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1.

História, Geografia e Ciências Sociais: a abertura

A definição de história, no início do século XX, sofre uma profunda modificação


teórico metodológica, sendo a revista Annales d’histoire économique et sciale – criada em
1929 – ao lado das ciências sociais um dos atores principais envolvidos nesse movimento
historiográfico. “A criação da revista Annales resulta da dupla mutação que perturbou tanto a
situação mundial no pós 1914-1918 quanto o campo das ciências sociais.”1 As bases
paradigmáticas, priorizando uma abordagem política, construídas pela consciência histórica
iluminista do século XVIII e que perpassaram por todo o XIX serão desestabilizadas. A
história começa a ser questionada pelo avanço científico das ciências sociais, como
antropologia, lingüística, psicanálise, especificamente a sociologia de matriz durkheimiana.
O objetivo desse trabalho será mostrar a construção e afirmação da identidade da
primeira geração do movimento dos Annales, bem como sua estreita relação com as ciências
sociais e outras influências, como a geografia vidaliana. Um breve comentário sobre os “pais
fundadores”, Marc Bloch e Lucien Febvre, torna-se pertinente para explicar os embates
teóricos que marcaram a historiografia da primeira metade do século XX, desencadeando na
ruptura com o modus operandi considerado de matriz positivista. A questão que salta aos
olhos são às alianças efetuadas com as ciências sociais para um diálogo interdisciplinar.
As ciências sociais do final do século XIX e início do XX terão como matriz
metodológica o positivismo de Auguste Comte. O “imperialismo” da história política tornou-
se um entrave para o desenvolvimento da crítica historiográfica, a história passou a ser um
alvo de sociólogos, como Émile Durkheim, herdeiro do positivismo comteano. Como nos
mostra François Dosse em sua interpretação:
A jovem sociologia durkheimiana tem explicitamente a ambição de realizar
a unificação, sob seu comando, do conjunto das ciências humanas, por trás
do conceito de causalidade social. Desse modo, ataca a fortaleza da história,
disciplina fortemente implantada nas instituições universitárias. Passa a ter,
desde 1897, um órgão para defender suas teses: L’Aneé sociologique.2

A escola durkheimiana será, em um primeiro momento, uma grande adversária


epistemológica da história, por tentar descaracterizá-la como disciplina autônoma,
argumentando contra a história estritamente política voltada para os Estados nacionais e
grandes personagens, bem como a própria noção de temporalidade, ao passo que a história
cronológica ainda ocupava um lugar de destaque. Mas, o golpe de maior impacto veio através

1
DOSSE, François. A história em migalhas: dos Annales à Nova história. Bauru-SP: Editora EDUSC, 2003, p.
33.
2
Ibdem, p. 41.
1
de uma polêmica publicação na revista Revue de synthèse historique, dirigida por Henri Berr,
de um jovem sociólogo e durkheimiano francês, François Simiand. “Seu incendiário artigo,
“Método Histórico e Ciências Sociais”, constituiu o desafio mais radical que a disciplina
histórica havia conhecido, um verdadeiro ultimato.”3 O grande objetivo de Simiand foi
realizar uma desestabilização dos métodos históricos como pertinentes à uma interpretação
social, em função da maior parte dos historiadores até aquele momento estar distante de outras
ciências. Para Simiand, os historiadores não passavam de meros “coletores de dados”, sendo a
sociologia a ciência capaz de interpretar, de forma nomológica, a realidade. A obra publicada
por Charles Seignobos e Charles Langlois, um manual para os estudos históricos, sofre a ira
de Simiand. O sociólogo, que, para Peter Burke, nutria um objetivo de atentar aos
historiadores para o diálogo com outras disciplinas, como psicologia e a própria sociologia,
uma interpretação que, ecoa um tanto apressada, visto o caráter monopolizador da sociologia
naquele momento. François Dosse mostra que “por outro lado, Simiand priva-se da aliança
virtual com os historiadores inovadores, como Paul Mantoux, Gabriel Monod [...].”4
A argumentação de Simiand contra a “história dos eventos” pode ser sintetizada em
três pontos principais, “o ídolo político”, onde critica a abordagem política da história, “o
ídolo individual”, expressando a incompatibilidade da sociologia com aspectos singulares que
individualizam o processo histórico, por fim, “o ídolo cronológico” a crítica da busca de um
passado como critério de explicação do presente, a busca das origens. O famoso artigo de
Simiand será uma abertura para reflexão acerca da disciplina histórica, efetuada por Marc
Bloch e Lucien Febvre:
Esse artigo conhecerá sucesso notório na medida em que a escola dos
Annales retomará, termo a termo, o programa dele para combater a história
historicizante e promover a história nova. Dessa diatribe de 1903, os Annales
extrairão o essencial do seu aspecto inovador, da história-problema a
promoção de pesquisas coletivas, [...] Esse texto “aparecia como uma
espécie de matriz teórica”. Marcará profundamente a geração de Marc Bloch
e Lucien Febvre [...].5

A influência sociológica durkheimiana de Simiand e das ciências sociais como um


todo, foram significativas para uma redefinição de método para história no início do século
XX. A Revista dos Annales dialogou com um referencial teórico complexo para construir sua
concepção inovadora para a historiografia francesa, uma percepção muito cara aos
historiadores. A revolução do espírito científico foi um catalisador intelectual, como a teoria

3
DOSSE, François. Op.cit, p. 45.
4
Ibdem, p. 47-48.
5
Ibdem, p. 48.
2
dos gases e as teorias físicas de Einstein, redefinindo epistemologicamente o próprio conceito
de ciência, muito bem percebida por Bloch e Febvre. “Eles vêem na teoria das probabilidades,
na teoria da relatividade da medida temporal e espacial, a possibilidade de a história aspirar
[...].”6
Outra área do conhecimento que impulsionou os historiadores dos Annales do início
do século XX foi a Geografia7 francesa. Seu principal representante, Pierre Vidal de La
Blache, que fora num primeiro momento historiador, acaba se preocupando com questões
envolvendo a geografia, em função de buscar compreender a derrota francesa para a
Alemanha, ressaltando assim o caráter contemporâneo da abordagem geográfica. A geografia
nasce como disciplina no fim do século XIX (1880), se colocando como uma saída para o
positivismo, muito presente nas análises científicas daquele momento, especialmente na
história. A geografia vidaliana objetivou distanciar-se dos aspectos puramente políticos,
propondo uma observação do tempo presente, suas permanecias físicas, suas paisagens. A
orientação da observação do espaço será muito cara ao movimento dos Annales, que fará uma
história fora de textos escritos, analisando o meio, os modos de vida e o quotidiano.8

2. Marc Bloch e Lucien Febvre: apologias, combates e contribuições para o método


histórico

A distância de uma história política faz-se cada vez mais forte e presente, ao passo que
o econômico, por influência de Ernest Labrousse, coloca-se no horizonte de escrita da história
dos representantes da primeira geração da revista. Peter Burke descreve esse momento em
que:
Os historiadores econômicos predominam nos primeiros números: Pirenne,
que escreve um artigo sobre a educação dos mercadores medievais; o
historiador sueco Eli Heckscher, autor do famoso estudo sobre o
mercantilismo, e o americano Earl Hamilton, muito conhecido por suas
obras sobre as finanças americanas e sobre a revolução dos preços na
Espanha. Nessa ocasião, a revista tinha a feição de um equivalente francês,
ou de uma rival, da Economic History Review inglesa. Contudo, em 1930,
declarava-se a intenção de a revista estabelecer-se “sobre o terreno mal
amanhado da história social”. Preocupava-se também com o problema do
método no campo das ciências sociais, tal como a Revue de Synthèse
Hitorique.9

6
DOSSE, François, Op.cit, p. 55.
7
A geografia de matriz vidaliana foi uma corrente forte, principalmente na escrita de Lucien Febvre, que se
opõe ao determinismo geográfico alemão de Friedrich Ratzel, rompendo o vínculo mecânico entre gênero de
vida e meio, criando um método de observação.
8
DOSSE, François, Op.cit, p. 49.
9
BURKE, Peter. A Revolução Francesa da historiografia: a Escola dos Annales – 1929-1989. São Paulo:
Editora UNESP, 1991, p. 23.
3
As ciências sociais, de fato, contribuíram para uma abertura do método histórico. Em
suas principais obras10, Marc Bloch expressará a forte influência de conceitos pertencentes à
sociologia de Émile Durkheim. Especialmente em Les Rois Thaumaturges: Étude sur Le
caractère surnaturel attribué à la puissane royale, particulièrement en France et em Angleterre
(1924), Bloch analisa o problema contrastante da crença no poder régio na cura das escrófulas
realizadas pelos reis da França e Inglaterra, utilizando o conceito de “psicologia religiosa”, e
que mais tarde iria ganhar espaço com o campo da História das mentalidades. “Esse tipo de
discussão sobre a psicologia da crença não era algo que se podia esperar de um estudo
histórico nos anos 20.”11 A obra é demasiadamente importante para a primeira geração, pois
se enquadra dentro de uma história problema e totalizante, grande ambição de Bloch, que já
anunciava algumas cores da futura “longa duração” braudeliana. O percurso da obra inicia-se
na Idade Média do século XIII, chegando até o século XVIII, onde Bloch mostra, através das
práticas simbólicas, o nascimento, o apogeu e o desaparecimento da crença. “Assim, é difícil
ver na fé no milagre régio outra coisa senão o resultado de um erro coletivo – aliás, mais
inofensivo que a maior parte dos erros de que está repleto o passado da humanidade.” 12 Outra
contribuição de Les Rois Thaumaturges foi o pioneirismo do método comparativo, que
posteriormente se consolidaria na historiografia. A antropologia também esteve presente nas
articulações de Bloch, indicando sua percepção cultural, bem como uma aspiração política,
que perpaça por toda sua escrita, fazendo da obra um grande marco para a consagrada
historiografia de Bloch e dos Annales. A negação do discurso político, sustentada pela
primeira geração da revista, na interpretação de François Dosse, deprecia o “fazer história”
dos Annales.
O escrito teórico mais fecundo deixado por Marc Bloch pode ser encontrado em seu
inacabado Apologie pour l’histoire ou Métie d’historien (1942), realizado nas precárias
condições que um campo de concentração pode oferecer. Para ele, a história é a “ciência dos
homens, no tempo.”13 O objetivo de Bloch é orientar a escrita da história de forma
desvinculada de uma “história historicizante”, e anacrônica, demonstrando uma absorção das
críticas apresentadas por Simiand e os durkheimianos:

10
Outras importantes obras de Marc Bloch são Les Caractàres Origineaux de l’hitoire rurale française (1931),
onde Bloch aplica seu “Método regressivo”, realizando um forte diálogo com a sociologia, geografia e
economia. Outra Obra considerada seu grande feito foi La sociète fèodale (1939), englobando aspectos sociais,
econômicos e mentais, uma obra que atende a proposta de história total.
11
BURKE, Peter. Op.cit, p. 20.
12
BLOCH, Marc. Os reis taumaturgos: o caráter sobrenatural do poder régio, França e Inglaterra. Trad. Júlia
Mainard. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 278.
13
BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 55.
4
Sem dúvida, falta, e muito, para que a luz dos documentos se faça
regularmente mais viva à medida que percorremos o fio das eras. Somos
incomparavelmente menos informados sobre o século X de nossa era, por
exemplo, do que sobre a época de César ou de Augusto. Na maioria dos
casos, os períodos mais próximos não coincidem menos nesse aspecto com
as zonas de clareza relativa. Acrescentem que, ao proceder, mecanicamente,
de trás para frente, corre-se sempre o risco de perder tempo na busca das
origens ou das causas de fenômenos que, à luz da experiência, irão revelar-
se, talvez, imaginários.14

A importância da obra de Bloch definiu a escrita da história ao longo do século XX e


sua identidade científica. O método regressivo, mérito do historiador, expressa a incorporação
das ciências sociais para o ofício do historiador.
Os estudos das mentalidades estiveram presentes nos horizontes de Marc Bloch e,
principalmente, de Lucien Febvre, na qual se apropriam de outras disciplinas estranhas à
história até aquele momento, como etnologia e principalmente a psicologia, sobre a influência
de Charles Blondel. “Lucien Febvre é mais sensível à preocupação psicológica, ao confronto
entre o homem singular e o universo mental no qual ele intervém”15. Os estudos de psico-
história dos Annales resultam de um diálogo entre a psicologia e a sociologia durkheimiana,
esta sempre presente nas reconstruções das “estruturas mentais”, efetuada pelos pais
fundadores. Para Lucien Febvre a compreensão do homem enquanto indivíduo é uma tarefa
que deve orientar a análise histórica. Em obras como Luther (1928) e Rebelais ou Le
problème de l’incroyance au XVI siècle (1942), Febvre mostra os conflitos mentais entre
indivíduo e sociedade, ressaltando as aspirações coletivas presentes na mentalidade do século
XVI. Outro problema combatido por Febvre também foi o “pecado dos pecados”, o
anacronismo.
A síntese do programa, proposto por Marc Bloch e Lucien Febvre, pode ser
encontrada na já citada Apologie pour l’histoire e também na expressão explosiva do
manifesto de Febvre, Combats pour l’histoire (1953). Nessa obra Febvre pontua todo seu
amor e vocação pelo ofício de historiador, buscando desvincular a história dos paradigmas do
século XIX, com forte rejeição à filosofia. Chama a atenção para o tempo presente,
enfatizando que toda história é cientificamente conduzida e social por excelência, onde o
historiador deve buscar compreender o homem dentro da totalidade do tempo. Mais uma vez,
observa-se a forte influência que exerceu as ciências sociais para uma abertura dialógica com
outras disciplinas: “E, por outro lado digo os homens. Os homens, únicos objectos da história

14
BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 67.
15
DOSSE, François, Op.cit, p. 126.
5
– de uma história que se inscreve no grupo das disciplinas humanas de todas as ordens e de
todos os graus, ao lado da antropologia, da psicologia, da linguística, etc.”16 O combate de
Febvre, tem como objetivo mostrar que o modo de fazer história havia mudado com relação
ao século XIX, abalado pela desestabilização da ideologia de progresso, efeito da Primeira
Guerra Mundial. O historiador deve olhar para seu tempo, refletir e articular passado e
presente. Uma crítica à Escola metódica dita “positivista”, que, para Febvre enxerga à história
somente através de documentos, como um passado absoluto. “É preciso ter horror ao
pequeno, ao mesquinho, ao pobre, ao antiquado.”17
O lugar que ocupou a escola dos Annales na historiografia francesa foi dominante,
influenciando gerações de historiadores que absorveram esse paradigma. Com a morte de
Bloch por fuzilamento em 1944, a direção da revista passa para Febvre, que permanece até
1956. A ascensão de Fernand Braudel e sua concepção de história imóvel, para alguns
historiadores de matrizes marxistas, modificaram o programa. Para o historiador catalão Josep
Fontana:
Porém esse receituário não apareceu com a revista em 1929, quando se
chamava Annales d’histoire Économique et Sociale, flertava com o
marxismo e, sob a dupla direção de Lucien Febvre e de Marc Bloch, parecia
aberta às correntes mais progressistas das ciências sociais, separando-se
gradualmente de algumas origens tão conservadoras, como as concepções da
“síntese histórica” de Henri Berr e da sociologia da escola de Durkheim.18

Obviamente que à revista fora passível de diferentes interpretações. François Dosse,


por exemplo, enxerga “Os anos Braudel” como um amplo desenvolvimento teórico, porém
com conseqüências sociais, Dosse é mais crítico a geração pós 1970, que para ele transforma
a “história em migalhas”. A abertura efetuada com o desenvolvimento teórico-metodológico
da Primeira geração do movimento dos Annales, sem dívida cumpriu um papel significativo
na história da historiografia. O diálogo com as ciências sócias foi fundamental para ampliar a
escala de análise dos historiadores diante da consciência histórica do século XIX. A relação
com as ciências sociais demarcará um novo embate na década de 1950 e 1960, uma querela
entre o antropólogo estruturalista Claude Lévis-Strauss e Fernand Braudel, que não será
analisado aqui, pois seria demasiadamente exaustivo, além de fugir do objetivo proposto. Mas
mostra a importância que há nessa relação para o desenvolvimento epistemológico dos
métodos da História no século XX.

16
FEBVRE, Lucien. Combates pela História. Ed. 2ª. Lisboa: Editora Presença, 1989, p. 30.
17
Ibdem, p. 39.
18
FONTANA, Josep. História: análise do passado e projeto social. Trad. L. Roncari. Bauru, SP: Editora
EDUSC, 1998, p. 204.
6
Bibliografia

BARROS, José Costa D’Assunção. A escola dos Annales: consideração sobre a


história do movimento. Revista História em Reflexão: Vol. 4, n. 8 – UFGD – Dourados,
jul/dez, 2010.
BLOCH, Marc. Os reis taumaturgos: o caráter sobrenatural do poder régio, França e
Inglaterra. Trad. Júlia Mainard. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
____________. Apologia da história ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Zahar,
2001.
BOURDÉ. Guy & MARTIN, Hervé. As Escolas históricas. Portugal: Publicações
Europa-América, 1983.
BURKE, Peter. A Revolução Francesa da historiografia: a Escola dos Annales –
1929-1989. São Paulo: Editora UNESP, 1991.
DOSSE, François. A história em migalhas: dos annales à nova história. Bauru, SP:
Editora EDUSC, 2003.
FEBVRE, Lucien. Combates pela História. Ed. 2ª. Lisboa: Editora Presença, 1989.
FONTANA, Josep. História: análise do passado e projeto social. Trad. L. Roncari.
Bauru, SP: Editora EDUSC, 1998.