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Simbolismo Brasileiro

1893-1902

Charles Borges Casemiro

Editora Casemiro
@
São Paulo
2014
SIMBOLISMO BRASILEIRO
1893-1902

COPYRIGHT @ 2014:
CHARLES BORGES CASEMIRO

EDITORAÇÃO ELETRÔNICA:
EDITORA CASEMIRO

CAPA:
VINCENT VAN GOGH, STARRY NIGHT, 1889.

PREPARAÇÃO DE TEXTO:
CHARLES BORGES CASEMIRO
IEDA FERREIRA BANQUERI CASEMIRO

REVISÃO:
CHARLES BORGES CASEMIRO
IEDA FERREIRA BANQUERI CASEMIRO

DADOS CATALOGRÁFICOS NA FONTE:


CASEMIRO, CHARLES BORGES. SIMBOLISMO BRASILEIRO: 1893-1922. SÃO
PAULO: CASEMIRO, 2014.

LITERATURA BRASILEIRA: 869.0.81


LITERATURA BRASILEIRA: CRÍTICA 869.0.81.09
16 PÁGINAS.

EDITORA CASEMIRO
@
2014
Charles Borges Casemiro

Simbolismo Brasileiro
1893-1902

Editora Casemiro
@
São Paulo
2014
SIMBOLISMO NO BRASIL (1893/1902)

1. Decadentismo ou Simbolismo (1893/1902)

No final do século XIX, o Decadentismo ou Simbolismo configurou-se como uma resposta


artística à crise por que passava a sociedade e a cultura burguesa da Europa industrializada.
Significou uma verdadeira insubordinação contra os valores cientificistas, tecnicistas e
praticistas que guiavam a cultura oficial e faziam da arte uma atividade amesquinhada pelo
intelecto, distanciada de toda possibilidade criativa sensível e subjetiva.

O Simbolismo aproximou-se de alguns ideais estéticos da “Arte pela Arte”, fazendo,


entretanto, referência a uma sociedade decadente, marcada pelo pessimismo, pelo sentimento de
crise e pela angústia existencial.

Os artistas experimentavam um estado de mal-estar tanto na sociedade quanto na cultura,


muito semelhante ao sentimento que se abatera antes sobre os românticos do “mal-do-século”.

Isso explica a negação do cotidiano e dos costumes comuns da sociedade materialista


burguesa e justifica a busca de um mundo movido pela subjetividade, pelo irracionalismo, pelo
mistério, pelo imaginário, pelo etéreo, pelo misticismo – muitas vezes religioso –
marcadamente, valores contrários ao positivismo em vigor no final do século XIX.

As sensações e as imagens simbólicas – muitas vezes metáforas e metonímias – substituem


a compreensão descritiva e conceitual da realidade.

Segundo os preceitos ensinados por Charles Baudelaire (1821/1867) e Edgar Alan Poe
(1809/1849), o tratamento da linguagem poderia até mesmo ser elitista, um jogo estético
elaborado, desde que o objetivo desse jogo fosse expressar o absoluto, o eterno, a plenitude
espiritual.

O Decadentismo estabeleceu pontos de contato com três tendências filosóficas da época,


que ergueram postulados contra o positivismo:

o irracionalismo, de Arthur Schopenhauer (1788/1860) que, apesar de seu pessimismo,


considerava a estética como a maior manifestação do homem;

o intuicionismo, de Henri Bergson (1859/1941) que colocava a intuição acima da razão


para atingir o absoluto;

o monismo, de Edward von Hartmann (1842/1906), que procurava o absoluto subjacente


aos fatos naturais (numa espécie de mundo inconsciente e inexplicável, capaz de
satisfazer tanto às exigências da razão quanto às necessidades do sentimento).

Jules Laforgue (1860/1887), Arthur Rimbaud (1854/1891), Stéphane Mallarmé


(1842/1898) e mesmo Paul Verlaine (1844/1896), ao lado de Baudelaire e Alan Poe, foram
tomados como pilares dessa nova tendência artística.

No Brasil, o Simbolismo foi inaugurado pelo poeta catarinense Cruz e Sousa, com a
publicação simultânea de duas obras: Broquéis (poesia, 1893) e Missal (poesia em prosa,
1893).
Vejamos algumas características do Simbolismo:

O Simbolismo recuperou a subjetividade da arte romântica, promovendo, entretanto, um


aprofundamento dessa subjetividade: a superficialidade da temática amorosa ou heroica do
Romantismo deu lugar à temática da emoção subconsciente, da emoção filosófica.

Os decadentistas ou simbolistas exploraram o máximo da capacidade simbólica da


expressão: metáforas, metonímias, símbolos pouco convencionais, complexas associações de
palavras corroboraram para a construção de imagens plenas de originalidade.

A Musicalidade

Há uma tentativa de aproximar a poesia da música. Não se trata de poesia com fundo
musical, como acontecia nas Cantigas Medievais, mas sim de poesia repleta de sonoridade e
ritmo.

A métrica, a tonicidade, o uso de jogos sonoros – como as rimas, as aliterações, as


assonâncias, as reiterações e plurais – constroem uma poesia musical.

O Irracionalismo, o Espiritualismo e o Misticismo

Referem-se à constante evocação de realidades irracionais, cheias de mistério e pureza; há


uma declarada preferência por realidades pouco inteligíveis: ora representações do caos, ora da
névoa, ora da bruma, ora da neblina, ora do incorpóreo, ora do fantasmagórico, ora do inefável,
ora da morte, ora do sonho, ora da noite etc.

A Sinestesia

A sinestesia apresenta-se na escritura simbolista como resultado da captação confusa e


desordenada da realidade; a partir da mescla e da confusão dos sentidos e das sensações, a
realidade ganha maior dinamismo.

Revolução Lingüística

A linguagem torna-se insuficiente para expressar a grandiosidade, o misticismo, a


religiosidade, a subjetividade proposta pelos decadentistas. Assim, o neologismo, a inovação
sintática e mesmo a inovação sonora e gráfica são tomados como recursos suplementares na
construção da beleza e do requinte formal, sempre apoiado em noções de ritmo e beleza sonora.

2. Cruz e Sousa (1861/1898)

João da Cruz e Sousa nasceu em Florianópolis, filho de escravos libertos pelo Marechal
Guilherme de Sousa. O próprio Marechal incumbiu-se de dar oportunidades ao poeta,
oferecendo-lhe estudos até a adolescência.
Com a morte de seu protetor, Cruz e Sousa foi trabalhar na imprensa catarinense, sofrendo
toda sorte de preconceitos. Mudou-se então para o Rio de Janeiro, onde se casou e passou a
viver a custo de alguns empregos miseráveis.

Foi no Rio de Janeiro, certamente, que o poeta passou por suas maiores frustrações
pessoais: assistiu à loucura de sua mulher e à morte de dois de seus quatro filhos.

Atacado pela tuberculose, o poeta rumou para um lugarejo em Minas Gerais, onde
amargou os últimos momentos de vida. Morreu em 1898.

Sua poesia reflete necessidades pessoais de elevar-se enquanto ser humano. Conseguiu no
verso rebuscado, esteticamente bem elaborado, e na espiritualização de seus temas, uma
maneira de desfazer-se de todas as referências concretas e amesquinhadas da vida, que o
aproximavam dos golpes do preconceito e da miséria.

Perseguiu a poesia pura, imaculada, obsessivamente branca, poesia da essência das coisas,
que constantemente fazia-o defrontar-se com a morte para cultuá-la: a purificação era
necessária, ainda que fosse pelo sofrimento mais intenso da morte.

A espiritualização, a sublimação e a purificação dos temas e das posturas criativas do poeta


obrigaram-no a um formalismo requintadíssimo em que a música, as metáforas obscuras, os
vocábulos raros, as sinestesias, os efeitos sensoriais, o rigor métrico e rítmico aparecem a
propósito de sugerir quadros de angústia, de decepção, de sofrimento purificador, de
religiosidade, de pessimismo e de morte.

Obra:

Missal (1893)
Broquéis (1893)
Evocações (1898)
Faróis (1900)
Últimos Sonetos (1905)

Texto I

Antífona

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras


de luares, de neves, de neblinas!…
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…
Incensos dos turíbulos das aras…

Formas do Amor, constelarmente puras,


de Virgens e de Santas vaporosas…
Brilhos errantes, mádidas frescuras
e dolências de lírios e de rosas…

Indefiníveis músicas supremas,


harmonias da Cor e do Perfume…
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume…

Visões, salmos e cânticos serenos,


surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…
Dormências de volúpicos venenos
sutis e suaves, mórbidos, radiantes…

Infinitos espíritos dispersos,


inefáveis, edênicos, aéreos,
fecundai o Mistério destes versos
com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades


que fuljam, que na Estrofe se levantem
e as emoções, todas as castidades
da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros


fecunde e inflame a rima clara e ardente…
Que brilhe a correção dos alabastros
sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça


de carnes de mulher, delicadezas…
Todo esse eflúvio que por ondas passa
do Éter nas róseas e áureas correntezas…

Cristais diluídos de clarões alacres,


desejos, vibrações, ânsias, alentos,
fulvas vitórias, triunfamentos acres,
os mais estranhos estremecimentos…

Flores negras do tédio e flores vagas


de amores vãos, tantálicos, doentios…
Fundas vermelhidões de velhas chagas
em sangue, abertas, escorrendo em rios…

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,


nos turbilhões quiméricos do Sonho,
passe, cantando, ante o perfil medonho
e o tropel cabalístico da Morte…

(Cruz e Sousa in: Castelo, José A. e Cândido, Antônio. Presença da Literatura Brasileira: Do
Romantismo ao Simbolismo, São Paulo, Difel, 1974,
pp. 240-241)

Texto II

Música da Morte

A Música da Morte, a nebulosa,


estranha, imensa música sombria,
passa a tremer pela minh’alma e fria
gela, fica a tremer, maravilhosa…
Onda nervosa e atroz, onda nervosa,
letes sinistro e torvo da agonia,
recresce a lancinante sinfonia,
sobe, numa volúpia dolorosa…

Sobe, recresce, tumultuando e amarga,


tremenda, absurda, imponderada e larga,
de pavores e trevas alucina...

E alucinando e em trevas delirando,


como um ópio letal, vertiginando,
os meus nervos, letárgica, fascina...

(Castelo, José A. e Cândido, Antônio. Presença da Literatura Brasileira: Do Romantismo ao


Simbolismo, São Paulo, Difel, 1974,
p. 243)

Observar no texto:

a) Musicalidade: pluralização, aliterações, reiterações, assonâncias, rimas; ritmo marcado


pelo decassílabo e pela tonicidade na sexta e décima sílabas;
b) Vocabulário rebuscado, às vezes neológico, marcado pela religiosidade, pela liturgia, pelo
cerimonioso, pelo misticismo, pelo pessimismo;
c) Presença de símbolos, metáforas, metonímias;
d) Construção sintática requintada;
e) Sinestesias: mescla de sensações e sentidos, conferindo dinamismo à realidade sugerida;
f) A visão paradoxal sobre a morte: a triste alegria da morte;
g) A pontuação reticente;
h) Adjetivação excessiva: muito poder sugestivo, pouco poder descritivo;
i) As formas requintadas de verso, estrofação.

Texto III

Vida Obscura

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,


Ó ser humilde entre os humildes seres
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro


A vida presa a trágicos deveres
E chegaste a saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto


Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos,


Sei que cruz infernal prendeu-te os braços,
E o teu suspiro como foi profundo!
(Cruz e Sousa in: Gonzaga, Sergius. Manual de Literatura Brasileira, Porto Alegre, Mercado
Aberto, 1993, p. 132)

Observar no texto:

a) O sofrimento como decantação das impurezas da vida: a angústia existencial, a amargura


acaba penetrando até mesmo a manifestação estética, que serve como veículo para uma
sublimação das dores.
b) Forma requintada: soneto, versos decassílabos, vocabulário etc.

Texto IV

Litania dos Pobres

Os miseráveis, os rotos
São as flores de esgotos
São espectros implacáveis
Os rotos, os miseráveis
São prantos negros de furnas
Caladas, mudas, soturnas (...)

Faróis à noite apagados


Por ventos desesperados.
Bandeiras rotas, sem nome
Das barricadas da fome.
Bandeiras estraçalhadas
Das sangrentas barricadas.(...)

(Cruz e Sousa in: Gonzaga, Sergius. Manual de Literatura Brasileira, Porto Alegre, Mercado
Aberto, 1993, p. 132)

Observar no texto:

A preocupação com o sofrimento dos pobres, com a dor dos miseráveis do mundo.

3. Alphonsus de Guimaraens (1870/1921)

Afonso Henriques da Costa Guimarães nasceu em Ouro Preto e estudou Direito em São
Paulo. Ao voltar para Minas Gerais, exerceu a função de juiz na cidade de Mariana, onde
morreu praticamente desconhecido.

Sua vida foi um sinônimo quase que absoluto da decadência das cidades históricas
barrocas de Minas Gerais. Embalada pelos sons, pelos sinos, pelos becos silenciosos, pelos
vultos, pelas sombras, pelas brumas, pelos fantasmas noturnos, pelas igrejas e imagens místicas
tornou-se um poeta decadentista.

Tematizou a perda da amada, a religiosidade e o misticismo, convertendo em poesia as


imagens da mulher, da morte e da religião.
Guiou-se por uma espécie de platonismo místico em que a imagem da virgem Maria
substitui a imagem da mulher concreta. A mulher e a paixão ganharam aspectos transcendentes,
aspectos espiritualizados.

Nas palavras de José Aderaldo Castello e Antônio Cândido “mais do que ninguém
soube elaborar a música verbal dos tons menores, amaciando o alexandrino e o decassílabo,
quebrando arestas à redondilha, de modo a obter ritmos modernos, que aderiam com
felicidade ao movimento suave e amargurado da sua inspiração.”.

Texto I

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,


Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu uma lua no mar.

No sonho em que se perdeu,


Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu


As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu


Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

(Alphonsus de Guimaraens in: Castello, J. A. e Cândido, A. Presença da Literatura


Brasileira: Do Romantismo ao Simbolismo, São Paulo, Difel, 1974, p. 256)

Observar no texto:

a) O tema da morte da amada, sugerido nas inúmeras metáforas e símbolos;


b) A dualidade como elemento sustentador do poema: o ir o vir do mar, o ruflar das asas, a
lua do céu e a lua do mar, subir e descer, corpo e alma etc;
c) A construção da oposição, da antítese céu / mar, correspondendo à realidade platônica em
oposição à realidade sensível, ao concreto em oposição ao abstrato;
d) A contribuição da rima ABAB, para o movimento dual do poema; observar como a rima
tipo “A” joga imprecisamente entre o som aberto e o som fechado;
e) A pontuação como elemento de imprecisão, como meio de apresentação de uma realidade
vaga, sugestiva;
f) O paralelismo de estruturas entre os dois últimos versos de cada estrofe;
g) O ritmo redondilho: musical, sonoro.

Texto II

Soneto

Hão de chorar por ela os cinamomos,


Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão: – “Ai, nada somos,


Pois ela se morreu silente e fria…”
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,


Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos…


E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: – “Por que não vieram juntos?”

(Alphonsus de Guimaraens in: Castello, J. A. e Cândido, A. Presença da Literatura


Brasileira: Do Romantismo ao Simbolismo, São Paulo, Difel, 1974, p. 257)

Observar no texto:

a) O formalismo do soneto clássico, como expressão de um tema romantizado: a morte da


amada idealizada;
b) A presença da natureza como cúmplice da angústia e da perda, assim como se verificava
no Romantismo;
c) Uma relativa simplicidade das construções sintáticas e das expressões, quando postas em
comparação com as de Cruz e Sousa;
d) Uma sonoridade não exaustiva, motivada pela reiteração de certos sons consonantais
(aliterações) e vocálicos (assonâncias);
e) O espiritualismo e o pessimismo das imagens.

Leitura Complementar

4. Pedro Kilkerry (1855/1917)

Nasceu em Santo Antônio de Jesus, na Bahia, em 1855, e morreu em Salvador, em 1917.


Formou-se em Direito, além de cursar parcialmente o Bacharelado em Letras no Colégio da
Bahia. O que se conhece de sua obra reduz-se ao que publicou nas revistas simbolistas Nova
Cruzada e Os Anais. Sua obra foi compilada em 1970 por Augusto de Campos, que publicou
artigos pioneiros sobre a vida e a poesia do poeta considerado maldito. Em estudo introdutório
ao volume, o organizador, com base nos que o antecederam, coloca Kilkerry na linguagem do
Simbolismo de Mallarmé: técnica avançada de composição, à base de metonímias e metáforas,
musicalidade agressiva e dissonante, além do alto grau de consciência da interação entre som e
sentido, do que resulta, muitas vezes, um hermetismo quase intransponível.

Texto I

O Verme e a Estrela

Agora sabes que sou verme.


Agora, sei da tua luz.
Se não notei minha epiderme…
É, nunca estrela eu te supus.
Mas se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz!

Um raio, brando, ao teu viver?


Não te lembrava. Azul celeste
O céu, talvez, não pôde ser…
Mas, ora! enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver?

Olho, examino-me a epiderme,


Olho e não vejo a tua luz!
Vamos que sou, talvez, um verme…
Estrela nunca eu te supus!
Olho, examino-me a epiderme…
Ceguei! ceguei da tua luz?
(Pedro Kilkerry)

Texto II

Horas Ígneas

I
Eu sorvo o haxixe do estio…
E evolve um cheiro, bestial,
Ao solo quente, como o cio
De um chacal.

Distensas, rebrilham sobre


Um verdor, flamâncias de asa…
Circula um vagor de cobre
Os montes – de cinza e brasa.

Sombras de voz hei no ouvido


– De amores ruivos, protervos –
E anda no céu, sacudindo,
Um pó vibrante de nervos.

O mar faz medo… que espanca


A redondez sensual
Da praia, como uma anca
De animal.

II
O Sol, de bárbaro, estanque,
Olho, em volúpia de cisma,
Por uma cor só do prisma,
Veleiras, as naus – de sangue…

III
Tão longe levadas, pelas
Mãos de fluido ou braços de ar!
Cinge uma flora solar
– Grandes Rainhas – as velas.

Onda por onda ébria, erguida,


As ondas – povo do mar –
Tremem, nest’hora a sangrar,
Morrem, desejos da Vida!

IV
Nem ondas de sangue… e sangue
Nem de uma nau. – Morre a cisma.
Doiram-se as faces do prisma
Mulheres – flores – num mangue…
(Pedro Kilkerry)

EXERCÍCIOS

Texto para as 5 questões seguintes:

Violões que choram

Ah! plangentes violões dormentes, mornos,


Soluços ao luar, choros ao vento…
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,


Noites da solidão, noites remotas
Que nos azuis da Fantasia bordo,
Vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações à luz da lua,


Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,


Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,


Dedos nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram
Gemidos, prantos, que no espaço morrem…

E sons soturnos, suspiradas mágoas,


Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes,


Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa


E vibra e se contorce no ar, convulso…
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febril agitação de um pulso.

Que esses violões nevoentos e tristonhos


São ilhas de degredo atroz, funéreo,
Para onde vão, fatigadas do sonho,
Almas que se abismaram no mistério.

(Cruz e Sousa)

1. Como se constrói a musicalidade do texto de Cruz e Sousa? Retire exemplos do texto que
comprovem sua resposta.

2. Analise o vocabulário e o tipo de construção sintática utilizados na construção do poema.


Exemplifique sua resposta com trechos.

3. Retire do texto dois exemplos de sinestesia.

4. A metáfora e a sugestividade substituem a captação objetiva e cientificista da realidade.


Retire do texto trechos que possam assim ser entendidos.

5. Os simbolistas normalmente manifestam, na poesia, estados de alma dilacerados pela dor


e pessimismo – sobretudo, a profunda dor de existir no mundo positivista. Pensando
nisso, explique a simbologia dos violões na última estrofe do poema.

6. (FEI/SP) Todas as características abaixo aplicam-se ao Simbolismo, exceto:

a) Sugestão de estados de alma.


b) Visão pessoal e, frequentemente, melancólica e pessimista da vida.
c) Volta aos ideais clássicos de equilíbrio e racionalidade.
d) Desejo de aproximar a literatura da música.
e) Presença da sinestesia, como instrumento de expressão de mescla de sensações.

7. (…)
Agora sabes que sou verme.
Agora, sei da tua luz.
Se não notei minha epiderme...
É, nunca estrela eu te supus.
Mas se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz!

a) O que marca no texto o sentimento de angústia e impossibilidade?

b) Que elementos do trecho marcam a idealização do objeto desejado e o rebaixamento do


eu-lírico?

c) Como esses elementos se relacionam com as filosofias espiritualistas e místicas que


cercam o Simbolismo?

TAREFA

T1.(Santa Casa/SP)

Nessa Amplidão das Amplidões austeras


Chora o Sonho profundo das Esferas,
que nas azuis Melancolias morre...

Recusando a expressão ortodoxa, o racionalismo, a realidade episódica, o rigor formalista da


estética que o antecedeu, por um lado; e, por outro lado, valorizando a sensibilidade, a
emoção, a busca das essências imateriais do mundo, conforme lembra o texto acima,

a) a poesia de 1945 renovou o espírito barroco, que se pôs como substrato histórico da
criação poética brasileira.
b) a poesia do Modernismo da primeira geração regeu-se por um tom fortemente
espiritualizado, que evitou pôr sob o foco os aspectos comezinhos do cotidiano.
c) o Arcadismo reviveu os cânones clássicos e conferiu a nossa literatura um caráter
universalista.
d) o Simbolismo foi, em sua época, um movimento estético marginalizado e pouco
entendido, por não se coadunar com as tendências filosóficas e culturais então
dominantes.
e) o Parnasianismo fez uma poesia de inspiração filosófica, descobrindo a dimensão inteira
do homem de seu tempo.

T2.
(...)
E eu morrendo! e eu morrendo,
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! a delícia da vida!

O trecho de Olavo Bilac, poeta parnasiano, apresenta características que permitiriam


enquadrá-lo no Simbolismo. Quais? Exemplifique sua resposta com trechos.

T3.
(...)
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu


Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

a) O desejo de Ismália é marcado por uma antítese. Retire-a do texto e explique sua
simbologia.

b) Nesse sentido, o que significaria a realização do desejo de Ismália?

T4. (UEL)
“Faz descer sobre mim os brandos véus da calma,
Sinfonia da Dor, ó Sinfonia muda,
Voz de todo meu Sonho, ó noiva da minh'alma,
Fantasma inspirador das Religiões de Buda.”

A estrofe acima é de Cruz e Souza, e nela estão os seguintes elementos típicos da poesia
simbolista:

a) realidade urbana, linguagem coloquial, versos longos.


b) erotismo, sintaxe fluente e direta, ironia.
c) desprezo pela métrica, linguagem concretizante, sátira.
d) filosofia materialista, linguagem rebuscada, exotismo.
e) misticismo, linguagem solene, valorização do inconsciente.

T5. (UEL) Identifique os versos tipicamente simbolistas de Cruz e Sousa.

a) Adeus! ó choça do monte!…


Adeus! palmeiras da fonte!…
Adeus! Amores… adeus!…

b) Rei é Oxalá que nasceu sem se criar.


Rainha é Iemanjá que pariu Oxalá sem se manchar.

c) Minhas idéias abstratas


De tanto as tocar, tornaram-se concretas.
São rosas familiares
Que o tempo traz ao alcance da mão.

d) Eu não devia te dizer


mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

e) Nessa Amplidão das Amplidões austeras


chora o Sonho profundo das Esferas
que nas azuis Melancolias morre…