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parte

parte I
TEORIA E MÉTODO
NA PESQUISA QUALITATIVA
1
Iniciando a pesquisa

Objetivos do capítulo
No final deste capítulo, será possível:
 reconhecer os obstáculos que surgem na organização de um projeto de pesquisa qualitativa e
conhecer soluções simples para eles;
 entender os principais conceitos usados pelos pesquisadores;
 gerar um tópico de pesquisa interessante;
 entender os principais métodos usados na pesquisa qualitativa.

Se você é como muitos leitores deste alguns estudantes. Em seguida, você acha
livro, examinará estas páginas buscando al- que tudo o que tem a fazer é resumir suas
guns conselhos úteis sobre o projeto de pes- respostas e terá um relatório de pesquisa
quisa requerido para seu curso de métodos legítimo sobre o tópico escolhido.
de pesquisa. Nesse caso, há algumas notí- Bem, quem sabe? Talvez, ao longo do
cias boas e ruins. Acontece que fazer pes- caminho, você tenha deixado de formular
quisa por vezes é um negócio complicado a si mesmo uma série de perguntas, entre
e ardiloso. Apesar disso, com uma pequena as quais:
orientação (e algum esforço), a maioria dos
estudantes consegue realizar um projeto  Por que (e de que maneira) o tema es-
aceitável ou até mesmo de alta qualidade. colhido para sua pesquisa é importan-
Comecemos com um caso hipotético. te? Ele está relacionado a algum con-
Imagine que você “inocentemente” decidiu ceito ou a alguma teoria na disciplina
coletar alguns dados de entrevista para um de sua escolha? Ou é simplesmente um
projeto de pesquisa que é parte de um cur- tema que interessa a você e a seus ami-
so de métodos de pesquisa. Fazendo uso gos? Se for este o caso, como o seu re-
da disponibilidade e da boa vontade de seus latório vai diferir (se é que vai) do tipo
colegas estudantes, você decide iniciar um de história que você pode encontrar em
estudo, digamos, das percepções dos “es- um jornal? E por que isso importa?
tudantes” em relação às suas perspectivas  Até que ponto o tema e seus achados se
futuras de trabalho. relacionam a outra pesquisa? Você já leu
Como você leu muito pouco sobre a literatura relevante sobre o assunto
planejamento de pesquisa, decide fazer ou está correndo o risco de “reinventar
com um amigo um “pré-teste” de algumas a roda”? Você pensou lateralmente –
questões preliminares a fim de descobrir considerando, por exemplo, os vários
se elas são facilmente entendidas (da ma- contextos em que as expectativas das
neira como você pretende que sejam). Ten- pessoas são moldadas por uma série de
do selecionado suas perguntas, entrevista instituições (por exemplo, não apenas
18 David Silverman

universidades, como também escolas, Sem respostas para estas perguntas,


famílias, igrejas, grupo de pares, etc.)? seu professor pode desapontá-lo com uma
 Por que um método de entrevista é nota surpreendentemente baixa para seu
apropriado para seu tema? Por que não projeto de pesquisa. Por isso, este livro vai
analisar simplesmente os registros exis- lhe mostrar por que essas perguntas são
tentes dos primeiros empregos de uni- importantes e oferecer-lhe algumas manei-
versitários? Talvez esse tipo de estudo ras diretas de respondê-las.
quantitativo simples seja a melhor ma-
neira de lidar com seu tema. Ou será
que você deve comparar essas estatísti- 1.1 PROBLEMAS
cas com suas entrevistas? (E SOLUÇÕES) COMUNS
 O tamanho e o método de recrutamen-
to da amostra de sua pesquisa são ade- Sem dúvida, você está impaciente.
quados para o tema? Você deveria es- Talvez a data de análise de seu plano de
tar interessado no que os pesquisado- pesquisa esteja se aproximando, e haja
res quantitativos nos dizem sobre os li- pouco tempo para ler um livro inteiro. Com
mites de amostras pequenas, não-repre- isso em mente, preparei uma lista de pro-
sentativas? blemas que os pesquisadores estudantes
 Você gravou em áudio ou vídeo suas enfrentam e ofereci algumas respostas sim-
entrevistas? Como foram transcritas (se ples. Como eu quero que você vá adiante
é que as transcreveu)? Como conven- na leitura deste livro, não afirmo que as
cer seu professor de que simplesmente respostas abarquem o problema como um
não pegou alguns resumos para corro- todo. Porém, vão lhe dar uma rápida visão
borar suas ideias preconcebidas? dos problemas.
 Você precisou entrevistar seus respon-
dentes pessoalmente? Por que não usou
e-mail? Ou procurou páginas da web em 1.1.1 Tópicos de pesquisa
que os estudantes discutem essas questões inexequíveis
e onde os empregadores descrevem o que
têm a oferecer aos recém-formados? Um mérito do projeto de pesquisa que
 Você pensou em usar um grupo focal*, venho considerando é o fato de ele se con-
no qual são apresentados aos respon- centrar em um tema relativamente restri-
dentes alguns tópicos ou algum mate- to (e, desse modo, manejável), o que, por
rial de estímulo e depois eles são enco- exemplo, tem restringindo a questão das
rajados a os discutirem entre si? percepções dos estudantes para apenas um
 Que status quo você vai atribuir a seus tópico. Isso é elogiável, porque é muito
dados? Por exemplo, está buscando “fa- comum os pesquisadores novatos optarem
tos” objetivos, “percepções” subjetivas por um assunto que vem a se tornar um
ou apenas “narrativas”? enorme problema de pesquisa.
 Com que profundidade você analisou Examinemos um exemplo. É impor-
seus dados? Por exemplo, você apenas tante encontrar as causas de um problema
relatou alguns extratos “expressivos”? social, como “moradores de rua”, mas ele
Ou trabalhou em todo seu material, sai do escopo de um pesquisador com tem-
buscando exemplos que não se ajustam po e recursos limitados. Além disso, defi-
às suposições originais (análise de caso nindo o problema de forma tão ampla, em
desviante)? geral, se é incapaz de afirmar seja o que
for a respeito em grande profundidade. Na
* N. de R.T. No original, focus group. verdade, as questões levantadas podem ser
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irrespondíveis, no sentido de que é difícil preocupação com a “experiência” remonta
perceber os dados que são requeridos ou também ao século XIX, época em que as
como tais dados serão obtidos (ver Punch, pessoas esperavam que a literatura, a arte
1998, p. 49). e a música expressassem o mundo interior
Como digo a meus alunos, o objetivo de um artista e envolvessem as emoções
deve ser “dizer muito sobre pouco”. Não do público. Esse movimento foi chamado
se preocupe se o tema escolhido é restrito de romantismo.
demais. Eu nunca vi um projeto de aluno Como afirmo no Capítulo 4, há mais
avaliado nestes termos. Isto acontece por- do que uma sugestão de romantismo em
que seu professor vai recomendar-lhe es- algumas pesquisas qualitativas contempo-
colher um tema menos abrangente e, por- râneas (ver também Gubrium e Holstein,
tanto, factível. 1997; Atkinson e Silverman, 1997). Toda-
Deve-se evitar a tentação de dizer via, a abordagem romântica, embora atra-
“pouco sobre muito”. Na verdade, essa se- tiva, é também perigosa, já que talvez ne-
gunda alternativa pode ser considerada gligencie o modo como a “experiência” é
como negligência, precisamente porque o moldada pelas formas de representação
tópico é muito abrangente, pode-se pas- culturais. Por exemplo, o que pensamos ser
sar rapidamente de um aspecto para ou- mais pessoal para nós (“culpa”, “responsa-
tro sem ser obrigado a refinar e a testar bilidade”) pode ser apenas uma maneira
cada peça de análise (ver Silverman, 2005, culturalmente determinada de entender o
p. 80-2, 85-8). mundo (ver discussão da mãe de uma pes-
soa diabética jovem na Seção 6.4.2). Sen-
do assim, é problemático justificar a pes-
1.1.2 Tópicos subteorizados quisa em termos de sua representação “au-
têntica” da “experiência” quando o que é
Os estudantes em geral assumem que “autêntico” é culturalmente definido.
a força da pesquisa qualitativa está em sua A subteorização da “experiência” tam-
capacidade de penetrar a superfície visan- bém é vista quando um pesquisador segue
do entender as percepções e as experiênci- uma abordagem inquestionavelmente “tu-
as das pessoas. Isso se aplica sobretudo rística” de diferentes culturas. Eu tenho em
quando o pesquisador se determina a re- mente o turista “abonado” que viaja o mun-
gistrar fielmente as “experiências de algum do em busca de encontros com culturas
grupo geral desprotegido (por exemplo, estranhas. Desdenhando os pacotes turís-
mulheres espancadas, homens gays, pes- ticos e até mesmo o rótulo de “turista”, essa
soas desempregadas, etc.). No entanto, pessoa tem uma sede insaciável pelo “novo”
como vimos em nosso hipotético projeto e pelo “diferente”. O problema é que há
de entrevista do aluno, tal escolha também paralelos preocupantes entre o pesquisa-
pode envolver a tentativa de entrar dentro dor qualitativo e esse tipo de turista. Pes-
das mentes de qualquer membro do grupo quisadores assim, com frequência, come-
que esteja próximo de você. çam sem uma hipótese e, como o turista,
Tentar entender as experiências do olham avidamente as cenas sociais em bus-
outro é muito característico do mundo do ca de sinais de atividades e experiências
século XXI: não é somente o tema de (mui- que parecem ser novas e diferentes. O pe-
tas) pesquisas de alunos, mas também a rigo em tudo isso é que os pesquisadores
base lógica que está por trás de cenários “turísticos” podem se concentrar tanto nas
dos meios de comunicação de massa como diferenças culturais e “subculturais” (ou de
os talk shows e as revistas dedicadas às ce- grupo), que falham em reconhecer as si-
lebridades. Entretanto, de certo modo, tal milaridades entre a cultura a que perten-
20 David Silverman

cem e as culturas analisadas. Por exemplo, Eu só faria uma ressalva à pesquisa:


quando você se deixa formular as “princi- a maneira como o aluno apresentou sua
pais” perguntas (que assumem as diferen- análise dos dados. Ele optou por definir seu
ças culturais) para observar o que as pes- trabalho em termos de análise do discur-
soas estão realmente fazendo, é possível so. Como veremos no Capítulo 6, esta é
encontrar algumas características comuns uma metodologia complicada que tem uma
entre padrões sociais no Ocidente e no abordagem muito específica dos dados. No
Oriente (ver Ryen e Silverman, 2000, e a entanto, verificou-se que a abordagem do
discussão a seguir do estudo de Moerman aluno, embora abrangente, era bem me-
em relação a uma tribo thai, em 1974). nos complicada. De fato, ele analisou suas
A discussão de romantismo e turis- entrevistas sem quaisquer hipóteses ante-
mo tem implicações para a análise de da- riores e procurou desenvolver um conjun-
dos de entrevista abordada amplamente no to de categorias para esclarecer seus da-
Capítulo 4. É um sintoma do que chamo dos. A abordagem, como veremos mais
“subteorização”, não porque essa pesquisa adiante neste livro, está associada à teoria
é desprovida de uma teoria, mas porque fundamentada*.
teoriza o mundo de maneira tácita ou in- Então, nesse caso, havia uma pesqui-
consciente. Em vez disso, sugiro que você sa de aluno extremamente válida, minada
experimente se basear conscientemente nas por uma abordagem teórica inapropriada.
teorias e nos conceitos de sua disciplina No entanto, este é apenas um caso menor
(ver Seção 1.2.3). de superteorização. Exemplos bem piores
surgem quando os pesquisadores acham
necessário retratar seu trabalho em termos
1.1.3 Tópicos das teorias gerais das quais têm muito pou-
superteorizados co conhecimento e as quais, com frequên-
cia, têm pouca relação com sua pesquisa.
Qualquer solução aparente, quando Já perdi a conta dos milhares de artigos de
levada muito longe, cria um novo proble- pesquisa qualitativa com os quais já me
ma, o que acontece muito com a teoria. defrontei que acham necessário definir o
Assim como alguns projetos de pesquisa são trabalho em termos de posições filosóficas
subteorizados, outros levam a teoria além obscuras, como a fenomenologia ou a
dos limites apropriados. Às vezes, o tema hermenêutica. Você não vai encontrar ne-
é tão amplo e especulativo, que é difícil nhum desses termos no glossário deste li-
ver como o estudante vai conseguir sair da vro por uma simples razão. Na minha opi-
biblioteca para coletar e analisar alguns nião, não é necessário entender esses ter-
dados. Às vezes também encontramos um mos para realizar uma boa pesquisa quali-
projeto de pesquisa sensível e bem organi- tativa. Na verdade, se você tentar entendê-
zado; porém, revestido de aspectos teóri- los, suponho que não vai sair da biblioteca
cos bastante inadequados. durante muitos anos!
Outro dia eu ouvi um aluno apresen- A moral das duas histórias é clara. Se
tando seu projeto de final de curso. Na há uma abordagem simples que está fun-
maioria dos aspectos, este parecia ser um cionando bem para você, não tente fanta-
excelente trabalho de pesquisa. O tema era siar seu trabalho. Não superteorize!
interessante, factível, e a análise era abran-
gente. Incomumente para esse tipo de tra-
balho, foi publicado, e suas recomendações
políticas claras deram início a um impor-
tante debate público. * N. de R. T. No original, grounded theory.
Interpretação de dados qualitativos 21
1.1.4 Excesso de dados menos tempo para se dedicar à atividade
principal, que é a análise dos dados.
A falta de confiança cria muitas das Torne a coleta de dados o mais fácil
dificuldades que tenho discutido. Por exem- possível e fuja da complexidade. Por exem-
plo, se você está inseguro, pode achar que plo, embora os dados de vídeo sejam mui-
impressionará seu professor se montar um to atrativos, eles são, com frequência, muito
enorme problema e talvez defini-lo em ter- difíceis de trabalhar. Por isso, torne sim-
mos teóricos grandiosos. Do mesmo modo, ples a coleta de dados. Procure um mate-
a coleta de quantidades excessivas de da- rial que seja fácil de coletar. Por exemplo,
dos pode parecer garantir-lhe que está pro- a internet é uma fonte maravilhosa de ma-
gredindo em seu projeto. terial. Não se preocupe se ela só lhe dá um
Infelizmente, como gerações de alu- “ângulo” de seu problema. Essa é tanto uma
nos de Ph.D. poderiam lhe dizer, até você vantagem quanto uma desvantagem!
ter analisado os dados levantados não con-
seguiu exatamente nada. Se o objetivo dos
pesquisadores qualitativos experientes é 1.1.6 Métodos inadequados
mais a profundidade do que a amplitude,
quão maior será para os iniciantes! Tanto a ciência quanto a vida cotidia-
Para tornar sua análise eficaz, é im- na nos ensinam que não há método “cer-
perativo ter um corpo de dados limitado to” a seguir. Tudo depende do que se está
com que trabalhar. Por isso, embora possa tentando obter.
ser útil inicialmente explorar diferentes ti- Apesar deste truísmo, os estudantes
pos de dados, isso, em geral, só deve ser usam regularmente métodos muito inade-
feito para estabelecer o conjunto de dados quados para seu tema de pesquisa. Como
com o qual você pode trabalhar com mais comentei sobre nosso projeto hipotético do
eficiência dentro do tempo que lhe é dis- aluno, como podíamos ter certeza de que
ponível. E não se preocupe se isso signifi- uma abordagem qualitativa era apropria-
car que você não conseguirá comparar ca- da? Diante disso, se você está interessado
sos diferentes. O método comparativo é em algo tão concreto quanto as percepções
realmente importante, mas só pode ser que as pessoas têm de suas perspectivas de
usado com conjuntos de dados muito res- trabalho, certamente uma avaliação quan-
tritos. titativa de um número maior de alunos
seria mais adequada do que algumas pou-
cas entrevistas “intensivas”?
1.1.5 Dados inacessíveis Mesmo que você consiga convencer
seu professor de que um método qualitati-
Os problemas de tempo são causados vo é adequado, tem certeza de que esco-
não apenas por se ter dados em demasia, lheu o método certo? Como já sugeri, é
mas também pelo fato de se ter em mente possível que muitas pessoas optem por co-
que é obrigatório conseguir alguns tipos de letar dados de entrevista, menos porque
dados, independente da acessibilidade. esses dados são apropriados a seu tema e
Você não receberá “aplausos” por ter cole- mais porque impensadamente adotaram
tado seus próprios dados. Na verdade, ao uma perspectiva romântica. Decida o tipo
escolher situações “difíceis” para reunir os de dados a usar perguntando-se quais são
dados (seja porque nada “relevante” acon- mais apropriados para seu objetivo de pes-
tece ou, por exemplo, porque o barulho de quisa: por exemplo, você está mais inte-
fundo significa que se tem uma fita de má ressado no que as pessoas estão pensando
qualidade), você pode se condenar a ter ou sentindo, ou no que elas estão fazen-
22 David Silverman

do? E faça uma escolha embasada entre os tiplos meios de coleta de dados. Por fim,
muitos tipos diferentes de dados e méto- tudo vai depender mais da qualidade de
dos que estão livremente disponíveis para sua análise dos dados do que da qualidade
nós no século XXI. de seus dados. Certifique-se de ter o tempo
e a capacidade para realizar essa análise.

1.1.7 Métodos em demasia

A falta de confiança também pode se


manifestar em uma incapacidade de esco-
Link
lher ou de se comprometer. Você pode fi- Um website muito útil baseado no livro
Researching Society and Culture, editado
car tão impressionado com os diferentes por Clive Seale, é: www.rscbook.co.uk
métodos que aprendeu durante sua pesqui- Ver especialmente os links recomenda-
sa qualitativa, que, de algum modo, quer dos nas páginas dos Capítulos 6 e 11
usar mais que um em seu projeto de alu- desse livro.
no. Você se pergunta: não seria ótimo com-
binar entrevistas com alguma observação
ou, digamos, com um grupo focal? Minha 1.2 PLANEJAMENTO DA PESQUISA:
resposta é simples: só siga esse caminho se ALGUMAS QUESTÕES GERAIS
você quiser seriamente complicar sua vida
Espera-se que a breve lista anterior
e, talvez, terminar perdendo o prazo para
ofereça ao leitor uma rápida amostra ini-
a entrega de seu trabalho.
cial de alguns dos problemas práticos en-
Com frequência, o desejo de usar
volvidos na realização de um projeto de
métodos variados surge porque você quer
pesquisa qualitativo em pequena escala. O
atingir muitos aspectos diferentes de um
restante deste livro vai desenvolver e con-
fenômeno. No entanto, isso pode implicar
textualizar esses temas. No entanto, mes-
que você ainda não restringiu suficiente-
mo nessa fase, há três questões mais am-
mente o tema. Às vezes, uma abordagem
plas com as quais precisamos lidar:
melhor é tratar a análise de diferentes ti-
pos de dados como um “ensaio” para seu
 evitar as pesquisas direcionadas a pro-
estudo principal. Como tal, é um teste útil
blemas sociais,
para o tipo de dados que você pode mais
 pensar teoricamente,
facilmente coletar e analisar.
 determinar tipos de sensibilidade na ge-
O “mapeamento” de um conjunto de
ração de um problema de pesquisa.
dados sobre outro (ou triangulação dos
dados) é uma tarefa mais ou menos com-
plicada, dependendo da sua estrutura 1.2.1 Evitar as pesquisas
analítica. Em particular, se você trata a rea- direcionadas para problemas sociais
lidade social como construída de diferen-
tes maneiras em diferentes contextos (ou Basta abrir um jornal ou assistir a um
construcionismo), então não pode recor- noticiário na TV para ser confrontado por
rer a um “fenômeno isolado” que todos os uma série de problemas sociais. Em 2005,
seus dados aparentemente representam. a mídia de notícias britânica fez inúmeras
O projeto de pesquisa deve envolver referências ao comportamento desordeiro
mais uma consideração cuidadosa do que dos jovens das ruas da cidade – desde bri-
a busca da opção mais imediatamente atra- gas após beberem em excesso até assaltos
tiva. No entanto, nenhum dos pontos ante- a cidadãos respeitáveis. Os políticos reagi-
riores exclui a possibilidade de se usar múl- ram a essas reportagens falando sobre uma
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“cultura de desrespeito” e determinando comunicação. Essas relações também tor-
uma agenda de “Respeito” que envolveu nam muito problemática a “eficiência or-
mais policiais nas ruas armados com no- ganizacional”. Portanto, os problemas “ad-
vos equipamentos. ministrativos” não proporcionam uma base
As histórias e os discursos dos políti- mais segura para a pesquisa social do que
cos têm tal aspecto em comum: ambos as- os problemas “sociais”.
sumem algum tipo de declínio moral, em É claro que isto não significa negar
que as famílias ou as escolas falham em que haja quaisquer problemas reais na so-
disciplinar os jovens. Por outro lado, a ma- ciedade. No entanto, mesmo quando con-
neira como cada história é contada impli- cordamos sobre quais são os problemas,
ca uma solução: reforçar a “disciplina” para não está claro se eles proporcionam dire-
combater o “declínio moral”. tamente um tema passível de pesquisa.
Entretanto, antes de considerarmos Deixe-me passar para outra questão
essa “cura”, precisamos considerar atenta- que tem estado na linha de frente da nossa
mente o “diagnóstico”. O crime juvenil au- atenção desde a década de 1970: o caso
mentou ou é o aparente aumento de uma dos problemas de pessoas infectadas com
reflexão que gera uma “boa” história? Por HIV. Alguns desses problemas são, muito
outro lado, esse aumento seria um reflexo corretamente, levados à atenção do público
do tipo de crimes que são denunciados à pelas atividades organizadas de grupos de
polícia? pessoas portadoras da doença. Nessas ativi-
Em contrapartida, os problemas “so- dades, os pesquisadores sociais contribuem
ciais” aparentes não são apenas tópicos que com suas habilidades teóricas e meto-
chamam a atenção do pesquisador. Os ad- dológicas específicas de sua disciplina. Os
ministradores e os gestores apontam para economistas podem pesquisar como os re-
“problemas” em suas organizações e, por cursos limitados da atenção à saúde seriam
vezes, recorrem aos cientistas sociais em usados com mais eficiência para enfrentar
busca de soluções. a epidemia no Ocidente e no Terceiro Mun-
É tentador permitir que essas pessoas do. Entre os sociólogos, os pesquisadores
definam um problema de pesquisa – sobre- podem investigar padrões de comporta-
tudo porque habitualmente há uma vultuo- mento sexual para tentar promover uma
sa subvenção de pesquisa ligada a ele! En- educação de saúde efetiva, enquanto os
tretanto, precisamos primeiro considerar os métodos qualitativos seriam usados para
termos que estão sendo usados para defi- estudar o que está envolvido na “negocia-
nir o problema. Por exemplo, muitos gesto- ção” de sexo mais seguro ou no aconselha-
res vão definir os problemas em sua orga- mento das pessoas sobre HIV e AIDS.
nização como problemas de “comunica- Como os exemplos demonstram, o
ção”. O papel do pesquisador é, então, ten- ímpeto inicial para um estudo surge, às
tar estabelecer como as pessoas podem se vezes, das necessidades de profissionais e
comunicar “melhor”. clientes. Entretanto, pesquisadores de di-
Infelizmente, falar sobre “problemas ferentes disciplinas vão, em geral, dar a um
de comunicação” levanta muitas dificulda- tema inicial de pesquisa seu próprio “tom”
des. Por exemplo, é possível desviar a aten- teórico e metodológico. Por exemplo, na
ção das “habilidades” de comunicação ine- minha pesquisa relativa a aconselhamento
vitavelmente usadas na interação. Também sobre HIV (Silverman, 1997), o uso de gra-
tender-se a assumir que a solução para vações em áudio e transcrições detalhadas,
qualquer problema é ouvir com mais aten- assim como muitos conceitos técnicos, de-
ção, mesmo ignorando as relações de po- rivou de meu interesse em análise de con-
der presentes dentro e fora dos padrões de versação (AC).
24 David Silverman

Este exemplo mostra que, muitas ve- objetivos que isso? Afinal, eles têm méto-
zes, é necessário recusar que nossos temas dos científicos para tornar as observações
de pesquisa sejam totalmente definidos em mais confiáveis.
termos das concepções dos “problemas so- Bem, sim e não. Na verdade, os cien-
ciais” como eles são reconhecidos por gru- tistas sociais, em geral, usarão um processo
pos profissionais ou comunitários. De modo mais cauteloso para extrair o fato da opi-
irônico, partindo de uma perspectiva cla- nião do que a maioria de nós jamais neces-
ramente definida da ciência social, é pos- sitou fazer na vida cotidiana (ver Capítulo
sível mais tarde tratar desses problemas 8). Entretanto, mesmo os cientistas só ob-
com – acredito eu – considerável força e servam os “fatos” por meio do uso de lentes
persuasão. Tal questão está discutida com compostas de conceitos e teorias. Sacks
mais detalhes no Capítulo 11. (1992, I, p. 467-8) tem um bom exemplo
disso:
Fazer o exercício 1.1
Suponha que você seja um antropó-
nesse momento
logo ou um sociólogo que está de pé
em algum lugar. Vê alguém realizar
alguma ação e percebe isso como sen-
1.2.2 Pensando teoricamente do uma atividade qualquer. Como
pode passar a formular quem foi o
Há pesquisadores qualitativos por ra-
autor da ação para os propósitos de
zões mais negativas. Talvez não sejam mui-
seu relatório? Como usa pelo menos
to bons em estatísticas (ou acham que não o que pode considerar como a formu-
são); por isso, a pesquisa quantitativa não lação mais conservadora – seu nome?
os atrai. Ou talvez eles não sejam brilhan- Sabendo, é claro, que em qualquer
tes no trabalho em biblioteca e esperam categoria você teria esse(s) tipo(s) de
poder estimular sua imaginação preguiço- problemas sistemáticos, como você
sa saindo “a campo”. passaria a selecionar uma dada cate-
Infelizmente, como a maioria dos cien- goria do conjunto que iria caracteri-
tistas e filósofos concordam, os fatos encon- zar ou identificar igualmente bem
trados “no campo” nunca falam por si, sen- aquela pessoa?
do impregnados por nossas suposições. Por
exemplo, os relatos iniciais dos “curiosos” Sacks (1992, I, p. 468) mostra que
em Dallas na época do assassinato do Pre- não se consegue resolver esses problemas
sidente Kennedy em 1963 não foram dos apenas “fazendo as melhores anotações
tiros, mas do estouro do escapamento de possíveis no momento e tomando decisões
um carro (Sacks, 1984, p. 519). Por que as depois”. Qualquer coisa que observemos
pessoas ouvem os sons dessa maneira? está impregnada de suposições.
Todos nós sabemos que as pessoas que
acham ter ouvido um tiro toda vez que es-
Fazer o exercício 1.2
toura o escapamento de um carro podem nesse momento
ser rotuladas como instáveis ou até mes-
mo psicóticas. Então, nossas descrições
nunca são relatos simples de “eventos”, mas No trabalho científico, as suposições
são estruturadas para nos descrever como recebem, muitas vezes, o nome fantasioso
tipos de pessoas que são, em geral, “razoá- de “teorias”. Mas o que são “teorias”?
veis” e “cautelosas”. Martin O’Brien (1993, p. 10-11) usou o
Em contrapartida, você pode dizer: exemplo de um caleidoscópio para respon-
certamente os cientistas sociais são mais der a essa pergunta. Ele explica:
Interpretação de dados qualitativos 25
Um caleidoscópio... [é] um brinque- A questão é que nenhuma das obser-
do de criança constituído por um tubo, por vações é mais real ou mais verdadeira do
várias lentes e por fragmentos de vidro ou que as outras. Por exemplo, as pessoas não
de plástico translúcido e colorido. Quando são essencialmente definidas em termos de
você gira o tubo e olha através das lentes suas características sociais (como o gêne-
do caleidoscópio, as formas e cores, visí- ro) ou suas personalidades (extrovertida
veis ao fundo, mudam. Quando o tubo é ou introvertida). Tudo depende da sua
girado, as diferentes lentes se movimen- questão de pesquisa. E as questões de pes-
tam, e as combinações de cor e forma mu- quisa são inevitavelmente embasadas pela
dam de um padrão para outro. De uma teoria. Portanto, nós, de fato, precisamos
maneira similar, podemos enxergar a teo- das teorias sociais para nos ajudar a lidar
ria social como uma espécie de caleidoscó- até mesmo com questões muito básicas na
pio – mudando a perspectiva teórica, o pesquisa social.
mundo que está sob investigação também No entanto, a analogia de O’Brien de
muda a sua forma. um caleidoscópio só nos leva até aí. Por
Como uma teoria funciona de modo exemplo, como uma “teoria” difere de uma
igual a um caleidoscópio pode ser visto “hipótese”? E como desenvolvemos ambas?
usando-se um exemplo concreto, até gros- Perguntas assim indicam que eu não
seiro. Imagine que um grupo de cientistas posso mais adiar a questão potencialmen-
sociais de diferentes disciplinas estejam ob- te cansativa de definir meus termos. Neste
servando as pessoas em uma festa através capítulo, serão discutidos modelos, concei-
de um espelho semitransparente. O soció- tos, teorias, hipóteses, metodologias e mé-
logo observa a composição de gênero de todos. No Quadro 1.1, determino como
vários grupos de conversa, enquanto o cada termo será usado.
linguista ouve como a “conversa fiada” Como sugere a Quadro 1.1, o que
transcorre entre as pessoas. O psicólogo se chamo de “modelos” são até mais básicos
concentra nas características dos “solitári- para a pesquisa social do que as teorias.
os” versus as pessoas que são “a vida e a Os modelos proporcionam uma estrutura
alma” da festa, e o geógrafo observa como geral para como encaramos a realidade. Em
a organização espacial da sala influencia a suma, eles nos dizem como é a realidade e
maneira de as pessoas conversarem. os elementos básicos que ela contém (“on-

QUADRO 1.1 Termos básicos na pesquisa


Termo Significado Relevância

Modelo Uma estrutura geral para observar a realidade Utilidade


(por exemplo, behaviorismo, feminismo)

Conceito Uma idéia derivada de um dado modelo Utilidade


(por exemplo, “estímulo-resposta”, “opressão”)

Teoria Um conjunto de conceitos usado para definir Utilidade


e/ou explicar algum fenômeno

Hipótese Uma proposição testável Validade

Metodologia Uma abordagem geral para estudar temas de pesquisa Utilidade

Método Uma técnica de pesquisa específica Bom ajuste com modelo, teoria,
hipótese e metodologia
26 David Silverman

tologia”) e qual é a natureza e a situação  uma base para considerar como o que
do conhecimento (“epistemologia”). Nes- é desconhecido pode ser organizado
se sentido, os modelos correspondem gros- (Gulbrium, correspondência pessoal).
seiramente ao que é referido mais impo-
nentemente como “paradigmas” (ver Guba Provocando ideias sobre o que é atual-
e Lincoln, 1994). mente desconhecido, as teorias dão ímpe-
Na pesquisa social, exemplos desses to à pesquisa. Como entidades vivas, são
modelos são o funcionalismo (que observa também desenvolvidas e modificadas pela
as funções das intuições sociais), o beha- boa pesquisa. No entanto, como usados
viorismo (que define todo comportamen- aqui, os modelos, os conceitos e as teorias
to em termos de “estímulo” e “resposta”), são autoconfirmadores, no sentido de que
o interacionismo simbólico (que se concen- nos instruem a olhar para os fenômenos
tra em como vinculamos os significados de maneiras particulares. Isso significa que
simbólicos às relações interpessoais) e a eles nunca podem ser desaprovados, mas
etnometodologia (que nos encoraja a ana- apenas considerados mais ou menos úteis.
lisar as maneiras cotidianas de as pessoas Esta última característica distingue as
produzirem ordeiramente a interação so- teorias das hipóteses. Ao contrário das
cial). Tendo por base Gubrium e Holstein teorias, as hipóteses são testadas na pes-
(1997), discutirei a importância dos mo- quisa. Exemplos de hipóteses, discutidas
delos no Capítulo 2. mais adiante neste livro, são:
Os conceitos são ideias claramente
especificadas que derivam de um modelo  A maneira como recebemos conselhos
específico. Exemplos de conceitos são a está vinculada a como o conselho é
“função social” (derivada do funcionalis- dado.
mo), o “estímulo-resposta” (behaviorismo),  As reações a uma droga ilegal depen-
“definição da situação” (interacionismo) e dem do que se aprende com outras pes-
“o método de interpretação documental” soas.
(etnometodologia). Os conceitos oferecem  O voto nas eleições sindicais está rela-
maneiras de se olhar o mundo que são es- cionado a vínculos não-trabalhistas en-
senciais na definição de um problema de tre os membros do sindicato.
pesquisa.
As teorias dispõem conjuntos de con- Em muitos estudos de pesquisa qua-
ceitos para definir e explicar alguns fenô- litativa, a princípio, não há hipótese es-
menos. Como dizem Strauss e Corbin, “a pecífica. Em vez disso, as hipóteses são
teoria consiste de relacionamentos plausí- produzidas (ou induzidas) durante os es-
veis produzidos entre conceitos e conjuntos tágios iniciais da pesquisa. De todo modo,
de conceitos” (1994, p. 278). Sem uma teo- ao contrário das teorias, as hipóteses po-
ria, fenômenos como “gênero”, “personali- dem – e devem – ser testadas. Por isso,
dade”, “discurso” ou “espaço” não seriam avaliamos uma hipótese por sua validade
entendidos pela ciência social. Nesse senti- ou verdade.
do, sem uma teoria não há nada a pesquisar. Uma metodologia refere-se às esco-
Portanto, a teoria proporciona uma lhas que fazemos sobre os casos a serem
base para se considerar o mundo, separa- estudados, os métodos de coleta de dados,
do, mas cercado, por esse mundo. Dessa as formas de análise dos dados, etc., no pla-
maneira, a teoria proporciona ambos: nejamento e na execução de um estudo de
pesquisa. Gobo (em fase de elaboração)
 uma estrutura para entender critica- sugere que uma metodologia compreende
mente os fenômenos os quatro componentes seguintes:
Interpretação de dados qualitativos 27
1. uma preferência por alguns métodos en-
tre os muitos a nós disponíveis (escuta,
assistência, observação, leitura, questio- Dica
namento, conversa)
Adquira o hábito de pensar sobre o
2. uma teoria do conhecimento científico ou
planejamento da pesquisa em termos
um conjunto de suposições sobre a na- de até que ponto uma determinada
tureza da realidade, sobre as tarefas da abordagem é útil para o tema de sua
ciência, sobre o papel do pesquisador e pesquisa. Modelos, conceitos,
sobre os conceitos de ação e ator social metodologias e métodos não podem
3. uma série de soluções, de dispositivos e ser certos ou errados, apenas mais ou
menos úteis.
de estratagemas usada para lidar com
um problema de pesquisa
4. uma sequência sistemática de passos
procedurais a serem seguidos quando Tendo estabelecido algumas defini-
nosso método foi escolhido. ções básicas, é possível passar à questão
mais prática de como se aplica o pensa-
Portanto, nossa metodologia define
mento teórico para gerar um problema
como se vai passar a estudar qualquer fe-
de pesquisa. Como veremos, parte do que
nômeno. Na pesquisa social, as metodolo-
está envolvido é ser sensível ao contexto
gias são definidas muito amplamente (por
mais amplo em que surgem as questões
exemplo, qualitativa ou quantitativa) ou
pesquisáveis.
mais estreitamente (por exemplo, teoria
fundamentada ou análise de conversação
[AC]). Como as teorias, as metodologias 1.2.3 A sensibilidade na geração
não podem ser verdadeiras ou falsas, so- de um problema de pesquisa
mente mais ou menos úteis.
Por fim, os métodos são técnicas de Eu tenho argumentado que frequen-
pesquisa específicas, os quais incluem téc- temente é inútil os pesquisadores começa-
nicas quantitativas, como correlações es- rem seu trabalho tendo como base um “pro-
tatísticas, além de técnicas como observa- blema social” identificado por profissionais
ção, entrevista e gravações de áudio. Mais ou gestores. É um lugar-comum dizer que
uma vez, essas técnicas em si não são ver- essas definições de “problemas”, muitas ve-
dadeiras ou falsas, mas mais ou menos zes, servem a direitos adquiridos. No en-
úteis, dependendo de se ajustarem às teo- tanto, se a pesquisa da ciência social tem
rias e às metodologias usadas, às hipóte- algo a oferecer, seus imperativos teóricos
ses testadas e/ou ao tema da pesquisa se- caminham em uma direção que oferece aos
lecionado. Assim, por exemplo, os behavio- participantes novas perspectivas sobre seus
ristas talvez prefiram os métodos quanti- problemas. De modo paradoxal, recusan-
tativos, enquanto os interacionistas talvez do-nos a começar a partir de uma concep-
prefiram coletar seus dados por meio de ção comum do que está “errado” em um
observação. Porém, dependendo das hipó- lugar, possivelmente sejamos mais capazes
teses testadas, os behavioristas podem, às de contribuir para a identificação tanto do
vezes, usar métodos qualitativos – por que está acontecendo quanto, por meio dis-
exemplo, na fase exploratória da pesqui- so, de como isso pode ser modificado na
sa. Do mesmo modo, os interacionistas busca dos fins desejados.
podem, às vezes, usar métodos quantitati- As várias perspectivas da ciência so-
vos simples, sobretudo quando querem cial proporcionam uma sensibilidade para
encontrar um padrão em seus dados. muitas questões negligenciadas por aque-
28 David Silverman

les que definem “problemas sociais” ou ad- Sensibilidade Política


ministrativos. Deixe-me distinguir três ti-
pos de sensibilidade: Permitir que os “pânicos” da mídia
atual determinem nossos temas de pesqui-
 histórica sa é tão falível quanto planejar a pesquisa
 política segundo interesses administrativos ou ge-
 contextual renciais. Em nenhum dos casos usamos a
sensibilidade política a fim de detectar os
Vou explicar e discutir cada um deles
direitos adquiridos implícitos nessa manei-
mais adiante.
ra de formular um problema. A mídia, afi-
nal, precisa atrair um público. Os adminis-
Sensibilidade histórica tradores precisam ser vistos trabalhando
com eficiência.
Sempre que possível, devemos exa- Por isso, a sensibilidade política pro-
minar as evidências históricas importantes cura captar a política que está por trás dos
quando estamos definindo um tema para tópicos definidores de maneiras específi-
pesquisa. Por exemplo, nas décadas de cas. Por exemplo, se você decide pesquisar
1950 e 1960, foi suposto que a “família o crime na atualidade, deve ter em mente
nuclear” (pais e filhos) havia substituído a que o discurso de “lei e ordem” utilizados
“família ampliada” (muitas gerações mo- pelos políticos baseia-se, ao menos no Rei-
rando juntas na mesma casa) das socieda- no Unido, em uma fórmula simples: “ál-
des pré-industriais. Os pesquisadores sim- cool mais rapazes é igual a crime violento”
plesmente pareciam ter esquecido que a (Noaks e Wincup, 2004, p. 34).
expectativa de vida mais baixa talvez te- Isto mostra como a sensibilidade po-
nha tornado o padrão da “família amplia- lítica ajuda a sugerir a origem dos “proble-
da” relativamente raro no passado. mas sociais”. Por exemplo, Bárbara Nelson
Mais uma vez, a sensibilidade histó- (1984) observou como o “abuso infantil”
rica nos ajuda a entender como somos go- foi definido como um problema reconhe-
vernados. Por exemplo, até o século XVIII, cível no final da década de 1960. Ela mos-
a maioria da população era tratada como tra como os achados de um médico sobre
uma “plebe” ameaçadora que devia ser a “síndrome do bebê espancado” foram
controlada, se necessário, pelo uso da for- adotados pela administração conservado-
ça. Hoje em dia, somos vistos como indiví- ra de Nixon, vinculando-se os problemas
duos com “necessidades” e “direitos”, os sociais aos “desajustes” paternos, em vez
quais devem ser entendidos e protegidos de às falhas dos programas sociais.
pela sociedade (ver Foucault, 1977). Em No caso de eu estar sendo mal-inter-
contrapartida, embora a força opressiva só pretado, sensibilidade política não signifi-
seja usada raramente, muitas vezes somos ca que os cientistas sociais declaram que
controlados de maneiras mais sutis. Pense não há problemas “reais” na sociedade. Em
no conhecimento sobre cada um de nós vez disso, sugere que a ciência social dá
contido em bancos de dados computadori- uma importante contribuição à sociedade,
zados e câmeras de vídeo invasivas que indagando como surgem as definições “ofi-
registram os movimentos em muitas ruas ciais” dos problemas. A bem da verdade,
da cidade. Assim, a sensibilidade histórica no entanto, devemos também reconhecer
nos oferece muitos tópicos de pesquisa que como os cientistas sociais, de modo geral,
escapam da armadilha de pensar que as precisam aceitar tacitamente essas defini-
versões atuais dos “problemas sociais” são ções com o intuito de atrair subvenções pa-
desprovidas de problemas. ra a pesquisa.
Interpretação de dados qualitativos 29
Sensibilidade contextual trário, comportando-se como um turista
ávido por paisagens longínquas.
Esta é a categoria menos auto-expla- Por outro lado, não são só as coletivi-
natória e mais controversa da presente lis- dades em grande escala, como as tribos que
ta. Por sensibilidade “contextual”, quero in- reexaminadas quando usamos o que cha-
dicar o reconhecimento de que instituições mei sensibilidade contextual: outras insti-
aparentemente uniformes, como “a famí- tuições sociais aparentemente estáveis (co-
lia”, “uma tribo” ou “ciência”, assumem mo a “família”) e as identidades (gênero,
vários significados em diferentes contex- etnia, etc.) também podem ser insuficiente-
tos. A sensibilidade contextual está refleti- mente questionadas a partir de uma pers-
da de forma mais evidente no estudo de pectiva do problema social.
Moerman (1974) da tribo lue da Tailândia. Por exemplo, os comentaristas fazem
Moerman começou com o apetite conven- afirmações como “a família está sob amea-
cional do antropólogo a situar um povo em ça”. No entanto, onde vamos encontrar a
um esquema classificatório. Para satisfazer forma unitária de família assumida nesse
esse apetite, fez aos membros da tribo per- comentário? E “a família” não parece dife-
guntas do tipo: “Como você reconhece um rente em contextos que variam desde a casa
membro de sua tribo?”. até os tribunais ou mesmo o supermerca-
O pesquisador relata que os respon- do (ver Seção 3.4)? Em vez de considerar
dentes rapidamente começaram a propor- esses argumentos pelo seu valor nominal,
cionar-lhe uma lista completa de traços que o pesquisador deve fazer uso dos três tipos
constituíam sua tribo e a distinguia das tri- de sensibilidade para descobrir como os
bos vizinhas. Ao mesmo tempo, Moerman fatos realmente se dão em um mundo so-
percebeu que essa lista era, em termos pu- cial em que, como nos mostra Moerman,
ramente lógicos, infinita. Nesse caso, bus- as práticas dos indivíduos são inevitavel-
cando entender esse povo, talvez não seja mente mais complexas do que parecem.
tão útil suscitar um relato abstrato de suas
características.
Assim, Moerman deixou de pergun-
tar “Quem são os lue?”. Evidentemente, tais Dica
dispositivos de identificação étnica não
eram usados o tempo todo por estas pes- Evite pensar nas instituições sociais
soas, assim como nós também não os usa- como fenômenos isolados. Adquira o
hábito de considerar os vários contex-
mos para referir a nós mesmos em uma tos em que essas instituições tornam-
cultura ocidental. Em vez disso, Moerman se relevantes. Escolhendo se concen-
começou a examinar o que acontecia nas trar em apenas um desses contextos,
situações do dia-a-dia. é possível lidar de forma menos
Vista desta maneira, a questão não é complicada com o tema de pesquisa
escolhido.
mais quem são os lue em sua essência, mas
quando, entre os membros que vivem nes-
tas aldeias tailandesas, os rótulos de iden-
tificação étnica são invocados e quais as Uma observação final: os três tipos
consequências de invocá-los. De modo cu- de sensibilidade considerados oferecem
rioso, Moerman concluiu que, quando se maneiras diferentes e, às vezes, contradi-
encarava a questão assim, as aparentes di- tórias de gerar temas de pesquisa. Não es-
ferenças entre os lue e os ocidentais eram tou sugerindo que todos devem ser usa-
consideravelmente reduzidas. Apenas um dos no início de qualquer estudo de pes-
ocidental etnocêntrico teria suposto o con- quisa. No entanto, se não formos sensí-
30 David Silverman

veis a algumas dessas questões, corremos O Quadro 1.2 enfatiza o ponto res-
o risco de cair em um caminho baseado saltado no Quadro 1.1: os métodos são téc-
no “problema social” de definir os temas nicas que adotam um significado específi-
de pesquisa. co de acordo com a metodologia em que
são usados.
Por isso, na pesquisa quantitativa, a
Faça o Exercício 1.3 observação não é, em geral, vista como um
nesse momento método muito importante de coleta de da-
dos, porque é difícil conduzir estudos de
observação em amostras extensas. Os pes-
1.3 A VARIAÇÃO DOS quisadores quantitativos também argumen-
MÉTODOS QUALITATIVOS tam que a observação não é um método de
coleta de dados muito “confiável”, porque
Há quatro métodos principais usados observadores diferentes podem registrar
pelos pesquisadores qualitativos: observações diferentes. Se, apesar de tudo,
for usada, a observação só é considerada
 observação apropriada em uma fase preliminar ou
 análise de textos e documentos “exploratória” da pesquisa.
 entrevistas e grupos focais Em contrapartida, os estudos de ob-
 gravações em áudio e vídeo. servação têm sido fundamentais para mui-
tas pesquisas qualitativas. Começando com
Estes métodos são, com frequência, os estudos de caso pioneiros das socieda-
combinados. Por exemplo, muitos estudos des não-ocidentais realizados pelos primei-
de caso combinam observação com entre- ros antropólogos (Malinowski, 1922;
vistas. Além disso, cada método pode ser Radcliffe-Brown, 1948) e continuando com
usado em estudos de pesquisa qualitativa o trabalho de sociólogos em Chicago antes
ou quantitativa. Como mostra o Quadro da Segunda Guerra Mundial (ver Deegan,
1.2, a natureza geral da metodologia da 2001), o método de observação tem sido
pesquisa molda a forma como cada méto- com frequência o escolhido para o enten-
do é usado. dimento de outra cultura (ver Seção 3.1.1).

QUADRO 1.2 Diferentes usos para quatro métodos


Metodologia

Método Pesquisa quantitativa Pesquisa qualitativa

Observação Trabalho preliminar, por exemplo, anterior à Fundamental para o entendimento de


estruturação do questionário outra cultura

Análise textual Análise de conteúdo, isto é, contagem em Entendimento das categorias dos
termos de categorias de pesquisadores participantes

Entrevistas Pesquisa de levantamento*: principalmente Perguntas “abertas” para amostras


perguntas de escolha fixa para amostras pequenas
aleatórias

Gravação em Usada raramente para checar a acurácia de Entendimento da organização da fala, do


áudio e vídeo registros de entrevistas olhar e dos movimentos corporais

*
N. de R.T. No original, survey.
Interpretação de dados qualitativos 31
Tais contrastes também estão presen- Por exemplo, depois que os levanta-
tes no tratamento de textos e documentos. mentos de intenção de voto não coincidi-
Os pesquisadores quantitativos procuram ram com o resultado das eleições gerais
analisar o material escrito de uma maneira britânicas de 1992, os pesquisadores exa-
que produzirá evidências confiáveis com minaram novamente sua metodologia. As-
relação a uma amostra maior. O método sumindo que alguns respondentes no pas-
preferido é a “análise de conteúdo”, na qual sado possam ter mentido aos entrevista-
os pesquisadores estabelecem um conjunto dores sobre suas intenções de voto, alguns
de categorias e depois contam o número de institutos de pesquisa agora apresentam
exemplos que pertencem a cada categoria. uma urna em que os respondentes inserem
A exigência crucial é que as categorias se- seus votos – eliminando assim a necessi-
jam suficientemente precisas para permitir dade de revelar as próprias preferências ao
que diferentes codificadores cheguem aos entrevistador. Também tem-se dado aten-
mesmos resultados quando o mesmo corpus ção à montagem de uma amostra mais re-
de material (por exemplo, manchetes de presentativa para a entrevista, tendo em
jornal) for examinado (ver Berelson, 1952). vista o custo de uma amostra completa-
Na pesquisa qualitativa, a análise de mente aleatória de toda a população britâ-
conteúdo é menos comum (ver Marvasti, nica. Talvez como resultado dessas revisões
2004, p. 90-4). A questão fundamental é metodológicas, os números finais dos pes-
entender as categorias dos participantes e quisadores de intenções de voto se aproxi-
ver como eles agem em atividades concre- maram muito mais do resultado real das
tas, como contar histórias (Propp, 1968; eleições britânicas de 1997.
Sacks, 1974), montar arquivos (Cicourel, A “autenticidade”, mais que o tama-
1968; Gubrium e Buckholdt, 1982) ou des- nho da amostra, é frequentemente a ques-
crever a “vida familiar” (Gubrium, 1992). tão na pesquisa qualitativa. O objetivo é,
A confiabilidade da análise é tratada com em geral, reunir um entendimento “autên-
menos frequência. Em vez disso, os pes- tico” das experiências das pessoas, e acre-
quisadores qualitativos reivindicam sobre dita-se que as perguntas “abertas” são o
sua capacidade para revelar as práticas lo- caminho mais eficaz para tal fim. Por isso,
cais através das quais determinados “pro- por exemplo, na coleta de histórias de vida
dutos finais” (histórias, arquivos, descri- ou na entrevista de pais de crianças porta-
ções) são montados. doras de deficiências (Baruch, 1982), pode-
As entrevistas são comumente empre- se simplesmente pedir às pessoas: “Conte-
gadas nas duas metodologias. Os pesqui- me sua história”. Os estudos das entrevis-
sadores quantitativos aplicam as entrevis- tas qualitativas são, com frequência, con-
tas ou os questionários a amostras aleató- duzidos com amostras pequenas, e o rela-
rias da população, o que é conhecido como cionamento entre o entrevistador e o en-
“pesquisa de levantamento”. Em geral, dá- trevistado pode ser definido mais em ter-
se preferência a perguntas de “escolha fixa” mos políticos do que em termos científicos
(por exemplo, “sim” ou “não”), porque as (por exemplo, Finch, 1984).
respostas produzidas se prestam a tabula- Por fim, os dados de áudio e vídeo
ção simples, ao contrário das perguntas são raramente usados na pesquisa quanti-
“abertas”, que produzem respostas que pre- tativa, talvez devido à suposição de que eles
cisam ser subsequentemente codificadas. são difíceis de quantificar. Em contraparti-
Uma questão metodológica fundamental da, como veremos mais adiante (Capítulos
para os pesquisadores quantitativos é a 6 e 7), as gravações em áudio e vídeo, as-
confiabilidade do processo da entrevista sim como outras imagens, são uma parte
e a representatividade da amostra. cada vez mais importante da pesquisa qua-
32 David Silverman

litativa. As transcrições dessas gravações, O consentimento dos pacientes para


baseadas em convenções padronizadas, a presença do pesquisador foi obtido pelo
proporcionam um registro excelente da médico. Dada a suposta sensibilidade da
interação que “ocorre naturalmente”. Com- ocasião, não foi tentada a gravação da con-
paradas às anotações de campo dos dados sulta. Em vez disso, foram realizadas ano-
de observação, as gravações e as transcri- tações detalhadas, usando-se uma folha
ções, em geral, oferecem um registro bas- separada para cada consulta.
tante confiável ao qual os pesquisadores A amostra era pequena (15 pacientes
podem recorrer quando desenvolvem no- do sexo masculino observados em 37 con-
vas hipóteses. sultas durante sete sessões clínicas), e não
Esta apresentação antes abstrata pode houve questionamentos com relação à re-
agora se tornar mais concreta ao se exami- presentatividade. Como os métodos de ob-
nar vários estudos qualitativos usando cada servação eram raros nesta área, o estudo
método. Será citado o exemplo da pesqui- foi essencialmente exploratório. Entretan-
sa sobre os aspectos sociais da AIDS por- to, como veremos, houve uma tentativa de
que este é um tema contemporâneo, bas- vincular os achados a outras pesquisas so-
tante discutido, além de ser uma área em ciais sobre as relações médico-paciente.
que tenho trabalhado. Para cada estudo Como observou Sontag (1979), a
apresentado, será mostrado como diferen- doença com frequência é considerada uma
tes imperativos teóricos e metodológicos metáfora moral ou psicológica. O princi-
moldaram a escolha e o uso do método em pal achado do estudo foi a bagagem moral
questão. ligada ao fato de o indivíduo ser HIV posi-
tivo. Por exemplo, muitos pacientes usa-
vam um despertador para lembrá-los de to-
1.3.1 Observação mar sua medicação durante a noite. Como
comentou um paciente (P = paciente):
Em 1987, comecei me sentando em
uma clínica semanal montada no departa- P = É uma revelação mortal. Todo mundo
mento genito-urinário de um hospital do sabe o que você contraiu.
centro decadente inglês (Silverman, 1989b).
O propósito da clínica era monitorar o pro- Entretanto, apesar do clima social em
gresso dos pacientes HIV positivo que esta- que a infecção por HIV é encarada, havia
vam tomando o medicamento AZT (Retro- uma variação considerável na maneira
vir). O AZT, que parece ser capaz de retar- como as pessoas se apresentavam à equipe
dar a frequência em que o vírus se repro- médica. Foram identificados quatro estilos
duz, estava naquela época em um estágio de “auto-apresentação” (Goffman, 1959).
experimental de seu desenvolvimento. Cada estilo está brevemente resumido a
Como qualquer estudo de observação, seguir:
o objetivo era reunir informações de pri-
meira mão sobre os processos sociais em  Frio. Neste caso, até mesmo as declara-
um contexto de “ocorrência natural”. Não ções médicas preocupantes eram trata-
foi feita nenhuma tentativa de entrevistar das com um ar de polidez e aceitação,
os indivíduos em questão porque o foco era em vez de preocupação ou aparente an-
o que eles realmente faziam na clínica, e siedade. Por exemplo, um paciente, em
não o que pensavam sobre o que faziam. O geral, respondia todas as perguntas
pesquisador ficava presente na sala de con- monossilabicamente. Sua única inter-
sulta em um ângulo lateral tanto para os venção sustentada era quando lhe per-
médicos quanto para o paciente. guntavam o nome do médico que ele
Interpretação de dados qualitativos 33
estava consultando em outro hospital Três pontos importantes precisam ser
para tratar a infecção de pele. Ele não considerados nesta discussão. Em primei-
fazia comentários quando um dos mé- ro lugar, não havia uma correspondência
dicos observava que o AZT era o que o simples entre cada paciente e um “estilo”
mantinha vivo. particular de auto-apresentação. Ao con-
 Ansioso. No outro extremo, alguns trário, cada maneira de se apresentar esta-
pacientes aproveitavam até mesmo va disponível a cada paciente em qualquer
aparentes saudações como uma opor- consulta, na qual isso podia ter uma fun-
tunidade de exibir “ansiedade”. Por ção social particular. Portanto, o foco era
exemplo: mais nos processos sociais do que nos es-
tados psicológicos. Em segundo lugar, só
Médico: Como você está? consegui apresentar trechos breves para
P: Ah, muito fraco. É algo que eu não con- corroborar meu argumento. Como veremos
sigo definir. Não está funcionando. Não sei. no Capítulo 8, tal uso das evidências con-
duzia a dúvidas sobre a validade ou a
 Objetivo. Como já foi comentado em acurácia da pesquisa qualitativa.
outros estudos (ver Baruch, 1982, dis- Meu terceiro ponto é que estes acha-
cutido na Seção 4.8), os profissionais dos refletem apenas parte do estudo. Tam-
de saúde, em geral, se apresentam aos bém descobrimos como o ethos do “pensa-
médicos como uma lista de sintomas mento positivo” era fundamental para os
objetivos. Um desses profissionais, que relatos de muitos pacientes e como os mé-
era um paciente nesta clínica, compor- dicos sistematicamente se concentravam
tou-se exatamente desta maneira. Por mais nos “corpos” do que nas “mentes” de
exemplo: seus pacientes. Percebemos isso no trecho
anterior, em que o paciente resiste a uma
P: Eu estava imaginando se o Aciclovir, jun- tentativa do médico de fazê-lo falar mais
to com o AZT, pode causar neutropenia... sobre sua condição física. Isso conduziu a
[descrevendo seus sintomas de herpes]. Foi algumas questões práticas sobre a divisão
interessante você sugerir que eu o tomasse de trabalho entre os médicos e os conse-
quatro vezes ao dia, porque normalmente lheiros.
se recomenda tomá-lo cinco vezes ao dia.

 Teatral. Uma maneira de responder a 1.3.2 Textos e imagens


perguntas sobre sua condição física era
reduzir a ênfase em si mesmo e fazer Kitzinger e Miller (1992) observaram
comentários sobre situações sociais, re- a relação entre as reportagens da mídia
conhecendo o observador presente. Por sobre a AIDS e o entendimento do públi-
exemplo: co. Sua análise dos boletins de notícias da
televisão britânica constituem um bom
Médico: Como você está se sentindo fisica- exemplo de como a análise textual pode
mente? ser usada na pesquisa qualitativa sobre as-
P: Ótimo. A outra coisa que aconteceu [re- pectos sociais da AIDS.
lato sobre um médico que não o cumpri- Além disso, mostra como os pesqui-
mentou na rua]. Ele era apenas um maldi- sadores qualitativos evitam questões deri-
to charlatão como vocês. Sem ofensa [ao vadas de perspectivas de “problemas so-
pesquisador e ao estudante de medicina]. ciais”, embora reconheçam que os fenôme-
Afinal, eu sou um caso ruim; portanto, não nos são sempre socialmente definidos. A
preste atenção em mim. preocupação dos autores com a definição
34 David Silverman

social dos fenômenos é mostrada pelas as- ciais, professores), percebidas com “alto
pas que colocam em conceitos como envolvimento” na questão (por exemplo,
“AIDS”, “África” e o que é “realmente” o homens gays, prisioneiros) e com “baixo
caso. Como Kitzinger e Miller (1992, p. 28) envolvimento” (por exemplo, aposentados,
explicam: estudantes).
Embora membros de todos os grupos
Este capítulo concentra-se nas au- tenham sido céticos com relação à cober-
diências e no papel da mídia na mu- tura dos noticiários, aceitaram a suposição
dança, no reforço ou na contribuição geral de que a AIDS veio da África e é
para ideias sobre AIDS, África e raça. prevalente nesse continente. As pessoas
Não afirma se o HIV originou-se ou brancas, em geral, partiam da suposição
não na África... Não vamos tratar aqui
de que a África é um canteiro de doenças
diretamente de questões sobre onde
sexualmente transmissíveis, baseando-se
se originou “realmente” o vírus ou a
distribuição real da infecção. Em vez
na crença de que as relações sexuais em
disso, vamos nos concentrar em como geral se iniciam em idade precoce e de que
são produzidas, estruturadas e sus- as doenças sexuais são disseminadas atra-
tentadas respostas diferentes para vés da poligamia.
essas questões, o que elas nos dizem Entretanto, nem todos os indivíduos
sobre a definição de “AIDS” e “África” compartilhavam dessas crenças. Kitzinger
e quais as consequências sociopo- e Miller referem-se a vários fatores que le-
líticas que carregam consigo. vavam as pessoas a duvidar do tratamento
da mídia. Entre eles estavam os seguintes:
Foram examinados mais de três anos contato pessoal com informações alterna-
de reportagens de noticiários da televisão. tivas de indivíduos ou organizações con-
Em uma dessas reportagens, foram apre- fiáveis, experiência pessoal de ser “bode
sentadas estatísticas sobre a infecção por expiatório”, experiência pessoal das condi-
HIV para toda a África e foi exibido um ções na África, a própria pessoa ser negra.
mapa da África com a palavra “AIDS” Os autores (1992, p. 49) concluem:
abrangendo todo o continente. O mapa
também tinha nele estampadas as palavras Nossa pesquisa mostra tanto o poder
“3 milhões de infectados”. da mídia quanto a penetração de ima-
No período de três anos, o único país gens culturais brancas da África ne-
a ser distinguido como diferente do resto gra; é fácil acreditar que a África é
da África foi a África do Sul. Na verdade, um reservatório de infecção por HIV
em certa ocasião, a África do Sul foi des- porque ela se “ajusta” a isso. Os jor-
crita como “de prontidão” contra uma in- nalistas baseiam-se nessas suposições
vasão do HIV por parte da África negra. culturais quando produzem reporta-
Em contraste, imagens de africanos negros gens sobre AIDS e África. Mas, assim
com AIDS foram usadas em todas as re- fazendo, estão ajudando a reprodu-
portagens de jornais estudadas. Além dis- zi-las e legitimá-las.
so, a disseminação da epidemia foi rela-
cionada a “valores sexuais tradicionais” ou, O estudo de Kitzinger e Miller tem um
de modo mais geral, à “cultura africana”. banco de dados muito maior do que meu
Para ver como estas imagens da mídia estudo de uma clínica médica. No entanto,
causaram impacto em sua audiência, fo- compartilha duas características comuns.
ram estabelecidos muitos grupos de discus- Primeiro, em ambos os estudos os pesqui-
são entre pessoas com determinadas ocu- sadores começaram sem uma hipótese. Em
pações (por exemplo, enfermeiras, poli- vez disso, como acontece em muitas pes-
Interpretação de dados qualitativos 35
quisas qualitativas, procuraram induzir e Como em outras pesquisas qualitativas, os
depois testar hipóteses durante a análise pesquisadores não confiavam nas expli-
de dados. Segundo, os dois estudos foram cações de comportamento que reduziam
direcionados pela suposição teórica de que a vida social a uma reação a “estímulos”
os fenômenos sociais derivam seu signifi- ou “variáveis”.
cado da maneira como são definidos pelos Consequentemente, foi dada prefe-
participantes. As duas características são rência a perguntas “abertas” a fim de se
encontradas nos dois próximos estudos entender os significados ligados ao uso do
apresentados. álcool por sua amostra. Por exemplo:

Em primeiro lugar, perguntava-se aos


1.3.3 Entrevistas respondentes: “Você diria que o álco-
ol desempenha um papel importante
Weatherburn e colaboradores (1992) em sua vida sexual?”. Aqueles que
declaram que muitos estudos afirmam a responderam “sim” foram sondados
existência de uma associação entre o “abu- com detalhes sobre a exata natureza.
so” de álcool e droga e o comportamento Também foi perguntado se o álcool
sexual “arriscado”. De modo inverso, Wea- já os havia influenciado a se envol-
therburn e colaboradores (1992, p. 119) ver em comportamentos sexuais não-
sugerem que: seguros. (1992, p. 123)

o vínculo é afirmado, mas não prova- Em um estudo de entrevista aberta, é


do; a evidência é, na melhor das hi- típico encorajar os respondentes a apresen-
póteses, contraditória, e esta afirma- tar suas definições de determinadas ativi-
ção é feita por uma cultura moral dades – “sexo não-seguro”, por exemplo.
puritana. Os achados do estudo refletem a com-
plexidade da tentativa de explicar as “cau-
Em sua pesquisa, encontramos duas sas” do comportamento social. Concluiu-se
suposições que estão ausentes de estudos que os efeitos do álcool dependem do “con-
de pesquisa anteriores, geralmente quan- texto do encontro sexual e da outra parte
titativos: envolvida na negociação sexual” (1992, p.
129). Apenas em uma minoria dos relatos o
1. Não é feita nenhuma suposição sobre álcool foi tratado como a “causa” de com-
uma forte inter-relação entre o uso de portamento não-seguro. Na maioria dos
álcool e o envolvimento em sexo não- casos, embora as pessoas pudessem se qua-
seguro. lificar como “razoavelmente embriagadas”,
2. Os traços psicológicos (como defeitos descreviam suas atividades sexuais como o
de caráter ou fraqueza de determina- resultado de deliberação consciente.
ção sob a influência do álcool) são con- No entanto, os autores levantam uma
siderados uma explicação inadequada questão crucial sobre o significado que
para o envolvimento em práticas se- devemos atribuir a tais descrições, porque
xuais não-seguras (1992, p. 122-3). essas pessoas podem evocar as caracterís-
ticas dadas, que descrevem seu comporta-
Os pesquisadores Weathenburn e co- mento como socialmente desejável:
laboradores fizeram parte do projeto de
pesquisa SIGMA, sendo um estudo longi- reconhece-se que formular perguntas
tudinal britânico de uma coorte de base às pessoas que dêem uma retrospec-
não-clínica de mais de mil homens gays. tiva sobre o uso de álcool pode ser
36 David Silverman

problemático, seja devido a fenôme- cos diferentes na Grã-Bretanha, nos Esta-


nos de aceitação social, seja devido dos Unidos e em Trinidad-Tobago. O foco
ao fato de o próprio álcool prejudi- foi o aconselhamento (tanto como o acon-
car a lembrança. (1992, p. 123) selhamento era dado quanto como ele era
recebido). O interesse nesse aspecto deri-
Como veremos no Capítulo 4, esta vava de três fontes:
observação vai ao fundo de um debate não-
resolvido sobre o status dos relatos de en- 1. A pesquisa foi, em parte, financiada pela
trevistas, ou seja: English Health Education Authority, o
que significou que a análise das sequên-
 Esses relatos são representações verda- cias de aconselhamento estariam ade-
deiras ou falsas de características como quadas a seu interesse na promoção da
atitudes e comportamento? saúde.
 Ou são simplesmente “relatos” em que 2. O trabalho inicial do projeto identifi-
o interesse do pesquisador está mais cou dois “formatos de comunicação”
voltado para o modo como são cons- básicos, por meio dos quais esse acon-
truídos do que em sua acurácia? selhamento foi conduzido. A análise dos
formatos de “prestação de informações”
e “entrevista” proporcionou um recur-
Este estudo de entrevista destaca as
so crucial para a análise de como fun-
vantagens da pesquisa qualitativa em ofe-
cionava a provisão de aconselhamento
recer um quadro aparentemente “mais
(ver Peräkylä e Silverman, 1991).
profundo” do que as correlações basea-
3. Um estudo realizado por Heritage e Sefi
das em variáveis de estudos qualitativos.
(1992) de visitadores de saúde e mães
No entanto, isso também implica em por
proporcionou importantes achados so-
que pode ser difícil conseguir financia-
bre o relacionamento entre diferentes
mento ou aceitação para pesquisa quali-
formas de aconselhamento e seu enten-
tativa. Por mais questionáveis que sejam
dimento por parte do cliente.
as suposições por trás de algumas pesqui-
sas quantitativas, elas tendem a apresen-
Foi possível tabular o relacionamen-
tar correlações aparentemente confiáveis
to entre a forma como o aconselhamento
e válidas entre as “variáveis” que parecem
foi prestado e como foi recebido em 50 se-
ser auto-evidentes. Além disso, as corre-
quências de aconselhamento. Falando de
lações em geral conduzem rumo a orien-
forma ampla, o aconselhamento persona-
tações políticas claras.
lizado, oferecido depois de os clientes te-
Entretanto, algumas pesquisas quali-
rem sido solicitados a especificar suas pre-
tativas conseguem combinar a sensibilida-
ocupações, estava associado a um “reco-
de em relação às definições dos participan-
nhecimento marcante” (por exemplo, um
tes com correlações que conduzem a im-
comentário sobre o aconselhamento ou um
plicações políticas diretas. Veremos isso em
questionamento adicional por parte do
nosso estudo final de pesquisa.
cliente). Inversamente, os conselheiros que
prestavam aconselhamento generalizado,
sem primeiro conseguir que seus clientes
1.3.4 Fitas de áudio especificassem um problema particular, em
geral recebiam apenas “declarações vagas”
O estudo de Silverman (1997) ba- (por exemplo, “mm”, “certo”, “sim”).
seou-se em fitas gravadas de aconselha- Entretanto, a disponibilidade de trans-
mentos de HIV/AIDS de 10 centros médi- crições detalhadas significou que podería-
Interpretação de dados qualitativos 37
mos ir além deste achado previsível. Nós 13. medidas de segurança .hhh se: ob-
procuramos, em especial, tratar das fun- viamente quer prevenir infecção no
ções do comportamento dos conselheiros – futuro.
sobretudo dado o fato de que, se questio- 14. P: [Mm hm
nados, muitos deles teriam reconhecido 15. C: [.hhhh O problema no momento é
que a provisão de um aconselhamento ge- que conseguimos aqui em {nomes
neralizado seria ineficaz. Esperávamos, as- 16. cidades} em particular (.) que você
sim, dar uma contribuição construtiva aos conhece a sua vida toda.
debates políticos, examinando as funções 17. P: Mm
das sequências de comunicação em um 18. C: Uh::m que você sabe (.) o tipo de
contexto institucional específico. grupos de alto r-risco (.) agora tam-
Examinaremos um importante extra- bém
to de dados (Extrato 1.1). Os símbolos da 19. estamos tendo também [transmis-
transcrição estão apresentados no Apêndi- são heterossexual (.) .hh Uhm=
ce no final do livro. 20. P: [Mm hm
21. C: =então obviamente todos precisam
se cuidar. .hhh Agora qu-quando
Extrato 1.1 (SW2 – A) eles
(C= conselheira; P = paciente) 22. obtêm um resultado de teste posi-
1. C: hhhh Agora, quando al:guém é tes- tivo er: então obviamente vão
tado (.) e eles obtêm um resultado 23. repensar muito cuidadamente as
de coisas. .hhhh Ser HIV positivo
2. teste negativo .hh é obviamente 24. não significa necessariamente que
ideal uh:m que(.) ele cuide de si a pessoa vai desenvolvar ai:ds (.)
3. para evitar [qualquer risco adicio- mais tarde.
nal de= 25. P: Mm hm
4. P: [Mm hm
5. C: =infecção. .hhhh Eu quero dizer Façamos três observações sobre este
obviamente que isso só é possível extrato. Primeiro, bem no início, C presta
6. até certo ponto, porque se .hhh aconselhamento sem ter suscitado de P a
você entra em um tipo de relacio- percepção de um problema. Razões de es-
namento paço não nos permitem incluir o que pre-
7. sério e prolongado com al:guém cede imediatamente este extrato, mas en-
.hh é claro que você não pode con- volve outro tópico (o significado de um re-
tinuar a sultado de teste positivo), e nenhuma ten-
8. usar camisinhas para sempre. .hh tativa é feita a fim de questionar P sobre
Uh:m e isso vem quando você toma sua possível reação a este tópico – isto é,
uma como ela pode mudar seu comportamento
9. decisão (0.4) uh:m se está pensan- após um resultado de teste negativo. Além
do em formar uma família e coisas disso, neste extrato, C introduz tópicos no-
desse tipo (0.6) você não continua vos (o que fazer em um relacionamento
a fazer sexo seguro. “sério” nas linhas 6-13; a disseminação do
10. [.hhhh Uh:m mas obviamente: HIV na cidade nas linhas 15-19), sem ten-
(1.0) você= tar suscitar as próprias perspectivas de P.
11. P: [Mm: Segundo, previsivelmente, P só pro-
12. C: =preci:sava (.) uh:m (.) tomar pre- duz variações em torno de “mm hm” em
cauções uhm (0.3) e continuar a resposta ao aconselhamento de C. Embora
tomar isso talvez indique que P está escutando,
38 David Silverman

não mostra o entendimento do paciente e oferecem apenas respostas mínimas como


pode ser encarado como um sinal de resis- “mm hm”. Parece que, se alguém está lhe
tência passiva ao aconselhamento (ver dando seu conselho personalizado, se você
Heritage e Sefi, 1992). Terceiro, C não per- não demonstra mais entendimento do que
sonaliza seu aconselhamento. Em vez de “mm hm”, isto será problemático para o
usar um pronome pessoal ou o nome do conselheiro. Em contrapartida, se você está
paciente, ela se refere a “alguém” e “eles” apenas dando informações gerais a alguém,
(linha 1) e “todos” (linha 21). então o “mm hm” ocasional é tudo o que é
Sequências de aconselhamento como requerido para que aquele que fala conti-
estas são muito comuns em três dos cinco nue nesse formato. Além disso, as sequên-
centros que examinamos. Então, temos de cias de aconselhamento truncadas e não-
nos perguntar por que os conselheiros de- personalizadas são também, em geral, bem
vem usar um formato que pode gerar tão mais curtas – uma consideração importan-
pouca reação por parte do paciente. Como te para conselheiros muito pressionados.
não pretendemos criticar os profissionais, Outra função de se oferecer aconse-
mas entender a lógica de seu objetivo, pre- lhamento assim é que isso toca claramente
cisamos observar tanto as funções quanto em muitas questões delicadas que surgem
as disfunções dessa maneira de proceder. ao se discutir o comportamento sexual.
Uma parte da resposta é encontrada Primeiro, a conselheira pode ser ouvida
no conteúdo do aconselhamento propor- fazendo referência ao que ela diz a “al-
cionado. Observe como, no Extrato 1.1, o guém”, para que a paciente específica não
conselheiro está dando aconselhamento precise se sentir invadida em sua vida pri-
sobre o que ela aos pacientes depois de vada; segundo, porque, como não há mé-
um determinado resultado de teste. Mas todo de questionamento gradual, não é re-
a paciente aqui ainda não recebeu seu re- querido que os pacientes se abram sobre
sultado: na verdade, ela ainda nem con- suas práticas sexuais com os tipos de hesi-
sentiu em fazer o teste, o que deixa em tações que encontramos em toda parte na
aberto ao paciente tratar o que está lhe nossa pesquisa (Silverman, 1997, Cap. 4).
sendo dito não como um aconselhamento, Terceiro, apresentando sequências de acon-
mas como uma prestação de informações selhamento que podem ser consideradas
(sobre o aconselhamento que C daria se P como prestação de informações, protege-
viesse a ser soropositiva ou soronegativa). se a conselheira de algumas dificuldades
Além disso, o tempo todo C evita perso- interacionais de parecer estar dizendo a
nalizar seu aconselhamento. Em vez de estranhos o que eles deveriam fazer nos
dizer o que ela aconselha P a fazer, usa o aspectos mais íntimos de seu comporta-
termo não-específico “alguém”. Toda a mento. Por fim, como seria previsível, o
pesquisa disponível sugere que a mudan- aconselhamento orientado para a informa-
ça de comportamento raramente ocorre ção produz muito pouco conflito. Então,
tendo por base apenas as informações. no Extrato 1.1, não há resistência ativa por
Então, por que os conselheiros querem parte de P. Na verdade, os temas se seguem
acondicionar seu aconselhamento de uma com um grau notável de calma e de gran-
maneira que torne menos provável o en- de velocidade.
tendimento do paciente? Assim sendo, o caráter do aconselha-
Uma resposta parcial está nas disfun- mento de HIV como uma conversa focali-
ções do conselho destinado ao recipiente. zada nos tópicos mais delicados explica por
Em todo o nosso corpo de entrevistas, os que sequências de aconselhamento trun-
conselheiros saem rapidamente dos con- cadas (como aquela observada no Extrato
selhos personalizados quando os pacientes 1.1) predominam em nossas transcrições.
Interpretação de dados qualitativos 39
Evidentemente, essas sequências são fun- 1.4 CONCLUSÃO
cionais tanto para contextos locais quanto
institucionais, o que enfatiza a necessida- Concentrando-me nos temas de HIV
de de localizar “problemas de comunica- e AIDS, tentei mostrar como quatro dife-
ção” em um contexto estrutural mais am- rentes métodos de pesquisa podem ser usa-
plo. Nossa pesquisa tinha muito a dizer dos na pesquisa qualitativa. Apesar dos di-
sobre a maneira como os conselheiros po- ferentes tipo de dados gerados, conduzem
dem organizar sua conversa para maximi- a uma forma diferenciada de análise que
zar o entendimento do paciente. No entan- evita a perspectiva de um “problema so-
to, sem mudança organizacional, o impac- cial”, mas que, em vez disso, indaga qual o
to isolado dessas técnicas de comunicação significado que os participantes atribuem
pode ser mínimo ou mesmo prejudicial. a suas atividades e a seus “problemas”.
Por exemplo, encorajar o entendimen- Tendo estabelecido quatro métodos
to do paciente em geral envolve sessões de qualitativos diferentes, quero fazer duas
aconselhamento mais longas. Conselheiros observações gerais. Em primeiro lugar,
experientes vão lhe dizer que, se ficarem como já enfatizei, nenhum método de pes-
tanto tempo com um cliente, o período de quisa se sustenta sozinho. Até agora pro-
espera dos outros vai aumentar, e alguns curei mostrar o vínculo entre os métodos e
clientes simplesmente irão embora – por- as metodologias na pesquisa social. Em se-
tanto, podem continuar seu comportamen- gundo lugar, no entanto, há um contexto
to de risco sem saber sua condição de HIV. societário mais amplo, em que os métodos
Sem dúvida, então, há ganhos em o são localizados e organizados. Como um
conselheiro estabelecer aconselhamentos exemplo recorrente, os textos dependiam
truncados e não-personalizados. Entretan- da criação da imprensa escrita ou, no caso
to, é óbvio que há perdas concomitantes de gravações de vídeo ou áudio, de mo-
em proceder assim. Como já vimos, esses dernas tecnologias de comunicação.
pacotes de aconselhamento produzem bem Além disso, atividades como obser-
menos entendimento por parte do pacien- vação e entrevista não são específicas dos
te e, por isso, sua função em criar um am- pesquisadores sociais. Por exemplo, como
biente em que as pessoas possam reexami- disse Foucault (1977), a observação do
nar seu próprio comportamento sexual é prisioneiro estava no cerne da reforma pe-
distintamente problemática. Duas soluções nitenciária moderna, enquanto o método
possíveis são sugeridas a partir dos dados de questionamento usado na entrevista re-
analisados por tal estudo. Primeiro, sequên- produz muitas das características do con-
cias de aconselhamento necessariamente fessionário católico ou da consulta psica-
“delicadas” e instáveis devem ser evitadas, nalítica. Seu caráter invasivo está refleti-
mas os pacientes devem ser encorajados a do na centralidade do estudo da entrevis-
tirar suas próprias conclusões de uma li- ta em grande parte da pesquisa social con-
nha particular de questionamento. Segun- temporânea. Por exemplo, nas duas cole-
do, deve ser proporcionado mais tempo, ções de artigos dos quais foram selecio-
pois tanto esse método quanto o aconse- nados os estudos de pesquisa anteriores,
lhamento passo a passo consomem muito 14 dos 19 estudos empíricos foram ba-
tempo. Trato destas questões mais detalha- seados em dados de entrevistas. Uma pos-
damente no Capítulo 11. sível razão para isso pode não derivar de
considerações metodológicas. Pense, por
exemplo, em como muitas entrevistas são
Faça o Exercício 1.4
uma característica central (e popular) dos
nesse momento
produtos dos meios de informação de
40 David Silverman

massa, desde os talk shows até “entrevis-  A teoria proporciona uma estrutura para
tas de celebridades”. Talvez todos nós vi- o entendimento crítico dos fenômenos e
vamos no que poderia ser chamado de uma base para considerar como pode ser
uma “sociedade de entrevista”, em que organizado o que é desconhecido.
elas parecem fundamentais para dar sen-  Os problemas de pesquisa são distintos
tido às nossas vidas (Atkinson e Silverman, dos problemas sociais.
1997).  Podemos gerar problemas de pesquisa
Tudo isto significa que precisamos re- valiosos empregando três tipos de sensi-
sistir a tratar os métodos de pesquisa como bilidade: histórica, política e contextual.
meras técnicas. Isso está refletido na aten-  Há quatro métodos principais usados
ção prestada neste livro à análise dos da- pelos pesquisadores qualitativos: obser-
dos, em vez de aos métodos de coleta de vação; análise de textos, documentos e
dados. imagens; entrevistas; gravação e trans-
A Parte 2 deste livro apresenta mais crição de interações que ocorrem natu-
detalhadamente cada método de pesqui- ralmente.
sa, e a Parte 3 retoma as questões de vali-  Há um contexto societário mais amplo
dade e relevância que são referidas neste em que os métodos de pesquisa são lo-
capítulo. No entanto, antes de lidarmos calizados e organizados.
com as questões detalhadas, será útil, à luz
dos estudos discutidos, examinar o que
outros escritores disseram sobre as diferen- LEITURAS RECOMENDADAS
tes propriedades da pesquisa qualitativa.
Este é o tema do Capítulo 2. Os textos introdutórios mais úteis são
Clive Seale, Researching society and culture
(2004b), Alan Bryman, Quantity and quality
PONTOS PRINCIPAIS in social research (1988) e Niegel Gobert,
Researching social life (1993). Uma análise
 O maior erro que os pesquisadores ini- qualitativa mais avançada é oferecida por
ciantes podem cometer é tentar um pro- Seale e colaboradores em Qualitatite research
jeto de pesquisa demasiado ambicioso. practice (2004), Miles e Huberman, Quali-
 Tanto na ciência quanto na vida coti- tative data analysis (1984), Hammersley e
diana, os fatos nunca falam por si, até Atkinson, Ethnography: principles in practice
porque qualquer conhecimento está (1995) e Denzin e Lindoln, Handbook of
impregnado de teoria. qualitative research (2006).
Interpretação de dados qualitativos 41

Exercício 1.1
Discuta como você poderia estudar pessoas que fazem justiça com as próprias mãos
(“vigilantes”). Há alguma diferença entre sua proposta de estudo e um bom documentário
de televisão sobre o mesmo tema (isto é, há diferenças nas perguntas que você faria e a
maneira como testaria suas conclusões)?
Agora considere: (1) se estas questões e (2) que contribuição, se há alguma, a pesquisa
da ciência social pode dar a esses problemas sociais.

Exercício 1.2
Harvey Sacks (1992) apresenta um caso em que você observa um carro encostado
próximo de você. Uma porta se abre, e uma adolescente sai e dá alguns passos. Duas
outras pessoas (um homem e uma mulher) saem do carro. Saem correndo atrás da jovem,
pegam-na pelos braços e colocam-na de volta no carro que, em seguida, vai embora.
Agora, responda a estas perguntas:

1. Sem usar seu conhecimento de ciência social, prepare pelo menos duas inter-
pretações diferentes do que você viu. Pense se há algo que você deva informar à
polícia.
2. Examine pelo menos duas interpretações diferentes de seu comportamento se:
(a) você relata este caso à polícia; ou (b) se não o relata.
3. Agora use quaisquer ideias que conheça de sua própria disciplina para descre-
ver e/ou explicar o que você viu.
4. Considere: (a) se estas ideias podem lhe dar um quadro mais “preciso” do que
sua descrição em 1; e (b) até que ponto precisamos escolher entre as descrições
em 1 e 3.

Exercício 1.3
Volte à sua interpretação dos “vigilantes” no Exercício 1.1. Agora examine como você
poderia gerar diferentes problemas de pesquisa usando cada um dos três tipos de “sensi-
bilidade” discutidos no capítulo, ou seja:

 histórica
 política
 contextual

Exercício 1.4
Uma vez mais se concentre nos “vigilantes”. Agora sugira que questões de pesquisa
podem ser tratadas por quaisquer dois dos quatro métodos discutidos no capítulo, ou seja:

 observação
 análise de textos, documentos e imagens
 entrevistas
 gravação e transcrição.

Agora considere: (1) quais são os méritos relativos de cada método ao lidar com este
tema; (2) o que pode ser ganho (se algo) com a combinação dos dois métodos (você
pode querer se dirigir à minha discussão de “triangulação” na Seção 8.3.2).

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