Você está na página 1de 7

ENTREVISTA CONCEDIDA PELA PROFESSORA CRISTINA LLAGUNO AOS

ALUNOS AMILTON PLÁCIDO DA ROSA E MARISA SANDRA LUCCAS SOBRE


MEDIAÇÃO E MEDIAÇÃO SISTÊMICA

Assunto: Aplicação da Mediação, da Mediação Sistêmica e das Constelações Sistêmicas


nas Resoluções de Conflito

Em 2018, em São Paulo, SP

Observações úteis para uma melhor compreensão da entrevista:


1) A professora Cristina não se ateve à literalidade das perguntas feitas. Ela
direcionou suas respostas para o essencial e para um ponto além daquele que
entrevistadores olhavam, para que eles pudessem ter um melhor aproveitamento da
experiência dela, como consteladora e mediadora sistêmica e levarem o trabalho para
um nível mais elevado;

2) Essa entrevista foi traduzida do espanhol para o português de uma forma


livre;

3) Como a gravação não ficou completamente clara em alguns pontos, os


entrevistadores colocaram entre colchetes apenas o sentido do que captaram. O que não
conseguiram compreender de forma alguma, omitiram na tradução. Esta parte está
representada pelos quatro pontos entre parênteses.

Agora, a entrevista.

1 - A Senhora poderia falar brevemente dos quatro tipos de Mediação


existentes, quais as definições e o entendimento que a Senhora tem de cada
uma delas: a) Mediação Harvardiana; b) Mediação Transformativa de Bush
e Folger; c) Mediação Circular-Narrativo de Sara Cobb; e d) Mediação Sistêmica?

Assim como eu não faço nenhuma diferenciação entre constelações velhas e


novas, todos os elementos que eu aprendo de constelação eu aplico em mediação, a
qualquer tipo de mediação.

Na Argentina, temos a Mediação Extrajudicial e a Mediação Judicial.


A Mediação Extrajudicial pode ser realizada por qualquer pessoa; o mediador não
precisa ser advogado. A Mediação Judicial só pode ser realizada por um mediador
certificado e o acordo realizado perante ele tem força de decisão judicial. Assim, se o
acordo é descumprido, em lugar de ir à primeira instância, vai-se à instância superior.
Tudo o que estudo, tudo o que aprendo, eu aplico nas minhas mediações
judiciais e nas extrajudiciais, quando me pedem. Porém não faço diferenciação.

2 - Dos tipos de Mediação existentes, qual é aplicada na Argentina?

Na Argentina, seguimos a Mediação da Escola de Havard. Sara Cobb usamos


para as perguntas circulares.

3 - Quais dos tipos de Mediação estão mais próximos da Mediação Sistêmica e por
quê? Por ventura, alguma delas tem uma base sistêmica?

No meu olhar, tudo é sistêmico. Eu já não posso mais olhar de uma maneira
individualista, eu olho sempre sistemicamente. Olho para todos que fazem parte,
observo a hierarquia, se há um equilíbrio entre o dar e o tomar. Veja, é impossível que,
depois de 20 (vinte) anos de me dedicar as constelações, eu olhe algo de uma maneira
diferente.

4 - Para aqueles que não têm esse olhar sistêmico, há uma dessas escolas que se
aproxima mais da Mediação Sistêmica?

Vou repetir, cada pessoa encontra o professor que necessita no momento que se
necessita. Se alguém está feliz com o método e lhe dá resultado, deve segui-lo. Sempre
se deve estar aberto às coisas novas. Há que se familiarizar com coisas novas, porque
quando eu faço algo novo, encontro resultados diferentes. E para meus consultantes ou
clientes, eu sempre tenho que estar disponível com coisas novas, com novas
ferramentas.

5 - Um dos nossos propósitos é comparar aquilo que já existe com aquilo que
estamos construindo, estudando...

O que posso ampliar nisso - referente às constelações - de acordo com o modelo


de Harvard, como ele é ensinado, seus passos rígidos, com o cumprimento de etapas,
enfim, é no momento de cáucus, quando tenho uma intervenção a sós com cada uma das
partes, que faço perguntas disparadoras1, utilizo a terapia breve, estratégica para fazer
perguntas, utilizo também perguntas que eu mesma tenho formulado em meus trabalhos
e que têm dado resultado. Faço constelações com objetos, com palitos de madeira, com
cadeiras, com as pessoas [faço constelação de dois] e olhamos para o conflito. Após, o
mesmo tempo eu me dedico à outra parte. Os advogados estão sempre presentes. Logo
1
Perguntas disparadoras são aquelas que desencadeiam sentimentos profundos oriundos de lembranças.
(Nota da pós graduanda Marisa Sandra Luccas, uma das autoras deste trabalho)
que voltamos todos à mesa de negociação, as partes vêm com uma proposta de
conciliação, ou seja, uma mediação pode ter 5 (cinco) ou 6 (seis) encontros e com uma
mediação aplicando constelação, com 2 (dois) encontros eu resolvo o tema.

6 - Os três primeiros tipos de Mediação citados aqui têm os mesmos princípios?

Os princípios curadores, os princípios vetores, os princípios que regem as


relações são sempre os mesmos. Há que ver também como os aplica o constelador, o
mediador-constelador ou o mediador.

Uma pessoa pode ser mediadora e pode ter um auxiliar, pode co-mediar com
alguém que é constelador, mas que não é mediador.

Então, a profissão de constelador abre, agora, caminho, campo, para um auxiliar


de Mediação.

Na Argentina, temos um programa para mediadores, esse programa foi aprovado


pelo Ministério da Justiça e o Ministério da Justiça lhe dá pontuações todos os anos para
que os mediadores cumprem os pontos que eles necessitam, cada ano, em sua
formação.

Na Província de Buenos Aires, vamos dar esse programa nas escolas de


mediação.

Uma vez que ele tem funcionado em Buenos Aires, juízes de várias províncias já
nos têm pedido o mesmo programa, porém orientado para os juízes. É muito importante
que somemos, que não dividamos. Todos esses sistemas de Mediação são úteis, são
bons, são eficientes. Se agregarmos [as constelações] à mediação sistêmica, vamos fazer
um boom, isso vai ser fantástico. Por quê? Porque vai beneficiar muitas pessoas. Vai
honrar o dinheiro. Ao invés de pagar taxa de justiça ou fazer juízo, vai honrar esse
dinheiro. Os magistrados não vão se sentir esgotados, exaustos com os trabalhos que
têm. Vamos evitar o burnout nos profissionais. E todos vão ficar contentes e satisfeitos.
Ademais, as pessoas vão começar a usar os princípios sistêmicos nas suas vidas
cotidianas e vão ter menos conflitos e quando houver, vão saber resolver.

7 - A Mediação tradicional é ótima, ela resolve. Entretanto, sentiu-se a necessidade


de se agregar à filosofia, as intervenções e os princípios sistêmicos hellingerianos
para complementá-las. Qual é o motivo dessa necessidade? Seria por que ela é
muito técnica e muito mental? Ou é por conta de algumas deficiências técnica e/ou
metodológica?
Eu tenho observado que, geralmente, os profissionais do direito não fazem o
trabalho pessoal. Há mente, quando não há trabalho pessoal, somente o que deve ser.
Isso é ficar na Caixa Pai2, onde estão as normas, os princípios, os preconceitos. Eu, o
que proponho é passar para a Caixa Adulto, onde se faz trabalho pessoal, olhada
benevolente, olhada com amor as pessoas que têm um problema com a lei; enfoque na
solução e não no problema.

Desse ponto de vista, sempre haverá diferença, porém é muito importante o


trabalho pessoal do advogado, do juiz, do mediador. Sem trabalho pessoal, somente
somos máquinas.

8 - Quais são os elementos, princípios e metodologias comuns da Mediação


tradicional e da Mediação Sistêmica?

À Mediação tradicional, já foi agregado (....), a psicologia, a sistêmica, as quais


uso nas constelações realizadas no momento do cáucus.

Veja, eu só falo em constelações, sem dizer familiares, porque, muitas vezes, há


temas que têm a ver com empresas, com o trabalho, com negócios. Então, eu uso os
princípios das constelações. Se digo familiar, eu estou sempre trazendo para se trabalhar
o pai e a mãe da pessoa.

Se eu posso ter uma amplitude e critérios importantes, tenho muito mais opções.
Por isso, é importante que as pessoas se formem seriamente com professores que
trabalham ortodoxamente com os ensinamentos de Bert Hellinger. Eu não posso usar
uma parte e desistir de outra. Eu tenho que conhecer a totalidade. Quando conheço a
totalidade, eu posso aplicá-la criativamente. Se eu estou tomando uma coisa sim
e a outra não, estou improvisando e isso não é sério, não é respeitoso para com as
pessoas.

9 - A Mediação Sistêmica comporta a Constelação Familiar, em algum momento


dela?

Não somente a Constelação Familiar, mas também a Constelação para doença e


sintomas, para empresas, a constelação aplicada ao campo jurídico.

Uma pessoa que faz constelação, que está formada adequadamente, pode intervir
em todos os campos.
2
Caixa Pai, Caixa Adulto e a Caixa Criança fazem parte do referencial teórico do escritor e psiquiatra
Eric Bern, quando este desenvolve o conceito de análise transacional.
10 - Na Argentina, é possível fazer uma constelação dentro da Mediação?

Claro. É o que faço, no momento do cáucus. Aí, olhamos o conflito e com que
parte desse conflito tem que ver a pessoa com quem estou trabalhando naquele
momento. Porque, em geral, as pessoas dizem: ele me fez tal coisa, ela me fez tal outra.
Não reconhecem que elas têm a ver com os conflitos que aparecem. No conflito,
as duas pessoas têm razão.

11 – Professora, há algum limite para a aplicação da Constelação na Mediação?

Sim, o cliente. Se o cliente diz não, este é o limite. Em geral, da forma como eu
trabalho, eles aceitam, de boa vontade, fazer uma constelação. Não tenho encontrado
nestes anos ninguém que dissesse não.

12 - No Código de Ética de Conciliadores e Mediadores Judiciais, constante como


anexo da Resolução 125/2010 do CNJ, há previsão normativa possibilitando os
mediadores convocarem outros profissionais para auxiliá-los no processo de
mediação. Um desses profissionais pode ser o constelador?

Estão se referindo aos mediadores que não querem se formar como mediadores
sistêmicos. Eles têm essa liberdade. Eles simplesmente chamam um Constelador
certificado e credenciado para ser o co-mediador. Neste caso, faz a constelação e um
relatório que, em qualquer caso, não vai ser vinculante.

Vejam que interessante, eu estou trabalhando em uma mediação, na fase de


cáucus, e uma pessoa me diz: eu não quero só ver isso, eu quero ver mais coisas. Então,
eu lhe digo, resolvamos o que viemos trabalhar. Olhemos as duas partes, para terminar
esse processo de conciliação, ou de reconciliação, resolvamos o conflito, e logo não
vejo nenhum inconveniente de ver de uma maneira pessoal, para olharmos outros
assuntos. Porém, quando chega à mesa depois de estarmos uma hora juntos, eu já não
necessito de mais tempo. Uma hora com cada um, os dois chegam a um acordo. E, neste
acordo, é ganhar, ganhar ambos. Nunca é, ganho eu, perde o outro. Sempre ganham os
dois porque se consegue que uma parte olhe a outra e veja todo o positivo que tem sua
reclamação. Então, logo venha a outra parte e vê todo o positivo que tem a reclamação
do outro e chegam a um acordo através do positivo e não do que falta.

13 - No cáucus, a Senhora usa os bonecos, pauzinhos de madeira, é isso?

Muitas coisas são possíveis, uso, às vezes, a constelação de dois. Esta é uma
técnica com a qual eu trabalho muito. Também utilizo os bonecos de madeira que não
tem cores, são absolutamente neutros, têm apenas olhos, não tem sorriso, não tem
nenhuma expressão. Utilizo papel no piso [âncora de solo], e, às vezes, quando não tem
esses elementos, trabalho com as lapiseiras do meu escritório.

14 - E as constelações de dois, como são?

Vou explicar as constelações de dois, ainda hoje para que vocês saibam.

[Mister se faz registrar aqui que a professora Cristina, tão logo recomeçou a aula
após o almoço, explicou para todos os(as) alunos(as) a técnica da constelação de dois e,
em seguida, pediu para os entrevistadores realizassem uma, para que essa dinâmica
fosse realmente assimilada, o que de fato ocorreu.]

15 - Nosso trabalho tem por objetivo trazer este conhecimento inovador na Justiça.
Então, muitas pessoas vão ter este material disponibilizado para fazer um trabalho
(auto)educativo, para passarem o que aprenderam para outros...

Sempre as mediações são educativas porque o mediador pode, através da


repergunta3, (....), educar a pessoa como apresentar seu tema. Então, há muitas
contribuições que se pode fazer com a sistêmica. O que quero dizer é que a sistêmica
não é nada novo, a sistêmica é algo muito velho, faz mais de 40 (quarenta) anos que
existe. Então, o ponto é, o que é novo é o perceber.

Na Argentina, eu trabalho desde 2002 com isso, ou seja, já por 16 anos. No


Brasil, estão trabalhando com isso por três, quatro anos?

Então, o grande desafio é perceber que o sistêmico pode ser aplicado ao jurídico
e a qualquer outra coisa também. Eu posso falar de Engenharia Sistêmica, de
Arquitetura Sistêmica, de Medicina Sistêmica.

Sim? Porque está presente sempre. O que acontece é que agora o vemos. Agora é
o momento de nos darmos conta. Como o inconsciente de Freud. Nós sempre tivemos
inconsciente. Não que Freud [nos tenha incutido] o inconsciente. E com isso acontece o
mesmo.

3
A repergunta é o próprio parafraseamento que consiste em “o mediador tornar a expressar o que foi dito
por um dos mediandos, a fim de enfatizar sua fala. O sentido original da fala é mantido e pode ser
reutilizadas palavras ou expressões originais do discurso do mediando”. Semelhante a esta ferramenta
temos o espelhamento que ocorre quando “o mediador repete as exatas palavras empregadas pelo
mediando”. Nota dos entrevistadores. Fonte: Fundamentos da Mediação para a Defensoria Pública,
Módulo V, Ferramentas de Comunicação. Este curso foi promovido pelo ENAM.
16 - Agora, gostaríamos que a Senhor acrescentasse algo imprescindível, algo que
não pode faltar em um trabalho desse.

O trabalho pessoal não pode faltar. Porque quando o constelador, o mediador


têm pontos cegos, não os veem, tão pouco veem nos seus trabalhos como mediadores
e ficam exausto e adoecem com seu esforço.

Então, o trabalho pessoal é sumamente importante.

Depois disso, aplicar os princípios das Ordens do Amor ou Ordens para a vida,
como Bert Hellinger chama sua filosofia. E agregar a estes três princípios um quarto
elemento, que é o movimento, é um movimento de consciência e/ou um movimento
físico. Porém sempre vai haver um movimento. Por quê? Porque quando há um conflito,
as duas partes estão lutando para matar ou para morrer por um princípio e este princípio
é algo que eles têm como algo [fundamental] em sua vida, como algo que não teve
solução. Ademais, aí há uma lealdade a sua família, a seu sistema familiar.

Se admito que o outro tem razão, vou a perder o amor de minha família. E se o
outro admite que eu tenho razão, sua família vai olhá-lo diferente.4

O que posso fazer eu, como adulto, para resolver este tema e sair do conflito?
Bom, pôr-me como adulto, deixar o passado. Inclusive, posso pedir aos meus ancestrais
que me permitam fazer as coisas de forma diferente. Diferente, não melhor. Humildade
para olhar o outro e reconhecer que o outro também tem razão em algum ponto. E ter-
se como concordes e chegar a um acordo.

Mui rico. Gracias, maestra Cristina Llaguno.

4
Aí está a importância de um trabalho sistêmico, durante o cáucus, para que a pessoa possa se
conscientizar de que ela pode continuar pertencendo com as bênçãos do seu sistema ou ganhar força
para agir de má consciência