma, neste
momento. Por dentro parece bem demolido. Milhões de solares vai custar tudo isso!
— Eu sei — disse Norman Yoder. — Está se sentindo bastante forte?
Cascal sorriu, brandamente, e passou a mão na nuca. Aquela mancha azulada,
lentamente empalidecendo, começava a comichar desagradavelmente.
— Estou bem. Precisa de mim, Yoder?
— Sim. Do senhor e de um ultramoderno jato. Por favor venha até aqui, nós
estamos perto da ponte.
— Entendido. Imediatamente?
Yoder olhou o relógio e anuiu.
— Sim, por favor. Venha imediatamente.
— Está bem.
A imagem sumiu.
Atentamente Kunutson olhou para o Administrador-Geral, depois perguntou, tão
baixo que ninguém na central de comando da espaçonave pudesse entendê-lo:
— O senhor se retira, Sir?
— Sim.
Os dois homens levantaram-se e foram lentamente até um canto da central. Ali
Kunutson perguntou, realmente preocupado:
— O que vai acontecer agora, Sir?
Rhodan disse, baixinho:
— As cem naves ficam aqui para ajudar as pessoas não-influenciadas desta cidade e
deste planeta, a restabelecerem uma espécie de ordem. A Frota vai ficar aqui pelo tempo
que for exigida. Avalio que durará uma semana. Eu vou me retirar. E rapidamente. Eu
agora vou descer, por favor, peça um jato. Chame simplesmente um comandante e
mencione a senha “Dente Canino”.
Kunutson fez um movimento com a cabeça.
— O seu traje de combate, Sir!
Rhodan retrucou, baixo:
— Eu o presenteio à central do serviço secreto em Astera. Passe bem, major! Pode
levar-me lá para baixo?
— Espere um momento.
O major trocou rapidamente algumas palavras com o radioperador, depois falou
com um comandante de astronave, indicando o posicionamento da nave. Levou Rhodan
para baixo e ficou parado entre a nave auxiliar e o jato, que tinha pousado há poucos
segundos. A rampa foi descida, e a figura de Joak Cascal podia ser vista.
— O que vai fazer agora, Sir?
Rhodan olhou a imagem de destruição, que agora, à primeira luz do sol, tornava-se
bem visível, e sacudiu a cabeça.
— Sem comentário! — disse ele. — Eu desapareço novamente.
Perry Rhodan e o Major Kunutson deram-se a mão rapidamente, depois Rhodan,
agora apenas vestindo o leve uniforme de bordo, dirigiu-se ao velho space-jet do
minerador.
— E então, agente Yoder... O senhor está cansado? — Cascal sorriu sem respeito.
Rhodan observou o major de cabelos pretos pensativamente, dos pés à cabeça.
Depois encolheu os ombros e disse:
— O que acha, está com disposição de me levar para Olimpo?
— Olimpo? — retrucou Cascal. — Olimpo? O que vou fazer em Olimpo?
— Eu já disse. Vou fazer-lhe uma proposta muito definida: eu vou me ocupar do
seu assunto pessoalmente. Concorda?
Cascal continuou cético e retrucou, pensativo:
— Não vamos logo ficar tão burocráticos! Eu naturalmente posso experimentar,
mas com esta banheira não vamos chegar a Olimpo.
Pelo canto dos olhos Rhodan viu o rebrilhar luminoso, que se espelhava no casco do
moderno space-jet, que justamente pousava, com seus propulsores trovejando, pousando
ao lado do veículo do major.
— Com aquela ali. Praticamente na primeira viagem — disse ele. — Concorda?
Eles caminharam lentamente para a outra nave, e renderam o piloto.
Rhodan voltou-se ao piloto.
— Este jato está bem equipado?
O piloto fez uma rápida continência; evidentemente o haviam informado que Yoder
era um homem importante.
— Sir — disse ele. — Todos nós nos preparamos para uma missão longa e difícil. O
senhor encontra tudo que precisa a bordo, para uma tripulação de cinco homens: água,
provisões, energia e equipamentos especiais. E até trajes de combate e armas.
Rhodan anuiu.
— Leve ao seu comandante meus melhores agradecimentos. Todos têm suas ordens.
Não abandonem o planeta antes de tudo aqui estar novamente em ordem.
Ele deu a mão rapidamente ao homem, depois embarcou, atrás de Joak.
O major deu partida no jato, programou a rota e sabia que esta pequena astronave
era boa para quarenta mil anos-luz. Uma distância que estava abaixo daquela que
separava Astera de Olimpo. Depois o jato saiu velozmente, naquela manhã ensolarada,
varrendo através do invólucro de ar do planeta, cada vez mais para fora, para o espaço
cósmico. Os dois homens estavam comodamente sentados em suas poltronas anatômicas,
e viam, a sua volta, através da cúpula transparente, as estrelas da Via Láctea.
— Dá conta disso sozinho, Joak? — perguntou Rhodan, baixinho.
— É claro, Sir.
Rhodan refletiu por um instante, e depois disse, como se falando consigo mesmo:
— Depois de reabrirmos o caso, e se o senhor é inocente, como afirma; eu lhe
ofereço completa reabilitação. Além disso receberá um comando na Frota Solar. Em troca
o senhor vai tentar esquecer que o trataram de forma tão inqualificável. Esta é uma troca
razoável, Joak?
Cascal virou-se, surpreso. Ele estava tão perplexo, que mal podia falar.
— Está falando sério? Quero dizer, por que está fazendo isso, Sir?
Rhodan disse, calmamente, sorrindo um pouco ao mesmo tempo:
— Digamos que fiquei impressionado de como se comportou nestes últimos dias.
Além disso, fico contente com todo homem confiável que tenho. Nós precisamos de
homens do seu quilate.
— Por isso vou voar, sem uma pane, até Olimpo, Sir!
Um aperto de mão selou este contrato informal, mas cada um dos dois parceiros
preencheria a sua parte, isso estava certo. Enquanto o jato aumentava a sua velocidade
para alcançar a da luz, Rhodan ficou refletindo.
Ribald Corello estava praticamente se tornando um conceito real. Ele se
transformaria num eminente perigo para as pessoas na galáxia, se não fosse logo posto
fora de combate. Mas ninguém sabia, ainda, tudo que se podia esperar desse
desconhecido. Depois dos acontecimentos, naturalmente, sabia-se ao certo de que ele
dispunha de um imenso poderio. Parecia ser seu objetivo subjugar planetas, tornando-os
sua propriedade, sempre que não estivessem constantemente vigiados e controlados.
Isto ficara comprovado com os acontecimentos em Astera.
Rhodan regulou o seu relógio para tempo terrano normal e viu que hoje era o dia
vinte e oito de março do ano 3.432. Nas próximas horas ele estava certo de que tudo
correria bem — mas já os próximos dias poderiam trazer-lhe uma má notícia.
O space-jet entrou no espaço linear.

***
**
*

Ribald Corello foi obrigado a fugir e os


“Marionetes de Astera” transformaram-se novamente
em pessoas normais — graças à intervenção pessoal de
Perry Rhodan.
Porém, mal a situação em Astera está liquidada,
aparece uma nova crise. Um comunicado é
contrabandeado para fora do Sistema Ghost — e o
esconderijo da Humanidade corre perigo de ser
descoberto.
No próximo número da série você verá o que
acontece, na história de Clark Darlton intitulada
“Notícias do Futuro”.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br

O Projeto Tradução Perry Rhodan está aberto a novos colaboradores.


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