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(P-409)

O HOMEM QUE
MORREU DUPLAMENTE

Autor
CLARK DARLTON

Tradução
AYRES CARLOS DE SOUZA

Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
(De acordo, dentro do possível, com o Acordo Ortográfico válido desde 01/01/2009)
No Sistema Solar, que desde o “Dia Laurin” foi trasladado
em cinco minutos para o futuro, e por isso se tornou invisível e
não existente para o restante do Universo, os calendários
registram meados de junho do ano 3.432.
No interior do Sistema Solar — agora também chamado de
“Sistema Ghost” novamente reina a paz. O comércio com o
planeta Olimpo, que é efetuado pela eclusa do tempo, transcorre
totalmente conforme os planos. Sim, pode-se dizer mesmo que os
negócios interestelares e intergalácticos estão simplesmente
florescendo.
Menos rósea é a situação das grandes potências galácticas
que fazem parte da Coalizão Anti-Solar. Nas suas fileiras as
coisas estão fervendo, e o surgimento dos acalauries, as
misteriosas criaturas de antimatéria, agita os ânimos por toda
parte.
Muito pior, entretanto, é a atividade de Ribald Corello na
galáxia. O supermutante, que ninguém até agora chegou a ver,
parece odiar a Humanidade profundamente. Morte e caos são os
rastos que Ribald Corello deixa atrás de si.
O supermutante dedica especial atenção ao Império Solar.
Nascido de uma ligação entre um mutante louco com uma garota
anti, ele persegue o objetivo de se tornar soberano pela força de
toda a galáxia — mas para isto primeiramente terá que riscar do
Universo Perry Rhodan e os seus terranos.
Corello vê uma chance de transformar em realidade a sua
atividade infame. Como colaborador involuntário serve-lhe “O
Homem que Morreu Duplamente”...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Ivan Ivanovitch Goratchim — Um homem luta contra um
exército.
Capitão Steral Skopins — Oficial da Contra-Espionagem no
planeta Anchorot.
Ribald Corello — Verdugo da Humanidade.
Sacon Hashey — Fiel servo de Ribald Corello.
Galbraith Deighton — Sucessor de Allan D. Mercant.
Ranchold — Caçador de twiesels no planeta Anchorot.
Gucky — O rato-castor é enganado.
1

No anel central da galáxia, as estrelas se agrupavam numa densidade maior que em


qualquer outro lugar. Uma distância de um ou dois dias-luz não era nenhuma raridade e
às vezes elas ficavam até mais próximas. Deste modo acontecia que no planeta Anchorot
as noites sem nuvens eram dez vezes claras que as mais claras noites de lua cheia na
Terra. Quando se olhava para cima, para o céu semeado de estrelas, dificilmente podiam-
se ver o escuro do cosmo, tanto o mesmo era clareado pelos muitos milhares de sóis, dos
quais muitos não ficavam mais que dez anos-luz uns dos outros.
Neste mundo, a uma distância de 23.370 anos-luz da Terra, vivia Ranchold, o
caçador. Quando à noite o sol Tay-Labo se punha, começava o seu trabalho, a caça à
doninha, chamada twiesel.
Ranchold assegurou-se de que a sua arma energética de agulha estava carregada
corretamente, travando-a. A sua vida dependia de que a arma estivesse pronta para atirar
numa fração de segundo. Tão valiosa como era uma pele de twiesel, tão perigosos
também eram esses animais. Eles só existiam em Anchorot e em nenhuma outra parte na
galáxia.
— Não volte para casa muito tarde — pediu-lhe Carmin, sua mulher. — Amanhã
terá que acordar cedo para me ajudar no jardim. A cerca precisa ser consertada e algumas
árvores têm que ser cortadas.
Ranchold riu e beijou sua jovem e bonita mulher, em despedida.
— Não se preocupe, estarei de volta cedo. Só vou dar uma olhada nas armadilhas,
para ver se pegaram alguma coisa. Se possível, naturalmente um twiesel. Precisamos de
dinheiro, caso contrário vamos ter que cancelar a viagem para Charota. Até logo, querida.
Ele ainda acenou-lhe uma vez e desapareceu no mato baixo da floresta próxima.
Carmin ficou olhando atrás dele, depois voltou para dentro da casa de troncos.
Ranchold ainda tinha que sorrir, ao pensar nas pequenas preocupações de Carmin.
Sua preocupação principal era sobreviver aqui. Anchorot era um planeta selvagem,
somente descoberto e colonizado há pouco tempo, e que pertencia à Comunidade de
Interesses da Coalizão Ross. Os dois milhões de habitantes, em sua maioria caçadores de
peles, lavradores e comerciantes com suas mulheres, eram descendentes de terranos, que
há muitos séculos atrás tinham abandonado a Terra. Agora eles tinham vindo para
Anchorot, este planeta paradisíaco coberto de florestas virgens, cheio de contrastes.
Havia desertos extensos, inúmeros lagos e rios, grandes mares, continentes e ilhas.
— Talvez não vamos ficar ricos — dissera na ocasião o primeiro dirigente da
colônia, e suas palavras ainda valiam hoje. — Mas nós seremos livres. Um mundo inteiro
nos pertence, e jamais os caçadores cósmicos possuíram um mundo melhor.
Cautelosamente Ranchold aproximou-se da primeira armadilha, um refinado
sistema intrincado de autômatos de campos energéticos. O gatilho reagia somente aos
intensos impulsos cerebrais de um twiesel. Uma vez na armadilha, não havia mais
possibilidade do animal forte escapar. Um choque elétrico o matava, sem causar-lhe dor.
A armadilha estava vazia.
— Eles estão diminuindo — murmurou Ranchold, decepcionado. — Talvez eles
estejam lentamente recuando para as montanhas, onde não costumamos ir com tanta
frequência. Acho que deveríamos pensar se não seria conveniente criá-los.
Mas então ele pensou em Carmin e sacudiu a cabeça. Ele já lhe exigia muito, ao
fazê-la morar na borda de uma floresta virgem, a cinquenta quilômetros de distância da
única cidade de Anchorot.
Claro, a gente podia designar Charota, de sã consciência, como uma cidade, apesar
de se tratar apenas de um ajuntamento gigantesco de casas construídas aleatoriamente —
quase sempre de madeira, que aqui existia em profusão. Cada um construíra como bem
queria. Com muito custo fora possível deixar livres algumas ruas, nas quais corria o
parco tráfego. Aqui moravam sobretudo os comerciantes que lucravam com o trabalho
dos caçadores. Mas também havia bares, hotéis e casas de férias. Muitos caçadores
passavam suas férias, junto com a família, na cidade. Afinal de contas, eles viviam em
plena natureza durante o ano todo.
Nas proximidades de Charota ficava o primitivo espaçoporto. Só muito raramente
aqui pousavam naves, e geralmente tratavam-se de naves cargueiras da Coalizão Ross,
que traziam bens de troca e dinheiro, para, em contrapartida, levarem peles.
As peles das doninhas-twiesel eram a base de vida dos caçadores de Anchorot.
Ranchold examinou a armadilha e encontrou-a em ordem. Depois colocou a arma
no ombro e marchou adiante. A armadilha seguinte ficava a duzentos metros em frente,
na direção norte.
Quando há cinco anos atrás ele chegara a Anchorot, jamais tinha visto um twiesel,
mas ouvira coisas maravilhosas sobre o animal. Diziam que era tremendamente perigoso
para o ser humano, pois atacava sem aviso. Ranchold não se espantava com isso, pois
afinal de contas o homem se desenvolvera até ser o principal inimigo do twiesel.
E isso apenas pela pele.
Na era do tecido plástico perfeito, a pele de um animal não podia mais ter um valor
especial, e deste modo gigantescas manadas de elefantes cornudos povoavam as estepes,
porque as suas peles já não eram mais solicitadas no comércio.
Ranchold parou ao ouvir um ruído. Com extremo cuidado tirou a arma do ombro e
destravou-a. O fino raio energético, com o diâmetro de uma agulha, matava
instantaneamente, não deixando qualquer ferimento visível.
O ruído veio do local onde estava a sua armadilha.
Estava bastante claro para reconhecer-se detalhes. Mato baixo espesso, entretanto,
impedia a visão direta da armadilha, que ele armara numa pequena clareira. E o ruído
vinha diretamente dali.
Um twiesel?
Ranchold lembrou-se das histórias horripilantes que ele ouvira sobre o animal,
quando ainda era um greenhorn, um recém-chegado. Ele tomara todas as histórias como
um exagero, até que certo dia aprendera a sua lição.
O animal predador não era maior que um tigre, e se parecia bastante com ele.
Entretanto possuía seis pernas e podia correr com tanta rapidez que facilmente alcançava
a sua presa. Em contrapartida, os nervos óticos e de olfato eram apenas precariamente
desenvolvidos. Um twiesel não poderia nem ver nem farejar a sua presa, se a mesma
estivesse a apenas dez metros distante dele, caso ele não possuísse a sua pele.
Não apenas o caçador cósmico, mas também o twiesel, viviam de sua pele.
Ranchold susteve a respiração quando os ruídos de repente se afastaram. O animal
teria farejado o perigo e estava recuando? Ele decidiu certificar-se e esgueirou-se até a
borda da clareira. A armadilha estava vazia, mas mais adiante, no mato baixo, alguma
coisa se mexia. Uma sombra fundiu-se com a escuridão das plantas e arbustos, depois só
restou o silêncio.
— Desta vez você safou-se — murmurou Ranchold, decepcionado. — Mas eu ainda
pego você...
A sua pele tinha advertido o twiesel.
As costumeiras histórias de caçador, ele pensara, há cinco anos atrás, quando
surgiram as primeiras peles, sendo oferecidas a preços horrendos. “Peles viventes”, assim
eram chamadas, “com propriedades verdadeiramente mágicas.”
Ranchold, então recém-casado e sem um meio de vida correto, procurou contato
com um dos homens que vinham do lendário planeta Anchorot e vendiam as peles
maravilhosas. Isso parecia ser mais simples do que entrar em contato com um dos ricos
comerciantes e magnatas industriais que possuíam essas peles.
E deste modo ele ficou sabendo o que havia com essas peles.
A pele macia, sedosa, substituía ao twiesel vivo os seus olhos e o nariz. Como isso
acontecia, ninguém ainda descobrira, pois entre a pele propriamente dita e os órgãos
correspondentes não havia nenhuma relação direta, como por exemplo na forma de
nervos. Suspeitava-se de uma espécie de sugestão hipnótica. Mas como quer que fosse, o
maravilhoso em todo esse assunto era que mesmo depois da morte do animal a pele não
perdia as suas qualidades. Servia ao novo dono, do mesmo modo que ao twiesel de quem
fora tirada.
Um homem que usava uma pele de twiesel ficava com o mesmo olfato de um cão
de caça e a mesma acuidade visual de uma águia. Além disso havia ainda outra virtude:
A cor da pele modificava-se de acordo com a vontade do dono.
Por isso os preços subiam imensamente.
Ranchold tomou a próxima nave colonial e voou com sua jovem esposa para
Anchorot.
Isso fora há cinco anos atrás.
Entrementes ele abatera muitos twiesel, mas pelas peles ele recebia somente uma
fração daquilo que elas valiam em outros mundos. Isso dava para viver e para algumas
novas aquisições.
Ele examinou também a segunda armadilha e tomou a direção da terceira. Esta
ficava a oeste de sua atual posição.
Já de longe ele viu a lâmpada de controle vermelha que lhe anunciava a presa
abatida. Desta vez funcionara. O sustento dos próximos dias e semanas mais uma vez
estava assegurado. Se ele conseguisse, no futuro, abater mais twiesel do que até agora,
poderia armazenar algumas peles para mais tarde levá-las consigo e vendê-las em outros
mundos sem intermediação de outros comerciantes. Então ele ficaria rico e independente.
Mas Anchorot e a vida aqui o agradava tanto, que ele não usava de energia suficiente
para levar este plano avante.
Aproximou-se da armadilha e reconheceu à luz das estrelas o gigantesco twiesel que
estava caído no chão, imóvel. Ele morrera imediatamente. A pele parecia intacta.
Ranchold ligou o aparelho antigravitacional que trazia no cinturão e apontou o
dilatador de campo para o animal abatido. Sem peso, o mesmo ergueu-se e pairou para
fora da armadilha. O caçador pousou-o cuidadosamente e armou a armadilha novamente.
Somente depois ocupou-se de sua caça.
Ranchold retirou o tecido muscular de ligação e dobrou a pele totalmente limpa e
seca. Ela não pesava muito, e podia ser transportada até mesmo sem ajuda do campo
antigravitacional, mesmo à noite, na selva. Entretanto ele também poderia usá-la, e com
isto ganhava as propriedades de um twiesel.
Um ruído o preveniu.
Um outro twiesel, aparentemente o companheiro do abatido, aproximou-se da
clareira. A julgar pelos seus movimentos, ele se aproximava com o máximo de cautela.
Provavelmente já vira o que acontecera, e agora vinha para se vingar.
Um twiesel furioso era bem mais perigoso que um em estado normal.
Ranchold esqueceu a sua pele e recuou para o mato baixo. Certamente ele estaria
em vantagem se tivesse colocado a pele nos ombros, mas agora nem pensou nisso. Ele
pensava apenas no seu primeiro encontro com um twiesel atacante, e isso lhe bastava.
A clareira propriamente dita ficava à luz mortiça das estrelas, que entretanto era
suficientemente clara para deixar reconhecer todos os detalhes. Lá estava a armadilha, e
perto dela o cadáver do twiesel. Mais para a beira, Ranchold reconheceu a sua pele,
cuidadosamente dobrada — para ele, uma pequena fortuna.
O ruído aproximou-se, mas era difícil avaliar a direção de onde vinha. Logo
Ranchold teve a impressão de que eram dois ruídos diferentes aos quais ele tinha que
dedicar toda atenção. Ele agora prestou uma atenção maior, e logo saberia que não estava
enganado.
Ele estava sendo cercado.
Ninguém jamais pudera afirmar que um twiesel era inteligente. Mas agora Ranchold
começou a ter dúvidas de que isto realmente podia ser o caso. Aquele cerco metódico não
podia ser um acaso. Dois animais aproximavam-se de direções diferentes, e se
encontrariam exatamente na clareira junto da armadilha. E então ele é quem estaria na
armadilha.
A arma de agulha estava destravada. Ele estava acocorado no chão mole do mato e
não tirava os olhos da clareira. Se ele não se mexesse, podia ser que eles não o notassem,
se o vento não mudasse de rumo. Se fizesse isso, eles poderiam farejá-lo a muitos
quilômetros.
Um twiesel ainda um pouco maior do que ele abatera saiu do mato baixo para a
clareira. Era uma peça suntuosa, com uma pele especialmente bonita, que agora brilhava
num cinza-prateado como a luz das estrelas. Ranchold lastimou que não fora este o
animal que caíra na armadilha.
O twiesel olhou o cadáver do seu companheiro — ou companheira — e não se
mexeu mais. Ranchold certamente teria aproveitado a oportunidade para matar o animal,
se não estivesse pensando no segundo que deveria surgir a qualquer momento.
À direito estalou um galho. Depois novamente o silêncio.
O twiesel mantinha a cabeça, com a brilhante dentadura de animal de rapina, um
pouco abaixada, como se escutasse. Os seus flancos tremiam agitadamente e furioso ele
chicoteou os arbustos para o lado com o rabo.
Neste momento alguém, do outro lado da clareira, saiu do mato e ficou parado, a
menos de dez metros de distância do twiesel.
Ranchold reteve a respiração.
Ele jamais vira um ser humano com duas cabeças.
***
O gigante humano tinha cerca de dois metros e meio de altura e possuía pernas
grossas, parecendo colunas. Ele usava um traje de combate terrano, mas nenhuma arma
visível. O seu rosto — os seus dois rostos — podiam ser vistos claramente. Eles
brilhavam esverdeados.
Ranchold ainda estava retendo a respiração, enquanto observava as duas cabeças.
Elas mal podiam mexer-se, pois os quatro olhos estavam dirigidos fixamente para a
clareira, onde o twiesel esperava o seu adversário.
“Duas cabeças!”, pensou Ranchold, tentando avivar sua memória. Havia uma
criatura com duas cabeças, isso ele sabia. Um mutante da Contra-Espionagem Solar —
quando o Sistema Solar ainda existia. Mas isso já fazia algum tempo. Ele já vivia em
Anchorot, quando ouviu os boatos sobre o repentino desaparecimento do Sistema Solar.
Ele não quis acreditar muito nisso, mas no fundo isso já não lhe dizia respeito. Ele era um
caçador cósmico e livre.
Duas cabeças...?
Ranchold manteve-se muito quieto, esperando. O twiesel era mais perigoso que o
gigante de duas cabeças. Pelo menos era isso que ele supunha.
Agora também o animal tinha notado o intruso na sua área. Imóvel, ele continuava
parado junto ao companheiro morto e olhando a criatura de duas cabeças. Somente as
orelhas e a ponta do rabo tremiam. As pernas traseiras se retesaram para um salto de
surpresa. Ranchold sabia o quanto este pulo podia ser perigoso. Um twiesel conseguia
pular mais de vinte metros de sua posição, e ele não conhecia nenhum caso em que ele
tivesse errado o seu alvo.
As duas cabeças não tiravam os olhos do animal, quando uma delas, num
movimento quase imperceptível dos lábios, disse:
— O que é que você acha, Ivanovitch, ele vai atacar, ou ainda achará melhor não
fazê-lo?
A cabeça esquerda foi ligeiramente sacudida.
— Ele certamente vai pular, Ivan. É melhor darmos no pé.
— Dar no pé! Por causa de um gato selvagem desses com a pele de um camaleão?
Nem penso nisso. Eu quero essa pele.
— Neste caso você vai ter que matar o bichinho com as próprias mãos, caso
contrário a pele fica danificada. Mas eu receio que ele não vai nos dar tempo para isso.
Só mais alguns segundos e ele vai pular.
— Pena — murmurou a cabeça direita e concentrou-se novamente no atacante.
Ranchold continuava acocorado no seu esconderijo. Ele não sabia muito bem quem
deveria temer mais — o twiesel ou o estranho desconhecido de duas cabeças.
Ivan e Ivanovitch — agora ele se lembrava. Aquele era Goratchim, o chamado
“inflamador”, realmente um dos mutantes de Rhodan. O que é que ele procurava,
justamente aqui, em Anchorot?
Ranchold não sabia muita coisa sobre ele.
Átomos de cálcio e carbono ele conseguia levar a uma explosão nuclear, sempre
olhando e empregando a força do seu espírito mutado. Ele conseguia, portanto, olhar um
objeto — até mesmo um orgânico — e fazê-lo explodir. Dosado exatamente, desde a
menor língua de fogo até uma detonação destruidora.
Uma criatura sinistra, inconcebível e incompreensível.
E agora ele estava parado na clareira de uma selva do planeta Anchorot,
enfrentando um twiesel.

Neste segundo, Ranchold deu-se conta de que se enganara. Goratchim era mais
perigoso que um twiesel.
***
O twiesel naturalmente não sabia
disso. Neste mundo não havia nenhum
adversário que ele não pudesse enfrentar
com sucesso, exceto a técnica dos homens,
naturalmente. Contra esta, ele também nada
podia fazer.
Suas pernas se retesaram, dando-lhe
impulso, e num voo esticado ele atirou-se
na direção do mutante bicéfalo, sem
entretanto atingir totalmente o seu alvo. No
meio do voo, o seu corpo repentinamente
inflamou-se, como se tivesse sido atingido
por um raio. Não era uma reação nuclear
espontânea, mas um processo de queima
relativamente vagaroso, que demorou pelo
menos meio segundo.
Os restos carbonizados caíram na
clareira.
— Pena pela pele — disse Ivanovitch,
o mais jovem.
— Melhor a dele que a nossa — retrucou Ivan, secamente.
Goratchim, o dono das duas cabeças, saiu para a clareira.
Ele olhou os restos do animal, depois a armadilha energética e finalmente a pele
cuidadosamente dobrada do outro cadáver.
— Um caçador verificou Ivanovitch. — Rastros recentes. Ele ainda deve estar
muito perto. — A cabeça esquerda de Goratchim virou-se um pouco para a esquerda e
olhou na direção de Ranchold. — Ele certamente deve ter se assustado muito, quando nos
viu... se ele nos viu.
Ivan chamou, em voz alta:
— Ei, saia do mato, caçador! Não vamos fazer-lhe nenhum mal. Mas talvez o
senhor possa nos... eh... me ajudar.
Ranchold sabia que não faria sentido ainda conservar-se escondido. O mutante,
mais cedo ou mais tarde, certamente o encontraria. Ele levantou-se e saiu para a clareira.
A arma, entretanto, ele continuava mantendo na mão, destravada.
— Aqui estou eu, o caçador Ranchold. Eu vi o que aconteceu. Os senhores fazem
parte do Corpo Especial do Império Solar. São um mutante. Como chegaram aqui?
Ivanovitch sorriu para sua cabeça gêmea.
— Bem valente, o rapazinho, não? — Ele olhou novamente para Ranchold. —
Como é que nos conhece?
— Quem não os conhece? — veio a contra pergunta pronta e segura. — Pelo
menos, todo mundo já ouviu falar dos senhores e dos seus dons. Eu não sou um
adversário do Império Solar... se é que ainda exista. Ultimamente ouviram-se coisas tão
estranhas.
— É assim que se interroga criancinhas — declarou-lhe Ivan. — Se eu existo e o
meu irmãozinho, certamente também existirá ainda o Império Solar, não é mesmo?
Alguém lhe contou fábulas. Caso contrário, eu estaria aqui?
— Estão querendo caçar twiesels? — Ele apontou para o resto carbonizado do
animal. — Se fizerem isso assim, nunca vão conseguir uma pele.
— Esta não é a nossa intenção, caçador Ranchold. Mas é possível que vocês em
Anchorot logo precisarão de ajuda. Assim como o senhor ouviu acerca do suposto
desaparecimento do Sistema Solar, nós também ouvimos boatos a respeito de coisas que
dizem terem ocorrido neste mundo. O que houve com os armazéns de peles em Charota?
Ranchold abaixou-se e pegou a sua pele. Que colocou nos ombros.
— Ah, é dessa história que está falando? — Ele riu. — Eu não estive presente, mas
ouvi falar disso. Os guardas deviam estar bêbados. Talvez tenham andado pelos bares,
em vez de vigiarem. Não é de admirar, que desse jeito metade das peles foi roubada. —
Ele olhou espantado para o mutante. — Foi por isso que vieram para Anchorot?
Também — Ivan esquivou-se de uma resposta direta. — Tem alguma objeção se
nós o acompanharmos? Caso contrário ainda acabaremos nos perdendo. Nós tínhamos
planejado apenas um passeiozinho, que se transformou numa longa caminha noturna.
Nosso planador está na borda do mato, para o sul.
— Ali também fica a minha cabana — explicou o caçador. — Aliás, muito obrigado
pelo salvamento. Eu não sei se teria vencido o twiesel.
— É claro que teria... um caçador!
Ranchold examinou mais uma vez sua armadilha, depois saiu na frente. Logo a
picada ficou mais larga e eles podiam caminhar lado a lado. Com isso a conversa
recomeçou.
— Onde moram? Em Charota?
— Sim. Em casa de Steral Skopins, o comerciante.
— Conheço ligeiramente. Faz poucos negócios, esse Skopins, pelo que ouvi dizer.
Parece até que ele está aqui somente de férias.
Goratchim não esclareceu a Ranchold o quanto se enganava. O Capitão Steral
Skopins era o chefe da Contra-Espionagem Solar em Anchorot, mas isso naturalmente
ninguém deveria saber. Quando o planeta foi descoberto e povoado há menos de uma
década atrás, a Contra-Espionagem Solar imediatamente interveio. Galbraith Deighton, o
chefe supremo, mandou o Capitão Skopins para cá pois, de conformidade com tudo que
se sabia, Anchorot em meio século se transformaria num planeta densamente povoado,
com uma indústria de ponta.
Skopins veio trazendo um pequeno capital. Além disso, trouxe dois auxiliares
consigo, os quais o ajudaram na instalação do negócio. Não havia nenhuma restrição a
negócios em Anchorot, e deste modo ninguém podia objetar a instalação do recém-vindo.
Além do mais, diariamente apareciam caras novas, especialmente na capital, Charota.
— Não é um comerciante muito ativo — concedeu Ivan — mas é um bom e velho
amigo nosso. — Ele suspendeu um galho pesado, usando o pé. — Mas, para voltarmos ao
que eu mencionei ainda há pouco, o que é que houve com os depósitos? Sabe de alguma
coisa a respeito? A mim... quer dizer, a nós, informaram, com toda seriedade, que os
guardas não estavam bêbados, mas sob influência hipnótica. Como é que o senhor explica
isso?
— É uma besteira, isso! Quem poderia tê-los hipnotizado? Os twiesel, talvez?
Goratchim deu-se conta de que Ranchold não poderia ajudá-lo. Provavelmente
Ranchold, jamais em sua vida, ouvira falar alguma coisa sobre o supermutante Ribald
Corello.
— É impossível saber-se tudo — riu Ivan Ivanovitch, tentando acompanhar o passo
rápido do caçador.
Quando atingiram a borda do mato, o céu no leste estava coberto de nuvens rosadas.
Logo o sol subiria.
— Lá do outro lado está minha casa — disse Ranchold, cordialmente. — Podem me
visitar a qualquer hora, se o desejarem. Agora, entretanto, a esta hora do dia, eu não
gostaria de assustar minha mulher... Oh, desculpem. Eu não falei por mal.
— Nós entendemos isso muito bem — resmungou Ivanovitch, bonachão.
— Nós não somos mesmo muito bonitos — acrescentou Ivan. — Nós nos
anunciamos com antecedência, caçador Ranchold. E tudo de bom.
Ranchold ajeitou a sua pele e partiu na direção oposta. Ivanovitch sorriu e disse:
— Eu preciso confessar que ele aceitou o nosso surgimento com surpreendente
sangue-frio. Na realidade ele deveria ter se admirado do acaso de nos encontrar, e ainda
por cima aqui, num planeta relativamente desconhecido.
— Correto, você tem razão — anuiu Ivan. — Por outro lado, entretanto,
provavelmente não pensa muito em coisas que não são importantes para ele. Não creio
que vá falar.
Eles alcançaram o planador e embarcaram.
— Bem, não importa se o fizer... — murmurou Ivanovitch, a cabeça gêmea, mais
jovem em três e meio segundos, de Goratchim.
***
O birô da Contra-Espionagem, camuflado como casa de um comerciante em
Charota, parecia discreto sob qualquer ponto de vista, não tendo até agora provocado
qualquer suspeita. As aparelhagens secretas de transmissão e recepção tinham sido
instaladas de modo tão escondido, que mesmo numa busca intensa na casa não seriam
encontradas.
O Capitão Steral Skopins tinha passado uma noite sem dormir. Desde os terríveis
acontecimentos em Vinzsa, um planeta do Sistema Al-Tont, que ficava a uma distância
de dois anos-luz, suas piores premonições pareciam confirmar-se. O supermutante Ribald
Corello também estava intervindo neste setor da Via Láctea. Ninguém, que ainda vivesse,
jamais tinha visto o monstro, e ninguém sabia de onde ele vinha. Certo, entretanto, é que
ele perseguia os terranos com um ódio sem limite, através de milhares de anos-luz e sem
qualquer compaixão.
Ele devia ter a possibilidade de colocar sob sua força os habitantes de um mundo
inteiro apenas fazendo uso de seu poderio psíquico fora do comum. Assim também
sucedera em Vinzsa. Bons amigos lá se transformaram nos piores inimigos, que se
mataram mutuamente, depois de destruírem suas casas.
E agora também se mostravam em Anchorot os primeiros indícios de um
influenciamento mental, ainda que num incidente relativamente inofensivo. Depósitos de
peles eram roubados, e os guardas, sempre homens muito conscienciosos, descuidavam
dos seus deveres. Todos mostraram marcas de um tratamento pós-hipnótico.
Obra de Ribald Corello?
Skopins não sabia, mas estes fatos foram suficientes para que ele mandasse uma
mensagem em código pelo hiper-rádio, que por acaso foi captado pela Intersolar, a nave-
capitânia de Perry Rhodan. A menos de dois anos-luz de distância, a gigantesca nave
globular ia justamente entrar em voo linear, de volta para a Terra, quando o radioperador
de plantão captou a mensagem, descodificando-a e passando-a adiante, para Perry
Rhodan.
Para Rhodan estava claro que Skopins precisava de ajuda. Depois de uma rápida
conversa com seus oficiais principais, os mutantes e amigos, Goratchim apresentou-se
como voluntário para passar algum tempo em Anchorot e tentar colocar as coisas em
ordem, prestando ajuda a Skopins.
Enquanto a Intersolar mergulhava no espaço linear, Goratchim tomava o rumo de
Anchorot num space-jet.
Pouco mais tarde ele apresentou-se ao Capitão Skopins, que respirou aliviado. Ele
não esperara uma reação tão rápida à sua mensagem de rádio.
Isso fora há catorze dias atrás. Desde então não acontecera mais nada que apontasse
para Ribald Corello. Com o surgimento de Goratchim a assombração parecia ter
terminado.
Entretanto o mutante de duas cabeças, que dava na vista, nunca deixara a casa
durante o dia, para não dirigir suspeitas para Skopins. O space-jet estava pousado no
espaçoporto. Ali não chamava a atenção. Somente à noite Goratchim ousava dar passeios,
para talvez descobrir alguma suspeita, apesar de tudo. Até agora sem qualquer sucesso.
Assim como hoje.
Skopins nunca se sentia muito bem quando dos passeios noturnos do mutante.
Naturalmente ele não podia imaginar corretamente que consequências uma descoberta
traria, mas sabia que sua paz e tranquilidade neste planeta paradisíaco terminaria de uma
vez por todas.
Ele estremeceu, quando soou o sinal combinado para abrir a porta.
Pouco depois, Goratchim entrou na casa. Sem incomodar Skopins mais uma vez, ele
foi deitar-se, depois de ainda ter dado uma passadinha na cozinha.
Skopins virou-se para a parede e continuou dormindo.
***
Hoje era o dia 16 de junho de 3.432, tempo normal terrano.
Durante a manhã, Skopins tinha adquirido algumas peles a bom preço, para
justificar a sua existência em Anchorot e melhorar sua mesada particular. Isso também
era absolutamente legal, na visão da Contra-Espionagem Solar, além de honesto. Para
ficar em contato com as pessoas, Skopins e seus dois “ajudantes” de vez em quando
tinham que frequentar os bares e locais de lazer de Charota, e isso não era exatamente
barato.
Skopins não sabia nada sobre o “Caso Laurin”. Por isso não tinha a menor noção de
que o Sistema Solar não existia mais no presente, mas que existia cinco minutos para
dentro do futuro, envolto num campo de tempo constante. Ele ouvira boatos de que o
Sistema Solar tinha sido aniquilado, mas não conseguia dar-lhes crédito. Em primeiro
lugar os seus contatos com locais de serviço nos outros planetas continuavam normais, e
em segundo lugar Goratchim surgira em sua casa. Isso era-lhe bastante para poder
afirmar que a história com a destruição não passava de uma mentira grosseira.
Goratchim apareceu para o almoço e informou sobre sua aventura noturna.
Demoraria ainda de seis a oito semanas até que Rhodan viesse buscá-lo novamente, se
entrementes nada acontecesse que pudesse apontar para Ribald Corello.
— Eu acho que devia ousar sair de casa mesmo durante o dia — sugeriu Ivan por si
e por Ivanovitch. — Nós devíamos realmente provocar esse Ribald Corello, caso
contrário ele vai esperar até que eu abandone Anchorot novamente. Caso ele realmente
saiba que estou aqui.
— Isso não seria perigoso demais? — quis saber Skopins, Talvez o incidente com
as peles seja apenas um caso isolado, apesar de eu ainda não estar convencido de que este
supermutante esteja por trás disso. Talvez ele nem esteja planejando um ataque a nós.
Vinzsa, por sua vez, não foi avisada antes.
— De volta à minha sugestão — disse Ivan. — Talvez o senhor me acompanha,
capitão. Deixe seus pseudonegócios para serem tratados pelos seus dois subordinados. Se
o senhor fizer um voo pelo circuito, isso não despertará suspeitas. E nem todo mundo
precisará saber que eu o acompanho. Por outro lado eu acho até melhor que saibam da
minha presença. Temos que provocar Corello, pois nesse caso ficaremos sabendo se ele
pretende fazer alguma coisa.
Skopins suspirou.
— E quando vamos começar?
— Hoje — disse Ivanovitch.
***
Eles partiram poucas horas antes do pôr do sol.
O planador de Skopins era um veículo especial. Ele dispunha de uma cabine
fechada, na qual diversas pessoas facilmente encontravam lugar. Havia provisões e
comida para alguns dias. O armamento era tal, que com o mesmo seria possível defender-
se de metade de um exército. Além disso havia uma instalação de hiper-rádio que
funcionava muito bem e outros aparelhos técnicos. Entre outros, um aparelho de rádio de
emergência com o qual Skopins podia chamar a qualquer momento, space-jets
teleguiados que se encontravam sempre prontos para entrarem em ação, na sua verdadeira
central nas montanhas do oeste.
Era esta central que ele pretendia mostrar a Goratchim.
— Ela já estava instalada quando fui transferido para cá — explicou ele, quando o
planador subiu novamente, tomando o rumo do norte. — Naturalmente teria chamado
atenção se tivessem instalado uma central como esta em Charota. Por isso escolheram as
montanhas do oeste, a trezentos quilômetros daqui. Ela está totalmente automatizada e
pode ser comandada do meu birô. Em caso de emergência, entretanto, ela está totalmente
a minha disposição, com toda a sua força de combate. Um aperto de botão é suficiente.
— Ele apontou para um pequeno quadro de comutação separado, perto dos controles de
voo. — Com isto posso pôr em marcha praticamente todo um exército.
— Muito bem planejado — elogiou Ivan Goratchim.
Ivanovitch anuiu.
Eles sobrevoaram primeiramente uma faixa de selva e se aproximaram do deserto
ao norte, que passava às montanhas, no oeste. O oceano ficava ao leste.
Para chegar à central eles teriam que voar de volta em direção sudoeste.
Mas não chegaram mais a isso.
No receptor de rádio, que ficava constantemente ligado, ouviu-se de repente uma
voz dura, acostumada a dar ordens. No intercosmo habitual ela disse:
— Goratchim, eu sei que se encontra no planador que é pilotado pelo Capitão
Skopins, um agente de Rhodan. Pousem no deserto e não dêem nenhum alerta, caso
contrário nunca ficarão sabendo o que pretendo fazer com o planeta Anchorot. Pousem e
desembarquem.
Skopins olhou fixamente para os aparelhos e parecia incapaz de se mexer. As duas
cabeças de Goratchim se entreolharam interrogativamente.
Corello, o supermutante? De onde ele lhes falava?
A mão esquerda de Ivanovitch (a mão direita de Goratchim pertencia a Ivan) se
estendeu. A tela do rastreamento foi ligada, e quando a mesma clareou, depois de alguns
segundos, podia-se ver uma astronave, depois de alguma procura. A mesma tinha um
diâmetro de oitenta metros, era globular e ficava a exatamente quatrocentos metros acima
do deserto.
— Vamos pousar — disse Skopins de repente, antes de Goratchim poder tomar uma
decisão.
Ao mesmo tempo, o mutante sentiu o fluxo de ondas hipnossugestionadoras, que
entretanto não podiam fazer-lhe nenhum mal. Ele as registrava com seu cérebro mutado,
e isso era tudo.
Skopins entretanto não era um mutante, por isso era afetado quisesse ou não.
Provavelmente a sua repentina decisão de cingir-se às exigências do desconhecido já era
uma consequência desse influenciamento.
Goratchim nada fez para impedi-lo.
Para ele chegara finalmente a oportunidade, longamente desejada, de conversar com
o adversário sinistro.
Ele não podia imaginar o que o esperava e que ele representava apenas uma figura
no jogo de xadrez cósmico do supermutante Ribald Corello.
***
O planador pousou e o propulsor morreu. Skopins continuou calmamente sentado
na poltrona. Nos seus olhos aparecera um brilho estarrecido, que revelava tudo a
Goratchim. Entretanto parecia que Skopins ainda estava no seu juízo perfeito.
— Está sentindo alguma coisa, Skopins?
O oficial anuiu.
— Sim, naturalmente. Uma sensação estranha. Alucinações, acho eu. Eu nem queria
pousar, mas fui obrigado a fazê-lo. Alguém me deu ordem para isso.
— Corello, naturalmente.
— O senhor acha? Mas isso é tolice! Eu poderia partir a qualquer momento,
novamente, caso o quisesse realmente.
— Nesse caso, queira, Skopins!
Goratchim esperou, tenso, para ver o que aconteceria. Skopins curvou-se para a
frente e colocou as mãos sobre os controles; depois hesitou. Após quase um minuto ele
recostou-se novamente no cadeirão e sacudiu a cabeça.
— Eu não sei se não quero fazê-lo ou se não devo fazê-lo. Que diabo é isso?
— O senhor está sendo influenciado hipnossugestivamente, mas aparentemente não
reage cem por cento. Tem uma explicação para isso?
— Não. Eu não entendo isso. A não ser que Corello não consiga fazer tão bem as
mágicas, como geralmente acham. Neste caso ele também não seria tão perigoso...
Goratchim fez um gesto depreciativo. Ele também não tinha uma explicação
plausível para o fenômeno, mas afinal de contas ele tinha visto o efeito do poder de
Corello em outros mundos. Quem conseguia fazer aquilo, também conseguiria pôr um
Capitão Skopins sob sua vontade.
Goratchim cometeu o erro de raciocinar pouco sobre isso.
Ele disse para Skopins:
— Venha, desembarque. Eu terei que ficar vigiando-o, pois pode acontecer que
receba a ordem hipnossugestiva de me matar pelas costas. Eu preciso ter certeza de que
isso não aconteça. Traga uma corda consigo.
Skopins encontrou uma forte corda de nylon na caixa de ferramentas e deu-a para
Goratchim quando este descia da cabine depois dele. Eles agora estavam de pé, no
deserto. Por toda parte não havia uma só possibilidade de cobertura, se não se levasse em
conta algumas depressões na areia e algumas dunas. Não havia nenhum lugar mais
apropriado para um ataque de surpresa com meios de combate superiores.
— Venha até aqui, Skopins. Não ofereça resistência, pois isso seria exatamente o
que Corello quer. Eu não sei como ele imagina uma conversa comigo; talvez ele venha
numa nave de desembarque. Mas também é possível que ele queira nos raptar. Fique nas
proximidades do planador, e se eu for assaltado vá buscar ajuda... se puder. Eu vou
amarrá-lo de modo que ainda possa apertar os seus botões. Além disso, o senhor terá
possibilidade de desamarrar as cordas em meia hora, mesmo sem minha ajuda.
Skopins ainda pensava com clareza suficiente para aceitar as medidas de segurança,
apesar de garantir-lhe de que jamais atacaria Goratchim pelas costas. Mas o mutante não
queria se arriscar. Ele assegurou-se de que Skopins no momento não poderia fazer nada
contra ele, depois o deixou para trás junto ao planador e saiu para o deserto.
O dia estava bastante quente e o sol Tay-Labo mandava seus raios fortes para o
planeta. Goratchim verificou que não caminhava em cima de areia, mas sim de terra
ressecada, que ainda tinha até traços de antiga vegetação. Se por aqui algum dia chovesse
de verdade, esse deserto poderia transformar-se da noite para o dia num paraíso.
Ele ligou a climatização do seu traje de combate e olhou para cima.
As ondas hipnóticas continuavam flutuando sobre ele, tentando agarrá-lo com a sua
força. Para ele não era nenhum problema defender-se delas.
— Corello, se você quiser me pegar terá que empregar outros critérios! — disse
Goratchim, furioso.
— Exatamente! — concordou Ivanovitch com ele.
As cabeças gêmeas estavam de acordo.
Mas elas não sabiam se Corello as tinha entendido. Eles não conheciam
suficientemente os seus dons, mas um caminho para o entendimento sem o uso de
aparelhos deveria haver sem dúvida alguma, caso contrário o supermutante não teria
ordenado que abandonassem o planador.
Ou ele estava querendo falar-lhes pela aparelhagem de rádio?
Ivan ligou o receptor do seu traje de combate, porém somente as interferências de
estática, vindas do sol, podiam ser ouvidas; Ele desligou novamente.
Por acaso ele olhou para o alto.
***
O Capitão Skopins experimentou entrementes a hora mais terrível de sua carreira,
apesar de no fundo nem poder reconhecer o quanto ela era terrível na realidade. Ele
estava plenamente consciente, entretanto sentia o influenciamento hipnossugestivo no seu
mais profundo inconsciente. Pareciam querer apossar-se dele completamente, mas não
conseguiam. Naturalmente ele sentia o desejo contido de atirar e matar Goratchim, mas
prevaleciam ainda o sentimento do dever e a fidelidade ao Império.
Ele teve, inclusive, ainda tempo de puxar do bolso a injeção, que recebera com a
última remessa secreta, apesar de suas mãos amarradas. Se ele se vacinasse com o soro
que a mesma continha, ele cairia em sono profundo durante horas e não poderia mais ser
influenciado hipnótica-sugestivamente.
Ele a empurrou de volta para o bolso. A injeção, por enquanto, não era necessária.
Ele apoiou-se no planador e olhou atrás de Goratchim, que parara a uns cem metros
de distância, no meio de uma duna baixa, olhando para o céu, no alto.
Foi quando Skopins também o viu.
O céu estava cheio de pontos negros
que lentamente pairavam para baixo. Ao
se aproximarem, Skopins identificou-os
como robôs de combate de um tipo
desconhecido, que eram acompanhados
por seres humanóides envergando pesados
trajes de combate. Eles literalmente
choviam do céu.
A nave espacial propriamente dita,
da qual eles vinham, continuava invisível.
Mais uma vez Skopins foi tomado
por desejos contraditórios. Por um lado,
ele gostaria de correr em auxílio de
Goratchim; por outro, gostaria de apontar suas armas para ele e matá-lo.
Ele ficou passivo e esperou.
Também Goratchim parecia esperar. Skopins pôde ver como ele estava parado,
imóvel, na duna, olhando para cima com ambas as cabeças.
Alguns dos robôs pousaram em primeiro lugar. Eles marcharam imediatamente na
direção de Goratchim, que os olhava com expectativa. Mas então cometeram um erro
decisivo.
Eles abriram fogo em cima do mutante de duas cabeças.
Deste modo ficaram finalmente definidas ambas as frentes.
Goratchim pôde agir.
Os robôs que lhe ficavam mais próximos explodiram em tremendas detonações,
sendo imediatamente destruídos. Com isto, entretanto, Goratchim não se deu mais por
satisfeito. Ele também rastreou as unidades de combate que vinha descendo, pondo-as
fora de combate ainda antes de pousarem e poderem abrir fogo sobre ele.
Skopins viu que Goratchim ligara o seu escudo paratrônico de defesa, que o
garantia bastante contra qualquer ataque. Seus dons propriamente ditos, com isso não
eram influenciados.
Depois dos robôs e humanóides vieram blindados voadores e outros veículos
armados que envolveram Goratchim, atacando-o cerradamente. Parecia a Skopins que
uma fortaleza devia ser tomada. Como que pregado ao chão, ele conservou-se junto do
planador, um espectador mudo e incapaz de mexer-se.
Goratchim defendia-se desesperadamente. Ele começou a imaginar que logo não
teria forças para vencer esta superioridade. Ele podia destruir, mas não podia estar em
todos os lugares ao mesmo tempo, com o seu poderio mortífero, e este certamente
acabaria sendo o caso, diante da preponderância do adversário.
A espaçonave — onde estava a espaçonave? Se ele pudesse vê-la e destruí-la, os
reforços para o adversário seriam cortados. E provavelmente ele ainda mataria, ao mesmo
tempo, Ribald Corello.
Ivan e Ivanovitch olharam para cima. Uma vez Ivan pareceu ver, bem alto no céu,
um pontinho brilhando prateado, mas quando conseguiu concentrar-se sobre o mesmo,
este já tinha desaparecido novamente.
Com um crepitar e um trovejar em seguida, apagou-se o escudo energético verde de
Goratchim. Os poucos segundos de desatenção tinham sido suficientes para possibilitar
os tiros concentrados, destruidores, dos robôs. O escudo energético protetor tinha ruído.
Indefeso, o mutante ficou uns poucos segundos exposto aos seus adversários, e eles
os aproveitaram.
Um impacto violento, da arma térmica de um dos blindados voadores já pousados,
acertou a cabeça direita de Goratchim, Ivan, e a queimou até o irreconhecível. Ela
pendeu, sem forças, para o lado, e não deu mais nenhuma resposta aos chamados
desesperados de Ivanovitch.
Skopins observava tudo mas não se mexeu. Ele não podia se mexer, pois a
influencia da vontade do estranho sinistro o mantinha atado e não o soltava mais. Para
seu horror, ele sentiu até algo como satisfação, quando viu a cabeça direita de Goratchim
morrer.
Ivanovitch sabia que a sua vida estava estreitamente ligada à do seu irmão, crescida
do seu lado. Nem um dos dois poderia viver sem o outro. Ele achou que ainda podia
descobrir movimentos em Ivan. Provavelmente ele estava apenas inconsciente, mas a um
segundo impacto ele certamente não sobreviveria.
Ivanovitch agora lutava sem considerações e sem qualquer compromisso, mas como
Ivan faltava, ele apenas conseguia lutar com metade da força. Entretanto, esta bastava
para dizimar o adversário robô.
E então aconteceu aquilo pelo que Ivan antes esperara inutilmente.
A espaçonave surgiu.
Devia ser a mesma nave que ele antes tinha visto nas telas de rastreamento do
planador — de formato globular, com oitenta metros e prateada.
A nave de Ribald Corello?
Ivanovitch não sabia, mas isso agora pouco lhe importava. De qualquer modo os
blindados e robôs vinham desta nave e ele teria que destruí-la, custasse o que custasse.
Ele mirou a nave, concentrou-se o melhor que pôde, e então provocou a reação
espontânea.
A espaçonave queimou, numa imensa explosão atômica.
Skopins fechou os olhos, ofuscado, e quando os abriu novamente viu como o ainda
sobrevivente Ivanovitch Goratchim rechaçava os robôs atacantes, destruindo-os. Parecia
impossível aproximar-se dele, e a dor pela perda do irmão devia ter-lhe concedido forças
verdadeiramente titânicas.
Até que ele caiu, vítima de um ataque pelas costas.
Skopins o viu vindo, mas não empreendeu nada. Ele não poderia empreender nada,
mesmo se o quisesse. Dois dos robôs tinham circundado as dunas e esgueiraram-se para
junto de Goratchim, por trás. Este tinha muito o que fazer com os adversários que
atacavam pela frente. Ele não notou o perigo, apesar de um grito de Skopins ter bastado.
Dois tiros energéticos acertaram sua cabeça e fizeram o gigante cambalear.
Imediatamente os outros robôs cessaram fogo.
Goratchim não se defendia mais.
Ivanovitch não podia mais lutar. Ivan, com toda certeza estava morto. Ele,
Ivanovitch, não poderia, de qualquer forma, viver sozinho. E agora ele sucumbia ao
mesmo adversário que matara seu irmão.
Ele não via mais nada, ele estava cego. E ele só podia liquidar o seu adversário se o
visse. Indefeso, ele ficou parado sobre a duna, sentindo o inimigo que se aproximava. Sua
cabeça doía, pois fora queimada, como a de Ivan.
E então ele perdeu os sentidos.
E caiu pesadamente ao chão.
Os robôs de combate de Corello o rodearam.
***
O Capitão Skopins vivenciou tudo como num sonho. E ele precisaria apenas dar um
passo para a cabine do planador para, com o aperto de um dedo, chamar socorro. De
qualquer modo ele conseguira soltar-se de suas amarras.
Ele viu como a astronave estranha foi destruída e vivenciou como Goratchim caiu
depois de uma resistência heróica. Talvez mais tarde ele ainda teria que relatar sobre tudo
isto, se ainda tivesse oportunidade de fazê-lo.
Mas agora o que importava era simplesmente sobreviver. Os robôs do supermutante
não o matariam, pois ele não se voltara contra eles. Ele fora influenciado e se submetera.
Corello devia saber disso. Ele não matava aliados, nem mesmo se estes o tivessem sido à
força.
De repente Skopins sentiu que aquela coação invisível novamente era aplicada
sobre ele com mais força. Uma borrasca de Impulsos hipnossugestivos choveu contra a
sua consciência, atravessando a fraca proteção.
Skopins cambaleou, mas ainda conseguiu se manter em pé. Ele viu uma espaçonave
surgir no céu e lentamente pairar para baixo. A menos de cem metros da duna da qual
Goratchim estava caído, ela pousou.
E então o seu espírito ficou confuso. Milhares de impressões diferentes o
assediaram, misturando o verdadeiro com o sonho e transformando a realidade num
mosaico abstrato.
E então o Capitão Skopins perdeu os sentidos por exatamente três horas.
Ele achou que ainda pudera ver como pessoas e robôs vinham da nave, na direção
de Goratchim e dele mesmo.
Depois não viu mais nada.
2

Quando ele acordou, exatamente três horas mais tarde, este lapso de tempo tinha
sido apagado de sua vida. Mas isto ele ainda não podia saber, nesta ocasião.
Ninguém o sabia.
Só Ribald Corello.
***
Depois que Ranchold, o caçador, dormira bastante neste dia, ele decidiu pegar o
antiquado jipe de deserto para empreender uma viagem de investigação. As armadilhas
tinham tempo até mais tarde e neste momento não eram tão importantes. Ele colocou a
arma de agulha no banco traseiro e examinou o aparelho de rádio, com o qual ele podia
chamar sua mulher ou a estação de emergência em Charota, ou receber mensagens deles.
Uma patrulha de planadores, há poucos dias atrás, pudera salvar um carro de caça lotado
de turistas, do ataque furioso de uma manada de elefantes cornudos, no último minuta
Ele seguiu para o leste, ao longo da borda da floresta. Através da selva virgem
propriamente dita, havia apenas poucas picadas, que tinham sido batidas por elefantes
cornudos. Por sorte também aqui não se tratava de uma floresta tropical, como se
conhecia na Terra, mas sim de um bosque alto com árvores de muita folhagem e
pinheiros, com um espesso mato baixo.
Depois de poucos quilômetros ele alcançou a depressão natural que abria caminho
para o norte e para o deserto. Aqui não cresciam árvores, pois o chão era rochoso,
somente aqui e ali coberto com uma fina camada de terra, no qual relva baixa e arbustos
magros lançavam raízes. O jipe avançava sem problemas.
Quando o sol já estava alto no céu, Ranchold fez uma pausa. Ele conversou por
alguns minutos com sua mulher, depois fez um chá e abriu uma lata de conservas. Muito
ao longe, no oeste, brilhavam azulados os cumes das montanhas. Mas também ao norte
podiam-se ver alguns cumes. Eles faziam parte dos contrafortes dos montes do oeste.
Diante das montanhas ficava o deserto.
Neste não havia twiesels, pois estes preferiam a mata virgem. Mas no deserto
viviam os pequenos ruggets, animais do tamanho de lebres, com um pelo sedoso, muito
valioso. Ranchold só raramente os caçava, pois o valor de suas peles não compensava o
risco de um encontro com os perigosos elefantes cornudos. Somente quando o dinheiro
ficava curto realmente, ele saía, contra sua vontade, com sentimentos contraditórios, à
caça dos ruggets.
Hoje ele não planejara nada disso. Ele queria simplesmente estar sozinho consigo
mesmo e não fazer coisa alguma. Ele poderia mesmo ter ficado em casa, mas ali sempre
haveria trabalho a fazer. O reparo da cerca do jardim, ele simplesmente adiara.
O encontro com Goratchim não lhe saía da cabeça. Por natureza ele não era
especialmente curioso, mas o surgimento desse mutante importante começou a interessá-
lo. Aqui fora ele poderia pensar nisso com calma.
Ele se sacudiu todo e continuou sua viagem. Horas atrás vira um grande planador
passando bem alto para o norte, mas não se importou com isso. Talvez um comerciante
ou um caçador que visitava uma das povoações afastadas. Isso não era assunto seu. Ele
tinha suas próprias preocupações.
O vale ficou mais largo; à direita e à esquerda a floresta recuou. Lentamente passou
ao deserto, que se estendia até o horizonte.
Abruptamente Ranchold parou, quando repentinamente viu à sua frente, a pelo
menos vinte quilômetros de distância, um relâmpago muito forte. Ofuscado, ele fechou os
olhos e desligou o motor. O jipe ainda rolou alguns metros, até parar no meio de uma
depressão. Ranchold trepou para fora do assento, as pernas duras, e olhou para todos os
lados.
Não conseguia identificar aquele raio luminoso, mas provavelmente ele provinha de
uma explosão, e isto de uma que tinha acontecido a grande altura. Da depressão ele
conseguiu ver apenas um setor do céu, redondo e não muito grande. Mas ao norte
relampejou ainda algumas vezes, e isto infelizmente fora do seu campo de visão.
Ele deixou o seu veículo para trás e caminhou pela borda norte do vale, até
novamente ter uma visão completa do deserto. Somente então ele observou os pontos
negros que pairavam no céu, dando de si também pequenos raios luminosos, mas de
muita intensidade. Ranchold possuía conhecimentos suficientes para saber que robôs de
combate estavam envolvidos em alguma luta. Eles atacavam algum objetivo na
superfície, que entretanto ele não podia ver. Mas também não ousava aproximar-se mais
com o seu veículo.
As explosões ficavam cada vez mais violentas e mais claras. Uma onda de ordens
hipnossugestivas tocou Ranchold de raspão, mas não pôde influenciá-lo. De qualquer
modo ela fez com que ele ficasse na sua depressão e não se preocupar mais com os
misteriosos acontecimentos.
Por quase três horas.
Depois ele se controlou, voltou para o jipe, deu partida e dirigiu-se para o norte —
exatamente para o norte.
Depois que ele deixara para trás vinte quilômetros, tinham-se passado exatamente
três horas, depois do término da guerra energética. Exatamente aquelas três horas que
haviam sido riscadas da vida do Capitão Skopins.
Ele aproximou-se das dunas e descobriu o planador pousado. Diante dele havia um
homem caído na areia. Ele estava justamente se erguendo. Provavelmente ele estivera
dormindo, e despertara neste momento.
Ranchold levou o jipe até ele, desligou o motor e desembarcou.
Ele reconheceu o negociante Skopins.
— Puxa, Skopins, o que está fazendo aqui, afinal? Posso ajudá-lo?
Ranchold não teve a ideia de pôr o comerciante em ligação com os acontecimentos
que ele observara. Apenas verificou que o próprio Skopins não parecia saber o que havia
acontecido com ele. Este ergueu-se, olhou espantado para Ranchold, e só então pareceu
lembrar-se de que acontecera algo de anormal.
— Goratchim! O que houve com ele?
Ranchold olhou-o interrogativamente.
— O que pode ter acontecido com o mutante?
— Ele é meu hóspede. Nós fizemos um voo até o deserto e fomos atacados por
robôs de combate. — Ele estacou e olhou para Ranchold fixamente. — O senhor também
conhece Goratchim?
— Tive um encontro com ele, Skopins.
Skopins anuiu, tranquilo.
— Goratchim me contou sobre isso. Ele matou um twiesel, junto de sua armadilha.
Ranchold sentou-se do seu lado.
— O que aconteceu, Skopins? Eu pude observar um combate energético de uma
distância de vinte quilômetros. Desde então se passaram horas. Onde está Goratchim?
— Receio que ele esteja morto. Morto por robôs. Eu devo ter ficado inconsciente.
Ah, agora também sei por quê. — Ele abriu a mão que estava fechada. Na mesma havia
uma seringa de injeção, quebrada. — No último momento eu ainda consegui aplicar-me
esta injeção.
— Que injeção, Skopins?
— Narcose profunda, Ranchold. Ela protege contra influenciamento hipnótico. Eu
acho que Goratchim foi liquidado pelo supermutante Corello. O senhor não sentiu nada,
uma vontade estranha, que tentava apoderar-se de sua mente?
— Não muito.
— Provavelmente Corello queria influenciar somente a nós e mais ninguém. Isso
explicaria porque o senhor foi poupado. — Ele levantou-se cambaleando um pouco. —
Vamos, precisamos procurar Goratchim. Ele estava atrás daquelas dunas. Talvez ainda
possamos ajudá-lo.
Ranchold apoiou Skopins, enquanto os dois caminharam juntos na direção das
dunas. Tiveram que rodear diversos robôs e blindados destruídos, espalhados pela areia,
em destroços.
E então viram Goratchim.
O gigantesco mutante estava deitado na duna, imóvel, com ambos os rostos para
baixo. A perna direita tremia e denotava vida no seu corpo. Skopins, novamente o capitão
da Contra-Espionagem e em completo domínio de sua capacidade psíquica, ajoelhou-se e
virou Goratchim de costas, auxiliado por Ranchold. A visão era tão horrenda que ele teve
que fechar os olhos para não ter que vomitar. Mas logo a vontade de ajudar foi mais forte
que qualquer fraqueza.
Entretanto Skopins não viu qualquer possibilidade de ajudar Ivan.
Com Ivanovitch, a cabeça esquerda, a coisa era diferente. Somente uma parte do
rosto estava queimada, mas infelizmente também a parte dos olhos. Ivanovitch estava
cego, e com isso se tornara impotente. Também o nariz fora afetado por um tiro
energético de raspão. Ele gemia baixinho.
— Vamos, Ranchold, ajude-me. Temos que levá-lo para o planador.
— Nunca vamos consegui-lo. Eu não trouxe meu aparelho antigravitacional.
Skopins levantou-se. Seus escrúpulos quanto ao caçador passaram para segundo
plano. Para ele agora somente a necessidade de ajudar Goratchim e salvar-lhe a vida eram
importantes.
— Fique aqui, Ranchold. Vou buscar ajuda.
Ele levantou-se e dirigiu-se para o planador. Finalmente ele apertou o botão que
deveria ter apertado horas atrás. Programou a espécie de ajuda desejada no
microcomputador, depois voltou para onde estavam Ranchold e Goratchim.
— Não vai demorar muito — disse ele calmamente ocupando-se do mutante ferido,
em perigo de vida. — E por favor, caçador Ranchold, não se surpreenda com nada e não
faça perguntas. Goratchim na noite de ontem provavelmente salvou-lhe a vida, ou pelo
menos poupou-lhe de transtornos. Poderá agradecer a ele agora, silenciando. Não falando
sobre isso com ninguém.
Ranchold olhou interrogativamente para Skopins, depois anuiu.
— Eu agora sei que o senhor é um homem da Contra-Espionagem Solar, mas não
farei perguntas. Ninguém ficará sabendo de nada.
— Obrigado, Ranchold.
Depois de algum tempo, Skopins levantou-se e olhou para o oeste. Por cima das
montanhas avistou um ponto escuro que se aproximava numa velocidade alucinante.
Quando pôde ser visto nitidamente, revelou ser um space-jet de construção terrana. A
pequena nave em forma de disco era teleguiada e pousou a menos de cinquenta metros do
planador de Skopins, distante menos de cem metros do grupo que esperava nas dunas.
Uma escotilha abriu-se e dois robôs saíram. Traziam uma caixa de medicamentos e
uma maça antigravitacional para transporte de feridos. Sem fazer perguntas, ocuparam-se
logo de Goratchim prestando-lhe primeiros socorros. Skopins, ele mesmo formado em
medicina, colaborou com eles, ajudando no que era possível.
Goratchim vivia, mas Skopins não saberia dizer se o mutante ainda tinha uma boa
chance de sobrevivência.
— Vamos levá-lo à minha base secreta. Venha também, Ranchold, ou prefere voltar
para casa?
— O meu jipe...
— Mais tarde podemos nos ocupar dele. Eu
ficaria agradecido se me acompanhasse. Mais tarde
trago-o de volta para cá.
— Está bem, Skopins. O senhor pode confiar
em mim. Os robôs levaram Goratchim — que
recebera uma injeção calmante — para o space-jet.
Skopins e Ranchold os seguiram. Deixaram o
planador e o jipe para trás.
Pré-programada e teleguiada, a espaçonave
deu partida e voou diretamente para as montanhas.
Somente aqui fez diversas manobras e voos baixos
ousados, para desorientar eventuais perseguidores,
e aproximou-se finalmente de uma depressão no
planalto, rodeado dos cumes mais elevados.
Ranchold já estivera aqui uma vez e não encontrara
rastros humanos. Os twiesels não vinham até estas
alturas, e por isso faltavam também os caçadores. A
Contra-Espionagem Solar não poderia ter escolhido
um esconderijo melhor para sua central secreta.
Antes do space-jet pousar, o chão rochoso do
vale alto deslizou para um lado, liberando um poço
suficientemente largo para receber também naves
maiores. Lentamente o veículo voador pairou para as profundezas, enquanto a abertura
fechava-se por cima dele.
Mais tarde Ranchold não saberia dizer a que profundidade eles tinham baixado no
seio da montanha, mas levou quase dois minutos até que um solavanco suave anunciou o
pouso. Skopins deu algumas ordens aos robôs. Eles levantaram Goratchim novamente,
tirando-o da espaçonave para um pavilhão gigantesco, muito iluminado, e do qual
diversos corredores saíam em todas as direções.
— Vamos levá-lo ao hospital — explicou Skopins ao caçador espantado. — No
mesmo há de tudo para salvarmos a sua vida, caso isso seja possível. Logo que ele
conseguir suportar o transporte eu o levarei, se for preciso até sem prévia permissão, para
o planeta Olimpo. Somente ali será possível iniciar-se um tratamento para sua total
recuperação.
Ranchold começou a ficar preocupado. Sem querer, ele fora enredado numa coisa
que exigia total segredo. O agente Skopins ficaria convencido que o seu consabedor
involuntário silenciaria? Ou ele tomaria determinadas medidas, que poderiam modificar
drasticamente a sua vida?
— Teria sido melhor se me tivesse deixado lá fora no deserto com o meu jipe,
Skopins.
— Por quê?
— Quanto mais tempo fico na sua companhia, de mais coisas fico sabendo. Como
poderá ter certeza de que calarei a boca?
Skopins sorriu.
— O senhor vai silenciar, Ranchold, pois eu vou me preocupar para que sua família,
no futuro, possa levar uma vida melhor. Não veja a minha assistência como um “cala-
boca”, mas sim como uma recompensa por sua ajuda. No futuro, venda as suas peles
somente para nós, e então automaticamente receberá uma soma dez vezes mais elevada
por elas. Este acordo valerá pelo tempo que guardar o segredo. Isso não é justo?
Ranchold, o caçador, anuiu.
— Justo e ao mesmo tempo uma garantia. Muito obrigado.
— Ótimo... e nós chegamos.
Os robôs tinham colocado Goratchim em cima de uma larga mesa de operações,
para depois recuarem, à espera de novas ordens. Mas Skopins agora não precisava mais
deles. Pediu apenas que lhe dessem os instrumentos necessários, depois mandou que
saíssem para o corredor.
— O senhor mesmo poderá ser meu assistente, Ranchold. Bastará que me passar os
instrumentos.
— Está bem.
Em primeiro lugar Skopins pinçou as artérias interrompidas da cabeça direita, e
tratou todos os ferimentos, com queimaduras, com plasma celular. Ele não poderia salvar
os olhos de Ivanovitch com os meios a sua disposição, mas certamente em outros lugares
saberiam o que prensava ser feito.
Dez minutos depois de uma injeção de drogas estabilizadoras da circulação
sanguínea, os sinais vitais de Goratchim se tornaram mais fortes. O pulso batia mais
regularmente. Mas nem a cabeça da direita nem a da esquerda voltaram à consciência.
Mas Goratchim respirava. Ele vivia.
— Precisamos proporcionar-lhe um descanso agora, Ranchold. Entrementes vou
levá-lo de volta ao seu jipe, para depois informar os meus homens em Charota. Durante a
minha ausência, o senhor poderá dirigir-se a eles, quando quiser.
Mais uma vez deu suas ordens aos robôs e levou Ranchold para dentro do space-jet.
No caminho até lá eles passaram por outros hangares, nos quais havia outros tipos de
espaçonaves, blindados voadores e planadores. Servos-robôs movimentavam-se quase
silenciosamente de um lado para o outro, não dando atenção aos dois homens.
— O senhor tem escondido, aqui na montanha, um exército de grande força
destrutiva, Skopins. Isso é necessário?
— No momento não, Ranchold. Mas nós sabemos, por experiência, que sempre
chegará a hora em que tais armamentos serão necessários. Infelizmente isso é assim.
Venha, não vamos perder mais tempo. E lembre-se de nosso acordo.
Eles partiram, depois que Skopins programara o voo e a permanência. Também o
voo de volta à base de apoio seria teleguiado.
No deserto tudo continuava intocado. Os receios secretos de Skopins de que Corello
ou seus aliados pudessem ter voltado, não se comprovaram. Ele ainda não tinha certeza
de que Goratchim realmente conseguira matar o próprio supermutante, ao destruir a
espaçonave. Ele teve que pensar na segunda nave, cujo pouso pudera observar, antes de
perder a consciência.
Eles abandonaram o space-jet, que esperou apenas um minuto, para depois voar de
volta à base de apoio, desaparecendo em seus subterrâneos. Ranchold examinou o jipe.
Encontrou tudo em ordem. Também o planador de Skopins obedeceu aos controles.
Os dois homens se despediram.
— Boa sorte, Skopins. E tudo de bom também para Goratchim.
— Obrigado, Ranchold. Dê lembranças à sua mulher. Logo que eu voltar vou fazer-
lhes uma visita. E não se esqueça de nosso acordo.
— De modo algum. Já tenho uma pele de twiesel preparada. Posso entregá-la
amanhã?
— Naturalmente, nas condições combinadas. Preço decuplicado. Mas também isso
terá que ficar entre nós, caso contrário os outros comerciantes vão ficar desconfiados.
— Naturalmente. Muito bem, um bom voo!
Ele deu partida no jipe, e saiu tomando a direção sul. Olhando para trás viu o
planador erguer-se ao céu e depois dirigir-se, a grande velocidade, para o sul também.
Ele tinha a sensação de ter experimentado um dia muito bom.
***
Esta sensação, entretanto, Skopins não compartilhava. Não era a preocupação com
Goratchim que o oprimia. Era muito mais o fato de que o supermutante tivera sua atenção
despertada pelo planeta Anchorot. Ele perdera um grande número de aparelhos de
combate aqui, e certamente voltaria para se vingar. Talvez ele até tentasse colocar todo o
planeta sob o seu controle.
Estava na hora de avisar a Contra-Espionagem Solar.
Para Skopins havia apenas uma possibilidade de fazer isso em combinação com o
salvamento de Goratchim: ele tinha que viajar para o planeta Olimpo, que ao mesmo
tempo era sua central de comunicações. Ali estavam seus superiores e os representantes
diretos de Deighton, o chefe da Contra-Espionagem Solar.
Ele pousou com o planador no pátio de seu escritório oficial de negócios e
encontrou seus dois “funcionários” no birô. Depois de ter explicado o que acontecera, ele
marcou o seu voo para Olimpo para o dia seguinte. Hoje já era tarde demais, o sol já se
pusera e a noite caíra. Algumas horas de sono lhe fariam bem.
Ninguém em Anchorot parecia ter notado todo o incidente, exceto, naturalmente,
Ranchold, o caçador.
Skopins não dormiu muito bem nessa noite. Constantemente era atormentado por
pesadelos que o acordavam.
Quase de manhã ele finalmente tomou um sonífero, chateado por não ter logo
pensado nisso. Quase ao meio-dia do dia seguinte ele acordou, fez seus preparativos para
a viagem, e fez com que um dos seus homens o levasse até o esconderijo nas montanhas.
Depois das últimas instruções ele o dispensou, dirigindo-se imediatamente para a
enfermaria de Goratchim.
Ivanovitch tinha recobrado a consciência.
Ele conseguia falar com muito esforço, pois a sua boca não sofrera ferimentos.
— Skopins... — gemeu ele, quando este o saudou, perguntando-lhe como se sentia.
— Ivan está morto?
— Não sei exatamente, Ivanovitch. É muito difícil verificar-se isso sem sombra de
dúvida. Eu fiz tudo que foi possível. Eu vou levá-lo para Olimpo. Ali irão ajudá-lo, disso
não tenho qualquer dúvida.
— Sim, isso é bom. Quando?
— Agora, logo que se sentir suficientemente forte.
— Acho que vai ser possível. Muito obrigado, Skopins.
— É meu dever ajudá-lo, sem falar nisso.
Os robôs-enfermeiros levaram Goratchim ao space-jet, enquanto Skopins calculava
a rota complicada, com os dados disponíveis, alimentando-os no computador de bordo. A
nave teleguiada encontraria automaticamente o caminho para o planeta mercantil,
entrando ali numa órbita de aterrissagem. O pouso então se fazia, depois do recebimento
da permissão, por comando manual, ou então era teleguiado a partir da superfície do
planeta.
Skopins esperou até que escurecesse novamente, e só então partiu.
Em Anchorot ainda não havia instalações de rastreamento perfeitas e deste modo o
space-jet pôde deixar o planeta sem ser notado, avançando pelo espaço cósmico. Skopins
esperou até encontrar-se além da órbita do quarto e mais externo planeta, e então acionou
a propulsão linear.
Quando as estrelas se apagaram, ele sabia que estava a caminho de Olimpo.
3

Olimpo lembrava, em praticamente todos os aspectos a Terra.


Distante desta seis mil e trezentos e nove anos-luz, Olimpo fora desenvolvido para
um centro mercantil de primeira categoria. Aqui terminava a ponte de transmissores do
tráfego de containers e com isto o caminho comercial para a Terra, escondida no futuro.
A capital chamava-se Trade-City.
Edifícios gigantescos das diversas missões comerciais tinham como que surgido da
terra. O espaçoporto, que ficava nas proximidades, na realidade era composto de doze
instalações, que se agrupavam circularmente em volta da gigantesca estação transmissora.
Esta estação era alimentada, por via subterrânea, desde o polo norte, com energia que era
sugada do pequeno sol vermelho.
Os containers propriamente ditos, com os quais as mercadorias eram transportadas,
não possuíam nenhuma tripulação. Isso fazia parte dos planos de Rhodan, para tornar
impossível o descobrimento da Terra e do Sistema Solar. Estas naves não-tripuladas não
passavam de gigantescos recipientes de metal, que carregavam até cinco milhões de
toneladas de peso. Com a ajuda do transmissor, eles podiam ser transmitidos diretamente
de Olimpo até a desembocadura da eclusa temporal acima de Mercúrio, ou vice-versa.
Com isso o descobrimento do Sistema Solar tornava-se impossível.
Em primeira linha, entretanto, isso dependia do Imperador Anson Argyris.
Anson Argyris era um robô, conhecido sob a designação de “super-robô do tipo
Vario-500”. Ele era uma obra-prima da microtécnica siganesa, com a capacidade de
poder assumir quarenta diversas caras humanóides. Com estas máscaras, tratavam-se de
figuras vivas biologicamente, artificialmente criadas, que eram sincronizadas, nas suas
medidas, exatamente com os corpos originais do robô. Estas máscaras eram guardadas,
muito profundamente, sob a superfície de Olimpo, exatamente por baixo de Trade-City,
na chamada Bioestação.
Bem próxima ficava a principal estação de comutação do transmissor.
Anson Argyris consistia de uma liga de atronital, o metal mais resistente de todos.
Seu equipamento técnico e seu armamento faziam dele uma criatura invencível, até onde
um robô podia ser designado como tal. Mas quando ele portava a sua biomáscara, ele era
uma criatura viva.
Rhodan e seus cientistas o tinham construído para que ele pudesse ser investido
como Rei dos Livre-Mercadores. Como tal ele também fora programado, apesar de
poder, a qualquer hora, agir de modo independente, pensando de forma correspondente
aos acontecimentos. Isso, entretanto, acontecia sempre e em qualquer circunstância, em
benefício da Humanidade Solar.
Anson Argyris era o soberano oficial do planeta Olimpo, e só poucos sabiam que na
verdade ele era um robô de construção genial.
A esses iniciados pertencia também Gucky, o rato-castor.
Rhodan o tinha colocado, há pouco tempo atrás, em Olimpo, para ali ter um alerta
confiável, no que se referia a novos abusos do supermutante Ribald Corello, em Trade-
City. Somente em caso de necessidade ele deveria voltar ao Sistema Solar, através da
ponte de containers.
Gucky não ficara absolutamente entusiasmado com esta tarefa. Rhodan percorria
toda a galáxia, vivenciando suas aventuras, enquanto ele se chateava aqui em Olimpo.
Pois aqui não acontecia nada que o pudesse interessar. Por algum tempo ele ficara na
companhia de Sua Majestade o Imperador, mas depois isso também perdera o seu
encanto para Gucky. Apesar de não ser um telepata, o genial robô conseguia calcular
antecipadamente todas as ações do rato-castor e cada um dos seus truques
surpreendentes. Isso, naturalmente, no fim não divertiu Gucky nem um pouco.
Ele dirigiu-se para o quartel-general da Contra-Espionagem Solar em Terrânia City,
e queixou-se de suas penas ao seu amigo especial, o Tenente Chesterham. Os dois
conheciam-se de antigamente. Chesterham tinha feito um treinamento em Terrânia, e
nessa ocasião conhecera Gucky.
— Isso aqui, lenta mas certamente acaba azedando a gente, Chester. Como é que
você consegue aguentar isso sem ficar maluco?
Chesterham olhou para Gucky, malicioso.
— Eu trabalho — disse ele, secamente.
Gucky anuiu.
— Disso tenho certeza, é o que você chama de trabalho. De vez em quando mandar
uma mensagem, esperar por algumas, e fora disso tornar inseguro o bairro de lazer nas
montanhas. E é a isso que a Contra-Espionagem chama de trabalho. Pois olhe, eu poderia
contar-lhe histórias bem diferentes...
— Sim, essas eu já conheço — interrompeu-o Chester, examinando as ligações do
videofone com as missões de comércio, apesar disso ser totalmente desnecessário, pelo
que ensinava a experiência. — Você é o único entre nós que já trabalhou em sua vida.
Meus louvores, baixinho, mas nós nos sentimos muito bem com esta paz, que reina
atualmente. Mas certamente virão outros tempos, e para estes estamos poupando as
nossas forças.
— Ora — fez Gucky, deitando em cima da mesa, em diagonal. Vocês estão
poupando? Eu ainda me lembro, entretanto, que alguns dias atrás você não poupou
absolutamente, quando desenvolveu a mais nova dança positrônica, nos braços de uma
lourona, no “Last Space-Ship”. Eu já estava imaginando que você estava com um nó nas
pernas, e quis transportá-lo ao hospital, mas então alguém me explicou como se dança
hoje em dia. Santo Deus, e é a isso que você chama poupar!
— Isso é recreio, meu caro. — O Tenente Chesterham sorriu familiarmente. — E
você gostou da loura?
Gucky fez uma careta.
— A sua doçura era muito bonita sim, mas também terrivelmente burra.
— Como assim, burra?
— Uma vez que preferiu você, e não a mim.
Chesterham riu e disse:
— Hoje vou estar com ela novamente. Você também vem?
— Dançar?
— Sim, por que não?
Gucky espichou-se preguiçosamente em cima da mesa.
— Em Terrânia é um pouco diferente, por lá todo mundo me conhece. Mas por aqui
eles sempre fazem observações tão bestas quando me notam. Um deles chegou a me
confundir com um animalzinho de colo, e queria porque queria dar-me de presente para
seus filhos.
— Você está sob minha proteção, Gucky.
— Você já tem muito o que fazer com a sua loura, Chester. Se você quiser protegê-
la, já vai ter bastante que fazer. Não, obrigado, eu prefiro ir dormir cedo. Amanhã vou
fazer uma excursão. Você vem comigo?
— Para onde? Eu talvez pudesse dar um jeito de torná-lo oficial.
— Ora, ora, novamente! Vocês chamam isso de “torná-lo oficial”. Você pode
tomar-se por um cara de sorte, por eu ser um mudo nessas coisas. Quer dizer que você
vem comigo?
— Com muito prazer. Mas ainda não sei para onde.
— Para uma praia, nadar e mergulhar no oceano. Ficar deitado ao sol. Bem, e assim
por diante.
— Hum. — O Tenente Chesterham refletiu. Depois o seu rosto sombrio clareou
visivelmente. — Nós temos uma base de apoio na costa, exatamente onde as montanhas
terminam. Eu poderia inspecioná-la e você pode me ajudar nisso. Esta também é uma boa
razão para o coronel me dar um dia de férias. E não me olhe com essa cara. Eu disse
férias.
— Por mim, então, fica combinado. Dê lembranças à sua namoradinha. — Ele
escorregou da mesa. — Hoje é o dia 17 de junho. Pena, no dia 19 eu gostaria de estar na
Terra. É quando eles festejam por lá o seu feriado nacional. Há mil e quatrocentos e
sessenta e um anos Perry Rhodan pousou na Lua... e foi então que tudo começou.
— Sim, isso nós aprendemos na escola — disse Chesterham, chateado. — Devem
ter sido tempos bem malucos, então. — Ele olhou, pensativo, para Gucky. — Se me
lembro que então você já vivia... não consigo entendê-lo!
— Não é mesmo? — Gucky marchou de um lado para o outro no birô. — É muita
coisa, quando olhamos para isso. Eu sou mesmo uma personalidade extraordinariamente
interessante. E já salvei o Universo diversas vezes de sua ruína total.
— Já ouvi falar disso — concedeu Chesterham. — Por isso mesmo é tão
tranquilizador saber que você está em Olimpo. Nada poderá nos acontecer.
Gucky não sabia exatamente se ele estava falando seriamente, mas era preguiçoso
demais para examiná-lo telepaticamente. Ele apenas sorriu para Chesterham e saiu do
birô. No quadragésimo andar do edifício ficavam os alojamentos, e ele recebera um
quarto particular, só para si.
Daqui ele tinha uma vista grandiosa sobre a cidade de Trade-City, que realmente
merecia este nome. Ela vivia do comércio e ficava cada vez mais rica com o mesmo. Um
lugar de transbordo cósmico para mercadorias terranas e produtos de todas as partes da
Via Láctea. Grandes fileiras de arranha-céus estendiam-se até o horizonte, ligadas por
ruas elevadas e separadas por profundos desfiladeiros de ruas.
O pequeno sol vermelho, chamado Estrela de Boscyk, estava justamente se pondo.
Ainda enquanto as suas chamas se apagavam, por toda a parte acendiam-se luminárias
teleguiadas, transformando o lusco-fusco novamente em dia. Em Trade-City nunca se
fazia realmente noite. Além disso, o serviço de previsão do tempo anunciara um período
livre de chuvas, na próxima semana. O céu, portanto, estava claro e cheio de estrelas.
— Dia maravilhoso, amanhã — murmurou Gucky, e olhou mais uma vez pela
janela. — Espero que Chester chegue a ir para a cama. Quando ele começa a espalhar os
pés, esquece todo o resto...
Um pouco mais tarde ele rolou, confortavelmente, dentro do seu banho; depois
deixou-se secar pelo ar quente e enfiou-se na cama. Por algum tempo ficou deitado, sem
pensar em nada; depois, pouco antes de adormecer, procurou rastrear os pensamentos de
Chesterham. Depois de um tempo ele o conseguiu.
Logo apagou a luz, muito melindrado, e tentou dormir.
***
O dia 18 de junho do ano 3.432 começou excepcionalmente agradável e prazeroso
para Gucky. Ele ainda não imaginava como o mesmo iria terminar.
Chesterham veio apanhá-lo pontualmente. Ele parecia estar de ressaca, mas se
esforçava para apagar esta impressão, com um comportamento o mais alegre possível.
— Olá, velhão — saudou ele a Gucky, que já o esperava. — Dormiu bastante?
Gucky olhou-o de alto a baixo.
— Isso é uma pergunta que deveria fazer a você, caro Chester. Parece que você não
pegou uma cama há três semanas. Você realmente precisa urgentemente desse dia de
férias. Vamos teleportar? Isso é mais simples. Afinal não é longe.
— Você já me levou uma vez consigo — concordou Chesterham. — Acho que no
planador eu hoje iria me sentir muito mal. Afinal você sabe para onde temos que ir? Onde
a montanha...
— Sim, onde a montanha mergulha majestosamente no oceano, formando algumas
ilhas paradisíacas e finalmente mergulha no fundo do mar. Suficientemente poético?
— Assim, assim. Então vamos. Para que esse saco na sua mão?
— Você acha que vou morrer de fome ou de sede?
Chesterham sacudiu-se enojado e pegou a mão do rato-castor. O contato corporal
era indispensável para a teleportação.
— Então vamos!
Quando os dois rematerializaram novamente, encontravam-se nas dunas de areia,
não muito longe do mar. À esquerda ficavam os últimos prolongamentos das montanhas,
rochedos abruptos e uma costa muito íngreme. O mar brilhava um pouco avermelhado
aos raios do sol. Nitidamente viam-se os colares das ilhas, mais para fora.
— Aquelas ilhas são desabitadas? — quis saber Gucky, soltando a mão de
Chesterham. — Seriam um atrativo para mim.
— Temos que ir para lá, de qualquer jeito. Uma de nossas estações fica lá. É a
segunda ilha daqui, a que tem um morro cônico. Você a está vendo?
— Sim.
— Então vamos até lá. Você poderá mergulhar e nadar por lá, enquanto eu examino
as instalações robotizadas. É por isso, aliás, que o velho me liberou.
— Uma orientação social curiosa, essa do seu chefe. Libera você, para que possa
trabalhar. Provavelmente ele acha que você não move uma palha enquanto está de
serviço. Provavelmente tem experiência, não?
Eles teleportaram para a ilha.
A estação ficava ao pé do morro cônico, dentro de uma depressão rochosa, bem
camuflada, e difícil de ser descoberta. Chester imediatamente pôs-se ao trabalho e
prometeu estar de volta à praia dentro de duas horas.
Gucky desistiu de outras teleportações e marchou valentemente pelo caminho
pedregoso que ia dar na praia, lá embaixo. Carregava a bolsa com bebidas e mantimentos
por cima do ombro. Andar era difícil, porém ele não se deixou intimidar. Caminhar fazia
bem para a circulação sanguínea.
Ele encontrou uma baía idílica, com praia de areia fina e com rochas laterais. A
água era claríssima, e somente tinha alguns metros de profundidade. Gucky sabia que por
aqui não havia peixes vorazes. Rapidamente tirou o seu macacão e caminhou lentamente
para dentro da água agradavelmente fria. Depois respirou profundamente, susteve a
respiração e mergulhou.
Neste esporte Gucky tinha conseguido resultados surpreendentes. E isto era causado
sobretudo pelo fato dele gostar imensamente de nadar e mergulhar. Ao contrário dos seus
companheiros de raça, já de há muito desaparecidos, os ilts, ele já tinha vencido a sua
originária antipatia pela água. Somente usava um equipamento de mergulho quando isso
não podia ser evitado.
As rochas submarinas eram recobertas de flores coloridas, mas Gucky sabia que
elas somente se pareciam com flores. Na realidade tratavam-se de inofensivos animais
aquáticos que viviam de algas e pequenos peixes. Colônias de conchas luminosas
estavam na areia do fundo, fechando-se quando Gucky mergulhava na sua direção. Para
além da enseada rasa o solo marinho caía abruptamente. Aqui era fundo demais para o
rato-castor, e com um sentimento de alívio, que sempre sentia nessas ocasiões, ele voltou
para as águas mais rasas.
Depois de algum tempo aquilo ficou chato. Ele deitou-se na areia morna e deixou-se
queimar pelo sol vermelho. Uma vez ele captou os pensamentos de Chesterham: o
tenente estava ocupado com um autômato e parecia satisfeito.
Gucky comeu e bebeu, depois adormeceu.
***
No começo de sua atividade de controle, Chesterham realmente estava satisfeito,
mas isso deveria modificar-se rapidamente. Depois de ter checado todas as funções do
pequeno hiper-rádio, ele ainda o ligou, sem necessidade, em recepção, para ter certeza
absoluta de que tudo estava em ordem no autômato.
Ele recebeu os pedidos de algumas naves comerciais, que circulavam por cima de
Olimpo, esperando pela permissão de pouso. Na maioria dos casos, esta lhes era dada
pelas autoridades espaciais, caso pudessem se identificar. Somente em casos especiais o
Imperador Anson Argyris tinha que ser consultado. Em todos os casos era ele quem
sempre tinha a última palavra. Chesterham procurou em todas as frequências. Certa vez
ele captou, inclusive, a mensagem em código de um cruzador terrano que estava a uma
distância de mais de vinte anos-luz. Ele era preguiçoso demais para decifrá-la, pois não
tinha nada com isso.
Justamente quando quis colocar o aparelho novamente no automático, ele ouviu
uma voz. Era a voz de um homem em intercosmo, mas com uma pronúncia nitidamente
terrana. Com um giro treinado ele tinha ligado a frequência correta do transmissor. A voz
estranha tornou-se mais nítida. De repente Chesterham não a achou mais tão estranha.
— ...por isso solicito permissão de pouso preferencial em Olimpo. Eu repito:
Capitão Steral Skopins, num space-jet de Anchorot. A bordo mutante Goratchim, ferido
com perigo de vida. Necessita de ajuda urgente e por isso solicito permissão preferencial
de pouso...
Depois veio a informação sobre sua posição. Skopins estava viajando em
velocidade sub-luz. Caso tudo fizesse sentido, a permissão de pouso deveria ser dada na
próxima meia hora.
Chesterham deixou o receptor ligado. Apenas diminuiu o som, para que a voz de
Skopins não o incomodasse. Depois chamou a sua repartição, em Trade-City, pelo rádio
normal. Eles responderam imediatamente.
— Sargento Wilkins. O que há?
— Chesterham, Estação Morro Cônico. O senhor captou a mensagem de Skopins
pelo hiper-rádio?
— Acabou de chegar, tenente. Está sendo avaliada.
— Deixe disso. Obtenha a permissão de pouso. Urgentemente.
— Diretamente de Argyris?
— Se for preciso, sim. É importante que Goratchim imediatamente receba
tratamento médico. Informe o chefe.
— Está bem, se o senhor acha. Mas eu sozinho...
— Não se preocupe, eu estarei aí em um quarto de hora.
Depois...
— Em quinze minutos? Tenente, a distância da base de Morro Cônico até Trade-
City é de...
— Eu estou com Gucky aqui, sargento. Tome todas as providências. Depois eu o
ajudarei no restante. Desligo.
— Desligo — disse o Sargento Wilkins.
Chesterham ligou o acionamento manual novamente para automatização geral e
fechou a entrada da estação. Correndo um pouco, ele dirigiu-se para a praia, onde
encontrou Gucky preguiçosamente tomando sol. Um pouco sem fôlego, ele atirou-se do
seu lado, na areia.
— Dê-me um gole de limonada.
Gucky apontou com o cotovelo na direção da bolsa de víveres, que ele colocara à
sombra de um rochedo. Depois bocejou.
— Você já vai acordar — disse Chesterham enquanto tirava uma garrafa da sacola,
abrindo-a e tomando o seu conteúdo. — Precisamos voltar para Trade-City, e isso
imediatamente.
— Daqui nem dez sáurios me tiram — disse Gucky categoricamente. Eu não estou
maluco, estou? Finalmente consigo que tire um dia de férias, e você já está querendo
voltar para a cidade poluída? — De repente ele ergueu-se, interessado. — O que é que
você está pensando? Repita isso, em voz alta.
Gucky levantara-se de um salto, vestindo-se apressadamente.
— Goratchim! — Ele agarrou a sacola e pegou Chesterham firmemente pela mão.
— Justamente Goratchim teve que sofrer isto! Feche os olhos, Chester, vamos saltar
diretamente para o quartel-general. Não podemos perder um só segundo. E se Argyris
hesitar com a permissão de pouso, eu o desmonto pessoalmente, peça por peça, parafuso
por parafuso.
Quando Chesterham pôde ver novamente, a bela praia da ilha sumira. Em seu lugar
ele estava de pé no birô do edifício que servia de alojamento e escritórios para a Contra-
Espionagem Solar. O Sargento Wilkins estava justamente saindo da central de rádio.
— Tudo em ordem, tenente. A permissão de pouso já foi dada. Skopins pode pousar
a qualquer hora, mas ele ainda precisa de dez minutos para atingir a órbita. A distância de
Olimpo ainda é de dois milhões de quilômetros.
Chesterham anuiu.
— Ótimo. Entrementes vou entrar em contato com a clínica principal. Eles precisam
mandar os melhores médicos ao espaçoporto. Goratchim tem que ser examinado
imediatamente. O chefe entrementes deverá tentar um contato com Rhodan. Ele já deve
estar a caminho.
Gucky não perdeu mais nenhum segundo. Ele teleportou para o seu quarto, no alto
do edifício, e vestiu o seu traje de combate. Tinha que usar esta medida de segurança
quando teleportava para o espaço. O traje de combate servia ao mesmo tempo como traje
espacial. Se ele não rematerializasse imediatamente dentro do space-jet, estaria perdido,
sem esta proteção.
Sem notificar Chesterham de sua intenção, ele teleportou na direção da rota de
aproximação de voo do space-jet. Seria um caso improvável se ele o encontrasse
imediatamente, e por isso Gucky não ficou decepcionado de reencontrar-se novamente,
sozinho no vazio imenso do espaço sideral. Com o receptor de seu traje de combate,
entretanto, ele captou os fracos sinais de rastreamento do space-jet. Poucos segundos
mais tarde ele o descobriu.
Ele voava numa velocidade de quase mil quilômetros por segundo na direção de
Olimpo, e ao mesmo tempo freava constantemente. Um pontinho diminuto, fracamente
iluminado pelo sol, que se movimentava por entre as inúmeras estrelas.
Gucky concentrou-se nele e saltou. Ele rematerializou na central de comando, que
estava ocupada apenas por um robô. Este não lhe deu atenção. Talvez ele nem sequer o
tivesse notado.
Mas imediatamente Gucky captou os impulsos mentais de Skopins, encontrando-o
logo depois na sua cabine, cuja porta para o corredor estava aberta.
— Não se assuste, Skopins. Sou eu, Gucky. Preciso saber o que aconteceu com
Goratchim.
Skopins assustou-se mesmo assim, o que, naquela situação, era perfeitamente
compreensível. Afinal de contas ele se julgava sozinho na sua nave, e de repente alguém
embarcava nela, no meio do espaço.
— Gucky! — Skopins respirou fundo e se tranquilizou. — Desculpe o meu espanto,
mas não contava com você.
— O que há com ele? — Gucky não deu ouvidos à observação de Skopins, o que
nitidamente demonstrava a sua agitação. — É ele? — Perguntou, apontando para uma
figura enrolada em lençóis brancos, deitada na cama larga. Do rosto, ou melhor dizendo,
de ambos os rostos, mal podia-se ver alguma coisa. Somente uma única ponta de nariz,
um pouco deformada e coberta de pomada, e uma boca, podiam ser vistos. — O que foi
que aconteceu? Homem, fale de uma vez!
Skopins relatou apressadamente o que acontecera em Anchorot. Ele acentuou que
achara mais urgente antes de mais nada fazer alguma coisa por Goratchim, para só depois
tomar as contramedidas necessárias.
Gucky deu-lhe razão.
— O senhor agiu com muita prudência, Capitão Skopins. A vida de um ser humano
e de um mutante é mais importante do que todo o resto. Rhodan se ocupará de Anchorot.
Mas antes de mais nada temos que nos ocupar com Goratchim. Vamos ver o que dizem
os médicos. Em caso de necessidade o levamos juntos de volta para a Terra. — Ele
lembrou-se do que lhe haviam inculcado. — Ou seja, o senhor pode tranquilamente voltar
para Anchorot, capitão. Eu vou me ocupar pessoalmente de Goratchim. Ele é meu amigo.
Skopins hesitou.
— A decisão está com o chefe, em Olimpo.
— Correto, e este faz exatamente o que eu lhe digo — declarou Gucky, convencido.
— O senhor já recebeu a permissão de pouso?
— Sim, nós logo vamos entrar em órbita de pouso. Já está programada.
Como Goratchim ainda estava inconsciente, Gucky nada mais pôde fazer a não ser
esperar.
Ele sentou-se na borda da cama e ficou refletindo sobre quanto valia a vida de um
imortal, quando fosse vítima de um ataque traiçoeiro.
Ela não valia um solar.
***
A clínica da Contra-Espionagem Solar achava-se no edifício. Chesterham cuidara
para que médicos especialistas estivessem presentes quando Goratchim desse entrada. O
Capitão Skopins, mais uma vez teve que fazer um relatório sobre os acontecimentos em
Anchorot, desta vez mais detalhadamente. Para o chefe da Contra-Espionagem Solar.
Por mais inacreditáveis que os acontecimentos pudessem ser, Gucky confirmou a
veracidade de cada palavra. Não havia nenhuma dúvida quanto à honradez de Skopins.
Ele recebeu permissão para voltar para Anchorot. Também os recursos em dinheiro, para
que ele pudesse cumprir sua promessa feita ao caçador Ranchold, foram-lhe entregues.
Além disso o chefe da Contra-Espionagem prometeu mandar, logo que possível, algumas
unidades da Frota Solar, camufladas como naves cargueiras comerciais, para Anchorot.
O Capitão Skopins podia sentir-se satisfeito, e o estava.
Entrementes os primeiros exames tinham terminado. O resultado não foi exatamente
animador.
Não se tinha certeza se o complicado metabolismo do mutante de duas cabeças
suportaria os danos físicos recebidos. A cabeça direita estava caída em coma, e ninguém
poderia predizer se ela conseguiria sair do mesmo. Ivanovitch estava um pouco melhor.
Infelizmente os médicos especialistas constataram pesados danos ao cérebro. Parecia
certo que ele perdera a sua sinistra capacidade de “ignição”.
Mas isso não vinha ao caso. Tratava-se de salvar a vida de um amigo fiel, que por
quase mil e quinhentos anos estivera do lado da Humanidade, no seu difícil caminho para
o futuro.
— Somente Mimas entra em cogitação — o médico-chefe terminou o seu relatório.
— Goratchim terá que ser levado o mais depressa possível para o Sistema Solar. Eu
recomendo que tudo seja preparado para isto.
— Já foi feito — declarou-lhe o chefe da Contra-Espionagem. — A qualquer
momento estamos esperando uma notícia de confirmação de Deighton, vinda pela ponte
do correio.
Entrementes Gucky fora até a enfermaria onde se encontrava Goratchim.
Ivanovitch Goratchim estava consciente.
Bem calmo e cautelosamente Gucky sentou-se numa cadeira ao lado da cama.
Durante muito tempo ele olhou para o rosto enfaixado do seu amigo, procurando captar o
seu pensamento. Mas ali não havia pensamento, somente confusas padronagens mentais e
fluxos-psi. E isto não era de espantar para Gucky, pois o cérebro de Ivanovitch estava
praticamente destruído. Era um milagre que ele ainda era capaz de manter vivo aquele
corpo gigante.
— Você precisa ficar bem quieto, Ivanovitch. Sou eu, Gucky. Você logo vai estar
na Terra.
A cabeça, da qual praticamente só se via a boca, se mexeu. Ele parecia anuir, mas
isso poderia ser uma ilusão. Gucky continuava não recebendo impulsos sensatos, mas
pareceu-lhe que Goratchim quisesse dizer alguma coisa. Os lábios tremiam.
— Não se esforce, Ivanovitch. Mais tarde você poderá contar tudo, isso tem tempo.
Fique deitado e não fale.
Mas Goratchim parecia querer comunicar alguma coisa importante para Gucky. Ele
tentou até erguer um pouco o corpo, o que naturalmente não conseguiu. Os lábios
mexiam-se visivelmente, e então Gucky entendeu a primeira palavra:
— ...não...
Isso foi tudo.
Desesperado, Gucky tentou mais uma vez desembrulhar a confusão dos impulsos
mentais, mas foi um esforço inútil de carinho. Mesmo a padronagem normalmente sem
modificação, não coincidia mais.
Ele aproximou o seu ouvido da boca do ferido grave, até poucos centímetros. Mas
Goratchim parecia ter sido dominado por sua exaustão. Ele ficou deitado muito quieto,
mal ainda respirando. Gucky já começava a preocupar-se seriamente, achando que talvez
tivesse exigido demais do seu amigo, quando Ivanovitch começou a murmurar
novamente. Desta vez tão claramente que Gucky o entendeu:
— ...nada de transmissor... nada de desmaterialização... isso significaria a morte...
Gucky levantou-se e forçou o amigo a deitar-se novamente no travesseiro, do qual
tentara erguer a cabeça.
— Naturalmente, Ivanovitch, mas isso é natural. Vamos voar com um space-jet.
Voo linear. Este não faz mal a você. E agora descanse, durma. Vamos partir dentro de
poucas horas. Você deve receber uma injeção.
Pareceu-lhe que a cabeça esquerda de Goratchim anuíra, depois a respiração regular
denotava que o mutante adormecera. Gucky teleportou de volta ao birô de Chesterham.
Ali esperava-o uma novidade.
Onde é que você se enfiou este tempo todo, baixinho?
— Na verdade eu não deveria contar-lhe, mas tenho que fazê-lo. Eu estive com
Goratchim e falei com ele. Ele disse...
— Você falou com ele? — Chesterham demonstrou incredulidade. — Pensei que
ele estava inconsciente.
— E praticamente está. Agora ele dorme. De qualquer modo ele pôde comunicar-
me que não devemos, em nenhum caso, fazer uso da ponte de transmissores precisamos ir
para a Terra em voo linear, para que não haver desmaterialização. Goratchim acha que
isso poderia trazer-lhe consequências fatais.
— Não há nenhuma dificuldade tranquilizou-o Chesterham. — Aliás, entrementes
chegou a resposta da Terra. Deighton insiste para que o Capitão Skopins lhe faça um
relatório pessoalmente, antes de regressar para Anchorot. Portanto vamos levá-lo
conosco.
Gucky olhou-o, espantado.
— Como é que você interpreta isso... nós?
— Eu sou o piloto do space-jet, ordens do velho. Gucky anuiu, de repente
novamente bem calmo e tranquilo.
— Ótimo, neste caso procure o melhor e mais rápido space-jet que você pode
encontrar por aqui. Vamos partir logo que recebermos permissão dos médicos, e, se não
me engano, isso se dará dentro de uma ou duas horas.
Chesterham apontou para a aparelhagem de rádio.
— Tudo já foi providenciado. Eu apenas estava esperando por você...
— Ótimo, neste caso vou arriar minhas barracas por aqui. Nós nos encontramos na
nave. Dentro de uma hora, espero, vamos poder partir.
— Até logo, então.
***
O planeta Olimpo e o seu sol desapareceram da tela de imagens quando o Tenente
Chesterham fez o space-jet mergulhar no espaço linear. Gucky não se afastou do lado de
Goratchim e o Capitão Skopins deitara-se na cama e dormia.
A distância relativamente curta até a Terra podia ser deixada para trás em duas
etapas lineares. Em Olimpo os dados destas etapas de voo já estavam armazenados no
computador de bordo. Na realidade Chesterham não precisava fazer outra coisa a não ser
vigiar a função sem problemas, do automático.
Depois da primeira etapa o space-jet permaneceu apenas poucos minutos no espaço
normal. A distância até o Sistema Solar era de pouco menos de três mil anos-luz.
Então as estrelas mais uma vez desapareceram das telas de imagem, e quando
ressurgiram outra vez — em constelações diferentes, que entretanto pareciam muito
familiares — a viagem estava praticamente terminada.
Com velocidade sub-luz, o Tenente Chesterham dirigiu o space-jet na direção do
seu objetivo invisível.
Entrementes Ivanovitch Goratchim deu novamente sinais de vida, no seu leito de
enfermo. Gucky tratou de acalmá-lo, apesar de estar satisfeito porque o mutante estava
novamente consciente.
— Fique bem quietinho agora, Ivanovitch. Nós já estamos chegando. Estamos no
meio do Sistema Solar, dirigindo-se para Mercúrio. Naturalmente não podemos ver
Mercúrio, nem a eclusa temporal. É que tudo está a cinco minutos no futuro, o melhor
esconderijo que já existiu. Não, nós desistimos do transmissor, não se preocupe. Nós
vamos voar simplesmente através da eclusa de tempo, e isso liquida o caso. Espere, viu
perguntar ao Chester se ele pode ligar o vídeo do intercomunicador. Então vamos dar
uma olhada nessa história. Eu lhe explico tudo.
Chesterham fez o favor a Gucky.
— É uma pena que você não possa vê-lo, Ivanovitch, pois o voo através da eclusa
temporal para o futuro sempre me fascina novamente. Espero que Chester faça o voo de
aproximação corretamente, caso contrário pousaremos de lado. Nenhuma desgraça, mas
uma perda de tempo. Você está mesmo me escutando, Ivanovitch?
Goratchim anuiu quase imperceptivelmente. Ele estava deitado, muito quieto, na
cama, mas pareceu a Gucky que o gigantesco corpo estava muito tenso. Os impulsos
mentais demonstraram novamente indícios de confusão, mas continuaram indefiníveis,
como antes. De qualquer modo eles desciam sobre Gucky em tal abundância que, mesmo
com padrões claros, uma recepção limpa teria sido impossível.
— Como é que você está se sentindo, Ivanovitch? — o rato-castor continuou o seu
monólogo desembaraçadamente, enquanto o space-jet atravessava as fases isoladas de
cores da eclusa temporal. — Praticamente estamos fazendo uma viagem no tempo, não é
mesmo? Nós avançamos cinco minutos no futuro, onde existe o Sistema Solar,
impossível de ser encontrado por todas as criaturas vivas que continuam vivendo no
plano temporal normal. Aliás, nós logo estaremos chegando...
Segundos mais tarde sua suposição confirmou-se.
Mercúrio, com suas instalações gigantescas, apareceu. Com isso também ficou
oticamente comprovado que eles se encontravam no futuro, pois somente no futuro o
Sistema Solar tornava-se visível.
Além disso, Galbraith Deighton, o chefe da Contra-Espionagem Solar, chamou
pessoalmente pelo rádio normal. Como a ligação do intercomunicador continuava
mantida no interior da nave, Gucky também pôde ouvi-lo, e o Capitão Skopins foi
acordado do seu sono, de uma forma um pouco brusca.
— Aqui fala Deighton, Contra-Espionagem Solar. Eu me encontro no Transmissor
Dino. Pousem para controle. Identifiquem-se.
Antes que Chesterham pudesse comutar para transmissão, ele emitiu alguns
palavrões, dos muitos que conhecia. Depois transmitiu de volta:
— Estamos voando diretamente para Mimas, a conselho médico, Sir. Em nenhuma
circunstância poderá ser um transmissor, para o transporte. Cada segundo é precioso, Sir.
Por isso, permita que...
— Eu não permito nada, tenente, e se não fizer imediatamente o que estou
ordenando, vai se arrepender. O senhor sabe tão bem quanto eu que toda a nossa
existência depende de que ninguém descubra o nosso segredo. Um único agente inimigo
poderá significar nossa ruína.
— Sir, em nosso space-jet não se encontra nenhum agente...
— Tem certeza absoluta disso? — perguntou Deighton friamente. E depois, após
uma diminuta pausa: — Portanto, pouse ou eu mando derrubá-lo a tiros. Esta é minha
última palavra.
O Tenente Chesterham diminuiu a velocidade e dirigiu a nave para o gigantesco
tender da Frota, no qual estava estacionado o distribuidor de tempo normal. Este
transmissor não poderia ser utilizado para o restante do transporte de Goratchim, em
nenhum caso.
O Capitão Skopins entrou na central de controle, para ajudar Chesterham. Ele
sentou-se no assento do co-piloto.
— Um pouso de controle?
— Sim, acho que podemos chamá-lo assim. Deighton está com medo de estarmos
importando um agente. Gostaria de saber onde este poderia se esconder. Talvez no pelo
de Gucky?
Skopins continuou sério.
— Eu já presenciei coisas inacreditáveis, tenente. E Deighton certamente também.
Portanto, vamos fazer o que ele nos pede.
— Aliás, não temos outra escolha. Veja, ali na frente está o tender...
A gigantesca plataforma se aproximou, e então o space-jet foi agarrado pelo raio de
direcionamento que se apossou dele. Chesterham desligou a propulsão. Recostou-se na
cadeira e olhou para a tela de imagem.
— De qualquer modo, nós conseguimos. Agora não é mais responsabilidade nossa o
tempo que vai demorar até Goratchim ser submetido ao tratamento. Suponho que
Deighton está informado sobre a situação e tenha tomado as medidas necessárias.
— Sua primeira preocupação é manter o segredo — lembrou-lhe Skopins. —
Provavelmente ele quer ouvir o meu relatório, por isso pousamos aqui.
— Talvez — resmungou Chesterham, monossilábico.
Gucky ficara junto de Goratchim, mas pôde acompanhar os acontecimentos pela
tela de vídeo e mesmo telepaticamente. Ele tinha muita raiva do pedante Deighton, mas
não se atreveu a interferir. Mais tarde ainda haveria tempo para dizer umas verdades ao
chefe da Contra-Espionagem.
Goratchim entrementes perdera a consciência novamente. Estava deitado na cama,
imóvel. A padronagem dos seus pensamentos ainda existia, confusa e sem qualquer
sentido.
E estranha, muito estranha.
Com um ligeiro solavanco o space-jet pousou. Gucky lançou um último olhar para
Goratchim inconsciente, depois deixou a cabine-enfermaria e encontrou os dois oficiais
no corredor que ia dar na eclusa.
Até que eles chegaram à câmara de desembarque, o automático do tender da Frota
já tinha recolhido o space-jet no hangar. Ninguém precisava fechar o capacete, pois havia
ar para respirar.
Deighton já os esperava.
Enquanto ele se encaminhava para os dois homens e Gucky, os seus homens já
estavam penetrando no space-jet para examiná-lo. Eram todos homens experientes,
técnicos e gente da Contra-Espionagem, aos quais nada escapava. Ainda enquanto
Deighton e a tripulação do space-jet se cumprimentavam, trocando as primeiras palavras,
os homens saíram novamente da nave. Não tinham encontrado nada.
— Galby — disse Gucky, desrespeitosamente, ao chefe supremo da Contra-
Espionagem Solar — às vezes eu me pergunto se você, de vez em quando, não exagera
um pouco. Afinal de contas nós estivemos algumas horas na navezinha, e se algum
agente se tivesse escondido ali, certamente não ficaria sem ser descoberto. Você se
esquece que eu sou telepata.
Deighton não se importou muito com a crítica de Gucky.
— Agentes nem sempre precisam ser verdadeiros agentes — disse ele,
ambiguamente. Mas deixemos isso, agora. Capitão Skopins, eu gostaria de ouvir o seu
relatório. Venha. Eu achei, lá do outro lado, atrás daquela porta, um recinto onde
podemos conversar sem sermos incomodados. O space-jet fica aqui, sob vigilância.
Depois de nossa conversa, o senhor poderá partir imediatamente, para voar para Mimas,
Tenente Chesterham.
Gucky não fez nenhum comentário. Ele bamboleou atrás dos três homens, depois de
ainda ter-se convencido telepaticamente mais uma vez que Goratchim continuava
inconsciente. Era o que, pelo menos, tinha que presumir, quando captou os padrões
confusos dos seus pensamentos.
E com isso ele cometeu o segundo erro desde o voo através da eclusa temporal.
***
A entrevista com Deighton não demorou muito. Skopins relatou, calmamente e
muito pragmático, a respeito dos acontecimentos em Anchorot e pediu que Deighton
tomasse as providências correspondentes. Por seu lado, Deighton prometeu informar
Rhodan e Atlan do ocorrido. Depois deu permissão oficial para o voo à lua de Saturno,
Mimas, onde Goratchim deveria receber o melhor tratamento médico do Sistema Solar,
dado por especialistas de renome.
Depois de meia hora, Deighton levou seus hóspedes de volta para o hangar.
Pela primeira vez depois de trinta minutos, Gucky tentou captar os impulsos
mentais de Goratchim novamente. De repente ele estacou. Chesterham quase o atropelou.
— O que é que você tem, baixinho? Nosso pássaro está ali em frente...
— Aconteceu alguma coisa com Goratchim — murmurou Gucky, perturbado. —
Ele não está mais emitindo impulsos mentais, absolutamente nenhum.
Deighton pegou Gucky pelo braço.
— Rápido, temos que chegar onde ele está. Eu estou imaginando uma coisa; não
posso explicar-lhe isso exatamente agora, mas continue prestando atenção em impulsos
mentais. Mesmo em impulsos que não se originam na mente de Goratchim.
— Não compreendo — resmungou Gucky, e saiu correndo na direção do space-jet.
Os três homens o seguiram.
Eles encontraram Goratchim na sua cama. Pelo rádio, Deighton alertara o
departamento médico do tender-transmissor. Os médicos deviam chegar a qualquer
momento. Gucky curvou-se sobre o amigo, mas não pôde constatar, tão rapidamente, se
ele agora estava inconsciente.
Os impulsos faltantes o irritaram. Mas havia ainda outros impulsos individuais que
o rato-castor não conseguia explicar-se. Eles não se originavam absolutamente na mente
de Goratchim, e mais pareciam vir do próprio corpo dele. Eram impulsos sem qualquer
sentido, mais ou menos como um ajuntamento de células vivas costuma irradiar.
— Será que ele está... — gaguejou Gucky, confuso, olhando para o gigante
embrulhado em lençóis. — Meu Deus, será que ele está morto...?
Deighton não disse nada.
Chesterham pegou Gucky pelo braço.
— Você não deve logo pensar no pior, Gucky. Os médicos logo estarão aqui.
Talvez ele apenas tenha caído num desmaio profundo. Um coma, ou coisa parecida. De
qualquer modo, nós fizemos o que foi possível.
Gucky ergueu-se.
— Não, não fizemos tudo — disse ele, furioso. — Nós devíamos ter voado para
Mimas imediatamente. Então isso aqui não teria acontecido.
O rosto de Deighton continuou impassível, ao responder:
— Você está enganado, Gucky. Isso teria acontecido de qualquer maneira. — Ele
apontou para o corpo de Goratchim. — O seu amigo está morto, Gucky. Mas ele não
morreu somente agora. Espere pelo diagnóstico dos médicos, e depois voe para Mimas.
Ali examinarão o cadáver e você verá o quanto tenho razão com minhas medidas de
segurança. Mas infelizmente eu não fui suficientemente cauteloso.
Gucky olhou-o fixamente. Inutilmente ele tentou ler os pensamentos do
sensomecânico, pois Deighton se escudou. E ficou com o seu segredo só para si mesmo.
— Ora, fale de uma vez — exigiu-lhe Gucky.
Deighton sacudiu a cabeça.
— Eu não tenho provas. Voe para Mimas, depois me relate o que averiguarão ali.
Em seguida volte para cá. Então vou explicar-lhe tudo. Concorda?
Gucky anuiu, sem saber o que dizer.
Os médicos chegaram e confirmaram a suposição de Deighton.
Goratchim estava morto.
Mas ninguém conseguia entender por que os seus tecidos celulares continuavam a
emitir impulsos individuais. Eles apresentaram diversas suposições, das quais nenhuma
conseguiu convencer plenamente. Entretanto, bastaria que apenas um deles pensasse por
um segundo no Imperador Anson Argyris, para descobrir a verdade.
Mas ninguém pensou no Vario-robô.
Deighton agradeceu aos médicos e os dispensou. Depois colocou a mão gentilmente
no braço de Gucky.
— Eu entendo o teu horror, porque você está abalado, Gucky. E creia-me, eu
compartilho de sua dor. Mas há situações em que não nos resta tempo para luto. E uma
situação dessas, temos em mãos agora. Não podemos perder tempo. Voem para Mimas.
Chesterham, o senhor leva consigo somente Gucky e Goratchim. O Capitão Skopins fica
comigo. Cuidem para que me sejam passados imediatamente os resultados dos exames
feitos por lá. Boa sorte.
Gucky olhou-o sem dizer nada.
Chesterham tomou a sua mão e puxou-o para fora da cabine. Ele não tentou
consolar o rato-castor, mas conduziu-o simplesmente ao assento do segundo-piloto,
sentando-se ele mesmo no do primeiro. Silenciosamente eles aguardaram até que a
partida fosse liberada.
E tão silenciosamente também transcorreu o voo através do Sistema Solar até a lua
de Saturno, Mimas, onde já eram aguardados.
Comandos de robôs ocuparam-se de Goratchim, transportando-o imediatamente até
a paraclínica, onde imediatamente foi recebido pelos especialistas. Os paramecânicos
constataram, logo depois de curto espaço de tempo, que o cadáver de Goratchim não era
o corpo original do mutante, mas que se tratava de um disfarce, ou seja, uma imitação
biologicamente vivente. O tecido celular ainda vivia e irradiava os impulsos
correspondentes. Estes entretanto não eram idênticos aos impulsos que Gucky captara
durante o voo de Olimpo para o Sistema Solar.
Portanto devia ter acontecido alguma coisa no tender, e algo muito decisivo.
Chesterham acabou falando:
— Deighton não fez uma insinuação? Ele não disse que nós iríamos descobrir tudo,
quando ficássemos sabendo dos resultados dos exames em Mimas? Ele não disse que
Goratchim tinha morrido muito antes? Eu receio que nós deixamos que nos passassem a
perna, Gucky. Nem mesmo você, um telepata, notou o engano.
Gucky não disse nada. Não apenas a dor pelo amigo o fazia sofrer. Era também a
terrível suspeita de que ele, com Chesterham e Skopins, tinham contrabandeado sem
querer um espião para o futuro, que poderia ameaçar a existência do Sistema Solar, e com
ele a da Humanidade Solar.
Este espião tinha que ser encontrado, de qualquer maneira.
Só que:
Qual era a sua aparência?
4

Sacon Hashey perdera a sua personalidade original, quando pela primeira vez caiu
sob a influência mental do supermutante Ribald Corello. Hashey era um anti, mas mesmo
isto não lhe serviu de nada. Não havia ninguém que pudesse resistir a Ribald Corello.
Por Isso aconteceu que Sacon Hashey ficou honestamente alegre em receber essa
tarefa. A tarefa de encontrar novamente o Sistema Solar de Rhodan.
Ele não sabia muito sobre o que Corello planejava realmente, mas foi informado
sobre o que acontecera até então. O ataque ao planeta Vinzsa e o roubo de peles em
Anchorot, não passavam de outra coisa que refinadas manobras de mistificação de
Corello. A intenção do supermutante era encontrar o desaparecido Sistema Solar, e para
consegui-lo ele preparou um plano único. Experiências até então, haviam demonstrado
que não faria sentido seguir certos rastros. Eles levavam a muitos lugares, mas nunca de
volta ao Sistema Solar. Por isso Corello teve a ideia genial de conseguir pôr as mãos
sobre um mutante terrano. Se ele matasse este mutante, mandando copiá-lo, conseguiria a
oportunidade única de contrabandear um agente para dentro do Sistema Solar de Rhodan.
Além disso, Corello tinha certeza de que homens com poder de decisão da Frota
Solar, imediatamente mandariam voar para o planeta Vinzsa, logo que as suas atividades
ali fossem conhecidas. Caso, entretanto, também informassem sobre acontecimentos
estranhos a apenas dois anos-luz dali, ele podia contar que também ali seriam feitas
investigações. Como, entretanto, os terranos não podiam estar em todos os lugares ao
mesmo tempo, no caso Anchorot ele contava com o envio de um mutante ou, pelo menos,
de um outro homem muito importante. De qualquer modo, um mutante era muito mais
provável para uma investigação, pois Corello também era um mutante.
As contas de Corello bateram certo.
Goratchim veio para Anchorot para esclarecer os estranhos roubos de peles, sendo
que o que interessava não eram absolutamente as peles e sim o influenciamento
hipnossugestivo dos guardas.
Sacon Hashey encontrava-se a bordo da nave de Ribald Corello quando a ação
entrou no seu estágio decisivo. Uma nave globular, teleguiada, atacou Goratchim. O
mutante bicéfalo naturalmente destruiu a espaçonave, mas foi finalmente vencido. A nave
de Corello então pousou no deserto.
E então passaram-se aquelas três horas significativas, que desapareceram da vida do
Capitão Skopins. Pois justamente Skopins transformou-se na figura chave decisiva neste
jogo refinado, do qual naturalmente ele nada sabia.
Depois de acordar de sua narcose profunda, Skopins teve a sensação de ter-se
portado corretamente. Ele tinha que acreditar que fora ele mesmo quem se dera a injeção
contra influenciamento hipnossugestivo, tendo dormido profundamente. Ele encontrou
Goratchim, aparentemente ferido gravemente, somente não podia saber que não era mais
absolutamente Goratchim quem estava caído, precisando de ajuda, no deserto.
Pois entrementes Corello tinha mandado matar o verdadeiro Goratchim e copiado o
corpo deste. Com isso, começou a tarefa de Hashey.
O anti penetrou no invólucro do Goratchim artificial. Corello conhecia Rhodan o
suficiente para ter certeza de que este tudo faria para salvar um mutante gravemente
ferido. E Corello sabia, além disso, de fonte fidedigna, que uma tal ajuda somente
poderia ocorrer na lua de Saturno, Mimas,
onde tinham construído uma paraclínica.
Portanto levariam aquilo que tinham
que tomar por Goratchim para Mimas.
E quando se sabia onde ficava Mimas,
forçosamente também se saberia onde
ficava a Terra.
E deste modo o Capitão Steral
Skopins não tinha a menor ideia de que o
legítimo Goratchim já estava morto há
muito tempo, quando ele tentou salvar a
imitação biológica viva, que somente
exteriormente se parecia com o mutante.
Naquela imitação excelente,
excepcionalmente trabalhada, estava
enfiado Sacon Hashey, o anti. Ele estava tão ligado àquele laminado celular, que podia
até mesmo falar através dele, quando se desse a oportunidade. Seus impulsos mentais
como anti, ele conseguia facilmente camuflar e encobrir, de modo que era fácil para
Hashey enganar até mesmo o telepata Gucky, que além do mais tinha razões para a
suposição de que Goratchim tinha sofrido danos cerebrais.
Sacon Hashey já antigamente era tido como excelente cientista e psicólogo. Em
suas conversas com o rato-castor Gucky ele comprovara sua capacidade.
Naturalmente ele não tinha qualquer ideia do que o esperava. Nem ele nem Corello
imaginavam que o Sistema Solar tinha se escondido no futuro. Eles sabiam apenas que a
Estrada dos Containers, como era chamada, terminava no planeta Olimpo. E sabiam
ainda que o caminho de volta começava em Olimpo, mas também aqui o destino final era
desconhecido. Até mesmo algumas tentativas de encontrar o planeta de evasão da Terra,
através de agentes do Império Dabrifano, com a ajuda de peças embaçadas pré-
preparadas como carga, tinham fracassado.
Portanto Corello teve a ideia de tentá-lo de outro modo. Ninguém jamais suspeitaria
de um mutante terrano gravemente ferido ser um agente.
Sacon Hashey pôde respirar aliviado quando o space-jet deixou Olimpo para voar
para Mimas. Naturalmente ele tinha que estar sempre em alerta pois o telepata Gucky
estava quase que constantemente próximo dele, vigiando os seus pensamentos — ou,
pelo menos, aquilo que ele tentava identificar como pensamentos de Goratchim.
E então veio o momento, depois da segunda etapa linear, em que Gucky comunicou
ao seu pretenso amigo Goratchim, que eles tinham alcançado o seu objetivo. Como a tela
de vídeo estava ligada, Hashey pôde orientar-se. Ele podia fazê-lo através dos olhos
mortos de Goratchim, ainda que estes estivessem tapados com faixas.
Os conceitos “eclusa temporal” e “distribuidor de tempo normal”, além de outros,
não lhe diziam nada, mas ele começou a imaginar o que tinha acontecido com o Sistema
Solar. Ele deu-se conta de que Rhodan tinha executado radicalmente sua intenção de
isolar-se dos seus colonizadores renegados e antigas colônias. Ele deu-se conta de que
ninguém poderia encontrar o Sistema Solar, se não procurasse por ele no futuro.
O seu abalo com o que descobrira foi tão grande, que precisou de muito tempo para
recuperar o controle. Somente com esforço ele continuou irradiando padrões mentais
aparentemente confusos, para enganar o importuno rato-castor, que se preocupava demais
com ele — ou melhor, por Goratchim. Entrementes ele avaliou todas as informações das
quais conseguia se apossar.
Mercúrio ficou visível como planeta, e deste modo como um dos legendários
planetas que, de conformidade com informes oficiais, já não existiam mais. E ele ficou
sabendo que estes ficavam cinco minutos no futuro, num campo temporal constante, não
mais existente para o planador de tempo normal. Nem para ele nem para os seus
mandantes importaria se ele soubesse dessas coisas todas. Ele tinha que levar de volta ao
presente o seu saber, somente então teria terminado a sua tarefa. Ele teria que mostrar ao
supermutante, seu senhor e mestre, o caminho para o esconderijo no tempo, de Rhodan, e
então certamente receberia a sua recompensa — a soberania sobre outros mundos.
Exatamente como Corello lhe havia prometido.
Gucky e os dois homens deixaram o space-jet, depois de terem pousado no tender
da Frota. Hashey já estava querendo abandonar o seu corpo hospedeiro, quando outras
pessoas entraram na nave, vasculhando-a de alto a baixo. Para isto usaram refinados
aparelhos especiais, que entretanto não representavam um perigo agudo para o anti. Ele
ficou dentro do seu invólucro biológico, continuou irradiando impulsos indefinidos e
esperou até que a busca terminasse, dentro de pouco tempo. Somente então ele agiu.
Abandonou seu esconderijo e ativou o seu traje de combate. Imediatamente tornou-
se invisível. Naturalmente ele sabia do perigo ao qual se expôs, com isso. Quando a
Contra-Espionagem Solar suspeitasse de alguma coisa, imediatamente faria uso de seus
detectores especiais, que podiam medir e rastrear qualquer radiação energética. Ainda
não lhe estava claro como deveria realizar a sua fuga de volta ao passado.
E esta teria que obter sucesso, caso contrário tudo teria sido inútil.
Não foi difícil para Sacon Hashey abandonar o space-jet e chegar ao hangar. O seu
escudo defletor o tornava invisível.
Mesmo assim ele sabia o perigo em que pairava. Mais cedo ou mais tarde
descobririam que Goratchim não era realmente Goratchim, e então começariam a caça.
Não poderia duvidar de como esta caçada teria um fim, se ele não se pusesse em
segurança em tempo.
E isto, por sua vez, era impossível, no tender da Frota.
Ele tinha que voltar para Mercúrio.
O planeta não ficava a uma grande distância.
***
O luto de Gucky por Goratchim tinha cedido a uma raiva incontrolável. Ele agora
sabia que tinham sacrificado o seu amigo a uma tarefa de espionagem, e que ele estivera
preocupado com uma carcaça biológica praticamente sem vida. Ele fora simplesmente
passado para trás, de uma forma ignóbil.
Ele começou a entender o que Deighton quisera dizer, e secretamente já estava
pedindo desculpas ao chefe da Contra-Espionagem. Mas depois começou a pressionar
Chesterham para que o levasse de volta. Junto com Deighton deveria ser possível
encontrar o espião contrabandeado, colocando-o fora de combate, antes que este pudesse
voltar ao tempo normal através do corredor temporal.
Neste ponto, Deighton alertou todo o sistema de contra-espionagem.
Rhodan ainda não chegara, mas estava sendo esperado no dia seguinte. Rhodan não
deixaria, em nenhuma circunstância, de passar o dia do feriado nacional da Humanidade,
na Terra. Aqui tudo começara e talvez algum dia aqui tudo terminaria.
O Tenente Chesterham e Gucky deixaram a lua de Saturno, Mimas, com a
consciência de uma derrota sofrida. Eles voaram para Mercúrio com a decisão firme de,
juntos com Deighton e todo o aparelho da Contra-Espionagem, transformarem esta
derrota numa vitória.
Eles ainda não sabiam do que um anti era capaz.
***
Kai Gulbrandsen era um dos técnicos cuja tarefa era vigiar o abastecimento de
energia elétrica para os alojamentos no polo norte de Mercúrio, corrigindo eventuais
falhas. Não se tratava de um serviço especialmente vital, mas a responsabilidade que
Gulbrandsen sentia por isso, não era avaliada como algo menor. Ele cumpria o seu dever,
como cada outra pessoa em Mercúrio, mesmo se era apenas um pequeno técnico de
vigilância.
Neste dia 18 de junho do ano 3.432, ele rendeu o seu colega Mel Jäger, no fim da
tarde, tempo terrano, e fez sua primeira ronda de inspeção. Controlou o automático de
conexões da alimentação energética e os distribuidores. Dois robôs de trabalho o
ajudaram nisso. Um terceiro robô, de mais moderna construção, o acompanhava. Foi ele
que fez Gulbrandsen ficar um pouco nervoso.
Este terceiro robô pertencia a uma nova série de construções especiais que desde há
pouco tempo também estavam sendo utilizados em Mercúrio. Eles não chamavam
atenção devido ao seu forte armamento, mas sobretudo porque eram equipados pelos
mais modernos aparelhos de busca e sensores, de microtécnica siganesa. Dizia-se que
eles eram subordinados diretamente ao Comando Superior da Contra-Espionagem Solar.
E era assim mesmo.
Depois do descobrimento que ele temera, Deighton tinha imediatamente alertado
estes robôs. Eles não controlavam somente todos os técnicos e outros funcionários em
Mercúrio, mas também procuravam pelo espião desconhecido, que se insinuara sob o
disfarce de Goratchim. Ninguém tinha uma ideia da aparência desse espião.
Mas Deighton sabia que ele existia.
Aqui, cinco minutos dentro do futuro.
E era importante impedir o seu regresso ao passado.
Kai Gulbrandsen terminou a sua primeira ronda, e fez uma pequena pausa para
respirar. Como tudo estava em ordem, ele tinha direito à mesma. Os dois robôs-operários
ficaram parados no corredor, para aguardar a próxima ronda. O robô especial entretanto
entrou com ele no salão de estar, colocando-se junto da porta. Gulbrandsen não conseguia
livrar-se da desagradável sensação de estar sendo vigiado. E isso o deixava com raiva.
Ele pegou uma garrafa de suco de frutas, do congelador comum, e encheu um copo.
O automático de refeições forneceu-lhe o sanduíche habitual. Descontente, ele sentou-se
à mesa para comer.
O robô continuava de pé, imóvel, junto da porta.
De repente ele disse, com uma voz metálica, ecoando naquele silêncio:
— Há alguém dentro da estação, Sir. O seu padrão mental não se identifica com os
padrões armazenados para identificação. Alerta.
Gulbrandsen levantou-se de um salto e olhou, incrédulo, para o robô.
— É impossível que alguém tenha penetrado aqui. As câmeras o teriam descoberto
imediatamente, dando o alarme. Deve haver um engano.
— Não há nenhum engano, Sir — disse o robô. — Os padrões mentais estranhos
foram armazenados. Bloqueie todas as enteadas para a estação e informe a Contra-
Espionagem.
Durante toda a sua vida, Gulbrandsen sonhara um dia poder bancar o herói. Ele
sempre servira em postos afastados, e muitas vezes se sentira altamente supérfluo. Agora
parecia ter chegado a sua chance, mas ele não conseguia alegrar-se muito com isso.
Ele passou pelo robô e saiu para o corredor. Com poucos passos ele chegou à
central de comutação. Com um puxão virou a alavanca de bloqueio. Neste segundo, pelo
que ele sabia, todas as entradas para a estação foram hermeticamente fechadas. Ninguém
podia mais entrar nem sair.
O robô o seguira.
— O invasor está na estação de distribuição. Eu repito a minha ordem: informe a
Contra-Espionagem.
Isto Gulbrandsen teria feito de qualquer maneira. Apertando um botão ele acionou a
ligação com a estação polar, a base de apoio mais próxima da Contra-Espionagem Solar.
Na tela de vídeo apareceu o rosto de um oficial jovem.
— CE Mercúrio-Polo Norte. O que há?
— Distribuidor de energia Oito, tenente. O meu robô especial deu alarme. Alguém
invadiu a estação. Passe esta informação ao seu chefe.
O tenente anuiu.
— Caso se trate do agente procurado, o senhor receberá uma comenda. Bloqueie
tudo. Nós estamos indo.
A tela de vídeo apagou-se.
Gulbrandsen respirou aliviado. Ele fizera tudo que era possível fazer neste caso.
Agora precisaria apenas esperar até que os homens da Contra-Espionagem chegassem.
O robô especial disse:
— O invasor continua na estação de distribuidores. Eu irei até lá tentar obrigá-lo a
se mostrar.
— Eu vou junto.
O robô não impediu que Gulbrandsen o fizesse. Eles correram pelo corredor e logo
se viram diante da porta de aço do distribuidor. A mesma não estava mais trancada,
conforme ordenavam as normas. Tinha sido aberta à força e mostrava sinais de metal
fundido.
Gulbrandsen puxou sua arma termoenergética e a destravou. A certeza de ter a seu
lado um robô fortemente armado deu-lhe coragem para abrir a porta até que pudesse
lançar um olhar no pavilhão. Em longas fileiras, os autômatos distribuidores teriam
oferecido um sem-número de esconderijos para dúzias de invasores. Gulbrandsen
começou a dar-se conta de que não seria muito fácil encontrar aqui um agente isolado.
Mesmo assim, ele fez a tentativa.
O pavilhão tinha apenas uma entrada. Mas a porta não fechava mais.
— Ela precisa ser vigiada — disse ele para o robô. — Entrementes vou dar uma
olhada no pavilhão.
Ele caminhou entre os autômatos distribuidores para o outro lado do pavilhão,
esperando a cada momento o ataque do estranho que penetrara aqui sem licença.
Gulbrandsen não pertencia à Contra-Espionagem Solar. Ele não tinha a menor ideia de
quem ele estava enfrentando, mas no fundo a Contra-Espionagem também não o sabia.
À direita ouviu-se um ruído. Ele imediatamente parou, escutando tensamente. Nada.
Talvez tivesse se enganado. E continuou a andar.
E então o barulho foi ouvido novamente, desta vez mais longe, em direção à porta.
Gulbrandsen trocou de fileira e correu de volta para a porta. Respirou aliviado quando viu
o robô parado no mesmo lugar.
— Eu o ouvi, mas não pude vê-lo — informou ele ao mesmo.
— E eu captei novamente os padrões, mas infelizmente faltam-me os meios para
precisar a distância da fonte. Precisamos sair deste recinto, bloqueando-o até a chegada
da Contra-Espionagem.
Gulbrandsen hesitou.
— O senhor não pode colocá-lo fora de combate sozinho — continuou o robô. — O
pavilhão é grande demais. Venha.
O técnico de vigilância viu que o robô tinha razão.
Ele deu um empurrão para abrir a porta, e deixou o robô sair na frente. No limiar,
ele virou-se ainda uma vez, e olhou de volta para o pavilhão, aparentemente sem
ninguém.
Os autômatos davam um clique sempre que regulavam a distribuição de corrente,
amplificando-a ou diminuindo-a. As máquinas zuniam; fora disso não se ouvia nada.
Eles fecharam a porta, e depois o robô soldou a moldura. Quase ao mesmo tempo,
ouviu-se o sinal de alarme.
Os homens da Contra-Espionagem tinham chegado.
Antes de Gulbrandsen poder ativar o mecanismo de admissão, o robô disse:
— Eu estou captando novamente as padronagens estranhas de pensamentos, mas
eles não vêm mais do pavilhão de distribuidores. A fonte se movimenta afastando-se de
nós. Eu posso determinar a direção, mas não a distância.
— Siga-a, eu estou deixando a Contra-Espionagem entrar na estação. Vamos manter
contato pelo rádio. Não devemos perder o espião.
Ele não esperou por uma resposta, mas correu para a central de comutação. O
tenente da CE identificou-se através da tela de imagem, assim como os outros oficiais, e
foi admitido. Imediatamente eles se espalharam na estação, enquanto o tenente ouvia o
relatório de Gulbrandsen.
— Passou pelo senhor? — duvidou ele das informações do técnico. — Mas isso é
impossível! A não ser que...
— A não ser que... o quê?
— Talvez ele esteja invisível. Um escudo defletor. Mas neste caso a radiação
energética devia denunciá-lo.
— A estação inteira está cheia de radiações energéticas — lembrou-lhe
Gulbrandsen. — Isso naturalmente dificulta a descoberta. De qualquer modo o novo robô
especial está atrás dele. Ele não se orienta por radiações energéticas, mas sim pelos
padrões mentais do invasor. Precisamos ajudá-lo, caso contrário esse sujeito escapa mais
uma vez.
— Talvez nem seja um sujeito — resmungou o tenente, e acrescentou: — Aliás,
estamos esperando pelo chefe em pessoa. Ele certamente se interessará pelo seu relatório.
Vamos deixar um homem aqui para que ele possa deixar Deighton entrar.
Eles encontraram o robô no pátio interno da estação. Ele olhava para cima, para o
céu escuro de Mercúrio, no qual não havia estrelas, apenas dois ou três planetas do
Sistema Solar. Por trás do negrume brilhava fracamente o vermelho do hiperespaço.
— Onde está ele? — perguntou o tenente ao robô. Gulbrandsen fechou a mão
firmemente sobre sua arma. Ele imaginou o teor da resposta. E não se enganara.
— Lá em cima — disse o robô, pragmaticamente. — Ele escapou, e a fonte da
padronagem mental afasta-se a grande velocidade na direção do polo.
O tenente não hesitou nem um segundo e deu o alarme para a área das instalações
no polo.
— Deighton vai ficar contente — disse ele então, secamente.
5

O Tenente Chesterham e Gucky encontraram Deighton quando este justamente era


informado do alarme na estação de distribuidores. O Capitão Skopins também estava
presente.
— Deve ser nosso amigo — disse Deighton. — Que ele surja exatamente numa
instalação relativamente pouco importante, comprova-me de que ele se encontra numa
fuga não planejada. Ele está em vias de se orientar. Talvez nós vamos apanhá-lo mais
depressa do que podíamos imaginar. Também vem?
— Pergunta supérflua — resmungou Gucky, examinando o seu traje de combate. —
Se alguém vai liquidar esse sujeito, serei eu. E acho que tenho direito a isso.
Deighton anuiu, bonachão.
— Naturalmente que você tem esse direito. Portanto, vamos.
Eles embarcaram num planador-jato e pouco depois viajavam a grande velocidade
perto da superfície de Mercúrio, em direção ao polo norte. O sol estava a pouco mais de
um palmo acima do horizonte, ligado a Mercúrio pelo feixe de absorção, que brilhava
num dourado forte.
Pelo rádio eles ficaram sabendo da chegada do grupo da CE local na estação de
distribuidores e da fuga do agente. De qualquer maneira receberam a indicação de que o
desconhecido se movimentava na direção norte.
— Com isto deveria estar bem claro que ele planeja um ato de sabotagem —
concluiu Deighton. — Precisamos impedir isto de qualquer maneira. Eu só me pergunto
como ele conseguiu escapar de dentro da estação. Será que está usando um escudo
defletor?
— Provavelmente — achou Skopins. — Ele já devia vestir este traje quando ainda
estava metido na imitação de Goratchim. Ele conhece o nosso segredo e vai tentar por
todos os meios comunicá-lo aos seus mandantes. Como provavelmente ele ficou
surpreendido com a verdade, tanto quanto eu fiquei, vai precisar de algum tempo para
entendê-la completamente. Nós temos que aproveitar este lapso de tempo.
— Ele não está apenas invisível, ele também enverga um traje de combate, capaz de
voo. Portanto deve ser possível medir a radiação energética que emite. — Chesterham
sacudiu a cabeça. — Por que isso não acontece?
— Aqui não estamos em Olimpo — lembrou-lhe Deighton. — Por cima de
Mercúrio estendem-se um grande número de campos das mais diversas radiações
energéticas, que tornam um rastreamento praticamente impossível. Quanto a isto, o
agente está com vantagem. Nossa vantagem deverá ser que ele, como desconhecido,
certamente não poderá movimentar-se tão depressa quanto nós. À primeira vista
dificilmente ele reconhecerá quais as instalações que são importantes e quais as que não o
são. Isso comprova o seu surgimento no departamento de distribuidores. Naturalmente o
acaso poderá ser-lhe um aliado, por isso não devemos perder tempo para caçá-lo, onde
quer que possamos rastreá-lo.
Eles atravessaram um mar mercurial e aproximaram-se da zona de libração.
Rochedos agudos elevavam-se no céu vermelho-escuro de absoluta falta de atmosfera. A
Terra ficava, como estrela clara, muito alta, acima do horizonte.
— Às vezes eu capto padrões mentais — murmurou Gucky, que estava sentado,
todo caído sobre si mesmo, pequenino, no seu assento. — São os mesmos que eu
imaginei que fossem de Goratchim. Mas não consigo detê-los ou mesmo identificá-los.
Gostaria de saber a quem pertence o cérebro que os irradia. Não pode ser um cérebro
normal, disso tenho certeza. Não me julguem maluco, mas eles me lembram dos padrões
mentais de um mutante.
Deighton lançou-lhe um olhar rápido, incrédulo, depois sacudiu a cabeça.
— Impossível, Gucky. O próprio Corello não ousaria bancar pessoalmente o espião,
e outros mutantes não entram em consideração. Portanto, o que vamos fazer com sua
conclusão?
Gucky não se deixou afastar de suas ideias.
— Não precisa ser um mutante propriamente dito, Galby. Talvez seja um anti.
— Besteira! Um anti não se deixa influenciar e não obedeceria de modo algum a um
não-anti. Nem mesmo a Corello. Você tem alguma outra solução para nos oferecer?
— No momento não — retrucou Gucky, chateado. Deighton olhou para a frente, na
direção da rota do voo.
— As instalações já podem ser vistas.
***
Sacon Hashey conseguira entrar numa pequena nave auxiliar no hangar do tender da
Frota, e com esta chegar, sem ser notado, no cosmo, através da eclusa. Em circunstâncias
normais isso certamente teria sido impossível, mas nesta hora diversas pequenas unidades
deixavam ininterruptamente o tender, enquanto outras, também sem pausa, chegavam e
se metiam na eclusa automaticamente. Não havia praticamente nenhum controle e este
parecia mesmo desnecessário.
Mas isso seria modificado logo que o descobrissem.
Ele deixou o gigantesco tender da Frota para trás, e tomou o rumo de Mercúrio, o
primeiro planeta do Sistema. Através de Gucky ele pudera ficar sabendo o suficiente para
imaginar o que se passava aqui. Em Mercúrio estavam as instalações com as quais todo o
Sistema era mantido constante em cinco minutos no futuro.
Ele tinha que destruir estas instalações, pois só assim lhe seria possível dar a
indicação desejada para Ribald Corello. Somente depois que a Terra com os seus oito
planetas restantes caísse de volta ao presente, ela poderia ser novamente encontrada.
Irradiar um sinal de identificação não teria sentido, pois ele jamais poderia vencer o
muro do tempo.
Corello naturalmente não sabia para onde levariam o seu agente escondido no
pseudocorpo de Goratchim, mas calculara que fossem para Mimas. Portanto ele
estacionaria naves de observação no setor em questão, ainda que ali não estivesse mais a
Terra. Logo que Sacon Hashey conseguisse pôr a instalação fora de serviço, Corello
deveria saber que o seu plano tivera êxito. O campo antitemporal precisava ser apagado e
o transformador de tempo principal teria que ser mandado pelos ares em primeiro lugar.
Ele ainda estava cinquenta mil quilômetros distante da superfície de Mercúrio,
quando se decidiu pelo abandono da nave. A mesma apenas o denunciaria. Portanto ele
ligou novamente o escudo defletor que o deixava invisível e ativou a aparelhagem de
voo. Depois fechou o capacete e examinou a alimentação de ar.
Tudo em ordem.
Segundos depois ele abandonou a nave auxiliar, que aumentou sua velocidade,
tomando curso direto para o Sol. Acelerando enormemente, passou velozmente bem perto
de Mercúrio. Antes dos aparelhos de rastreamento poderem captá-lo corretamente,
queimou-se na cromosfera do Sol.
Sacon Hashey aproximou-se de Mercúrio e deixou para trás o restante do caminho
em voo de queda livre. Depois voou em altura mínima para o norte, até descobrir a
estação de distribuição.
Ele não conseguiu avaliar a sua importância e pousou sem ser notado no pátio
interno. Depois de ter penetrado na estação propriamente dita, ele reconheceu que a
mesma era sem importância. Quando quis voltar, verificou que tinha sido rastreado.
Ele penetrara num pavilhão de comutação, depois de ter aberto a porta com a sua
arma energética termal. Quando chegou o homem com o robô, ele pôde fugir, passando
por eles. Chegando ao pátio, ele ligou a aparelhagem de voo e desapareceu rumo ao
norte.
Ele ligou o receptor de rádio de seu traje de combate e ficou sabendo que o chefe da
Contra-Espionagem Solar tinha dado alerta geral. A sua caçada começara com todos os
meios. Ele não acreditava mais poder escapar dos seus adversários, mas, antes que o
pegassem, ele teria que dar um sinal seguro para Ribald Corello.
Por baixo dele, descobriu no meio de enormes complexos construídos e bunkers
profundos, uma edificação em forma de cúpula, de imponente grandeza. Das gigantescas
antenas saía uma cintilação irisada, que Hashey não conseguiu explicar-se, porém ele
estava seguro de que aquilo tinha algo a ver com o campo de tempo.
Tomando uma rápida decisão, ele pousou perto da construção em cúpula e desligou
o escudo defletor para irradiar o mínimo de energia possível. Seus aparelhos de
rastreamento e detectores funcionavam e lhe revelavam as medidas de segurança
existentes.
A construção devia ser o transformador de tempo principal, caso contrário ela não
teria sido bloqueada tão fortemente com raios sensores e bloqueios energéticos. Aqui ele
não poderia penetrar nem com seu escudo defletor sem ser imediatamente notado. Por um
instante ele ainda lutou com a decisão de sacrificar-se já agora, mas bem no fundo de sua
alma ainda luzia uma centelha de desconfiança. Talvez ele não destruísse a instalação
certa e assim morreria inutilmente. E então Corello nunca ficaria sabendo o que tinha
acontecido com o Sistema Solar.
Sacon Hashey decidiu continuar cauteloso. Ele escolheu algumas bombas oscilantes
de hipersom colocando-as de lado. As restantes, entre as quais havia até bombas
antimatéria, ele colocou de volta na bolsa que usava na cintura.
As pequenas bombas possuíam um efeito explosivo inimaginável. Elas seriam
suficientes para destruir o edifício em cúpula, mesmo se as bombas fossem ativadas do
lado de fora. E este parecia a Hashey o único caminho para escapar mais uma vez, nas
circunstâncias dadas.
Pelo rádio ele recebeu a informação de que um planador a jato, com o chefe da
Contra-Espionagem, estava a caminho, na sua direção. Portanto, a sua suposição estava
mesmo correta — ele tinha penetrado no coração da instalação de tempo.
Ele ativou as bombas, regulando-as para um prazo de cinco minutos. Isso deveria
ser suficiente para colocar-se em segurança. Como ele receava mais um descobrimento
por raios sensores, ligou novamente o seu escudo defletor, para que, pelo menos, não
pudesse ser visto.
Invisível, ele ergueu-se do chão, voando em velocidade enorme para o céu escuro
até alcançar altura suficiente para que a detonação iminente não pudesse pô-lo em perigo.
Os segundos só lentamente passaram a minutos. E então, lá embaixo, na superfície de
Mercúrio, dois relâmpagos brilhantes iluminaram a noite, sendo seguidos de outros, em
intervalos irregulares. A gigantesca cúpula parecia empinar-se; depois foi definitivamente
despedaçada pelas explosões no seu interior. Uma labareda imensa ergueu-se muitos
quilômetros arrancando os destroços da instalação consigo.
Sacon podia ficar contente. Ele tinha feito um serviço completo, caso tivesse
encontrado o lugar certo.
Quando viu surgir, ao sul, o planador a jato, prateado, ele acelerou e avançou mais
para o norte. Mas então ele sentiu, repentinamente, um violento baque que o arrancou
furiosamente para baixo, até que finalmente, quase no último instante, ele conseguiu
amortecer a queda, evitando assim o choque com o solo.
Ele pousou numa depressão entre dois rochedos íngremes e cristas abruptas. Por trás
dele as explosões silenciosas continuavam a relampejar.
Ele não entendeu o que tinha acontecido, mas viu o planador circular por cima do
lugar da catástrofe. Depois, entretanto, o perdeu de vista, quando ele começou o pouso,
desaparecendo.
Sacon Hashey ficou deitado, muito quieto.
Ele precisava recuperar-se.
***
Deighton curvou-se para a frente, para poder ver melhor.
— Lá na frente! — gritou ele, ofuscado e de olhos fechados. — Ele já começou
com o trabalho. Conseguiu acertar o variador temporal.
O variador temporal era a base da eclusa temporal, através da qual era possível um
regresso ao presente real. A sua paralisação interrompia a linha de paraligação com a
eclusa de tempo e deste modo levava a estrutura do plano de tempo variável, dentro da
eclusa temporal, a extinguir-se.
Do planador, Deighton viu imediatamente o que havia acontecido e o que
aconteceria.
— Pousar imediatamente! — gritou ele ao piloto do planador. — Ali entre as
montanhas. Não perto demais dos rochedos. Precisamos aguardar a onda de choque
energética. Talvez tenhamos sorte. Na instalação não há mais nada para salvar. Por sorte
temos uma segunda instalação pronta para entrar em ação.
O piloto seguiu a ordem imediatamente e pousou num gigantesco vale no altiplano.
Somente agora Chesterham, Skopins e Gucky conseguiram recuperar-se do seu
susto.
— O que vai acontecer agora? — perguntou Chesterham, ofegante. — A eclusa...
— Nós estamos isolados, se não acontecer mais nada — declarou Deighton. — O
campo de tempo permanece constante, mas isso também é tudo. Ninguém poderá vir até
nós no futuro, e nós não podemos voltar ao presente. Receio que daqui não podemos
avaliar muito bem que consequências tem a perda da eclusa.
— Por que não perseguimos o agente? — perguntou Gucky, impaciente. — Ele não
pode ter ido muito longe. A padronagem dos seus pensamentos está vindo do norte, mas
estão muito intensos. Talvez ele esteja muito por perto.
Skopins olhou instintivamente para fora, para a paisagem rochosa.
Ele não descobriu nada.
Poucos segundos mais tarde um arco, cintilando foscamente, estendeu-se de
horizonte a horizonte, uma redoma energética de polo a polo. Deste momento em diante
ninguém mais poderia deixar Mercúrio, nem pousar nele, vindo do espaço.
O agente caíra definitivamente na armadilha.
***
Quando a eclusa temporal ruiu, as descargas hiperenergéticas ocasionaram um
parcial laceramento do Universo quadridimensional. Dados energéticos chamejantes
avançaram, com a velocidade de um raio, no espaço, e por toda a parte o vermelho
brilhante do hiperespaço ficou visível.
No Sistema Solar teve início um pânico que somente pôde ser mantido dentro dos
limites com a ajuda de todos os meios de comunicação. Se pelo menos Rhodan estivesse
presente... Mas a última comunicação da posição dele viera de um ponto que ficava a
mais de dois mil anos-luz de distância da Terra.
Mas mesmo se ele chegasse agora, isso dificilmente mudaria alguma coisa. Sem a
eclusa temporal ele estava isolado do Sistema Solar.
Pior que aos terranos no Sistema Solar, aconteceu com os containers de carga,
felizmente não-tripulados, que nesta hora se encontravam em voo de passagem
justamente pela eclusa temporal. As hiperenergias liberadas arremessaram os mesmos
para o paraespaço, onde imediatamente se dissolveram, desaparecendo para todos os
tempos.
Um pouco mais de sorte tiveram containers e mercadorias que se encontravam na
extremidade da eclusa, no presente. Estes não foram tão atingidos pela catástrofe.
Naturalmente eles ainda abandonaram o transmissor, mas ficaram parados, imóveis, no
espaço normal, onde podiam ser rastreados por qualquer um.
E foi exatamente isso que aconteceu.
***
A Intersolar, nave-capitânia de Rhodan, estava justamente saindo do espaço linear
de volta ao Universo einsteiniano, quando aconteceu a catástrofe. Onde antes nada podia
ser visto, repentinamente estava o transmissor central, na saída da eclusa do tempo, livre
e visível no espaço. Seus gigantescos portais energéticos chamejavam e ardiam dentro do
nada. Ele poderia ser rastreado por muitos anos-luz de distância.
Rhodan compreendeu imediatamente o que acontecera, apesar de não saber das
causas propriamente ditas. Não havia mais nenhuma ligação com o Sistema Solar. Esta
somente voltaria a existir quando as instalações de emergência fossem ligadas, ou seja,
com a entrada em serviço do variador temporal de reserva. Rhodan estava convencido de
que isto somente aconteceria quando não existisse mais nenhum risco.
O que neste momento mais o horrorizava era o fato de que a partir deste segundo o
Sistema Solar poderia ser encontrado novamente. O rastreamento, entretanto, somente
conseguiu verificar a existência de poucas naves nas proximidades. A maioria deveria ser
de unidades de vigilância da Frota. A identificação já estava chegando.
Mesmo assim ainda chegaram dois dos transportes, sendo rechaçados violentamente
pela eclusa já não existente, e depois erraram sem rumo através do Sistema Solar, onde
poderiam ser rastreados a qualquer tempo.
O tender da Frota com o distribuidor de tempo normal e o transmissor, no momento
da catástrofe, se encontravam no chamado limiar do presente, tendo caído de volta ao
plano de tempo normal. Somente assim seria possível que Rhodan ficasse sabendo de
alguma coisa do que tinha acontecido no Sistema Solar, antes do desaparecimento da
eclusa temporal.
A sua inquietação crescia. Mas então a central de rastreamento da Intersolar
comunicou-lhe que um dos objetos rastreados no espaço normal não podia ser
identificado. Tratava-se de uma nave espacial globular com um diâmetro de sessenta
metros.
De modo algum, acentuava-se na comunicação, poderia tratar-se de uma nave da
Frota Solar.
Rhodan ordenou a sua imediata perseguição.
***
As imensas quantidades de energia, com ajuda do raio hipertrônico eram sugadas do
Sol e agora não podiam mais ser utilizadas para a manutenção da eclusa temporal;
tiveram que ser desviados, através de ligações de emergência positrônicas. Aconteceram
curtos-circuitos titânicos, que por sua vez provocaram novas explosões. Uma verdadeira
reação em cadeia de destruição espalhou-se por Mercúrio, mas por sorte nenhuma
instalação vital foi atingida pela mesma.
Somente depois que a situação se estabilizara e Deighton ter recebido pelo rádio
comunicações correspondentes, ele pôde pensar em outras medidas.
— Seria errado se colocássemos em funcionamento a segunda comutação existente
como reserva. A eclusa temporal desapareceu e assim deverá ficar por enquanto. Talvez o
nosso adversário ache que nos acertou com um golpe terrível, mas é justamente nisto que
se engana. Se ele tivesse acertado o gerador de campo de tempo a coisa naturalmente
teria ficado muito mal para nós.
— Me parece bastante ruim como está — disse o Capitão Skopins, que entrementes
tinha digerido o fato terrível de que o seu Sistema Solar fora colocado cinco minutos no
futuro, para garantir-se contra ataques. — E tudo isso é culpa minha.
Deighton virou-se e sacudiu a cabeça.
— Nada é culpa sua, capitão. O senhor cumpriu o seu dever, nada mais. Aliás, até
mesmo Gucky caiu nesse truque.
— Obrigado — resmungou o rato-castor, escutando para dentro de si mesmo. — Eu
consigo captá-lo novamente, esse maldito patife. Ao norte daqui, e certamente não muito
longe. Só é pena que ele não irradia pensamentos sensatos, caso contrário logo o
pegaríamos.
— Vamos tentar. Temos que ligar todos os aparelhos de rastreamento e todos os
sensores energéticos. A sua aparelhagem de voo e o escudo defletor, afinal de contas,
irradiam energia que nós podemos registrar. Se voarmos lentamente, isso pode dar certo.
O planador a jato partiu e atravessou a montanha. Por trás, numa planície, ficavam
espalhadas casas de força e estações de distribuição isoladas. Entre as mesmas, bunkers
subterrâneos e outras instalações. Aqui nada fora danificado.
Na rota do voo apareceu novamente uma serra de montanhas. O piloto subiu um
pouco para poder sobrevoá-las.
— Agora os impulsos estão vindo de baixo, em diagonal — anunciou Gucky. —
Isso significa que ele não pode estar muito longe. Talvez na montanha. Mas ali será
difícil pousarmos.
Deighton encolheu os ombros.
— Ou ele desligou todos os aparelhos, ou encontrou alguma proteção contra
qualquer tipo de radiação. Pode ser um acaso, talvez uma gruta na montanha, cujo teto é
impenetrável e totalmente isolada. E então precisaríamos de muito tempo procurando. Ou
então...
Ele silenciou repentinamente.
— Ou o quê? — quis saber Gucky, irritado.
— Um escudo de proteção de tipo especial, amiguinho. Talvez esse sujeito seja
capaz de evitar irradiar impulsos mentais, caso se concentre muito. Mas isso eu só
conheço em mutantes.
— E em antis — disse Gucky, soando muito firme. — Eu agora vou desembarcar e
procurá-lo pessoalmente.
— Você fica no planador — ordenou Deighton, enquanto Gucky fechava o seu
capacete. — Eu sou responsável por você. Se por leviandade ou imprudência você...
Ele emudeceu novamente.
Desta vez por uma razão muito boa.
Gucky já deixara a cabine com uma teleportação executada de surpresa.
Ele estava em algum lugar, lá embaixo, na superfície biófoba do infernal planeta
Mercúrio, procurando o adversário.
6

O objeto podia ser visto nitidamente na tela do rastreamento.


— Nós vamos pegá-lo — o comandante continuava calmo. — O Major Cuasa está a
postos.
O Major Pecho Cuasa comandava a central de fogo da Intersolar.
A medições estavam corretas. Tratava-se de uma nave espacial globular de sessenta
metros de diâmetro, de tipo semelhante a uma corveta. A nave não reagiu à ordem de se
identificar.
E Isso não era de admirar, pois o comandante da nave, um certo Major Rex Caraldo,
era um dos mais estreitos colaboradores do supermutante Ribald Corello. Ele não estava
sob hipnoinfluenciamento.
Caraldo saiu voando. Ele vinha de um mundo colonial do Império Solar, mas a vida
ali logo lhe parecera muito aborrecida. Ele encontrou um caminho até Corello, e
transformou-se num dos seus amigos mais confiáveis.
Numa pausa para descanso, no Universo normal, ele recebeu novas informações de
Corello. Deste modo ficou sabendo o que entrementes acontecera e que o anti, sob
disfarce de um mutante terrano, estava a caminho do Sistema Solar — pelo menos para o
setor do espaço no qual antigamente nove planetas giravam em torno de um sol.
A tarefa começou a ficar interessante para Caraldo.
Depois de uma etapa linear, ele mergulhou de volta ao espaço normal, ali onde
antigamente existira a Terra. Agora o espaço estava vazio, como já era esperado. Ele
ignorou algumas naves de vigilância terranas, e curiosamente também não foi levado em
conta por elas.
Mas então, menos de dez horas mais tarde, Caraldo experimentou a maior surpresa
de sua vida. Ali, onde antigamente devia ter estado Mercúrio, repentinamente um
gigantesco transmissor ficou visível. Ele surgiu do nada e mergulhou os seus arcos
energéticos no espaço. Hiperenergias liberadas tenderam o espaço, deixando ver por
segundos o vermelho do hiperespaço. Depois apenas o transmissor e o seu arco luminoso
ficaram para trás.
O seu primeiro-oficial voltou da central de rastreamento.
— Uma nave globular de dois mil e quinhentos metros saiu do espaço linear. Ela
está parada bem perto do transmissor. Talvez vamos saber finalmente o que tudo isso
significa.
— Pode ser. — Caraldo continuava cauteloso e cético. — Temos que continuar de
olho na nave, pois a mesma é muito superior a nós.
— Ela nos pediu o sinal de reconhecimento.
— Não respondam. Precisamos correr o risco.
— Claro, comandante. O senhor tem ordens para o controle de armas?
— Alerta de fogo!
O primeiro-oficial ocupou-se das ordens. Caraldo continuou sentado diante das telas
de controle. Ele podia reconhecer o transmissor distante a olho nu. E então ele também
viu a anunciada nave gigante.
De repente ele soube que nave era aquela, e um frio lhe desceu pela espinha. Se ele
quisesse ser honesto para consigo mesmo, teria que confessar que era um traidor da
Humanidade Solar.
E Rhodan também devia saber disso.
O primeiro-oficial comunicou pelo intercomunicador:
— Comandante, a nave está acelerando. Com curso diretamente sobre nós.
Caraldo a notou, quando estudou a tela panorâmica. Não havia dúvida, o gigante os
perseguia. Chegara a hora de empreender alguma coisa.
— Aceleração máxima — ordenou ele ao piloto. — Voo linear direto para as
coordenadas BH-81-PO. Estande de tiro, prontidão de fogo! Nada de tráfego de rádio.
Depois recostou-se no seu cadeirão e esperou.
Outra coisa não podia mesmo fazer, neste momento.
***
Gucky aterrissou um pouco duramente sobre as pedras de uma depressão num vale.
Por cima dele circulava o planador tentando segui-lo. Seria difícil descobri-lo aqui, na
zona de lusco-fusco de Mercúrio, mas afinal de contas eles tinham excelentes aparelhos
de medição a bordo.
Mais importante agora era achar o traidor e assassino indireto de Goratchim. O
rastreador miniatura do traje de combate de Gucky era de origem siganesa e
absolutamente confiável. Os seus ponteiros, entretanto, mal se mexiam. O que eles
mostravam certamente eram radiações energéticas difusas das instalações de Mercúrio.
Gucky ligou o seu receptor de rádio e ouviu a voz de Deighton. Ela chamava
repetidamente o seu nome. A princípio o rato-castor não quis responder, mas finalmente
o fez.
— Vocês podem me ajudar? Eu o perdi.
Deighton parou de chamar. Depois de diminuta pausa ele disse:
— Não faz sentido continuar procurando aí embaixo. Nós registramos uma radiação
energética fraca, ao norte daqui. Ela se desloca lentamente para o oeste, na direção do
Sol.
— Isso não é necessariamente ele...
— Nossos instrumentos no planador são melhores do que os seus, Gucky. Vamos
seguir esta pista, se for necessário mesmo sem você.
— Seja sensato, Galby. Eu fico aqui, e se você me indicar a direção, nós temos um
resultado de goniometria aproximado logo que eu também captar alguma coisa. Nós
poderíamos combinar as medições energéticas de vocês com minhas captações de
padrões de ondas mentais.
Para surpresa de Gucky, Deighton concordou.
— Concordo, mas temos que ficar em contato. Agora vamos voar para noroeste.
Velocidade cinquenta quilômetros horários.
Gucky ligou a aparelhagem de voo e ergueu-se poucos metros acima da superfície.
Depois velejou na direção indicada, e isto na mesma velocidade.
— Ele está mudando de direção — anunciou Deighton. — Novamente para o norte.
Agora temos melhores valores de medição. O rastreamento robotizado descobriu
radiações hiperenergéticas. Elas devem ter-se originado num escudo energético protetor
positrônico.
— Eu também estou registrando os mesmos — disse Gucky. — Ele deve ter
atravessado a planície antes de nós e já chegou à montanha. Talvez ele esteja querendo
esconder-se por ali.
— Vamos continuar a busca.
Era uma montanha selvagem e escabrosa, nos limites entre o dia e a noite. Alguns
lugares da montanha ficavam expostos constantemente aos raios solares; outros, por sua
vez, ao eterno frio espacial. Aqui havia mais sombras de um negro profundo que em
qualquer outra parte.
E mais esconderijos.
***
Caraldo sabia que não podia mais escapar da Intersolar atacante. Mesmo se ele
agora ainda tentasse entrar no espaço linear, isso seria sem sentido. O sensor de semi-
espaço dos terranos também o encontraria ali.
No espaço normal ele ainda tinha uma diminuta chance. — Preparar mensagem de
rádio! — ordenou ele, urgente. — Mensagem para Corello, com todos os detalhes.
Na central de rádio a ordem foi seguida e executada imediatamente. Porém mal o
primeiro impulso de hiper-rádio deixou as antenas, quando do outro lado, na Intersolar,
um raio térmico surgiu chamejante, roçando o invólucro globular da nave de Caraldo, de
tal modo que fundiu todas as antenas. A mensagem de rádio não podia mais ser
transmitida. Caraldo mandou abrir fogo sobre a Intersolar, que se aproximava, com todas
as armas disponíveis. Ao mesmo tempo ele ligou a aparelhagem de influenciamento
mecânico-hipnossugestivo, dirigindo-o para seu perseguidor.
Uma chuva de hipnoondas paramecânicas projetou-se na direção da Intersolar,
penetrando através de todas as camadas de isolamento do casco. Elas caíram sobre a
tripulação, tentando influenciá-la no sentido de Caraldo. Ao mesmo tempo todos os
canhões abriram fogo. Feixes energéticos, com raios luminosos, batiam contra o escudo
protetor da nave gigante, deslizando, sem qualquer efeito, para todos os lados.
Somente quando Caraldo decidiu-se a executar o fogo concentrado de maior efeito,
Rhodan decidiu-se a um contragolpe destruidor. Além disso, ele reconheceu o perigo que
poderia surgir para ele e a tripulação, através do hipnoinfluenciamento paramecânico,
ainda que o mesmo fosse mais fraco do que, por exemplo, a radiação que o próprio
Corello emitia.
Uma salva dos canhões transformadores da Intersolar terminou com o combate.
A nave de Caraldo transformou-se num sol brilhante, e logo a nuvem atômica
subsequente pairou no seu lugar.
Com isto estava claro que realmente apenas a eclusa temporal acabara, mas o
próprio Sistema Solar continuava se mantendo constante no futuro, e deste modo não
podia ser descoberto. Apesar de Rhodan apenas poder imaginar as verdadeiras conexões,
ele achou este fato tranquilizador.
Entretanto não lhe restava outra coisa senão esperar.
Os aparelhos de emergência certamente acabariam funcionando.
7

Entrementes Ras Tschubai chegara. Ele viera através de uma eclusa de escudo
protetor energético especialmente ajustada, e logo teleportou para o planador de
Deighton. Depois de ter sido informado dos acontecimentos, ele entrou em contato com
Gucky, que continuava procurando pelo agente, na superfície de Mercúrio.
— Eu vou até aí — disse ele.
— Então venha, se quiser. Nós logo vamos agarrá-lo. Ele está metido na montanha.
Eu pude determinar as radiações energéticas do seu escudo protetor. Deighton deve pedir
armas pesadas, caso contrário nunca vamos conseguir atravessar o escudo.
— Vou comunicar-lhe isso. Até já. Pense em alguma coisa simpática para que eu
possa rastrear você, ou melhor, diga-o. Infelizmente não sou um telepata.
— Eu estou no platô do cume, diretamente por baixo do planador. Você não pode
me errar. Se as medições de Galby estiverem corretas, o nosso adversário está a menos de
dois quilômetros daqui, na borda da montanha. E isso no lado do Sol. Logo vamos
agarrá-lo.
— Assim espero.
Gucky estava de pé no platô e olhou para as montanhas do outro lado. O lugar onde
ele supunha estar o desconhecido estava realmente muito próximo. De vez em quando ele
continuava recebendo as padronagens de pensamentos confusos, sem sentido, mas elas o
ajudavam a determinar a direção. O fugitivo a qualquer momento poderia empreender
uma tentativa de fuga desesperada.
E então Gucky viu aquele raio de fogo verde no desfiladeiro do outro lado.
O escudo verde protetor hiperenergético do adversário.
Sem esperar pela chegada de Ras Tschubai, ele teleportou.
***
Sacon Hashey viu-se definitivamente acuado. Por cima dele pairava o planador,
cujas armas poderiam pôr em perigo mesmo um escudo hiperenergético. Além disso, os
seus instrumentos de medição podiam rastrear, a qualquer momento, as ra- 1 diações
energéticas de um escudo destes.
E diante dele, a menos de dois quilômetros de distância, esperava o pequeno
demônio de pelo marrom, que se preocupara tanto pelo suposto Goratchim, e com isso
nivelara para ele, Hashey, o caminho para o Sistema Solar.
Ele sentia formalmente o ódio do rato-castor, e pela primeira vez ele também sentiu
alguma coisa parecida com medo.
Na proteção do escudo verde, ele se sentia seguro. Mesmo com armas pesadas não
seria muito fácil liquidá-lo imediatamente, pelo menos não se ele ficasse em cobertura.
Esta também era a razão por que ele continuava hesitando em prosseguir na fuga.
Ele ainda não sabia que tipo de dano ocasionara. Pelo rádio ficara sabendo que a
eclusa temporal ruíra, porém ele não conseguira determinar as consequências da
catástrofe em todos os seus detalhes. Sabia apenas que o Sistema Solar ainda se
encontrava no seu esconderijo temporal.
O seu trabalho, portanto, ainda não terminara.
De repente Gucky sumiu de sua posição.
No primeiro momento, Hashey presumiu que ele tivesse ligado o seu escudo
defletor para poder aproximar-se dele sem ser notado, mas logo reconheceu o seu erro,
quando o rato-castor materializou a menos de vinte metros de distância dele.
O seu primeiro impulso de fazer uso de um raio energético, rapidamente foi abafado
pela lógica. Hashey sabia que sem o seu escudo protetor de hiperenergia ele estaria
entregue ao adversário, e não podia abrir fogo sem desligá-lo.
E as armas de mão do rato-castor não eram absolutamente suficientes para penetrar
no escudo hiperenergético.
Nenhum dos dois podia fazer alguma coisa contra o outro.
***
Gucky viu o adversário diante dele. Por trás do brilho verde do escudo protetor, a
sua figura podia ser reconhecida, fantasmagoricamente. Um homem, um humanóide, pelo
menos. Talvez um anti, um daqueles semimutantes do culto Baalol.
Gucky não tirou os olhos do inimigo, enquanto dizia no seu microfone:
— Alô, Galby! Está ouvindo?
— Bem. O que há?
— Eu estou parado diante dele, mas não posso fazer nada. Prestem atenção, para o
caso de ele querer voar.
— Não se preocupe. Nós ligamos o difusor de escudos. Com ele podemos ampliar o
nosso próprio escudo energético, de modo que ele se coloque, a partir de nós, como uma
redoma, por cima do esconderijo. Esse não tem mais nenhuma chance de escapar.
— Muito tranquilizador. Vamos liquidá-lo?
— Eu o quero vivo.
— Não.
Houve uma pausa, depois Deighton quis saber, surpreso:
— Como, não? Eu quero saber quem o mandou e qual é a sua tarefa. Eu poderei
obter conclusões valiosas, e...
— Não! — repetiu Gucky, duro e firmemente. — Ele é um dos assassinos de
Goratchim e abusou do cadáver do meu amigo. Ele merece a morte. Eu mesmo vou matá-
lo.
Deighton suspirou.
— Desde quando você é assim, Gucky? Você sabe muito bem que qualquer
vingança não tem sentido. E nós, há muito tempo, não conhecemos mais a pena de morte.
Por que você não quer tentar agarrá-lo vivo? Eu lhe prometo que isto não será nenhum
pão de mel para ele, e talvez ele até desejasse estar morto. Mas você não deverá matá-lo,
pois isso seria assassinato.
— Besteira! Assassinato! Que culpa tenho eu se ele morre em combate?
— E se ele se entregar?
Gucky silenciou. Depois murmurou:
— Ele não se entregará nunca, disso tenho certeza. E agora, vou receber as armas
pedidas ou não?
Deighton disse:
— Não, Gucky. Vigie-o, nós mesmos estamos chegando com apoio logístico de
robôs. Depois veremos.
Perto de Gucky materializou Ras Tschubai.
— Você disse o que queria, para Deighton — disse ele, pelo rádio.
— Qual é sua opinião a respeito? Vamos liquidá-lo ou não?
— De qualquer modo deveríamos tentar capturá-lo vivo.
Gucky anuiu.
— É exatamente isso que vou fazer, tentar. Mas como? Sem as armas apropriadas
não podemos empreender nada. E quando as armas chegarem, Deighton também terá
chegado.
Ras Tschubai não refletiu nem um segundo.
— Lembre-se de tempos anteriores, Gucky. Lembre-se de que você não é apenas
teleportador e telepata, mas também telecineta. Telecineticamente você pode agarrá-lo, e
contra isso nem o seu hiperescudo vai ajudá-lo. Jogue-o no lago de estanho líquido. Eu
aposto qualquer coisa que o seu escudo não suportará isso. Estando liquefeito tem uma
temperatura de pelo menos 230 a 240 graus centígrados.
— Bem quentinho — concedeu Gucky e anuiu, satisfeito com a solução. — Fique
com a sua arma energética pronta para disparar. Abra fogo logo que o seu escudo ruir.
Muito bem, pronto!
Gucky olhou para o seu adversário, ainda que não pudesse reconhecer o seu rosto.
O mesmo confundia-se por trás dos véus verdes do escudo protetor.
Depois ele o agarrou telecineticamente.
Sem mexer-se do lugar, ele segurou o adversário e assegurou-se de que realmente o
estava “agarrando” firmemente. Depois, antes que o adversário pudesse recuperar-se de
sua surpresa e ligar sua aparelhagem de voo, ele o desequilibrou e catapultou contra o
rochedo mais próximo.
Ras Tschubai mantinha a arma térmica pronta, mas o escudo hiperenergético ainda
não se apagara. Ele manteve-se firme sob a prova de resistência, e continuava protegendo
o seu portador.
— Para o lago com ele! — gritou Ras Tschubai, agitado.
Gucky anuiu, furioso, mas não respondeu para não ter sua atenção desviada. Ele
precisava de toda a sua concentração para segurar o adversário.
Este caiu e desapareceu na massa metálica liquefeita e quente.
À sua volta ficou escuro e ele lentamente afundou, liberado da garra telecinética do
rato-castor. A aparelhagem de voo começou a funcionar só a muito custo, porém a sua
força parecia estar fortemente inibida. Só muito lentamente ela modificava os valores
gravitacionais, para logo deixar de funcionar novamente.
Ao mesmo tempo o hiperescudo verde apagou-se.
Mesmo assim, Sacon Hashey subiu novamente à superfície. O seu peso específico
era menor que o do estanho.
Quando ele surgiu, estava indefeso. O escudo se apagara e a aparelhagem de voo
estava falhando. Só lhe restava ainda o defletor.
Este ainda funcionava.
Gucky e Ras Tschubai vivenciaram uma visão estranha, quando o anti ficou
invisível. No meio do tranquilo espelho do lago de estanho, formou-se repentinamente
uma verdadeira cova, com os contornos do anti. Ele não podia ter errado. Os dois
mutantes puderam até seguir nitidamente os pesados movimentos de natação, com os
quais o agente procurava chegar à margem para se salvar.
— Aí vem Deighton — disse Ras Tschubai, apontando para o céu. — Ele logo vai
pousar.
Gucky agarrou-o novamente, erguendo o anti. Com toda força, ele o atirou contra a
margem rochosa alcantilada, repetidamente, como se com isso conseguisse livrar-se de
sua raiva e do seu luto. Somente quando algumas chamas claras denunciaram a explosão
da aparelhagem energética, ele jogou o anti sobre a margem plana.
Sacon Hashey ficou deitado ali, imóvel.
O planador pousou e Deighton veio para fora. Skopins e Chesterham o seguiram.
Todos olharam para o adversário inconsciente, que quase revelara onde estava o Sistema
Solar.
— Ele está morto? —- perguntou Deighton, com voz arrastada.
Gucky sacudiu a cabeça.
— Eu deixei sobrar alguma coisa para você. Eu realmente não consegui liquidá-lo,
apesar dele merecê-lo.
— Obrigado — disse Deighton simplesmente, dirigindo-se para o anti.
E então, com um grito, ele jogou-se na depressão mais próxima.
Também os outros procuraram cobertura, quando o cérebro do inconsciente
explodiu, dilacerando a metade do corpo.
Um bloqueio de morte hipnossugestivo!
Com isso poderia ficar comprovado que este agente na verdade era um anti, que
estava sob a influência do supermutante, seguindo-lhe todas as ordens sem retrucar.
Deighton levantou-se e olhou para os restos do adversário.
— Com isso Goratchim ainda não foi vingado, pois o verdadeiro assassino ainda
continua livremente por aí, e eu tenho a sensação desagradável de que nós ainda vamos
ter muitos aborrecimentos com ele. Vamos fazer nossos cientistas examinarem este
cadáver; talvez eles encontrem alguma coisa que nos tenha escapado. — Ele anuiu para
os outros e voltou para o planador. — Antes de mais nada, entretanto, vou providenciar
para que o segundo variador temporal seja posto em funcionamento. Sem a eclusa
temporal eu me sinto isolado e preso. Os robôs de manutenção e reparos também poderão
dar início aos seus trabalhos. Durante alguns dias eles terão muito que fazer.
O planador ergueu-se e voltou para o espaçoporto da missão.
***
Duas horas mais tarde, os aparelhos de emergência foram colocados em serviço. O
segundo variador temporal foi ligado, e logo depois as estações de controle anunciavam
que as ligações de paravinculação já estavam novamente estáveis. Consequentemente,
segundos depois a eclusa temporal abriu-se novamente para o presente e também
conservou-se estável.
Também o limiar do presente preencheu novamente sua tarefa original, escudando o
transmissor contra o tempo-de-agora.
A Intersolar, que entrara em posição de espera bem perto da eclusa do tempo,
acelerou e voou, como primeira unidade, no corredor colorido, que a levou cinco minutos
para o futuro.
Na tela panorâmica apareceu a imagem familiar do Sistema Solar, dominado pela
esfera do planeta mais próximo, Mercúrio.
Perry Rhodan não perdeu tempo. Dentro de poucas horas ele queria estar na Terra,
para dar início aos festejos do feriado, com um discurso.
1.461 anos!
E quase a Humanidade naufragara em cinco minutos.
***
Depois que a Intersolar fizera escala de uma hora em Mercúrio, Rhodan dirigiu-se
imediatamente para o birô de desvio de Deighton, onde encontrou o chefe da Contra-
Espionagem junto com Ras Tschubai, Gucky, o Capitão Skopins e o Tenente
Chesterham. Com uma calma exterior ele ouviu o relatório, mas depois foi até Gucky,
colocando-lhe a mão no ombro.
— Eu sinto muito, baixinho, realmente o sinto. Talvez tenha sido culpa minha, pois
eu cedi às pressões de Goratchim para que o mandasse para Anchorot. Como é que eu
poderia imaginar que tudo não passava de um truque do supermutante Ribald Corello? Eu
receio que ele ainda venha a nos causar uma série de aborrecimentos.
Gucky olhou para Rhodan, agradecido.
— Não é culpa sua. Isto poderia ter atingido a qualquer um de nós. Mas uma coisa
eu lhe digo: nós vamos pegar esse Corello, ainda que ele realmente seja o filho de Kitai
Ishibashi. E eu vou quebrar o pescoço desse monstro com minhas próprias mãos, ainda
mesmo que todos vocês tentarem me impedir. Desta vez não vou dar ouvidos a vocês;
nem mesmo a você, Perry.
— Até lá você já se acalmou novamente, Gucky. A morte de Goratchim vai ser
vingada, mas nem sempre a vingança significa pagar com a mesma moeda. Você me
promete que no momento decisivo me ouvirá e se comportará decentemente?
— Pelo menos lhe prometo que vou tentar.
Rhodan sorriu um pouco tristemente.
— Pois então, assim já tenho sua palavra. Mais do que isso não posso pedir de você
agora. — Ele virou-se para Deighton. — O que foi feito com o ativador de Goratchim?
— Ele foi posto em lugar seguro, Sir. Sem danos. É um milagre que Corello não
aproveitou a oportunidade de conseguir um ativador celular.
— Ele já tem um para si mesmo, e com isso é imortal. O de Goratchim ele não
podia pegar, pois tinha que deixá-lo na bioimitação do mutante, para não despertar
desconfianças. Os impulsos do ativador são conhecidos. Nós teríamos imediatamente
descoberto o engano. Por isso o supermutante sacrificou um ativador celular.
Agora Rhodan tinha apenas três mutantes: Gucky, Ras Tschubai e o telepata
Fellmer Lloyd.
Todos se tinham transformado em imortais, através dos seus ativadores celulares.
A morte de Goratchim, comprovara o quanto isso valia.
Pontualmente, uma hora depois do começo da entrevista, a Intersolar partiu, com
Rhodan a bordo, com destino à Terra. Os três mutantes ficaram para trás, em Mercúrio, e
viriam depois, com Deighton.
O dia 19 de junho surgira.
Um feriado.
Para ele, Gucky, Goratchim morrera duas vezes.
A primeira vez, no planeta Anchorot, há exatamente três dias, sem chamar atenção e
sem ser chorado. A segunda vez ontem, em Mercúrio. Gucky fechou os pequenos
punhos, quando pensou nisso.
— Mas eu vou agarrá-lo! — murmurou ele, quando mais tarde seguia atrás de
Deighton para o transmissor, que os transmitiria para a Terra. — Eu vou agarrá-lo...
Deighton não se virou, ao perguntar:
— Você disse alguma coisa, baixinho?
Gucky viu diante de si as instalações do transmissor e os brilhantes arcos
energéticos. Ele ansiava por seu bangalô junto ao lago de Goshun, pela paz que havia ali
e o isolamento. Ele queria estar sozinho.
Goratchim muitas vezes o visitara ali. Agora ele jamais poderia visitá-lo outra vez.
Nem ele, nem muitos outros também não.
Eles estavam diminuindo cada vez mais.
— Não, eu não disse nada — murmurou ele.
Silenciosamente eles entraram no pavilhão do transmissor.

***
**
*

Depois da morte trágica do mutante bicéfalo e


“fulminador” Ivan Ivanovitch Goratchim, o Império
Solar possui somente ainda três criaturas com bem
treinadas e muitas vezes comprovadas
paracapacidades: Gucky, Ras Tschubai e Fellmer
Lloyd.
Este é um exército combatente muito diminuto
para apanhar o supermutante Ribald Corello. Mas a
Contra-Espionagem Solar vê uma outra possibilidade:
Joak Cascal, o minerador interestelar, é enviado para o
planeta dos cientistas. Ali ele deverá encaminhar uma
coisa que poderá anular a existência de Corello.
Mais, sobre isso, será contado no próximo número
da série, na história intitulada: “O Segredo do
Olimpo”.

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