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Ana Paula Avelar

Representações de um
“Mundo Novo” no
Portugal de Quinhentos
© 2011, Edições Cosmos

Colecção “História”

Título: Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos

Autora: Ana Paula Avelar

Capa: Fragmento de pintura de Mário Rita, sem título, da série n.º 10

Fotocomposição, impressão e acabamento:


Garrido Artes Gráficas – ALPIARÇA – PORTUGAL
Tel.: +351 243 559 280 – Fax: +351 243 559 289
E-mail: tipgarrido@mail.telepac.pt

Edição: Junho de 2011

ISBN 978-972-762-338-9
Depósito legal 294313/09

Edições Cosmos
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Sem autorização expressa do editor não é permitida a reprodução parcial ou total desta
obra desde que tal reprodução não decorra das finalidades específicas da divulgação e da
crítica.
Aos meus filhos,
Raúl e Mário,

Porque neste mundo de mudança onde se tomam


sempre novas qualidades, se deve guardar a constância
dos sentires.

Ao Mário,
Recordando a Rosa Púrpura do Cairo...
Índice

Nota Prévia............................................................................................................. 9

I. Representando um “Mundo Novo” ................................................................ 13

II. Construindo a Mundialização nos alvores da Modernidade ...................... 29

III. Num espaço de partida ................................................................................. 49

IV. A Natureza: percepção e descrição ............................................................... 91

V. A novidade nas primeiras imagens do Outro ................................................. 117


5.1. Pelos espaços africanos ...................................................................... 122
5.2. Pelos espaços americanos .................................................................. 147
5.3. Pelos espaços asiáticos ........................................................................ 168

Nota Final........................................................................................................... 193

Fontes Impressas e Bibliografia ......................................................................... 201


Nota Prévia

“The ideas of the past, constructed by the historian,


are actions in the present. To think differently
allows us to change our way of acting. In this case,
saying is doing.”1

Num presente em que se defende os diálogos transdiscipli-


nares, multiculturais e transnacionais e onde o espaço europeu se
intenta como medida, apresentar a memória de um passado impõe-
-se2. É exactamente neste contexto que surge este livro sobre as
representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos.
Num momento em que a Universidade vive um tempo de profun-
das alterações, interroga-se e interroga a sociedade, afastando-se,
por vezes, daquele que é o exercício humanista, o qual defendo deve
ser a matriz da nossa prática académica, considero que desocultar
os modos como, num passado, se reagiu face ao diferente, auxilia
a integração neste mundo em mudança onde se vivenciam sempre
novas qualidades.

1
Tzvetan Todorov, Imperfect Garden-The Legacy of Humanism, Princeton,
Princeton University Press, 2002, p. 226.
2
Este texto decorre de todo um percurso de leccionação e de escrita que tenho
desenvolvido ao longo da minha actividade académica sobre a construção, na
escrita portuguesa de Quinhentos, das imagens da novidade de outras terras,
outros mares e outras gentes. Pelas interrogações levantadas e superações
analíticas propostas, nomeadamente as que decorrem das provas de agregação
por mim defendidas em 2006 e dos vários livros e artigos já redigidos, decidi
publicar este livro.
10 Ana Paula Avelar

Por outro lado, registe-se que este trabalho tem como uma
das suas componentes constitutivas a problematização em torno
dos processos de comunicação, nomeadamente as questões que se
prendem com os públicos a que se destinam os textos, a clareza do
discurso, a interacção, que se desencadeia com o leitor primordial,
aquele a quem o autor destina, em primeiro lugar, o seu discurso.

Este livro expõe a que tem sido a minha prática analítica,


exercida no campo interdisciplinar, onde se procura superar
fronteiras temáticas e exercer o diálogo entre práticas próprias
de áreas científicas como as dos estudos históricos, literários ou
artísticos. Para além das interrogações e reflexões sobre uma época,
que tem sido objecto privilegiado do meu estudo, transmito-vos
vectores construtores de um saber, que se pretende que focalize
e aprofunde os conhecimentos sobre o tema central deste livro,
visando servir os que desejam desenvolver competências específicas
num campo que se apresenta como o de as representações de um
“Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos. Transmitir o prazer
de um tempo, questionar algumas ideias feitas, partilhar delícias e
interrogações é, pois, um dos propósitos deste texto.

Assim, ao longo das próximas páginas, desvendo o meu


percurso epistemológico, percorrendo, ainda que elipticamente,
algumas das correntes historiográficas que na actualidade pontuam
no âmbito dos estudos de cultura e que servem de suporte teórico à
explanação temática. É, deste modo, que se confrontam percepções
distintas sobre as práticas do escrever a História.

Num segundo momento, centrando-me nas fases de exploração


do oceano Atlântico no século XV, introduzo os elementos que
permitirão compreender o Portugal de Quinhentos. Tal percurso
subscreve uma postura essencialmente factológica, proporcio-
nando a moldura denotativa que serve os posteriores momentos
analíticos.

Será igualmente proposta uma reflexão sobre os vectores que


constituem o quadro de partida dos portugueses de Quinhentos,
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 11

o sistema de referências que define a transformação do olhar, de


um século, o XVI: “(...) qui attache une importance primordiale à
l’échange, au rapport, à l’entretien, au ‘commerce’ (qui est aussi un
art de la relation) et à la ‘conférence’ (qui est un art de parler avec
d’autres) (...)”3. De seguida, analisarei como se reestruturaram os
conceitos de um novo espaço e de um novo tempo, e se interiorizou
uma nova forma de observar distintas realidades.

Este enquadramento permitirá reflectir sobre os modos como


em Portugal se construíram as imagens de um real longínquo,
revelando-o através dos escritos produzidos ao tempo. Propor-se-á
igualmente o repensar da percepção do Outro, a formulação de uma
identidade, para assim entender como estes contactos moldaram um
distinto olhar sobre o diferente. No âmbito desta problematização
focalizar-se-á a percepção da Natureza, desocultando-se as mode-
lações ocorridas no apreender e descrever, a assunção da novidade
e as imagens do Outro no Portugal do século XVI.

Devido à importância da dimensão visual neste processo de


encontro e apropriação do diferente, proponho sucessivas reflexões
sobre signos vários onde essa percepção se realiza e transmite.
São apresentadas propostas de leitura de suportes iconográficos
e expostas explorações possíveis de fontes que funcionam como
exemplos de novas e diferentes leituras de um tempo, revisitando
impressões e sentires, enunciando percursos de descoberta que
poderão ser continuados através da consulta da extensa bibliografia
que suporta este texto.

Num presente em que se defende o diálogo disciplinar, a trans-


versalidade de conhecimentos e a intensa e permanente partici-
pação do indivíduo na construção de um saber comum, a exploração
e leitura das escritas daqueles que vivenciaram um “Mundo Novo”,
é um exercício que considero obrigatório. Este trabalho sintetiza
linhas investigativas que têm sido desenvolvidas pelos que, ao

3
Claude-Gilbert Dubois, Le Bel aujourd’hui de la Rennaissance – Que reste-t-il du
XVIe siècle?,Paris, Seuil, 2001, p. 13.
12 Ana Paula Avelar

longo dos anos, se sentiram cativados pela descoberta dos homens


que, em Quinhentos, abraçaram a aventura dos mares.

Inicie-se, então, a viagem, recordando as palavras do Poeta:

“O Barco Negro chegou a Nagasaki.


No cordame das velas os marinheiros,
sementes do longe, saltam em dez
direcções, lançam o seu grito de pato
real, voam sobre a cerimónia da

embaixada. Barco Negro sob o luar


dos mares fechados
pouco tempo vai restar no reino onde
não usam cadeiras nem mesa nem catre
e tudo o que fazem é sobre as esteiras.”4

4
João Miguel Fernandes Jorge, Museu das Janelas Verdes, Lisboa, Relógio d’Água,
2002, p.127.
I.

Representando um “Mundo Novo”


“Sous l’histoire, la mémoire et l’oubli.
Sous la mémoire et l’oubli, la vie.
Mais écrire la vie est une autre histoire.
Inachèvement.”1

Escreve Tzevan Todorov, ao desvendar o legado do Huma-


nismo: “If one adheres both to the ideal of indeterminacy and that
of shared values, a path exists that can link the two together, we
call it education.”2 Este é o signo que marca a investigação que
tenho vindo a desenvolver sobre a desocultação das imagens da
novidade de outros mares, outras terras, outras gentes no Portugal
de Quinhentos. Ao abordar os vectores analíticos, que devem ser
estudados no tratamento deste tema, tem-se em atenção a neces-
sária articulação entre os objectivos que presidem à sua explanação
e as metas que se desenham na abordagem de tal temática, nomea-
damente a finalidade que se persegue.

Ainda que seja entendido como um “em si”, descodificar as


representações de um “Mundo Novo” no Portugal do século XVI,
enquadra-se num conjunto de leituras transdisciplinares onde se
apela a instrumentos de análise que são muitas vezes manipulados
por áreas do saber convergentes. Foi através da exploração de várias
correntes interpretativas, e na convergência de estratégias analíticas
e hipóteses várias que desenvolvi todo um campo investigativo de

1
Paul Ricoeur, La mémoire, l’histoire, l’oubli, Paris, Édtions du Seuil, 2000,
p.700.
2
Tzvetan Todorov, op. cit., p. 233.
16 Ana Paula Avelar

leitura de um tempo, também ele ecléctico na desmultiplicação e


tangência de saberes, como foi o século XVI em Portugal.

A prática investigativa concorreu para a actual exposição dos


quadros interpretativos e evolutivos desse tempo e de uma área
de Estudos, a da Cultura Portuguesa. Estas Representações de um
“Novo Mundo” no Portugal de Quinhentos reflectem sobre distintos
signos do conhecer o diferente, os quais emergem dos discursos
produzidos pelos portugueses que então escreveram sobre os
novos espaços. Ao intentar uma prática interdisciplinar neste
texto movimento-me num espaço de conexão de diferentes
disciplinas; um espaço onde se transcendem as fronteiras disci-
plinares, produzindo novas formas de conhecimento. Serve-se,
como assinala Roland Barthes: “(...) the interest of a new object
and a new language neither of which has a place in the field of the
sciences that were to be brought peacefully together, this unease in
classification being precisely the point from which it is possible to
diagnose a certain mutation.”3

A prática interdisciplinar não deve ser confundida como a mera


justaposição de duas ou mais disciplinas, caracterizando-se a relação
entre estas pela aproximação de saberes, já que este é o campo da
multidisciplinaridade. A interdisciplinaridade procura a integração
de saberes, podendo ser entendida: “(…) as a way of living with
the disciplines more critically and self-consciously, recognizing
that their most basic assumptions can always be challenged or
reinvigorated by new ways of thinking from elsewhere.”4

Se esta é a atitude que subjaz ao texto que corporiza as repre-


sentações de um “Novo Mundo” no Portugal de Quinhentos, já o exercício
de as compreender e explicar ancora-se no propósito, segundo o
qual, arquivando, explicando e representando, o solo da História
escrita
se torna, por excelência, o da escrita. Como Paul Ricouer defende:
“L’histoire est de bout en bout écriture. À cet égard, les archives

3
Cf. Roland Barthes, Image-Music-Text, Londres, Fontana, 1977, p.155.
4
Joe Moran, Interdisciplinarity, Londres, Routledge, 2002, p. 187.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 17

constituent la première écriture à laquelle l’histoire est confrontée,


avant de s’achever elle-même en écriture sur le mode littéraire de la
scripturalité. L’explication/compréhension se trouve ainsi encadrée
par deux écritures, une écriture d’amont et une écriture d’aval.
Elle recueille l’energie de la première et anticipe l’énergie de la
seconde.”5 Este é pois o processo de desocultação, no texto, de um
tempo, exercitando-se assim uma prática hermenêutica centrada na
representação de um passado.

Obedecendo sempre à exposição do “como” e “porquê”, num


percurso que visa desocultar as representações de um “Mundo Novo”
no Portugal de Quinhentos, começo por propor uma reflexão sobre
os vectores explicativos de um tempo de mudança. Tendo como
objecto primeiro a transformação do olhar e a evidência de um
tempo novo desoculte-se a forma como se interagiu com o diferente,
e como este foi interiorizado e manipulado pelos portugueses do
século XVI.

É nesta altura que se constróem as primeiras imagens da novidade


de observação e conhecimento de “novas” terras e de “novos” povos.
A partir da navegação dos oceanos exerceu-se um domínio do
mundo extra-europeu, por parte de Portugal, o qual conduzirá ao
conhecimento da esfera. Nesse sentido considero particularmentre
relevante a interpretação de signos visuais. Esta estratégia decorre
da proposta de leitura avançada por Vitorino Magalhães Godinho,
para quem a oferta feita em 1519 por D. Manuel a Francisco I de um
atlas iluminado elaborado por Lopo Homem e pelos Reinéis, foi:
“(...) le polyptique d’un aboutissement et d’un virage. Le monde
pouvait être désormais contemplé d’un seul regard, l’humanité
démolissait les cloisons. L’extension de la Chrétienneté, qui avait été
le but suprême, fait place à la genèse de l’Europe et de la conscience
européenne – la société de l’urbanisation et de la mercantilisation, la
civilisation qui cherche la rationalité, capable de mettre en question
elle-même.”6

5
Paul Ricoeur, op. cit., p. 171.
6
Vitorino Magalhães Godinho, Le Devisement du Monde – De la pluralité des
18 Ana Paula Avelar

A definição de um programa de desocultação de um tempo, de uma


forma de olhar um passado implica naturalmente uma explicitação
dos objectivos pretendidos. Assim importa sinalizar os vectores
epistemológicos que formulam este meu texto. Tomando-se aquele
que é considerado, por excelência, o século de ouro, expõem-se os
vectores que o explicam e que denunciam o estar-se em presença
da construção de uma nova realidade, a de um mundo pensado e
representado nos seus múltiplos espaços e gentes, procurando-se
entender o Portugal de Quinhentos, no que ele significa de uma
modelação do diferente.

Subjacente a esta perspectiva crítica está a concepção do passado


enquanto imbricada cadeia de sentidos e de significações que partem
tanto das estruturas narrativas, ou de formas de narração, como de
outros factores ideológicos: “Because we historians choose our
words with great care, it seems wrong to ignore them as a significant
part of our attempt to explain the past.”7

Presidindo
T
à desocultação do Outro está a desocultação da
escrita, onde este é representado. Consequentemente, subscrevo o
ponto de vista formulado por Joe Moran: “Interdisciplinary study
represents, above all, a denaturalization of knowledge: it means
that people working within establish modes of thought have to be
permanently aware of the intellectual and institutional constraints
within they are working, and open to different ways of structuring
and representing their knowledge of the world.”8

Torna-se, portanto, fundamental conhecer como no século XVI


os portugueses se defrontaram com a novidade e a transmitiram,
isto sem deixar de assinalar as diferentes fontes que descrevem a
presença portuguesa nos espaços extra-europeus. Assim é a partir de
narrativas paradigmáticas, que se deve explicitar as representações

espaces à l’espace global de l’humanité – XVème-XVIème siècles, Lisboa, Instituto


Camões, 2000, p. 18.
7
Alun Munslow, Deconstructing History, London and New York, 1997, p. 19.
8
Joe Moran, op. cit., p. 187.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 19

do Outro – Africano/Ameríndio/Asiático, comparando as imagens


construídas pelos portugueses sobre os novos espaços então
cruzados. Tal estratégia enunciativa não pode deixar de se ater aos
estudos que têm sido produzidos sobre esta temática, devendo ser
considerada a bibliografia nuclear, e praticar-se o enquadramento
dos vários estudos nas várias correntes historiográficas. Considero,
aliás, este último exercício como fundacional de toda esta estratégia
investigativa. Enfim, só através do apuro analítico em torno deste
objecto é que se desvenda a noção de novidade, confrontando-se as
várias imagens do Outro.

Subscrevendo Alain Croix quando afirma que não acredita


numa “crise da História” mas que o seu futuro reside num corpo
sólido capaz de conseguir êxito, o qual integre a contribuição
das outras disciplinas9, proponho que exercitemos um exercício
interdisciplinar que explore a comunicabilidade entre os várias
saberes, nos vários percursos de estruturação e representação do
conhecimento do Mundo. Só assim se adquire um novo patamar
de compreensão do objecto que se analisa.

Veja-se como ao longo do tempo se desenvolveu o diálogo


entre Literatura e História, evoque-se a Poética de Aristóteles, na sua
distinção seminal: “(...) não é ofício de poeta narrar o que aconteceu;
é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que
é possível segundo a verosimillança e a necessidade. Com efeito,
não diferem o historiador e o poeta, por escreverem verso ou prosa
(pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto,
e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o
que eram em prosa) diferem, sim em que diz um as coisas que
sucederam, e outro as que poderiam suceder.”10

9
O artigo de Alain Croix, tendo como objecto de estudo a História cultural e a
sua configuração ao longo do século XX, levanta toda uma série de questões
sobre os caminhos da escrita da História, cuja actualidade ainda permanece.
Cf. Alain Croix “ Marx, a alugadora de cadeiras e a pequena bicicleta” in,
Jean-Pierre Rioux e Jean-François Sirinelli, Para uma História Cultural, Lisboa,
Editorial Estampa, 1998, p. 51-70.
10
Aristóteles, Poética, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1986, p. 115.
20 Ana Paula Avelar

Não sendo meu objectivo propor uma investigação exaustiva


deste tema, nem sequer historiografar as suas contingências,
impõe-se chamar a atenção para as vertentes historiográficas
contemporâneas, com particular ênfase para as que se têm desen-
volvido no âmbito do chamado Pós-Modernismo. Socorro-me
da categorização de Alun Munslow relativamente à escrita da
macrocategorizaçao
da história História, o qual enquadra as várias práticas em três grandes núcleos:
Construtivistas, Reconstrutivistas e Deconstrutivistas.

A utilização deste enquadramento teórico permite a percepção


de diferentes sensibilidades e perspectivas actuais face à escrita da
História, explicitando os instrumentos analíticos que manipulo.
Considerando que as várias correntes se podem sistematizar a partir
desta macrocategorização, importa esclarecer os enunciados que as
distinguem.

O primeiro núcleo permite entender como diferentes escolas


historiográficas partiram de um propósito comum, o da proble-
matização em torno da teoria social, visando encontrar as leis
gerais de explanação historiográfica. Através do segundo núcleo
descortinam-se as escolas historiográficas que perseguem a objecti-
vidade na busca, quase forense, das fontes, numa tentativa de
reconstrução do passado, como aquilo que realmente aconteceu. Por
último, o terceiro núcleo permite observar como o passado pode ser
intuído, por escolas historiográficas, enquanto cadeia de sentidos e
desconstrutivistas significações que partem tanto da natureza da estrutura narrativa,
de formas de narração, como de outras formas culturais, entre as
quais se contarão, por exemplo, factores ideológicos.
Mas não são só os sistemas interpretativos alargados que devem
ser claramente enunciados, impõe-se ainda a explicitação do quadro
teórico próximo, aquele em que se ancora a análise e se manipula
directamente o conceito de alteridade, na sua historicidade, i.e.,
tendo em atenção o “NovoT Historicismo”, iniciado por Michel
Foucault. A abordagem desta corrente é relevante na apreensão
do tipo de problematizações que surgem ligadas aos Estudos de
Cultura, em particular na obra de historiadores nucleares como
Stephen Greenblatt.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 21

Os seus trabalhos sobre a construção da imagem do Ameríndio


são matriciais. Veja-se como no seu livro Marvelous Possessions –
The Wonder of the New World se procura definir as fronteiras entre
representação e realidade, considerando que: “It is, I think, a
theoretical mistake and a practical blunder to collapse the distinction
between representation and reality, but at the same time we cannot
keep them isolated from one another. They are locked together
in an uneasy marriage in a world ecstatic union or divorce.”11 O
seu propósito enunciatório de seguir: “(…) from medieval wonder
as a sign of dispossession to Renaissance wonder as an agent of
appropriation: the early discourse of the New World is, among
other things, a record of the colonizing of the marvelous. But my
book emphatically does not in here, for an historical trajectory
is not a theoretical necessity. In my final chapter, I return to the
marvelous as a sign of the eyewitness’s surprising recognition of
the other in himself, himself in the other.”12

conceito de cultura A análise aí efectuada é seminal, devendo ser lida à luz da


conceptualização que este mesmo autor elaborou de cultura13. No seu
artigo exactamente intitulado “Culture” esclarece-se que os “novos
historicistas” concebem este conceito como um Text sistema semiótico e
rede de signos. Tal facto ilumina-se quando confrontamos esta sua
abordagem com o texto de Paul Ricoeur em La mémoire, l’histoire,
l’oubli, dedicado aos mestres do rigor, Michel Foucault, Michel Certeau,
Norbert Elias, no qual se desconstróem as respectivas escritas da
História14. Atente-se nas ancoragens teóricas que se desenvolvem

11
Stephen Greenblatt, Marvelous Possessions – The wonder of the New World,
Chicago, The University of Chicago Press, 1991, p. 7.
12
Ibidem, p. 25.
13
Cf. “Culture “in Michael Payne, The Greenblatt Reader, Oxford, Blackwell
Publishing, 2005, pp. 11-17. O artigo de Greenblatt sobre as questões que
se prendem com o modo como são conceptualizados no chamado Novo
Historicismo os estudos culturais, foi pela primeira vez publicado pelo autor no
livro Critical Terms for Literary Study, editado por Mc Laughlin e Lentricchia,
em 1990.
14
“De quelques maîtres de rigueur: Michel Foucault, Michel Certeau, Norbert
22 Ana Paula Avelar

neste texto no seio da episteme histórica. A explanação do valor


heurístico que o conceito de habitus ganha em Pierre Bordieu na
esteira da problematização eliasiana é disto exemplo15. Entende-
-se, por isso, a resistência desta escola àquela que ele considera ser a
hegemónica postura unidisciplinar, e a sua consequente ancoragem
numa metodologia interdisciplinar, enquanto estratégia geradora
de um novo conhecimento.

Ao familiarizarmo-nos com a perspectiva, segundo a qual a


História não é só o que aconteceu no passado, isto é, um conjunto
de eventos, mas também a sua narração, experienciamos a ideia
verdade histórica de que a verdade histórica surge da reflexão crítica em torno dos
processos de narração. É neste contexto que se torna obrigatório
revisitar o conceito de discurso pois: “The term ‘discourse’ has
become common currency in a variety of disciplines: critical
theory, sociology, linguistics, philosophy, social psychology and
many other fields, so much so that it is frequently left undefined,
as if its usage were simply common knowledge. It is used widely in
analyzing literary and non-literary texts and it is often Temployed to
discurso signal a certain theoretical sophistication in ways which are vague
and sometimes obfuscatory.”16 Tal revisitação deve ser efectuada,
percepcionando-se e reexaminando-se as subtilezas, já indiciadas,
que existem na relação entre História e Literatura.

Mas a exposição do Portugal do século XVI implica, neste meu


percurso analítico percepcionar aquele que foi o espaço de partida,
traçando as fronteiras do conhecido, questionando-se os modos
como se percepcionou e notou o espaço e o tempo, salientando-se a
importância que ganhou nesta nova concepção do real, o número.
Lisboa é o porto de partida e a sua representação expõe, assim, uma
diferente aproximação ao real. A “nova rainha dos mares”, como
Damião de Góis qualifica a capital na sua laudação à Cidade, Urbis

Elias”, in Paul Ricoeur, La mémoire, l’histoire, l’oubli, Paris, Editions du Seuil,


2000, pp. 253-266.
15
Cf. Paul Ricoeur, op. cit., p. 266.
16
Sara Mills, Discourse, London-New York, Routledge, 1997, p. 1.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 23

Olisiponis Descriptio17, referencia esta dimensão, não sendo de modo


algum este o único escrito onde a quantidade enforma o real. Nesse
sentido, impõe-se recordar um autor como João Brandão e a sua
Grandeza e Abastança de Lisboa em 1552.

Esta é aliás a cidade que, na escrita de Cristovão Rodrigues de


Oliveira, tem dez mil casas em que há dezoito mil vezinhos, isto sem
que se tenha em atenção a Corte. Salvaguardam-se aliás os números
apresentados, alertando-se o leitor que não se contabilizaram nestes
as naus que quotidianamente entram nas águas do Tejo, nem os
muitos mercadores estrangeiros e muita gente de fora que cruzam as suas
ruas. Contudo, estes 18 mil vizinhos representam, nesta Lisboa de
1551, cem mil almas, contando-se nove mil novecentos e cinquenta
escravos. O número impera, e a capital do reino de Portugal tem,
nas palavras de Rodrigues de Oliveira, trezentas e vinte oito ruas,
cento e quatro travessas, oitenta e nove becos e sessenta e dois
postos que não são ruas18.

A observação e interiorização de novas realidades físicas ou


humanas são, neste meu texto, uma fonte de análise primordial e
nuclear dos relatos dos portugueses de Quinhentos, tomando-se
como eixo estruturante o espaço indiano, até porque é sobre ele que
se debruçam preferencialmente as narrativas dos inícios do séculos
XVI. Intentando a descodificação de um Tempo Novo – o da partida
de Portugal para outros mares, outras terras –, é necessário ter em
atenção a forma de olhar e transmitir a novidade, e o modo como este
se repercute na mutação da Europa de Quinhentos, e, em particular,
no processo de interiorização da novidade. Esta exposição subscreve
a reflexão proposta por Claude Gilbert-Dubois: “La multiplication
des matins de l’histoire donne à la nouveauté apparente la réalité

17
Atente-se na excelente edição crítica de Aires A. Nascimento. Cf. Damião de
Góis, Elogio da Cidade de Lisboa- Urbis Olisiponis Descriptio, Lisboa, Guimarães
Editores, 2002.
18
Cf. Cristovão Rodrigues de Oliveira, Lisboa em 1551. Sumário em que brevemente
se contém algumas coisas assim eclesiásticas como seculares que há na cidade de Lisboa,
Lisboa, Livros Horizonte, 1987, p.101.
24 Ana Paula Avelar

d’un renouvellement. Et pour nous qui voyons le spectacle de loin,


notre Renaissance, émergeant symboliquement aux confins d’un
hiver de l’histoire et à la veille d’un nouvel on prend, dans notre
propre imaginaire, l’image d’une jeune fille en fleur, aus doigts
parés de roses, ‘aube’ des temps modernes, préfiguration d’un
temps plein soleil à accomplir.”19

Já Vitorino Magalhães Godinho, no final da sua obra Le


Devisement du Monde – De la pluralité des espaces à l’espace global de
l’humanité – XVème-XVIème, expõe esta descoberta do Outro,
pelos portugueses de Quinhentos. A sua abordagem sintetiza
exemplarmente os vectores que têm sido utilizados no equacionar
o século XVI português.

Neste texto denunciam-se as formas como se tem perfilado


historiograficamente este tempo, partindo de: “C’est cette
découverte de l’autre, et des autres, que la marchandise commande,
c’est la conscience de l’ unité de l´humanité, alliée à l’invention de
l’espace et au temps des «nouvelles nouveautés», qui donnent son
sens à l’Europe naissante.»20

Não deixa este historiador de expor o corpo social que é o


agente da acção, analisando igualmente as premissas políticas que
se delineiam: “Certes, la tentation d’imposer valeurs et normes,
pouvoirs et intérêts est toujours présente dans l’imperialisme, vecteur
de la construction européenne. Surtout la prétention d’étendre la
chrétienté à toute la terre, et la conviction qu’il n’y a qu’une seule
vraie foi. Navigateurs, marchands, colons, guerriers, adressèrent
toutefois eux-mêmes les plus dures critiques à l’intolérance, à
l’arbitraire du pouvoir, aux abus des homes. Ils ont su mettre en
cause l’expansion elle-même, et l’Etat, donnant raison aux «autres»,
voire les prenant comme modèles – Ottomans compris.»21

19
Claude-Gilbert Dubois, op. cit., p. 197.
20
Vitorino Magalhães Godinho, op. cit., p. 185.
21
Ibidem.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 25

A valoração do indivíduo e a leitura do facto histórico permitem


ao leitor de Vitorino Magalhães Godinho entender a construção
de teias relacionais próprias de uma época: «L’homme incarne la
valeur supreme de la société – il faut qu’il s’assume comme citoyen
et, réticent à l’égard de paradigmes transcendants, soit capable
d’accomplir sa propre vocation, dans la communication avec tous.
Le roi D. Manuel expliquait aux Rois Catholiques que le voyage de
Vasco de Gama non seulement lui apportait les trafics jusque-là aux
mains des Musulmans, mais aussi permettait de se déplacer entre
l’Occident et l’Orient, et d’établir la communication de toute la
chrétienté avec ce monde nouvellement découvert.»22

O signo da viagem gâmica é igualmente enunciado: «Les


voyages permettent aux hommes de communiquer les uns avec les
autres puisqu’ils sont des animaux politiques; c’est pour la même
raison que fut inventée l’histoire, qui est d’une certaine manière de
communication entre les époques et les temps.»23

Por seu turno, o enquadramento de Portugal no contexto


intelectual e filósofico da Europa de Quinhentos é evocado
singularmente: “(...) Camões pouvait maintenant chanter la geste
des navigations en se référant à l’Europe, si policée et riche. Et
Montaigne réfléchir sur ce qu’est l’homme entre les hommes, si
ondoyants et divers. Le privilégié de Camões et Montaigne: La
connaissance du monde et la connaissance de soi.”24

Esta é, claramente, a síntese emblemática da construção de um


Mundo Novo, o que possibilita a interrogação sobre as modulações
do olhar projectadas neste nosso século XVI.

Vários foram e são os diálogos que podem e devem ser efecti-


vados entre os diferenciados tipos de fontes, que têm sido prefe-
rencialmente analisadas por esta ou aquela área do saber quando

22
Ibidem.
23
Ibidem.
24
Ibidem.
26 Ana Paula Avelar

se pretende traçar o século XVI português, muito em particular


quando se expõe o defrontar com a novidade. Atente-se como o
texto serve como representação de um tempo e como se opera a
sua desocultação, manipulando-se várias instrumentos de obser-
vação. Tome-se o poema épico de Os Lusíadas, e a enunciação da
viagem gâmica, naquele que foi o modo exemplar como alguns
historiadores, como Jorge Borges de Macedo, trabalharam a
obra. Recorde-se, aliás, o seu estudo intitulado, Um caso de Luta
pelo Poder e a sua Interpretação n’ “Os Lusíadas”25 onde se escalpeliza
a conjuntura política no palco indostânico no momento em que
disputam o governo da Índia, Pedro de Mascarenhas e Lopo Vaz
de Sampaio. Revelando a poética, explicita-se e desoculta-se uma
das conjunturas nucleares para a compreensão do processo de
manutenção do domínio português em terras do Índico nestes
primórdios de Quinhentos.

Mas o quadro de um tempo deve ser igualmente exposto nos


múltiplos liames que se teceram, nomeadamente as repercussões
da revelação de um “Mundo Novo” na Europa de então. Recorde-se
a voz do filósofo, de Montaigne e dos seus Essais, quando disserta
pelos Des cannibales26. Nele repercute-se uma presença, a portuguesa
e expõe-se as leituras feitas pelo pensador francês das obras de
Jerónimo Osório e de Fernão Lopes de Castanheda. O cronista da
História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses dialoga
afinal com aqueles que em França ensinaram, como António de
Gouveia e Nicolau Grouchy27. Os laços culturais pluri-nacionais
que se constróem em Quinhentos, são frequentemente esquecidos,
ou melhor, desconhecidos pelos que mergulham no século de ouro
português.

25
Cf. Jorge Borges de Macedo, Um caso de luta pelo poder e a sua interpretação n’ Os
Lusíadas, Lisboa, Academia Portuguesa de História, 1976.
26
Cf. Montaigne, Essais- Livre I, Paris, Garnier- Flammarion, 1969, pp. 251-
263.
27
Grouchy é o tradutor para francês do primeiro Livro da História do Descobri-
mento e conquista da Índia pelos Portugueses de Fernão Lopes de Castanheda.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 27

Na corte isabelina correm as narrativas que descrevem a


presença portuguesa nos mares e terras do Oriente.Os seus ecos
revelam-se em textos fundadores como Utopia, de Thomas More28.
A tradução para língua inglesa do primeiro livro da História do
Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses é dedicada a Sir
Francis Drake. Nicholas Litchfield, o seu tradutor, exalta o livro,
pois este descreve as terras, os portos, as mercadorias, as riquezas
e as lutas travadas, considerando que o seu protector, Sir Francis
Drake, irá, decerto, apreciá-lo. Aliás: “The history contained the
discovers and conquest of the East Indies, made by foundry worthy
Captains of the Portingales, in the time of King Don Manuel, of the
King Don Johan the Second [sic]of that name, with the description,
not only of the country, but also of every harbor appertaining to
every place whereunto they came of great resistance they fond in
the same, by reason whereof there was foundry great battles many
time fought, likewise of the commodities, riches that every of these
places doth yield.”29

A representação de uma presença, a de Portugal nos espaços


extra-europeus, transmuta-se no discurso. Ela é devedora do seu
ser ontológico. Como Ricoeur sistematiza: “(...) la représentation
historienne est bien une image présente d’une chose absente; mais
la chose absente se dédouble elle-même en disparition et existence
au passé. Les choses passés sont abolies, mais nul ne peut faire
qu’elles n’aient été. (…) J’appelerait condition historique ce regime
d’existence placé sous le signe du passé comme n’ étant plus et ayant
été. Et la véhémence assertive de la representation historienne en
tant que représentance ne s’ autoriserait de rien d´autre que de

28
Veja-se a propósito e como introdução ao tema a síntese apresentada na
recente edição crítica, tradução e notas de comentário de Aires A. Nascimento
da referida obra de More onde nos deparamos igulamente com estudo
introdutório à Utopia Moriana de José V. de Pina Martins. Cf. Thomas
Morus, Utopia,Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2006.
29
The first book of the Historie of the Discoverie and Conquest of the East Indias,
entreprised by the Portingales, in their daungerous Navigation (…) set foorth in the
Portingale language by Hernan Lopes de Castaneda and now translated into English,
by N. L. Gentleman, London, Thomas East, 1582, p. 1.
28 Ana Paula Avelar

la positivité de l’ “avoir été” visé à travers la negativité du “n’être


plus”. Ici, atteint sa limite interne en côtoyant sur ses bords les
confins d’une ontologie de l’ être historique.”30

É na consciência deste postulado que a historicidade do Outro


se arquitecta e desvenda.

30
Paul Ricoeur, op. cit., p. 367.
II.

Construindo a Mundialização
nos alvores da Modernidade
“Espritos valerosos, & esforçados,
Que tanto ao mundo tem de si mostrado: (...)”

Pero Andrade de Caminha1

Antes de mergulharmos no processo de apreensão da novidade


construído e revelado pelos portugueses de Quinhentos, através da
análise dos textos produzidos na época, importa enquadrar Portugal
num tempo. Para tal, tomei como percurso partir da descoberta dos
processos de conhecimento do espaço atlântico, nomeadamente a
exploração da costa africana ocidental durante o século XV, para, em
seguida, centralizar a atenção na Lisboa de Quinhentos. O carácter
exemplar da viagem e o encontro com os novos espaços constituem
momentos primordiais para a compreensão da moldura epocal na
qual se edificam novas formas de olhar a novidade.

Considero, assim, que, num primeiro momento, se devem


sumariar as fases iniciais das viagens de descoberta e presença portu-
guesa noutros espaços, nomeadamente, no século XV, e sinalizear
alguns textos que os descrevem. Ao percepcionar, em brevíssimos
traços, o quadro de Portugal de Quinhentos através das descrições
coevas, procura-se um reino e distingue-se a capitalidade de Lisboa
face a outras cidades europeias nestes alvores da Modernidade.

1
Versos de um soneto de Pero de Andrade de Caminha escrito em louvor
a Jerónimo Corte-Real in Obras de Jerónimo Corte Real, Porto, Lello&Irmão
– Editores, 1979, p. 12.
32 Ana Paula Avelar

Aventuremo-nos então, em breves pinceladas, por aquelas


que terão sido as razões de uma errância nas terras do Magrebe
e nos outros mares para além das planícies aquáticas mediterrânicas,
subscrevendo-se aqui a expressão braudeliana. Merecem, sem
dúvida, ser referenciadas as causas mais ou menos próximas desta
saída de Portugal, e ponderados factores como a falta de ouro ou
a necessidade de se ir em busca dos mercados fornecedores desse
metal. Importa, nesse sentido, considerar as quebras monetárias e a
necessidade de aquisição de novos senhorios, para além de se avaliar
a falta de cereais existente ao tempo no reino e os insuficentes meios
de pagamento para os adquirir.

Tais elementos deverão todavia ser enquadrados no âmbito de


um duplo direccionamento político português, o de conquistar
espaços já produtores, como acontece com os avanços em Marrocos,
e a exploração de novas regiões, como acontece com os arquipélagos
atlânticos.

Não podemos deixar de ter igualmente em atenção os vários


complexos económico-sociais. Retomam-se, portanto, algumas
das explicações macro-estruturais braudelianas, como os “vários
atlânticos”, para a explicação do contexto português no seio de
uma Europa Quatrocentista. Contudo, não deixa de ser interes-
sante inventariar alguns dos vectores que vão presidindo a este
conhecimento dos vários atlânticos. A procura de mão-de obra
escrava, e de produtos como a goma de acácia, a busca de plantas
tintureiras como o sangue de dragão, o indigo, e o aumento das
áreas de pesca e o seu defeso, encontrar-se-ão entre as principais
causas das primeiras explorações extra-europeias portuguesas.

hesitação da coroa Convoco ainda para a contextualização deste tempo, a hesitação


entre 1409 e 1412 que se vislumbra desde 1409 na coroa portuguesa entre a conquista
de Granada ou a ida para Marrocos, a qual se consubstancia, desde
1412, na preparação para a tomada de Ceuta, que se concretizará
três anos mais tarde. Importará enquadrar este problema no âmbito
do domínio desta praça pela coroa portuguesa, e o facto de ela visar
o controlo do estreito de Gibraltar e a desarticulação das relações
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 33

entre Granada e o espaço magrebino. Estes tópicos deverão ainda ser


associados ao domínio do terminus das rotas do ouro e dos espaços
de produção cerealífera.

A crónica da Tomada da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara, deverá


discurso expositivo
de uma vontade
ser evocada como discurso expositivo de uma vontade régia. É certo
régia que esta se configura como a terceira parte de uma crónica régia, a
de D. João I, cujas duas partes anteriores teriam sido elaboradas por
Fernão Lopes, no entanto a tonalidade discursiva da partida para
outros espaços, ainda que seja o próximo Magrebe, deve funcionar
com referente. Aquela formosa cousa de ver, como escreve Zurara
quando narra a partida de Lisboa para Ceuta, que pela manhã parecia
alguma mata que perdera as folhas e o fruto, e em tão breve tempo tornava
a parecer um tão formoso pomar, acompanhado de muitas folhas verdes e de
flores de muitas cores tais eram os pendões de desvairadas cores que
flutuavam ao vento, repercute-se ciclicamente nas futuras partidas
das armadas.

Por seu turno, a metaforização, algo panegírica, da frota dos


Infantes de Avis que parte de Lisboa para Ceuta ecoa, enquanto
estratégia expositiva de um poder, nas palavras de João de Barros
e da sua descrição da partida de Vasco da Gama da praia de lágrimas
para os que vão e terra de prazer aos que vêm. Zurara é, como em vários
fonte matricial
outros textos tenho demonstrado, a fonte matricial dos cronistas da
Expansão2.

Recorde-se que o primeiro espaço de Expansão se estrutura a


partir das Tcostas algarvias e marroquinas, abrangendo a exploração
primeiro espaço de
Expansão dos grupos insulares – Madeira, Canárias e Açores. Deve-se ter
em atenção que o arquipélago dos Açores se situa a um terço da
travessia oceânica do Atlântico, deste modo convidando ao avanço
da exploração para Ocidente.

2
Cf. Ana Paula Menino Avelar, Figurações da alteridade na cronística da Expansão,
Lisboa, Universidade Aberta, 2003.
34 Ana Paula Avelar

Ainda que subscreva aqui uma mera contextualização prope-


dêutica, tenhamos, no entanto, presente alguns dos acontecimentos
que ao longo das primeiras décadas de Quatrocentos marcam a
primeiros passos
presença portuguesa nas costas africanas e no Atlântico como os
cercos suportados por Ceuta em 1419, o reconhecimento de Porto
Santo e da Madeira, através das expedições de Gonçalves Zarco,
Tristão Teixeira e de Bartolomeu Perestrelo, e o seu progressivo
povoamento, as tentativas de conquista das ilhas Canárias – as
expedições de D. Fernando de Castro e a posterior e igualmente
fracassada de António Gonçalves da Câmara, o arribar em 1427,
por Diogo de Silves, ao arquipélago dos Açores, e a consequente
abertura ao reino de um espaço de cultivo de cereais, vinha, cana
do açúcar, criação de gado, exploração da madeira e produção de
plantas tintureiras.

Prosseguindo neste mapear diacrónico-factológico da Expansão,


recorde-se o facto de D. João I ter falecido em 1433 e de D. Duarte
prosseguir a política marroquina, apesar das resistências nesse
sentido e do fracasso da expedição a Tânger (1437), um desaire que
obstáculos à vai criar obstáculos à política de navegação e descoberta para Sul.
política de Contudo, a dupla aposta na expansão, ou melhor, na consolidação
navegação da presença portuguesa em Marrocos, e o avanço na exploração
atlântica para Sul, é a política seguida por D. Duarte. Recorde-se
que é durante o seu reinado que, em 1434, Gil Eanes dobra o cabo
Bojador, se alcança a angra dos Ruivos e o rio do Ouro, e se julga ter
atingido o Senegal, procurando-se as fontes de extracção do ouro.

É, todavia, durante a regência de D. Pedro (1439-1446) que,


recusando a expansão em Marrocos, se aposta na exploração de
outros espaços. Atente-se na colonização dos Açores e na procura
do controle das Canárias através da expedição de D. Fernando de
Castro e de D. Diogo, em 1440, a qual não atinge, porém, os seus
objectivos. A posição estratégica deste arquipélago, na navegação
para a Guiné e no controle dos espaços de pesca das costas saarianas,
ditara este interesse.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 35

É igualmente por volta de 1440 que se começa a utilizar uma


nova embarcação, a caravela, nas navegações oceânicas. Devido
caravela ao seu velame, este navio possibilita navegar à bolina. Importa,
contudo, recordar aquilo que Francisco Contente Domingues
escreve quando se debruça sobre a caravela redonda. Alerta este
investigador para que: “(...) tudo o que rodeia a caravela exige
particular atenção: é o navio sobre o qual mais se escreveu até
hoje, e que ainda continua a merecer a melhor das atenções, muito
por culpa da embarcação latina de dois mastros que pontificou na
segunda metade metade do século XV.”3

Fig. 1 – Mapa da
presença portuguesa
na costa africana
ocidental.

3
Francisco Contente Domingues, Os navios do mar oceano – Teoria e empiria na
arquitectura naval portuguesa dos séculos XVI e XVII, Lisboa, Centro de História
– Universidade de Lisboa, 2004. p. 261.
36 Ana Paula Avelar

O espaço para Sul continuou a ser explorado durante a regência


de D. Pedro, tendo sido atingidos o cabo Branco (Nuno Tristão,
1441) e a terra dos Negros (1444). Assinalem-se
T igualmente a
expedições e expedição de Álvaro Fernandes ao Senegal e a de Gomes Pires e
narrativas Lançarote ao cabo Verde, entre outras expedições subsequentes. No
entanto, o nosso texto centra-se nos discursos narrativos coevos que
se debruçam sobre esta presença, e, a este nível, é a voz de Gomes
Eanes Zurara que impera.

O espaço magrebino é de alguma forma nuclear na produção


historiográfica de Zurara. A sua Crónica do Conde D. Pedro de
Meneses narra a actuação deste capitão em terras do Norte de África,
Zurara perseguindo a razão das coisas que, como escreve, passam na sua
Magreb
idade ou mesmo daquelas que: “(...) pasaram tam a cerca, de que eu
posso aver verdadeiro conhecimento (...)”4.

Sendo Marrocos uma zona estratégica para o reino de Portugal,


este cronista-mor não deixaria de, uma vez mais, se debruçar sobre
este espaço, nomeadamente quando redige a Crónica do Conde
D. Duarte de Meneses, deslocando-se, para tal, ao Norte de África
para, in loco, recolher informações e narrar os feitos deste capitão
de Alcácer – Ceguer. Zurara inaugura assim a postura que seria
laudada por Fernão Lopes de Castanheda, em particular no prólogo
ao primeiro livro da sua História do Descobrimento e Conquista da Índia
pelos Portugueses. Conhecer
conhecer os espaços
T os espaços previne os erros que seriam
para prevenir os
erros
cometidos ao referenciar lugares nunca antes vistos por quem
escreve.

A Guiné é igualmente objecto da pena de Zurara. Corres-


pondendo o cronista ao desejo do monarca, D. Afonso V, que,
Guiné
segundo escreve na carta que acompanhou a sua crónica, lhe teria
confidenciado quanto desejava ver postos em escrito os feitos do senhor
Infante D. Henrique seu tio5. A paulatina navegação da costa africana

4
Cf. Gomes Eanes de Zurara, Crónica do Conde Dom Pedro de Meneses, Porto,
Universidade do Porto, 1988, p. 9.
5
Gomes Eanes de Zurara, Crónica de Guiné, Porto, Livraria Civilização, 1973,
p. 4.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 37

é narrada desde a passagem do cabo Bojador à exploração da costa


da Guiné. No capítulo LXXV, desta sua Crónica, Zurara narra, por
exemplo, como a caravela de João Gonçalves Zarco chegou à terra dos
negros, não deixando de enquadrar o espaço descrito, sequenciando
aquela narrativa com o capítulo LXXVI onde referencia como o autor
começa de falar na maneira daquela terra. O vivenciado é contraposto ao
que estaria estabelecido como certo pelos antigos.

A sua estratégia discursiva passa pela sucessiva comparação: “E


porque uma das poucas cousas que eles diziam que eram contrarias
para passarem aquelas terras, assim eram as correntes mui grandes
(...) pelas quaes era impossivel nenhum navio fazer viagem por
aqueles mares, agora tendes claro conhecimento do seu erro
primeiro, pois vistes ir e vir navios (...)”6. Zurara prossegue com o
elencar do que seriam as imprecisões que corriam: “Enganavam-se
ainda na profundeza do mar, que tinham em suas cartas que eram
praias tão baixas, que uma legua de terra não havia mais que uma
braça de agua: o que se achou foi o contrairo, que os navios tiveram
e tem assaz altura para o seu marear (...)”7. Os acontecimentos
constituem, porém, o objecto primordial; são eles que atraem
e concentram a atenção do autor, o qual, no capítulo seguinte, o
LXXVII, descreve as cousas que aconteceram a João Fernandes8.

Por seu turno, a representação do Outro inscreve-se na acepção


greenblattiana, segundo a qual: “(...) any given representation is
not only the reflection or product of social relations but that it is
itself a social relation, linked to the group understandings, status
hierarchies, resistances, and conflicts that exist in other spheres of
culture in which circulates. This means that the representations are
not only products but producers, capable of decisively altering the
very forces that brought them into being.”9

6
Ibidem, p. 321.
7
Ibidem, p. 322.
8
Cf. Ibidem, pp. 325-329.
9
Stephen Greenblatt, op. cit., p. 6.
38 Ana Paula Avelar

De Gomes Eanes de Zurara emana esta dimensão discursiva.


Recorde-se como ele evoca a venda de escravos numa praça de
Lagos: “(...) postos juntamente (...) era uma maravilhosa cousa
de ver, que entre eles havia alguns de razoada brancura, fremosos
e apostos, outros menos brancos, que queriam semelhar pardos,
outros tão negros como etiopes(...). Mas qual seria o coração, por
duro que ser podesse, que não fosse pungido de piedoso sentimento,
vendo assim aquela companha? Que uns tinham as caras baixas
e os rostos lavados com lagrimas, outros estavam gemendo mui
dolorosamente(...)”10.

Retenha-se esta modulação do olhar. Ela será de novo revisi-


modulação do tada quando analisarmos as formas de representação do africano,
olhar
do ameríndio e do asiático na escrita da Expansão do Portugal de
Quinhentos, e observarmos os modelos de representação do Outro
na descrição do diferente.

Ao convocar, ainda que propedeuticamente, o século XV, e ao


tocar nas representações de um tempo, não posso deixar de sinalizar
a acção do Infante D. Henrique, ainda que seja o traço icónico,
aquele que procuro convocar.

Vislumbre-se ainda que por breves instantes como Zurara expõe


a imagem do Príncipe, traçando o perfil imponente: “(...) digo que
este nobre Principe houve a estatura do corpo em boa grandeza,
e foi homem de carnadura grossa e de largos e fortes membros; a
cabelura havia um tanto alevantada; a cor de natureza branca, mas
pela continuação do trabalho por tempo tornou doutra forma.”11

A impressão do Ser majestático flui no discurso de Zurara: “Sua


presença, do primeiro esguardo, aos não ousados era temerosa;
arrebatado em sanha, empero poucas vezes, com a qual havia mui
esquivo sembrante. Fortaleza de coração e agudeza de engenho
foram em ele mui excelente grau. Sem comparação, foi cubiçoso

10
Gomes Eanes de Zurara, Crónica de Guiné, p. 122.
11
Ibidem, p.22.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 39

de acabar grandes e altos feitos. Luxuria nem avareza, nunca em seu


peito houveram repouso, porque assim foi temperado no primeiro
auto, que em toda sua vida passou em limpa castidade, e assim que
virgem o recebeu a terra.”12

Através de um melancólico decoro lauda-se o Infante: “E que


posso dizer de sua grandeza? Senão que foi de extrema entre todolos
principes do mundo! Este foi o Principe sem coroa segundo meu
cuidar, que mais e melhor gente teve de sua criação.”13

À dimensão do Príncipe, pouco menos que divinal, que corre


no panegerico do seu cronista, Gomes Eanes de Zurara, deve-se
contrastar as palavras contextualizadores de Vitorino Magalhães
Godinho quando recorda: “La Régence avait favorisé les initiatives
privées, mais l’État assumait un rôle de premier plan. Tout au long
de ces décennies l’Infant D. Henrique, obstinément, multiplie ses
actions en plusieurs directions – la croisade et la marchandise, la
contexto
curiosité d’apprendre des nouvelles sur des terrres et peuples que
l’on ignorait dans la Chrétienté, la recherche d’appuis dans la guerre
contre l’Islam (Prêtre Jean). Découvertes, commerce, colonisation,
continuent donc.”14

Neste meu exercício de inscrição matricial em torno das


vozes que se debruçam sobre um quotidiano, e onde se expõem as
descrições de um encontro com a novidade, deverá ser objecto de
reflexão e de confronto discursivo o contributo dos navegadores
navegadores
italianos italianos para as expedições portuguesas. Possuimos alguns relatos
que, ainda que brevemente, deverão ser evocados como o de Cà da
Mosto, tomando o aportuguesamento do seu nome. Esta evocação
deve ser entendida no âmbito de uma estratégia metodológica de

12
Ibidem.
13
Ibidem
14
Vitorino Magalhães Godinho, Le Devisement du Monde – De la pluralité des
espaces à l’espace global de l´Humanité XVème-XVI ème siècles, p. 25. Cf. João
Paulo de Oliveira e Costa, Henrique, O Infante, Lisboa, a Esfera do Livro,
2009, pp. 340-355
40 Ana Paula Avelar

confronta confrontação de discursos que poderão eventualmente indiciar o


discursos esboço de modelos descritivos15.
O programa de escrita enuncia a propriedade da sua novidade:
“Tendo eu, Luís de Cadamosto, sido o primeiro que da nossa nobre
cidade de Veneza se resolveu navegar o mar Oceano para fora do
novidade estreito de Gibraltar (...) nem por memória nem por escrituras,
nunca dantes navegado (...)”16. Não deixa igualmente de ser
confrontado o espaço de partida e o espaço de chegada, sem que se
toque o de permanência: “(...) neste meu itinerário, havendo visto
muitas coisas novas e dignas de alguma notícia, para que aqueles
que e mim vierem a descender possam saber qual tenha sido o meu
ânimo em haver-me posto a procurar diversas coisas em vários
lugares, (pois, na verdade o [nosso] viver e os nossos costumes e
lugares, em comparação com as coisas por mim vistas e sabidas,
outro mundo aqui poderiam chamar), certo, pois de bem merecer,
determinei de dar alguma notícia disso(...)”17.

A esta leitura dever-se-á associar a gradual representação do


real através da imagem descritiva, onde o Eu do referente marca
o discurso. Gaspar Frutuoso e as suas Saudades da Terra são disso
exemplo. Tomando outras leituras como as que se sedimentam
no âmbito dos Estudos Literários evoco aqui a abordagem de João
Carlos F. A. de Carvalho ao texto que se debruça sobre o descobri-
mento da ilha da Madeira, ou melhor aquilo que ele desoculta como

15
Cf. Edição anotada de Damião Peres das viagens de Luís de Cadamosto e de
Pedro Sintra. Cf. Damião Peres (ed.) Viagens de Luís de Cadamosto e de Pedro de
Sintra, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1988.
16
Ibidem, p. 83. O texto em italiano é o seguinte: “Esendo io Aluise da cha
damosto stato el primo che dela nostra nobil Cita de de Venexia sia demosso
a nauigar el mare occeano do fori del streto de zibelter (...) Mai piu ne per
memoria ne per scripture nauigato (...)” Ibidem, p. 3.
17
Ibidem, p. 83. O texto em italiano é o seguinte: (...) in questo mio itinerario
hauendo uisto molte cosse e degne de qualche nota Azío che quelli de mi
harano a discendro posano intender qual sia stato lanimo mio in hauerme
meso a zerchar uarie cosse in diuersi e noui luogi che veramente e il viuer e
i costumi e i luogi nostri in comparatione dele cose per me uedute e intesse
Altro modo se poteria chiamar di qua e adoncha processo de bonmerito o
determinato de farne qualche nota(...)” Ibidem, p. 3.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 41

“Retórica das origens no texto de Alcoforado”. Mas ao tocar modali-


dades diferenciadas de desocultação do discurso18 defendo, como
Daniel Roche, que o historiador da cultura não pode usar sem precauções
os textos que se classificam na literatura, sendo-lhe recomendado, como
escreve, não desconhecer as suas funções específicas19.

espaços de presença Sequenciando, ainda propedeuticamente, os espaços de pre-


portuguesa sença portuguesa em Quatrocentos, outros eventos devem ser
mencionados. Sinalize-se, sinteticamente, a chegada às ilhas Flores
e Corvo, as expedições à Gronelândia, o tocar das ilhas de cabo
Verde, a exploração para Sul da costa africana, e a entrada das
especiarias africanas no circuito comercial dos portugueses. A par
desta indicação das fases de exploração da costa africana, e do modo
como a coroa portuguesa teceu a sua rede administrativa de suporte
à actividade comercial, é importante ter em atenção as relações
políticas entre o reino de Portugal e os restantes reinos ibéricos20.

A sucessão ao trono de Castela e o recentrar deste reino no


reforço da sua posição no espaço mediterrânico e europeu deverá
ser evocada, tendo ainda em atenção que Portugal perde defi-
nitivamente a sua pretensão às Canárias. No entanto, no contexto
ibérico, Alcáçovas (1479) e Toledo (1480) traduzem a definitiva
viragem atlântica. As expedições de Fernão Teles (1474-1475),
VIRAGEM João Vaz Côrte-Real (1472) Fernão Dulmo (1486) são momentos
ATLÂNTICA
de exploração do Atlântico no caminho para uma nova terra, um
novo continente que Colombo atinge em 1492, quando Pedro de
Barcelos e João Fernandes Labrador (1492-1495) cursam outros
espaços do Atlântico muito mais a Norte.

18
Cf. João Carlos F. A. de Carvalho, Ciência e Alteridade na Literatura de Viagens
– Estudos de Processos Retóricos e Hermenêuticos, Lisboa, Edições Colibri, 2003,
pp. 303-312.
19
Cf. Daniel Roche, “Uma declinação das Luzes” in Jean-Pierre Rioux, Jean-
-François Sirinelli, op. cit., p. 41.
20
Cf. Os estudos sobre os reis católicos, nomeadamente as obras de Luis Suárez
Fernández, Los Reyes Católicos, 5 vols, Madrid, Espasa Calpe, 1989-1990,
ou Miguel Ángel Ladero Quesada, La España de los Reyes Católicos, Madrid,
Alianza Editorial, 1999.
42 Ana Paula Avelar

Entre 1475 e 1480, Portugal desenvolve uma política expan-


politica
expansionista em sionista focalizada em vários espaços, como: o marroquino, onde
várias frentes busca cereais, têxteis; os arquipélagos atlânticos, dominando a
navegação oceânica, e produzindo açúcar, vinho, plantas tintureiras,
cereais, couros; a Guiné, onde procura o ouro, escravos, marfim e
as especiarias africanas; a Índia, visando atingir as suas especiarias
e pedras preciosas. Já face a Castela pretende-se cortar o acesso aos
novos mercados, tentando D. João II dominar em Marrocos, não
só as planícies meridionais, como as cidades-porto que funcionam
como escalas do comércio transsarianas (a acção portuguesa em
Safim e Azamor é disso exemplo, aliás, tal como acontece no reinado
de D. Manuel com os esforços no Cabo Guer, no Mogador ou em
Mazagão).

A singularidade da presença portuguesa no Norte de África é


evocada iconicamente no texto de Francisco de Holanda, quando
este escreve Da FABRICA que falece ha cidade de Lisboa. Esta obra evocando
a presença portuguesa e o projecto sebástico para o Norte de África,
é dedicada ao próprio monarca, D. Sebastião. O signo da guerra
expõe-se, figurando metaforicamente os acampamentos militares,
expansão como afir-os canhões, os estandartes, os canhões... . A expansão em Marrocos
21

mação de um reino foi, em Quatrocentos, como escreveu António Dias Farinha, a


afirmação de um reino, Portugal, e de uma dinastia, a de Avis, tanto
no plano interno como no concerto das nações europeias22.

21
Cf. Figura inclusa na obra de Francisco de Holanda da Da FABRICA que falece
ha cidade de Lisboa, reproduzida in Jorge Segurado, Francisco D’Ollanda – Da sua
vida e obras. Arquitecto da renascença, ao serviço de D. João III. Pintor. Desenhador.
Escritor.Humanista “Fac-Simile” da carta a Miguel Ângelo – 1533 e dos seus Tratados
sobre Lisboa e Desenho – 1571, Lisboa, Edições Excelsior, 1970, p. 154.
22
Como António Dias Farinha escreve: “Em síntese podemos referir que no
primeiro século da presença portuguesa em Marrocos se apresentam, em
diversos momentos, os factores mais relevantes que a condicionaram. A
expansão é, antes de mais, a afirmação política do Reino no concerto das
nações (traduzida no “senhor de Ceuta”, a que depois se acrescentou “e de
Alcácer Ceguer” e, mais tarde, “rei do Algarve Dalém-Mar em África”), em
especial no contexto ibérico (a ameaça anexionista de Castela manter-se-ia
no horizonte) e perante os Estados europeus os Mouros (Salado não estava
distante e havia que continuar a reconquista) e finalmente, resposta à ameaça
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 43

Fig. 2 – O projecto de D. Sebastião como o desenhou Francisco d’ Holanda

turca, bem perigosa depois de 1453. A iniciativa portuguesa valeu também


como antecipação ao “direito de conquista” das nações ibéricas sobre o
reino de Fez, reconhecido por Castela pelo Tratado das Alcáçovas, em 1479.
A expansão consagrou a legitimidade da dinastia de Avis no plano interno
e no seu pleno reconhecimento na ordem internacional. Marrocos foi o
palco privilegiado da capacidade de direcção dos monarcas de Avis e da sua
44 Ana Paula Avelar

D. Sebastião
D. Sebastião é um monarca que, nos primeiros anos do seu
governo, continua a sentir a pressão do poderio turco, o qual seria,
em certa medida, sustido pela vitória em 1571 de D. João de Aústria
em Lepanto. Num período em que a frota otomana permanece no
Mediterrâneo Ocidental, obrigando a rever a defesa das praças de
Orão e Melila, D. Sebastião visitou Ceuta e Tânger, observando
as fortificações e travando algumas escaramuças com os mouros23.
A inscrição sebástica num desígnio imperial corporiza-se, como já
anteriormente defendi, naquele que é ideário habsburgo24.

Mas prossigamos este percurso propedêutico, traçando os


grandes vectores explicativos de um tempo. Relembre-se a impor-
tância da exploração de S. Tomé e das ilhas de Cabo Verde, sobre
as quais Valentim Fernandes expõe a novíssima experiência e
conhecimento25. No final do século XV acentua-se a demanda do
caminho para as especiarias orientais. As explorações de Diogo Cão
(1482-1484) e João Afonso de Aveiro (1484-1486), respectivamente,
o primeiro, pelo reino do Congo, e o segundo, pelo Benim, ganham
voz através das palavras de Rui de Pina, seja na sua relação do Reino
do Congo, seja na sua Crónica de D. João II26.

Recorrendo aos diferentes discursos é possível contrapor as


modalidades discursivas que sobre um mesmo acontecimento
correm na Europa nos alvores da Modernidade. Confronte-se
como a exposição do Outro, o africano congolês, é elaborada pela

descendência, em particular da Ínclita Geração.” António Dias Farinha, Os


Portugueses em Marrocos, Lisboa, Instituto Camões, 2002, p. 31.
23
Cf. Ibidem, p. 77.
24
Cf. “Do perfil do Herói em algumas crónicas Sebásticas”, in Colóquio – O
Sebastianismo – Política, doutrina e Mito (séculos XVI-XIX), Lisboa, Edições
Colibri, 2004, pp. 39-53.
25
Cf. as descrições dos espaços no Códice Valentim Fernandes, Lisboa, Academia
Portuguesa da História, 1997.
26
Cf. as seguintes obras: Rui de Pina, Crónica de El-Rei D. João II, prefácio e
notas de Alberto Martins de Carvalho, Coimbra, Atlântica, 1950; Carmen
M. Radulet, O Cronista Rui de Pina e a “Relação do Reino do Congo”, Lisboa,
Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1992. Em paralelo dever-se-á analisar
o texto de Garcia de Resende, Crónica de Dom João II e Miscelânea, Lisboa,
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 45

pena de Rui de Pina e pela mão do mercador florentino cujo texto


se encontra no códice 1910 da Biblioteca Riccardiana de Florença.

No manuscrito italiano, considerado um palimpsesto de


um texto de Rui de Pina que ao tempo correu, incorporam-se e
manipulam-se signos europeus, visando-se aproximar o leitor do
desconhecido, familiarizando-o com uma outra realidade. Tome-
-se, só a título de exemplo, o momento em que se descreve a
recepção local à embaixada portuguesa: “O rei do Congo, vendo
concorrer de toda a parte aquela inúmera multidão de gente e de
súbditos e de embaixadores que tinham vindo, achava ser o mais
feliz de todos os príncipes do mundo, e como quem, pela grande
alegria, não reconhece de si mesmo, mandou que fossem chamados
todos os príncipes e barões do seu Reino para que participassem de
tanta glória e júbilo, e também tivessem conhecimento de todas as
coisas que deveriam expor a Sua Magestade os oradores do Rei de
Portugal.”27

O Outro é aqui revelado através dos atributos do Eu, sem que se


traduzam aqueles que são os distintos códigos em presença. Atente-
-se na utilização de conceitos como súbditos, príncipes, barões...
Pina e a embaixada
A estratégia discursiva de Rui de Pina é distinta. O descrito
ao Congo
procura aqui transcrever o visto, expondo a distinção dos códigos:
“E o dicto Moni-Sonho, com mostranças e sinaaes de muita ledice,
veendo as cousas d’El-Rei de Portugal, em sua lembrança e por
sua reverença tocou ambas as mãos no chão e as pôs sobre o rosto,
Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1973. Edição preparada por Joaquim
Veríssimo Serrão.
27
Carmen Radulet, op. cit., p. 101. O texto em italiano é o seguinte: “(...) lo Re
di Chongo, vedendo concorrere da ogni banda si numerosa moltitudine di
gente e di sudditi e di ambasciadori li quali erano venuti si credevano esser
el piú beato di tutti li altri principi del mondo e così come que vi per la
grande allegrezza non si conosce se medesimo, comandò fussino chiamato
tutti li principi e baroni del suo reame acciocché fussino participi di tanta
grolia e allegrezza e che avessino notizia di tutte quelle cose le quali avevano
a sponere a Suo Maestà li oratori de’ Re [fl.86v b ] di Portochallo(...).” Ibidem,
p. 100.
46 Ana Paula Avelar

que é sinal de moor acatamento que se pode fazer aos seus reis
(...) por servir de memória de tam vertuoso e tam poderoso Rei e
tam verdadeiro amigo, ele queria fazer festas (...)”28. A descrição da
recepção prossegue, delinando-se o quadro humano local: “(...) se
ajuntou logo muita gente com arcos e frechas e com atabaques e
trombetas de marfim e com violas, com tudo segundo seu custume,
mui acordado, parecia bem. Vinham todos nuus da cinta pera cima
e tintos na carna de branco e outras cores em sinal de gram prazer
e alegria (...)”29.

A descodificação dos sentires marca o quadro impressivo de


um estar em que a minúcia perpassa: “(...) vestidos de panos de
palma ricos da cinta pera o fundo e com penachos na cabeça fectos
de penas de papagatos e d’outras aves diversas que fazem e lhes dam
por empresas as gentiis molheres.”30 Ainda que os signos de um
Eu europeu pontuem o discurso, introduzem-se outros referentes.
Não estamos, todavia, em presença da poetização resendiana do
espaço, onde flui uma certa cadência binária de: “Nisto que posso
dizer, que non seja todo dicto: tambem nõ posso escrever/ taes
cousas sem se fazer/ hVo processo infinito. / que grandes pouoações?/
que grandes nauegações?/ que grãdes Reys?/ que riquezas?/
costumes?
R
 estranhezas?/
R  gentes,
R  eR
nações?”
 31

Por seu turno, a ideia de que Portugal está às portas da Índia,


transmitida por Vasco Fernandes de Lucena ao Papa Inocêncio VIII,
num momento em que se vivencia a África sub-saariana, espelha-se
no domínio que Portugal exibe na Cúria papal.

oração de Lucena Esta Oração de Obediência, traduzida para francês e inclusa na


obra de Luís de Matos, L’ Expansion Portugaise dans la Littérature Latine
de la Renaissance, é uma das suas faces. Como Lucena proclama: “Il
s’ajoute enfin à tout cela l’espoir certain d’explorer le golfe Arabique,

28
Ibidem, p. 140.
29
Ibidem.
30
Ibidem.
31
Garcia de Resende, Crónica de Dom João II e Miscelânea, p. 344.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 47

où royaumes et nations des habitants de l’Asie, à peine connus


chez nous par une tradition bien vague, pratiquent de la manière la
plus stricte la très sainte religion du Sauveur. Les Portugais, si du
moins les géographes les plus qualifiés rapportent la vérité, n’en
sont maintenant éloignés que de quelques jours de navigation.”32

A ritmada exploração portuguesa é exposta sob o signo das águas


pelo embaixador português ao Papa: “En effet, après avoir réussi
un périple qui comprend la partie de beaucoup la plus longue des
côtes africaines, ils ont abordé l’année dernière près du ‘Passum
Promontorium’ qui marque le commencement du golfe arabique;
ils ont reconnu tous les fleuves, les rivages, les ports qui sur
une distance de plus de 4.500.000 pas à partir de Lisbonne sont
dénombrés grâce à une observation extrêmement précise de la mer,
des continents et des constellations.”33

A presença da Cristandade é evocada através da Coroa e do


promessa para a ceptro do monarca de Portugal: “Cette région une fois explorée, je
Cristandade
crois déjà voir tout ce qui viendra s’ajouter de richesses, d’honneur
et de gloire pour toute la Chrétienté, surtout pour vous, Très Saint-
-Père, ainsi que pour vos successeurs et pour le trône béni de Saint
Pierre.”34

O mais ou menos constante medir da distância, e a concretização


daquelas que se intuiam como as últimas etapas, fecham este
percurso propedêutico. Assinale-se assim o facto de a Serra Parda
ter sido alcançada pela segunda expedição de Diogo Cão de 1485 –
1486. Recorde-se que as latitudes das costas africanas determinadas
por José Vizinho, mestre Rodrigo e Duarte Pacheco Pereira,
delineavam uma nova, mais precisa, notação do espaço. Em 1487
Bartolomeu Dias parte do reino de Portugal dobrando o cabo das
Tormentas, abrindo a passagem para a Índia.

32
Luis de Matos, L’ Expansion Portugaise dans la Littérature Latine de la Renaissance,
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991, p.166.
33
Ibidem.
34
Ibidem, pp. 166-167.
48 Ana Paula Avelar

O fechar de um ciclo e a abertura de um outro é representado


pela Viagem de Vasco da Gama, marca de uma nova Era, da qual a
épica seria, ao tempo, a sua voz:

“Já a vista, pouco e pouco, se desterra


Daqueles pátrios montes, que ficavam;
Ficava o caro Tejo e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos alongavam.
Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam.
E já depois que toda se escondeu,
Não vimos mais, enfim, que mar e céu.”35

35
Luís de Camões, Os Lusíadas, Porto, Porto Editora, 1980,Canto V, est. 3,
p. 194.
III.

Num espaço de partida


“Duas são as cidades que, nos nossos tempos,
poderíamos designar por senhoras do Oceano e
como que suas rainhas. Às suas ordens e sob sua
dominação, nos nossos dias, Oriente e Ocidente em
conjunto estão abertos à navegação.”
Damião de Góis1

Desvendemos, em breves traços, o espaço de onde os portu-


gueses saíam. Esbocemos o quadro do reino de Portugal, consi-
derando que, na Europa coeva, o espaço terrestre é ainda intuído
de um modo descontínuo. Será gradualmente que os europeus se
vão apercebendo das continuidades espaciais.

A descrição dos lapões, Lappiae Descriptio,2 feita por Damião de


Góis, ou as suas expedições entre os tártaros, constituem, a este nível,
discursos relevantes para a compreensão da forma como se elogia
os que, ainda por terras da Europa, se aventuram no desconhecido.
Recorde-se ainda o enaltecimento de Damião de Góis, feito por
André de Resende, devido ao facto de ele ter vivido entre uma tribo
de tártaros a qual: “(...) não temia a Deus e estava sempre pronta
para a carnificina num acesso de paixão (...)”3.

1
Cf. Damião de Góis, Elogio da Cidade de Lisboa – Urbis Olisiponis Descriptio, p. 83.
2
Cf. tradução de Dias de Carvalho inclusa na obra, Damião de Góis, Opúsculos
Históricos,Porto, Livraria Civilização, 1945, pp. 205-206.
3
Citado por Elisabeth Feist Hirsch, Damião de Góis, Lisboa, Fundação Calouste
Gulbenkian, 1987, p. 32.
52 Ana Paula Avelar

No pincelar de um tempo importa ter em atenção que, de


acordo com os elementos disponíveis nas historiografias euro-
peias, a densidade populacional apresentava, ao longo do século
XVI, diferenças acentuadas. Nestes
T alvores da Modernidade a
população era predominantemente rural. As cidades eram de
pequena dimensão, destacando-se que, no início deste século, sem
contar com Constantinopla, só Paris e Nápoles teriam mais de 100
000 habitantes, estando Veneza e Milão próximas deste número.

As capitais dos reinos, centros administrativos, ou importantes


portos sofrem um crescimento privilegiado. Neste contexto o
comércio oceânico permite que, às importantes cidades italianas,
empórios comerciais mediterrânicos, se juntem, ainda no século
XVI, as cidades de Lisboa, Sevilha e Antuérpia.

Note-se, igualmente, que nos núcleos urbanos persiste uma


ambiência rural através da manutenção das hortas, da criação de
aves e de porcos… . Assiste-se, todavia, a uma certa estratificação
na estruturação social urbana. A tipologia da organização do espaço
urbano esboça-se, encontrando-se intervenções para a sua melhoria.
Por vezes estas acontecem na sequência de surtos epidémicos. Na
sua Da FABRICA que falece ha cidade de Lisboa Francisco d’Holanda
assinala a forma como a cidade evoluiu, referenciando, entre outros
aspectos, a edificação do Hospital por D. João II, a renovação
manuelina da muralha da parte do mar com o cais e novos paços,
ou ainda a construção do sumptuoso mosteiro de Belém, da torre
de Belém, e da Misericórdia4.

Ao abordar o desenvolvimento de cidades e núcleos urbanos,


em Portugal, ao longo deste século, deve-se assinalar aquilo que
podemos designar como a capitalidade de Lisboa em Quinhentos,
a sua dimensão metropolitana e internacional. Naquele que é o

4
Cf. Jorge Segurado, Francisco D’Ollanda – Da sua vida e obras. Arquitecto da
renascença, ao serviço de D. João III. Pintor. Desenhador. Escritor. Humanista
“Fac-Simile” da carta a Miguel Ângelo – 1533 e dos seus Tratados sobre Lisboa e
Desenho – 1571, p. 76.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 53

retrato do reino de Portugal neste espaço de tempo tem-se como


primeiro elemento caracterizador o numeramento de 1527...5.
António Borges Coelho traçou um quadro vivo onde: “O desenho
dos dados populacionais, compassados no mapa de Portugal
Continental, fez surpreender a uma luz objectiva a face do País.”6
Anotam-se três focos atlânticos de concentração populacional, os
quais não devem ser considerados como marca de um atlantismo,
pois as comarcas do interior, apesar do gigantismo de Lisboa, dominam
o traçado (53% contra 47%)7. Por seu turno, a fronteira terrestre não
desertifica, desenvolve.

No âmbito desta nossa análise dos discursos que, então, se


constróem, não podemos ficar condicionados por estes dados, por
muito importante que eles o sejam para o processo hermenêutico.
Devemos, portanto, percepcionar as diferentes modalidades
discursivas, sejam estas textuais, sejam visuais, tendo em atenção
estes elementos.

O quadro que, em seguida, apresento é uma proto-inventa-


riação das descrições de Portugal no século XVI. A pluralidade de
discursos e de intenções autorais expõe-se, de imediato, na titulação
das obras:

5
Cf. António Borges de Coelho, Quadros para uma Viagem a Portugal no séc. XVI,
Lisboa, Editorial Caminho, 1986, pp. 137-145.
6
Ibidem, p. 142.
7
Ibidem.
54 Ana Paula Avelar

As Descrições de Portugal (século XVI)

Datas Autores Obras


Tratado da província d’Amtre Douro y Minho e
1512 Mestre António
suas Avondanças
1531 / Descrição do terreno em roda da cidade de
Rui Fernandes
1532 Lamego duas léguas
Geographia d’ entre Douro e Minho e Trás-os-
1548 João de Barros
Montes
1548 Gaspar Barreiros Chorographia (Itinerário de Roma)
??? Gaspar Barreiros Suma e descripção de Lusitania
Summario em que brevemente se contem
Cristovão Rodrigues
1551 algumas cusas, assim ecclesiasticas como secu-
de Oliveira
lares que ha na cidade de Lisboa
Tratado da Magestade e grandeza e abastança da
1552 João Brandão
cidade de Lisboa
1553 André de Resende História da Antiguidade da cidade de Évora
André de Resende
Antiquitatibus Lusitaniae
(m.1573)
1554 Damião de Góis Urbis Olisiponis Descriptio
1541/42 Damião de Góis Hispania
Gaspar Frutuoso
Saudades da Terra (ms)
(1522/91)
1571 Francisco de Holanda Da FABRICA que falece ha cidade de Lisboa
Corografia do Reyno do Algarve dividida em
1577 Fr. João de São José
quatro livros
Livro da Antiguidade, Nobreza, Liberdade e
c.1580 Fernando de Oliveira imunidade do reino de portugal (História de
Portugal)
Dialogos de varia historia. Em que summaria-
mente se referem muytas cousas antiguas de
1594 Pedro Mariz
Hespanha; e todas as mais notaueis que em Portu-
gal Acontecerão em suas gloriosas Conquistas
A Primeira Parte da Monarquia Lusitana sai
1597 Fr. Bernardo de Brito impressa com uma Geographia antiga da
Lusytania
1599/ Duarte Nunes de
Descrição do Reino de Portugal
1610 Leão
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 55

Portugal e a sua particularidade participam, nas palavras de


Duarte Nunes de Leão, do facto de a Hispânia ser: “(...) a última
parte de Europa assentada entre Africa e França, rodeada de mar de
tal maneira, que é quasi uma ilha cuja figura os geographos comparão
a um couro de boi volto o pescoço para a parte onde confina com
França pelos montes Pyreneos (...)”8. Será esta, Europa, a filha de
Agenor, rei de Tiro objecto do amor de Zeus?

Flui, decerto neste signo da Hispânia de Duarte Nunes de Leão


o mito fundador da Europa, aquele que iconicamente se prefigura
no rapto desta corporizada na figuração de uma jovem assustada que
no dorso de um touro abre caminho por entre as águas, observada
ao longe pelas suas companheiras. Como já anteriormente referi9 o
texto que serve de matriz evocadora deste mito é o epidíctico poema
Metamoforses de Ovídio. No momento em que o poeta descreve a
tapeçaria tecida por Minerva (Metamorfoses, Liv.VI:104) parece
que, o touro era real e real, o mar. Europa parecia que olhava a terra que
havia deixado para trás, parecia que gritava às suas companheiras e que temia
o contacto da água que saltava junto dela.

Este jogo de espelhos repercute-se no modo como em


Quinhentos se acede, ancora e transmuta o pathos clássico, na
representação. Pense-se no paradigmático Albertch Dürer e no
processo desvendado por Erwin Panofsky para o encontro deste
com a matriz clássica, o qual é modelarmente recorrente no Renas-
cimento, ainda que a maestria da assimilação seja variável. Para este
incontornável historiador: “Dürer teve acesso à Antiguidade através
de um duplo desvio: um poeta italiano – (…) tinha traduzido a
descrição de Ovídio para a linguagem e emoções da época: (…) e um
pintor italiano tinha visualizado os dois acontecimentos colocando
em movimento todo o aparelho do mise-en-scène do Quatrocento:

8
Duarte Nunes do Leão, Descrição do Reino de Portugal, Lisboa, Centro de
História da Universidade de Lisboa, 2002, p. 129.
9
Cf. Ana Paula Avelar, “A ideia da Europa em Quinhentos: construções de
um espaço reinventado” in Discursos – Língua, Cultura e sociedade, Lisboa,
Universidade Aberta, Junho, 2002, pp. 107-116.
56 Ana Paula Avelar

sátiros, nereides, cupidos, ninfas a fugir, roupas a esvoaçar e tranças


ao vento. Apenas depois desta dupla transformação é que Dürer
estava apto para se apropriar do material clássico.”10

Fig. 1 – O rapto de Europa


por Albertch Dürer

Damião de Góis é um profundo admirador do exímio Dürer,


como o qualifica numa carta que escreveu a Jerónimo Osório
datada de 1554: “No mesmo instante precisamente em que no
nosso aposento entrou esse jovem a quem confiaste a tua carta
para mim, tinha eu nas mãos o Retrato daquele grande Erasmo de
Roterdão por Alberto Dürer, gravador exímio entre os alemães do
seu tempo. Mal começava a contemplá-lo e em êxtase me arrebatava
a recordação de varão tão ilustre, meu atenciosíssimo hospedeiro
de outrora (…)”11. O elogio de Erasmo a Dürer projecta-se nesta
presentificação da memória. Dürer é aquele que manipula a
monocromia, as suas negras linhas expressam: “(…) Light, shade,
splendor, eminences, depressions; and though derived from the

10
Erwin Panofsky, O significado nas Artes Visuais, Lisboa, Editorial Presença,
1989, p.155.
11
Cf. Amadeu Torres, Noese e Crise na epistolografia latina Goisiana, I, Lisboa,
Fundação Calouste Gulbenkian, 1989, p. 373.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 57

position of one single thing, more than one aspects offers itself
to the eye of the beholder. He observe accurely proportions and
harmonies. Nay he even depitects that cannot be depicted: fire,
rays of light, thunder, sheet lighting (…)”12. Os círculos culturais
estreitam-se nesta Europa das Humanidades. Recorde-se que um
dos retratos que possuímos de Damião de Góis é atribuído a Dürer
sendo a gravura de Galle elaborada como se pensa a partir deste,
publicada pela primeira vez em 1587 na obra Imagines Lusitaniae
doctorum virorum13. Recorde-se que esta família de gravadores, os Galle,
irá acompanhar o circuitos de produção do livro nomeadamente
naquele que é um dos seus centros mais importantes, Antuérpia.

Fig. 2 – Damião de Góis possivelmente Fig. 3 – Erasmo de Roterdão por Dürer


por Dürer

12
E Erwin Panofsky continua analisando aquele que ele considera ser o
encantador diálogo de Erasmo de Roterdão De recta Latini Graecique sermonis
pronuntiatione. Cf. Erwin Erwin Panofsky, The Life and Art of Albrecht Dürer,
Princeton, Princeton University Press, First classic edition, 2005, p. 44.
13
Cf. Luís Filipe Barreto, Damião de Góis – Os caminhos de um Humanista, lisboa,
CTT, 2002. p. 112.
58 Ana Paula Avelar

Mas regressemos à Hispânia. Se esta se projecta na figuração


de um touro, Lisboa na voz de Damião de Góis figura-se na bexiga
de um peixe: “Não considero, porém, que seja fácil delinear-lhe
a configuração e descrevê-la, já que assenta em solo acidentado
e desigual. Contudo, se alguém, com olhar firme e desanuviado,
quiser atentar na sua implantação e forma, a partir da povoação de
Almada, (...) verificará com certeza que, sobretudo na parte que se
desenrola pela cidade, ela apresenta uma verdadeira configuração
de bexiga de peixe.”14

Este é o trabalho da imagem, o da representação como


nódulo temático do processo de descrição. Pincelar esta capital
significa considerar a palavra sobre a urbe e o desenho da mesma,
estabelecendo as gradações do olhar. Esta tecida aliança corporiza
o que Louis Marin superiormente expôs ao afirmar que a repre-
sentação na pintura consubstanciar-se-ia na transposição das coisas
do mundo: “(…) into painted images: it would only inscribe the
return of things that would thus come to be caught in the trap of
the canvas and the painted surface, a surface that is itself already a
trap of language, a net or network of names: a dream of or a double
exchange, a translation, a transfer, a transposition in which the logic
and the economy of artistic mimesis would follow the same rules
as the logic and the economy of the description of images, and the
inverse would end up, under the circumstances, being the same-
a logic and economy of sameness for both language and image,
thanks to the correspondence of the mimetic figure in painting and
the descriptive name that functions only to designate.”15 Atingir a
visibilidade do real é o propósito primeiro e final do discurso que
aqui analiso.

14
Damião de Góis, Elogio da Cidade de Lisboa- Urbis Olisiponis Descriptio, p. 147.
O texto latino é o seguinte: “Certam autem eius formam descriptionemque
facile delineari posse non arbitror, cum in solo montuoso asperoque sita sit.
Nihilominus si quis ex oppido Almada (...) rectis immotisque oculis, urbis
situm figuramque uelir contemplari, ab ea praesertim parte, qua in urbem
traicitur, illam certe ueram uesicae piscis effigiem referre comperiet.” Ibidem,
p. 146.
15
Louis Marin, On representation, Stanford, Stanford University, 2001, p. 254.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 59

É certo que a descrição da Lisboa de Cristóvão Rodrigues de


Oliveira é distinta das de João Brandão de Buarcos, de Damião de
Góis, ou de Francisco d’Holanda, ainda que estes partilhem um
tempo e um objecto comuns.

A Urbis Olisiponis Descriptio (1554), de Damião de Góis,


subscreve as laudes urbium, como assinala Aires A. do Nascimento.
Segue, aliás, uma modalidade discursiva que este mesmo humanista
já tinha experimentado com a sua Urbis Lovaniensis obsidio, dedicada
a Carlos V, na qual se debruça sobre a defesa da cidade. É no quadro
de um tempo concreto que esse texto deve ser lido. André Resende
tinha publicado, em 1553, a sua História da Antiguidade da cidade de
Évora, onde confrontava o seu público com a vulgar importância
atribuída ao antigo: “E certo lá tem a antiguidade   ũa   sua graça e
magestade, per que todos se faz ter em reverência.”16

A justa medida na valoração do antigo e do moderno que


emerge das palavras de Resende é subscrita por Góis. Os caminhos
destes autores cruzam-se. Em 1530 também André de Resende
tinha dado à estampa o seu Encomium urbis et Academiae Louaniensis,
evocado por Góis no seu elogio a Lisboa.

A centralidade do texto evidencia-se, impondo-se pela inscrição


feita pelo autor do seu discurso na Expansão. A viagem marítima
para a Índia, outrora tão temida, transmutara-se: “A verdade é que
esta rota de tão larga peregrinação se tornou agora tão frequente
para as gentes das nossas terras, seja por instigação de génio
infatigável, seja por força da fome implacável do ouro, que não
atribuem maior importância a uma navegação dessa natureza que
ao percurso que tenham que fazer por mar de Portugal à Inglaterra
ou à Bélgica.”17 Na sua dedicatória Góis refere como tinha sido

16
Excerto referente ao texto que abre a referida História. André de Resende,
Obras Portuguesas, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1963, p. 8.
17
Damião de Góis, Elogio da Cidade de Lisboa – Urbis Olisiponis Descriptio, p.
97. O texto latino é o seguinte: “Qui sane tam immensae peregrinationis
cursus, nostratrium siue indefatigata indole instigante, siue auri sacra fame
60 Ana Paula Avelar

instado por homens doutos a trazer a público uma História dos feitos
da Índia. Ainda que esta não tenha sido elaborada, vários textos
parcelares sobre a presença portuguesa no espaço do Índico foram
sendo publicados pelo autor18.

A questão de “Cambaia”, isto é, a defesa por parte de Portugal


do seu domínio neste espaço, e mais concretamente os cercos
de Diu, foram objecto da sua pena. O autor debruça-se sobre o
primeiro cerco a esta importante praça, no Commentarii rerum
gestarum in India 1538 citra Ganges (Lovaina, 1539) enaltecendo a
vitória portuguesa no De bello Cambaico ultimo commentarii tres
(Lovaina, 1549), e descrevendo aquela que refere como a última
guerra travada pelos portugueses pela manutenção de uma presença
efectiva. A presença portuguesa pelas paragens indianas é referida na
sua evocação da cidade, aí inscrevendo as suas abordagens à Etiópia.
Lisboa é a cidade que: “Desde a embocadura do Tejo chama ela a
si o domínio da parte do Oceano que, em amplexo imenso de mar,
abarca a África e a Ásia.”19

Cristóvão Rodrigues de Oliveira tinha, em 1551, descrito a


cidade, no seu Summario em que brevemente se contem algumas cusas,
assim ecclesiasticas como seculares que ha na cidade de Lisboa20, para que
noutras terras se soubesse: “(..) das muitas e grandes esmolas e

urgente, tam denique modo frequens habetur, uti non maioris negotii
nunc huiuscemodi nauigationem existiment, quam si in Britaniam, aut in
Belgicam, ex Lusitania per oceanum iter facerent”. Ibidem, p. 96.
18
Veja-se o excelente texto de Luis Filipe Barreto sobre a figura deste humanista.
Cf. Luís Filipe Barreto, Damião de Goes – Os caminhos de um Humanista, Lisboa,
CTT, 2002.
19
Damião de Góis, Elogio da Cidade de Lisboa – Urbis Olisiponis Descriptio, p.83.
O texto latino é o seguinte. “Earum altera est olisipo, quae a Tagi faucibus
eius oceani partis imperium sibi uendicat, quae Africam Asiamque immenso
maris circuitu complectitur.” Ibidem, p. 82
20
Este Sumário sai em Lisboa da prensa de Germão Galharde. Cf. Cristóvão
Rodrigues de Oliveira, Lisboa em 1551. Sumário em que brevemente se contêm
algumas coisas assim eclesiásticas como seculares que há na cidade de Lisboa, Lisboa,
Livros Horizonte, 1987.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 61

outras obras pias que se nesta cidade fazem e como é celebrado


nela o culto divino em tantos e tão sumptuosos templos e casas de
oração, como também para se saber da grandeza e povo doutras
muitas cidades do Mundo a errada opinião que se tem, vendo a
certeza desta (...)”21.

No ano seguinte (1552) João Brandão, dito de Buarcos, no


Tratado da Magestade e grandeza e abastança da cidade de Lisboa22, evidencia
a sua capitalidade. À semelhança de Cristóvão Rodrigues de Oliveira,
regista os ofícios e mede os espaços. A comparação possível entre
os dados transmitidos denota o império da quantidade que, nestas
modalidades discursivas, acompanha a qualidade.

Esta leitura de Lisboa no século XVI visualiza-se na exploração


do traçado topográfico da cidade elaborado por G. Braun e F.
Hogenberg na obra Urbium proecipuarum mundi theatrum quintum
(1593). Na edição crítica do texto de Góis realizada por Aires A. do
Nascimento coteja-se a urbe goisiana e o mapa da capital portuguesa
traçado por Braunio, como correntemente é nomeado.23

21
Citado o texto de Cristóvão Rodrigues de Oliveira, Lisboa em 1551... in Rodrigo
Banha da Silva e Paulo Guinote, O Quotidiano na Lisboa dos Descobrimentos
– Roteiro arqueológico e Documental dos espaços e objectos, Lisboa, GTMECDP,
p. 198.
22
Sobre esta relação manuscrita indicar-se-á a sua publicação pela mão de
Anselmo Braamcamp Freire com anotações e comentários de Gomes de
Brito, utilizando-se a edição de José da Felicidade Alves. Cf. João Brandão,
Grandeza e Abastança de Lisboa em 1552, Lisboa, Livros Horizonte, 1990.
23
Cf. Damião de Góis, Elogio da Cidade de Lisboa – Urbis Olisiponis Descriptio,
p.11-40. A gravura de Lisboa do século XVI está incorporado na obra de G.
Braun e F. Hogenberg Urbium proecipuarum mundi theatrum quintum de
Quinhentos e é utilizada na referida edição. Deve-se confrontar nesta mesma
edição o sub-capítulo da autoria de Ilídio do Amaral intitulado, “Lisboa:
cidade de Quinhentos”.
62 Ana Paula Avelar

Fig. 4 – Gravura de Lisboa (séc. XVI) in G. Braun e F. Hogenberg

Evidencia-se aqui a urbe e a sinalização dos vários edifícios


destacados na sua malha retalhada e descontínua. As analogias
descritivas entre este traçado de Braunio e o texto de Góis são por
demais evidentes. Com efeito, a visualização do escorço flui na
prosa do nosso humanista. Tomemos como exemplo a este nível
o excerto referente à passagem de S. Roque a Nossa Senhora do
Monte: “(...) passando a Praça Nova do Rei, que transborda de
entalhadores, joalheiros, ourives, cinzeladores, fabricantes de vasos,
artistas de prata, de bronze e de ouro, bem como de banqueiros,
cortando à esquerda, chegaremos a uma outra artéria que tem o
nome de Rua Nova dos Mercadores, muito mais vasta que todas
as outras ruas da cidade, ornada, de um lado e de outro, com
belíssimos edíficos. Para aqui confluem, todos os dias, à compita,
comerciantes de quase todas as partes do mundo e suas gentes, em
concurso extremo de pessoas, por causa das vantagens oferecidas
pelo comércio e pelo porto.”24

24
Ibidem, p. 161. O texto latino é o seguinte: “(...) regiam nouam plateam,
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 63

Contrapondo-se à voz laudatória de Damião de Góis, ou aos


versos de Garcia de Resende que cantam a cidade que “ (...) vimos
crescer / em povos, e em grandeza,/ e muito se enobrecer/ em
sombras da urbe edifícios, riqueza, / em armas, e em poder(...)” 25, surge a crítica no
vistas por um “retrato e reverso de Portugal”, a qual marca igualmente a capital
viajante
do império. Neste texto o viajante, provavelmente italiano, como
referencia A. H. de Oliveira Marques, a quem se deve a descoberta
e a publicação desta relação26, descreve as sombras desta urbe, onde
as imundícies são lançadas para a rua, e onde não se poderia viver
senão fossem os aromas do âmbar, musgo e benjoim.

Não são todavia apenas os estrangeiros em visita à cidade quem


referenciam aquilo que deve ser corrigido. É a própria face da capital
do Reino, o que se procura melhorar, nas palavras, por vezes avaras,
de João Brandão, quando se dirige ao monarca: “(...) a mais nobre
o negativo visto tbm coisa que há no Reino é a dita Casa da Suplicação. Pelo que devia V.
pelos de dentro Alteza mandar tirar-lhe aquela frontaria do pescado, donde procede
tanta sujidade e maus cheiros, que é muito feia coisa para quando V.
Alteza vai aos despachos. E esta só razão basta para se tirar, quanto
mais havendo tantas outras, e mudar-se para a Porta do Mar o peixe,
pois tem o mesmo aparelho do mar para se descarregar e praça tão
pertencente a ele como a que em que ora está.”27

anagliptariis, annulariis, caelatoris, uasculariis, fabris argentariis, et aerapariter


nomine nouam mercatorum, continuo flectens ad laeuam, deuenies,
caeterarum omnium longe latissimam, aedificiisque pulcherrimis, utrinque
exornatam. Illuc omnibus fere ex partibus orbis, et gentibus orbis, et gentibus
quotidie mercatores certatim conueniunt maximo hominum concursu atque
frequentia, propter commerciorum portusque opportunitatem.” Ibidem,
p. 160.
25
Garcia de Resende, Crónica de D. João II e Miscelânea, Lisboa, Imprensa
Nacional – Casa da Moeda, 1973, p. 393.
26
Cf. A. H. Oliveira Marques, “Retrato e Reverso de Portugal”, in Nova História,
1 – Século XVI, Lisboa, Editorial Estampa, 1984, pp. 83-143.
27
Citado in Rodrigo Banha da Silva e Paulo Guinote, op. cit, p. 210.
64 Ana Paula Avelar

Apresenta-se a organicidade da cidade, procurando-se ofe-


recer a salubridade, constatando-se ou programando-se uma nova
roupagem arquitectónica28. Emblemático é, a este nível, o texto de
Francisco d’Holanda, Da FABRICA que falece ha cidade de Lisboa, e
não menos emblemáticas são as suas propostas de dar à “cabeça” do
Reino de Portugal, Lisboa, fortificação e ornamento.

O bulício da urbe, os barulhos dos ofícios, o fumo dos


cozinhados, a multidão de gentes que invade as suas íngremes ruas,
e a opulência de alguns dos seus edifícios, são evocados pela voz
dos que descreveram a cidade da partida. Assinalam-se os armazéns
lisboetas, nomeadamente, o arsenal com os seus “quarenta mil
corpos de armas para quarenta mil infantes, e três mil armaduras
inteiras de homens a cavalo (...)”29, ou a Casa da Índia, um “(...)
empório opulentíssimo de aromas, pérolas, rubis, esmeraldas e de
outros tipos de pedras preciosas que ano após ano nos é trazido
da Índia; com maior verdade se lhe poderia chamar armazém de
prata e de oiro, já trabalhado ou por trabalhar, pois salta à vista a
toda a gente que ali há inúmeras dependências, dispostas com arte
admirável e na devida hierarquia (...)”30.

Várias são as modalidades discursivas que, então, se mani-


pulam, em Portugal, para descrever a cidade e a sua capital. Foram
convocados neste texto para além das Histórias, Tratados, Sumá-
rios... as diversas descrições da urbe. Evocam-se as “Laudes
Urbium”, nas vozes de Góis ou Resende, as poetizações de um
Garcia de Resende na sua Miscelânea, ou de um Duarte da Gama nas
trovas que “fez às desordens que agora se costumam em Portugal”,
ou ainda de um Álvaro de Brito Pestana inclusas no Cancioneiro
Geral. Adverte-se o viajante da cidade de que: “Pera os ares corrutos/

28
Cf. Helder Carita , Lisboa Manuelina e a formação de modelos urbanísticos da época
moderna (1495-1521), Lisboa, Livros Horizonte, 1999.
29
Cristovão Rodrigues de Oliveira, Lisboa em 1551. Sumário em que brevemente
se contém algumas coisas assim eclesiásticas como seculares que há na cidade de Lisboa,
editado por José da Felicidade Alves, Lisboa, Livros Horizonte, 1987, p. 104.
30
Damião de Góis, Elogio da cidade de Lisboa e Vrbis Olisiponis Descriptio, p. 171.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 65

dessa cydade [leia-se Lisboa] sayrem, / os devassos/ torpes feytos


desolutos, / compre que logo se tyrem/ sem trespassos. / Ante que
o el rrey sayba, / que os mande sualteza/lançar fora/ cada hũu faça,
que cayba/ bom estylo de limpeza/onde mora.”31

Contudo, o nosso olhar permanece na Ribeira das Naus, no


espaço onde se constróem as caravelas, as naus, os galeões que
cruzam os oceanos, e se guardam os morteiros, escorpiões, brasí-
licos, leões, colubrinas, camelos, pedreiros, dispersores, bombardas
de variada grandeza e peso, falcões, berços, escopetas… enfim peças
de artilharia que dominam os mares.

A expressão de um império e do seu domínio materializa-


-se neste Arsenal que D. Manuel construiu junto ao seu Paço
Real. Num sem número de salas, adornadas e trabalhadas com arte
encontra-se o arsenal de guerra, em tudo superior aos melhores
da Europa e da Ásia. O monarca aí guarda com toda a diligência,
tudo para as expedições navais ordinárias, na Ásia, na África e na
Europa, encontrando-se, sempre o necessário para aparelhar mais
de duzentos navios de todo o tipo. Em três das suas dependências
resguardavam-se: “(…) quarenta mil corpos de armas de infantaria
e mais de três mil armaduras de homens de cavalo, completas e
inteiras, fora as que são tomadas para exercícios diários e extra-
ordinários.”32

Neste mundo da Ribeira fervilha toda a azáfama duma capital da


partida. Labutam, na preparação das armadas, todo um sem número
de gentes: ao lado dos calafates e outros mesteirais que reparam as
embarcações, estão os que preparam as peças de carne decepadas
necessárias para a viagem, esfola-se, corta-se, salga-se. Descobrem-
-se os pescadores e as suas mulheres que abrem e salgam um sem
número de peixes, e pressente-se os tanoeiros a reparar as vasilhas
para os vinhos, carnes e outros mantimentos; os alfaiates, a costurar

31
Garcia de Resende, Cancioneiro Geral, Lisboa, Centro do Livro Brasileiro,
1973, I, p. 214.
32
Damião de Góis, Elogio da cidade de Lisboa e Vrbis Olisiponis Descriptio, p. 175 .
66 Ana Paula Avelar

todo o tipo de roupas em algodão ou lã grosseiros; os carpinteiros,


a encaixar bombardas e outra artilharia; e os cordoeiros, a preparar
toda a cordoalha necessária à equipagem das embarcações...
convocam-se os ritmos agitados de uma urbe, rainha dos mares.

É no quotidiano da cidade da partida que se desenham os


quadros impressivos de uma urbanidade, lembrando os cheiros do
âmbar e benjoim, dos cozinhados feitos entre portas, dos fumos
dos fogareiros de barro, dos sons constantes do martelar dos
artesãos a trabalhar nas estreitas ruas, dos pregões das varinas e dos
aguadeiros que preparavam na cidade as armadas portuguesas para
outras paragens.

O número dos que partiam é referenciado pelos que estudam


a História da Carreira da Índia. De acordo com os elementos
recolhidos por Paulo Guinote, Eduardo Frutuoso e António
Lopes, podemos afirmar que, entre 1497e 1505, teriam partido 93
embarcações, 77 das quais durante o primeiro vice-reinado. Nos
anos seguintes os dados estabilizam, assistindo-se entre 1511 e
1515 a 46 partidas, entre 1516 e 1520 a 48, e entre 1521 e 1525 a 46.
Até 1580 observa-se que os números não mais atingem os níveis
verificados até 1510. Observemo-los33:

"OPT 1BSUJEBT "OPT 1BSUJEBT "OPT 1BSUJEBT


 37  41  25
 42  30  23
 38  26  27
 26  23

As equipagens que serviram as diferentes embarcações variam.


Luiz de Figueiredo Falcão no seu livro em que se contém toda a Fazenda...
lista os 130 tripulantes que usualmente seriam necessários para
servirem uma nau. A variação dos dados recolhidos sobre o número
de pessoas que teriam embarcado em cada armada é, todavia,

33
Tabela construída neste trabalho a partir dos dados anteriormente referidos.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 67

considerável; por exemplo, na armada de 1500, comandada por


Pedro Álvares Cabral, e composta por 13 velas, teriam embarcado
entre 1200 a 1500 pessoas, entre tripulação e soldados. Já na de
1501, chefiada por João da Nova, e composta por 4 navios, teriam
seguido entre 350 a 400 homens34. Contudo, é possível considerar
que, em média, entre tripulantes, passageiros e militares, as velas da
Carreira da Índia transportariam entre 400 a 500 pessoas, ainda que
nalguns casos pudessem ultrapassar o milhar de pessoas35.

Como Francisco Contente Domingues e Inácio Guerreiro


concluem ao se debruçarem sobre a vida a bordo na carreira da Índia
no séc. XVI e baseando-se no testemunho de Pyrard de Laval: “(…)
podiam ir embarcados largas centenas de homens, amiúde acima
do meio milhar, e por vezes próximo do dobro. Estes números
são naturalmente variáveis em extremo, e nem sequer valerá a
pena entrar em linha de conta com a possibilidade de uma maior
precisão, quer porque os dados conhecidos são muito imprecisos
e não raro exagerados (“a gente que vai em cada uma delas naus
passa de mil ou mil e duzentos homens, ou pelo menos anda de
oitocentos a novecentos”, escreve ilustrativamente Pyrard de Laval),
quer porque os únicos valores seguros que poderemos aceitar são
os relativos às tripulações.”36

Grande é a quantidade das gentes que afluem à capital a um


ritmo mais ou menos constante. Busca-se melhor vida. Será, porém,
a impressão da partida, que marca os que partem e os que ficam.
Gil Vicente, no seu Auto da Índia, e naquela que é uma modalidade
discursiva distinta das que nos tem ocupado, expõe os sentires
arquetípicos dos que buscam a fortuna. Tomemos, só a título de
exemplo, o diálogo que se estabelece entre o marido recém-chegado

34
Cf. Paulo Guinote, Eduardo Frutuoso e António Lopes, Naufrágios e outras
perdas da “Carreira da Índia” – séculos XVI e XVII, p. 50.
35
Ibidem, p. 55.
36
Francisco Contente Domingues, navios e viagens – A experiência Portuguesa nos
séculos XV a XVIII Lisboa, Tribuna, 2007, p. 170.
68 Ana Paula Avelar

a Lisboa e a esposa que permaneceu na capital. Recorde-se que o


diálogo contrastivo vicentino encerra uma estratégia discursiva
própria onde se imprime a farsa, devendo por isso mesmo o texto
ser lido no seu contexto37:

“(...) MARIDO – Muita fortuna passei.


AMA – E eu, oh, quanto chorei,
Quando a armada foi de cá!
E quando vi desferir,
Que começastes de partir,
Jesu, eu fiquei finada!
Três dias não comi nada,
A alma se me queria sair.
MARIDO – E nós, cem léguas daqui,
Saltou tanto sudoeste,
Sudoeste e oeste-sudoeste,
Que nunca tal tormenta vi.”38

A saída da barra é o momento, para os que partem, de enfrentar


a novidade: abandona-se o conhecido e enfrenta-se o desconhecido.
A cronística da expansão explana esse sentir, nomeadamente no
momento em que é descrita a primeira viagem de Vasco da Gama.
Observemos os discursos de Gaspar Correia, Fernão Lopes de
Castanheda e João de Barros, e confrontemo-los com o registo
épico em Luís de Camões.

Gaspar Correia, revela o seu dar à vela, e sair do rio, indo el-rei no
seu batel os acompanhando, e falando a todos com benções e boas horas se
despediu deles, ficando sobre o remo até desaparecerem...39; Fernão Lopes
de Castanheda, descreve a gente de Lisboa, a mais dela chorava de

37
Atente-se nas situações de adultério reveladas nesta farsa, no modo como são
expostos os sentires da Ama, contrapostos às revelações da Moça.
38
Compilaçam de todalas obras de Gil Vicente, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da
Moeda, 1983, II, p. 358.
39
Gaspar Correia, Lendas da Índia, Porto, Lello & Irmão – Editores, 1975, I,
p. 15.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 69

piedade dos que se iam embarcar crendo que haviam todos de morrer40; João
de Barros, evoca a sua praia das lágrimas para os que vão, e terra de prazer
aos que vem41. Exemplar é a já citada evocação na epopeia camoniana
da saída da barra do porto:

“Já a vista, pouco e pouco, se desterra


Daqueles pátrios montes, que ficavam;
Ficava o caro Tejo e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se alongavam.
Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam.
E já despois que toda se escondeu,
Não vimos mais, enfim, que mar e céu.”42

Através destes textos serão as equipagens das armadas –: os


grumetes, homens de armas, bombardeiros, marinheiros, meirinhos,
criados, barbeiros, calafates, contramestres, condestáveis, feitores,
boticários, pilotos, e todos aqueles que iam servir no Oriente –
que se evocam. Posteriormente, durante a viagem procuram-se
distracções, travam-se brigas, celebram-se festividades religiosas,
acontecem acidentes e doenças – as quais muitas vezes ditavam a
permanência no hospital aos que chegavam ao seu porto de destino43.

40
Cf. Fernão Lopes de Castanheda, História do Descobrimento e Conquista da Índia
pelos portugueses, Porto, Lello e Irmão – Editores, 1979, I, p. 11.
41
Cf. João de Barros, Ásia... Dos feitos que os portugueses fizeram no descobrimento
e conquista dos mares e terras do Oriente – Primeira Década, Lisboa, Imprensa
Nacional – Casa da Moeda, 1988, p. 125.
42
Luís de Camões, op. cit., Canto V, estrofes 17-24.
43
É de assinalar os estudos pioneiros do padre António da Silva Rego citado na
blibiografia ou a sistematização feita no trabalho de Paulo Guinote, Eduardo
Frutuoso, António Lopes Naufrágios e outras perdas da “Carreira da Índia” séculos
XVI e XVII ou ainda os trabalhos de Francisco Contente Domingues e Inácio
Guerreiro. Veja-se aliás de Francisco Contente Domingues, A Carreira da
Índia. The India Run, Lisboa, Clube do Coleccionador dos Correios, 1998, e
do mesmo autor o já citado Navios e Viagens – A Experiência Portuguesa nos séculos
XV e XVIII. Neste último encontramos um capítulo que reproduz um texto
elaborado em parceria com Inácio Guerreiro onde se procura sistematizar a
vida a bordo. Cf. op.cit, pp. 159-207.
70 Ana Paula Avelar

Rapidamente se domina o percurso da viagem e se estabelece o


ciclo anual da partida das armadas de Lisboa, destinadas ao Índico.
Fixam-se igualmente os momentos favoráveis à navegação: a
saída das embarcações da barra de Lisboa em finais do Inverno,
inícios da Primavera, entre Março e Abril, para deste modo apro-
veitar o regime favorável de ventos no Atlântico, e alcançar o
Índico quando seria possível tomar a monção de Sudoeste, para
atingir com sucesso, e sem grande dispêndio, a costa ocidental do
Indostão.

Se, por um lado, se procura cumprir o ciclo da partida de Lisboa,


por outro lado, a viagem de retorno, a saída dos mares do Índico,
obedece a um regime mais ou menos fixo. Com efeito, a partida
das armadas ocorre nos últimos dias de Dezembro, primeiros dias
de Janeiro, para assim beneficiar da monção do Norte. Poderiam,
então, atingir o Cabo em Fevereiro, aproveitando os ventos que
levariam a bom porto as embarcações, através do Atlântico Sul, até
à capital do reino de Portugal.

Este conhecimento dos mares, e a sua construção, é um dos


temas caros aos que se debruçaram sobre a Expansão Portuguesa44,
nomeadamente no que diz respeito à intencionalidade ou acaso
da Descoberta do Brasil. As práticas de navegação do Atlântico, e as
condições com que os portugueses se confrontaram neste espaço
marítimo, ocuparam e ocupam os que estudam as escalas dos
portugueses neste oceano ao longo do século XVI.

Traçando a sua historicidade, num tempo em que os estudos


atlânticos marcam a agenda da investigação interdisciplinar, importa

44
Importa igualmente ter em atenção os textos que foram sendo trocados entre
os historiadores portugueses sobre as questões que marcaram uma história da
naútica em Portugal. Os esforços de autores como João Marinho dos Santos
e José Manuel Azevedo e Silva para a percepção de uma Historiografia dos
Descobrimentos através das vozes de alguns dos seus autores maiores devem
ser evocados. Cf. João Marinho dos Santos e José Manuel Azevedo e Silva, A
Historiografia dos Descobrimentos – Através da correspondência entre alguns dos seus
vultos, Coimbra, Imprensa da Universidade, 2004.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 71

notar o caso português. Como sistematiza A. G. Hopkins no seu


livro, Global History – Interactions between the Universal and the local:
“(…) the study of history develops in two ways. One impulse
derives from revisions proposed by scholarly body itself as a result
of dissatisfaction with dominant approaches and interpretations;
the other reflects the influence of events in the wider world,
which help to give each generation of historians its priorities and
distinctive character. When the two influences are brought together,
conditions are set for fundamental change.”45

A realidade do Quinhentos português, marcada pelo ritmo cíclico


das constantes partidas e chegadas das embarcações que, pejadas das
especiarias, invadem os mercados, deve ser contraposta ao modo
como se foi construindo a nossa presença no Índico, nomeadamente
no que concerne a procura da supremacia dos mares e a fixação nas
linhas de costa.

Assinale-se igualmente a tentativa de domínio dos eixos comer-


ciais que implicava uma intervenção nos circuitos económicos
locais, como sucede com a nossa intervenção na rota da pimenta
do Malabar, através da apreensão dos equilíbrios das forças locais
em presença. Esbocem-se, então, os vários movimentos de pre-
sença portuguesa no espaço oriental, como o que ocorre logo com
o apoio encontrado em Cochim e Cananor, e que levou a que, a
partir do final do ano de 1502, uma armada portuguesa estivesse
permanentemente no Índico, patrulhando não só as costas do
Malabar como a entrada do estreito.

Nas crónicas da Expansão regista-se esta presença, usando por


vezes o cronista uma dualidade de linguagens, a da escrita e a do
traço. Gaspar Correia manipula-as, expondo o diálogo que entre elas
estabelece. Evoque-se, apenas a título de exemplo, a sua introdução
à descrição da praça de Cananor, narração e desenho, nas suas Lendas

45
Cf. A. G. Hopkins, Global History – Interactions between the Universal and the
local, New York, Palgrave – Macmillan, 2006, p. 3. Já relativamente à História
72 Ana Paula Avelar

da Índia46. Esta é inscrita na sua edificação original, assinalando o


cronista o facto de a velha fortaleza de Cananor, erigida por D.
Francisco de Almeida, se encontrar velha e danificada, para além de
ser muito pequena.

Fig. 5 – Representação de Cananor in Gaspar Correia, Lendas da Índia

O desenho acompanha a nova construção erguida por Lopo


Vaz de Sampaio, em 1526, após a destruição da anterior fortaleza.
Escreve Gaspar Correia: “(...) e fez n’ella huma só torre de menagem,
muy forte, de tres sobrados, com varandas por fóra, e aposentos por
dentro pera o capitão e seus homens; e fez uma cerqua de forte
muro, com muy larga e funda caua que cortaua a ponta de mar a
mar, em que dentro ficaua grande lugar grande pouoação.”47

Se o desenho indica a ocupação exterior do espaço, a escrita


explicita processos e causas:“E foy a caua assy grande porque d’ella
se cortaua a pedra que se punha no muro, que era de quinze pés
de largo; e no meo d’este muro huma forte torre com artilharia

do Atlântico cf. Jack P. Greeme e Philip D Mongan, Atlantic History – A critical


Appraisal, Oxfond, Oxfond University Press, 2009.
46
Cf. Gaspar Correia, Lendas da Índia, III, p. 16. A figura 5 reproduz o desenho
que acompanha o texto de Gaspar Correia.
47
Ibidem.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 73

que tudo guardaua, e no cabo d’este muro, sobre a baya, fez hum
cubello redondo muy forte, com muita artelharia que guardaua a
baya; e per debaixo delle se fez a porta pera o raualde e pouoação
dos mouros, com huma ponte de madeira sobre a caua leuadiça.”48

Fig. 6 – Pormenor da fortaleza de Cananor

Expõem-se os espaços e a sua funcionalidade: “(...)da banda de


fóra pola borda da caua se fez grande pouoação de casas de madeira,
de portugueses e homens christãos da terra, com ortas; e se fez
grande cordoaria, em que se faziam muytas amarras, que estauão
feitas pera as naos do Reyno quando chegauão; que aquy em
Cananor tomauão o gengiure e se partião para Portugal. E tambem
se fazião grandes tanques de madeira pera ‘agoa pera viagem, e se
fazia muyta cordoalha(...)”49.

Para além da fortaleza de Cananor, erigida por D. Francisco


de Almeida, e mais tarde reedificada por Lopo Vaz de Sampaio,
outras foram igualmente edificadas, quer por este vice-rei quer

48
Ibidem.
49
Ibidem.
74 Ana Paula Avelar

por outros governadores. Deste modo se formulava toda uma rede


de feitorias/fortalezas que serviam e protegiam áreas estratégicas
de domínio. Gaspar Correia não registou, que se saiba, através do
desenho todas as fortalezas por si descritas. Para além do esboço de
Cananor, os desenhos de que actualmente temos conhecimento, e
que acompanharam a sua narrativa são os do rio de Malaca, Calecut,
Adem, Coulão, Ormuz, Judá, Ceilão, Chalé, Diu e Baçaim. Este
cronista regista igualmente pelo debuxo as figuras de: Afonso de
Albuquerque, Diogo Lopes de Sequeira, D. Vasco da Gama, Pero
de Mascarenhas, Lopo Vaz de Sampaio, Nuno da Cunha, D. Garcia
de Noronha, D. Estevão da Gama, Martim Afonso de Sousa, D.
João de Castro, Garcia de Sá e Jorge Cabral.

Recorde-se que a sua obra não foi impressa ao tempo, correndo


manuscrita até ao século XIX, altura em que dá à estampa pela
primeira vez. A ligação ao desenho é enunciada pelo cronista
quando afirma ter recebido a incumbência de D. João de Castro
de acompanhar as pinturas que retratavam os vários governadores
e vice-reis portugueses. A precisão do seu olhar teria sido, segundo
ele, elogiada pelos seus contemporâneos. A manipulação destas duas
linguagens evidencia-se nas suas Lendas da Índia, complementando o
desenho, o escrito. Não estamos perante uma prática de solilóquio.
Estas duas formas de representação dialogam, completando-se.

Não poderia, contudo, neste processo analítico que se percorre


de deixar de evocar Cochim. Esta praça serve como a primeira
“cabeça” de uma presença portuguesa nas paragens orientais, sendo
substituída posteriormente por Goa, a “Roma do Oriente”, como
será mais tarde apelidada. São as sucessivas armadas portuguesas
que, desde a primeira viagem de Vasco da Gama até 1505, garantem o
trato, sendo a partir da sua segunda viagem, em 1502, que permanece
nas costas do Malabar uma armada lusa. A primeira foi capitaneada
por Vicente Sodré, e tinha por missão garantir o domínio através de
um policiamento das costas. Estes capitães do mar serviam-se dos
portos de Cananor, e fundamentalmente de Cochim, como base
de apoio. É o espaço do Índico que se procura dominar, assentando
bases, seja nas costas indostânicas, seja na costa oriental africana.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 75

Com a construção de feitorias fortalezas em várias praças, onde


se vão fixando comunidades portuguesas e a formulação de uma
estrutura político-administrativa da coroa portuguesa no espaço
asiático, perpetua-se uma presença, um poder. Para tal foi decisiva a
permanência, a partir de 1505, no espaço asiático, de um governador
ou vice-rei e de um oficialato português. No momento em que o
segundo governador, Afonso de Albuquerque (1509--1515) morre,
o “Estado Português da Índia” tem já, em termos gerais, a sua
configuração estratégica definida, a qual permanecerá até 1620.

É certo que após Afonso de Albuquerque, a malha da presença


portuguesa continua a fortalecer-se, celebrando-se acordos com os
diferentes potentados, aproveitando-se disputas, construindo-se um
empório comercial e cartografando-se, estrategicamente, as costas com
a presença da coroa portuguesa. Através de avanços e retrocessos,
monopolizando a coroa os vários tratos, ou dando maior ou menor
liberdade aos particulares portugueses, asiatizados, ou asiáticos que
negoceiam nas várias praças sob domínio do monarca português,
vai-se consolidando uma permanência.

Recordo, todavia, que não é meu objectivo tecer o tempo longo


de um império, mas tão só esboçar o quadro onde emergem as
primeiras representações de um “Mundo Novo” no Portugal de
Quinhentos.

Importa, deste modo, reter que, logo após a viagem de Vasco


da Gama, os portugueses se aperceberam de que nem todas
as especiarias se davam no Malabar. Neste espaço cresciam a
pimenta e o gengibre, mas a canela vinha de Ceilão e o cravo, a
noz, a maça e outras drogas e ervas aromáticas chegavam de um
distante arquipélago que se situava mais para Leste. Rapidamente
se reconheceu a importância de Malaca como placa giratória dos
circuitos comerciais e centro redistribuidor das especiarias da
Insulíndia Oriental, aí se fixando os portugueses (1511). No ano
anterior (1510), Goa é conquistada por Afonso de Albuquerque,
vindo a tornar-se o centro de decisão do nosso domínio no
Oriente; aí se fixaria o vice-rei ou governador. Continuando a
76 Ana Paula Avelar

procura dos centros produtores de especiarias, lançar-nos-íamos


no conhecimento das ilhas de Sunda e das Molucas.

Nesta breve cronologia de inscrição no espaço deve-se chamar


a atenção para o facto de em 1513 Jorge Álvares alcançar o solo
chinês, e de, em 1515, os portugueses dominarem Ormuz,
construindo, em 1518, uma fortaleza em Columbo, no Ceilão. As
nossas expedições sucedem-se então. O delta do Ganges é, nesta
altura, por nós explorado, sendo estabelecidas relações comerciais
com o reino de Pegu. A nossa presença estende-se ainda à costa do
Coromandel.

Por seu turno, Adem pagará tributo à coroa portuguesa e o


Japão será por nós alcançado em 1543. Enfim, as porcelanas e sedas
da China, o cravo e noz de moscada das Molucas, a pimenta de
Samatra e da costa do Malabar, a canela de Ceilão, os tapetes da
Pérsia, todo um empório copiosíssimo de riquezas era carregado nas
armadas que anualmente cruzavam os oceanos e desembocavam na
capital do reino de Portugal.

Fig. 7 – Mapa do comércio das especiarias e drogas do Oriente no séc. XVI


Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 77

Neste século XVI, os portugueses apreendem a geografia do


Índico, traduzindo-a, gradualmente, na forma como se representa
o Mundo. Constata-se, assim, que a introdução do experienciado,
de um vivenciar um espaço e sua transmissão a quem o quer
conhecer (leia-se o resto da Europa), decorre do modo como
cartograficamente se registam estas novas paragens, e, muito em
particular, a península indostânica.

Gradualmente constrói-se uma nova noção de espaço, a qual


participa da formulação de um modo novo de intuir a novidade.
O contacto com os novos espaços continentais de África, Ásia e
América, leva ao questionamento, nos vários estados europeus, das
suas próprias identidades. Por seu turno, o registo cartográfico do
espaço, a apreensão e representação do real deve ser analisado tendo
em atenção as mudanças operadas no registo cartográfico, a partir
do momento em que se deixa de mapear os lugares sagrados ligados
à narrativa didáctica da História cristã, procurando-se representar a
realidade tal qual ela surge.

Para esta nova forma de registar o real contribuiu, de forma


decisiva, a informação referente ao mundo agora conhecido que se
figurava cartograficamente. A necessidade de configurar com rigor
os espaços oceânicos e anotar as rotas trilhadas, impunha precisão no
registo. Passou-se de uma escala mais local e regional, evidenciada
nos mapas que servem para expor uma demarcação territorial, ou
celebram uma batalha ou uma disputa do domínio terrestre, aos
que servem como representação do real, instrumento de orientação.
Note-se, porém, como os signos dialogam nos primeiros mapas
referidos, como expõem a sua finalidade específica; simbolicamente
transmitindo a sua cosmovisão. Funcionam, então, como símbolos
de um certo acontecimento, não sendo a escala usada relevante em
termos de representação do real.

50
Cf. Vitorino Magalhães Godinho, Mito e Mercadoria, Utopia e prática de Navegar
– séculos XIII-XVIII, Lisboa, Difel, 1990, p. 168
78 Ana Paula Avelar

Tomemos como exemplo a representação cartográfica do


mapa-mundo do Apocalipse Saint-Sever50. A idealização de um
espaço obedece aqui a um sistema de convenções simbólicas, de
uma hierarquia de valores onde o transcendente concorre como
orientação central. É o domínio do espaço terrestre que se observa
na representação do mundo, ocupando Jerusalém o centro e
delimitando o Mar Vermelho uma fronteira, a do conhecido.

Fig. 8 – Mapa -Mundo do Apocalipse de Saint-Sever (c.1050)

No âmbito desta aquisição progressiva de uma mundividência


tão distante da nossa realidade, recordar-se-á que, já no século XVI,
os marinheiros seguiam as suas rotas afastados da linha de costa.
Nesse sentido compreende-se quão urgente era uma fidedigna
representação dos mares, oceanos e continentes; afinal, a própria
noção do espaço terrestre tinha-se alterado.

Atente-se como o mundo conhecido começa a ser registado.


O mapa, conhecido como de Cantino, sinaliza com precisão as
costas africanas. Estas eram, há algum tempo, demandadas pelos
portugueses. Estes utilizavam um sistema de referências diferente
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 79

para representar as zonas mais orientais do Índico ou para delinear a


desmesurada península da Malásia. O espaço terrestre domina ainda
a representação do mundo neste amanhecer do século XVI.

Fig. 9 – Mapa dito de Cantino

Outras notações do espaço coexistem neste tempo. Consi-


dere-se, por exemplo, as tábuas que acompanham os roteiros de
D. João de Castro, nas quais a sinalização de mar para terra domina
a notação do espaço.

Fig. 10 – Notação de D. João de Castro


80 Ana Paula Avelar

Dever-se-á ainda ter presente que, no início do século XVI,


a Europa controlava mares, não continentes. Embora a presença
europeia no mundo fosse já uma realidade, os domínios terrestres
só seriam conseguidos séculos mais tarde. Apesar desta presença
costeira, os conflitos que deflagraram nas costas africanas, ameri-
canas e no Índico, entre portugueses, ingleses, holandeses nunca
representaram um significativo aumento de europeus naqueles
espaços.

A presença europeia na Ásia, desde a primeira viagem de Vasco


da Gama e nos cento e vinte anos que se seguiram, apenas significou
a concentração de comunidades com uma densidade populacional
de cerca de 30000 pessoas, espalhadas por 230000 Km2 de linhas
costeiras. Além disso, no âmbito do continente americano, a
presença europeia permaneceu nos índices populacionais do século
anterior durante o período de 1600. Num cômputo geral, de 57000
habitantes, 25000 eram de origem europeia e aproximadamente
¼ destes, i.e., 12000, habitariam o espaço americano ocupado por
Espanha.

Domina, uma perspectiva eurocêntrica na representação


dos outros espaços continentais. Ainda estamos muito longe
de 1788 quando a Academia Francesa desafiou a sociedade do
seu tempo a responder sobre a influência que a América teria
sobre a política, o comércio, e os costumes na Europa. Será neste
contexto que se deve propor uma reflexão sobre o próprio con-
ceito de mundo no século XVI. Com efeito, o mundo conhecido da
Europa de então era unicamente uma parte, e o desejo de conhecer
e dominar os novos espaços comandava os desígnios nesses
tempos. Ora, nos primórdios do século XVI, Portugal desem-
penhou um papel significativo na revelação e descrição deste mundo
novo.

A emblemática assunção da Sphera, como signo do reinado


de D. Manuel, anuncia um domínio e uma cosmovisão corpori-
zada num mundo que se espelha na perfeição geometrizada da
esfera.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 81

Reflictamos sobre as alterações


no próprio conceito de descrição
que atravessam estes alvores da
Modernidade. Com efeito, a
descrição dos espaços está, até aqui,
intimamente relacionada com os
propósitos qualitativos. A nova
mentalidade mercantil, ancorada
nas emergentes técnicas comerciais,
providenciaria uma nova forma de
aproximação ao objecto, onde a
quantidade tomaria o seu lugar.

Tome-se assim como ponto


de partida o argumento, defendido
por alguns historiadores, segundo o
qual, esta nova forma de descrever o
Fig. 11 – Exemplo de uma esfera
manuelina mundo é entendida como a primeira
manifestação de uma economia
global , a qual estaria profundamente enraizada no modelo
51

económico europeu.

Considere-se como, para além da notação cartográfica mais


precisa do espaço, se corporizou a noção do preciso noutras formas
de descrição do real. Convoquemos nesse sentido as obras de Fernão
Lopes de Castanheda e de João de Barros. A sua escolha decorre
do facto de ambas, isto é, tanto a Ásia ...dos feitos que os Portugueses
fizeram no descobrimento e conquista dos mares e terras do Oriente, como
a História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses,
terem sido redigidas na primeira metade de Quinhentos sobre a
presença portuguesa no Oriente, e apresentarem uma arquitectura
narrativa que procura traçar um todo, o do nosso domínio naqueles
espaços.

51
Cf. Vitorino Magalhães Godinho, Les Découvertes XVe-XVIe: une révolution des
mentalités, pp. 61-72.
82 Ana Paula Avelar

ideia de totalidade
nas obras
A ideia de totalidade atravessa estas obras e dita os modos como
os lugares são descritos. Com efeito, a notação não se restringe às
rotas oceânicas, já que as descrições topográficas dos lugares surgem
igualmente assinaladas. Observe-se, por exemplo, a referência a
Goa por parte de Castanheda. Segundo ele esta é a cidade, cuja costa
dista 50 léguas de Dabul e que, navegando para Sul, está 16 graus da
banda do Norte, expandindo-se por 7 ou 8 léguas de rota52. Por seu
turno, João de Barros expõe igualmente o espaço, explicitando que:
“O cõprimẽto desta jlha Tiçuarij, começãdo do oriente no pásso
chamádo de Benestarij onde ella passa á térra firme té o már entre
as duas barras que stam contra o ponente & erã tres légoas & de
largura hũa.”53
É certo que na abordagem destas obras é necessário ter em
atenção quer o modelo narrativo seguido por estes cronistas, quer
as intenções que subjazem à escrita desta cronística da Expansão.
Em particular no que diz respeito a esta última vertente importa
recordar que esta cronística expõe o domínio de Portugal no espaço
extra-europeu, e muito em particular por mares do Oriente. Os
textos prologais evidenciam esta marca e configuraram o lugar
de Portugal e do seu império no concerto das nações europeias.
Repare-se como a obra de Fernão Lopes de Castanheda é divulgada
na Europa de então:

52
Cf. Fernão Lopes de Castanheda, op. cit., I, p. 512.
53
João de Barros, Ásia ...Dos feitos que os portugueses fizeram no descobrimento
e conquista dos mares e terras do Oriente – Segunda Década, Lisboa, Imprensa
Nacional – Casa da Moeda, 1988, p. 187.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 83

*NQSFTTÜFTF5SBEVÎÜFTEB)JTUØSJBEP%FTDPCSJNFOUP
F$PORVJTUBEB¶OEJBQFMPT1PSUVHVFTFTo4ÏDVMP97*
Livros que foram objecto de
Anos Línguas Locais de edição
tradução
João Barreira e João
1551 Português O primeiro livro
Álvares Coimbra
João Barreira e João
1552 Português O segundo e terceiro livros
Álvares Coimbra
João Barreira e João
1553 Português O quarto e quinto livros
Álvares Coimbra
1553 Francês Paris O primeiro livro
João Barreira
1554 Português O sexto e sétimo livro
Coimbra
A 2ª edição do primeiro livro a
1554 Português Coimbra
qual difere da de 1551
1554 Francês Anvers O primeiro livro
1554 Castelhano Anvers O primeiro livro
1556 Italiano Roma O primeiro livro
O oitavo livro é impresso pelos
filhos, visto que Fernão Lopes
1561 Português Coimbra
de Castanheda tinha falecido a
23 de Março de 1559
1565 Alemão s.l. O primeiro livro
1577 Italiano Veneza Os sete primeiros livros
1578 Italiano Veneza Os sete primeiros livros
s.l. (Genebra) e Os livros referentes ao reinado
1581 Francês
Paris de D. João III resumidos
1582 Inglês Londres O primeiro livro
Os livros referentes ao reinado
1587 Francês Paris
de D. João III resumidos

Entre os anos de 1553 a 1587 esta obra é disponibilizada em


português, francês, castelhano, italiano, alemão e inglês. Se a estes
dados confrontarmos o facto de a Ásia ...Dos feitos que os portugueses
fizeram no descobrimento e conquista dos mares e terras do Oriente, outra das
crónicas da Expansão redigidas na primeira metade de Quinhentos
e impressa ao tempo, ter também ela sido objecto de tradução numa
84 Ana Paula Avelar

outra língua vernacular, neste caso o italiano, revela-se claramente a


expressão de um domínio.

*NQSFTTÜFTEB«TJBEF+PÍPEF#BSSPTEPTGFJUPTRVFPT1PSUVHVFTFT
m[FSBNOPEFTDPCSJNFOUPFDPORVJTUBEPTNBSFTFUFSSBTEP0SJFOUF
Locais de
Anos Línguas Livros
edição
“Ásia...fectos que os Portugueses
28 de Germão
fizeram no descobrimento &
Junho Português Galharde
conquista dos Mares & terras do
de 1552 Lisboa
Oriente”
“Segunda decada da Asia de Barros
24 de Germão
dos feitos que os Portugueses fizeram
Março Português Galharde
no descobrimẽto& cõquista das Mares
de 1553 Lisboa
& terras do oriente.”
Impressos os sete primeiros capítulos
da 1ª Década inclusos no “Primo
1554 Italiano Veneza
Volume delle Navigationi et Viaggi....”
de J. B. Ramúsio
1561 Italiano Veneza A Primeira e Segunda Décadas
1562 Italiano Veneza A Primeira e Segunda Décadas
“TERCEIRA decada da Asia de
18 de Ioam de Barros: Dos feytos que os
João Barreira
Agosto Português Portugueses fizeram no descobri-
Lisboa
de 1563 mento & conquista dos mares & terras
do Oriente”
Impressos os sete primeiros capítulos
da 1ª Década inclusos no “Primo
1563 Italiano Veneza
Volume delle Navigationi et Viaggi....”
de J. B. Ramúsio
Impressos os sete primeiros capítulos
da 1ª Década inclusos no “Primo
1588 Italiano Veneza
Volume delle Navigationi et Viaggi....”
de J. B. Ramúsio
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 85

Reflicta-se num dos dados exposto no quadro elaborado sobre


as impressões da Ásia... de João de Barros. Quando observamos
as traduções dos livros da História do Descobrimento e Conquista da
Índia pelos Portugueses, constatamos que os livros foram objecto de
tradução na sua totalidade, isto é, o primeiro Livro da História é
traduzido enquanto tal. No entanto, as Décadas de Barros sofrem
apenas traduções parcelares. Estes são textos manipulados em várias
línguas vernaculares, num tempo em que estas eram objecto da
respectiva normalização gramatical.

Além disso, tanto Fernão Lopes de Castanheda como João


de Barros iniciam um processo de referenciação das suas fontes,
nomeadamente a Suma Oriental, de Tomé Pires, e o Livro do que viu
e ouviu ..., de Duarte Barbosa. Estamos num tempo em que a escrita
da História delimita os seus bons procedimentos.

Após ter tocado os vectores que permitem identificar a


transformação de uma época, apontando novas formas de intuir,
compreender e explicar a realidade, e após ter procedido a esta
digressão pelos modos de notar o espaço, chegou o momento de
observarmos como se notou o tempo neste período de mudança.
Importa ter em atenção que tal análise decorre de uma postura
comparatista, a que procura ler as atitudes culturais desenvolvidas
face ao presente e à História, as quais, saliente-se, corporizam o
próprio historiografar do tempo. Como Penelope J. Corfield, no
seu Time and the Shape of History, alerta: “(…) it is important to avoid
simple stereotypes. For example, the world is sometimes divided
into ‘the West’ where history is seen as running along a straight
line, and ‘the East ‘ where cyclical models are preferred. But that
sort of crude dichotomy is unconvincing , because, quite apart from
excluding the ‘north’ , the ’south’, and central Eurasia, it ignores
internal debates within cultural traditions, and also changes that
take place over time.(…) all this means that cultural attitudes are
themselves never static, even within traditional expectations.”54

54
Penelope J. Corfield, Time and the Shape of History, New Haven and London,
Yale University Press, 2007, p. 17.
86 Ana Paula Avelar

Detenhamo-nos, por tudo isto, na inter-relacionação exposta


entre a notação do espaço – corporizada pela carta representada, e
pelo relógio que marca a actividade no “scriptorium”55.

Fig. 12 – Excerto de uma iluminura do séc. XVI

Subscrevo Gerhard Dohrn-van Rossum quando este afirma que


a experiência do tempo, as concepções do tempo, e a consciência
do tempo, são aspectos muito amplos, que se inter-relacionam e
se diferenciam: “The various ways in which historical change is
perceived – as cyclical movement, as rise and fall, as unending
progress, as accelerated or delayed change – all contain different
notions about the relationships between past, present, and future.”56
Tal é tanto mais importante, quanto algumas fontes que são objecto
deste estudo, foram produzidas como narrativas históricas. A
problematização decorrente desta perspectiva de análise será, no
entanto, desenvolvida quando se reflectir sobre os modelos de
representação do Outro no descrever do diferente.

55
Cf. Martim de Albuquerque, A Torre do Tombo e os seus Tesouros,Lisboa, Edições
Inapa, 1990, p. 227.
56
Cf. Rossum, Gerhard Dohrn-van, History of the Hour – Clocks and Modern
Temporal Orders, Chicago, University of Chicago Press, 1996, p. 3.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 87

Neste momento, centro a análise no processo de notar o fluir


temporal, percepcionado este como cronos, isto é, como fluxo
temporal mensurável, entendido como continuidade e ritmo.
Atente-se no debate em torno do aparecimento e utilização do
relógio mecânico: “(...) – a paradigm of European domination of
the Old World – is being kept alive by numerous and often scattered
contributions, and it will go on, precisely because it touches, in
an exemplary fashion, on the relationship of European culture to
other cultures.”57

Fig. 13 – Chegada de Américo Vespúcio à América

Convoque-se igualmente para esta abordagem a forma como


Johanes Stradanus (1589) representa simbolicamente o encontro
de Américo Vespúcio com o continente americano figurado na imagem
da mulher que se ergue da sua rede onde permanecia, intentando
estabelecer uma qualquer forma de contacto. Atente-se no facto de
o conhecimento ser valorizado através da posse do astrolábio por
parte do europeu58.

57
Ibidem, p. 15.
58
Cf. Euan Cameron, Early Modern Europe – An Oxford History, Oxford, Oxford
University Press, 2001, p. 17.
88 Ana Paula Avelar

O domínio do mecânico marca este amanhecer da Moderni-


dade. Na sua Ropica Pnefma (1532) ao discorrer sobre os problemas
relativos à essência da Alma, João de Barros evoca o relógio no
diálogo entre a razão e a vontade: “Bem como tu viste em a república
d(a) alma, em que falámos, que as principais partes dela eras tu e o
Intendimento, assi em este espiritual relógio, ambos sois as rodas
de maior conta que moveis as de menos pontos. Eu sou o peso que
forço a todas, pera andardes per os números da roda das horas que
é a vida, repartida em quatro partes principais da idade (não falo na
infância e decrépita, por serem princípio e fim do movimento dela).
Esta vida tem doze graus em que acaba sua perfeita revolução.”59

Este é um período em que se altera epistemologicamente a


medição do eixo temporal, procurando-se a precisão. Veja-se como,
já na segunda metade do século XVI, António Galvão se questiona
face ao modo como se efectua o registo temporal no seu Tratado dos
Descobrimentos: “Querendo ajũtar algũns descobrimentos antiguos
& modernos, que por mar & terra sam feytos cõ suas eras & alturas
(como sam duas cousas tã difficultosas) acheyme tam confuso com
os autores delles, que determiney desistir de tal proposito. Porque
os Ebreos dizem que da criaçam do mundo ao diluuio ouue. 1656.
annos. E os setenta interpretes. 2242. Sancto Agostinho 2260.&
tantos. E assi nas alturas ha muytas differenças. Porque nunca se
ajuntaram em hũa armada de dez pilotos até cento, que hũs nam
estiuessem em hũa altura, & outros em outra.”60

A dimensão orgânica está presente no processo de medição. A


medida é ainda entendida, seguindo as proporções humanas, visto a
extensão física continuar a ser o recurso mais prático. Pense-se, por
exemplo, no uso de medidas como as braças ou os pés, ou como as
festividades móveis eram calculadas pelos marinheiros, recorrendo
às junturas dos dedos. André Pires expõe, no seu Livro de Marinharia,
o processo para o cálculo do Entrudo, da Páscoa, da Ascenção,

59
João de Barros, Ropica Pnefma, Lisboa, INIC, 1983, II, p. 60.
60
António Galvão, Tratado dos Descobrimentos, Porto, Livraria Civilização Editora,
1987, p. 51.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 89

do Corpus Christi...61. Também no mar se cumpria o calendário


litúrgico, sendo para tal necessário encontrar os meios para calcular
os momentos em que deviam ocorrer as diferentes celebrações.

Ainda que a questão da distância/tempo marque este quotidiano


de Quinhentos, e que a viagem, nuclearmente, exponha e imponha
a medida precisa, verifica-se que no relato da viagem se indicam
para além das horas, dias, meses e anos as festividades litúrgicas.
No relato da primeira viagem de Vasco da Gama, atribuído a Álvaro
Velho, a par da inscrição medieva que abre o discurso: “Em nome de
Deus, amén.”62 Cronometricamente noticia-se a partida: “Partimos
de Restelo um sábado, que era oito dias do mês de julho, da dita era
de 1497 (...)”63.

Não se deixa igualmente de marcar os momentos da viagem:


“Aos quatro dias do dito mês, sábado, antemanhã duas horas,
achámos fundo de cento [e ]dez braças ao mais, e ás nove horas do
dia houvemos vista de terra (...)”64.

Mesmo perto das paradisíacas terras de Vera Cruz, Pero Vaz de


Caminha escreve a sua carta do achamento do Brasil, cumprindo a
mesma estratégia enunciatória: “E assim seguimos nosso caminho
por este mar, de longo, até terça-feira d’oitavas de páscoa, que foram
21 dias d’Abril, que topámos alguns sinais de terra (...) E à quarta-
-feira seguinte, pela manhã topámos aves (...) E neste dia, a horas de
véspera, houvemos vista de terra (...)”65.

É, enfim, na íntima ligação entre o ritmo dos homens e o fluir


dos acontecimentos que se transmite um tempo num espaço onde se
vivenciam sempre novas qualidades.

61
Cf. Luís de Albuquerque, O Livro de Marinharia de André Pires, Lisboa, Vega,
1989, pp. 153-154.
62
Diário da Viagem de Vasco da Gama, Porto, Livraria Civilização, 1945, p. 3.
63
Ibidem.
64
Ibidem, p. 6.
65
Pêro Vaz de Caminha, carta a el-rei d. Manuel, Lisboa, Imprensa Nacional
– Casa da Moeda, 1974, p. 33.
IV.

A Natureza: percepção e descrição


“Foi sem malícia e mau erro
a boa idade dourada,
apressou-se a prateada,
não tardou nada a de ferro
Que tudo pôs à espada.”

Sá de Miranda1

Neste caminhar pelas novas formas de intuir, compreender


e explicar a realidade, congregam-se os propósitos de leitura de
formas de interiorização e transmissão do real, através das quais
se vislumbra o exótico. O esboço corporiza-se, assim, na exposição/
descrição dos aspectos físicos e na transformação da envolvência
natural, muito em particular no espaço da urbe. Importa, pois,
entender como se evidenciam novas formas de registo do real,
compreendendo os processos de descrição da fauna e da flora.

Neste percurso interpretativo não se pode deixar, todavia, de


sistemas de referênciaanalisar os sistemas de referência usados na descrição, desmontando

as correlações evidenciadas nos processos descritivos entre os


objectos de descrição e as modalidades discursivas utilizadas. A
desocultação dos diálogos simbólicos, que cruzam os diferentes
modelos descritivos exercitados no Portugal de Quinhentos, é
nuclear nesta matriz analítica.

1
Excerto da carta ao senhor de Basto.
94 Ana Paula Avelar

Retomo aqui a reflexão já anteriormente indiciada sobre a


importância que ganha a mentalidade quantitativa no quotidiano
dos portugueses de Quinhentos. Assiste-se, no modo de interpretar
e explicar o Mundo, à combinação dos processos de abstracção
matemática, devida, nomeadamente, à quantificação do universo,
associada ao pensar de variáveis experimentáveis com uma progres-
siva desantropomorfização do real. É através da praxis da meditação
e da apreensão sensorial da realidade que se interpreta o real.

A representação do sujeito e a progressiva valoração subjectiva


valoração ganham corpo neste amanhecer da Modernidade. É nesta ambiência
subjetiva que se desenvolve o estudo da proporção e, em particular, da
distinção entre as proporções técnicas e as objectivas, notando-se
ainda a influência que teve neste estudo a análise do movimento
orgânico, do escorço e da impressão visual do observador. Frequen-
tes são os esquissos, como o de Albrecht Dürer, que materializam
este cuidado pela precisão na notação do real, e que exemplificam
processos a adoptar2.

Fig. 1 – Exemplo de escorço

2
Cf. John Berger, Dürer, Colónia, Taschen, 2004, p. 92. Nesta obra de
divulgação referenciam-se esses escorços, recorde-se a referência que Erwin
Panofsky faz aos escorços introduzindo-os no apêndice que inclui na sua
incontornável obra, The Life and Artof Albrecht Dürer, Princeton, Princeton
University Press, First classic edition, 2005, ilustrações nºos 310 e 311.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 95

Erwin Panofsky corporiza essa ideia no exemplar estudo sobre


a obra deste humanista. Ao debruçar-se sobre Dürer, enquanto
teórico da Arte, escreve Panofsky: “The Renaissance, on the contrary
[Middle Ages] established and unanimously accepted what seems
to be the most obvious, and actually is the most problematic dogma
of aesthetic theory: the dogma that the work of art is the direct and
faithful representation of a natural object. ‘And thou must know,’
writes Dürer, ‘the more accurately one approaches nature by way
of imitation, the better and more artistic thy work becomes.’”3
Conclui Panofsky: “Treatises on sculpture and painting, therefore,
could no longer be limited to supplying generally accepted patterns
and recipes but had to equip the artist for his individual struggle
with reality.”4

A ligação de Dürer aos círculos portugueses é por demais


conhecida. O pintor é, aliás, amplamente apreciado pelos nossos
humanistas. Recorde-se que pintou, em Antuérpia, para Rui
Fernandes de Almada, um S. Jerónimo (1521). Por seu turno,
Damião de Góis nutre, como aliás já referi uma profunda admiração
pela sua obra.5

Fortes são as teias culturais tecidas entre os círculos portugueses


e os intelectuais europeus. À semelhança do que sucedia na Europa
de então, também em Portugal circulam moedas, inscrições,
esculturas, fragmentos diversos de um passado, o dos Antigos,
conservados, nas antecâmaras, nos jardins... Tal como na Europa,
vão surgindo os chamados Gabinetes de Curiosidades nas casas
senhoriais do reino de Portugal.

3
Erwin Panofsky, The Life and Art of Albrecht Dürer, p. 243.
4
Ibidem.
5
Amadeu Torres, Noese e Crise na epistolografia Latina Goisiana – As Cartas
Latinasa de Damião de Góis, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian – Centro
Cultural Português, 1982, I, p. 373.” (…) o Retrato daquele grande Erasmo de
Roterdão por Alberto Dürer, gravador exímio entre os alemães do seu tempo.
O texto latino é o seguinte: “(...) effigiem magni illius Erasmi Roterodami
per albertum Direrum, suae aetatis inter Germanos eximium exculptorem
(...)” Ibidem, p. 214.
96 Ana Paula Avelar

Retomando, ainda que brevemente o pensar de um espaço,


em particular a evocação da cidade e a sua idealização, convoco de
novo Francisco d’ Holanda, e a sua Fabrica de que falece ha cidade de
Lisboa.... Observe-se como se lembram, no repensar a cidade, outras
paragens nos elementos decorativos utilizados, e que agora são
partes constitutivas do dia-a-dia da cidade6.

Fig. 2 – Lembrança da fonte para as naus Ribeira

Na representação de objectos, e apesar de estes puderem ser


realisticamente desenhados, associa-se, por vezes, uma mensagem
de transliteralidade a todo um universo de significação. Plasma-
-se a noção platónica de simulacrum, transpondo-se o sistema de
referências entre microcosmo e macrocosmo. Não é gratuita a
inclusão no fecho da Fabrica de que falece ha cidade de Lisboa... 7 de um
dos emblemas de Alciato, evocando o seu Emblematum liber.

Junto ao mesmo surge uma nota manuscrita aposta poste-


riormente onde é referenciada esta inscrição. Trata-se do emblema
em que é lembrado o engenho dos sujeitos abatidos pela inveja,
malícia e pobreza na figura de um homem com uma das mãos
aladas, segurando na outra um peso. O emblema de Alciato, a que

6
Cf. Jorge Segurado, op. cit., p. 101
7
Cf. Ibidem, pp. 166-167.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 97

este excerto alude, é o “CXXI- Paupertatem summis ingeniis obesse


ne provehantur”8, de acordo com a edição de 1531.

Fig. 3 – Emblema CXXI de Alciato Fig. 4 – Alciato em Francisco d’Holanda

O Inigma de Holanda adensa-se na convocação operada pelo


autor de vários signos. A malicia prende e segura na terra o sujeito.
Este é ameaçado pelo peso esférico do jogo (ludus), içado por Saturno
(?), símbolo de contracção e inércia que subjuga o sujeito. Ornando
a cintura deste, signo dos poderes investidos, do humanizado
e dominante deus, delineiam-se três faces. Estas evocam o ser,
convocando a prudência, na sua tripla representação (três cabeças
humanas), e o fluir do tempo: o passado, o presente e o futuro.

8
A pobreza impede o progresso dos grandes talentos – No texto latino que
acompanha o emblema pode ler-se:
“Dextra tenet lapidem, manus altera sustinet alas:
Ut me pluma levat, sic grave mergit onus.
Ingenio poteram superas volitare per arces,
Me nisi paupertas invida deprimeret.”
Isto é. “A minha mão direita segura uma pedra, a minha outra mão tem asas.
Por um lado as asas erguem-me, por outro, o peso imenso puxa-me para
baixo. Com o meu intelecto eu poderia pairar por entre os cumes mais altos,
se a invejosa pobreza não me puxasse para baixo.”
98 Ana Paula Avelar

O fechar do livro de Holanda encerra o enigma: “et conscius mius


in excelsis”. É, deste modo, na significação dos contrários que ele
escreve no seu epílogo: “E não me queixo mais do tempo: por q̃
me vai sua Diuina Magestade chegando a hũ: ẽ q̃ me o Mundo
pode fazer: he fazerme o seu bem: e o major bem he fazerme o seu
Mal(...)”9.

Fig. 5 – Rinoceronte de
Dürer

Mas regressemos a Albrecht Dürer e à sua representação de


um rinoceronte que então circula na Europa. Este é um desenho
elaborado pelo mestre de Nuremberga a partir da descrição que
correria deste animal aquando da embaixada portuguesa chefiada
por Tristão da Cunha ao Papa Leão X. O sultão do Gujarate, Muzafar
II, tê-lo-ia oferecido a D. Manuel I em 1515.

Em Lisboa, em frente à casa da Contratação, e na presença do


monarca, realizar-se-ia, em 1517, um combate entre duas bravissimas
e espantosas alimárias, um rinoceronte e um elefante, procurando-se
ver por experiência a força, e manhas que cada uma tinha num confronto.
Na Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel, Damião de Góis descreve
o combate: “(...) mandou el rei que alevantassem os panos de
armar, onde o rinoceronte estava escondido,(...) [este] com o passo
mui seguro começou de encaminhar, para onde o elefante estava,
levando o focinho posto no chão, assoprando pelas ventas com

9
Francisco d’Holanda, op. cit., p. 165.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 99

tanta força que fazia levantar o pó, e palhas do chão como se fora
um redemoinho de vento. O elefante (...) em o vendo se tornou
em redondo contra ele, dando urros, e fazendo jeitos com a tromba
de querer pelejar, com tudo depois que o rinoceronte chegou junto
dele, querendo já cometer pela barriga, parece que pela pouca idade
de que era, desconfiado de se poder ajudar dos dentes (...) fez volta
em redondo (...) e por uma janela (...) pôs a cabeça com tanta força
que torceu dois varões das grades. Saído assim o elefante do pateo
tomou o caminho dos estáus (...) não tendo conta com cousa que
achasse diante assim homens de pé, como de cavalo (...) parecia
que era alguma batalha posta fora de sua ordem, ou desbaratada dos
inimigos. ”10

A plasticidade e o visualismo da palavra impõem-se em Góis.


A novidade circula pela pena, no desenho como o de Francisco
d´Holanda, onde este traça um elefante e os seus tratadores. O
humanista não deixaria de discorrer sobre a aliança entre as letras e a
pintura, dialogando com os seus pares, concordando que: “(...)todo
o homem douto e consumado em qualquer doutrina achará que
em todas as suas obras vai sempre exercitando em muita maneira
o ofício de discreto pintor(...)”.11 Contudo, é a nobreza da pintura
que as palavras de Holanda consagra.

Fig. 6 – Desenho de
Francisco de Holanda

10
Damião de Góis, Crónica da Felicissimo Rei D. Manuel, Coimbra, Imprensa da
Universidade, 1954, IV, p. 54.
11
Francisco de Holanda, Diálogos em Roma, Lisboa, Livros Horizonte, 1984, p. 44.
100 Ana Paula Avelar

Esta curiosidade abraça a sociedade portuguesa de Quinhentos.


A transmissão da novidade e o vislumbre do exótico vão-se, assim,
repercutindo noutros espaços europeus. Assiste-se, simultanea-
mente, a novas formas de organização do pensar, através das quais
se procura apreender as totalidades. Tal não significa, porém, um
descurar na precisão do retratar da realidade. Como Agnes Heller
sistematizou em Homem do Renascimento, o mundo é concebido de
acordo com três ordens de metáforas:

• Imagem do Homem e de Deus infinito;


• Mensagem – instrumento de significação;
• Máquina – universo como objecto.

Decorrentes destas três perspectivas de percepção e de inte-


ligibilidade do mundo, a natureza concebe-se, igualmente, de
um modo tripartido, sendo entendida como externa ao Homem,
imanente e auto-criadora, podendo ser infinitamente conquistada;
ela é, além disso orgânica e espiritual.

busca de São estes os vectores que presidem a esta minha problemati-


exemplificação zação, e que visam desocultar o processo de racionalização
do real
espelhado na busca da explicação do real. Assiste-se neste período
à modelação poética de uma filosofia da natureza que procura a
resposta do Homem através de uma analogia entre o que nela é
observado e os conflitos com os quais ele se debate ao longo da sua
existência. Os homens afastam-se gradualmente do fabuloso e do
mítico, sendo estes entendidos como anteriores. Eles sobrevivem,
todavia, ainda como formas de explicação do real, nomeadamente
de um real natural. Veja-se como no Tratado dos Descobrimentos, de
António Galvão, ainda se refere a existência de homens nas ilhas
Maluco com esporões nos artelhos, como galos, e de ervas que fazem perder
a virgindade às mulheres que por elas caminharem.

Procura-se explicar o estranho, tantas vezes maravilhoso, reto-


estranho/
mando-se algumas das questões abordadas pelos antigos. Um dos
maravilhoso tópicos que será revisitado pelos portugueses que escrevem em
Quinhentos sobre as novas realidades, é o da disputa em torno das
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 101

causas que provocam a coloração do Mar Vermelho12. Tomemos


só alguns exemplos, no universo daqueles que, entre nós, então, se
debruçam sobre a nova aventura dos mares.

Frequentemente, como acontece na Suma Oriental, de Tomé


Pires (c.1515)13, considera-se que tal designação adviria do facto
de se encontrarem neste mar umas barreiras vermelhas que seriam
a causa de tão diferente coloração. Noutros textos surge o sopear
de diferentes explicações. Na sua Ásia ... dos feitos que os portugueses
fizeram nos mares e terras do oriente, João de Barros expõe a curiosi-
dade que corria entre os mareantes portugueses face a esta deno-
minação de mar Roxo, socorrendo-se para tal de várias fontes. O
cronista cita, então, a carta que Afonso de Albuquerque teria escrito
a D. Manuel, na qual se afirmaria que lhe convém muito este nome roixo
por ser mui cheio de manchas vermelhas; assim se acentua o visto na sua
evocação14.

Albuquerque regista meticulosamente a preocupação no


sentido de conhecer a razão de tal fenómeno, sendo mencionadas
as perguntas por si dirigidas aos vários pilotos mouros. Concluía-se
de tal inquirição que essas manchas resultariam da revolução sofrida
pelas águas no momento das marés. Barros exporia, em seguida, todo
um conjunto de observações indutivas, as quais seriam amplamente
descritas: “(…) aquellas mãchas corriam com a jusante & montante
daquelle estreito, por nam terem outra corrente se nam entrar
& sair per as pórtas delle: & por ser aparcelládo & már de pouco

12
Cf. Ana Paula Menino Avelar, Figurações da alteridade na cronística da Expansão,
Lisboa, Universidade Aberta, 2003, pp. 53-73; Ana Paula Menino Avelar, “Do
mar Vermelho na cronística portuguesa da Expansão”, Lisboa, Academia de
Marinha, 2003 (separata).
13
Tomé Pires, Suma Oriental, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1978. pp.
136-137. No manuscrito de Lisboa não vem copiada esta passagem como
aliás se pode constatar no trabalho de Rui Loureiro, O manuscrito de Lisboa
da “Suma Oriental” de Tomé Pires – Contribuição para uma edição crítica, Macau,
Instituto Português do Oriente, 1996, pp. 57-58
14
Cf. João de Barros, Ásia …Segunda Década, p. 358.
102 Ana Paula Avelar

fundo, que ás vezes quando o vento éra tenso corriam estas águoas á
vontáde delle, & que entam faziam aquella reuoluçam debaixo com
alguma cousa daquella cór que o már tinha por lástro.”15

Seria pelo experiencialismo exercitado por D. João de Castro


que a razão de tal coloração se comprovaria. O processo usado foi
exemplarmente noticiado por Diogo do Couto na segunda parte
do seu Tratado de todas as cousas socedidas ao valeroso Capitão Dom Vasco
da Gama... (1599). Ao descrever a entrada no Estreito de D. Estevão
da Gama, assinala que: “(...) em todas estas enciadas, e angras desde
a boca do Estreito thé Sués, foi D. João de Castro, tomando o sol,
e fazendo roteiro, sondando todas aquellas paragens, e notando
as mais couzas daquelle estreito de que fez hum coriozo tractado,
que derigio ao infante D. Luis, no qual dá muitas e boas razoens,
sobre as manxas, vermelhas, que se achão por todo aquelle Estreito,
sobre tanctas variedades ha nos escriptores que disso tractão
(...)”16. Esta narrativa de Diogo do Couto espelha modelarmente
como se evocam, constróem e transmitem saberes neste final de
Quinhentos.

Recorde-se que o próprio Barros expôs o experiencialismo


de D. João de Castro, apresentando a sua meticulosa observação
e o confronto de dados. O cronista revela os diferentes passos
empreendidos, nomeadamente as sucessivas sondagens ao fundo

15
Cf. Ibidem, pp. 358-359.
16
Diogo do Couto, Tratado dos feitos de Vasco da Gama e seus filhos na Índia, Lisboa,
Cosmos, 1998. p. 125. Esta obra correu manuscrita ao tempo, porém serve-
-se de outros autores como o próprio Diogo do Couto assinala. Ele referencia
entre outras fontes, como testemunhos orais e documentos consultados no
Arquivo da Torre do Tombo de Goa, Damião de Góis, João de Barros, D.
João de Castro, Francisco Álvares, Fernão Lopes de Castanheda, Miguel de
Castanhoso. A expedição de D. Cristovão da Gama foi narrada tanto por
Miguel de Castanhoso como por D. João de Bermudes. Ambos companharam
D. Estevão da Gama a terras da Etiópia, à terra do Preste João. Contudo nem
um nem outro texto referenciam as manchas do mar Vermelho. Cf. Ana
Paula Menino Avelar, Visões do Oriente-formas de sentir no Portugal de Quinhentos,
Lisboa, Edições Colibri, 2003, pp. 203-215.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 103

do mar, de molde a determinar o tipo de lastro que seria encon-


trado. Ao mergulharem, os marinheiros: “(…) traziam lhe do lástro
do cham huma matéria vermelha a maneira de coral ao módo de
ramos, & outras érã cubertas de huma lanumgem alaranjáda: & em
outra párte onde o már fazia manchas verdes traziam lhe outra
especia de pédras assy em ramos a que comuumente lá chamã coral
branco, com outra lanugem verde a maneira de limmo, & onde
águoa éra branca traziã area muy alua.”17 D. João de Castro teria
comparado a coloração do Mar Roxo com a do Cabo Fartaque,
chegando à conclusão de que, neste último caso, o vermelho das
águas seria provocado por uma qualquer matança de animais e pelo
nascimento de baleias, visto estas águas não apresentarem o mesmo
tipo de lastro das do mar Roxo.

Referenciando as opiniões veiculadas por outros, nomeada-


mente o facto de esta coloração ser provocada por barreiras
vermelhas, o autor da Ásia... reproduz o processo analítico de
D. João de Castro, inclinando-se perante o seu método. Segundo
João de Barros, Castro nunca tinha visto poeiras nem barreiras
vermelhas que fossem “cousa notável.” No entanto: “(...) punha
todalas opiniões pera cada hum tomar a que mais racional lhe
parecesse, conformandose com as experiencias que elle com tanta
diligencia fez.”18 A exposição dos vários argumentos leva, contudo,
Barros a repudiar os antigos e a subscrever a opinião de D. João de
Castro.

A explicação dos factos valida-se através da observação dos dados


e pela confrontação dos resultados. Estabelece-se, deste modo,
uma ordem, uma unidade baseada na unanimidade, na legitimação
dos pontos de vista. Este processo de conhecimento, ou melhor, de
explicação, atingida através da colação das observações e do ponderar
das explicações conseguidas, é uma postura recorrente entre os
homens da Expansão Portuguesa. Mas observemos a fonte.

17
João de Barros, Ásia …Segunda Década, p. 360.
18
Ibidem.
104 Ana Paula Avelar

D. João de Castro debruça-se sobre as causas de tal coloração


no Roteiro do Mar Roxo onde compila as impressões da sua viagem
na companhia de D. Estevão da Gama (1541). O roteirista evoca a
Naturalis Historia, de Plínio, o Velho, inscrevendo o seu texto numa
matriz clássica. Considera assim que esta denominação tinha a sua
raiz no nome de um dos reis que teria reinado naquele espaço, o qual
se chamaria erithra. Ora, erithroo, em grego, significaria vermelho.
Além disso, os raios solares reverberam neste mar, nascendo o sol
com uma cor vermelha. Acresce o facto de a natureza da água e
da terra apresentarem uma coloração avermelhada. Essas seriam as
três razões encontradas, e, segundo Castro, “(...) De estas opiniones
escolheram os escriptores a que lhe mais quadrou e pareçeo mais
çerta.”19

Este é o método adoptado pelo nosso humanista. Ele contesta as


razões apresentadas, assentando o nexo lógico no dado observável.
Sem dúvida que o quadro desenhado foi ponderado. No entanto,
este fidalgo partiria do que já antes teria sido afirmado como razão
por outros navegadores portugueses. Para estes, as malhas vermelhas
eram provocadas por alterações bruscas do clima, nomeadamente
por trovoadas súbitas que gerariam a elevação de grandes poeiras,
as quais seriam derramadas pela direcção dos ventos no mar.

Procurando a comprovação do que tantos tinham afirmado,


e buscando a causa através do experienciado, D. João de Castro
demonstrou, através da eliminação gradual das hipóteses anterior-
mente levantadas e sumariadas, que nenhuma destas era válida20.
O autor teria realizado sucessivas experiências e a sua minuciosa
observação do objecto e a notação precisa do que havia sido obser-
vado provariam a falsidade das razões evocadas. D. João de Castro
afastar-se-ia da indução nascida de uma observação fugaz, pouco
experimentada e atenta, para, através de um exímio trabalho de

19
Cf. Armando Cortesão e Luís de Albuquerque, Obras Completas de D. João de
Castro, Coimbra, Academia Internacional de Cultura Portuguesa, 1971, II,
p. 369.
20
Cf. Ibidem.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 105

observação analítico dos fenómenos, se ater no que seria a sua


causa. Este fidalgo concluiu que a razão desta cor se encontraria nas
restingas de uma pedra chamada pedra de coral, a qual ganharia
diferentes tonalidades, e as emprestaria às águas21.

A
T
notação do diferente natural expõe-se em várias modalidades
diferente natural discursivas. Estas envolvem o reportório da cosmografia e
marinharia em Esmeraldo de situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira,
onde, apesar de se descreverem as totalidades, brevemente se
enunciam e referenciam as qualidades. Segundo ele, no princípio
das terras de África, esta é: “(...) muito fértil de pão, vinho fruitas
carnes, pescarias de desvairadas nações de pexes, e outras cousas
dinas de grande louvor.”22

Mas na descrição do real entrelaça-se o fantástico. Recorde-se que,


fantástico por vezes, nos deparamos com a referência a alguns estranhos peixes
que vão povoavam o imaginário dos mareantes. Se a sua inclusão no
desenho que surge junto ao poema épico de Jerónimo Corte-Real,
Sucesso do Segundo Cerco de Diu, se ancora numa matriz classizante,
já a descrição de um rombo provocado por um estranho habitante
das profundezas marítimas numa nau portuguesa, inscreve-se
num novo processo de notação do real. No entanto, nos versos
de Jerónimo Corte-Real que acompanham a pintura da cena onde
furor da natureza tais seres surgem, somente se vislumbra o furor da tempestade e a
ameaça dos céus:

21
Ibidem, II, p. 370-371.
22
Joaquim Barradas de Carvalho, Esmeraldo de situ Orbis, Lisboa, Fundação
Calouste Gulbenkian, 1991, p. 57.
106 Ana Paula Avelar

Fig. 7 – Peixe fantástico


no Sucesso do segundo
cerco de Diu, de
Jerónimo Corte-Real

“Acodem marinheiros aos lugares


Que tem necessidade: amainam vellas,
Recolhennas, & ja quasi perdidos,
Aguardam a brasueeza do soberbo,
E verde negro mar: ali os nauios
Gemem da grande affronta que padecem.
Hũas vezes se sobem la nas nuuẽs,
Outras ao centro decem: entram dentro
Embrauecidas ondas, & aos soldados
Deixam todos cubertos de grossa agoa.”23

Regressemos, porém, aos processos seguidos por aqueles


que, em Quinhentos, descrevem as novas realidades, espelhando
o estranho, tantas vezes fantástico. Debrucemo-nos um pouco mais
sobre o que aconteceu, perto do cabo da Boa Esperança, à nau
capitaneada por D. João de Lima que integrava a armada de Diogo
Lopes de Sequeira. Este episódio é descrito por um dos cronistas
da Expansão, Gaspar Correia, nas suas Lendas da Índia. Não se trata,
contudo, de algo de meramente episódico, já que a descrição de
acontecimentos semelhantes ocorre noutros cronistas coevos.

23
Jerónimo Corte-Real, “Sucesso do Segundo Cerco de Diu”, Canto XX,
estrofes 69-78, in Obras de Jerónimo Corte-Real, Porto, Lello & Irmão – Editores,
1979, p. 181.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 107

Comecemos, então, por Gaspar Correia24. O cronista noticia


na sua obra que, após um impacto sentido na embarcação, e
julgando tratar-se de algum rombo, a tripulação teria corrido para
a bomba, sem que algo de anormal tenha sido detectado. Todavia,
quando vararam a nau em Cochim, constataram que se encontrava
incrustado no tabuado da embarcação um focinho de peixe, o qual
teria penetrado profundamente no casco. Várias conjecturas se
colocaram relativamente ao tamanho e peso de tal animal. Apesar
de Gaspar Correia não conhecer a espécie, tentou identificar este
peixe, recorrendo ao saber dos marinheiros. Afirmaria, assim, que
este exemplar só poderia ser um tipo de espadarte, visto ser este um
peixe: “(…) que no mar corre com mór força, e se vio muytas vezes
pelejar com as baleas, e tem no focinho hum muy forte osso com
muytos dentes.” 25

experiencialismo O experiencialismo ultrapassa, sem dúvida, a mera assunção


do experienciado no processo de conhecimento, implicando a
superação deste primeiro momento, o do observado, e, num
momento posterior, a sistematização dos resultados. Para além de
um processo de conhecimento, assiste-se, assim, à tensão entre
Razão e realidade empírica. Ora, em Gaspar Correia não se opera
este segundo momento, já que o autor procura desvendar o facto
através de um certo empirismo explicativo.

Embora este tenha sido o processo seguido por Gaspar Correia


para descrever este acontecimento, o fantástico não deixa de se
plasmar no seu texto ao abordar a viagem de Rui Vaz Pereira à Índia,
em 1520, no decurso da qual algo de diferente aconteceu. Este
episódio revela-se exemplar para o nosso estudo, visto o mesmo

24
Já anteriormente nos debruçámos sobre as questões que se prendem com o
experiencialismo português e os modos de narrar o estranho nos portugueses
de Quinhentos, muito em particular na cronística da Expansão. Cf. Das vozes
do experiencialismo na aventura portuguesa dos mares: O exemplum de Quinhentos
em Portugal – Paradigmas referenciais, conferência apresentada na Academia
Portuguesa de História a 13 de Outubro de 2004.
25
Gaspar Correia, Lendas da Índia, II, p. 556.
108 Ana Paula Avelar

facto ser narrado numa única modalidade discursiva, a cronística da


Expansão (no século XVI). Com efeito, tanto Gaspar Correia, nas
suas Lendas da Índia, quanto João de Barros, na sua Ásia..., ou Fernão
Lopes de Castanheda, na sua História do Descobrimento e Conquista da
Índia.... o referenciam.

Na descrição deste episódio, Gaspar Correia transita de ime-


diato para a evocação do fantástico. A dúvida cautelar, a contenção
fantástico explicativa, a lógica discursiva são substituídas pelo desmesura-
mento de um olhar perturbado pelos sentimentos. Segundo ele,
os senti/s pertubam
Rui Vaz Pereira foi perseguido por um peixe: “(…) negro espantoso,
que nunqua fôra visto outro tal, o qual correo após o galeão dous
dias e noites, rodeando o galeão muytas vezes, o qual de quando em
quando deitaua hum resolho d’agoa mais alto que o galeão, com
que todos auendo grande medo se encomendauão a Nosso Senhor
que os liurasse de tal pexe (…)”26.

As peripécias das manobras tentadas para o governo do


galeão são inúmeras. O fantástico pontua cada frase, sendo o
animal descrito como se fosse possuidor de uma rapidez e força
desmesuradas. Além disso, é-lhe atribuída uma intencionalidade
na acção, algo que nenhum dos outros cronistas regista. O galeão
parecia encontrar-se em terra, porém: “(…) o mar n’elle batia, que
era grande, e as velas com muyto vento querião arrebentar. Polo
que tomarão os traquetes das gaueas e mesurarão as velas por se
hipérbole nom desaparelhar.”27 A descrição do peixe é toda ela hiperbólica,
com o recurso a vocábulos correntes entre os marinheiros.
Segundo Correia, ele tinha no seu dorso umas barbatanas que, ao
movimentarem-se, eram tão altas como meia enxarcia, o espiráculo
era uma abertura como um “(…) escotilhão, per que resolhaua
agoa tão alta que cobria o galeão, com que ficaua meo alagado, que
se toda cayra dentro metêra no fundo.”28

26
Gaspar Correia, Lendas da Índia, II, p. 549.
27
Ibidem, II, p. 595.
28
Ibidem.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 109

O pânico gerado é descrito através de um movimento ritmado


que parece antecipar uma lógica de registo cinemático: “(…) todos
estauão como mortos pedindo a Deos misericórdia, deitando sobre
o pexe reliquias, e agoa benta que hum crelgo benzia revistido,
resando muytas orações sem ousarem de o toquar, porque se o pexe
se assanhasse com pouqa força reuirára o galeão.”29 Desde horas de
terça que não se mexeu durante todo o dia e noite. No dia seguinte,
quando o sol apareceu, o galeão seria finalmente libertado.

Ao hiperbólico contrapõe-se a enfabulação de João de Barros.


Este historiador escreve que, após ter passado o cabo da Boa
Esperança, a embarcação de Rui Vaz teria sofrido um forte embate.
Passados alguns momentos, os que nela iam aperceberam-se de
que não navegavam, impedidos por aquilo que o cronista diz ser
um monstro. Através de um processo descritivo profundamente
sensorial, Barros refere que tal ser acompanhava toda a quilha do
galeão. Sendo o seu comprimento de 125 palmos, a sua cauda
imobilizava o leme, e as barbatanas, ou asas, como Barros designa,
abraçariam dois costados, chegando até à mesa da guarnição.

Alguns dos marinheiros teriam tocado o animal que se lançaria à


água como se de uma baleia se tratasse30. Não se estava em presença
de um ser conhecido e, além disso, este não abandonava a rota do
galeão. Feri-lo estava fora de questão, visto o comandante recear que
os movimentos provocados pelo ataque colocassem em perigo os
tripulantes. Procurando a protecção divina, o animal, considerado
um espírito mau, foi exorcizado pelo capelão. Barros, notando a
estranheza da espécie, confronta o acontecido com o experienciado
no reino, apontando, no entanto, a intervenção divina. Fá-lo pela
voz dos mareantes, os quais consideravam que este era um peixe
sombreiro igual ao que dera à costa em Atouguia e abalroara dois
barcos de pescadores, os quais não ousando pescá-lo, o teriam
trazido à costa com orações e preces31.

29
Ibidem.
30
Cf. João de Barros, Ásia…Terceira Década, fl 108v.
31
Ibidem.
110 Ana Paula Avelar

Fernão Lopes de Castanheda, anotando o mesmo aconteci-


mento e impondo a sua habitual contenção descritiva, percorreu
os mesmos factos. Seguindo uma estrutura expositiva em tudo
semelhante à de João de Barros, e denunciando o recurso às mesmas
fontes, não apelida, no entanto, este peixe de monstro, mas sim de
sombreiro. O seu enfoque narrativo passa pela precisão descritiva,
tradutora de um testemunho de quem abraçou ou domina as lides
da marinharia. O comprimento deste peixe acompanhava o galeão,
relatando-se as manobras efectuadas, para que a embarcação se
conseguisse libertar, não deixando de se assinalar o desígnio divino
que se teria manifestado de forma a afastar tal ameaça. É este que
permite que: “(...) auendo hum oitauo de hora que ho peixe tinha
aferrado ho galeão o desaferrou, & deitou pola boca duas ou tres
vezes grãdes golpes dagoa no chapiteo, & tornou apos ho galeão
que seguiu ate ho quarto da modorra rendido(...)”32.

O fantástico expõe-se no território do inesperado, surgindo


como tópico expositivo, tal como acontece por exemplo na “Notícia
verdadeira e curiosa do naúfrágio sucedido no mês de fevereiro
próximo passado ao Filósofo Carolino e do encontro que teve com
uma Mulher que viveu 17 anos na companhia de um façanhoso
bicho junto dos montes Mauritanos.”33 Não são só os mares que
guardam os estranhos, medonhos ou maravilhosos seres.

A transmissão do real consubstancia-se igualmente num discurso


sobre o natural, como o dos Colóquios dos Simples e das Drogas, de
Garcia da Orta (Goa,1563). Por seu turno, Luís de Camões, na ode
que escreveu ao conde Redondo, vice-rei da Índia em 1563 poetiza
sobre o autor, exortando a certa altura:

“E vede carreguado
De annos, letras, e longa experiencia,
Hum velho que insinado

32
Fernão Lopes de Castanheda, op. cit., II, p. 61.
33
Cf. João Palma-Ferreira, Naufrágios, Viagens, Fantasias e Batalhas, Lisboa,
Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1980.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 111

Das guangeticas Musas na sciencia


Podaliria subtil,e arte siluestre,
Vence o velho Chiron de Aquilles mestre.

O qual está pidindo


Vosso favor e ajuda ao grão volume,
Que agora em luz saindo
Dará na Medicina um novo lume,
E descobrindo irá segredos certos
A todos os antiguos encubertos.”34

O objecto sobre o qual discorrem os Cóloquios... é claramente


enunciado, satisfazendo-se a curiosidade de quem quer saber sobre
as drogas medicinais, as que em portugal se chamam de botica e as mezinhas
e frutas e pimenta da Índia. Inventariam-se as questões fulcrais, isto
é, pretende-se conhecer o nome das cousas em todas as línguas, as
terras, árvores ou plantas onde se criam, o uso que delas fazem os
físicos indianos. Mas se este é um registo mais preciso, a curiosidade
não deixa de se estender quer a outras plantas e frutos que não
sejam medicinais, mas que existem nestas terras, quer aos costumes
ou outras informações que tenham sido presenciados pelo autor, ou
que ele considere fidedignos. O experienciado valida um saber35.

Para além da percepção dos diferentes modos de ver e ouvir, e


de o ver para saber e o ler para comentar36, dever-se-á inscrever a obra
de Garcia da Orta no conjunto de textos que dissertam sobre as
plantas. Apesar de ter sido redigido em língua vernacular, ainda

34
Garcia da Orta, Colóquio dos Simples e das Drogas, Lisboa, Imprensa Nacional
– Casa da Moeda, 1987, pp. 8-9. Este é o primeiro poema impresso de Luís
de Camões saindo em 1598 uma nova impressão a qual apresenta alterações
no seu conteúdo e forma. Segundo alguns autores, nomedamente Manuel de
Faria e Sousa, estas alterações teriam sido introduzidas pelo Poeta. Contudo
não é possível confirmar tal hipótese.
35
Cf. Luís Filipe Barreto em Caminhos do Saber no Renascimento Português – Estudos
de História e Teoria da Cultura, nomeadamente nas pp. 148-161, onde o autor
discorre sobre o binómio Experiência-Natureza.
36
Cf. João Carlos F. A. de Carvalho, op. cit., pp. 97-120.
112 Ana Paula Avelar

que o autor escreva na sua dedicatória a Martim Afonso de Sousa


que o teria anteriormente composto em latim37, o livro atinge um
público mais alargado através da obra de Carlos Clúsio, Aromatum
et simplicium aliquot medicamentorum apud indos nascentium historia
(Antuérpia, 1567). Este traduziu os diálogos de Garcia da Orta e
enriqueceu o texto com anotações e comentários, chegando mesmo
a introduzir uma nota e um desenho do caju que não é referido nos
Diálogos... .

É todo um modo de transmissão dos saberes que continua


através do confronto do narrativo e do desenho. Veja-se como no
Tratado de las Drogas y Medicinas de las Índias Orientales, con sus plantas
debuxadas al bivo por Christoval Acosta medico y cirujano que las vio
ocularmente. En el qual se verifica mucho de lo que escrivio el Doctor Garcia
de Orta (Burgos, 1578) se expõem as espécies através do recurso a
dois registos distintos, a escrita e o esquisso.

Ancorando-se neste processo surge o herbário de Manuel


Godinho de Erédia (1612), verdadeiro precursor do desenho das
espécies vegetais, e muito em particular das orientais38. Filia-se este
nosso autor, é certo, em Garcia da Orta, Carlos Clúsio e Cristovão
da Costa, mas se a sua escrita é sucinta, o seu desenho e coloração
completa, aperfeiçoa e precisa a palavra. Observe-se, por exemplo,
como a pimenta canarim ou o ananás fluem na pena de Erédia.
Comecemos pela pimenta canarim e atentemos no traço simples
e delicado onde a fragilidade da planta se revela. Como Erédia
refere:

37
Cf. Garcia da Orta, op. cit., p. 5.
38
Cf. Manuel Godinho de Erédia, Suma de Árvores e plantas da Índia intra Ganges,
Lisboa, CNCDP, 2001, p. 94. Gravuras nºs 26, 25, 37 respectivamente.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 113

Fig. 8 – Pimenta canarim


em Erédia

“He planta sylvestre e a fructa chamada pimenta canaryn, e presta pera


comida do temperado do plebeyo, e mormente pera medicinas por ser de
natureza calorosa ardente. A pimenta canarin e a casca de brindão, e canella
de Ceylão, pizado decada cousa meia mão chea, cozido com canada de agoa
que fique mua [sic] serve pera despedir frieldade dos dentes e gengivas e a
dor.E a casca desta arvore com cominho branco moydo com agoa fria, e deste
sumo bebido tira dor de colyca, e dos graos, e das verilhas. E a mesma casca
moyda e posta em toda a chaga de aniais ainda que tenha bicho, sarara.” 39

Garcia da Orta dedica o seu colóquio quadragésimo-sexto à


pimenta, explicitando os vários tipos, origens, funções e práticas.
Quando se debruça sobre a canarim, referencia brevemente que esta
é usada para desfreimar, isto é, dar actividade, para a dor de dentes,
e para os doentes que sofrem de mordexí (cólera-morbo)40. Garcia da
Orta teria presenciado, em 1543, a epidemia de cólera que grassou
em Goa e que é descrita por Gaspar Correia nas suas Lendas da
Índia.

39
Ibidem. Gravura nº 25 e respectivo texto.
40
Esta é uma doença endemoepidémica que Garcia da Orta refere como sendo
conhecida na Índia por morxi sendo mordexi o nome dado pelos portugueses.
No seu colóquio décimo sétimo referencia-a, descrevendo os sintomas e
apresentando o tratamento dado seja em Portugal, seja na Índia. Cf. Garcia da
Orta, op. cit., pp. 261-267.
114 Ana Paula Avelar

Mas regressemos à descrição de Erédia e ao segundo exemplo


por nós evocado, o ananás. Apesar de esta ser uma planta conhecida
no continente americano, é referenciada na Suma de árvores e Plantas
da Índia Intra Ganges:

Fig. 9 – Ananás em Erédia

“He planta domestica, e tem fructa muyto gostosa e doce agoado, e por ser
de natureza calorosa e seca pera conservar,e dirigir, e fazer bom estomago.
E he danoso no excesso da comyda porque causa fevres, e desconcerta o
estomago.”41

Recorde-se que o próprio Garcia da Orta referencia o ananás


como rei das frutas no sabor, e muito no cheiro. As sensações são
convocadas pelo físico explicitando a natureza do fruto pela voz de
Ruano, o qual afirma:

“Escreve desta fruta Oviedo, o que escreveo das Indias ocidentaes, como
de fruta propria dessa terra; por onde não he necesario escrever eu cá della,
avendoa lá, e na provincia de Santa Cruz, chamada nós o Brasil (que he terra
que está muyto perto de Espanha), onde saberam milhor escrever della.”42

A luxuriante natureza do continente americano tinha já, em


1526, sido objecto da escrita de Gonzalo Fernández de Oviedo Y

41
Manuel Godinho de Erédia, op. cit., gravura 26.
42
Garcia da Orta, op. cit., II, p. 380. Refira-se que ao evocar Espanha, Garcia da
Orta, está a referenciar as possessões espanholas no continente americano.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 115

Valdés. O seu Sumario de la Natural Historia das Indias havia sido


impresso em Toledo e, ainda que não apresentasse o desenho, já
descrevia as principais espécies vegetais de um “Novo Mundo”.
Noutras obras, como no De Orbe Novo, de Pietro Martyr de
Anghiera, aparecem referências várias à flora americana. De igual
modo a flora asiática surge anotada em autores portugueses como
Duarte Barbosa ou Tomé Pires (c.1516). Seria, porém, com a
História General Y Natural de las Indias (1535), do mesmo Gonzalo
Fernández de Oviedo Y Valdés, que se focalizaria a descrição de um
Mundo Novo Natural.

Neste texto alia-se a escrita e o desenho, assim se precisando o


descrito. Confronte-se o texto de Gonzalo Fernandéz de Oviedo
Y Valdés sobre o ananás, e atente-se na minúcia descritiva e no
encanto que transparece na palavra do autor. É a excelência do fruto
que se expõe, apurando-se os sentidos:

Fig. 10 – Ananás em
Fernández de Oviedo

“Hay en esta isla Española unos cardos, que cada uno dellos lleva una piña
(o, mejor diciendo, alcarchofa), puesto que, porque paresce piña, las llaman
los cristianos piñas, sin lo ser. Esta es una de las más hermosas fructas que
yo he visto en todo lo que del mundo he andado (...) oliéndola, goza el otro
sentido de um olor mixto con membrillos e duraznos o melocotones, y muy
finos melones, y démas excelencias que todas esas frutas juntas y separadas,
sin alguna pesadumbre; y no solamente la mesa em que se pone, mas mucha
parte de la casa en que está, seyendo madura e de perfeta sazón, huele muy
116 Ana Paula Avelar

bien y conforta este sentido del oler maravillosa e aventajadamente sobre


todas as otras frutas (...)” 43.

Vivencia-se o maravilhoso, prefigura-se o exótico.

Contudo, não é o particular que prevalece na descrição da


novidade; visa-se, sim, expor a totalidade na descrição dos sítios. Tal
é tanto mais evidente quando analisamos os diferentes modos de
ver e ouvir, plasmados numa escrita que transmite um ver para saber
e o ler para comentar.

Logo, nos primeiros discursos sobre a novidade, e muito em


particular no caso português sobre a novidade asiática, expõe-se o
processo de descrição dos espaço. Este será repetidamente empregue
pelos que, debruçando-se sobre os mesmos espaços, perseguem
outras finalidades. Mesmo que se tenha como primeiro objectivo
historiar a presença portuguesa no espaço asiático, o modo como se
transmite esse mesmo espaço subscreve o processo usado como o
de um viajante como Duarte Barbosa.

Explicitemos um pouco melhor. Tomemos, por exemplo, a


cronística da Expansão que no século XVI descreveu a presença
portuguesa no Oriente. Tanto Fernão Lopes de Castanheda na sua
História do Decobrimento e Conquista..., como João de Barros na sua
Ásia..., ou ainda Gaspar Correia nas suas Lendas..., se servem do
manuscrito de Duarte Barbosa (c.1516).

Tal como ele, sinalizam o espaço, oferecendo ao leitor as coor-


denadas geográficas do lugar, traçando topograficamente o sítio,
notando-se as distâncias (os portos, as aguadas...), sinalizando-se
a orografia, a vegetação..., expondo-se, por fim, a intervenção do
homem.

Este é o quadro que suporta a acção; e nesta perfila-se o Outro.

43
Cf. Alexandre Coello de la Rosa, De la Naturaleza y el Nuevo Mundo: Maravilla
y Exoticismo en Gonzalo Fernandéz de Oviedo Y Valdés (1478-1557), Madrid,
Fundacion Universitaria Española, 2002, p. 49.
V.

A novidade nas primeiras imagens do Outro


“(...) ajuntam-se todas estas mil mulheres, assim moças como velhas, (...)
muito bem ataviadas de muitos colares de pedrarias, assim muitas contas
de ouro de muito subtil obra (...) untadas com sândalo e com outras coisas
muito cheirosas; entre seus cabelos, metidas muitas flores.”

Duarte Barbosa1

Após a reflexão desenvolvida em torno de representações dos


novos espaços, em particular naquela que foi a abordagem dos
processos de notação do espaço e do tempo, a valoração dada ao
quantitativo, e as estratégias de descrição da natureza, impõe-se a
desocultação dos modos de percepcionar outras gentes. Repensar-
-se-á, deste modo, a percepção do Outro e os meios através dos quais
se foram intuindo e entendendo os contactos em novas terras.
Propõe-se, assim, um percurso do olhar, valorizando a dimensão
visual neste processo de encontro com o Outro, desenvolvendo, para
tal, sucessivas análises de diferentes signos em que essa percepção
se realiza e transmite. Traçaremos as primeiras imagens do Outro
através de exemplos que dialogam com várias formas narrativas e
com as reflexões anteriormente desenvolvidas. Assim apreender-
-se-á a forma como se descreveu o Outro, notando sejam as suas
abordagens eufóricas sejam as disfóricas. Além disso, impõe-se
como se prefigurou o analisar o processo de conceptualização da novidade e da diferença,
exótico
e como se prefigurou o exótico, compreendo a presença portuguesa
nos espaços extra-europeus.

1
O Livro do que viu e ouviu no Oriente.
120 Ana Paula Avelar

O estudo da repercussão de outros Mundos na Europa tem sido


uma área que recorrentemente abandona as sombras da investi-
gação e se catapulta para o centro da discussão mais ou menos
mediática. Não é objecto deste trabalho expor os contornos histo-
riográficos desta temática, apesar de este ser um exercício deveras
aliciante e que importa realizar. Pretendo aqui tão somente notar
as grandes linhas investigativas que nos últimos anos têm sido
tecidas sobre o modo como a visão do Outro participou de um Eu
europeu.

A este nível não poderiam deixar de ser referenciados os estudos


de Urs Bitterli, devido quer à sua problematização do encontro
entre as culturas europeias e não europeias (1492-1800), quer
ao desenvolvimento daquilo que procura ser, para além de uma
fenomenologia do Encontro, uma análise em torno da reflexão
escrita que foi sendo produzida ao longo dos séculos sobre esse
mesmo Encontro. Incontornável é igualmente o trabalho fundador
de Donald F. Lach2, Asia in the Making of Europe, no qual se demarca
um novo Olhar sobre o modo de problematizar um tempo,
descodificando como se foram construindo os Encontros entre o
espaço asiático e o europeu.

As discussões nesta área de estudo têm-se desenvolvido em


torno de uma certa categorização deste tempo histórico. Em torno
T
visão do Outro na do Confronto/Encontro de Culturas vão-se tecendo novas leituras
construção do eu
historiográficas sobre a forma como a visão do Outro interveio
na construção de um Eu. Em Portugal a problematização tem
decorrido no âmbito seja do espaço designado de “Cultura dos
Descobrimentos”, seja de “Cultura da Expansão”. Por outro lado, no
campo dos estudos literários a chamada Literatura de Viagens tem
sido objecto de um crescente e florescente interesse. Como Peter
Hulme e Tim Youngs recordaram em 2002: “Travel has recently
emerged as a key theme for the humanities and social sciences,
and the amount of scholarly work on travel writing has reached
unprecendented levels. The academic disciplines of literature,

2
Cf. Fontes Impressas e Bibliografia.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 121

history, geography, and anthropology have all overcome their


previous reluctance to take travel writing seriously and have begun
to produce a body of interdisciplinary criticism which will allow
the full historical complexity of the genre to be appreciated.”3

Também em Portugal se têm desenvolvido trabalhos nesta


esfera de análise. Fernando Cristóvão tem congregado toda uma
série de investigadores em torno desta área, propondo uma tipologia
para a Literatura de Viagens, num percurso que partiu do tema da
Viagem na Literatura para a Literatura de Viagens4. Ele considera esta
como “(...) o subgénero literário que se mantém vivo do século
XV ao final do século XIX, cujos textos, de carácter compósito,
entrecruzam Literatura com História e Antropologia, indo buscar
relatos de viagem à viagem real ou imaginária (por mar, terra e ar ) temas, motivos e

formas.”5

A abrangência desta para-definição distende-se quando o mesmo


teórico prossegue: “E não só à viagem enquanto deslocação,
percurso mais ou menos longo, também Tao que, por ocasião da
viagem pareceu digno de registo: a descrição da terra, fauna, flora,
minerais, usos, costumes, crenças e formas de organização dos
povos, comércio, organização militar, ciências e artes, bem como os
seus enquadramentos antropológicos, históricos e sociais, segundo
uma mentalidade predominantemente renascentista, moderna e
cristã.”6

universo discursivo em Sendo um universo discursivo em constante expansão e refor-


expansão mulação conceptual, e tendo em atenção a sua natureza singular,
defendo que este universo textual deve ser categorizado como o
da “escrita de viagem”, fidelizando esta a um projecto interdisci-

3
Peter Hulme e Tim Young, Travel Writing, Cambridge, Cambridge University
Press, 2002. p. I.
4
Cf. Fernando Cristóvão, Condicionantes Culturais da Literatura de Viagens-
Estudos e Biblliografias, Coimbra, Livraria Almedina-CLEPUL, 2002.
5
Ibidem, p. 35.
6
Ibidem.
122 Ana Paula Avelar

plinar, e ancorando-a numa postura de um “novo historicismo”


novo historicismo entendendo-o mais como uma colecção de práticas do que uma
escola ou um método. Tal “postura” comporta toda uma série de
características das quais destaco o facto de se pensar a cultura como
um sistema semiótico e uma rede de signos, considerando-se a
interdisciplinaridade como um meio de gerar novo conhecimento.
Além disso, entende-se aT História como sendo inicialmente um
tipo de discurso que não nega a realidade do acontecimento, visto
verdade história: a história ser aquilo que acontece no passado, isto é, um conjunto
reflexão crítica de acontecimentos e a narração dos mesmos, emergindo a verdade
sobre a adequação
do que é contado
histórica da reflexão crítica sobre a adequação daquilo que é
contado7. Ao defender uma “escrita de viagem” e não uma literatura
de viagens, amplio, é certo, o objecto, mas distingo-o claramente da
escrita de viagem X
ficção ficção.

5. 1. Pelos espaços africanos

Por tudo isto importa enquadrar os modos como têm sido


historiografados estes Encontros dos portugueses de Quinhentos
com os “novos Mundos” e como têm sido analisadas as suas
representações. Sistematizemos, através de meros vectores axiais
este percurso, detendo-nos em primeiro lugar no espaço africano
relativamente ao qual possuímos toda uma série de estudos que
se têm centrado sobre a imagem de África na literatura europeia
do século XVI, como os de William
T Graham Lister Randles. Em
África
Portugal, Marília dos Santos Lopes Honenberg tem-se debruçado
sobre os conhecimentos que corriam na Europa sobre o continente
africano nos séculos XVI e XVII, e José Silva Horta tem-se debruçado
sobre a imagem do africano nestes alvores da Modernidade8.

7
Cf. Michael Payne, The Greenblatt Reader, Oxford, Blackwell Publishing,
2005, p. 3.
8
Notamos estes trabalhos sem deixar de ter em atenção estudos como os de Jill
Dias, Isabel Castro Henriques e Alfredo Margarido, ainda que por vezes estes
se centrem em períodos cronológicos posteriores ao que aqui focalizamos ou
os de Carlos Almeida.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 123

descida da costa Mas radiografemos um tempo tendo presente a descida da


africana costa africana pelos portugueses. Desde a segunda metade do
século XV que surgem um conjunto de textos, desde cartas, como
2° metade do XV a de Antoniotto Usodimare (1455), comerciante italiano que
viajou nas velas portuguesas, ou relações que expõem as expedições
marítimas ao longo da costa africana. Estes textos apresentam a
observação dos seus autores ou servem-se dos testemunhos dos
que empreenderam estas viagens. Atente-se em De prima inventione
Guinnee (1485-1490), redigido por Martin Behaim, onde se
noticiam as impressões colhidas por Diogo Gomes nas viagens à
costa africana, nomeadamente à Guiné. Consideremos igualmente
um conjunto de obras centradas nas expedições levadas a cabo pelos
portugueses na sua descida pela costa africana ocidental e atentemos
no modo como elas se sucedem na segunda metade do séc. XV:

%BUBT "VUPSFT 'BDUPTF0CSBT


Gomes  Eanes  de   –  Crónica  dos  Feitos  Notáveis  que  se  passaram  na  conquista  
1453
Zurara da  Guiné  
1455 Antoniotto  Usodimare   –  Carta  de  Antoniotto  Usodimare9  
–  Viagens  de  Luís  de  Cadamosto  à  costa  africana
1455-­56
Alvise  da  Cá  da  Mosto –  Viagem  de  Pedro  Sintra  à  costa  africana
1460-­61
(Luís  de  Cadamosto) –  Finalização  da  escrita  dos  três  relatos  à  costa  africana,  após  
1463(?)
o  regresso  do  autor  a  Ítália  
o%F*OWFOUJPOF(VJOFF  escrito  que  integra  notícias  transmitidas  
1484-­1490(?) Martin  Behaim   por  Diogo  Gomes  que  tinha  efectuado  viagens  exploratórias  às  
costas  africanas  
1492 Rui  de  Pina Relação  do  Reino  do  Congo  
1495  -­? Jerónimo  Münster DF*OVFOUJPOF"GSJDBF...
1497-­1499 Álvaro  Velho Relato  da  primeira  viagem  de  Vasco  da  Gama
1504 Rui  de  Pina $SØOJDBEF%+PÍP**
1505-­1508 Duarte  Pacheco  Pereira &TNFSBMEPEFTJUV0SCJT
Text
1506-­1507 Valentim  Fernandes $ØEJDF
/BWJHB[JPOJ   impressas   nos 1BFTJ OPWBNFOUF SFUSPWBUJ
1507   Luís  de  Cadamosto QFSMB/BWJHBUJPOFEJ4QBHOBJO$BMJDVU,  de  Francesco  da  
Montalboddo

9
“Carta de Antoniotto Usodimare” in António Brásio, Monumenta Missio-
naria Africana – áfrica Ocidental, 2º série, I, Lisboa, Agência do Ultramar, 1958,
pp. 381-383.
124 Ana Paula Avelar

Primeiras notícias
Comecemos por observar algumas destas primeiras notícias
das viagens pelas costas africanas, que aliás foram igualmente
Münster objecto da pena de Jerónimo Münster. Recorde-se que Münster
visitou Portugal em 1494, registando no seu Itinerário pela Península
Ibérica, a admiração que nutria por D. João II. Ao visitar Lisboa e
o castelo do monarca, verdadeiro castelo régio, como escreve, com
os seus pavilhões e estâncias, expõe a admiração sentida ao ver dois
bravíssimos leões, e um mapa do mundo que, como assinala era
muito bem pintado, numa tábua muito grande e dourada, cujo diâmetro
era de catorze palmos10. Será, todavia, a TDe Inuentione Africae... que
sistematizará as expedições henricinas e descreverá a Guiné. Aludirá
ainda às ilhas de S. Tomé, Madeira e Açores, tendo como uma das
fontes o texto de Martin Behaim.

Não podemos referir este período sem evocar narrativas como


a de Valentim Fernandes, impressor da Morávia que, desde meados
de 1495 até 1518, data provável da sua morte, permaneceu em
Portugal, ou a do navegador veneziano, Alvise da Cá da Mosto,
também conhecido como Luís de Cadamosto. O confronto destes
dois textos permite percepcionar uma certa modalidade de olhar
que se repercute nesta escrita da segunda metade de Quatrocentos.
Tomemos, por exemplo, o modo como ambos descrevem o espaço
do Cabo Verde.

Só após o seu regresso a Itália em 1463, Cadamosto11 teria


revisto o seu manuscrito. Este conheceria a letra de impressa em
1507. Os seus escritos integrariam as colectâneas quinhentistas que
divulgavam os novos espaços agora percorridos pelos europeus
surgindo nos Paesi novamente retrovati per la Navigatione di Spagna
in Calicut, de Francesco da Montalboddo, e Delle navigationzioni et
Viaggi... (1550), de Giovanni Battista Ramusio.

10
Cf. Jerónimo Münzer, Viaje por España y Portugal, Madrid, Ediciones Polifemo,
1991, p. 177.
11
Recorro à designação aportuguesada do seu nome.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 125

Mas atentemos no seu texto: “Faço notar que para além do dito
Cadamosto
Cabo Verde, entra pela terra dentro um golfo; e a costa toda ela é
terra baixa, abundante de enormes e formosas árvores, inteiramente
verdes, que nunca perdem folha todo o ano, isto é, que nunca se
secam, como as nossas de cá, antes do nascer da folha; e chegam
formosa coisa estas árvores até à praia a um tiro de besta, que parecem que bebem
no mar [o que é] formosa coisa de ver (...)”12. Os seus habitantes são
referenciados através da enunciação do seu perfil enquanto grupo:
“Esta costa, passado este pequeno golfo do Cabo Verde, é habitada
por dois povos: um é chamado dos Barbacins; o outro, dos Sereros,
também negros, mas não sujeitos ao rei de Senega. Estes não têm
rei nem senhor algum próprio; mas honram mais um do que outro,
segundo a qualidade e condição dos homens que, entre eles há.”13

Após este breve enunciado da forma como se organiza a


comunidade, explicita-se, em breves traços, as suas dinâmicas
grupais. Assim: “Não querem consentir senhor nenhum entre eles,
para que lhes não sejam tiradas as mulheres e os filhos, e vendidos
por escravos, como fazem os reis e senhores, em todos os outros
lugares dos negros.”14 Se, por um lado, importa compreender a sua
organização social, por outro, é necessário entender as suas crenças:

12
Viagens de Luís de Cadamosto e de Pedro de Sintra, Lisboa, Academia Portuguesa
da História, 1988, p. 146-147. O texto em italiano da citada passagem é o
seguinte: “Notando che oltra el dito cauo verde se mete vm colfo dentro e la
costa e tuta terra bassa copiosa de grandissimj albori belissimj tuto verdi che
mai non butano fogia tuto lano . zoe che mai non se sechano como i nostri di
qua che prima i nase questi arbori fina sula spiaza a vn tirar de vm balestro
che par che i beuano in mar/ belissima cossa e da veder (...)” Ibidem, p. 51.
13
Ibidem. O texto em italiano da citada passagem é o seguinte: “Questa costa
passado questo pizolo colfodal cauo verde sie habita da doe generatione/luna
sie chiamada barbacinjLaltra sereri pur de negri ma non sono sotto posti al Re
de senega Costoro non hano re ne signor alguno proprio/ ma ben honorano
piu vno cha vnoaltro segondo la qualita e condition de li homeni che sono fra
loro(...)” Ibidem.
14
Ibidem. O texto em italiano da citada passagem é o seguinte: “Non voleno
consentir signor nesuno fra loro/ perche el non gie sia tolto la muiere e li fioli
e venduli per schiauj como fano li Re e li segnori in tuti li altri luogi de negri
(...)”. Ibidem.
126 Ana Paula Avelar

“Estes são grandes idólatras, não têm nenhuma lei e são homens
muito cruéis; empregam o arco e frechas, e atiram [-nas] com
venenos; desde que tocam na carne nua [e] desde que o sangue
verta, logo a criatura morre. São homens muito pretos e bem
encorpados.”15

Repare-se que a exposição é elaborada através dos dados


colhidos numa observação exterior ao grupo. A distância marca toda
a informação fornecida, não surgindo quaisquer detalhes que indi-
ciem uma aproximação por parte do observador/ narrador ao grupo
observado/descrito. É o grupo, enquanto conjunto, que se transmite.

Já Valentim Fernandes terá elaborado o seu relato nos anos de


1506 e 1507, correndo este manuscrito. Segundo este texto: “A costa
alem do cabo [verde] he toda baixa e chea de fremosas aruores e
deleitável
grandes que nunca perdem a folha/ costa delectauel e tem muitos
ryos pequenos que nom entram nauios/ feyto como golffo e todo
pouoado// A terra dos Sereos he junto com bezeguiche que husam
de frechas por armas(...)”16. O discurso é conciso, apresentando
breves indicações sobre o espaço, sinalizando-se as gentes.

No texto do impressor são nucleares as indicações historio-


gráficas, sendo noticiada a forma como as embarcações portuguesas
aportaram a terras africanas. Nas suas palavras o Cabo Verde foi
achado no ano de 1446 por Dinis Dias, criado do Infante: “(...)
porem com muyto nom foy a terra e tornou a Portugal pello qual
ho anno seguinte forom pera Arguym 26 nauios e hũa fusta das
quaes Lançarote foy ho capitam mor E forom de Arguym algũas
carauellas que tornarom pera Portugal E Lançarote com as outras

15
Ibidem. O texto em italiano da citada passagem é o seguinte: “(...) costoro
sono grandi Idolatri e non hano leze nesuna e sono crudellissimj homeni
evxano larcho com le frize e tirano con i uenenj e doue i tocha in carne nuda
doue chel sangue ensa subito la creatura e morta Sono homeni negrissimj e
ben incorporadi(...)” Ibidem.
16
Códice de Valentim Fernandes, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1997,
p. 69.
17
Ibidem, p. 67.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 127

chegou ao Cabo Verde (...)”17. Tais dados não foram evocados por
Inclusão do Cadamosto, pois esse não era o seu propósito, visto que aquilo que se
impressor pretendia era, tão somente, noticiar uma distinta presença. Valentim
Fernandes, o impressor radicado em Lisboa, intenta o historiografar
intento de historio-
grafar da passagem por terras e mares até aqui tão desconhecidos de um
público tão ávido de notícias, como era o da Europa de então.

Ainda que neste momento não se explorem os propósitos e


modelos discursivos refira-se que a similitude de processos utili-
mesma modalidade zados nestes textos denuncia uma mesma modalidade de obser-
de observação T
vação. Mesmo que possamos contrapor que tal decorre do eventual
uso da mesma fonte, tal não contradiz a assunção de uma mesma
matriz, visto que é o sujeito autoral quem escolhe o testemunho.
sinalizações que A permanência dos contactos permitirá que, ao longo do tempo,
as narrativas focalizem os espaços, partindo destas sinalizações
conduzem as narrativas
posteriores
esquemáticas das gentes para a exposição das particularidades dos
espaços, dos hábitos e dos costumes das suas nações como acontece,
já no final do século XVI, em 1594, no Tratado Breve dos Rios da
Guiné, de André Álvares de Almada.

Impõe-se, porém, a evocação de Gomes Eanes de Zurara e da


sua Crónica dos Feitos da Guiné, visto este ser o cronista que funciona
matriz fundacional como matriz fundacional para aqueles que, em Quinhentos,
escrevem as Histórias Gerais sobre a presença portuguesa nos
espaços extra-europeus, muito em particular, na Índia, os cronistas
da Expansão. Ele foi aquele que, para escrever sobre a presença
portuguesa nos espaços africanos, se deslocou ao Norte de África,
sendo por isso louvado por Fernão Lopes de Castanheda. São os
feitos de armas dos portugueses naquele espaço o topos das suas
crónicas sobre a Tomada de Ceuta e as figuras de D. Duarte de
Meneses e de D. Pedro de Meneses. Já a sua Crónica da Guiné
centra-se na acção do Infante D. Henrique e na exploração atlântica
da costa africana.

Gomes Eanes de Zurara teria escrito a D. Afonso V a 23 de


Fevereiro de 1453, entregando-lhe a obra realizada a seu pedido
sobre a figura do Infante. O confronto com o Outro expõe-se,
128 Ana Paula Avelar

ao longo das suas páginas, intervindo, em particular a voz do


autor na descrição da chegada a Lagos dos escravos que haviam
sido capturados em terras africanas. O quadro impressivo por ele
traçado transita da maravilhosa cousa de se ver tão diferentes gentes,
matizes dos alguns de razoada brancura, fermosos e apostos, outros menos brancos, que
africanos queriam semelhar pardos, outros tão negros como etíopes, para o pungente
infortúnio de se ver apartar os filhos dos pais, as mulheres dos maridos os
irmãos uns dos outros. Cinematicamente o autor descreve os sentires,
convocando os olhares, e as vozes: “Que uns tinham as caras baixas
e os rostos lavados com lagrimas, olhando uns contra os outros;
outros estavam gemendo mui dolorosamente, esguardando a altura
dos ceus, firmando os olhos em eles, bradando altamente, como
se pedissem acorro ao Padre da natureza; outros feriam seu rostro
com as palmas, lançando-se tendidos no meio do chão; outros
faziam suas lamentações em maneira de canto, segundo o costume
de sua terra, nas quaes, posto que as palavras da linguagem aos
nossos não podesse ser entendida, bem correspondia ao grau de sua
tristeza.”18

Zurara faz recair na roda da fortuna a causa de tão pouco


piedoso acto, justificando a partilha dos cativos, feita sob a égide
JUSTIFICA O do Infante, pela salvação daquelas almas que antes eram perdidas,
ATO POUCO
PIEDOSO legitimando através do seu testemunho esta intenção: “(...) e eu
que esta história ajuntei em este volume, vi na vila de Lagos moços
o fim justifica e moças, filhos e netos daquestes, nados em esta terra, tão bons e
o ato verdadeiros Cristãos como se descenderam de começo da lei de
Cristo, por geração, daqueles que primeiro foram bautizados.”19

Estas sinalizações esquemáticas vão perpassando a escrita


sobre as novidades dos espaços extra-europeus, dilatando-se e
aprofundando-se quando se debruçam sobre aqueles em que se
assiste a um fluxo mais ou menos permanente de contactos. Em
textos como o Esmeraldo De Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira, a

18
Gomes Eanes da Zurara, Crónica de Guiné, Porto, Livraria Civilização, 1973,
p. 122.
19
Ibidem, p. 124.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 129

sinalizações esquemá-par da notação cosmográfica e de marinha que, como escreve no seu


ticas prólogo, por extenso e mais largamente intenta fazer20, o “Reino do
Congo e da terra dos anzicos onde comem homens”21, é igualmente
tratado pela sua pena. A observação dos primeiros contactos é
registada por Duarte Pacheco Pereira, sinalizando que os habitantes
Congo
se servem de almadias nos seus rios os quais são muito doentios de
febres, oferecendo muito pescado. A acção do monarca português,
no sentido de converter as gentes é referenciada, escrevendo o autor
que el-rei D. João teria enviado frades e clérigos para ensinar as
coisas da Fé, os quais levaram ricos ornamentos de Igreja e órgãos e
outras coisas necessárias ao ofício religioso e à conversão das gentes.
Segundo ele, não foi, contudo, possível acabar com a poligamia que
era praticada nestas paragens. A abundância em cobre muito fino e
em marfim é mencionada bem como o facto de no reino do Congo
serem fabricados uns panos de palma, de pêlo como veludo. Sob o
império da vista, o tacto é convocado. Alguns destes tecidos possuem
lavores: “(...) como Catim Velutado tam fermosos R a obra delles
se nom faz melhor feyta em Italia // e em toda a outra Guinee nom
ha terra em R saybam faser estes panos nao senom neste Reyno de
Conguo(...)”22.

A excelência destes têxteis é, assim, evidenciada, não deixando


de ser referenciado o resgate de escravos. Subscrevendo uma
estratégia discursiva onde o registo inventariante predomina,

20
“(...) ho que toca ha Cosmografia e marinharia por extenso espero dizer, e
portanto farey primeiro com breuidade mençam dalguns circulos supriores
e da cantidade da terra, e davoua qual destas duas he a mayor parte decrarado
sumariam.te ha grandeza dafrica e asy dasia honde vossas vitorias asy no
oureitne como no oucidente floresem// e destas duas soómente e breuemente
quanto ao interior da terra se dira e ho do lito ou costa do mar todo ho
que toca ha marinharia e Cosmografia mais larguamente farey mençam e
portanto seram aqui decraradas todalas Rotas .s. como jaz hum promontorio
ou luguar com outro e isto porque esta obra leue hordem e fundamento e
ha costa mais seguramente se possa nauegar e o mesmo as conhesansas das
terras (...)”. Joaquim Barradas de Carvalho, Esmeraldo de Situ Orbis, Lisboa,
Fundação Calouste Gulbenkian, 1991, p. 5.
21
Cf. Ibidem, p. 502.
22
Ibidem, p. 67.
130 Ana Paula Avelar

Duarte Pacheco Pereira afirma desconhecer a existência de outros


produtos nestas paragens. No entanto, na sua notação cuidada do
espaço e na parte nordeste das terras do Congo, localiza uma outra
província, a dos anzicos (baixo Zaire) onde qualquer homem: “(...)
R morre na guerra ora seja dos seus ora dos alheios Longuo ho
Comem qualqr outra R he doente em tal extremo que lhe parese R
pode morrer (...)”23. As causas destas práticas são enunciadas, sem
que se justaponha qualquer juízo moral sobre as mesmas.

Este espaço continua a ser revisitado ao longo do século XVI,


difundido-se na Europa os textos que sobre ele se debruçam
como a Relatione del reame di congo et delle circonvicine contrade – Tratta
dalli Scritti & ragionamenti di Odoardo Lopez Portoghese, Per Filippo
Pigafetta PIGAFETTA Com disegni vari di Geografia... (1591). Este texto
de Pigafetta é construído a partir das narrações de Duarte Lopes,
judeu converso que, em 1578, teria partido para o Congo, onde
permaneceria pelo menos durante cinco anos, regressando depois
à Europa e chegando mesmo à corte Papal. Aí, pela mão do bispo
Migliore, Bispo de S. Marcos e Comendador de Espírito Santo,
Filippo Pigafetta seria instado a redigir a sua relação do Congo.
A primeira impressão do seu texto sairia em Roma, através da
chancela de Bartolomeu Grassi e incluiria alguns mapas, onde o
espaço africano seria delineado. Duarte Lopes teria igualmente
entregado ao humanista italiano uma representação cartográfica de
África. Esta congregaria as informações que, ao longo deste século
XVI, correriam nas representações cartográficas portuguesas dos
novos espaços.

23
Ibidem, p. 68.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 131

Fig. 1 – Carta inclusa na


obra de Filippo Pigafetta
onde onde se representa o
espaço Africano

A relação do Congo redigida por Pigafetta sofre várias edições,


onde, como acontece na alemã, datada de 1597, se incorporariam
os desenhos de alguns dos acontecimentos relatados. Nesta edição
alemã integrar-se-iam 13 gravuras, onde eram representados alguns
dos momentos considerados mais expressivos desta presença e
permanência em terras africanas, como, por exemplo, o baptismo
do senhor do Sonho24. O traço é da autoria de um europeu, Theodor
de Bry. O movimento serpenteado dos portugueses que, armados,
se dirigem para o interior, contrapõe-se ao baptismo do rei local.
No interior do templo, ainda em construção, perfila-se um clérigo
em adoração junto ao altar, sobre o qual se ergue um tríptico em
cujo painel central se representa Cristo pregado na Cruz.

24
Cf. Marília dos Santos Lopes, op. cit., p. 214 e Marília dos Santos Lopes, Da
Descoberta ao Saber, Os conhecimentos sobre África dos séculos XVI e XVII, Viseu,
Passagem Editores, 2002, pp. 94-102.
132 Ana Paula Avelar

Fig. 2 – Chegada dos Portugueses ao Congo. Pigafetta, edição alemã (1597)

O interesse pelas novas paragens e a impressão dos relatos que


descreviam as peregrinatio pelos espaços extra-europeus potencia-se
com as notícias que fluem daqueles que partem e que permanecem
por tão estranhas e maravilhosas paragens. Se tomarmos as várias
relações de viagens, sob o signo do monarca português, que são
impressas logo nos primeiros anos de Quinhentos nas diferentes
línguas vernaculares, ainda que algumas delas tenham sido igual-
mente impressas, na língua franca, em latim, apreendemos o enorme
impacto e interesse suscitado por estes mesmos relatos. Nesta breve
resenha não assinalamos as obras que são impressas só em língua
obras em
latim latina25, visto aqui pretender sinalizar a abrangência de públicos
que se procurava atingir, respondendo deste modo a uma procura
crescente e diversificada. Observe-se, só a título de exemplo,
algumas dessas obras e os seus autores26:

25
Cf. Luís de Matos, L’Expansion Portuguaise dans la litterature latine de la
Renaissance, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991.
26
O quadro que a seguir se apresenta foi elaborado tendo como ponto de
partida a obra de António Alberto Banha de Andrade, Mundos Novos do
Mundo..., Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1972.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 133

%BUBT "VUPSFTTVBPSJHFNFPCSBT -ÓOHVBT


4  edições  em  latim
 5  edições  em  latim
1505 5  edições  em  alemão
1506 Amerigo  Vespucci  (viajante    florentino)  –  Mundos  Novus   3  edições  em  latim  
6  edições  em  alemão
1507 edição  em  italiano*
1508 edição  latim  /  alemão  /  
holandês  /  italiano
edição  em  francês
1510 -FUUFSBEJBNFSJHP7FTQVDDJEFMMFJTMPFOPVBNFOUFUSPWBUFJORVBUUSP edição  em  italiano
 2VBUUVPS"NFSJDJ7FTQVUJJ/BWJHBUJPOFT edição  em  latim    

Balthasar  Springer  (viajante  tirolês)  texto  original  editado  por  Jan   edição  em  flamengo
 van  Doesborch  em  flamengo  –  %JF3FZTFWÍ-JTTFCPOFPNUF
WBSFNOBEJFZMÍEU/BHVBSJBJOHSPPU*OEJFO  com  gravuras  de  
Hans  Burgkmair  (originário  de  Augsburg)
–   Die   Merfart Vn ërfarung   nürwer   Schiffung   und   wege   zü   vin   edição  em  alemão
 onerkanten  Inseln  und  kunigreichen…
o%FOPVPNPOEP edição  em  latim
o0GUIFOFXF-ÍEFTBOEPGZQFPQMFTGPVOEFCZNFTTFOHFSTPG edição  em  inglês

UIF,ZOHFPGQPSUVHBMF OBNFE&NBOVFM  

Francanzano  Montalboddoo1BFTJOPVBNFOUFSFUSPWBUJ 5  edições  em  italiano  

o*UJFOBSJVN1PSUVHBMMFOTJVNF- VTJUBOJBJO*OEJBFUJOEF0DDJEFOUFN edição  em  latim


FUEFNVNBEBRVJMPOFN
o/FXFVOCFLBOUIF-BOEUVOEFJOOFXFXFMEUFJO,VSU[WFSHBOHFS edição  em  alemão

;FZUFFSGVOEFN
4FOTVZUMF/PVWFBV.POEFFU/BWJHBUJPOTGBJDUFTQBS&NÏSJD 4  edições  em  francês
EF7FTQVDF'MPSFOUJOEFTQBZTFUJTMFTOPVVFMMFNFOUUSPVWF[
BVQBSBWBOUBOPVTJODPOHOFV[y

12  edições  em  italiano


2  edições  em  latim  
Ludovico  Varthema  –  *UJOFSBSJPEJ-VEPWJDPEF7BSUIFNBBDVSB 4  edições  em  
EJ1BPMP castelhano

7  edições  em  alemão
 edição  em  flamengo
edição    em  francês  
edição  em  inglês
Edição  em  português
Francisco  Álvares  –  )P1SFTUF+PBNEBT*OEJBT 2  edições  em  
castelhano

2  edições  em  francês?
5  edições  em  italiano
4  edições  em  alemão    
4  edições  em  italiano

Gian  Baptista  Ramúsio,  /BWJHBUJPOJFUWJBHHJ 2  edições  em  francês
134 Ana Paula Avelar

Recorde-se que as compilações de relatos de viagens como


os Paesi nouamente retrouati... de Montalboddo ou as Navigationi et
viaggi... de Ramúsio dão a conhecer toda uma série de textos que
corriam manuscritos a par de outros que já conheciam a letra de
imprensa. Nesta exposição só indiquei os textos que correram
impressos em diferentes línguas vernaculares e que foram objecto
de edição autónoma para além da sua tradução e inclusão nestas
colectâneas.

Esta prática de editar textos, que circulam e que são muitas


vezes compilados em códices, perdura ao longo do século
XVI, e ultrapassa o registo temporal dos Paesi... ou mesmo das
Navigationi... Procura-se, através deles, fornecer, a um público mais
alargado, quadros gerais de um mundo extra-europeu, oferecendo
ao mesmo tempo os percursos de uma presença. Veja-se como,
logo em 1517, Alessandro Zorzi toma os impressos presentes
na obra de Montalboddo e outros, e colige toda uma série de
manuscritos, apondo à margem notas e esboços que representam
os novos espaços, como os americanos27. Este propósito de traçar
um quadro geral é igualmente retomando por António Galvão,
o qual estabelece um programa de escrita audaz visto pretender
traçar todos os descobrimentos antigos e modernos no seu Tratado,
publicado, pela primeira vez, em 1563.

É certo que já anteriormente evoquei as traduções parcelares


ou de livros das crónicas da Expansão, escritas em português e por
portugueses que, a partir de 1551, são impressas e que historiam
uma presença, a de um reino noutras paragens extra-europeias.
Importa, porém, neste momento, sublinhar que, nestes alvores
de Quinhentos, se assiste a uma ávida procura de narrativas que
descrevam as primeiras deambulações por outros espaços, não só
naquelas que são as viagens por outras águas, mas também pelos
estranhos, porque inusitados, percursos terrestres.

27
Cf. António Alberto Banha de Andrade, op. cit., II, p. 755.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 135

Durante o século XVI continuam a ser usadas as rotas terrestres


para atingir o espaço oriental. Os propósitos que as ditam são
diversos, desde a peregrinação aos lugares santos, como a de Frei
Pantaleão de Aveiro, ou de missionação, como as que decorrem da
presença em embaixadas enviadas aos reinos asiáticos cujo nome
povoa o imaginário, como o do itinerário de António Tenreiro,
ou ainda as que decorrem da vontade de dar a conhecer caminhos
até então não frequentados comummente por europeus, como
acontece com o texto de Mestre Afonso; textos que, por vezes,
vão sendo palimpsesticamente manipulados ao longo dos tempos.
Refira-se, só a título de exemplo, que Fernão Lopes de Castanheda,
João de Barros e mesmo Gaspar Correia evocam o itinerário de
António Tenreiro.

Num momento em que a carreira da Índia já estava estabelecida,


e em que as narrativas da permanência nas novas paragens já
circulavam pelos círculos europeus, viagens como a de Ludovico
Varthema28, são amplamente acolhidas. Aliás, este Itinerario de
Ludovico di Varthema Bolognese nello Egypto, nella Suria, nella Arabia
deserta e felice, nella Persia & nella Ethiopia. La fede, el vivere & costumi de
tutte... é paradigmático pelo modo como oferece ao seu leitor, logo
em 1510, as novidades de outros espaços, num percurso que parte
de Alexandria até às ilhas Molucas. Segue-se o trilho de Marco
Polo, percorrendo-se a rota da seda e acompanhando-se a rota das
especiarias iniciada e explorada pelos portugueses.

Jean Aubin, no seu ensaio sobre este Itinerário, expõe a difusão


que esta obra teve no seu tempo. É certo que Fernão Lopes de
Castanheda leu esta obra, evocando-a e ao seu autor na História
do Descobrimentos e Conquista da Índia pelos Portugueses. O cronista
sinaliza os contactos que Ludovico, que referencia como Luís
Patrício, teria estabelecido com D. Lourenço de Almeida e com seu
pai D. Francisco de Almeida, o primeiro vice-rei da Índia. Varthema

28
Cf. Jean Aubin, Le Latin et l’Astrolabe – Recherches sur le Portugal de la Renaissance,
son Expansion en Asie et les Relations Internationales, Lisboa-Paris, Centre Culturel
Calouste Gulbenkian-CNCDP, 2000, II, pp. 483-505.
136 Ana Paula Avelar

seria, aliás, armado cavaleiro, sendo recompensado pela actuação


que teria tido na batalha de Panane29.

No seu ensaio, Jean Aubin afirma que Castanheda teria lido


a versão castelhana da autoria de Cristóbal de Arcos, impressa em
1520 em Sevilha, não expondo as razões que o teriam levado a esta
Varthema conclusão. É, todavia, realmente nesta edição que LudovicoVarthema
surge como Luís Patrício. Este é o Itinerario del venerable varon micer
Luis Patricio romano: en el qual cuẽta mucha parte dela Ethiopia Egipto. Y
entrãbas Arabias: Siria y la India. Buelto de latin en romance por Christobal
de arcos clerigo. Nunca hasta aqui impreso en lengua castelhana. A obra
encontra-se dividida em livros. No livro intitulado “En las cosas
que ya en la India” são narradas as peripécias vividas por Varthema
quando permanece junto dos portugueses, retomando Fernão
Lopes de Castanheda este trecho da narrativa na sua História do
Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses.

Mas reverbera ainda na História… o modo como são apre-


sentados por este nosso bolonhês os ídolos hindus. Se é certo
que, no momento em que Castanheda referencia a primeira
viagem de Vasco da Gama à Índia, a sua fonte é a descrição que
corria manuscrita da mesma, aquela que é conhecida como sendo
o relato da viagem de Gama por Álvaro Velho, as referências ao
modo como é adorado o ídolo de Calecute, são, na minha opinião,
inequivocamente inspiradas pelo texto de Varthema. No relato de
Alvaro Velho Álvaro Velho (1497-1498) deparamo-nos com a narração da visita
do capitão-mor português a um templo bramânico onde este teria
sido convidado a entrar. Aí oraria numa, segundo as suas palavras,
capela. Nas paredes, do que ele denomina de igreja, estariam
pintados muitos santos, os quais teriam diademas e a sua pintura era, como
assinala, em diversa maneira, porque os dentes eram tão grandes que saíam
da boca uma polegada e cada santo tinha quatro e cinco braços30.

29
Cf. Fernão Lopes de Castanheda, op. cit, II, pp. 266 e 359.
30
Diário da viagem de Vasco da Gama, pp. 40-41.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 137

Fernão Lopes de Castanheda, quando descreve, nas últimas


décadas da primeira metade de Quinhentos, esta mesma viagem,
referencia esse episódio, afirmando que, na visita a Calecute, o
catual levou Vasco da Gama a um pagode de seus ídolos: “E indo por
eƒta igreja virão muytas imagẽs pintadas pelas paredes, & delas
tinhão tamanhos dentes que lhe ƒayão fora da boca hũa polegada,
& outras tinhão quatro braços & erão feas do roƒto que parecião
diabos (...)”31.

Esta similitude não aparece no texto de Álvaro Velho. Nem


tão pouco são mencionadas dúvidas da parte dos portugueses
relativamente à presunção de estarem num templo cristão. Refor-
çando exactamente este facto e a identificação do ídolo de Calecute
com o Demo, migração da leitura varthemiana de um culto, na
História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos portugueses, João
de Sá, um português da comitiva de Gama, teria declarado que:
“Se iƒto he diabo eu adoro a Deos verdadeyro (...)”32, provocando o
sorriso do capitão-mor.33
influência de
Varthema A inscrição ou adopção de Varthema é ainda mais evidente
quando comparamos o texto de Castanheda ao dos seus contempo-
râneos. João de Barros, que também se serviu de Álvaro Velho para a
sua crónica da Expansão, apenas referencia que o catual teve muito
prazer pelo facto de os portugueses terem orado naquele espaço
devocional, parecendo-lhe que seriam dados ao culto de adoração
de imagens. Assim, e apesar de Barros descrever a solenidade do
acto, unicamente evoca o vocábulo, sem que se sirva de qualquer
outro artifício para caracterizar a natureza do culto que agora, pela
primeira vez, os portugueses presenciam34.

31
Fernão Lopes de Castanheda, op. cit., I, p. 46.
32
Ibidem, p. 47.
33
Ibidem.
34
Cf. João de Barros, Ásia... Primeira Década, p. 148. Refira-se que Gaspar
Correia nas suas Lendas da Índia não referencia esta presença num templo
local. Cf. Gaspar Correia, Lendas da Índia, I, p. 87. Já Damião de Góis ao
escrever a crónica do rei D. Manuel segue João de Barros assinalando a
existência de imagens. Atente-se que este nosso humanista leu Fernão
138 Ana Paula Avelar

Fig. 3 – Ídolo de Calecute – Varthema, impressão alemã do séc. XVI

Importa evocar, em seguida, um pouco mais detalhadamente


o impacto que a descrição dos espaços percorridos por Varthema
tem no seu tempo, nomeadamente através das gravuras que inte-
graram a edição alemã desta obra cuja repercussão atravessa o
imaginário europeu ao longo dos séculos (cf. fig. 3 e 4). Recorde-se,
ainda que brevemente, as palavras de Partha Mitter quando traça as
tradições que se repercutem nestes figurações: “(…) The Deumo
of Varthema reveals further new features, for it is a composite
monster, drawing up several different traditions. First of all, the
papal triple crown worn by the Sathanas of Calicut reminds one
immediately of the traditions of popes in hell (…). In the case of
Varthema it is difficult to say whether he was following a satirical
tradition or not (…). The creature´s three crowns, four teeth, and

Lopes de Castanheda. É interessante ter em atenção que Góis referencia,


evocando Duarte Barbosa, que os gentios canarins do Malabar têm templos
a que chamam Pagodes muito grandes, bem ornados, com muitas imagens, que são
afiguradas, segundo as suas palavras como anjos e diabos e como homens e
mulheres, e outras muito diversas. Cf. Damião de Góis, Chronica do Felicissimo
Rei Dom Manuel, I, p. 96.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 139

four horns remind us distinctly of the dragon of the Apocalypse


(…) the play upon the number three and four is so striking that it
cannot be easily dismissed. Also one only needs to remender that
the dragon symbolized pagan empires of the East.”35

Fig. 4 – Ídolo de Calecute recebendo o sacrifício, Varthema, impressão alemã do séc. XVI

Por outro lado, quando Partha Mitter analisa a segunda


imagem do Diabo de Calecute (cf. fig. 4) inclusa na edição alemã
do Itinerário de Varthema não pode deixar de nos recordar que:
“(…) the Deumo receiving sacrifice is a more straighforward devil-
figure with horns like the one we encountered in Livre des merveilles.
However, here it has claws instead of cloven hooves for its feet.”36
A tradição europeia reverbera na transposição do que é “dito” sobre
as novidades agora “vistas”.

35
Partha Mitter, Much Maligned Monsters – A History of European reactions to Indian
Art, Chicago, Chicago University Press, 1977, p. 18.
36
Ibidem, pp. 18-19.
140 Ana Paula Avelar

A tradução alemã do Itinerário de Varthema ocorre em 1515,


corporizando, através das gravuras que a acompanham, a imagem
verbal dos deuses hindus. Como refere Partha Mitter em Much
Maligned Monsters – A History of European Reactions to Indian Art:
“It was only in 1510 with the publication of Varthema’s Itinerario
that the western image of Indian gods received an entirely new
and sharp definition.”37 O facto de esta ser uma obra que corre a
Europa de então nas várias línguas vernaculares, repercute-a nos
círculos cultos de Quinhentos, presentificando-se em posteriores
descrições do espaço então revelado.

Contudo como sublinha Joan-Pau Rubiés, ao se debruçar


sobre o impacto que este Itinerário teve na Europa do seu tempo:
“Varthema’s identity as an independent observer and adventurer
was not accompanied by any sophisticated intellectual concerns
on his part. As a consequence, his otherwise original narrative
did not produce reflections substantially different from those of
Marco Polo or Nicolò Conti. The increase in the number of travel
narratives brought about by the Portuguese arrival in the East
did, however, create a pressure to write informative and precise
descriptions.” 38

Exemplar é o modo como mimeticamente se vai represen-


tando o ídolo de Calecute, nas descrições dos viajantes europeus,
partindo-se, para tal, da enunciação fundacional de Varthema.
Este texto e a sua transcrição pictural repercurtir-se-ão ao longo do
século XVI: “The Deumo of Varthema set the tradition of demons
adored in India in literary accounts and in illustrations (...). While
the picture of Anti-Christian demons posing as Indian gods
continued to haunt the pages of travelers, each traveler began to
enrich the tradition by adding elements from his own experience
in the travelers as well as from his knowledge of the medieval
demonological iconography. The descriptions inevitably gained

37
Ibidem.
38
Joan-Pau Rubiés, Travel and Ethnology in the Renaissance-South India through
european eyes, 1250-1625, Cambridge, Cambridge University Press, 2002, p. 162.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 141

in conviction as circumstantial details from the traveler’s own


experience were added to them.”39

A tradução do desconhecido pelo conhecido, transmigrada


nas formas de representação é exemplarmente analisada nos casos
abordados por Partha Mitter. Se é certo que, como este autor
referencia, ecoa, em Varthema, as ilustrações do livro de Maravilhas,
atribuído a Mandeville, que corriam na Europa medieval, e que
tinham sido amplamente gravadas por artistas alemães, também
é certo que o experienciado que flui através da palavra do nosso
bolonhês ressoa na representação verbal e pictural do ídolo de
Calecute.

Como já referimos, não terá sido apenas Fernão de Castanheda


que terá lido Varthema, pois também João de Barros terá percorrido
esta obra. Segundo Jean Aubin, este autor tê-lo-ia feito através da
sua consulta à Novus Orbis de Simão Grynaeus40. Refira-se que João
de Barros assinala na Primeira Década da Ásia... o encontro de um
italiano, de nome Ludovico Romano, com D. Lourenço de Almeida.
Após algumas peripécias, teria o nosso Ludovico regressado a
Portugal na armada de Tristão da Cunha, tendo seguido para Itália
onde escreveria, em língua vulgar, a sua peregrinação e as coisas que
passou com D. Lourenço: “(...) o qual tractádo depois ƒe treƒladou
para latim & anda encorporádo em hum volũme jntitulado Nouus
Orbis.”41

Não é claro que Barros tenha recorrido à edição latina, até


porque referencia o facto de o texto ter sido escrito em língua
italiana. Atente-se que este sairia pela primeira vez em 1510, sendo
a primeira tradução latina, da autoria de Archangelo Madrignano,
datada de 1511. Por seu turno, a citada Novus Orbis, de Simão
Grinaeus, sai pela primeira vez em 1532 na cidade de Basileia,
sofrendo posteriores reimpressões.

39
Partha Mitter, op. cit., p. 19.
40
Cf. Jean Aubin, op. cit., II, p. 484.
41
João de Barros, Ásia... Primeira Década, p. 389.
142 Ana Paula Avelar

Sem que seja igualmente registada a origem de tal informação,


Jean Aubin refere que Damião de Góis teria consultado não só o
texto italiano do itinerário varthemiano mas também o texto latino.
Recorde-se que Góis permaneceu em Itália durante os anos de
1534-1538 e que é na segunda parte da Crónica do Felicissimo Rei Dom
Manuel que este humanista referencia que, estando D. Lourenço de
Almeida em Cananor, teria sido procurado por: “(...) hũ homem per
nome Luis vuartmã natural de Bologna em Lombardia, que andára
por muitas partes do mundo, de que escreueo um tratado (...)”42.

As anotações específicas à batalha de Panane, ao facto de


Varthema ser armado cavaleiro pelo vice-rei, e ter regressado a
Portugal na armada de Tristão da Cunha, são sinalizadas por Góis:
“Ho Viçerei depois que ho fogo se ateou de todo na villa, se recolheo
á praia, onde armou muitos caualleiros, entre hos quaes foi Luis
vuartman Bolonhes, de que atras fallei, que se veo com Tristam da
cunha a este Regno, & screue esta batalha no seu Itenerario.”43

São igualmente conhecidos os contactos de Damião de Góis


com Simão Grinaeus, nomeadamente as várias missivas que terão
sido trocadas44, tendo o nosso humanista lido a Novus Orbis. Não
devemos esquecer que teria sido Góis o responsável pelo envio
a Ramusio45 do manuscrito da obra de Francisco Álvares sobre o
Preste João das Índias. Góis repetidamente remete o seu leitor para
esta narrativa. Fá-lo, seja na Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel,
seja na Fides, Religio, Moresque Aethiopum sub Imperio Preciosi Joannis
degentium Damiano a Goes ac Paulo Jovio interpretibus46. A figura do

42
Damião de Góis, Chronica do Felicissimo Rei Dom Manuel, Coimbra, Imprensa
da Universidade, 1953, II, p. 39.
43
Ibidem, p. 84.
44
Várias são as referências que encontramos na epistolagrafia goesiana a
Simão Grineu. Cf. Amadeu Torres, As Cartas Latinas de Damião de Góis, Paris,
Centro Cultural Português, 1982.
45
Cf. Francisco Leite de Faria, Estudos Bibliográficos sobre Damião de Góis e a sua
Época, Lisboa, secretariado de Estado da Cultura, 1977, p. 201.
46
Esta obra sai em 1540 em Lovain, e em 1541 em Paris. Cf. Damião de Góis,
op. cit., III, p. 236, IV, p.127.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 143

Preste João percorre o imaginário europeu sendo objecto dos relatos


que noticiam as deambulações portuguesas pelas terras do Preste.

Fig. 5 – Frontispício da obra


de Francisco Álvares

Francisco
A obra de Francisco Álvares, Verdadeira Informação das Terras do
Alvares
Preste João, corporiza o lugar do encontro entre o reino cristão do
Ocidente e o reino cristão a Oriente47, sendo citada por aqueles, como
Fernão Lopes de Castanheda, João de Barros ou Gaspar Correia
que descrevem a presença portuguesa no espaço extra-europeu na
cronística da Expansão. Observe-se como no frontispício de 1540 se
materializa o referente curial europeu, distinguindo-se os cavaleiros
portugueses que se encontram em terras do Preste. Iconicamente,
as armas de Portugal despontam neste frontispício, não deixando
de a esfera manuelina secundar cenograficamente, sob o ondulante
estandarte, uma presença.

47
Vários têm sido os trabalhos realizados sobre a questão do Preste João das Índias
e a problematização em torno da Etiópia. Assinalo aqui a título de exemplo os
trabalhos desenvolvidos por Manuel João Ramos.
144 Ana Paula Avelar

Os posteriores contactos por terras do Preste


serão amplamente noticiados, tanto nas crónicas,
régias ou da Expansão portuguesa, como nos
discursos sobre expedições enviadas pelo soberano
de Portugal ao Reino da Etiópia. A embaixada de
D. João de Bermudes e a narrativa de Miguel de
Castanhoso sobre os feitos de D. Cristovão da
Gama são disso manifesto exemplo.

Este é um espaço que tem obrigatoriamente


que ser “lido”, tendo em atenção que, como
escreve Manuel João Ramos: “O tema do Preste
João constitui-se, inquestionavelmente, como
epicentro ideológico do projecto dos chamados
“Descobrimentos” – i.e, nos termos estritos da
teologia política renascentista, da “iluminação”
do mundo, no âmbito de um projecto ecuménico
e imperial cristão europeu. O caso particular da Fig. 6 – Detalhe do
Frontispício da obra
divinização e diabolização deste rei-sacerdote de Francisco Álvares
oriental merece inspirar uma reflexão atenta
sobre fenómenos deste tipo em todo o contexto de produção
literária épica e ideológica das viagens europeias renascentistas em
África e no Oriente.” 48

Mas recentremo-nos na viagem e no aportar a novas, litorais


terras. Quando se analisa a descrição da viagem marítima para a
Índia e se confrontam as narrativas que a plasmam podemos
traçar a construção de um discurso caracterizador da novidade
que representam os Outros, sendo possível definir as modelações
interpretativas do diferente e os processos de transmissão usados.

É a representação na “palavra”, o discurso que se descodifica.


Defendo que as estratégicas descritivas usadas expõem uma
construção de um contacto com o “Outro” onde domina o defrontar

48
Manuel João Ramos, Ensaios de Mitologia Cristã, Lisboa, Assírio e Alvim, 1997,
p. 358.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 145

do diferente, isto é, colocam-se em paralelo duas realidades a


conhecida – europeia/portuguesa e a novidade seja a africana ou
a ameríndia ou a asiática na sua pluralidade. Estas intuem-se e
descrevem-se na diferença, sem que, de imediato, se categorizem
numa escala valorativa, sobrepondo-se uma a outra. Descreve-
-se, usando-se o conhecido, traduzindo a novidade através de
um sistema de referentes que procura espelhar e dar a conhecer
sensorialmente o diferente a quem lê.

Logo na narração da primeira viagem de Vasco da Gama


encontramos a descrição dos cafres como sendo de “bons corpos,”
andando nús, trazendo somente uns panos de algodão pequenos
que “cobriam suas vergonhas.” A cafraria é sinalizada por aqueles
que descrevem a viagem marítima para a Índia, inaugurada pelos
portugueses. Exemplar é o facto de encontrarmos, naquele que
é claramente um itinerário pictórico dos espaços aportados pelos
portugueses no século XVI, como primeiro fólio aguarelado, a
representação dos cafres do Cabo da (Boa) Esperança.

Fig. 7 – Representação dos cafres no códice Casanatense


146 Ana Paula Avelar

Segundo Luís de Matos, este álbum, conhecido como códice


Casanatense, é da autoria de um pintor anónimo português e pode
ser datado de meados do século XVI: “(...) vale, acima de tudo, como
documento histórico-cultural. Julgamos, por isso, que ao contrário
do que se tem dito, não deve insistir-se nas suas fontes escritas, isto
é, nas obras de Tomé Pires e de Duarte Barbosa, nem admitir que
o álbum se destinava a ilustrá-las. O pintor não tinha necessidade
delas e nem se poderá provar que as tivesse conhecido. Os desenhos
são, pelo menos, grande parte, o resultado da sua observação directa.
Ter-lhe-ia sido impossível descer a pormenores, como o faz tantas
vezes, através do simples conhecimento de documentação escrita
ou de informações orais (...)”49.

Subscrevo a afirmação de Luís de Matos, embora defenda que,


palimpsesticamente, se evoca um percurso, o das rotas que tem
o Índico e as suas costas como destino e origem primordial. Será
por essa razão que Duarte Barbosa e Tomé Pires deambulam pelos
mesmos litorais, descrevendo os costumes dos lugares. Apesar de
Tomé Pires não descrever a terra dos cafres, já os vários manus-
critos conhecidos do Livro de Duarte Barbosa discorrem sobre as
terras do Monomotapa50. Este rememorar de uma presença corre
igualmente impressa através da inclusão de uma das versões do texto
de Barbosa na obra de Giovanni Battista Ramusio, Delle Navigattioni
et Viaggi.

O texto de Duarte Barbosa sobre as terras da cafraria é simples


mas intensamente visual: os homens são pretos, andam nus,
cobrindo “suas vergonhas” com panos pintados de algodão da
cintura para baixo, existindo alguns que andam cobertos com peles
de animais, usando os “mais honrados” umas capas de pele, as quais
possuem: “(...) uns rabos que lhe arrastam pelo chão; trazem isto

49
Luís de Matos, Imagens do Oriente no séc. XVI – reprodução do códice português
da Biblioteca casanatense, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1985,
p. 52.
50
Cf. Maria Augusta da Veiga e Sousa, O Livro de Duarte Barbosa (edição crítica e
anotada), Lisboa, IICT-CEHCA, 1996, I, pp. 59-60.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 147

por estado e galantaria. Andam dando saltos e fazendo jeitos do


corpo com que fazem saltar aquela pele de um cabo pera outro.”51

A visualidade dinâmica do olhar de Barbosa, denotadora de


uma observação exterior, vai-se transfigurando ao longo do tempo.
Deste modo, num texto como o da Relação da viagem que fizeram
os padres da Companhia de Jesus com Francisco Barreto na conquista de
Monomotapa no anno de 1569 deparamo-nos com o narrar de uma
permanência. Veja-se como, manipulando os mesmos indicadores
descritivos, o autor desta relação detalha os costumes dos cafres e
da terra, narrando o que viu ou teve por informação certa: “Andão
todos comumente vestidos com huns panos de algodão mal tapados
que se fazem da outra banda do rio, em teares baixos, mas muito
de devagar, os quais eu vi tecer (...) cengem ao redor do corpo, e
nos peitos a modo de cruz e o mais descoberto. Trazem cornos nos
cabelos por galantaria os quais fazem dos próprios cabellos revirados
com huma invenção estranha (...) no meo da cabeça fazem hum
que apanha os cabellos (...)”52.

5.2. Pelos espaços americanos

O nosso propósito nuclear é, recorde-se, o de esboçar,


através de registos que servem um propósito historiográfico,
as representações do Outro. Após ter traçado dialogicamente os
vectores que se formulam a partir de representações do africano

51
E o texto continua: “Trazem estes homens ũas bainhas de pao liadas com muito
ouro e outros metais; e à parte da mão esquerda, como nós com cintas de pano
que pera isso fazem com quatro ou sinco noos com suas borlas dependuradas
como galantes homens. trazem tambem nas maos azagaias e outros arcos e
frechas meãos que não são tão compridos como de ingreses nem tão curto(s)
como de turcos; os ferros das frechas são mui grandes, sotis. E eles são
homens de guerra e outros grandes mercadores. Suas molheres andam nuas;
somente cobrem suas vergonhas com panos dálgodão, emmentes são solteiras
e, como são casadas, lançam outros panos por cima dos peitos.” Ibidem.
52
Cf. João C. Reis, A Empresa da Conquista do Senhorio do Monomotapa, Lisboa,
Heuris, 1984. pp. 57-92.
148 Ana Paula Avelar

neste nosso séc. XVI, e de ter proposto o confronto de várias


narrativas, modelarmente diferenciadas, importa, neste momento,
problematizar qual o impacto que teve na Europa o primeiro
contacto com o espaço americano. Esboce-se então as várias vertentes
analíticas que se foram construindo e espelhe-se as modelações de
um olhar português/europeu sobre esta novidade.

Os trabalhos de J. H. Elliot ou the Anthony Padgen propõem


leituras axiais para a compreensão dos espaços e modos de funcio-
namento dos diferentes impérios em presença53. Refira-se que, em
2006, John Elliot publica o livro Empires of the Atlantic World. Britain
and Spain in America 1492-1830 que sairá ao mesmo tempo em
castelhano sob o título Imperios del mundo atlántico – España y Gran
Bretaña en America (1492-1830). Este estudioso intervém, assim,
activa e incontornavelmente, numa das mais recentes e vigorosas
abordagens investigativas da historiografia contemporânea – a dos
estudos atlânticos.

A compaginação analítica e contrastiva destes dois impérios não


pode deixar de ser neste momento evocada. Não é, contudo, esta a
matriz que persigo neste meu texto. A minha abordagem ancora-se
no debate iniciado por Tzvetan Todorov, na sua obra The Conquest
of America – The Question of the Other54, e no diálogo prosseguido
por Stephen Greenblatt em Marvelous Possession – The Wonder of the
New World. Com efeito, retomo aqui alguns dos tópicos analíticos
que evidencei logo no início deste livro, aplicando-os numa prática
de leitura. Como Greenblatt escreve: “Cultures are not altogether an
assemblage of screens, or texts, or performances. (...) It is, I think, a
theoretical mistake and a practical blunder to collapse the distinction
between representation and the reality, but at the same time we
cannot keep them isolated from one another. They are locked in
an uneasy marriage in a world without ecstatic union or divorce.”55

53
Cf. Fontes Impressas e Bibliografia.
54
Possui-se uma tradução brasileira de 1988.
55
Stephen Greenblatt, Marvelous Posssessions – The Wonder of the New World,
Chicago, The University of Chicago Press, 1991, pp. 6-7.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 149

É no diálogo entre diferentes fontes, iconográficas ou narrativas,


que se tecem as imagens decorrentes da vivência do Novo Mundo.
Veja-se como o modelo de escrita da Antiguidade Clássica é convo-
cado seja na exposição de Pierre Martyr D’Anghiera na sua De Orbe
Novo Decades, seja na palavra de João de Barros na sua Ásia ...dos feitos
que os Portugueses fizeram no descobrimento e conquista dos mares e terras do
Oriente e naquela que era a sua arquitectura de escrita.

Estudos como os de Walter D. Mignolo sobre literacia, terri-


torialidade e colonização, naquelas que são as fronteiras por ele
percorridas enquanto filólogo, devem ser contemplados, nomea-
damente pelo papel desempenhado pela língua na colonização do
Novo Mundo. A leitura de On Describing Ourselves: Comparatism,
Differences, and Pluritopic Hermeneutics56 revela-se paradigmática
do modo como:“ Descriptions and explanations of human
communication across cultural boundaries confront the scholar
with the limits of a linear notion of history and invite him or her to
replace it with a nonlinear history; to replace causal relations with a
net work of connections; to accept that the “same” object or event
is conceived quite differently in different cultures (…)”57.

Quando se analisa o que se escreveu no espaço ibero-americano,


e se desocultam os discursos sobre a presença portuguesa neste
mesmo espaço, devemos ter em atenção como, na diferente apro-
priação e consolidação das presenças portuguesa e espanhola, a
“natureza” deste “Mundus Novus” impôs transformações no modo
como os europeus e, muito em particular, os portugueses, projecta-
ram a imagem deste novo continente, o americano.58 Este é um
“exercício de leitura” que considero deve ser ampliado, mas que,
neste momento, impõe-se praticar.

56
Cf. Walter D. Mignolo, The Darker Side of the Renaissance - Literacy, Territoriality,
& Colonization, Michigan, University of Michigan Press, 2003.
57
Ibidem, p. 23.
58
A análise comparativa que em seguida apresento foi objecto de uma comu-
nicação por mim apresentada no X Congresso Internacional das Academias das
Ibero-Américas.
150 Ana Paula Avelar

Assim, devo desde já destacar que não enuncio, parafraseio,


ou justaponho diacronicamente relatos sobre uma presença, a dos
portugueses que vivenciaram a “Nova Idade do Ouro”, tomando
para tanto as várias caracterizações que vão sendo expostas por
vários europeus ao tempo. É certo que Montaigne no seu ensaio
“des Cannibales” (1578-1580) referenciando o espaço americano
escreve: “(...) Ces nations me semblent donq ainsi barbares, pour
avoir receu fort peu de façon de l’esprit humain, et estre encore
fort voisines de leur naifveté originelle. Les loix naturelles leur
commandent encores, fort peu abastardies par les notres; mais c’est
en telle pureté, qu’il me prend quelques fois desplaisir dequoy la
cognoissance n’en soit venuë plustos, du temps qu’il y avoit des
hommes qui en eussent sceu mieux juger que nous.”59

A realidade, na palavra deste ensaísta, materializa, eleva e supera


a utópica poetização: “Il me desplait que Licurgus et Plato ne l’ayent
eüe; car il me semble que ce que nous voyons par experience en ces
nations là, surpasse non seulement toutes les peintures dequoy la
poësie a ambelly l’age doré et toutes ses inventions à feindre une
heureuse condition d’hommes, mais encore la conception et le
desir mesme de la philosophie.”60

A pureza original e a inocência expõem-se nesta para-caracte-


rização: “Ils n’ont peu imaginer une nayfveté si pure et simple,
comme nous la voyons par experience; ny n’ont peu croire
que nostre societé se peut maintenir avec si peu d’artifice et de
soudeure humaine. C’est une nation, diroy je à Platon, en laquelle
il n’y a aucune espece de trafique; nul cognoissance de lettres;
nulle science de nombres; nul usage de service, de richesse oude
pauvreté; nul contrats; nulles successions; nuls partages, nulles
occupations qu’oysives; nul respect de parenté que commun; nul
vestements; nulle agriculture; nul metal; nul usage de vin ou bled.
Les paroles mesmes qui signifient la mensonge, la trahison, la
dissimulation, l’avarice, l’envie, la detraction, le pardon, inouïes.

59
Montaigne, Essais I, Paris, Flammarion, 1969, I, p. 255.
60
Ibidem.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 151

Combien trouveroit il la republique qu’il a imaginée esloignée de


cette perfection(...) .”61

Mas não é só Montaigne que ensaisticamente presentifica


a “Idade do Ouro” no novo espaço americano, também Pierre
Martyr D’Anghiera o faz, quando se debruça sobre os habitantes
de Hispanhola, na sua De Orbe Novo Decades (c.1526): “Mais à mon
avis nos insulaires d’Hispaniola sont plus heureux que ces peuples-
là, pour peu qu’ils s’imprègnent de religion, puisqu’ils vivent nus,
sans poids ni mesures, sans non plus ces richesses qui causent la
mort, connaissant un âge d’or sans lois, sans juges chicaneurs, sans
livres, satisfaits de la nature, sans ce soucier aucunement du futur.
Cependant même ces hommes sont tourmentés par l’ambition
qui les pousse à commander, et ils se battent entre eux; mais nous
pouvons penser que l’âge d’or n’était pas tout protégé contre ce
fléau. Bien au contraire, á cette époque aussi, le “céde – je ne céderai
pas” a existé parmi les mortels.”62

Recorde-se, aliás, que o próprio Cristovão Colombo logo na


sua carta sobre a sua primeira viagem expõe o deslumbramento
que sentiu perante as excelências da terra63 (1493) e o nosso Pero
Vaz de Caminha narra ao rei o seu maravilhamento ao aportar em
terras de Vera Cruz, quando se refere às novas terras onde: “(...) a
inocência desta gente é tal, que a d’Adão não seria mais quant’a em
vergonha.”64

Mas regressemos ao nosso exercício, à prática de uma leitura


reveladora do modo como convergiram os olhares na descrição de
um novo espaço, o americano. Proponho-me, assim, descortinar

61
Ibidem.
62
Pierre Martyr d’Anghiera, De Orbe Novo Décades I Oceana Decas – Décades du
Nouveau Monde I La Décade Océane, Paris, Les Belles Lettres, 2003, p. 52
63
Atente-se logo na sua primeira carta, quando escreve sobre Hispanhola. Cf.
Chistopher Columbus, The Four Voyages, Londres, Penguin, 1969, p. 116.
64
Pero Vaz de Caminha, Carta a el-rei d. Manuel, Lisboa, Imprensa Nacional-
Casa da Moeda, 1974, p. 81.
152 Ana Paula Avelar

as vozes de três portugueses de Quinhentos, o fidalgo de Elvas e


a sua narrativa sobre a incursão de Hernando de Soto e de alguns
portugueses na Flórida, Pero de Magalhães de Gândavo e Gabriel
Soares de Sousa, e as suas permanências em terras do Brasil.

A escolha não é aleatória, ela visa demonstrar que, ainda


que focalizando realidades geográficas distintas e obedecendo
a propósitos de escrita diferenciados, a imagem reflexiva do real
americano, que flui nestes discursos, expõe um fim identitário. Tal
finalidade não decorre da obediência a um específico modelo de
escrita65, ou à exposição de características culturais decorrentes
de quaisquer transmigrações culturais. Estes são discursos que
plasmam diferentes representações de uma vivência, a do fidalgo
de Elvas, e a do universo que ele representa, a de Pero de Magalhães
de Gândavo, e a de Gabriel Soares de Sousa.

Nestas leituras exponho as convergências culturais de um


passado comum, a forma como olhares diferenciados evidenciaram
culturas, entendendo estas como o conjunto de crenças e práticas
que formatam um grupo social, oferecendo-lhe todo um reportório
de modelos que o distingue de outros grupos, que lhe dão um
“ser e estar” identitário. Os processos de transmigração cultural
podem, como é óbvio, ser analisados, mas não é esse o objecto deste
exercício.

Defendo que neste século XVI ainda não estamos em presença


de um fenómeno de “transculturação”, isto é, não assistimos à
reinvenção da importação parcial ou total de modelos culturais,
neste caso europeus. Estamos, isso sim, em presença da descrição
do “momento de contacto”, traduzindo um estar comummente
vivido, nos textos em análise, o espaço ibérico. A Relação verdadeira dos
trabalhos que o governador D. Fernando de Souto e certos fidalgos portugueses
passaram no descobrimento da província da Florida agora novamente feita

65
Ainda que assistamos a dois modelos narrativos nestas três “vozes”. O corpo-
rizado pelo fidalgo de Elvas e o dos dois portugueses que se debruçam sobre
o Brasil.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 153

por um fidalgo de Elvas é disso exemplo. A recepção que a escrita


desta expedição sofreu por parte dos vários públicos bem como
os textos sobre ela produzidos marcam os estudos americanos na
actualidade.

Recorde-se que Hernando de Soto foi o primeiro europeu


que, de 1539 a 1543, penetrou no espaço da Flórida. Neste corpo
expedicionário encontramos 23 portugueses, que a ele se tinham
juntado em Sevilha (1538), sendo um deles o nosso fidalgo de Elvas.
Sobre a viagem de Hernando de Soto possuímos várias narrativas
que reflectem a importância de que esta expedição se revestiu.
Conheçamo-las, começando pela elaborada por Luis Hernández
Biedma, que ocupou o cargo de feitor e que escreveu a Relación del
suceso de la jornada a la isla de la Florida.

Este texto foi enviado ao Imperador Carlos V (16 de Setembro


de 1544)66, tendo como objectivo noticiar aquelas que seriam as
vicissitudes da expedição. É um relato oficial que se destina a circular
nas esferas político-administrativas da corte imperial. O segundo
relato que possuímos desta jornada é o elaborado por frei Sebastião
de Cañete, que faria igualmente parte da expedição e do qual se
conhece apenas um fragmento. Este teria sido enviado pelo notário
Rodrigo Ramirez a 14 de Augusto de 1565, para o Archivo General
de Indias, em Sevilha, aposto ao contrato de Pedro Menendez de
Avilés. Neste fragmento sobressai a descrição do espaço percorrido,
a fauna, a flora e os costumes observados.

A terceira narrativa, que se debruça sobre a viagem de de Soto,


é a de Rodrigo Rangel-Oviedo, secretário particular do governador,
e que foi inclusa na Historia general y natural de las Indias de Gonzalo
Fernández de Oviedo y Váldes. Este relato decorre da audiência

66
Tal informação é dada por Maria Graça A. Mateus Ventura na introdução que
elaborou para a edição da relação do Fidalgo de Elvas da viagem de Hernando
de Soto. Cf. Relação verdadeira dos trabalhos que o governador D. Fernando de Souto
e certos fidalgos portugueses passaram no descobrimento da Florida agora novamente feita
por um fidalgo de Elvas, Lisboa, CNPCDP, 1998, p. 16.
154 Ana Paula Avelar

real ocorrida em Santo Domingo, algum tempo após o regresso da


expedição. O seu autor foi instado a entregar a Oviedo y Valdés,
cronista oficial das Índias, o seu testemunho sobre a viagem de de
Soto67. Cumprindo a natureza do pedido, Rangel-Oviedo oferece
o seu registo diarístico da expedição, entrecortado aqui e ali pela
palavra de Oviedo y Valdés.

O quarto registo relativo a esta expedição é o de Garcilaso de


Vega intitulado La Florida del Inca. Historia del adelantado Hernando de
Soto, gobernador y capitán general del reino de la Florida, y de otros heróicos
caballeros españoles e indios; escrita por el ynca Garcilasso de la Vega, capitan
de Su Magestad, natural de la gran ciudad del Cozco, cabeza de los reynos
y provincias del Peru. Dirigida al serenissimo principe, duque de Braganza.
&c. Con licencia de la santa inquisicion. Esta obra teria sido terminada
em 1591 e impressa, por Pedro Craesbeeck, em Lisboa em 1605,
num tempo em que se vive a monarquia dualista ibérica, e em
que se assiste, em Portugal, a um movimento de castelhanização
cultural. Na sua dedicatória Garcilaso de Vega evoca os feitos
das duas coroas ibéricas e os dos portugueses e castelhanos que
integraram a expedição de de Soto.

O Inca expôs distintamente as intenções da sua narrativa,


assinalando as suas fontes e os membros da expedição (Gonzalo
Silvestre, Alonso de Carmona e Juan Coles). No seu proémio
evidencia a importância que tiveram para si os “testemunhos da
vista”, validadores da sua História, a qual não é ficcionada. Apesar
de considerar que esse poderia ter sido a sua escolha, é o registo do
que aconteceu, que ele propõe escrever em seis livros, visto terem
sido seis os anos gastos nesta expedição.

Os propósitos da sua escrita expõem a diferença. O sujeito


autoral afirma uma nova natureza identitária, a qual decorre de
ser filho de um espanhol e de uma índia. Procura com cuidado

67
Recorde-se que este relato aparece na I Parte, livro XVII, cap. XXI-XXVIII da
referida obra. Importa igualmente salientar que esta obra só conhece a sua
impressão integral em 1850.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 155

e diligência redigir os sucessos da jornada, perseguindo a Honra e


Fama dos feitos da Nação Espanhola e dos Índios que na História,
como reiteradamente demonstra igualam tal Honra.

Estaremos, então, perante um processo de transculturação


ou de transmigração cultural? A resposta espelha-se no modo
como iguala duas distintas realidades. Mas retome-se A Relação
verdadeira dos trabalhos que o governador D. Fernando de Souto e certos
fidalgos portugueses passaram no descobrimento da província da Florida.
Agora novamente feita por um fidalgo de Elvas. Esta saiu da impressora
de André Burgos, em Évora, anos antes da narrativa de Garcilaso
de Vega, em 1557, sendo traduzida, como aliás, à semelhança da
de Vega, para outras línguas vernaculares. La Florida del Inca seria
difundida em língua francesa durante os séculos XVII e XVIII, sem
que se conheça nenhuma impressão em inglês, e o relato do fidalgo
de Elvas, que permanece no anonimato até aos nossos dias, saí em
1609, em língua inglesa.

Esta tradução serviu de “exórdio” às qualidades da recente


Virgínia richly valued by the description of the maine land florida her next
neighbour, out of foure yeers continuall travell and discoverie for above one
thousand miles east and west, of Don Ferdinando de Soto, and six hundred
able men in his companie. Wherein are truly observed the riches and fertilitie
of those parts abounding with things necessarie, pleasant, and profitable for
the life of man; with the nature dispositions of the inhabitants. Written by
a Portugall gentleman of Elvas, emploied in all the action, and translated
by Richard Hakluyt. Este desígnio acompanha a reimpressão em
1611 desta mesma obra, quando o mesmo tradutor altera o seu
título para The worthye and famous historie of the travailles, discovery and
conquest of the Terra Florida. A escrita de viagens expõe-se nesta eficaz
titulação. Recorde-se que o Relato do Fidalgo de Elvas só será vertido
para castelhano já em pleno século XX, em 195268.

Ao estarmos em presença do registo do que passou D. Hernando


de Soto, governador da ilha de Cuba, convive-se com um discurso

68
Veja-se o já referido estudo de Maria da Graça Ventura.
156 Ana Paula Avelar

que reflecte um perfil, o de chefe de uma expedição que se aventura


por uma nova terra, emulando-se uma presença, a sua, através das
“vozes” dos chefes locais.

Explicite-se esta ideia. Ao afirmar que analiso as “vozes” de


Fernando de Souto, Pero de Magalhães de Gândavo e Gabriel
Soares de Sousa, e ao escolher o vocábulo “voz,” radico a minha
análise não só nas palavras, essas são as de um Fidalgo de Elvas, e não
de Fernando de Souto (atente-se no constante aportuguesamento
do nome), Gândavo e Gabriel Soares de Sousa, mas também no
som do “não dito”. Ao longo de todo o relato, a figura de de Soto é
espelhada, como referi, através da “voz” dos chefes locais, através do
emprego sucessivo do discurso directo. Esta é a constante alegação
do “senhorear” que, com culta propriedade, como escreve Baltasar
Gracián Y Morales, em 1637, no seu tratado sobre o Herói, se chama
ao descobrir. Convoco, assim, nesta análise a audiência concedida
por de Soto ao cacique de Guachoya, em vésperas do combate que
se irá travar nas margens do Mississipi69 poucos dias antes da sua
morte.

Após se ter apresentado na pousada do governador, o cacique


disse estas palavras: “‘Poderoso e excelente senhor, Vossa Senhoria
me perdoe ho erro que fiz em me ausentar e nam esperar neste
povo ho receber e servir, pois conseguir esta oportunidade de
tempo era e he pera mi grande victoria: mas temi ho que nam
ouvera de temer com isto fiz o que nam era rezam de fazer, mas
como os aceleramentos causam desvariados efeitos: e eu me movi
sem deliberaçam tanto que nisto cuydey detreminei nam seguir a

69
Hernando de Soto viveu de 1496-97 a 21 de Maio de1542, tendo acompanhado
Francisco Pizarro ao Peru durante os anos de 1532 a 1535. Ao regressar a
Espanha foi-lhe concedida, em 1537, pela Coroa espanhola autorização para
explorar, às suas custas, a Florida. Em Maio de 1539 a expedição chefiada por
Hernando de Soto chega à actual Tampa. Percorreu a Florida, o centro da
actual Georgia, as duas Carolinas, o Tennessee, o Mississippi, o Alabama, e o
Arkansas. Em Maio de 1541 de Soto chegou ao Mississippi que denominou
Rio Grande de la Florida, continuando, por mais um ano, as suas explorações
seguindo este rio, atingindo possivelmente a Louisiana e o Texas.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 157

opiniam dos necios que he perseverar em seu erro, mas imitar


aos sabios e discretos em mudar ho conselho e venho a ver ho que
Vossa Senhoria me manda, pera ho servir em tudo ho que minha
possibilidad bastar.’ Ho governador ho recebeo com muito agasalho
e lhe deu os agradecimentos pello serviço e oferecimento.”70

Assinale-se a explanação do exercício retórico no qual se


assiste a uma transmigração discursiva. No discurso do chefe local
transcreve-se metonimicamente o modelo elocutório de um fidalgo
ibérico. A civilidade curial é, assim, transposta pela palavra e pelo
silêncio (recorde-se que não encontramos as palavras de Hernando
de Soto transcritas pelo autor) para as margens do Mississipi.

Este não é, aliás, o único momento em que tal estratégia dis-


cursiva ocorre. Basta prosseguir a leitura do relato e atermo-nos
no capítulo XXX quando são descritos os últimos momentos do
governandor Hernando de Soto71. A “magestade” do varão e do

70
Relação verdadeira dos trabalhos que o governador D. Fernando de Souto e certos fidalgos
portugueses passaram no descobrimento da Florida agora novamente feita por um fidalgo
de Elvas, p.170.
71
“O governador sentio em si que se chegava a ora em que avia de deixar esta
presente vida, mandou chegar os oficiais d’el rey, capitães e pessoas principaes,
aos quaes fez hũa fala, dizendo que elle estava pera hir dar conta ante ho
acatamento de Deos de toda a vida passada: e pois era servido de ho levar
em tal tempo e que conhecesse sua morte, que elle muy indigno servo seu
lhe dava muitas graças e que todos quantos presentes e ausentes estavam, a
quem elle confessava ser em muita obrigaçam por suas singulares vertudes,
amor e lealdade, que elle pera consigo tinha bem provado nos trabalhos
que aviam sofrido, ho que sempre tivera em vontade e esperara satisfazer e
galardoar quando Deos fosse servido de dar descanso à sua vida, com mais
prosperidade de seu estado, pedia que rogassem a Deos por elle, que por sua
misericordia lhe perdoasse seus pecados, pusesse sua alma em gloria e lhe
dessem quita e remissam do carrego em que lhes era, e de quanto a todos
devia e lhe perdoassem alguns desgostos que delle podiam aver recebido: e
que por escusar algũa devisam que sobre sua morte ouvessem por bem eleger
hũa pessoa principal e abil pera governar de que todos fossem contentes: e
eleito diante delle jurassem d’o obedecer: e que isto lhes agardeceria muito:
porque algum tanto se apracaria a dor que tinha, e pena que sentia por os
158 Ana Paula Avelar

cargo em que se encontra investido espelha-se no afastamento


empregue na peroração piedosa que pontua a notícia da sua morte:
“Ho dia seguinte xxi de Mayo faleceo ho magnanimo, virtuoso e
esforçado capitam Dom Fernando de Souto governador de Cuba e
adiantado da Frolida, que à fortuna sobio como soe fazer a outros
pera do mais alto cahir. Faleceo em terra e tempo qu’em sua doença
bem pouca consolaçam teve, e a ventura em que todos estavan de se
perderem naquella terra, que eles traziam diante os olhos, era causa
pera cada hum per si ter necessidade de ser consolado (...)”72.

Apesar das vicissitudes, dos esforços da guerra, enfim, do


exercício do senhorio, as excelências da terra são declaradas. Cumpre-
-se a cativação do leitor, enunciada pelo impressor André de Burgos
na sua curta nota de abertura73: os primores da terra, ainda que não
nucleares ao registo expedicionário, são corporizados no último
capítulo da narrativa do fidalgo de Elvas. Expõe-se topograficamente
a terra da Florida, referenciando-se os frutos, deliciando-se os
sentidos, seja com o que parecem ser peros reais e que tem muito bom
cheiro e estimado sabor, seja com o que parecem ser medronhos, os
quais são muito gostosos, ou ainda as ameixas, vermelhas e pardas
que são melhores que todas as de Espanha. Enfim, todas as demais
frutas são, segundo o autor, muito perfeitas e menos danosas que as
que, como escreve, encontramos na Ibéria.

Referencia-se o desconhecido pelo conhecido, e este é, para


o nosso fidalgo de Elvas, o universo espanhol, num tempo em
que se vive a união dinástica. Usam-se, porém, meros tópicos
referenciadores do espaço americano. Pincela-se uma natureza
luxuriante, e, porque se conclui um relato, cativa-se o monarca.

deixar em tamanha confusam como era deixallos em terra que nam sabiam
adonde estavam.” Ibidem, p. 175.
72
Ibidem, p. 176.
73
“Aristoteles diz que todos ou a mor parte dos homens sam afeiçoados e
incrinados de sempre ver e ouvir cousas novas: e moormente quando sam
de terras muito afastadas e remotas. As quaes diz que dam recreaçam aos
ingenios delicados e subtis e aos rudos aviventam e lhes fica hum desejo
natural pera ver e ouvir e exercitar (se possivel fosse) nellas.” Ibidem, p. 62.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 159

Repare-se que os exemplares de fauna notados pelo nosso autor são


os que deliciam os amantes da montaria. Sinalizam-se, por exemplo,
os ursos, os leões, os lobos, os veados, as galinhas bravas, as rolas, os
tordos, os pardais, os açores, os falcões, os gaviões e todas as aves de
rapina que há aí em Espanha. Por último, e antes do “Deos Gratias,”
informa-se que : “Os indios sam bem proporcionados: os das terras
chãas sam mais altos de corpo e milhor despostos que os das serras
os do sartam sam mais abastados de mays e roupa da terra que os
da costa. A terra da costa he delgada e pobre: e a gente mais belicosa
corre a costa.”74 Esta é a nota geral que finaliza o discurso, como,
aliás, serão igualmente os traços gerais de um espaço, o brasílico,
que finalizam os discursos de Pero de Magalhães de Gândavo e
Gabriel Soares de Sousa.

O “Mundo Novo”, o de um Brasil luxuriante, atravessa uma


outra escrita de viagem, aquela que percorre a História da província
de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, de Pedro de
Magalhães de Gândavo, ou as Notícias do Brasil, de Gabriel Soares de
Sousa. Nestes textos a permanência vivenciada marca as palavras.
O propósito não é aqui o de expor aquele descobrir que, com culta
propriedade se chamou senhorear, recordando o herói, mas oferecer,
como dita o verso do Poeta Maior, “A terra Santa Cruz pouco
sabida”75. Ambos os cronistas procuraram elaborar uma história
e estes são textos que foram sendo arquitectados, seja através de
sucessivas reconstruções do próprio autor, seja através das várias
mãos que foram copiando a narrativa.

Explicite-se, então, o contexto. A História da província de


Santa Cruz é impressa em 1576, na oficina tipográfica de António
Gonçalves, em Lisboa. O seu autor, Pero de Magalhães de Gândavo,
já anteriormente tinha iniciado o projecto de redigir uma História
do Brasil, intitulando o seu manuscrito de Tratado da província do

74
Ibidem, p. 215
75
Terceto de Luís de Camões a Dom Leonis Pereira sobre o livro que lhe
oferece Pero de Magalhães de Gândavo, História da província de Santa Cruz a
que vulgarmente chamamos Brasil, Lisboa, Assírio e Alvim, 2004, p. 29.
160 Ana Paula Avelar

Brasil. Este moço de Câmara do rei D. Sebastião, tinha dedicado


este texto a D. Catarina. Após sucessivas alterações ao mesmo, fá-lo
ressurgir como Tratado da terra do Brasil. Esta última obra foi dedi-
cada ao cardeal D. Henrique. Nela, o autor expressa a funciona-
lidade do seu discurso, nomeadamente o facto de este servir como
instrumento de divulgação da fertilidade da terra, oferecendo-a como
um auxiliar para o seu conhecimento. A prosperidade e felicidade
serão alcançadas através da recorrente procura dos novos espaços.

É, todavia, na letra impressa que se consubstancia a sua


História, cumprindo o desígnio de, decorridos setenta e tantos
anos sobre a sua descoberta, se contar as excelências de um espaço,
de uma permanência. Devido ao facto de esta ter estado sepultada
em silêncio, Magalhães de Gândavo dá-lhe “voz”. Na realidade, os
estrangeiros já se haviam debruçado sobre aquele espaço, fazendo
correr notícias das suas peregrinações, serviram, também eles, a
escrita de viagem. Recorde-se Hans Staten ou André de Thevet.

Evoque-se, porém, ainda que fugazmente, a escrita de Pero de


Magalhães de Gândavo no seu discurso de permanência. Gândavo
teria permanecido no Brasil entre 1568 e 1571/72, e são as marcas
da sua vivência que corporizam o seu texto. Ao longo dos seus
capítulos não deixa de se sinalizar a digressão historiográfica, a qual
se evidencia por exemplo, no primeiro capítulo, quando escreve
sobre como se descobriu esta província, e a razão por que se deve chamar
Santa Cruz e não Brasil, no quarto, ao referir a governança que os
moradores destas capitanias têm nestas partes e o seu modo de viver, ou ainda
no décimo terceiro quando explana o fruto que fazem nestas partes os
padres da Companhia com a sua doutrina.

No entanto, são os costumes e as riquezas da terra que


determinam o discurso de Gândavo. Ele percorre o sítio e as quali-
dades da província ( cap. II), as capitanias e as povoações (cap. III),
a governança, os moradores e os seus modos de viver (cap. IV).
Descreve as plantas, mantimentos e frutas (cap. V), os animais e
bichos venenosos (cap. VI), as aves (cap.VII), os peixes “notáveis,”
as baleias e o âmbar (cap. VIII). Retrata os gentios, os seus costumes
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 161

e governo (cap. X), as suas guerras (cap. XI), referenciando a morte


que é infligida aos cativos e as crueldades que neles são praticadas
(cap. XIII). O seu texto encerra propagando os bens da terra e
descrevendo as grandes riquezas que se esperam do sertão: “Esta
província de Santa Cruz, além de ser tão fértil como digo, e abastada
de todos os mantimentos necessários para a vida do homem, é certo
ser também mui rica, e haver nela muito ouro e pedraria, de que se
tem grandes esperanças.”76

Pero de Magalhães de Gândavo oferece o “fantástico”, até


porque o “fero e espantoso monstro marinho que tinha sido
morto na capitania de são Vicente no ano de 1564,” tinha corrido
a Europa pela mão de gravadores. Conhecem-se dele uma gravura
alemã e uma gravura italiana. O próprio Gândavo não deixou de
introduzir no seu texto o debuxo deste espantoso animal, aplicando
ecfrasticamente o modelo da dual complementariedade entre o
desenho e a escrita de um Jerónimo Corte-Real ou de um Gaspar
Correia. São do épico do Segundo Cerco de Diu as palavras: “E
porque a leitura é grande, debuxei de minha mão os combates, os
socorros e tudo o mais (...) para que a invenção da pintura satisfaça
á rudeza do verso.”77

Também da invenção do debuxo, tirado pelo natural, se serve


Magalhães de Gândavo. Segundo a voz do autor, a necessidade de
correcção das descrições levam-no a narrar os factos, descrevendo
como Baltazar Ferreira matou o monstro78 que: “Tinha quinze

76
Pero de Magalhães de Gândavo, História da Província de Santa Cruz..., p. 121.
77
Obras de Jerónimo Corte Real, Porto, Lello & Irmão – Editores, 1979, p. 17.
78
Este após ter visto que: “(...) aquilo era coisa do mar e, antes que nele se
metesse, acudiu com muita presteza a tomar-lhe a dianteira. E vendo o
monstro que ele lhe embargava o caminho, levantou-se direito para cima
como um homem, fincado sobre as barbatanas do rabo. E estando assim o
mancebo a par com ele, deu-lhe uma estocada pela barriga e, dando-lha,
no mesmo instante se desviou para uma parte com tanta velocidade que não
pôde o monstro levá-lo debaixo de si: porém não pouco afrontado, porque o
grande torno de sangue que saiu da ferida lhe deu no rosto com tanta força
que quase ficou sem nenhuma vista. E tanto que o monstro se lançou em
162 Ana Paula Avelar

palmos de comprido e semeado de cabelos pelo corpo, e no


focinho tinha sedas mui grandes como bigodes. Os índios da terra
lhe chamam em sua língua ipupiará, que quer dizer demónio
d’água. Alguns como este se viram já nestas partes mas acharam-se
raramente. E assim também deve de haver outros muitos monstros
de diversos pareceres que no abismo desse largo e espantoso mar se
escondem, de não menos estranheza e admiração; e tudo se pode
crer, por difícil que pareça: porque os segredos da natureza não
foram revelados todos ao homem para que com razão possa negar
e ter impossíveis as coisas que não viu, nem de que nunca teve
notícia.”79

Fig. 8 – Desenho incluso


na História da Província
Santa Cruz...

terra, deixou o caminho que levava, e assim ferido e urrando com a boca
aberta sem nenhum medo, arremeteu a ele, e indo para o tragar a unhas e
dentes, deu-lhe o mancebo uma cutilada mui grande na cabeça, com a qual
ficou mui débil, e deixando sua vã porfia, tornou então a caminhar outra vez
para o mar. Neste tempo acudiram alguns escravos aos gritos da índia que
estava em vela; e chegando a ele o tomaram já quase morto, e dali o levaram
à povoação, onde este o dia seguinte à vista de toda a gente da terra.” História
da Província de Santa Cruz..., p. 94.
79
Ibidem, p. 95-96.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 163

Esta marca do fantástico é igualmente assinalada na notícia do


Brasil de Gabriel Soares de Sousa. Contudo aqui surge a figuração
algo fantasmagórica dos homens marinhos, os quais, segundo ele:
“(...) andam pelo rio da água doce, pelo tempo de Verão, onde
fazem muito dano aos índios pescadores e mariscadores, que
andam em jangadas onde os tomam, e aos que andam pela borda da
água metidos nela, a uns e outros apanham e metem-nos debaixo
de água onde os afogam , os quais saem à terra com a maré vazia
afogados e mordidos na boca, narizes e na sua natura(...)”80

À semelhança de Pero de Magalhães de Gândavo, Gabriel


Soares de Sousa narra a terra do Brasil. Ele é um baiano, senhor
de engenho em Jaquaripe e Jequiriça que visa com este texto, em
primeiro lugar, historiar a costa daquele estado, e, em segundo
lugar, historiar o sítio da Baía de Todos-os-Santos. As duas partes
que compõem a sua obra, entregue em Madrid a D. Cristovão de
Moura, a 1 de Março de 1587, reflectem este seu projecto de escrita.
Ainda que o seu discurso corra, ao tempo, manuscrito, conhecendo-
-se várias cópias, a sua escrita plasma o mesmo modelo discurso,
aquele que categorizo como o da permanência vivenciada que
observámos na História da província de Santa Cruz a que vulgarmente
chamamos Brasil.

Vejam-se as similutes que apresenta com o texto de Gândavo.


Tal como este, logo no primeiro capítulo enuncia quem foram os
primeiros descobridores da província do Brasil, e apresenta o modo
como esta foi sendo organizada. Referencia, além disso, a repartição
dos mares entre os reis católicos e D. João II, peregrinando pela
exploração da costa brasileira, e informando os seus leitores acerca
dos vários rios e terras, não deixando de assinalar os respectivos
governadores. São igualmente mencionados os costumes e o
governo de vários gentios, como os tupiniquins, os goiatacazes, os
papanazes, os goianazes, os carijós e a sua Baía de Todos-os-Santos,
a qual é ampla, saborosa e minuciosamente descrita. Esta é: “(...)

80
Gabriel Soares de Sousa, Notícia Brasil, Lisboa, Publicações Alfa, 1989,
p. 197.
164 Ana Paula Avelar

senhora de bons ares mui delgados e sadios, de muito frescas e


delgadas águas, muito abastada de mantimentos naturais da terra
e muito e mui saborosos pescados e frutas (...)”81. A opulência do
solo brasílico irradia nas suas palavras.

A sensitiva experiência de quem transmite a novidade flui


na voz de Gabriel Soares de Sousa, como lampejou no fidalgo
de Elvas e corporizou-se em Pero de Magalhães de Gândavo. A
busca do definir, pelo conhecido, e a transmissão de uma realidade
indefinível, porque nova, pode ser, paradigmática e simplesmente
provada, através das palavras de Soares de Sousa, na sua declaração
sobre a propriedade dos ananases: “(...) o sabor dos ananases é
muito doce e tão suave, como nenhuma fruta de Espanha lhe chega
na formosura, no sabor e no cheiro, porque uns cheiram a melão
muito fino, outros a camoesa, mas no cheiro e no sabor não há
quem saiba afirmar em nada, porque ora sabe e cheira a uma coisa,
ora a outra.”82

Este foi um breve exercício analítico sobre as convergências de


um olhar que se deve reconstruir a partir da carta de Pero Vaz de
Caminha e da sua cinematização descritiva do Outro: “(...) e ali deles
andavam daquelas tinturas quartejados, outros de metades, outros
de tanta feição, como em panos d’armar, e todos com os beiços
furados e muitos com ossos neles e deles sem ossos. Traziam alguns
deles uns ouriços verdes d’árvores que na cor, queriam parecer de
castanheiros, senão quanto eram mais e mais pequenos. E aqueles
eram cheios d’uns grãos vermelhos pequenos, que, esmagando-os
entre os dedos, faziam tintura muito vermelha, de que eles andavam
tintos. E quanto se mais molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.
Todos andam rapados até cima das orelhas e assim as sobrancelhas e
pestanas. Trazem as orelhas, de fonte a fonte, tintas da tintura preta,
que parece uma fita preta (...)”83.

81
Ibidem, p. 86.
82
Ibidem, p. 134.
83
Pero Vaz de Caminha, carta a el-rei d. Manuel..., Lisboa, Imprensa Nacional
– Casa da Moeda, 1974. pp. 62-63.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 165

Esta matriz de olhar repercute-se na descrição da viagem de


Pedro Álvares Cabral que encontramos tanto na primeira como na
segunda impressão do primeiro livro da História do Descobrimento e
Conquista da Índia pelos Portugueses, de Fernão Lopes de Castanheda,
assim como na Ásia... de João de Barros.

Recorde-se que, a par do discurso oficial corporizado numa


cronística da Expansão impressa no século XVI, a História do
Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, de Fernão Lopes
de Castanheda, ou a Ásia..., de João de Barros, correm outros textos
como crónicas da Expansão que ficaram manuscritas como as
Lendas da Índia, de Gaspar Correia, ou a Crónica anónima, conser-
vada no British Museum, e titulada como Crónica do Descobrimento e
Conquista da Índia pelos Portugueses. Os relatos de viagem, como o que
terá sido feito por um dos pilotos da armada cabralina84, ou ainda
aqueles conhecidos como o Livro da nau bertoa ou a navegação que fez
Pero Lopes de Sousa versam igualmente sobre um espaço que a partir
de agora será um dos destinos dos portugueses de Quinhentos.
As tipologias narrativas, que estes relatos de viagem seguem, são
distintas e têm sido objecto de várias tentativas de categorização,
como as formuladas nos estudos de João Rocha Pinto85. Não é meu
intuito confrontar as várias propostas, pois considero que neste
momento importa fundamentalmente descortinar olhares e expor
de que modo a novidade foi sendo incorporada na concepção e
vivência do real.

84
Cf. “Navegação de Pedro Álvares Cabral” in Collecção de Noticías para a História
e Geografia das Nações Ultramarinas, que vivem nos domínios portuguezes, ou lhe são
visinhos...” Lisboa, Academia Real das Sciencias, 1812.
85
Cf. João Rocha Pinto, A Viagem. Memória e Espaço. A Literatura Portuguesa de
Viagens – os primeiros relatos de viagem ao Índico 1497-1550, Lisboa, Livraria Sá
da Costa, 1981, pp. 110-132.
166 Ana Paula Avelar

Fig. 9 – Representação da
chegada de Américo Vespúcio

Mas se o espaço brasílico


é o encontro com um “Paraíso
Terreal”, recorde-se, de novo,
a representação de Vespúcio no
espaço americano pela mão de
Johanes Stradanus (1589)86, não
deixa de ser igualmente o lugar
de Encontro com as práticas
antropofágicas. Coexiste a visão
eufórica/disfórica do ameríndio,
aparecendo a sua representação
seja na adoração ao Menino,
da autoria de Vasco Fernandes
pintada nos primeiros anos do
século XVI, seja na representação
dos “Infernos” numa tela da
autoria de um pintor português
quinhentista.

Enquanto na tela de Vasco Fig. 10 – Representação de um ameríndio


Fernandes, o rei Baltasar perfila- como rei Baltasar

86
Cf. cap. 3.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 167

-se num índio tupinambá, na pintura que se conserva no Museu


de Arte Antiga, cujo o autor se desconhece, a figuração do índio
reverbera na imagem de um demónio.

Fig. 11 – Representação do ameríndio em


tela atribuída a pintores portugueses

Por outro lado, a par destas narrativas possuímos um riquís-


simo fundo documental constituído pelas cartas dos missionários
como por exemplo dos Jesuítas Manuel da Nóbrega ou José de
Anchieta. Todavia, a epistolografia missionária inscreve-se numa
modelação discursiva que serve propósitos específicos, e que a
sua análise deverá naturalmente descodificar essas mesmas finali-
dades, não sendo, todavia, meu propósito confrontar, aqui, tais
finalidades e modelações com as que tenho analisado.
168 Ana Paula Avelar

5.3. Pelos espaços asiáticos

A evocação de uma memória familiar para a construção do


sistema de referências, a partir do qual se presentifica a novidade,
expande-se. Assim, segundo Pêro de Magalhães de Gândavo, os
índios brasileiros eram de “cor baça” com o “cabelo corrido”, e
tinham o “rosto amassado” e algumas feições “à maneira de Chins”.
A similitude entre o espaço ameríndio e o asiático é mediada pela
imagem evocada do “chim”. No entanto, como acentua Ainslie T.
Embree: “Even the terms changed under examination. Asia, we
said, was half the world, but what – or where – was ‘Asia’? Here
the territory includes Western Asia, better known as the Near or
Middle East; the larger part of a super continental ‘Eurasia’, which
ranges from North Europe to South China; South Asia, primarily
the Indian subcontinent; Southeast Asia, from Burma to the
Philippines and East Asia, mostly China, Japan, and Korea. But
such an ‘Asia’ is clearly in the eye of the beholder, the constructed
Self or Other which changes with time, place, and those who do
the beholding.”87

No exercício de aprofundamento de uma estratégia de análise


multidisciplinar que possa conduzir a um exercício interdisciplinar,
não se podem deixar de assinalar os trabalhos incontornáveis de
Maria Augusta Lima Cruz no âmbito da hermenêutica intratextual
da edição crítica e comentada das Décadas da Ásia, de Diogo do
Couto. As preciosas anotações e comentários elaborados pelos
vários especialistas, e os trabalhos que decorreram das investigações
pessoais88 funcionam, para todos aqueles que se debruçam sobre a
construção da imagem do Outro, como um auxiliar explicativo e
enquadrador da presença portuguesa no espaço oriental, e como
exemplo da desocultação de uma fonte, e de um cronista, Diogo do
Couto e das suas Décadas.

87
Cf. Ainslie T. Embree and Carol Gluck, Asia in the Western and World History:
A Guide for Teaching, Nova Iorque, M. E. Sharpe, 1997. pp. XV-XVI.
88
Cf. o excelente trabalho de Rui Loureiro, A Biblioteca de Diogo do Couto,
Macau, Instituto Cultural de Macau, 1998.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 169

Os primeiros textos, dos que experimentaram e descreveram a


viagem pelos espaços oceânicos do reino de Portugal para o espaço
asiático, são nucleares na desocultação dos processos de apreensão da
novidade, revelando-se, a este nível, discursos fundamentais como
o de Álvaro Velho ou o do piloto anónimo de Pedro Álvares Cabral.
É certo que existe todo um universo de textos como o de Francisco
Rodrigues que importa ter em atenção. Atente-se aliás, no trabalho
de notação e enquadramento elaborado por José Manuel Garcia
relativamente a este manuscrito89. Será, todavia, na desocultação
do olhar transmitido por aqueles que naqueles espaços permane-
ceram, que se forja a matriz da primeira exposição do Outro. Esta
corporiza-se nos discursos de Duarte Barbosa e de Tomé Pires.

No desvendar contrastivo destes textos expõem-se as primeiras


vivências da novidade. O facto de tanto a narrativa de Duarte
Barbosa como a de Tomé Pires terem corrido manuscritas exige
que se observem os trabalhos de hermenêutica textual de Maria
Augusta da Veiga e Sousa, para o texto de Barbosa, e o de Rui
Loureiro, relativamente ao manuscrito de Lisboa da Suma Oriental,
de Tomé Pires, sem deixar de ter em atenção, no caso de Tomé
Pires, o estudo de Armando Cortesão relativamente à leitura e notas
do manuscrito de Paris da Suma Oriental. O confronto de diferentes
momentos do labor historiográfico que se tem desenvolvido sobre
os textos da Expansão permite reconstruir outra das faces do que
Paul Ricoeur define como sendo condição histórica, isto é: “(...)
ce régime d’existence placé sur le signe du passé comme n’étant
plus et ayant été.”90 A exposição da representação histórica e da sua
historicidade historiografada exercita a sua validação.

É, deste modo, partindo da revisitação do percurso expositivo


de Barbosa e de Tomé Pires, validado pela permanência, que se
desenham os perfis do Outro. Barbosa é evocado por Gaspar Correia
como sendo o autor do escrito ao qual deverá recorrer o leitor das

89
Cf. José Manuel Garcia, O Livro de Francisco Rodrigues – O primeiro Atlas do mundo
Moderno, Universidade do Porto, Editora da Universidade do Porto, 2008.
90
Cf. Paul Ricoeur, op. cit, p. 366.
170 Ana Paula Avelar

suas Lendas da Índia para colher informações sobre os costumes dos


povos que habitam as novas paragens. Mas não é só este cronista
da Expansão, que viveu largos anos no Oriente, o único a servir-se
destes discursos matriciais. Também Fernão Lopes de Castanheda
que viveu cerca de dez anos no Oriente, e João de Barros, que só
experienciou um curta permanência em S. Jorge da Mina, nunca se
aventurando por outras paragens, o fazem.

Na Índia os espaços do Malabar e Cambaia são aqueles que


de imediato sofrem uma ampla atenção por parte dos escritos
portugueses. Estas são as costas aportadas pelas naus de Portugal
cujo domínio é procurado pelos desígnios manuelinos. Observe-se
como, servindo-se de Tomé Pires e de Duarte Barbosa, os cronistas
da Expansão manipulam o mesmo processo de descrição do espaço
de chegada “às terras da Índia”, isto é, anotam as envolvências físicas
e os quadros sociais, incorporando a partir da fonte, que funciona
como matriz do discurso, a vivência do testemunho. Esta serve para
corrigir e adicionar dados à informação inicial/ matricial.

A tipologia descritiva, usada na exposição do Outro, nestes alvores


de Quinhentos, repete-se mimeticamente nos textos portugueses
que expõem a permanência portuguesa por terras da Índia. Parte-se
do geral para o particular, assinalando-se a impressão colhida sobre
o conjunto e sinalizam-se os homens e as mulheres. Descreve-se
unicamente o visível ao espectador, o qual, ainda que interaja com a
comunidade, não a integra. Referenciam-se, assim a cor da pele e a
estatura. Em suma, transmite-se a impressão imediata, afirmando-
-se, por exemplo, serem os habitantes agradáveis ou desagradáveis,
as mulheres mais ou menos bonitas e graciosas, os costumes mais
ou menos livres.

Nestes discursos explicitam-se os comportamentos de grupo,


traçando-se os vários quadros de costumes, relatando-se as práticas
nupciais ou funerárias, ou as recepções mais ou menos oficiais.
Expõe-se a estratificação e hierarquia social, descrevendo-se o
sistema de castas, referindo-se o modo de viver dos brâmanes,
naires, panicais... .
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 171

Fig. 12 – Represen-
tação dos naires no
códice Casanatense

Exemplifiquemos um pouco melhor, tomando a descrição dos


naires aquando da exposição do espaço do Malabar. Confronte-se
como pela palavra de Tomé Pires e de Duarte Barbosa se traduz uma
imagem. Para Pires: “A gente do Malavar hé preta e baça e parda,
sam todos os reis gemtios bramanes ou de casta de seus saçerdotes.
A linguajem hé toda hũa, asi como em Italia, defere se pouca cousa.
(...) Averá neste Malavar duzemtos mill naires, homens de peleja
d’espada e adarga e frecheiros. São homens que adoram o seu rei
(...) Sam estes naires homens leais e nam tredos. (...) Nenhum naire
nam tem pai nem filho. Não casam as nairas, quantos mais amigos
tem tamto / hé mais honrada. (...) Tambem há naires que vemdem
azeites e peixe (e) mantimentos. (Muitos) sam ofiçiais macanicos.
Nenhua virtude sabem as nairas do Malavar, nem exerciçio de cozer
nem de lavrar, somemte comer e folgar.”91

Aos traços exteriores, gerais e lineares de um Tomé Pires,


que procura expor um quadro de “encontro”, contrapõe-se a
digressão narrativa de Duarte Barbosa que historia “um estar – uma
permanência”. Assim: “Nos renhos do Malavar ha muitas leis de
gente, (...) entre os quaes os naires que são os mais honrados e
limpos que são fidalgos e não teem outro oficio senam pelejar onde
quer que são necessarios. E continuamente trazem suas armas e

91
Rui Loureiro, O manuscrito de Lisboa da Suma Oriental de Tomé Pires, pp. 104-
-105 e 109-110.
172 Ana Paula Avelar

hão-o por honra e galantaria, a saber, deles espadas nuas nas mãos e
adargas e outros arcos e frechas e outras lanças (...).”92

Ainda que exponha as mesmas informações de Pires, como


seja a referência ao estatuto social que estes auferem, os quadros
descritivos de Barbosa são minuciosos e procuram a precisão do
detalhe: “Este naires el-rei não tem poder pera os fazer se não são
de linhagem. São homens mui limpos e isentos em sua fidalguia.
Servem e guardam mui bem o rei e senhor com quem vivem (...).
Estes não são casados nem teem filhos certos senão os filhos de suas
irmãs são seus herdeiros. (...) as nairas são todas isentas em fazerem
de si o que quiserem com naires e bramanes e não com gente baxa,
sob pena de morte (...). (Os naires) se mete neles o diabo que é um
dos seus deuses em que eles creem (...). E o naire em que entra
vem, com a espada na mão, tremendo e bradando como doudo e
dando cutiladas pela cabeça, (...) entra em casa do rei, sem lhe fazer
nhũ acatamento e diz: eu sou tal deos e venho-te dizer que façaes
guerra a tal rei, e, às vezes lhe manda outra cousa que nom seja
muito serviço de Deos.” 93

Mas sistematizemos. Constata-se assim que na Suma Oriental,


Tomé Pires referencia os naires no contexto do Malabar, ou seja,
num contexto grupal, assinalando características gerais. Por seu
turno, Duarte Barbosa, ao desenvolver o seu discurso sobre o
espaço do Malabar e as envolvências sociais, evoca claramente os
costumes, os quais são nuclearmente narrados. Para além dos traços
distintivos do grupo, Duarte Barbosa apura as características deste,
explicitando as suas crenças.

Quando confrontamos estes textos matriciais com os que deles


se servem, logo nos primórdios do século XVI, observa-se, para
além dos traços distintivos do sujeito autoral, e da finalidade da
escrita, a ampliação dos quadros descritivos os quais servem como
sistema referencial e contextualizador dos espaços sociais que são

92
Maria Augusta da Veiga e Sousa, o livro de Duarte Barbosa op. cit., p. 164 e segs.
93
Ibidem.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 173

esboçados. Tanto Fernão Lopes de Castanheda como João de Barros


descrevem esta mesma casta. Estes cronistas da Expansão são aqueles
que expõem explicitamente os costumes dos povos, nomedamente
das “terras da Índia,” ao contrário de Gaspar Correia, que, como já
afirmei, explicitamente remete o seu leitor para a obra de Duarte
Barbosa.

Para Castanheda: “(...) Naires, q̃ ƒam todos fidalgos, & não tem
outro officio ƒe não pelejar quando he neceƒƒario, & ƒam gentios:
trazẽ continuamente as armas com q̃ pelejão que ƒam arcos,
frechas, lãças, agomias & escudos, & tem que andão coelas muyto
hõrrados & galãtes: porem andão nus ƒómente com hũs panos
dalgodão pintados q̃ os cobrem da cinta ate ho giolho: & deƒcalços
com toucas nas cabeças. Viuem todos com el rey ou com ƒenhores
de terra que tem moradia (...). Nem os reys podẽ fazer Naires ƒe
não forẽ de linhagẽ de Naires (...). Eƒtes per ley do reyno não podẽ
caƒar, & por iƒƒo não tẽ filhos certos, porque os que tem ƒam de
mancebas com que dormẽ tres & quatro (...) Eƒtas molheres ham
de ƒer nairas porq̃ nãm podẽ dormir cõ vilaãs, & eƒtas tambẽ não
caƒam (...).”94

Os transes visionários a que se expõem e que foram sinali-


zados por Duarte Barbosa são igualmente assinalados pelo autor da
História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos portugueses. Fernão
Lopes de Castanheda escreve que: “(…)ho naire em q̃ ho diabo
entra vaiƒe cõ a espada nua diãte del rey tremendo todo, & dando
cutiladas em ƒi, & diz. Eu ƒou tal deos & venho te dizer q̃ faças tal
cousa, & iƒto bradãdo como doudo.(...) Ha tãbẽ outros generos de
gentes no Malabar de diuersas feitas e cuƒtumes(...).”95

A visualidade das roupas e os traços das suas ritualidades não


deixam de ser notadas por Fernão Lopes de Castanheda. Este
“testemunho de vista”, corporizado no uso da primeira pessoa, não
aparece em João de Barros, ainda que este exponha minuciosamente

94
Fernão Lopes de Castanheda, op. cit., I Livro (1551)
95
Ibidem.
174 Ana Paula Avelar

os quadros sociais. O autor das Décadas da Ásia… afirma que:


“De todas eƒtas gerações a mais belicóƒa é a gente dos Naires
por terẽ profiƒƒam de ƒerem hómeẽs de guerra: os quáes ƒendo
do mais nóbre ƒangue de todo o gẽtio na opiniam delles, podenƒe
chamar filhos de vulgo: cá nam lhe ƒabẽ certo pay, por as molheres
dos Naires ƒerẽ comũas aos de ƒua dignidáde. Porem eƒtas ley
nam ƒe guárda acerca dos muy nóbres, ƒómẽte entre o póuo delles
(...) hũa molher deƒte ƒangue dos Naires(...) póde dar entráda
em ƒua cáƒa a quantos Naires quiƒer (...) E ƒam elles & ellas tam
liures deƒte vinclo cõjugal, (...) daquy vem nenhũ delles auer por
filho o párto da molher (...) ƒeus verdadeiros herdeiros ƒam os
ƒobrinhos filhos das jrmãs.”96

Contudo, a escrita de Barros compensa o Eu da vivência autoral


no espaço asiático pela ampla cultura livresca que apura os quadros
informativos que transmite sobre os costumes. Veja-se como se
aplica o signo do conhecido, ao que agora se conhece. O naire
é “armado cavaleiro” à semelhança do que ocorre na Europa de
Quinhentos: “Eƒte nóme Naire ajnda que ƒeja do ƒangue delles,
nam o póde algũ ter ƒenam depois que é armádo caualeiro, &
porem góza dos priuilégios de ƒua nobreza (...) E acertãdo o ƒeu
rey ou ƒenhor que ƒeruem de morrer na batálha, & elle ƒe nam
achou naq̃lle lugar pera morrer com elle: ajnda que ƒeja em reyno
eƒtranho, la vam demandar ƒua mórte (...).”97 Expor a novidade
passa na escrita de João de Barros pelo precisar minucioso das
práticas agora conhecidas em Portugal. As gentes do Malabar
praticam várias artes de adivinhação as quais são rigorosamente
enunciadas pelo nosso cronista, completando, assim, aquela que foi
a informação da sua matriz escrita, Duarte Barbosa. É Barros que
escreve: “(…) é gẽte tã ƒuperƒticióƒa q̃ nã mouérã o pé ƒem eleição
da óra; (...) Todo o gentio daquellas pártes per aƒtrologia, geomãcia,
pyromancia, hydromancia, onomancia, & outras eƒpecias deƒtas
ártes que elles referem ao curƒo do ceo & planetas: mas ajnda todo
o genero de agouros per alymarias áues & outras feiticerias em q̃

96
João de Barros, Asia ...Década, (1552)
97
Ibidem.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 175

mostram ƒerẽ mais doctrinádos, ou melhor dizer mais familiáres


do demónio do q̃ forã neƒta párte os Grégos & romanos ƒegundo
as couƒas q̃ fazem de q̃ tem muytos liuros. ” 98

Em suma, tanto Fernão Lopes de Castanheda como João de


Barros referenciam este espaço do Malabar, assinalando na titu-
lação dos próprios capítulos os costumes locais, sendo destacada
a maneira como vivem os naires. Embora no confronto entre o
texto de Pires e de Barbosa encontremos similitudes descritivas, a
voz autoral distingue-se, sendo tal processo igualmente praticado
pelos cronistas da Expansão, Fernão Lopes de Castanheda e João
de Barros. A erudição de quem não vivenciou o espaço e que o
observa, ou melhor, o transmite através de outros olhares que o
experienciaram, é tanto mais evidente quanto se confronta o texto
de Barros com os daqueles que visitaram e permaneceram nos
espaços asiáticos: pense-se na explicitação das artes divinatórias que
Barros aduz ao discurso matricial. O experienciado em Castanheda
evidencia-se, por exemplo, no modo como assinala seja os panos
pintados que cobrem os naires da cintura aos joelhos, seja o facto
de estes andarem descalços com toucas na cabeça.

Nesta visitação da memória e da palavra dos que, afastados


da Europa, pretendiam aproximar os seus contemporâneos da
novidade há tanto tempo imaginada, verifica-se num tempo em
que os mitificados factos, de frígidas ribeiras, terras de fogo, rios
de mel, homens com esporões, monóculos, e árvores de onde
nasciam pedras preciosas99 se começam a desvanecer. Contrapõe-
-se a vivência de quem vai e permanece nos novos espaços. Todavia
importa ter em atenção que no imaginário europeu corporizam-
-se representações alegóricas do espaço asiático. Sinalize-se, só a
título de exemplo, como no séc. XVII a Ásia em Jan van Kessel
(1664-66) é representada através de um conjunto de 16 painéis,
que se dispõem em redor de um quadro central onde se encontra
representada, a cidade de Jerusalém, evocação da espiritualidade.

98
Ibidem.
99
Cf. Jean Delumeau, Uma história do paraíso, Lisboa, Terramar, 1994, pp. 66.
176 Ana Paula Avelar

A alegórica exposição de um coleccionismo exótico, que povoa


o quadro central, contrapõe-se à luxuriante natureza que categoriza
o espaço, a qual vai sendo distintamente evocada em cada um dos
painéis. Goa é exposta através de todo um conjunto de elementos
aquáticos, sendo o espaço pictótico dominado por uma invulgar
panóplia de peixes e crustáceos.

Fig. 13 – Ásia de Jan van Kessel (1664-66)

Contudo, esclareça-se que a alegórica representação de Goa no


séc. XVII inscreve-se naquele que foi o eco de uma europeização
asiatizada que atravessa a representação desta cidade ainda no nosso
século XVI. Veja-se como no conjunto de representações de cidades,
elaborado na última década de Quinhentos por G. Braun e F.
Hogenberg e intitulado Urbium proecipuarum mundi theatrum, a urbe
goesa surge representada. Ela é considerada como a mais longínqua
urbe do espaço europeu, ancorando-se a sua representação numa
clara visão eurocêntrica do Mundo.

A sua representação obedece a um traçado que se aproxima


do das cidades europeias. É certo que o seu desenho não é à vista,
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 177

Fig.14 – Goa na Ásia de


Jan van Kessel (1664-66)

Fig. 15 – Goa em G. Braun e F. Hogenberg

procurando traduzir, pela pena, as descrições daqueles que por lá


viajaram. Contudo este é um traçado europeizado de um espaço,
diferente do exposto por quem viveu na cidade. Confronte-se a
Goa de Braun com a de D. João de Castro.

Fig. 16 – Goa-a-Nova em D. João de Castro Fig. 17 – Goa-a-Velha


em D. João de Castro
178 Ana Paula Avelar

Este fidalgo português escreveu sobre o espaço que visitava,


redigindo os roteiros das suas várias viagens. Estas representações
de Goa acompanham o Roteiro de Goa a Diu elaborado por este
fidalgo em 1538-1539. Esta é a perspectiva área, de mar para terra,
pontuando-se, deste modo, o locus visitado e vivenciado por este
vice-rei da Índia (1545-1548) através de indicadores reconhecíveis
do mesmo.

Mas debrucemo-nos um pouco sobre a escrita de Goa. Na


exposição de um espaço como o do Malabar, e de um grupo social
como os naires recorre-se, como vimos, a uma grelha de descritores
que aproxima o leitor que não viu, que não vivenciou a novidade,
ao diferente. Contudo procura-se a verossimilhança do visível.
Duarte Barbosa fá-lo, referenciando não só o que pessoalmente viu,
mas deleitando-se em procurar junto de mouros, cristãos e gentios os usos
e costumes de que eram práticos e cujas informações tomou o trabalho de
combinar com outras100. É, aliás, esse o deleite que transparece, quando
situa a cidade de Goa a partir de um muito formoso rio, que lança dois
braços ao mar, entre os quais se faz uma ilha101.

Os seus habitantes, muitos mouros honrados, muitos deles estrangeiros


de muitas partidas são sinalizados por Barbosa. Na sua escrita
focaliza-se, primordialmente, o passado recente do espaço goês e
os sucessivos contactos com os portugueses. Esta cidade, centro
decisor da presença portuguesa no espaço asiático, é, segundo
Barbosa, muito grande, de boas casas, bem cercada de fortes muros, torres e
cubelos, possuindo, nas suas vizinhanças, muitas hortas e pomares,
com formosas árvores e tanques de boa água, com mesquitas e
casas de oração de gentios. A terra é, como ele próprio assinalada,
toda em redor muito aproveitada102. A intensa actividade do seu porto é
cuidadosamente descrita, cruzando-se nele mercadorias de todo o

100
Estas indicações são apresentadas no prefácio que saiu na edição Quinhen-
tista, em língua italiana do texto de Barbosa. Cf. Maria Augusta da Veiga e
Sousa, op. cit., I, p. 49.
101
Ibidem, II, p. 19.
102
Ibidem, II, p. 20.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 179

Malabar, Chaul, e Dabul, do grande reino de Cambaia, as quais são


comercializadas na terra firme103.

As características belicistas das suas gentes destacam-se no


discurso de Barbosa quando referencia os que governam Goa.
Estes, muitas vezes, têm guerra uns com os outros, possuindo forte
contingente de gente a cavalo. São, como escreve, homens brancos,
muito bem apessoados e muito bons archeiros de arcos turquescos104.
Por outro lado, os senhores mouros cavalgam à bastarda, servindo-
-se de chicotes, e lutam atados na sela, com uns piques compridos e
muito leves, de ferro de uma braça, quadrados e muito fortes... Os cavalos
são protegidos da refrega do combate e os cavaleiros usam vários
tipos de armas desde as maças, machadinhas… Trazem sempre
consigo duas espadas e uma adaga, dois ou três arcos turquescos
pendurados na sela e as suas mulheres acompanham-nos nos palcos
de guerra.

Já os gentios, na sua maioria, pelejam a pé, ainda que alguns


combatam a cavalo. Os peões usam espadas e adagas, arcos e frechas
e são muito bons archeiros. Os seus arcos são compridos, à maneira,
segundo Barbosa, dos de Inglaterra. Este nosso escrivão assinala o
facto de os peões andarem nus da cintura para cima, usando nas
cabeças umas, como ele delicadamente refere, toquinhas. Comem
todo o tipo de carne, excepto a de vaca, visto que tal lhes é interdito,
pelo que categoriza ser a sua idolatria. Barbosa explicita que os
gentios têm por costume queimar os seus mortos, sendo as suas
esposas queimadas vivas105. A descrição do sati é assim introduzida
aos que na Europa, agora lêem sobre os novos espaços indianos.

Os tópicos de referência descritiva que encontramos em


Tomé Pires seguem os de Duarte Barbosa, sendo Goa uma cidade
tão forte como Rhodes. Esta evocação do baluarte defensivo do
Mediterrâneo cristão é a imagem translúcida de que, para a Europa

103
Ibidem.
104
Ibidem.
105
Ibidem, p. 80.
180 Ana Paula Avelar

de então, o diferente reporta-se ao conhecido, tomando-se as


qualidades da verosimilhança como caracterizadoras de um todo.
Esta Goa de Pires é a que possui quatro fortalezas mui ricamente obradas
pelos lugares necessários106.

Para além de situar o reino de Goa considerado, chave das Índias,


este boticário português inventaria largamente as características das
suas terras e portos de mar, esboçando minuciosamente o seu rico
trato. As gentes de Goa são evocadas através de um topus descritivo
que não se plasma na prática da ars belica, mas sim na mercância.
Os gentios deste reino têm formosos templos, têm sacerdotes, não
comem cousa que tenha sangue, nem feita por mão de outrém.
As gentis mulheres de Goa são jeitosas no vestir. As que dançam e
volteiam superam em tudo as de outras partes107.

Vivencia-se um espaço, percorrendo o olhar pelas gentes com


que se cruza nesse tempo ocioso entre, como Pires escreve, os
afazeres dos cargos da feitoria e das necessárias estendidas leituras do
funcionário do reino de Portugal. É certo que tanto Duarte Barbosa
como Tomé Pires seguem nos seus discursos os seus percursos de
viagem aparecendo Goa no momento a que aí aportariam, enquanto
os cronistas da Expansão, que os consultam, narram a presença
portuguesa em terras do Oriente, sendo o espaço de Goa descrito no
momento em que descrevem o governo de Afonso de Albuquerque
e a tomada da cidade em 1510. O ataque português foi perpetrado
com a colaboração activa de Timmaya, um chefe naval de Honavar,
um principado de Canará. Goa encontrava-se então sob o domínio
de Yusuf Adil Shah, governante de Bijapur, e era um importante
centro de comércio. Contudo, não serão estas as informações que
de imediato surgem nos textos da cronística da Expansão, outros
são os eventos de imediato evocados.

A História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses,


de Fernão Lopes de Castanheda, a Ásia..., de João de Barros, e

106
Cf. Tomé Pires, op. cit, p. 94 e segs.
107
Ibidem, p. 97 e 98.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 181

as Lendas da Índia, de Gaspar Correia, debruçam-se sobre Goa


enquanto espaço a ser dominado no momento em que, como já
afirmámos, o governador Afonso de Albuquerque toma a decisão
de a conquistar. Antes do feito militar, tanto Fernão Lopes de
Castanheda como João Barros introduzem o espaço descritivo,
cortando o fluir cronológico e a imersão do leitor no quadro da
actuação do cavaleiro/capitão, daquele que é o estratega do combate.

Se é claro que o testemunho presencial, o imediatamente visto,


é algo de presente em Fernão Lopes de Castanheda e em Gaspar
Correia, pois ambos viveram na Índia durante algum tempo, tal não
acontece com João de Barros. Este nunca se deslocou ao Oriente
como já assinalei. O conhecido é o de outrém, o vivido no texto de Barros
é o que transparece dos relatos recolhidos por este cronista junto de
quem participou nos acontecimentos. Após ter situado a acção histó-
rica, Fernão Lopes de Castanheda procede ao enquadramento do
espaço goês, escrevendo de como está situada a cidade de Goa cabeça do
senhorio do sabaio (cap. VIII – livro III), mergulhando no capítulo
seguinte na descrição dos acontecimentos que se prendem com os
combates travados por Afonso de Albuquerque na cidade. Seguindo
idêntica estratégia discursiva João de Barros inicia o seu quinto livro
da sua Segunda Década pela exposição do sítio da cidade de Goa,
expondo o que conhece relativamente à sua fundação e povoação
da terra, bem como ao tributo que pagam os seus moradores. Já
no segundo capítulo o cronista contextualiza historicamente os
eventos, escrevendo como os mouros se fizeram senhores por conquista
do reino de Decão e estado de Goa, noticiando no terceiro os combates
pelo domínio da cidade.

Ainda que conhecendo o Oriente, e tendo vivido em Goa, Gaspar


Correia demarca-se dos mencionados cronistas da Expansão, pois
claramente explicita que não é sua intenção escrever sobre as terras,
gente e trato, visto outros, como Duarte Barbosa, o terem feito.
Contudo, Gaspar Correia referencia aqui e ali circuntâncias que
iluminarão o seu discurso, como quando declara: “E porque falei no
rio de goa velha darei disso alguma razão, para boa informação do
182 Ana Paula Avelar

que é este reino e senhorio de Goa.”108 Na sequência desta afirmação


assinala que este senhorio teria sido de gentios tributários do rei de
Bisnagá (Vijayanagar), destacando as condições de navegabilidade
do rio para as naus e retratando a topografia do espaço.

Apesar de encontrarmos nas Lendas da Índia o escorço de


algumas das praças tomadas pelos portugueses, Goa não se encontra
contemplada ou o desenho ter-se-á perdido. No entanto o olhar de
Gaspar Correia peregrina pelo espaço, tendo por objectivo o traçar
de um esquisso. Aliás esta abordagem do espaço, intensamente
visual, é o recurso por excelência dos cronistas da Expansão,
como, aliás, tenho demonstrado. Mas voltemos a Gaspar Correia.
O autor das Lendas da Índia menciona que a ilha de Goa tinha
muitos esteiros, várzeas alagadiças, e “grosso trato”, o que teria
engrandecido a cidade, chegando muito rendimento tanto por terra
como por mar. O aparato defensivo da cidade e o poder de guerra
do seu senhor são igualmente apresentados, espraiando o cronista
as teias de dependência que servem o governo local. Apesar de
ter argumentado não ser objecto das suas Lendas a descrição dos
costumes locais referencia que noutras ilhas senhoreadas por Goa
existiam: “(...) casas de seus ídolos, de cantaria de grandes edifícios
e lavores, com grandes rendas em que tinham seus brâmenes, que
são seus sacerdotes nas leis de suas cerimónias, em que usavam de
lei que morrendo marido as mulheres se queimavam vivas com ele,
e a que isto não ficava aviltada, para sempre engeitada de entre as
gentes (...)”109. É igualmente nas Lendas da Índia que encontramos
historiografada a descendência reinícola do reino do Decão e do
senhorio de Goa naqueles que são os anos imediatamente anteriores
à tomada da cidade pelos portugueses.

Recorde-se que, apesar de João de Barros referenciar o passado


deste espaço anterior à presença dos portugueses, esta não é a sua
estratégia discursiva. Barros ocupa todo um capítulo com o historiar
do modo como os mouros conquistaram o Decão e o estado de

108
Gaspar Correia, Lendas da Índia, II, p. 55.
109
Ibidem, II, p. 56.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 183

Goa, esmiuçando as fontes consultadas, como as histórias e cosmo-


grafias persas e as crónicas dos reis de Bisnaga. Ele fundamenta as
suas opções discursivas, traçando um quadro histórico contextua-
lizador de um tempo e de espaço: É o apresentar de um Outro onde
o referente europeu subjaz à estrutura da enunciação. Atente-
-se, só a título de exemplo, como no momento em que Barros
exemplarmente explica o domínio destas terras expõe os laços de
sujeição estabelecidos e a obediência que deve ser guardada. A dado
passo, ao aludir à recepção pelo rei dos seus súbditos, o cronista
explícita os actos de reverência praticados, afirmando que cortesia
seria um abaixar de cabeça ante o senhor até a pôr quase nos joelhos e a
mão direita no chão, esclarecendo que os que seriam muito nobres, não
colocariam a mão no chão, mas sim a própria perna. Fariam tal
movimento três ou quatro vezes, antes de se aproximarem do seu
senhor. Quando tal acontecia, colocariam a cabeça entre as mãos,
oferecendo-se deste modo como seus escravos. Este era o sinal de
que pertenciam ao seu senhor o qual poderia dispor das suas vidas
como lhe aprouvesse110.

Todos estes cronistas situam a cidade de Goa, traçando a sua


malha topográfica, porém em cada texto é possível detectar os
elementos definidores de uma voz autoral. É assim que em Barros
deparamo-nos com a minúcia do descrito, com aquilo que é
a tradição do que foi dito, com o cruzar de vários dados que se
subordinam a uma logicidade própria: a apresentação da terra, do seu
enquadramento espacial e dos homens. É o retrato do movimento
das gentes e o historiar do domínio português.111

Já Fernão Lopes de Castanheda revela-se na contenção descri-


tiva. Num único capítulo o cronista evoca a ligação ao reino do
Decão e as suas coordenadas geográficas, tendo como padrão a
localização marítima. A malha da cidade é transposta a partir de um
olhar marítimo, dando o autor notícia das suas barras. O traçado
topográfico é sinalizado, nomeadamente através dos seus braços de

110
Cf. João de Barros, Asia... Segunda Década, p. 191.
111
Cf. Ibidem, pp. 188-198.
184 Ana Paula Avelar

mar e das diferentes fortificações que serviam o esquema defensivo


da cidade.

Em suma, a malha de Goa é apresentada de acordo com


grandes planos. A terra é formosa e viçosa, possui grandes palmares
que dão entre outros produtos, vinho e azeite, tendo igualmente
muitas hortas e mui sadias águas, arroz, legumes e muito gado
de vacas, búfalos, porcos, galinhas e pescado. A cidade tinha um
bom traçado de ruas e casas altas sobradas de pedra e cal, cercada de
muros baixos, apresentava para além destes aspectos uma boa fortaleza
e grandes armazéns. A impressão geral formula-se, assim, através
da justaposição dos elementos caracterizadores de um espaço: o
que é visto e construído no esquisso de cada cronista. A face da
cidade, o melhor do espaço goês, vai-se transmutando ao longo das
páginas das crónicas da expansão, acompanhando os tempos e as
intervenções dos homens.

Mas para além dos relatos de uma permanência portuguesa nas


linhas de costa, exposição da construção de um poder talassocrático,
deparamo-nos com a transmissão do que foi ouvido, incrustando-
-se a informação no fluxo narrativo de cada narrador. É necessário
traçar um espaço, expondo os domínios locais mesmo os que não
foram visitados à época pelos portugueses como foi o caso do reino
de Deli. Barbosa evoca de imediato a situação deste reino, tomando
a palavra reino a valoração dos antigos – regnum – domínio exercido
sobre um espaço. Não encontramos a explicitação topográfica do
espaço, referindo-se unicamente que Deli se situa para dentro, no
sertão, confinando na banda do norte com a Tartária. Este reino é
considerado mui grande, de muitas terras e cidades grandes e ricas, onde
vivem grossos mercadores. Os habitantes mouros são referenciados,
mencionando-se que este teria sido anteriormente um reino de
gentios e que muitos ainda aí permaneciam.

Duarte Barbosa focaliza neste momento do seu texto os ascetas


indianos. É a experiência pessoal, o contacto com o visto, que se
introduz quando se descreve um reino que não foi visitado por quem
escreve. Este enfoque é tanto mais importante quando constatamos
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 185

o modo como é exposto o perfil destes indianos. Barbosa descreve-


-os fisicamente, salientando a sua peregrinação pelas ruas, quase nus,
com umas tangas, minuciosamente retratadas112. O nosso escrivão
intersecciona o seu olhar, o que viu no que ouviu. O seu contacto,
mais ou menos quotidiano com estes ascetas, espelha-se no perfil
desenhado: de corpos e faces untadas de cinzas, mui bem dispostos
e apessoados, gentis homens que nunca penteiam os cabelos, trazendo-
-os feitos em tranças. Duarte Barbosa expõe o seu testemunho,
afirmando que várias vezes os tinha interrogado, perguntando-lhes
a razão de tal penitência, ao que eles lhe teriam respondido que esta
resultava dos grandes pecados que teriam cometido113.

O vivenciado plasma a veracidade no escrito. Não é só o que


chega do longínquo sertão o que se escreve. Após estes dados,
colhidos através da experiência pessoal esmiuça-se o registo do que
há neste reino de Deli. Barbosa subscreve aqueles que são os seus
descritores narrativos, comuns ao relato que elabora dos sucessivos
reinos. É assim que nos surge aquela que seria a propriedade a
destacar naquele espaço, o facto de este ser um reino de mui bons
cavalos que nele nascem e se criam e dos seus naturais revelarem muitas
qualidades bélicas114. Enumeram-se as boas lanças, espadas, maças,
machadinhas… retratando-se o observado. Se por um lado, se
descreve as capacidades combativas destes naturais, sendo este um
tópico nuclear do discurso de Barbosa, não deixam de ser expostas
as qualidades curativas de algumas plantas, explicitando o nosso
escrivão as suas propriedades e o modo como se devem ministrar.

Também nas crónicas da Expansão se reflecte o que corre


entre as gentes, contextualizando-se os dados recolhidos. É assim
que Fernão Lopes de Castanheda sinaliza este sultanato em vários
momentos da sua narrativa, referindo a intervenção dos seus
governantes nos acontecimentos descritos, ou a cobiça pelos seus
domínios. A descrição do seu espaço é verdadeiramente singela,

112
Cf. Maria Augusta da Veiga e Sousa, op. cit., II, p. 94.
113
Ibidem, II, p. 96.
114
Cf. Ibidem, II, p. 98.
186 Ana Paula Avelar

elaborada através de frases como o grande reino de Deli, que fica


bem dentro no sertão da Índia115, aquele de onde chegam algumas
peças de finíssimo algodão branco. É através destas centelhas que
se constrói a face de Deli nesta História dos portugueses em terras
do Oriente.

Por seu turno em Gaspar Correia, e subscrevendo o mesmo


propósito de narrar a presença portuguesa pelos espaços orientais,
o reino de Deli surge igualmente através de vozes, é o reino que
diziam que: “(...) tinha cento e vinte mil povoações entre grandes
cidades, vilas, e aldeias, e contados como são de cem casas
acima(...)”116. É o reino que é cobiçado pelos seus domínios. São
as lutas que se travam localmente que reflexivamente atravessam
estas crónicas, expondo-se uma realidade, aproximando o espaço de
Portugal/ da Europa que lê da distante Ásia, agora mais ou menos
constantemente revisitada.

A preocupação com o passado, com o que antes da chegada


dos portugueses aconteceu neste espaço, agora revisitado pelos
portugueses, é objecto da curiosidade. Recorde-se como chegou
até nós a Chronica dos reis de Bisnaga, texto manuscrito que teria
sido compilado para servir a quem pretendesse conhecer a história
daquele espaço. João de Barros ter-se-ia servido desta crónica para
a elaboração da sua Ásia… .

Um dos espaços que de imediato é percepcionado pelos portu-


gueses como objecto de exercício de um domínio português, é o
de Cambaia. Este reino do Guzarate é convocado nestes primeiros
textos, espelhos de uma permanência, a qual se consubstancia
numa escrita que ainda no século XVI procurará transmitir a
História local, seja através da anteriormente referida Chronica dos
reis de Bisnaga117, seja da Chronica Geral dos sucessos de Gusarte118, a qual

115
Cf. Fernão Lopes de Castanheda, op. cit., I, p. 724.
116
Gaspar Correia, op. cit., III, p. 506.
117
Cf. David Lopes, Chronica dos Reis de Bisnaga, Lisboa, Imprensa Nacional, 1897.
118
Cf. S. C. Misra e K. S. Mathew, Chronica Geral dos Sucessos do reyno de Gusarte
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 187

é atribuída a Diogo Mesquita, fidalgo português que teria perma-


necido na corte do Gujarate, dominando várias línguas, histo-
riando um passado. O seu texto relata um tempo, essencialmente o
que decorre de 1527 a 1535. É a centralidade de Cambaia e da praça
de Diu, da sua importância estratégica na consolidação do domínio
português deste espaço do Índico que origina esta crónica.

Mas regressemos aos textos fundacionais de uma perma-


nência, aqueles que expõem logo por volta de 1516 os costumes
locais, muito em particular dos seus reis. Como escreve Duarte
Barbosa el-rei de Cambaia é mui grão senhor de gentes, rendas, tesouros, tem
muita terra e mui rica. Contudo, este é um espaço de resistência activa
e constante ao domínio português nas terras e mares da Índia. É o
rei Mahmud Begarha, que segundo Fernão Lopes de Castanheda,
após a formação de senhorio português da Índia e constatando
que aí permaneciam, procurou a paz, atraído pelas mercadorias
que então se comercializavam, nomeadamente o cobre119. Sendo
igualmente este o rei que de Alexandria recebeu apoio, inquirindo
sobre a possível guerra que deveria ser desencadeada contra
Portugal120. As movimentações políticas e as estratégicas conse-
guidas através das mais ou menos duradoiras alianças traçadas no
terreno são esboçadas nos textos que historiam num tempo longo a
presença portuguesa neste espaço asiático.

A questão de Diu destaca-se na produção narrativa deste século


XVI. É certo que, os combates militares foram objecto de narrativas
próprias, demonstrações de um domínio, o português no palco do
Índico. Recorde-se, por exemplo, o Commentario do cerco de Goa e
Chaúl no ano de M.D. LXX, de António de Castilho ou a História dos

a qm. Chamao Cambaya, Baroda, The Maharaja Sayajirao University of Baroda,


1981.
119
Fernão Lopes de Castanheda, História do Descobrimento e Conquista da Índia
pelos portugueses (Livro I, 1551).
120
Cf. Crónica do Descobrimento e Conquista da Índia pelos portugueses, Códice
Anónimo, Museu Britânico, Egerton 20 901.
188 Ana Paula Avelar

Cercos de Malaca, de Jorge de Lemos (1585)121. A praça de Diu e os


sucessivos cercos de que foi objecto surgem claramente como um
dos tópicos nucleares da escrita da Expansão.

Fig. 18 – O Rei de
Cambaia no códice
Casanatense

A própria evocação do seu Rei, naquela que é uma cena de caça,


no códice Casanatense, expõe paradigmaticamente essa presença.
Segundo a legenda que integra esta aguarela, foi ele quem pôs
cerco a Diu e está tirado pelo natural. Luís de Matos defende que esta
será a representação de Mahmud Shah III, sultão do Guzarate. Ao
longo do século XVI encontramos o tópico de Diu em várias obras
não só escritas por portugueses mas que correm noutros círculos
europeus. Registe-se, só como exemplo, a relação inédita de
Raffaello Gualtieri sobre o segundo cerco de Diu122, mas observe-
-se o conjunto de textos que correm no século XVI sobre os cercos
perpetrados contra esta praça:

121
Cf. Jorge de Lemos, História dos Cercos de Malaca, Lisboa, Biblioteca Nacional,
1982 (edição fac-similada). Vejam-se os trabalhos incontornáveis de Rui
Bebiano e de Marinho dos Santos sobre o tópico da guerra.
122
Cf. Manuel Cadafaz de Matos, “Uma relação inédita de Raffaello Gualtieri
sobre o segundo cerco de Diu (1546) existente na Biblioteca Pública de
Sienna”, in Congresso Internacional Bartolomeu Dias e a sua época, Actas, V, Porto,
1989, p. 617-990.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 189

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–  O  Livro  de   –  3PUFJSP –  )JTUØSJBEP –  $SØOJDBT   –  $SØOJDBEF –  $PNNFOUBSJJ –  4VDFTTP


Duarte  Barbosa   EF(PB %FTDPCSJNFOUP EF%.BOVFM %+PÍPEF 3FSVN EP4FHVOEP
(1511-­16) B%JV de   F$PORVJTUB FEF%+PÍP $BTUSP 7J[P (FTUBSVN DFSDPEF
D.  João   EB¶OEJBQFMPT *** até  1533)   3FJ2VF'PJEB JO*OEJBDJUSB %JV&TUBOEP
o4VNB0SJFOUBM   de  Castro   QPSUVHVFTFT  de   de  Gaspar   ¶OEJB %JSJHJEB (BOHFN  de   %Ü*PBN
de  Tomé  Pires   (1538-­39) Fernão  Lopes   Correia   BPNVJUP Damião  de  Góis,   .BTDBSFOIBT
(1512-­15) de  Castanheda   (1532-­33) FTDMBSFDJEPF (Louvaine,1539) QPSDBQJUÍP
(1551  e  1561) JMVTUSF4FOIPS –  $PNNFOUBSJVT EBGPSUBMF[B
–  Crónica  geral   –  $SØOJDBEP %"OUØOJPEF EFSFCVTB BOOPEF
dos  sucessos  do   –  «TJBEPT 'FMJDJTTJNP "UBÓEF $POEF -VTJUBOJTJO de  Jerónimo  
reyno  de  gusarte   GFJUPTRVFPT SFJ%.BOVFM EF$BTUBOIFJSB  *OEJBBQVE%JVN Corte  Real  
a  qm.  Chamao   QPSUVHVFTFT de  Damião   4FOIPSEF HFTUJTBOOP (1574)
Cambaya,   m[FSBNOP de  Góis QPWPTF TBMVTUJTOPTUSBF
atribuía  a  Diogo   EFTDPCSJNFOUP (1566-­67) $IFMFJSPT  .%9-7*de   –  1SJNFJSP
Mesquita  (c.   FDPORVJTUBEPT "MDBJEF.PSEF Diogo  de  Teive   DFSDPRVF
1535) NBSFTFUFSSBT –  %FSFCVT $PMBSFTF7FEPS (1548
PTUVSDPT
EP0SJFOUF  de   &NNBOVFMJT EB'B[FOEBEF QVTFSÍPIÈ
João  de  Barros  HFTUJT &MSFJ/PTTP –  %F#FMMP GPSUBMF[B
(3  Décadas,   -VTJUBOJBF 4FOIPSde   $BNCBJDP EF%JV
1552,1553  e   JOWJDUJTTJNJ Leonardo  Nunes   6MUJNP OBTQBSUFT
1563) WJSUVUFFU (1550) $PNNFOUBSJJ EB*OEJB
BVTQJDJP USFTde  Damião   EFGFOEJEB
–  "T-FOEBT HFTUJT de  Góis   QPMMPT
EB¶OEJBde   -VTJUBOJBF -PVWBJOF 
QPSUVHVFTFT
Gaspar  Correia   EVPEFDJNde   EF%JV  de  
(...1561)123 D.  Jerónimo   –  )JTUØSJB Francisco  
Osório  (1571) 2VJOIFOUJTUBEP de  Andrada  
TFHVOEPDFSDP (1588)126
EF%JVde  
Leonardo  Nunes  
(c.1546-­47)

–  -JVSPQSJNFJSP
EPDFSDPEF%JV
RVFPTUVSDPT
QPTFSÍPË
GPSUBMF[BEF%JV
De  Lopo  
de  Sousa  
Coutinho125
(1556)

123
Esta obra seria trazida da Índia para Portugal em 1582, pretendendo-se que
fosse publicada, porém só no século XIX tal acontece.
124
Utilizo a titulação dada no momento da primeira impressão deste relato de
Leonardo Nunes aquando da publicação feita por António Baião em 1925.
Não nos esqueçamos que Leonardo Nunes acompanhou D. Fernando de
Castro a Diu, encontrando-se na fortaleza em 1546.
125
Lopo de Sousa Coutinho combateu no primeiro cerco de Diu.
126
Sai, deste mesmo autor, em 1613 a sua crónica de D. João III. O autor
190 Ana Paula Avelar

Revela-se emblemático o facto de possuirmos sobre este espaço


uma tal multiplicidade de modelos narrativos, desde relatos dos
cercos, roteiros, poemas épicos e até crónicas. Signo dessa relevância
é o facto de Leonardo Nunes metonimicamente considerar que a
crónica de um vice-rei, D. João de Castro, é a narração do segundo
cerco de Diu. A efabulação repercute-se na evocação deste domínio,
perdurando nas imagens de um tempo.

A morte de Bahadur Shah em 1537 às mãos de Nuno da Cunha


perpetua-se no imaginário não europeu, sendo ainda no século
XVII, representada na corte mongol do rei Akbar.

Fig. 19 – La’l,
O afogamento do
sultão Bahadur,
Agra, 1603-1604

Tal cerco vive no sonho de conquista de Mahmud Shah III, às


portas de Diu (2º cerco-1546), representado pelo pincel de Jerónimo
Corte-Real, acompanhando os seus decassílabos evocadores do
Sucesso do Segundo cerco de Diu. Estando Dõ Ioam Mascarenhas por
capitão da fortaleza. anno de 1546.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 191

“Chega-se a fera sombra ao rei dormido,


E com rigor lhe diz estas palavras.
Qual coração sera tam de diamante?
Quaes entranhas de Hircano, fero Tigre?
Que nam mouam, vendo a crua morte
Que ao grão Soltam Bhaudur se deu sem causa?
Como sofrerás tu tam grande offensa?
Como nám andaràs sempre corrido?
Senam vingares morte de hum tal homem?
Em tudo tão perfeito & acabado?...”

Jerónimo Corte-Real, Sucesso do Segundo Cerco de


Diu, canto I (1574)

O louvar dos feitos serve os autores e as redes familiares e


clientelares como instrumento de legitimação para a concessão de
mercês régias. A escrita dos Commentários de Afonso Dalboquerque, de
Brás de Albuquerque, é bem exemplo desta prática. Com o avançar
do século XVI assiste-se ao aparecimento de toda uma série de textos
que se centram noutros espaços, circunscrevendo e historiando
num tempo mais dilatado permanências. Os textos de Gabriel
Rebelo sobre as Molucas127, ou o Tratado das Cousas da China, de
frei Gaspar da Cruz128, ou ainda a Peregrinação, de Fernão Mendes
Pinto prefiguram uma modelação algo diferente da novidade.

Verdadeira nota epilogal da exposição do confronto de dois


sistemas referenciais, o da partida Europa – Lisboa, e o da chegada,
o Extremo Oriente é o Tratado em que se conteêm muito sucinta e
abreviadamente algumas contradições e diferenças de costumes entre a gente

serviu-se, como fonte matricial para o narrar dos feitos dos portugueses no
espaço oriental, das Lendas da Índia de Gaspar Correia que corriam ao tempo
manuscritas.
127
Recorde-se a dissertação de mestrado por mim orientada de Ana Gabriela
Nazaré de Morais Freire, “Novidades”, “Feitos”, “Murmúrios” – Os textos de 1561
e de 1569 de Gabriel Rebelo, Oficial Português nas Molucas, Lisboa, Universidade
Aberta, 2004 (edição policopiada).
128
Cf. Raffaella D’ Intino, Enformação das Cousas da China –Textos do século XVI,
Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1989.
192 Ana Paula Avelar

de Europa e esta província do Japão, de Luís de Fróis. Como ele próprio


escreve:

“Antre nós quando se toma uma rosa ou cravo cheiroso,


primeiro a cheiramos e depois a vemos;
os Japões, sem terem conta com o cheiro, se deleitam
somente na vista.”

É assim que em plena comunhão do deleite se precisa a dife-


rença dos sentires naquele que é já um tempo diferente, o de uma
longa permanência.
Nota Final
“In the light of the past, the present is transformed...”129
Tzvetan Todorov, Imperfect Garden

Num momento em que se pretende construir um novo


olhar para o passado:paradigma do saber, olhar para o passado deverá significar um
encontrar as matrizesencontro com as matrizes que enformaram o nosso presente,
que enformaram nosso desvendar a sua inteligibilidade, compreender a nossa identidade,
presente
conhecermo-nos melhor a nós próprios. Esta é, por excelência, a
função dos Estudos Históricos. Num tempo de mudança como é o
presente, em que se exige a percepção da diferença, e a interiorização
do novo, olhar para os modos como num passado, o de o Portugal
de Quinhentos, as novidades de outros mares, outras terras, outras
gentes, enfim de um “Mundo Novo” foram intuídas, representadas
e transmitidas, pode ajudar a desvendar o solo histórico de um
processo: “we can gain access more easily and more directly to the
world around us.”130

A História expõe como a memória colectiva faz parte da luta


pelo domínio, como o esquecimento /silêncio contraposto à referência/
recordação se manipula nas memórias colectivas. A importância da
memória e a sua função social constróem-se e constróem o escrever
a História. Não pretendi ao longo das últimas páginas analisar o
modo como a memória foi entendida neste século XVI, como

129
Tzvetan Todorov, Imperfect Garden – The Legacy of Humanism, p. 226.
130
Ibidem.
196 Ana Paula Avelar

intelectiva, partilhando o modelo retórico. Contudo ela, sendo


um dos cinco momentos que constituem a retórica, é o elemento
nuclear para a interpretação do discurso. Isto significa que ela
permanece como um instrumento imprescindível na estratégia
política. No século XVI a arte da memória aparece residualmente nas
disputas intelectuais131, até devido ao aparecimento da imprensa e
disputas intelectuais
no XVI
****** às questões que se prendem com a difusão das obras e os públicos a
que as mesmas se destinam. A repetição do texto, a sua reprodução
em séries idênticas, cria um objecto uniforme132, sobre o qual é
necessário percepcionar a razão /origem da sua construção. O texto
atravessa já nesta Europa de Quinhentos, as fronteiras naturais da
língua em que foi escrito originalmente, espalhando-se através
de diferentes traduções em diferentes círculos, como aliás ficou
demonstrado nos percursos traçados sobre obras como as de
Duarte Barbosa, Tomé Pires, Fernão Lopes de Castanheda ou João
de Barros.

É certo que a historiografia humanista escreve sínteses sobre o


eu e sobre a eloquência, debatendo-se a significação de cada elemento
– palavra ou frase –, seja como fazendo parte de uma estatégia
anagógica como acontece em Gaspar Correia133, ou como conceito
funcional como acontece em João de Barros.

Para este último, e ancorando-se em Platão, a palavra cria uma


ilusão de vida134, desenvolvendo tal noção a partir da ideia orgânica
das cousas: discurso e enunciação são gerados pela acção do palato,
língua, dentes, lábios e respiração, aquilo que os latinos chamam
“bofes”, sendo esta a causa pela qual estes utilizam a denominação
de ‘affatus’. Este processo gera as palavras, as quais são facilmente
assimiladas pelo ouvido, seu natural objecto, criando diferentes
significados e conceitos consoante o lugar que ocupam na frase.
131
Cf. Ibidem, p. 82.
132
Cf. Roland Barthes e Eric Marty, “Oral/Escrito” in Enciclopédia Einaudi,
Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 11, 1987, p. 55.
133
Cf. O primeiro prólogo das Lendas da Índia onde o autor declara os vectores
que norteiam o seu projecto. Gaspar Correia, Lendas da Índia, I, p. 2.
134
Cf. Roland Barthes e Eric Marty, op. cit., p. 156.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 197

Um dos seus conceitos-chave é a sequência arbitária usada por


cada nação na configuração do seu alfabeto. Segundo João de Barros
a referida sequência deve derivar de cada uma das línguas nacionais,
sendo a visão essencial a este processo pois ela capta cada caracter,
formando a essência das cousas e dos racionais conceitos. Por último, tudo
isto será transmitido através do discurso. É a mecânica dos sentidos, o
seu ponto de partida, ao analisar o acto de comunicar e a definição
do papel da memória como um repositório do tempo.

Em todos estes aspectos prevalece o eco da concepção plató-


nica, visto que esta elocução artificial de letras, para benefício
da perpetuidade, precede ao natural da fala. Porque esta, sendo
animada não tem mais vida que o instante da sua pronunciação.
Por seu turno as letras, apesar de serem uns caracteres mortos e
não animados, possuem em si, como assinala, o espírito de vida135.
Esta preocupação com a linguagem, com a reavaliação das línguas
vernaculares no contexto da língua canónica, o latim, com a fixação
normativa das mesmas é acompanhada pelo facto de a imprensa
desempenhar um papel significativo na fixação da língua.

A escrita deve ser clara e literal tendo em vista uma mais ampla
audiência, visto que deve funcionar como um arquivo de memória
para uma maior diversidade de leitores. A memória comum convive
com as diferentes memórias e providencia a base da comunicação,
naquele que é um crescente sentido de pertença136. A função social
da escrita depende da habilidade em atingir novos horizontes, novos
leitores, e novos espaços geográficos, nomeadamente europeus,
redesenhando-se novas fronteiras.

Assim escrever a História no século XVI significa, entre


outras cousas, ter em atenção a língua vernacular cujas marcas
orais continuam presentes. Por outro lado, estes textos são, numa
primeira fase, lidos oralmente aos seus mecenas, em audiência. A

135
Cf. João de Barros, Ásia... Década I, p. 2.
136
Cf. Helena Carvalhão Buescu, Em busca do autor perdido, Lisboa, Cosmos,
1998. pp. 3-4.
198 Ana Paula Avelar

língua vernacular funciona então como signo de identidade, um


veículo específico da memória, da singularidade, naquela que é a
multiplicidade das Nações/Estados. Para Fernão de Oliveira, o autor
da primeira gramática portuguesa impressa em 1536137 a perservação
da identidade de um povo será a contraposição da memória a um
uso pragmático da língua vernacular138.

É certo que a memória implica necessariamente a selecção dos


factos, funcionando como um meio de vencer a morte, o tempo e
funçao pedagogica o esquecimento. A História tem uma função pedagógica na edu-
da história cação dos príncipes. Todos os acontecimentos que não são narrados,
todos os heróis que não são cantados, de certo modo deixam de existir,
pois ficam perdidos no tempo. Esta atitude resulta do conceito
providencial do fluir histórico e esta perspectiva ecoa igualmente
na escrita do passado. Alicerçada na Fama Bona e na Fama Mala a
História permanece como a figura tutelar que observa a Providência.
De igual modo alicerçada na Experiência e na Verdade ela vence a
Morte e o Esquecimento.Tal acepção é expressamente continuada
pelos que em Seiscentos perseguem a escrita da História139.

Evidenciar os novos diálogos no processo de formulação de


uma identidade, a de Portugal nos alvores da Modernidade, reve-
lando-a através de um intenso diálogo entre objectos distintos,
texto e iconografia foi o nosso desafio. Ao longo destas páginas
expus toda uma panóplia de narrativas redigidas no século XVI
que espelharam as vivências transmitidas pelos portugueses, as
novidades de outros mares, de outras terras, de outras gentes. Foi
no traçar dos quadros sinópticos que desocultei aquelas que foram

137
Alguns autores defendem que a primeira gramática teria sido escrita por João
de Barros. Para um maior aprofundamento desta questão cf. Maria Leonor
Buescu, A Gramática da linguagem Portuguesa de Fernão de Oliveira, Lisboa,
Imprensa Nacional. Casa da Moeda, 1975, p. 18-22.
138
Cf. Ibidem, p. 45.
139
Walter Raleigh na sua History of the World (1614) desenvolve a noção de
História, e o modo como ela foi sendo construída até ao seu tempo. Cf.
Beverley Southgate, History: What e Why? London, Routledge, 1996, p. 4.
Representações de um “Mundo Novo” no Portugal de Quinhentos 199

as estratégias de observação / exposição do Outro, tendo em atenção


as diferentes modalidades discursivas, inerentes às tipologias das
narrativas analisadas.

Ainda que tenha em atenção leituras interpretativas da descrição


do Outro, como sendo construída através de estereótipos, defendo
uma análise intertextual e hermenêutica expositiva das gradações
do olhar. TParti, por isso mesmo, para um diálogo interno entre
modelos narrativos e indicadores descritivos de modo a identificar
o tipo de imagens que foram construídas e transmitidas acerca
do diferente. Só assim considero possível delimitar modalidades
descritivas e formular tipologias mais precisas de transmissão das
novas realidades. Esse foi o desafio, este foi o resultado.

É na percepção clara das várias vozes autorais e dos diálogos


que foram sendo estabelecidos que se iluminam, afinal, as repre-
sentações do Outro, o “Mundo Novo” oferecido no e pelo Portugal
de Quinhentos.
Fontes Impressas e Bibliografia
“Ai de mim, a que terra de homens mortais chego de novo?
Serão eles homens violentos, selvagens e injustos?
Ou serão dados à hospitalidade e tementes aos deuses?”

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