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(P-406)

NOTÍCIAS DO
FUTURO

Autor
CLARK DARLTON

Tradução
RICHARD PAUL BISNETO

Revisão
ARLINDO_SAN
(De acordo, dentro do possível, com o Acordo Ortográfico válido desde 01/01/2009)
Os calendários registram os primeiros dias do mês de abril
do ano 2.432. Faz cerca de dezoito meses que foi executado o
projeto Laurin.
Para as pessoas estranhas e não informadas, a Terra e os
outros planetas do sistema de origem da humanidade
desapareceram, juntamente com o Sol, numa tremenda erupção
energética.
Mas as pessoas que vivem no Sistema Solar sabem que
não foi nada disso. Foram transferidos exatamente cinco
minutos para o futuro, fazendo com que as frotas da Coalizão
Anti-solar não encontrassem nada, para que se evitasse a luta
fratricida entre os homens.
Perry Rhodan, Administrador do Império Solar, realizou
espontaneamente uma retirada espetacular, para evitar
derramamento de sangue. Trata-se de um lance cósmico que faz
parte do Plano Solar dos Quinhentos Anos. A Terra desaparece,
para agir com mais eficiência no anonimato.
E isto constitui uma necessidade amarga para garantir a
sobrevivência da humanidade galáctica, uma vez que os
governantes de certos reinos estelares, e outros grupos, muito
mais misteriosos, levam avante uma brutal política de força,
não recuando diante de nada. Além disso, a presença dos
acalauries agita os ânimos em toda parte.
Além de tudo isso ainda chega uma notícia urgente de um
agente solar. Segundo ela, o esconderijo da humanidade corre
perigo de ser descoberto. As medidas tomadas para proteger o
Sistema Ghost foram habilmente contornadas — e as Notícias
do Futuro chegam ao presente...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Tont Tatre — Um ertrusiano disposto a levar seu segredo
para o túmulo.
Derek Kalbor — Adversário de Tont Tatre.
Galbraith Deighton — Chefe da Segurança Solar.
Perry Rhodan — Administrador do Império Solar da
humanidade.
Gucky e Fellmer Lloyd — Velhos amigos de Perry Rhodan.
Ken Albrich — Agente star da Segurança Solar.
Jordan Peynchester e Kalim Afanch — Funcionários
importantes de uma indústria químico-médica.
1

O Dr. Tont Tatre caminhava nervosamente de um lado para outro em seu escritório.
Não sabia qual era a incerteza que o martirizava tanto, há semanas, e ficando cada vez
pior. Não tinha motivos para ficar preocupado. Ocupava um emprego bem pago na
clínica central da capital Baretus, tinha certa influência nos meios médicos e...
Talvez fosse justamente o que lhe causava tantas dores de cabeça.
Tont sentou numa confortável poltrona anatômica e olhou para a tela apagada do
vídeo. Havia outro aparelho num canto, à sua direita, absolutamente idêntico ao primeiro.
Mas só de fora. Na verdade era formado por um potente transmissor com o respectivo
receptor.
O Dr. Tont Tatre era um agente muito hábil da Segurança Solar de Rhodan.
O doutor olhou para o calendário automático.
Era o dia 2 de abril do ano 3.432, tempo normal terrano antigo.
O calendário continuava a ser observado no planeta Ertrus, mundo de origem dos
ertrusianos. Tratava-se de terranos adaptados ao novo ambiente que já tinham sido dos
melhores aliados do Império Solar. Mas depois que o Sistema Solar deixou de existir, os
ertrusianos tiveram motivo para sentir-se ainda mais livres e independentes que antes. Era
verdade que a chamada Liga Carsualense já existira há vários séculos, e Rhodan nunca
tentara interferir nos assuntos que diziam respeito aos ertrusianos livres. Mas bastou sua
simples presença para que o triunvirato que exercia o governo criasse um excelente
serviço secreto.
Tont Tatre sabia disso, e foi este o motivo verdadeiro que o levou a aceitar a oferta
do serviço secreto terrano. Além disso, era bisneto de Melbar Kasom, um ertrusiano
muito conhecido em seu tempo, que era considerado um dos melhores amigos de
Rhodan.
O triunvirato...!
Tont Tatre foi obrigado a sorrir ao lembrar-se dos três homens que tinham
construído um imenso império estelar. Fazia quinhentos anos que três portadores de um
ativador de células, Nos Vigeland, Terser Frascati e Runeme Shifter tinham assumido o
poder pela força. Graças a uma gigantesca frota espacial conseguiram subjugar mais de
novecentos sistemas solares, que passaram a formar a Liga Carsualense.
O planeta principal era Ertrus, o terceiro do sol Kreit, que ficava a seis mil cento e
trinta e seis anos-luz da Terra, que tinha desaparecido. Ertrus era um planeta gigantesco.
Tinha mais de sessenta e nove mil quilômetros de diâmetro. A atmosfera de oxigênio era
sustentada por uma gravitação de 3,4 gravos. Como o tempo de rotação do planeta não
chegava a quatorze horas, seus polos eram bastante achatados.
Para sobreviver em Ertrus, um homem normal precisaria de um traje pressurizado
cujo dispositivo antigravitacional fosse capaz de neutralizar a tremenda gravitação. Mas
os ertrusianos não precisavam disso. Seu corpo gigantesco, cuja altura chegava a dois
metros e meio, com uma largura equivalente, tinha-se adaptado às condições reinantes no
planeta.
Tinham-se acostumado a isso, mas não às Chagas da Podridão.
Era uma epidemia maldita, conhecida como a doença das chagas da podridão.
Foi por causa dela que Ertrus voltou a depender da Terra, já que os cientistas
terranos tinham sido os únicos que conseguiram criar um antídoto para a doença. Foram
celebrados tratados especiais nos quais a Terra se ofereceu a fornecer regularmente as
respectivas vacinas, desde que a outra parte cumprisse determinadas condições. Os
ertrusianos não conseguiram analisar o medicamento para fabricá-lo eles mesmos.
As chagas da podridão só existiam em Ertrus. Eram provocadas por um germe que
se introduzia no metabolismo através de feridas insignificantes, contaminando todo o
corpo. E a enfermidade era muito contagiosa.
Nem mesmo as tentativas de criar um soro contra a doença, realizadas pelos
médicos galácticos, os aras, foram bem-sucedidas. E as chagas da podridão eram uma
doença absolutamente mortal. O desfecho fatal verificava-se invariavelmente dentro de
seis semanas.
A droga misteriosa inventada pelos terranos para enfrentar a enfermidade era
conhecida como ertru-cosmobim. Matava os germes, permitindo que a pessoa atacada
sarasse. Naturalmente o ertru-cosmobim passou a ser o principal produto de exportação
da Terra para o planeta Ertrus. Contribuiu para manter a situação de destaque econômica
que a Terra mantinha na galáxia.
Se não fosse o ertru-cosmobim, os ertrusianos estariam perdidos.
Mas fazia quase dezoito meses que a Terra tinha desaparecido, juntamente com o
resto do Sistema Solar. Ninguém sabia o que era feito do Sol e seus nove planetas. Pouca
gente acreditava que Rhodan não estivesse morto, ao menos fora do Sistema Solar e
dentro do tempo normal.
Uma destas pessoas era o Dr. Tont Tatre.
Tont voltou a sentar. As chagas da podridão já lhe tinham causado muita dor de
cabeça, e isso não acontecia somente com ele. Em Ertrus não havia um único médico que
não se interessasse pelo problema. Sem dúvida aquele que conseguisse produzir um
antídoto transformar-se-ia em herói nacional.
Mas mesmo quando se dispunha do ertru-cosmobim, a cura não era nada fácil.
Os germes patogênicos só atacavam seres humanos adaptados ao ambiente, e entre
estes apenas os ertrusianos. As experiências revelavam que os terranos e outros seres
humanóides eram imunes. Não podiam ser contagiados nem mesmo por um ertrusiano
que tivesse contraído a doença. As chagas da podridão eram uma das chamadas doenças
planetárias.
Como já se disse, o tratamento da doença era extremamente complicado. Só havia
um lugar em que esse tratamento podia ser feito: a Clínica Central de Baretus.
Esta clínica ficava na periferia norte da cidade e era protegida por medidas de
segurança extremamente rigorosas. Seria uma catástrofe horrível para os ertrusianos se
algum agente inimigo conseguisse destruir os preciosos aparelhos usados no combate da
epidemia, que eram praticamente insubstituíveis.
Qualquer ertrusiano que contraísse a doença morria dentro de seis semanas em meio
a terríveis sofrimentos, a não ser que lhe fosse dispensado o tratamento. Seu corpo
literalmente apodrecia.
O ertru-cosmobim vinha da Terra em pequenas ampolas cilíndricas. Naturalmente
estas ampolas eram perfeitamente vedadas para não deixar entrar o ar e em sua fabricação
usava-se um material que protegia o conteúdo contra as emanações radioativas. Em cada
uma delas havia cerca de dez centímetros cúbicos do medicamento.
O ertru-cosmobim propriamente dito consistia em cristais prateados brilhantes do
tamanho de uma cabeça de alfinete. Havia uns poucos maiores. Chegavam a cerca de três
milímetros. Cada cristal emitia radiações de pequena intensidade, às quais era devido o
efeito curativo.
Mas havia um detalhe que tornava mais difícil o tratamento. Se a ampola era aberta
sem as devidas precauções, os cristais se evaporavam gerando calor e fazendo com que a
temperatura se elevasse a cerca de sessenta e cinco graus centígrados. O medicamento
perdia o efeito. Por isso o tratamento dos ertrusianos que tinham contraído a moléstia
exigia aparelhos complicados, tão caros que só havia uma clínica especializada no
tratamento da doença em todo o planeta. Era a Clínica Central de Baretus.
Tont Tatre suspirou ao recordar o dia. Cuidara de dez pacientes. Não era muito, mas
ele não era o único médico. Era apenas um entre muitos.
Nas circunstâncias em que se encontravam evidentemente não era possível aplicar
uma injeção normal do medicamento. Este tinha de ser colocado em projetores
pressurizados especiais, antes que se volatilizasse em suas câmaras de evaporação,
transformando-se em vapor. Era um vapor radioativo enriquecido com o princípio ativo
do medicamento, que era introduzido sob a pele do paciente por meio de jatos de
projeção pressurizadas.
Tudo era feito numa câmara de baixa pressão, adaptada às dimensões do planeta
Ertrus. As paredes eram de aço maciço, permitindo que se estabelecesse o vácuo no
interior da câmara.
O ertru-cosmobim só podia ser usado na Clínica Central de Baretus, motivo por que
era depositado exclusivamente nesse lugar. Depois do misterioso desaparecimento do
Sistema Solar, o medicamento vital passou a ser entregue ao planeta comercial Olimpo.
Um sorriso ligeiro espalhou-se pelo rosto de Tont Tatre, agente secreto da Terra.
Não estava muito bem informado, mas imaginava o que acontecia. Tinha certeza de que
Rhodan estava vivo, pois os oficiais mais importantes da Segurança Solar estavam. Tirara
a informação das notícias codificadas transmitidas por seu elemento de ligação; ao
menos, ela podia ser claramente deduzida nestas notícias. Mas não tinha a menor ideia do
motivo e da finalidade do segredo que se fazia em torno do desaparecimento de Rhodan.
Antes assim.
Quer dizer que Tont Tatre sabia de certas coisas. Mas outras coisas ele apenas
imaginava. Finalmente havia coisas que ignorava completamente. Há cerca de dezoito
meses fora realizada uma conferência dos oficiais mais importantes do serviço secreto
ertrusiano. Esta conferência se realizara no palácio do Triunvirato. O chefe supremo em
pessoa participou da conferência, embora não dissesse quase nada. Limitou-se a ouvir o
que os outros diziam, e justamente isto o tornava tão perigoso para seus inimigos.
Naquele tempo a Terra ainda existia, bem como o Sistema Solar, o Império Solar — de
Perry Rhodan, o Administrador-Geral eleito pelo povo.
As relações que a Liga Carsualense mantinha com o Império Solar eram boas, quase
chegando a ser amistosas, embora a Liga praticamente fosse uma ditadura. O Triunvirato
agia exclusivamente segundo seu arbítrio e não podia ser substituído no governo. Os três
homens que o compunham eram imortais.
Mas apesar das boas relações, a desconfiança mútua lavrava embaixo da superfície.
Eram principalmente os três homens do Triunvirato que temiam o meio de pressão que a
Terra poderia usar — o medicamento capaz de curar as chagas da podridão. Por isso não
era de admirar que fizessem tudo que estava ao seu alcance para conseguir a fórmula
deste medicamento. Mas não era só.
O ertru-cosmobim era fornecido sempre, mesmo que as relações entre as duas
potências esfriassem por algum tempo. A ideia de usar um medicamento vital para fazer
pressão nunca passara pela cabeça de Rhodan. Mas o Triunvirato esperava que isso
acontecesse. Se estivesse no lugar de Rhodan, agiria assim.
— Precisamos de um elemento de confiança na Terra — disse um jovem oficial,
que não era muito grande e parecia pouco robusto em comparação com os ertrusianos. —
Se possível deve atuar diretamente no Fosser, em Sydney.
— O senhor enlouqueceu, Derek Kalbor — exclamou um ertrusiano idoso, um
verdadeiro gigante. — Como acha que poderíamos conseguir isso?
— Acha mesmo que é impossível, Munru Drabel? — Foi uma das poucas
oportunidades em que o chefe do serviço secreto participou dos debates. Estava sentado
na cabeceira da mesa, com a cabeça apoiada nas mãos, sem chamar muito a atenção. —
Não se esqueça de que temos nossas ligações. Havemos de encontrar um terrano disposto
a fazer o serviço, desde que paguemos bem.
— Não é uma questão de dinheiro — disse Derek Kalbor sem abalar-se. — Temos
de descobrir alguém que tenha um motivo muito forte para odiar Rhodan e o resto da
humanidade. Acho que conheço alguém nestas condições. Como sabem, fiz parte da
última missão comercial, há seis meses. Não nos deram muita liberdade de movimentos
na Terra, mas tive oportunidade de visitar a Usina Fosser em Sydney com um grupo de
médicos. Fomos mantidos distantes das instalações mais importantes, mas permitiram
que tivéssemos uma ideia do processo de fabricação. Aproveitei a oportunidade para
estabelecer contato com alguns cientistas importantes.
— Ótimo. — Munru Drabel não parecia muito feliz. — Acha que isso serve para
alguma coisa? Não me diga que pensa que desse jeito vai descobrir como é feito o ertru-
-cosmobim.
— Por enquanto nem queremos — respondeu Derek Kalbor nervoso. — Estamos
discutindo para descobrir um meio de o Serviço Secreto fazer chegar notícias da Terra
para cá sem que isso seja notado.
— E o que a Usina Fosser tem a ver com isso?
— Muita coisa, Drabel. Pelo que me consta, o medicamento é a única mercadoria
que passa por todas as barreiras sem ser controlada. Ninguém se atreveria a retirar uma
amostra para examiná-la. É neste fato, que ninguém pode contestar, que se baseia meu
plano.
O chefe do Serviço Secreto fez um gesto de aprovação.
— Fale, Derek Kalbor.
Munru Drabel calou-se. Parecia amargurado. Derek Kalbor prosseguiu.
— No fundo é bem simples. Primeiro precisamos encontrar o homem certo, na
Usina Fosser. A única coisa que este homem terá de fazer é introduzir as informações em
uma das ampolas de ertru-cosmobim. Feito isso e fechada a ampola, ela chegará às nossas
mãos sem que tenhamos de fazer mais nada. O medicamento é remetido exclusivamente à
nossa clínica. Logo, não poderá haver nenhuma falha. O importante será que nosso
agente na Terra assinale a respectiva ampola.
O chefe do Serviço Secreto sorriu satisfeito.
— É um bom plano, Derek Kalbor, justamente por ser simples. Só falta encontrar o
homem certo na Terra. Pode dar alguma indicação? O senhor acaba de dizer...
— Sei quem é o homem de que precisamos. Será que existe a possibilidade de eu ir
à Terra dentro em breve, bem discretamente? Ouvi dizer que nossa missão econômica
deverá retribuir uma visita...
— Isso mesmo. A missão deverá partir amanhã. Providenciarei para que o senhor
seja um dos seus membros. Terá plenos poderes, Derek Kalbor. Espero receber seu
relatório imediatamente após o regresso, dentro de dez dias aproximadamente...
Os respectivos documentos foram entregues ao agente, juntamente com o emissor
de impulsos de identificação, cuja frequência tinha sido adaptada à do aparelho de
controle. Dali a quarenta e oito horas a nave ertrusiana atravessou o anel de bloqueio do
Sistema Solar e pousou na Terra. Visitou importantes instalações industriais. Uma
delegação formada por especialistas terranos acompanhou os visitantes em suas viagens.
A visita à Usina Fosser de Radioquímica estava programada para o quarto dia.
Sydney ainda era considerada uma das mais belas capitais da Terra. Os navios de
luxo entravam e saíam do porto, para levar os passageiros às ilhas ou cidades submarinas
mais próximas, de onde eram feitas excursões de mergulho para os recifes. Ainda havia
muitas pessoas que tinham tempo para esse tipo de viagem repousante.
Depois que a delegação tinha visitado a cidade, um planador a jato a levou à usina.
Era bem natural que um grupo de ertrusianos que visitasse a Terra conhecesse o lugar em
que era fabricado o ertru-cosmobim. Isso era automaticamente incluído no programa.
O grupo teve ampla liberdade de movimentos, uma vez que o processo de
fabricação propriamente dito era protegido a ponto de não se poderem reconhecer os
detalhes. As fitas rolantes e instalações fabris, o setor de embalagem automática e o posto
de controle, tudo isso era protegido por placas de vidro blindado. Havia uma proteção
completa contra radiações. O processo era automático, sendo controlado por
computadores positrônicos.
Derek Kalbor não deu muita atenção aos detalhes técnicos. Interessou-se
principalmente pelas pessoas que o vigiavam e controlavam. Só no fim da tarde
encontrou-se com o homem que queria. Não sabia qual era seu nome, mas conhecia o
rosto — e foi reconhecido.
— O senhor por aqui? — admirou-se o cientista terrano.
— Bem que eu deveria ter imaginado.
— Preciso falar com o senhor, a sós. É urgente — disse Derek Kalbor, indo
diretamente ao assunto. — E é importante.
— Se quiser, venha visitar-me em minha casa. Moro num lugar afastado, perto do
mar. Um momento. Aqui está meu endereço. Estarei lá a partir das seis horas. Aperte três
vezes o botão que fica embaixo da lâmpada. Até lá...
Derek Kalbor não conseguiu dissimular o espanto que lhe causara o comportamento
do terrano. Esperava que ele ao menos fizesse algumas perguntas, se surpreendesse com
o desejo estranho. Mas ele nem sequer parecia curioso. Era estranho. Estranho mesmo.
Mas a maior surpresa ainda estava para vir.
Pelas seis horas Derek Kalbor desceu do táxi aéreo que o levara ao endereço
indicado. Olhou em volta, perplexo. Esperara encontrar um bairro luxuoso, com
residências confortáveis e jardins floridos estendendo-se até o mar. Mas não foi nada
disso. Só havia algumas construções pequenas, do tamanho de uma tela de videofone,
regularmente dispostas do lado da estrada que dava para o mar. Estavam numeradas.
Kalbor tratou de certificar-se. O número conferia. Chegou mais perto e descobriu o
botão embaixo da lâmpada, que ainda não estava acesa. Ao lado do botão havia uma
pequena tela de imagem.
Apertou o botão três vezes, conforme fora combinado. Em menos de cinco
segundos a tela se iluminou. A cabeça do desconhecido apareceu nela. Sorria um tanto
embaraçado.
— Pode abrir a porta, amigo. Mal e mal terá lugar no elevador, que não foi
construído para ertrusianos. Não se preocupe; trata-se de um elevador de cabine.
— O senhor mora embaixo da Terra? — perguntou Kalbor espantado.
— É claro que não. Moro embaixo da água. Venha logo. Kalbor sentiu que estava
descendo. A cabine prosseguiu na horizontal e parou. Kalbor seria incapaz de dizer
quantos metros tinha percorrido. Devia ser um quilômetro no máximo. A porta abriu-se e
o conhecido estendeu a mão, satisfeito.
— Deveria tê-lo informado de que sou dono de uma casa subaquática, mas assim o
senhor pelo menos teve a vantagem da surpresa. Está gostando?
Derek Kalbor ficou calado de tão surpreso que estava. Estava no hall de teto
abaulado, de vidro blindado transparente. Em cima dele estendia-se o mar, claro e
banhado pelo sol. A lâmina de água não devia ter mais de dez metros de espessura. Em
torno da cúpula estendia-se uma área parecida com um jardim florido, no qual brincavam
cardumes de peixes. A água era muito limpa. Só a cem metros de profundidade passava
para o verde-azulado que parecia anunciar o infinito.
— Bonito, não acha?
Derek Kalbor teve a impressão de que estava despertando de um sonho.
— Maravilhoso. O senhor vive aqui? Por quê?
O terrano levou o visitante à sala de estar, uma de cujas paredes também era de
vidro blindado, permitindo que se visse a paisagem subaquática de cores vivas. O terrano
descia suavemente, mas de ambos os lados do espectador erguiam-se corais vermelho-
brilhantes, formando figuras fantásticas que se estendiam até a superfície.
— Não acha que isto é uma resposta à sua pergunta?
Kalbor acenou com a cabeça. Estava preocupado.
— De fato. É o silêncio.
— É mais um motivo. — O homem apontou para duas poltronas largas que ficavam
bem em frente à janela, com uma mesa no meio. — Acho que não são pequenas demais.
Desculpe se neste ponto não estou preparado para recebê-lo. A propósito. Aqui podemos
ficar à vontade. Ninguém nos ouvirá. Alguém o viu entrar em minha casa?
— Não. Tenho certeza.
— Muito bem. Qual é a novidade?
Derek Kalbor, que como ertrusiano era muito pequeno e magro, enfiou-se entre as
almofadas elásticas da poltrona. Dissimulou com muita habilidade a estranheza que lhe
causava o comportamento do anfitrião, que fez como se já tivesse esperado a visita.
Talvez fosse preferível falar sem muitos rodeios, dizendo logo do que se tratava. Parecia
que era exatamente o que o cientista terrano esperava.
— Serei sincero, amigo. Vamos diretamente ao assunto. Mas antes disso gostaria de
fazer algumas perguntas.
— Pois não. O que prefere tomar? Quer comer alguma coisa?
Kalbor olhou em volta.
— Pensei que morasse sozinho.
— Moro mesmo. O senhor certamente não vai pensar que Marta é uma pessoa no
verdadeiro sentido da palavra.
— Marta?
O terrano apertou um botão. Dali a instantes entrou uma jovem muito bonita,
perguntando com a voz clara e agradável o que desejavam os cavalheiros. Ouviu os
pedidos, trouxe o que tinha sido encomendado e foi embora.
— É um robô...?
— Que mais poderia ser? Um ser sociável e serviçal, conforme queira. E de uma
discrição absoluta. Então...?
Derek Kalbor inclinou-se e recolocou o copo sobre a mesa. Sabia que chegara a
hora de falar. Dentro de alguns minutos o terrano seria seu elemento de confiança, ou ele
estaria morto.
— Como deve estar lembrado, já nos encontramos antes. Na oportunidade tive a
impressão de que podia deduzir de suas palavras... bem, como direi sem melindrá-lo...?
Bem, que o senhor não simpatiza muito com Rhodan e seus amigos. Será que estou
enganado?
— Não está, não. Prossiga.
— Gostaria de fazer uma proposta. Se aceitar, conseguirá duas coisas: vingar-se do
que lhe fizeram e ganhar dinheiro. Muito dinheiro.
O cientista olhou para o jardim subaquático. Um sorriso irônico brincava em torno
de seus lábios.
— Como sabe o que me fizeram?
— Eu sei. Temos nossos informantes.
— O senhor não parece ser muito bom, amigo. — O terrano colocou a mão
discretamente sobre a borda da mesa. O dedo polegar desapareceu embaixo dela. —
Quem é o senhor? Para quem trabalha?
Derek Kalbor percebera que o terrano era um homem cuidadoso, que não estava
disposto a assumir nenhum risco. Devia haver um botão de alarme embaixo da borda da
mesa. Apertando-o podiam acontecer coisas contra as quais a gente não tinha como
defender-se. Era preferível dizer a verdade. Além de tudo, assim chegaria mais depressa
onde queria. E seria mais seguro.
— Sou um agente do Serviço Secreto ertrusiano. Vim para fazer-lhe uma proposta.
— Pode apresentar alguma prova?
— Não. Seria muito perigoso carregar provas por aí.
— Diga pelo menos o nome de seu chefe.
Derek Kalbor abanou a cabeça.
— Seu nome deve permanecer em segredo. Pouca gente sabe quem é ele e como se
chama.
— Conhece o nome?
— Conheço.
O terrano suspirou e tirou a mão de cima da mesa.
— Se eu disser o nome, o senhor acreditará em mim? Foi a vez de Derek Kalbor
ficar espantado.
— Quer dizer...? Não compreendo...
— Faz um ano que trabalho para seu chefe, amigo. Não sabia?
Derek Kalbor encarou seu interlocutor durante dez segundos e irrompeu numa
estrondosa gargalhada.
— É o que acontece quando se faz segredo demais. Não sabia mesmo! Recebi
ordem de contratar um agente entre as pessoas que trabalham nas Usinas Fosser. Há
quanto tempo trabalha aqui?
— Quando nos encontramos da primeira vez ainda era um novato. Acabava de fazer
um período de férias e resolvi trabalhar para os senhores. O senhor sabe por que tomei
essa decisão. Acho que seu chefe ainda não sabe onde estou trabalhando.
— Se soubesse teria dito. Faz tempo que não mantém contato?
— Bastante tempo. Torna-se cada vez mais difícil enviar informações. Muitas vezes
considero algum material útil, mas não tenho como encaminhá-lo.
— Foi por isso que vim. Acho que encontramos um meio. Aliás, é o único meio.
Vou explicar.
Derek Kalbor expôs seu plano.
O terrano ouviu com muita atenção.
— Acho que é possível — disse.
No dia seguinte, quando saiu de Sydney, o agente secreto ertrusiano estava convicto
de ter cumprido seu dever. O resto seria um trabalho de rotina dos elementos de ligação.
Não era seu problema.
Dali a uma semana o cientista terrano recebeu suas instruções e os recursos de que
precisava.
Depois disso desapareceu juntamente com o Sistema Solar.
***
Dali a um ano e meio.
A mesma sala, as mesmas pessoas.
O chefe do Serviço Secreto parecia contrariado.
— Neste meio tempo recebemos uma remessa de cosmobim. É uma prova de que a
Terra ainda existe, não se sabe onde. Além disso é uma prova de que os terranos não têm
a intenção de deixar de cumprir suas obrigações. Acontece que nossas reservas estão
quase no fim. Se não chegar nova remessa, a doença fará novas vítimas. E não podemos
fazer nada para evitar que isso aconteça.
— Nosso elemento de ligação nas Usinas Fosser não tem dado notícias? —
perguntou Derek Kalbor.
— Não. As Usinas Fosser não existem mais, ao menos oficialmente. Mas o
cosmobim ainda existe. Qual é a conclusão? A Terra não existe mais. Acontece que
recebemos uma remessa de cosmobim que, como sabemos, só é produzido na Terra.
Então...?
— Talvez seja um estoque antigo — ponderou Munru Drabel. — Chegou aqui
depois de passar pelo planeta Olimpo. É uma explicação bem simples.
— Simples demais — disse o chefe em tom sarcástico. — O que diria por exemplo
se eu lhe contasse que outro lote de cosmobim vem vindo de Olimpo? É uma informação
segura, fornecida por um dos nossos agentes que trabalham em Olimpo. Ele não soube
informar como o remédio chegou a este planeta.
Derek Kalbor, cuja tentativa de contratar um terrano que já trabalhava para o
Serviço Secreto ertrusiano divertira os outros, disse:
— Quem sabe se desta vez não vem alguma mensagem? Se de fato está para chegar
um lote de Olimpo, deveríamos examiná-lo cuidadosamente. Não sei o que há atrás do
desaparecimento do Sistema Solar, mas não me admirarei nem um pouco se
descobrirmos que é mais um dos truques espertos de Rhodan. Não devemos esquecer que
a Terra continua a fornecer-nos o remédio vital chamado cosmobim.
— Amanhã saberemos — disse o chefe do Serviço Secreto. — Se nosso elemento
de ligação conseguiu introduzir suas informações no lote, é porque este foi produzido nas
Usinas Fosser, na Terra. O simples fato de ele ter feito isto seria uma prova de que o
Sistema Solar de Rhodan ainda existe.
Os ertrusianos que participavam da reunião compreenderam todo o alcance da
afirmação do chefe. Ninguém imaginava como os terrenos poderiam ter desaparecido
com seu sol e os nove planetas, mas era possível que o acaso proporcionasse alguma
informação. Um acaso que ninguém mais esperara.
— Para quando é esperada a nave cargueira vinda de Olimpo? — perguntou
alguém.
— Para amanhã.
— Que precauções serão tomadas?
O chefe do Serviço Secreto sacudiu a cabeça.
— Nenhuma. Se de repente chegar uma nova remessa de cosmobim, então é
provável que haja agentes da Segurança Solar por perto. Não somente em Olimpo ou na
nave, mas também em Ertrus. Se for assim, eles não deverão desconfiar de que há algo de
errado com o cosmobim. Se dessa forma conseguirmos restabelecer o contato com a
Terra, isso terá de ficar rigorosamente em segredo. Apesar disso tomaremos nossas
providências, é claro. Mas não se esqueçam de que pode haver um agente da Segurança
em toda parte, inclusive neste palácio e até na Clínica Central. Derek Kalbor, entre
imediatamente em serviço na clínica e providencie para que os sensores de radiações nela
instalados façam o rastreamento da carga que deverá chegar amanhã. Se os impulsos
acusarem a frequência combinada, avise imediatamente. Tentaremos tirar a respectiva
ampola da clínica sem chamar a atenção. Ninguém deve desconfiar. Entendido?
— Confie em mim.
O chefe do Serviço Secreto fez um sinal para os outros. — Está bem, senhores. Para
hoje é só.
***
É claro que o Dr. Tont Tatre não sabia destes acontecimentos. Sabia que o Serviço
Secreto ertrusiano desenvolvia uma atividade especial na Clínica Central, mas isso lhe
parecia bem natural. Se algum inimigo conseguisse destruir a clínica, milhares ou até
milhões de ertrusianos encontrariam a morte.
Tatre até tinha certeza de que conhecia alguns dos agentes. Como por exemplo o tal
do Dr. Kalbor, que sem dúvida era um médico e cientista muito competente, mas que em
sua opinião se interessava muito pouco pelos processos mórbidos propriamente ditos.
Costumava aparecer onde não era esperado, para desaparecer em seguida. Muitas vezes
ficava semanas sem aparecer na clínica. Diziam que estava viajando.
Tatre e Kalbor mal se conheciam. Trocavam algumas palavras de vez em quando,
ao encontrar-se por acaso, e era só. Não era que não simpatizassem um com o outro, mas
a simpatia não bastava para cimentar uma relação amistosa. Tatre não conseguia livrar-se
da impressão de que Kalbor não conseguia agir desinibidamente. Foi justamente por isso
que não acreditara que se tratasse de um agente ertrusiano.
Naquela noite foi dormir tarde e não conseguiu conciliar o sono. Estava na hora de
ter mais um encontro com seu elemento de ligação, que talvez tivesse outras informações
sobre o desaparecimento de Rhodan. Ao amanhecer tomou um comprimido e finalmente
adormeceu.
Foi à clínica em seu planador antigravitacional particular. Atravessou sem problema
os rigorosos controles e estacionou o veículo na cobertura do edifício. Costumava instalar
uma barreira positrônica, mas naquele dia uma sensação esquisita o alertou para que não
o fizesse. Estendeu a mão em direção à fechadura, mas não tocou nela. Nem mesmo Tatre
sabia por que estava hesitando. Ninguém pensaria em roubar seu planador. Pelo menos na
clínica. Por uma simples questão de hábito costumava usar os equipamentos de proteção
contra o roubo. Mas se a gente quisesse partir depressa, acabaria perdendo alguns
preciosos segundos para abrir a barreira.
Tatre fez recuar a mão. Resolveu dar ouvido à sua voz interior.
Passou por mais três controles e entrou no edifício principal propriamente dito,
formado por um complexo enorme da aço e concreto, uma verdadeira cidade
independente. Encontrou Derek Kalbor perto do elevador.
Os dois apertaram-se as mãos.
— Novamente por aqui? — perguntou em tom amável. — Faz alguns dias que não
o vejo.
— Foi por causa das inspeções escolares, doutor. O senhor sabe como são as coisas
lá no campo. Uma criança não se preocupa com um princípio de doença quando pensa
nas brincadeiras. Descobrimos alguns casos que poderiam ter causado mais uma
epidemia. Geralmente foram crianças. Serão internadas hoje.
— Estou muito preocupado, Kalbor — disse Tatre. — Nosso estoque de cosmobim
está terminando. Se houver uma epidemia, dificilmente teremos como controlá-la. Temos
de encontrar logo um meio de produzir o remédio aqui.
— Temos um contrato com a Terra...
— A Terra! — respondeu Tatre com uma risada amarga. — O que adianta um
tratado com um planeta que não existe mais?
Derek Kalbor preferiu não olhar para o médico. O tema não era de seu agrado.
— O governo certamente tomará as medidas necessárias antes que seja tarde —
disse e fez um gesto de cumprimento, — Até logo mais, Dr. Tatre. Vai aplicar
tratamentos hoje?
— Naturalmente. Até lá.
Tatre saiu andando e depois de uma longa viagem pelos corredores rolantes entrou
em sua seção, onde já estava sendo esperado. Seu assistente tirou-lhe a capa.
— Nenhum tratamento para hoje — disse a título de cumprimento.
Tont Tatre estacou.
— Por quê? Ontem se dizia...
— São instruções superiores. Ninguém sabe por quê. O chefe de seção acaba de
passar por aqui. Diz que é esperada , uma remessa de cosmobim. Então, que me diz,
doutor?
— Uma remessa da Terra? — perguntou Tatre em tom simplório.
— É claro que não. A Terra não existe mais. A remessa vem de Olimpo. Foi de
onde veio o último lote. É estranho, não acha? Onde é produzido o remédio?
Tatre deu de ombros e foi ao seu escritório. Fechou a porta. Não lhe cabia controlar
os medicamentos que chegavam, mas leve uma ideia esquisita. Há tempo os contatos com
a Segurança Solar se tinham tornado tão difíceis que ele mesmo quase chegava a
acreditar que o Sistema Solar desaparecera. Teve impressão de que devia ter muito
cuidado. Mal se arriscava a estabelecer contato, ao menos da forma usual. Em tempos
antigos acontecera mais de uma vez as cápsulas com as notícias chegarem numa remessa
inocente de mercadorias. Em geral essas cápsulas continham um emissor de impulsos
siganês, muito pequeno, que facilitava sua localização por um agente. Tatre dispunha de
um microequipamento para este caso.
Passou a mão discretamente pela travessa da gaveta superior da escrivaninha.
Ertru-cosmobim...!
Pensando bem, a ideia nem chegava a ser tão estranha. Nenhuma mercadoria terrana
chegava a Ertrus com a regularidade desse medicamento, a não ser nos últimos dezoito
meses. Se não era possível estabelecer contato de outra forma, por que não haveriam de
tentar encaminhar-lhe informações com o cosmobim?
A ideia deixou-o alvoroçado. Não poderia imaginar que há mais de um ano e meio
justamente seu colega Derek Kalbor iria ter a mesma ideia.
Tatre tirou o microrrastreador da gaveta e enfiou-o no bolso. Era um aparelho
minúsculo, que captaria imediatamente qualquer impulso e o retransmitiria em forma de
um sinal especial. A potência era tão reduzida que o transmissor não podia ficar a mais de
dois metros. O receptor, que era mais ou menos do tamanho de um grão de ervilha, podia
ser colocado no ouvido de Tatre. Um pedaço de algodão evitava que caísse.
Assim equipado, Tatre tinha certeza de não perder uma eventual mensagem da
Segurança Solar. Levantou da cadeira mais tranquilo e perguntou aos colegas o que seria
feito durante o dia.
Ficou sabendo que a nave cargueira vinda de Olimpo descera há alguns minutos no
porto espacial de Baretus.
***
Apesar de ter motivo para acreditar que encontraria uma notícia secreta no meio da
carga de cosmobim, o chefe do Serviço de Segurança de Ertrus não podia correr o risco
de confiscar o lote antes que ele saísse do porto espacial. Tinha de contar com a
possibilidade de haver agentes terranos entre a tripulação, e estes sem dúvida achariam
estranho tal procedimento. Qualquer descuido poderia levar à descoberta do agente que
trabalhava nas Usinas Radioquímicas Fosser.
Por isso resolveu não fazer nada. Derek Kalbor estava à espera na Clínica Central, e
era quanto bastava.
O lote foi liberado pela alfândega. Do manifesto constava uma carga de mil
embalagens de ertru-cosmobim, o que representava um total de cinquenta mil ampolas.
Era possível que uma delas fosse a que o chefe esperava encontrar.
Munru Drabel recebeu instruções de interrogar discretamente os tripulantes da nave.
Comparecia na qualidade de funcionário da alfândega. Gozou de uma relativa liberdade
de movimentos no interior da nave. Na cantina encontrou-se com o comandante e alguns
oficiais.
Entabulou uma conversa descontraída, que girou sobre tudo quanto era coisa sem
importância, mas acabou conduzindo-o para onde queria. Perguntou da forma mais
discreta possível em que lugar de Olimpo fora carregado o cosmobim, cujo tempo de vida
útil era bastante limitado. Devia ter chegado lá há pelo menos um ano e meio.
O comandante não desconfiou de nada. Garantia que a mercadoria devia ser fresca.
Chegara a Olimpo há quinze dias, sem os respectivos conhecimentos de carga e outras
formalidades. De algum tempo para cá estavam acostumados a isso e não se incomodava
mais. Qualquer consulta só poderia trazer aborrecimentos, talvez até a suspensão dos
fornecimentos.
— Como se explica isso? — perguntou Drabel diretamente. — As mercadorias vêm
da Terra, que não existe mais, e qualquer consulta pode ser motivo para que os
fornecimentos sejam suspensos. Até agora ninguém se preocupou em saber o que
significava isso?
O comandante sacudiu a cabeça.
— Não. Pelo menos eu não me preocupei, porque o assunto não me diz respeito. Se
o Império Solar, que é nosso parceiro comercial mais importante, prefere não manter
mais nenhum contato oficial, eu respeito esse desejo. Se não o fizesse, teria de procurar
outro patrão. Por isso limito-me a receber minha carga em Olimpo e levá-la aos
destinatários. Não posso dizer mais nada.
— Não está curioso para saber?
— Não. O senhor está?
Drabel esboçou um sorriso estúpido.
— Sim, um pouco, desculpe. O senhor há de compreender que só podemos estar
preocupados. Se não tivermos o cosmobim, estamos perdidos. Se um dia cessarem os
fornecimentos... O senhor nem imagina as consequências.
O comandante fez um gesto de pouco-caso.
— Soube por acaso que foi anunciada mais uma remessa dessa mercadoria. Como
vê, não foram esquecidos. Se fosse o senhor não me preocuparia e, o que é mais
importante, não faria perguntas inúteis, senão pode acabar mesmo ficando na mão.
Drabel encarou o comandante.
— O senhor é terrano?
— Não. Mas meus antepassados vieram da Terra. Emigraram.
Drabel compreendeu que ali não descobriria mais nada de interessante. Despediu-
se, dizendo que tinha de fazer mais algum trabalho na nave. Saiu dela e ficou de longe,
vendo as caixas de cosmobim serem colocadas no planador de carga, que as levou à
clínica.
Insatisfeito com as pesquisas que não tinham dado resultado, foi procurar o chefe do
Serviço Secreto para informá-lo.
***
Tont Tatre ficou mais algum tempo em seu gabinete. Finalmente saiu do escritório e
foi andando calmamente em direção ao corredor rolante, que o levou ao depósito.
Oficialmente não tinha motivo para preocupar-se com medicamentos que já se
encontravam lá ou estavam para chegar, mas, diante da agitação reinante na Clínica
Geral, julgou conveniente demonstrar também um pouco de entusiasmo. Afinal,
discutira-se durante semanas a fio sobre o que poderia acontecer se o estoque de
cosmobim se esgotasse.
E agora estava chegando nova remessa.
Era motivo para qualquer médico alegrar-se e querer testemunhar o grande
acontecimento.
No caminho encontrou-se com alguns colegas que compartilhavam sua alegria,
embora fosse por motivos diferentes. Discutiam e chegavam a considerar a possibilidade
de exterminar a epidemia, o que só poderia ser tentado com alguma chance de sucesso se
as remessas voltassem a chegar regularmente e em maior quantidade.
— Acho que não há dúvida, Dr. Tatre, de que a incidência da doença diminuiu
bastante nos últimos cinquenta anos. Tornou-se menos frequente, o que deve ser devido
em parte ao fato de que uma pessoa que curamos com o cosmobim não adoece mais. Já
não pode ser contaminada.
— Conheço casos...
— São exceções, colega. Posso garantir que temos uma boa chance de produzir o
cosmobim sem precisar da Terra. Mas ainda aqui diria que ainda não foi dita a última
palavra.
— É possível que um dia acabemos conseguindo, mas não seria tão otimista. Seja
como for, não há motivo para ficarmos preocupados. A Terra continua a fornecer o
medicamento.
— Isso mesmo. A Terra continua a fazer fornecimentos, apesar de não existir mais.
Fico me perguntando o que acontecerá se realmente deixar de existir.
Tont Tatre achou que o tema estava esquentando demais. Mudou de assunto.
— Dizem que amanhã chegará uma leva do leste. São cerca de dois mil doentes.
Teremos muito trabalho.
Derek Kalbor veio rolando de um corredor lateral. Encontrou-se com o grupo no
cruzamento. Mostrou-se muito calado e retraído. Só se dignou em dar uma resposta
quando Tatre lhe dirigiu a palavra:
— São cinquenta mil, se fui bem informado. É o suficiente para não nos
preocuparmos com novos abastecimentos por pelo menos seis meses. — Derek olhou
para os outros ertrusianos. — Aonde vão?
— Ao depósito, Derek — disse um dos médicos. — Não há mais nenhum
tratamento marcado para hoje. Temos tempo. E queremos ver com nossos próprios olhos.
Afinal, nosso futuro depende desta remessa.
Derek Kalbor fez de conta que a resposta o deixara satisfeito, mas isso não
acontecera. Não que tivesse uma suspeita definida, mas achou esquisito que metade do
corpo médico da clínica se dirigisse ao depósito de medicamentos para presenciar um
trabalho que sempre fora considerado de rotina. Antigamente nenhum médico se
interessava quando chegava alguma remessa. Só queriam saber se chegavam ou não.
Era uma diferença sutil, mas importante.
— Não há nada para ver — disse finalmente ao avistar a rampa de carga. — As
caixas são trazidas pelos planadores, e é só. Mas fiquem à vontade. Cada um perde seu
tempo como quer.
Havia uma coisa no tom de voz de Kalbor de que Tont Tatre não gostou. Por que se
mostrava tão agressivo pelo simples fato de os outros fazerem o que ele mesmo estava
fazendo? Afinal, Kalbor tinha tão pouco interesse nisso quanto ele e os outros.
Ou será que tinha mais interesse?
Tont olhou discretamente para Kalbor, mas não viu nada de extraordinário. Não era
de admirar. Se trabalhasse mesmo para o Serviço Secreto, não deixaria perceber. “É uma
ideia maluca”, pensou Tatre, “mas não é impossível.” Concluiu que precisaria ter
cuidado.
Entraram no pátio em que ficavam as rampas. As primeiras caixas já tinham sido
descarregadas. Eram verdadeiros monstros com um revestimento de metal. Só podiam ser
movimentadas por meio de campos antigravitacionais.
Foram entrando uma após a outra sobre as esteiras transportadoras, sendo colocadas
no depósito pelos projetores. O depósito também era à prova de radiações. Era possível
que uma das ampolas vazasse, e neste caso as radiações tinham de ser absorvidas e
isoladas.
Tont Tatre prestou atenção a um eventual sinal que soasse em seu ouvido, mas não
percebeu nada. O microrrastreador não acusava nada.
Por enquanto.
Os médicos conversavam. Tatre notou que Derek Kalbor não estava mais perto
deles. Fora até a rampa e entrara no depósito. Não apareceu mais. Talvez tivesse achado
aquilo muito monótono e preferisse voltar ao escritório.
Tanto melhor.
Já estava quase na hora da pausa do meio-dia quando foi completada a descarga de
quinhentas caixas. Era exatamente metade do lote, nem uma peça mais ou menos. Teriam
de esperar até o anoitecer para fechar hermeticamente o depósito e dar início ao
levantamento do estoque.
Quando passou a caixa no 501, Tont Tatre ouviu um tique-taque no ouvido.
O microrreceptor acusava alguma coisa.
No interior da caixa no 501 havia um aparelho que emitia ininterruptamente sinais
de identificação que podiam ser detectados por meio de aparelhos especiais.
Tont Tatre não teve a menor dúvida de que as informações, que certamente
provinham da Terra, só podiam destinar-se a ele.
Fez um sinal para os colegas e caminhou tranquilamente para o depósito.
Ficou de olho na caixa, que desceu lentamente, indo descansar sobre uma pilha.
Os grupos de símbolos emitidos pelo transmissor secreto continuaram com a mesma
intensidade e vieram da mesma direção.
Tont Tatre refletiu para descobrir um meio de chegar perto da caixa sem que
ninguém notasse para abri-la.
Neste momento viu Derek Kalbor.
***
O ertrusiano já entrara em contato com o chefe através de um microtransmissor. O
chefe controlava a operação de uma ala do palácio.
— Nada, por enquanto. Talvez estejamos esperando em vão. Mas por enquanto só
foi descarregada metade do lote. Mil caixas são uma boa quantidade.
— O que queremos só pode estar em uma caixa. Continue atento. Se receber o sinal
de identificação, não faça nada. Só não tire os olhos da respectiva caixa. Mais tarde,
depois do encerramento do expediente, cuidaremos disso.
— Acho melhor assim, chefe. Há alguns médicos vagabundeando junto às rampas.
Até parece que não têm o que fazer.
— É uma coisa que não pode ser evitada. Suspeita de algum deles?
— É claro que não. É bem compreensível que estejam curiosos.
— Talvez, mas não se descuide. Se o agente que trabalha na Usina Fosser realmente
der notícias, ninguém deve saber, nem mesmo nossos agentes que não estejam
informados sobre isso.
— Confie em mim. Preciso voltar a juntar-me aos outros. Derek desligou e foi ao
depósito, onde as pilhas de caixas já chegavam ao teto. Estacou ao ver Tont Tatre entrar.
O médico olhava para o alto, acompanhando a caixa que trazia o número 502.
Derek Kalbor demorara demais em vê-lo. Não podia esconder-se mais e ficou sem
saber o que devia admirar, se o sangue-frio de Tatre ou sua ingenuidade.
Afinal, o próprio Kalbor também era funcionário da clínica. Oficialmente nem ele
nem Tatre deveriam entrar no depósito. Nenhum deles podia acusar o outro.
— Já veio a metade — disse Tatre calmamente e apontou para o alto. A caixa
número 502 desceu e tocou o chão. Foi um simples acaso a pilha ter chegado ao fim com
a caixa número 501. O dispositivo automático do sistema de transporte antigravitacional
fora regulado de tal maneira que a nova remessa completou os estoques anteriores. —
Isto já começa a cansar.
Derek Kalbor aproximou-se. Parecia querer dissecar Tatre com os olhos.
— Não devemos deixar que alguém nos pegue. Só se pode entrar no depósito com
uma permissão especial do chefe de seção. Mas acho que num dia como hoje ninguém se
importa que a gente dê uma olhada.
Tatre riu.
— Vamos. Não quero levar um pito... Voltaram a juntar-se aos outros no pátio.
“O problema é simples”, pensou Tont Tatre enquanto via a caixa número 507 sendo
levada para dentro do depósito. “Tenho de dar um jeito de entrar no depósito depois que
os trabalhos por aqui tenham terminado. Enquanto os outros ficarem parados por perto
não posso fazer nada. Ainda bem que a caixa ficou no alto de uma pilha. Quem sabe se
hoje de noite consigo...?”
Kalbor estava pensando mais ou menos a mesma coisa.
***
Não haveria nada mais fácil para o chefe do Serviço Secreto ertrusiano que dar
ordem para que seu pessoal entrasse no depósito da clínica para verificar por meio dos
instrumentos se com o lote tinha vindo uma notícia da Terra. Mas se o plano de Kalbor
realmente estava dando certo, ninguém podia saber. O chefe tinha certeza de que em
Ertrus havia agentes da Segurança Solar. Talvez na própria clínica.
Assim, como era necessário guardar segredo absoluto, não teve alternativa a não ser
dar ordem para que Derek Kalbor fosse ao depósito de noite, sem que ninguém
percebesse, para fazer a detecção. Nenhum dos dois podia desconfiar que não tinham
dado com a caixa número 501 por uma questão de segundos, porque Tont Tatre aparecera
no momento exato.
Esta circunstância, resultante de uma coincidência incrível, evitou que o Sistema
Solar fosse descoberto.
***
No início daquela noite Tont Tatre e Derek Kalbor ficaram na clínica. Não havia
nisso nada de anormal, pois era comum os médicos que estavam de folga passarem as
noites nos laboratórios de pesquisas. Kalbor trancou-se em seu escritório e ficou
mexendo num armário, abrindo-o com uma chave positrônica. Deixou à mostra uma
coisa parecida com os equipamentos de um transmissor de potência média.
O detector de radiações de Kalbor acusara impulsos. Vinham do depósito. Logo, o
agente que trabalhava na Terra realmente introduzira uma cápsula de informações no
lote. Devia estar em uma das caixas que traziam os números 501 a 1.000. Para saber
exatamente qual era, seria necessária uma complicada operação goniométrica.
Kalbor ligou o aparelho e mudou a posição dos sensores goniométricos. A marcação
projetada na tela atingiu o ponto máximo e Kalbor leu os números da escala. Transferiu-
-os para uma tabela de interpretação e alimentou o computador com os dados assim
obtidos.
Não se surpreendeu com o resultado.
“Então está em uma das caixas de números 480 a 520. São duas pilhas. Bem que eu
poderia ter imaginado. Acho que é melhor verificar no próprio local qual é a caixa.”
Kalbor enfiou o aparelho no bolso e voltou a fechar o armário. Olhou para o relógio.
Era meia-noite. O tempo passava depressa em Ertrus. A noite tinha menos de seis
horas.
Mas Derek Kalbor não se apressou. A chave positrônica noturna que trazia consigo
permitia-lhe atravessar livremente todas as barreiras instaladas na clínica, mas não se
podia excluir a possibilidade de se encontrar com um dos guardas que controlavam todos
os setores em horários variáveis. Não tinha nenhuma explicação plausível para entrar no
depósito.
Quando finalmente saiu do escritório, lá fora começava a raiar o dia. Dentro de uma
hora ficaria completamente claro. E em duas horas os trabalhos seriam reiniciados na
clínica. Estava em cima da hora. Não se encontrou com ninguém e alcançou o corredor
que levava ao depósito.
Atravessou sem dificuldade as barreiras invisíveis até alcançar a pesada porta de
metal que só podia ser aberta com a chave positrônica. Enquanto tentava ajustá-la,
sobressaltou-se de repente. Prendeu a respiração e ficou completamente imóvel. Voltou a
guardar a chave no bolso. Pegou o rastreador de impulsos com a outra mão e olhou para a
escala.
O ponteiro permaneceu imóvel.
De repente Derek Kalbor começou a mexer-se. Saltou para junto da porta e
empurrou-a.
Ela se abriu sem oferecer resistência.
Kalbor correu para dentro do depósito e parou junto às duas pilhas nas quais devia
encontrar-se a caixa que procurava. Mas o detector não acusou mais nada. Dali só se
podia concluir que a sonda de informações deixara de transmitir os impulsos.
Ou que alguém a tirara dali.
Numa pressa tremenda fez rolar a escada pelos trilhos, fazendo-a parar à frente da
primeira pilha. Foi para cima da plataforma e ligou o mecanismo do elevador. Subiu
devagar junto às caixas, até chegar perto do teto.
Estavam todas intactas, com exceção da de número 501, que fora aberta à força.
Faltava um dos pacotes menores com dez ampolas.
Além disso, faltavam os impulsos de identificação. Derek Kalbor teve certeza de
que alguém que não sabia quem era chegara antes dele.
Alguém que conhecia o maior segredo da Segurança ertrusiana.
Não adiantava refletir sobre isso. Tinha de agir, por mais desagradável que fosse.
Era necessário avisar o chefe. Precisavam encontrar o ladrão, o mais depressa possível.
Talvez tivesse descoberto a sonda por acaso, mas Kalbor achou que isto era pouco
provável. Os símbolos de identificação só podiam ser detectados e localizados com um
receptor especial.
A caixa número 501...!
De repente Derek Kalbor lembrou-se. Encontrara o Dr. Tont Tatre no depósito no
momento exato em que a caixa entrara nele.
Teria sido por acaso?
Kalbor saiu do depósito e correu o mais depressa que pôde no corredor rolante. Por
mais que se apressasse, levou dez minutos para chegar ao setor em que trabalhava Tatre.
O escritório estava trancado, mas Kalbor não teve nenhuma dificuldade em abrir a
fechadura.
Não teve tempo para revistar todas as salas, mas o registro do controle de entrada e
saída mostrou que Tatre devia ter estado no escritório há uma hora. Pelo menos já sabia
que, se o médico realmente tinha retirado a sonda de comunicações, isso certamente
acontecera no momento exato em que Kalbor concluíra a operação goniométrica e se
dispunha a ir ao depósito.
Seria outro acaso?
Antes de avisar seu chefe, Kalbor pegou o elevador e subiu à plataforma de
estacionamento da clínica. O guarda-robô informou-o de que há menos de meia hora
Tatre saíra às pressas em seu planador.
Para Derek Kalbor já não havia a menor dúvida.
Pegou o rádio e entrou em contato com o chefe do Serviço Secreto, informando-o
sobre o que tinha acontecido.
E a caçada começou.
***
Tont Tatre encontrou o que estava procurando.
Ainda acreditava que se tratava de uma notícia destinada a ele. Abriu o pacote e
descobriu imediatamente a ampola com os cristais de cosmobim que tinham mudado de
cor. O detectar de radiações confirmou que não se tratava de cosmobim, mas de uma
imitação perfeita. A notícia devia estar em um dos cristais descobertos. Provavelmente
tratava-se de um minúsculo gravador de fita de fabricação siganesa.
Enfiou a ampola no bolso e tratou de sair. Não tinha a menor dúvida de que alguém
acabaria descobrindo que uma das caixas fora aberta. Mas tinha certeza de que ninguém
desconfiaria dele.
Aí estava enganado.
Chegou sem incidente ao planador e dali a pouco pousou junto à sua casa. A ampola
que trazia no bolso parecia arder que nem fogo.
Finalmente tinha notícias da Terra, notícias diretas.
Finalmente ficaria sabendo o que acontecera por lá.
Se a ampola realmente contivesse o medicamento, este só poderia ser examinado
numa câmara pressurizada. Mas no caso isso não era necessário. O dia já estava raiando
quando sentou no escritório de sua casa e abriu a ampola.
Teve a surpresa de ver que os cristais vermelho-escuros se comportavam mais ou
menos como o cosmobim. Evaporaram-se tão depressa que não teve como evitar que isso
acontecesse. Só ficou um único cristal, alongado e com cerca de três milímetros.
Sem dúvida tratava-se de um gravador de som siganês, do tipo que já tinha visto em
outras operações. O aparelho era capaz de guardar uma mensagem de vinte e cinco a
trinta mil palavras.
Tatre deixou o cristal acústico na ampola, para não perdê-lo. Preparou o aparelho de
reprodução, que não era maior que uma caixa de fósforos. Na face dianteira do aparelho
via-se o brilho fosco de uma pequena tela de imagem. Tatre colocou cuidadosamente o
cristal e acionou a chave microscópica.
O amplificador embutido permitiu que a voz do desconhecido que enviara o
aparelho fosse compreendida perfeitamente. Um rosto que Tatre não conhecia apareceu
na tela.
Depois de ouvir as primeiras palavras o agente terrano compreendeu que a
mensagem em que acabara de pôr as mãos não se destinava a ele, mas ao Serviço Secreto
ertrusiano. Compreendeu o alcance enorme da descoberta e não teve dúvidas de que o
Império Solar ainda existia. Mas também sabia que os inimigos da Terra não podiam
saber disso. A microespula que estava ouvindo devia ser a primeira mensagem a
atravessar uma barreira até então perfeita.
Tatre prestou atenção às palavras do traidor, que não mencionou seu nome. Gravou
seu rosto. Forneceria uma descrição precisa ao seu elemento de ligação, que continuava a
manter contato com a Segurança Solar.
Ficou sabendo o que acontecera há dezoito meses. Quando as frotas dos impérios
estelares aliados atacaram o Império Solar, o Sol e seus planetas e satélites foram
transferidos cinco minutos para o futuro. E com os astros vinte e cinco bilhões de seres
humanos saíram do tempo normal, deixando de existir para o resto do Universo.
Continuavam a viver, completamente isolados e sem serem incomodados pelos inimigos
confusos, que só podiam acreditar que o Império Solar fora destruído numa terrível
catástrofe cósmica.
O locutor desconhecido ainda informou que no planeta Mercúrio existia um
gigantesco centro de comando, que mantinha constante o campo temporal, evitando sua
descoberta. Mas havia uma eclusa do tempo, um corredor que levava do futuro ao
presente. Por este corredor os terranos e suas naves mercantes podiam voltar a qualquer
momento ao universo normal e vice-versa.
Nos dezoito meses que se tinham passado depois disso a vida dos seres humanos
mudara. Naturalmente sofriam restrições em sua liberdade de locomoção, embora
tivessem acesso a qualquer um dos nove planetas do Sistema Solar. Mas para sair do
sistema — e, portanto, do futuro cercado pelo campo temporal — precisava-se de uma
autorização de Rhodan.
A economia experimentou um avanço surpreendente, embora os pessimistas
previssem exatamente o contrário. O comércio continuava a florescer, embora quase
ninguém soubesse de onde vinham as mercadorias. E muito menos se sabia para onde
iam as mercadorias fornecidas pelos diversos mundos fora do Sistema Solar.
Enquanto isso, informou o agente, a vida dos terranos voltou ao normal, embora
seguisse por novas trilhas. Os horizontes infinitos da era cósmica estavam encolhendo. O
planeta Terra voltou a tornar-se importante e os homens lembraram-se da tarefa que
deviam cumprir, retornando àquilo que em outros tempos costumavam chamar de “vida”.
O próprio destino lhes apontara os limites traçados pela natureza.
O agente passou aos detalhes. Falou nos trabalhos desenvolvidos pela Usina
Radioquímica Fosser e afirmou ter esperança de em breve conseguir roubar o processo de
fabricação do ertru-cosmobim. Mas no momento estava interessado antes de mais nada
em revelar o segredo da Terra para obrigar o Império Solar a sair do isolamento.
Tont Tatre interrompeu a reprodução e recostou-se na poltrona. Muito pálido, olhou
fixamente para o aparelho e a tela que voltara a escurecer. O agente tinha de ser
desmascarado antes que pudesse enviar outra mensagem. Era possível que da próxima
vez não conseguisse interceptá-la em tempo. Mas o mais urgente era entrar em contato
com seu elemento de ligação, que se encontrava em algum lugar de Ertrus, à espera de
informações.
Tatre ligou o transmissor instalado no aparelho de televisão e aguardou o sinal de
identificação. Sabia que suas palavras seriam captadas e armazenadas pela estação
receptora que nem mesmo ele conhecia.
Neste instante os alarmes da casa soaram, mostrando que alguém entrara na
residência de Tatre sem autorização.
O médico começou a falar às pressas. Sabia que só lhe restavam alguns minutos.
Fora descoberto. Sobre isso não podia haver a menor dúvida. Tinham-no seguido e
sabiam quais eram suas funções. Isso praticamente representava sua sentença de morte.
Mas preferia morrer a trair a Terra.
Continuou a falar, enquanto tirava a pistola energética da gaveta da escrivaninha e a
controlava. Ouviu barulho no andar inferior. Tiros energéticos foram disparados.
Provavelmente os intrusos tinham posto fora de ação seu servo robotizado quando ele se
recusou a conduzi-los à sua presença.
Passos aproximaram-se.
— Sou obrigado a terminar — disse Tatre. — Transmita a informação o mais
depressa possível à Segurança Solar. Rhodan precisa saber o que está acontecendo para
impedir a ação do traidor que trabalha na Fosser. Passe bem, amigo, e dê lembranças
minhas à Terra.
Tatre deixou o transmissor ligado. Queria que seu elemento de ligação soubesse
como ele tinha morrido.
A porta brilhou numa incandescência ofuscante e caiu para dentro da sala. Tatre fez
pontaria, destruindo a microespula e o aparelho reprodutor. A escrivaninha começou a
arder, pingos de metal derretido caíram ao chão.
Tont Tatre ficou de pé na sala, à espera do inimigo.
Quando reconheceu Derek Kalbor, seu rosto crispou-se num sorriso irônico.
— Está chegando tarde, meu chapa — disse com um aceno de cabeça em direção à
escrivaninha. — Nunca saberá o que seu agente na Terra lhe quis comunicar. De mim
não arrancará nada.
— O senhor é um traidor, Doutor Tatre. Dirá tudo que queremos saber. Temos
meios de obrigá-lo. O senhor sabe disso. Jogue fora a arma.
— Nada disso. Se acha que matando-me violentamente pode chegar ao setor de
memória de meu cérebro para arrancar as informações armazenadas lá, está muito
enganado. Sei que o método existe, mas comigo não funciona. Se eu morrer, minhas
recordações também morrerão, inclusive o conhecimento adquirido hoje.
— Jogue fora a arma!
Tont Tatre levantou a pistola energética e fez pontaria para Derek Kalbor.
— Não seja ridículo. Lute! Ou quer morrer também?
Kalbor atirou-se para o lado. Mal e mal escapou ao fino raio energético que passou
perto dele chiando, perfurando um homem do Serviço Secreto. Outro homem abriu fogo
contra Tatre, que continuou calmamente de pé, sem tentar proteger-se. Sabia que tudo
que estava acontecendo naquela sala era captado pelo transmissor e encaminhado ao
elemento de ligação.
Finalmente Kalbor atirou. Tatre abaixou-se.
O raio energético atingiu-o na cabeça.
Tont Tatre teve razão.
Com ele morreram suas recordações.
Ninguém podia extrair informações de um cérebro morto.
2

O Marechal-Solar Galbraith Deighton devia ter motivos importantes para convocar


uma sessão extraordinária, da qual participariam somente os dirigentes mais importante
do Império Solar. Não deu explicações, mas fez questão de ressaltar que a manutenção do
segredo a respeito da situação atual dependia do resultado da sessão.
Rhodan acabara de voltar de Plutão. Foi encontrar Reginald Bell no edifício em que
funcionava a administração do porto espacial de Terrânia. O Marechal-de-Estado estivera
à sua espera.
— Que problemas Deighton vai apresentar desta vez, Bell? Você faz alguma ideia?
— Não faço a mínima. Só nos pediu que aparecêssemos hoje. Todo mundo,
inclusive os mutantes, ou ao menos os dois telepatas. Atlan também deveria aparecer,
mas felizmente não conseguiram entrar em contato com ele. Está fazendo uma inspeção
nas bases da USO.
— Por que felizmente? — perguntou Rhodan, surpreso.
— Felizmente para ele — enfatizou Bell com um sorriso. — Você sabe como
Deighton fala quando fica nervoso. E desta vez sua voz parecia bem nervosa. Tifflor acha
que deve ser um assunto importante.
— Também acho. Fellmer Lloyd e Gucky foram avisados?
— Foram, mas não descobriram nada.
Havia uma ligeira recriminação no olhar de Rhodan.
— Será que você quis levá-los a espionar? Todo mundo sabe que Deighton explode
quando percebe. Além disso, está em seu escritório, que está protegido. Nem mesmo os
telepatas conseguem penetrar nele. Vamos indo. Está na hora.
Um planador aéreo levou-os à cidade, deixando-os na cobertura do edifício do
quartel-general da Segurança Solar. Como ainda faltava um pouco para a conferência,
procuraram Julian Tifflor em seu escritório-filial.
Tifflor não estava só. Fellmer Lloyd e Gucky estavam em sua companhia. O rato-
-castor saltou da poltrona, alegre, para cumprimentar os recém-chegados.
— Está quase todo mundo junto — disse, para acrescentar com a voz triste: —
Infelizmente não sei do que se trata. Deighton quase engasgou de tão nervoso que estava.
Deve ter recebido uma notícia desagradável.
— Pelo menos uma notícia importante — restringiu Rhodan e deu uma palmadinha
no ombro do amiguinho. — Bem, veremos.
Bell sentou.
— Ficou quieto muito tempo, para não dizer chato. Estava na hora de acontecer
alguma coisa.
— Isso mesmo — concordou Gucky entusiasmado. — Ficamos sentados na
campânula do tempo, deixando que nos procurem. É confortável e divertido, se penso
que nos procuram lá fora e não conseguem encontrar-nos. Mas com o tempo...
— Vejamos o que Deighton tem a dizer — disse Rhodan. — É possível que alguém
lhes receite um pouco de movimento. Quanto a mim, estou disposto a aguentar mais
algum tempo.
— Olhe que você está engordando — resmungou Gucky.
— Seria bom você subir na balança — disse Rhodan com um sorriso.
Quando chegou a hora de se dirigirem ao escritório de Deighton, nenhum deles
poderia queixar-se de estar mal-humorado ou nervoso. Fosse qual fosse o assunto que
levara o chefe da Segurança Solar a convocar a reunião, saberiam lidar com ele.
O tapete rolante levou-os ao elevador e dali a pouco passaram pelo controle de
identificação que protegia as salas ocupadas por Deighton. Um robô examinou suas
plaquetas de impulsos. Finalmente entraram no escritório em que seria realizada a
conferência.
Deighton já estava à sua espera. Levantou e foi ao encontro de Rhodan. Os dois
apertaram-se as mãos.
Galbraith Deighton era um homem alto de cabelos escuros e olhos vivos e
inteligentes. Seus movimentos revelavam um caráter equilibrado e um perfeito
autocontrole.
— Fico satisfeito em ver que pôde atender ao meu convite, senhor. Talvez me
sentiria melhor se Atlan também tivesse comparecido, mas os outros não são menos
bem--vindos. Inclusive você, Gucky.
— Obrigado, Galby — disse Gucky em tom insolente e sentou.
Bell sorriu. Apertou a mão do chefe do Serviço Secreto e esperou que os outros
também sentassem. Estavam separados por uma mesa redonda, sobre a qual se viam
alguns aparelhos de comunicação, inclusive um equipamento de reprodução de imagem.
— Então, Deighton! Qual é a novidade? — perguntou Rhodan enquanto
contemplava os aparelhos com muito interesse. — Notícias desagradáveis?
— É uma questão de interpretação, senhor. Ainda bem que recebemos a notícia. É
verdade que se não soubéssemos de nada viveríamos mais despreocupados e dormiríamos
mais tranquilos, mas pelo menos estamos prevenidos. É bem verdade que nosso agente
Tont Tatre, que trabalhava em Ertrus, teve de morrer para que fôssemos alertados. O
elemento de ligação desse agente testemunhou sua morte e enviou um relatório. Senhores
— Deighton inclinou-se e fitou os presentes um por um — posso apresentar o relatório?
Só faz algumas horas que o recebemos.
Rhodan fez um gesto afirmativo. Os outros não disseram nada. Gucky resolveu
fazer sua espionagem, tentando ler os pensamentos do chefe da Segurança Solar. Mas
desta vez não pôde deixar de admirar sua concentração. Pensava em tudo, menos naquilo
que Gucky queria saber.
Um símbolo apareceu na tela. Era uma espaçonave em forma de torpedo que
parecia cair num sol chamejante. Mais nos fundos via-se uma galáxia, vista de cima.
Seguiu-se uma voz calma.
— Aqui fala Tanor Sete, Tanor Sete. Mensagem para relê três através do código
quatorze. Iniciaremos em vinte segundos.
Duração dois minutos com condensador. Favor mudar a ligação...
Tanor Sete era um nome de guerra. A estação receptora do relê três recebeu a
mensagem e transmitiu-a à Terra através da ponte de hiper-rádio. Finalmente um
mensageiro levou-a ao futuro através do corredor do tempo.
Acabou parando sobre a escrivaninha de Deighton.
Rhodan continuou com o rosto impassível enquanto a voz calma do agente que ele
não conhecia relatava o incidente ocorrido na Clínica Central de Ertrus. Sabia o que
significava a notícia e imaginava o que se passava na cabeça de Deighton. O fato de os
agentes inimigos terem descoberto um meio de levar informações através do corredor do
tempo, fazendo-as chegar ao presente normal, poderia levar à descoberta do segredo.
Rhodan resolveu tornar ainda mais rigorosos os controles instalados em Mercúrio.
Até a morte de Tont Tatre foi mostrada na tela. O elemento de ligação Tanor Sete
fizera uma cópia da respectiva fita de imagem e o remetera. Não havia a menor dúvida de
que as informações eram verdadeiras.
A tela escureceu. Os homens ficaram calados. Finalmente Deighton falou:
— Os senhores sabem o que isso significa. Se existe um agente, talvez até vários, na
Usina Radioquímica Fosser, em outros lugares também pode haver. Estes agentes são
capazes de fazer passar informações pela eclusa do tempo, informações estas que podem
pôr em perigo nosso Plano dos Quinhentos Anos e revelar nosso esconderijo. Devo
confessar que é praticamente impossível controlar o medicamento ertru-cosmobim. O
máximo que podemos fazer é examinar algumas amostras. Como sabem, as imitações
podem ser tão perfeitas que é impossível descobri-las. Além disso sabemos que as
microespulas siganesas só passam a irradiar seus impulsos em determinado momento ou
depois de certo tempo. Não devem fazer isto antes de atravessar a eclusa do tempo. Em
minha opinião não adiantaria fazer qualquer controle junto à eclusa do tempo.
— As Usinas Fosser — murmurou Tifflor. — Não ficam em Sydney?
— Isso mesmo. Só produzem cosmobim para Ertrus e empregam vinte mil
funcionários, inclusive alguns cientistas e pesquisadores de primeira linha. Não sei como
pode haver agentes entre eles. Foram todos testados e peneirados inúmeras vezes. O
agente deve ter iniciado suas atividades pouco antes da instalação do campo do tempo,
senão teria sido desmascarado e preso em tempo. Sobre isso não pode haver a menor
dúvida. Qual é sua sugestão, senhor? — O chefe do Serviço Secreto olhou para Rhodan.
— Quem podemos mandar para Sydney?
— Nossos colaboradores mais competentes — exclamou Gucky. — Eu, por
exemplo.
— Você não irá em hipótese alguma — disse Deighton em tom sarcástico. Não
seria reconhecido.
Rhodan sorriu ligeiramente.
— Precisaremos de telepatas, Deighton. É claro que os agentes contam com isso e
se protegerão. Hoje em dia uma rede de proteção pode ser escondida nos cabelos, mas um
telepata sempre acaba descobrindo-a. Quem poderia ter um interesse em usar este tipo de
rede? Sugiro que dê ordem para que seus funcionários examinem sistematicamente os
vinte mil empregados das usinas. Seria estranho se não encontrássemos alguma
indicação.
Deighton recostou-se na poltrona.
— Compreende minhas preocupações, senhor?
— Compreendo perfeitamente.
— Também acha que temos de dar um jeito de encontrar o traidor, custe o que
custar? Se fizer outra tentativa e conseguir o que quer, as consequências serão
imprevisíveis. Fiquei sabendo que dentro em breve será formado outro lote do
medicamento.
— Sua remessa será suspensa até que tudo seja esclarecido — disse Rhodan.
Deighton acenou com a cabeça.
— Obrigado, senhor. Fico muito grato pela colaboração, senhores. Reginald Bell e
Julian Tifflor providenciarão para que nenhuma nave mercante atravesse a eclusa do
tempo sem que seja submetida a um exame minucioso. Mobilizarei meu corpo de
funcionários e tratarei de descobrir o traidor. Fellmer Lloyd e Gucky me ajudarão. Talvez
seja conveniente que Lloyd use o disfarce de um cientista que prepara juntamente com
Gucky certo medicamento destinado a uma raça amiga. Farei com que um homem
competente os acompanhe.
— Nós o conhecemos? — perguntou Gucky.
— Acho que sim. É Ken Albrich. Foi quem esclareceu o caso do contrabando de
halógeno. É um dos melhores colaboradores que tenho e seu rosto nunca apareceu em
público.
— É uma pena que Tont Tatre não tenha podido dar a descrição do agente que
trabalha nas Usinas Fosser — disse Rhodan. — Seria tudo muito mais fácil.
— Nós o encontraremos — prometeu Fellmer Lloyd. — Se contarmos com a
colaboração de Ken Albrich não precisamos ter a menor dúvida. Já temos uma pista
importante. Sabemos onde começar a procurar. É uma diferença tentar identificá-lo no
meio de vinte e cinco bilhões ou de vinte mil pessoas.
— Muito bem. — Deighton inclinou o corpo e apertou um botão. — Mandarei
avisar Ken Albrich. Talvez devêssemos entrar em contato com o diretor da Química
Fosser, sem dizer o que estamos procurando. Precisamos de seu apoio.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Talvez alguém que saiba alguma coisa já seja demais. Não poderíamos tentar
fazer nossos homens trabalharem em caráter oficial? Deve haver uma dificuldade de
disfarçá-los como membros de uma comissão de pesquisas, talvez uma que trabalhe por
ordem do governo.
— Foi mais ou menos o que pensei, senhor. O Diretor Fosser só será avisado de que
dois cientistas ajudados pelo rato-castor, na qualidade de representante de uma
inteligência extraterrena, tentarão desenvolver certo medicamento. Se Fosser concordar, e
tratarei de fazê-lo estar de acordo, Albrich, Lloyd e Gucky terão plena liberdade de
movimentos em toda a usina. Hoje é o dia 5 de abril. Não sei quanto tempo demorarão as
investigações, mas acho que serão concluídas em uma ou duas semanas.
— Está bem — disse Fellmer Lloyd em tom seco. — Gostaria de ver o menino-
-prodígio, Albrich. Já ouvi falar a seu respeito. Sendo recomendado pelo senhor, só pode
ser um bom sujeito.
— Acho que Albrich já vem vindo para cá — respondeu Galbraith Deighton.
***
O videofone emitiu o sinal de chamada. Albrich colocou o projetor de microlivros
de volta sobre a coberta e ligou o aparelho. Não fazia a menor ideia de quem podia estar
chamando no meio da noite. Fazia dois dias que se deleitava sob o céu azul das Bahamas,
gozando um curto período de férias. Praticava mergulho, jogava tênis, flertava nos bares
dos hotéis e às vezes chegava a esquecer quem era.
O videofone trouxe-o de volta à realidade. A tela ficou escura. Era um mau sinal no
que dizia respeito a suas férias.
— Albrich — disse, respondendo ao chamado.
— O chefe quer falar com o senhor — disse uma voz que não conhecia. — Não foi
fácil encontrá-lo. Quando poderá chegar aqui?
— Amanhã.
— Não podemos esperar tanto. Dou-lhe três horas, isto é, até o fim do expediente.
— Para mim o expediente nunca termina.
O desconhecido pigarreou.
— Pois é. Pegue seu possante e venha o mais depressa que puder. Mesmo que seja
depois do fim do expediente. Mandarei avisar o chefe de que baterá à sua porta
exatamente dentro de cinco dias.
— Está certo — resmungou Ken Albrich e desligou.
Em seguida deixou-se cair para trás com um suspiro. Refletiu um pouco, voltou a
pegar o projetor e lançou o quadro colorido tridimensional sobre o teto. De forma alguma
queria perder a história interessante que estava vendo. Se partisse dentro de duas horas,
ainda chegaria a Terrânia em tempo.
Um pouco mais tarde reuniu seus pertences, pagou a conta e saiu do hotel. Lançou
mais um olhar triste para o mar calmo tocado pelo luar. Brilhava que nem prata derretida,
convidando para um banho. Mas acabou afastando os sentimentos românticos com um
gesto impaciente.
Tinha uma tarefa, embora não soubesse do que se tratava. Devia ser uma coisa
importante, senão não o teriam arrancado da cama no meio da noite. Em Terrânia era o
início da tarde, mas mesmo lá sabiam que a velha e boa Terra continuava a girar.
Seu possante, como gostava de chamar seu planador superveloz, estava estacionado
embaixo das palmeiras, junto ao hotel. Ken colocou a mala no chão, pôs a mão no bolso e
tirou a chave positrônica. Examinou o ajuste do código e apertou um minúsculo botão.
Apontou a chave para o planador.
O campo energético quase invisível e a porta da cabine pressurizada abriram-se.
Ken pegou a mala e entrou na cabine. A porta voltou a fechar-se automaticamente.
Dali a alguns minutos o planador subiu levemente e saiu para o céu noturno, em
direção à Lua. Ken só ligou o motor a jato depois de certificar-se de que não poderia
perturbar ninguém.
A nave-miniatura disparou para o leste que nem uma bala.
Rara aqueles lados já estava clareando. O Sol saltou do mar, subiu com uma incrível
rapidez e foi descendo para o oeste. Quando Ken atravessou a barreira aérea de Terrânia,
o Sol já descia no poente.
Ken pousou na cobertura de um enorme edifício.
Faltavam cinco minutos para terminar o expediente oficial.
***
— Deverá chegar daqui a duas horas — disse Deighton e olhou para o relógio. —
Que tal um refresco? — As palavras eram dirigidas a Rhodan. — Não precisa esperar
aqui, senhor. Já foi tudo combinado. O resto não passa de rotina. Não quero que o senhor,
Ken e Tifflor percam tempo sem necessidade. Discutirei a missão com Albrich e os dois
telepatas. Amanhã informá-lo-ei sobre o que foi conversado.
Rhodan acenou com a cabeça.
— Até que faz sentido, Deighton. Ainda tenho de liquidar algumas coisas. Tifflor e
Bell também devem ter. Quer dizer que amanhã voltaremos a falar. Vocês vêm comigo?
Bell e Tifflor levantaram.
— Até amanhã — disse Bell e colocou a mão sobre o ombro de Gucky. — Tenha
cuidado com Ken Albrich — recomendou em tom suave.
— Como? — Gucky parecia perplexo. — Não compreendo.
— Ken é um agente secreto. Um agente secreto de verdade. Esse tipo de gente não
gosta de brincadeiras, baixinho. Ele o desmontará se aborrecê-lo ou achar que é mais
inteligente que ele. Pelo que sei, também será o chefe da missão. Não que queira
ensinar--lhe alguma coisa...
— Nem precisa. Sei como lidar com agentes. Li muito sobre esses caras. Afinal, sou
um deles.
— Tudo bem. Até amanhã.
Deighton esperou que a porta se fechasse e encarou Gucky.
— Bell tinha razão, Gucky. Os agentes secretos também têm uma espécie de honra
profissional e não gostam que um leigo se intrometa nos assuntos que lhes dizem
respeito. Além disso Albrich é uma espécie de estrela entre os agentes. Mas num ponto
seu amigo está enganado. Ken Albrich aceita brincadeiras e sabe perfeitamente quem
pode brincar com ele e quem não pode. Mas não se espante se ele também se divertir à
sua custa. Mas de outro lado pode-se falar sensatamente com ele. Bem, vocês se
entenderão.
— Seremos obrigados.
Um criado-robô trouxe refrescos. Fellmer e Gucky ficaram sentados à mesa,
enquanto Deighton conversava com alguns colaboradores. Em seguida incumbiu seu
homem de confiança em Sydney a reservar apartamentos num hotel para três pessoas.
Voltou à mesa e sentou.
— Deve chegar a qualquer momento. — Olhou para o relógio. — É sua hora de
costume... cinco minutos antes do fim do expediente.
Dali a instantes Ken Albrich entrou. Sem maiores solenidades deu a mão a seu
chefe supremo, que era Deighton, e garantiu que seria um prazer virar a noite. Apontou
para Fellmer e Gucky.
— Quer dizer que estes são meus colaboradores no caso? — Aproximou-se deles e
também os cumprimentou. Antes que Gucky pudesse dizer qualquer coisa, prosseguiu: —
Se Gucky está nesta, deve ser mesmo uma coisa muito importante. De que se trata?
Albrich sentou.
Gucky fez um sinal para Deighton e disse:
— É isso mesmo, Galby. Albrich é um homem perspicaz e competente. Gosto dele.
Neste momento soou uma sereia, anunciando o fim do expediente.
Deram início ao trabalho, informando Ken Albrich do que se tratava.
3

O Dr. Harry Fenchel, um dos funcionários mais importantes das Usinas Químicas
Fosser, procurou uma nova residência. Deu graças a Deus por encontrar uma casa
subaquática. Muitos dos seus colegas ocupavam casas desse tipo, espalhadas por toda a
costa. Inclusive o Dr. Jordan Peynchester, o radiobiólogo, com o qual mantinha relações
sociais, além de ser amigo da família. Morava umas poucas casas adiante da sua, o que
fez com que passassem a encontrar-se mais vezes depois do expediente.
Na noite daquele dia oito de abril Peynchester estava dando uma festinha.
Convidara alguns colegas e amigos com as famílias. Durante o dia todo pensara na festa
com alegria. Era a primeira vez que praticariam o mergulho à luz artificial. Havia recifes
de coral perto da costa. Era o lugar ao qual se dirigiriam e de onde voltariam.
Harry Fenchel era médico. Trabalhava principalmente na pesquisa e produção de
medicamentos radiobiológicos. Era parente longínquo do Diretor Fosser, que seria um
dos convidados daquela noite.
Por acaso ficou sabendo que um grupo de pesquisa chegara à usina. No início não
se interessara pela notícia, mas quando lhe falaram de certo rato-castor chamado Gucky
teve a atenção despertada. Naturalmente conhecia Gucky pelo nome. Quem não o
conhecia? Parecia bem razoável que o rato-castor fosse enviado à usina como
representante das inteligências extraterrenas. No entanto...
O Dr. Harry Fenchel não era detetive; exercia a profissão de médico. Não tinha
nada a ver com a história, apesar de o chefe do grupa um certo Ken Albrich, ter avisado
que visitaria sua seção no dia seguinte. Finalmente teria oportunidade de conhecer
pessoalmente o tal do Gucky, que já se transformara numa figura lendária.
Pois é. Deixaria para pensar nisso no dia seguinte. Talvez na noite daquele dia
pudesse fazer algumas perguntas a Fosser. Será que ele participaria do campeonato de
natação? Fenchel teve de sorrir. Logo o velho Fosser, que mal dava um passo e mesmo
dentro da usina só se deslocava em planadores. Fenchel ficou satisfeito quando
finalmente pôde pendurar o jaleco branco e entrar em seu planador. Era o fim do
expediente! O médico ligou o piloto automático e deixou que a direção robotizada
cuidasse do resto. Dali a pouco sentiu um ligeiro solavanco. O veículo acabara de pousar.
Sobressaltou-se, pois estivera cochilando. Estava exausto, sem dúvida. Ultimamente
tivera muito trabalho. Demais para seu gosto. Mas apreciava seu trabalho.
Harry Fenchel trancou o planador e desceu para casa no elevador. A jovem esposa
veio ao seu encontro, e depois os filhos exigiram sua atenção. Mais tarde foram entregues
ao robô-babá. Fenchel e a esposa, Judy, saíram. Percorreriam a pé a pequena distância
que os separava da residência dos Peynchester. Não precisavam preocupar-se com o
equipamento de mergulho, que estava guardado na casa dos amigos.
Fosser viera só. Cumprimentou jovialmente Judy e Harry. Quase chegou a mostrar-
-se amistoso. Em seguida voltou ao bar, onde conversava animadamente com uma jovem
que Fenchel ainda não conhecia. Devia ser funcionária da usina.
Kalim Afanch também viera. Era um solteirão calmo, muito estimado na vizinhança
e no trabalho. Também ocupava uma casa subaquática nas proximidades. Fenchel
conhecia-o do trabalho, embora quase não mantivesse nenhum contato profissional com
ele. Afanch era engenheiro de expedição e encarregado do transmissor de material da
usina. Peynchester segurou o braço de Fenchel.
— Vamos tomar alguma coisa para comemorar. Nossas esposas já têm o que
conversar, não precisamos preocupar-nos com elas. Vamos ao bar.
— Quem é a jovem que está conversando com Fosser? Poderia apresentar-me a ela?
— Não conhece Miss Eagle. Miss Helgard Eagle, secretária-chefe do velho. É
verdade que só está no emprego há alguns dias.
Ainda vieram dois casais. Eram os médicos Grindel e Torow com esposas, dois
mergulhadores entusiásticos. Não faltava mais ninguém.
Todas as casas subaquáticas possuíam eclusas que funcionavam da mesma forma
que as eclusas das espaçonaves. As pessoas colocavam os equipamentos de mergulho
numa ante-sala. Em seguida entravam na eclusa propriamente dita, que era
hermeticamente fechada para depois ser inundada. Depois disso podia-se sair nadando
mar afora. Para muita gente o mergulho era um substituto da ausência de gravidade
encontrada no espaço.
Depois de um jantar ligeiro, no qual foi servida comida leve, o anfitrião fez um
breve discurso.
— ...passaremos à finalidade principal do encontro. O Diretor Fosser, nosso amigo,
teve a ideia gloriosa de conferir um prêmio ao vencedor da competição de hoje. Não
participará, mas decidiu que sua secretária participará em seu lugar. É uma concorrente
muito forte, amigos. Tenho certeza de que Miss Eagle é uma excelente nadadora. Pediria
que me acompanhasse para a eclusa. Está tudo preparado...
O Dr. Fenchel preferiu não participar porque nos últimos dias não se sentira muito
bem. Aproveitaria a oportunidade para conversar com Fosser. Mas sua esposa Judy deu o
braço a Mabel Peynchester e foi atrás dos outros.
Fosser pegou seu copo e foi à sala de estar com Fenchel. Era o lugar de onde tinham
a melhor visão para o mar. Sentaram à mesa que ficava perto da janela. A iluminação
externa fora ligada. Além disso havia holofotes especiais apontando o caminho para os
recifes.
— Meu caro Fenchel, não queira me dizer que não participou apenas para não ser
injusto. Deve ter seus motivos. Diga logo!
Não era fácil enganar o velho.
Fenchel sorriu embaraçado.
— Estou mesmo esgotado, mas poderia perfeitamente ter participado. Mas fico
satisfeito por poder conversar com o senhor. Nunca encontro uma oportunidade para isso.
Fosser soltou uma estrondosa gargalhada. Devia ter seus oitenta anos e gozava de
uma excelente saúde. Não parecia ter mais de quarenta.
— Fez alguma descoberta? De que se trata mesmo?
— Estou trabalhando num novo medicamento radiobiológico contra as febres dos
pântanos de Vênus. Existem muitos remédios para ela, mas quero acabar com a doença
de uma vez por todas. — Fenchel olhou pela janela e viu Judy. Nadava por perto e
cumprimentou-o com um gesto. A competição ainda não começara. Os outros
participantes começavam a reunir-se. Fenchel reconheceu Miss Eagle, que se encontrava
entre Ferry Grindel e Tatja Torow. Havia nove participantes ao todo. — Qual será
mesmo o prêmio?
Fosser sorriu ironicamente.
— Que poderia ser? Um cheque. Não me ocorreu mais nada. — O chefe fez um
gesto bonachão para os competidores. — Qual é sua opinião sobre o grupo de pesquisa
que chegou hoje?
Fenchel surpreendeu-se com a coincidência. Ia fazer a mesma pergunta.
— Não acho nada. Não sei para que veio. Amanhã farão uma visita ao meu setor.
— Ah, é — disse Fosser laconicamente e deixou que o robô lhe servisse mais um
copo de bebida. — Acho que é preferível discutirmos o assunto amanhã de noite.
— Por quê? Há algo de errado?
— Não. O grupo foi anunciado e recomendado por alguém muito importante. Deve
ser uma questão de Estado. Senão Gucky não teria vindo. A propósito, deveríamos
convidá-lo a participar de uma competição de mergulho. Seria muito divertido.
— Sem dúvida — respondeu Fenchel em tom distraído e apontou para a paisagem
subaquática fortemente iluminada. — Vai começar.
Os mergulhadores entraram em forma e partiram a um sinal de Peynchester. Não se
distinguiam os recifes submarinos, mas viam-se perfeitamente os holofotes instalados
perto deles. Estavam a trezentos metros.
Os trajes de mergulho eram bem diferentes dos usados antigamente. Não havia as
pesadas garrafas de ar comprimido, que impediam os movimentos. Um cartucho não
maior que uma mão humana continha ar para várias horas. A água estava morna,
tornando dispensável o traje de borracha. Cada mergulhador trazia uma pistola energética
presa ao cinto. Era uma arma que funcionava na água e matava qualquer peixe perigoso
dentro de poucos segundos.
Os nadadores saíram se agitando. Fenchel ainda viu sua esposa tomar a dianteira,
mas depois não a distinguiu mais entre os outros.
— É um esporte formidável — murmurou enquanto se lamentava de não ter
participado. — O senhor costuma mergulhar, Fosser?
— Raramente, e sempre sozinho. Amo o silêncio, a solidão, a ausência de
gravidade. Hoje não tive vontade.
A conversa terminou aí. Os dois bebiam e olhavam para a água, esperando que os
mergulhadores voltassem. Fenchel esforçou-se para enxergar melhor. Viu Miss Eagle,
que vinha pelo menos vinte metros à frente dos outros. Sem dúvida ganharia o prêmio.
Ganhou mesmo.
Fosser fez um ligeiro discurso e entregou-lhe o cheque prometido. Em seguida
puxou-a para o bar, onde passaram a conversar sobre coisas corriqueiras.
Os outros reuniram-se junto à mesa da sala de estar que ficava perto da janela.
De repente Kalim Afanch disse:
— Hoje conversei com nosso chefe do pessoal. Diz que um dos membros do grupo
de pesquisa que apareceu tão de repente interessou-se pelos documentos relativos aos
funcionários. É verdade?
Peynchester voltou a colocar o copo sobre a mesa.
— Documentos sobre os funcionários? O senhor tem alguma coisa a ver com isso?
— Por que não perguntamos a Fosser? Olhe ele ali. Fenchel empurrou Afanch para
dentro da poltrona.
— Não vê que está ocupado? Afinal, pouco nos importa que alguém se interesse por
estes ou aqueles documentos. Sem dúvida procuram o homem certo para ajudar em suas
pesquisas. Além disso, não temos nada a temer.
Foi Peynchester que se mostrou mais nervoso.
— Esses documentos não são da conta de ninguém. Acho que deveríamos perguntar
a Fosser. Talvez não saiba de nada.
Peynchester levantou e foi ao bar. Do lugar em que estava, Fenchel podia vê-lo
perfeitamente. Fosser parecia indignado, falou um tanto nervoso com Peynchester e até
esqueceu a secretária. Quando voltou à mesa, dali a pouco, o médico parecia um tanto
pensativo.
— Então. O que foi que ele disse? — perguntou Kalim Afanch.
Peynchester deu de ombros.
— Disse que os dois têm plenos poderes. Diz que não pode impedi-los de meter o
nariz onde quiserem, mas acha que podemos ficar tranquilos. Fenchel tem razão.
Procuram colaboradores que correspondam ao seu perfil.
— Pois então — alegrou-se Ferry Grindel, que alcançara o segundo lugar na
competição. — Tudo em ordem. Vamos dançar?
Acabou sendo uma ótima festa, mas bem mais tarde, quando Fenchel já estava na
cama, ele não podia deixar de pensar no rosto de Peynchester.
Teve a impressão de que por um instante surpreendera um verdadeiro estado de
pânico em seus olhos.
***
Quase ao mesmo tempo Fellmer Lloyd, Gucky e Ken Albrich estavam reunidos no
hotel. Já fazia três dias que trabalhavam em Sydney, e as pistas encontradas não tinham
dado em nada.
Ken suspirou.
— Acho que não adianta, se quiserem saber minha opinião. Já descobriu alguma
coisa nas fichas do pessoal, Fellmer?
— São vinte mil fichas, Ken! Mal comecei. É verdade que trabalho com o
computador. Mas os pontos de referência são muito poucos para fazermos um
peneiramento mais rápido. Na verdade, não temos nenhum ponto de referência.
— Nenhum fator de suspeita?
— Nenhum.
— Pois é. — Ken Albrich olhou pela janela, contemplando o oceano de luzes dos
arranha-céus. — Deveríamos estabelecer contato com os principais dirigentes. Desta
forma talvez consigamos alguma indicação. Do jeito que estamos indo não chegamos a
lugar algum. Maldito trabalho miúdo, de rotina.
Amanhã Gucky e eu conversaremos com alguns médicos ligados diretamente à
produção do cosmobim. É onde começa o caminho que vai ter à Clínica Central de
Ertrus. Faremos um trabalho metódico até encontrar alguma dica. O senhor continuará a
trabalhar com o fichário. Deve haver alguma coisa que não combina com o resto.
— As indicações podem ser formadas — ponderou Fellmer Lloyd.
— Tal qual as provas — admitiu Ken e sacudiu a cabeça. — Deve haver alguma
coisa na vida de uma das vinte mil pessoas que nos faça avançar um pouco. Talvez seja
um detalhe sem importância. Mas deve ter uma ligação com o que aconteceu. Precisamos
descobrir, Fellmer.
— Nosso trabalho só começou há três dias, Ken. Vamos aguardar.
Gucky espreguiçou-se no sofá.
— Já tentei a telepatia, mas já estou cheio de passar o dia inteiro sondando o
pensamento de pessoas que não conheço. Se vocês soubessem o que alguns deles
pensam...!
— Basta que você preste atenção quando entrarmos em contato com alguém —
tentou ajudá-lo Ken. — Verifique se alguém leva um susto ou tem a consciência pesada.
Todo mundo o conhece e sabe que é telepata. Logo, o indivíduo tratará de pensar
somente em coisas que não sejam perigosas. Principalmente o traidor. Eis aí a indicação
de que precisamos.
— Todo mundo só pensa em coisas inofensivas, Ken. Nos bifes queimados, nas
esposas e filhos, no hobby mais recente, nos consertos de que precisa o planador, no
próximo aumento de ordenado... e coisas parecidas. Acha que existe algo de suspeito
nisso?
— Depende de como eles pensam, baixinho. Gucky resmungou alguma coisa e
deitou de costas.
— Está bem. Quem sabe amanhã descobrimos mais alguma coisa. Se não for
amanhã, será depois de amanhã.
Ken suspirou.
— Você tem assistido a muitos filmes policiais, Gucky. Neles sempre acontece uma
porção de coisas. O esclarecimento de um caso exige trabalho, muito trabalho miúdo. As
peças vão se juntando que nem num mosaico. Só se sabe que a gente está na pista certa
depois que começa a formar um quadro. — Ken bocejou. — Acho que para hoje chega.
Ninguém teve qualquer objeção.
***
No dia seguinte Ken e Gucky dirigiram-se à seção do Dr. Fenchel, com o qual
conversaram animadamente sobre as conquistas mais recentes da pesquisa radiobiológica.
Enquanto isso Fellmer alimentou o computador da usina com os dados disponíveis.
Reunira certos fatos que talvez pudessem concorrer para fundamentar uma suspeita.
Tentou identificar pessoas às quais se aplicasse ao menos um destes fatos.
O resultado foi além das perspectivas, o que não deixou Fellmer nem um pouco
feliz. Se houvesse um numero excessivo de indícios, voltaria exatamente ao ponto em
que estivera há trás dias. Pelo menos cem pessoas tinham saído do Sistema Solar antes
que fosse criado o campo do tempo, para passar férias em outros planetas. Um número
ainda maior viajara por ordem da direção das Usinas Fosser, e muitos deles ficaram fora
durante semanas e até meses. Duzentos membros das equipes científicas tinham viajado
nas naves da frota exploradora. Setenta pessoas nem eram da Terra, mas vinham de
outros mundos pertencentes ao Império Solar. Exatamente quatro mil e quinhentos
funcionários participavam diretamente do processo de fabricação do ertru-cosmobim.
Fellmer suspirou. Levaria muito tempo para peneirar o grupo e examinar cada um.
O computador não poderia ajudá-lo muito. Chegou à conclusão de que antes de fazer esse
trabalho seria conveniente inventar e explorar outros fatores de suspeita. Entre estes
incluíam-se principalmente situações familiares anormais, despesas excessivas e férias ou
doenças fora do roteiro.
Foi justamente o último ponto, que poderia levar a muitas conclusões falhas, que o
colocou na primeira pista.
Um certo Dr. Jordan Peynchester tinha o hábito de nunca gozar as férias de uma só
vez. Distribuía o período por todo o ano, preferindo esticar os fins de semana. Desta
forma conseguia gozar férias dez vezes por ano, embora fosse por apenas quatro dias no
mínimo, de cada vez.
Não era muito suspeito, mas representava um indício. Fellmer resolveu dar uma boa
olhada em Peynchester.
***
— Estamos à procura de pessoas competentes para colaborar conosco, Dr.
Peynchester, e isto por ordem do governo. Conhecemos sua capacidade, mas existem
outros aspectos que devemos considerar. Aspectos sociais, morais... bem, o senhor sabe.
Peynchester parecia calmo. Sentado atrás da escrivaninha em seu escritório, tentou
recuperar-se da surpresa.
— Por que pensaram justamente em mim? — perguntou.
— Por um motivo muito simples. Como já deve ter percebido, examinamos as
fichas dos funcionários para fazer uma seleção prévia. Meus dois colaboradores não se
interessaram tanto pelas pessoas, mas principalmente por seu trabalho. A propósito. Por
que usa uma rede de proteção contra a telepatia?
Desta vez Peynchester estremeceu. Não conseguiu disfarçar a surpresa.
— Como soube? O senhor é...?
— Eu vejo — disse Fellmer em tom calmo. — Acho estranho o senhor possuir uma
rede destas e mais estranho ainda que a use. Tem medo de telepatas?
— Não gosto que alguém me espione. Somente isto.
— Isso não é um argumento válido. Acha que entre os funcionários da usina não
existe nenhum telepata?
— Eles podem estar em toda parte. Ninguém sabe exatamente. As capacidades
parapsíquicas dos homens aumentaram nos últimos séculos. Quem me garante que por
aqui não existem telepatas que ainda não foram descobertos? Eles nem pensarão em
contar o que sabem fazer. Já lhe disse que faço questão da minha privacidade. O que eu
penso não é da conta de ninguém.
— O senhor tem razão, Dr. Peynchester. Sou da mesma opinião. Outra pergunta. O
senhor prefere férias curtas. Por quê?
— Escute aí! Acho que isto é um assunto que diz respeito exclusivamente a mim.
— Sem dúvida, mas insisto na pergunta. Acha que estou sendo muito indiscreto?
O Dr. Peynchester hesitou antes de responder.
— Sou casado e tenho filhos. Possuímos uma bela casa subaquática em uma das
mais lindas paisagens submarinas. São recifes de coral, desfiladeiros, rochas, água
morna, peixes. Além disso minha esposa e eu somos mergulhadores apaixonados. Por
que haveríamos de tirar férias longas se podemos gozar vários períodos curtos por ano?
Não viajamos. Ficamos em casa e praticamos o mergulho. É o verdadeiro descanso. —
Peynchester encarou Fellmer. — Mais alguma pergunta?
Fellmer levantou.
— Não tenho mais nenhuma. Queira desculpar, mas tenho uma tarefa a cumprir. O
senhor ajudou-me bastante.
Peynchester retribuiu o aperto de mão. Estava com a palma da mão fria e úmida.
— Não tem por que agradecer, senhor. Talvez ainda precise de mim...
Fellmer não acreditava nisso, mas acenou amavelmente com a cabeça e saiu.
Pediu que fosse levado ao hotel. Precisava de calma para refletir. Alguma coisa que
Peynchester dissera não combinava com seu esquema.
***
O Dr. Harry Fenchel divertia-se a valer com as colaboradoras do sexo feminino,
enquanto conversava sobre assuntos sérios com Ken Albrich. Gucky fora ao escritório e
deleitou-se com os gritos de espanto e reconhecimento das secretárias. Ficou de pé, com
as pernas afastadas, e disse:
— Bom dia, damas. Nunca viram um ilt?
— Só nos livros de figuras — sussurrou uma burocrata jovem em tom embaraçado.
— Em criança.
— Não pode fazer muito tempo — disse Gucky. — Quer dizer que foi em livros de
figuras? Certamente me confundiu com um ursinho de pelúcia.
— Quer dizer que o senhor é o célebre Gucky? — perguntou outra dama para
certificar-se. — É exatamente como eu imaginava.
— Fico satisfeito em poder corresponder às suas expectativas — garantiu Gucky em
tom bonachão enquanto pesquisava os pensamentos dos funcionários presentes. Não
descobri nada de suspeito. — Afinal, sou mais bonito que por exemplo um ertrusiano.
A palavra ertrusiano não provocou nenhuma reação, quer fosse acústica, quer
mental.
O Dr. Fenchel, que estava na sala ao lado, perguntou:
— Desculpe a pergunta, Mr. Albrich, mas não é muito comum três pessoas de fora
poderem andar livremente pela usina, falando com qualquer pessoa. Não quero ser
curioso, mas, como provavelmente já sabe, sou amigo do diretor Fosser. Ontem perguntei
a ele por que vieram. Fosser não pôde dar nenhuma resposta satisfatória.
Ken contemplou os quadros na parede.
— Procuramos colaboradores. É só isto. Além disso, queremos verificar a que ponto
chegaram suas pesquisas. É bem possível que um dia Fosser resolva abrir outra usina.
Está satisfeito com a resposta, Dr. Fenchel?
Fenchel acenou com a cabeça. Parecia surpreso.
— Fosser não me disse isso.
— Nem poderia — respondeu Ken com um sorriso. — Ele mesmo ainda não sabe.
Não se admire e, o que é mais importante, não
quebre a cabeça. Precisamos de mais centros de
pesquisas radiobiológicas, e não existe lugar
melhor para um cientista trabalhar intensamente
e com bons resultados que aquele em que suas
ideias são postas em prática. A experiência não
lhe ensinou isso?
O Dr. Fenchel acenou com a cabeça. Não
poderia saber que Gucky, que conversava com as
secretárias, examinava cuidadosamente seus
pensamentos e os classificava.
***
No início da noite daquele dia o Dr.
Peynchester não conseguiu alegrar-se com a
ideia de ir para casa. Teve de dar-se por satisfeito
com as explicações de Fellmer Lloyd, mas teve a impressão de que não passavam de
subterfúgios. Além disso sentia-se constrangido porque sua rede de proteção contra a
espionagem telepática fora descoberta. Já a possuía há vários anos e raramente a usava.
Mas desta vez achou que era conveniente.
Todo mundo sabia que Gucky era telepata.
Peynchester não trabalharia no dia seguinte. Resolvera aproveitar a folga. Não
adiantava expor-se a um grande risco juntamente com a família. Mais tarde encontraria
uma explicação para o que pretendia fazer. Não havia a menor dúvida. Se alguém não se
contentasse com estas explicações, haveria de encontrar uma saída. Dispunha de meios
para isso.
O Dr. Peynchester fez uma volta e estacionou seu planador perto da agência dos
correios. Passou um telegrama e aguardou a resposta. Respirou aliviado quando ela
chegou. Seu elemento de ligação aprovou a sugestão e prometeu auxílio para mais tarde.
Peynchester estava mais tranquilo quando voou para casa.
Sua esposa Mabel não ficou nem um pouco entusiasmada.
— Tão de repente, e logo para Marte? O que vai fazer lá?
— Pesquisas, Mabel. Fosser em pessoa mandou que eu fosse, mas não quer que
ninguém saiba. Nem você. Não me deixe mal falando a respeito. Nem mesmo com
Fosser, caso se encontre com ele. Fosser fará de conta que não sabe de nada. Não se deixe
enganar. Compreendeu?
— Quanto mistério!
— É muito mais que isso, querida. Só leve as coisas indispensáveis.
Enquanto a esposa arrumava as malas, Peynchester despediu-se dos dois filhos.
Prometeu voltar logo. Ainda jantou com a família e pediu a Mabel que o levasse ao
centro de transporte mais próximo, onde pegou um táxi aéreo que o levou ao porto
espacial situado no interior.
Havia uma viagem a Marte programada para aquela noite e Peynchester teve sorte
de conseguir passagem. Teve de submeter-se a um exame médico e respondeu a várias
perguntas das autoridades espaciais. Felizmente conseguiu convencer os homens de que
Fosser não ficaria nada contente se alguém o incomodasse àquela hora.
Peynchester sentiu um peso cair de cima dele quando a espaçonave finalmente
decolou, levando-o para longe da Terra.
4

Fellmer Lloyd aproveitou o dia em que não se trabalharia nas Usinas Fosser para
dar uma olhada nas instalações. Ken Albrich também vasculhou alguns setores, com
permissão de Fosser. Estava à procura de pistas e ficou aborrecido por não encontrar
nada.
Gucky acompanhou o mutante.
— Não sei por que suspeita justamente do Peynchester, Fellmer. Vá lá que ele tenha
suas manias. Tem complexos e não quer que algum telepata descubra. Acontece que
justamente a rede protetora o trai.
— Pode ter outros motivos para usá-la — resmungou Fellmer enquanto abria a
porta que dava para a seção do pessoal. — Vamos dar mais uma olhada nas fichas. Você
poderá ajudar-me.
Os dois examinaram o currículo de Peynchester, mas não descobriram nada de
suspeito. Uma instrução normal, duas expedições para dois sistemas solares diferentes,
algumas viagens aos planetas vizinhos, depois disso conheceu a mulher, casou e assumiu
um emprego nas Usinas Radioquímicas Fosser. Avançou rapidamente, criou alguns
preparados muito bons e teve dois filhos. Vivia em harmonia com a família e levava vida
normal. Nada de especial, nenhum gasto extraordinário que chamasse a atenção, nada de
dívidas, poucos hobbies.
Dificilmente poderia haver alguém menos suspeito que o Dr. Jordan Peynchester.
Foi justamente o que incomodou Fellmer.
— Não consigo livrar-me da impressão de que há algo de errado — murmurou
Fellmer e voltou a guardar as fichas. — Acho que deveríamos interessar-nos por ele.
Talvez precisemos dele em casa. Seria uma ideia.
— Ele não ficaria nada contente — ponderou Gucky enquanto caminhava com as
pernas duras à frente do computador. — Se sua suspeita tiver fundamento, isto lhe servirá
de alerta. Acho que é preferível ficar de olho nele sem que ele perceba.
— Perderíamos muito tempo, Gucky. Não podemos examinar cada suspeito por
semanas a fio. Deste jeito não terminaremos nem em dez anos. Acho que deveríamos
fazer-lhe uma visita. Diremos que é o homem que procuramos.
— Sem dúvida vai acreditar logo. Bem, não sei.
— É possível que justamente neste momento esteja sem a rede de proteção. Aí
talvez descubramos alguma coisa. Ele não sabe que também sou telepata.
— Em outras palavras — indignou-se Gucky — você quer ir sozinho.
— Adivinhou — reconheceu Lloyd. — Mas você ficará por perto e tentará manter
contato comigo. Se houver algo de anormal, chamarei.
— Está bem. Vamos logo?
— Anotei o endereço. É um lindo dia de sol, feito para uma excursão à beira-mar.
Talvez Peynchester me convide para dar um mergulho. É seu esporte predileto.
Os dois alugaram um planador e pediram que ele os levasse para fora da cidade.
Gucky desceu a alguns quilômetros do conjunto de casas e sentou numa pedra junto ao
mar. Contemplou os banhistas, que quase não lhe davam atenção.
“Divirta-se”, pensou e captou um “Muito obrigado” de Fellmer. A ligação
telepática estava perfeita.
O táxi prosseguiu e deixou que Fellmer desembarcasse. Este pagou ao piloto e
acabou encontrando a entrada do elevador de Peynchester e a campainha. Dali a pouco
viu-se diante de uma mulher jovem e bonita, que o fitou um tanto espantada.
— Meu marido viajou. É colega dele? Não o conheço...
— Meu nome é Fellmer Lloyd. Faço parte duma comissão que procura
colaboradores para um trabalho científico. Achamos que seu marido poderia estar
interessado. Poderia dizer para onde foi?
— Infelizmente não sei. Saiu ontem.
Fellmer leu a verdade nos pensamentos da mulher, mas nem pensou em mostrar o
que sabia.
Para Marte? Por ordem de Fosser? Era quase impossível, pois Fosser certamente
teria avisado a ele ou Albrich. De repente teve a impressão de que se tratava de uma fuga.
— Quando voltará?
— Sinto muito, mas também não posso dizer. Nem sei por que meu marido viajou.
Ele não me disse.
Mais uma mentira, embora fosse apenas meia mentira.
Fellmer preferiu não entrar. Só pediu a Mrs. Peynchester que quando o marido
voltasse lhe dissesse que queria falar com ele. Despediu-se e voltou à superfície. Dentro
de instantes Gucky materializou perto dele.
— Então. Que acha?
— O que posso achar, Fellmer? Você mostrou que tem bom faro. Fico satisfeito por
tê-lo ouvido. Pelo menos sabemos que ele deu o fora.
— Não temos tanta certeza. Teremos de perguntar a Fosser se está informado sobre
a viagem. Peynchester deverá voltar amanhã, a não ser que tenha pedido férias. Acho isto
pouco provável. Ninguém voa para Marte para ficar somente um dia.
— O que será que o fez ir para lá? Talvez acredite que em Marte não corre perigo.
— Vamos falar com Ken. Está no hotel. Desta vez prefiro dispensar o táxi. Leve-
-nos para lá, Gucky. Aqui ninguém nos vê.
Os dois teleportaram para o apartamento e chamaram Ken, que estava deitado na
cama, combinando as peças segundo ele mesmo dizia. Mas ainda não conseguira quase
nada.
— Onde estiveram metidos? — espantou-se. — Não os encontrei nos apartamentos.
— Fizemos visitas — respondeu Fellmer e relatou o que tinha acontecido. —
Aposto qualquer coisa como Peynchester é o homem que procuramos. Senão não teria
motivo para voar para Marte sem qualquer aviso. Tente entrar em contato com Fosser. Aí
teremos certeza.
Fosser respondeu ao chamado.
— Ah, é o senhor? O que deseja justamente hoje? Também gosto que me deixem
sossegado de vez em quando.
— Só uma pergunta, Mr. Fosser. O senhor deu férias a Peynchester para que ele
possa viajar para Marte por ordem sua?
Havia uma expressão de incredulidade no rosto de Fosser projetado na tela do
videofone.
— Peynchester teria ido a Marte? O que lhe deu essa ideia? Não me consta que ele
tenha pedido férias. Feio contrário. Pretendia fazer uma nova série de experiências com
Peynchester amanhã. Acho que os senhores desenvolvem uma atividade assustadora.
— Tem alguma explicação para o fato de Peynchester desaparecer sem aviso?
— Não tenho, não. Conversaremos sobre isso amanhã. Mas antes disso vou
perguntar a sua esposa.
— Não pergunte, Mr. Fosser.
— Por quê? Conheço pessoalmente os Peynchesters e...
— Apesar disso não julgo conveniente. Amanhã explicarei tudo. Desculpe o
incômodo, Mr. Fosser.
A tela apagou-se. Ken Albrich fitou Fellmer e Gucky.
— Acho que já não existe a menor dúvida. Precisamos de seu transmissor, Fellmer.
Vamos pedir ajuda a Galbraith Deighton. Não estou com vontade de viajar para Marte.
***
Peynchester também não teve vontade, mas não havia alternativa. Sabia que corria
um grande perigo, pois não estava com a consciência limpa. Há anos trabalhava para o
Serviço Secreto ertrusiano, embora no momento parecesse impossível enviar notícias
para fora do Sistema Solar.
Já tinha certeza de que o rato-castor e os dois homens que alegavam ser cientistas
tinham vindo a Sydney por ordem do Serviço de Segurança terrano. E tinham encontrado
logo uma pista quente — que era ele.
Peynchester conhecia esse tipo de gente. Não desistiriam. Não poderia ficar em
Marte, pelo menos não por muito tempo e muito menos como o Dr. Peynchester. Teria de
adquirir uma nova personalidade.
O veículo pousou sem incidentes, depois de algumas horas de viagem. Peynchester
passou pelos controles sem dificuldades; seus documentos estavam em ordem. Tomara
suas providências. Deixou que o serviço de transporte de passageiros o levasse ao hotel,
de onde se comunicou com um elemento de contato cujo endereço sabia de cor. Nunca
vira o homem e não sabia quem era.
— Alguém sabe que o senhor fugiu e veio para cá? — perguntou o desconhecido
assim que foi feita a ligação. O sistema de imagem do videofone não foi ligado. — Não
se descuidou?
— Ninguém sabe. Só minha esposa.
— O senhor enlouqueceu? Como posso protegê-lo se não ficar com a boca calada?
— Confio em Mabel. Além disso, pensei que pudesse voltar à Terra dentro em
breve, com outro nome naturalmente.
— Ah, é? E aí o senhor faz uma visita à esposa e espanta-se se for preso ao entrar
em sua casa. Não subestime o inimigo. Pode ser um engano fatal, meu chapa. Fique onde
está. Terá notícias nossas, mas não posso prometer que será hoje. Apareça o menos
possível. Em nome de quem se registrou?
— No meu nome, naturalmente.
— Será muito difícil ajudar o senhor — espantou-se o desconhecido com tamanha
leviandade. — Têm um parafuso a menos. Até logo mais...
Antes que Peynchester pudesse dizer qualquer coisa, a ligação foi desfeita. Era
arriscado falar abertamente pelo videofone, embora os canais de videofone particulares
não estivessem sujeitos a controle. Cada comunicação pelos raios direcionais funcionava
com uma frequência diferente, que era modificada frequentemente. A escuta não
autorizada era praticamente impossível.
A dúvida de ter agido certo aumentou. Talvez devesse ter ficado em casa, confiando
na sorte. Quem poderia provar alguma coisa contra ele? Era bem verdade que ao partir às
pressas esquecera o dispositivo de proteção dos pensamentos. Peynchester fez votos de
que não resolvessem enviar um telepata a Marte. Neste caso talvez acabassem
localizando-o.
Peynchester jantou no hotel e voltou ao apartamento. Entediado, assistiu ao
programa de vídeo durante uma hora. Esperava encontrar uma indicação no noticiário.
Finalmente desligou.
Dormiu mal naquela noite.
No dia seguinte mandou que o café fosse servido no apartamento. Perguntou ao
robô-garçom se alguém tinha perguntado por ele. Dali a alguns minutos recebeu a
resposta negativa.
O tempo custava a passar. Ao meio-dia arriscou-se a sair do quarto. Foi ao
restaurante. Sentou numa mesa de canto, de onde via tudo e dificilmente podia ser visto.
Nenhum dos hóspedes parecia suspeito.
Passaram-se dois dias sem que acontecesse nada. Peynchester começou a ficar
nervoso. Não podia ficar no hotel para sempre, esperando. Não tinha muito dinheiro e
dificilmente conseguiria algum com seu banco de Sydney.
Estava numa fria. Vivia se perguntando por que cometera a loucura de aceitar a
oferta do Serviço Secreto da Liga Carsualense. Devia fornecer a descrição do processo de
fabricação do ertru-cosmobim. Em troca disso lhe foram prometidas verdadeiras
montanhas de ouro.
No terceiro dia alguém lhe dirigiu a palavra.
Estava sentado à mesa. Acabara de jantar. Um homem à paisana entrou, olhou em
volta como quem procura alguma coisa e aproximou-se. Perguntou delicadamente se o
lugar ao lado de Peynchester estava desocupado.
Mesmo a contragosto Peynchester teve de reconhecer que estava. De repente
lembrou-se de que aquele homem poderia ser o elemento de ligação. Resolveu ser um
pouco mais amável e começou a conversar sobre coisas indiferentes. Falaram sobre o
tempo e seu controle, que constantemente provocava discussões acirradas, porque parecia
impossível satisfazer a todos. De qualquer maneira em Marte já havia mares rasos e
inúmeros rios. Era uma consequência da atmosfera parecida com a da Terra e do controle
sistemático do tempo.
Depois de uma hora Peynchester despediu-se e levantou para ir ao apartamento, mas
seu interlocutor levantou a cabeça.
— Acho que ainda teremos de conversar sobre outro assunto, Mr. Peynchester.
Queríamos ajudá-lo, mas o senhor nos colocou numa situação muito perigosa. Espere um
momento. Irei com o senhor.
De repente Peynchester sentiu a ameaça escondida nestas palavras e imaginou como
pensavam eliminar o pretenso perigo. Simplesmente o matariam. Um morto não falava
mais.
Peynchester ficou sentado, mas viu o cano minúsculo de uma pistola energética
apontado para ele por um segundo. O desconhecido voltou a guardar a arma.
— Não crie problemas, Peynchester; não adianta. Não vamos matá-lo, se é o que
acredita. O senhor tem de sair de circulação por algum tempo. Quando aparecer de novo,
não será mais o Dr. Jordan Peynchester. Vamos andando. Iremos ao seu apartamento, o
senhor faz as malas e depois vamos à minha casa.
— Onde fica sua casa?
— Quando chegar a hora o senhor saberá.
Peynchester levantou devagar, com movimentos hesitantes. Não acreditava no que o
homem dizia. Sentia que estava mentindo. Queriam matá-lo; não havia nada que o
convencesse do contrário. Precisava ganhar tempo. Talvez a polícia pudesse ajudá-lo; ou
os hóspedes. Não seria tão complicado. A polícia estabeleceria sua identidade.
O desconhecido caminhava a seu lado. Antes que Peynchester pudesse fazer alguma
coisa veio a salvação em forma de um gerente do hotel.
— Há visita para o senhor, Mr. Peynchester. São dois cavalheiros. Estão à sua
espera na recepção. Posso levá-lo para lá?
Peynchester acenou com a cabeça. Estava perplexo.
Visita?
Ninguém o visitaria, a não ser o representante dos ertrusianos. E este estava a seu
lado. Mas pouco importava quem eram os visitantes. Parecia que tinham salvo sua vida.
Os dois cavalheiros levantaram da poltrona e fitaram Peynchester enquanto este se
aproximava.
De repente o médico percebeu que o gerente do hotel era o único que continuava em
sua companhia.
O elemento de contato que possuía uma pistola energética tinha desaparecido.
— Dr. Jordan Peynchester? — perguntou um dos homens. Parecia antes uma
afirmação. O homem tirou a mão do bolso e exibiu um distintivo prateado brilhante. —
Somos da Segurança. Venha conosco. Vamos ao seu apartamento. Gostaríamos de fazer
algumas perguntas, caso não tenha nenhuma objeção.
Peynchester acompanhou os homens. Não tinha alternativa, pois não estava com
vontade de que alguém desse sumiço nele.
Antes confessar tudo que morrer.
***
— O senhor não poderia ter deixado que isso acontecesse! — disse a mulher em
tom furioso. — Colocou-nos em perigo sem necessidade. Por que não liquidou
Peynchester quando ainda estava sentado à mesa?
— Acha que poderia ter fugido sem que ninguém notasse? — O homem abanou a
cabeça. — Pode acreditar, teria sido impossível. Os dois homens da Segurança Solar
apareceram tão de repente que não tive alternativa. Fui obrigado a ir embora
discretamente.
O rosto da mulher assumiu uma expressão um pouco mais dura.
— O senhor poderia ter aproveitado a alternativa, mesmo que no momento pensasse
que não havia nenhuma chance. Sempre poderia ter escapado. O senhor nos teria ajudado
bastante. O senhor já deve ter compreendido que Peynchester vai falar.
— Ele não sabe nada, absolutamente nada.
— O simples fato de existirmos representa um dado interessante para o Serviço
Secreto solar. As buscas serão intensificadas. Pois é, meu chapa, trate de matar
Peynchester antes que ele seja levado à Terra. Senão o senhor será morto.
O elemento de ligação de Peynchester quis dizer alguma coisa mas deparou-se com
o rosto implacável da mulher, que desempenhava um papel importante na organização.
Não sabia seu nome mas conhecia o rosto. Nunca o esqueceria.
Acenou com a cabeça e levantou.
— Cumprirei a tarefa. Não tenha a menor dúvida. Peynchester ainda deve estar no
hotel. Talvez já tenha começado a falar.
— Ande depressa. Arrisque sua vida. O senhor não tem alternativa.
O elemento de contato retirou-se e dali a dez minutos entrou no hotel em que
Peynchester estivera hospedado. Foi diretamente à recepção e perguntou ao robô:
— Procuro um certo Mr. Peynchester. Ele me espera. Encontra-se no apartamento?
— Encontra-se, sim, mas tem visita.
— Sim, eu sei. São dois cavalheiros. Qual é o número, por favor?
— Apartamento quatrocentos e dez, elevador número quatro.
— Obrigado.
O elemento de ligação pegou o elevador e subiu. Tinha certeza de que não estava
sendo seguido. Não havia ninguém no corredor. Um pouco adiante da porta do
apartamento quatrocentos e dez havia um nicho. Entrou nele e ficou esperando.
Sua mão segurava a pistola energética destravada.
***
Nos primeiros trinta minutos Peynchester tentou negar tudo. Atribuiu a situação em
que se encontrava a uma série de coincidências infelizes e garantiu que o Diretor Fosser
poderia abonar sua conduta. Mas os dois homens da Segurança Solar não se envolveram
em discussões.
— Só estamos no seu apartamento por ser o lugar em que o senhor corre menos
perigo. O próximo foguete de passageiros parte dentro de três horas. Vamos levá-lo de
volta para Sydney, onde nossos colegas conversarão com o senhor.
— Seus colegas? — perguntou Peynchester. — Deve ser Gucky e os dois
bioquímicos. Era o que eu imaginava. Gostaria de saber por que escolheram justamente a
mim. — Ninguém respondeu, e Peynchester prosseguiu: — Talvez minha rede anti-
-telepatia os tenha incomodado...? Será que é proibido usá-la?
Os dois homens continuaram com o rosto impassível. Um deles parecia entediado
enquanto brincava com uma arma azulada brilhante parecida com uma pistola energética.
Peynchester desistiu. Deram permissão para que arrumasse as malas. Finalmente
chegou a hora.
— Vamos embora. Primeiro eu, depois Peynchester. Você irá no fim. — O homem
que segurava a arma acenou com a cabeça. — Tome cuidado.
Abriu a porta e saiu para o corredor. Olhou em volta e fez sinal para que os outros o
seguissem. A porta fechou-se atrás deles.
De repente Peynchester soube que estava novamente em perigo. A organização não
permitiria de forma alguma que o levassem vivo. Não sabia muita coisa, mas o pouco que
podia dizer já era demais.
Enquanto caminhavam em direção ao elevador, Peynchester levou de repente um
forte empurrão que o fez cambalear. Foi o que lhe salvou a vida. O raio energético muito
fino passou chiando junto ao seu ouvido e penetrou no revestimento de madeira da porta
mais próxima. Seguiu-se outro empurrão que o fez cair.
Quando conseguiu virar a cabeça, tudo tinha passado. Seu elemento de contato —
Peynchester não demorou nem um pouco em reconhecê-lo — olhava para ele com uma
expressão de incredulidade e tombou. A arma caiu sobre o tapete forrado.
— Vamos embora!
Os dois homens ergueram-no e empurraram-no para dentro do elevador.
No caminho Peynchester ficou se perguntando se o elemento de contato queria
matá-lo ou libertá-lo, mas não encontrou a resposta.
Os dois homens o fizeram pagar a conta e o gerente do hotel foi informado. Olhou
para o distintivo prateado e não fez perguntas.
Chamaram um táxi aéreo que levou Peynchester e seus companheiros ao porto
espacial.
A excursão para Marte terminara.
***
Desta vez o Dr. Jordan Peynchester enfrentou Fellmer e Gucky sem a camuflagem
mental. Os dois liam seus pensamentos como quem lê um livro, pois o uso da rede o
tornara descuidado e destreinado. Certas pessoas com muita força de vontade eram
perfeitamente capazes de enganar até mesmo um telepata. Bastava que pensassem
constantemente em coisas sem importância. Mas Peynchester não sabia fazer isso.
Ken Albrich formulou as perguntas.
— O senhor trabalha para a Liga Carsualense, especialmente para Ertrus e o
Triunvirato. Há quanto tempo?
— Há alguns anos. Faz cerca de um ano e meio que não tenho feito nenhum
trabalho.
— Por quê?
— Por causa do campo temporal. Depois que o Império Solar se recolheu ao futuro,
as comunicações com Ertrus foram interrompidas. Não temos possibilidade de
estabelecer contato.
Ken Albrich olhou atentamente para Peynchester. Fellmer acenou com a cabeça.
— Quer dizer que não mantém mais contato com os homens que lhe dão ordens?
— Só tenho contato com alguns elementos de ligação sem importância. Mais nada.
Mas estes também não têm possibilidade de encaminhar as informações. Só seria possível
através de Mercúrio e da eclusa do tempo. O senhor sabe perfeitamente que isto não pode
ser feito.
Ken acenou com a cabeça.
— Eu sei. Fale mais sobre sua organização em nosso planeta. Quem são seus
elementos de ligação? Como costumava transmitir as informações? De que forma?
— Os elementos de ligação apareciam em vários lugares, de forma irregular. Nunca
houve um ponto de encontro fixo. Queriam que eu descobrisse o processo de fabricação
do cosmobim. Mesmo que tivesse conseguido, não teria como passar adiante a
informação. Faz um ano e meio que não tenho contato com a organização.
Ken achou que já estava na hora de fazer a pergunta decisiva.
— Por acaso não lhe ocorreu que poderia encaminhar as informações diretamente
para Ertrus, sem a interferência da organização e de seus elementos de ligação?
Peynchester encarou-o como quem não tinha compreendido. Fellmer e Gucky não
deixaram que isso desviasse sua atenção. Concentraram-se nos pensamentos do traidor.
— Sem os elementos de ligação? Como? Seria impossível!
— Seria mesmo? — perguntou Ken em tom de alerta. — Conheço um método
formidável. Quer saber qual é?
— Para quê? Não estou mais interessado.
Gucky, que estava sentado junto à mesa ao lado, pensou:
“Preste atenção, Fellmer. Será que Peynchester realmente é esperto a ponto de
enganar-nos? Não sabe mesmo?”
“Parece, Gucky. Fique atento!”
— De qualquer maneira vou dizer — prosseguiu Ken Albrich. Se Peynchester era o
traidor que procuravam, ele se trairia pelo menos através de um pensamento descuidado.
Seria impossível enganar dois telepatas ao mesmo tempo. — O senhor colocou suas
informações numa ampola de cosmobim vazia e fez com que fossem levadas para
Olimpo com o último lote. Lá chegaram automaticamente à Clínica Central de Ertrus.
Não é verdade?
Fellmer e Gucky surpreenderam-se com a variedade de pensamentos confusos e
contraditórios que penetraram em suas mentes. Parecia que Peynchester realmente não
sabia de nada. Até se recriminou enraivecido por não ter tido esta ideia formidável.
Poderia ter fortalecido sua posição dentro da organização.
— Quero saber se é verdade.
Peynchester abanou a cabeça.
— Não fiz isso. Não fiz mesmo! Juro. — Peynchester respirou profundamente. —
Quer dizer que já se sabe o que aconteceu? O esconderijo no futuro tornou-se inútil? —
Sacudiu a cabeça. — Mas é claro! É tão simples. Uma ampola cheia de uma substância
parecida com o cosmobim, mas que não é cosmobim. Ela fatalmente vai parar na Clínica
Central de Baretus. Por que não me lembrei disso?
Fellmer sacudiu os ombros ao ver que Ken o fitava com uma expressão indagadora.
— Não está mentindo, Ken. De forma alguma.
Ken estava furioso de verdade. Tinham agarrado o homem, somente para verificar
que devia haver outro. Será que Peynchester sabia quem era?
— Quem é o outro homem, Peynchester? Diga seu nome e eu lhe prometo que
providenciaremos para que...
— Mesmo que me prometa a liberdade, é inútil. Não sei se existe outro elemento de
nossa organização na usina. E estou informado muito menos sobre o método de
transmissão de notícias de que acaba de falar. Juro.
Gucky levantou e aproximou-se. Bateu com o dedo no braço de Ken.
— Ele está dizendo a verdade, Ken. Não sabe mesmo. Já não pode mentir. Tivemos
azar.
Ken deu uma pancada na mesa.
— Azar! É muito mais que isso. Podemos começar tudo de novo, só que desta vez
ninguém acreditará que somos um grupo de pesquisa. A notícia da prisão de Peynchester
se espalhará. Servirá de alerta ao verdadeiro agente. Certamente não se exporá.
— Então temos de dar outro jeito para encontrá-lo, Ken. Vou dizer que jeito. Será
que antes disso você poderia providenciar para que Peynchester fosse levado a um lugar
em que esteja seguro?
— Já estão à sua espera. Deighton quer conversar com ele. Dali a pouco vieram
buscar Peynchester. Como não era o traidor que procuravam e até se revelara
relativamente inofensivo, Deighton até permitiu que a família o acompanhasse. Mas nem
por isso escaparia ao castigo.
Quando estava novamente a sós, Ken disse:
— Muito bem, amigos. A partir de amanhã colaboraremos de uma forma mais
estreita, trabalhando segundo um princípio. Não adianta andar procurando ao acaso.
Vocês cuidarão das fichas dos funcionários, e eu dos relatórios sobre os negócios.
Compararemos todos os fatos de suspeita e tentaremos estabelecer uma ligação entre eles.
Terei de informar Fosser, senão ficará ainda mais admirado. Estão de acordo?
— Quem manda é você — disse Lloyd e olhou para o relógio. — Não vamos fazer
mais nada hoje?
Ken sacudiu a cabeça, mas Gucky não era da mesma opinião.
— Faremos, sim — disse em tom resoluto e apontou para a cama. — Vamos
dormir.
5

No dia seguinte, logo depois do início do expediente, Ken Albrich se fez anunciar
ao Diretor Fosser e abriu o jogo. Mostrou as cartas e ressaltou as consequências graves de
qualquer indiscrição. Informou-o de que Peynchester fora preso.
Fosser ficou muito surpreso.
— Justamente Peynchester! Sempre pensei que fosse um homem trabalhador e
honesto. Até mantinha relações particulares com ele. Tem uma mulher bonita e duas
crianças encantadoras. Não acredito.
— Já deve estar em Terrânia, Fosser. Na prisão da Segurança.
Fosser fitou Albrich.
— E agora? Acho que sua tarefa foi cumprida...
— Infelizmente não. Nosso trabalho só vai começar. Procuramos outra coisa. A
prisão de Peynchester deve ser considerada um resultado não desejado. Procuramos outro
homem entre seus funcionários. Para descobrir uma pista preciso ser informado sobre
todos os detalhes que saem da rotina. Peço que me dê permissão de examinar os
relatórios de sua empresa. Não se trata tanto dos assuntos comerciais, que não são tão
importantes, mas de outros acontecimentos. É possível que um fato insignificante nos
coloque na pista certa. Mas para isso precisamos conhecê-lo.
— É claro que os relatórios existem. Todos os dias é feito um registro dos
acontecimentos. Inclusive dos corriqueiros. O senhor terá de examinar tudo, Mr. Albrich.
Só assim poderá encontrar o que está procurando. Pode dispor do computador. O que
direi ao meu pessoal se eles se espantarem? A prisão de Peynchester não ficará em
segredo para sempre.
— Nem a relação entre ela e nosso trabalho. Neste ponto o senhor tem razão. Nada
de explicações, eu diria. O senhor nos conferiu plenos poderes, e é quanto basta. O
traidor já foi prevenido e deve saber quem somos. Talvez seja bom, pois isto poderá
levá--lo a descuidar-se.
— Tomara — concluiu Fosser. Designou um técnico para ajudar Ken. — Não é
fácil lidar com o banco de dados do computador, Mr. Albrich. O senhor poupará muito
tempo aceitando o auxílio de Mr. Glob.
— Vamos tentar. Muito obrigado, Mr. Fosser.
Albrich fez um gesto de cumprimento para Mr. Glob, um homem de meia-idade,
que parecia de confiança.
— Vamos.
***
Fellmer e Gucky voltaram a vasculhar as fichas dos funcionários.
— Já começo a compreender as piadas que se fazem a respeito dos burocratas —
gemeu Gucky enquanto sentava num canto e fechava os olhos. — Este trabalho dá sono.
— E olhe que ainda somos felizes. O computador faz a maior parte do trabalho.
— É verdade, mas temos de ensinar-lhe o que deve fazer. Dá para cansar.
Fellmer apertou um botão.
— Atenção. Vamos ver um certo Dr. Grindel.
Gucky ficou quase na mesma posição. Voltou a abrir os olhos para ver a tela de
imagem, na qual estavam sendo projetados dados e informações.
Infância, juventude, estudos, profissão, viagens, vida particular, episódios
amorosos, acontecimentos especiais enfrentados durante a vida, posição na empresa,
empregos anteriores, uma eventual condenação, a família...
— Este levou uma vida bem chata — resmungou Gucky. — Medíocre e monótona.
Nenhum indício, na minha opinião.
— Devagar, baixinho. Vamos pelo menos pedir os detalhes das viagens. Nosso robô
não levará mais de dez segundos para isso. Basta introduzir o cartão... e aí está. Ora
veja...
— Beretrixa... Não faz parte da Liga Carsualense? Que coisa interessante! Há sete
anos? Foi há muito tempo. No entanto...
— E depois disso algumas expedições para realizar tarefas particulares. Nenhum
serviço para o governo ou as Usinas Fosser. Acho que devemos ficar de olho no tal do
Grindel. Quem sabe se as pesquisas de Ken não revelam mais alguma coisa? Mas vamos
continuar. Quem é o próximo...?
***
— Ora essa! Todos os dias acontecem coisas extraordinárias. Depende do que se
queira entender por isso. — Mr. Glob apontou para o computador. — Ele descobre tudo
que o senhor possa desejar. Basta dizer a mim.
Ken não sabia muito bem o que fazer.
— Não se pode fazer uma classificação? Não adianta muito estudarmos toda a
história da usina, tentando descobrir um indício. Talvez exista um meio de seu
computador só apresentar o que há de especial.
— Aquilo que não combina com o programa normal da indústria?
— Exatamente. Um arrombamento, por exemplo; um furto, um acidente... Bem, o
senhor sabe o que quero dizer.
— Sim. Talvez um incêndio ou a demissão de um funcionário.
— Isso mesmo. Estas coisas me interessam.
Mr. Glob iniciou o trabalho. Preparou o cartão de programação e colocou-o no
computador. Pôs a máquina em funcionamento.
As horas foram passando.
***
— ...Akim Torow, médico. Vejamos o que há com ele.
Gucky levantou e caminhou de um lado arrastando os pés, sempre de olho na tela de
imagem. Não havia nada que lhe escapasse.
— Algumas viagens, mas não foram muitas. O cara ficou quase sempre na Terra.
Com a esposa, uma senhora chamada Tarja. É um homem competente e ganha um bom
salário. Por que haveria de transformar-se em traidor?
— Nem sempre é uma questão de dinheiro — disse Lloyd. — O ser humano
também é impelido por motivos ideais. Conflitos de família ou coisa parecida.
— Hum — fez Gucky em tom de incredulidade.
Fellmer repetiu uma passagem que lhe chamara a atenção.
— É estranho, mas conhece Peynchester muito bem. De antigamente. Também
conhece o tal do Dr. Grindel. Além de um tal de Fenchel e o chefe da expedição, Afanch.
Praticaram mergulho juntos.
— E daí?
— Talvez seja uma coincidência sem importância, mas deveríamos investigar.
— Não faço nenhuma objeção. — Parecia que Gucky estava mesmo perdendo a
vontade. — Será que Ken descobriu alguma coisa?
— Vá dar uma olhada, mas não demore. Vamos dar uma conferida em todos os
conhecidos de Peynchester.
— Uma processada no computador, você quer dizer — retificou Gucky e
desmaterializou.
— ...um incêndio, Mr. Albrich. Temos o registro minucioso. — Mr. Glob introduziu
um cartão que retiraria o acontecimento do banco de dados. — Olhe. Foi em 26 de
setembro de 3.430, um mês antes do caso Laurin.
Ken não respondeu.
Exatamente trinta e quatro dias antes do ataque dos antigos colonos contra o
Sistema Solar e a passagem deste para o futuro houvera um pequeno incêndio nas Usinas
Fosser. As causas nunca tinham sido esclarecidas. Os prejuízos não foram muito grandes.
Foi destruído um total de mil ampolas pressurizadas de cosmobim, vazias e recém-
-fornecidas.
De repente Ken acordou.
Sabia que era o indício que estivera procurando há horas.
Mil ampolas tinham desaparecido!
Neste exato momento apareceu Gucky e perguntou em tom seco:
— Nada ainda? Conosco acontece a mesma coisa. Que história chata.
Ken apontou para a tela de imagem do banco de dados.
— Olhe só, baixinho. Houve uma fogueira.
Gucky acenou com a cabeça.
— Tudo bem. E daí? Não conheço nenhuma fábrica na qual ainda não tenha havido
um incêndio.
— Pois eu aposto qualquer coisa como foi o primeiro e o último incêndio em que
aparentemente foi destruída justamente uma das tais ampolas, na qual a informação sobre
o caso Laurin chegou a Ertrus. Como é? Já deu um toque na sua cabeça?
Gucky inclinou a cabeça e fez um gesto calmo.
— Deu, sim, Ken. Um toque bem forte. E agora?
— Foram mil ampolas! Naturalmente encontraram um resto, mas estavam
quebradas e não deu para fazer a contagem. É bem possível que tenham desaparecido
umas cem. Uma vez devidamente preparadas e com as informações em seu interior,
podiam ser trocadas pelas verdadeiras. Só falta descobrir quem estava em condições de
fazer isso, e agarramos nosso homem.
— Vamos continuar, Mr. Albrich? — perguntou Mr. Glob.
Ken chegou perto dele e colocou-lhe a mão sobre o ombro.
— Acho que não é mais necessário. O senhor nos ajudou bastante, Mr. Glob. Não se
esqueça de que tudo isto deve ficar em segredo. O senhor deverá guardar sigilo para não
prejudicar nosso trabalho. Entendido?
— Confie em mim.
Ken segurou a mão de Gucky.
— Pois é. Vamos ver se Fellmer descobriu alguma coisa.
***
Fellmer espantou-se ao ver Ken chegar com Gucky. Mas o espanto transformou-se
em agitação quando ouviu a história do incêndio.
— Por enquanto tudo indica que se trata de um incêndio criminoso. Mesmo que
novecentas e noventa e nove ampolas tenham sido destruídas, bastou que restasse uma
para que o incêndio cumprisse sua finalidade. Naturalmente é possível que as mil
ampolas tenham sido uma imitação feita para substituir as outras antes do incêndio, mas
acho isso pouco provável. O ladrão incendiário devia contar com a possibilidade de que
pelo menos uma ampola resistisse ao incêndio e fosse examinada. Aí tudo teria sido
descoberto.
— Seja como for, temos de submeter a uma verificação especial todas as pessoas
que tiveram oportunidade de aproximar-se das ampolas antes do incêndio. Assim que
tivermos os nomes, deixaremos que o computador verifique quais dessas pessoas tiveram
a possibilidade de fazer a troca antes da expedição. Se algum nome aparecer duas vezes,
teremos avançado um pedaço. Acho que podemos começar.
— Enquanto isso vou teleportar para a cantina, se não fizerem nenhuma objeção.
Estou com fome e sede. Querem que traga alguma coisa para vocês?
— Queremos. Mas não demore.
Gucky sorriu e desapareceu. Fellmer e Ken começaram a trabalhar.
Houve um único nome que apareceu duas vezes.
O de Kalim Afanch, chefe da expedição.
6

Mas houve outra coisa.


Ken Albrich descobriu quando pediu que Lloyd apresentasse mais uma vez o
currículo de Kalim Afanch.
O chefe da expedição só fora admitido na Radioquímica Fosser seis semanas antes
do caso Laurin. Antes disso fizera uma viagem de férias para Punta Porta, um planeta
pertencente ao Sistema Eyfing, que fazia parte da Liga Carsualense, o que não era motivo
para provocar suspeitas, pois havia muitos funcionários das Usinas Fosser que já tinham
estado em mundos pertencentes à Liga. Não se podia desconfiar de Afanch só por isso.
Seu aspecto exterior também não era motivo para que fosse considerado um agente
perigoso. Era considerado como um solteirão calmo, que falava pouco e não chamava a
atenção nem pelas vestes, nem pelo comportamento. Os cabelos louros escassos e os
movimentos desajeitados tornavam-no antes um objeto de compaixão. Era gentil,
atencioso e estava sempre disposto a ajudar. Era apreciado pelos amigos e vizinhos, que
sempre gostavam de recebê-lo.
Quando a tela do banco de dados mencionou seu irmão, Ken Albrich teve a atenção
despertada de repente.
— Quer dizer que ele tem um irmão? — perguntou.
O mutante olhou para a tela.
— O senhor vai ver que ele tinha um. Seu irmão morreu em combate há vários
anos. Servia na Frota Espacial.
Ken limitou-se a acenar com a cabeça.
O processamento feito pelo computador revelou um complexo doentio em Kalim
Afanch, complexo este que tivera origem na morte prematura dos pais. Passara a dedicar
seu amor ao irmão mais jovem, para o qual desempenhara o papel de pai e mãe. Criou
Mochel Afanch, deu-lhe aulas e ensinou-lhe tudo que numa família boa costuma ser
ensinado aos filhos. Quando adoecia, tratava dele com uma dedicação de que poucas
mães eram capazes. A simpatia fraternal não foi abalada nem mesmo quando Kalim
conheceu e começou a amar uma moça. Kalim renunciou ao direito de viver sua própria
vida, desmanchando o noivado. O irmão passou a ser o objetivo de sua vida.
Dali a alguns anos Mochel concluiu os estudos, tornando-se um excelente
engenheiro especializado em sistemas de propulsão. Não era de admirar que passasse a
interessar-se por outras coisas e acalentasse a ideia de abandonar a Terra para conhecer
outros mundos.
Kalim resistiu às tentativas de abandoná-lo, manifestadas pelo irmão. Quando este
foi convocado para o serviço da Frota durante algumas guerras periféricas, lutou
desesperadamente para conseguir a dispensa de Mochel.
Teria conseguido mesmo, se este não se tivesse apresentado como voluntário.
Foi a maior decepção que Kalim teve em toda a vida. O irmão ainda fez pouco dele,
chamando-o de covarde. Kalim quase teve um colapso. Dirigiu-se às autoridades
cosmonáuticas, mas a única coisa que conseguiu foram sorrisos de compaixão e
incompreensões. Cada um era dono de seu nariz, e se Mochel Afanch, que era maior de
idade, queria servir na Frota, ninguém podia impedi-lo, nem mesmo seu irmão.
Dali a alguns meses Mochel Afanch encontrou a morte numa batalha espacial.
Mais tarde Kalim candidatou-se a um emprego nas Usinas Fosser. Conseguiu-o
graças às excelentes referências.
Era só.
— É quanto basta — disse Ken em tom indiferente.
***
Kalim Afanch se encontrara com Rafel Gordar em Punta Porta. Vira nele um
ertrusiano que se mostrava muito compreensivo, ouvindo suas lamentações e tentando
consolá-lo. Aos poucos Rafel fora revelando o que queria mesmo. Pedira a Kalim que
passasse a trabalhar para ele.
Para ele, ou melhor, para o Serviço Secreto Carsualense.
Kalim Afanch hesitara bastante, mas o ódio que sentia pelos terranos era mais forte
que a razão e a moral. Concordou. Dali a um ano era empregado das Usinas Fosser.
Certo dia Derek Kalbor teve a ideia de enviar as informações diretamente para
Ertrus colocando-as numa ampola. Afanch preparou tudo, inclusive o incêndio e o furto
de algumas ampolas. Quando ocorreu o caso Laurin e o Sistema Solar foi isolado do resto
do Universo, houve um arraso que ele não pôde evitar. Compreendeu que sua missão se
tornara muito importante.
Como engenheiro de expedição que era, conseguiu colocar a ampola previamente
preparada dentro de um lote. Ela foi enviada para Olimpo e, finalmente, dali a trinta dias,
acabou nas mãos vigilantes de Tont Tatre.
Kalim Afanch tinha certeza absoluta de que as informações importantes por ele
remetidas já haviam chegado ao destino. Não demoraria, e os inimigos da Terra saberiam
o que tinha acontecido. Descobririam um meio de localizar Rhodan em seu esconderijo, e
Mochel Afanch seria vingado.
Era este o objetivo da vida de Kalim Afanch.
Pouco lhe importava o que pudesse acontecer depois.
***
No início da noite daquela dia estavam sentados no quarto de hotel de Lloyd,
recapitulando tudo que tinham descoberto naquele dia. Não era muita coisa, mas para
Ken Albrich era o suficiente.
— Tenho certeza de que não precisamos procurar mais — disse finalmente. — O
Afanch é o homem que procuramos. Não existe a menor dúvida.
— Não sei como pode ter tanta certeza — disse Gucky. — Acho que é apenas uma
coincidência. É verdade que seu nome saiu do computador, mas isso não prova nada.
— É claro que não — reconheceu Ken. — Mas o complexo fraternal deve ser
motivo suficiente para ele odiar os seres humanos. Em sua opinião foram eles que
mataram seu irmão. Por que não haveria de querer vingar-se? Ainda temos sua passagem
por Punta Porta, um planeta conhecido por ser um centro de agentes. As coisas mais
incríveis podem ser encontradas por lá. Não podemos fazer nada, porque Punta Porta não
nos pertence. Pode ter sido uma simples coincidência Afanch ter passado suas férias
justamente nesse planeta, mas se ao voltar ele não se transformara num agente vocês
poderão comer meus sapatos.
— Você até que ficaria bem, descalço — murmurou Gucky. Ken não tomou
conhecimento da brincadeira.
— No setor de expedição, com suas instalações complicadas, o chefe é o único que
tem a possibilidade de trocar uma ampola. Será que Afanch se tornou chefe de expedição
por acaso? — Ken abanou a cabeça. — Nunca.
— O que vamos fazer? — perguntou Fellmer.
Ken olhou para o relógio.
— Poderíamos visitar Kalim em sua casa subaquática, mas ele talvez desconfiasse.
Desta vez também acho que devemos ficar de olho no suspeito. Entrarei imediatamente
em contato com o chefe local da Segurança. Não façam nada por enquanto. Esperem-me
no hotel. Não temos muito tempo. Fosser informou que dentro de algumas semanas
deverá ser enviado mais um lote para Olimpo. O medicamento ainda não foi colocado nas
ampolas.
— Vá andando — resmungou Gucky, que preferiria entrar em ação logo. — E trate
de não demorar, meu chapa.
Ken saiu andando.
***
Dali a duas horas, quando voltou ao hotel, parecia muito confiante. Lloyd estava
dormindo. Gucky assista a uma fita de vídeo, sentado no sofá. Quando Ken sentou à
mesa, o rato-castor desligou o aparelho.
— Então? — perguntou.
O mutante teve a atenção despertada. Fitou Ken por um instante e disse:
— Quer dizer que deu certo?
Ken fez um gesto afirmativo.
— Deu. Um membro do grupo local foi destacado para ajudar-nos; uma mulher,
jovem e muito atraente. Seria estranho se Afanch não mordesse a isca.
— Meu Deus! — gemeu Gucky. — Vão colocar uma mulher no pelo do coitado?
Acham que merece tanta coisa?
Ken sorriu debochado.
— Não se preocupe. Não é nada do que você pensa. A casa subaquática que fica ao
lado da de Afanch está desocupada há algumas semanas e deverá ser alugada. Ou melhor,
foi alugada hoje de noite à dama a que acabo de referir-me. Seu nome é Jennifer Corall.
Passa por uma jovem viúva cheia do dinheiro e nem um pouco triste com a perda sofrida.
Entrará em contato com Afanch, e nós entraremos e sairemos de sua casa à vontade, de
um jeito que Afanch não perceba, naturalmente. Oficialmente até nos afastaremos das
Usinas Fosser. O dono informará que nossa missão foi cumprida. Se Afanch for o homem
que procuramos, ele se sentirá seguro. E nós estaremos bem perto dele, observando.
Então? Que acham de meu plano?
— Concordamos, Ken. Não temos nenhum que seja melhor. Quando a tal da viúva
se mudará para aquela casa?
— Amanhã, Fellmer. Arranjamos um equipamento de mergulho e daremos uma
olhada nos arredores da casa de Afanch. Aposto como ele se encontrará com um
elemento de contato junto aos recifes. Não o fará na usina ou em qualquer outro lugar. —
Ken levantou e bocejou. — Vou dormir um pouco, se não fizerem nenhuma objeção.
Amanhã procurarei Fosser em seu escritório para despedir-me. Vocês ficam aqui.
Oficialmente partiremos amanhã.
Depois que Ken saiu, Gucky suspirou:
— É um cara cheio de vitalidade. Pegará a tal da viúva bem na minha frente e na de
Afanch, se ela for mesmo tão bonita como se diz.
— Não fique triste — disse Fellmer Lloyd e fechou os olhos. — Ela não tem
dinheiro.
Passaram-se três dias nos quais não aconteceu nada. A “viúva rica” mudou-se para
a casa ao lado da de Afanch, a “comissão de investigações” despediu-se do diretor das
Usinas Fosser e alguns membros da equipe que não tinham a consciência muito tranquila
respiraram aliviados. Ken, Fellmer e Gucky partiram com um destino desconhecido.
Deram algumas voltas, retornaram de noite e se enfiaram na casa de Mrs. Corall
sem que ninguém os visse. Instalaram-se confortavelmente no quarto de hóspedes.
Começariam a trabalhar no dia seguinte.
Mrs. Jennifer fez visitas de cortesia aos vizinhos, mostrando-se muito alegre ao
informar que despertara a atenção de Kalim Afanch. Não sabia dizer se a timidez por ele
demonstrada era verdadeira ou fingida.
— Parece meio desajeitado — disse aos visitantes e colegas. — É só falar em
mergulho, e ele acorda. Isto me deu a ideia de pedir-lhe um favor. Amanhã ele me
mostrará seu jardim subaquático e os arredores. De tarde, pois pediu que lhe dessem
folga amanhã. Diz que foi uma simples coincidência.
— Interessante — murmurou Ken em tom de dúvida. — Disse mais alguma coisa?
— Pouca coisa. Não tive oportunidade de examinar melhor sua casa, mas aposto
qualquer coisa como está equipada com alarmes que denunciam prontamente qualquer
invasão. Acho que neste ponto devemos ter muito cuidado.
Era mesmo uma mulher bonita, a tal da Mrs. Jennifer. Ken constatou isso com uma
indiferença total e resolveu passar oportunamente alguns dias de férias em Sydney. Se
fosse possível.
— Se ficar em casa amanhã, não poderemos fazer nada. A senhora mergulhará com
ele e nós ficaremos aqui, observando. Mais tarde veremos o resto.
No dia seguinte Afanch e Mrs. Jennifer mergulharam muito mais longe do que eles
tinham previsto, o que os levou a mudar de plano. Nadaram até os recifes.
— Se revistarmos a casa agora, ganharemos um dia inteiro — disse Ken aos
amigos. — Acho que Gucky deveria ir sozinho. Poderá entrar lá usando a teleportação,
localizando os alarmes. Talvez possa desativá-los telecineticamente. Depois que o
ambiente estiver limpo, ele virá buscar-nos ou ao menos a mim. Fellmer ficará aqui,
vigiando. Ele nos avisará se Afanch e Jennifer voltarem.
— É um bom plano — concordou Gucky entusiasmado. — Já vou.
— Cuidado! — ainda conseguiu alertar Ken antes que o rato-castor desaparecesse.
Para Gucky não era nenhum problema saltar para dentro da casa de Afanch. Ficava
a menos de cem metros e ele já tivera oportunidade de determinar sua localização exata.
A disposição dos cômodos era parecida com a da casa vizinha, e o rato-castor resolveu
não assumir nenhum risco. Materializou no hall do túnel do elevador. Parou e deu início a
um teste de tateamento das fechaduras eletrônicas. Levou apenas alguns minutos para
encontrar o que procurava.
Desativou as instalações de alarme e só depois disso saltou para dentro da casa.
Descobriu em tempo o robô-criado, que estava limpando os aposentos. Tratou de
manter--se afastado dele enquanto revistava a residência. Encontrou coisas que não
deveriam estar na casa de um cidadão normal e inofensivo. Mas não bastava para lançar
suspeitas sobre Afanch, muito menos prendê-lo. Qualquer um podia ter alarmes
sofisticados em sua casa, mas eles não costumavam fazer parte do cotidiano das pessoas.
Gucky desativou-os de tal forma que ninguém pudesse descobrir o motivo da falha.
Não encontrou mais nada de suspeito, o que o deixou tremendamente decepcionado.
Se Afanch era mesmo o traidor que procuravam, ele se cuidara muito bem.
“Estão voltando”, disse o alerta telepático que Gucky recebeu de Lloyd.
O rato-castor fixou a posição de Fellmer Lloyd e teleportou. Juntamente com
Fellmer e Ken olhou pela janela da sala de estar, contemplando o verde da paisagem
subaquática e reconheceu as duas figuras que se aproximavam nadando. Parecia que
Jennifer acompanharia Afanch para dentro da casa. Seus pensamentos confirmaram a
suposição.
— Nosso solteirão tímido a convidou para tomar um drinque — informou Fellmer.
— Está metendo a cara.
— Eu o compreendo — disse Ken em tom de inveja.
Gucky sorriu.
***
Quando voltaram ao quarto, na noite daquele dia, encontraram uma surpresa. Nem
mesmo os dois telepatas estavam preparados para ver um visitante que não se anunciara.
Era um homem vindo da África. Via-se pela pele escura. Sentado na poltrona,
folheava uma revista. Ao ver Ken, que foi o primeiro a entrar, levantou os olhos e sorriu
amavelmente. Ken parou abruptamente e esperou que Fellmer e Gucky o alcançassem.
Aí teve outra surpresa.
Gucky soltou um grito de alegria e saltou para o colo do desconhecido. Abraçou-o e
o boxeava constantemente nos quadris. Piava que nem um bebê. Não tinha mais nada do
velho rato-castor, todo compenetrado, que gostava de aparentar.
— Ras, meu velho! — disse em tom entusiasmado. — Como veio parar aqui? Que
bom vê-lo de novo. — Gucky virou a cabeça. — Não fique com essa cara estúpida, Ken!
Não conhece Ras Tschubai? Enviaram-no como reforço, para ajudar-nos.
Fellmer Lloyd aproximou-se e estendeu a mão para Ras.
Ras levantou e livrou-se de Gucky colocando-o sobre a mesa. Cumprimentou Ken
depois que estavam sentados de novo.
— Deighton achou conveniente colocar mais um teleportador à sua disposição.
Ouvi dizer que já têm uma pista. Poderiam informar como estão as coisas?
Ken fez um gesto de pouco-caso.
— Suspeitamos do chefe de expedição Akim Afanch, mas não temos nenhuma
prova. Estas estão sendo colhidas por nossa agente Jennifer Corall. Vai fazer uma visita a
Afanch hoje de noite e tentará descobrir alguma coisa. — De repente Ken fitou Ras com
uma expressão de espanto. — Como veio parar aqui?
— Foi simples. Apresentei-me a seu chefe local de Sydney, que informou onde
estavam. Aí teleportei diretamente para seu quarto. Não quis arriscar nada. Resolvi
esperar. O suspeito podia estar justamente nesta casa.
— Ah, é? — Ken parecia mais tranquilo. — É que mais ninguém sabe que ainda
estamos em Sydney. Preste atenção. Vou contar os detalhes...
Ras ficou sabendo tudo que precisava saber. Enquanto isso Gucky e Fellmer
acompanharam as conversas que Afanch e Jennifer tiveram na casa vizinha. Eram as
conversas que costumavam ser ouvidas num flerte. Isto só mudou quando o videofone de
Afanch tocou de repente.
Quando Fellmer informou isto, Ken interrompeu seu relatório.
— Deve ser Fosser. — Ken dirigiu-se a Ras. — É bom que saiba que pedimos a
Fosser que nos ajudasse. Avisará a Afanch que amanhã terá de estar na usina, porque o
lote de ertru-cosmobim será preparado. Se Afanch for o homem que procuramos, do que
já não tenho nenhuma dúvida, ele fará alguma coisa. Hoje de noite.
Todos ficaram em silêncio, para que os dois telepatas pudessem concentrar-se.
Gucky captou com toda nitidez os impulsos mentais de Fosser, embora o diretor se
encontrasse a alguns quilômetros dali. Fellmer Lloyd encarregou-se de receber os
impulsos de Afanch. Desta forma puderam fazer mais tarde a reconstituição completa da
palestra.
Foi uma conversa curta:
Fosser — Escute, Afanch. Preciso do senhor amanhã. O lote que deveria ter sido
remetido há tempos sairá amanhã. Mandou preparar tudo?
Afanch — Naturalmente, senhor. São mil caixas com um total de cinquenta mil
ampolas. Pode confiar em mim. Está tudo em ordem.
Fosser — Naturalmente, Afanch. O que andou fazendo hoje? Espreguiçando-se?
Espreguiçando-se de verdade?
Afanch — Descansei bastante, obrigado. Até amanhã, senhor.
Fosser — Boa noite, Afanch.
Jennifer, que acompanhara a conversa, despediu-se de Afanch.
— Já é tarde. Não quero perturbá-lo mais. Foi uma bela noite, pela qual lhe fico
muito grata. Da próxima vez o senhor será meu convidado. — Jennifer olhou Afanch
bem nos olhos. — Espero que ainda sejamos bons amigos, Kalim.
A timidez de Afanch ia desaparecendo. Levantou e acompanhou Jennifer para a
eclusa. Uma vez lá, ela colocou o traje de mergulhador.
— Sinto-me muito feliz por tê-la conhecido. Podemos ver-nos amanhã de noite?
— Estarei à sua espera — disse Jennifer e entrou na câmara de mergulho. — Isto
me deixa feliz.
Afanch fechou a escotilha e deixou entrar a água. Foi à sala e certificou-se de que
Jennifer nadava para sua casa. Ainda a viu entrar na eclusa.
Pela primeira vez não prestou atenção ao que pensava. Descuidou-se, pois achou
que não estava sendo observado. Além disso, o nervosismo que o acometera na semana
passada o abandonava. Talvez fosse porque a estranha comissão de investigação, da qual
sempre desconfiara, tinha ido embora.
— Quer dizer que será amanhã — murmurou e pensou ao mesmo tempo, fazendo
com que Fellmer e Gucky captassem perfeitamente seus pensamentos. — Está na hora de
fazer alguma coisa.
Era o que eles esperavam.
***
Afanch colocou o equipamento de mergulho e nadou para a escuridão absoluta do
mar raso. Parecia conhecer muito bem o caminho. Raramente ligava a luz para orientar-
-se, o que dava oportunidade a Jennifer, que o seguia discretamente, de não perder
contato com a vítima.
Jennifer também sabia em que direção ele ia. Afanch nadava para os recifes, no
meio da noite. Não devia fazer isso por prazer.
Entre a costa e os recifes o mar não tinha mais de vinte ou trinta metros de
profundidade. Atrás dos recifes o fundo do mar caía abruptamente.
Jennifer não sabia se Afanch estava armado. Tivera o cuidado de levar sua pequena
pistola subaquática, arma com a qual sabia lidar muito bem.
Afanch passou por cima dos recifes e desceu. Parou ao atingir a profundidade de
cem metros e aproximou-se do íngreme paredão subaquático. Uma única vez acendeu a
lanterna por um instante, permitindo que Jennifer se orientasse. Ela também desceu
rapidamente. Quando chegou ao lugar em que há pouco vira a luz, Afanch desaparecera.
Jennifer esperou meia hora e começou a examinar o paredão de rocha.
Não encontrou nada.
Esperou mais uma hora e voltou à costa.
Gucky e os três homens já estavam à sua espera em trajes de mergulhador. Fellmer
e Lloyd tinham-se informado através dos pensamentos da mulher.
— Só pode ter entrado no recife — disse Jennifer, furiosa por ter falhado. — Deve
ser uma caverna, seu verdadeiro esconderijo. Será que vamos encontrá-lo?
— Vamos, sim — disse Ken em tom resoluto. — A senhora fica aqui. Se dentro de
uma hora não dermos notícias, avise o quartel-general de Sydney. Entendido?
A descrição dada por Jennifer fora tão exata que logo encontraram o recife e o
paredão. Quando chegaram a cem metros de profundidade, Gucky captou os impulsos
mentais de Afanch. Eram bem fracos. Estavam sendo protegidos pela rocha ou por
alguma barreira mecânica. Mas pelo menos tinham localizado o esconderijo de Afanch.
Comunicaram-se pelos microtransmissores, cujo alcance era de apenas alguns
metros.
— Vamos entrar? — perguntou Ras Tschubai. — Posso levar Ken, Gucky e
Fellmer.
— Vamos esperar que Afanch saia da caverna e volte à casa — decidiu Ken. — Aí
estaremos à sua espera. Aposto que trará provas. O resto encontraremos depois, na
caverna.
Esperaram meia hora, durante a qual não aconteceu nada. Somente uns cinquenta
minutos depois viram de repente uma luz. Atrás do recife Afanch descuidou-se, pois
sabia que não poderia ser visto da costa. Trazia uma sacola à prova de água no cinto,
subiu e apagou a luz. Nadou rapidamente e com movimentos seguros em direção à casa,
seguido pelos agentes.
Quando saiu da eclusa de sua casa e entrou na sala, teve uma surpresa desagradável.
Três homens, Jennifer e Gucky estavam à sua espera.
Ken apontou uma pistola energética para ele.
— Coloque a sacola sobre a mesa e nenhum movimento precipitado. O senhor
soube proteger muito bem seus pensamentos, mas hoje tem se descuidado. Será que foi
por causa de Mrs. Jennifer? Seria uma pena, Mr. Afanch. Agora quero que mostre o que
traz nessa sacola.
Afanch demonstrou uma calma surpreendente. Continuou com o rosto impassível ao
colocar a sacola sobre a mesa. Ras Tschubai abriu-a e derramou o conteúdo sobre a mesa.
Foi o suficiente.
Afanch apontou para o bar.
— Sei qual será meu destino, senhores. Concedem-me um último desejo?
— Depende.
— Um drinque, uma dose dupla.
Ken hesitou. Olhou para Fellmer Lloyd. O telepata sacudiu os ombros. Afanch só
pensava no drinque.
— Está certo. Mas Jennifer nos dirá de que garrafa o senhor bebeu hoje de tarde. Aí
não vejo nada demais.
Vigiado pelo grupo, Afanch encheu um grande copo de uísque. Depois de tomá-lo
não continuaria sóbrio, mas isso não importava. Os interrogatórios a serem realizados em
Terrânia só começariam no dia seguinte, talvez depois.
Afanch bebeu.
Depois disso foi colocado num planador policial especialmente chamado, que o
levou à prisão do departamento de investigações da Segurança Solar em Sydney.
Na manhã do dia seguinte foi encontrado morto em sua cela.
***
Dali a três dias Ken Albrich entregou seu relatório em Terrânia. Os três mutantes
(Fellmer Lloyd, Ras Tschubai e Gucky) também estavam presentes. Já conheciam o resto
da história, mas escutaram com muita atenção.
— ...e os médicos constataram que havia um veneno conservado no sangue de
Afanch. Já devia estar lá pelo menos há dois anos. O álcool ingerido em doses exageradas
exercia a função de catalisador, ativando o veneno, que se tornou mortal. Um copo de
uísque foi suficiente. Infelizmente o suicídio não pôde ser evitado.
“Quanto ao conteúdo da sacola que Afanch trazia consigo, encontramos exatamente
o que esperávamos. Uma ampola pressurizada preparada, com duas microfitas, uma de
som e outra de imagem. Já foram examinadas. Eis aqui o resultado em poucas palavras.
O relatório minucioso foi colocado nos autos.
“Este relatório contém todas as informações sobre o caso Laurin, até onde ele é do
conhecimento do público do Sistema Solar. Até mesmo os discursos de Rhodan
transmitidos pela tevê foram conservados, além de informações sobre a estrada dos
containers e a eclusa temporal. Menciona até os rastreadores mentais que usamos para
evitar a passagem indevida do tempo normal para o futuro. Afanch devia estar muito bem
informado. Certamente contava com elementos de ligação que ainda terão de ser
descobertos. Com nossa atuação, pelo menos conseguimos evitar que as informações não
chegassem lá fora. Já sabemos que precisamos cuidar-nos.
“No dia seguinte, depois que Afanch tinha sido recolhido à prisão, examinamos a
caverna subaquática. Gucky e Ras Tschubai teleportaram para dentro dela e viram que no
recife oco havia uma verdadeira base da Liga Carsualense. Deve ter sido construída bem
antes do caso Laurin. Além disso, encontramos trinta e quatro ampolas pressurizadas
vazias, maçaricos térmicos para fechá-las, microfitas com os respectivos transmissores,
cristais parecidos com o cosmobim e outras coisas mais, que constituem provas
esmagadoras.
“Tudo isso pode ser encontrado no minucioso relatório, senhor. Ainda peço licença
para mencionar que se não fosse o auxílio eficiente dos mutantes Fellmer Lloyd, Ras
Tschubai e Gucky dificilmente teria dado conta da tarefa. Só posso exprimir meus
maiores elogios por sua colaboração.”
Galbraith Deighton acenou com a cabeça. Parecia satisfeito.
— Obrigado, Ken Albrich. Acho que não há mais nada que o impeça de continuar
suas férias nas Bahamas, iniciadas e interrompidas tão de repente. Quando pretende
viajar?
Ken sorriu ao ouvir Gucky dizer:
— Por mais depressa que ele vá, a dama já deve ter ido embora. Talvez haja outra,
não é mesmo, Ken?
Ken parou de sorrir. Parecia embaraçado de verdade.
— Essa mania maldita de ler os pensamentos! — resmungou zangado.
Bell, que estava sentado perto de Rhodan, inclinou-se. Parecia mais interessado na
insinuação que no relatório que acabara de ouvir.
— Andou espionando de novo, baixinho? — Bell pigarreou. — Como é o nome da
dama?
— Jennifer — disse Gucky.
Ken contorcia-se que nem uma enguia.
— Foi por acaso — tentou defender-se. — Entrou em férias e teve a ideia de
conhecer Nassau. Talvez nos encontremos por lá, mas será por acaso.
— É claro, é claro. — Gucky fez um gesto paternal e bateu no ombro de Ken. —
Também foi por acaso que você lhe comunicou o nome de seu hotel. Não se pode negar
que a série de coincidências não passa de um acaso. Muito bem, Ken. Divirta-se em
Nassau.
Deighton livrou Ken do aperto.
— Cada um passa as férias como quer. Mas voltemos ao caso Afanch. Acho que
estamos todos de acordo que não estamos cem por cento seguros em nosso esconderijo
no tempo. Um dia algum agente esperto conseguirá fazer a notícia para fora. Devemos
fazer o que estiver ao nosso alcance para que isso demore o mais possível. Vamos
redobrar nossa vigilância. Os agentes das diversas potências estão em toda parte.
Levamo-nos para o futuro e eles perderam o contato com as pessoas para as quais
trabalham. Afanch não conseguiu fazer chegar sua mensagem ao Serviço Secreto
Carsualense, isto graças à vigilância de um médico ertrusiano, mas os ertrusianos já têm
certeza de que ainda existimos. Farão tudo para descobrir o resto. E acabarão
conseguindo, se não tivermos o máximo de cuidado.
Galbraith Deighton levantou.
— Senhores, é um prazer ver Mr. Albrich entrar em férias. Sem dúvida não
demoraremos a vê-lo de novo. Talvez possa dar um jeito para que participe de sua
próxima missão em companhia de nossos velhos mutantes. Depende da missão. —
Deighton pigarreou e acrescentou: — Talvez até seja possível deixar participar de novo
uma mulher. Pelo que fui informado por nosso escritório de Sydney, uma certa Jennifer
pediu sua transferência para Terrânia. Talvez eu concorde. Bom descanso, Mr. Albrich.
Ken ficou meio confuso. Finalmente sorriu e disse com uma calma surpreendente:
— Muito obrigado, senhor. Vejo que nosso Serviço Secreto ainda funciona muito
bem, inclusive no que diz respeito à esfera de privacidade das pessoas. Desta vez não
tenho nenhuma objeção. Se precisarem de mim, sabem onde encontrar-me.
— Pois é — resmungou Deighton. — Também sabemos em companhia de quem o
encontraremos.
Depois que a porta voltou a ser fechada, Rhodan dirigiu-se a Gucky em tom
preocupado.
— Que cara é essa? Até parece que alguém lhe roubou uma cenoura. Aconteceu
alguma coisa?
Gucky apontou para a porta, com uma expressão acusadora no rosto.
— Ora, veja, o Ken Albrich! Sua última mensagem.
— O que quer dizer com isso?
— Ele sabe que sou telepata. Por isso pensou certas coisas ao sair. Que safado!
Rhodan sorriu.
— Não poderia dizer...?
— É o que estou fazendo. Ele me convidou, só em pensamento. Mas convidou de
verdade.
— Para quê?
— Para o casamento! — irrompeu Bell com um sorriso largo. — Não é isso?
Gucky abanou a cabeça. Parecia perplexo.
— Não foi. E é justamente o que me deixa intrigado.
— Para que foi então? — perguntou Bell, curioso.
Gucky pôs as mãos nos quadris.
— Imaginem só! Convidou-me para o batizado. Moleque!
Todos riram, enquanto Gucky ainda tentava em vão pôr na devida ordem os
acontecimentos que ainda viriam.
Enquanto isso Ken Albrich se dirigia ao porto espacial, onde seu planador esperava
por ele.
Assobiava alegre e descontraído.

***
**
*

O rato-castor Gucky, que participa pessoalmente


da caça aos agentes, consegue um resultado
impressionante. Por enquanto o segredo do Sistema
Ghost parece garantido.
O próximo volume da série Perry Rhodan trata de
um tema completamente diferente. Apresenta o povo dos
mineradores, especialmente um ao qual a humanidade
deve conhecimentos importantes.
Trata-se de O Novo Elemento...
O Novo Elemento — é este o título do próximo
volume da série Perry Rhodan.

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www.perry-rhodan.com.br

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