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UNIVERSIDADE​ ​FEDERAL​ ​DE​ ​SANTA​ ​CATARINA

Universidade​ ​Aberta​ ​do​ ​Brasil​ ​–​ ​Polo​ ​Itajaí


Licenciatura​ ​EaD​ ​em​ ​Filosofia

Disciplina:​ ​ ​ FIL9641​ ​–​ ​Filosofia​ ​Política​ ​I


Docentes​:​ ​Denilson​ ​Luís​ ​Werle
Turma:​ ​109171​​ ​-​ ​ ​Semestre​:​ ​2017-1
Discente​:​ ​Ivan​ ​Cesar​ ​Zanfolim​ ​de​ ​Farias​ ​ ​RA​:17301650
Atividade:​ ​O​ ​Pensamento​ ​Político​ ​de​ ​Platão
O​ ​Pensamento​ ​Político​ ​de​ ​Platão

O pensamento político-filosófico de Platão construído no livro “A República”


(2001) decorre do perecimento da conjuntura pública de Atenas após a Guerra do
Peloponeso. Durante este período, cidadãos atenienses encontravam-se temerosos
em relação ao futuro da pólis, ao mesmo tempo que experienciavam embates
morais​ ​sobre​ ​a​ ​existência​ ​de​ ​facto​ ​de​ ​vantagens​ ​em​ ​agir​ ​de​ ​forma​ ​justa.
Platão sente-se invitado a propor reformas medradas pela filosofia a fim de acabar
com a epidemia de maus governos que se alastrava por toda a Grécia (REALE,
1994.​ ​p​ ​237).
A discussão sobre os temas supracitados tem seu início em debates sobre as
diferentes concepções de justiça. Tais debates se fazem necessários uma vez que
para Platão é através da justiça que se aprende a levar uma vida boa e justa. Em
todos os diálogos presentes no livro, Platão adota Sócrates como seu interlocutor
filosófico, com o intuito de apresentar e refutar as diferentes opiniões a respeito do
assunto.
A primeira concepção de justiça é dada por Céfalo, um estrangeiro de idade
avançada e possuidor de grande riqueza. Em uma conversa amistosa sobre a
velhice, Sócrates acaba por conduzir Céfalo ao tema justiça. Para este, justiça é
uma virtude de caráter pessoal, resumida em dizer a verdade e restituir a cada um
aquilo​ ​que​ ​se​ ​deve​ ​(PLATÃO,​ ​2001.​ ​331d).
Sócrates rejeita tal concepção alegando que nem sempre é justo devolver
algo a alguém, como armas a um amigo que foi tomado pela loucura. Além disso,
segundo ele o uso adequado de propriedades não é algo comumente praticado por
todos. Apenas homens de qualidade sabem como usufruir dos bens, implicando um
possível​ ​fim​ ​a​ ​propriedade​ ​privada​ ​ ​(DUTRA;​ ​ASSMANN,​ ​2008.​ ​p.​ ​47).
Posteriormente, Polemarco, filho de Céfalo, entra na discussão e expõe sua opinião
sobre o assunto. Para ele, justiça constitui em fazer o bem aos amigos e mal aos
inimigos (PLATÃO, 2001. 332d). Desta forma, sua concepção de justiça ultrapassa o
âmbito pessoal, posteriormente proferido pelo seu pai, e passa a comportar não
somente​ ​quem​ ​a​ ​pratica,​ ​mas​ ​também​ ​aqueles​ ​que​ ​a​ ​recebem.
O problema desta ideia, segundo Sócrates, é que sua aplicação requer que
quem a faz possua um entendimento superior sobre bem e mal para assim distinguir
entre amigos e inimigos. Ademais, a justiça por si só não consegue capacitar alguém
para tal entendimento, pois ela própria depende do que é o bem. Para que tal
conceito seja aplicado é necessário conhecer o mundo onde se aplica. Insinuando
então que para chegar a uma conclusão sobre o que é a justiça é necessário ser
dotado​ ​de​ ​um​ ​conhecimento​ ​superior.
A terceira concepção de justiça é defendida por Trasímaco, um sofista, que
se mostra indignado com a discussão e acaba por romper o clima bucólico do
debate. Trasímaco estabelece uma relação entre justiça e poder e aponta que
justiça nada mais é do que a vontade do mais forte (Ibid., 338c). Segundo ele, em
cada governo o detentor do poder estabelece as leis de acordo com a sua
conveniência. Uma vez promulgadas, tais leis passam a tornar justo o que convém
aos governantes e a punir transgressores de modo que cometeram uma injustiça
(PLATÃO,​ ​2001,​ ​339a).
A primeira objeção de Sócrates à afirmação de Trasímaco é a de que ela
parte do pressuposto de que ser justo implica em seguir as leis. No entanto,
Sócrates acredita que seguir as regras cegamente, sem que se tenha um senso de
justiça não significa agir de forma justa. Para ele, ser justo requer, antes de tudo, o
desejo pela justiça. Sua segunda objeção é sustentada pela noção de que governar
é uma arte que não tem como objetivo o fortalecimento de um e sim do povo. Caso
contrário, o que se tem são apenas interesses particulares transformados em lei.
Portanto, o argumento de Trasímaco torna-se indefensável uma vez que ele requer
uma​ ​definição​ ​verdadeira​ ​de​ ​justiça​ ​(RAMOS,​ ​2012.​ ​p.15-16).
O debate termina com avanços substanciais sobre o assunto uma vez que a
partir dele passamos a entender o que a justiça não é. Platão então propõe uma
mudança de perspectiva à discussão buscando discorrer para uma visão macro
sobre o tema de forma que ele seja abordado como princípio organizador da pólis.
Ele acredita que fundamentando-se na perspectiva de cidade justa será possível
também​ ​chegar​ ​a​ ​conclusão​ ​sobre​ ​o​ ​que​ ​conquiste​ ​o​ ​homem​ ​justo.
Seguindo a mudança proposta, o assunto que passa a ser tratado refere-se às
vantagens em ser justo. Dado que, ao observarem a vida cotidiana, dois
representantes do senso comum na obra, os irmãos de Platão, Glaucon e Adimanto,
descrevem​ ​a​ ​justiça​ ​como​ ​uma​ ​hipocrisia​ ​social​ ​(DUTRA;​ ​ASSMANN,​ ​2008.​ ​p.54).
Representantes do pensamento popular grego, os irmãos proferem que se a
justiça é capaz de oferecer qualquer benefício ao homem, tal encontra-se não na
vida justa, mas sim nas contingências dos sistemas sociais e divinos que desferem
recompensas e punições aos indivíduos. Pois leis e constituições são criadas e
impostas​ ​a​ ​fim​ ​de​ ​produzir​ ​no​ ​cidadão​ ​a​ ​conduta​ ​justa.
De antemão, Sócrates começa a trabalhar os argumentos propostos
distinguindo a justiça individual da justiça na pólis. Segundo ele, não existe
felicidade, ou eudaimonia, fora da cidade. As cidades originam-se da incapacidade
de indivíduos de serem autossuficientes (PLATÃO, 2001. 368b). Uma cidade é
fundada através das necessidades pela alimentação, habitação e vestuário (DUTRA;
ASSMANN, 2008. p. 57). Logo, uma cidade precisa conter no mínimo quatro ou
cinco homens, cada um executando sua função com excelência a fim de garantir o
bom​ ​funcionamento​ ​da​ ​cidade​ ​(PLATÃO,​ ​2001.​ ​369d).
Através desta divisão de tarefas surgem diversas classes sociais devido às
necessidades materiais e simbólicas da pólis. Platão passa então a delinear seu
projeto educacional para a formação harmoniosa dos cidadãos justos que irão
compor​ ​esta​ ​cidade​ ​justa.
Platão parte da necessidade de desenvolver um sistema de harmonização
que comporte a unidade dentro de uma pluralidade a fim de evitar conflitos entre as
diferentes classes. Portanto, o primeiro passo para a organização de tal cidade foi
demarcar suas virtudes fundamentais. Tais virtudes são apresentadas por Platão
como:​ ​sabedoria,​ ​coragem,​ ​temperança​ ​e​ ​justiça.
As pessoas que compõem as três classes da pólis são compostas, em maior
ou menor quantidade, por pré-disposições a estas virtudes, sendo a justiça a virtude
capaz​ ​de​ ​criar​ ​uma​ ​harmonia​ ​entre​ ​todas​ ​elas.
Na disposição das funções e estruturação política, o bem próprio é visto por todos
como o bem alheio (Ibid., 420a). Este bem que visa o Outro é algo que deve ser
respeitado​ ​e​ ​cuidado​ ​pelos​ ​governantes.
Uma vez definida as virtudes, parte-se para a divisão das classes que
compõem a cidade ideal, são elas: a dos comerciantes e agricultores, a dos
guerreiros e a dos governantes (guardiões). Platão acredita que esta estrutura de
classes deve garantir o bem comum, o cumprimento das leis e da boa ordem
(SILVA,​ ​2007.​ ​p.21).
Em dimensão dos passos aludidos é possível estabelecer um critério para a
fundação da cidade ideal. Sendo ela bem construída e favorável ao conjunto de
classes,​ ​consequentemente,​ ​tal​ ​cidade​ ​será​ ​sábia,​ ​corajosa​ ​temperante​ ​e​ ​justa.
Ao edificar as virtudes necessárias à pólis, é possível concluir uma definição
de justiça como a virtude (areté) da harmonização das partes díspares tanto as
partes da alma (apetitiva, irascível e racional) como da cidade (produtores/artesãos,
guerreiros e governantes). Justo é cada parte realizar propriamente sua função. Os
guardiões, cuja parte racional predomina, devem governar. Os guerreiros, cuja parte
irascível sobressai-se, devem proteger as fronteiras e guerrear. Por fim, os
produtores e artesãos devem ser responsáveis pela produção econômica da cidade,
dada sua parte apetitiva imperante. Tudo aquilo que não couber na relação entre
virtudes e classes, e for incompatível a elas, acaba por ser classificado como injusto,
e​ ​portanto,​ ​não​ ​é​ ​abarcado​ ​à​ ​cidade​ ​(Ibid.​ ​p.21).
Estabelecidos estes critérios, o problema central a ser respondido por Platão
passa a ser a realização da justiça através do estabelecimento de uma relação entre
ela​ ​e​ ​a​ ​filosofia,​ ​o​ ​poder​ ​político​ ​e​ ​a​ ​verdade.
A sabedoria possui um papel central nesta etapa da tese, tendo em vista que
são aptos a proteger a cidade e guardá-la dos perigos cidadãos possuidores de tal
virtude e, em níveis mais elevados determinados pelo processo educacional e
seletivo,​ ​tornam-se​ ​qualificados​ ​a​ ​governar.
Platão estabelece que o homem apto a governar é o filósofo, ou melhor, o
filósofo-rei, dado que tal ser seria portador de virtudes morais e intelectuais, saberia
fazer as perguntas corretas que levam ao Bem e seria o único conhecedor da
episteme.
O filósofo-rei comandaria e legislaria a cidade a partir de leis corretas,
capazes de promover a harmonia. Ele agiria como o transmissor de conhecimento a
cidade,​ ​conduzindo​ ​ela​ ​ao​ ​melhor​ ​caminho.
Platão mostra em seu livro que a filosofia como poder político, age como uma
aristocracia dos mais sábios. Não obstante, pode-se questionar se sua metodologia
baseada no diálogo não seria compatível, em alguns quesitos, com o projeto de uma
democracia deliberativa. Mostrando que a cidade torna-se justa através do poder do
governante que aprende a ser sábio, pela eficácia de seu exército e pela eficiência
do trabalho da classe responsável pela produção material. Podendo concluir tal obra
como​ ​um​ ​arauto​ ​da​ ​democracia.

Referências

REALE,​ ​Giovanni.​ ​História​ ​da​ ​Filosofia​ ​Antiga.​ ​v.​ ​II.​ ​São​ ​Paulo:​ ​Loyola,​ ​1994.
PLATÃO, A República. Tradução portuguesa de Maria Helena da Rocha Pereira.
9.ed.​ ​Lisboa,​ ​Fundação​ ​Calouste​ ​Gulbenkian,​ ​2001.
DUTRA, Delamar José Volpato; ASSMANN, Selvino José. Filosofia Política I.
Florianópolis:​ ​UFSC,​ ​2008.​ ​153​ ​p.
RAMOS, Flamarion Caldeira et al. (Coord.). Manual de Filosofía Política. 1. ed. [S.l.]:
Saraiva,​ ​2012.​ ​335​ ​p.
SILVA, Rosemary Marinho da. A justiça na República de Platão. 2007. 138 f.
Dissertação (Mestrado em Filosofia) - Universidade Federal da Paraí​ba, João
Pessoa,​ ​2007.