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(P-407)

O NOVO
ELEMENTO

Autor
K. H. EWERS

Tradução
RICHARD PAUL BISNETO

Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
(De acordo, dentro do possível, com o Acordo Ortográfico válido desde 01/01/2009)
Estamos nos primeiros dias do mês de maio do ano
2.432. As pessoas não informadas, que vivem do lado de fora,
ainda acham que a Terra e os outros planetas pertencentes
ao sistema solar da Humanidade foram destruídos. Mas os
que vivem no Sistema Solar sabem que não é assim. Foram
transferidos exatamente cinco minutos para o futuro, para
que as frotas da coalizão antissolar não encontrassem nada,
evitando-se a guerra fratricida entre seres humanos.
Perry Rhodan, Administrador-Geral do Império Solar,
efetuou uma retirada propositada, para evitar derramamento
de sangue. Trata-se de um lance cósmico que faz parte do
Plano Solar dos Quinhentos Anos. A Terra desaparece, para
operar com maior eficiência no anonimato.
Isto se torna necessário para garantir a sobrevivência
da humanidade galáctica, pois os governantes de certos
impérios estelares, e outros grupos muito mais misteriosos,
empenham-se numa luta brutal pelo poder, não recuando
diante do que quer que fosse. Além disso a presença dos
acalauries deixa os ânimos exaltados em toda parte.
Além disso há um encontro decisivo entre seres
humanos e seres de antimatéria. Um planeta infernal
transforma-se em ponto de encontro — pois é lá que se
encontra O Novo Elemento...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Derbolav de Grazia — Patriarca de um clã de mineradores.
Juan Mellone-Grazia — Primo de Derbolav e seu representante.
Pray Butseh — Um velho que faz uma descoberta incrível.
Cerf Sidor, Aki Komura e Erlenmar — Tripulantes da Rossa
Obera.
Perry Rhodan — O Administrador que permanece incógnito
para as pessoas de fora.
Atlan — Lorde-Almirante e chefe da USO.
“A maioria dos cosmohistóricos costuma designar
o terceiro e o quarto milênio depois de Cristo como a
fase da segunda puberdade da humanidade. É verdade
que esta fase é assinalada por fenômenos comparáveis
com os que se verificam no indivíduo durante a segunda
puberdade. Mas de minha parte afirmo que a evolução
da humanidade há de revelar um dado que por enquanto
sô pode ser obtido por extrapolação: aquilo que se
acredita serem manifestações da puberdade na verdade
representa a base do comportamento típico do ser
humano. Em outras palavras, se a humanidade deixasse
de comportar-se como se estivesse na segunda
puberdade, ela não seria levada por uma compulsão
interna a questionar tudo — inclusive a si mesma —
demolindo constantemente as formas de organização e
comportamento. A humanidade deixaria de existir.
Logo, aquilo que se acredita serem fenômenos da
puberdade decorre na verdade de uma lei natural que
obriga a humanidade a entrar em conflitos cíclicos
consigo mesma e com o universo, para evitar a rigidez
mental, envolvendo-se em confronto que mantêm todos
em movimento. As coisas continuarão assim até que a
última estrela se apague...”

(Trecho da obra Extrapolações Filosóficas,


de Gosvan Amar Vursella (3384-3927),
Grande Mestre da Ordem da Busca.)
1

O planeta Obsunthys brilhava no setor frontal da galeria panorâmica que nem uma
pedra preciosa branco-azulada. Derbolav de Grazia fez um sinal para o primo que
pilotava a Rossa Obera.
— Quando chegar a cem mil quilômetros, coloque a nave em órbita. Enquanto isso
entrarei em contato com o controle do porto espacial de Obsunthys City.
Juan Mellone-Grazia confirmou com um aceno de cabeça. O suor fazia brilhar a
nuca gorda.
Derbolav também estava suando. Resmungou um palavrão e enxugou a umidade da
testa.
O maldito sistema de climatização mais uma vez não funcionava muito bem. Mas
não fazia mal. Afinal, a Rossa Obera não era uma nave de luxo. A gente tinha de
conformar-se com certas falhas.
Derbolav caminhou pesadamente em direção à escotilha que ficava entre a sala de
comando e a cabine de rádio. Encolheu instintivamente a cabeça ao atravessar o vão. Já
esbarrara muitas vezes em portas muito baixas, fato que o fazia reagir instintivamente.
Sua altura de 2,01 metros ultrapassava bastante o padrão.
— Quer que chame o controle, chefe? — perguntou o radioperador.
— Não — respondeu Derbolav. — Deixe que eu faça isso. Depois da vergonha que
passou em Olimpo, o Imperador Dabrifa costuma mostrar-se irritado, e parte disso sem
dúvida transmitiu-se ao pessoal dos outros planetas do império de Dabrifa.
O radioperador levantou sem dizer uma palavra. Derbolav de Grazia ligou o canal
usado pelos controles espaciais dos mundos de Dabrifa.
— Aqui fala a nave mineradora Rossa Obera, pertencente ao clã dos Grazia! —
disse com sua voz cheia. — Quero falar com o controle espaçoportuário de Obsunthys
City. Respondam, por favor.
O comandante franziu a testa, impaciente. A estação de superfície não respondera
imediatamente ao chamado. Trocou um olhar demorado com o radioperador.
De repente a tela de trivídeo iluminou-se. Mas não mostrou o rosto do funcionário
incumbido do controle, mas somente o símbolo de Obsunthys City. Era uma coisa fora do
comum, que parecia confirmar as preocupações de Derbolav.
— Aqui fala o controle do porto espacial de Obsunthys City — disse uma voz
acostumada a dar ordens. — Chamando Rossa Obera. Mude de direção e abandone
imediatamente o sistema. É só.
As veias das têmporas de Derbolav incharam, mas ele respondeu com a voz calma.
— Vim entregar amostras de prelomônio à companhia mineradora estatal e negociar
a concessão de uma mina em condições de ser explorada. Meu nome é Derbolav de
Grazia. Pergunte ao Diretor Gladwich. Já fizemos vários negócios. Câmbio.
Seguiram-se alguns segundos de silêncio, depois dos quais a voz do interlocutor
invisível se fez ouvir de novo. Soava enérgica, mas um tanto intrigada.
— Não quero negar que suas intenções sejam essas, Patriarca Grazia. Acontece que
temos ordens do Imperador, e diante destas até mesmo o Diretor Gladwich é impotente.
Vejo que sua nave prossegue na rota de aproximação. Eu o previno. Retorne
imediatamente, senão mando abrir fogo.
— Que coisa...! — indignou-se de Grazia. — O senhor é um empecilho ao livre
comércio interestelar.
Derbolav calou-se amargurado ao ver que o símbolo do controle portuário se
apagara. Pensou uma porção de coisas, mas os motivos que imaginava não lhe pareceram
fundamentados.
Sem dúvida as tensões entre os três impérios aliados tinham aumentado nas últimas
semanas. E as bolhas energéticas dos chamados acalauries que apareciam na galáxia eram
cada vez mais frequentes. Parecia que estes seres desconhecidos vinham de um suposto
universo de antimatéria procuravam alguma coisa. Toda vez que suas naves pousavam
havia catástrofes. Mas tudo indicava que as explosões devastadoras não eram atos de
agressão, mas simples acidentes. Não podiam servir de motivo para que de repente uma
pacífica nave mineradora não pudesse pousar em Obsunthys.
Derbolav de Grazia levantou e voltou à sala de comando sem dizer uma palavra.
Juan Mellone-Grazia virou o rosto para ele.
— Está mal-humorado, chefe? O que...?
Juan empalideceu com a luz de uma gigantesca explosão que iluminou a sala de
comando. Uma bola de fogo branco-azulada formou-se no espaço, à frente da Rossa
Obera.
— Mudar de direção! — ordenou Derbolav. — Foi uma bomba conversora. Deve
ter sido o último aviso.
A reação do primo foi imediata. As potentes máquinas propulsoras instaladas no
corpo esférico de oitenta metros de diâmetro bramiram. A bola de fogo que se ia
desmanchando caminhou para estibordo nas telas de imagem. A Rossa Obera desacelerou
ao máximo de sua capacidade enquanto se desviava para bombordo.
Derbolav respirou aliviado ao ver que não haveria outra explosão. A manobra da
Rossa Obera certamente fora registrada em Obsunthys, e diante dela se concluíra que o
patriarca do clã dos Grazia compreendera o aviso.
— E agora? — perguntou Juan depois de algum tempo. — Pretendíamos usar o
lucro do negócio do prelomônio para custear uma revisão geral da nave. Precisamos de
dinheiro com urgência, chefe.
Derbolav de Grazia estava de pé ao lado do primo, com as pernas afastadas e os
braços musculosos nus cruzados sobre o peito. O rosto sardento ficou vermelho e os
olhos permaneciam semicerrados.
— Os mineradores são tratados como cães nos quais se pode dar um pontapé
quando incomodam — resmungou. — Mas o Dabrifa ainda vai receber o troco. É uma
pena precisarmos tanto de dinheiro, senão nunca mais faríamos negócios com as
companhias de Dabrifa.
Derbolav fitou o cosmonauta.
— Prepare uma fita com a rota do planeta Labrone, pertencente ao Sistema
Demicheit. Tentaremos lá.
O comandante deixou-se cair na poltrona, grunhindo aborrecido.
Ultimamente os negócios tinham ido mal. Tal qual os outros mineradores, o clã dos
Grazia ganhava a vida descobrindo jazidas minerais em planetas sem dono, fazendo uma
análise de exploração e levando amostras.
O zumbido penetrante do alarme de rastreamento arrancou o patriarca de suas
reflexões. Colocou o radiocapacete e perguntou:
— Atenção, rastreamento. Que houve?
— Detectamos uma nave esférica à deriva. — Seguiram-se alguns dados. — Tem
oitenta metros de diâmetro. Não registramos emissões de energia. Deve ser uma nave
destroçada, chefe.
Derbolav sentiu os músculos de seu corpo se entesarem.
— Obrigado. Trate de obter outros dados. Juan, você manobrará a nave
cuidadosamente para perto do veículo destroçado. Se possível faça com que os destroços
fiquem exatamente entre a Rossa Obera e o planeta Obsunthys. Quero saber o que
significa isso.
O comandante abriu a gaveta do encosto da poltrona e tirou um traje espacial preto.
Colocou-o e deu ordem para que três homens se dirigissem ao hangar da eclusa.
— Quer ir para lá, chefe? — perguntou Juan.
Derbolav sorriu ironicamente.
— A característica principal do minerador é a curiosidade, primo. Sem ela a
profissão não pode ser exercida.
— Rastreamento falando! — disse a voz saída dos alto-falantes do radiocapacete.
— A nave detectada foi destruída por tiros de canhão conversor. Deve ser um monte de
destroços calcinados. É um milagre que as reservas de deutério não tenham explodido.
— Provavelmente mudou de rota pouco antes de ser atingida e não sofreu um
impacto direto — opinou Derbolav de Grazia em tom pensativo. — É possível que
também pretendesse pousar em Obsunthys.
Derbolav tirou o radiocapacete, jogou o capacete pressurizado para a frente e ativou
o telecomunicador nele instalado. Em seguida testou o projetor de campo defensivo. Era
um aparelho capaz de gerar um campo hiperenergético que envolvia a pessoa. Ficava no
interior da fivela do cinto, que tinha vinte e cinco centímetros de diâmetro. Tratava-se de
um dos eficientes produtos dos siganeses.
Derbolav deu algumas instruções ao primo Juan e dirigiu se ao pequeno hangar-
eclusa, onde já havia três homens à sua espera. Traziam desintegradores e armas
energéticas que nem o patriarca.
Um deles informou que o barco espacial estava pronto para sair. Derbolav distribuiu
as tarefas e os quatro entraram no pequeno veículo de ligação, que dentro de mais alguns
segundos foi arremessado ao espaço pela catapulta energética.
O barco espacial foi dirigido pelo patriarca, que fitava com os olhos semicerrados a
mancha negra que encobria a maior parte da luminosidade de Obsunthys. O sol do
sistema ficava obliquamente em cima dos destroços. Estes lançavam reflexos cintilantes
toda vez que balançavam, expondo os metais recortados ao sol.
Derbolav engoliu em seco.
Quando estavam a quinhentos metros, ligou os potentes holofotes de proa. As
manchas luminosas circulares apalpavam os metais derretidos e endurecidos, as portas
dos hangares arrebentadas e os fios de vapores metálicos condensados da calota polar.
— Não há mais ninguém vivo por lá — disse um dos seus companheiros com a voz
apagada.
— De qualquer maneira vamos levar as caixas de medicamentos — decidiu o
patriarca.
Em seguida visou três pontos em torno das bordas retorcidas de uma das eclusas e
ancorou o barco por meio de três campos magnéticos. Fechou o visor do capacete. Os
companheiros seguiram seu exemplo.
— Cuidado com as pontas afiadas! — disse Derbolav. — Sigam-me. Vamos ver se
conseguimos chegar à sala de comando.
Os quatro entraram na câmara da eclusa, que era muito apertada. A escotilha
externa abriu-se silenciosamente e Derbolav de Grazia empurrou-se para fora. As mãos
estendidas apontavam para a eclusa destruída da nave esférica. Dentro de alguns instantes
pôs os pés na borda desta. O fato de o abismo infinito do espaço começar alguns
milímetros atrás dele não o incomodou nem um pouco. Alguém que nasceu no espaço —
como era o caso da maior parte dos mineradores conhecia melhor o cosmos que qualquer
planeta, e não o temia.
O comandante ligou o farol instalado no peito de seu traje espacial e examinou a
escotilha interna da câmara da eclusa, que também estava destroçada. Enquanto isso seus
companheiros pousaram perto dele.
— O casco da nave deve ter esquentado tão depressa que a atmosfera da nave sofreu
uma expansão explosiva.
Derbolav virou o rosto para o homem que dissera estas palavras.
— Parece que sim — disse laconicamente e corrigiu sua posição, que fora afetada
pelo movimento da cabeça. Parecia não haver gravidade no interior da nave destroçada.
O patriarca iluminou o corredor que se estendia atrás da escotilha interna. Em
seguida colocou o farol no suporte do capacete. Empurrando-se com os pés, atirava os
braços para trás, de tal forma que quase se tocavam em cima das omoplatas. A soma dos
impulsos mecânicos o fez voar na horizontal, com a cabeça para a frente.
Atravessou o corredor devagar, dando a impressão de que não fazia nenhum
esforço. A mancha luminosa do farol parecia um fantasma deslizando sobre paredes
rachadas e os restos tristes de uma esteira rolante. Derbolav “nadou” para o elevador
axial e freou, tocando levemente a parede oposta com as mãos e os pés ao mesmo tempo.
Voltou a empurrar-se com os pés e voou “para cima”. O poço do elevador terminava na
sala de comando. Derbolav deu um salto-mortal em câmera lenta e ficou flutuando a uns
dois metros de altura.
Seus companheiros apareceram um após o outro, executaram os mesmos
movimentos e ficaram suspensos ao lado do patriarca.
Ninguém disse uma palavra.
O que restava dos homens que guarneciam a sala de comando mostrava como eles
tinham morrido. Pelo menos devia ter sido uma morte rápida.
Não havia mais nada que pudesse ser feito.
Derbolav de Grazia não acreditava que ainda houvesse alguém vivo em outra parte
da nave destroçada, mas deu ordem para que ela fosse revistada. Queria saber pelo menos
qual era o nome da nave. Era necessário avisar os parentes dos mortos.
Os quatro homens saíram voando em quatro direções. Quando chegou à primeira
sala, Derbolav percebeu que provavelmente se tratava de uma nave mineradora. A sala
fora um laboratório e poças endurecidas de metal branco brilhavam no cadinho da mesa
de plástico. Eram amostras vindas de um planeta cuja posição provavelmente
permaneceria desconhecida para sempre.
De repente Derbolav sobressaltou-se. Na parede que ficava à sua esquerda devia ter
havido uma prateleira de material pouco resistente. Só restava uma poeira cinzenta.
Mas no meio da poeira viam-se três placas de metal retangulares, que não tinham
sofrido nenhuma deformação. Nem tinham mudado de cor com o calor.
O patriarca tentou recapitular as temperaturas que deviam ter reinado ali durante a
catástrofe. Chegou à conclusão de que deviam ter atingido de oito a dez mil graus
centígrados. Eram temperaturas que teriam deformado até mesmo o terconite.
Derbolav voou para o lugar e pegou a placa que estava em cima. Tinha cerca de
vinte por trinta centímetros e apresentava uma cor cintilante.
Derbolav passou a mão direita enluvada por cima da placa. Além de ser cosmonauta
como todos os mineradores, estudara geologia, mineralogia e metalurgia nas melhores
universidades do Império Solar. Além disso possuía cerca de vinte anos de prática nestas
áreas. Por isso não imaginou, mas teve certeza que se tratava de um metal que ainda não
era usado em parte alguma.
Alguém que conhecesse a posição dos depósitos do respectivo minério controlaria a
indústria interestelar.
Derbolav deu uma risada silenciosa.
“Não se a gente é apenas um prospector”, continuou a raciocinar. “A gente teria um
exército de espiões e assassinos em nosso encalço...”
— Chefe...!
Foi a voz de um dos tenentes.
— Fale! — disse Derbolav em tom áspero.
— Encontrei alguém com vida. No cofre.
— Já vou! — gritou Derbolav.
O cofre era na verdade uma câmara blindada na qual eram depositadas amostras dos
minérios e minerais que o clã já tinha recolhido. O recinto servia muito bem para proteger
um ser humano.
Dentro de alguns minutos Derbolav entrou na câmara da eclusa do cofre. Era o
lugar em que, segundo uma lei não escrita, todas as amostras tinham de ser submetidas a
um tratamento de vácuo e gases, antes de serem depositadas.
A escotilha externa ainda funcionava. Demorou seis minutos até que a escotilha
interna se abrisse.
— Tive de retirar a atmosfera com a bomba manual, chefe — desculpou-se o
homem com quem Derbolav se deparou.
— Está bem — respondeu o patriarca.
Passou voando pelo homem, em direção a um pacote amarrado a um suporte da
prateleira por meio de um cinto de uniforme. Um rosto tostado destacava-se contra a pele
do corpo, que se confundia com o j conjunto-uniforme. Os olhos estavam embaçados pela
dor. Mas reconheceram de Grazia.
— Derbolav...! — disse o moribundo num sopro.
Derbolav franziu a testa e tentou fixar-se no timbre daquela voz.
— Sou eu — cochichou o moribundo. — Pray But...
A voz apagou-se. O moribundo perdera os sentidos. Derbolav abriu as mãos e
voltou a fechá-las.
— Pray Butseh — murmurou, perplexo.
Pray Butseh, o Vovô estimado por todos, estava deitado à sua frente. Nunca mais
seria capaz de levantar sozinho. Derbolav fechou os olhos. Lembrava perfeitamente o dia
em que seus pais tinham sido mortos numa luta com piratas desconhecidos.
Encontravam-se no interior da nave destroçada, e tinham sido trucidados à frente de
Derbolav, que então tinha onze anos. Os bandidos também teriam matado Derbolav de
Grazia, se Pray Butseh e seu clã não tivessem aparecido. Derbolav ficou em companhia
de Butseh durante um ano, até que os sobreviventes de seu clã dispusessem de recursos
financeiros para adquirir uma nave. Depois disso Derbolav foi entregue aos cuidados do
avô, mas o contato com Pray Butseh foi mantido. Derbolav costumava brincar, chamando
o homem que lhe salvara a vida de Vovô Pray.
— Há tempos você me salvou — cochichou. — E hoje estou chegando tarde.
Derbolav estremeceu quando viu Butseh se mexer. O velho patriarca do clã dos
Butseh gemeu, abriu os olhos e fitou Derbolav.
— Para todo mundo chega a hora, meu filho — disse com a voz clara.
Fez um gesto de recusa quando viu Derbolav pôr a mão na caixa de medicamentos.
— Nada de narcotizantes! Quero fazer a travessia com a mente clara. Chegue mais
perto, Derbolav!
Derbolav de Grazia inclinou-se sobre o ancião. As lágrimas desciam-lhe pela face.
Não fez nada para impedi-lo. De repente Pray sorriu, aparentemente sem motivo.
— Ainda bem que é você que me visita na hora da morte, meu filho! — Seus lábios
crisparam-se numa expressão de dor, mas Pray reprimiu o acesso. — Não me resta muito
tempo. Por isso serei breve. Atrás de mim, numa cápsula de atronital composto, você
encontrará fitas de audiovídeo e registros positrônicos a respeito de um planeta chamado
Maverick e de um minério conhecido como inquelônio, que serve para melhorar a
qualidade do aço terconite.
Pray Butseh fechou os olhos. Rangeu os dentes. Sofreu dores horríveis mas lutou
para voltar mais uma vez a si.
— Na sala de comando você encontrará amostras de uma liga de inquelônio e
terconite, Derbolav. Esta liga é três vezes mais resistente que o aço terconite puro. Seu
ponto de fusão fica em torno de cem mil graus centígrados.
Os olhos do moribundo turvaram-se.
— Receba isto como meu presente, Derbolav. Faça um bom trabalho, rapaz.
O rosto de Pray crispou-se num sorriso e a cabeça tombou abruptamente para o
lado.
Pray Butseh estava morto.
Derbolav de Grazia ainda não acreditava naquilo que o velho prospector acabara de
dizer. Mas vira as placas de aço. Se acabasse descobrindo que não eram feitas do metal
raro chamado atronital composto...
Derbolav ajoelhou ao lado do morto. Ficou assim algum tempo. Finalmente
levantou, guardou a cápsula de que Butseh lhe falara e deu ordens pelo radiocapacete.
Seus companheiros prepararam a destruição convencional da nave destroçada. Enquanto
isso Derbolav voou mais uma vez para a sala de comando e pegou uma das placas.
Quando pretendia voltar à eclusa para entrar no barco espacial ouviu no
radiocapacete a ordem de detonar a carga de deutério.
Derbolav teve a impressão de que seu corpo congelara.
No mesmo instante a explosão envolveu-o numa nuvem de fogo...
***
Derbolav de Grazia acordou gritando. No mesmo instante o tanque de dormir
deixou de esforçar-se para executar as ordens introduzidas nele.
— Não se sente bem, senhor? — perguntou o servo computador em tom amável.
O patriarca fitou os desenhos luminosos tranquilizantes que se viam nas paredes do
tanque. Estava lembrado de antes de adormecer ter dado ordens ao computador de
acordá-lo às nove em ponto com uma ducha de ar gelado seguida de um banho de luz
infravermelha.
Por isso o sonho foi diferente da realidade, pensou. De fato, era realidade ele ter
sido recusado há cerca de oito semanas pelo controle espaçoportuário do planeta
Obsunthys, pertencente a Dabrifa, de a Rossa Obera ter sido bombardeada e de ele ter
encontrado mais tarde uma nave destroçada com o amigo Pray Butseh dentro dela,
moribundo.
Mas um traço de dúvida continuou no espírito confuso de Derbolav. Por isso pediu
ao servocomputador que recitasse os dados.
— Segundo o tempo padrão, antigo tempo terrano, hoje é o dia primeiro de maio do
ano três mil quatrocentos e trinta e seis — disse prontamente a voz metálica do
computador.
Só então Derbolav se sentiu aliviado.
— Obrigado! — exclamou. — Siga conforme o programa.
Derbolav suspirou gostosamente quando o robô massageador espalhou óleo em seu
corpo e passou a massageá-lo sistematicamente com molas de pressão e distensão. Outro
elemento robotizado lavou seus cabelos, massageou o couro cabeludo com campos de ar
quente e recompôs a trança de dez centímetros na nuca do prospector.
Finalmente o tanque de dormir liberou-o. Derbolav de Grazia espreguiçou-se
gostosamente, contemplando encantado pelo espelho o jogo dos músculos.
Seu rosto crispou-se, contrariado, ao zumbido do sinal do intercomunicador.
— Pois não! — respondeu em voz alta.
O intercomunicador interpretou isto como um comando de ativação.
A imagem do rosto de Juan formou-se na tela de trivídeo. Um sorriso ligeiro cobriu
este rosto quando Juan viu o primo nu em seu trivídeo.
— Quantos anos você tem? — perguntou Derbolav zangado.
Juan Mellone-Grazia franziu o sobrecenho.
— Trinta e nove, chefe... — respondeu em tom hesitante.
— Trinta e nove semanas ou meses...? — perguntou o patriarca.
Só então Juan compreendeu. Sorriu embaraçado.
— Desculpe, chefe. Os músculos de meu rosto escorregaram por acaso.
Derbolav soltou uma estrondosa gargalhada.
— Formidável, Juan. Pelo menos você é rápido em inventar desculpas. — Derbolav
voltou a ficar sério. — Qual é a novidade?
— Sairemos do semi-espaço dentro de dez minutos. Estaremos a quatorze horas-luz
do sol Syl-Pato. Pensei que você talvez quisesse assumir o comando. — O rosto de Juan
assumiu a expressão de quem mordeu uma coisa azeda. — Você sabe qual é minha
opinião.
O patriarca confirmou com um aceno de cabeça. A respeito do planeta Angerook
sua opinião era diferente da de seu primo Juan. Este achava que o risco era muito grande.
— Estarei aí em cima daqui a dez minutos — disse.
Em cima significava a sala de comando da Rossa Obera, embora ela ficasse no
mesmo convés que o camarote do patriarca. Mas a astronáutica, que sucedia à navegação
marítima, conservara muitas expressões desta.
Derbolav de Grazia apressou-se em mudar de roupa. Contentou-se com uma roupa
íntima justa e um traje espacial negro. Trazia o escudo do clã dos Grazia sobre os
ombros. Era a reprodução em trivídeo de uma flor de fantasia azul brilhante numa cratera
negra. Na fivela redonda de vinte e cinco centímetros de diâmetro estava instalado um
projetor de campo defensivo hiperenergético de fabricação siganesa. Nos coldres havia
um paralisador e um desintegrador. O capacete dobrado estava escondido sob a estola
dura enfeitada.
Um minuto antes que a nave saísse do semi-espaço Derbolav ocupou seu lugar na
sala de comando. Sentiu a atmosfera tensa reinante a bordo, mas não se preocupou.
O rugido do conversor linear cessou e as estrelas do espaço normal voltaram a
aparecer. Derbolav ligou o microscópio eletrônico. A imagem fortemente ampliada do
planeta Angerook foi projetada numa tela-parede.
— Parece que não é habitado — observou Juan Mellone-Grazia.
— Logo se vê que você esteve longe do clã por vários anos — respondeu Derbolav
em tom irônico. — Angerook é o segundo planeta do Sistema Syl-Pato; de fato é
desabitado. Trata-se de um mundo desértico quente do tamanho da Terra. A temperatura
média junto ao equador é de quarenta e oito graus. Só existe água num oceano
relativamente pequeno e em duas cavernas subplanetárias, que só contém alguns bilhões
de hectolitros. As montanhas são formadas principalmente por vulcões em atividade.
Quanto à vegetação... — Derbolav deu de ombros. — Vegetação no sentido que nós
atribuímos à palavra só existe nas imediações da água. O resto é formado por
pseudomusgos duros que extraem os nutrientes do ar, usando a energia solar para
transformá-los. Ninguém pensaria em colonizar Angerook nos próximos cem mil anos.
O patriarca riu.
— Deve ter sido por isso que os terranos usaram o planeta para construir um
depósito da Frota.
— Seja como for, não acredito que possamos entrar sem mais aquela num depósito
da Frota terrana e servir-nos à vontade — murmurou Juan desconfiado.
Um sorriso largo cobriu o rosto do patriarca. Os outros prospectores que se
encontravam na sala de comando acompanharam o sorriso. Conheciam o segredo de
Angerook, ao contrário de Juan Mellone-Grazia, que na época fazia um curso
especializado na Universidade de Terrânia.
Na época...
Derbolav de Grazia sorriu e olhou para a tela, sem dar-se conta da imagem nela
projetada. Também não se deu conta de que contava o que tinha acontecido, enquanto
retirava as imagens da memória e as fazia desfilar em sua mente.
— Fazia três semanas que tínhamos feito uma perfuração para atingir as cavernas
subplanetárias. Encontramos depósitos de migmatites raras, ou seja, de pedras mistas
formadas num processo de ultrametamorfose. Mandei fazer algumas análises e resolvi
construir um túnel transportador até a caverna oceânica e pôr em ação alguns robôs de
coleta para recolher um número suficiente de amostras.
“Voamos para Marte com a Rossa Obera e adquirimos os robôs de coleta e o
material de que precisávamos a um preço vantajoso. Voltamos a Angerook, onde
ampliamos e revestimos a galeria e a camuflamos para não poder ser detectada do espaço.
Depois disso instalamos um laboratório de separação em uma das cavernas secundárias
junto ao oceano.
“Certo dia, quando estava trabalhando no laboratório com Porka e Loody, de
repente ouvimos ruídos. Parecia que alguém fazia perfurações. Eram os ruídos
característicos dos campos desintegradores de turbilhonamento além dos respectivos
campos de sucção.
“Naturalmente resolvemos investigar. Angerook constava do Registro Geral
Galáctico como um dos planetas do Império Solar, mas nunca tínhamos encontrado o
menor sinal de que os terranos pretendiam fixar-se nesse planeta. Era bem possível que
os ruídos fossem produzidos por outro grupo de prospectores. Neste caso evidentemente
invocaríamos nosso direito de precedência.
“Colocamos sondas acústicas nas paredes rochosas e interpretamos os resultados
colhidos. Qual não foi nossa surpresa quando verificamos que alguém estava construindo
uma caverna num gigantesco espaço oco perto de nós, fazendo avançar três túneis em
direção a essa caverna.
“Era pouco provável que se tratasse de um grupo de prospectores.
“Ficamos quietos, esperando. Dentro de algumas horas três escavadoras
subterrâneas romperam a parede rochosa junto ao mar. Retiraram-se, deixando um túnel
de corte circular com cerca de dois metros e meio de diâmetro. Dali a pouco os cabeçotes
de três mangueiras de suprimentos saíram das bocas dos túneis. Arrastavam mangueiras
gigantescas, lançando-as no mar, onde foram ancoradas a seiscentos metros de
profundidade.
“Porka, que já servira num corpo de engenharia da Frota Solar, chegou à conclusão
de que alguém estava construindo um grande depósito subplanetário. As mangueiras
serviam para o abastecimento de água dos equipamentos de climatização, mas
principalmente para trazer água destinada à produção de deutério supercatalisado, de que
precisavam as usinas geradoras das instalações de refrigeração e regeneração de ar e dos
computadores de vigilância.”
Derbolav acordou do transe e sorriu embaraçado.
— Andei fantasiando?
— De forma alguma, chefe — respondeu o astrogador. — Você só disse a mais
pura verdade.
Juan Mellone-Grazia sorriu ironicamente e abanou a cabeça.
— Você é mesmo um bandido genial, chefe! Conheço você e sei que na época
construíram uma ligação com o depósito secreto da Frota antes que os computadores de
vigilância fossem ativados.
Derbolav de Grazia levantou as mãos num gesto que dizia mais que muitas palavras
e deixou-as cair sobre as braçadeiras da poltrona anatômica.
— Pelos espíritos das montanhas, Juan, que mais poderia ter feito? Os comandos de
construção terranos me obrigaram a interessar-me por suas instalações. Seria um mau
patriarca se não tivesse providenciado para que toda vez que precisássemos pudéssemos
recorrer às provisões guardadas no depósito da Frota.
O patriarca deu de ombros.
— Pois então. Chegou a hora. Não dispomos de equipamentos que nos permitam
investigar o planeta Maverick, nem de recursos para adquiri-los. Tudo isso está jogado
embaixo da superfície de Angerook sem servir para nada.
Derbolav fez um gesto de pouco-caso.
— Afinal, a quem pertence o material? O Império Solar não existe mais. — O rosto
do patriarca assumiu uma expressão sombria. — O Sol, a Terra, a humanidade terrana...
foi tudo apagado. Droga! Quem mais senão nós tem o direito de aproveitar a herança de
nossos parentes ricos?
Juan suspirou.
— Sei que não adianta tentar fazê-lo mudar de opinião. Mas acho que é minha
obrigação dar a conhecer minhas preocupações, chefe. Não existe a menor dúvida de que
Perry Rhodan transmitiu sua herança e a herança da humanidade ao Imperador Anson
Argyris de Olimpo. Em minha opinião está em boas mãos. Não cometa o erro de
subestimar Argyris, chefe. Ele dispõe de dezenas de milhares de belonaves da antiga
Frota do Império. Deve conhecer as coordenadas dos planetas-depósitos. Acha mesmo
que não manda vigiar este tesouro enorme?
Derbolav balançou a cabeça.
— Não há dúvida de que o Imperador Argyris provou que sabe muito bem o que
quer e que sabe como impor-se. Mas acho que no momento não está preocupado em
vigiar os depósitos da Frota espalhados por aí. Não se esqueça de que os computadores
de vigilância não permitem que uma pessoa não autorizada entre neles. Dariam o alarme
e poriam em ação os robôs de combate. Mas conosco isso não acontecerá. Não se
preocupe.
Derbolav olhou para a imagem do planeta Angerook, que crescera mais um pouco, e
bocejou.
— Faça o favor de pedir ao grumete que me faça um bule de café e o sirva aqui com
o lanche de costume. Estou com uma fome danada.
***
Derbolav de Grazia deu um salto enorme para o lado para escapar a um planador de
transporte que vinha exatamente em sua direção. Mas o veículo parou a uns vinte e cinco
centímetros do lugar em que o prospector estivera há pouco. Um jovem prospector do clã
dos Grazia pôs a cabeça para fora do veículo. Um sorriso debochado cobriu seu rosto.
Derbolav sacudiu ameaçadoramente os punhos.
— Precisamos de mais dois projetores centrais de campos de propulsão, tio
Derbolav! — gritou o jovem em tom despreocupado. — Pode fazer o favor de anotar?
— Já foi anotado — respondeu o patriarca e pôs o dedo na cabeça. Pigarreou. —
Quantas vezes ainda terei de dizer que não me deve chamar de tio durante o trabalho?
Quero que me chame de chefe ou patriarca.
O sobrinho de Derbolav sorriu e encostou dois dedos ao radiocapacete.
— Perfeitamente, patrão. Tratarei de corrigir-me.
Em seguida inverteu o sentido dos jatos e levou o planador de carga ao local de
estacionamento.
— A juventude de hoje! — Fitou o rosto de Juan. — Quando tinha sua idade, ainda
sabíamos chamar o patriarca de senhor. Nem pensaria em chamar meu tio de tio.

— É o progresso, chefe — respondeu Juan Mellone-Grazia em tom seco. — Hoje


em dia você tem de se dar por satisfeito de não o chamarem de velhinho.
Derbolav riu e deu um soco no tórax do primo. Juan gemeu baixinho e recuou
saltitando, mantendo os punhos cerrados na posição de ataque dos lutadores de kay-t-tolo.
— Quer lutar pelo título de patriarca? — perguntou Derbolav em tom calmo.
Juan Mellone-Grazia sacudiu a cabeça, agitando os longos cabelos negros. Deu uma
risadinha.
— Não, chefe. No máximo uma luta de honra. Você concorda?
Derbolav de Grazia compreendeu que o primo fora atingido pela velha paixão de
luta dos homens. Sorriu numa expressão compreensiva. Com seus quarenta e oito anos
ainda estava na melhor de sua forma.
— Por que não? — respondeu. — Mas seremos breves. Partiremos dentro de uma
hora no máximo.
Havia uns vinte prospectores reunidos em torno dos dois. Os duelos entre membros
do mesmo clã sempre traziam um pouco de variedade. Apostas foram fechadas. Até o
presente o patriarca sempre derrotara seus adversários. Mas já fazia cerca de seis anos
que Juan Mellone-Grazia não lutara mais com ele. Era possível que houvesse uma
surpresa.
Um velho de cabelos brancos adiantou-se.
Derbolav reconheceu-o. Era o tio de seu avô,
Mulloch Ebener-Grazia.
— Vocês me aceitam como árbitro? —
perguntou Mulloch.
Derbolav e Juan fizeram gestos de
concordância. Em seguida tiraram os trajes
espaciais, ficando apenas com as elegantes vestes
íntimas. Toda a tripulação da Rossa Obera acorreu
ao local. Os homens estavam muito bem-
humorados.
Mulloch Ebener-Grazia levantou a mão.
— A luta de honra entre o digno Patriarca
Derbolav de Grazia e nosso parente Juan Mellone-
Grazia! A luta prosseguirá até... bem... — Lançou
um olhar indagador para o patriarca.
— Até o clássico nocaute! — decidiu este. —
Não haverá rounds nem pausas.
— Formidável! — gritou a voz do jovem sobrinho, que se encontrava mais para
trás. — Apostei dez solares em você, tio Derbolav!
O patriarca engoliu em seco para reprimir a contrariedade. Não estava com vontade
de envolver-se numa discussão com o sobrinho.
Mulloch bateu palmas.
— Pronto — vamos lá!
Juan Mellone-Grazia passou imediatamente ao ataque. Investiu contra o patriarca
que nem um touro enfurecido. Derbolav aguardou calma e descontraidamente. Como era
de esperar, o ataque não passava de um disfarce. Juan saltou para o lado pouco antes de
atingir o inimigo, segurou-se com as mãos e saltou de lado para Derbolav, com os pés
para a frente.
Derbolav recuou alguns centímetros, apenas o suficiente para que os pés do primo
não o tocassem. Não queria derrubar Juan no primeiro assalto.
Mas Juan esperara essa reação. Ainda no ar, disparou a direita em direção ao fígado
de Derbolav.
O patriarca percebeu o golpe no último instante. Baixou o cotovelo direito, tirando a
força do golpe. Os dois caíram, mas logo voltaram a ficar de pé.
Foi a vez de Derbolav passar ao ataque. Aplicou a tática do obol alya tooh, do
homem-punho. O próprio Derbolav transformou-se num punho que avançava e recuava
numa velocidade incrível. Juan riu. Não era de admirar, pois não conhecia a tática. Era a
primeira vez que Derbolav a aplicava. Ele mesmo levou alguns golpes. Juan chegou a
atingir sua nuca com a quina da mão, mas o treinamento ininterrupto transformara o
pescoço de Derbolav num feixe de músculos. Não teve nenhuma dificuldade em absorver
o golpe. Chegou o momento em que o primo Juan não conseguiu acompanhar a
velocidade do patriarca. Reagiu duas vezes em seguida, mas demorou uma fração de
segundo demais. Da segunda vez foi derrubado. O árbitro iniciou a contagem.
Alguém derramou um balde de água na cabeça de Juan. O prospector sacudiu-se.
Levantou devagar e foi-se recuperando aos poucos. Quando finalmente voltou a enxergar
direito, sorriu e deu os parabéns ao vencedor.
— Você daria um bom lutador de arena, chefe — disse. — Já assisti a uma série de
lutas de arena em Leewarden, mas nenhum dos lutadores era tão bom como você.
— Você também se sairia bem como lutador de arena, primo Juan — respondeu
Derbolav em tom alegre. — Mas acho que você e eu não damos para isso. O duelo só é
divertido quando a gente está disposto.
O patriarca olhou para os companheiros.
— Quando estivermos no espaço de novo, os ganhadores das opostas poderiam
pagar uma bebida. Que tal?
Sessenta e dois homens soltaram berros de entusiasmo.
***
Derbolav deu ordem para que os planadores de carga parassem na parede interna da
cratera extinta em cujo fundo estava estacionada a Rossa Obera.
Derbolav de Grazia abriu a carlinga. Respirou profundamente e deleitou-se com o ar
puro das montanhas. Na altitude em que se encontravam a paisagem era morta e parada
que nem a de uma lua sem atmosfera.
— Pois é — disse ao primo Juan. — Toda vez que venho para cá tenho vontade de
construir uma casa e ficar aqui para sempre.
Sorriu como quem pede compreensão.
— Às vezes nossos pensamentos seguem caminhos esquisitos. Mas esta região de
Angerook tem algo em comum com o espaço cósmico. Ambos são amplos e grandes e a
gente se sente só, vendo as estrelas com uma nitidez incrível.
— Não me diga que você quer transformar-se em sábio antes de ficar velho — disse
Juan Mellone-Grazia em tom irônico.
Derbolav deu uma risada seca.
— Quem não adquire um pouco de sabedoria enquanto é jovem verá que quando
chega a velhice é tarde. Aquilo que para certa gente é sabedoria não passa de senilidade,
de uma rigidez mental muito bem disfarçada e um medo da morte compensado. — O
patriarca apontou para a frente. — Está vendo estes terraços? Preste atenção!
Derbolav tirou um codificador que trazia no cinto e apertou a tecla de acionamento.
Juan inspirou ruidosamente quando viu a parte dianteira do terraço inferior
mergulhar no chão rangendo e estourando. Luzes acenderam-se, iluminando um espaçoso
pavilhão semicircular.
Derbolav deu uma ordem pelo telecomunicador instalado em seu capacete.
Os planadores de carga deram partida e entraram no pavilhão. O patriarca voltou a
acionar o codificador. O pavilhão fechou-se. No mesmo instante a placa sobre a qual
estavam pousados os planadores desceu. Não passava da plataforma de sustentação de
um gigantesco campo energético.
Quando a placa parou, tudo que restava da abertura superior do poço era um círculo
luminoso vermelho.
— Ainda nos encontramos cerca de mil e quinhentos metros acima do nível do mar
— disse Derbolav ao primo Juan.
Apontou para um retângulo marcado em vermelho na parede e ativou pela terceira
vez seu codificador. O setor da parede assinalado em vermelho mergulhou no chão e
atrás dele apareceu uma galeria larga, fracamente iluminada.
— Vamos! — ordenou o patriarca.
Os planadores seguiram em frente durante uns dez minutos, em velocidade não
muito elevada. Alcançaram uma rampa que descia em espiral.
Derbolav de Grazia esperava ansiosamente a reação do primo, enquanto os
planadores desciam pela rampa. Sorriu quando Juan farejou o ar.
— Que cheiro é este? — perguntou.
No mesmo instante o planador saiu da rampa e voou em cima do chão plano.
Dirigiu os potentes holofotes para uma massa agitada escura que ondulava
constantemente para a frente e para trás, lançando cristas de espuma.
— Desligar propulsores! — ordenou Derbolav.
Os ruídos dos propulsores pararam. Mas nem por isso reinou o silêncio. Uma série
de estrondos, batidas e chiados prolongados atingiu os ouvidos dos homens.
— Então...? — perguntou o patriarca, esticando a palavra.
— Pelos espíritos das montanhas! — exclamou Juan Mellone-Grazia. — É um mar!
Um mar subterrâneo.
Derbolav de Grazia sorriu orgulhoso. Até parecia que o mar subterrâneo era uma
criação dele.
— É um verdadeiro oceano, primo Juan. Estamos perto de uma baía. Do outro lado
dele fica meu acesso particular ao depósito da Frota.
Os planadores voltaram a levantar voo. Sobrevoaram as ondas a pequena altura. De
vez em quando Juan Mellone-Grazia tinha a impressão de ver movimentos confusos sob
a superfície da água. Perguntou ao patriarca o que significava aquilo.
— Ainda não tive tempo de examinar isso com mais atenção — respondeu
Derbolav. — O fato é que existe vida no oceano. São seres negros que respiram por
guelras, grupos de plantas brancas e sei lá mais o quê. Os raios de calor vindos do solo
devem substituir o sol. As ondas também são produzidas por um fenômeno especial. Os
dois oceanos subplanetários estão ligados por um enorme túnel. O solo vulcânico sobe e
desce a intervalos regulares, o de um oceano de cada vez. — O patriarca deu uma risada
discreta. — É um monstro adormecido respirando devagar...
Os rastreadores zumbiram. Era um sinal de alerta. Estavam a apenas um quilômetro
da costa. Os planadores frearam com os jatopropulsores de proa. Sobrevoaram devagar os
recifes costeiros pretos e úmidos e desceram numa depressão rasa.
— Tome cuidado quando descer, Juan! — disse Derbolav ao ver o primo saltar para
fora da carlinga.
Juan respondeu com um palavrão em voz baixa. Juan Mellone-Grazia voltou à tona
dentro do feixe luminoso de um holofote, a uns vinte metros dali. Seu traje espacial
estava completamente coberto por uma massa gelatinosa.
Derbolav sorriu debochado e ligou o telecomunicador.
— Lave-se no mar, primo Juan — recomendou. — Mas não se afaste muito da
costa. Da próxima vez pense antes de pisar num chão desconhecido.
— Que coisa nojenta é esta? — Perguntou Juan em tom zangado.
— Não faço a menor ideia. Podem ser plantas ou animais. São fios gelatinosos
cobrindo toda a costa. São lisos que nem sabão...
— Já percebi — retrucou Juan, furioso, e afastou-se rapidamente.
Três prospectores já tinham descido, carregando pesadas mochilas e pulverizadores.
Ficaram lado a lado e pulverizaram o chão enquanto se aproximavam de uma parede
rochosa que parecia subir ao infinito. Atrás deles os fios gelatinosos encolhiam e
desmanchavam-se numa massa poeirenta.
Só depois disso o patriarca desceu. Chamou os chefes de grupos e entregou a cada
um deles uma folha perfurada com a indicação daquilo que o grupo devia recolher.
À medida que os chefes de grupos liam suas folhas, o entusiasmo aumentava. Os
chefes transmitiam seu entusiasmo aos grupos.
Alguém tossiu ao lado de Derbolav. Era Juan Mellone-Grazia. Já se livrara dos fios
gelatinosos que cobriam seu traje espacial, mas parecia ofegante.
— Que foi? — perguntou Derbolav preocupado.
Juan sacudiu-se.
— Um monstro de pele negra tentou puxar-me para o fundo. Felizmente consegui
pô-lo fora de ação com a arma paralisante, mas ele já tinha rasgado meu traje espacial.
Quase morri afogado quando meu capacete se encheu de água.
— Hum! — fez Derbolav de Grazia. — Oportunamente terei de estudar as formas
de vida deste oceano. — Suspirou. — Que coisa chata! Os negócios mantêm a gente
ocupado. Nem se tem tempo para um hobby. Já sabia que quando jovem eu pretendia ser
cosmobiólogo?
— Não...
— Nem poderia. Abandonei o sonho quando meus pais morreram. O clã resolveu
fazer de mim um bom prospector.
Juan riu.
— Você os fez pagar por isso transformando-se em patriarca, chefe.
Derbolav de Grazia também riu, mas logo voltou a ficar sério.
— Vejo que os grupos estão preparados para a partida. Você irá comigo no grupo
chefiado por Komura, que tem dois homens a menos.
O patriarca ligou o farol que trazia sobre o peito e saiu caminhando à frente do
sobrinho, em direção a um grupo dirigido por um prospector de barba negra e estatura
baixa.
Aki Komura tinha sessenta e quatro anos, o que no século trinta e cinco não
representava uma idade muito avançada. A expectativa média de vida era de cento e
trinta e nove anos.
— Nosso grupo irá na frente, Aki! — decidiu Derbolav.
Fez um sinal ligeiro para os outros e seguiu pela trilha aberta com os
pulverizadores.
Aki Komura e os sete homens de seu grupo foram atrás dele. Juan Mellone-Grazia
formou a retaguarda. Depois dele vieram os outros quatro grupos, de dez homens cada,
incluindo o chefe. Doze homens tinham ficado na Rossa Obera.
***
Uma parte deslizou com um rangido. Juan olhou estupefato para o grande depósito
que se estendia por um quilômetro e tinha pelo menos cem metros de largura.
As luzes acenderam-se automaticamente quando o primeiro prospector entrou. Os
cinquenta prospectores iluminados por elas seguiram sorrindo a figura atlética do
patriarca, atravessando a esteira rolante parada e entrando no depósito da Frota terrana.
De ambos os lados havia prateleiras de cerca de vinte metros de altura. Plataformas
de carga estavam penduradas em trilhos metálicos brilhantes. Havia milhares de caixas de
plástico penduradas nas prateleiras.
— Capas de projetor circular tipo D-5001, quatrocentas peças — leu Juan Mellone-
Grazia em uma das caixas. A caixa seguinte trazia a mesma inscrição, tal qual a outra e
assim por diante.
Derbolav de Grazia apontou com o dedo polegar para o lado oposto.
— Ali ficam os aceleradores de plasma de propulsores de pulsação. Na volta
levaremos uma caixa. Podem ser usados nos planadores HUS que vamos levar.
Juan fez uma careta.
— Levar...! Que vamos roubar. Não é o que você quer dizer?
O patriarca franziu a testa, contrariado.
— Roubar coisa alguma! Se há por aqui tanto daquilo de que precisamos, por que
não haveria de levar alguma coisa? O Imperador Anson Argyris nem sentirá falta. Não
perceberá nada, porque este depósito só foi criado para uma emergência.
Juan acenou com a cabeça. Parecia mais tranquilo.
Os argumentos do patriarca o tinham convencido. Por que não se haveria de fazer
bom uso de uma parte insignificante da riqueza imensa depositada neste lugar? Isso
reverteria indiretamente em benefício de toda a humanidade, pois os resultados
alcançados pelos prospectores reverteriam em proveito da indústria pesada e de toda a
economia representando, portanto, uma vantagem para todos os seres humanos.
Aos poucos o pensamento de Juan Mellone-Grazia foi-se enquadrando nos moldes
dos prospectores, depois que alguns anos de estudo num sistema estatal consolidado lhe
tinham ensinado, sem que ele percebesse, que a propriedade alheia é tabu em qualquer
hipótese.
Mas para as pessoas que não sabiam o que tinha acontecido este sistema estatal —
que não era outro senão o Império Solar — deixara de existir. E as condições reinantes na
galáxia não eram de molde a levar alguém a respeitar a propriedade alheia.
Finalmente alcançaram o outro lado do pavilhão. Derbolav olhou para trás e
contemplou os companheiros.
— Vamos entrar numa galeria de ligação. A maioria de vocês já a conhece. Aos
outros só quero dizer que o centro de vigilância positrônica mantém um controle
ininterrupto dos poços e galerias do depósito. Não pode fazer nada contra nós nem
desencadear o alarme, porque de certa forma não viemos de fora, mas de dentro. Em
outras palavras, não deixamos qualquer vestígio que indique ter havido uma entrada
forçada. Comportem-se de forma a não fornecer elementos concretos de suspeita ao
sistema de vigilância, elementos estes que ele certamente tentará encontrar uma vez que
qualquer cálculo de probabilidade lhe dirá que há algo de errado em nossa presença.
Felizmente não pode fazer nada enquanto não houver elementos concretos.
O patriarca pigarreou ao ver os sorrisos estampados nos rostos dos companheiros.
— Outra coisa. Não se deixam levar a dar qualquer resposta. Não conversem.
Juan levantou o braço.
— Uma pergunta, chefe. Acha mesmo que o sistema positrônico tentará envolver-
nos numa conversa?
— Nas visitas que já fizemos ele sempre tentou — respondeu de Grazia em tom
sério. — Da primeira vez quase caí. O sistema de vigilância é muito esperto e acabará nos
enganando se não tivermos cuidado.
O patriarca colocou a palma da mão sobre a fechadura térmica junto à passagem.
Ouviu-se um zumbido e a chapa de aço plastificado de quinze metros de largura deslizou
silenciosamente. As luzes acenderam-se na galeria que se estendia atrás dela. Juan viu
que essa galeria tinha pelo menos vinte metros de largura e oito de altura. De cada um
dos lados corria uma fita transportadora estreita, cada uma numa direção diferente.
Derbolav de Grazia virou novamente a cabeça. Colocou o dedo indicador sobre os
lábios e apontou para a esquerda. Os prospectores saltaram um após o outro para a esteira
rolante do outro lado, que os carregou. Tudo isso aconteceu num silêncio fantástico,
diante da cortina acústica suave das esteiras em funcionamento.
De repente o silêncio foi rompido por uma dura voz metálica.
— Aqui fala a vigilância positrônica central do depósito da Frota em Angerook.
Nenhuma das entradas registrou sua presença. Identifiquem-se, por favor.
Derbolav sorriu.
O sistema positrônico repetiu o pedido duas vezes antes de mudar de tática.
— Por favor, digam o que desejam pois quero ajudar. Nem assim os prospectores se
deixaram levar. Não era que Derbolav receasse que a resposta a uma pergunta tão
inocente pudesse causar dificuldades, mas uma máquina positrônica pensava muito mais
depressa que um ser humano. Era preferível nem se envolver numa conversa.
Os cinquenta homens só levaram alguns minutos para alcançar um pavilhão de
entroncamento circular. O grupo dividiu-se e os subgrupos seguiram em várias direções.
O grupo de Komura, ao qual se tinham juntado o patriarca e Juan, seguiu mais uns dois
quilômetros e meio. Depois disso Derbolav de Grazia levou seu pessoal a uma galeria de
transporte.
Esta terminava num pavilhão amplo. Era maior que qualquer um que Juan Mellone-
Grazia já tinha visto. Veículos enfileiravam-se em duas camadas de ambos os lados da
fita transportadora.
Não eram veículos iguais aos outros. Tinham vinte e um metros de comprimento e
dez metros no lugar mais largo. A altura máxima chegava a cinco metros. Eram
verdadeiros colossos. Os corpos elípticos eram sustentados por quatro colunas de apoio
que formavam um ângulo de quarenta e cinco graus. As colunas pareciam completamente
inúteis, pois saíam do corpo dos veículos, mas não evitavam que estes tocassem o chão.
Juan Mellone-Grazia conhecia os dados mais importantes desta espécie de planador.
Já a vira em figuras. Mas nunca se defrontara com o original.
O que era bem compreensível.
Os planadores suprapressurizados ultragravitacionais ou, abreviadamente, PSU,
eram veículos especiais usados em planetas com uma gravitação superior à de Júpiter e
uma atmosfera de alta pressão.
Juan examinou o primeiro veículo. Parecia um réptil blindado de quatro pernas, um
crânio semi-esférico na parte superior e aberturas misteriosas em vários pontos do corpo.
O que parecia um crânio era na verdade uma torre blindada apoiada em campos de
pressão variáveis equipada com um canhão energético teleguiado. As aberturas do corpo
representavam os projetores de almofadas energéticas, bocais de sucção e saídas dos jatos
de partículas. Havia um abaulamento na proa. Tratava-se do abrigo do desintegrador
dianteiro, que servia tanto para remover obstáculos como para defender o veículo contra
ataques.
Derbolav de Grazia ergueu a mão e mostrou três dedos. Komura confirmou com um
gesto e dividiu os homens em três grupos: um de quatro homens, outro de três, e mais um
de três, inclusive o patriarca e Juan.
Komura ficou no primeiro grupo de três. O grupo de Derbolav seguiu o homem
magro, que se mostrava contrariado.
O patriarca abriu a escotilha externa. Juan viu que tinha pelo menos quinze
centímetros de espessura.
O sistema central de vigilância positrônica fez mais uma tentativa de levar os
presentes a fornecer dados que revelassem alguma coisa a seu respeito, além da simples
presença.
— É bom que saibam — disse a voz metálica — que os relatórios sobre os
planadores PSU estão armazenados num setor de memória. Os senhores devem...
Derbolav, Juan e o magricela já se encontravam na câmara da eclusa. Assim que a
escotilha externa se fechou, a voz do sistema de vigilância positrônica silenciou.
Derbolav exibiu um sorriso de triunfo.
— Já podemos falar de novo, minha gente. — Respirou aliviado. — Quase caí no
último truque, pois geralmente os relatórios sobre o material são um fator essencial na
escolha.
— É mesmo! — exclamou Juan. — Como poderia saber qual dos planadores se
encontra em perfeito estado?
Pela primeira vez o prospector magricela resolveu abrir a boca.
— Bobagem! — resmungou. — Por aqui está tudo em condições impecáveis.
Afinal, é um depósito da Frota terrana.
Derbolav deu uma palmadinha em seu ombro.
— Sem dúvida, Droste.
A escotilha interna abriu-se e os três homens correram ao centro de comando do
planador.
Droste ativou o reator de fusão e desligou o abastecimento de energia de
emergência. Parecia que sabia lidar com o veículo. Telas acenderam-se na sala de
comando. Mostraram o que acontecia do lado de fora. De repente os outros planadores
pareciam mergulhar no chão. Era uma ilusão ótica produzida pela geração da almofada
energética de um metro de espessura. Dentro de alguns segundos mais dois planadores
subiram à mesma altura. As respectivas equipes também tinham sido bem-sucedidas.
Droste ligou os campos de aceleração de partículas dos propulsores. O planador
vibrou ligeiramente.
— É claro que aqui nossos neutralizadores de pressão só funcionam com a potência
mínima — explicou o prospector magro. — São capazes de neutralizar doze gravos no
máximo. O casco blindado de terconite suporta uma pressão de pelo menos três mil
atmosferas.
— Sem campo defensivo? — perguntou Juan.
Droste fez um gesto afirmativo.
— Naturalmente. Nos planetas que possuem uma atmosfera de alta pressão só se
devem usar campos defensivos numa emergência. O que você acha que acontece durante
a reação entre um campo energético e uma atmosfera cuja pressão comprime ambos os
lados com uma força incrível?
— Essa reação não pode pôr em perigo o planador — objetou Juan.
— É verdade — disse Droste com uma risada entrecortada. — Mas cegaria todos os
detectores, sensores e até os hiper-rastreadores. Quem se encontra no fundo de um
oceano de ar tem de escolher entre a segurança dupla e uma razoável capacidade de
orientação.
— Não falem tanto! — advertiu Grazia. — Vamos tratar de dar o fora. Temos de
carregar equipamentos blindados, peças sobressalentes e analisadores antes de sair do
depósito.
— Vamos ouvir nosso sistema positrônico — murmurou o patriarca e ativou os
microfones externos.
— ...de qualquer maneira terão de identificar-se — disse a voz do sistema
positrônico de vigilância. — Repito. Não é lógico persistirem na recusa de atender ao
meu pedido de identificação. De qualquer maneira terão de identificar-se na saída.
— Não na saída particular de Grazia — disse o patriarca com um sorriso.
— Segundo a instrução do almirantado número QRX-Beta-quatro, os robôs de
vigilância postados nas saídas só podem permitir a passagem de pessoas e materiais
depois de provado através da identificação que estão autorizadas — argumentou o
sistema positrônico. — Não posso classificá-los como intrusos, uma vez que de nenhuma
entrada veio o aviso da recusa de apresentação de credenciais, mas por outro lado não foi
apresentada a identificação. Apesar disso já recolheram materiais no valor de trezentos
milhões de solares.
— O sistema positrônico acaba enlouquecendo — comentou Droste. — Acho que
devemos apressar-nos, chefe. O computador positrônico é capaz de transmitir uma
consulta pelo hipercomunicador à base da Frota mais próxima. As antigas naves terranas
obedecem ao Imperador Argyris, mas continuam sendo comandadas por terranos. E todos
sabem que estes não têm medo de tomar uma decisão.
Droste cuspiu no chão.
Derbolav acenou com a cabeça e o prospector acelerou mais. Alcançaram o hall de
entroncamento, onde os três planadores voltaram a separar-se. O veículo em que ia o
patriarca juntou-se ao grupo que acabara de “organizar” cinquenta equipamentos
blindados, que foram colocados no porão de carga do planador.
— O preço é de um milhão de solares cada — murmurou Derbolav de Grazia, para
quem se tornava cada vez mais difícil reprimir um mal-estar vago que ameaçava tomar
conta dele.
Pelos seus cálculos, o valor total do material retirado era de aproximadamente
quatrocentos milhões de solares. Mas ver este número frio era uma coisa, e ver os
equipamentos eficientíssimos da melhor frota espacial da galáxia era outra.
Além disso o centro positrônico de vigilância insistia constantemente junto aos
prospectores, tentando levá-los a falar, o que desgastava os nervos do pessoal.
Os cinquenta prospectores sentiram-se aliviados quando atravessaram a passagem
secreta e não tiveram de ouvir mais a voz do robô.
2

A projeção de trivídeo apagou-se depois de um ligeiro brilho violento. O estrondo


ensurdecedor desapareceu.
Derbolav de Grazia tirou a mão de cima do controle de som e imagem e virou o
rosto para os companheiros. Os tripulantes da Rossa Obera estavam reunidos na cantina
principal para receberem as últimas informações a respeito da operação planejada.
O patriarca cruzou os braços sobre o peito, fazendo-se de indiferente.
— O que vocês acabam de ver é a reprodução de som e imagem de Maverick,
homens do clã dos Grazia — exclamou em tom de desafio. — Que tal? Gostaram?
— Acho que já está na hora de irmos para junto de nossas esposas — gritou um
prospector de ombros largos e cabeça calva. — Faz três meses que não vamos a Corona.
Nossos filhos já devem estar com saudades. Qual é sua opinião, chefe?
— Acho que você é um idiota que não ouve bem, Eluzar — respondeu Derbolav
esticando as palavras. — Não perguntei quem de vocês quer ir ao planeta-base, mas o que
acham de Maverick. Então...?
— A reprodução em som e imagem não foi muito animadora — respondeu
Mellone-Grazia para dar início à discussão.
— O planeta Maverick parece ser um inferno de alta pressão. Qual é a temperatura
média de lá, chefe?
— A temperatura média no fundo do oceano de ar, ou melhor, de gases, é de cento e
vinte e oito graus centígrados.
— É bem quentinho — observou Tormello, o cozinheiro da nave. — E isso com
uma atmosfera de hidrogênio e amoníaco com... com quanto mesmo de pressão?
Derbolav de Grazia examinou suas anotações e franziu o sobrecenho.
— Infelizmente não dispomos de dados seguros sobre isso. Em um lugar diz-se que
a pressão atmosférica de Maverick é de oitocentas atmosferas, mas em outros lugares se
diz ser de mil e quatrocentas e até de duas mil e quinhentas atmosferas. Deve haver
correntes convergentes como na superfície solar, fazendo com que a pressão mude
constantemente.
— Até que ponto se pode confiar nos dados que possuímos, tio Derbolav? —
perguntou um jovem sobrinho do patriarca.
Os prospectores riram. O patriarca franziu ameaçadoramente a testa.
— Desculpe, patrão — gritou o jovem. — Mas vamos ao que importa. Infelizmente
não fui informado em caráter oficial. Só fiquei sabendo alguma coisa através das pessoas
bem informadas. Segundo estas pessoas, em Maverick já houve minas nas quais
trabalhavam blues.
— Não é bem assim — contestou Derbolav. — Dizem que as minas pertenciam aos
blues, mas quem trabalhava nelas não eram eles. Usavam prisioneiros de guerra. Pelo que
se diz, tanto estes como os blues morreram.
— Morreram de quê? — perguntou outro prospector.
O patriarca deu de ombros.
— Não faço nenhuma ideia. Os registros são incompletos. Não se esqueçam de que
Pray Butseh os encontrou numa nave blue quase completamente destruída e queimada,
que estava à deriva no espaço. Há um pouco de mistério em torno disso.
Derbolav sorriu.
— Mas para que servem os mistérios?
— Para serem desvendados! — exclamou Juan Mellone-Grazia.
A maior parte dos prospectores aplaudiu. Mas também houve vozes de advertência
e outras para quem a operação era uma pura perda de tempo.
— Muito bem, chefe — disse um homem idoso em tom calmo. — Já examinamos a
liga de inquelônio. Realmente possui as qualidades indicadas. Como químico
especializado em alta pressão ainda sei que o misterioso inquelônio pertence aos
elementos de alta pressão, que só ocorrem em mundos quentes com uma atmosfera capaz
de gerar numerosas reações, pressão elevada e uma boa mistura dos elementos
atmosféricos. Acho que vale a pena examinar um mundo deste tipo. Mas não sei como se
pode afirmar que o inquelônio realmente é encontrado em Maverick. Pray Butseh não
esteve lá. Derbolav de Grazia acenou com a cabeça.
— É verdade. Mas resolvi investigar a fundo o segredo do inquelônio. Não obrigo
ninguém a ir comigo — acrescentou com a voz alterada. — Quem não quiser
acompanhar-me será largado em algum mundo habitado. Não me zangarei. O risco
realmente é muito grande.
Os prospectores protestaram em altas vozes. Derbolav foi obrigado a pedir
desculpas por ter manifestado pensamentos tão insultuosos. Ficou satisfeito, pois na
expedição a Maverick precisaria de todos os homens.
— Voltem todos aos seus lugares — disse o patriarca. — Alimentarei o piloto
automático com as coordenadas de Maverick. Dentro de meia hora aproximadamente
iniciaremos o voo linear.
***
Derbolav levantou os olhos. O piloto automático acabara de dar um sinal de luzes
amarelas juntamente com um zumbido intercalado.
Na tampa oblíqua do console embaixo da qual tinha sido instalado o piloto
automático havia uma área de projeção protegida por uma placa de vidro blindado, por
meio da qual o piloto automático podia comunicar-se por escrito. Derbolav viu as letras
vermelhas se enfileirarem.
— Dúvidas a respeito da rota introduzida — leu. — Sugiro conferência com centro
de computação.
— O que é que ele quer? — perguntou Juan Mellone-Grazia, que estava sentado na
poltrona do piloto.
Derbolav deu de ombros.
— Manifestou dúvidas a respeito da rota. Terei de acoplar o centro de computação.
O patriarca apertou a respectiva placa. No mesmo instante a voz modulada do
centro de computação saiu dos alto-falantes do piloto automático.
— Acoplamento completado. Piloto automático manifestou as seguintes dúvidas: a)
O Sistema Solar de Pash, ao qual pertence o planeta Maverick, inclui-se na área de
soberania geralmente respeitada dos blues; b) Os blues já exploraram uma mina em
Maverick; c) A rota planejada da Rossa Obera inclui três manobras de orientação, sendo
duas delas na área controlada pelos blues. Eis a interpretação lógica. As manobras de
orientação na área dos blues farão aumentar o risco de a entrada da Rossa Obera ser
detectada, fornecendo às naves de patrulha blues que eventualmente se encontrem no
setor indicações sobre nosso destino. Em conclusão, o centro de computação positrônica
sugere que todo o trecho seja percorrido em uma única manobra linear, fixando-se o
ponto de reentrada dentro do Sistema Pash.
— Aqui fala o patriarca — respondeu Derbolav. — Mensagem compreendida. Seus
argumentos são válidos, exceto num ponto. Por que não haveríamos de eliminar também
a manobra de orientação fora da área dos blues?
— Graças às informações diárias sabe-se que a área neutra entre a área de influência
humana e a dos blues vem sendo patrulhada por grandes forças espaciais. Baseio-me
principalmente na notícia do dia 29 de abril de 3.432, irradiada pelo hipervídeo Jaroslawl,
um sistema de alerta secreto dos nômades, segundo a qual a nave nômade Átila, ao
penetrar na área de interesse dos blues, foi perseguida tanto por naves da União galáctica
Central como pelas unidades do imperador dos livre-mercadores Argyris. A Átila só
escapou à perseguição porque um grupo de naves dos blues investiu contra os
perseguidores, detendo-os por algum tempo. Por isso é de esperar que a Rossa Obera
também será detectada e perseguida por naves-patrulha. Isto nos obriga a adiar a entrada
no Sistema Pash.
Derbolav de Grazia refletiu. Os argumentos do centro de computação levantavam
uma pergunta: Será que nas condições atuais as chances de sucesso de uma entrada na
área dos blues não seriam reduzidas demais? Era possível que os eventuais perseguidores
descobrissem o destino da nave e acabassem encontrando o planeta Maverick e o
inquelônio.
O patriarca voltou a dirigir-se ao computador.
— Qual é a probabilidade de chegarmos ao Sistema Pash em uma única manobra
linear sem sermos descobertos?
Mais uma vez a resposta foi imediata. Para os sentidos humanos o tempo
insignificante que o gigantesco computador da nave levou para realizar o cálculo de
probabilidade foi tão pequeno que se tornou imperceptível.
— A probabilidade é de noventa e nove vírgula nove nove sete por cento.
Juan Mellone-Grazia riu da exatidão pedantesca do computador, mas o patriarca fez
um gesto de contrariedade. Sabia que o computador não errava, mas às vezes o cérebro
positrônico não possuía os dados que lhe permitiam chamar a atenção do interlocutor
humano para os erros que estava cometendo.
— Quer dizer que podemos entrar no Sistema Pash sem sermos descobertos, desde
que dispensemos as saídas de orientação — recapitulou. — Mas quais são os perigos que
a estrutura espacial representa para nós?
— Depende do ângulo de entrada — respondeu o computador. — Atenção!
Lançarei um cartão ultradiagramático no qual estão registrados os pontos a partir dos
quais pode ser realizado em determinados momentos um voo direto seguro para o
Sistema Pash.
O aparelho de telex zumbiu e fez sair o cartão ultradiagramático transmitido por um
sistema sem fio.
O patriarca pegou-o e aprofundou-se no exame dos dados. Finalmente acenou com a
cabeça.
— Usaremos o ponto de entrada ZR três, setor de Chamar, dezoito de maio, quatro
horas, treze, quarenta, tempo padrão. Obrigado. É só.
Derbolav suspendeu a conferência com o computador.
***
18 de maio de 3.432, tempo padrão...
Derbolav olhou para os quadros luminosos do cronógrafo de bordo e viu a marcação
do tempo avançando em direção à marca 4:10:00.
A Rossa Obera deslocava-se em queda livre em direção a um conjunto de
coordenadas invisível, que deveria alcançar exatamente às 4:13:40 horas. À esquerda a
galeria panorâmica mostrava uma nebulosa dotada de luminosidade própria. Os bizarros
desenhos multicores pareciam ter enrijecido. Mas Derbolav sabia que atravessavam o
espaço em velocidade mais elevada que a Rossa Obera. A distância perturbava a
capacidade de percepção do ser humano.
O patriarca olhou para as telas de estibordo.
O sol vermelho não estava a mais de quatro milhões de quilômetros. Viam-se
perfeitamente as erupções de gases e os torvelinhos em sua superfície. Derbolav viu nesse
setor uma estrela esférica branca cuja luz fazia doer os olhos. Era um companheiro menor
do sol vermelho. Quem a observasse teria a impressão de que a estrela anã branca dava
voltas em torno do gigante vermelho. Mas isto não passava de uma ilusão ótica. Graças à
sua enorme densidade, a massa da estrela anã branca era maior que a do gigante
vermelho. As duas estrelas circulavam em torno de um centro de gravidade comum, mas
este ficava no interior da estrela anã. A interpretação realizada pelo rastreador de massa
não permitia a menor dúvida.
Sem querer, Derbolav de Grazia passou a respirar mais depressa. Os prospectores
não costumavam ligar muito para filosofia; a vida obrigava estes homens e suas famílias
a adotar um pensamento pragmático. Mas em momentos como este o patriarca gostava de
refletir sobre o sentido da vida humana diante do Universo relativamente intocado. A
humanidade era antiga, muito mais antiga do que se pensara há alguns séculos. Certos
escritores que se dedicavam a assuntos científicos espalhavam a teoria de que a
humanidade já praticara a astronáutica há milhões de anos.
“Se é assim”, pensou Derbolav, “por que a humanidade — e os outros seres
inteligentes — ainda não conseguiram deixar um rastro visível no Universo?”
Talvez fosse porque a mentalidade humana não permitia uma colaboração segura e
bem orientada. A natureza do ser humano orientava-se por um instinto primitivo
duradouro, que vinha da fase de transição do animal inteligente para o ser humano
racional e autoconfiante. Naquela fase o catalisador do processo de humanização era a
luta impiedosa contra um mundo fisicamente mais poderoso, o que levava o homem
civilizado do século trinta e cinco a procurar de forma inconsciente o estímulo da luta. Se
graças aos recursos técnicos não encontrava nenhum inimigo natural nos planetas, ele se
voltava contra os seres da mesma espécie. Sem dúvida existiam homens que sabiam
compensar esse instinto. Lutavam contra as forças naturais do cosmos. Às vezes
alcançavam vitórias brilhantes, mas geralmente seus esforços eram abafados pela
incompreensão das grandes massas que ainda pautavam sua vida pela trilha mental do
neandertalense.
— Atenção! — disse a voz do computador. — Entrada no semi-espaço dentro de
sessenta segundos.
O patriarca sobressaltou-se em meio à meditação. Numa questão de segundos
livrou-se das reflexões filosóficas como quem tira uma roupa suja. Ele e seus homens
deviam enfrentar o desafio da ação, que valia mais que todas as reflexões.
— Vai começar! — gritou pelo intercomunicador. — Torçam para que não
acabemos no sol Pash.
— Que senso de humor, chefe — disse Juan Mellone-Grazia em tom sarcástico. —
Acha que suas palavras servirão para acalmar-nos?
— Para acalmar-nos? — Derbolav sacudiu a cabeça, enquanto atava os cintos de
segurança. — Por que haveria de acalmar meus amigos? Os prospectores gostam do
perigo.
Juan encarou o patriarca com a expressão de quem não tinha compreendido. Deu
uma risada e bateu na testa.
— Não sei como pude esquecer! Meus estudos apagaram em minha memória como
são as coisas em nossos clãs.
Derbolav de Grazia sorriu.
— Esqueçamos isso — sugeriu. — Acho...
Sua voz foi abafada pela do computador, que foi ouvida em toda a nave, fazendo
com uma exatidão monótona a contagem dos últimos dez segundos. O rugido surdo dos
geradores que alimentavam o conversor linear já se fazia ouvir nas profundezas da nave.
Quando a contagem atingiu a marca zero, o rugido aumentou, transformando-se
num uivo infernal. A nebulosa luminosa, o sol geminado e as estrelas do espaço normal
desapareceram abruptamente no momento em que a Rossa Obera saiu do conjunto
espaciotemporal da quarta dimensão para penetrar na zona intermediária que ficava
“abaixo” do hiperespaço da quinta dimensão. O uivo horrível transformou-se num
zumbido uniforme e cheio, que logo foi abafado pelo sussurro do conversor linear.
Derbolav de Grazia desatou os cintos de segurança. Dirigiu-se à máquina de bebidas
e encheu um caneco de café bem quente. Tomou a bebida de pé e contemplou as
combinações de luzes turbilhonantes do semi-espaço. A imagem sempre o fascinava de
novo, certamente porque nunca era a mesma. Naquele momento a nave parecia cair em
direção a um fuso dourado luminoso. No lugar dela apareceu uma mancha cinza-escura,
que se sobrepôs às estruturas energéticas mais próximas. De repente a mancha cinzenta,
que tinha vários anos-luz de diâmetro, foi cortada por veias vermelhas parecidas com
rachaduras. A figura cinzenta começou a enrolar-se a partir destas rachaduras,
desaparecendo em meio a um fogo de artifício verde, branco e azulado.
O patriarca esvaziou o caneco. Em seguida deitou na poltrona anatômica, inclinou-a
para trás e apertou o botão da máquina de dormir.
Um capacete prateado brilhante desceu do teto e envolveu a cabeça de Derbolav,
vibrando ligeiramente. Derbolav voltou a examinar as indicações do piloto automático.
Estava tudo na mais perfeita ordem. Sentiu um formigamento no couro cabeludo, o
crânio vibrou ligeiramente e esta vibração transferiu-se à mente. No mesmo instante
adormeceu.
Só acordou quando o capacete foi retirado e o som estridente do piloto automático o
arrancou violentamente do sono.
Derbolav sentiu-se muito disposto e descansado.
— Atenção! — repetiu o piloto automático. — A reentrada no espaço normal se
verificará dentro de dez minutos.
Derbolav espreguiçou-se.
— Quer dizer que ainda temos tempo para um lanche.
Juan Mellone-Grazia, que estava perto dele, acordou. Também usara sua máquina
do sono para dormir no nível mais favorável ao organismo humano.
Derbolav de Grazia deu de ombros; dirigiu-se ao armário térmico e apertou uma das
teclas seletivas. Surgiu uma fenda pela qual saiu uma bandeja chata. O patriarca voltou ao
seu lugar e por algum tempo só pensou em comer. Era carne, vagens, purê de batatas e
como sobremesa uma ricota com molho vitaminado vermelho. Parecia tudo bem natural,
embora fosse feito na cozinha automática com alimentos em pó. O sabor também era
quase igual ao do alimento natural, embora os astronautas se tivessem acostumado nos
últimos séculos a reclamar contra os alimentos concentrados, elevando ao céu os
alimentos planetários frescos.
No momento Derbolav não pensava em assuntos insignificantes como este. Comia
depressa sem incomodar-se com o sabor dos alimentos. Os outros prospectores seguiram
seu exemplo, com exceção daqueles que já tinham comido.
O patriarca acabara de enfiar a bandeja vazia na abertura que se via na base do
armário térmico quando soou outro alerta.
Faltavam sessenta segundos para a reentrada no espaço normal!
Quando a voz do piloto automático começou a fazer a contagem regressiva dos
últimos dez segundos, os prospectores já estavam em suas poltronas, com os cintos
atados, examinando as indicações do rastreamento, do controle de máquinas e do sistema
de observação ótica externa.
A passagem de um espaço para outro parecia-se bastante com o tremor de uma luz
fluorescente antiquada. A imagem do semi-espaço apagou-se nas telas panorâmicas — e
praticamente no mesmo espaço apareceu a do espaço normal. Derbolav de Grazia
respirou ruidosamente. Na extremidade superior da tela frontal aparecia um disco do
tamanho de uma moeda. Era a imagem de um sol alaranjado. Embaixo dela estendia-se a
linha do horizonte ligeiramente encurvada de um planeta muito próximo, sobre cuja
superfície corriam desenhos luminosos fantásticos e nuvens iluminadas por luzes
coloridas.
Era Maverick — um planeta solitário.
***
Juan Mellone-Grazia inclinou-se e estendeu a mão em direção à alavanca do
acelerador, mas Derbolav fez um movimento para impedi-lo de numa reação de pânico
fugir do planeta.
— Não temos pressa — disse o patriarca em tom tranquilizador. — Nesta distância
Maverick não representa nenhum perigo para nós.
Juan olhou para o telêmetro.
— Quinhentos e oitenta mil quilômetros...? — perguntou em tom de incredulidade.
— Pensei que já estivéssemos caindo na atmosfera.
Derbolav de Grazia sorriu e abanou a cabeça.
— Faça o favor de aproximar-nos a cento e cinquenta mil quilômetros e coloque a
nave em órbita, Juan.
Em seguida ligou o intercomunicador.
— Quero falar com a divisão de detecções. Comecem imediatamente a analisar o
planeta. Não confiem nos dados constantes de documentos antigos. Estou interessado
principalmente em conhecer a composição química da atmosfera, as reações que se
verificam nela e as consequências das correntes convergentes. Acham que poderão fazer
descer algumas sondas?
O rosto de um homem que tinha a idade de Derbolav apareceu na tela do
intercomunicador.
— Aqui fala Cerf Sidor, chefe. Nenhuma sonda nossa chegaria à crosta sólida do
planeta. Seria esmagada pela pressão do ar a cerca de vinte quilômetros de altura, a não
ser que se queimasse antes por causa do atrito do ar. Apesar disso julgo conveniente
dispararmos pelo menos doze sondas. É possível que transmitam pelo menos algumas
impressões óticas da crosta sólida. Do espaço não conseguimos chegar lá nem com as
luzes infravermelhas nem com os rastreadores.
— Nem sequer consegue elaborar um mapa eletrônico em baixo-relevo, Cerf?
— Dificilmente, chefe... Há tempestades de cinza e areia soprando lá embaixo.
Nuvens gigantescas de gases incandescentes e até de lava líquida sobem à atmosfera. —
Cerf pigarreou. Um sorriso sábio apareceu em seu rosto estreito. — Conheço você, chefe.
Tudo isso não o impedirá de descer, não é mesmo?
Derbolav sorriu ironicamente.
— De forma alguma. Mas está bem. Mandem doze sondas. Transfiram a imagem
para a sala de comando.
O patriarca desligou.
Quando voltou a olhar para a tela frontal, tentou segurar-se instintivamente nas
braçadeiras da poltrona anatômica. Juan Mellone-Grazia aproximara a Rossa Obera a
duzentos mil quilômetros do planeta gigante e manobrava cuidadosamente para colocá-la
numa órbita de cento e cinquenta mil quilômetros. Além da tela frontal, Maverick
preenchia parte das telas superiores e inferiores. Parecia uma muralha medonha
erguendo-se à frente da pequena nave.
Derbolav de Grazia riu do susto que acabara de levar. Ativou a ampliação setorial
trazendo uma mancha vermelho-amarelenta que aparecia na atmosfera planetária a cem
quilômetros de distância.
Quando viu o que era, prendeu instintivamente a respiração. Tratava-se de uma
nuvem de quase um quilômetro de espessura feita de uma substância poeirenta
incandescente, que percorria a atmosfera a centenas de quilômetros por hora. Dentro de
alguns minutos a nuvem entrou numa corrente descendente, assumiu a forma de um funil
e desceu girando para a superfície.
O patriarca desligou a ampliação. Ficou pensativo. Já se dera conta de que não
podia arriscar-se a pousar em Maverick com a Rossa Obera, que precisava de uma
revisão. Nem sequer poderia levar a nave para as camadas superiores da atmosfera. Só
lhe restavam os planadores.
Juan parecia ter pensado a mesma coisa.
— Podemos descer nos planadores — disse de repente. — Mas como faremos pra
subir de novo...?
— Se conseguirmos chegar embaixo em boas condições, Daremos um jeito de
afastar-nos de Maverick — respondeu Derbolav de Grazia. — Talvez tenhamos que
descer com os equipamentos blindados nas camadas atmosféricas superiores, deixando
que um raio de tração nos leve para dentro da Rossa Obera.
O patriarca levantou.
— Mas não adianta quebrarmos a cabeça com isso agora. Deixemos isto para
quando estivermos lá embaixo e tivermos concluído nossa missão.
O intercomunicador zumbiu. Derbolav completou a ligação.
— As sondas saíram, chefe — informou Cerf Sidor. — A transmissão começará
dentro de alguns minutos, se é que haverá transmissão. — Cerf sorriu ligeiramente. — Já
temos os primeiros resultados das medições. Farei a leitura. Diâmetro no equador,
198.327 quilômetros. Diâmetro de polo a polo, 184.256 quilômetros. Rotação sideral,
20:10 horas. Densidade, 3,64 terr. Massa, 1.891,35 terr. Gravitação média, 5,03 gravos. O
planeta possui uma atmosfera gasosa típica de alta pressão, composta principalmente por
hidrogênio, amoníaco e metano. Infelizmente não foi possível apurar as temperaturas
reinantes na superfície. Chefe, eu...
Derbolav interrompeu-o com o sorriso de quem pede desculpas.
— Será que o dado que possuímos, que fala em cento e vinte e oito graus
centígrados junto à superfície, é correto?
Cerf deu de ombros.
— Este dado deve aplicar-se somente a certas áreas do planeta, chefe. A atmosfera é
um caldeirão infernal. Em alguns lugares temos trezentos e quarenta graus centígrados, e
em outros, onde a altura é maior, a temperatura é de noventa graus centígrados negativos.
Além disso há a formação de nuvens de amoníaco, de uma forma um tanto estranha. Na
verdade trata-se de massas de amoníaco que bóiam na atmosfera, descem devagar e se
evaporam.
Cerf olhou para o lado. Ficou com o rosto radiante. Quando voltou a olhar para o
intercomunicador, ria discretamente.
— Acabamos de fazer a medição de Satan's Nose, chefe. Fica exatamente na linha
do equador, conforme consta nos dados fornecidos por Butseh.
Derbolav de Grazia saltou da poltrona. Não esperara encontrar logo o cume estreito
das montanhas do diabo. Segundo os dados com que Pray Butseh o presenteara pouco
antes de morrer, o meridiano zero do planeta Maverick passava exatamente sobre a
montanha Satan's Nose, que tinha 5.021 metros de altura. Não seria difícil encontrar a
mina de inquelônio, que ficava a doze graus de latitude sul e sessenta e quatro graus de
longitude oeste.
— Ótimo — respondeu. — Tente localizar o mar de lava. Como mancha
infravermelha de 1.800 quilômetros de diâmetro não deve ser difícil de detectar.
— Estamos tentando, chefe — disse Cerf Sidor. — Mas não pense que é fácil. As
Montanhas do Diabo formam um grupo de vinte e nove vulcões em atividade. Produzem
um verdadeiro fogo de artifício térmico nas telas infravermelhas. Um momento. Acho
que as primeiras sondas estão penetrando na atmosfera.
Derbolav recostou-se na poltrona para enxergar os doze monitores instalados em
cima de seu console. Por enquanto só exibiam um cinza confuso.
De repente os contornos de uma nuvem surgiram em uma das telas. Era uma figura
amarelo-enxofre, em forma de espiral, o que a tornava semelhante à Via Láctea vista “de
cima”. Mas a espiral da nuvem girava muito mais depressa. A espiral despejava
regularmente relâmpagos para a atmosfera, que revolviam as massas gasosas. Depois de
algum tempo a nuvem em espiral rompeu-se. Um jato de fogo vermelho de um
quilômetro de largura foi disparado para o alto, aumentando constantemente. Um raio
fulgurante atravessou o monitor antes que a tela escurecesse.
As outras sondas foram fornecendo imagens semelhantes. Mas nenhuma delas
chegou à superfície. Todas silenciaram quando ainda se encontravam a grande altura. A
sonda que deixou de funcionar por último chegou a mostrar por alguns segundos uma
coisa parecida com uma planície cinzenta coberta de manchas negras irregulares
entremeadas de veios cor de cobre. Finalmente esta sonda também ficou em silêncio.
— Fizemos um rastreamento infravermelho — informou Sidor depois de algum
tempo. — Perto das Montanhas do Diabo só existe um grande lago de lava. Seu diâmetro
não é de mil e oitocentos, mas de dois mil e trezentos quilômetros.
— Só pode ser o Lago do Inferno! — exclamou o patriarca. — Deve ter crescido.
Registre a posição. Depois que tivermos completado mais uma órbita vamos descer.
***
— Sinto-me que nem um esquilo obrigado a saltar de um jato ultra-sônico a dez
metros de altura — resmungou Cerf Sidor enquanto examinava o planador.
O rosto de Derbolav de Grazia crispou-se num sorriso amável.
— Você está mais próximo da verdade do que imagina, Cerf. Os planadores são
veículos de superfície. A descida para Maverick não será nenhum prazer. Estamos
praticamente arriscando uma queda freada, que conseguimos ligando os projetores
antigravitacionais na potência máxima. Ainda não sei até que ponto os veículos poderão
ser manobrados na atmosfera densa.
O patriarca suspirou.
Dois dos planadores “organizados” em Angerook seriam tirados da nave e se
arriscariam na atmosfera de alta pressão. O outro ficaria na Rossa Obera, pronto para
decolar, para se necessário realizar uma operação-resgate.
Derbolav ligou o telecomunicador de pulso.
— Patriarca chamando Juan Mellone-Grazia. Ainda vai demorar muito?
Seu primo Juan, que era o piloto e imediato da Rossa Obera, o substituiria enquanto
estivesse comandando a expedição.
— Meia hora, chefe. Estão se arranjando bem?
— Não se preocupe, Juan.
O patriarca interrompeu-se ao ver um blindado especial sendo trazido por um
guindaste magnético.
— Voltarei a chamar. É só.
Derbolav levantou a mão e o guindaste magnético parou à sua frente. O
equipamento blindado especial não se parecia nem um pouco com um traje normal
comum. Tinha mais semelhança com um desajeitado robô trabalhador — uma
comparação que até tinha seu fundo de verdade. Os equipamentos blindados
ultragravitacionais de alta pressão eram unidades de trabalho móveis, cujos movimentos
dependiam exclusivamente dos impulsos transmitidos pelos seres humanos que se
encontravam em seu interior. A tensão dos músculos dos braços e das pernas ativava os
condutores de impulsos e ampliadores eletrônicos, que por sua vez dirigiam um
complicado mecanismo automático.
Dois robustos prospectores ajudaram o patriarca a entrar na prisão de aço. Quando
finalmente ficou seguro em seu alojamento, Derbolav estava transpirando.
— Quem diria que esta máquina de tortura custa um milhão de solares? —
indignou-se, esquecido de que na verdade não gastara o milhão.
Derbolav virou a cabeça e examinou o sistema de transmissão de som e imagem
externo. Funcionava perfeitamente. Restava saber se continuaria assim depois que
estivesse exposto a uma pressão de centenas ou milhares de atmosferas.
— Tripulantes dos dois planadores dentro das armações, chefe — informou Sidor
pelo hipercomunicador. O telecomunicador não serviria para nada num planeta em que
reinava uma pressão elevada.
— Embarquem e ocupem seus lugares! — ordenou Derbolav.
O próprio Derbolav saiu caminhando em direção à escotilha de entrada do planador.
A locomoção não o cansava nem mais nem menos que a caminhada num simples
uniforme de bordo, com uma gravitação de um gravo. Os construtores das armações
blindadas tinham cuidado para que qualquer ser humano que as usasse conseguisse
orientar-se logo, sem qualquer necessidade de adaptação.
Os prospectores enfiados nas armações desajeitadas foram-se acomodando nos dois
planadores. Derbolav de Grazia sentou na poltrona do piloto. O técnico Sidor encarregou-
se do console de rastreamento.
Os pesados reatores de fusão catalítica já estavam funcionando há uma hora, à
potência mínima. Derbolav foi aumentando seu desempenho. Os projetores
antigravitacionais fizeram com que o veículo não pesasse nada, embora naturalmente não
perdesse nada de sua massa. As almofadas energéticas fizeram com que o veículo subisse
um metro. Por enquanto os propulsores e outros equipamentos energéticos continuaram
parados.
Derbolav de Grazia respirou aliviado quando chegou o aviso de que o outro
planador estava pronto para decolar. A saída da eclusa seria dentro de três minutos.
Juan Mellone-Grazia chamou pelo hipercomunicador.
— Faltam três minutos, chefe. A Rossa Obera aproxima-se das camadas superiores
da atmosfera. Acho que vocês devem frear ao máximo assim que se afastarem da nave.
Serei obrigado a acelerar fortemente para não cair na atmosfera.
— Está certo, Juan. Você ouviu, Erlenmar?
— Entendido, chefe — respondeu o piloto do outro planador.
— Muito bem! Desacelerar com a potência máxima e em seguida amortecer a queda
com os propulsores, ligando o equipamento antigravitacional em cinco gravos. Haverá
uma constante troca de experiências. Juan...!
— Pois não, chefe.
— Cuide bem de você, velha coruja. E torça por nós. Se der tudo certo, dentro em
breve seremos os prospectores mais ricos de nossa galáxia. Se não der, trate de governar
bem nosso clã.
— Não fale assim, chefe! — protestou Juan Mellone-Grazia. — Você vai fazer o
favor de voltar vivo. Sua mulher me dará uma surra se eu lhe disser que o deixei aqui.
Derbolav soltou uma estrondosa gargalhada. Os outros prospectores
acompanharam-no, pelo menos os que tinham ouvido a conversa. O estado de espírito do
pessoal melhorou no mesmo instante.
Mas a descontração alegre transformou-se num máximo de concentração quando foi
dado o sinal de saída. A escotilha externa do hangar abriu-se à frente do planador,
permitindo que se visse o caos reinante lá fora.
Derbolav de Grazia ativou o propulsor de popa. O planador deslizou pelo chão do
hangar, primeiro devagar, depois cada vez mais depressa, precipitando-se finalmente para
o espaço, à frente da nave.
— Excelente! — disse Juan. — Desacelere!
Derbolav desligou o propulsor de popa e aumentou a potência do sistema de
propulsão de proa. Os reatores hiperenergéticos do planador entoaram um rugido que
aumentou rapidamente. O propulsor de proa trabalhava a toda força. Além de anular a
aceleração produzida pelo propulsor de popa, tinha de neutralizar a velocidade que lhe
fora imprimida pela nave.
O patriarca não tirava os olhos das telas de imagem externas e dos controles. O
corpo esférico da Rossa Obera, fantástico e do tamanho de uma mão, passava por cima
do planador; depois desapareceu.
De repente ouviu-se um uivo fraco no interior da cabine. Eram os microfones
externos transmitindo os ruídos do atrito produzido pelas camadas superiores da
atmosfera. Não era um ruído uniforme. Crescia, para depois voltar ao nível em que quase
não podia ser ouvido. Isto mostrava que a turbulência das camadas inferiores da
atmosfera alcançava o limite do espaço vazio.
Uma pequena eternidade parecia ter-se passado quando a velocidade foi reduzida a
meio metro por segundo. A velocidade era calculada pelo computador da nave com uma
margem de erro mínima.
Derbolav aumentou a potência dos neutralizadores antigravitacionais. A marca do
indicador eletrônico foi subindo lentamente até atingir a marca dos cinco antígravos.
Uma vez alcançada esta, o patriarca fixou a regulagem.
A reação do veículo à elevada compensação antigravitacional não foi das mais
animadoras. Balançava e girava, obrigando os girotrons e os jatos de compensação a
funcionarem quase ininterruptamente. Grazia teve de lembrar-se de sua última refeição.
— Olá, Erlenmar! — exclamou para distrair a atenção. — Como vai seu balanço?
O piloto do outro planador murmurou uma coisa que ninguém compreendeu e ligou
o sistema de imagem, para que Derbolav o visse na tela do hipercomunicador.
— Desculpe, chefe — disse Erlenmar. — Estava conversando com a comida que
ingeri no almoço. A canoa de vocês também está balançando tanto?
Derbolav fez uma careta.
— Nem um pouco. Não falemos mais nisso. Não devemos acelerar muito, senão
passamos por cima da área em que pretendemos pousar. Tomara que depois que
descermos o ar acalme um pouco.
O patriarca mal acabara de pronunciar estas palavras quando seu planador foi
atingido por um gêiser invisível de ar quente e começou a girar. Quando o veículo se
acalmou um pouco, ele caiu de costas na atmosfera de Maverick. Derbolav começou a
transpirar enquanto o planador girava em torno do eixo longitudinal, tentando corrigir o
desvio de rota.
Os microfones externos já não transmitiam o uivo intermitente, mas antes uma série
de assobios e chiados cada vez mais fortes. Sidor reduziu a potência da transmissão
acústica.
— Estamos a sessenta quilômetros de altura — murmurou o patriarca. — Tomara
que os cálculos do computador estejam certos. Se descermos a alguns milhares de
quilômetros do nosso destino, poderemos morrer de tanto procurar.
— Não acha que deveríamos ativar os campos defensivos, chefe? — perguntou Cerf
Sidor.
— Por quê? — perguntou o patriarca. — Se os planadores não resistem sem campo
defensivo, então nem deveríamos ter iniciado a missão.
— Aqui fala Juan, a bordo da Rossa Obera — disse o substituto de Derbolav. — Já
não temos vocês nos rastreadores. Algo de errado?
— Tudo na mais perfeita ordem — respondeu de Grazia. — Descemos segundo foi
planejado, sem incidentes importantes. É de esperar que os rastreadores falhem de vez em
quando. Como vão vocês?
— Bem, chefe. Farei a Rossa Obera entrar numa órbita estacionaria em cima do
Nariz de Satanás, conforme você mandou. — Juan pigarreou. — Depois desta operação
devemos fazer uma revisão de nossos neutralizadores gravitacionais. Há pouco seu
desempenho caiu sem aviso prévio em cinquenta por cento, o que me obrigou a reduzir
imediatamente a aceleração. O problema já não poderá ser resolvido pelo reparo
automático. Derbolav de Grazia teve vontade de soltar um palavrão.
— Depois desta operação teremos dinheiro e mandaremos fazer uma revisão geral
na Rossa Obera — prometeu. — Se não nos tivessem expulso daquele planeta de
Dabrifa, já teríamos feito a revisão. Mas deste jeito...!
O patriarca fechou os olhos por um momento, ao ver que o planador estava
atravessando uma nuvem incandescente. Mas foi tudo bem.
— Até logo mais, Juan! — exclamou. O caldo vai engrossar. É só.
Derbolav cerrou os lábios ao ouvir o casco de terconite estalar. A atmosfera
venenosa adquirira a cor de chumbo derretido. Dois abalos sacudiram o planador.
Derbolav reduziu a potência do jatopropulsor.
— Alô, Erlenmar! — gritou para a parede-microfone do hipercomunicador. —
Cuidado com o propulsor. Nossos jatos acabam de pifar duas vezes.
— Os nossos já pifaram três vezes — respondeu Erlenmar. Seu rosto tremia. —
Com esta já são quatro. Estou reduzindo a potência. Tomara que isto não nos afaste muito
da rota. Que parede negra é esta à nossa frente?
O patriarca olhou para a tela frontal. Seus cabelos arrepiaram-se quando viu aquilo
que Erlenmar chamara de parede negra. Examinou o horizonte artificial e viu que o
aparelho estava entravado na posição ideal.
— Ligar propulsores de proa! — gritou para Erlenmar enquanto fazia avançar a
alavanca do acelerador. — Examine seu horizonte, rapaz. A parede negra não é outra
coisa senão a superfície de Maverick. Há pouco ainda estávamos caindo sobre ela de
proa.
O patriarca suou enquanto tentava todos os truques para recolocar o planador na
posição horizontal, evitando um impacto muito violento. Até parecia que o próprio
planeta se encarregara de evitar a catástrofe. As correntes ascendentes retardaram a queda
do planador.
Finalmente conseguiu.
O chão do veículo bateu com um estrondo na rocha dura como aço. As colunas de
sustentação rangeram perigosamente enquanto o corpo do veículo balançava de um lado
para outro. Finalmente ele se imobilizou.
***
— Vocês desceram quase no lugar exato, chefe — informou Juan Mellone-Grazia
de bordo da Rossa Obera. — Recebo perfeitamente seus raios vetores. Só se desviaram
uns quinhentos quilometrozinhos.
— Ah, é? — fez Derbolav de Grazia em tom seco. — Quinhentos
quilometrozinhos. — Deu uma risadinha. — Você nem faz ideia de como estão as coisas
por aqui. A atmosfera não pode ser
descrita. Não consiste em gases
propriamente ditos. Aposto que, se
possuísse uma serra motorizada,
poderia cortar o ar em cubos.
O patriarca ficou pensativo.
Passou a costa da mão sobre a barba
por fazer, no queixo.
— Receio que não consigamos
arranjar-nos sem seu auxílio, Juan.
Faça o favor de indicar a direção
exata da mina e controle constantemente nossos movimentos. Se houver qualquer desvio,
você grita. Combinado?
— Combinado, chefe. Atenção para os dados de que precisam:
Derbolav prestou atenção. Se os raios vetores não estavam sofrendo nenhum desvio,
os dois planadores tinham descido uns quinhentos quilômetros ao norte da mina. Havia
três montanhas baixas entre os dois lugares, alguns mares de fogo, um desfiladeiro de
profundidade desconhecida e uma reentrância do grande oceano de fogo que servira de
ponto de referência. Não se tratava de obstáculos inseparáveis. Mas consumiriam tempo e
talvez obrigassem o grupo a dar algumas voltas.
— Você ouviu, Erlenmar? — perguntou Derbolav.
O piloto do outro planador respondeu que sim.
— Muito bem! — disse Derbolav. — Vamos seguir para o sul. Você ficará perto de
mim. Não voaremos a mais de cem metros de altura. Qualquer outro problema será
resolvido à medida que for surgindo.
O patriarca ligou a almofada energética. A potência dos reatores de fusão foi
aumentada automaticamente, uma vez que se orientavam pelo desempenho exigido. O
planador subiu com uma lentidão martirizante, lutando centímetro após centímetro contra
a pressão tremenda.
— Para baixo foi mais fácil — comentou Cerf Sidor em tom irônico.
— Sem dúvida — respondeu o patriarca. — Vencer a gravitação de Maverick é uma
brincadeira para o planador. Quem dera que houvesse um meio eficiente de enfrentar a
pressão atmosférica.
— Este meio existe, chefe — observou Juan de sua órbita estacionaria. — Basta
reduzir a massa e o tamanho do planeta à da Terra, e a atmosfera escapará para o espaço
que nem o ar de um balão furado. Só restará uma atmosfera de pressão...
— Para sua idade você até que é inteligente — respondeu Derbolav contrariado. —
Mas contra isso também existe um meio: o trabalho físico. Depois que tivermos
encontrado a mina, você terá o privilégio de tirar a ferrugem das máquinas de mineração.
O patriarca sorriu ironicamente quando viu na tela do hipercomunicador seu primo
respirar com dificuldade, provavelmente menos pelo trabalho com que o ameaçara que
pelo fato de Derbolav se ter baseado num pressuposto impossível: o de que as máquinas
pudessem oxidar na atmosfera sem oxigênio. Isto sem considerar o fato de os blues
usarem ligas inoxidáveis.
Mas seu sorriso desapareceu dali a alguns segundos, quando uma parede cinza-
escura surgiu à frente do planador. Parecia uma muralha maciça de plástico poroso.
Derbolav examinou os controles. A muralha aproximava-se a mais de quatrocentos
quilômetros por hora, apesar da atmosfera incrivelmente densa.
— Pouse imediatamente, Erlenmar! — gritou. — Há uma tempestade de poeira e
areia à nossa frente. Ancorar o barco e desativar os neutralizadores gravitacionais.
O patriarca reduziu a potência das almofadas energéticas. O planador desceu no
mesmo instante. Ficou ancorado sobre as colunas de sustentação, que não o deixaram
cair.
A muralha cinza-escura já estava mais perto. Derbolav distinguiu os véus cinza-
claros que corriam à sua frente. Na parte de baixo as massas de areia e poeira
caminhavam mais depressa. Parecia que a gravitação do planeta fazia baixar a areia bem
depressa, e as massas vindas de cima obrigavam a base a desviar-se para a frente. Era a
causa da tempestade.
— Atenção, minha gente! — gritou o patriarca, — Baixarei os neutralizadores
gravitacionais bem devagar até a marca zero. Preparem-se para a tortura.
Derbolav acionou o regulador gravitacional. No mesmo instante sentiu uma carga
imaginária descer sobre ele. Era como se a mão de um gigante o apertasse cada vez
mais...
A respiração de Derbolav era ofegante. Anéis coloridos dançavam à sua frente. Viu
vagamente nas telas de visão externa o fundo da tempestade estender-se em direção ao
planador. De repente escureceu. O veículo balançou, foi levantado, girou como um pião e
agitou-se que nem um barco à deriva sobre as ondas de um oceano agitado.
De repente desceram milhares de toneladas de areia e poeira sobre o planador,
atirando-o de volta para a superfície de Maverick. O abalo foi tamanho que Derbolav teve
a impressão de que seus ossos estavam sendo quebrados.
Naquele momento sentiu-se feliz por ter dispensado o luxo de uma maior liberdade
de movimentos, não tirando o desajeitado traje blindado dentro do veículo. Se não fosse o
sistema automático deste, seria impossível levantar o braço para fazer avançar de novo a
potência dos neutralizadores gravitacionais.
Aos poucos a pressão foi diminuindo. Os pulmões voltaram a inalar normalmente o
ar sem o auxílio do compressor. A vista também se recuperou.
O patriarca olhou na direção em que se afastava a tempestade de areia. Só viu uma
massa de alguns metros de altura, quase imóvel, que se condensava cada vez mais, até ser
completamente imobilizada pela gravidade e pressão do ar. Era possível que a massa se
solidificasse, transformando-se numa rocha dura como aço. Nos gigantes maiores que
Júpiter, onde existia uma atmosfera de alta pressão, aconteciam coisas que a mente
humana quase não podia conceber.
Derbolav tirou os olhos de cima da massa trêmula. Franziu o sobrecenho, surpreso,
ao ver o outro planador a poucos metros de distância.
— Alô, Erlenmar! — gritou para dentro do hipercomunicador.
O rosto de Erlenmar apareceu na tela de trivídeo. Estava marcado pelos
sofrimentos.
— Alô, chefe...!
— Tudo bem por aí? — perguntou Derbolav, preocupado.
— Mais ou menos. Dois homens ficaram inconscientes. Acho que ainda escapamos
bem.
— Pois é — reconheceu Derbolav de Grazia. — Foi duro, como era de esperar. Não
entregue os pontos, Erlenmar. Vamos dar um jeito. Vou entrar em contato com a Rossa
Obera.
O patriarca ajustou o hipertransmissor para a faixa em que operava o receptor da
nave. Os sinais correram pelo hiperespaço sem sofrer a interferência das condições
atmosféricas.
A Rossa Obera não respondeu.
Derbolav franziu a testa.
— Será que aconteceu alguma coisa com a nave?
Era quase impossível. Mesmo que a maior parte dos reatores e propulsores tivessem
falhado, ela se encontrava numa órbita estável. Não precisava dos propulsores, pois as
próprias forças da natureza a mantinham onde estava.
De repente a tela iluminou-se.
Antes que Juan Mellone-Grazia dissesse uma palavra, Derbolav compreendeu que
acontecera uma coisa que ninguém esperara.
— Acalauries...! — exclamou Juan depois de algum tempo.
Supercouraçado da Classe Império
Dados técnicos:

2.500 m de diâmetro, 2.000 tripulantes,


blindagem dupla superpesada de aço terconite, 12
colunas telescópicas de sustentação, 54
pavimentos principais (alguns com 6 ou 7 pisos),
cerca de 270 elevadores antigravitacionais, esteiras
e corredores rolantes. Ate 20 canhões conversores.
Aceleração 500-600 km/s. Instalações próprias de
geração de gravidade e renovação de ar.

Convés 54 Canhão conversor pesado com mira positrônica.


Convés 53 Geradores e acumuladores do canhão polar.
Conveses 52 e 13 Alojamentos da tripulação, enfermaria, pavilhões de esporte.
Conveses 51, 49, 46, Máquinas gigantescas, usinas geradoras, estações transforma-
43, 41, 38, 33, 32, 25, doras, acumuladores, conversores, reator de fusão.
24, 23, 22, 21, 28, 27,
22, 9, 5 e 4.
Conveses 48, 44, 40, Canhões conversores (20 ao todo), canhões energéticos(25),
34, desintegradores (15), canhões térmicos (10),
12 e 7. canhões narcotizantes (10).
Conveses 47 e 6 Sistema de propulsão antigravitacional e projetores.
Conveses 45, 35, 13 Sistema de abastecimento de energia e acumuladores e 8 dos canhões
conversores.
Convés 39 Centro de controle de tiro, geradores.

Conveses 37, 36, 15 e Observatório, geradores dos campos defensivos.


14
Convés 35 Divisões de pesquisa científica e laboratórios.
Convés 31 Centro de goniometria, alojamentos dos tripulantes e cantina.
Convés 30 Centro de rastreamento
Convés 29 Sala de rádio.
Convés 28 Saía de comando principal equipada com centro de
computação positrônica, equipamentos de pilotagem e tela panorâmica.
Convés 26 Sala de controle de máquinas e armamentos.
Conveses 27 e 16 Hangares para 60 naves-girino (40 ao todo), 20 barcos
espaciais em cima e 20 embaixo da protuberância equatorial.
Convés 21 Protuberância equatorial com jatopropulsores de partículas, 162 reatores
de fusão nuclear, 18 bocais de jato e canhão.
Convés 19 Equipamento de propulsão hiperlinear e conversor kalup.
Convés 15 Arquivo, depósitos de robôs e peças sobressalentes, arsenal, oficinas,
depósitos de mantimentos.
Convés 12 Projetores do transmissor, depósitos de blindados voadores (cerca de
80).
Conveses 3, 2 e 1 Torpedos de neutrinos, sondas, eclusa inferior.
3

Derbolav de Grazia ficou estarrecido e sentiu que a mesma coisa acontecia com os
dez homens que o acompanhavam no mesmo planador.
Acalauries...!
Seres inteligentes de antimatéria orgânica!
Os pensamentos agitaram-se no cérebro de Derbolav.
Há algum tempo estranhos fenômenos preocupavam as civilizações galácticas.
Tratava-se de esferas brilhantes branco-azuladas, de quatro a cinco mil metros de
diâmetro, que apareciam em toda parte, sós ou em grupos. Às vezes penetravam nas
atmosferas planetárias. Quando isso acontecia, sempre havia terríveis explosões.
Continentes inteiros eram queimados, oceanos ferviam, crostas planetárias arrebentavam.
Demorara bastante até que se descobrisse que as esferas brilhantes eram
espaçonaves de seres racionais, e que era quase certo que estes seres eram formados por
antimatéria.
O patriarca recapitulou o que sabia a respeito deles.
Quando a matéria e a antimatéria se encontravam, elas se destruíam mutuamente.
Sua massa total transformava-se em energia, embora isso não acontecesse com cem por
cento dela como antigamente se admitira. De qualquer maneira, a comparação entre os
efeitos de uma bomba conversora e uma bomba de antimatéria com a mesma massa de
deutério ajuda bastante a esclarecer o problema. Em comparação com os efeitos da
bomba de antimatéria, a explosão de uma bomba conversora não representava mais que a
queima de quinhentos gramas de pólvora negra.
Mas não havia motivo para afirmar que os acalauries — Derbolav não sabia quem
lhes dera este nome — fossem seres malvados. Suas explosões não representavam atos de
agressão, mas acidentes com efeitos catastróficos. Os acidentes se verificavam quando os
campos defensivos branco-azulados feitos de energia neutralizante falhavam.
Até então ninguém vira um acalaurie frente a frente. Ninguém sabia de onde
vinham os seres de antimatéria. Os conhecimentos que se tinha a respeito da antimatéria
eram muito escassos.
Derbolav de Grazia lembrou-se de ter lido num livro que até o último quarto do
século vinte a humanidade terrana estudara a questão do aproveitamento da antimatéria
— para produzir energia, propulsionar espaçonaves e, o que também era importante, para
produzir armas fulminantes. Dizia-se que se tinham alcançado resultados aproveitáveis,
antes que Perry Rhodan tivesse descido na Lua terrana, onde se encontrara com
astronautas arcônidas. Os cientistas arcônidas tinham conseguido uma coisa que os
terranos nem sequer esperavam alcançar com o aproveitamento da antimatéria: a
construção de espaçonaves equipadas com um sistema de propulsão ultraluz. A
humanidade levou apenas alguns anos para adaptar-se à nova realidade. As pesquisas em
torno da antimatéria foram deixadas de lado, uma vez que a tecnologia dos arcônidas
produzia tudo de que os homens precisavam. Já não tinham necessidade da antimatéria.
Por isso as civilizações galácticas ficaram praticamente indefesas diante dos
acalauries. Havia teorias em grande quantidade, mas a maior parte delas surgira na era
pré-cósmica. Por exemplo, um físico chamado Lew Landau provou matematicamente que
o Universo não é simétrico no sentido convencional da palavra, mas teve sua
conformação determinada de uma maneira especial pela chamada lei da simetria absoluta
— encurvada no espaço, com a matéria de um lado e a antimatéria de outro. Segundo o
prêmio Nobel Pau Dirac, o mundo observável — formado por átomos, homens, astros —
só representa uma camada finíssima na superfície da realidade. Na opinião de Dirac, a
verdadeira realidade é um oceano formado por partículas elementares, que se aglomeram
numa densidade quase inconcebível. Estas partículas, segundo ele, são formadas por
antimatéria. Mas esta realidade verdadeira trazia uma desvantagem: nunca poderia ser
observada pelos seres que habitavam o mundo observável.
Ou será que podia?
“Se os seres de antimatéria conseguem vir para cá, também poderemos ir ao
oceano de Dirac, em que vivem”, pensou Derbolav. “Talvez possamos ajudá-los, pois
sabemos que não é necessário que o contato entre a matéria e a antimatéria traga
consigo a destruição. Segundo o princípio da exclusividade, formulado por Wolfgang
Pauli, qualquer antielemento só pode destruir o elemento normal que lhe corresponde. O
anti-hidrogênio destrói o hidrogênio, o anti-hélio o hélio, o antiferro somente o ferro.”
Estes pensamentos só se agitaram por alguns segundos no cérebro de Derbolav,
enquanto tentava desesperadamente descobrir um meio de salvar a Rossa Obera.
— Estão atacando vocês? — perguntou.
Juan Mellone-Grazia enxugou o suor da testa.
— Ainda não, mas a nave está praticamente cercada por eles. Não podemos fugir se
não deixarem. São trinta bolhas energéticas.
Juan olhou para o lado por um instante e prosseguiu em tom de pânico:
— Estão chegando mais perto, chefe! Tentarei livrar-me deles na atmosfera de
Maverick.
— Não! — gritou Derbolav de Grazia. — Você não vai fazer nada disso. A Rossa
Obera não aguentaria. Vocês estariam perdidos. Preste atenção, Juan...
O patriarca percebeu que seu substituto desligara. Derbolav enviou sinais de alarme
para a Rossa Obera, mas o primo não respondeu.
— Idiota! — exclamou Derbolav. — O que ele vai fazer é suicídio. Tenho certeza
de que os acalauries não atacarão se ele ficar quieto.
Derbolav olhou para as telas superiores, que mostravam o espaço em cima do
planador.
A atmosfera era impenetrável para as objetivas comuns. A temperatura e as
variações da pressão, as reações dos gases e a poeira produziam uma distorção na luz
solar. No momento parecia haver três sóis achatados em cima do planeta. Há pouco
Derbolav chegara a ver cinco.
Cerf praguejou ao ver uma luminosidade parecida corri um cometa na atmosfera.
Alguns prospectores rezaram. A única coisa que Derbolav de Grazia conseguiu fazer foi
olhar para cima. Teve a impressão de que seu corpo se transformara num bloco de gelo.
Pequenas bolas de fogo saíram da figura parecida com um cometa, desmanchando-
se em seguida. Parecia que a maior parte da espaçonave estava aguentando, cercada por
moléculas gasosas ionizadas.
Derbolav ligou as almofadas energéticas e deu partida no planador. Uma vaga
esperança lhe dizia que ainda poderia salvar alguns dos seus homens no meio dos
destroços. Dirigiu o veículo para o provável local da queda, acelerando o mais que as
condições permitiam.
O piloto do outro planador não fez perguntas supérfluas. Acompanhou o patriarca
sem que este pedisse.
Depois de vinte minutos viram-se destroços calcinados negros, pequenos e
estranhamente deformados, descendo perto dos dois planadores. Balançavam suavemente
na atmosfera densa, como folhas secas num mundo terrestre.
Os planadores pararam.
Dali a dez minutos mais ou menos uma coisa grande e escura desceu do céu. Girava
ininterruptamente, o que lhe dava o aspecto de uma panqueca acidentada, outras vezes o
de uma escultura incompleta de algum idiota que acreditava ser um artista.
Desceu sobre a superfície dura como aço de Maverick, a cem metros do lugar em
que estava o planador, quebrando-se e esfarelando em câmara lenta. Os microfones
externos transmitiram ruídos horríveis.
Depois disso os restos horríveis de uma nave destroçada permaneceram imóveis.
Derbolav de Grazia quis falar três vezes. Teve que desistir. Só conseguiu na quarta
vez.
— Quem quiser ir comigo — disse em tom áspero — que me siga. Vou ver se ainda
há alguém vivo por lá.
— Não há mais nem uma bactéria, chefe — observou Cerf Sidor com a voz
apagada.
Derbolav fitou-o como se quisesse assassiná-lo. Deu de ombros.
— Não podemos deixar de fazer isso, Cerf.
— Não, chefe! — disse o piloto do outro planador. — Temos de fugir. Os
acalauries estão atacando!
— O quê...? — gritou Derbolav.
Jogou a cabeça para trás. Também notara a luminosidade trêmula. Oito sóis branco-
azulados tinham surgido nas camadas médias da atmosfera. Desceram, arrastando caudas
de fogo. Em seguida nasceu o nono sol, o décimo, o décimo primeiro.
O patriarca cerrou os lábios.
Aqueles que tinham visto acalauries não afirmavam invariavelmente que os seres de
antimatéria só penetravam nas atmosferas planetárias com o maior cuidado? Era muito
natural que procedessem assim, pois quanto mais depressa voavam, maior era o número
de partículas de matérias comum com que colidiam.
Mas ali penetravam com um arrojo tremendo na atmosfera de um planeta de alta
pressão, na qual reinavam condições extremas.
Derbolav lembrou-se dos efeitos de uma explosão de matéria e antimatéria.
— Vamos voltar! — decidiu em tom resoluto. — Tentaremos esconder-nos na mina
de inquelônio. Usaremos somente os propulsores de pulsações. As emanações dos jatos
são muito fáceis de detectar.
O patriarca fez girar o planador no mesmo lugar e aumentou a potência do
propulsor de pulsações. O veículo balançou sobre as almofadas energéticas e avançou
penosamente pela atmosfera.
***
Derbolav de Grazia examinou os controles, assustado, quando o planador deu um
salto para a frente, baixando a proa. Mas os potentes projetores antigravitacionais
funcionavam perfeitamente.
— O chão está arrebentando, chefe — disse Cerf Sidor em tom calmo e apontou
para a tela de observação inferior.
Derbolav acelerou mais, antes de olhar para a tela. Os cabelos da nuca se
arrepiaram, embora os dois planadores já se afastassem da área de perigo.
Atrás deles o chão até então rígido abaulou-se abruptamente por alguns metros,
formando uma saliência de um quilômetro de diâmetro. Fendas atravessaram o desenho,
e delas saíram pequenos jatos de lava vermelho-amarelada. Até pareciam centenas de
cobras incandescentes saindo de uma chapa de fogão.
— Uma erupção vulcânica à La Maverick! — gritou Erlenmar pelo
hipercomunicador.
O patriarca acenou com a cabeça.
Fascinado, contemplou o espetáculo da natureza. As protuberâncias de lava
incandescente deviam ter surgido sob uma incrível pressão interna, senão não teriam
vencido a pressão externa. Foram-se juntando aos poucos num lago de fogo que lançava
bolhas, enquanto o chão arrebentado descia, formando uma depressão.
— O que estão fazendo os acalauries? — perguntou Derbolav a Sidor.
— Parece que estão procurando alguma coisa — respondeu o técnico. — Dois deles
permanecem imóveis sobre o lugar em que caiu a nave, enquanto três nos ultrapassaram a
grande distância seguindo uma rota paralela e uma bolha energética desce atrás de nós
numa rota em espiral. Dos outros acalauries nem sinal.
— Parece que não notaram nossa presença — disse Derbolav em tom pensativo. —
Ainda bem.
— Você se esquece de uma coisa, chefe — objetou Sidor. Falava em tom triste. —
Mesmo que escapemos dos acalauries, nunca poderemos sair de Maverick com os
planadores.
— Não fique nervoso — retrucou o patriarca. — Sempre existe uma saída. Se não
existe... — O patriarca deu de ombros. — Todo prospector fica se equilibrando num fio
de navalha entre a vida e a morte.
Um oceano de fogo surgiu à frente dos planadores. Sua superfície agitava-se de uma
forma quase imperceptível.
— Acho que podemos arriscar — murmurou Derbolav de Grazia, e levou o
planador bem para cima do oceano.
Cerf Sidor inspirou ruidosamente, mas deu certo. As almofadas energéticas
deslizaram suave mas fortemente sobre o mar de fogo. Houve uma explosão fulgurante
algumas centenas de metros à sua direita. Ocorreu poucos metros acima do oceano de
fogo. Não se descobriu sua causa.
— O que explodiu por lá? — perguntou de Grazia em tom exaltado ao técnico. —
Vamos logo! Não diga que não sabe ler os instrumentos.
Sidor estremeceu, mas leu os instrumentos.
— São gases explosivos — informou. — Acho que de vez em quando sai uma
bolha de oxigênio da lava, entrando em contato com o hidrogênio da atmosfera para
formar uma atmosfera explosiva, que é detonada pelo calor.
— Que loucura! — exclamou Derbolav.
O patriarca respirou aliviado quando deixaram para trás o oceano de fogo. Em
compensação dali a poucos quilômetros viram uma grota profunda. O lado oposto ficava
a uns trezentos metros.
Os planadores pararam.
— E agora? — perguntou Erlenmar. — Não podemos atravessar o desfiladeiro. A
pressão atmosférica evitaria nossa queda, mas perderíamos altura.
— Não vamos perder tempo conversando — disse Derbolav de Grazia. — Existe
um meio. Temos de utilizar os jatopropulsores, tomar impulso e fazer a travessia.
— O que acontecerá se os acalauries detectarem a energia liberada? — perguntou
Erlenmar.
— Tem uma sugestão melhor?
— Não.
— Pois então...! — disse Derbolav. — Vamos recuar mil metros. Aceleraremos os
jatopropulsores ao máximo, subiremos suavemente e faremos a travessia.
Derbolav levou seu planador para trás. O outro seguiu-o. Erlenmar ficou calado.
Não podia rebelar-se contra a ordem do chefe do clã, ainda mais quando era sensata como
aquela.
Os veículos pararam a um quilômetro do desfiladeiro. Estavam a cem metros um do
outro. Os jatopropulsores instalados na popa rugiram. A reação entre os feixes de
impulsos superaquecidos e a atmosfera superpressurizada teria assustado outras pessoas.
Mas os prospectores já estavam acostumados. Limitaram-se a prestar atenção ao barulho,
para identificar eventuais ruídos.
— Pronto, vamos lá! — ordenou de Grazia.
Os dois planadores transformaram-se em cometas, com a diferença de que nem
chegaram perto da velocidade destes. No fundo do oceano de ar muito denso, a
velocidade de quinze quilômetros por hora era muito arriscada. Os veículos balançaram e
vibraram. O ar ficou represado à sua frente, formando torvelinhos e estranhas ondulações.
Quando estavam a cem metros do desfiladeiro, os pilotos ativaram os jatos direcionais
instalados na parte dianteira dos veículos. Passaram por cima do desfiladeiro escuro
numa subida de menos de um grau. A extremidade oposta foi-se aproximando — e
finalmente os planadores completaram a travessia.
— Então, Erlenmar? Que me diz? — perguntou de Grazia.
Erlenmar ficou calado. Mas Sidor falou.
— Notaram nossa presença — afirmou o técnico laconicamente. — Vejo doze
corpos luminosos atrás de nós. Estão nos seguindo com muita segurança. — Olhou para
Derbolav. — Não existe possibilidade de erro, chefe. E agora?
Os jatopropulsores voltaram a ser desligados. Mas o patriarca sabia que, uma vez
detectados pelos rastreadores, os planadores não seriam perdidos numa área livre.
O piloto do outro planador devia ter pensado a mesma coisa. Sugeriu que se
escondessem no desfiladeiro.
Derbolav de Grazia sacudiu a cabeça.
— Não. Se desaparecermos agora dos seus rastreadores, eles sabem que só podemos
estar no desfiladeiro. Só há uma coisa que podemos fazer: seguir em frente. A mina não
pode estar a mais de dez ou quinze quilômetros. Lá encontraremos bons esconderijos.
O patriarca ativou o propulsor de pulsações.
Dali a uma hora e meia os acalauries se tinham aproximado a três quilômetros.
Eram gigantescas bolas de fogo seguindo os dois planadores. Não estavam se
aproximando mais, mas apesar disso metiam medo.
Finalmente o oceano de fogo perto do qual devia ficar a mina apareceu à frente dos
planadores.
Derbolav encolheu instintivamente a cabeça quando viu a lava borbulhante. Não era
um lago de lava, mas um verdadeiro oceano com milhões de toneladas de matéria líquida
superpesada. Apesar da atmosfera que pesava sobre ele, de vez em quando os jatos de
lava subiam a centenas de metros.
De Grazia refletiu alguns instantes se não seria preferível parar e confiar no espírito
pacífico dos acalauries. Resolveu que não, depois de olhar para trás.
Levou cuidadosamente o planador para cima do oceano de fogo...
4

Em outro lugar, num tempo diferente...


O quartel-general da Frota Solar estava em grande atividade. Inúmeras projeções
videoplásticas da galáxia brilhavam em numerosas salas do sistema de abrigos
subterrâneos. A maior delas estava suspensa no interior do coordenador de informações.
Tratava-se de um gigantesco cérebro positrônico, cujo parceiro de plasma celular pesava
várias toneladas. O cérebro geminado estava guardado numa espécie de colmeia de
recintos esféricos abaulados. A esfera tinha pouco menos de quatro quilômetros de
diâmetro. Mas o espaço livre media três quilômetros, e em seu interior estava suspensa a
reprodução videoplástica em grande escala da galáxia.
Os dois homens que examinavam por setores a projeção em grande escala da
galáxia não se encontravam no recinto do coordenador. Nele não cabia mais nada além da
projeção.
Perry Rhodan, Administrador-Geral do Império Solar, e o Marechal Solar Julian
Tifflor, substituto do comandante supremo da Frota Metropolitana, estavam sentados em
confortáveis poltronas em forma de concha, contemplando as transmissões setoriais num
cubo de trivídeo.
Naquele momento a transmissão estava mudando. Passou a mostrar outro setor da
galáxia.
— Setor azul gama três cinco sete um Eastside — informou o coordenador com voz
agradável. — É o lugar em que foram detectadas as maiores concentrações de
espaçonaves dos acalauries. O cruzador ligeiro Etiópia, comandando pelo Major Hrudin,
detectou um grupo de trinta naves acalauries aproximando-se do sol Pash. Conseguiu
chegar mais perto sem ser notado e constatou que as trinta naves entraram na atmosfera
de Maverick, um planeta de alta pressão.
Rhodan e Tifflor entreolharam-se ligeiramente.
— O Sistema Pash fica na área dos blues...? — perguntou o Administrador-Geral.
— Isso mesmo, Administrador-Geral — respondeu o coordenador. — O senhor ia
perguntar por que o planeta de alta pressão tem um nome anglo-saxão.
— É verdade — disse o Administrador-Geral com um sorriso.
— O Sistema Pash foi descoberto por um pesquisador particular chamado Urdamar
Simmerich Pash, que lhe deu o nome, isto antes que os blues manifestassem qualquer
pretensão sobre o setor. Urdamar S. Pash era um tipo solitário, motivo por que se sentiu
atraído pelo planeta gigante, que gira sozinho em torno de seu sol. Por isso deu-lhe o
nome de Maverick, o que antigamente significava na Terra um cavalo solitário, sem
dono, que vive em liberdade. O sol e o planeta foram registrados com este nome. Não
tiveram dono, até que foi feita a demarcação das esferas de influência dos homens e dos
blues. Parte da espiral à qual pertence Maverick foi cedida aos blues, em troca de outro
setor espacial. É claro que os blues deram ao sol e a seu planeta um nome em sua língua.
Se permite...
— Obrigado! — disse Perry Rhodan e fez um gesto de recusa. — Não é necessário,
coordenador. Têm sido vistas espaçonaves dos povos blues perto do Sistema Pash?
— Num raio de dezenove e meio anos-luz não foi detectada nenhuma unidade dos
blues, Administrador-Geral. Atenção! Neste momento estou recebendo novos dados.
Rhodan agradeceu o caneco de café fresco que lhe foi entregue por um ordenança.
O Marechal Solar Julian Tifflor também recebeu seu café. Fazia três horas que os dois
estavam sentados no centro de informações do quartel-general da Frota.
Perry Rhodan tomou seu café bem devagar, contemplando por cima do caneco o
setor da projeção que estava sendo transmitido pelo coordenador. O cérebro geminado
desenvolvia uma atividade tremenda para coordenar as informações recebidas. Seu
trabalho era este; este e a transmissão das informações coordenadas.
De repente três pontos amarelos com uma luz verde-esmeralda em seu interior
apareceram no setor superior dianteiro do cubo de trivídeo.
Rhodan e Tifflor endireitaram instintivamente o corpo.
Era a marcação representativa das unidades pesadas da Frota da USO.
De repente um dos pontos amarelos começou a pulsar. Numa fração de segundo a
tela do hipercomunicador iluminou-se. O símbolo do centro positrônico de
hipercomunicações apareceu na tela tridimensional. Uma voz feminina começou a falar.
Era a voz de um computador especialmente preparado.
— Alvorecer chamando luar! Alvorecer chamando luar! Atenção! Transferirei a
ligação para o canal de paracomunicações TT 3322.
O símbolo tremeu e foi substituído por uma luminosidade vermelha fosca, que de
repente se abriu de dentro para fora, dando lugar à imagem em trivídeo de um homem de
cabelos brancos.
O homem de cabelos brancos dirigiu os olhos albinos avermelhados para o
Administrador-Geral.
— Meus cumprimentos, amigo. Receba também meus cumprimentos, Tifflor.
O rosto de Rhodan era a expressão da tensão carregada de expectativa.
— Retribuo seu cumprimento, Atlan. Está chamando da espiral de Bhaalan.
Fora uma constatação que não precisava ser confirmada. O Lorde-Almirante Atlan
poderia restringir sua mensagem ao essencial.
O que disse não foi novidade para o Administrador-Geral. A novidade foi a opinião
de Atlan, de que os acalauries poderiam entrar em contato com os blues.
— Acho que não podemos permitir que isso aconteça, Perry — concluiu. — Se
alguma civilização da galáxia entrar em contato com os seres de antimatéria, só poderá
ser a civilização solar.
— Compreendo — respondeu Perry Rhodan, provando mais uma vez que estava
acostumado a decidir depressa. — Espere por mim na Intersolar exatamente dentro de
quatro horas e meia nas coordenadas...
O coordenador de informações entrou no circuito.
— Sugiro as seguintes coordenadas...!
As coordenadas foram projetadas numa tela. Rhodan sabia que Atlan também as
veria em seu cubo de trivídeo a bordo da nave Imperador.
O arcônida limitou-se a franzir ligeiramente as sobrancelhas.
— Acabo de fazer um cálculo ligeiro e cheguei à conclusão de que você levará mais
de quatro horas e meia para chegar ao local através da estrada dos containers...
O Administrador-Geral tirou a mão esquerda de cima de um botão vermelho.
— A Intersolar está sendo preparada — disse com um sorriso ligeiro. — Além disso
sairei diretamente da eclusa do tempo.
Rhodan levantou. A imagem apagou-se. O Marechal Solar Julian Tifflor também
levantou.
Dali a quinze minutos o ultracouraçado Intersolar penetrou na embocadura de uma
estrutura energética que costumava ser chamada de eclusa do tempo, ou então janela do
tempo. Ambas as designações eram apropriadas, pois através desta estrutura — e
somente através dela — podia ser feita a ligação entre o Sistema Solar, que se encontrava
no futuro, e o resto do Universo, que permanecia no tempo normal.
Perry Rhodan estava de pé atrás da poltrona do comandante e primeiro emocionauta
Coronel Elas Korom-Khan, mantendo os braços cruzados sobre o peito.
Viu os diversos setores coloridos da eclusa do tempo deslizarem pela galeria
panorâmica, desaparecendo atrás da nave. Como sempre, experimentou uma sensação
indefinível. Poderia orgulhar-se com o fato de os cientistas e técnicos terranos terem
criado esta maravilha. Mas não se orgulhava, pelo menos no sentido convencional da
palavra. Sua capacidade de extrapolações criativas era muito grande, e sua inteligência
lhe apontava tantas possibilidades que não poderia sentir-se triunfante. Perry Rhodan era
um dos poucos homens deste período agitado que sabia perfeitamente que os
acontecimentos tinham passado a seguir suas próprias leis, que não podiam ser mudadas
por ele ou qualquer outra pessoa. A evolução começava a seguir seus próprios
caminhos...
***
Derbolav de Grazia murmurou uma praga quando uma das naves acalauries passou
pouco acima do planador. O envoltório energético branco-azulado quase chegou a roçar
os veículos.
O prospector cerrou os olhos. Sentiu-se ofuscado. Mas nem por isso lhe escapou o
movimento que houve à sua direita.
Cerf Sidor acabara de ativar o console de controle de tiro...!
Derbolav saltou para a direita. Sua blindagem pesada bateu ruidosamente na de
Sidor, afastando a mão de Sidor, que se estendia em direção ao acionador do canhão
desintegrador.
— Você enlouqueceu, Cerf! — cochichou Derbolav. — Sem dúvida nossas armas
são impotentes contra a nave gigantesca. Além disso não sabemos que reações o
bombardeio provocaria no campo defensivo dos acalauries.
— Desculpe — murmurou Sidor. — Perdi o controle dos nervos. Você tem razão.
Derbolav de Grazia riu embaraçado e voltou ao seu lugar.
— Esqueça, Cerf — disse com um pigarro. — Estava pensando que o ataque pode
ser a melhor defesa, quando acordei com o movimento de sua mão.
O patriarca desviou o planador para a direita. Uma bolha vermelho-brilhante
acabara de surgir à sua frente. Acelerou. O veículo deslizava a um metro de altura sobre o
terreno que subia ligeiramente. Mas o que deixara Derbolav tão exaltado não fora apenas
a subida, mas também o fato de que o chão era firme na encosta plana até o horizonte
visual. Não havia uma poça de lava, nenhuma fenda ou rachadura, nem se notava a
vibração constante do solo, que se transmitia ao veículo através da almofada energética.
Três bolhas luminosas vindas da esquerda passaram em grande altura por cima do
planador.
O patriarca riu zangado.
— Daqui a pouco nos livraremos de vocês. Gostaria de saber como farão para entrar
nas galerias da mina com essa nave enorme.
— Acha que estamos chegando? — perguntou Erlenmar pelo hipercomunicador.
— Parece — respondeu Derbolav. — Já deixamos para trás a baía do mar de fogo.
Estamos subindo ligeiramente, o que é um sinal da proximidade da mina. Além disso a
crosta planetária neste lugar está em repouso, o que provavelmente foi um dos requisitos
da construção da mina.
Erlenmar respirou aliviado.
— Quer dizer que finalmente poderemos livrar-nos destes caras de antimatéria,
chefe. Eles me deixam confusos. Parece... oh!
— Que houve? — perguntou Derbolav.
— Os acalauries! — gritou Erlenmar. — Estão pousando! Há duas esferas
descendo.
— Estão suspensas cem metros acima do solo — corrigiu Cerf Sidor. — Além disso
encontram-se pelo menos a nove quilômetros. Mesmo que façam sair alguém, nossa
dianteira é muito grande.
— Também acho — observou Derbolav.
O planador chegou ao fim da encosta. Havia uma depressão à sua frente. Não tinha
mais de vinte metros de profundidade, mas em Maverick uma diferença de altitude destas
já tinha sua importância. Pelos cálculos de Pray Butseh a depressão devia ter cinquenta e
quatro quilômetros de diâmetro. Era claro que numa atmosfera destas a vista não
alcançava tão longe. Mas chegava bastante longe para que se vissem as inúmeras entradas
de galerias e poços nas encostas e no fundo da depressão.
Assim que o rugido ensurdecedor dos projetores cessou, Derbolav de Grazia disse:
— É importante colocarmos a maior espessura possível de crosta planetária entre
nós e os acalauries. Nem mesmo os seres de antimatéria devem possuir rastreadores
capazes de atravessar a crosta pressurizada de Maverick. Vamos seguir pelos poços
verticais que começam no fundo da depressão. Erlenmar, eu vou na frente. Você espera
que meu planador desapareça em um dos poços antes de escolher outro. Vamos
encontrar-nos no nível mais baixo da mina. Não acredito que possamos manter contato
durante a descida.
— Está bem, chefe — respondeu o piloto do outro planador.
O patriarca já alcançara a entrada de um dos poços. Antigamente, quando a mina
ainda estava sendo explorada, o poço devia ter sido protegido por uma campânula
energética. Era a única explicação do fato de o material de revestimento se ter esfacelado
em grande parte pela ação desagregadora da atmosfera de alta pressão.
Derbolav equilibrou perfeitamente o planador. Só então conduziu-o para cima do
poço.
— Quatrocentos metros, chefe — murmurou Sidor. — Trinta e oito metros de
diâmetro.
Derbolav não respondeu. Estava muito tenso. Preocupou-se exclusivamente em
manter o planador na horizontal. Se sofresse qualquer desvio, mesmo de alguns graus,
provavelmente despencaria. No interior do poço não havia lugar para manobras
estabilizadoras.
Havia estranhas concentrações de gases junto às paredes do poço. O gás amoníaco
em alta pressão dissolvera o revestimento, entrando numa reação química com ele.
Provavelmente seria necessária uma equipe especializada para descobrir qual seria a
substância resultante da reação. Cerf Sidor ainda trabalhava ininterruptamente no
analisador.
Finalmente o veículo tocou o solo. O patriarca tirou as mãos da direção e enxugou o
suor que lhe penetrava nos olhos.
— Quer que eu o reveze por algum tempo, chefe? — perguntou Sidor.
Derbolav sacudiu a cabeça.
— Não, não! Você nos mataria. Não leve a mal, Cerf, mas isto aqui é uma questão
de milímetros. E já me acostumei muito bem com a direção deste veículo.
O patriarca deu partida no planador e levou-o para longe do poço. Dali a pouco
holofotes potentes foram acesos à sua esquerda, aproximaram-se e de repente pararam.
O rosto de Erlenmar apareceu na tela do hipercomunicador.
— Tudo bem, chefe?
Derbolav sentiu-se aliviado.
— Por enquanto sim, Erlenmar. Vi uma galeria lateral na direção de que venho.
Vamos usá-la para evitar que os acalauries nos detectem através dos poços verticais.
Erlenmar acelerou.
Logo alcançou a galeria lateral, que seguia uns cem metros em linha reta, para
depois descrever uma curva ligeira para a direita, numa inclinação de aproximadamente
cinco graus.
Depois de prosseguir uma hora e meia em boa velocidade, os planadores entraram
num pavilhão retangular, perpendicular à galeria. Dessa galeria partiam galerias amplas
para ambos os lados. Por enquanto os prospectores não se interessaram por elas. Olharam
encantados por um grande portão. Viram uma sala enorme com poços de extração,
máquinas e a plataforma de um transmissor paralisado.
— As galerias são tão grandes que... — cochichou Erlenmar.
Derbolav de Grazia acenou com a cabeça. Sabia o que Erlenmar acabara de afirmar
indiretamente. Entrando com os planadores em uma das galerias de extração, acabariam
chegando ao local em que era extraído o minério de inquelônio.
— Vamos tentar! — exclamou.
Passou cuidadosamente por cima de um poço com o planador e foi reduzindo a
potência do gerador antigravitacional. O outro planador seguiu-o de longe.
Depois de percorrerem cem metros alcançaram o primeiro piso horizontal. Derbolav
levou o planador ao veio horizontal, que era tão largo que nele caberiam até dois
planadores. Seu corte era retangular. Dois trilhos energéticos meio decompostos pelos
gases amoníacos estavam ancorados no chão. A luz dos holofotes do planador deslizou
sobre as paredes marrom-escuras.
De repente Cerf Sidor apontou para a frente, nervoso.
— Olhem! Lá na frente. É minério de inquelônio, chefe!
Derbolav olhou na direção indicada. Os olhos do patriarca brilharam quando viu o
brilho cor de rubi nas paredes. À medida que penetravam no veio, o minério que aparecia
nas paredes era cada vez mais abundante. Os ocupantes dos dois planadores soltavam
gritos para chamar a atenção para as propriedades óticas do minério de inquelônio.
Sidor foi o único que ficou ocupado com outras coisas. Trabalhava obstinadamente
com seu multianalisador, comparando as indicações e murmurando coisas que ninguém
entendia.
Quando Derbolav de Grazia percebeu, cutucou amistosamente o técnico.
— Absorto em números, você nem repara as maravilhas da natureza, Cerf! —
exclamou.
Sidor fitou-o, distraído e alheio a tudo. Derbolav ficou pensativo.
— Que houve, Cerf? Descobriu alguma coisa?
— Descobri — respondeu Cerf. De repente riu. — Não se preocupe, chefe. Não é
nada desagradável. Pelo contrário. O material cor de rubi não é nenhum minério. Trata-se
do metal inquelônio em estado de pureza.
— O quê? — exclamou o patriarca. — Butseh falou no minério de inquelônio.
Cerf Sidor sorriu e acenou com a cabeça.
— Sem dúvida. Acontece que o minério de inquelônio existe praticamente em todos
os lugares do planeta, mesmo na superfície. Comparei os registros que acabo de fazer
com os feitos pelo ressoador de vibrações moleculares desde o momento em que
descemos no planeta. O registro das vibrações moleculares do minério de inquelônio é
quase ininterrupto.
Erlenmar, que acompanhara a conversa pelo hipercomunicador, inspirou
ruidosamente.
— Quer dizer que grande parte da crosta planetária é formada por minério de
inquelônio, chefe!
— Isso mesmo — respondeu Derbolav em tom pensativo. — Já imagino o que os
acalauries vieram procurar aqui e por que se movimentam justamente neste mundo de
alta pressão com tamanha despreocupação. Também estão atrás do inquelônio.
***
Por algum tempo todos ficaram em silêncio. Finalmente Erlenmar perguntou em
tom hesitante:
— O que o senhor disse parece lógico, chefe. Mas o que, pelos espíritos da
montanha, os seres de antimatéria poderão fazer com o inquelônio?
Derbolav de Grazia sorriu.
— Como você certamente sabe, um elemento estruturado com antimatéria só pode
entrar em reação explosiva com o elemento de matéria comum que lhe corresponda
exatamente.
— Naturalmente, chefe. Um prospector que nunca ouviu falar nisso deve...
— Está bem, Erlenmar. Acontece que o inquelônio sem dúvida pertence à série de
elementos altamente pressurizados, também conhecidos como termoelementos altamente
pressurizados de elevado nível de periodicidade, que são muito estáveis. Estes elementos
só se formam nos lugares inacessíveis dos gigantes maiores de Júpiter, cujas condições
não podem ser imitadas em nenhum laboratório. Acho que no lugar de onde vieram os
acalauries não existe nenhum elemento que corresponda exatamente ao inquelônio de
Maverick.
— Compreendi — disse Erlenmar com a voz apagada.
— Fantástico! — exclamou Sidor. — É bastante provável que sua hipótese esteja
certa, chefe. Gostaria de acrescentar outra. Ficamos todos admirados porque as naves dos
acalauries viajam tão despreocupadamente pela atmosfera de Maverick. Quando muito,
nela existem pequenos vestígios de inquelônio.
Como ainda não houve nenhum acidente, conclui-se que o inquelônio, mesmo em
quantidades insignificantes, deve neutralizar a reação destrutiva entre a matéria e a
antimatéria...
Antes que os prospectores que se encontravam nos dois planadores irrompessem
novamente em júbilo, Derbolav fez um alerta.
— Não se regozijem antes da hora. Descobrimos um tesouro de valor incrível, mas
os acalauries o disputarão conosco. Quer dizer que devemos...
O patriarca calou-se e ficou na escuta.
Os microfones externos dos planadores transmitiram uma série de estrondos, vindos
não se sabia de onde. Em seguida houve uma pequena explosão. Depois voltou a reinar o
silêncio.
— Os acalauries estão chegando — cochichou alguém.
— Escutem! — gritou de Grazia. — Não há motivo para entrarem em pânico. Até
agora os acalauries não nos atacaram; quando muito nos molestaram. Desceremos ao
nível mais baixo da mina e ficaremos escondidos numa galeria. Dali poderemos observar
de dentro de nossos equipamentos blindados o que fazem os acalauries.
Ninguém formulou qualquer objeção.
Os planadores voltaram ao poço de extração pelo qual tinham entrado e desceram
cuidadosamente por ele.
Derbolav se perguntou se os geradores e projetores dos poços antigravitacionais
ainda estavam em condições de funcionamento. Isto dispensaria grandes investimentos.
Outra pergunta a ser respondida era como fariam para pedir socorro com os dois
transmissores de grande alcance, sem revelar seu segredo. Pelo que sabia, havia sempre
naves do clã dos Wroxlaw e dos Pfitzner vagando por esse setor desolado dos confins da
área dos blues. O clã dos Grazia precisaria de qualquer maneira de sócios com grandes
recursos financeiros para explorar o inquelônio. Por isso podia-se assumir o risco de a
mensagem ser captada pelas naves dos Wroxlaw ou dos Pfitzner. Os patriarcas dos dois
clãs eram patifes, mas como sócios valiam muito.
O patriarca sorriu discretamente.
Mas no mesmo instante voltou a concentrar-se na direção do planador. Alcançara o
nível mais baixo da mina. O poço abriu-se num pavilhão em forma de disco com cerca de
três quilômetros de diâmetro e cinquenta de altura. Largos canais em V corriam pelo
chão. Eram grotas artificiais de dez a trinta metros de profundidade, nas quais corria lava
derretida. Irradiavam um calor horrível. Os detectores externos marcaram 1.800 graus
centígrados.
O patriarca acelerou um pouco, para aumentar a estabilidade do planador. Só
percebeu quando quase era tarde que havia uma corrente de ar forte e ininterrupta
partindo dos canais de lava, que aqueciam o ar e o empurravam para cima. No último
instante conseguiu sair da corrente. Quando ia gritar um alerta para o piloto do outro
planador, já era tarde.
A reação de Erlenmar talvez só tivesse demorado um segundo mais que a do
patriarca. Este segundo decidiu seu destino e o dos nove companheiros.
Apavorados, Derbolav de Grazia e os ocupantes de seu planador viram o outro
veículo ser atingido pela corrente e arrastado por cima de um profundo canal de lava.
Erlenmar também acelerou para escapar ao perigo. Mas seu veículo desequilibrou-se
sobre o canal de fogo, caindo para a frente. A força dos propulsores instalados na popa
empurrou-o para baixo. Os hipercomunicadores transmitiram um grito rouco quando o
planador mergulhou na lava.
Derbolav ficou imóvel por uns dois segundos. Depois agiu automaticamente,
deixando de lado o pensamento consciente. Acionou os jatopropulsores instalados na
popa do planador e aumentou sua potência. O veículo precipitou-se para a frente,
entrando numa galeria larga de paredes cintilantes.
Para a frente! Sempre para a frente!
Ninguém disse uma palavra. Os prospectores compreenderam por que seu patriarca
fugira do local do acidente.
Deviam ter passado cerca de quinze segundos quando a abertura da galeria atrás
deles se transformou num sol branco-azulado.
Dali a pouco soprou um furacão de fogo, que empurrou o planador e aqueceu a
blindagem de terconite de seu casco a ponto de ficar incandescente.
Derbolav esperou que a tempestade amainasse e fez pousar o veículo, que ficou
firmemente ancorado sobre as colunas de sustentação. Só então os prospectores
perceberam que o chão não estava em repouso, mas ondulava.
— Não percam os nervos! — disse o patriarca. — A tristeza pela morte dos
companheiros não deve deprimir-nos a ponto de não pensarmos claramente. — O
patriarca pigarreou. — Sei que isto não serve para consolar-nos, mas pelo menos não
sentiram dor. Foram mortos pela explosão dos propulsores antes que pudessem ser
queimados.
— Acho que deveríamos voltar, chefe — observou Cerf Sidor. — Maverick é um
monstro. Destruiu nossa nave e é culpado pela morte de cinquenta e dois homens do clã
dos Grazia. Se ficarmos, também acabaremos sendo mortos.
— Tente ser objetivo, Cerf! — disse Derbolav em tom de repreensão. — Um
planeta não é um ser que age propositadamente. Não é bom nem mau.
— Estes são os piores, chefe — afirmou alguém.
A observação provocou um ligeiro sorriso no patriarca, mas ele logo voltou a ficar
sério.
— Parece que a galeria na qual nos encontramos termina lá adiante. Vamos voltar e
ficar parados junto à entrada do grande pavilhão.
— Acho que não é necessário — disse Sidor, que já recuperara o autocontrole. —
Vamos ter visita.
Derbolav examinou as telas da popa e cerrou instintivamente os lábios.
Havia quatro figuras estranhas paradas no poço, trezentos metros no máximo atrás
do planador. Os campos defensivos esféricos escondiam suas formas, ou as distorciam
transformando-os em fantasmas grotescos.
Não havia dúvida: eram acalauries, embora seus campos defensivos não tivessem
quarenta ou cinquenta metros de diâmetro, conforme se dizia. Se o inquelônio exercia um
efeito neutralizante, o tamanho dos campos defensivos podia ser reduzido sem perigo.
— Eles já estão ficando insistentes demais — murmurou Jean Molar-Grazia, tio-avô
de Derbolav e antigo comandante de corsários, que resolvera voltar para junto de seu clã
quando a USO tornou a atividade dos corsários arriscada demais. — Acho que já está na
hora de explicarmos a estes caras que devem dar o fora. Maverick nos pertence.
— Talvez ainda não saibam — respondeu de Grazia em tom sarcástico.
Jean Molar-Grazia resmungou contrariado.
Derbolav de Grazia deu partida no planador. No mesmo instante os quatro
acalauries seguiram adiante. Voaram atrás do planador.
O patriarca não aumentou a velocidade. Sabia perfeitamente que não adiantava
tentar fugir. Podia deixar que. Os acalauries se aproximassem. Mas temia os mal-
entendidos que qualquer movimento pode criar entre os representantes de civilizações e
espécies inteligentes diferentes, transformando o contato numa experiência arriscada.
Depois de alguns quilômetros foi obrigado a parar. A galeria ficou mais estreita e o
rastreador mostrou que não voltaria a alargar-se. Seria inútil tentar abrir caminho com o
desintegrador instalado na proa.
— É o fim da linha! — disse Derbolav com a maior calma possível. — Fechar bem
as armaduras. Vamos desembarcar.
— Você só pode estar brincando, rapaz! — indignou-se Molar-Grazia. — Dentro do
planador poderemos defender-nos muito melhor.
— Tomara que não sejamos obrigados a defender-nos! — respondeu Derbolav em
tom enérgico. — Deixem as armas onde estão! Entendido? Ninguém atirará enquanto eu
não der ordem.
— Formidável! — escarneceu Molar-Grazia. — Por que não nos manda sair nus?
— Saia nu se quiser — retrucou o patriarca em tom gelado. — Será melhor para sua
saúde que contestar-me mais uma vez.
Desta vez Jean Molar-Grazia ficou calado.
Derbolav ligou o suprimento de energia do transmissor de emergência, colocou a
espula codificada com a programação do pedido de socorro universal e apertou a placa
com os dizeres “teleativamento”. O respectivo transmissor de impulsos desapareceu
numa repartição blindada de sua armação.
Enquanto isso os homens tinham saído do planador através da eclusa. Derbolav de
Grazia olhou mais uma vez para as telas de popa. Viu os quatro acalauries parados a
cerca de cinquenta metros de distância. Não se aproximaram; parecia que esperavam que
o outro lado fizesse alguma coisa.
De repente o patriarca estremeceu. Três trilhas energéticas escaldantes saíram do
lugar em que deviam estar seus companheiros. Atingiram os campos defensivos dos
acalauries, mas parecia que não causavam nenhum estrago.
— Seus demônios! — indignou-se Derbolav. — Parem com isso!
O patriarca correu para a eclusa e esperou impaciente que o sistema automático
abrisse a escotilha interna.
Quando saiu, seus companheiros recuavam atirando. Três figuras enfiadas em
armaduras blindadas jaziam no chão, imóveis. Um tiro energético branco-azulado dos
acalauries aproximava-se chiando. Atingiu um dos prospectores. Numa fração de
segundo sua armadura ficou incandescente. O homem que estava nela nem teve tempo de
gritar.
O patriarca cerrou os lábios e pegou a arma intervalar. Pouco importava quem
iniciara a luta. Já não podia ficar neutro.
Ergueu a arma e olhou através da mira reflex. Apertou o acionador quando um dos
acalauries entrou no ponto de interseção das linhas. Uma série de terríveis golpes
energéticos atingiu o acalaurie e sacudiu-o...
Houve descargas violentas em seu campo defensivo. O acalaurie fugiu para salvar-
se. Seus companheiros também recuaram.
Derbolav de Grazia foi para junto dos companheiros. Não recriminou ninguém; era
tarde para isso. Mais uma vez só se ouvira a linguagem das armas durante um encontro
de duas espécies diferentes...
***
— Jean Molar-Grazia morreu em combate — disse Cerf em tom resignado. — Não
foi ele quem atirou primeiro. Foi Puslo Latner. Puslo também foi morto.
— Isso não importa mais — disse Derbolav de Grazia. — O que importa é que
perdemos a luta por Maverick no momento em que a iniciamos. Talvez devesse ter
explicado isto antes. Os acalauries voltarão. Não teremos a menor chance. Nem dez ou
cem ou mil homens seriam capazes de enfrentar uma frota de trinta naves.
O patriarca levantou o transmissor de impulsos e apertou um botão vermelho.
— Acabo de ativar o potente hipertransmissor de emergência do planador — disse
com a voz apagada. — Está irradiando um pedido de socorro universal. Qualquer um que
o receber saberá imediatamente de onde vem, quem o enviou e por quê.
— Mas... — balbuciou Sidor. — É possível que as naves do Imperador Argyris...
— Ou as da USO — completou Derbolav. — Já está na hora de vocês
reconhecerem que estamos numa situação desesperadora. Precisamos de auxílio, de
auxílio imediato e eficiente. Não se iludam. A esta hora as naves da USO são as únicas
que podem prestar-nos este auxílio rápido e eficiente.
O patriarca apontou para a galeria que ia se estreitando.
— Até que chegue o auxílio, se é que ele chegará, vamos ficar escondidos. Já
morreu gente demais.
Enfiado em sua armadura blindada, Derbolav entrou na galeria que nem uma
máquina. Era claro que no planador estariam mais bem protegidos, mas o veículo poderia
transformar-se numa armadilha mortal se os acalauries usassem armas mais fortes.
Quando tinham percorrido cerca de duzentos metros, Derbolav de Grazia descobriu
uma galeria lateral. Resolveu seguir por ela. Saiu correndo. O mecanismo hidráulico de
sua armadura funcionava perfeitamente, dando-lhe a impressão de que estava enfiado
num traje espacial leve. Mas apesar disso a atmosfera densa impedia os movimentos. O
patriarca ficou ofegante. Ouviu a respiração pesada dos companheiros pelo radiocapacete.
De repente a galeria ficou mais larga. Derbolav deparou-se com um túnel amplo de
cerca de dez metros de altura e quinze de largura. Parecia ser um espaço oco natural, pois
as paredes eram irregulares. Grossas protuberâncias brilhantes cor de rubi feitas de
inquelônio puro refletiam a luz dos faróis. De vez em quando havia elevações
concêntricas espalhadas no chão. Parecia que há tempos o inquelônio derretido subira
desse lugar através de canais de erupção. O teto do túnel era de um material cintilante
diferente. Este material arrebentara há pouco tempo, segundo parecia, pois as peças
caídas ao chão ainda não tinham sido atacadas pelo amoníaco. Em algumas delas havia
engastes de inquelônio.
Os prospectores avançaram apressados. Derbolav de Grazia se perguntou aonde os
levaria a galeria. Ainda não se via o fim dela.
Tinham caminhado cerca de um quilômetro quando os acalauries voltaram a
aparecer atrás deles. Derbolav contou-os. Eram dezoito figuras fantásticas envoltas em
campos defensivos luminosos. Olhou para trás. No lugar em que se encontravam havia
muitos lugares em que podiam abrigar-se. Mas adiante a situação seria menos vantajosa.
— Espalhem-se! — decidiu. — Protejam-se, deixem que os acalauries cheguem
mais perto, apontem bem e atirem.
Os prospectores espalharam-se. O patriarca deitou atrás de uma elevação. Teve de
esforçar-se um pouco, uma vez que a armadura blindada era rígida, com exceção das
juntas dos braços e das pernas. Levantar seria ainda mais difícil.
Os acalauries aproximaram-se voando devagar. Ainda estavam a cem metros
quando de Grazia deu ordem de abrir fogo.
Seis armas energéticas despejaram seus raios escaldantes concentrados contra os
perseguidores. Dois acalauries recuaram quando seus campos defensivos tremeram. Os
outros responderam ao fogo.
Derbolav ouviu alguém gritar perto dele. O chão aqueceu-se perto dele, mas não
chegou a derreter. Nem mesmo as potentes armas energéticas dos acalauries eram
capazes de atacar o inquelônio.
Dentro de alguns minutos os acalauries recuaram. Mas o preço pago pela vitória foi
muito elevado. Dos seis prospectores só restavam três.
Derbolav de Grazia deu ordem para que também se retirassem. Ele, Sidor e outro
prospector levantaram a muito custo e correram para as profundezas do túnel. De repente
estacaram. Até parecia que tinham esbarrado numa muralha invisível.
Havia oito acalauries parados à sua frente.
Derbolav virou a cabeça e empalideceu.
Os estranhos seres também se aproximavam de trás. Um dos prospectores atirou —
e morreu dentro de um segundo. Derbolav respirou profundamente.
— Vamos acabar com isso! — exclamou, tremendo de raiva.
Atirou a arma para os acalauries, levantou as mãos e saiu caminhando devagar em
direção do desconhecido que estava mais perto.
— Recomendo que faça a mesma coisa, meu chapa! — disse ao outro sobrevivente.
— Tomara que seja o certo, chefe — respondeu Sidor. Mais uma arma energética
caiu ruidosamente no chão.
Derbolav de Grazia parou a poucos metros do acalaurie.
Baixou os braços. Os acalauries não estavam atirando mais. Grazia compreendeu
que os mortos não passavam de vítimas de um engano cruel.
Mas havia um longo caminho a percorrer entre o armistício e o entendimento final.
Como comunicar-se com seres que eram obrigados a evitar o contato imediato com seu
universo?
Até parecia que o desconhecido adivinhara os pensamentos do patriarca. Seu campo
defensivo apagou-se de repente.
Derbolav prendeu a respiração.
Deparou-se com um ser de tronco esférico,
enfiado num traje prateado brilhante. Apoiava-se sobre
três pernas. Parecia que duas delas serviam para a
locomoção, enquanto a terceira, que ficava atrás da
outras, dava a impressão de ser rudimentar e atrofiada.
Os braços eram longos e havia cinco dedos em cada
mão.
Mas o mais estranho era a cabeça. Era semi-
esférica, parecida com a dos halutenses, mas ao
contrário desta a superfície plana ficava em cima,
enquanto a terça parte da face inferior, abaulada, ficava
escondida numa abertura do tronco.
O acalaurie fez sair a cabeça um pouco. A superfície plana inclinou-se na direção de
Derbolav. O patriarca viu quatro órgãos visuais dispostos em quadrado, com uma
membrana pulsante no meio, que talvez fosse a cobertura da boca. Havia dois pedaços de
pele e cartilagem pendurados, com pequenas aberturas. Deviam servir à percepção
acústica.
É claro que tudo isso deixou de Grazia fascinado, pois ele e Sidor eram os primeiros
seres humanos que viam diretamente um acalaurie.
Mas o que o deixou mais intrigado era saber como o desconhecido podia suportar
sem traje espacial ou campo defensivo a tremenda gravitação de Maverick e a terrível
pressão da atmosfera venenosa. Um homem nestas condições teria morrido numa fração
de segundo.
Derbolav estremeceu ao ouvir um gemido e um
estrondo forte atrás dele. Levantou os olhos para
enxergar através do pequeno espelho retrovisor. Cerf
Sidor estava estendido no chão de pedra. Devia ter
desmaiado. Derbolav ia virar-se, quando o técnico
gemeu.
— Que houve, Cerf? — perguntou de Grazia.
— Nada de grave — cochichou Sidor. — Já
estou melhor.

O patriarca respirou aliviado. Voltou a


concentrar-se no acalaurie. Ativou a máquina
tradutora instalada em sua armadura.
— Já está na hora de conversarmos, menino —
disse num acesso de humor macabro. — Vamos, fale
com o papai, para que a tradutora positrônica receba
o material comparativo.
O acalaurie não respondeu. Em compensação
enfiou a arma estranha numa espécie de coldre
metálico, exibindo as palmas das mãos vazias ao ser
humano que se encontrava à sua frente. Era um gesto
cujo sentido era compreendido em qualquer lugar do Universo em que havia seres
inteligentes que conheciam os conceitos de luta e de paz. Cerf Sidor voltou a levantar.
O acalaurie estendeu o braço, apontou para as paredes nas quais aparecia o
inquelônio, pegou um pedaço do elemento que se desprendera, segurou-o nas duas mãos
e encostou-o ao corpo.
Derbolav de Grazia quis soltar um grito de alerta, mas a voz não lhe saiu da
garganta. Não houve qualquer reação. Era a prova que faltava.
Os acalauries precisavam do inquelônio porque o respectivo antielemento não
existia em seu universo. O patriarca compreendeu de repente as possibilidades que isso
representava. Bastaria transformar o inquelônio em blindagens ou colocar uma camada
finíssima do elemento sobre um traje comum para evitar qualquer reação explosiva entre
matéria e antimatéria. Os seres humanos estariam relativamente seguros no universo dos
acalauries e vice-versa.
Com isto abriam-se tremendas perspectivas.
— Hum! — fez de Grazia. — O que poderei fazer para que vocês compreendam
que entendi perfeitamente o que querem dizer, mas que o inquelônio não lhes pertence...?
O patriarca ainda estava refletindo, quando os acalauries começaram a mexer-se.
Alguma coisa parecia tê-los deixado nervosos. O desconhecido que estava à frente de
Derbolav jogou fora o pedaço de inquelônio, ligou o campo defensivo e voou atrás do
companheiro que fugia apressadamente.
De repente os dois prospectores ficaram sós.
5

A Intersolar e a Imperador voavam calmamente lado a lado à frente do grupo de


naves de guerra. Um total de quinhentas espaçonaves da USO e da Frota Solar —
conhecida oficialmente como a Frota Imperial de Sua Majestade Anson Argyris —
tinham saído do semi-espaço há trinta minutos. Atrás delas brilhava o sol alaranjado
Pash, enquanto à sua frente o planeta gigante Maverick se abaulava nas telas de imagem.
— Tem certeza de que os pedidos de socorro dos prospectores vêm de Maverick?
— perguntou Rhodan ao chefe do setor de rádio da Intersolar, Major Donald Freyer.
— Certeza absoluta, senhor — respondeu Freyer enfaticamente. — Além disso há
interferências que indicam que o hipertransmissor deve encontrar-se pelo menos mil
metros abaixo da superfície.
O Administrador-Geral acenou com a cabeça e interrompeu a ligação com a sala de
comando. Virou o rosto para o hipercomunicador em atividade, cujo cubo de trivídeo
mostrava o rosto e o busto de Atlan.
— Parece incrível, amigo — murmurou. — O patriarca Derbolav deve ser mesmo
um sujeito audacioso, ou então dispõe de excelentes equipamentos.
— A humanidade produziu muitos indivíduos desse tipo — respondeu o arcônida
em tom irônico. — Já chegou a uma conclusão?
Rhodan sorriu.
— Naturalmente. Teremos de libertar de Grazia da situação delicada em que se
encontra. Daqui a pouco chegarei aí pelo transmissor. Acho que você não se opõe a que
pousemos em Maverick com a Imperador.
Atlan deu uma risada áspera.
— Quem seria capaz de recusar um pedido seu? Até logo mais.
— Até logo mais — murmurou Perry Rhodan em tom pensativo.
Dali a quinze minutos entrou na sala de comando da Imperador. Usava um traje de
combate da Frota Solar, com ó escudo do Imperador Argyris do lado esquerdo do peito.
Havia uma máscara de bioplástico em seu rosto, para que as pessoas de fora não
pudessem indentificá-lo.
Enquanto isso as naves de guerra cercaram o planeta Maverick. Seis delas
permaneceram pouco acima da atmosfera. Tratava-se de unidades especiais. Levaram
apenas alguns minutos para criar um túnel paratron de três mil metros de diâmetro, que se
estendia até a superfície do planeta, oferecendo proteção contra a atmosfera de alta
pressão.
A Imperador entrou cuidadosamente no túnel.
De repente a Intersolar deu o alarme. A Imperador voltou ao espaço livre. Rhodan e
Atlan acompanharam os resultados do rastreamento transmitidos pela Intersolar.
O Major Ataro informou que três espaçonaves acalauries protegidas por esferas
energéticas acabavam de sair em alta velocidade da atmosfera de Maverick. Ao que
parecia, queriam fugir. Indagou se deviam ser detidas.
Rhodan deu ordem para que os acalauries fossem deixados em paz. Dali a pouco
outras bolhas luminosas gigantescas saíram do oceano de ar do planeta infernal. Foram
trinta ao todo. Depois ficou tudo quieto. Os acalauries aceleraram e desapareceram.
O Lorde-Almirante Atlan franziu as sobrancelhas. Parecia pensativo e preocupado.
— Gostaria de saber o que levou os prospectores e os acalauries a se encontrarem
justamente neste mundo infernal — disse.
Rhodan ficou com o rosto impassível.
— Acho que devemos pousar logo e perguntar a de Grazia.
A Imperador voltou a entrar no túnel paratron. Pousou sem incidentes na superfície
de Maverick. Depois disso o túnel paratron foi desativado. A atmosfera de alta pressão
rugiu ao bater no casco de terconite do ultracouraçado, mas não lhe causou nenhum dano.
Comandos de robôs e grupos-tarefa abrigados em planadores saíram da nave.
Sobrevoaram o enorme oceano de fogo e dirigiram-se ao lugar de onde tinham vindo os
pedidos de socorro. Voltaram dentro de duas horas.
Atlan examinou as imagens transmitidas pelo grupo. Viu-se que os grupos de
resgate escoltavam um único planador. O arcônida não disse nada, mas ele e Rhodan
entreolharam-se demoradamente.
Os planadores desse tipo tinham sido fornecidos exclusivamente à Frota Solar e à
Frota da USO. Como se explicava que os prospectores galácticos tivessem posto as mãos
num veículo desse tipo...?
— Conduza os prospectores à pequena sala de conferência! — ordenou o arcônida
ao chefe do grupo-tarefa.
Quando entrou na sala ao lado de Perry Rhodan, Derbolav de Grazia e Cerf Sidor
estavam sendo introduzidos nela. Os prospectores usavam trajes espaciais negros.
Pareciam física e psiquicamente exaustos e deixaram-se cair nas poltronas que lhes foram
oferecidas. Aceitaram agradecendo um copo de uísque.
— Usam trajes blindados hiperenergéticos, Lorde-Almirante — cochichou o chefe
do grupo-tarefa. — E armas intervalares terranas. Nos planadores encontramos grande
quantidade de equipamentos da Frota terrana.
O rosto de Atlan assumiu uma expressão sombria. Cruzou os braços sobre o peito e
aproximou-se dos prospectores.
— Continuem sentados! — disse em tom zangado. — Já me conhecem?
— O senhor é o Lorde-Almirante Atlan — respondeu Derbolav. — Eu sou o
patriarca de Grazia... — Derbolav apontou para o companheiro — ...e este é o técnico de
medições Sidor.
Muito obrigado pela ajuda. Veio literalmente no último instante, apesar de...
O patriarca interrompeu-se e cerrou os lábios, dando a impressão de que tinha medo
de contar o que não devia.
— Este senhor é o Conde Panotrel, comandante de uma das naves de Sua Majestade
Imperial Anson Argyris — disse Atlan e apontou para Rhodan. — Isto apenas para sua
orientação. Contem o que houve! O que estavam fazendo em Maverick? O que os
acalauries foram fazer lá? E como se explica que os equipamentos da Frota Imperial
estejam em seu poder?
Derbolav de Grazia baixou a cabeça. Depois de algum tempo encarou o Lorde-
Almirante.
— O destino me impôs um castigo cruel, senhor — murmurou, arrasado. — As
coisas não poderiam ter sido piores. Serei sincero.
— Meus parabéns — retrucou o arcônida. — Fale!
Derbolav de Grazia falou...
Quando contou como fora o furto em Angerook, Perry Rhodan sorriu. Nunca ouvira
uma coisa destas. Começou a simpatizar com o patriarca, que demonstrava uma
franqueza comovente.
Mas Atlan se fez de zangado. Esbravejou durante alguns minutos e só depois deixou
que Derbolav contasse o resto da história.
Depois disso o interrogatório foi suspenso. Os dois homens resgatados estavam
exaustos. Concordaram prontamente em entregar a Atlan os planos do prospector Pray
Butseh, que tinha morrido, e deixaram que os levassem à clínica da nave, onde os
médicos da USO cuidaram deles.
Rhodan e Atlan entreolharam-se depois que os prospectores tinham saído.
O arcônida sacudiu a cabeça.
— Um metal que não tem nenhum correspondente no universo de antimatéria, além
de exercer um efeito neutralizante sobre as coisas que se encontram por perto... Que coisa
fantástica, Perry!
— É exatamente o que precisamos — respondeu o Administrador-Geral.
O arcônida riu.
— Não é a primeira vez que ouço estas palavras de sua boca — disse em tom seco.
— Este prospector e você têm uma semelhança surpreendente.
— Somos ambos seres humanos — retrucou Rhodan laconicamente.
***
— Major Elron Daghete, senhor! — apresentou-se um oficial da USO de estatura
alta, quando Rhodan e Atlan entraram no planador.
Perry Rhodan examinou o rosto do homem. Era absolutamente humanóide, mas
havia um brilho azulado em seus olhos.
— O senhor é imranense, major? — perguntou o Administrador-Geral sorrindo.
Daghete retribuiu o sorriso.
— Sim, senhor. Meus antepassados emigraram da Terra há mil e cem anos. Há oito
gerações nossa família envia os filhos mais velhos à Academia da USO.
Rhodan cumprimentou-o com um gesto amável e sentou na poltrona que lhe foi
indicada. Atlan estava sentado perto dele, enquanto o Major Elron Daghete ocupava a
poltrona do outro lado.
O planador superpressurizado ultrapesado estava saindo do hangar da eclusa para
penetrar na atmosfera de Maverick, quando o major iniciou seu relato.
— As investigações realizadas por nossos comandos especiais revelaram que os
prospectores só descobriram um setor da mina desativado há muito tempo. Como já
informamos, em outro setor foram encontrados os cadáveres de trinta blues e cerca de
quatro mil tefrodenses.
Atlan acenou com a cabeça.
— Foi possível verificar se os tefrodenses eram prisioneiros de guerra capturados
durante os conflitos entre os blues e os tefrodenses de Andrômeda que invadiram o Setor
Eastside?
— Não, senhor. Pelo menos não com cem por cento de certeza. Mas existem vários
indícios nesse sentido, como o fato de pertencerem à mesma faixa etária, além dos
equipamentos que usavam. Os tefrodenses eram escravos dos blues. Talvez fossem
também especialistas de grande capacidade. O fato é que se rebelaram. Houve lutas. O
centro gerador principal explodiu. Os campos defensivos apagaram-se no mesmo
instante. O sistema de climatização deixou de funcionar. Os elevadores antigravitacionais
falharam. A superfície arrebentou em cima do foco da explosão. Os tefrodenses e os
blues morreram todos, em sua maioria por causa da penetração da atmosfera de alta
pressão, mas alguns por asfixia ou por causa da explosão.
O major interrompeu-se ao ver a falha estrutural que surgiu na gigantesca cúpula
energética que se estendia sobre as entradas da mina. O planador, que atravessara três
eclusas energéticas, encontrava-se numa atmosfera artificial de nitrogênio com duas
atmosferas-padrão terranas de pressão. Por enquanto achavam que seria muito arriscado
criar uma atmosfera de oxigênio. O perigo da formação de misturas gasosas explosivas
em virtude de eventuais falhas técnicas seria muito grande.
Mas a gravitação de Maverick continuava a produzir seus efeitos. Por isso os
homens resolveram ficar no planador.
O veículo seguiu em direção a uma das galerias e entrou no gigantesco túnel
horizontal. Quando alcançou o terceiro pavimento do subsolo surgiu uma luz de
sinalização à sua frente. O planador desviou-se para a direita e entrou numa galeria
semicircular. Era a primeira vez que o Administrador-Geral e o Lorde-Almirante viam
instalações bem conservadas em Maverick. A galeria tinha cerca de duzentos metros de
largura. Colunas fortes protegiam-na contra as massas de rochas que ficavam em cima
dela. Em toda parte se viam veículos robotizados. Os faróis de emergência iluminavam o
submundo.
— Que é isso? — perguntou Atlan, apontando para as paredes de rocha cintilantes.
— Minério de inquelônio, senhor — respondeu o major. — Contém cerca de dez
por cento de inquelônio puro. O minério brilha em todas as cores do arco-íris, mas o
metal inquelônio é de cor vermelho-rubi.
Depois de vinte minutos o planador entrou numa galeria secundária. Dali a pouco os
homens depararam-se com pesadas máquinas de extração. Estavam paradas.
O que mais prendeu a atenção de Rhodan e Atlan foi o brilho cor de rubi da frente
de trabalho.
— Aqui os blues extraíam inquelônio puro, senhor — explicou Elron Daghete.
Rhodan acenou com a cabeça.
O Administrador-Geral voltou ao poço vertical, desceu dois pavimentes e entrou
num setor protegido por escotilhas. Estas tinham sido despedaçadas, mas via-se
perfeitamente que nesse lugar tinham sido realizados ensaios de laboratório com o
inquelônio.
Um homem que usava traje blindado com equipamento ultragravitacional piscou o
farol. O Major Daghete freou e fez pousar o planador.
— Sou o Primeiro-Tenente Especialista Mergenbach! — disse a voz saída do
hipercomunicador. — O Lorde-Almirante Atlan está aí?
— Atlan falando — respondeu o arcônida. — Que houve, tenente?
— Tenho uma microfita sonora, senhor. Pertencia a um cientista tefrodense
chamado Hergon Etran. Etran morreu, mas na fita está gravado um verdadeiro tesouro de
dados a respeito do inquelônio.
— Suba a bordo! — decidiu Atlan depois de refletir um pouco.
Dali a alguns minutos Mergenbach entrou na sala de comando do planador. Deixara
o desajeitado traje blindado na câmara da eclusa. Usava um traje espacial muito simples.
Atlan recebeu a cápsula pressurizada com a microfita e abriu-a. Pesou a fita na mão.
— Já ouviu a gravação, tenente?
Mergenbach respondeu que não.
— Mandei analisá-la por um robô analista. Foi a máquina que forneceu as
informações. O senhor deu ordem para que ninguém examinasse qualquer dado
importante por conta própria, senhor.
O Lorde-Almirante sorriu numa manifestação de elogio.
— Ainda bem que se lembrou, tenente. Pode ficar aqui.
Atlan dirigiu-se ao amigo.
— Como é? Vamos voltar à Imperador?
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça. Imaginava que Atlan estava ansioso
para examinar os dados deixados pelo cientista tefrodense. Não podia ser de outra forma.
***
No dia seguinte, em 24 de maio de 3.432, já se dispunha da interpelação dos dados
gravados na fita e dos outros elementos.
Aqueles que participavam diretamente da operação compreenderam que a jazida de
inquelônio não era importante apenas do ponto de vista científico; representava um fator
político de alcance supergaláctico.
O inquelônio era um elemento de categoria superior, sem igual no setor dos
transurânios artificiais. Era bem possível que o respectivo antielemento não existisse no
universo dos acalauries.
Perry Rhodan fez uma conferência com Atlan e os cientistas das naves-capitânias
Imperador e Intersolar. Em seguida deu ordem para que os dois prospectores que tinham
sobrevivido voltassem à sua presença para serem interrogados.
Derbolav de Grazia e Cerf Sidor estavam perfeitamente recuperados. Além disso
pareciam ter readquirido o equilíbrio psíquico. O patriarca protestou contra sua prisão e
exigiu que o levassem ao seu planeta-base.
O Lorde-Almirante ouviu o protesto com o rosto impassível e respondeu em tom
frio:
— Ninguém o obriga a ficar a bordo desta nave, de Grazia. Se quiser ir embora,
fique à vontade...!
Derbolav sorriu embaraçado.
— Deixemos isso de lado, Lorde-Almirante. Só queria ressaltar que o planeta
Maverick não pertence à USO nem aos livre-mercadores do Imperador Argyris.
Perry Rhodan, que continuava a usar o disfarce de Conde Panotrel, pigarreou.
— Não seja arrogante, prospector! O Sistema Pash e o planeta Maverick pertenciam
à área de soberania do Império Solar. Só por engano consta dos catálogos como
pertencendo à área dos blues. Tomamos a liberdade de reparar um erro. O Imperador
Argyris, como herdeiro de Perry Rhodan que é, tem direito ao Sistema Pash.
Derbolav ficou ofegante.
— Isso é um roubo! — gritou furioso.
O Administrador-Geral sorriu ligeiramente.
— Acha que foi um roubo, patriarca...? O senhor quer me obrigar a lembrar-lhe o
que aconteceu no depósito da Frota Imperial em Argerook?
— Dizem — observou Atlan com o rosto sombrio — que em Olimpo os ladrões são
esquartejados...
— O que aconteceu em Angerook não foi nenhum roubo — defendeu-se Derbolav
de Grazia em tom indiferente. — Pelos espíritos das montanhas! Alguns planadorezinhos
e uns equipamentos inúteis. Quando muito foi uma espécie diferente de roubo famélico.
Perry Rhodan cravou os dedos nas braçadeiras da poltrona para não irromper numa
gargalhada. Gostava cada vez mais do patriarca. Naturalmente infringira a lei, mas quem
poderia, nesses tempos em que campeava a injustiça e a opressão, condenar um ser
humano pelo simples fato de ter “tomado de empréstimo” para uma expedição alguns
objetos que existiam em grande abundância nos depósitos da Frota Solar?
Atlan ficou vermelho, respirou profundamente e disse em tom de ameaça:
— Aquilo que o senhor chama de furto famélico alcançou objetos no valor de
exatamente trezentos e noventa e oito milhões de solares, patriarca de Grazia.
O arcônida atirou uma lista sobre a mesa.
— Confira e diga quando e como pretende pagar sua dívida!
Derbolav cocou a cabeça e pegou a lista.
Não era necessário examiná-la. O patriarca sabia perfeitamente que espécie de
materiais tinha tirado do depósito de Angerook e quanto valiam. Mas fez de conta que
examinava atentamente cada item. Assim ganhava tempo para elaborar sua tática.
— Hum! — disse depois de algum tempo e levantou os olhos. — Quero fazer uma
proposta, Lorde-Almirante.
— É o que estou esperando o tempo todo.
O rosto de de Grazia abriu-se num sorriso. Falou devagar, enfatizando cada palavra.
— Tirei uma coisa pertencente aos senhores. Pelo menos parece que representam os
interesses do Imperador Argyris. Em compensação possuo uma coisa de que os senhores
precisam: o planeta Maverick. Peço-lhe que a questão da posse seja discutida com os
blues, Lorde-Almirante.
“Como homem estou disposto a fazer grandes sacrifícios, desde que eles revertam
em benefício da humanidade. Por isso estou disposto a ceder o planeta de inquelônio por
uma quantia simbólica, acrescida de uma pequena participação nos resultados da
exploração...”
— A quantia simbólica a que se refere é de digamos noventa e oito milhões de
solares? — perguntou Rhodan.
— Isso mesmo! — exclamou Derbolav fingindo-se de admirado. — Como
adivinhou, conde?
O arcônida engoliu em seco e fez uma cara de quem tinha tomado vinagre puro.
Rhodan piscou os olhos para ele, e Atlan soltou um suspiro resignado.
— Muito bem, Patriarca Derbolav — disse. — Compensaremos o preço pretendido
como valor dos... bem, dos objetos comprados sem dinheiro. Além disso ofereço uma
participação de um por cento do resultado da exploração do minério de inquelônio do
planeta Maverick. Não tente regatear. Um por cento é muito dinheiro para o senhor.
Nunca mais terá de... — O arcônida pigarreou. — Deixe pra lá. Concorda?
Atlan estendeu a mão para o patriarca, e este a apertou. Derbolav também apertou a
mão do Administrador-Geral e brincou, pedindo que transmitisse seus cumprimentos ao
Imperador Anson Argyris.
Atlan voltou a pigarrear.
— Permitam, senhores, que eu os acompanhe à nave que os levará ao planeta-base
do clã dos Grazia — disse aos dois prospectores.
Dali a trinta minutos Atlan e Rhodan voltaram a encontrar-se na sala de comando da
Imperador.
— Tomara que de Grazia e Sidor não falem com ninguém sobre o planeta de
inquelônio — disse Atlan em tom preocupado.
Perry Rhodan sacudiu a cabeça sorrindo.
— Nem pensarão nisso, amigo. A participação nos resultados da exploração do
inquelônio os transformará em bilionários. Um bilhão de solares são uma boa quantia
para ficarem calados.
— Você tem razão, Perry — respondeu Atlan zangado. — Não precisaríamos ter
pago um solar. Afinal, usaram material de propriedade do Império Solar na expedição.
Além disso Maverick não é nenhuma terra de ninguém. Não vejo motivo para pagarmos
alguma coisa para ficarem calados.
O Administrador-Geral sorriu e olhou com uma expressão pensativa para as telas da
galeria panorâmica, nas quais ainda se via a atmosfera turbulenta do planeta infernal.
Eles, os imortais, entendiam-se muito bem, embora fossem de mentalidades
diferentes. Nem sempre fora assim.
Os dois levantaram os olhos à entrada de um especialista em metais pressurizados.
O Professor Dr. Erik Murech exibiu a palma da mão aos dois homens mais importantes
da galáxia. Nela se via uma pequena placa de inquelônio puro.
— Descobrimos um meio de processá-lo — informou. — Se conseguirmos colocar
um revestimento de inquelônio em trajes espaciais, os homens poderão descer num
planeta de antimatéria sem correr maiores perigos.
— Também poderiam ficar numa espaçonave de antimatéria — completou Atlan
em tom enfático.
— De qualquer maneira deixarei aqui um grupo de quinhentas naves — disse
Rhodan em voz baixa. — Os acalauries voltarão. Tenho certeza. Ao que tudo indica não
estão interessados numa guerra cósmica. Mas devem estar em situação difícil, senão não
correriam tão desesperadamente atrás do inquelônio.
O Administrador-Geral respirou profundamente.
— Seres de antimatéria... — disse de si para si. — Talvez uma galáxia, ou um
universo de antimatéria...! Um dos maiores mistérios do Universo está para ser
desvendado!

***
**
*

O prospector Derbolav de Grazia prestou um


grande serviço à humanidade, descobrindo a mina de
inquelônio. Logo se verá como é importante o novo
elemento.
Mas antes de continuar a explorar este tema,
haverá uma volta para trás. O espírito do Lorde-
Almirante Atlan — estimulado por acontecimentos
caóticos — lembrar-se-á dos dias de loucura. O cérebro
suplementar do arcônida obriga-o a relatar o que
aconteceu.
Este relato aparecerá sob o título de Corrida
Amok dos mutantes, que é também o título do próximo
volume da série Perry Rhodan.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br