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1.

Breve História do Pensamento sobre o Crime


A historiografia das ideias sobre o crime foi muito tempo obscurecida pelo mito do progresso.
Os antigos estariam mergulhados nas trevas da superstição, da ignorância e da barbárie, atingindo a
luz graças à marcha inexorável da razão, da tolerância e da compaixão.

Na realidade, a história do pensamento sobre o crime está pontuada de fases de progresso e de


retrocesso, de verdades descobertas e depois esquecidas, de grandes oscilações pendulares.

2. O Antigo Regime
O discurso sobre o crime é homogéneo. Os teólogos, os filósofos e os juristas escrevem sobre
a questão criminal. Ao não distinguirem de modo claro a religião, a moral e o direito, vêem nela, ao
mesmo tempo, um pecado, uma falta e uma infracção. Explicam-na pela invocação indistinta de
Deus, Satanás, as paixões, as tentações, a perversidade e o pecado original.

Definição de Jousse no Novo Comentário sobre a Ordenação Criminal do mês de Agosto de


1670: “Designamos por crime ou delito toda a acção injusta e proibida pelas leis que tende a ferir
asociedade e a perturbar a tranquilidade pública”.

O delinquente não é concebido como alguém diferente dos outros homens. Afirma-se a sua
liberdade e responsabilidade; não uma liberdade absoluta, mas a suficiente para justificar o castigo.

O castigo é explicado como qualquer outro pecado. O homem está condenado ao sofrimento e
à morte pelo pecado original que o corrompeu. Está votado ao mal desde o seu nascimento.

A visão pessimista de um ser humano mau e de um mundo habitado pelo mal acentua-se nos
séculos XV e XVI. O crime é explicado, em larga medida, pela paixão. O homem cede à tentação,
movido por um ímpeto que lhe domina o espírito.

A determinação da gravidade dos tipos de crime e de cada crime em particular era a questão
primordial para os antigos juristas. O direito penal antigo, com excepção do processo penal, era em
grande medida construído com base em numerosas e subtis distinções que procuravam ponderar a
gravidade das infracções. Quando a culpabilidade do acusado não oferecia dúvidas, estabelecia-se a
proporcionalidade entre a severidade da pena e a gravidade do delito.

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Escala de severidade das penas: execuções capitais acompanhadas de tormentos e suplícios;
forca, galeras, amputações, ferrete, reclusão em casa de correcção, chicote, pelourinho, retractação,
reparação do dano causado à vítima, multa e admoestação.

Escala de gravidade de crimes violentos: homicídio atroz, crime de lesa-majestade, homicídio


agravado, violação de uma virgem, homicídio voluntário simples, agressões que fazem sangrar, as
que não fazem sangrar, agressões com ou sem arma e injúrias verbais.

Como a honra é um bem tão precioso quanto a vida, quando mata em combate leal o ofensor
que o desonra publicamente, os juízes distinguem o homicídio cometido em resposta a injúrias e no
calor dos acontecimentos do homicídio premeditado cometido “à falsa fé” sobre vítimas indefesas.

Escala de gravidade dos furtos e roubos: assaltos a edifícios, roubos cometidos nas estradas
ou perpetrados por bandos de malfeitores, furto de charrua e furto de alimentos por necessidade.

Nos casos de reincidência, à terceira condenação por furto simples, o culpado corria o risco de
ser enforcado.

Bases para o estabelecimento de proporcionalidade entre crimes e penas:


- leis do reino;
- costume;
- “prudência do juiz”.

Entre os séculos XIII e XVI, a justiça francesa evolui no sentido do “arbitrário” do juiz. Goza
do poder discricionário de apreciação dos factos conforme os casos apresentados: móbil, modo de
execução do crime, comportamento e características da vítima, tempo, local, reincidência do autor,
antecedentes, reputação, idade.

Para esta análise, socorre-se da teoria das circunstâncias de S. Tomás de Aquino. O costume
local, a jurisprudência e a equidade permitem-lhe estabelecer a proporcionalidade mais justa entre a
severidade da pena e a gravidade real do delito.

O acto de realização de justiça encontra-se intimamente ligado ao exercício da autoridade. É a


prerrogativa que cabe aos monarcas e aos senhores por razões financeiras e políticas. Recheiam os

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seus cofres com as multas cobradas e com os bens confiscados aos culpados de crimes graves. Ao
fazerem-no, reforçam o seu poder sobre os súbditos, garantindo que é feita justiça no seu território.

Entre a população, a sede de soluções justas e equitativas é elevada. Senhores, mercenários e


bandidos fazem reinar a lei do mais forte. Se o crime não é sancionado de modo equitativo e no
respeito pelo costume, os parentes da vítima enveredam pela vindicta. Nesta época, a violência é,
em grande medida, solidária, vindicativa e retributiva.

No século XV, em Artois, as decisões judiciais visam estabelecer um equilíbrio entre a ordem
pública e a vingança privada. O rei apenas concede a sua graça na condição de que a parte seja
satisfeita, isto é, de que o acusado e os que são próximos cheguem a acordo com a parte ofendida.
Assim, a solução reconhecida como justa pelas partes concorre para a pacificação da comunidade.

A função da pena é, pois, corrigir a injustiça derivada do dano causado pelo criminoso à
vítima. Visa a igualdade de proporção. Trata-se de uma questão de equilíbrio, de justiça comutativa,
de retribuição. É imperioso que a sentença não pareça, aos olhos das partes, demasiado injusta.

Em suma, durante o Antigo Regime, o justo prevalece sobre o útil.

O juiz deseja que o castigo sensibilize os espíritos e aproveita a ocasião para avisar todos os
que se sintam tentados a imitar o culpado. É a exemplaridade. As festas punitivas constituem um
meio de vingar a autoridade escarnecida, uma exibição de poder, um meio de incutir obediência.

Se os magistrados do Antigo Regime apostam na severidade das penas é porque não possuem
meios para garantir a sua certeza: demasiados criminosos escapam à sua acção. A vigilância policial
e judiciária do território é irrisória. Só em último recurso um crime é participado às autoridades.

A misericórdia, no entanto, tempera a exemplaridade e a retribuição. O juiz tenta descobrir o


ponto de equilíbrio em que a conciliação ente as partes e a paz civil tem maior probabilidade de ser
restaurada. Até os crimes graves são mais punidos com a multa e o banimento do que com a morte.

A reabilitação é uma questão religiosa e de justiça eclesiástica. É, antes de mais, a alma que
tem de ser reabilitada; acessoriamente, ajudar-se-á o pecador a retomar o seu lugar na sociedade.

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Segundo Garland, as noções usadas pelos teóricos e filósofos do Antigo Regime nada têm a
ver com as dos criminólogos contemporâneos. Ainda assim procuram responder a questões actuais.

O século XIX varre as noções de gravidade, proporcionalidade, retribuição e reparação.

Mas estão de volta neste final de século. Desde que Von Hirsch (1976) relança a retribuição
sob o “just desert” (justo mérito) e que estudos recentes sobre o “sentencing” demonstram que a
proporcionalidade guia com mão de ferro as decisões da justiça, já não é possível ao criminólogo
proceder como se as questões do justo e do injusto fossem relíquias do passado.

“Sentencing” é a palavra usada para designar o processo de decisão da sanção a aplicar a um


crime ou uma infracção. Estuda designadamente os factores que influenciam as decisões judiciais, o
próprio processo de decisão e os seus resultados.

3. As Luzes
Ao longo da segunda metade do século XVIII, Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Beccaria,
Bentham contribuem para a mudança das ideias sobre os delitos e as penas.

Montesquieu, filósofo sem espírito de sistema, amadurece longamente uma obra baseada na
sua experiência de magistrado no Parlamento de Bordéus e nas viagens pela Europa: O Espírito das
Leis (1748), que contém vários capítulos breves sobre as leis criminais e as penas.

Dezasseis anos mais tarde, Cesare Beccaria, sistematiza as ideias das Luzes sobre a política
criminal. É um espírito contemplativo, pouco atento às realidades concretas. A sua obra Dos
Delitos e das Penas exerce uma profunda influência, nomeadamente em 1791, quando os
revolucionários dotam a França de um código penal.

Em Inglaterra, Jeremy Bentham desenvolveria uma longa reflexão sobre a legislação, a moral,
os crimes e as sanções, utilizando um método dedutivo e classificatório rigoroso mas abstracto.

As Luzes denunciam severamente o obscurantismo religioso, o absolutismo real e os erros da


justiça penal. A submissão à vontade do príncipe ou do juiz é entendida como negação da liberdade
política. “Arbitrário” torna-se um termo pejorativo. É essencial lançar as bases intelectuais de uma
ordem política que proporcione a felicidade à maioria.
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O instrumento desta luta é a razão. Da ciência e do pensamento brota a luz dissipadora das
trevas da ignorância, da superstição e da miséria. Baseiam-se num sistema dedutivo que parte de um
pequeno número de princípios para deles deduzir uma série de consequências.

A utilidade constitui a base de qualquer raciocínio. A finalidade suprema de um governo deve


ser a maior felicidade para o maior número de pessoas. Um acto só pode ser considerado bom ou
justo se for, em primeiro lugar, útil, isto é, se contribuir para a felicidade da maioria.

A filosofia penal das Luzes inscreve-se no contexto da época:


- a esperança de vida aumenta;
- o número de pessoas que sabe ler quadruplica;
- a população das cidades cresce para o dobro;
- a produtividade agrícola aumenta um pouco por todo o lado;
- a Inglaterra faz a sua revolução industrial;
- a criminalidade transforma-se.

Nas cidades, os furtos e os roubos suplantam os crimes violentos. Londres, Paris e outras
grandes cidades atraem a riqueza, mas também os ladrões, que se aproveitam do anonimato para se
apoderarem dos bens expostos, cada vez mais numerosos.

A mobilidade populacional e o anonimato não permitem a manutenção da operacionalidade


dos controlos sociais. A exemplaridade dos castigos, encenada pelo Estado, é desajustada.

Passamos de comunidades aldeãs orgânicas, capazes de resolverem os seus conflitos próprios,


a sociedades administradas verticalmente. Ainda assim, a polícia continua a ser embrionária, os
tribunais raros, e o arsenal de medidas penais insuficiente.

Emerge a vontade de uma filosofia penal mais moderada e de uma administração da justiça
criminal mais regular. A resposta proposta pelos filósofos reformadores incide sobre:
- as finalidades das incriminações e das penas;
- a gravidade dos delitos;
- a dissuasão;
- a proporcionalidade.

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Bentham: “o delito é um acto que se considera dever ser proibido pelo mal que provoca ou
que pode provocar”.

A tarefa base do legislador é harmonizar os egoísmos que levam cada indivíduo a procurar a
felicidade por todos os meios. Assim, um governo sábio proíbe os actos de que resulte mais mal do
que bem e ameaça os autores potenciais com uma dor pelo menos igual ao prazer que obteriam.

A pena deve contribuir para felicidade da maioria, infligindo apenas o sofrimento necessário,
pela intimidação individual e geral. Sendo um mal necessário, deve ser usada com parcimónia.

Beccaria considera inaceitável medir a gravidade do delito a partir da intenção do culpado, da


gravidade moral do pecado ou do estatuto social da vítima. Define três graus de gravidade:
a) delitos que tendem a destruir directamente a sociedade ou os seus representantes, como os
crimes de lesa-majestade, são os mais prejudiciais ao corpo social;
b) actos contrários à segurança pessoal e liberdade dos cidadãos: furtos e homicídios;
c) delitos “que perturbam a tranquilidade pública e o repouso dos cidadãos, como a algazarra
dos rufiões nas praças”.

Reagindo contra as ideias da época sobre a exemplaridade, Montesquieu propõe uma teoria da
dissuasão. É constituída por três proposições.
a) As penas moderadas e certas são mais eficazes do que os castigos terríveis.
A pena age sobre a imaginação e pelo sentimento de vergonha. Basta ser provável e exceder
ligeiramente o benefício do delito para ser eficaz.

b) A probabilidade da aplicação da pena varia na razão inversa do excesso de severidade.


A relação inversa severidade-probabilidade da pena decorre do facto de que um aumento das
probabilidades das penas incita os juízes à clemência. Resultado: a severidade das penas diminui.
Os castigos extremos deixam de parecer necessários quando a probabilidade da sanção aumenta.

c) A sanção penal é apenas um meio, entre outros, de incitar os cidadãos a comportarem-se


bem. O seu efeito tende a ser nulo quando sanções não penais recompensam o que ela pune.
Bentham procura classificar as sanções, isto é, punições e recompensas atribuídas às acções
humanas. Contempla quatro tipos: sanções naturais; sanções populares; sanções políticas ou penais;
e sanções religiosas.
Acaba, mais tarde, por propor uma classificação tripartida:
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- sanções retributivas;
- sanções simpáticas;
- e sanções antipáticas.

As penas ditadas pelo Estado coabitam com muitas outras sanções que ora as complementam,
ora as contradizem. Como não controlam todos os aspectos da acção humana, não podem esperar
um grande efeito quando voltam uma lei que pune um acto recompensado pelo povo.

A teoria da dissuasão das Luzes sugere aos legisladores uma política simples e determinante:
- prescrever penas moderadas;
- respeitar os costumes;
- usar a incriminação com parcimónia;
- preferir a certeza à severidade.

As Luzes subscrevem a regra da proporcionalidade mas em termos utilitários. Neste sentido,


Bentham propõe três regras:
- “fazei com que o mal da pena seja superior à vantagem do delito, mas o mínimo possível”;
- “quanto mais grave for o delito, mais podemos arriscar a pena severa para tentar preveni-lo”;
- “se dois delitos concorrem entre si, o mais nocivo deve ser punido mais severamente, de
modo a que o delinquente tenha um motivo para se ficar pelo menos grave”.

Montesquieu afirma que, nos regimes republicanos, os juízes segue estritamente a letra da lei.
Beccaria retoma esta ideia, reforçando-a e conferindo-lhe um carácter dogmático para dela deduzir
o princípio da legalidade das penas. O único papel do juiz é a determinação da culpa do acusado.

Em França, sob a influência de Beccaria, o Código Penal de 1971 prescreve penas fixas para
cada categoria de delitos. O acusado ou é insuficiente ou excessivamente punido, ou, até, absolvido.
Representa uma regressão relativamente ao arbitrário do juiz do Antigo Regime.

A grande atenção concedida por Montesquieu aos factos não lhe permite a derivação para o
radicalismo e para o espírito de sistema, armadilha a que Beccaria e Bentham não escaparam.

Nenhum governo possui a informação necessária para realizar a maior felicidade para o maior
número. Ainda que o princípio da utilidade fosse o único válido de nada serviria, porque o governo
não conhece o suficiente para poder gerir a felicidade de todos e de cada um.
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4. O Século XIX
No século XIX, o crime torna-se objecto de ciência. Os Estados francês, inglês e belga criam
serviços especializados cuja missão é compilar estatísticas demográficas, sanitárias e económicas.

Em França é publicado o Inventário Geral da Administração da Justiça Criminal (1827), que


permite a análise da criminalidade em território nacional com base em dados estatísticos recolhidos
sistematicamente no territorial.

Neste âmbito destacam-se:


- Ensaio sobre a Estatística Moral de França (1833), de André-Michel Guerry;
- Física Social ou Ensaio sobre o Desenvolvimento das Faculdades do Homem (1835), de
Adolphe Quételet.

Ambos utilizam as recentes estatísticas criminais como indicadores do estado moral da França
e da tendência para o crime nos seres humanos. A tendência para o crime é, então, sinónima de
criminalidade, ao ser medida a partir do número de delitos cometidos num dado lugar e momento.

Consciente da existência de um desfasamento entre o número de crimes e o número de factos


registados pela polícia e pelos magistrados, Quételet:
- advoga a existência, em todos os homens, de uma possibilidade variável de virem a cometer
um qualquer acto censurável;
- defende que o auge do crime se situa-se em torno dos 25 anos e depois diminui na razão
directa da força física e das paixões.

A constância do crime ao longo dos anos impressiona Guerry. Se os efeitos são proporcionais
às causas, casos uma sociedade não sofra mudanças no período de um ano, a criminalidade nesse
ano verificada deverá também ser semelhante à do ano anterior.

Perplexidade de Quételet e de Guerry: as estatísticas mostram que a relação entre a pobreza e


a criminalidade contraria o senso comum. Nas regiões mais pobres de França comete-se o menor
número de crimes contra a propriedade. Neste sentido, para estes autores:
- existe uma ligação entre o desenvolvimento comercial e industrial e o desenvolvimento da
criminalidade;
- o crime é encorajado, não pela pobreza ou pela riqueza, mas pela passagem brusca de um
estado a outro e, sobretudo, pela desigualdade.
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No entanto, as longas séries cronológicas hoje disponíveis mostram que:
- a criminalidade não é tão estável como pensavam;
- se os grandes factores que influenciam o crime variarem pouco, a criminalidade também não
registará variações de um ano a outro;
- a relação entre a idade e o crime é estreita, e que a curva que a descreve apresenta sempre o
mesmo comportamento, mesmo se o seu ponto máximo se desloca;
- a pobreza está menos ligada ao crime do que a desigualdade e a abundância de bens.

Em 1876, um professor de medicina legal de Turim, inspirado em Darwin, Cesare Lombroso


publica um livro intitulado O Homem Delinquente.
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Lombroso é mesmo o fundador da criminologia?
Autor de uma teoria surpreendente e bizarra, exaltada e criticada ferozmente, abriu um vasto
campo de investigação que ainda hoje se mantém muito activo.

Com os discípulos Enrico Ferri e Raffaele Garofalo funda a revista Arquivos de Psiquiatria e
de Antropologia Criminal (1880).

Surgem mais tarde várias associações nacionais e internacionais de antropologia criminal e de


criminologia, que organizam congressos, reunindo psiquiatras, médicos legistas, administradores de
prisão, magistrados, professores.

Em filosofia, Auguste Comte defende o positivismo, isto é, preconiza fundar o conhecimento


na experiência e na observação. Os conhecimentos científicos adquiridos deveriam servir de base à
reforma social e política.

A Escola Positivista de Criminologia afirma as seguintes proposições:


a) O empirismo;
A especulação não possui qualquer valor quando se trata de fazer ciência. Apenas contam os
factos estabelecidos a partir da observação e da experimentação.

b) O objecto da criminologia é o criminoso, ser distinto do não-criminoso.


O crime constitui uma abstracção de uma noção jurídica sem interesse. A realidade concreta
fundamentadora de exame científico é o criminoso. A explicação do comportamento criminal deve
ser procurada nas predisposições para o crime.
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A criminologia deve dedicar-se à descoberta das diferenças físicas, psicológicas e sociais
existentes entre criminosos e não-criminosos. Em vez de punir, deve-se impedir o desenvolvimento
da tendência para o crime, tratando-a aquando da falha da sua prevenção e consequentemente
incapacitando os delinquentes incuráveis.

c) Os comportamentos criminais estão sujeitos a leis deterministas que não deixam espaço ao
livre arbítrio. O crime não resulta da escolha nem do cálculo. O positivismo é um determinismo.

5. A Teoria de Lombroso
Para Lombroso, o delinquente é aquele que infringe as normas. Pertence a uma subespécie
primitiva do Homo Sapiens.

Existe um tipo criminal/criminoso nato distinto do homem natural por uma longa série de
estigmas físicos e de traços psicológicos:
- cérebro relativamente pequeno;
- maxilares enormes e lábios carnudos:
- queixo recuado e arcadas supraciliares salientes;
- braços muito longos;
- órbitas excessivamente grandes;
- cabelo abundante.

A fisionomia dos criminosos varia de acordo com os crimes cometidos. Por exemplo, o ladrão
teria olhos pequenos, móveis e inquietos, sobrancelhas espessas, nariz achatado e fronte fugidia.

A nível psicológico, o criminoso:


- sofre de uma insensibilidade que atrofia os seus sentimentos de piedade e de compaixão;
- é marcado pela ausência de remorso, impulsividade, imprevidência, egoísmo, crueldade,
vaidade, intemperança, indolência, sensualidade e superstição;
- é dado à tatuagem e ao calão.

Síntese: o corpo e o espírito do criminoso traem a natureza selvagem que irresistivelmente o


predispõe ao crime. Representa um retorno a uma fase anterior da evolução humana (atavismo). É
forçosa a inadaptação pois possui a mentalidade e a psicologia do selvagem menos desenvolvido.

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Ao longo das diversas edições de O Homem Delinquente são identificados e descritos vários
tipos de criminosos:
- o criminoso-nato;
- o louco moral e o epiléptico;
- o criminoso passional;
- o criminoso louco;
- e o criminoso ocasional.

Paralelamente, o atavismo coabita com a epilepsia e com a degenerescência. O criminoso é


um degenerado que teria perdido as qualidades do tipo normal sob a influência de factores como o
alcoolismo, a droga ou o meio ambiente insalubre.

Em O Crime, Causas e Remédios (1899), Lombroso apresenta as múltiplas causas do crime:


- o meio ambiente e a pobreza;
- o preço dos cereais e o álcool;
- a civilização, a raça e a imigração;
- o clima, a educação e a prisão;
- as associações criminosas e o desemprego.

Críticas à Teoria de Lombroso:


- Gabriel Tarde (1886) insiste na relatividade do crime. Este varia no tempo e no espaço. Por
outro lado, os estigmas pretensamente típicos dos criminosos são frequentes nos não criminosos e
não há acordo entre os autores a propósito do perfil do criminoso.
- Goring, em O Condenado Inglês (1913), afirma que as variáveis distintivas de detidos e de
cidadãos comuns são o tamanho, o peso e o quociente intelectual. Já os estigmas podiam dever-se a
outros factores que não o ressurgimento de traços primitivos.

A obra de Lombroso condensa e aplica ao criminoso as ideias da psiquiatria da época, da


frenologia, da medicina legal, da antropologia, do darwinismo e da higiene pública.

O entusiasmo dos médicos pelo crime não se esgota no século XIX. Persuadidos da eficácia
da sua arte, aliam-se aos antropólogos para criarem uma zoologia do ser humano, cuja chave reside
no evolucionismo de Darwin.

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A ideia de examinar os crânios para neles descobrir os traços deixados pelas faculdades do
cérebro passa a ser moda, graças a F. J. Gall, fundador da Frenologia.

Na obra Anatomia e Fisiologia do Sistema Nervoso (1810-1819) defende que as faculdades


intelectuais e emoções ocupam um lugar determinado no cérebro, manifestando-se por depressões e
protuberâncias no invólucro craniano.

No âmbito da psiquiatria, Pinel afirma a existência da “mania sem delírios”: a perversão das
funções afectivas acompanhada por impulsos violentos sem alteração das funções do entendimento
ou da percepção.

No Tratado das Degenerescências (1857), Morel propõe-se explicar a loucura e o crime pela
degenerescência, desvio patológico relativamente ao tipo humano normal (desvio primitivo).
Os indivíduos e os seus descendentes degeneram devido a uma alimentação defeituosa, a
habitações insalubres, ao alcoolismo, à humidade excessiva.
Esta noção de atavismo surge n’ A Origem das Espécies (1857), de Darwin: toda a espécie
viva é o produto da sua evolução e espécies há cuja evolução foi interrompida.

Tal como Lombroso, Ferri estabelece muito cedo e em definitivo as suas conclusões:
- a rejeição do livre arbítrio;
- uma nova definição das funções do direito penal;
- uma nova etiologia do crime;
- uma classificação dos criminosos;
- uma teoria da prevenção fundada na noção de substitutos penais;
- e uma concepção original do sentencing.

Síntese da solução preconizada pelos positivistas:


- a política criminal deve substituir a finalidade da justiça pela da defesa da sociedade contra
criminosos praticamente incuráveis;
- o livre arbítrio e a responsabilidade moral escapam a qualquer apreciação científica;
- o princípio da legalidade assenta na concepção abstracta do delito, ignorando a perigosidade
concreta do delinquente;
- a defesa social passa pela aplicação de medidas eliminatórias, preventivas ou terapêuticas,
capazes de extinguirem ou neutralizarem a perigosidade do delinquente.

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Para Ferri, o criminoso é socialmente responsável mesmo que não seja julgado moralmente
responsável. A reacção social justifica-se simplesmente porque ele é perigoso.

O enorme determinismo que para os positivistas pesa sobre os criminosos mais perigosos não
permite ter esperança na sua correcção. Por isso preferem a neutralização sob a forma de eliminação
física, de deportação, de prisão perpétua ou de internamento em asilo por período indeterminado.

Garofalo (1905) justifica a execução capital em termos darwinistas: as sociedades eliminam


os criminosos que são incapazes de se adaptarem à vida civilizada.
Distingue duas dimensões do estado perigoso:
- a capacidade criminal (temibilidade);
- e a adaptabilidade (adaptação a um contexto social refreador das suas pulsões criminosas).

É um sofisma pretender definir o crime como uma entidade abstracta e o criminoso como uma
realidade concreta. Há uma noção abstracta de crime e de crimes concretos, tal como há uma noção
abstracta de criminoso e de criminosos de carne e osso.

Pretender que a ideia de justiça é uma abstracção metafísica ultrapassada é redutor e contrário
à evidência. Ainda hoje o sentimento de justiça está presente em todos nós.

Se qualificarmos de cientista a posição pela qual todos os problemas humanos sem excepção
podem ser resolvidos pela ciência, então o positivismo é um cientismo:
- pretende determinar toda a política criminal, mesmo nos seus fins e valores;
- despreza a reflexão filosófica sobre o justo e o injusto, sobre os direitos e as liberdades, a
responsabilidade e a culpa, o bem e o mal.

Numa democracia digna, o sistema de justiça penal protege a sociedade contra os criminosos
bem como o cidadão contra o poder do Estado. As questões de política criminal são decididas no
termo de um debate onde são ponderadas as exigências da secularização, dos direitos individuais, da
ordem pública e da justiça.

Apesar de tudo, os positivistas são os pioneiros do estudo empírico dos delinquentes.

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6. A Criminologia no século XX
No século XX, o positivismo perpetua-se na criminologia clínica bem como nos estudos sobre
as diferenças entre delinquentes e não delinquentes. Está, no entanto, sujeito a permanentes críticas
por parte dos sociólogos.

Abrem-se novos campos de investigação:


- a desviância e os crimes de colarinho branco;
- os gangs, a etiquetagem e a polícia;
- a prisão e o sentencing.

Sucedem-se as escolas e desenham-se territórios. O positivismo passa a coexistir com outras


correntes. A criminologia ganha em vitalidade e abertura, mas perde em coerência e em integração.
Torna-se um campo fechado onde se confrontam teses e paradigmas.

No século XX são distinguíveis cinco correntes incidentes sobre objectos de estudo particular:
a) A criminologia clínica e o estudo das carreiras criminais.
Propõe-se estudar o delinquente enquanto indivíduo e o desenvolvimento do comportamento
delinquente, desde a emergência até ao abandono da carreira criminal.
Na esteira dos positivistas italianos realiza o estudo clínico da personalidade dos delinquentes
e comparações sistemáticas entre delinquentes e não delinquentes.
O método empírico estuda a inclinação para o crime em grupos de delinquentes conhecidos.
Os factos observados são explicados em termos multifactoriais: psicologia, ordem familiar.

Entre 1935 e 1960, a criminologia de língua francesa é dominada por Étienne de Greeff.
Influencia J. Pinatel, C. Debuyst, A. Hesnard e M. Fréchette. Afasta-se dos positivistas, procurando
ver os delinquentes como eles se vêm a si próprios.

Pelo contacto com inúmeros homicidas estuda o processo psicológico que conduz ao crime
passional. Insiste na ideia de que o processo de passagem ao acto se desenvolve no tempo.

A sua evolução processa-se em três estádios:


- o assentimento ineficaz (ideia de que a companheira possa vir a desaparecer);
- o assentimento formulado (imposição e aceitação da possibilidade de supressão da mulher);
- a crise (iminência da decisão a favor ou contra).

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Ambivalentes, vivem num estado de tensão extrema. Dormem mal e comem mal. O contacto
com a realidade deteriora-se e sofrem. Basta um gesto menos feliz ou uma provocação por parte da
eventual vítima para que as últimas inibições caiam. O campo de consciência estreita-se e entram
num estado de transe. Atacam de modo violento e desferem repetidos golpes na companheira.

Este desenlace fatal só é possível ao cabo de um processo que tenha conduzido o homicida a
desvincular-se da mulher que diz amar e a desinteressar-se do seu próprio futuro. É o processo
suicida. Num desespero crescente, o eventual homicida perde o gosto de viver, desinveste de tudo
aquilo a que estava ligado. A ideia de acabar os seus dias na prisão deixa de lhe fazer medo.
Indiferente a tudo, torna-se capaz de tudo.

Paralelamente ao processo de reivindicação o indivíduo projecta toda a culpa na futura vítima


para depois se sentir autorizado a vingar-se: abusou da confiança; casou por interesse, humilhou-o,
traiu-o. Para se persuadir de que a mulher que pretende amar merece a morte, desvaloriza-a, cobre-a
de defeitos, reduzindo-a a uma caricatura detestável.

O homem envolvido na delinquência alimenta todo o tipo de ressentimento contra o mundo


Está convencido de ter sofrido uma longa sucessão de prejuízos imerecidos. Afirma que toda a vida
teve de lutar contra iniquidades e injustiças.

Adopta relativamente aos outros, uma atitude reivindicativa e de autojustificação que resulta
na recusa de se comprometer socialmente. Persuadido de que os seus próprios crimes são actos de
justiça, legitima-os e convence-se de que é mais justo e mais honesto do que aqueles que o julgam.

Pinatel (1963-1974) afirma que existe apenas uma diferença de grau entre delinquentes e não
delinquentes. Distinguem-se das pessoas normais em quatro dimensões:
- o egocentrismo;
- a labilidade;
- a agressividade;
e a indiferença afectiva.

Estes quatro traços têm de estar todos presentes para que um crime grave aconteça.

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O egocentrismo é a incapacidade de julgar um problema moral de um ponto de vista que não
seja estritamente pessoal e a propensão para reagir com desprezo e cólera à frustração. Permite ao
delinquente convencer-se da legitimidade do acto e ficar indiferente ao opróbrio dele decorrente.

A labilidade é uma combinação de imprevidência, desorganização no tempo e instabilidade de


carácter que impede o delinquente de ficar intimidado perante a ameaça da sanção. Deixa-se levar
pelo desejo do momento, sem ter em conta as consequências menos imediatas dos seus actos.

A agressividade é a energia que permite ao delinquente ultrapassar os obstáculos que encontra


no processo de passagem ao acto e a combatividade necessária para se lhe manter indiferente.

A indiferença afectiva consiste numa carência de emoção altruísta e simpática que torna o
delinquente insensível ao sofrimento da vítima e incapaz de sentir culpa. Pode resultar de carências
educativas ou constitucionais ou, ainda, de um processo de desinvestimento afectivo.

A teoria de Pinatel é uma análise dos traços de personalidade que distinguem os delinquentes
dos não delinquentes e uma descrição das atitudes psicologias que permitem a execução do crime
grave. Precisamente por isso, não escapa à tautologia: o que serve para explicar o crime está contido
no próprio crime.

Paralelamente à análise clínica, que tenta penetrar na subjectividade do delinquente, realizam-


se investigações quantitativas que procuram medir os traços dos delinquentes e a sua evolução:
- comparação entre delinquentes e não delinquentes numa perspectiva multifactorialista;
- factores associados à reincidência, com o objectivo de construir tabelas de predição;
- estudos diacrónicos, que seguem os sujeitos durante anos com o objectivo de conhecer o
desenvolvimento das carreiras delinquentes.

Síntese: os delinquentes persistentes têm traços de personalidade que os distinguem dos não
delinquentes. São impulsivos, agitados, extrovertidos, egocêntricos e temerários. Os distúrbios de
comportamento e a pequena delinquência se manifestam bastante cedo em rapazes, que mais tarde,
se tornam delinquentes crónicos.

Entre os 8 e os 14 anos perturbam as aulas, faltam à escola e cometem pequenos furtos. Mas
se os delinquentes crónicos no final da adolescência apresentam distúrbios de comportamento na

16
infância, a maioria das crianças dotada destes problemas não se torna delinquente. Neste sentido, o
comportamento delinquente é apenas moderadamente previsível.

As tabelas de predição permitem identificar um determinado número de futuros delinquentes


mas, ainda assim, comportam uma grande margem de indeterminação.

Durante a infância e no início da adolescência, os principais factores de risco são:


- os problemas de comportamento na escola;
- um quociente intelectual (QI) abaixo da média;
- a supervisão inadequada por parte da mãe;
- a permissividade parental;
- falhas no exercício da autoridade;
- inconstância e ausência de coesão familiar;
- hostilidade ou frieza dos pais para com a criança e pais delinquentes.

No final da adolescência e no início da idade adulta, os indicadores base da reincidência são:


- o número de delitos anteriore;
- a precocidade da delinquência;
- a instabilidade no trabalho;
- o alcoolismo;
- e a toxicomania.

b) A tradição durkheimiana.
Na esteira do pensamento de Durkheim, alguns sociólogos conceberam a criminalidade como
consequência de uma falha da organização social:
- ruptura do laço social;
- erosão da força coerciva das normas sociais;
- indisponibilidade de meios para realizar os fins propostos pela sociedade.

Durkheim contribui para a clarificação da noção de crime e a reflexão sobre a normalidade do


crime. Exerce também influência indirecta na criminologia através dos trabalhos sobre o suicídio.

Numa obra publicada em 1897, Durkheim distingue quatro tipos de suicídio:


- egoísta quando se deve a deficiente integração na sociedade;
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- anómico se resultar do enfraquecimento das regulações normativas;
- altruísta quando a sociedade exerce uma pressão sufocante sobre o indivíduo, levando-o à
renúncia suprema;
- fatalista, decorrente de um estado em que o indivíduo perde a esperança (escravatura).

A noção de suicídio egoísta pretende explicar actos importantes revelados pelas estatísticas
europeias. As taxas de suicídio são:
- mais elevadas nos protestantes do que nos católicos ou nos judeus;
- mais elevadas nos celibatários do que nos casados com filhos;
- mais elevadas em tempo de paz do que em períodos de guerra ou de revolução.

Pontos comuns entre o celibato, a paz e o protestantismo:


- o exame de consciência e os rituais pouco envolventes da religião protestante favorecem o
individualismo;
- os celibatários não fazem parte integrante de uma sociedade familiar ou, pelo menos, não do
mesmo modo que as pessoas casadas;
- as guerras e as revoluções mobilizam os cidadãos, que devem, por força dos acontecimentos,
participar intensamente na vida política.

Os membros de um grupo insuficientemente integrado escapam à sua influência e apenas se


guiam por interesses privados.

A intuição durkheimiana revela a intimidade da relação que une o comportamento desviante


ao desenraizamento. O indivíduo pouco integrado socialmente está sujeito à desviância.

A teoria do laço de Hirschi (1969) inscreve-se plenamente nesta tradição:


- os seres humanos são naturalmente inclinados a enveredar pelo delito para satisfazerem os
seus desejos, a menos que sejam impedidos pela pressão social;
- a pressão social só produz efeito se o indivíduo estiver vinculado ao seu grupo social.

É o que acontece na delinquência juvenil, explicada pelo enfraquecimento do laço que deveria
unir o adolescente à sociedade. As componentes deste laço seriam:
- uma vinculação a outrem que motive o indivíduo a ter em conta as suas expectativas;
- o envolvimento do adolescente num projecto académico ou profissional que lhe dê motivos
para evitar as faltas que poderiam comprometer a sua realização;
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- a implicação em actividades que lhe deixem pouco tempo para a ociosidade;
- a crença, isto é, a convicção de que as leis devem ser respeitadas.

Correlação entre os indicadores da desorganização social e a criminalidade:


- percentagem de famílias monoparentais;
- instabilidade residencial;
- anonimato
- e subdesenvolvimento de amigos e da vida associativa.

A anomia é utilizada por Durkheim para explicar outra série de factos relativos ao suicídio:
- o número de mortes voluntárias aumenta em fases de mudança económica brusca (períodos
de crescimento rápido e fases de recessão);
- é relativamente elevado no mundo do comércio e indústria e entre os divorciados e viúvos;
- a instabilidade económica ou familiar produz anomia, isto é, as normas sociais perdem o seu
poder de coerção.

Contrariamente às necessidades físicas que são reguladas pelo organismo, os desejos sociais
não conhecem limite natural. Têm de ser refreados pela sociedade, para não se tornarem insaciáveis.
Esta regulação social das aspirações só ocorre se existir um mínimo de estabilidade social.

Num artigo célebre, Estrutura Social e Anomia (1938), Merton retoma a noção de anomia,
mas fá-la evoluir num sentido muito diferente do conferido por Durkheim.

Segundo Merton, os homens tendem à realização dos objectivos que a sociedade estabelece.

Nos EUA, esses objectivos são aceites pela maioria e a sociedade exerce intensa pressão para
que sejam atingidos a qualquer preço. São definidos em termos monetários, constituindo o dinheiro
a medida do sucesso social. Só os fins da competição contam. Todos os meios são bons.

Definição de anomia: sobreinvestimento no sucesso em detrimento do respeito pelas normas.


Os indivíduos podem adaptar-se a esta primazia conferida aos fins relativamente às regras:
- através do conformismo;
- através do ritualismo;
- através da evasão;
- através da rebelião;
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- através da inovação.

Esta última conduz facilmente à desviância. O inovador adere em absoluto aos objectivos
sociais do sucesso e decide atingi-los custe o que custar. As normas, nas quais a sociedade não
insiste, são por ele ignoradas. A inovação pode tomar a forma da fraude, desvio de fundos, furto.

Para Merton, esta solução é frequente nos estratos sociais mais baixos, onde as pressões para
o desvio são mais fortes.

Em Delinquência e Oportunidade (1960), Cloward e Ohlin aplicam a análise de Merton à


delinquência juvenil.

Os jovens de meios operários assimilam os objectivos de sucesso socialmente propostos sem


possuírem meios legítimos para os concretizarem. Experimentam stress, frustração e sentimento de
injustiça. A delinquência surge, então, como um recurso, para alguns, uma vez que as oportunidades
ilegítimas são, também elas, limitadas.

A tese de Merton, Cloward e Ohlin esbarra com um facto demonstrado: os delinquentes têm
aspirações menos elevadas do que as dos pares não delinquentes.

A delinquência juvenil banal revela-se uma actividade gratuita, lúdica e hedonista. Constitui,
antes, um meio fácil e expedido de satisfazer o desejo imediato, de proporcionar o prazer associado
a sensações fortes, de jogar com o perigo, de reagir a um ataque ou de vingar uma ofensa.

c) Os conflitos de cultura.
Sob a influência do culturalismo, o crime é tido como comportamento normativo, aprendido e
transmitido aos jovens. Examina ainda a influência exercida pelo grupo delinquente nos membros.

Os grupos sociais são positivamente criminógenos ao difundirem o exemplo do crime e ao


transmitirem norma subculturais.

Este modo de pensar tem em Gabriel Tarde um precursor. Legou-nos também estudos finos e
lúcidos sobre uma grande diversidade de temas, nomeadamente sobre a responsabilidade, a pena, a
evolução da criminalidade e sobre o duelo.

20
Mas é sobretudo conhecido pela teoria da imitação. A imitação-moda consiste na propagação
de novos modelos de comportamento a partir de um primeiro exemplo de que todos falam. É o caso
da vendetta na Córsega. O mimetismo explica, pois, a similitude dos procedimentos empregues
pelos malfeitores de uma mesma região e de uma mesma época.

Em Paris, em 1875, a viúva Gras lançou vitríolo (ácido sulfúrico) ao rosto do volúvel amante.
Os jornais fizeram grande alarido em torno do caso, verificando-se, em seguida, uma série de casos
de mulheres que vitriolizaram o marido ou o amante.

A imitação difunde-se do superior ao inferior, e o exemplo de um homem irradia à sua volta


com uma intensidade que diminui à medida que aumenta a distância física e psicológica em relação
àqueles em que toca. Assim se explica a criminalidade, na sua evolução, nos seus procedimentos, na
sua cor local e na sua distribuição geográfica.

Meio século depois, o americano Sutherland defende, em termos diferentes, uma tese que faz
lembrar a de Tarde.

A sua teoria da associação diferencial advoga que o comportamento criminal é aprendido


através de trocas interpessoais que permitem ao indivíduo adquirir técnicas de execução dos delitos,
atitudes, racionalizações e motivações.

Os mecanismos de aprendizagem criminal são comuns a qualquer processo de aprendizagem.


O comportamento criminal não pode ser explicado pelas necessidades que satisfaz, uma vez que
qualquer comportamento visa a satisfação de necessidades semelhantes.

Síntese: o crime constitui o efeito mecânico de um excesso de interpretação desfavorável do


respeito devido à lei face à interpretação favorável.
Como medir todas as interpretações desta teoria e determinar o seu peso relativo?
Nos anos 30 e 40, o culturalismo afirma-se na antropologia americana com Linton e Boas.

Qualquer cultura comporta um conjunto coerente de normas e valores que modela não só a
personalidade como orienta os comportamentos.

Explicação da criminalidade por Sellin: a cultura de um grupo particular impele ao crime


quando autoriza ou, pior, quando prescreve um acto de violência interdito pela lei nacional.
21
O crime resultaria de um conflito cultural, ou seja, da oposição entre as prescrições legais de
um Estado e as normas particulares de um grupo nele inserido. Em situação de conflito cultural, a
mera obediência à norma subcultural traduz-se em infracção.

Este tipo de conflito produz híbridos culturais que interiorizaram duas séries normativas
contraditórias. A confusão pode levá-los ao crime.

Wolfgang e Ferracuti, discípulos de Sellin, consagram uma obra às subculturas da violência.


Szabo propõe-se explicar as variações internacionais da criminalidade pela integração cultural de
cada tipo de sociedade.

Numa sociedade integrada há uma grande convergência entre os valores morais, os costumes
e a lei. Em sociedades não integradas, as subculturas e as contraculturas legitimam condutas opostas
aos valores comuns à sociedade global. As leis e sanções são entendidas por certos grupos como
instrumentos de opressão. Entre umas e outras, encontram-se as sociedades parcialmente integradas.

Gassin explica a criminalidade actual pela erosão do consenso que outrora existia em torno
dos valores essenciais. Sob o efeito da fragmentação dos valores éticos, a lei penal e os interditos
perderam significado, tornando ineficazes as medidas de controlo social e desregulando os sistemas
de política criminal.

O culturalismo dá-se mal com o facto de as regras morais que sustentam as proibições centrais
dos códigos penais não variarem nem de sociedade para sociedade, nem de grupo social para grupo
social. O furto e o homicídio são objecto de censura onde quer que seja.

As teorias culturais repousam sobre o postulado de que os seres humanos são conformistas.
Os delitos que praticam constituíram gestos conformes a normas sociais distintas daquelas pelas
quais são julgados. Ora, estes seres humanos hipersocializados e à mercê das pressões sociais são
bastantes improváveis. Estão muito longe dos homens que observamos quotidianamente.

A cultura da Córsega, Sardenha ou Cabília encorajava a vindicta. Mesmo assim, a explicação


culturalista é algo simplista. Se esta prática floresceu nessas regiões foi também porque ela parecia
constituir a solução menos má para dissuadir as famílias rivais de se atacarem mutuamente.

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Se os únicos factos que apoiam as teses miméticas ou culturalistas são casos de difusão de
crimes semelhantes, não escapamos à tautologia: a imitação não é medida independentemente das
condutas ditas imitativas, e as subculturas são inferidas dos próprios comportamentos desviantes
que pretendemos explicar. Estamos, assim, em presença de proposições verdadeiras por definição.

Uma cultura (ou subcultura) é feita de um conjunto de elementos organicamente interligados.


A violência pode fazer parte integrante dessa totalidade.

d) A reacção social à desviância.


Um crime é crime pelo facto de ser sancionado pelo direito penal. Justifica a transformação da
reacção social em objecto de estudo, tanto mais que a estigmatização é susceptível de produzir um
efeito de amplificação da desviância.

Durante os anos 60 e 70, a sociologia da reacção social à desviância afirma-se e exerce uma
efectiva influência na criminologia. Este paradigma é conhecido sob, pelo menos, dez designações:
- interaccionismo;
- sociologia da desviância;
- teoria da etiquetagem;
- criminologia crítica;
- criminologia radical;
- sociologia penal;
- abolicismo;
- nova criminologia;
- pós-modernismo
- construtivismo.

Os autores que se inscrevem nesta corrente lembram que a existência de um crime se deve à
existência de uma lei. O processo de definição social da desviância é crucial. Determinados actos
são considerados criminosos por alguns, enquanto para outros são toleráveis.

Estas teorias têm um objecto bastante diferente do da criminologia tradicional. A sua variável
dependente deixa de ser o crime ou o criminoso e passa a ser a reacção social à desviância.

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Antes os criminólogos escreviam abundantemente sobre as leis penais, sobre as prisões, sobre
as medidas penais e a sua eficácia e sobre a prevenção. Mas tratavam estas matérias como variáveis
independentes ao pretenderem saber se as leis e as medidas penais produzem o efeito desejado.

O olhar dos interaccionistas sobre a reacção social é completamente diferente. Interessam-se


pela reacção social em si mesma e têm sobre ela uma perspectiva mais crítica. Vêem no sistema de
política criminal um vasto aparelho de produção de crimes e de etiquetagem de pobres miseráveis.
Esse aparelho é controlado pelos ricos e poderosos, que o colocam ao serviço dos seus interesses.

Estamos assim na presença de uma criminologia crítica que recusa a legitimidade do direito
penal. Os construtivistas e abolicionistas afirmam que o problema reside no próprio sistema penal.
Vêem-no como máquina inútil, geradora de sofrimento, de desigualdades, de exclusão. Propõem-se
desmistificar a própria noção de crime, concebida como um instrumento de dominação de classe.

Das suas obras emergem três temas especiais:


- a desviância é uma construção social;
- a criminalização é uma arma na mão dos poderosos;
- a estigmatização amplifica a desviância.

O que designamos por crime é um mero produto da reacção social. Qualquer acto pode ser
desviante. Basta que uma regra o proíba e que, por via disso, seja sancionado. Um criminoso não é
mais do que alguém que foi classificado como tal.

O crime explica-se pelas definições sociais que lhe conferem existência. O olhar que distingue
o crime do não-crime é arbitrário e discriminatório. Por ser arbitrário, a desviância é relativa. O
crime universal não existe porque não há consenso sobre os valores, e porque a criminalização é um
meio de defender interesses sectoriais. Para os construtivistas, as culturas são relativas.
Vold, Turk, Quinney e Foucault denunciam a ilusão que consiste em pensar que o direito, a
polícia e os tribunais estão ao serviço do bem comum. Vêem estes dispositivos como instrumentos
utilizados pelas classes dominantes para fazerem prevalecer a sua concepção particular de bem e de
mal e para dominarem os seus adversários.

Os pobres e os desfavorecidos são mais vezes importunados, condenados e encarcerados do


que os ricos, desde logo porque os seus costumes são frequentemente mais criminalizados e, depois,
porque são tratados com maior severidade pela polícia e pelos tribunais.
24
A estigmatização é o processo pelo qual a sociedade atribui a alguém a etiqueta de desviante,
processo esse que conduz à exclusão, à interiorização de uma identidade negativa e à multiplicação
da desviância.

Segundo Tannenbaum, o comportamento de um jovem delinquente não tem nada de especial:


Age pelo prazer do jogo e pelo gosto de aventura. Infelizmente, muitos adultos consideram nocivos
estes comportamentos. Acabam, depois, por condenar não só o acto mas o actor, cujas faltas são
hipervalorizadas. Produzem, assim, desviantes estigmatizados (etiquetados e excluídos), obrigados
a criar soluções que lhes permitam, de algum modo, sobreviver à rejeição.

Lemert criou o termo “desviante secundário” para designar aquele que tem de viver com a
estigmatização. Tendo perdido o seu trabalho e vendo que todas as portas lhe são fechadas, será
impelido ao roubo. Não podendo suportar o desprezo e a hostilidade que marcam as suas relações
com os conformistas, preferirá a companhia de outros desviantes.

A estigmatização pode, deste modo, conduzir ao agrupamento de desviantes. Em certos casos,


formar-se-ão subculturas, isto é, grupos dotados de sistema normativo próprio, nos quais se valoriza
o que a maioria reprova.

O processo de etiquetagem convence-o de que o seu destino é tornar-se naquilo que os outros
vêem nele, isto é, no malfeitor que merece castigo. O processo de etiquetagem devolve, assim, ao
desviante uma imagem de si mesmo negativa e sem esperança.

As teses construtivistas encerram uma parte de verdade. As práticas passíveis de contestação


dos miseráveis e minorias são mais facilmente proibidas e punidas do que as dos ricos e poderosos.
Que a pena estigmatiza é um facto. Mas será possível evitá-lo? Condenar é reprovar um acto,
e a condenação deste atinge inevitavelmente o seu autor. E o deslizar do condenado para uma
condição permanente de marginalização pode sempre acontecer. Dito isto, consideramos que o
valor da estigmatização na explicação da reincidência é frágil.

Que pensar da proposição segundo o qual o crime é uma construção sociojurídica? Das duas
uma: ou significa que o crime é um acto julgado como tal e estamos perante um truísmo, ou, então,
que os juízos que presidem à construção do crime são artificiais e não fundados e, então, é apenas
uma meia verdade.

25
Esta última ideia é aceitável quando estão em causa actos como aborto, a itinerância, a posse
de droga, a eutanásia, a prostituição ou a pornografia, uma vez que a natureza criminal é polémica.

Mas a proposição construtivista já soa a falso quando pretendemos aplicá-la ao homicídio, à


violação ou ao furto. O consenso sobre o carácter censurável destes actos é muito grande.

Demonstrou-se por diversas vezes que as decisões penais são principalmente determinadas
pela gravidade do delito e pelo peso dos antecedentes criminais. O peso estatístico relativo da classe
social, da raça e do sexo é negligenciável. O valor explicativo da hipótese da discriminação é, por
isso, reduzido.

Os abolicionistas partem de uma premissa. Dão como adquirido que a eficácia do sistema
penal é quase nula e que, em contrapartida, os seus efeitos negativos são consideráveis. Deixam
entender que a abolição das prisões, polícia, tribunais e da noção de crime teria efeitos globalmente
benéficos, e que a impunidade resultante não encorajaria o cometimento de mais crimes.

Ignora uma evidência: se os delinquentes que acumulam actos violentos num passado recente
são deixados em liberdade, o cometimento de novos crimes, além de ser bastante provável, seria
escandaloso, já que poderia ter sido prevenido.

Como todas as utopias, é cega face às lições da história.

e) A criminologia do acto e a escolha racional.


A atenção recai sobre o delito enquanto acto em situação e resultado de escolhas e estratégias.
Apesar das divergências, os criminólogos clínicos, os durkheimianos e os culturalistas têm um
ponto em comum: todos procuram a chave da tendência para a delinquência:
- os primeiros, no desenvolvimento da personalidade;
- os segundos, na anomia e na ruptura do laço social;
- e os últimos, nos valores subculturais.

Mas se a presença de um delinquente motivado é uma condição necessária ao delito, ela não é
suficiente. A fixação exclusiva no delinquente, herdada dos positivistas, fazia esquecer que o acto
criminal não depende apenas dele mas também de condições extrínsecas a que tem de se adaptar.

Na obra Criminologia, de Gassin, encontramos os elementos de uma teoria do acto criminal:


26
- faz uma síntese dos contributos europeus e americanos, nunca antes conjugados;
- afirma que o acto grave resulta de um processo inscrito no tempo e da noção de sentimento
de injustiça sofrida;
- precisa a noção de situação pré-criminal;
- afirma que o acto delituoso se desenvolve ao longo de uma série de etapas sucessivas, que
conduzem o actor a fazer uma escolha que não é inteiramente predeterminada.

Inspira-se na praxiologia de Von Mises, de Moles e Rohmer. Assenta em quatro proposições:


1 – A acção criminal constitui uma resposta de uma personalidade a uma situação. Define
nestes termos a noção de situação pré-criminal. Distingue dois aspectos: o acontecimento (ou a série
de acontecimentos) que faz surgir o projecto criminal no espírito do delinquente; as circunstâncias
ligadas à preparação e à execução do projecto criminal, tornando-o possível e determinando as
modalidades da sua concretização.

2 – O acto criminal é sobretudo o produto de um processo de interacção entre um autor e uma


situação, que se desenrola no tempo, ao longo de uma sucessão de etapas. Em cada uma, o actor é
confrontado com decisões cujo resultado não é totalmente previsível. O desenvolvimento do acto
pode ser alterado em resposta a modificações operadas na situação ou no actor. Muitas vezes, a
situação influencia retroactivamente as decisões do actor. A indeterminação deve-se ao processo
mas também ao delinquente, pois não é completamente livre nem completamente determinado.

3 – Nos indivíduos ainda não envolvidos num estilo de vida anti-social, a passagem ao acto
exige uma libertação prévia face às determinações que inibem os seres dotados de um mínimo de
sentido moral. Para se defender do sentimento de culpa, o criminoso alimenta o sentimento de que
foi vítima de grandes injustiças, o que serve de justificação e desculpa na passagem ao acto.

4 – Os actos delituosos distinguem-se das acções humanas não delinquentes. Estas últimas são
coerentes, no sentido de que a utilidade esperada é superior ao custo que envolve. Em contrapartida,
entre os actos delituosos, encontramos inúmeras condutas de risco e comportamentos marcados pela
incerteza (deixar-se ir ao sabor dos acontecimentos, abandonar-se à sorte).

7. O Crime e a Criminologia.
O crime impõe a todos os espíritos a sua incómoda presença. O sistema erigido contra esta
ameaça, por sua vez, não é mais discreto. As prisões, os tribunais, os serviços de polícia e segurança
dificilmente passam despercebidos.
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A razão de ser da criminologia é tornar inteligíveis tanto estes comportamentos como estas
instituições tal como descrever, compreender e explicar de que é feito o fenómeno criminal.

Os nossos contemporâneos não podem iludir as questões colocadas pelo crime, tanto mais que
ele parece fazer parte integrante da modernidade. O elevado número de furtos, de roubos e de casos
de tráfico de drogas, que afecta os grandes países ocidentais, está intimamente ligado à abundância
de bens, ao anonimato das cidades, à livre circulação de bens e de pessoas e à própria liberdade.

O problema criminal contemporâneo está demasiado imbricado na trama da vida quotidiana


para poder ser combatido através de meios simples, brutais e expeditos. Para o conter sem atentar
contra os nossos valores é preciso estudá-lo e conhecê-lo, evitando desvalorizá-lo ou dramatizá-lo.
É para responder a esta necessidade de análise e de conhecimento que a criminologia existe.

8. A Noção de Crime.
Os criminólogos não estão sujeitos às limitações de vocabulário que pesam sobre os juristas,
utilizando mais ou menos indistintamente os termos crime, delito, delinquência e infracção, embora
prefiram o primeiro para designar os factos graves.

Apesar disto, não têm todos a mesma perspectiva sobre a noção:


- uns, adoptando o olhar do sociólogo, vêem-na como um subconjunto de desviância;
- uns fundam a sua análise na definição jurídica de infracção.
- uns, insatisfeitos com o relativismo destas soluções, crêem encontrar nos factos sociais uma
noção de crime fundada na razão e na justiça.

Todas as sociedades e grupos humanos dotados de certa permanência criam as suas próprias
normas: regras de conduta cuja transgressão é passível de sanção. Como exemplo maior temos as
regras de boa educação
.
O conteúdo das normas sociais tem tendência para variar segundo os países e as épocas.
A desviância consiste na transgressão de uma norma social. O sujeito que adopta de modo
prolongado uma conduta desviante tende a ser, ou a tornar-se, um marginal: ou está mal integrado
no grupo de que faz parte, o que o torna insensível à reprovação, ou é lançado para as margens do
grupo devido às suas repetidas transgressões.

28
Os sociólogos realizam estudos sobre diversas formas de desvio: o suicídio, o consumo de
droga, a feitiçaria e as doenças mentais. Insistem na ideia de que os grupos sociais criam desviância
ao produzirem e aplicarem as normas. Desenvolvem as noções de estigmatização ou de etiquetagem
para descrever o processo onde o sujeito é definido e marcado como desviante e excluído do grupo.

A delinquência, nas suas diversas manifestações, constitui uma forma de desviância pois faz
parte dos actos que transgridem as normas e que são sancionados.

Lições decorrentes das noções sociológicas de norma e de desviância:


- cada sociedade confere a si mesma as normas que correspondem aos seus valores ou aos
interesses do seu grupo dominante.
- a definição social de desviância é relativa;
- as normas e as sanções fazem parte integrante da vida social de onde emergem, muitas vezes
à margem de qualquer legislador;
- os actores sociais cuja relação tenha uma base estável obrigam-se mutuamente e sancionam-
se em caso de transgressão.
- nos seres humanos, a normatividade da vida social preexiste às normas legais.
- o legislador, conforme a situação, pode lançar mão das normas abundantemente produzidas
no processo de interacção social.

Noção jurídica de infracção: “Designamos por crime todo o acto punido e fazemos do crime
assim definido o objecto de uma ciência especial, a criminologia”,

Noção jurídica de crime: “todo o acto previsto como tal pela lei, dando lugar à aplicação de
uma pena por parte da autoridade superior”.

Estas definições oferecem um critério operacional bem trabalhado por gerações de juristas. A
pena prevista e, sobretudo, a pena efectivamente aplicada é um facto social (e não apenas jurídico)
dotado de uma objectividade indiscutível. As leis que criam os crimes não escapam às suspeitas que
pesam sobre toda e qualquer forma de poder.

A par da criminalização de actos cujo carácter criminal é pouco contestado, como a violação,
o banditismo e o homicídio, outros há que suscitam fortes dúvidas.

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Gassin esforça-se por distinguir na acção criminal uma especificidade que não reside apenas
no texto da lei mas também em proibições com valor universal.

Afirma que o direito das incriminações resulta na produção de crimes artificiais mas também
pode ter origem num dado normativo preexistente na consciência comum.

Cabe ao legislador, então, dar forma a essas representações e codificá-las.

Entre essas representações surgem os valores-fins e os valores-meios. Os primeiros variam de


época para época e de país para país. Os segundos são mais importantes para o direito penal, visto
alguns deles serem protegidos por proibições universais.

A sociedade humana considera ilegais duas categorias de meios que os indivíduos utilizam
para atingir os seus fins: a violência e a astúcia. A violência compreende actos como o homicídio,
as ofensas à integridade física e os atentados contra a vida por imprudência. A astúcia, que não deve
ser confundida com a habilidade, traduz-se na fraude, na burla e no furto.

Os autores de tais actos obtêm vantagem às custas dos outros e contra a vontade deles, através
da mentira, de subterfúgios ou agindo de modo dissimulado.

A par das incriminações naturais da violência e da astúcia, encontramos os delitos artificiais,


cujo princípio de incriminação procede de uma ideologia totalitária, de uma confusão entre política
e religião ou de qualquer outra aberração. É o caso da blasfémia.

A ideia de que um direito penal bem estabelecido exprime e codifica normas preexistentes
fundadas em justiça nada tem de extraordinário. Os inquéritos sobre a percepção da gravidade das
infracções lançam uma luz inesperada sobre a noção comum de crime e as razões da sua existência.

Em 1964, Sellin e Wolfgang ofereciam à comunidade científica um novo instrumento para


medir o modo como a gravidade dos delitos é percepcionada pela população.

Trata-se de um questionário que contém uma longa lista de descrições curtas, mas precisas, de
infracções. Os inquiridos tinham de comparar a gravidade do enunciado apresentado com a de um
enunciado base e tinham de dizer quantas vezes ele é mais ou menos grave.

30
O interesse deste método reside no facto de ele nos permitir apreender indirectamente a noção
de crime, tal como é pensada pela consciência colectiva. A gravidade indica em que medida um
acto é considerado censurável e, portanto, em que medida é percepcionado como criminoso.

Destes inquéritos emerge um facto determinante: o notável consenso dos inquiridos acerca da
ordem de gravidade das infracções.

A análise do grau de gravidade revela seis critérios implícitos de ordenação:


- a intensidade das ofensas à integridade física;
- os perigos a que o acto expõe os outros;
- a violência dos meios;
- a importância das perdas pecuniárias;
- a vulnerabilidade relativa da vítima;
- o dolo.

Conclusões da aplicação dos inquéritos:


- em primeiro lugar, quanto mais um acto ameaça a segurança interna de uma comunidade,
maior a probabilidade de ser percepcionado como grave e menor a dúvida de que constitua crime;
- em segundo lugar, as ofensas flagrantes ao justo equilíbrio das relações sociais tendem a ser
assimiladas a crimes;
- em terceiro lugar, os combates leais e equilibrados são considerados menos graves, menos
criminosos do que a agressão contra uma vítima em posição de inferioridade.

A noção de crime subentende, pois, um desequilíbrio evidente entre agressor e vítima.

Síntese: a criminalização dos furtos, dos roubos, das fraudes, das agressões unilaterais e dos
homicídios contribui para a solução de dois grandes problemas sociais: o desequilíbrio injusto das
relações sociais e o medo do outro.

As noções de crime e de gravidade preenchem duas funções: a segurança interna e um justo


equilíbrio das relações interpessoais.

9. O Método da Criminologia.
Se a criminologia se definisse só pelo seu objecto, seria difícil distingui-la do direito penal.
No entanto, ela caracteriza-se também sua ambição científica.
31
Os criminólogos dizem-se empiristas e reivindicam-no ao cultivarem um saber fundado na
observação e na experimentação.

O empirismo encarna no método científico, entendido enquanto processo explícito e ordenado


de verificação de hipóteses. Impõe objectividade, quer no procedimento, quer nas conclusões.

A investigação empírica mantém um diálogo constante com o trabalho teórico, que interpreta
os seus resultados e os integra um todo coerente.

Uma teoria pode ser definida como sistema de proposições verificáveis, não contraditórias e
compatíveis com os conhecimentos já adquiridos.

A criminologia contemporânea engloba uma diversidade de teorias, procurando cada uma


delas conhecer um dado aspecto do fenómeno criminal.

Distinção entre criminologia e direito penal:


- este pretende ordenar a realidade;
- este interpreta as leis e a jurisprudência;
- este visa punir os delinquentes, fazer justiça às vítimas, e determinar sempre a conduta dos
magistrados e da polícia;

- aquela pretende conhecê-la;


- aquela observa e experimenta.
- aquela descreve e explicar os comportamentos destes actores sociais;
- aquela procura medir os efeitos das políticas concebidas para fazer face ao crime.

O trabalho de investigação do criminólogo não difere do trabalho dos outros investigadores


das ciências humanas (psicólogos, sociólogos, etnólogos ou economistas).

Não despreza nenhum instrumento das ciências sociais: questionário, inquérito, entrevista,
observação participante, exame clínico, análise de estatísticas administrativas, etc.
Todavia desenvolveram os seus próprios instrumentos de trabalho:
- inquéritos sobre a gravidade das infracções;
- inquéritos de vitimação;
- inquéritos sobre o sentimento de insegurança;
32
- inquéritos de delinquência auto-revelada.

As confissões e as motivações dos delinquentes são também objecto de recolha por parte dos
clínicos, polícias, jornalistas e biógrafos.

As descrições clínicas, os relatórios de inquéritos, os artigos e livros que daí resultam são, por
sua vez, objecto de análise e de interpretação por parte dos criminólogos.

As fontes administrativas e judiciárias são também analisadas pelos investigadores,

10. O Fenómeno Criminal.


O crime está no coração da criminologia. No entanto, o seu papel só pode ser compreendido
no contexto do organismo de que faz parte. O fenómeno criminal é esse conjunto.

Leauté concebe o fenómeno criminal como um processo em três etapas:


- as normas penais são estabelecidas;
- as normas penais são violadas;
- origina uma reacção social repressiva.

Podemos representá-lo como um drama a três personagens:


- o delinquente,
- a vítima
- o agente de controlo social

Podemos ainda representá-lo em três actos:


- a prevenção;
- a passagem ao acto;
- a resposta penal.

Nos tráficos, como no tráfico de droga, não há vítima no verdadeiro sentido da palavra.
Ao longo do drama, cada personagem replica às outras, num jogo de influências recíprocas.
Cada um desenvolve estratégias para neutralizar, dissuadir, persuadir ou utilizar os outros. Destas
influências entrecruzadas resulta uma dialéctica que determina o desenrolar e o desfecho do drama.

33
As fragilidades da prevenção permitem crimes cujos autores são objecto de repressão. Os
elementos constitutivos do fenómeno criminal estão ligados entre si por relações de dependência
mútua porque os seus actores são seres racionais que se adaptam e que se ajustam uns aos outros.

Desta causalidade circular resulta um todo que constitui um sistema: se uma parte do todo
mudar, o resto tenderá também a mudar.

A criminologia actual dedica-se cada vez mais ao estudo desta dialéctica:


- procura agora revelar a lógica interna do fenómeno criminal;
- concentra a sua atenção sobre a natureza íntima do fenómeno e a sua causalidade intrínseca.

11. O Delinquente.
Quem é o delinquente?
Respostas de inspiração positivista:
- Segundo a teoria da personalidade criminal, os criminosos típicos distinguem-se das pessoas
normais por um conjunto de traços que explica a tendência para o crime: incapacidade de controlo,
insensibilidade, egocentrismo, irresponsabilidade, fixação ao momento presente, reincidência;
- A teoria da personalidade criminal não tem muito a dizer sobre a delinquência ocasional da
maioria, sobre as flutuações do crime em função da idade, sobre a distribuição em função do sexo;
- A noção de estilo de vida delinquente pode ser entendida numa acepção particular (descrição
precisa de um meio criminal situado no tempo e no espaço) e numa acepção geral (uso de uma série
de monografias semelhantes para estabelecer traços comuns aos modos de vida dos delinquentes).

Em Montmartre do Prazer e do Crime, Louis Chevalier pinta um retrato detalhado e colorido


da vida dos membros do Milieu e dos seus clientes em Montmartre, desde a Comuna de Paris até ao
início da II Guerra Mundial.

O historiador faz reviver o mundo das prostitutas, dançarinas, proxenetas, homens elegantes,
burgueses, artistas, anarquistas, assaltantes e assassinos, coexistentes num deboche de espectáculos,
de prazeres, de gatunice e de violência.

O Montmartre do prazer desperta à hora em que as pessoas decentes se preparam para dormir,
adormecendo pouco antes de estas acordarem. Os seus lugares de eleição são os bailes, as salas de
espectáculo, os bares, os restaurantes nocturnos e os hotéis situados nas redondezas das avenidas de
Rochechouard, de Clichy e da Chapelle e nas praças Blanche e Pigalle.
34
O seu carácter particular perpetuou-se muito tempo porque o Milieu soube comercializar o
prazer e em Paris nunca faltou a procura de gozo, de festa, de atordoamento e de embriaguez.

O Montmartre do crime revela o proxenetismo bem como uma espantosa variedade de furtos,
de burlas e de violências que podem ir até ao homicídio. Os assaltos, os roubos de jóias, e outras
gatunices são frequentes, até porque há que financiar uma vida proibitiva.

Os germes desta maneira de estar são observáveis desde cedo nos jovens delinquentes. Esta
caracteriza-se pela aceitação consciente de um modo de estar que a lei reprime e pela quebra de
qualquer vínculo interpessoal que ponha em perigo o envolvimento na actividade delinquente.

O prazer em que Chevalier insiste não se limita ao gozo sexual e não se reduz ao hedonismo.
Juntam-se-lhe a embriaguez alcoólica, a euforia proporcionada pela cannabis ou pela cocaína e a
vertigem da dança. A própria actividade criminal constitui um meio de experimentar tais emoções.

Apesar de ser mais ou menos capaz de se proteger do exterior, o Milieu permanece vulnerável
internamente, pois os seus membros estabelecem entre si relações pautadas pela competição, pelo
conflito e, frequentemente, pela violência.

A noção de estilo de vida delinquente ajuda a compreender a frequência e a diversidade dos


crimes cometidos pelos delinquentes crónicos: para manter esse tipo de vida dispendioso e festivo, é
necessário roubar muito e traficar sem cessar.

Os trabalhos de Quimet e Le Blanc e de Sampson e Laub vão no mesmo sentido: na maioria


dos casos, a actividade delituosa é transitória. Inicia-se na adolescência e termina quando os adultos
se integram no mercado de trabalho e constituem família. Depois, existem aqueles que persistem
num estilo de vida criminal, não conseguindo integrar-se no mercado de trabalho nem estabelecer
uma relação estável e satisfatória com uma mulher. Esta fase eterniza-se.

Os adeptos do estilo de vida delinquente apresentam um funcionamento cognitivo marcado


por lacunas: incapacidade para resolver problemas abstractos, elaborar e implementar estratégias a
longo termo, harmonizar a acção com o pensamento e considerar o ponto de vista do outro.

35
Pinatel, Gottfredson e Hirschi, Wilson e Herrnestein insistem no presentismo do delinquente
típico. Não é capaz de guardar o passado na memória, nem tomar em consideração o futuro. O seu
horizonte temporal está desesperadamente bloqueado.

O aumento do tempo entre acção e o resultado desmotiva mais intensamente o delinquente do


que o não-delinquente. Ora, na maioria dos delitos comuns, o tempo entre a passagem ao acto e o
benefício é quase nulo. Pura e simplesmente não se imagina na prisão.

O delinquente habitual diz uma coisa e faz outra. Age tão impulsivamente que o observador
fica com a impressão de que o gesto precede o pensamento. Quando se encontra sob stress ou se
sente frustrado perde o controlo e pratica actos de que depois se arrepende. Só raramente planeia as
suas acções. Os dissabores passados não o impedem de repetir os mesmos erros.

As carências cognitivas têm quase sempre origem em graves lacunas educativas. A vigilância
parental é gravemente lacunar. São indiferentes, desatentos e negligentes. Os pais não se ocupam da
criança ou alternam imprevisivelmente entre o excesso de clemência e a severidade. A criança é
rejeitada pelos pais. Ela própria está pouco vinculada aos pais. Esta não-educação resulta, por sua
vez, de graves perturbações da família ou dos pais: alcoolismo, criminalidade ou ausência do pai.

Segundo Peterson e Hirschi, para os filhos terem um bom comportamento, os pais devem:
- estar atentos ao que lhe acontece e aos seus comportamentos;
- perceber os actos repreensíveis dos filhos e reconhecê-los pelo que eles são;
- punir os actos desviantes.

Pelo menos uma destas condições está ausente em pais de delinquentes reincidentes. Ainda
que reconheçam as falhas dos filhos, agem negligentemente ou não ousam sancioná-las.

12. O Meio Delinquente.


O crime desenvolve-se num meio social fluido que contribui para o carácter virulento e para a
sua manutenção. Os malfeitores agem frequentemente com um ou mais cúmplices. Relacionam-se
com outros desviantes e podem formar bandos que, apesar de muito pouco estruturados, não deixam
de ser bandos. O Milieu existe e oferece ao crime um suporte social.

O melhor preditor da reincidência (depois do número de delitos anteriores) é o convívio com


delinquentes. Todavia, se existe unanimidade quanto à relação estatística entre actividade delituosa
36
e amizades pouco recomendáveis, o mesmo não sucede na sua interpretação. O relacionamento com
delinquentes é um factor de delinquência e o hábito do crime cria uma predilecção por este tipo de
companhia. A causalidade processa-se nos dois sentidos.

A teoria de Sutherland, defensora da apreensão de um comportamento ao longo de trocas


interpessoais, foi aperfeiçoada por Akers. Afirma que os comportamentos desviantes são aprendidos
na companhia de pares, por imitação, por reforço dos actos desviantes e por exposição a definições
favoráveis à desviância. A teoria assenta em quatro pilares:
a) A associação diferencial.
A aprendizagem do comportamento desviante ocorre no seio de grupos primários: família e
grupos de pares. É aí que o indivíduo é exposto a definições, a modelos e a reforços mais ou menos
duradouros, frequentes e intensos.

b) As definições são as atitudes face a um comportamento desviante e ao seu significado.


As definições favoráveis a um acto desviante podem ser positivas (apresentam-no como um
facto moralmente desejável) ou neutralizantes (justificam-no, desculpam-no, racionalizam-no). Para
medir essas definições através de um questionário, estabelece uma lista de técnicas de neutralização
e pergunta aos sujeitos se concordam ou não com elas.

c) A imitação consiste no facto de um sujeito realizar o gesto que viu realizado por outrem.
A força da influência do exemplo deriva do prestígio do modelo, comportamento observado e
suas consequências. Esta variável pode ser medida através de questionários, calculando o total das
pessoas admiradas a quem o sujeito viu realizar o acto desviante.

d) O reforço diferencial é o balanço das recompensas e das punições passadas, presentes e


antecipadas, consecutivo ao comportamento desviante estudado.
A probabilidade do acto desviante varia em função das recompensas associadas, dos conflitos
e frustrações que permite evitar e das punições pelas quais é ou não sancionado. A probabilidade de
vir a repetir-se aumenta se ele foi recompensado, se permitiu evitar frustrações e se não foi punido.

Num primeiro momento, um indivíduo exposto a modelos e a definições favoráveis comete


uma primeira infracção na esperança de uma recompensa. Num segundo momento, repete o acto
sob a influência das definições, dos reforços antecipados e das consequências do primeiro acto.

37
O modelo de Akers é válido para os desvios menores, sobre os quais as opiniões variam, mas
não é certo que o seja para os crimes graves.

No estado actual do conhecimento, uma teoria da influência exercida pelos delinquentes sobre
os seus pares repousa em quatro proposições:
1. A instigação.
A maioria dos delitos cometidos por dois ou mais indivíduos não teria ocorrido se estes não
tivessem sido iniciados por um delinquente experiente.

2. A aprovação.
Um delito cometido na presença de outros delinquentes tende a proporcionar maior prazer do
que o cometido a solo, já que as testemunhas tenderão a manifestar a sua aprovação.

3. A eficácia.
A co-delinquência oferece aos participantes melhores possibilidades de sucesso imediato do
que a actuação individual mas, a prazo, expõe-nos à delação. O inventário das possibilidades é
singularmente limitado para o delinquente que opera só. A eficácia e a exequibilidade de diversos
crimes é assegurada por um saber-fazer e por técnicas que se aprendem mais facilmente com outros.

Mas não é seguro que, a prazo, a co-delinquência constitua um bom negócio. São muitos os
que costumam gabar-se dos feitos, que delatam e que acabam por desabafar e aliviar a consciência.

4. As justificações.
A sociabilidade delinquente estimula a produção de justificações, racionalizações, desculpas e
negações que neutralizam a autoridade das proibições sociais.

A morfologia social da delinquência constitui o estudo das formas de sociabilidade que ligam
os indivíduos que cometem delitos com uma certa frequência. As suas relações podem ser descritas
através de três noções:
- a co-delinquência, que consiste na relação de cumplicidade que une dois ou mais indivíduos
que cometem um delito;
- a rede, que engloba todas as relações directas e indirectas que unem, num dado território, os
membros de uma população delinquente;
- e o gang, que constitui um grupo relativamente estável de jovens delinquentes.

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O termo co-offending foi criado por Reiss para designar relações de cumplicidade que unem
as pequenas equipas de dois, três ou quatro participantes num mesmo delito. A co-delinquência faz
aumentar a frequência de delitos cometidos por cada indivíduo. Ao revelar-se um angariador activo,
o delinquente crónico exerce um considerável efeito precipitante sob a criminalidade.

Num dado território, uma rede delinquente completa é formada pelo conjunto de relações
directas e indirectas de co-delinquência. A rede pessoal de um delinquente é o conjunto das relações
directas e indirectas de co-delinquência por ele estabelecidas. A rede das relações indirectas será já
bastante alargada e tornar-se-á considerável se incluirmos os amigos dos amigos.

A sociabilidade delinquente comum constitui-se através de um entrelaçamento das relações


interindividuais: participação comum em delitos, transacções ilícitas, alianças pontuais, associações
temporárias.

Segundo Granovetter é útil distinguir, no seio de uma rede, laços fortes e laços fracos. A força
dos laços interpessoais varia em função do tempo que as pessoas passam juntas, da frequência dos
contactos, da intimidade das relações e da sua reciprocidade.

Paradoxalmente, os laços fracos têm uma força surpreendente. As relações estabelecidas com
meros conhecidos (laços fracos) são superficiais, mas contribuem para alargar a rede,

Os delinquentes persistentes passam muito tempo na companhia dos seus pares, mas mudam
constantemente de cúmplices. Esta morfologia social tem a vantagem de facilitar a circulação de
informações sobre as oportunidades e as novas técnicas criminais. Estas redes são praticamente
indestrutíveis. Quando muito, a polícia conseguirá desmantelar um dos seus ramos.

Relativamente aos inconvenientes, o carácter não organizado deste tipo de rede inviabiliza as
actividades criminosas que exijam uma coordenação de esforços entre vários elementos. Resultado:
uma criminalidade medíocre e rudimentar. Por outro lado, a rede aglutina marginais com a mesma
idade, circunscrevendo os seus membros a um mundo homogéneo.

A maior parte dos delinquentes não faz parte de grupos estruturados. No entanto, ainda que a
contribuição dos gangs para a criminalidade total seja ténue, são relativamente violentos, provocam
insegurança considerável e constituem embriões de verdadeiras organizações criminosas.

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Entre os criminólogos não existe unanimidade quanto à definição de gang.

Definição de Klein: o gang é um grupo característico de adolescentes, reconhecido interna e


externamente enquanto tal e que se dedica a uma actividade delituosa que suscita a hostilidade da
vizinhança e da polícia local.

Uma outra forma de definir o gang passa pela enumeração das suas características:
- O gang delinquente é composto principalmente por adolescentes do sexo masculino a quem
se juntam alguns jovens adultos;
- As minorias étnicas e os imigrantes estão sobrerrepresentados na sua composição;
- O gang é um conjunto não estruturado de pequenas equipas e de pares;
- Quase todos os gangs têm uma base territorial;
- A pertença a um gang é flutuante e a sua dimensão é muito variável: entre cinco elementos e
várias centenas, sem que se verifique uma tendência central.
A actividade criminal dos gangs é marcada pela versatilidade, verificando-se, no entanto, uma
tendência para que os seus membros sejam mais violentos do que os delinquentes isolados.

A participação num gang satisfaz as necessidades normais de reconhecimento, de pertença e


estatuto possuídas pelos adolescentes. Dificilmente encontra resposta em zonas urbanas socialmente
desorganizadas.

13. A Vítima.
O criminólogo alemão Von Hentig (1948) realizou estudos sobre a vítima, afirmando que a
maioria dos crimes inscreve-se numa relação agressor-agredido, predador-presa:
- a vítima tem de estar na presença do seu homicida para que o projecto deste se concretize;
- alguém tem de possuir um bem para que o furto seja cometido.

Conclusão: a vítima é uma condição necessária dos delitos contra as pessoas e contra os bens.

Exceptuando os tráficos, delitos sem vítima directa, a infracção pode ser concebida como uma
relação entre o delinquente e a vítima. Pode nascer da sua intimidade, como no caso da violência
conjugal. Noutros casos, como as rixas, o observador dificilmente distingue agressor e agredido.

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É olhando para os bens que as vítimas possuem que melhor se apreende a dinâmica dos furtos
e dos roubos. Se a criminalidade aumenta quando os povos enriquecem é porque, do ponto de vista
dos ladrões, a riqueza das nações significa uma profusão de bens destinados ao furto.

Na maioria dos casos concebemos a vítima como uma pessoa com azar que sofreu um evento
funesto porque, por acaso, estava no sítio errado à hora errada.

Mas uma minoria não insignificante de vítimas contribui de algum modo para a experiência
de vitimação, ou porque se expõem mais do que os outros, ou porque provocam o agressor.

Os inquéritos de vitimação foram fundamentais para o avanço da criminologia:


- Fornecem da criminalidade uma medida diferente e complementar das estatísticas policiais;
- Revelam aspectos novos do fenómeno e confirmam descobertas antigas;
- Proporcionam o conhecimento da distribuição da vitimação no espaço social e demográfico
e sobre as reacções das pessoas à experiência de vitimação.

A vitimação não se distribui ao acaso:


- atinge duramente os jovens celibatários pertencentes a minorias étnicas;
- os jovens são claramente mais vitimados do que os idosos;
- o estatuto matrimonial tem também uma grande influência;
- as variáveis urbanização e sexo têm também influência, ainda que menor.

O estilo de vida enquanto explicação dominante para estas variações:


- os jovens celibatários frequentam lugares públicos durante a noite, passam pouco tempo em
família e estão em contacto com pessoas que têm o perfil sociodemográfico dos delinquentes;

Proposição de Cohen e Felson (1979): um crime predatório, ou seja, contra a propriedade


depende da convergência física entre um delinquente potencial e um alvo que convenha na ausência
de vigilância.

Assim, a probabilidade de ocorrência de um delito varia em função do encontro, no tempo e


espaço, de um delinquente motivado e do alvo que possa interessá-lo, na ausência de uma pessoa
capaz de impedir a passagem ao acto. Ajusta-se particularmente bem aos furtos.

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Por delinquente potencial entende-se todo o indivíduo com motivação suficiente para passar
ao acto. Tanto é aquele que cede a uma tentação particularmente forte como o delinquente crónico.

O melhor guardião de um bem é o proprietário, seguido dos pais, dos amigos e dos vizinhos.

Uma pessoa (ou um alvo) é considerada vulnerável se puder ser atacada sem que o agressor se
tenha de expor directamente a dissabores, represálias ou sanções.

A vulnerabilidade define-se pela fragilidade do sistema defensivo que, supostamente, deveria


proteger uma dada pessoa ou bem: força física, rede de solidariedade, vigilância humana, ferrolhos,
alarmes, sistemas tecnológicos de vigilância, cães de guarda.

A proximidade e a vulnerabilidade aumentam os riscos e vitimação. Ainda assim, uma pessoa


fisicamente vulnerável, um idoso, por exemplo, pode reduzir o seu risco de vitimação mantendo-se
afastada dos potenciais agressores, o que acontece ao permanecer em casa durante a noite.

A sobrevitimação dos habituais do crime faz parte integrante do modo de vida. A necessidade
de sensações fortes leva-os a correr riscos. A vida festiva e dispendiosa conduz ao endividamento e
há que ter cautela com a dívida. Os furtos e as agressões que cometem desencadeiam represálias.

No meio criminal, nada garante os compromissos assumidos e a posição dos actores não lhes
permite o recurso à polícia. Podem ser agredidos impunemente se não recorrerem a represálias.

Em síntese, tudo concorre transformar o delinquente habitual numa vítima: a proximidade, a


vulnerabilidade e conflitos.

Após a agressão ou o roubo, a vítima tem de tomar uma decisão: participar ou não participar o
delito à polícia. A denúncia não é automática e tem efeitos na política criminal, na medida em que
apenas os efeitos registados pela polícia têm alguma possibilidade de serem esclarecidos. Cabe,
pois, à vítima a iniciativa de desencadear a acção penal.

Metade das vítimas prefere nada fazer, ou agir por conta própria, a solicitar a intervenção da
polícia pois o delito não lhes parece suficientemente grave ou porque consideram que a polícia nada
poderia ou quereria fazer, ou receiam agravar a situação ao denunciarem um agressor conhecido.

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Os conflitos conjugais e as rixas entre conhecidos são pouco participadas devido ao facto de a
vítima considerar indesejável que a polícia intervenha em assuntos privados.

Motivos para a participação de delitos pelas vítimas:


- reparação e protecção;
- retribuição e defesa social.

14. Auto-defesa, Auto-protecção e Insegurança.


No artigo O Crime como Controlo Social, Donald Black afirma que todo o crime praticado
em reacção a um comportamento desviante constitui uma medida de controlo social.

Casos exemplificativos desta prática:


- duelo e vingança;
- recuperação pela força de um bem furtado;
- vandalismo como forma de represália;
- sova dada a um pequeno ladrão;
- furto cometido para cobrar uma dívida de jogo;
- homicídio perpetrado pelo marido ciumento para punir a esposa infiel.

O direito penal define estes actos em termos diferentes do sentido atribuído pelos autores.
Num passe de mágica legal, o ofendido transforma-se em ofensor e vice-versa.

Black, na obra Justiça Sociológica, vem afirmar que a progressão do direito estatal faz recuar
a autodefesa, o que encoraja o furto e o roubo.

Ainda que o quisesse, o Estado não podia impedir a manifestação do instinto de sobrevivência
face à agressão ou a qualquer outro perigo. Não é pelo facto de pagarmos impostos para manter as
forças da ordem que devemos negligenciar os meios de autoprotecção. Se a autodefesa é um meio
marginal e reprovado, a autoprotecção é, pelo contrário, sempre uma opção em aberto.

A autoprotecção é o conjunto de medidas não violentas tomadas por cada um com o fim de
escapar à vitimação. Exclui, portanto, os actos cujo impacto eventual sobre o crime é involuntário.
Constitui a principal actividade do cidadão que age enquanto vítima potencial.

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Cada um tende a ajustar a natureza e intensidade da própria protecção aos riscos de vitimação.
Se a autoprotecção for eficaz, baixa, em princípio, o risco. O subsequente sentimento de segurança
deveria suscitar um reajustamento dos esforços de autoprotecção no sentido da sua redução.

As relações de causalidade deveriam, portanto, evoluir em duas direcções inversas:


- a vitimação estimula a actividade de autoprotecção;
- e a autoprotecção protege da vitimação.

Vitimação repetida (ou múltipla): a mesma pessoa ou residência sofre dois ou mais delitos
sucessivos num dado período de tempo.

Processos associados à ocorrência da revitimação:


- os alvos mais apetitosos, mais vulneráveis e mais acessíveis atrairão numerosos delinquentes
não associados entre si;
- o mesmo agressor bate novamente à mesma pessoa;
- os delinquentes de uma rede partilham informações sobre alvos interessantes e tendem a
imitar-se uns aos outros.
Incivilidades: conjunto heterogéneo de peri-delitos e de sinais de deterioração que assinalam
aos transeuntes a presença de um perigo difuso nas ruas, nos parques e noutros lugares públicos.

Exemplos de incivilidades: graffitis, vandalismo, edifícios deteriorados.

A erosão dos controlos locais, que se fundam na presença, vigilância e vontade de intervir,
explica o laço que une as incivilidades à criminalidade.

A passividade dos frequentadores habituais dos locais e o sentimento de impotência, ambos


gerados pelo medo, levam à concentração da delinquência numa periferia.

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