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MARCIA MONSÃO ANDREETTA

A POSSE E O PORTE DE ARMAS PARA O CIDADÃO COMUM, SOB À LUZ DOS


DIREITOS FUNDAMENTAIS

SÃO PAULO
2018
2

MARCIA MONSÃO ANDREETTA – R.A: C2536G-6

A POSSE E O PORTE DE ARMAS DE FOGO PARA O CIDADÃO COMUM:


Sob à luz das garantias fundamentais

Trabalho de Conclusão de Curso para obtenção


do título de Graduação em Bacharel em Ciências
Jurídicas, apresentado à Universidade Paulista.

Orientador: Prof. Me. Justino Netto

SÃO PAULO
2018
3

MARCIA MONSÃO ANDREETTA – R.A: C2536G-6

A POSSE E O PORTE DE ARMAS DE FOGO PARA O CIDADÃO COMUM:


Sob à luz das garantias fundamentais

Trabalho de Conclusão de Curso para obtenção


do título de Graduação em Bacharel em Ciências
Jurídicas, apresentado à Universidade Paulista.

Aprovado em:

BANCA EXAMINADORA

_______________________/__/___
Prof. Me. Justino Netto
Universidade Paulista – UNIP

_______________________/__/___
Prof. Me. Convidado
Universidade Paulista – UNIP
4
5

Dedico esta monografia a Deus, minha família e amigos, no


sentido estrito e amplo.
6

Agradecimentos

Primeiramente a Deus, pela presença em minha vida, sempre me abençoando


de todas as formas, inclusive, permitindo-me sonhar, como também, proporcionando
meios para concretização de mais este sonho. Principalmente, fortalecendo-me em
momentos cruciais, colocando em meu caminho pessoas que me nortearam e
incentivaram a dar cada passo em direção a superar os obstáculos.
São para elas que agradeço e dedico este trabalho de conclusão de curso, no
qual empenhei meu conhecimento e esforço, como forma de retribuição por todo esse
carinho. É por eles que serei eternamente grata.
Em especial, a Yane - que é a razão da minha existência e meu presente de
Deus e, ao Fernando – amor e companheiro de uma vida. Sempre serei grata, pela
dedicação e abdicação, por todas as oportunidades estiveram ao meu lado, cercando-
me de amor e compreensão, mesmo diante a tantas privações, ainda assim, por
muitas vezes cuidaram mais de mim, do que eu puder cuidar deles.
Aos meus queridos e amados pais que são meus exemplos de sabedoria,
humildade e orgulho.
As minhas queridas irmãs e irmão, sogros, tias e tios, sobrinhos, cunhados e
compadres. Aliás, ao meu pequeno e lindo afilhado, João Lucas, que me afaga com
sua alegria de viver. Essas são as pessoas que o felicidade são parte dessa minha
grande família.
Aos meus verdadeiros amigos que fazem parte do meu dia a dia, que estão
sempre presentes em minha vida, sejam eles do trabalho, da faculdade e da selva. E
também daqueles, in memoria, que partiram plano superior.
E, por fim, aos meus grandes mestres por compartilhar o “notório saber jurídico”,
talvez um dia possa ser ter um décimo deste conhecimento. Em especial, ao meu
orientador, Justino Netto.
7

“Quando todas as armas forem de propriedade do governo e dos


bandidos, estes decidirão de quem serão as outras
propriedades”.
Benjamim Franklin
8

RESUMO

O desenvolvimento deste trabalho de conclusão de curso buscou a abordagem


dos dispositivos legais e sua evolução histórica no que diz respeito a posse e o porte
de armas para cidadão comum, sob a luz das garantias fundamentais. Além disto,
promoveu uma reflexão sobre a supressão dos direitos em relação ao desarmamento
da população, bem como, o vertiginoso aumento da criminalidade mesmo após
decorridos 15 anos do Estatuto.
Com a eminência aprovação do projeto de Lei 3722/2012, será um marco em
relação a flexibilizar o acesso as armas, cujos critérios serão menos restritivos e,
principalmente menos burocráticos, comparados ao referido Estatuto. A ideia não é
liberar o acesso as armas sem quaisquer critérios, muito pelo contrário, é uma forma
de distinguir a quem, como e quando, podem se valer dos consagrados direitos
fundamentais.
Por fim, o presente trabalho não tem a pretensão de que todos os problemas em
relação a insegurança pública serão resolvidos, exclusivamente, pelo acesso a arma
de fogo, é apenas uma das estruturas necessárias para a reformulação da Política
Pública que tem um enorme desafio de garantia os Direitos Fundamentais, a começar
por não cerceá-los.

Palavras-chaves: Posse e o porte de armas de fogo, garantias fundamentais,


criminalidade, insegurança pública.
9

ABSTRACT
10

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

MDB Movimento Democrático Brasileiro


PL Projeto de Lei
SIM Sistema de Informação sobre Mortalidade
SINARM Sistema Nacional de Armas

Op., Cit.
11

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO .................................................................................................... 12
2. METODOLOGIA ................................................................................................. 13
3. REFERENCIAL HISTÓRICO DA POSSE E DO PORTE DE ARMAS PERANTE
AOS INSTITUTOS JURIDICOS ................................................................................ 13
3.1. Ordenações Filipinas.................................................................................... 13
3.2. A Constituição de 1824 e Código Penal do Império de 1830 ....................... 16
12

3.3. Código Penal da República dos Estados Unidos do Brasil de 1890 e a


primeira Constituição Federal de 1891 .................................................................. 21
3.4. Código Penal 1940 e a Leis das Contravenções Penais, sob uma breve
análise das Constituições de 1934 e 1937 ............................................................ 24
3.5. Constituição Federal 1988 ........................................................................... 27
3.6. SISTEMA NACIONAL DE ARMAS - SINARM Error! Bookmark not defined.
3.7. Estatuto do desarmamento .......................................................................... 29
3.8. Referendo 2005 ........................................................................................... 31
3.9. Projeto de Lei 3722/2012 ............................................................................. 31
4. CLASSIFICAÇÃO DA POSSE E DO PORTE DE ARMA.................................... 32
5. PERSPECTIVA DA REDUÇÃO OU DO AUMENTO DA CRIMINALIDADE
PERANTE A POSSE E O PORTE DE ARMAS AO CIDADÃO COMUM .................. 34
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................ 34
7. FICHA TÉCNICA: ............................................................................................... 35
8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................... 35
8.1. Sites consultados: ........................................................................................ 36

1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem como escopo analisar os efeitos da posse e do porte de


armas para o cidadão comum, sob a perspectiva das garantias fundamentais
consagradas na Constituição Federal. Buscando alcançar as principais influências
sobre a restrição ou concessão desses direitos no tempo e espaço, a fim de demostrar
o seus interesses e impactos.
Com isto, será realizada uma análise objetivando a apresentação de uma
proposta com base na evolução histórica, na classificação da posse e do porte de
arma para o cidadão comum e os reflexos na criminalidade.
Nesta primeira parte do trabalho, a abordagem será em torno da metodologia
utilizada, descrevendo quais parâmetros referenciaram este trabalho.
Na segunda parte será abordado o referencial teórico da posse e do porte de
armas perante aos institutos jurídicos para esclarecer a evolução histórica das
13

garantias fundamentais e sua codificações penais. Na sequência haverá uma breve


classificação da posse e do porte de armas. Para finalmente chegar ao ponto focal do
trabalho, no qual fala da perspectiva de redução ou do aumento da criminalidade
perante a posse e o porte de armas ao cidadão comum.
Por fim, serão apresentadas as conclusões, a legislação e a doutrina utilizadas
e as referências bibliográficas.

2. METODOLOGIA

Esta seção visa informar a base deste trabalho constituído em uma pesquisa
exploratória visando a utilização de fontes doutrinárias, documentos legislativos,
artigos científicos específicos da área, tabelas de equiparação da taxa de homicídios,
bem como jurisprudências e legislações pertinentes ao tema, refutando a tese de que
a criminalidade não diminuiu como o previsto, após a vigência da Lei n.º 10.826/03.

3. REFERENCIAL HISTÓRICO DA POSSE E DO PORTE DE ARMAS


PERANTE AOS INSTITUTOS JURIDICOS

Preliminarmente, cumpre entender a evolução histórica das da posse e do porte


de armas no Brasil e os principais institutos positivados a partir da colonização até a
República Federativa, destacando-se o seu papel principal no tempo e espaço. Neste
tópico, haverá uma breve explanação para que se possa contextualizar à utilização e
finalidade das armas de fogo, bem como, a restrição ao seu acesso, à fim de entender
dentro do nosso ordenamento jurídico a extensão do uso ou a restrição ao direito: em
possuir, portar e utilizar armas de fogo para o cidadão comum, versando também
sobre as garantias individuais, como bem define, a legitima defesa, o direito de
propriedade e a segurança individual. Desse modo, facilitará a compreensão de como
a sociedade evoluiu desde a colonização portuguesa até os dias atuais.

3.1. Ordenações Filipinas

Após o descobrimento do Brasil, em 1500, houve o processo de colonização no


qual teve um grande embate para dominação do povo indígena, no intuito de
14

escravizá-los para explorações de recursos naturais. Por inúmeros fatores, não se


perdurou a escravidão indígena, sejam eles destacados por: conflitos, acometimento
de doenças, baixa produtividade, constantes fugas e, por fim, pela forte oposição dos
Jesuítas. De modo que, em 1757, foi decretado por Marques de Pombal, à proibição
da escravatura indígena.

Concomitantemente, à escravidão africana, substituiu em definitivo – até que


houvesse a sua abolição, por ser mais produtiva e rentável aos senhores de engenho.
Isto não seria diferente, de qualquer outra história, no qual haja disputa de território,
poder e dominação por meio coerção física, assim como quaisquer outras formas de
colonizações ou guerras. Resta claro que, as armas sempre tiveram presentes nestes
conflitos como instrumento de supremacia.

Ademais, no período colonial, surgiram as primeiras restrições quanto ao uso de


armas de fogo, evidenciando assim, suas influências ao desarmamento de pessoas
comuns. Deflagrando-se uma forma de controle bélico da sociedade portuguesa, bem
como as de suas colônias.
Vislumbram-se pelas Ordenações Filipinas, tais vedações e punições, conforme
preceitua o Quinto Livro, o Título LXXX, Das armas, que são defesas, e quando se
devem perder:

Defendemos que pessoa alguma, não traga em qualquer partes dos nossos
Reinos, péla de chumbo, nem de ferro, nem de pedra feitiça(2), e sendo
achado com ella, seja preso, e stê na Cadêa hum mez, e pague quatro mil
réis, e mais seja açoutado publicamente com baraço, e pregão pela Cidade,
Villa, ou Lugar onde fôr achado.
E sendo pessoa de qualidade(3), em que não caibão acoutes, além das
sobreditas penas, será degradado para Africa por dous annos(4). [1]

Observe também que, há uma distinção social na aplicabilidade da pena, sendo


menos severas devido ao status perante à sociedade. No sentido literal da palavra,
um peso para duas medidas, neste contexto, não há prevalência da igualdade como
forma de princípio. Diante desta situação, é premente a preocupação, desde então,
contra os levantes à Coroa Portuguesa, mesmo porque à História Brasileira foi travada
por diversos conflitos, muitos dos quais marcaram a nosso solo com sangue e pólvora.

[1] Quinto Livro, o Título LXXX, Das armas, que são defesas, e quando se devem perder. Disponível
em http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/l5p1227.htm
15

Em continuidade ao Livro V, cita-se, M.-Liv. I t. 57 pr.:

1.Nem outrosi, possa trazer armas ofensivas, nem defensivas, de dia, nem
de noite, salvo se for spada, punhal ou adaga(5), como abaixo diremos: sobe
pena de perder as ditas armas, e pagar duzentos reis de pena da Cadêa, se
for peão: porque sendo Scudeiro, e dahi para cima, ou Mestre de Não, ou de
semelhante, ou maior condição, ser-lhe-há coulada a arma (6) e pagará a dita
pena sem ir à prisão [...] [2]

Havia uma penalização maior diante o potencial ofensivo aos tipos de armas,
assim como a distinção de quem as possuía ou portava, denotando a restrição de uso,
como veremos no artigo seguinte, em que se falava sobre Arcabuzes - um tipo de
arma de fogo de infantaria, capaz penetrar armaduras, parecido com um espingarda,
in verbis:

13. Defedemos outrosi que pessoa alguma, em todos nossos Reinos e


Senhorios, não traga de dia, nem de noite, nem tenha em sua caza Arcabuzes
de menos comprimento, que de quatro palmos em cano; e sendo peão o que
o trouxer, seja açoutado e degradado para sempre para as galês.
E sendo pessoa de maior qualidade, seja degradado para o Brasil para
sempre.
E sendo scravo, morra morte natural.
E quem o tiver em sua caza, sendo peão, seja degradado por cinco annos
para galês, e pague vinte mil reis.
E sendo de maior qualidade, seja degradado por cinco annos para Africa, e
pague quarenta mil reis.
E o Official, que o fizer, alimpar, ou concertar, seja degradado por trez annos
para as galés, e pague vinte mil reis.
Das quaes penas de dinheiro será ametade para no-a Camera, e a outra para
o accusador.
E os julgadores mandarão quebrar perante si os ditos Arcabuzes(1). [3]

Resta destacar que, de todos os sistemas jurídicos que existiram em Portugal,


a primeira Legislação a ter destaque específico ao Código Penal, foram as
Ordenações Filipinas, bem como também, trouxeram consigo as mais severas
punições de todos os ordenamentos, aplicando-se penas cruéis, contendo-lhes
poucas indulgências. Por outro lado, também, abordou-se à legitima defesa, cujo
capítulo merece amplo destaque, pois, trata-se das garantias fundamentais.
Para uma melhor compreensão, impende citar, Livro 5 Tit. 35: Dos que matam,
ou ferem, ou tiram com Arcabuz ou Besta:

[2] Quinto Livro, o Título LXXX op. cit.

[3] Das Ordenações Filipinas, Quinto Livro, o Título LXXX op. cit. P.13
16

1. Qualquer pessoa que matar a outra, ou mandar matar, morra por ella morte
natural (1)
Porém se a morte for sua necessária defensão, não haverá pena alguma(2),
salvo se nela excedeo a temperança, que devêra, e podéra ter, porque então
será punido segundo a qualidade do excesso.
E se a morte fòr per algum cado sem malicia, ou verdade de matar (3), será
punido, ou revelado segundo a sua culpa, ou innocencia, que no caso tiver(4).
[...] E se alguma pessoa, de qualquer condição que seja, matar outrem com
Bésta (4), ou Espingarda, além de por isso morrer morte natural, lhe serão
decepadas as mãos ao pé do Pelourinho(1).[4]

Precipuamente, as Ordenações Filipinas, tratavam à legitima defesa com


excludente de licitude, prevendo o seu excesso por meio da temperança. Há uma
ressalva, no que diz respeito a conduta praticada para si ou para outrem. Neste
sentido, o nosso código penal atual prevê requisitos mais amplos para consubstanciar
o direito pela conduta, ao qual se distingue desse penúltimo instituto, cujo bem jurídico
protegido é a vida, legitimando a defesa, tão somente, ao direito próprio.

Em relação ao emprego de armas de fogo, assim como a Bésta [5], ressaltam-


se que, tais condutas por meio de utilização destes artefatos eram punidos
severamente na eminência de resultado naturalístico. Ainda que utilizasse este meios
para proteção da sua vida, incorreria de pena de morte ou mutilação se a intepretação
evidenciasse o excesso, em outras palavras, a falta de temperança.

3.2. A Constituição de 1824 e Código Penal do Império de 1830

A Constituição Política do Império, de 25 de março de 1824, trata-se do marco


sobre a ruptura com Portugal, diante do clamor do povo para a proclamação da
Independência do Brasil. Dada relevância histórica, a nossa primeira Carta Magna
Brasileira, foi elaborada com fortes influências de políticas liberais, prevendo em seu
texto normativo direitos e garantias mais igualitárias ao cidadão comum, exceto aos
escravos que ainda eram tratados como propriedades dos Fazendeiros.
Diga-se de passagem, que este ordenamento jurídico é muito similar com a
nossa Constituição de 1988, por estabelecer proximidades aos princípios basilares e

[4] Das Ordenações Filipinas, Quinto Livro, o Título LXXXV: Dos que matam, ou ferem, ou tiram com
Arcabuz ou Besta. Disponível em: http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/l5p1184.htm

[5] Arma semelhante a espingarda, porém municiadas por flechas.


17

garantias individuais, tais como: liberdade, segurança e propriedade. Será melhor


exemplificado nos artigos abaixo, retirados da Constituição de 1824, do Título 8º, que
tratam Das Disposições Geraes, e Garantias dos Direitos Civis, e Politicos dos
Cidadãos Brazileiros:

Art. 179. A inviolabilidade dos Direitos Civis, e Politicos dos Cidadãos


Brazileiros, que tem por base a liberdade, a segurança individual, e a
propriedade, é garantida pela Constituição do Imperio, pela maneira
seguinte.
I. Nenhum Cidadão póde ser obrigado a fazer, ou deixar de fazer alguma
cousa, senão em virtude da Lei.
II. Nenhuma Lei será estabelecida sem utilidade publica.
III. A sua disposição não terá effeito retroactivo. (grifos nossos) [6]

Ainda nesta seção, consignam-se o direito de propriedade e inviolabilidade da


propriedade, bem como, evidenciam-se de forma cabal, os princípios fundamentais,
como: da Legalidade, da Igualdade; da Proporcionalidade da Lei, da Ampla Defesa,
in verbis:

VI. Qualquer póde conservar-se, ou sahir do Imperio, como Ihe convenha,


levando comsigo os seus bens, guardados os Regulamentos policiaes, e
salvo o prejuizo de terceiro.
VII. Todo o Cidadão tem em sua casa um asylo inviolavel. De noite não
se poderá entrar nella, senão por seu consentimento, ou para o efender de
incendio, ou inundação; e de dia só será franqueada a sua entrada nos casos,
e pela maneira, que a Lei determinar.
VIII. Ninguem poderá ser preso sem culpa formada, excepto nos casos
declarados na Lei; e nestes dentro de vinte e quatro horas contadas da
entrada na prisão, sendo em Cidades, Villas, ou outras Povoações proximas
aos logares da residencia do Juiz; e nos logares remotos dentro de um prazo
razoavel, que a Lei marcará, attenta a extensão do territorio, o Juiz por uma
Nota, por elle assignada, fará constar ao Réo o motivo da prisão, os nomes
do seu accusador, e os das testermunhas, havendo-as.
IX. Ainda com culpa formada, ninguem será conduzido á prisão, ou nella
conservado estando já preso, se prestar fiança idonea, nos casos, que a Lei
a admitte: e em geral nos crimes, que não tiverem maior pena, do que a de
seis mezes de prisão, ou desterro para fóra da Comarca, poderá o Réo livrar-
se solto.
X. A' excepção de flagrante delicto, a prisão não póde ser executada, senão
por ordem escripta da Autoridade legitima. Se esta fòr arbitraria, o Juiz, que
a deu, e quem a tiver requerido serão punidos com as penas, que a Lei
determinar.
O que fica disposto acerca da prisão antes de culpa formada, não
comprehende as Ordenanças Militares, estabelecidas como necessarias á
disciplina, e recrutamento do Exercito; nem os casos, que não são puramente
criminaes, e em que a Lei determina todavia a prisão de alguma pessoa, por
desobedecer aos mandados da justiça, ou não cumprir alguma obrigação
dentro do determinado prazo.

[6] Constituição Política do Império do Brasil, elaborada por um Conselho de Estado e outorgada pelo
Imperador D. Pedro I, em 25.03.1824. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao24.htm
18

XI. Ninguem será sentenciado, senão pela Autoridade competente, por


virtude de Lei anterior, e na fórma por ella prescripta.
XII. Será mantida a independencia do Poder Judicial. Nenhuma Autoridade
poderá avocar as Causas pendentes, sustal-as, ou fazer reviver os Processos
findos.
XIII. A Lei será igual para todos, quer proteja, quer castigue, o
recompensará em proporção dos merecimentos de cada um. (grifos nossos)
[7]

Impende descartar também que, a Constituição estabelece que o Código Civil e


Criminal seja equânime em sua essência, levando em consideração a Dignidade da
Pessoa Humana e, mais uma vez, ressalta à importância do Direito de Propriedade,
como segue nos artigos:

XVIII. Organizar-se-ha quanto antes um Codigo Civil, e Criminal, fundado nas


solidas bases da Justiça, e Equidade.
XIX. Desde já ficam abolidos os açoites, a tortura, a marca de ferro quente, e
todas as mais penas crueis.
XX. Nenhuma pena passará da pessoa do delinquente. Por tanto não haverá
em caso algum confiscação de bens, nem a infamia do Réo se transmittirá aos
parentes em qualquer gráo, que seja.
XXI. As Cadêas serão seguras, limpas, e bem arejadas, havendo diversas
casas para separação dos Réos, conforme suas circumstancias, e natureza
dos seus crimes.
XXII. E' garantido o Direito de Propriedade em toda a sua plenitude. Se
o bem publico legalmente verificado exigir o uso, e emprego da Propriedade
do Cidadão, será elle préviamente indemnisado do valor della. A Lei marcará
os casos, em que terá logar esta unica excepção, e dará as regras para se
determinar a indemnisação. (grifos nossos) [8]

Com a promulgação da Independência do Brasil, em 1824, foi sancionada pelo


Imperador D. Pedro I (antes da sua abdicação ao trono), o primeiro Código Criminal
do Império do Brasil, Lei de 16 de dezembro de 1830. Consagrando-se também, os
princípios da Legalidade e Anterioridade, instituídos em seu 1º artigo, “Não haverá
crime, ou delicto (palavras synonimas neste Codigo) sem uma Lei anterior, que o
qualifique”.[9]
Observe que, este Código Penal trouxe uma abordagem mais específica para as
circunstâncias qualificadoras das penas, no tocante aos agravantes e atenuantes,
bem como também, implementou à pena de morte – para crimes mais gravosos, e o

[7] Constituição Política do Império do Brasil, op. cit. p. 15


[8] Constituição Política do Império do Brasil, op. cit. p. 15
[9] Código Criminal Do Império Do Brazil, Parte Primeira dos Crimes, e das Penas, Titulo I
Dos Crimes, Capitulo I, Dos Crimes, e dos Criminosos. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM-16-12-1830.htm
19

aprisionamento – aos demais delitos. Este último foi um marco, haja vista que,
instituiu-se a primeira prisão brasileira.
Na questão sobre o uso das armas, elas se mantiveram restritivas ao cidadão
comum, mesmo porque haviam vários insurreições populares e conflitos contra a
imperador, ofertando-lhes, apenas a concessão, mediante a licença dos Juízes de
Paz, sob o desígnio de controlar o acesso de armas, ditas por ofensivas, cuja
deliberação eram feitas por meio das Câmaras Municipais. Nesse interim, distancia-
se, mas, não em sua totalidade do Ordenamento Filipino. No que diz respeito a
aplicabilidade das penas, que por ventura, naquela época era por meio de multa em
pecúnia, trabalhos forçados, torturas, mutilações, exílios e, por fim, diversos atos
executórios para a pena de morte.
É inconteste que o Código Penal do Império teve um avanço não só em
individualizar as penas, como também, ao abolir tais penalidades degradantes,
rompendo assim com a era colonial, positivando em seu texto legislativo diretos e
garantias mais humanitárias.
Em linha com o pensamento, Marcos Bretas aduz que:

“é provável que poucos países tenham a história de sua formação tão ligada
ao desenvolvimento de sua justiça criminal como o Brasil. Já desde o próprio
período monárquico, a história do Brasil independente se elaborava em torno
da formação das instituições e órgãos da justiça criminal, tomados como
símbolos ou campos de luta para a constituição da nova nação, local
privilegiado da disputa entre as tradições do absolutismo português e as
novas idéias do liberalismo então em expansão. Marcos da história política,
na sua formação mais tradicional, é a criação dos códigos criminal e de
processo penal e sua reforma, que representa o triunfo da reação
conservadora permitindo a consolidação do Império.” [10]

Este código penal teve uma abordagem mais abrandada na criminalização sobre
a utilização de armas com potencial ofensivo e proibido. Necessário se faz observar
os mencionados dispositivos legais, dentre os quais destacamos, o Capítulo V - Uso
de armas defesas, observe que o artigo a seguir, traz consigo penalidades menos
gravosas:

Art. 297. Usar de armas offensivas, que forem prohibidas.


Penas - de prisão por quinze a sessenta dias, e de multa correspondente á
metade do tempo, atém da perda das armas.
Art. 298. Não incorrerão nas penas do artigo antecedente:

[10] BRETAS, Marcos Luiz. A polícia carioca no Império. IN Revista Estudos Históricos, vol 1, nº
22. Rio de Janeiro, 1998. p. 219. Disponível em http://www.ambito-
juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=2788#_ftn8
20

1º Os Officiaes de Justiça, andando em diligencia.


2º Os Militares da primeira e segunda linha, e ordenanças, andando em
diligencia, ou em exercicio na fórma de seus regulamentos.
3º Os que obtiverem licença dos Juizes de Paz.
Art. 299. As Camaras Municipaes declararão em editaes, quaes sejam as
armas offensivas, cujo uso poderão permittir os Juizes de Paz; os casos, em
que as poderão permittir; e bem assim quaes as armas offensivas, que será
licito trazer, e usar sem licença aos occupados em trabalhos, para que ellas
forem necessarias. [11]

Outro advento significativo ao Código Criminal do Império foi em relação à


legitima defesa, em seu turno, teve a extensão de terceiros, como forma de excludente
de ilicitude, diferentemente do código penal antecessor. Outrossim, refere-se ao
estado de necessidade, como modo de excludente de culpabilidade, a fim de evitar o
dano maior, como define Capitulo II, Dos crimes Justificáveis:

Art. 14.Será crime justificável, e não terá lugar a punição delle:


§ 1. Quando for feito pelo delinquente para evitar mal maior.
Para que o crime seja jistificavel neste caso, deverão intervir conjunctamente
a favor do delinquente os os seguintes requisitos: 1.º Certeza do mal que se
propor evitar. 2.º Falta absoluta de outro meio menos prejudicial. 3.º
Probabilidade da efficacia do que se empregou.
§ 2. Quando for feito em defesa da propria pessoa ou de seus direitos
§ 3. Quando for feito em defesa da familia do deliquente.
Para que o crime seja justificavel neste dous casos, deverão intervir
conjuctamente os seguintes requisitos:
1.º Certeza do mal que os delinquentes se propozerão evitar. 2.º falta
absoluta de outro meio menos prejudicial. 3.º O não ter havido da partes
deles, ou de suas famílias, provocação ou delicto que ocasionasse o conflicto.
§ 4. Quando for feito em defesa da pessoas de um terceiro (1).
Para que o crime seja justificavel, neste caso, deverão intervir
conjunctamente a favor do delinquente os seguintes requisitos: 1.º Certeza
do mal que se propor evitar. 2.º Que este fosse maior, ou pelo menos igual
ao que se causou. 3.º Falta absoluta de outro meio menos prejudicial. 4.º
Probabilidade da efficacia do que se empregou.
Reputar-se-há feito em propria defesa, ou de um terceiro o mal causado
na repulsa dos que de noite entrarem ou tentarem entrar nas casas, em que
alguem morar ou estiver, ou nos edificios ou pateos fechados a elas
pertencentes, não sendo nos casos em que a Lei o permite [...] (grifos
nossos). 12

Observe que, o alusivo artigo versou de maneira mais abrangente a tipificação


das excludentes de ilicitudes, não limitando em seu texto legal à temperança, como
forma de moderação dos meios empregados para justificar tal benesse. Cabendo-lhe

[11] Código Criminal Do Império Do Brazil, Parte Quarta, Dos crimes contra a pessoa, e contra a
propriedade, e das Penas, Titulo IV, Capitulo V, Uso De Armas Defesas. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM-16-12-1830.htm
[12] Código Criminal Do Império Do Brazil, Parte Primeira dos Crimes, e das Penas, Titulo I
Dos Crimes, Capitulo III, Das Circumstancias Aggravantes, E Attenuante Dos Crimes. op. cit. p.17
21

uma interpretação mais ampla, até mesmo jurisprudencial, para a validação dos
requisitos aplicados à justificativa no caso concreto.

3.3. Código Penal da República dos Estados Unidos do Brasil de 1890 e a


primeira Constituição Federal de 1891

Com o fim do Império, instituiu-se à República e, com ela, o surgimento de um


novo ordenamento penal, comumente conhecido como Código Penal da República
dos Estados Unidos do Brasil, sancionado por meio do Decreto nº 847, de 11 de
outubro de 1890, sob forte influência da Constituição Americana. Muito embora, essa
não adotasse idênticas garantias individuais, porém considerou outros preceitos.
É importante ressaltar que, houveram muitas críticas por conter normas em
abstrato, tornando-se um descompasso do intuito de interpretá-las. Por outro lado, é
importante destacar que houve uma diferenciação de crime e contravenção, com isto,
instituiu-se a primeira prisão correcional, pela forte influência da criminológica
moderna, seguindo escola de Cesare Lambroso.
Segundo Alvarez, Salla e Souza (2003 apud Rodrigues, 1922, p.29):

“A reforma do Código Penal, que nenhum espírito equilibrado já agora julga


possível ser deixada para mais tarde, exige muito do nosso trabalho comum:
temos, médicos e juristas, de enfrentar o problema decididamente,
procurando auxiliar o legislador na tarefa penosa de dotar o país com um
estatuto penal capaz de garantir, de verdade, a ordem jurídica, desde que o
que possuímos não contém senão raras, defeituosas ou muito atenuadas
qualidades de satisfazer o fim a que se destina, e não é crível, por isso, que
alguém o repute apto para defender contra o crime e o criminoso um povo em
pleno viço de formação. Com um atraso de cinqüenta anos, em relação aos
progressos da criminologia, urge que se substitua o código de 90 por um outro
em que se compendiem todas as aquisições da cultura atual no tocante ao
estudo do criminoso, da classificação dos delitos e do sistema das penas”
(Rodrigues, 1922: 29).[13]

É até um ponto a se destacar, porque este novo código sofreu diversas críticas
por conter normas em branco, seguindo em descompasso com a nova ordem política,

[13] RODRIGUES, Armando. (1922) Discurso pronunciado na sessão de instalação da Sociedade de


Medicina Legal e Criminologia. Arquivos da Sociedade de Medicina Legal e Criminologia, fasc.1, v.I,
p.27-30, fevereiro. Disponível em:
https://www.academia.edu/11637979/Bachar%C3%A9is_Criminologistas_e_Juristas_saber_jur%C3%
ADdico_e_nova_escola_penal_no_Brasil_1889-1930_
22

uma vez que sucedeu a abolição da escravatura, de modo que, tinha um lapso muito
maior do que meramente o tempo, considerando que a questão social era o seu maior
desequilíbrio.
Outro dado relevante neste período histórico, foi a extinção da pena de morte,
sendo que, a última execução ocorreu contra um escravo em 1876, logo, foi
determinada sua revogação na primeira Constituição Federal, datada em 1891, cujo
promulgação ocorreu 1 (um) ano após ao referido Código Penal.
Pontua-se dizer, em relação a temática desde trabalho, a posse e ao porte de
arma ilegal tiveram tratativas amenizadas com este novo ordenamento, sendo
considerada mera contravenção penal. Inclusive a deliberação sobre a fabricação,
incorria em pena pecuniária, conforme descreve o Capítulo V, do Fabrico e uso de
Armas, do Código Penal de 1890:

Art. 376. Estabelecer, sem licença do Governo, fabrica de armas, ou polvora:


Penas - de perda, para a Nação, dos objectos apprehendidos e multa de 200$
a 500$000.
Art. 377. Usar de armas offensivas sem licença da autoridade policial:
Pena - de prisão cellular por 15 a 60 dias.
Paragrapho unico. São isentos de pena:
1º, os agentes da autoridade publica, em diligencia ou serviço;
2º, os officiaes e praças do Exercito, da Armada e da Guarda Nacional, na
conformidade dos seus regulamentos. [14]

A Penalidade era agravada se houvesse um afrontamento à República, como


preceitua os artigos abaixo:

Art. 89. Tomar armas o cidadão brazileiro contra a Republica, debaixo de


bandeira inimiga:
Pena - de prisão cellular por dous a quatro annos.[15]

Havia também uma previsão legal em situação de portar armas em assembleias


eleitorais, assim como prescreve o artigo 170: Apresentar-se alguem nas assembléas
eleitoraes com armas, ou trazel-as occultas: Penas - de prisão cellular por um a tres
mezes e multa de 100$ a 300$000.

[14] Código Criminal Do Império Do Brazil, Parte Quarta, Dos crimes contra a pessoa, e contra a
propriedade, e das Penas, Titulo IV, Capitulo V, Do Fabrico E Uso De Armas. Disponível em:
http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaTextoSigen.action?norma=389719&id=14444059&idBinario=
15629240&mime=application/rtf
[15] Código Criminal Do Império Do Brazil, Parte Segunda, Dos Crimes Em Especie, Titulo IV,
Capitulo V, Dos Crimes Contra A Independência, Integridade e dignidade da pátria. op., cit.
23

Inclusive este código penal referenciava uma abordagem especifica sobre


questão dos Duelos, muito comum para época, observe que neste instituto, já havia
vedação da autotutela em proteção a sua vida e honra, ainda que as penas incorriam
em multa ou como trata o CAPITULO VI - DO DUELLO:

Art. 307. Desafiar outrem para duello, ainda que o desafio não seja acceito:
Pena - de multa de 100$ a 200$000.
Paragrapho unico. Si aquelle que desafiar para o duello for causa injusta do
facto, que occasionou o desafio:
Pena - de prisão cellular por quinze dias a dous mezes.
Art. 308. Acceitar o desafio, ainda que tenha sido causa injusta do facto, que
o determinou:
Pena - de multa de 100$ a 200$000.
Art. 309. Si o duello tiver logar, se observarão as seguintes disposições:
§ 1º Ao que fizer uso das armas sem causar ao adversario nenhuma lesão
corporal:
Pena - de prisão cellular por quinze dias a dous mezes.
§ 2º Si o culpado tiver sido causa injusta do duello:
Pena - de prisão cellular por um a quatro mezes.
Art. 310. Matar em duello o adversario ou causar-lhe uma lesão corporal de
que resulte a morte:
Pena - de prisão cellular por um a quatro annos.
§ 1º Causar ao adversario alguma lesão corporal das especificadas no art.
304:
Pena - de prisão cellular por um a tres mezes.
§ 2º Causar-lhe alguma lesão corporal das especificadas no art. 305:
Pena - de prisão cellular por seis mezes a um anno.
§ 3º A pena será diminuida da 6ª parte si o culpado tiver sido induzido ao
duello por insulto ou offensa grave.
Art. 311. Os portadores do desafio serão punidos com a multa de 100$ a
200$000.
§ 1º Com a mesma multa serão punidos os padrinhos, si do duello não
resultar lesão corporal a qualquer dos combatentes.
§ 2º Si porém do duello resultar a morte, ou lesão corporal, serão elles
punidos como cumplices, segundo as regras geraes.
Art. 312. Quando alguem, que não tiver tomado parte no facto que motivou o
duello, apresentar-se para bater-se por algum dos combatentes, impor-se-
lhe-hão em dobro as penas em que incorrer.
Art. 313. Serão applicadas ao homicidio e lesão corporaes, resultantes do
duello, em vez das penas do art. 310, as dos arts. 294 § 2º e 304 nos caso
seguintes:
§ 1º Si as condições do combate não tiverem sido previamente combinadas
pelos padrinhos; ou si o combate se travar sem que elles estivessem
presentes;
§ 2º Si as armas usadas não forem iguaes;
§ 3º Si na escolha das armas, ou durante o combate, houver fraude ou
violação das condições estabelecidas;
§ 4º Si tiver sido expressamente convencionado, ou resultar da especie do
duello, da distancia guardada entre os combatentes, ou de outra condição
estabelecida, que um delles devesse ficar morto;
§ 5º Si o duello for provocado com fim de lucro.
Art. 314. Offender publicamente, ou expor ao desprezo publico, a pessoa que
não acceitar o duello, ou por esses meios a provocar a acceital-o:
24

Penas - de prisão cellular por seis mezes a um anno e multa de 100$ a


200$000.[16]

Comparado aos outros ordenamentos jurídicos, certamente o Código Penal de


1890 e a Constituição de 1891 tiveram representatividade mais sucinta na
criminalização da posse e do porte de armas, porém, suas abstrações foram
prejudiciais no que diz respeito as garantias fundamentais, sob ponto de vista,
antropológico e criminológico, por conter uma abordagem mais clássica, destoando-
se das novas políticas, da nova ordem social (com o fim da escravatura) e, por fim, de
da nova escola penal positivista ao qual era muito difundida na Europa, mas ainda
distante parâmetros, o que certamente, criou-se as lacunas perante desigualdades e
o poder coercitivo do Estado, tendo a necessidade de instituir código menores para
abranger outras condutas delituosas frente ao controle social. Assim como ocorreu
com a Consolidação das Leis Penais de Piragibe, promulgado pelo Decreto nº 22.213,
de 14 de dezembro de 1932 e vigorou até o Código Penal de 1940, para suprir as
defasagens ao código anterior.

3.4. Código Penal 1940 e a Leis das Contravenções Penais, sob uma
breve análise das Constituições de 1934 e 1937

Em virtude do descompasso das leis penais de 1890 e a Constituição seguintes,


houve a necessidade do surgimento de Código Penal que fosse mais abrangente e
condizente com a realidade da época, de modo que foi promulgado pelo Decreto-Lei
2.848, de 7 de dezembro de 1940, considerado um marco, haja vista que, este instituto
seguiu o viés eclético, sob influências da Escola Moderna Alemã e seu sistema duplo
binário, também teve ascendência, à Escola Clássica, com a visão da
proporcionalidade e a Escola Positivista, em sua visão biopsicológica.
Reserva-se dizer que, embora este ordenamento jurídico vigente até os dias
atuais, não vislumbrou quaisquer vedação sobre a posse e ao porte de armas. Tanto
que sua abordagem foi consagrada apenas nas Leis das Contravenções Penais, pelo
Decreto-Lei Nº 3.688, de 3, de Outubro, de 1941, presentes nos artigos logo abaixo:

[16] Código Criminal Do Império Do Brazil, Parte Segunda, Dos Crimes Em Especie, Titulo X, Capitulo
VI, Dos Crimes Contra A Independência, Integridade e dignidade da pátria. op., cit. p.21
25

Art. 19. Trazer consigo arma fora de casa ou de dependência desta, sem
licença da autoridade:
Pena – prisão simples, de quinze dias a seis meses, ou multa, de duzentos
mil réis a três contos de réis, ou ambas cumulativamente.
§ 1º A pena é aumentada de um terço até metade, se o agente já foi
condenado, em sentença irrecorrivel, por violência contra pessoa.
§ 2º Incorre na pena de prisão simples, de quinze dias a três meses, ou multa,
de duzentos mil réis a um conto de réis, quem, possuindo arma ou munição:
a) deixa de fazer comunicação ou entrega à autoridade, quando a lei o
determina;
b) permite que alienado menor de 18 anos ou pessoa inexperiente no manejo
de arma a tenha consigo;
c) omite as cautelas necessárias para impedir que dela se apodere facilmente
alienado, menor de 18 anos ou pessoa inexperiente em manejá-la.[17]

Atinentes a redação dos artigos supracitados é evidente que a penalização dos


atos infracionais em relação a posse e ao porte ilegal eram ínfimos. Nesta mesma
concepção, segue a penalização aos atos contra a Incolumidade Pública, destacados
no artigo a seguir:

Art. 28. Disparar arma de fogo em lugar habitado ou em suas adjacências,


em via pública ou em direção a ela:
Pena – prisão simples, de um a seis meses, ou multa, de trezentos mil réis a
três contos de réis.
Parágrafo único. Incorre na pena de prisão simples, de quinze dias a dois
meses, ou multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis, quem, em lugar
habitado ou em suas adjacências, em via pública ou em direção a ela, sem
licença da autoridade, causa deflagração perigosa, queima fogo de artifício
ou solta balão aceso. [18]

É controverso analisar os referidos artigos após o conflito armado da Revolução


Constitucionalista de 1932, sendo considerado o maior conflito cívico contra o governo
provisório de Getúlio Vargas. Segundo André Bigeli “cerca de 135 mil homens
aderiram à luta, que durou três meses e deixou quase 900 soldados mortos no lado
paulista - quase o dobro das perdas da Força Expedicionária Brasileira durante
a Segunda Guerra Mundial”. (Bigeli 2003). [19]

[17] Lei Das Contravenções Penais, Parte Especial, Capitulo I, Das Contravenções Referentes à
Pessoa. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del3688.htm

[18] Lei Das Contravenções Penais, Parte Especial, Capitulo III, Das Contravenções Referentes à
Incolumidade Pública, op.,cit. p. 23.
[19] Revolução Constitucionalista: em 1932, elite paulista reage à ditadura... - Veja mais em
https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/revolucao-constitucionalista-de-1932-2-
movimento-foi-contra-getulio-vargas.htm?cmpid=copiaecola
26

Observe que não houve austeridade nas leis penais diante desse fato histórico,
no intuito de desarmar a população e marginalizar a posse e o porte de armas.
Certamente propiciou um abrandamento das penas, mantendo-lhes as mesmas
características consignadas no Código Penal de 1890. Entretanto houve o retorno da
pena de morte, no qual haverá uma tratativa especifica no parágrafo adiante. Por ora,
busca-se destacar a importância dos dispositivos da Constituição Federal de 1934,
cujo ordenamento jurídico foi o segundo após a proclamação da república, tendo-lhes
fortes vertentes progressistas e decentralizadas, as quais, diga-se por passagem,
contribuíram significativamente pelas garantias fundamentais, como liberdade,
propriedade e segurança individual. Por conseguinte, influenciaram a atual
Constituição Federal de 1988.
Tratando-se da Constituição Federal de 1934 não perdurou por muito anos, em
virtude da promulgação da Constituição de 1937, decretada em 10, de novembro, de
1937, pelo governo de Getúlio Vargas. Ao qual ficou amplamente conhecida como “A
Polaca”, em razão da influência do regime semifascista Polonês, cujo objetivo era
instaurar o Estado Novo, regime centralizador e ditatorial. Ainda que, permanecesse
algumas políticas sociais, este sistema normativo foi considerado um retrocesso à
democracia, inclusive com o retorno da pena de morte, que já havia sido abolida nas
Constituições anteriores, salvo em questões militares.
Observe o disposto do artigo 122, da Constituição Federal 1937, in verbis:

13) não haverá penas corpóreas perpétuas. As penas estabelecidas ou


agravadas na lei nova não se aplicam aos fatos anteriores. Além dos casos
previstos na legislação militar para o tempo de guerra, a lei poderá prescrever
a pena de morte para os seguintes crimes:
a) tentar submeter o território da Nação ou parte dele à soberania de Estado
estrangeiro;
b) tentar, com auxilio ou subsidio de Estado estrangeiro ou organização de
caráter internacional, contra a unidade da Nação, procurando desmembrar o
território sujeito à sua soberania;
c) tentar por meio de movimento armado o desmembramento do território
nacional, desde que para reprimi-lo se torne necessário proceder a operações
de guerra;
d) tentar, com auxilio ou subsidio de Estado estrangeiro ou organização de
caráter internacional, a mudança da ordem política ou social estabelecida na
Constituição;
e) tentar subverter por meios violentos a ordem política e social, com o fim de
apoderar-se do Estado para o estabelecimento da ditadura de uma classe
social;
27

f) o homicídio cometido por motivo fútil e com extremos de perversidade; [20]

O texto constitucional trouxe a preocupação em torno da incolumidade pública e


a soberania nacional (crimes lesa-pátria), tendo como forma de repressão a quaisquer
atos que atentasse contra o regime ditatorial da época.

3.5. Constituição Federal 1988

A nossa atual Carta Magna foi promulgada em 05, de outubro, de 1988, logo
após décadas sob o comando do regime militar, cujo final deste período houve um
crescente aumento na criminalidade em virtude da instabilidade financeira, fazendo
com que a população se armasse cada vez mais para conter os índices de violência,
haja vista que, a Constituição Federal de 1967, não carregavam em seus textos
normativos que vedações a posse e o porte de armas, fazendo com que, mais uma
vez, fosse tipificado como mera contravenção penal.
Retornando a Constituição Federal de 1988, ela foi um binômio das garantias
fundamentais, posto que instituía normas e princípios que propiciaram a
redemocratização. Além disso, consagrou princípios que coadunam com a proteção
dos bens jurídicos, como a vida e a propriedade. É com base nisto, cita-se o
artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil, “é inviolável o direito à
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade” [21]. Neste sentindo,
pode se dizer que o Estado, embora detenha à tutela, não garantir absoluta a
manutenção dos direitos fundamentais, dado que, não se faz presente em todos os
momentos e, tão pouco, é garantidor da proteção de todos os cidadãos e seus bens,
ao passo que seria inviável. Por outro lado, a que se analisar no texto constitucional,
em sentido estrito, a palavra inviolabilidade, pois, entende-se que nada e ninguém
pode suprimir direitos ali expressos, inclusive o próprio Estado na acepção de
defender ou reduzir quaisquer garantias.
Nesse compasso, Celso Bandeira de Mello, averbou:

[20] Constituição Dos Estados Unidos Do Brasil, De 10 De Novembro De 1937, Dos Direitos e
Garantias Individuais. Disponível Em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao37.htm
[21] Constituição Federal de 1988, Título I, Dos Princípios Fundamentais. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm
28

Em face da Lei Magna do País, o cidadão jamais poderá


ser proibido de tentar defender sua vida, seu patrimônio, sua honra, sua
dignidade ou a incolumidade física de sua mulher e filhos a fim de impedir
que sejam atemorizados, agredidos, eventualmente vilipendiados e
assassinados, desde que se valha de meios proporcionais aos utilizados por
quem busque submetê-los a estes sofrimentos, humilhações ou eliminação
de suas existências
A Constituição Brasileira não autoriza a que seja legalmente qualificado como
criminoso, e muito menos como sujeito eventual à pena de reclusão, o
cidadão que tente defender a própria vida, o patrimônio, a honra, a dignidade
ou a incolumidade física de sua mulher e filhos usando de meios
proporcionais aos utilizados por quem busque inflingir-lhes estes sofrimentos,
humilhações ou eliminação de suas existências ou então que simplesmente
se aprovisione de tais meios, na esperança de impedir que ele ou seus
familiares sejam atemorizados, agredidos, e eventualmente vilipendiado
(MELLO, 2005). 22

A proteção à vida está conectada a legitima defesa, logo, torna-se uma


excludente de ilicitude se observados os requisitos do perigo ser eminente e presente,
desde que se não haja excessos. Sob essa perspectiva, o que seria proporcional
diante da injusta agressão e até que ponto os meios empregados são considerados
moderados ou não. Diante da insegurança nos dias atuais, seria considerado excesso
ao supor que um cidadão comum defenda a sua vida e sua propriedade com uma
arma de fogo. Se observados os preceitos da Constituição Federal a primazia é zelar
pela dignidade da pessoa humana, assim como proporcionar a igualdade, para isto,
seria necessário garantir a paridade de armas. Do contrário, é inconstitucional abdicar
ou alienar tais direitos em defesa da vida ou propriedade, tal como, instituir vedações
ao acesso ao a posse e ao porte de armas, com isto ocorreriam supressões desses
princípios fundamentais.
Além da legitima defesa, há também que se destacar a questão sobre a
propriedade, no que conduz o direito, a posse e o porte de armas seria considerado
um bem, de modo que, sua restrição cercearia outra garantia fundamental.
Tratando-se de segurança, conforme precípua o aludido artigo, cabe ao Estado
pode garantir esse direito, no intuito ao combate à criminalidade, porém controlar e
restringir a posse e o porte de armas não demonstrou êxito na manutenção da
segurança pública, muito pelo contrário, o desarme da população ocasionou um
aumento considerável na violência, enquanto, quanto redução na criminalidade.

[22] MELLO, Celso Antônio Bandeira, Direitos fundamentais e a arma de fogo, 13/10/2005. Disponível
em: https://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI17173,101048-
Direitos+fundamentais+e+armas+de+fogo
29

Dispõe-se no artigo 144, da Constituição Federal de 1988:

“A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos,


é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das
pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos:” [23]

Em concordância com os dispositivos acima, Valter Foleto Santin, leciona:

O fornecimento de um serviço tão importante como a segurança pública em


nível inadequado, sofrível como o atual, indica que o Estado não está
cumprindo com a sua obrigação constitucional, em uma das mais importantes
áreas estatais, o que determina uma mudança de comportamento estatal, 21
modificação estrutural profunda e medidas adequadas para a melhoria do
serviço. (SANTIN, 2004, p. 83/84). [24]

Em virtude da responsabilidade do Estado perante a segurança pública, deveria


haver um controle maior em relação a crescente criminalidade que acomete o país,
adotando medidas preventivas, modificando estruturas para a reversão deste cenário
caótico da insegurança pública.

3.6. Estatuto do desarmamento

Com forma da contenção da crescente criminalidade foi decretada a Lei nº 9.437,


De 20 De Fevereiro De 1997, ao qual institui o Sistema Nacional de Armas,
denominada como SINARM, com o objetivo de estabelecer o registro para a posse e
ao porte de armas de fogo, condicionados à autorização para obter o seu acesso.
Inclusive determinando penalidades que deixaram de ser crime anão, em outras
palavras, contravenção penal, como alude o artigo a seguir:

Art. 10. Possuir, deter, portar, fabricar, adquirir, vender, alugar, expor à
venda ou fornecer, receber, ter em depósito, transportar, ceder, ainda que
gratuitamente, emprestar, remeter, empregar, manter sob guarda e ocultar
arma de fogo, de uso permitido, sem a autorização e em desacordo com
determinação legal ou regulamentar.
Pena - detenção de um a dois anos e multa. (grifos nossos).[25]

[23] Constituição Federal de 1988, Título V, Capitulo III, Da Segurança Pública, op., cit. p.27
[24] SANTIN, Valter Foleto. CONTROLE JUDICIAL DA SEGURANÇA PÚBLICA. Editora Revista dos
Tribunais, 2004. Disponível em:
http://repositorio.unesc.net/bitstream/1/6214/1/AMANDA%20SCOTTI%20DA%20SILVA.pdf
[25] SINARM, Lei nº 9.437, de 20 de Fevereiro de 1997. Disponível em
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9437.htm
30

Observa-se que a extensão do núcleo do verbo tipificou várias condutas


delituosas, porém não distingui o tipo penal entre a posse e portar armas, qualificando-
as com o mesmo parâmetro. Nota-se que o espirito desta lei era com o intuito de
desarmar o cidadão e, ainda, dificultar o acesso as armas. Entretanto a que se
considerar que este registro de armas não alcança aos criminosos.
De acordo com o ilustre Cesare Beccaria:

Podem igualmente considerar-se como contrárias ao fim de utilidade as leis


que proíbem o porte de armas, porque apenas desarmam o cidadão pacífico,
enquanto a deixam a arma nas mãos do criminoso, muito habituado a violar
as convenções mais sagradas para respeitar aquelas que são somente
arbitrárias (BECCARIA, 2011, p. 90).26

O movimento seguinte foi a Campanha do Desarmamento, ao qual estatuiu o


Decreto de nº 5.123, de 1 de julho de 2004, sendo ainda mais rigoroso na condução
de restringir a posse e ao porte de armas, efetivamente obtendo um maior controle a
seu acesso. Para isto, vislumbra-se destacar o artigo 4º, do Estatuto de
Desarmamento:

Art. 4o Para adquirir arma de fogo de uso permitido o interessado


deverá, além de declarar a efetiva necessidade, atender aos seguintes
requisitos:
I - Comprovação de idoneidade, com a apresentação de certidões negativas
de antecedentes criminais fornecidas pela Justiça Federal, Estadual, Militar e
Eleitoral e de não estar respondendo a inquérito policial ou a processo
criminal, que poderão ser fornecidas por meios eletrônicos;
II – Apresentação de documento comprobatório de ocupação lícita e de
residência certa;
III – comprovação de capacidade técnica e de aptidão psicológica para o
manuseio de arma de fogo, atestadas na forma disposta no regulamento
desta Lei. § 1o O SINARM expedirá autorização de compra de arma de fogo
após atendidos os requisitos anteriormente estabelecidos, em nome do
requerente e para a arma indicada, sendo intransferível esta autorização. §
2o A aquisição de munição somente poderá ser feita no calibre
correspondente à arma registrada e na quantidade estabelecida no
regulamento desta Lei. § 3o A empresa que comercializar arma de fogo em
território nacional é obrigada a comunicar a venda à autoridade competente,
como também a manter banco de dados com todas as características da
arma e cópia dos documentos previstos neste artigo.
§ 4o A empresa que comercializa armas de fogo, acessórios e munições
responde legalmente por essas mercadorias, ficando registradas como de
sua propriedade enquanto não forem vendidas. § 5o A comercialização de
armas de fogo, acessórios e munições entre pessoas físicas somente será
efetivada mediante autorização do SINARM. § 6o A expedição da autorização
a que se refere o § 1o será concedida, ou recusada com a devida
fundamentação, no prazo de 30 (trinta) dias úteis, a contar da data do
requerimento do interessado. § 7o O registro precário a que se refere o § 4o

[26] BECCARIA, Cesare. Dos Delitos e das Penas. Tradução: Torrieri Guimarães. 6º Ed., Editora
Martin Claret: São Paulo, 2011. Acessado em: 17 outubro. 2018. UNODC. Disponível em:
31

prescinde do cumprimento dos requisitos dos incisos I, II e III deste artigo. §


8o Estará dispensado das exigências constantes do inciso III do caput deste
artigo, na forma do regulamento, o interessado em adquirir arma de fogo de
uso permitido que comprove estar autorizado a portar arma com as mesmas
características daquela a ser adquirida. (grifos nossos) [27]

De acordo com Barbosa e Quintela (2015, p. 47/48) o atual Estatuto dificultou o


acesso do cidadão às armas de fogo, de modo que os criminosos entram em
qualquer residência ou comércio sabendo que muito raramente irão se deparar com
armas no local, facilitando, assim, a ação criminosa.

3.7. Referendo 2005

3.8. Projeto de Lei 3722/2012

O projeto de Lei 3722/2012 Em projeto ainda está em tramitação na Câmara


Legislativa aguardando aprovação. Em linhas gerais é uma resposta ao Estatuto do
Desarmamento que se posicionou contra o referendo realizado de 2005, que
oportunamente dificultou o acesso as armas para o cidadão comum. Há muita
burocracia para a concessão do registro da posse de armas, bem como, uma restrição
maior para o porte, tratando-se de cidadão comum. Dessa forma, este projeto adotaria
critérios mais objetivos e subjetivos, no intuito de desburocratizar, inclusive flexibilizar
algumas regras, porém continuaria a restrição quanto a liberação da posse e do porte
de armas para quaisquer cidadãos.

[27]
32

Nesse passo, é necessário qualificação e aptidão para valer o direito na


obtenção e permissão da posse e do porte de armas, nessa linha de raciocino seria
uma habilitação, assim como ocorre na condução de um veículo, que pode ser tão
lesivo quanto uma arma, nas mãos de pessoas despreparadas e desqualificadas.

4. CLASSIFICAÇÃO DA POSSE E DO PORTE DE ARMA


33

Incialmente cumpre dizer que o surgimento da arma de fogo nasceu da


necessidade do homem em defesa da sua vida e de sua propriedade. Pois, o instinto
de proteção é inerente ao ser humano, e evolui com a sua história.
Este artefato bélico é originário da China, no século. Esteve presentes em vários
embates ao longo do tempo, e por sua capacidade
Nas palavras de Teixeira:

Desde seu surgimento na face da Terra até os dias atuais, o homem se utiliza
de algum meio para efetuar sua autodefesa. Apenas o que mudou foram as
armas ou os meios utilizados, que acompanharam o desenvolvimento de
novas técnicas, a descoberta de novos materiais e as novas tecnologias que
surgiram ao longo da própria evolução humana. (TEIXEIRA, 2018, p. 13).

De acordo com Soares


[..] arma de fogo pode ser definida como uma ferramenta cuja principal
peculiaridade é o arremesso de projéteis utilizando a força expansiva de
gazes gerada pela combustão de um proponente, sendo a pólvora este
principal propoente utilizado. (SOARES, 2011, p.1) [28]

A uma distinção muito clara do que diz respeito a posse e ao porte de armas de
fogo, principalmente porque a posse se refere ao direito de propriedade, no sentido
de possuir e manter sob sua guarda. Em relação ao porte de armas, trata-se do direito
de transitar ,

como bem descreve no artigo 12, da Lei 10.8266/2003, trata posse irregular de
arma de fogo de uso permitido:

Art. 12. Possuir ou manter sob sua guarda arma de fogo, acessório ou
munição, de uso permitido, em desacordo com determinação legal ou
regulamentar, no interior de sua residência ou dependência desta, ou, ainda
no seu local de trabalho, desde que seja o titular ou o responsável legal do
estabelecimento ou empresa:
enquanto o porte se refere a
Pena detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa.

Enquanto a posse trata de propriedade, o porte trata do direito de transitar


com a arma,

[28] TEIXEIRA, João Luís Vieira. ARMAS DE FOGO – Elas não são as culpadas. Editora LTR: 2018.
34

para Felicio Soares:

É outra autorização regulamentar dissociada do registro, porém vinculada a


determinada arma, previamente registrada, sendo sua concessão de caráter
precário, pessoal, e intransferível, que confere a seu titular o direito de trazer
consigo, bem como de transportá-la (SOARES, 2011, p. 46). [29]

5. PERSPECTIVA DA REDUÇÃO OU DO AUMENTO DA CRIMINALIDADE


PERANTE A POSSE E O PORTE DE ARMAS AO CIDADÃO COMUM

O Atlas da Violência (2017, p. 43) apresenta um índice de 41.817 homicídios


ocasionados por armas de fogo no Brasil, no ano de 2015, o equivalente a 71,9% do
total de casos. Enquanto que na Europa observa-se um índice bem discrepante,
com cerca de 21%. Conforme explana Teixeira (2018): O Brasil, em 2016, bateu
recorde no número de homicídios! O número aumentou, significativamente, em 20
Estados da Federação. O Brasil atingiu a marca recorde de 59.627 mil homicídios
em 2014, um alta de 21,9% em comparação aos 48.909 óbitos registrados em 2003.
A média de 29,1 para cada grupo de 100 mil habitantes, também é a maior já
registrada na história do País e representa uma alta de 10% em comparação à
média de 26,5 registrada em 2004. (TEIXEIRA, 2018, p. 64) Ainda de acordo com o
Atlas da Violência (2017, p. 47), entre os anos de 2005 a 2015 o Estado de Sergipe,
que está entre os menos armados do país, registrou a maior taxa de mortes
violentas por 100 mil habitantes, o equivalente a 64; seguido do Rio Grande do
Norte, com 56,9 e Alagoas, também entre os menos armados, com 55,9. Portanto,
fica cada vez mais evidente que o controle de armas no país está gerando, a cada
ano que passa, o aumento da criminalidade, de modo que o objetivo primordial do
Estatuto não vem sendo atingido.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

[29] SOARES, F. Manual sobre armas de fogo para operadores de direito / Felício Soares. – Rio de
Janeiro. Edit. Impetus, 2011. 17 Um direito do cidadão. 2016. Acessado em: 17 outubro. 2018.
UNODC. Disponível em:
https://acervodigital.ssp.go.gov.br/pmgo/bitstream/123456789/1224/1/Jos%C3%A9%20Augusto%20F
%C3%A1vero%20Mezencio.pdf
35

7. FICHA TÉCNICA:

Artigos de Lei Ordenações Filipinas


Quinto Livro, o Título LXXX, artigo, Tit. 35: M.-Liv.
I t. 57 pr
Código Penal do Império

Doutrina Direito Processual Civil


Daniel Amorim Assumpção Neves
(relação de autores consultados Humberto Theodoro Junior
em livros e em publicações Mediação
virtuais)

8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRUNO, Aníbal. Direito Penal: parte geral. 5ed.Rio de Janeiro: Forense, 2005.

PIERANGELI, José Henrique. Códigos Penais do Brasil – Evolução Histórica. 2 ed.


São Paulo: RT, 2004, p.120.

Enciclopédia Saraiva de Direito. São Paulo: Saraiva, 1977-1982. v. 15, p. 396-397.


Consultado em http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/221763

BRETAS, Marcos Luiz. A polícia carioca no Império. IN Revista Estudos Históricos,


vol 1, nº 22. Rio de Janeiro, 1998. p. 219.
36

"Constituição de 1937". Centro de Pesquisa e Documentação de História


Contemporânea do Brasil, Rio de Janeiro. Disponível em:
<http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos37-
45/PoliticaAdministracao/Constituicao1937>. Data de acesso: 17 de julho
de 2016.

DA SILVA, Paulo Sérgio. A Constituição de 1934. Revista de História, Rio


de Janeiro, abr. 2008. Disponível em:
<http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/a-polaca>. Data de
acesso: 17 de julho de 2016.

REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL. Constituição (1937).


Brasília: Planalto do Governo. Disponível em:
< http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao37.htm>
. Data de acesso: 17 de julho de 2016.

8.1. Sites consultados:

http://pelalegitimadefesa.org.br/biblioteca/outrasmat/Melo-Carlos.pdf

http://unifia.edu.br/revista_eletronica/revistas/direito_foco/artigos/ano2015/direito_se
g_publica.pdf

http://www.esamcuberlandia.com.br/revistaidea/index.php/idea/article/view/145/143

https://super.abril.com.br/mundo-estranho/qual-e-a-origem-das-armas-de-fogo/

https://www.mundodasarmas.com/2017/05/a-historia-do-desarmamento-no-
brasil.html

http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/l5p1227.htm

http://emporiododireito.com.br/leitura/as-ordenacoes-do-reino-de-portugal-e-o-
sistema-criminal-de-sua-epoca-por-jorge-coutinho-paschoal-e-gilberto-alves-junior

http://tcconline.utp.br/media/tcc/2017/09/A-EFICIENCIA-DO-ESTATUTO-DO-
DESARMAMENTO-NA-REDUCAO-DA-CRIMINALIDADE.pdf

https://www.infoescola.com/direito/constituicao-de-1937/
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