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FONOLOGIA EM NOVA GHAVE

Ministério daj
Educação ;

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LingUdlgem]
Português ou brasileiro? Um convite à pesquisa, Marcos Bagno
Linguagem & comunicação social — linguística para comunicadores, Manoel Luiz
Gdnçalves Corrêa
Por uma linguística crítica, Kanavillil Rajagopalan
Educação em língua materna: a sociolinguística na sala de aula,
Stella Maris Bortoni-Ricardo
Sistema, mudança e linguagem — um percurso pela história da linguística moderna.
Dante Lucchesi
“O português são dois” — novas fronteiras, velhos problemas,
Rosa Virgínia Mattos e Silva.
Ensaios para uma sócio-história do português brasileiro, Rose/ Virgínia Mattos e Silva
A linguística que nos faz falhar — investigação crítica, Kanavillil Rajagopalan, Fábio
Lopes da Silva [orgs.] - sob demanda
Do signo ao discurso — Introdução à filosofia da linguagem, Inês Lacerda Araújo
Ensaios de filosofia da linguística, José Borges Neto
Nós cheguemu na escola, e agora?, Stella Maris Bortoni-Ricardo
rs

Doa-se lindos filhotes de poodle — Variação linguística, mídia e preconceito, Ma Marta


Pereira Scherre
A geopolítica do inglês, Yves Lacoste [org.], Kanavillil Rajagopalan
Gêneros - teorias, métodos, debates, /. L. Meurer, Adair Bonini, Désirée Motla-Roth [orgs.]
O tempo nos verbos do português — uma introdução a sua interpretação semântica,
Maria Luiza Monteiro Sales Corôa

Considerações sobre
VO f'' CO O

Considerações sobre a fala e a escrita — fonologia em nova chave, Darcilia Simões


Princípios de linguística descritiva, M. A. Perini
Por uma linguística aplicada indisciplinar, Luiz Paulo da Moita Lopes
Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística
U. Weinreich, VV. Labov, M. I. Herzog
Origens do português brasileiro, Anthony julius Naro, Ma Marta Pereira Scherre
Introdução à gramaticalização — Princípios teóricos & aplicação,
Sebastião Carlos L. Gonçalves, Ma Célia Lima-Hernandes, Vânia Cristina Casseb-Galvão [orgs.]
a fala e a escrita
O acento em português — Abordagens fonológicas, Gabriel Antunes de Araújo [org.] FONOLOGIA EM NOVA CHAVE
Sociolinguística quantitativa — Instrumental de análise, Gregory R. Guy, Ana M" S. Zilles
Metáfora, Tony Berber Sardinha
Norma culta brasileira — desatando alguns nós, Carlos Alberto Faraco
Padrões sociolinguísticos, William Labov
Gênese dos discursos, Dominique Maingueneau
Cenas da enunciação, Dominique Maingueneau
Estudos de gramática descritiva — as valências verbais, Mário A. Perini
Caminhos da linguística histórica — “Ouvir o inaudível”, Rosa Virgínia Mattos e Silva
Limites do discurso — ensaios sobre discurso e sujeito, Sírio Possenti
Questões para analistas do discurso, Sírio Possenti
Linguagem & diálogo as ideias linguísticas do Círculo de Bakhtin, Carlos Alberto Faraco
Nomenclatura Gramatical Brasileira — cinquenta anos depois, Cláudio Cezar Henriques
Língua na mídia, Sírio Possenti
Malcomportadas línguas, Sírio Possenti, 3a edição revista e ampliada
r?>
Editor: Marcos Marcionllo
Capa e projeto grAfico: Andréia Custódio
Revisão: Maria Noèmia Freire da Costa Freitas • *)
Conselho eoitoriaC: Ana Stahl Zilles [Unisinos]
Carlos Alberto Faraco [UFPRJ (~)
Egon de Oliveira Rangel [PUC-SPJ
Gilvan Müller de Oliveira [UFSC, Ipol] C)
Henrique Monteagudo [Univ. de Santiago de Compostela)
Kanavillll Rajagopalan [Unicamp]
Sumário r >
Marcos Bagno [UnB]
Maria Marta Pereira Scherre [UFES] (M
Rachel Gazolla de Andrade (PUC-SP)
Salma Tannus Muchail [PUC-SP] r)
Stella Maris Bortoni-Ricardo [UnB]
)
Por que uma nova edição?, 7

A chave e as portas, 9
( )
C)
CiP-BRASll. CATALOGAÇÃO NA FONTE
í
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Parte I: Subsídios Técnico-teóricos
S613c
Simões, Darcilia, 1951 -
A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO FONOLOGICO NA o
Considerações sobre a fala e a escrita: fonologia em nova chave / APREENSÃO DO FUNCIONAMENTO DO SISTEMA DE UMA LÍNGUA, 11
Darcilia Simões. - Sào Paulo: Parábola Editorial, 2006.
(Lingualgem); 16) l .)
Palavras iniciais, 13
inclui bibliografia (, )
ISBN 978-85-88456-53-2
Subsídios para um enfoque teórico: breve revisão, 15
1. Língua portuguesa - Fonética 2. Língua portuguesa -
< ).
Ortografia e soletração. i. Título. II. Série Uma proposta de abordagem de problemas da escrita infantil, 47 VJ
06-0743 COD 469.2
CDU: 811.134.3*234 Mudanças linguísticas, 63 í..)

i)
Parte II: Estudos aplicados, 75

: J)
A contrução fonossemiótica dos personagens de Desenredo
de Guimarães Rosa, 77 l ')
Direitos reservados à
u
PARÁBOLA EDITORIAL
Rua Dr. Mário Vicente, 394 - Ipiranga
O sertanejo cantando tirana, 91
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Aulas de português: parada de sucessos, 103
e-mall: parabola@parabolaeditorial.com.br

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra


Palavras finais, 115
pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia
e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de Bibliografia, 117 •t.J
dados sem permissão por escrito da Parábola Editorial Ltda.

ISBN: 978-85-88456-53-2'
1a edição - 1a reimpressão - abril/2010
© do texto: Darcilia Simões
© desta edição: Parábola Editorial, São Paulo, março de 2006

t
Abreviações e símbolos utilizados

adj. adjetivo
Por que uma nova edição?
J

bras.. brasileirismo
cf. conferir com
DMT desinência modo-temporal Sob os auspícios da Parábola Editorial, vem a público a quarta edição
e.g. exempli gratia corrigida e atualizada de Considerações sobre a fala e a escrita — Fonologia
em nova chave.
fig- sentido figurado
O projeto apresentado nesta obra nasceu em 1991, como uma proposta de
f.v. forma verbal curso de atualização promovido pela Faculdade de Formação de Professores
de São Gonçalo (FFP). Naquela oportunidade, conversamos com cursistas,
Id indicativo
docentes e fonoaudiólogos, o que possibilitou um avanço nas considerações
Id Ft, futuro do pretérito do indicativo que se faziam acerca dos problemas verbais em questão.

Id Pt, pretérito imperfeito do indicativo Verificou-se então que muitas das dificuldades de interação vivenciadas nas
classes de alfabetização decorriam especialmente de alguns desconhecimentos
) '
Id Pt2 pretérito perfeito do indicativo técnicos, por parte dos docentes, do sistema linguístico e de suas particularidades
) Id Pt3 pretérito mais-que-perfeito do indicativo internas e externas. A observação da língua como um fato social sujeito a inter­
venções históricas quase nunca era objeto de discussão nos cursos de formação
,;> rP
P r2’P1 P3’ 1 P
’ 1P5’ 1 6 P
4
eu, tu, ele, nós, vós, eles de docentes, tampouco nos de atualização ou aperfeiçoamento.
y
S. substantivo Com o avanço das conversas durante o curso, começamos a reunir materiais
> que davam margem a análises técnicas que (apesar de não muito complexas)
) s.u. sub voce = na voz de ofereciam suporte aos docentes, não só para a compreensão das dificuldades
.) TLA Trabalhos de Linguística Aplicada do alunado, assim como para o entendimento das soluções que os discentes
produziam quando enfrentavam problemas de natureza gráfica, sobretudo. E
); V. verbo assim demos início a um novo modelo de encaminhamento do processo de
aquisição ou aperfeiçoamento da língua escrita.
var. variante
As estratégias de abordagem linguístico-didática propostas pelos cursos
VT vogal temática
que sucessivamente passamos a ministrar na FFP (de 1991 a 1995) foram-
-se incorporando às disciplinas de língua portuguesa e linguística da grade
curricular do curso de Letras, uma vez que os docentes da UERJ também
aprovaram o modelo de trabalho proposto.
Outras instituições nos chamavam a ministrar cursos rápidos de atua­
lização docente para apresentar o material que então denominávamos
Fonologia aplicada à alfabetização.
8 CUNSlUfcKAV^^a avnjiu,

<
A demanda foi-se mostrando tão alta que, em 1997, decidimos publicar
nosso primeiro livro reunindo o material produzido nos cursos, inclusive
com auxílio-dos cursistas. Este livro teve a colaboração de alunos do curso iI
de especialização de língua portuguesa do Instituto de Letras e da docente O
colaboradora, Cláudia Maria Ferreira, que coparticipou dos cursos minis­
A chave e as portas O
trados na FFP.
(")
Apesar de despretensioso, o livrinho, que foi intitulado Estudos fonoló- ( )
gicos (1997), esgotou-se em menos de um ano. Docentes do Instituto de
i1
Educação do Rio de Janeiro (hoje ISERJ) adotaram o livro nas turmas de
Nos estudos de língua portuguesa, a fonologia talvez seja o campo em
formação de professores para o ensino fundamental, e os últimos quinhentos
que os pesquisadores encontram as maiores resistências entre os leitores
exemplares foram ali absorvidos.
hipotéticos que compõem* o que poderíamos chamar de “contingente
Em respeito ao público leitor, partimos para uma nova obra, então linguístico-gramatical” da estética da recepção, data venia de nossos colegas
denominada Fonologia em nova chave. Considerações metodológicas sobre da área de teoria da literatura.
a fala e a escrita (2003), que obteve o mesmo sucesso da anterior, pois foi
adotada em cursos de Letras dentro e fora da UERJ. Com a colaboração Com efeito, a insistência no ensino exclusivamente descritivo dos itens
dos alunos da disciplina de mestrado Tópicos de fonologia da língua por­ referentes à fonética e à fonologia, dissociados de sua aplicação real e ex­
tuguesa (2004-2), foram observadas falhas de editoração e pontos em que pressiva na língua viva, tem contribuído para a exclusão — nem sempre
seria necessário aperfeiçoar a descrição ou a exemplificação. disfarçada — desse assunto das preferências e galerias acadêmicas.

Em 2005-2, novamente o livro serviu de base para curso-disciplina do O livro que temos diante dos olhos oferece-nos, porém, uma “nova
mestrado de língua portuguesa, e os cursistas (em especial, a ouvinte Luizete chave”. E o que nos diz seu subtítulo, despertando a curiosidade do
Adelaide da Pena de Souza) mais uma vez trouxeram contribuições que fo­ intelectual que cogita, enfim, sobre o desvendamento de alguma senha
ram acrescidas ao texto, e assim nascia mais uma edição revista e atualizada. que mostre mais do que as habituais relações da fonologia. A principal
delas - com a fonética - está muito bem sintetizada nos ensinamentos
Agora entrego aos meus colegas e leitores a 4a edição, intitulada Consi­
de Carlos Henrique da Rocha Lima, desde a primeira edição (em 1957)
derações sobre a fala e a escrita — Fonologia em nova chave, convidando-os
de sua Gramática normativa da língua portuguesa: “Estes dois ramos
não só à incansável e permanente discussão, como também a possíveis
da ciência linguística não se opõem: antes se coordenam e completam.
colaborações para o contínuo aperfeiçoamento deste projeto de leitura de
Porque somente com apoio numa boa descrição fonética é possível
questões que envolvem o processo de aquisição da modalidade escrita da
depreender-se, com segurança, o quadro dos fonemas de uma língua” (p.
língua portuguesa entre nós.
14, 31a ed, 1992).

São Gonçalo, abril de 2010. A fonologia e a fonética estão também de braços dados com a ortografia, a
Darcilia Simões ortoépia e a prosódia, e as consequências da quase sempre tardia revelação
dessa parceria são por demais conhecidas de todos, pois se desnudam nas
salas de aula dos cursos de formação de futuros professores ou mesmo no
exercício docente em turmas dos ensinos fundamental e médio.

Considerações sobre a fala e a escrita — Fonologia em nova chave investe


em outra porta, uma outra porta a ser aberta dentro da sala, a que mostra
o fascinante território a ser explorado por conhecedores menos, ou mais,
experientes da fonologia portuguesa. Sintaxe? Morfologia? Dialetologia?
Semântica? Estilística? Lexicologia? Pedagogia? Sociolinguística? Análise
do discurso?
Para onde pode levar o estudo fonológico?
Pense mais um pouco e aumente essa lista. Vá para a literatura, para
as histórias em quadrinhos, para a música, para o futebol... Afinal, ela é
apenas o começo de uma aventura que não precisa ter fim.
Darcilia Simões apresenta-nos uma obra que conjuga essas duas portas,
a que leva para dentro do conhecimento técnico, sem a intenção de fazer PARTE I:
“a descrição minuciosa do sistema fônico da língua portuguesa falada no
Brasil” (cf. “Palavras finais”), e a que leva para fora, para o lugar onde se
SUBSÍDIOS TÉCNICO-TEÓRICOS
concretizam as aplicações pedagógicas e as coisas do espírito.

Rio de Janeiro, fevereiro de 2003

Cláudio Cezar Henriques


Professor Titular de Língua Portuguesa
do Instituto de Letras — UERJ
A IMPORTÂNCIA DO
CONHECIMENTO FONOLÓGICO

NA APREENSÃO DO FUNCIONAMENTO

DO SISTEMA DE UMA LÍNGUA


Palavras iniciais
Seja qual for a língua ponto de chegada, é importante
o domínio da língua materna: a primeira janela
para o mundo (Vilela, 1995: 250).

Jx O /O-o iç X <j -e 'l. t. i


tx V) I . . .. .
^/\ '• I Í' ; - A \ ■ ' 's
v
rvV Acreditamos.na importância do domínio da língua materna e, por isso,
> vimps nos empenhando em deixar contribuições para o ensino e aprendiza­
gem do vernáculo. A presente obra é resultante de um trabalho construído
a partir da observação do desempenho linguístico em português de estu­
dantes da pré-escola ao 3o grau, em que se buscou analisar as dificuldades
manifestadas na produção escrita dessa ampla clientela.

Considerando as avaliações dos diversos programas educacionais que


atravessamos ao longo de mais de trinta anos de efetivo exercício do ma­
gistério e as solicitações acadêmicas de aprofundar o conhecimento da
camada fônica da língua portuguesa, acabamos por adentrar os portais
da fonologia vernácula e deflagrar um processo de autoindagação sobre
possíveis origens para as dificuldades materializadas na fala e refletidas na
escrita de nossos alunos.
%

(iJ' Utilizando textos escritos e alguns materiais levantados pelos próprios


alunos com fins de pesquisa, chegamos à conclusão de que nosso trabalho
v- .^teria um cunho muito mais técnjco-dijático que propriamente fonológico-
\ -linguístico, uma vez que ríão traríamos contribuições teóricas ou nomen-
y* claturais para a subárea em questão, senão alguma sugestão pedagógica
; / dirigida ao ensino-aprendizagem da língua portuguesa.

y f\ Integra este trabalho uma seção de revisão teórica na qual fazemos al-
** . gumas releituras pessoais de definições ou conceitos que circulam na área,
j com vistas a dar-lhes uma dimensão pedagógica, sem, no entanto, privá-los
da necessária cientificidade.

As considerações tecidas acerca da variação linguística e de seus re­


flexos na produção escrita (literária ou não) são fortes argumentos para
i v / n v . / L i v / v n v . A /

a sustentação cie nossas interpretações das formas selecionadas (ou mes­


mo criadas) pelos autores de textos que se prestam à ilustração dos fatos
comentados. Entendemos que, da mesma forma que a fala (língua oral)
nn

varia, a escrita tem de variar, sob pena de mutilar a expressão dos matizes
diferenciais do pensamento, oriundos da distribuição do homem pelos
tempos e lugares geográficos e sociais. Subsídios para um enfoque teórico: breve revisão
Como consideramos o signo como objeto formal de nosso trabalho (pois
o observamos semioticamente) e o perscrutamos como material disponível
para a semiose (produção de significação) ilimitada, temos de analisá-lo em
‘ si e em relação (endógena e exógena), para que se torne possível captar os
valores significativos produzidos a partir de sua seleção e combinação no texto. 1. Preliminares importantes
Cremos ter deixado claro para nossos leitores que a intenção fundamental
deste estudo é rediscutir a atuação docente quando diante de problemas de Observadas as dificuldades encontradas pelos professores de língua,
natureza fônico-gráfica, observando que o raciocínio linguístico do usuário em geral, e pelos alfabetizadores em especial, resumimos alguns pontos
(estudante ou não) se constrói sobre paradigmas nem sempre conformes importantes dos aspectos fônicos da língua portuguesa a serem considerados
com o modelo empregado na normatização dos empregos linguísticos (or­ durante o aprendizado da leitura e da escrita. Da prática de sala de aula
tografia, gramática normativa etc.); e que a lógica desenvolvida por esses (incluindo dez anQs_como alfabetizadora de crianças e adultos), buscamos
w

• falantes acaba por viabilizar a construção de hipóteses teóricas, por meio compilar tópicos que problerriatizam o processo de aquisição da língua
das quais se torna possível uma nova reflexão sobre os padrões gramaticais escrita, especialmente nos primeiros anos de escolarização.
e ortográficos vigentes em busca de uma harmonização entre os postulados Nossa atenção voltou-se para tais questões devido às consequências
linguísticos, o uso efetivo, o compromisso da comunicação e o processo de detectáveis no desempenho oral e escrito dos estudantes, que chegam à
ensino-aprendizagem do vernáculo. ^ universidade com uma série de sequelas no falar e no escrever.
w

Nossa meta principal é criar esquemas facilitadores do entendimento Sabemos que o domínio das formas escritas não pode ser adquirido
dos mecanismos da língua, com vistas a gerar prazer no contato com a imediatamente; ele se faz com a prática da língua: muitas leituras e muitas
informação linguística (as aulas de português não precisam ser enfadonhas), escrdtas. Contudo, há estruturas básicas da fonologia da língua que podem
*, estimular o gosto pela prática consciente na produção textual (construção e devem ser assentadas desde as primeiras séries do ensino fundamental,
de enunciados mediante seleção e combinação cuidadosas, em busca da para que o estudante obtenha pontos de partida para seu aperfeiçoamento,
melhor expressão) e a compreensão dos mecanismos da língua como es- /. fundamentando sua prática de usuário da língua com uma boa dose de
tratégias de manifestação do pensamento que, no registro padrão, carecem
raciocínio linguístico.
de normatização^ em benefício da mais ampla comunicabilidade. Em
outras palavras, demonstrar a possibilidade de uni ensino pragmático (sem Não queremos pregar nenhuma mudança radical no processo de ensino-
excessos) no qual a clientela se integre não por coerção externa, mas por -aprendizagem da língua portuguesa, mas estimular um trabalho mais
desejo, por motivação interna, por necessidade de melhorar a qualidade racional, menos memorizante, através do qual o aluno possa apropriar-se
de seu desempenho linguístico em prol de uma participação social mais das estruturas da língua com mais facilidade, já que poderá compreendê-
ampla e significativa. -las melhor.
Vw*

Visando fornecer subsídios para esses trabalhos, escrevemos o presen­


te estudo, no qual focalizamos pontos que consideramos fundamentais
16 A IMPORTÂNCIA DO CONHKC 1 MENTO KONOLÓGICO
. . -)

para o domínio da camada fônica da língua portuguesa, assim como para fonologia/ sincrônica,» visto que aquelas ocorrem em qualquer tempo nas )
seus reflexos e interferências no uso escrito. línguas vivas. Por exemplo, se as variações dialetais fossem observadas no
foco dos metaplasmos, seria possível entender o fenômeno das perdas e
Dentre esses pontos, observamos a complexidade do sistema alfabético-
acréscimos de substância fônica, facilitando o entendimento de determinados
-ortográfico com que os ocidentais grafam seus enunciados. Este é um grande
fatos captáveis na língua oral e, muitas vezes, transpostos para a escrita.
obstáculo -para o estudante em seus primeiros contatos com o texto escrito.
•j- # . . • . / *r
v* Fatos semânticos como a paronímia seriam mais bem trabalhados pe­
Antes, porém, de qualquer especulação direta sobre a língua objeto,
los docentes, dado que a complexidade decorrente da semelhança fônica
cumpre lembrar que ninguém escreve como fala nem fala como escreve.
passaria a ser alvo da atenção dos estudiosos. O mesmo sucederia com a
Logo: ainda que o processo de aprendizagem da lectoescritura (cf. Ferreiro,
homonímia, a homofonia e a homografia. Tais fatos linguísticos têm ficado v'
1987: 35 ) seja simultâneo, trata-se de modalidades diferentes da língua
relegados ora à ortografia, ora à morfologia ou mesmo à semântica, sem ^ ■,
,^omo veículo de interação social.
que se preste atenção no’ signo objeto. E preciso trabalhar paradigmati-
A língua falada conta com a assessoria de recursos como o gesto, a camente com as formas que se ofereçam à análise, para que, por meio
expressão facial, o tom e o timbre de voz etc., os quais não são transpor­ do confronto das formas, tornem-se visíveis as semelhanças e diferenças
táveis para o escrito. nos significantes.
(i
A língua escrita, por sua vez, apresenta figuras não conversíveis em Finalizando estas reflexões iniciais, esclarecemos que a nossa proposi­
som (letras “mudas”, pontuação, diacríticos etc.); espaços em branco sem ção de uma fonologia em nova chave, nestas nossas Considerações sobre a
correspondência no texto oral, visto que a emissão oral é contínua, além fala e a escrita, significa uma proposta técnico-metodológica de descrição
de outras particularidades. e entendimento do material fonêmico e de suas consequências.na cadeia <
Por isso a apropriação da leitura e da escrita, pela criança em especial, da fala, nos processos interacionais mediados pelo vernáculo. <
N é um processo de alto grau de complexidade e requer do professor com- L
, petênciaUécnico-pedagógica^ específica, para que as dificuldades possam
ser minimizadas. 2. Conceitos operacionais v

i.,
Há mil problemas em torno da aprendizagem da leitura/escrita, desde Para que nosso trabalho se desenvolva tecnicamente, achamos por bem (.
a movimentação dos olhos — de cima para baixo e da esquerda para a iniciar com o assentamento de determinados conceitos (òu definições) que v
direita — até a análise última do vocábulo como uma sequência de figu­ julgamos básicos para a compreensão do que vem a seguir.
ras — letras ou grafemas — que, em princípio, correspondem a entidades
sonoras — fonemas — resultantes do uso das potencialidades do aparelho 2.1. Fonética e fonologia
fonador humano.
Os livros de gramática, em geral, trazem um capítulo inicial a que in­
Além desses argumentos, cumpre acrescentar que o conhecimento não titulam ora fonética, ora fonologia (ou fonêmica). Outros há que reúnem
só do material sonoro que produz a realidade oral da língua, mas também tais termos na apresentação do capítulo. No entanto, nem sempre são
dos fenômenos decorrentes da atuação dos órgãos da fala em consequência felizes no estabelecimento dos liames que separam tais noções. Por isso, Ç;
do ritmo que se imponha ao texto, torna possível a compreensão de fatos eis nossas definições. •/
gramaticais ou textuais que, sem tal conhecimento se mostram obscuros,
abstratos e complexos. 2.1.1. Fonética L

O estudo de mudanças morfofonêmicas (metaplasmos), quase sempre Parte dos estudos linguísticos que se ocupa do levantamento de todos
reservado à, díacronia,/pode ganhar um espaço relevante no estudo da os sons produzidos pelos falantes — sons da fala — com vistas a viabilizar
10 A i i v i t i • • • • - — ........................................ -

as distinções dialetais que caracterizam comunidades linguísticas e, conse­ sígnica provocada pela presença (ou ausência) do fonema /S/ na construção
quentemente, seu subagrupamento geográfico (pelas variações dmtópicas), da forma linguística, o que gera a oposição singular/plural.
social (pelas variações diastráticas) ou mesmo individual (pelas variações
Para dar suporte ao entendimento de nossos estudos, trazemos ao
diafásicas). ';» > ' presente texto uma revisão compacta do conteúdo teórico básico para o
O U U ----------- ^ ^

Então, interessam aos estudos fonéticos as diferentes realizações de entendimento dos mecanismos fonológicos da língua portuguesa do Brasil,
-

fonemas como os que são representados graficamente pelas letras [s] e [t] tomando por base os estudos mattosianos. . .....
da palavra gosto (f.v.):
2.2. O aparelho fonador
a) no falar carioca — pronúncia chiante do travador de sílaba /SI seguida
de oclusiva dental /t/ O homem é um ser natural, em princípio, como os outros animais, os
b) no falar sulista — pronúncia sibilante do travador /s/ seguida de minerais e os vegetais. E, no entanto, um transformador da paisagem: ele
modifica seu habitat; por isso, o homem é, posteriormente, um ser cultural.
oclusiva dental /t/
E, no exercício de suas atividades culturais, surge a função social — a de
c) no falar caipira — pronúncia chiante do travador /tjV e da oclusiva
estruturação da sociedade —, que se sustenta na comunicação, a qual, em
dental /t/ (palatalizada). .....-------r~x
primeira instância, realiza-se pela interação verbal que se materializa na
A fonologia resolve essa variação por meio da figura do krguifonemjK No
fala: produto do aparelho fonador.
caso apresentado, as variáveis são resumidas no arquifonema sibilante /SÁ
Ainda que observada a variaçãoCaíofônica)/t/ e /tjV — realizações fonetica­ Os órgãos que compõem o aparelho fonador são: pulmões, brônquios,
mente distintas de um mesmo fonema'— pode-se concluir pela irrelevância traqueia, laringê, glote, faringe, úvula, fossas nasais, cavidade bucal, língua,
do fato sob o prisma fonológico, dado que tal variação (ou alofonia) não dentes e lábios.
produz alteração no signo: o significado do vocábulo se mantém, indepen­ Os pulmões fornecem a energia para a produção do som: os seus
dentemente da pronúncia, seja ela “a”, “b” ou “c”. movimentos provocam as correntes de ar inspiratórias e expiratórias, cujo
movimento controlado gera a voz.
2.1.2. Fonologia (ou fonêmica)
Parte da linguística que se ocupa dos sons da língua, ou seja, le­ Os brônquios e a traqueia servem de canais condutores da corrente
aérea dos pulmões para a laringe e vice-versa.
vanta, classifica e estabelece as djstin£ões_básjcas^entre os fonemas de
uma língua, visando à descrição de sua estrutura fônica, o que possi­ Na laringe, situa-se a glote, órgão essencial da fonação, onde estão as
bilita distingui-la de outras línguas e definir seu padrão combinatório pregas vocais. Seu funcionamento poderia ser assim resumido: quando a
no nível da sílaba. glote está aberta e as pregas vocais afastadas uma da outra, a corrente aérea
originária dos pulmões passa livremente; nessa posição nenhurh som é pro­
u

Assim, a fonologia não leva em conta as diferenças dialetais, ocupando- duzido, é a posição da respiração natural; quando completamente fechada,
-se tão somente das diferenças fonemáticas (entre um fonema e outro, a glote interrompe a passagem da corrente aérea. Com a glote fechada, as
y. como /p/ e /b/, por exemplo), as quais produzem as distinções entre pregas vocais, muito próximas e relativamente tensas, opõem resistência à A
S' significantes e significados numa língua. Deve-se debitar na conta da corrente aérea e, consequentemente, vibram, produzindo o chamado som
; fonologia a análise de fatos gramaticais de certa complexidade — cra- glotal. Dá-se, então, a fonação, cujos efeitos sonoros resultantes variarão f\
sey homonímia, paronímia, hpmofonia, homografia etc,— que, se vistos de acordo com a tensão das pregas vocais (que são músculos) e com o
também numa Ótica fonológica, podem tornar-se mais compreensíveis estreitamento provocado no canal por onde transita a corrente aérea.
para o falante em geral.
A faringe serve, juntamente com a cavidade bucal, de caixa de res­
À fonologia não interessa se o falante chia ou sibila ao pluralizar os sonância, que permite amplificar certos harmônicos (variações do som
nomes. Alvo da atenção dos estudos fonológicos é, por exemplo, a distinção fundamental ou voz).
20 A IMPORTÂNCIA IKJ uwhiiuaibimv/ i .......

' * )
A úvulci, situada no fini do palato mole (na cavidade bucal), tem duas Na língua portuguesa, a base silábica é a vogal; alguns fonemas
resultam de combinações de sans_elementares como a nasalação *)
posições: (a) fachada, dirige toda a corrente expiratória para a cavidade
bucal, produzindo os sons ditos orais; (b) aberta, dirige parte da corrente (= vogal + travador); e há combinações impossíveis no padrão silábico ' )
expiratória para as fossas nasais, que como caixa de ressonância reforça português, como g/i, rx etc. o
outros harmônicos, gerando os sons ditos nasais. Ilustrando: Há variações de pronúncia que não pertencem à descrição fonêmica '•")
(ou fonológica) da língua, visto que não criam novas formas linguísticas, • )
ou seja, não interferem na comunicação verbal. r V)
Ilustrando: f )

■ rio r)
: '')
a) dissílabo — na pronúncia carioca;
b) monossílabo — na pronúncia sulista. {.)

■ tinta ( )
a) /t/ chiado = /tjV na pronúncia carioca; f-y
b) /t/ duro = H na pronúncia sulista. •)

v Não há correspondência entre o número de fonemas e o número de letras


(grafemas) no português, ou seja: há mais fonemas que letras no total. í)
C)
V Consoantes Vogais
A cavidade bucal tem papel importantíssimo na modulação do som glotal y ( ' ).
produzido nas cordas vocais, assim como na produção de ruídos. 20 letras 5 letras )
Antes, contudo, de discutir a construção dos sons propriamente dita, faremos 19 fonemas 7 fonemas (em posição tônica) y)
uma necessária incursão na língua escrita. < )
Há sons que são graficamente representados por: ';

3. Algumas questões fonológicoortograficas relevantes a) figuras diferentes: ' )

Ex.: o som sê — Isl — pode ser grafado com c, s, ss, ç, x} sc, sç, xc; ( ,i

A língua se estrutura a partir de um conjunto de sons tipo chamados, b) mais de uma figura combinada:
fonemas. A língua portuguesa, por exemplo, tem 19 (dezenove) consoantes
Ex.: o som rê — Ivl — pode aparecer grafado com r ou rr;
e 7 (sete) vogais (Mattoso Câmara Jr., 1973: 40 - Sua Ia edição data de
1953 e foi realizada pelas Organizações Simões). c) há letras que podem representar sons diferentes:
Ex.: [r] em arame é /r/; [r] em roda é /k/ U
Os fonemas são unidades mínimas não significativas, mas distintivas,
u
ou seja, unidades que distinguem as formas da língua. E assim por diante.
*k1
Ex. pato é diferente de bato. Estas são algumas particularidades da língua escrita que geram dificul­ u
A combinatória dos fonemas obedece a padrões silábicos específicos dade no processo de ensino-aprendizagem da estrutura fonêmico-ortográfica ly
de cada língua. do português. J Sm
(
4

__ ;\ l.virirnl:\iw.l.\ nw V.WIMHA.|.III.!MU i w. »..v .y.v.w NUUSiniOS PARA CM K\l (>(JIT. I IXMICO: BKKVK RKVISÀO IS

4. A PRODUÇÃO DOS SONS VOCAIS Alem disso, na produção dos sons, há outras questões a considerar, pois,
o dependendo de onde e como os sons são produzidos, nós os distribuímos
> A questão da nomenclatura quase sempre dificulta o aprendizado, uma em grupos (ou subgrupos).
vez que há uma tendência à memorização dos nomes sem, todavia, haver
a assimilação do que significam. 4.1. Classificação dos sons vocais
~) . •
Por isso, principiemos observando que vogal é o som da voz, ou seja, 4.1.1. Quanto à passagem do ar
aquele que resulta da expiração pura, livre de obstáculo. Melhor dizendo, o
Considerando o caminho da corrente de ar, ou seja, por onde ela passa
som vocálico — soante ou vogal — resulta de uma corrente de ar que vem até atingir a atmosfera, temos: (a) som oral — saída total do ar pela boca:
dos pulmões e atinge a atmosfera, livremente, transitando sem obstáculos Ex.; lá /a/; dê /e/; (b) som nasal — saída parcial do ar pelo nariz: Ex: lã
) pelo conduto respiratório. /aN/; som /oN/.
Ao contrário disso, o som consonantal — ou consoante — é um ruído 4.1.2. Quanto à zona onde se forma o som
) (som impuro) que resulta de corrente de ar que vem forçando passagem,
atravessando obstáculos no conduto respiratório até atingir a atmosfera. Segundo o local onde se dá o movimento básico da produção do fo­
nema, temos duas subclassificações:
Por isso, a vogal tem sua realização independente, enquanto a conso-
4.1.2.1 — para as vogais
) ante precisa de apoio vocálico para atualizar-se, isto é, não conseguimos,
) em português, realizar o som de um /p/, por exemplo, sem apoiá-lo numa Considera-se o movimento da língua: a) avanço (movimento para diante):
• vogal. Por isso, não há sílaba sem vogal em português, e o nome consoante vogais anteriores: /e/ /e/ /i; b) recuo (movimento para trás): vogais posteriores:
equivale a com vogai hl /o/ /u/; c) repouso (língua relaxada): vogal central: hl.
Mesmo em palavras como pneu, ritmo, dogma, acrescentamos vogais 4.1.2.2. para as consoantes
para apoiar as consoantes que, a princípio, não formam sílaba.
São considerados os órgãos bioqueadores da corrente de ar expiratória.
Assim, a realidade fonológica dessas palavras difere da realidade gráfica: São elas:

). Grafia Transcrição N° de sílabas N° de sílabas Classificação Realidade a) labiais (com oclusão dos lábios): Ipl Ibl /ml
) segundo a segundo rea- segundo tônica b) dentais (articulação nos dentes): Inl /t/ /d/ /f/ /v/ /r/71/
grafia lizaçüo fônica a grafia
3 c) alveolares (produção nos alvéolos dentais): Isl Izl
) pneu /pi ‘ne'7 monossílabo dissílabo átono oxítono d) palatais (articulação junto ao palato duro):
.) ritmo /’ri ti mU/ dissílabo trissílabo paroxítono proparoxítono h /jV (Ex. chá; xícara)
) dogma ido gi ma/ dissílabo trissílabo paroxítono proparoxítono ■ I3I (Ex. já; gelo)__________________________________________
)
a /ij/ (Ex. minha) e /Ã/ (Ex. ilha).
I Cumpre esclarecer que utilizamos a representação dos fonemas (sons da
, língua) entre barras inclinadas e dos grafemas (letras) entre colchetes; e o e) velares (articulação junto ao véu palatino):
acento tônico, na transcrição fonológica (representação entre barras), vem ■ /k/ (Ex. casa; queijo)
representado por aspa simples colocada antes da sílaba tônica. Portanto, nos ■ /g/ (Ex. goma).
vocábulos em questão, as sílabas V’ne'7 , /Vi/ e /'do/ são,* respectivamente,
f) uvular (produzido junto à lívula): /b/ (Ex. rato; arremate).
) . as sílabas tônicas.
>
4.1.3. Quanto ao modo como se produz o som Os fonemas sonoros decorrem de forte vibração das cordas vocais
durante a passagem da corrente expiratória pela glote (cf. Gili-Gaya,
Para as vogaisy considera-se a posição dos lábios: a) arredondadas (alta)*
1953: 68 ).
' /u/; b) semiarredondadas (média) /e/ /e/ /o/ /o/; c) não arredondada
•aixa) /a/. No português, todas as vogais são sonoras; já as consoantes dividem-se
em dois grupos:
As vogais médias, como formas intermediárias que são, apresentam
na particularidade, isto é, são passíveis de um desdobramento: semi- a) surdas: Ipl /t/ /k/ /f/ /s/ /JV
rredondadas - a) para menos (-): /e/. Ex: dê; lo/ Ex.: no; b) para mais
b) sonoras://?/ Idl /g/ A7 Izl /j/ hnl M hjl lll IaI Irl IkI Izl
-): lei Ex: fé; hl Ex: só.

Para as consoantes, considera-se o processo de desbloqueamento rea- 4.2. Estudando as vogais


zado na passagem da corrente expiratória.
Segundo 0 ensino tradicional (antes da contribuição da linguística), as
a. oclusivas (ou plosivas): cujo som resulta de um processo assemelhado vogais eram cinco: a é i 6 1 /, pois não se distinguia fonema de letra.
à explosão; o bloqueio é rompido abruptamente. São elas: /p/ /t/ /k/ Mas qual não é 0 espanto do aprendiz quando, logo nas primeiras
íbl /d/ /g/ \ palavras estudadas, aparecem vogais diferentes, como em meia, o ê — lei —
b. constritivas (ou fricativas, se considerado ,6 efeito auditivo): som não está no conjunto estudado; assim acontece com 00 — Iol — de ovo.
resultante de descompressão paulatina do$ órgãos bloqueadores da Também o som final de ovo é problemático, pois se fosse escrito como se
corrente expiratória, produzindo um som arrastado (captado pelos fala, deveria ser grafado *ovu.
ouvidos como fricção). São elas: /f/ /s/ /jV M Izl fel.
A linguística trouxe contribuições importantes nesse- setor dos estudos
c. nasais: resultantes da passagem pelo nariz do ar expirado^em decorrência
da língua, pois estabelece premissas como: %)Jetra é diferente de fonema;
do rebaixamento do véu palatino. São elas: /m/ In/ lr\l.
b) ojpnema só .se define no vocábulo. Por conseguinte, em posição:
d. laterais: resultam do toque da ponta da língua nos incisivos superiores
ou nas gengivas (alvéolos), o que promove a saída do ar pelos lados TÔNICA, AS VOGAIS PRE7ÔMCA, O QUADRO DAS VOGAIS
da boca. São elas: /l/ IÁI. PORTUGUESAS SÃO SETE SE REDUZ A CINCO. ASSIM:
e. vibrantes: decorrentes de movimento ondulatório da língua ou da saco /a/ ; a) calor /a/ . . caloroso /a/;
úvula, do qual resultam leves batidas. São elas:
seco Izl (f.v.); seco /e/ (adj.); b.l) céu lei...celeste lei ;
e.l) vibrante dental: Irl como em arame; sico /i/; b.2 ).selo /e/...selado /e/;
soco hl (f.v.); soco Iol (s.); c.l) mole hl...molenga- Iol;
e.2 .) vibrante uvular: /k/ como em rato ou carro.
suco lul. c.2) mofo Iol...mofado Iol;
4.1.4. Quanto à vibração das.cordas vocais d) vidro l\l . .. vidrado í\l;
e) sujo lul .. . sujeira lul.
Os fonemas podem ser classificados como sonoros ou surdos, se conside-
da a maior ou menor vibração das cordas vocais. São surdos os fonemas A oposição aberto/fechado — para as vogais médias — desaparece na
)S quais a vibração das cordas vocais se faz suave. posição pretônica, ou melhor, essa oposição deixa de ser distintiva provo­
cando o fenômeno da neutralização [Garreter, 1977: 292; cf. item 4.5.
Há estudiosos que afirmam que, nos fonemas surdos, as cordas vocais
deste estudo).
iò vibram (cf. Kury, apud Luft, 1976: 40; ou Infante & Nicola, 1991:35).
ontudo, sem tal vibração, ainda que tênue, não há voz (cf. Carreter^ Também se dá uma redução ao observarem-se as vogais postônicas (nos
>77: 124). proparoxítonos). Nessa posição elas serão apenas quatro.
............. wiiilL.\jimiil'HU rVANWLA SUBSÍDIOS PARA UM KNKOQUK TKÓRKX): BRKVK RKVISÂO 27

Observe-se o quadro: o |x] representa /ki si/. .Assim temos, no primeiro par - [ch] = /J7 -
a) lâmpada /a/ duas letras representando um fonema; no segundo par - [x] = /ki
si/ - uma letra representando quatro fonemas.
b) célebre lei
c) médico m 4.3. A sílaba portuguesa
• d.l) método lul
4.3.1. Definindo sílaba
• d.2 ) fécüla
nr

lul
Sílaba é o conjunto de fonemas emitidos a cada corrente de ar expirada.
Finalmente, as vogais átonas finais reduzem-se a três. Como: Para ilustrar, o vocábulo ja ne la tem três sílabas, pois precisamos de três
a) casa la/ expirações para produzi-lo. Por isso é que os professores costumam induzir
b.l) leite li/ à contagem de sílabas perguntando: Quantas vezes se abre a boca para dizer
)
ja ne la? Cada vez. que sé abre a boca, libera-se uma corrente expiratória,
b.2 ) cáqui li /
que produz uma sílaba. Então, serão tantas sílabas quantas vezes ocorrer
) c) rato lul o fenômeno descrito acima.
Importante lembrar que não há formas vernáculas paroxítonas cujo A sílaba é uma entidade sonora; portanto, sua depreensão só é possível
) último grafema represente a vogal átona final [u]. Em outras palavras: não na língua oral e só é captável materialmente pelos ouvidos. Por isso, os
) há palavras paroxítonas vernáculas escritas terminadas em [u].
exercícios de partição de palavras que são realizados desde as primeiras sé­
Mediante essas considerações, é possível perceber que muitas confusões ries escolares não devem ser entendidos como meio de grafação da divisão
detectadas durante o processo do aprendizado da escrita são consequência silábica, mas como o aprendizado de normas gramaticais para o corte das
da inobservância da realidade oral da língua, dado que a língua falada não palavras na mudança de linha — translineação.
pode ser fielmente representada pela escrita.
Segundo esses parâmetros, podem ser minimizadas as confusões resul­
Observada contextuai mente segundo uma abordagem funcional, a tantes de situações como: (a) para mudar de linha: car - ro; (b) para partir
concretização dos conceitos e definições fica mais fácil para o aprendiz. em sílabas (ao falar): /'ka ku/ igual a ca rro. (Obs. O símbolo /U/ representa
Retomando o início deste estudo, vale a pena fixar algumas caracterís­ o arquifonema vocálico posterior.) Só em ‘b’ é que se leva em considera­
ticas fonológico-ortográficas do português. Ilustrando: ção o fonema; em V, o que vale são regras elaboradas para uniformizar a
translação de partes de palavras ao final de linhas.
• Em apto/apito^ vê-se que, no primeiro elemento do par, a consoante
não consegue formar sílaba sozinha; daí a distinção entre ap e dpi, Com base no exposto, é possível não mais considerar incoerente a
em que o fonema /p/ busca apoio na vogal que o precede ou sucede, conservação de c/i, nh, lh, qu, gu, an, am etc. juntos num mesmo seg­
respectivamente. Contudo, ver-se-á adiante que a distinção das formas mento de palavra, ao passo que rr e ss precisam ser desmembrados para
apto/apito fica por conta da tonicidade (posição do acento tônico — partes vocabulares diferentes. Trata-se de um critério ortográfico, isto é, de
ou sílaba mais forte), a saber: a) apto = /a pi tu/; b) apito = /a ‘pi tu/
uniformização de grafia, sem que os fonemas sejam levados em conta em
...• Em casa e cidade, vê-se que uma mésma figura — grafema ou letra primeiro plano.
— pode representar fonemas diferentes: a letra [c] indica /k/ em casa
e /s/ em cidade; ou e/e e ela, onde o grafema [e] funciona como /e/ 4.3.2. A estrutura da sílaba
ou /e/y respectivamente. ~~ J . i .. » • Em português, a sílaba se estrutura numa base vocálica. <
• Em chuva ou táxi, vê-se que o número de fonemas nem sempre Vejamos o que diz Silva (2001: 171): (...) Pelo menos uma vogal deve
coincide com o número de grafemas, pois o [ch] equivale a /f/, e ocorrer em uma sílaba bem formada do português. Se duas ocorrem, uma

)
28 A IMPORTÂNCIA IX> CONHECIMENTO FONOLÓGICO

será assilábica (glicle). O glide pode preceder ou seguir a outra vogal (ver É interessante lembrar.que, na fase do balbucio, o bebê produz palavras
item 4.3.3). Logo: não há sílaba sem vogal em português. construídas apenas com vogais. Ex: aua = água; oa = bola, o que comprova
a classificação da vogal como som elementar, e da sílaba monofonemática
Para clarificar, passemos ao exame da configuração diagramática da como simples.
sílaba portuguesa.
Para representarem-se os tipos de sílaba, toma-se por base o seguinte
4.3.2.1. Em sua formação, podem ser captados três movimentos (ou fases): esquema (com exemplos de alguns dos tipos silábicos encontradiços em
a) ascendente — formando o aclive; b) clímax (ou auge) — formando o nossa língua):
ápice ou base (fase obrigatória); c) descendente — formando o declive.
CONVENÇÃO EXEMPLOS PADRÃO
Veja-se o gráfico:
c = consoante menino cV cV cV

V = vogal uva V cV

v = semivogal pai cVv

Mesmo trabalhando com sílabas complexas (com mais de um fonema),


os alfabetizadores escolhem as complexas livres (ou abertas — terminadas
em vogal), dada a sua pronúncia mais natural e o favorecimento à previsi­
bilidade estrutural (cf. Jakobson, 1972: 115).
4.3.2.2 — De acordo com a presença (ou ausência) dessas fases da
sílaba, teremos: (a) sílaba simples: só possui a base; é constituída por um 4.3.3. A semivogal
fonema (logo: uma vogal). Ex: é, há, oh; (b) sílaba complexa: constituída
Falou-se em semivogais durante este estudo; todavia, não nos detivemos
- por mais de um fonema; possui mais de um movimento; pode ter (entre
nestes fonemas de distribuição especial (ou complementar).
outras) as estruturas expressas no seguinte quadro: \/
Primeiramente, devemos lembrar que o termo semivogal (cf. vogais
FASES DA SÍLABA PADRÃO EXEMPLO assilábicas, in Mattoso Câmara Jr., 1977: 55ss.; glide, in Silva, op. cit.) já
base + declive Vc ar denuncia que tal fonema é cjuase vogal; portanto, não ç uma vogal plena.
aclive + base cV de Entretanto, só se vai descobrir a diferença quando examinadas a vogal
aclive + base + declive cVc par e a semivogal dentro da estrutura silábica (cf. item 4.3.2). Assim temos: pai
aclive + base + declive cVv pai [pj.no aclive; [a] na base; [i] no declive. Observe-se que às letras indicadas
correspondem os sons: /p/, /a/ e lyl. Este último vem assim grafado por
aclive duplo + base + declive ccVc flor
tratar-se da semivogal anterior.
aclive duplo + base + declive cvVv quão
Se já foi dito que a vogal está sempre na base, o grafema [i] — em pai
aclive duplo + base + declive duplo cvVvc quais — não é uma vogal plena. Ora, se é a produção livre ou com bloqueio
que distingue vogais e consoantes, é lógico que o [i] representa um som
A sílaba complexa compreende dois tipos: (a) complexa livre: não
tem declive; termina na base. Ex: lá; (b) complexa travada: tem declive vocálico; no entanto, por estar fora da base, tal som desempenha papel
(travamento ou interrupção da passagem da corrente de ar expiratória). típico das consoantes. Então, semivogal é o fonema produzido como vogal,
Ex: pai; lar. mas que funciona como consoante (no aclive ou no declive silábico).
Ilustrando: 4.3.4. Encontros vocálicos: ditongos; tritongos e hiatos.
Retomando os gráficos das palavras pai e quase, já se tem uma visão
do que é ditongo: uma sequência de vogal (V) mais semivogal (v) — ou
) vice-versa — na mesma sílaba.
")
Segundo Silva (2001: 94),
)
um ditongo consiste de uma sequência de segmentos vocálicos, sendo
As sílabas 1 e 2 apresentam, ambas, um fonema no declive: na de n° que um dos segmentos é interpretado como vogal e o outro é interpre­
j uma consoante [r]; na de n° 2 , uma vogal [i]. tado como um glide. O segmento interpretado como vogal no ditongo
é aquele que tem proeminência acentuai (ou seja, conta como uma
A princípio, tais vocábulos são estruturalmente iguais (monossilábicos, unidade em termos acentuais). O segmento interpretado como^glide
■im sílaba complexa travada). No entanto, no declive silábico, constata­ não tem proeminência acentuai. Em um ditongo, a vogal e o glide são
is uma diferença fonológica quanto ao modo de produção do som: [i] pronunciados na mesma sílaba (...)
?presenta fonema de natureza vocálica e [r] indica fonema de natureza
onsonantal. Para fixar esta noção, observe-se que a base da sílaba é sempre uma
vogal e, fora da base, não pode haver vogal. Além disso, não" è possível
) A despeito da natureza diferente, eles funcionam de modo igual: figuram mais de uma vogal na base, ao passo que nas margens (aclive e declive)
•oj declive silábico como travadores de sílaba. Portanto, no caso estudado, aparecem combinações fonemáticas como: grupos e encontros consonantais
• [i] representa um fonema de natureza vocálica e função consonantal — ou consoante seguida (no aclive) ou precedida (no declive) de semivogal,
//, sendo, por isso, uma semivogcil. A denominação semiconsocinte resulta como veremos mais adiante.
.ò critério funcional sobreposto ao da natureza do som. Optamos pela
Ainda nos ditongos, veremos que, de acordo com a posição da semivogal
jassificação mais frequente — semivogal — em função da força harmôni-
— antes ou depois da base —, os ditongos se estruturam como crescentes
a dos fonemas assim denominados. As consoantes, como já dissemos, em
e decrescentes, respectivamente. Ilustrando:
iltima análise, são ruídos.
a) No vocábulo quase, a sílaba sublinhada contém a sequência çy no
) A semivogal (como as consoantes) também pode figurar no aclive si- aclive; por conseguinte, tem a série vV: v no aclive e V na base. Temos,
■^bico (cf. item 4.3.2). então, um ditongo crescente.
) Vejamos exemplificação com a palavra quase: b) No vocábulo pai, a sílaba sublinhada apresenta estrutura inversa
em relação à da palavra anterior. Em pai, temos c no aclive + V na base
+ y no declive = cVv. A sequência Vv corresponde ao ditongo decrescente.
Há, ainda, o fenômeno do agrupamento de semivogal + vogal + semivogal
numa mesma sílaba, como em quais ([qu] no aclive + [a] na base + [is]
no declive). Esse grupo vocálico se chama tritongo e tem baixa frequência
no português.
Quando, entretanto, sons vocálicos aparentemente unidos na grafia se
A sílaba n° 1 apresenta dois fonemas no aclive: um consonantal e um separam ao pronunciar-se o vocábulo, surge, então, o hiato. Este é o en­
contro gráfico de vogais de sílabas diferentes, como em saúde: /sa ‘u de/.
bcálico, que é uma semivogal devido à sua função.
Vê-se, pela transcrição fonológica (ou fonêmica), que /a/ e /u/ encontram-se
A partir destas considerações, entramos a examinar novos fenômenos fônicos. em sílabas diferentes.
Também na transcrição pode-se indicar a presença da semivogal: lyl Lembrando que a vogal resulta de ulna corrente expiratória livre, sem
— o iode}— para o que, normalmente, se representa na grafia por [e] obstrução do conduto aéreo, vamos observar que as vogais nasais não são )
ou [i]; /w/ — o uau —para [o] ou [u]. tão livres assim, pois o rebaixamento do véu palatino ensaia um bloqueio da .
corrente expiratória e resulta em dividi-la, fazendo com que a maior parte
Ilustrando: desse ar saia pelo nariz; é, portanto, uma articulação vocal cuja ressonância
PARA O GRAFEMA E PARA 0 GRAFEMA 0 CLASSIFICAÇÃO se produz nas fossas nasais (Carreter, 1977: 289). Produzido dessa forma, o
som vocálico perde a sua liberdade original e se reàliza abafado, travado.
a) fez: [e] = lei; c) cor: [o] = /o/; vogal
E o fenômeno da(nasalaçãoJ ,)
b) mãe: [e] = lyl. d) não: [o] = Av/. semivogal
4.4.]. A nasalidade fonêmica — as vogais nasais
4.3.5. Grupos e encontros consonantais Em português, a nasalação vocálica é tão forte que a consoante, que su­
Há que distinguir grupos e encontros consonantais, visto que os grupos cede a vogal e provoca o fenômeno, perde sua própria articulação, passando
participam da mesma sílaba, ao passo que os encontros são uma ilusão da a integrar-se à composição da vogal. Daí, Mattoso Câmara Jr. (1977) preferir
grafia: pronunciado o vocábulo, o encontro se desfaz. falar em vogal seguida de travamento a chamá-la vogal nasal.

Assim, temos em flor grupo consonantal |fl]; mas, em carta, o encontro Veja-se o excerto: r- ,

consonantal [rt] é desfeito ãò pronunciarmos /TcaR ta/. A verdade é que, por ser a nasal de travamento um mero glide, o obser­
4.3.6. Os digrafos vador é levado a desprezá-la em qualquer língua onde a ressonância da
vogal seja foneticamente intensa.(...) parece-me, por tudo isso, preferível
Outro fenômeno interessante a ser examinado são os fonemas que se suprimir a consideração das vogais nasais portuguesas como fonemas
representam na escrita por mais de um grafema, ou seja, grupo de letras
distintos, resolvendo-as num grupo de vogal seguida de arquifonema
que representam um único som. Daí o nome dígrafo (ou duas grafias),- que
designa figura construída por consoantes duplas, consoantes repetidas ou nasal (Mattoso Câmara Jr., 1977: 68-69).
combinações de consoante e vogal, ou vice-versa. A nasalidade vocálica aparece na escrita de duas maneiras: a) com dia-
O dígrafo requer nossa atenção pelo fato de receber tratamento específico crítico [~] — o til; b) com a sucessão de uma consoante nasal no declive
no ato da translineação. Observe-se: sTíábTco (como travador) — [m] ou [n]. Ambas as marcas indicam o aba­
famento (ou travamento) da vogal. Indicam que a maior parte da corrente
a. chuva — o [ch] representa /jV e, ao dividir a palavra para mudar de
linha, o [ch] é conservado junto, pois o grupo figura no aclive silábico; expiratória que a produz sai pelo nariz. Logo: as consoantes que figuram
b. aquele — o [qu] representa /k/, mas o [qu] se mantém unido como no declive, silábico como travadores nasais não têm valor sonoro próprio,
o [ch], ainda que se trate de consoante seguida de vogal, pois ambos mas funcionam como elemento diferenciador entre a vogal nasal e a vogal
estão no aclive silábico e a "letra vocálica” não corresponde ao som não nasal (ou oral), o que distingue vocábulos em português e, portanto,
vocálico. tem valor fonológico. Trata-se de mais um caso de glide na estruturação
d) carro — o [rr] representa /bY, porém, ao partir-se a palavra, põe- silábica portuguesa.
-se um [r] em cada segmento resultante, assim: car - ro. por mera
convenção ortográfica. Comprovando: a) o valor diacrítico da consoante nasal no declive;
Ex.: lã = *lam; b) o valor distintivo de formas da língua; Ex.: cinto (s.)
4.4. A nasalidade = cito (f.v.)
\)
Uma das particularidades importantes e distintivas da língua portuguesa Cumpre lembrar um fato ortográfico (relacionado com a nasalida­
são os sons nasais. E considerada por alguns como sendo a maior dificuldade de) que não é discutido, mas apenas decorado: antes de [p] e [b] só se
fonológica de nossa língua. escreve [m].
SUBSÍDIOS PARA UM ENFOQUE TEÓRICO: BREVE REVISÃO 35

O porquê dessa regra é o modo de articulação dos sons: os três que o significado do vocábulo não será afetado. Portanto, é um fato dife­
fonemas /p/ /b/ e /m/, representados por aquelas letras, se produzem nos rente da oposição cinto/cito.
lábios, são consoantes labiais. Logo, por comodidade articulatória [lei do
menor esforço — cf. Silva Neto (1956: 72-73)], passa-se de /p/ ou /b/ para Disto se conclui que não se trata de uma nasalidade propriamente dita,
/m/ sem mudar a posição dos lábios. Em decorrência disso, ainda que sai­ senão de uma nasalação ou contaminação nasal por influência da proxi­
bamos que as consoantes nasais no declive se esvaziam, incorporando-se midade de consoante nasal; tal fato decorre de uma assimilação fonética
à vogal precedente, não podemos ignorar que as mesmas são articuladas, resultando numa variação alofônica sem consequências semânticas (cf.
caso contrário-não travariam a vogal. Daí, o sistema ortográfico (nesse caso) Câmara Jr, 1977: 69).
ter-se pautado por um argumento fonêmico bastante objetivo.
Quanto à transcrição de vocábulos que apresentem vogal nasalada por
Para testar, experimente pronunciar algo como pente forçando um /m/ contaminação, isto fica por conta dos estudos fonéticos, já que na descrição
como travador. Logo você sentirá o incômodo da articulação na passagem fonológica só é relevante a indicação daquilo que interfere na comuni­
para a sílaba seguinte. Idem se quiser forçar um /n/, ao pronunciar algo cação. Em outras palavras: indicar a nasalidade do /a/ na forma canta é
como tampa. Ainda que esta ilustração se apoie em situação de exceção, indispensável, pois é isto que gera a distinção com cata. Entretanto, qual a
serve como demonstração do argumento fonêmico que teria originado a necessidade de marcar a pronúncia nasalada (ou não nasalada) do fonema
convenção em questão: antes de [p] e [b] só se escreve [m]. Ainda se pode /e/ em leme? Ou do /o/ em toma?
prestar à testagem, a constatação do apagamento da dental [d] nas termina­
ções -ndo, do que resultam formas em -no, jamais em -mo. Isto também 4.5. Neutralização, arquifonema e alofonia
pode servir de documento para a distinção articulatória dos travadores nasais.
K neutralização é o resultado do desaparecimento de uma oposição,
Para simplificar a explicação, tem-se que antes de labiais — [p] e ou seja, o traço distintivo entre duas formas deixa de existir (cf. item 4.2).
[b]. — usa-se o [m]. Antes das demais consoantes, usa-se [n]. Desta forma
justifica-se o uso de labial junto a labial e das demais, não labiais, por No caso das vogais, vê-se a neutralização da oposição quanto ao timbre
eliminação, por travador não.labial representado na escrita por [n]. das médias: na posição tônica, são sete as vogais, reduzindo-se a cinco na
posição pretônica, pois o hl e o /3 /, segundo o dialeto carioca (inicialmente,
4.4.2. A nasalidade fonética (sem valor distintivo) tomado como modelo para a descrição linguística), deixam de realizar-se
É interessante notar que vocábulos como lama, muito, comida não pos­ nesta posição. Ex.: s/e/lo (s.) s/s/lo (f.v.) s/e/lado (adj.); b/o/lo (s.) b/o/lo
suem sílaba travada por elemento consonantal nem til, mas trazem vestígios (f.v.) b/o/lado (adj.)
de nasalidade. Contudo, são apenas contaminações (ver assimilações, §7.17
Nas posições postônica e átona (final e não final), também é detectável
in Barbosa, 1994: 178), resíduos, que não interferem na significação dos
a neutralização; porém, é a posição átona final que nos interessa observar
vocábulos, não distinguem formas da língua.
aqui, pois dela decorre o arquifonema. O arquifonema é uma ficção da
Observe-se que tanto faz dizer-se: descrição linguística que visa reunir numa só entidade fonemática todos os
traços de um conjunto de fones (unidades fonéticas). Assim, uma vez extinta
Legenda a oposição /e/ e /i/ átonos em final de palavras, surge o /I/ — arquifonema
/a/ aberto pato vocálico anterior — que reuniria os traços pertinentes à descrição do /e/ e
/e/ abafado cama do /i/ cóncomitantemente. Ex: mate /I/; mato /U/.

/ba ‘nB na/ — como os cariocas, Para a representação fonológica dos arquifonemas (que também ocorrem
entre as consoantes) reservou-se a maiúscula.
/bB ‘nB na/ como os baianos,
/ba ‘na na/ como um estrangeiro, Especialmente na posição de travadores silábicos (no declive), as
consoantes participam dos fenômenos da alofonia e da neutralização. A
36 A IMPORTÂNCIA DÒ CONHECIMENTO FONOLÓCICO

alofonia (ou variação alofônica) decorre ora do contexto fônico, ora da pro­ Já é possível definir alofonia como variação da realização de um fonema
núncia do falante; e o arquifonema é a solução técnica para a representação da qual não resulta qualquer interferência sígnica. Melhor dizendo:.a variação
daqueles fonemas (os travadores) de uma forma generalizante. alofônica tem efeito apenas fonético, pois não altera o signo, não provoca
ruído na comunicação, não muda o significado contextuai. Tanto faz dizer
Exemplificando:
sal com travador consonantal ou vocálico que seu significado será o mesmo.
Em carta, o travador grifado pode ser realizado como vibrante velar
Fica mais patente a não interferência da alofonia na camada semântica
ou dental, dependendo da região de origem do falante. E um caso de
da língua quando é observada a pronúncia do /t/. Na série ta, te, ti, to, tu,
alofonia livre. Daí, ao transcrever-se fonologicamente aquele travador,
vê-se que o /t/ sofre interferência da zona de articulação da vogal /i/, que
usa-se /RI.
o contamina, palatalizando-o (ou africando-o), gerando uma pronúncia
Em bar, a vibrante está sujeita não só às variações descritas acima, mas diferenciada para o ti — /tji/ — (na fala carioca). Contudo, cariocas e
também às decorrentes do contexto frasal. Numa frase como Fui ao bar paulistas — a despeito do chiado daqueles — entendem perfeitamente o
ali da esquina, o fenômeno da juntura (o som final de um vocábulo que se quer dizer com time, por exemplo.
liga-se ao inicial do vocábulo seguinte, formando sílaba) determina a
realização do [r] como Ixl — vibrante dental simples. No entanto, se a O mesmo se aplica ao /d/, variando para M3 / (africada) por influência
frase fosse Fui ali na esquina, ao bar, há forte tendência ao apagamen- do /i/.
to do /k/ vibrante velar múltipla (segundo o falar carioca, bar /'ba:/, Essas últimas variações alofônicas, do tipo livre, são irrelevantes nos
— com prolongamento do /a/ — ou /'bar/ — com vibrante alveolar estudos fonológicos por não promoverem consequências semânticas, isto
(no dialeto gaúcho). Essa determinação posicionai é conhecida como é, não distinguirem formas da língua. São, portanto, relevantes apenas no
alofonia condicionada.
âmbito dos estudos fonéticos.
Nos plurais, o fonema constritivo Is/ passa pelas mesmas variações que
a vibrante, assim como os demais travadores consonantais. Por isso, os 4.6. Debordamento
marcadores de plural Is/ são apagados na fala informal?
Não só na alofonia se manifesta a variação fonemática. Outros fenô­
A variação fonemática (ou de fonemas) é tão grande que leva à trans­ menos são detectáveis quando se leva em conta a posição dos fonemas no
formação de um travador consonantal em vocálico por consequência das ambiente fônico.
realizações diferenciadas que lhes imprimem os falantes.
O debordamento nas vogais — ou harmonização vocálica — consiste
Em sal, vamos encontrar as seguintes realizações: na sistematização de uma pronúncia para as vogais pretônicas segundo
a tendência da língua. Por tal fenômeno, é possível detectarem-se fatos
a. por juntura: sal_amargo [1] = /l/;
interessantes como:
b. por alofonia livre:
b.l) sal - na fala gaúcha - [1] = /l/; • comprido / cumprido — essa oposição só se faz notar, via de regra,
b.2) na fala carioca - [1] = /w/. na escrita, pois a fala geral costuma imprimir-lhes realização única: /kuN
‘pri dU/. No entanto, é possível recorrer-se à distinção do timbre (pelos
Nota: Apesar da letra [1] graficamente reipresentar consoante, graus de. abrimento bucal) — médio fechado para o /o/ e fechado para
fonologicamente pode realizar-se como semivogal. o /ui — em favor da clareza da expressão e identificação das diferenças
morfossemânticas de tais signos.
Ainda que para alguns haja divergência entre ser alofonia condicionada
ou debordamento, preférimos optar pela variação condicionada, uma vez É um fenômeno diferente da neutralização. Na verdade é o seu oposto:
que está cobre tanto a descrição fonêmico-estilística quanto a descrição enquanto esta extingue oposições, o debordamento evoca uma distinção em
fonético-dialetológica. benefício da comunicação eficiente.
->«> ;\ m u uiMnnoi.» uu 1 v/ov/bv^oibv/ dUUMUIUS» 1V\K.\ UM LiSTUyUL I LUKIUO: 13KLVli KLV1SAU 3V

Segundo Jota (1981), debordamento é o mesmo que variação. Para assentes ditadas pela Nomenclatura Gramatical Brasileira — NGB. Vale
Mattoso Câmara Jr. (1978), trata-se de um caso de flutuação. Ainda que notar que nossa descrição não está circunscrita à terminologia da NGB,
os termos possam ser vistos como sinônimos, optamos pelo segundo em sobretudo motivada por nossa opção mattosiana. Vejamos:
virtude da possibilidade de reforçar certa opção fonemática em benefício
■ segundo a análise funcional da camada fônica do português, são letras
da clareza expressional. Em pares como expectador (aquele que espera)
mudas apenas as que figuram nos dígrafos e não correspondem a
e espectador (aquele que vê), é possível forçar a pronúncia chiante para
qualquer fonema. Ex.: nas sequências [qu] e [gu] — antes de [e] ou
o travador da primeira sílaba do primeiro vocábulo, para que este não se [i], o [u] não corresponde a som vocálico; ou o [h] etimológico em
confunda com o segundo. No entanto, os dois vocábulos são pronuncia­ início de palavras como hora, hoje etc. não representa qualquer som.
dos, via de .regra, como homófonos (sons idênticos). Convém lembrar que ■ o [x] não representa dígrafo em palavras do tipo fixo, sexo. O que
qualquer artifício de prosódia (como aquele mas [conj.] com pronúncia ocorre neste caso é uma letra que representa três fonemas: /kis/.
abafada para distinguir-se do mais [adv.]) é mera caricatura, uma vez que Ocorre aí fato curioso, pois um único grafema representa uma sílaba
no fluxo corrente da fala, palavras como expectador e espectador ou mas e livre (cV) e o aclive da sílaba seguinte (c).
mais não apresentam qualquer distinção fonológica.
Veja-se o gráfico:
Todavia, além desses fenômenos, há outros que saltam aos olhos quando SE XO
se examinam a camada fônica da língua e sua relação com a realidade da [0]
M N /U/
fala.
Há casos em que o falante se vê obrigado a adulterar a convenção or­
tográfica em benefício de um paralelismo, embora hipotético, entre formas
orais e-formas gráficas. Veja-se o fenômeno a seguir. Essajnserçãq de novos fonemas npiuterior. de vocábulo é denominada
epêntese^Tratã-se de metaplasmo. (mudança de forma) de, aumento que
4.7. A epêntese nconsiste em intercalar.-mima palavra ou grupo_.de.palavras.um fonema
não etimológico por motivos de. eufpnia, de comodidade articulatória, por
Já se disse que não existe sílaba sem vogal em português. No entanto, analogia etc. (Dubois, 1978). Quando essa inserção é o desenvolvimento
há normas gramaticais que falam de letras mudas, por exemplo. de uma vogal no interior de um grupo de consoantes, dá-se o nome de
suarabácti ou anaptixe (id. ib.).
É difícil aceitar uma regra desse tipo, pois, ao falar, geram-se situações
como: Exemplos típicos de suarabácti: (a) digno: entra um li/ entre o Igl e o
/n/; (b) apto: entra um lil entre o /p/ e o /t/; (c) fixo: entre um /il entre o
NO PLANO GRÁFICO NO PLANO FÔNICO / k / e o Is/ reunidos no grafema /x/.
N°de sílabas Tonicidade Pronúncia N°de sílabas Tonicidade Há, contudo, a epêntese simples, muito comum no desfazimento de en­
apto dissílabo paroxítono /’a pi tU/ trissílabo proparoxítono contros vocálicos incômodos à pronúncia popular. Ex.: NÉA Iea/y AndrÉA
digno dissílabo paroxítono /’di gi nU/ trissílabo proparoxítono lea/ etc. O elemento grifado é pronunciado com IjJjQenté&co (semivogal
pacto dissílabo paroxítono /’pa ki tU/ trissílabo proparoxítono
— por figurar como travador). Então, tem-se ditongo seguido de hiato /’s>a/.

fixo dissílabo paroxítono /’fi ki sU/ trissílabo proparoxítono Essa é uma tendência histórica. Em formas como europeu, a flexão de
gênero resultou em europeia, na qual o /y/ se fez incorporar até na grafia.
Segundo estes exemplos, é possível observar a rejeição natural à ausência Por conseguinte, modernamente, nomes próprios terminados em [ea] pas­
saram a ser registrados com [éia], oficializando a epêntese.
de apoio vocálico. Seguindo a tendência fônica da língua, cada conso­
ante busca um apoio vocálico. Daí,, as chamadas letras mudas (sempre Outro caso de alta frequência é a evolução de um lyl em formas como
consoantes) passarem a soar, gerando nova sílaba e contrariando normas nascer In a-' ‘se:/ ou crescer /kre> ‘se:/, e similares. (É possível encontrar a
■iu r\ iívii''v/ivi/unv^i.*\ jl/V7 \-.uímhíoii\iiji \ i w i v/i>uiív/\jiw OV.I1K1ILÍIV/.) %.*.%> ■ vv» -. .

transcrição desse [i] epentético como lyl). Acrescente-se que a transcrição As normas que seguimos para escrever são pautadas pelo Vocabulário Orto­
do iode (semivogal anterior alta) com o símbolo diferenciado lyl é uma gráfico da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa, edição
forma icônica de representar uma semivogal resultante da epêntese, ao de 1940, aprovada unanimemente pela Academia Brasileira de Letras em
mesmo tempo que se lhe distingue da vogal correspondente. Assim tem-se: 29 de janeiro de 1942; as instruções para a organização do Vocabulário
lyl para a semivogal grafada com [i] ou [e]; e /w/ para a semivogal posterior Ortográfico da Língua Portuguesa no Brasil foram aprovadas pela ÀBL em
alta grafada com [o] ou [u]. Logo, lyl se opõe a /i/; e /w/ se opõe a /u/. 12 de agosto de 1943, tendo sofrido alteração em 1971 (lei n° 5.765, de
O estudo do plano fônico da língua portuguesa vem ganhando algum relevo 18 de dezembro de 1971) no que concerne aos acentos diferenciais, espe­
nos últimos tempos. Apesar da dedicação de pesquisadores à análise dos fenômenos cialmente os circunflexos. Onde havia oposição de timbre aberto/fechado
fonêmicos e* fonéticos do português no Brasil e em Portugal, verifica-se (ainda e o som fechado era marcado na grafia pelo circunflexo, este desapareceu.
hoje) certa marginalização desse plano de análise no âmbito da formação dos Ex.: zebra (s.) /e/ & cf. zebra (f. v.) /e/ passou a ser escrito sem qualquer
profissionais de Letras. Nas grades curriculares de alguns cursos de Letras, fica marca gráfica diferenciadora.
patente que o tempo reservado ao estudo do plano fônico é mínimo. Contudo,
há uma justificativa de natureza pragmática para este quadro: considerando-se Depois de discussões iniciadas em 1986 (quando, em Salvador, sete
a necessidade de desenvolvimento de habilidades relacionadas à leitura e à países lusófonos firmaram um acordo inicial Henriques, 2009, 6), nova
compreensão de textos e o indispensável suporte técnico-teórico correlato, reforma ortográfica vem à cena, após a assinatura de quatro dos oito países
percebe-se de imediato a desproporção entre a carga horária destinada às que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). O
disciplinas da matéria língua portuguesa e os conteúdos a ministrar. Logo, presidente do Brasil assinou, em 29 de setembro de 2008, o decreto 6.583,
privilegia-se o tempo destinado aos campos morfológico, sintático e semân- que “promulga o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”, assinado em
^ tico, em detrimento dos estudos fonético-fonplógicos. Lisboa, em 16 de dezembro de 1990.
Entretanto, a experiência — oriunda da prática obtida na produção/ A partir desse decreto, voltam ao alfabeto as letras Kk, Ww, Yy, as
realização de cursos avançados de tópicos de fonologia (pós-graduação lato quais terão seu uso em (a) antropônimos como Franklin, Wilson, Taylor;
e stricto sensu) e da disciplina fonologia da língua portuguesa na graduação
(b) topônimos^ como Kwait, Nalavvi; (c) siglas, símbolos e palavras que
— demonstra que o domínio dos fatos e fenômenos do plano fônico da
indicam medida em uso internacional: kg - quilograma; kw - quilowatt;
língua subsidia o entendimento dos outros planos da descrição linguística;
e que, uma vez compreendida a inter-relação entre os vários planos, a yd - jarda; kb - quilobar; kcal - quilocaloria; www - World Wide Web,
compreensão dos esquemas da língua atualizados na produção de textos se a rede mundial de computadores, internet; e assim por diante. As letras
realiza de uma forma mais firme, visto ser sustentada em bases múltiplas: k, w, y também serão usadas em palavras derivadas dos nomes estrangeiros
a fonologia explica a morfossintaxe e abre espaços para requintes estilísti­ que as contenham.
cos. E estas, morfossintaxe e estilística, por sua vez, orientam a elaboração
O verbo pôr continua acentuado. Continua a ser acentuada a forma
semântica, a produção do sentido textual.
pôde (terceira pessoa do pretérito perfeito do indicativo do verbo poder). E
Tentando objetivar nosso enfoque, dirigimos a atenção para alguns fatos facultativo o uso do acento circunflexo em fônna (substantivo), homógrafa
não muito observados, mas que têm relevância nas análises. de forma (substantivo/verbo).

5.2. Acento tônico e acento gráfico


5. Problemas da ortografia
Falando-se em acento, é mister ressaltar a diferença entre acento tôni­
co e acento gráfico. O primeiro está presente em todos os vocábulos com
5 . J . A escrita ortográfica
mais de uma sílaba (exceto as preposições dissílabas); o segundo aparece
Ao considerar as particularidades de um sistema de escrita alfabético- na escrita como recurso distintivo de formas homógrafas (escritas com as
-ortográfico, portanto, convencional, vamos desaguar na normatividade. mesmas letras), por exemplo. Ex.: sábia / sabia / sabiá.
42 A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO FONOLOCICO .'tunoumK'» iv\iv\ v.m i c.wtuv^w: i:. i\uvi.\u; ti

Como se vê, as três formas apresentam a sequência [s] [a] [b] [i] [a]. dação vernácula para formas eruditas e fião se restringe ao final [en], mas
No entanto, representam noções distintas na língua e, portanto, têm usos aos vocábulos paroxítonos terminados em [n]. Ex: hífen, pólen, cânon, nêu­
tron, elétron, próton, abdômen (podem ser encontradas as formas abdome
específicos nas mensagens. Sua distinção na escrita fica por conta do
e abdômen - Lus.) etc.
acento gráfico.

Ex.: O sábio sabiá sabia assobiar {Ave nossa, de Moraes Moreira e Béu 5.3. O emprego de letras
Machado; grifamos). Quanto ao problema do domínio das formas da língua escrita, se levados
em conta os problemas de acentuação e, sobretudo, os de emprego de letras,
Assim, a função diferenciadora do acento gráfico permite a formulação
o melhor caminho é tirar a poeira do Vocabulário Ortográfico — VQLP.
de regras de utilização do diacrítico, levando-se em conta a tendência pro-
(republicado pela ABL em 2009, com edição eletrônica) e transformá-lo
sódica da língua (o português é uma línguajgrave, paroxítonaj .e as termi­ em companheiro de trabalho: na conversação, surgem dúvidas sobre sig­
nações dos vocábulos. Então, as palavras proparoxítonas e oxítonas figuram nificados; na escritura, aparece o fantasma do não sei se é com [s] ou com
marcadas pelos acentos agudos e circunflexos, para que se distingam das [z], por exemplo.
formas paroxítonas, que são maioria na língua.
Adivinhar ou decorar são paliativos às vezes perigosos e podem causar
Conclui-se, desta forma, sobre o porquê da pluralidade de situações efeitos colaterais muito sérios, como: eu sempre escrevi assim... e, repenti­
gráficas dos paroxítonos como uma decorrência de seu maior numero. Em namente, descobrir que sempre escreveu errado.
contraponto, os proparoxítonos são “favas contadas”; por isso, sua regra é ^Quanto aos exercícios escolares, dentre outros, o treino ortográfico e o
a mais fácil de todas: acentuam-se graficamente todos os proparoxítonos ditado são técnicas utilíssimas para domínio das formas escritas, pois per­
(ou esdrúxulos). mitem analisar cada forma da língua isoladamente, observando cada um
dos elementos que a compõem.
Também os oxítonos apresentam pouca dificuldade por serem de
Trata-se de duas estratégias distintas: o treino ortográfico é um exercício,
pequeno número em relação aos paroxítonos; e a regra de acentuação grá­
e o ditado é uma tarefa. Esta se faz, por exemplo, para acompanhar ou
fica daqueles se apoia na oposição aos paroxítonos. Por isso, acentuam-se
avaliar o domínio das formas apreendidas durante os treinos ortográficos.
graficamente os oxítonos terminados em [a], [e] e [o] — seguidos ou não
No que concerne ao aperfeiçoamento das habilidades de escrita, cum­
de [s]. Portanto, os paroxítonos que têm tais terminações não precisam do
pre exercitar incansavelmente o contato com o texto escrito, por meio da
acento gráfico.
leitura, da produção de enunciados, dos exercícios ortográficos auxiliados
Observe-se o quadro a seguir: pelos dicionários, vocabulários ortográficos etc.

Terminados em A-E-O (seguidos ou não de S) Terminados em [em] ou [ens]


oxítonos paroxítonos oxítonos paroxítonos 6. Sobre vocábulos e acentos
cará cara também item
café sabe armazéns itens A classificação dos itens léxicos da língua como vocábulos carreia
fiió calo quase sempre alguma hesitação. Seguindo a trilha de Mattoso Câmara
Jr. (2000: 34ss.),- os vocábulos podem ser distribuídos em dois tipos: (a)
Com os terminados em [en], o modelo se altera. Não temos oxítonas Jprrnal - subordinado a um significado; (b) fonológico - subordinado a um
que terminem com [en], então, a marca gráfica decorre de uma acomo- acento tônico.
%

i i uvii i \/nv/iiuv.nviv^

Esta divisão leva-nos a considerar a estruturação linguística em dois entanto, ela se verifica entre sintagmas* nominais ou entre um sintagma
planos: o das formas e o dos sons. No plano dos sons, torna-se fáci] a nominal e um sintagma verbal (SV).
delimitação vocabular, pois a identificação do acento tônico parece não
Ex: Não podia faltai | humor | a um pacote | que inclui | um arsenal
oferecer problema. Ex: CAma; pé de moLEque; chapéu de PAlha etc. [A de manifestos], cartas abertas. |indignação,| paranoias, [histerias e xin- . ,
sílaba tônica está representada com maiusculas.] gamentos], divulgados |sobretudo |pela internet (fragmento de Sônia,
No plano das formas, cremos que também não haja maiores dificul­ você está no Rio, de Zuenir Ventura, O Globo,- Rio de Janeiro, 2 de
dades, pois a'identificação do conteúdo semântico, em última análise, outubro de 2001).
pode ser resolvida pelo dicionário. Ilustrando: (a) cama = s. móvel de A partir dessas considerações, é possível deduzir que o reconheci­
quarto; (b) pé de moleque = s. tipo de doce; (c) chapéu de palha = s. peça mento dos grupos de força pode auxiliar na depreensão dos sintagmas.
de vestuário E é por meio de tal identificação que se pode refletir sobre as normas
Todavia, a teoria se complica quando entra em cena o grupo de força que prescrevem a impossibilidade de pontuar entre termos determinante
ou grupo fonético (grupo de palavras que extraem sua homogeneidade do e determinado.
fato de estarem entre duas pausas — grupo respiratório — ou reunidas A pausa respiratória é responsável pelo reabastecimento dos pulmões,
em torno de um mesmo acento — grupo acentuai; cf. Dubois, 1978). de modo a tornar possível manter a uniformidade nas emissões vocais. Tais
Entretanto, seguindo o raciocínio mattosiano, parece-nos problema de fácil pausas servem ainda para garantir a cadência das frases, do que depende
solução desde que se leve em conta que: (a) a representação, de espaços sobremodo a compreensão do texto.
em branco na escrita não corresponde a pausas na fala. Por isso o sujeito
Em síntese, pode-se afirmar que cada grupo de força corresponde, quase
em fase de aquisição da escrita inicia grafando suas frases em forma de
sempre, a um termo de oração e que cada um deles é marcado na emissão
cordão. Ex. Ameninaéhonita; (b) as pausas que de fato acontecem na fala
oral pela presença de um acento tônico de grau 3 (três), que corresponde
são provocadas por intervalo respiratório que coincide com a emissão dos
à sílaba tônica — a mais forte naquela emissão. Mediante raciocínio mais
grupos de força que, por sua vez, coincidem com os enunciados.
genérico, pode-se pensar no grupo de força como um vocábulo. Contudo,
Entendemos como enunciado (segundo Dubois, 1978, o fechamento diferentemente do que se denomina vocábulo formal (subordinado a um
do enunciado é assegurado por um período de silêncio antes e depois da significado) e vocábulo fonológiço (subordinado a um acento), o grupo de
sequência de palavras, silêncios realizados pelos falantes) a emissão de força seria um vocábulo que teria por condicionantes a sua inclusão numa
uma sequência acabada de palavras de uma língua, precedida e seguida estrutura oracional. Logo, o grupo de força poderia, grosSo modo, ser deno­
por pausa respiratória não passível de pontuação — demarcação sinaliza­ minado vocábulo sintático.
da de pausa média ou longa em decorrência da extensão dos enunciados, Comparando:
da inversão da ordem lógica e da indicação de termos que participam
de funções especiais da linguagem, como: metalinguística (o aposto); • janela, pé, feliz, muito, comia, de, a, em, por — são vocábulos
conativa (o vocativo); fática (interjeições, operadores argumentativos, formais
marcadores conversacionais etc.). • janela, pé, feliz, muito, comia, amor-perfeito, chapéu de palha,
comigo-ninguém-pode, mais-que-perfeito, à medida que — são
Da noção de enunciado, ousamos estender a coincidência da pausa yocábulos fonológicos.
do grupo de força à demarcação dos termos da oração, dado que tais • O livro de Pedro / é novo. || A mesa do almoço / está posta. || Ele
pausas delimitam sintagmas. É também Mattoso Câmara Jr. (2000) quem / a esperava / junto ao portão. || De vez em quando,/ ela / se atrasa.
assevera que dentro de um sintagma nominal ou SN (ou seja, entre — os elementos delimitados pelas barras simples são vocábulos
substantivos e adjetivos que os determinam) não ocorre esta pausa; no sintáticos ou grupos de força.
46 A IMPORTÂNCIA OO CONHECIMENTO FONOLÓCICO

É possível, então, deduzir que vários níveis de descrição da língua en­


contram suporte na sua camada fônica, na distribuição de seus sons tipo (.ou
fonemas). Portanto, o estudo fonológico se amplia. Ultrapassa o âmbito de
uma simples descrição de fonemas e estruturas silábicas, para estender-se
a observações nos níveis mórfico, sintático, semântico e estilístico.
Uma proposta de abordagem
Observado o’ vocábulo como signo, verifica-se que este apresentará
funções e valores decorrentes de sua atualização em enunciados. Logo, o de problemas da escrita infantil
estudo da composição fônica de um vocábulo vai facilitar a compreensão de
fatos linguísticos que complexificam a leitura e a produção textual, como a
homonímia, a paronímia etc. Assim sendo, o redirecionamento dos estudos
fonológicos que aqui propomos pauta-se num repensar da língua como um
todo e de suas relações interplanos.
1. O PORQUÊ DESTE ESTUDO

Há muito que nos ocupamos com o exame de questões vernáculas,


com o objetivo de contribuir para o aperfeiçoamento do ensino da língua
portuguesa, sobretudo na escola básica, onde devem ser construídas as
bases para um domínio sólido da língua materna. Tal interesse nasceu
de nossa atuação nos programas de atualização de professores desen­
volvidos pela União, pelo governo do Estado do Rio ou de municípios
fluminenses, onde pudemos conviver com as ansiedades dos professores
no que tange à detecção da ineficiência de métodos e técnicas de ensino
diante do quadro da repetência e da evasão escolar nos primeiros anos
de escolaridade.

O compromisso das séries iniciais com o letramento chega a levar docentes


e discentes a uma relação neurótica, já que se escravizam às formas gráficas
do registro padrão, esquecendo-se de que a língua é a invariante nas varia­
ções, princípio estabelecido por Jakobson (apud Mattoso Câmara Jr., 1973:
7), ou a unidade na variedade e a variedade na unidade, na expressão de
Schuchardt (apud Carvalho, 1979: 297), do que resulta uma pluralidade de
realizações para os mesmos itens lexicais no âmbito da fala; por conseguinte,
a grafação de tais formas vai documentar aquela variação.

É óbvio o compromisso da escola com o domínio da língua em seu


registro padrão, o qual é manifestado, na escrita, pelo estilo formal. Con­
tudo, o período de letramento quase sempre coincide com o choque entre
a variante popular (do aluno) e a variante padrão (do professor), especial­
mente nas metrópoles. Assim, para o aluno, aprender a forma escrita no
4S A IMPORTÂNCIA PO CONHECIMENTO FONOLÓGICO UMA PROPOSTA E ABORDAGEM DE PROBLEMAS DA ESCRITA INFANTIL 49

modelo da fala do professor é quase como aprender a escrever em uma da palavra problemática. Logo, dificuldade ortográfica não é exclusividade
língua estrangeira. Então nascem as controvérsias. nem pressuposto da alfabetização.

/a) Pode a escola conviver com formas gráficas da língua popular e até A alfabetização, como processo de aquisição da escrita, sobretudo na
mesmo do registro vulgar? infância, se apresenta como um processo da maior complexidade; desde a
b) Até que ponto aceitar grafias de base fonética (assentadas na fala assimilação das diferenças específicas da camada fônica da língua, observa­
discentè) é um caminho didático adequado? das as variantes linguísticas, até as diferenças marcadas e marcantes entre
c) Por que há alunos'que produzem textos ricos (o critério para classificar o sistema fonêmiro e o sistema gráfico. Enquanto esta distinção não se
um texto como rico é a informatividade) em informações, mas com instala nos esquemas de observação do alfabetizando, ou melhor, quando
grafia “bárbara” e outros que reproduzem textos “certinhos” e, no J o processo de letramento se desenrola de uma forma menos comprometi­
entanto, com baixa informatividade? da no que se refere às questões ortográficas, a produção de textos escritos
pO d) Como avaliar esses dois tipos de desempenho escrito? parece fluir de modo mais solto e eficiente.
V (fL <r O raciocínio linguístico na infância busca regularidades no sistema
2. Algumas reflexões sobre os problemas da língua, do tipo: comi,, bebi, fazi; disto resultam problemas de natureza:
FONO-ORTOGRAFICOS NO PERÍODO DE LETRAMENTO i-j? fônica, gráfica, mórfica, sintática etc. Logo: trabalhar desde o início do
iJí.5 J letramento com a responsabilidade de grafação da forma dicionarizada é
um acréscimo prematuro de complexidade que pode atropelar o processo;
Antes de partirmos para a tentativa de responder às questões que en­
cerram o item anterior, vamos tecer algumas considerações sobre escrita e e quase sempre o faz.
escola de uma forma bem sucinta e genérica.
Não é de hoje que são discutidos os problemas fono-ortográficos que atra­
vessam a aquisição da modalidade escrita da língua; e os docentes debatem-se
si 3. A ANALOGIA NO RACIOCÍNIO LINGUÍSTICO INFANTIL NO
PERÍODO DE AQUISIÇÃO DA ESCRITA E SUAS CONSEQUÊNCIAS
entre variados métodos destinados ao letramento sem que, no entanto, consi­
gam chegar a conclusões objetivas sobre como minimizar as incongruências Vejamos então a analogia estrutural refletida no plano gráfico a partir
decorrentes da grafação da língua por meio do sistema alfabético. da analogia com o plano fônico.
Considerando-se as importantes contribuições da epistemologia genética A reação dos alfabetizadores diante de produções como as que aqui ana­
(Piaget, in Boden, 1983) e da psicogênese da língua escrita (Ferreiro, 1991), lisaremos continua sendo muito controvertida, pois, para uns, a dificuldade
vê-se que é mister a análise cada vez mais aprofundada dós mecanismos ortográfica é algo que se resolve com o tempo e com o uso frequente das
de raciocínio desenvolvidos pelos aprendizes acerca da língua escrita, ou formas escritas da língua. Portanto, textos infantis como os que aqui discu­
em torno de seus símbolos. tiremos seriam considerados ricos. Para outros, a grafia incorreta é marca
É notório que a dificuldade de escrita correta das formas da língua de incompetência linguística grave, logo, os exemplos de texto trazidos ao
em seu registro padrão não é exclusividade das crianças, nem mesmo dos estudo seriam mostras da deficiência linguística do aluno.
aprendizes do ensino fundamental em particular. De vez em quando, No entanto, a linguística moderna e a psicologia têm trazido substanciais
somos surpreendidos por algum tipo de dúvida gráfica sobre item léxico contribuições para o processo de ensino-aprendizagem da língua, reservando
não pertencente ao nosso vocabulário usual. Em outras palavras: basta a aprendizagem das formas gráficas do uso padrão para um estágio posterior
que seja preciso escrçver palavra de estrutura gráfica complexa perten­ ao processo de letramento — ou aprendizado do código escrito. Até mes-
cente ao jargão de outro campo profissional, para que sejamos levados . mo em relação ao aperfeiçoamento do domínio do vernáculo, vê-se que a
ao vocabulário ortográfico ou a um dicionário em busca da grafia correta conquista das formas gráficas é algo paulatino e decorrente.
%

!>U A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO FONOLOGICO UMA PROPOSTA K ABORDAGEM DE PROBLEMAS DA ESCRITA INFANTIL 51

Analisando situação emergente de discussão provocada por texto produzido j 'ç Retomando fatos da história interna da língua,, é possível perceber que
por um aluno de sete anos do 2o ano de escolaridade de um CIEP, pudeijios yh perda do índice vocálico no ditongo [o\v] de pousa, caracteriza a mo-
perceber o quanto ainda está equivocada uma boa parte dos alfabetizadores 7 OçKotongação (simplificação de ditongos românicos por assimilação total da
quanto às questões fono-ortográ ficas da língua portuguesa. se mi vogal à base, cf. Silva Neto, 1956: 102) que, em última análise, é um
d ^simplificador da estrutura da sílaba, visto que reduz o número de fonemás
Eis o texto: O sapo voador ^e, por conseguinte, resgata, no caso em questão, o padrão cV (consoante +
O sapo vai a o ispaso || lá ele ve o sol e posa ni um praneta chamado jfvogal), que é, via de regra, o eleito pelos métodos para início do letramento
marte || ele ve um mostro || ele fala socoro || o vucao começo a sai ^após o domínio das vogais.
lava || ò mostro soo too o sapo || o sapo foi para o fogete || quado ele A forma ni — de alta frequência na fala popular —, além de represen-
chegou na terra ele foi çe um soldado.
<0
0\ j tar uma forma oral, parece-nos reiterar a força do padrão cV na escritura
v £ dessa primeira fase^dojetramento. Não é concebível ao aluno desta fase
J uma sílaba com estrutura Vc como em.
4j Montando paradigmas para o estudo á
Ainda com base em fatos documentáveis na diacronia, na passagem
Apresentamos aqui um tratamento gradativo dos fatos detectados no do latim vulgar (latim falado) para o português, vê-se catalogado o grupo
texto corpus, para a partir disto compor um esquema de trabalho que não consonântico pl-, evoluindo na fala para pr-, como em: implicare> empre­
só estimule o progresso da produção linguística do aluno, mas também lhe gar; implicita> empreita etc. (Coutinho, 1974: 122), o que caracteriza uma
assegure o domínio eficiente das formas da língua. tendência fonética natural da língua. Logo, a forma praneta é a grafação
de um fenômeno yernáculo de fundamento histórico que não indica in­
Distribuímos os fatos em três grupos, levando em conta o tipo de racio­ competência linguística, muito pelo contrário.
cínio linguístico deles dedutível: a) da escrita fonética; b) da regularização
sistêmica; c) da instabilidade gráfica. Não queremos aqui contrariar as tendências sincrônicas da gramática
descritiva na linguística contemporânea, mas demonstrar que a verdade
Com base neste estudo, pretendemos subsidiar a formulação de exer­ sincrônica, no mais das vezes, vai ao encontro da diacronia, evidenciando
cícios e tarefas que levem o aluno à pesquisa de formas e ao treinamento a máxima de Scherer e H. Paul de que as leis fonéticas são imutáveis (Du-
sistemático do padrão fono-ortográfico da língua em sua modalidade bois, 1978 — lei fonética): o mesmo fonema, num contexto fonético dado,
padrão. sofre na mesma língua e durante certo período a mesma mudança em todas
Para melhor demonstrar o caminho que resolvemos utilizar na discussão as palavras da língua em questão.
das formas presentes no texto em questão, organizamos uma abordagem Para comprovar, na fala de hoje são encontradiças as formas: prano
triádica para os fatos levantados: (plano); pruma (pluma); prenário (plenário) etc.
sA Grupo 1: da escrita fonética A forma sootoo^é um fenômeno especial, pois não a havíamos en-
■ Ispaso || posa (*) || ni (*) || praneta (*) || soo too || ce contradõanteriormente em textos produzidos por escolares do mesmo
nível que o produtor de O sapo voador. No entanto, é imediatamente
Nesses casos, entendemos que o aluno tenta reproduzir na escrita a perceptível o raciocínio utilizado pelo menino: comparada à forma posa,
sua fala, registrando, inclusive, as alterações de pronúncia decorrentes da a grafação do ditongo vem demonstrar a captação de diferença fonético-
variação linguística já mencionada. -fonológica na marcação da duração dos sons (ainda que este não seja
Na forma ispaso, o que se vê é a grafação da forma oral da vogal, por traço distintivo na fonêmica portuguesa). Em posaf o ditongo [ow] se
desconhecimento das convenções ortográficas: para o aluno, quando se fala perde no fechamento ou na abertura da vogal de base, sem prejuízo da
[i], escreve-se [i]. significação. Contudo, em soo, a redução dos ditongos resultaria em
52 A IMPORTÂNCIA DO CONHKU1MENTU I-UNULUCICU UMA rKUrUS IA ü AHOKDAÜEM DL. PKOULEMAS DA ESCRITA INFANTIL 53

prejuízo semântico, pois, para o menino em questão (como pára tantos que representa mera oposição na fala e resulta de. contaminação fonética
outros), é preciso marcar graficamente a diferença entre formas como: vô (regressiva ou prospectiva) sobre uma vogal (Ex.: lama, limo, muito).
(independentemente do uso do acento gráfico) (= avô) e voo (= vou).
É possível a verificação de fenômeno inverso: canna (cana), bananna
E a marcação é sistêmica. Também se faz presente em too, que faria (banana), lamma (lama). Nestes casos, a criança percebe a nasalação foné­
oposição a tô [o mesmo que em vô.] (cf. com estou). tica regressiva pela contaminação com o aclive consonantal nasal da sílaba
posterior e marca graficamente essa diferença.
^ Grupo 2: da regularização sistêmica
O mesmo ocorre com a palavra muito. Há quem a registre com til ou
■ vai a_o ispaso / comeco a = destaque da preposição. com travador, indicando graficamente a nasalação fonética prospectiva (a
Neste caso o aluno capta, ainda que intuitivamente, a complementação consoante nasal contamina som vocálico subsequente).
preposicional. Há quem rejeite a diferenciação entre nasalação fonológica (nasalação
A grafia que decompõe a combinação ao (a + o) parece-nos ser de­ propriamente dita) e nasalação fonética (contaminação nasal). Contudo,
corrente de uma observação apurada dos sintagmas nominais. Levando-se é indiscutível a captação de uma nasalação na pronúncia de palavras
em conta que as primeiras frases infantis são do tipo: (a) A menina viu como banana, cama, lama, muito etc.; mas é igualmente indiscutível
a boneca, (b) O papai deu a roupinha. (c) O gato pegou a bola etc. e que tal nasalação altera apenas o significante sonoro e não interfere no
significado, ou seja, não haverá ruído na comunicação caso o falante
que os sintagmas nominais são construídos com artigo mais substantivo
realize ou não a nasalação. Note-se a diferença entre esse fenômeno e
(art. + s.), é possível concluir que o pequeno escritor dá mostras de uma
o que ocorre com formas como: cato/canto; vedar/vendar; mito/minto;
percepção estrutural da língua, ao apresentar separadamente a preposi­
sodar/sondar; pote/ponte; mudo/mundo etc. onde a nasalação resulta em
ção e o artigo, uma vez que ele ainda não teve notícias do mecanismo
mudança de signo, ou seja, altera-se o significante (oral e escrito) e o
morfofonêmico da combinação.
significado. Em última análise, identificar a diferença pode ser excelente
Confrontada com o vucao comeco a sai lava, vê-se que a presença da recurso didático.
preposição é uma constante na sintaxe do autor desse texto.
■ identificação de fonema: sapo / ispaso / socoro / soo
^ ■ nasal idade não marcada: mostro / vucao / quado Os elementos grifados indicam o reconhecimento do fonema /s/ em
Ainda que captasse a nasalidade dos vocábulos, o desconhecimento ambientes distintos. A despeito da dificuldade ortográfica carreada pelo
da marcação gráfica por meio do til ou do travador consonântico leva o som Is/ em português, que tem oito formas gráficas possíveis ([c] [ç] [s]
aluno a não grafá-la. [ss] [sc] [sç] [x] [xc]), o alfabetizando resolve o problema estabelecendo a
correspondência biunívoca entre fonema e letra (o que não é urria realidade
Considerando que a nasalidade é uma situação de maior complexi­ sistêmica no vernáculo): Is/ <=> [s].
dade, concluímos que, no plano fônico, ela não atordoa o alfabetizando,
■ fogete / chegou
pois, captando-a ou não, a criança resolve sua grafia de forma sistêmica
e estruturada, ou a ignora e, portanto, não usa marcas; ou a percebe e O fonema /g/ é percebido, ainda que ignorado o uso do dígrafo antes
elege uma marcação uniforme: põe travador (consoante nasal após a vo­ de /e/. A informação sobre o dígrafo deve vir posteriormente.
gal fechando sílaba) ou til em todas as sílabas que apresentem qualquer
■ começo / çe
vestígio de som nasal (nasaladas e nasalizadas). Convém lembrar que,
na ótica mattosiana (Mattoso Câmara Jr., 1973: 36-7), há uma Xiasalação^ Nesse caso, tem-se um aparente complicador: o mesmo som Isl já
fonológica, que marca oposição na língua e se forma por vogal travada comentado em sua grafia por [s], ressurge grafado com [c]. Como expli­
por consoante nasal (Ex: canto; cinto; penso); e uma nasalação fonética, car essa variação? Em primeiro lugar, esse item contempla a identifica-
%

54 A IMPORTÂNCIA.DO CONHECIMENTO KONOLÓGIOO


rccr
UMA PROPOSTA K ABORDAGEM DE PROBLEMAS DA ESCRITA INFANTIL 55

ção cios fonemas como ponto axial. Logo, o fonema /s/, independente- Observe-se que há uma série de fatos novosj*e]atiyps à questão ortográ­
inente de suas grafias, foi identificado. Em segundo lugar, é importante fica. Contudo, podemos lançar mão dos três modelos propostos e tentar
lembrar que uma criança em processo de letramento estará de algum classificar os fenômenos detectados.
modo ligada às formas gráficas da língua tomadas como desenhos, por
isso, é plenamente possível que, quer no emprego do [s] quer no do [c], Grupo i- da escrita fonética: aminha amarli iela
já exista alguma influência de formas captadas pela vista, não apenas Estas três formas trazem vestígios da escrita em cordão, em que o
pelos ouvidos. Retomaremos isto no item seguinte. Até aqui, é possível aluno transpõe para a escrita a ausência de silêncio na cadência frasal
concluir que é inegável o predomínio das formas orais sobre as escritas
e liga as palavras. Surge então ponto polêmico, pois já foi atitude co­
nessa fase do aprendizado escolar.
mum ensinar ao aluno que o espaço em branco entre as palavras corres­
^

Grupo 3: da instabilidade gráfica ponderia a espaços de silêncio da fala. Entretanto, sabe-se que nossas
\J W' -w/

frases, especialmente as mais simples, como as construídas pelas crianças


■ socoro / terra || ispaso / começo / çe
em seus textos, são produzidas por uma única força expiratória. Logo,
Retomando-se a questão da grafia flutuante do fonema /s7, ver-se-á não há espaços de silêncio, dado que, enquanto a corrente de ar estiver
que a imprecisão gráfica dos elementos grifados pode ser decorrente ou produzindo os fonemas que compõem as palavras da frase, estar-se-á
da influência de formas gráficas conhecidas sobre as desconhecidas ou produzindo algum som.
da não familiaridade gráfica com tais formas, pois, diferentemente de sol
e.g.y tais vocábulos não participam da rotina das leituras escolares, prin­ Tanto em aminha como em amarli, o artigo se acopla com o pronome
cipalmente em se tratando de alfabetização por cartilhas tradicionais, do e o substantivo, respectivamente, formando um bloco sonoro único. Trata-
tipo Eya viu a uva. -se de fenômeno equivalente ao ocorrido com nomes oriundos do árabe,
como: álcool alface, alfarrábio (entre outros), nos quais o artigo al foi
No par socorolterra, além das considerações já feitas sobre familiaridade acoplado ao substantivo, formando um único vocábulo. Verifica-se aqui a
ou não com as formas gráficas, há que se observar a predominância do prática espontânea do vocábulo fonológico, em que as formas da língua se
padrão cV, o que parece reiterar a hipótese de uma possível influência do subordinam a um acento tônico.
contato com formas grafadas do vocábulo terra em outros contextos.
Em ielaf o conectivo e /i/ também se adjunge ao pronome, segundo
Tais considerações já não são aplicáveis às formas verbais comecolce
o molde anterior.
' que, por seus conteúdos altamente abstratos — representam processo e
estado — via de regra, não provocariam do mesmo modo a atenção por Assim, Mariah retratou na escrita o modo como percebe os vocábulos
suas grafias. fonológicos (Mattoso Câmara Jr., 2000), subordinando os espaços brancos
às pausas entre estes e não entre os vocábulos formais, como é o conven­
u

cionado em nosso sistema ortográfico.


5. A LEGIBILIDADE DA REDAÇÃO INFANTIL
Antes de seguir na análise das formas do texto de Mariah, convém uma
A classificação que aqui propomos é ainda mais incipiente, vem servindo ilustração interessante por meio de texto que circula na internet como sendo
de ponto de referência para a solução de alguns casos com que nos temos uma caricatura da fala mineira (q mineirês). Vejamos.
defrontado durante nossas análises de redações infantis. Sapassado, era sessetembro, taveu na cuzinha tomano uma pincumel e
'w

Novo texto: cuzinhano um kidicame com mastumate pra fazer uma macarronada
com galinha asSada.
Eu vim aminha cava e vi amarli. iela tava cora fira dela.-1| Eli viu mu Quascaí de susto, quano ouvi um barui vindo de dendofomoy parecendo
carro. || Eli poloda bicicleta. || Acado. (Varre-Sai/RJ, Mariah, 7 anos). um tidiguerra.
M> A 1MI'UKIA.NUIA LHJ CUKHlMJlMbNIU FUNULUUIUU u.\m rivwrwo j.-\ r. A M . m i u i i l'KUüLI*,MAh DA liSCRITA INFANTIL 57

A receita mcindopô midipipoca dendagalinha prassá. Eli leva-nos a repensar até que ponto a* pronúncia alfabética tradicional
O forno isquentô, o mistorô e ucu da galinha ispludiu! seria o condicionante da forma poloda. Especialmente neste caso, pois
Nossinhora\ Fiquei branco quinein um lidileite. Foi um trem doidimaisl a professora da turma não se mostrava nem um pouco atraída pelos
Quascaí dendapia\ Fiquei sensabê doncovim, proncovô, oncotô. procedimentos didáticos tradicionais desse estilo.
Oiprocevê quilocural Quanto ao acoplamento da combinação de+a, apliquem-se os motivos
Grazadeus ninguém semaxucô\ descritos no grupo 1, na análise do texto O Sapo Voador (p. 50).
Observe-se que todas as formas em itálico (grifos nossos) nada mais ■ mu
são que resultantes da fusão de formas que constituem grupos de força
(sábado passado = sapassado; sete de setembro = sessetembro; estava eu = Repete-se aqui o caso do ni. Tomando por base o padrão cV, mesmo
taveu; pinga com mel = pincumel;) ou vocábulos fonológicos (para assar falando izm, a autora optou por escrever mu.
= prassá; que nem = quinein; sem saber = sensabê). A escrita pseudofo- Lendo artigo sobre criações lexicais da fala infantil (cf. Figueira,
nética aqui praticada tenta retratar a realidade oral de uma fala regional, TLA, n° 26, p. 49), constatamos a ocorrência da forma dusa (= duas).
ao mesmo tempo que serve de demonstrativo para as junturas .espontâ­ Tal forma é comuníssima na produção oral entre os 2 e os 7 anos. Tam­
neas que se praticam na fala, independentemente de idade ou mesmo
bém é detectável na escrita no período de letramento. Observe-se que
escolaridade, pois há intelectuais mineiros que assim se pronunciam a inversão fonêmica na fala é produto da dificuldade estrutural contida
até em ocasiões formais. no signo duas, cujo segmento fônico apresenta dois padrões silábicos:
Retomemos o texto infantil em discussão. cV + Vc. Para os falantes aprendizes, a inversão do padrão para Vc é um
complicador, já que a articulação da sílaba parte do som puro (vocálico)
■ ta va Eli para o travador (ruído consonantal). Ora, a partir disto é fácil verificar
Estes novos exemplos trazem a oralidade reproduzida fielmente, como a dificuldade refletida na escrita, já que o modelo inicial de grafia, pelo
em ispaso e nz, ou seja, escreve-se como se fala. menos em tese, é o fonético (conforme ocorreu na história do português
- cf. Coutinho, 1974: 71 $93).
Grupo 2- da regularização sistêmica: poloda
Outro texto:
Fato interessante é detectável nessa estrutura. Ao contrário do grupo
anterior, a autora afasta-se da fala e aplica uma convenção: se mato, galo, Menino pra ser .bonito || ão precisa de pintura || chapei preto na cabesa
dedo, por exemplo^ a despeito de falar-se [u], são grafados com [o], (conclui || e trinta e oito na cintura (Varre-Sai/RJ, Diogo).
que) sempre que surgir o som [u] escrever-se-á [o]. Daí pulou da, resultar Continuando a ideia de que a criança regulariza o sistema, vê-se que em
em poloda. chapei deu-se uma analogia com formas como anel, papel etc., enquanto
Dessa forma ainda é possível fazer outras inferências, e a que nos que em cabesa retoma-se a presença da oralidade associada à dificuldade
de grafia do /s/ em português.
ocorre é uma hipercorreção decorrente de uma pronúncia alfabética
muito típica do comportamento de alfabetizadores tradicionais, onde a Mais um texto:
leitura oral se fazia — erradamente — de modo a causar a impressão de
Lá no alto da quele Morro. || Passa boi passa boiada, || Só não passa
que o fonema estivesse inscrito na letra (ou grafema), ou que houvesse
uma velha || Toda barriada (Varre-Sai/RJ, Viviane).
correspondência biunívoca entre fonema e grafema. Daí que, em se tra­
tando de texto produzido na escola, para o professor, pode-se arriscar que A forma da quele traz de novo à tona a capacidade de observação e
a forma poloda pudesse ser algo resultante desse tipo de raciocínio: ['e a regularização sistêmica, pois é comum dizer-se lá no alto do morro! lá
li po 'lo da bi ci ‘kleta]. Entretanto, a presença do [e] ou [i] na forma no alto da serra, lá no alto da ladeira etc. Daí a criança deduz que lá
58 A IMPOKTANUA UU UUlNHIMJIMLMN i u ruiNULU^iv^w '.'.vi.-Y riYuruairt u . yduim^av.i^vi ul. mwuLtMMiA.'* DA IA UM'AlN IIL >V

no alto da é uma estrutura constante e, então, conclui que quele é separado, sempenho linguístico na variante transmitida (ou .transferida — cf. Silva
é outra forma que não faz parte do habitual lá no alto doida. Neto, 1956: 72-73), vai-se fazendo um paralelo entre o que se fala, o que se
Em barriada (cf. barreada = suja de fezes), tem-se de novo o predomínio escreve/o que se lê, isto é: entre os diferentes modos de dizer algo oralmente
do oral. A grafia quer representar como se fala, tal e qual já se mencionou ou por escrito etc.
nos itens referentes a ispaso, tava, Eli e poloda. Em suma, os constrangimentos decorrentes da postura tradicional do
certo/errado deixam de atuar como entraves no processo de ensino-apren­
dizagem escolar.
6. Retomando as questões iniciais
Por que há alunos que produzem textos ricos (o critério para classi­
Com base na abordagem proposta, ou no tratamento dado aos fatos le­ ficar um texto como rico é a informatividade) em informações, mas
vantados nos textos utilizados como corpus de análise, tentaremos responder com grafia “bárbara” e outros que reproduzem textos “certinhos” e,
às indagações levantadas no início deste estudo. no entanto, com baixá informatividade?

Pode a escola, conviver com formas gráficas da língua popular e até Considerando a premissa de que, ao se escrever algo, há uma preten­
mesmo do registro vulgar? são (mesmo que remota) de que tal texto venha a ser lido por alguém, a
qualidade da escritura terá, pelo menos em tese, alguma relação com o seu
Nossa resposta é afirmativa, uma vez que cabe à escola enriquecer o
leitor virtual. No caso dos textos escolares, há uma tradição de exigência de
potencial comunicativo do estudante, dando-lhe meios e modos de trans­
textos “certinhos” da parte do leitor natural destes textos: o professor. Con­
mitir o que pensa e sente (ou ler o que os outros expressam) em qual­
tudo, nem sempre esta exigência coincide com o grau de informatividade
quer das variantes linguísticas de seu idioma (cf. Bechara, 1991: 1?). Isto
do texto em apreciação. Daí resultarem controvérsias no que concerne à
posto, vê-se que a convivência com formas gráficas diversas, particulares
definição de texto bom e texto ruim no contexto escolar.
de cada registro, é umá estratégia técnico-didática, por meio da qual o
estudante será levado a manter contato, exercitar, explorar os mais variados Graças à linguística textual e à análise do discurso, hodiernamente,
tons e tipos de texto. tem-se um farto material teórico para alicerçar nossas considerações sobre
o que é um bom texto. E esta classificação aponta para os textos que apre­
Até que ponto aceitar grafias de base fonética (assentadas na fala
sentem maior legibilidade (possibilidade de ser compreendido) e maior grau
discente) é um caminho didático adequado?
de informatividade (quantidade e qualidade de dados novos para o leitor).
Em consequência da resposta à questão anterior, conclui-se que as Assim, não basta escrever “certinho” para que seja garantido o conceito
grafias “pseudofonéticas” da primeira fase da escrita escolar são um porto BOM para um texto. E necessário que o texto manifeste condições mínimas
de passagem natural que, se bem trabalhadas, podem resultar numa base de legibilidade quais sejam: coerência e coesão.
promissora para a futura aquisição das formas dicionarizadas, pois, durante a
Partindo do fato de que o leitor primeiro dos textos produzidos em
exploração daquelas, é possível desenvolverem-se muitas atividades voltadas
classe é o professor, o aluno autor poderá tomar duas atitudes polares
para a pesquisa das formas, do que resultará o domínio desejado.
ante a situação de produção: (a) esforçar-se por construir texto semelhante
Além do mais, há muito que se ressalta a importância da exploração do ao do livro didático (ou cartilha) adotado pelo professor leitor, para não
universo imediato da criança como ponto de partida para as aprendizagens correr muitos riscos, além dos decorrentes de seu pequeno domínio da
em geral. Assim, tomar as formas gráficas emergentes da fala original da norma-padrão; (b) arriscar tudo, produzindo texto que registre sua expe­
criança como elementos, deflagradores do processo de aquisição da escrita riência de usuário da língua, sem preocupar-se com o poder avaliatório
parece-nos o procedimento mais adequado, pois, além de prestigiar o de­ do leitor professor.
No caso “a”, o autor poderá produzir textos do tipo: quanto maiores forem suas possibilidades de travar contato com a variedade da lín­
A bola é da Lalá. || A bola é bonita. || Lalá pega a bola. || A bola é gua — lendo e escrevendo —, ampliando sua prática por uma vivência direta. Isto
bela.|| (Aluno de um CIEP, São Gonçalo/RJ) vai propiciar a produção de textos espontâneos que ora trarão formas repetidas das
cartilhas, ora trarão formas supostamente fonéticas ou mesmo inventadas,
em que é reduplicada a forma dos textos da cartilha, sem qualquer esforço
quando o repertório (oral ou escrito) falhar. E nós, os professores, estaremos
criativo, portanto, sem riscos de uso impróprio de formas da língua.
ali, à disposição para receber o produto e apreciá-lo, acolhedoramente, com
Já em “b”, o’ pequeno escritor estará envolvido pelo desejo de dizer olhos técnicos bem preparados e capazes de orientar as reformulações neces­
coisas, e o fató de ser lido/avaliado não é o mais importante. Assim, ele sárias sem qualquer constrangimento tanto para o aluno redator, quanto para
afrouxa o compromisso com a apresentação de formas autorizadas e passa a o professor leitor.
escrever seu mundo e registrar sua experiência. Desta atitude podem surgir
textos do tipo de O Sapo Voador (p. 50).
7. Algumas ideias conclusivas
Como avaliar esses dois tipos de desempenho escrito?
Além de trazer à análise situação vivenciada em classe, parece-nos perti­
Nos dois casos, teremos alunos em treinamento e, resguardadas as di­
nente provocar uma reflexão técnico-didática em favor da minimização das
ferenças, teremos de realizar exercícios específicos de aperfeiçoamento de
consequências de uma avaliação inadequada do desempenho escrito dos
seus desempenhos linguísticos. Apesar de ambos terem produzido textos
alfabetizandos. A presença de formas escritas não autorizadas não provoca
e de terem dado seus “recados”, cumpre oferecer-lhes oportunidades de
ruídos graves na comunicação entre os textos produzidos e seu leitor — o
ampliação de seus respectivos domínios, para que não haja qualquer tipo
professor — já que as condições de produção de tais textos já estabelecem
de confjnamento ou de liberdade desmedida na condução do processo de
todo um conjunto de dados partilhados entre autor e leitor, viabilizando,
aprendizagem da língua, sobretudo da modalidade escrita, que é a que ora
assim, a inferência da forma ortográfica adequada a partir das inferências
focalizamos.
semânticas emergentes.
Ao dizermos confinamento, referimo-nos ao aprisionamento à norma culta
O estudo da língua precisa ser visto de forma globalizante; por isso, os
e, por conseguinte, à escrita formal como único modelo; e entendemos
fenômenos detectáveis. nos diferentes planos da análise linguística devem
por liberdade desmedida (quase libertinagem) o não controle do uso das
ser, sempre que possível, relacionados com a leitura e a produção de textos
formas linguísticas, a ignorância de uma necessária disciplina na seleção do
— principais metas da aquisição da língua na modalidade escrita. Portanto,
registro em consonância com o tipo de texto que se pretende criar. Cabe
ao professor buscar o equilíbrio para suas ações: nem confinamento nem o acompanhamento e a avaliação dos progressos obtidos pelos escolares,
mormente no período de letramento, devem sempre ter em conta que as
liberdade desmedida.
escritas iniciais são produzidas para o professor — interlocutor imediato
Lembremo-nos ainda do uso literário que, para enriquecimento do e exclusivo, dadas as condições de entrada nos domínios da escrita no
trabalho linguístico, não pode de forma alguma ficar fora de nossas ações âmbito escolar.
didáticas. Logo, ao defrontar-se com formas diversas do padrão culto em
Considerando-se a necessidade de experiências compartilhadas entre
textos literários, o aluno deve estar preparado para entendê-las como postas
autor e leitor de um texto como garantia da legibilidade deste último,
em contexto autorizado, pois uma das marcas daquele tipo de texto é o
cumpre lembrar que cabe ao professor investir-se do mais alto grau de
entrecruzar de vozes (e registros). Para tanto, a exploração do texto literário
cumplicidade nas produções dos alfabetizandos, para desencadear uma
é imprescindível (ver Parte II deste livro).
abundância de produtos escritos cada vez maior. A aquisição da língua
Portanto, para concluir nossa resposta à questão sobre textos “certinhos” ou escrita depende da prática de produção escrita, da mesma forma que o
não, o que pensamos é que tanto melhores serão os textos produzidos pelos alunos aperfeiçoamento da leitura depende do exercício continuado de leituras.
') 62 A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO FONOLOCICO

Logo, o compromisso docente/discente com as grafias dicionarizadas deve ser


proporcional ao grau de ruído provocado pelas formas presentes na escritura;
e a correção das formas defeituosas — quer as que registrem uso dialetal feÉSf v.-.
inoportuno (Ex: ispaso, praneta), quer as que registrem forma estranha ou
mesmo ilegível — deve ser promovida paulatinamente, atendendo ao seu Mudanças linguísticas
surgimento e levando em conta as necessárias contextualizações para que
não sejam condenadas gratuitamente e, mais tarde, venham a gerar conflitos
quando detectadas em textos literários, por exemplo.
Desde cedo o aluno deve ser orientado para:
/
a. as diferenças entre língua falada e língua escrita; 1. Língua também é história
b. a variação dos usos linguísticos; A nossa língua é também a nossa história (Grim).
>í c. a necessidade de adequação de registros;
d. o modelo alfabético-ortográfico de grafia; Enquanto Roma dominava o mundo, o latim era a língua da civiliza­
e. a não correspondência entre fonemas e letras; ção. Mas isso não foi perene. Toda dominação passa por fases de equilí­
■> I f. a natureza convencional da língua — sobretudo na escrita; brio e desequilíbrio sucessivos que permeiam as mudanças características
^ g. o esquema paradigmático para dedução de formas etc. da estruturação da sociedade. E tais mudanças, é claro, afetam a língua
Enfim, o que pretendemos demonstrar aqui é que muitas das dificuldades predominante, ou oficial.
atribuídas, no processo de ensino-aprendizagem do vernáculo, à heteroge­ Assim, o latim coexistiu em contato direto com línguas bárbaras — as
neidade e à falta de prontidão (biológica ou psicológica) do alunado nada dos povos invasores — que a ele se mesclaram vindo, posteriormente, a dar
mais são que resultantes de ações pedagógicas impróprias e, muitas vezes, origem às chamadas línguas neolatinas, dentre as quais figura o português.
decorrentes de uma carência técnico-teórica docente no que se referejip
domínio da estrutura e c|o funcionamento da língua materna. Nao que o Como consequência da transculturação — intercâmbio de usos e cos­
docente esteja descomprometido com o processo, mas, por falha na sua tumes —, a língua latina foi passando por mudanças de toda ordem; e a
formação, não se tenha habituado à pesquisa e à reflexão sobre os temas acomodação da pronúncia, sob a ação das leis fonéticas, atua determinan­
que, no curso de sua prática, venham a apresentar-se como problemáticos, temente na configuração do léxico.
carecendo, assim, de maior, esclarecimento e de novos recurso^'táficosypara Não precisamos abstrair muito para perceber alterações lexicais decorren­
explanação didática. ^ tes de impropriedade articulatória. Basta observar um estrangeiro tentando
falar a nossa língua e logo se captam alterações fonéticas das mais variadas.

/ o
r>
çy
Um exemplo bem característico é a dificuldade de articulação do som nasal:
a pronúncia de palavras como mamão, mãe etc. torna-se engraçada quando
\v realizada por um inglês, por exemplo.

•ij
1.1. Questões de fonética articulatória

Os indígenas brasileiros também apresentam características interes­


santes a serem observadas, no que concerne à pronúncia. Uma delas é a
t)
necessidade de apoio vocálico para qualquer consoante. Por isso, na sua
pronúncia, se desfazem os encontros consonantais, por exemplo. Observe-se: E o cantado aos poco / Foi se paxonano pruela / Té qui um dia fico
cruz passa a curuz. Veja-se exemplo textual: loco / De tanto cantá parcela (in “Parcelada” do Auto da Catingueiray
de Elomar) [grifos nossos].
Fui indo pra lá, fui vendo: curuz! De toda banda, ladeza da chapada
tinha rastro de onça... (Meu tio, o lauaretê, de Guimarães Rosa). Nos textos produzidos em linguagem regional, vamos encontrar a mar­
cação gráfica de fenômenos fonéticos e fonêmicos da mais alta relevância,
Fenômeno semelhante ocorre com a busca de apoio para consoantes como no exemplo retirado da obra do compositor baiano Elomar Figueira
travadoras em sílábas finais. Veja-se o exemplo textual: Mello, cujas composições são objeto de nossas pesquisas atuais, oferecen­
Da Carantonha mili légua a caminha / Muito mais, inda mais, muito do farto material para a documentação dos fenômenos da dialetação. No
próximo exemplo, observaremos algumas transformações oriundas de uma
mais / Da Vaca Seca, Sete Varge inda pra lá / Muito mais, inda mais,
articulação diferenciada: a nordestina.
muito mais (in Na quadrada das águas perdidas, de Elomar) [grifamos].
Purriba dos lajedo o luá chego / Já cá na cabicera a função pispiô (in
A realização de sílaba travada se mostra como uma dificuldade para a V^
Clariô”, de Elomar) [grifos nossos].
fala espontânea. Tanto na linguagem regional como na fala popular, vê-se
Vê-se em por riba > purriba —> justaposição da preposição ao advérbio )
uma forte resistência aos travadores. Ora eles são apagados dando lugar
ao aumento da tonicidade da vogal que antes travavam; ora evoluem para com grafação da metafonia da vogal da sílaba 1 lul (então vogal do radical) \ ■' \

aclive de sílaba, gerando novo movimento silábico a partir do ingresso de e duplicação do [r] para indicar a vibrante forte que abre a sílaba seguinte.
uma vogal que se lhe apoie. O primeiro caso foi demonstrado com a fornia Em luáy dá-se a marcação da tonicidade do /a/ que, na língua padrão, vem
<•
cruz e sua variante curuz; o segundo caso é demonstrado então pela forma demarcada pela presença do travador /r/. Destrava-se a sílaba, simplifica-se a
pronúncia, mas mantém-se a tonicidade. A forma cabicera abriga dois fatos:
rniliy que é variante de mil.
a mudança do timbre da vogal pretônica (de /e/ para lil) e a monotongação
"" Além dessas alterações causadas pelas trocas interculturais, há também do -ei em -ê, na sílaba tônica (cf. cadeira > cadera; ladeira > ladera, etc.). )*
as mudanças de ordem fonética, ou seja, mutações causadas pela natureza Já em pispiô, tem-se uma revolução fônica interessantíssima. A forma padrão
dos sons e pelo contato entre eles. Também isto pode ser observado sem é principiou. Os fenômenos ocorridos são: a) na primeira sílaba — síncope
que precisemos recorrer à exemplificação diacrônica, a qual é muitas vezes da vibrante e desfazimento do grupo consonantal —pr~; desnasalação com )

pouco objetiva, considerando-se o estudante hodierno, cujo conhecimento o desaparecimento do travador -n-; redução da sílaba -ci- à condição de ... ■)

de latim é, via de regra, inexistente. travador sibilante por analogia fonética; b) na última sílaba — monoton­
gação do -ou em -ô, por simplificação fônica.
Examinando mudanças morfofonêmicas nos processos sincrônicos de )

estruturação vocabular, ver-se-ão fenômenos idênticos àqueles detectáveis Para melhor visualizar:
)

na evolução do latim ao português. Observe-se: feijão > feijoada. principiou • pispiô


O ditongo da última sílaba é fonologicamente /a"'N/, na palavra primi­ prin (-r) (-n) -► pi
tiva, e passa a /ò/ ria derivada, inclusive desnasalada. O mesmo fenômeno ci /s/
ocorrera no passado em P3 IdPt2 (Pretérito Perfeito do Indicativo). Ex: pi pi
amaut > amou. ou ô
Cumpre lembrar que a presença da semivogal posterior fica restrita ao Retomando trecho do excerto: E o cantado aos poco / Foi se paxonano
registro formal, uma vez que a pronúncia corrente é /a 'mo/. Constata-se pruela (in Parcelada do Auto da Catingueira, de Elomar) [grifamos],
então: /o"V > /o/
O elemento grifado apresenta um outro caso em que a vogal antes
Vamos aos textos. base de uma sílaba travada — evolui para vogal plena, de sílaba aberta. A
%

presença de uma semivogal ou de uma consoante após a vogal (no declive 2. Em algum lugar do passado..*.
silábico) promove certo abafamento do som vocálico. Isto resulta em um
complicador de pronúncia. O falante comum busca então a simplificação Uma veis, io tava ajuntano um gado de Sio Venso e conde foi a mea
da sílaba, o apagamento de seu travador, quer vocálico quer consonantal. noite nois tava arranchado dibaxo dum pé de pau, conde iscutemo a
Assim, formas terminadas em -or (como cantador) realizam-se como em vois dum vaquero qui vinha tocano um horro de gado, qui pela trivuada
-ô (como cantado). O mesmo processo se dá em relação aos infinitivos paricia uas duzentas cabeça.(...) (trecho de Rio Pardo).
verbais em geral:, -ar > -á; -er > -ê; -ir > i. %
Quando escutamos um causo como este, contado por um sertanejo,
Como se vê, o mecanismo de simplificação fônica é uma prática cor­
dependendo de nossa experiência linguística, podemos ficar entre espantados
rente na dialetação. Ainda que sejam mínimos os exemplos, cremos que,
e animados, pois quem se espanta, via de regra, não está entendendo nada.
a partir destes dados, o leitor poderá passar a observar as falas ao seu redor
e verificará que não se trata de fato exclusivo da modalidade nordestina da E quem se anima? E claro que deve ser um interessado pelos fenômenos
língua nacional, mas de uma prática usual dos falantes. de nossa língua.

A princípio, em decorrência da falta de familiaridade com o estilo


1.2. Questões de fonética sintática do texto, o leitor pode achar-se como que diante de língua estranha, ou
Ao lado da fonética articulatória, está a fonética sintática, também deter­ mesmo estrangeira. Porém, na segunda leitura, começa a sentir a seme­
minante de significativas mudanças na língua. Os fenômenos resultantes do lhança com coisas que já escutou, principalmente se esta leitura for feita
contato das palavras na frase também provocam alterações no léxico. Os em voz alta.
exemplos mais frequentes desse fenômeno são as aglutinações do tipo: a)
Esse é um dos motivos por que os leitores principiantes, às vezes, acham
filho de algo > fidalgo; b) Santa Ana > Santana; c) em boa hora > embora.
os textos rosianos difíceis. Observe:
Também são detectáveis as variações alofônicas resultantes da juntura
Nhor sim, ca por mim vou bebendo. Cachaça boa, especial. Mecê
(cf. 4.5), tais como: a) asas /s/ ou /j7; b) asas abertas /z/ ou /3A
bebe, também; cachaça é sua de mecê; cachacinha é remédio... Ce tá
Assim sendo, não há nada de estranho ou espantoso na evolução de espiando. Ce quer dar pra mim esse relógio? Ah, não pode, não quer,
uma língua. E os fenômenos se repetem desde que os fonemas estejam tá bom... Tá bom, deistá. Pensei que mecê queria ser meu amigo...
sujeitos às mesmas influências, ou seja, funcionem em ambientes fônicos Hum. Hum-hum. E. Hum. Ia axi. (...) (trecho de Meu tio, 0 lauaretê
idênticos ou, pelo menos, análogos. de G. Rosa).
' Quanto aos vários períodos (ou estágios) por que passou o português Este fragmento — uma fala do personagem onceiro — traz formas típi­
até chegar ao modelo por nós utilizado, basta rever 0 processo histórico e cas da oralidade, conforme 0 causo anteriormente citado, e nos transporta
examinar a origem e formação do povo português, assim como as lutas que para o meio do mato, onde um bugre — companheiro de onças — fala
travaram com outros povos em busca de sua afirmação e independência,
truncado, numa mistura de formas do dialeto caipira com grunhidos que
desde a queda do Império Romano, época em que 0 latim começou a
o aproximam dos animais selvagens com os quais convive.
desdobrar-se nas atuais línguas neolatinas.
Aproveitando a incursão iniciada pelo conto do vaqueiro, e mais adentrada
Destarte, a evolução (ou mudança) é uma constante nas línguas vivas
pela fala do onceiro, visitemos a tradição através da qual se pode encontrar
e carece de estudo pormenorizado e diferenciado, dado que cada língua
uma fala ainda mais remota, com vestígios de fala arcaica.
é um sistema particular com características próprias. Contudo, ainda que
haja fenômenos condicionados a uma dada época, a linha geral de evo­ Ó boio, dare de banda, / Xipaia esse gente, /Dare p’ra trage, /E dare
lução é constante e se* repete, podendo ser descrita quer diaçrônica, quer p’ra frente.../Vem mai pra baxo, Roxando no chão /E da no pai Fidére,
sincronicamente, sem prejudicar a visão geral dos fenômenos. /Xipanta Bastião.../Vem pra meu banda.
MUDANÇAS LINGUÍSTICAS 69

Em algum lugar cio passado, o negro escravo aqui chegado é levado a


falar a língua local, a nossa língua, pelo processo de aculturação. Mas os Observados tais fatores e .retomada a questão da' imutabilidade das leis
hábitos linguísticos por ele trazidos exercem forte influência sobre a nóva fonéticas, desde que mantidas as condições contextuais — ambientes fônicos
idênticos ou análogos —, concluímos que é válido tentar fazer um estudo da
língua, resultando em formas como as contidas no excerto transcrito.
história do português seguindo outro itinerário, isto é: em vez de voltar ao
Tal fragmento é trecho de um reisado de Pernambuco, documentado por latim e analisar os metaplasmos que deram origem às formas do português
Silvio Romero e por nós recolhido (apud Silva Neto, 1977: 38), que retrata atual, compararemos formas da língua padrão com as da língua popular;
um modelo de língua ainda presente em nossos dias, principalmente nas então, poderemos constatar a dinâmica da evolução da língua a partir de
letras de músicas das festas populares, mormente as do Norte e Nordeste. uma realidade mais próxima de nossa experiência de falante.
A língua’ do negro escravo — remanescente do crioulo português — é Adevorve, adevorve, amô\ I Adevorve o porta-estandarte / do Craudionô
uma das variantes do português do Brasil, além da variação regional e so­ (MPB) [grifos nossos].
cial; e vem fornecer dados para a constatação de que a evolução fonética
Nesse trecho de letra de .música popular, vamos encontrar a linguagem
descrita na passagem do latim ao português se mantém viva, ativa, atuante.
dos sujeitos não escolarizados, conforme Adoniran Barbosa demonstra tam­
Conforme afirmaram Scherer e H. Paul (cf. Dubois, 1978), as leis fo­ bém em Trem das onze:
néticas são, em princípio, imutáveis; e basta confrontar formas de transição
Além disso, muié, / tem otras coisa / minha mãe não dorme / inquanto
latino-portuguesas com algumas do português atual para vermos que a ação
eu não chegá / Sô filho único / tenho minha casa pra oiá [grifos nossos].
de tais leis mantém o mesmo padrão.
As formas grifadas demonstram fenômenos frequentes na fala popular, as
Na fala popular hodierna, vemos metaplasmos idênticos aos ocorridos
quais comprovam a ação dos metaplasmos a despeito da evolução temporal,
na formação do português.
ou seja, ratificam a imutabilidade das leis fonéticas.
Veja-se o quadro a seguir:
Ilustrando: (a) muié — vocalização da consoante lateral palatal [y]; (b)
(outrora) (hoje) muliere (lat.) > mulher [Á] palatalização da consoante dental lateral /!/ pelo
bon da doso > bondoso contato com a vogal palatal /i/.
parale le pípedo > paralepípedo Na corruptela muzé, tem-se a plenitude da palatalização a partir da
Conde de Bonfim > Con’de Bonfim — todos casos de haplologia predominância da vogal e do apagamento do [1].
#

Imposto de Renda > Impôs’ de Renda Na forma otras, vê-se a assimilação, que é a aproximação ou perfeita
rana > arrã (pop.) — adição de substância fônica identidade de dois fonemas, resultante da influência que um exerce sobre
o outro (cf. Coutinho, 1974:143).
voar > avoar (pop.)
O ditongo ou (em sou) foi desfeito pela assimilação perfeita entre a vogal
posterior média fechada [o] e a semivogal posterior [w], predominando a
3. I PRU MODE QUE NUM DIZE? primeira.

As mudanças linguísticas têm por determinantes maiores o tempo, o es­ O apagamento de fonemas no final dos vocábulos apócope — é também
paço e a organização social. Esses três fatores exercem pressão e provocam detectável em nossos dias com frequência, especialmente na fala popular.
transformações em toda a vida humana; logo, a língua também se altera Exemplificamos com muié, chegá e oiá, nos quais se dá a apócope do
por esses elementos. As mudanças podem ser: (a) temporais ou diacrônicas: [r] - arquifonema consonantal vibrante, tal qual ocorrera em: a) amare >
apiciila (lat.) > abelha (port.); (b) espaciais ou diatópicas: facto (Portugal) cf. amar; b) amat > ama.
fato (Brasil); (c) sociais ou diastráticas: lagartixa (culta) cf. largatixa (pop).
Ainda no cancioneiro popular, teremos exemplos interessantes como:
%

70 A IMPORTÂNCIA DO CONHKCIMKNTO K)N()l/X;iCO MUDANÇAS LINGUÍSTICAS 71

Maringá, Maringá! / Depois que tu partiste / tudo aqui fico tão triste / permitindo tanto ao estudioso-quanto ao falante comum deslumbrarem-se
que eu garrei a maginá (MPB) (Joubert de Carvalho) [grifamos]. ante o carrossel de possibilidades formais que se lhes apresenta no universo
de uma língua. E a nossa — o português — é um manancial prodigioso
Os termos grifados vêm ilustrar outro metaplasmo: que deslumbra seu espectador.
a. agarrei > garrei — aférese (apagamento de fonema no início do vocábulo); Confrontando-se o trecho de Língua com algum trecho d’Os Lusíadas
b. imaginar'>-maginá(*) — aférese. (*) Além da apócope do [k]. ou mesmo com
Não vamos aqui fazer análise de variadas mudanças morfofonêmicas Quando n’alma pesar de tua raça / A névoa da apagada e vil tristeza, /
ocorridas nessa ou naquela palavra, pois nosso objetivo é outro: identificar Busque ela sempre a glória que não passa, / Em teu poema de heroísmo
os mecanismos fônicos que ocasionam as mudanças (ou evoluções) nas e de beleza. (...) Não morrerá sem poetas nem soldados / A língua em
formas da língua. Contudo, a ilustração apresentada com recortes de textos que cantaste rudemente / As armas e os barões assinalados (Manuel
da literatura e da música popular vem simplesmente demonstrar que as Bandeira. A Camões).
mudanças fonéticas não são extraordinárias, tampouco raras, senão comuns,
frequentes e patentes na língua em funcionamento. Vê-se que os signos são reutilizados e ecoam provocando, a um só
tempo, o renovar e o reviver das gentes por meio da expressão linguística
que retrata e contrasta os tempos. E no reutilizar formas, muitas vezes, o
povo cria expressões pitorescas tais como cuspido e escarrado para esculpido
4. O QUE QUER, O QUE PODE ESSA LÍNGUA?
em Carrara ou esculpido e encarnado; bicho carpinteiro em lugar de bicho
no corpo inteiro; e outras tantas que fazem parte (da) e estão presentes na
Examinar as mutações linguísticas é um convite a viajar no tempo, no fala popular.
espaço, na imaginação... Revirar os signos, auscultá-los, radiografá-los é ta­
refa emocionante, uma vez que por detrás de cada palavra há uma história Nem sempre o nosso ouvido é fiel aos sons, e aí: hanger (ing.) torna-se
a ser desvelada; e, no intrincado dos enunciados, a trama semiótica cria rango; for all (ing.) passa a forró; first fist (ing.) gera vias de fato, ein Kranke
e recria um mundo potencial encantador, capaz de levar-nos à busca de (al. = uma doença) tornou-se encrenca etc.
respostas relacionadas com a origem do cosmos. E o cosmos se explica em
A pista falsa fornecida pelos ouvidos, associada à proximidade articu-
palavras. E nós nos apropriamos dele a partir de nossa língua, em particular.
latória desse ou daquele fonema, faz com que as novas criações sejam
Assim, a língua portuguesa é o nosso convite a uma viagem pelo mundo
possíveis sem muito sacrifício (ou imaginação, ou engenho e arte) do
das palavras que nos cercam. falante/ou vinte. ’
Sigamos a música: Vê-se, ainda, a dificuldade articulatória de determinadas estruturas fono-
Gosto de sentir a minha língua roçar / A língua de Luís de Camões lógicas as quais levam os falantes a atrapalharem-se na pronúncia e criarem
/ Gosto de ser e de estar / E quero me dedicar / A criar confusões novas formas que, mais tarde, podem ganhar o status de vernáculas.
de prosódias / E uma profusão de paródias / Que encurtem dores / E Ilustrando:
furtem cores como camaleões / Gosto do Pessoa na pessoa / Da rosa
no Rosa / E sei que a poesia está para a prosa / Assim como o amor f. saSTIfeito, POgrama, TaUBa: são exemplos de metátese (ou hipér-
está para a amizade / tese, para Serafim da Silva Neto) frequentes na fala popular;
g. meSmo > ,cmeRmo; Gente > * Rente: são conversões articulatórias que
E quem há de negar que esta lhe é superior? [bis]
também caracterizam uma tendência fonética na fala corrente atual.
E deixa os portugais morrerem à míngua / Minha pátria é minha língua
As contrações (mudanças morfofonêmicas decorrentes da ordem sin­
/ Fala, Mangueira! Fala! (Caetano Veloso, Língua: 1984).
tática) também vão gerando formas novas que às vezes até geram polê­
A mesma língua pela qual a nossa vida passa de boca em boca entra em mica. Por exemplo, na letra de Universo no teu corpo (Taiguara, 1970):
cena para demonstrar que é dinâmica, que cria e recria suas formas e fôrmas, “Bem que eu digo / Que estou morto / Presse triste mundo antigo” [gri­
72 A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO FONOLÓCICO MUDANÇAS LINGUÍSTICAS 73

famos] o elemento grifado, resultante da contração de pra + esse, de­ Hodiernamente, a língua-portuguesa é vista conio língua de países em
monstra a elisão do /a/ em decorrência da tonicidade do lei que *o evolução. O Brasil já se anuncia como celeiro do mundo, e as mudanças
sucede, favorecendo a assimilação perfeita entre os fonemas vocálicos sociopolíticas no panorama brasileiro chamam a atenção da comunidade
/a/ e /e/, originando a forma presse (p’ra + esse = p resse). internacional para a necessidade de domínio da língua portuguesa não ape­
nas como um ganho cultural ou acadêmico, mas como uma necessidade
A inscrição dessa música num Festival da Canção — celebrada com­ política ou estratégica.
petição musical dòs anos 1960 e 1970 — ficou condicionada à aprovação
do uso daquele termo — presse — submetido à apreciação da Academia Do ponto de vista da lexicologia, a discussão sobre o volume de estran­
Brasileira de .Letras, a qual o aprovou com base nos mecanismos internos geirismos catalogáveis no vocabulário geral brasileiro é sempre oportuna,
da nossa língua e pelo fato de ser documentável na fala popular. Portanto, desde que voltada para um aprofundamento na dinâmica da língua. To­
rejeitar formas como presse é negar a vitalidade da língua; é repudiar o davia, o rumo dado à polêmica tem-se mostrado quase totalmente inútil
ou inócuo, uma vez que os comentaristas se perdem do fundamento da
pulsar da cultura na boca do povo.
questão que é o caráter neológico (ver formação de palavras, in Bechara,
Criações dessa natureza são possíveis em decorrência das tendências 1999: 351 ss.) do estrangeirismo e, antes, a própria definição do neologismo
fonéticas naturais da língua, as quais permitem a acomodação fonêmico- e sua função nas línguas.
-ortográfica que, como essa, pautam-se na lei do menor esforço, isto é, no
Como o presente estudo trata de questões fonêmicas, cumpre dizer que
favorecimento da simplificação articulatória.
o neologismo por empréstimo estrangeiro só deveria incorporar-se ao léxico
Manuel Bandeira já dizia: geral (ganhando espaço nos dicionários e vocabulários oficiais) quando, de fato,
preenchesse uma lacuna expressional. Nesse caso, a adoção da unidade léxica
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha da boca atravessa etapas. Uma vez popularizado o uso do termo, via de regra inserido
do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele por uma área ou setor específico (ex. moda, informática, medicina etc.), e
é que fala gostoso o português do Brasil (m Evocação do Recife). constatada a sua popularização por meio da documentação de sua frequência,
E é estudando a língua em sua forma mais viva que se podem compro­ o vocábulo novo (ou sintagma lexical — às vezes composto, locucional etc.)
var as evoluções fonéticas, fonêmica, morfofonêmica, como moto-perpétuo é usado, inicialmente, como estrangeirismo ou peregrinismo, e pode então
fixar-se como xenismo (cf. Carvalho, 1987: 56 e Houaiss, s.u. - Excesso de
na linguística histórica.
presença ou influência da cultura estrangeira.) - ex: show - ou como decal­
Assim, até estudantes do ensino fundamenta] poderão fazer uma visita que - ex: blecaute -, por força do aportuguesamento.
à evolução da língua, conhecer os metaplasmos específicos a cada fenô­
A nós interessa o aportuguesamento. Quando um neologismo se instala
meno, a partir do levantamento e da discussão de formas presentes na fala
como termo de adoção necessária, o fluxo de seu uso transcende o espaço
que ressoa à sua volta e da qual eles participam.
original de sua inclusão no sistçma linguístico (pelas vias de uma linguagem
técnica, em geral) e expande-se para o uso geral. O falante popular, por
sua vez, propulsionado pela lei do menor esforço, vai ajustando oralmente o
5. Uma conclusão sobre língua, história e mudanças termo alienígena aos seus hábitos articulatórios e, na escrita, poderá também
haver o reajuste da forma. Vejamos o que recolhera Daltro Santos (1938:
Muito se discute hoje em dia sobre as mudanças linguísticas. Contudo, nem 9) em Novíssimos estudos:
todas as discussões são regidas por dados e critérios técnicos ou científicos. Veem-se
Os termos, antes de os assimilar, cada idioma os digere, dando-lhes o
muitos pronunciamentos por um lado apaixonados, por outro, meramente
colorido fonético que lhe é próprio (apiid Barreto, 1924: 21).
políticos (ou politiqueiros). Entretanto, as mudanças aí estão e devem estar
sempre, já que o português é uma língua viva e sua consolidação como Portanto, nesse processo de adaptação da forma nova às cores locais e
língua nacional já se estende a oito nações: Portugal, Brasil, Moçambique, seu uso, dá-se a simplificação fônico-ortográfica (ex. videoteipe) ou mesmo a
Angola, Guiné Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor Leste. tradução literal (ex. alta tecnologia < high-tech) que pode gerar o chamado
74 A (MPORTÀNCIA DO CONHECIMENTO KONOLÓGICO

decalque (Alves, 1994: 79) para uns, calco (cf. Bechara, 1999: 351) para
outros, que é uma forma de recriação vernácula com suporte em forma
importada. Exemplps marcantes históricos são: clube (< club); futebol (< foot
bali); gol (< goal); boate (< boite); abajur (< abat-jour); sutiã (< soutien);
etc. Hoje, vemos outras como: xampu (< shampoo); uebimáster (< webmaster);
disquete (< diskette); saite (< site) etc.
Evidência mais forte da intervenção popular na incorporação e adapta­
ção de formas novas estrangeiras é apurável nos anúncios do comércio de
rua (sobretudo o informal). Formas como x-burguer ou x-tudo documentam
a interpretação dos empréstimos estrangeiros e sua tradução segundo o
material disponível na língua e conhecido do falante. A forma importada
cheese (ing.) desprende-se da ideia de queijo e passa a significar sanduíche. PARTE II:
A grafia de cheese (que passou a xis ou chis) não se mostra problemática,
uma vez que a sequência sonora /Jis/ corresponde ao nome da letra [x]. ESTUDOS APLICADOS
Como se vê, as questões fono-ortográficas não afligem o usuário geral,
mas o intelectual, o político, uma vez que estes se preocupam com pro­
blemas transversais ao uso da língua; problemas relacionados à descrição
(pelo intelectual, mormente o especialista) ou concernentes ao movimento
sociopolítico (pelos políticos). Logo, o encaminhamento no âmbito escolar
de questões como as aqui focalizadas merece um tratamento muito especial,
muito estimulante, já que, grosso modo, o desconhecimento desse plano da
descrição linguística não se mostra imediatamente relevante para o estu­
dante. Portanto, cabe aos professores uma reflexão profunda sobre o tema,
principalmente focalizando-o numa perspectiva pedagógica, reprojetando-o
numa dimensão embebida de algum ludismo, para que então o estudante
passe a se interessar pela camada fônica da língua, assim como por suas
consequências quando transcodificada para a escrita.
Com estes fundamentos vimos conduzindo os estudos fono-ortográficos
de uma forma diferenciada das práticas tradicionais e decidimos lançar mão
de textos que documentem a variação dialetal manifesta no país, para que
a proposta da assunção de uma poliglossia interna (domínio da dialetação
em língua materna — cf. Bechara, 1991: 13) cada vez mais ampla se torne
uma realidade próxima *e possível. Cremos que o corpus constituído de textos
artísticos (música e literatura, em nosso caso) seja uma forma produtiva de
aproximar estudante e variedades regionais e sociais (dialetação horizontal)
sem que isto implique o sofrimento de aulas enfadonhas e improdutivas.
Para demonstrar o tipo de análise que podemos fazer em um texto literário ou
em uma página poético-musical, incluímos neste volume uma segunda parte —
Estudos aplicados — em que apresentamos ao leitor dois estudos apresen­
tados em encontros acadêmicos e que mereceram atenção de especialistas.
A construção fonossemiótica dos personagens
de Desenredo de Guimarães Rosá

1. O DESEJO EXPLÍCITO DE LER DESENREDO

Descoser um conto é também um ato de desejo. Desejo de enveredar


pelos subterrâneos de um texto; desejo de viver a trama e investigar per­
sonagens; desejo de “escandir” o enunciado e viajar de volta ao momento
da enunciação. O desejo é móvel de ação. E do desejo nasce o mito. E
do mito nasce o conto.

No conto — aqui tomado como sinônimo de narrativa — entrelaçam-


-se e entretecem-se mitos, e o saber é representado simbolicamente no
jogo dos vocábulos, na trama das frases. E o tecido do texto. E assim
como o alfaiate examina o tecido para descobrir a direção do fio, da tra­
ma da tela, para melhor aproveitar os cortes, também a análise de textos
requer perícia de .alfaiate, para que seja possível não só pinçarem-se as
palavras-chave do enunciado que funcionam como símbolos, índices e
ícones da trajetória da narrativa, mas também examinar a armadura — o
código e a mensagem — destrinçando o texto, estabelecendo isotopias e
dando início à viagem de interpretação; ao fim e ao cabo, reinventando
o narrado.

Escolhemos página de Guimarães Rosa para corpus de análise, consi­


derando a verdadeira alquimia do verbo por ele praticada.
As palavras, no texto rosiano, são rocha e nuvem a um só tempo. E,
como se trabalhasse com argila, ele modela o verbo de seu texto de unin
forma tal que o leitor é surpreendido em cada esquina da leitura pela
riqueza do dizer. E quando a matéria é dura — mármore ou granito
ò cinzel é impiedoso, e a artesastúcia de G. Rosa adapta-o no que ( dt
■ 78 ESTUDOS APLICADOS A CONTRUÇÃO FONOSSEMIÓnCA DOS PERSONAGENS DE DESENREDO DE GUIMARÃES ROSA 79
O
ser dito sem que esta lhe fuja às rédeas, rendcndo-se ao seu desejo poético- gens principais e de suas váriàs máscaras, por meio de uma análise, em
-literário de contar histórias. última instância, fonossemiótica.
)
) Desenredo é o conto escolhido. E seus personagens fazem acrobacias
linguísticas (ou resultam delas?), proporcionando ao leitor oportunidades
3. Movimentos do conto pelas características dos
* ímpares de, a partir de um breve estudo dos nomes próprios — os quais
PERSONAGENS E TRECHOS DA NARRATIVA
) tomamos como âncoras textuais — dos seres que rolam na trama do
) conto, tentar recuperar os textos que atravessam o texto-matéria de sua
Apresentação dos personagens:
j leitura já.
a) —> Jó Joaquim — um bom e simples homem;
ó b) —> R/L/V/I/A — uma mulher bela e equívoca.
) 2. A ORIENTAÇÃO DA VIAGEM PELO CONTO
Jó Joaquim, cliente, era quieto, respeitado, bom como o cheiro da
) cerveja (p. 38).
x O presente relato visa acompanhar o processo de análise do percurso
R/L/V/I/A - Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão (p. 38).
de construção/desconstrução dos nomes dos personagens com vistas a
demonstrar a significação emergente das estruturas resultantes da variada Envolvimento amoroso do par descrito:
■' combinação fonêmica apresentada ao longo da narrativa. Por meio do
a) Jó Joaquim — envolvido no amor: traidor / traído;
) levantamento dos índices (Peirce, 1990) de polifonia (Bakhtin, 1981) no
b) R/L/V/I/A — leviana e conquistadora.
} nível fônico do conto, tentamos objetivar a evolução/involução dos perso­
nagens por meio de uma análise em bases estruturalistas e funcionais dos Jó Joaquim, derrubadamente surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi
ingredientes linguísticos utilizados. para o decúbito dorsal, por dores, frios, calores, quiçá lágrimas, devolvido
ao barro, entre o inefável e o infando, (p. 38)
Observando os modelos silábicos, a seleção fonêmica e a utilização da
R/L/V/I—Apanhara o marido a mulher; com outro, um terceiro... Sem
estrutura fônica (especialmente o modo de articulação nas consoantes, o
mais cá nem mais lá, mediante revólver, assustou-a e matou-o.(...) Aza­
) timbre e o acento tônico nas vogais), buscamos acompanhar a trilha da
rado, fugitivo, e como à Providência praz, o marido faleceu, afogado
) história e penetrar na alma construída de cada personagem, vivendo com
ou de tifo (p. 39).
l eles a trama decorrente da arte/manha de Guimarães Rosa e de seu pro­
fundo domínio do código. Descoberta dos amantes + viuvez de R/L/WI/A + casamento com Jó
Joaquim: a) JÓ JOAQUIM — reenvolvido no amor/traído; b) R/L/V/I/A —
^ -• Brincando com os fonemas e com a história, o autor traz no texto RLV7
marginalizada, expurgada.
IA (em Livíria, Rivília, Irlívia e Vilíria) e JÓ JOAQUIM, uma reedição
1 de JÓ, que funcionam como ícones/índices de uma trajetória e de uma
Soube-o logo Jó Joaquim (...) Vai, pois, com a amada se encontrou (...)
paciência, respectivamente, mutante e inusitada. Nela acreditou (...) Daí, de repente, casaram-se. Alegres, sim, para feliz
escândalo popular, por que forma fosse (p. 39).
A(s) personagem(ns) (?) nomeadas por RVL/IA atuam no compor-
; tamento de JÓ JOAQUIM, que reproduz o mito bíblico sem, no en- Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e
t tanto, repeti-lo. A inversão das letras e, por conseguinte, dos fonemas, traidora (...) Expulsou-a apenas, apostrofando-se, como inédito poeta e
} vai trazendo ao conto novas faces de unia personagem feminina que se homem (p. 39).
assemelha à figura do demônio, o qual tenta destruir a paciência de JÓ,
segundo conta a Bíblia. Então, fazemos uma desmontagem da história, Transformação da relação amorosa:
apontando as fases de sua trama através da descrição do perfil dos persona- a) JÓ JOAQUIM — reenvolvido no amor/ traído;
ou c.o i uuua .ArLiv-zAUUíí
à CONTRUÇÀO FONOSSKMIÓTICA DOS PERSONAGENS DE DESENREDO DE GUIMARÃES ROSA 81

b) R/L/V/I/A — marginalizada, expurgada (Jó Joaquim).


5. O padrão silábico como signo icônico ou indicial
Entregou-se a remir, a redimir a mulher, à conta inteira.(...) Sem malícia,
dos perfis dos personagens
com paciência, sem insistência, principalmente (p. 39).
Analisando o padrão das sílabas destacadas a seguir, vemo-las como cV —
4. Um parêntese para uma leitura do movimento na trama sílabas complexas; e tomando-as como lexemas, teremos: LIVÍR1A, RIVÍLIA,
IRLIVIA e VILIRIA e podemos interpretar como: a) LI — examinei, obsemei,
Tomando por base a teoria da carnavalização de Bakhtin (1981: 116), interpretei; b) RI — gostei, diverti-me; c) VI — descobri.
como referente para a leitura do conto, concluímos que Desenredo é um
típico exemplo de menipeia — paródia, com forte tom satírico, cínico, des­ Obs: Todas formas verbais de passado; ações completas.
confiado e desdenhoso. E o ingrediente carnavalesco que ora consideramos
Fato notável se dá em RIVÍLIA pelas múltiplas hipóteses de análise
é a ambivalente entronização!destronamento dos atores a partir do estudo
desse anagrama:
de seus nomes em relação ao desenrolar do conto, ao desenredar.
a) RI + VILIA — a forma verbal do passado se reúne com uma
Nos quatro movimentos do conto, o par amoroso mostra-se zigueza-
possível flexão de VIL que, para não se confundir com VILA,
gueante, assim:
recebeu o índice temático [i] ou /y/, por assimilação às sílabas
* JÓ JOAQUIM * RLV/IA (a mulher) anteriores. Teríamos, então, a personagem sendo vista como uma
entronização Io movimento entronização 3o movimento coisa ví/, vulgar etc.
RI + VI + LIA - caso em que o protagonista teria tido uma visão
destronamento 2o movimento destronamentoW0 movimento
que o fez feliz, pois ela seria um elo entre ele e o almejado amor:
Cumpre observar que os movimentos descritos mostram os dois RI = f.v. de PddPt?; VI = f.v. de P3IdPt e LIA, que designa elo}
personagens subindo e descendo do trono, simetricamente, uma vez liame, ligação, união.
que consideramos como trono a tomada da cena, a centralização das
Saltamos, deliberadamente, o terceiro momento — representado pela
atenções sobre si; e a simetria decorre do antagonismo comportamental
forma IRLIVIA visto trazer, na sílaba inicial, um padrão diverso dos até
dos atores diante da opinião pública: traidora/traído —> traidor/traído —►
agora discutidos e, para nós, coincidente com a penúltima parte do conto
expurgada/anistiada.
— o clímax — e que altera o itinerário da personagem que, até ali, era
No 2o e 3o movimentos, a oposição é mais nítida: o de uma fêmea formosa e adúltera. Após a chegada da nova máscara —
IRLIVIA — ela passa a ser uma mulher expurgada, proscrita, marginal (ao
JÓ JOAQUIM = vítima RLV/IA = causa
marido vencera, mas a JÓ JOAQUIM, não).
no 2o movimento - do amor no 2o movimento - do amor
no 3o movimento - da traição no 3o movimento - da traição E IRLÍVIA foi embora. E viajou fugida a mulher, a desconhecido
destino (p. 39).
Contudo, nos movimentos de início e fecho do conto, ambos os per­
sonagens se mostram em destaque por qualidades comuns e de aparente b) LIVÍRIA & RIVÍLIA: a parte grifada de tais anagramas tem a estrutura
equilíbrio: cV cVv, vejamos:
VÍ RIA VÍ LIA
JÓ JOAQUIM RLV/IA cV cvV cV cvV
homem bom e simples ' mulher bónita, fascinante e leviana
Com elas quem pode, porém? Antes bonita, olhos de viva mosca, mo­
vencedor pela paciência mulher purificada e renovada pelo desenredo
rena mel e pão (p. 38).
%

«2 ESTUDOS APLICADOS A tXíNTRUÇÃC) KONOSSEMKVIICA nos PERSONAGENS nii DKSENREDO DE GUIMARÃES ROSA 83

Mesmo a mulher, até, por fim. Soube-se nua e pura. Veio sem uma ambiência putrefata, malcheirosa, nojenta; 2o) LÍRIA — que
culpa. Voltou, com dengos e fofos de bandeira ao vento (p. 40). poderia ser lido como um neologismo, uma flexão produzida para
E eis que apareceu IRLÍVIA. Depois de ser entendida (LI = ler em P, lírio, sendo, então, símbolo de candura, pureza etc.— traz ao conto
o inverso, um sema de tragédia e purgação.
r

Id Pt,) por Jó Joaquim como alguém que chegaria (VIRIA) embora com
uma tonicidade que prenunciava algo estranho (VIRIA); depois de envol­ LÍRIA é o mesmo que LIA, que tanto pode significar o segundo período
vida pelo destino .e pelo desejo nas tramas da carne, como se tudo fosse de fermentação do vinho, borrasy fezes, sedimentos; como pode ser atilho,
r

maior que sua -vontade — à revelia — RIVILIA não deixou de desfrutar baraço, algo que serve para liar (ou ligar). E foi daí que o seu par —
do mundo, do gozo, do prazer e de alguma maldade. Lobo sob pele de
JO JOAQUIM — em seu obstinado desejo de ser feliz ao lado daquela
cordeiro, a morena mel e pão saiu pelo mundo a buscar novo destino. IR­
equívoca mulher, projeta e profetiza o seu modelo final — aquele com
LÍVIA poderia ser a combinação da forma do infinitivo IR e do substantivo
quem ele findaria seus dias: VILÍRIA. Seu projeto nomeava não mais a
feminino LÍVIA que nomeia um tipo de inseto — olhos de viva mosca
mosca dos desmastreios, mas uma visão de pureza e candura como se
(diz o conto) —- comum nos brejos e nas junqueiras, que é uma vegetação
lírio fosse. Era o seu um amor meditado, à prova de remorsos. E, aqui,
delgada e flexível, com 225 espécies (o que pode ser índice da variedade
a personagem masculina — mais JOAQUIM (em alusão inferenciável a
de máscaras da personagem feminina neste conto). Ver-se-ia então nesse
anagrama a propositura de um destino sujo — como o de uma mosca; são Joaquim, marido de Santa Ana e pai da Virgem Maria) que JÓ (...)
fraco, vulnerável e múltiplo, como o dos juncos; inserto/incerto e inseguro dedicou-se a endireitar-se (...) a aplicar-se, a progressivo, jeitoso afã. (...)
como o dos brejos — lugar preferido por aquela espécie de inseto chamada Entregou-se a remir, redimir a mulher, à conta inteira. Era o pai re­
a compor o nome da personagem. criando a filha malfadada. Assim, cria a flexão LÍRIA, para melhor caber
ho nome de sua ufanática mulher, pois assim ele a viu: — VI LÍRIA.
Observe-se que em IRLÍVIA a sílaba grifada é uma complexa travada,
E digna de nota a existência do anagrama VIRÍLIA que recupera forma
diferente de LI, RI, VI — todas complexas, mas livres. E esse travamento
latina (virilia), trazida para o português como virilha, onde a evolução
por uma vibrante cremos funcionar como signo ícone das dificuldades que
da sequência [li] (por palatização) gerou o grupo [lh] que representa
ocorrem nesse terceiro estágio do conto: tanto ela quanto JÓ JOAQUIM
uma forma cujo conteúdo estaria bastante afinado com a predominância
(ainda que com estranha e abnegada paciência) sofrem momentos traumá­
do conteúdo erótico na personagem em questão.
ticos quer pela ausência, quer por sabe-se lá o quê.

A reviravolta do destino se materializa na estrutura silábica, e a con­ Examinando cineticamente as sensações provocadas pelos fonemas
soante ultrapassa a vogal, tentando bloquear-lhe o caminho, da mesma consonânticos em análise, é possível dizer que sugerem: /l/ —> fluência,
forma que R/L/V/I/A entrou na vida de JÓ JOAQUIM pára adulterar- deslizamento; /r/ /k/ —> rapidez, tremor; /v/ —> escapamento, fugacidade.
-lhe o destino. E todas as modificações observadas em JÓ JOAQUIM e
em R/L/V/I/A parecem involuntárias, parecem força do destino; como já
dissemos, sugerem acontecimentos à revelia (não poderia ser uma forma 6. O PAPEL DAS CONSOANTES NO ESTUDO DOS NOMES
variante: revelia ou rivília?)
Havia um homem na terra de UZ, cujo nome era Jó; homem íntegro
c) IRLÍVIA & VILÍRIA: este outro par anagramático, consideradas as
e reto, temente a Deus, e que se desviava do mal (Jó 1,1).
partes grifadas, a nosso ver, traz a marca da mudança propriamente
dita: é o ícone da transformação: Io) LÍVIA — nome de um tipo de A primeira personagem a aparecer é JÓ JOAQUIM, que traz em seu
mosca, portanto, índice de sujeira, de coisa asquerosa, indesejável. nome a reiteração da figura de JÓ a partir da repetição dessa sílaba. Con­
^^o

E é essa a trajetória da personagem feminina. Suas peripécias tudo, a metafonia presente serve de índice para as nuanças de diferenciação
amorosas provocam escândalos e atordoam vidas, trazendo à cena detectáveis no “novo Jó”: JÓ hl JOaquim /o/.
%

o*r ArL.iv./.-vL^w xjwnuwyiW 1 UVA» I r.lX.lV/lxnV.UMN.-» I #1’. I /<'.OC.i VINf.l J\ J UL OUHV!AlV\C.»> KUM ò?

Observe-se que pela própria ordem de apresentação no segmento fônico ...Jó Joaquim, em seu franciscanato, dolorido mas já medicado (p. 39);
— em primeiro lugar aparece o homógrafo /3o/ conforme o mito judaico
QUIM cVc — a sílaba complexa travada (diferente da reiterada [30]
que remonta aos primórdios da história — vê-se um Jó diferente, inclu­
— complexa livre) já parece anunciar a complicação por que vai passar a
sive com prenome duplo. E esse nome apresenta uma estrutura silábica
personagem na segunda metade de sua vida.
complexa, porém, do tipo cV — livre, destravada, aberta, como era o JO
bíblico em seu comportamento. Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e
traidora (p. 39).
A transformação do JÓ num outro se anuncia com o fechamento do
(...) Jó Joaquim, genial, operava o passado — plástico e contraditório
~ timbre da vogal posterior média; e se consolida na incorporação de mais
rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa
uma sílaba àquela. Um segmento fônico mais extenso e de estrutura fônica
(p. 40).
mais complexa — /kiN/ - se liga a /30/ por intermédio de uma sílaba do
tipo V — /a/, formando 0 nome composto: JÓ JOAQUIM, cuja transcrição Aqui se impõe uma nova acepção para o vocábulo jó (com minúscu­
fonológica é a seguinte: /30/ /30 a ‘kiN/. las). Em Estas estórias, Rosa inclui 0 arcaísmo náutico jó, que significaria
cada uma das duas travessas, uma à proa e outra à popa, que limitavam
Essa estrutura sugere possíveis alterações de comportamento se compa­
os bancos dos remadores.
rarmos os dois jós: o bíblico e o rosiano.
Observe-se o excerto:
No plano semântico, JÓ JOAQUIM se distancia do outro JÓ não só
pelo nome composto, mas pelo fato de 0 segundo elemento da composição A alegria se espraiara por todo o nobre barco — de jó a jó; popa a proa
relembrar 0 pai de Nossa Senhora. Isto pode prenunciar um comportamento (EE—I, 32/51) (Martins, 201).
especial,-uma vez que o pai, na história das civilizações, seria 0 responsável
É possível depreender então mais um valor semiótico no nome jó:
pelo alicerce da sociedade: enquanto pater familia, ele comandava a célula
signo icônico-indicial de demarcação, de limite de lugar, de fundos e fren­
máter da estrutura social e educava os indivíduos. te, de início e fim. Todas essas marcações servem de valor referencial para
No plano fônico, as diferenças serão aqui examinadas mais detidamente a imagem construída para Jó Joaquim: aquele que delimita as ações e
no esquema a seguir: transformações da história e da personagem feminina com quem forma
par em Desenredo.

Padrão silábico Jó & Jó Joaquim E essas três fases são anunciadas ainda no Io parágrafo do conto, com
o aparecimento de personagem de nome equívoco — LIVÍRIA, RIVÍL1A,
II 11 lll lll IRLÍV1A (ou VILÍRIA, que surge no final do conto) — cujos fonemas — em
cV cV cW cVc trocadilho anagramático — prenunciam-na como índice ícone de atropelo,
apesar da constância da tonicidade na penúltima sílaba — palavra grave,
✓ / paroxítona (como se fosse manter 0 padrão dos costumes...). Será?...
Comparando-se a evolução no padrão silábico — de JO para JO
JOAQUIM vemos que tudo está dito — ou inscrito — no nome: SÍLABA A língua portuguesa é grave, paroxítona. E 0 clima do conto parece
PADRÃO COMENTÁRIO. modelar-se ou espelhar-se no padrão do vernáculo, uma vez que o clímax
da trama se dá na penúltima parte, como se fosse a penúltima sílaba da
JÓ & JÓ & JO cV — repetição do nóme de uma personagem universal;
palavra trama.
A V — a sílaba simples sugere uma descomplicação para a personagem,
ou mesino um aumento da simplicidade de JÓ. E isto é comprovado no Observados os anagramas LIVÍRIA, RIVÍLIA, 1RLÍVIA e VILÍRIA, é
correr do conto de G. Rosa, quando termina o primeiro episódio vivido possível pressupor que o conto passa por quatro fases distintas; e, se anali­
pela nossa personagem: sarmos essa personagem feminina 110 mesmo modelo que 0 fizemos com
86 ESTUDOS APLICADOS A CONTRUÇÃO FONOSSEMIÓTICA DOS PERSONAGENS DE DESENREDO DE GUIMARÃES ROSA 87

}Ó JOAQUIM, veremos que a primeira sílaba de seus nomes (da mulher RIVÍLIA, a gutural hs! já o fez “engolir em seco”, ao ter de articular fone­
plural) já compõe um índice morfofonêmico de seu destino: mas tão opostos e experimentar o sombrio e o dificultoso conotado pelos
fonemas posteriores; com IRLIVIA tentou empurrar para diante a gutural que,
A mulher — RLV/IA — se nos apresenta como: LIVÍRIA, RIVÍLIA,
por sua vez, bloqueou a vogal puxando a articulação para o fundo da boca,
IRLÍVIA e VILÍRIA, e cada um desses nomes é a marca de um dos quatro
conotando o gosto amargo da dificuldade; e com VILÍRIA reuniu outra vez
momentos do conto.
a líquida l\l e as dentais /v/ e /r/, como que tentando'harmonizar, no nível
concreto, o não harmonizável em espírito.
6.1. O papel das vogais no estudo dos nomes
6.1.2 — O papel do [a] nesta história
6.1.1. Analisando a vogal [a]
Fechado o parêntese, retomamos os fonemas.
Como em português não há sílaba sem uma base vocálica, a despeito
das aparições ruidosas da personagem feminina de Desenredo, o autor Deve ter causado espanto a omissão do /a/ na análise vocálica realizada.
é obrigado a dar-lhe nome com vogal presente. Contudo, entre as sete Mas isto foi um ato deliberado.
vogais em posição tônica (Mattoso Câmara Jr., 1977), escolhe o autor o
A construção básica dos anagramas LIVÍRIA, RIVÍLIA, IRLÍVIA ou VI­
/i/ — vogal anterior alta fechada, reiterado em cada um dos nomes dados
LÍRIA assenta-se nas consoantes R/L/V e na vogal I. Contudo, a presença do
à personagem feminina. Se analisarmos cada uma de suas classificações,
/a/ faz-se obrigatória pelo simples fato de, diante das circunstâncias do conto,
veremos que: a) anterior — articulada na proximidade dos lábios e dos
dentes, portanto, "quase fugindo da boca”; b) alta — como um fonema funcionar ora como morfema gramatical flexionai ora como nominalizador,
arredondado, pode ser visto como ícone da personagem a que nomeia, pois ou vogal temática. Fizemos então a seguinte análise:
ela obedece primordialmente aos impulsos interiores, colocando-se à mar­ a) LIVÍRIA = LI + VIRIA; logo: -a seria uma DMT de IdFt2 (Silva .&
gem ou acima das coerções sociais (Moisés, 1973: 230); também é índice Koch, 1989: 59).
às avessas de sua posição social, uma vez que vive na boca dos escândalos b) RIVÍLIA = RI + VILIA ou variante de revelia, ou mesmo na análise
populares como uma vadia; portanto, seu status quo é dos mais baixos; b) como RI+VI+LIA, em todos os casos, teríamos em -a uma ocorrência
fechada — mais uma ironia rosiana na seleção fonêmica: a personagem em de VT nominal.
questão é aberta a todo tipo de estripulia, de extravagâncias e aventuras.' c) IRLIVIA = IR + LIVIA donde -a, na designação de espécie de
Logo: a reiteração de vogal fechada é outro índice às avessas (ou signo mosca, funcionaria como VT nominal; como forma sincopada de
desorientador, cf. Nõth, 1995: 116). lívida, também seria VT nominal e, numa terceira hipótese, não
É também o /i/ um representante estilístico da pequenez, do estreita­ mencionada ainda: IR + LI + VI + A, teríamos — no afastamento
mento, da agudeza (Monteiro, 1987: 99); daí ser R/L/V/I/A tão acentua- da fêmea — o início de sua reconstrução por JÓ JOAQUIM que,
damente perigosa. ao vê-la IR, leu que a viu voltar renovada e pura. Neste caso, o
a será o pronome pessoal oblíquo de terceira pessoal do singular,
Ainda no simbolismo sonoro, é possível lembrar que uma vogal fecha­
tendo uma realização bem suave. Se a lêssemos como IR+LI+VIA,
da indica quase sempre tristeza. E na sua combinação com as consoantes
o vaticínio seria mais forte, dado que a forma inconclusa do verbo
R/L/V/I/A eleitas pelo autor — o que se tem é um vaivém entre articulações
ver (Id Ptj) — sendo então o -a uma DMT — anteciparia a visão
anteriores e posteriores, o que pode iconicizar a vida tumultuada de nosso
da mulher reconstruída por JÓ JOAQUIM. E neste caso, o a
JÓ reinventado, ao lado da mulher polinomeada com quem se enredou e
ganharia maior relevo por integrar a forma e constituir uma sílaba
desenredou o conto.
plena, pois, a despeito da homofonia com vi-a, o a pronominal
Com o nome LIVÍRIA experimentou sons líquidos e dentais, portan­ tem uma realização mais abafada que o a flexionai. Basta fazer-se
to, de palatais a anteriores, em equilíbrio com a articulação do /i/; com o teste do espelho (falando-se ambas as formas com um espelho
usTunos aplicados

bem próximo à boca, ver-se-á quê, na produção da forma verbal via, Isto posto em ata estimulou-nos a perseguir a. trajetória dos fonemas
a corrente de ar produzida é mais forte — daí, maior opacidade np enquanto um ato componencial do fazer literário, pois, na escritura rosiana,
espelho — que a resultante de vi-a, em decorrência do sutil intervalo o que se tem é uma verdadeira artesania linguística, onde vão-se os casacos
contido entre o som vocálico anterior alto e o central baixo). e ficam os que os usam, assim como vão-se as palavras conhecidas e ficam
as recém-criadas, desde que manifestem o que é preciso.
Como se vê nessa breve análise, o /a/ — contrariando sua inequívoca classi­
ficação fônico-furtcional como vogal plena — sufge para manifestar ainda mais
fortemente o equívoco da personagem criada, coberta de sete capas. 7. À GUISA DE CONCLUSÃO

6.1.3. E o que dizer do [o]?


Os campos da fonologia, da fonoestilística e da fonossemiótica são
Em JÓ JOAQUIM, é o /o/ que faz a diferença. Vê-se JÓ & JÓ em estradas ermas de pesquisadores e de pesquisas, assim como a análise li­
momentos e histórias distintas, mas ambos tentados em igual vermelha e terária pouco contempla a .camada fônica, mormente quando se trata de
preta amplitude. Entretanto, o redobro do JÓ de Desenredo é uma pista prosa. Há quem diga que a fonêmica da língua não é mais do que um
da reedição revista e aumentada do conhecido personagem bíblico. plano subserviente dos estudos linguísticos, deixando-a à mercê das conse­
A paciência do segundo JÓ não é mais tão aberta quanto a do primeiro quências da morfologia e da sintaxe, frequentemente, e, acidentalmente,
(o da Bíblia). O primeiro era JÓ tão somente. O segundo, JÓ Joaquim, da semântica.
com o seu segundo JO em som fechado, é indicador de maus agouros; a
Mesmo nos estudos do léxico, há uma grande confusão quando se
sua realização como vogal posterior média fechada e a sua característica
entra a classificar homônimos, homófonos, homógrafos, parônimos etc. No
semiarredondada prenunciam um JÓ diferente.
entanto, isto seria facilitado se o plano fônico da língua fosse tratado com
A continuação do seu nome AQUIM nos leva a rever os valores desse um pouco mais de atenção.
fechamento de timbre vocálico, pois também a sílaba final /kiN/ é travada
Não queremos dizer com isso que sejamos especialistas no assunto,
por fonema nasal que, segundo os estiólogos, lembra gemido e sugere de­
mas, ao longo de nossa trajetória de pesquisa, a fonologia vem se impondo
pressão (Monteiro, op. cit.).
como algo relevante, a tal ponto que, num estudo semiótico de texto, na
Ora, o que se vê aqui é uma reedição de JÓ aqui, mas modificado, busca de ícones e índices que funcionassem como âncoras dos significados
travado, diante de alguns fatos, sem por isso levar sua paciência às últimas textuais na composição do contexto intratextual, acabamos por desaguar no
consequências: no conto que ora analisamos, JÓ JOAQUIM não reconstrói oceano dos fonemas, pois, tratado como igarapé por uma' grande maioria
sua união por paciência, mas por obstinação, numa postura entre paternal de estudiosos, este plano da língua encontra-se à espera e à disposição dos
e maquiavélica, onde os fins justificavam qualquer meio. que nele queiram penetrar para além das classificações já cansadas e can­
Haja o absoluto amar — e qualquer causa se irrefuta (p. 40). sativas, indo buscar outros dados como os que ousamos mostrar-lhes nessa
pequena e despretensiosa análise de Desenredo.
E a atuação calculada e medida de nosso JÓ se materializa na frase
final do conto: E pôs-se a fábula em ata. Como se se documentasse a pro­ Quanto às questões da carnavalização — tão bem configurada ou ico-
dução de JÓ JOAQUIM como um grande invento que deixara boquiaberta nicizada pela “dança” dos fonemas no conto —, atribuímos a Desenredo a
a população da vila. Pois, produziu efeito. classificação de menipeia, uma vez que a reedição de JÓ, humano, falível,
ainda que forte e decidido, cria um clima tragicômico a partir de seu en­
Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das reticências, o tempo secou o volvimento com RLV/IA.
assunto. Total o transato desmanchava-se, a anterior evidência e seu
nevoeiro. O real e o válido, na árvore, é a reta que vai para cima. Todos A força apolínea de JÓ JOAQUIM se faz presente durante todo o
já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos (p. 40). conto, visto que a forma de seu nome é única do princípio ao fim do
%

90 ESTUDOS APLICADOS

conto: os fonemas compõem um segmento fônico inabalável, a despeito


dos desenlaces sofridos pela personagem.
Em contraponto, RLV/IA é a força dionisíaca alegórico-iconicamente
demonstrada, pois seu camaleônico nome denota a instabilidade e o dese­
quilíbrio dessa personagem tão vibrante quanto.o /k/, tão líquida quanto o 0 sertanejo cantando Tirana
/]/, tão constritiva quanto p /v/ e tão redondeada quanto o /i/. E a instabi­
lidade de RLV/IA é também configurada pela sua desenfreada mudança de
desejo __ o que se materializa em suas quatro máscaras designadas pelos
qiíãFro anagramas: personagem RLV/IA objeto do desejo:

LIVÍRIA mulher casada e leviana = prazer carnal = libido + tânatos


1. Introdução
RIVÍLIA casada, amante de Jó e de X = marido 1, amante 1 e amante 2

IRLÍVIA esposa de Jó e amante de Y = marido 2, amante 3 Na intenção de redescobrir o Brasil a partir de sua variação linguística,
ampliando assim o universo léxico-semântico do falante, vimos buscando, sob
VILÍRIA reconciliada com Jó = prazer espiritual = libido
a inspiração inicial dos sertões linguísticos de Guimarães Rosa, penetrar mais
A opinião do povo enunciada no conto é também bastante significativa detidamente na variedade sertaneja de nossa língua. Ao lado de pesquisas
quanto à construção do carnaval e da paródia: Tudo aplaudiu e reprovou na obra do escritor mineiro, estamos iniciando uma investigação de cunho
o povo, repartido (p. 39). Temos aqui um índice das meias alianças entre léxico-semântico-semiótico que consiste no levantamento das unidades léxicas
JÓ e RLV/IA, pois, nem chegando ao fim da história é possível garantir presentes nos poemas musicais de Eloinar Figueira Mello.
que eles se tenham unido de fato, integralmente. Ao final do conto, JO
A escolha deste compositor foi motivada pelas descobertas que vimos
se apresenta um tanto modificado em seu equilíbrio inicial: Celebrava-a,
fazendo há algum tempo ao estudarmos a obra rosiana. Alimentando a
ufanático. tendo-a por justa e averiguada, com convicção manifesta. (p. 40)
nossa paixão pela língua nacional, as páginas do texto de Guimarães Rosa
[grifo nosso]. O vocábulo grifado parece-nos indicar uma tomada emocional,
conduziram nosso olhar para a linguagem interiorana, dado que tal varie­
passional, de JÓ. Logo: o desejo e a paixão também levam ao desequilíbrio,
dade apresenta um potencial semiótico-semântico riquíssimo. É-nos possível
quer assim quer assado.
construir imagens do sertão brasileiro por intermédio da. leitura dos textos
Jó inicial: ...chegou a maldizer de seus próprios e gratos abusufrutos. quase sempre bem humorados do escritor mineiro. Por inferências temáticas
Reteve-se de vê-la. (...) (p. 38) e linguísticas, encontramos analogias fortes entre as obras de G. Rosa e de
Jó final: Total o transato desmanchava-se, a anterior evidência e seu ne­ Elomar. Uma e outra, contemplando o agreste:
voeiro^...) Todos já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos. (p. 40)
agreste (S. m. 5. Bras. Zona fitogeográfica do NE, entre a mata e o
Como o texto é um macrossigno, esse é o nosso ensaio de interpretar sertão, caracterizada pelo solo pedregoso e pela vegetação escassa e de
Desenredo a partir de sua organização fonossemiótica. pequeno porte — mirtáceas, leguminosas e combretáceas — Aurélio,
s.u.) e a caatinga ([De caa- + -tinga.] S. f. 1. Bras. Tipo de vegetação
característico do Nordeste brasileiro, mas que alcança o N. de MG e o
MA, formado por pequenas árvores, comumente espinhosas, que perdem
as folhas no curso da longa estação seca — Aurélio, s.u.).

Ambas retratando um tipo brasileiro enriquecido pela dificuldade e


pela simplicidade. O material linguístico documenta um homem simpló-
92 ESTUDOS APLICADOS

rio, rude, crente, ingênuo, corajoso, viril, em suma, um forte. Os temas fo­ língua portuguesa. _Diacronicamente, tem-se o -es como forma resultante
calizados tornam-se símbolos de um Brasil ainda não descoberto, entregue à* da convergência de -èsl-ense (lat- cf. cf. Sousa da Silveira, 1983: 96], for­
própria sorte que, como as palavras em situação dicionárici (cf. João Cabral mador de adjetivo e indicador de qualidade, origem e naturalidade, cuja
em “Rios sem discurso”), espera por alguém que o visite, conheça, reconheça grafia se manteve com [s]. Ao lado disto, tem-se a história do sufixo -ez
e valorize-lhe o potencial, sem modismos e sem arroubos, apenasmente (cf. (lat.), formador de substantivos abstratos e indicadores de qualidade é esta­
Dias Gomes em “Odorico na cabeça”) com seriedade. do. A possibilidade de indicarem qualidade permite deduzir uma provável
confusão de grafia entre os nomes substantivos e os nomes adjetivos ter­
Neste capítulo, nossos estudos perscrutam o objeto — o léxico — com minados em /eS/ ou /eza/, o que caracteriza um uso não padrão da língua
o auxílio das lentes da fonologia e da semiótica. A primeira para radiografar e pode servir de justificativa para a opção do autor pela forma sertaneza.
as unidades lexicais e examinar-lhes o material sonoro que as constitui; a Homologado o “neologismo” (aspeado por ser forma concorrente), segundo
segunda destinada a revelar as relações intersígnicas, perseguindo a semiose, a ortografia atual, a grafia prevista seria sertanesa. Há outra hipótese: ser­
ou seja, a geração de sentido. taneza: adj. fem. de sertanez: o que tem os traços do sertão. Mas isto fica
para outro estudo.

Afinada com a paixão linguística de Elomar, vimos examinando suas


2. Um trovador no sertão páginas musicais e tentando formular um glossário que, a um só tempo,
auxilie a compreensão de suas letras e traga o sertão linguístico para a
O ternário explorado por Elomar mostra sua preocupação com retratar
academia, mostrando — por meio do vocabulário estudado — o potencial
o sertão baiano, sua paisagem sócio-histórica e sua gente. Por isso, a fala
expressivo-comunicativo patente na obra elomariana e na variedade sertaneza
local, interiorana, espontânea, manifesta-se num gênero substancialmente
do português do Brasil. O presente trabalho trará mostras deste estudo.
dramático, como espelho da vida no sertão brasileiro. A página musical
escolhida para análise neste artigo traz à tona a fala regional, o cenário
rústico da vida do peão, do tropeiro, abarrotada de dificuldades e desilusões;
3. A LÍNGUA DO CANTADOR
é, portanto, uma mostra da língua sertaneza (sic).

O uso da variante sertânica é deliberado; e a obstinação do autor o faz Tirana (de “O Tropeiro Gonsalin”)
optar pela denominação língua sertaneza. Inriba daquela serra passa u'a istrada rial / Entre todos qui ali passa
uns passa bem otros mal / Apois lá mora um ferrero ferrado de ani­
Esta opção evidencia domínio do sistema linguístico e acentua a definição
mal / Qui sentado o dia intero no portero do quintal / Conta istoras
dos critérios de seleção lexical inscritos em sua composição. O autor trata nossa
de guerreros / De cavaleros ligeros / Do Reno de Portugal / Anda
língua com ética e declara-se engajado na difusão da variante sertaneza, com
mula ruana / Qui a vida tirana / Foi dexada por Deus / Derna de
vistas a dar ao sertão o tratamento que lhe é devido.
Adão / Pra quem pissui os terém / Aqui na terra / Pra quem nada
Dois comentários imediatos se impõem: um (lexical) e um ortográfiç^. pissui / Té pru ladrão / Das coisas de minha ceguera aquela qui eu
Partindo do ponto de vista mórfico, o item sertafreza é um neologismo mais quiria / Formá u’a tropa intera e arriba no mundo um dia /
literário (a princípio, dispensável), cuja forma dicionarizada é sertaneja (cf. Cabeçada de u’a arroba vinte campa de arrilia / Cruzeta riata nova
sertanejo (ê). [De sertão + -ejo.] Adj. 1. Do sertão. 2. Que habita o sertão. rabichola e peitural / E arriça fazeno ruaça / A tropa na boca da praça
3. Rústico f agreste, rude. 4. V. caipira (3 e 4). S. m. 5. Indivíduo sertanejo. / Do Reno de Portugal / Destá mula ruana / Na vida tirana / Ela é
6. V. caipira (1). (Aurélio, stl); trata-se de nome adjetivo que: significa rela­ feia e mais dura / Qui a lei / Nóis inda vai xabrá / Pinga de cana /
tivo ao sertão. É uma palavra derivada, e o'sufixo formador deste vocábulo Jabá e rapadura / Mais o rei / Cuano saí lá de casa dexei os campo
é grafado -est-esa, portanto, a opção gráfica do autor pelo [z] parece-nos in fulo / A lia já deu treis volta só a buneca num volto / Mais pra
uma idiossincrasia individual, uma vez que não se sustenta na história da que tanta labuta corre corre e confusão / Quanto mais junta mais
%

O SERTANEJO CANTANDO TIRANA 95

dana é tribusana é só ousão / Oras qui na vida in ança / O pobre cristão tribusana barulho • Bras. vaf. de trabuzana,
só discansa / Dibaixo d’um tampo de chão / Para mula mana / Dexa.
terem cf. com haveres; bens; forma dialetal de teres> terem
de gana / Qui a vinda do tropero / E só u’a veis / Assunta mermo a
riqueza
vida / Assim tirana / E pura buniteza / Foi Deus quem fez.
reno fig. domínio, esfera, forma monotongada de reino
No texto “Tirana”, temos, desde o título, marcas regionalizantes e âmbito:
uma grafia com características pseudofonéticas.* Vejamos o que informa o arrilia cf. com ruaça var. de arrelia
dicionário:
peitural objeto de montaria var. de peitoral
tirana2 [Das palavras Ay tirana, tirana!, com que principia a canção.] ria ta objeto de montaria; forma aferesada de aireata;
S. f. 1. No Minho (Portugal) e na Andaluzia e Galiza (Espanha), no
ferrêro ofício forma monotongada de ferreiro
séc. XVIII, canção e dança cantada, em compasso de 6/8, andamento
) moderado e caráter lamuriante. 2. Bras. RS Modalidade do fandango: tropêro ofício. forma monotongada de tropeiro
tirana grande, tirana de dois, tirana de ombro, tirana tremida, tirana dos cavalêros ofício forma monotongada de cavaleiros
farrapos, tontilha. 3. Bras. BA Cantiga de amor, em andamento lento, e fulô órgão reprodutor das Bras. var. de flor; na expressão in
de caráter lânguido. 4. Bras. BA Canto de trabalho, entoado ao desafio plantas; fulô, corresponde a florido.
por lavadeiras, roceirosf canoeiros. (Aurélio, s.u.) [Grifamos o que nos
portêro portão de entrada em forma monotongada jde porteiro; var.
) interessa mais de perto.] propriedades rurais; de porteira
Como se vê, trata-se de item^onomásticd) que designa um tipo de compo- cancela.

) sição musical característica de certas regiões. Segundo informação direta do istoras var. de história mais aproximada da var. estória
) autor, tirana é uma espécie de cantoria, contudo, sem o caráter desafiante.
^ Vejamos o verbete ditado por Elomar: Cantoria = tipos de #: moirão, mar­ Vale atentar para o fato dé que a maioria dos fenômenos apontados
telo (desafio mais forte)y tirana, coco, parcela (canta ilusão e desenganos). não é exclusividade da fala nordestina. A monotongação, por exemplo, é
metaplasmo praticado inclusive pelos usuários da modalidade padrão do
O estudo de vocabulário apresentado no quadro a seguir tenta identifi­ português brasileiro.
car e “traduzir” unidadès léxicas que consideramos marcas de um modelo
} sertânico de dizer o mundo. Veremos, portanto, representações de ofícios, Apreciando com olhos semióticos o vocabulário tabulado, verificar-se-á
) objetos, medidas, alimentos típicos da região nordeste e atributos dos perso- que as escolhas representam concretamente o cenário 'sertanejo, quer no
) nagens que atravessam o texto. Selecionamos apenas itens que apresentam plano linguístico quer no plano referencial. A cosmovisão simulada pelo
alteração fono-ortográfica. poeta identifica um tipo regional específico, “embaixador” da rudeza e da
secura do nordeste brasileiro. Desde a seleção temática denotada até as
Unidade lexical ícone do uso regional Comentários fonodialetológicos formas vocabulares utilizadas, tem-se um desenho a um só tempo figurativo
e correspondente a e impressionista da realidade sertaneza.
anca angústia, aflição forma sincopada de ânsia
Convém ressaltar que o estudo dos metaplasmos identificados nas
intêro atributo forma monotongada de inteiro unidades léxicas levantadas dá mostras da influência da fala sobre as
guerrêros atributo forma monotongada de guerreiro formas da língua. As línguas vivas estão sujeitas à intervenção prolató-
ria de seus usuários, os quais, a seu turno, respondem a ordens de seus
ligêros atributo forma monotongada de ligeiro
hábitos,articulatórios treinados, em primeira instância, com a língua her­
maça (= arruaça); baderna; forma'' aferesadrpde arruaça dada de seus antecedentes e aprendida no seio de seu primeiro núcleo
confusão; arrilia social: a família.
% KSTUDOS APLICADOS

Os hábitos articulatórios resultam alterados mais fortemente nas ca­ nho, do qual adquire traços
articulatórios e ao qual se
madas populares e mais acentuados ainda no homem do campo ou do •
torna mais semelhante; coarti-
sertão, onde saúde ç saneamento básico não se fazem presentes. Logo, culação [Representa economia
os dentes — componentes que atuam na produção de número significa­ de movimentos articulatórios
tivo de fonemas consonantais (/f/ /v/ Isl /JV /t/ /d/, principalmente) — são e desempenha papel impor­
altamente prejudicados. Via de regra, os ditos* “caipiras” perdem muito tante na mudança linguís­
tica.] [Houaiss, s.u.]
cedo parte da dentição definitiva. Fatos como este, associados a influ­
encias decorrentes de contatos culturais eventuais e diferenciados — o arriça eriça Dissimilação do processo de mudança linguís­
/i/ inicial (grafado tica em que um ou mais
indígena, o religioso (padre, pastor etc.), o emigrante, o pesquisador,
[e]) ' traços fonéticos de um fone­
entre outros —, promovem a transformação dos vocábulos ao longo do ma, comuns a outro fonema
tempo. Daí, formas vão-se desdobrando, outras vão sendo substituídas, vizinho (contíguo ou não), são
e assim sucessivamente. trocados, tornando-os diferen­
tes; p.ex.: a pal. lat. calamellu
Veremos outras formas extraídas de Tirana, nas quais outros fenômenos deu caramelo em port. (os
fono-ortográficos se manifestam. traços trocados foram lateral
/l/e vibrante /r/; tb. a f. popular
Unidade Forma padrão Fenômeno Explicação do fenômeno aribu, por urubu, no port. do
vocabular fono-ortográfico Brasil) [Essa tendência é atri­
buída à necessidade de mais
Inriba Em riba (cf. Aglutinação + Metafonia também chamada contraste entre os elementos
Em cima de) metafonia da dilação vocálica é um tipo fônicos da língua, para maior
vogal pretônica particular de assimilação, uma clareza.] [Houaiss, s.u.]
istrada Estrada metafonia da vez que só intervêm vogais e
estas não são contíguas. Fazeno, Fazendo, Síncope Síncope e perda de substância
vogal pretônica
Cuano quando fônica no interior do vocábulo.
u’a Uma Distinção gráfica A vogal nasal distingue signi­ Neste caso, dá-se a redução da
da vogal nasal ficados na língua (como em marca morfêmica do gerúndio
e da vogal canto & cato); a vogal nasali­ nd para n- (escreveno por
nasalizada zada é uma mera variante escrevendo); (Mattos e Silva,
fônica, em que a impressão 1997: 57)
de abafamento nasal não
gera fonema, não influi na Desta Deixa estar v aglutinação reunião em um só vocábulo,
significação (como em lama, com significado independen­
feia filho da puta te, de dois ou mais vocábulos
dama, muito). [JMB, 1994] (chulo) distintos; ocorre perda de
ança Ânsia Assimilação total A contaminação do traço palatal fonemas e esp. de acento de
sobre o fonema /s/ promove a um dos vocábulos aglutinados
transfonnação deste num som (p.ex.: aguardente por água +
intermediário entre o/s/eo /z/, ardente, pernalta por perna +
que, a nosso ver, estimulou a alta) [Houaiss, s.u.]
criação do símbolo [ç].
Nóis Nós, três, vez Epêntese A pronúncia popular desen­
pissui Possui Assimilação tipo de modificação que um treis, vcis
fonema sofre por estar em volve uma semivogal que nos
parcial do /o/
contato com um fonema vizi- parece realçar tanto a tonici-
pelo Ai/.
) 98 ESTUDOS APLICADOS- O SERTANEJO CANTANDO TIRANA 99

dade do monossílabo quanto Caatinga, às margens do Rio Gavião) e da graúna. Elomar é uma
a clareza do travador /S/.
estranha mistura. “Prumodi” compreendê-lo, é viajar 500 e poucos
xabrá Acochambrar Àférese + Àférese = perda de substância quilômetros, de Salvador até Vitória da Conquista (...) (Trecho de
desnasalação + fônica no início do vocábulo. Depoimento prestado a Tânia Pacheco - Setembro/quase primave­
apócope Desaparecimento de som
ra de 1976 - cf. encarte do CD Na quadrada das águas perdidas,
Té Até Àférese no início do vocábulo, cf.
Silva Neto (1956: 127) Em produção independente da gravadora Rio do Gavião, do próprio
Inda Ainda autor, 1979).
acochambrar há perda suces­
siva de duas sílabas iniciais:
acochambrar *cochambrar Vê-se então que a rudeza do menestrel vaqueiro está marcada em sua
> *chambrar; desnasalação = couraça nordestina. Mas, mesmo assim, sua sensibilidade mantém-se viva e
*chambrar > chabrar; aguçada e sua obra é prodigiosa e vai-se avolumando dia a dia. Presenciamos
Apócope = perda do travador o seu diuturno criar, a despeito do envolvimento com a administração de suas
final /r/ —* chabrá grafada duas fazendas e do amor à sua criação de bodes. E, com um comportamento
no texto com [x]
conforme o descrito por Fernando Pessoa (em “Autopsicografia”, in Cancio­
dexei deixei Monotongação Simplificação de ditongos neiro), Elomar segue fingindo em sua poesia musical.
românicos (Silva Neto, 1956:
volto Voltou Mesmo tendo, eventualmente, de colar unha com escama de surubim
102) por assimilação total da
semivogal à base. (sic) para poder apresentar-se em recitais, Elomar não arrefece e continua
lia lua Nasalação luna > lua > lua . cf. lua - [Do sua cruzada musical, demonstrando que o homem caipira é um forte
lat. luna, por via popular.] e tem um universo maravilhoso e fantástico a expressar. Assim, ele, sua
[Aurélio, s.u.] poesia e sua música vão cantando as profundezas dos brasis aperreados
pelas enchentes e secas que se revezam na manutenção da dificuldade
Os fenômenos fonéticos aqiii apontados exemplificam, inclusive, o do homem nordestino brasileiro. (Nota: a frase comentada consta de
percurso evolutivo da língua na passagem do latim ao português. E aqueles declaração na Faixa 9 - gravada ao vivo no Palácio das Artes em Belo
se tornam fáceis de serem entendidos pelo fato de serem praticados em Horizonte - do disco Cantoria 3 — Elomar — Canto e soloy M-KCD-057,
qualquer tempo pelos falantes. Logo, trata-se de conteúdo importante para o Kuarup, 1984).
conhecimento mais amplo tanto da língua em si quanto do povo que a fala. A iconicidade dos textos sertanejos (tanto de G. Rosa quanto de Elomar)
é construída num uso particular do código-fonte — a língua portuguesa.
Um e outro autores têm o requinte da língua extraída da pesquisa direta,
4. Para conhecer melhor Elomar e nosso projeto de da vivência junto ao homem do sertão. Todavia, Elomar se distingue de G.
TRABALHO Rosa quanto à forma de coleta, pois este visitava o sertão, enquanto aquele
integra a paisagem sertaneja, é um de seus ingredientes. Ouso dizer que
A pesquisa na obra elomariana iniciou-se efetivamente em fevereiro G. Rosa tenha feito um trabalho de “reportagem” da paisagem humana e
cie 2002, quando pudemos ficar por duas semanas na casa do autor, con­ cultural, do sertão; ao passo que Elomar “presta depoimento”: é o sertanejo
vivendo com a sua rotina e a sua produção em acontecência, o que nos falando de si mesmo e de seu mundo.
propiciou construir uma imagem bem aproximada da genialidade do poeta
e compositor Elomar Figueira Mello. Tomando a dramaticidade dos textos de Elomar como objeto de ob­
J servação fonética na substância da fala do sertanejo, enveredamos por um
J (...) Trovador, místico, arquiteto criador de bode, inspirador de Henfil campo de investigação vastíssimo além de complexo: a evolução linguística
na criação de Francisco Orelhana (o verdadeiro existe e mora lá na no plano sonoro.
%

1U0 ESTUDOS APLICADOS O SERTANEJO CANTANDO T/RANA 101

As mutações fonéticas são alvo cie pesquisa que ganhou vulto sobretudo de um povo e que serve de documento histórico: Logo, não apontamos o
a partir cia definição de fonema (Baudouin de Courtenay). Estudiosos como. clássico nem o contemporâneo como melhor. Vemos ambos como indis­
Scherer, Herman Paul, Schuchardt, Maurice Grammont, Trubetzkoi, entre pensáveis. Vale, no entanto, ponderar-lhes a complexidade e ajustá-los ao
outros, ocuparam-se de uma análise mais detida dos fenômenos fonéticos e, nível do interlocutor discente, para que a interação com tal material não
aos poucos, percebeu-se que há dois movimentos fundamentais o do menor resulte no apavoramento do estudante e em subsequente desinteresse, não
esforço (facilitação fonética) e seu oposto do maior esforço (diferenciação apenas dos textos, mas, sobretudo do estudo da língua.
dos sons, realce etc.). Portanto, a evolução de uma língua está intimamente
Isto nos leva a uma reflexão sobre o grau de complexidade apresen­
ligada e depende do povo que a fala.
tado pelo texto rosiano e endossa a nossa ideia de buscar na poesia de
O falante, por sua vez, sofre, como lembra Serafim da Silva Neto (1956: 72- Elomar um caminho para o entendimento das narrativas do escritor mi­
-73), influências oriundas de duas camadas linguísticas: a da língua transferida, neiro. Observe-se que não queremos tão somente divulgar os dois artistas
herdada, que passa de pais para filhos; a da língua incorporada, aquela que (G. Rosa e Elomar), mas, principalmente, alargar o horizonte cultural de
não apresenta continuidade e que, via de regra, compõe-se de vocabulário, nossos estudantes dando-lhes oportunidade de dialogar, não só com dados
já que, em princípio, não se tomam de empréstimo sons, morfemas nem histórico-geográficos muitas vezes distantes de sua realidade imediata (lem­
torneios sintáticos. Logo, as manifestações apuráveis nos textos, sobretudo bremos de O rato da cidade e o rato do campo), mas também com modelos
os que documentam falas diversas da modalidade padrão, comprovam a de falas diferenciadas. Tais interações lhe favorecerão, a um só tempo, a
intervenção do falante na evolução linguística. aquisição de conhecimento enciclopédico e linguístico, demonstrando-lhe
a importância de cada um dos dialetos e registros, através dos quais um
Vejamos o que disse o grandiloquente Rui Barbosa sobre mudanças nas
povo revela sua visão de mundo.
línguas:
Portanto, operar em sala de aula com textos regionais com a meta de
Não há língua definitiva e inalteravelmente formada. Todas se formam,
discutir o material fônico e gráfico de nossa língua não parecerá inútil ou
.reformam e transformam continuamente. Quem o não sabe? Que homem
inadequado aos olhos do estudante, pois ele verá ali retratado o movimento
de medianas letras hoje o ignoraria? (in BARBOSA, Rui, “Réplica”.
real da língua, sua dinâmica.
Imprensa Nacional, Rio, 1904).
E a opção por usar a música neste projeto, em especial a música de
Entretanto, a informação sobre o fenômeno da mutação linguística
Elomar, é a tentativa de investir no trabalho com as sensações e as emo­
precisa chegar ao falante de uma forma bastante significativa para que o
ções, lançando mão dos subsídios da semiótica de Peirce. na busca de uma
incite a observar sua própria língua como algo vivo, em movimento.
melhor compreensão da linguagem, dos códigos e de suas tecnologias sem,
A escola tradicional pautou o ensino do vernáculo na exclusividade do contudo, obrigar o estudante a atravessar o semiárido dos textos-inoportunos
texto modelar, e este era o considerado clássico. Em contraponto, meio que e das nomenclaturas incômodas e improdutivas.
perdida no emaranhado e na abundância de descobertas científicas difun­
Com esse projeto, pretende-se levar o estudante a reexperimentar o
didas em alta velocidade, a escola contemporânea (salvo exceções) acabou
prazer que a língua nos traz nos primeiros balbucios, em que cada som
por resumir-se ao texto da comunicação de massa (jornais e revistas), como
articulado é saboreado e representa uma grande conquista.
sendo a modalidade mais propícia à transformação das aulas de língua em
sessões de língua viva e ativa. Vamos seguindo os poetas cavaleiros musicais:

Postulando uma escola moderna, mas equilibrada, propomos o texto Caminhando e cantando, seguindo a canção... (Pra não dizer que não
rico como o mais ajustado à produção de aulas eficientes. Entendemos falei de flores, de Geraldo Vandré).
como texto rico aquele que traz, além .de um conteúdo informativo ou
provocativo relevante, mostras de uma língua real, que representa a fala
--y

Aulas de português: parada de sucessos


'—J

São históricas as discussões acerca do insuficiente desempenho esco­


lar no âmbito da leitura e produção de textos em língua materna. Este
—J

problema se reflete no rendimento escolar em geral, uma vez que todas


as disciplinas dependem de domínio do vernáculo. Discentes e docentes
apresentam dificuldades na expressão linguística, o que é comprovado pelas
dificuldades de comunicação (sobretudo escrita) nos exercícios e tarefas.
Docentes se assustam ante as respostas obtidas. Discentes reclamam do
não entendimento dos enunciados. Em suma, a comunicação linguística
em português não anda bem.

Em função dessas dificuldades, vimos desenvolvendo estudos e pesquisas


que possam minimizar os problemas de comunicação em sala de aula e, por
conseguinte, auxiliar a formação de usuários de língua mais competentes
no que tange à fluência de leitura e produção textual.

Em nossas elucubrações e conversas com o público envolvido (docentes


e discentes), temos concluído que um dos principais problemas (se não o
principal) é a opção didática. Métodos e técnicas de trabalho em classe —
repetidos historicamente — não têm conseguido estimular professores nem
alunos, porque os resultados são cada vez menos significativos. A despeito de
todas as intervenções dos recursos audiovisuais, da informática etc., as aulas
de português (com poucas exceções) continuam sendo tempo-espaço de
muito esforço e pouco resultado para professores e alunos.

Estudiosos contemporâneos de diversas áreas não têm poupado esfor­


ços na busca de explicações psicopedagógicas e culturais ou estratégias
didático-pedagógicas para a melhoria do ensino. Neste âmbito convém
lembrar que o problema da escola brasileira não é só a língua nacional.
A amplitude da crise no panorama educacional brasileiro e na escola em
particular transcende a dificuldade do ensino-aprendizagem do vernácu­
lo. Todavia, cumpre considerar que a língua materna (ou nacional) é
104 ESTUDOS API .IÇADOS AULAS DE PORTUGUÊS: PARADA DE SUCESSOS 105

mola mestra no processo de ensino-aprendizagem em geral, já qué é o à escola, vêm buscando mêios e modos de conquistar clientela, ampliar
código-base para as interações interpessoais, independentemente de área seus quadros de “associados”, fisgar o afiliado por meio de sensações de
ou tema, portanto, o não domínio ou domínio deficitário da língua por­ prazer e segurança. Segundo estudo de uma de nossas orientandas, “qual­
tuguesa (nossa língua) resulta em graves sequelas educacionais, mormente quer movimento (...) que aponte convicções fornece um sedutor apelo de
no âmbito da instrução escolar. segurança aos indivíduos e, por isso, tende a ter mais sucesso na obtenção
de adeptos” (Farah, 2004). A despeito disso, as salas de aula (salvo exce­
Observe-se que adotamos a expressão instrução escolar, uma vez que ções) têm conseguido tornar-se locais de desconforto, de incompreensão,
não se pretende aqui usar educação e instrução como sinônimos. Logo, de intolerância, enfim, de incomunicabilidade.
focaliza-se a intervenção escolar no plano da preparação do indivíduo
para a interação social fundada no conhecimento amplo de si mesmo e O momento histórico é de conflito e questões relativas à inclusão social
do mundo que o cerca. Para tanto, impõe-se a instrução linguística. Há são bandeira das discussões deste início de século. Rosnay (in Morin, 2002)
muito que se vem sofisticando o dizer sobre os temas relacionados a ensino- assevera que uma atitude pautada na síntese seria uma grande saída para
-aprendizagem em geral e à formação linguística em especial. No entanto, a reorganização dos sistemas de transformação sociocultural. Pela síntese
pensadores contemporâneos chamam a atenção dos estudiosos acerca da seria possível realizar a pretensão da abordagem sistêmica (em lugar da
importância da organização do saber humano, o qual, a seu turno, demanda enciclopédica), canalizando a pesquisa e o ensino para a comunicação
o entendimento e o melhor aproveitamento de nosso potencial intelectivo. e a interação no sentido mais restrito: o do intercâmbio. Nessa linha de
O homem nasce apetrechado para tarefas cognoscitivas de alta complexi­ raciocínio, nossa hipótese assenta-se na operação com sistemas de signos
complexos (de natureza diversa), mas que funcionam solidariamente na
dade; contudo, é preciso exercitar seu potencial para que tais tarefas sejam
produção dos textos do mundo e que, por isso, mostram-se completamente
realizadas com êxito.
inseridos numa visão ecossistêmica e se nos permitem cruzar dados de uns
Refletindo com Morin (2002: 490) e admitindo que o conhecimento para outros, de modo que se autoiluminem, facilitando assim a inteligên­
é uma tradução do que captamos do mundo, cumpre enfatizar a impor­ cia dos fenômenos e a compreensão da natureza cósmica e humana. No
tância da religação dos saberes (tema da obra citada) no sentido de que a entanto, para que isto se dê de modo adequado, é preciso rever o modelo
aprendizagem humana seja lida como consequência de um encadeamento de aprendizagem que está sendo perseguido e confrontá-lo com o que está
racional de curiosidades. Estas, por sua vez, resultariam do contato com o sendo requerido.
desconhecido, o novo, o diferente, a partir do que o homem seria provocado
O estudante hodierno, em consequência dos muitos estímulos que o
a descobrir, seria tentado a realizar algo.
envolvem (e às vezes sufocam), precisa encontrar significado nas coisas a
A tradição fraginentadora do saber, materializada no modelo disciplinar, que se dedica. Logo, o paradigma didático-pedagógico mais ajustado à ansie­
acabou por promover um esmigalhamento dos saberes (cf. Joêl de Rosnay dade do aluno contemporâneo é a chamada aprendizagem significativa (cf.
apud Morin, 2002: 493), e a dinâmica da vida contemporânea tende a re­ Moreira, 1999: 20), que consiste num processo cuja essência é que ideias
sultar num estilhaçamento das informações, dos conteúdos, de modo que o simbolicamente expressas sejam relacionadas — de forma não arbitrária
estudante hodierno vê-se cada vez mais perdido, incompetente e impotente e não literal — à estrutura cognitiva do aprendiz, ou melhor, ao que ele
para acompanhar o fluxo das informações oriundas da mídia, da informática, já sabe. Um dos caminhos para que se atinja tal modelo pedagógico é o
das vivências íntimas e públicas, e, por fim, da escola. Por que a escola em trabalho interdisciplinar.
último lugar? Pelo simples fato de ser esta o objeto menos atraente, ante
A interdisciplinaridade articula o conhecimento sem dissolver a es­
os demais que se oferecem ao homem do século XXI.
pecificidade dos campos do saber nem negar as disciplinas escolares.
Nesta perspectiva, vê-se a escola em plena desvantagem em relação Todavia acaba com a prática escolar fragmentada. A contextualização,
às demais instituições que viabilizam as interações: clubes, agremiações, por sua vez, reinsere o conhecimento específico no âmbito da vida,
locais de cultos religiosos, partidos políticos etc. Estas e outras, em avesso gerando significado, transformando definições em conceitos. Disto de­
1U0 .ESTUDOS APLICApOS
AULAS DF. PORTUGUÊS: PARADA DE SUCESSOS 107

correm as autonomias de pensamento e de atuação onde cada qual se vê Em virtude disso e levando em conta outras pesquisas realizadas ou
como um e como parte de um grupo maior. A formação para a autonomia, orientadas, chegamos à conclusão de que é urgente renovar as aulas de
a diversidade e a constituição e o reconhecimento de identidades pressu­ português, para que o aluno se torne usuário eficiente da língua nacional
põem formação na autonomia, na diversidade, constituindo e reconhecendo e, por conseguinte, atinja a condição de aluno produtivo em todas as
identidades. O desenvolvimento pessoal e a preparação para a cidadania disciplinas, uma vez que, obtida a fluência linguística indispensável, este
e o trabalho pressupõem a construção da efetiva autonomia intelectual do aluno se tornaria capaz de ouvir/ler/compreender os textos que se lhes
educando, para que ele possa transitar com desenvoltura pelos diversos apresentassem, da mesma forma que estaria apto a produzir textos (orais e
contextos da vida em sociedade.
escritos) compreensíveis para outrem.
Concordando com Eurides de Brito Silva (s/d) entendemos que o Perseguindo esse objetivo, vimos desenvolvendo projetos diferenciadores
currículo escolar é o fundamento do sucesso ou do fracasso das práticas
(que atualizam a ideia de estudo pautado na síntese e na transversalidade
escolares. Segundo o estudioso, o currículo de qualidade é aquele que faz
dos temas — conceitos e- operadores —, conforme propõe Rosnay), do
a integração horizontal e vertical de conteúdos significativos dos diversos
paradigma convencional das aulas de português. Por um lado, decidimos
componentes curriculares, transformando a escola num ambiente vivo de
construir uma proposta de ensino multidialetal, a partir do que não só seria
aprendizagem. Sua visão curricular destaca uma aprendizagem fundada na
possível ampliar o potencial verbal vernáculo do estudante, mas também
prática de trabalhos que desafiem a compreensão do diferente e a busca de
ampliar o debate e as ações sobre a dita inclusão social. Por outro, estimu­
soluções diante de situações novas típicas de uma sociedade em constante
lar a exploração de sistemas complexos (onde entra a letra de música) que
mudança. Tal modelo curricular atende aos princípios básicos da inter-
efetivem a troca cultural e modifiquem os caminhos já trilhados (e nem
disciplinaridade, entendida como diálogo constante dentro de cada área
sempre bem-sucedidos) pelas práticas didáticas de língua portuguesa. Ain­
de conhecimento e entre as áreas de conhecimento e a contextualização,
concebida como a vinculação do conteúdo ao social, buscando aproximar da hoje o aluno consegue concluir o ensino médio sem fluência verbal,
o aluno da sua cultura. especialmente no uso padrão.

Silva (2004) afirma que trabalhar com textos de tipologia diversa e produ­
zidos por diferentes setores da cultura nacional significa, em última análise,
1. Aula de português no século XXI dar ao aluno meios e instrumentos para uma leitura plural do mundo. O
trabalho da pesquisadora levou a termo uma de nossas discussões acerca da
Em outro de nossos estudos (Simões, 2003: 23), apontamos o seguinte implementação de aulas de português a partir de letras de música brasileira.
conjunto de problemas presentes em nossa sala de aula: a) sem-número
de recursos não verbais utilizados nos veículos de comunicação de mas­ É ainda Silva (op. cit.) quem diz que a pobreza vocabular retratada numa
sa desenvolvem hábitos distanciados da escrita; b) texto verbal divide obra pode funcionar como estímulo à paralisia linguística, a partir do que o
espaço com uma infinidade de outras linguagens; c) a falta de hábito estudante, ou usuário da língua em geral, passa a contentar-se com a umeia
e a consequente inabilidade de “leitura” empobrecem o repertório do dúzia” de palavras que domina, o que, a nosso ver, é a concretização do
estudante e reduzem-lhe o potencial temático, em decorrência de uma confinamento social, uma vez que as interações se realizam (via de regra)
visão fragmentada de mundo, pois para exprimir-se é necessário que se linguisticamente; e quanto maior for a versatilidade do falante, maiores serão
estruturem os esquemas mentais, que se organize o pensamento; d) a seg­ suas oportunidades de comunicação e expansão sociocultural. Aproprio-me
mentação, a diferenciação e estigmatização linguísticas cada vez maiores então de palavras de Silva, sobre a importância da expansão linguística e do
fortalecem a estratificação social; e) o “bombardeio” da oralidade como conhecimento de mundo advindo do trabalho com textos de modalidades
concorrente para um relaxamento expressional (sobretudo verbal) que diversas, o que daria ao estudante condições de aprimoramento da capa­
afasta mais e mais o falante do domínio do uso padrão e da escrita no cidade de expressão verbal em sua ampla variação idiomática, com ênfase
registro formal. no estilo padrão (a língua dos documentos).
108 ESTUDOS APLICADOS AULAS DE PORTUGUÊS: PARADA DE SUCESSOS 109

Na busca de textos que contemplem a mais ampla variedade idiomática e Já trouxemos a este texto, lembrando Rosnay, a questão dos temas
estilística (uma vez que os usos indicam estilos diversos de ver e representar transversais dos quais emergem abordagens multidimensionais que, a seu
o mundo), temos encontrado na música brasileira uma grande aliada, já turno, chamam à cena pressupostos teóricos da mais variada natureza.
que permite sejam reunidas as responsabilidades e os prazeres de modo a Na vertente que questiona um ensino linguístico predominantemente
tornar as aulas de português agradáveis e produtivas. gramaticalista e propõe uma abordagem funcional interacionista, des­
tacamos a semiótica e a estilística como enquadres obrigatórios para a
descrição linguística contemporânea. Um ensino voltado para a eficiência
- 2. A MÚSICA E O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA: UM PROJETO comunicativa tem de pautar-se na relatividade dos signos e significados,
ao mesmo tempo que precisa propiciar a percepção/interpretação da
O projeto que ora vimos desenvolvendo objetiva a construção de estra­ conexão entre aqueles na dinâmica da produção de sentidos. Nesse
tégias didáticas de base semiótico-estilística destinadas à implementação de plano atua a teoria semiótica, uma vez que gerencia as oposições e
um ensino do idioma a partir da exploração de letras de música brasileira. correlações construídas nâ superfície dos textos e viabiliza a produção
Trata-se de estudo voltado para a variação linguística e para a análise dos de interpretações plausíveis, ainda que não únicas. Ao lado disto ganha
contornos icônicos e expressivos presentes nos textos musicais, a partir dos relevo a estilística que vem dialogar com a gramática normativa e possibi­
quais o estudante é informado sobre a norma gramatical, a riqueza lexical litar a validação (ou não) de enunciados que se mostrem transgressores
e a consequente importância da escolha das palavras na produção textual. em determinados aspectos. A perspectiva de um ensino multidialetal
Esta perspectiva contempla um indivíduo dotado de sensibilidade fundamenta suas hipóteses em premissas estilísticas, uma vez que cada
que precisa ser trabalhada em prol de seu aprimoramento estético, ético, dialeto, falar ou uso linguístico não é senão a manifestação de uma visão
moral e social. Sobre a estética da sensibilidade, os PCN asseveram que, de mundo diferenciada e representada em linguagem.
como expressão do tempo contemporâneo, a estética da sensibilidade vem Por isso, optamos pela exploração da letra de música em nossas aulas,
substituir a da repetição e padronização, hegemônica na era das revolu­ já que neste gênero textual reconhecemos as seguintes vantagens: a) possi­
ções industriais, com vistas a estimular a criatividade, o espírito inventivo, bilidade de lidar com um universo textual conhecido, propiciando assim
a curiosidade pelo inusitado, a afetividade, para facilitar a constituição a condução didático-pedagógica na linha da aprendizagem significativa; b)
de identidades capazes de suportar a inquietação, conviver com o incerto, garantia de abordagem interdisciplinar imediatamente deflagrada entre lite­
o imprevisível e o diferente. ratura e música e t) oportunidade para a discussão das diferenças culturais
A análise de letras de música de indiscutível valor literário vem ser­ a partir dos usos linguísticos documentados nas letras de música.
vindo como base para a demonstração da competência linguística de A Base Legal das Instruções para Reformulação Curricular do Ensino
seus autores, tomada como referência para o aperfeiçoamento vernacular Médio (PCN) intenta promover o reconhecimento da historicidade do
dos estudantes. Para tanto, não apenas a seleção dos objetos textuais se processo de produção do conhecimento. Por isso, preconiza que a con­
impõe, mas também a moldura teórica se mostra fator relevante para cepção curricular seja transdisciplinar e matricial, de forma que as marcas
nossas considerações, uma vez que estas vão alicerçar a orientação de das linguagens, das ciências, das tecnologias e, ainda, dos conhecimentos
processos de leitura e produção textual que permitiriam ao indivíduo a históricos, sociológicos e filosóficos sejam vistos como ingredientes da pro­
sua realização como homem integral. A medida que chegamos a dispor dução de uma leitura crítica do mundo e estejam presentes em todos os
de uma riqueza maior nos meios de expressão, um elemento comum
momentos da prática escolar.
entre as tendências diversas emerge mais claramente (cf. Fischcr, 1973)
e assim nos tornamos mais livres e felizes. Liberdade e felicidade são Muito antes da divulgação desses parâmetros, já desenvolvíamos uma
componentes da formação do homem integral, uma vez que sinalizam prática com essa perspectiva. Nossas pesquisas têm explorado, entre outras,
com a possibilidade de autorrealização. a obra de Elomar Figueira Mello.
%

11 u i\.> i ula . vruuu K AULAS DE PORTUGUÊS: PARADA DE SUCESSOS 111

Além do universo histórico-geográfico que descortina-com sua obra, Elo- É muito mais fácil estimular a apreciação de .páginas da música que
mar tem servido de comprovação para a tese de que o falante deve ser um se ouve nos rádios e tevês, pelo simples fato de ser material próximo do
poliglota em sua própria língua. Cumpre acrescentar que, diferentemente estudante, é objeto conhecido; difere dos textos “de proveta”, criados ex­
do que pensam os leigos, os cantadores sertanejos em geral são pesquisa­ clusivamente para exemplificação de fatos da língua e que, quase sempre,
dores por conta própria, para suprir a obrigação de cantar temas dos mais soam artificiais ou mesmo absurdos.
variados (cf. Amorim, in Oliveira, 2003: 119). Elomar, por exemplo, além
Como nosso objeto imediato é a descrição da fala e çla escrita e as interven­
de sua formação acadêmica (graduado em arquitetura e estudioso de mú­
ções de uma sobre a outra, as letras de música podem ser consideradas excelente
sica), sempre foi um leitor contumaz, e os clássicos sempre foram fonte de
corpus a ser explorado nas aulas que têm o registro escrito da língua como
inspiração para suas obras. E patente que a música e a literatura produzidas
meta, contemplando os reflexos do que se diz no que se escreve.
no interior do país apresentam-se como um manancial quase virgem para
a exploração linguística, sobretudo, uma vez que depois do Dialeto caipira Na seção seguinte, trazemos uma sugestão de trabalho com letra de
(Amadeu Amaral) e do Linguajar carioca (Antenor Nascentes), quase nada música amplamente veiculada pela mídia.
apareceu sobre os usos diferenciados de nossa língua com a profusão de
detalhes contida nestas obras.
3. Uma ilustração sobre o aproveitamento das letras de música
Ao lado de uma perspectiva linguístico-literária, persegue-se toda a
gama de informações socioculturais emergentes dos textos, demonstrando
Com vistas a demonstrar uma possível aplicação da descrição fonológica
assim a importância da leitura e da exploração deste material. Os estudos já
a uma letra de música, trazemos uma composição de autoria de Gilberto
realizados têm propiciado o levantamento de estratégias discursivo-textuais
Gil e Liminha, “Vamos Fugir”. Eis a letra:
inscritas nas letras selecionadas ao mesmo tempo que permite a identificação
da música como documento cultural. Vamos fugir (v.l) / Deste lugar, baby (v.2) / Vamos fugir (v.3) / Tô can­
sado de esperar (v.4) / Que você me carregue (v.5) / Vamos fugir (v.6) /
Finalizando este aparte metodológico (e ideológico!), salientamos que as
Proutro lugar, baby {v.l) I Vamos fugir (v.8) / Pronde quer que você vá
letras de música têm-se mostrado como material de alta produtividade nas
(v.9) / Que você me carregue (v.10) / Pois diga que irá (v. 11) / Irajá, Irajá
classes de língua portuguesa. Como as considerações sobre a fala e a escrita
(v. 12) / Pronde eu só veja você (v. 13) / Você veja a mim só (v. 14) /
incluem a dificuldade de operar com os fenômenos fôni-cos da língua (por
Marajó, Marajó (v. 15) / Qualquer outro lugar comum (v. 16) / Outro
conta de uma tradição de ensino que os tornou totalmente antipáticos), lugar qualquer'(v. 17) / Guaporé, Guaporé (v. 18) / Qualquer outro lugar
temos podido explorar a produção musical nacional (sobretudo a MPB) ao sol (v. 19) / Outro lugar ao sul (v. 20) / Céu azul; céu azul (v. 21)
com vistas a descrever e documentar a riqueza de nossa língua seja numa / Onde haja só meu corpo nu (v. 22) / Junto ao seu corpo nu (v. 23) /
perspectiva histórica (diacrônica) ou sincrônica. Vamos fugir (v. 24) / Proutro lugar, baby (v. 25) / Vamos fugir (v. 26) /
Em virtude da explosão de produções ditas musicais no cenário na­ Pronde haja um tobogã (v. 27) / Onde a gente escorregue (v. 28) / Todo
cional, verifica-se uma oportunidade de trazer à sala de aula a apreciação dia de manhã (v. 29) / Flores que a gente regue (v. 30) / Uma banda de
crítica das letras veiculadas pelo rádio, televisão, gravadoras etc. O preparo maçã (v. 31) / Outra banda de reggae (v. 32).
linguístico do cidadão hodierno demanda capacidade de avaliação de Trata-se de uma letra de estrutura simples e ritmo leve (reggae) oriundo
textos, sobretudo no que concerne à informatividade. Em se tratando de da culttira jamaicana. Gilberto Gil, apreciador de Bob Marley, destaca-se
criação musical, que, em princípio, seria produção artística, acresce-se a
como divulgador do estilo reggae no Brasil.
exigência de usos criativos da língua. Portanto, o material disponível no
mercado fonográfico nacional coetâneo é abundante; e, do ponto de vista E possível verificar no texto do compositor baiano, alterações fo-
da documentação de usos linguísticos variados, pode-se considerá-lo recurso nológicas típicas da fala cotidiana como: a) Tô (v.4) - subtração de
didático farto e produtivo. fonemas iniciais e finais: estou > tô; b) Proutro (v.7) - contração das
AULAS DE PORTUGUÊS: PARADA DE SUCESSOS 113

formas para (>pra) + outro = proutro; c) Pronde (v.9) - o mesmo processo O mesmo itinerário estrutural apresentam as rimas formadas por: tobogã
se repete em para (>pra) + onde = pronde. / manhã / maçã. Apenas a vogal nasal final sustenta a rima.
Outro fato interessante e de vezo estilístico-semiótico é o aproveitamento Mais uma rima interessante é a que se apresenta em: Qualquer outro
da semelhança sonora de vocábulos, independentemente de seu conteúdo lugar ao sol I Outro lugar ao sul. Os vocábulos sol e sul constituem uma
semântico. Vejamos: Pois diga que irá / Irajá. Irajá (w. 11-12). rima denominada impura heterofônica ou metafônica, uma vez que, em­
Nestes dois versos, o autor associa a forma verbal irá ao advérbio de bora assentada exclusivamente nas vogais, são distintas quanto ao timbre
-tempo já, do que resulta o vocábulo Irajá, que é topônimo de um bairro (Tavares, 1981: 217).
do Rio de Janeiro. Esta construção reforça iconicamente a ideia de deslo­ Este fenômeno se repete em várias letras de música brasileira, sobre­
camento espacial. tudo no movimento da Bossa Nova. Vejam-se, por exemplo, os versos de
Na trilha de usos vocabulares de denotação locativa, surgem Marajó Ronaldo Bôscoli em “Rio”: Rio é mar! Eterno se fazer amar / O meu Rio
(para rimar com só), Guaporé (rimando com qualquer) e reforçados pelas é lua! Amiga, branca e nua! é sal é sol é sul/ São mãos se descobrindo em
ideias dos versos Qualquer outro lugar ao sol / Outro lugar ao sul (w. 19-20), tanto azul (...) Observe-se que a sequência vocálica constrói o balanço da
além de evocarem substância fônica de línguas aborígines: Irajá, Marajó e música por intermédio do fechamento paulatino do timbre da vogal: sal -
Guaporé. (Três lugares onde há forte movimento reggae). /a/ - central baixa aberta; sol hl - posterior média aberta; sul lul - posterior
alta fechada. Numa representação gráfica teríamos:
A referência a sol e sul são índices textuais para Marajó e Guaporé: este
situado ao sul do país (Rio Grande do Sul); aquele em posição acima da
linha do Equador, portanto, local de clima quente nos paralelos do sol.
O sol ainda serve de referência para Irajá. Tratando-se de bairro do Rio
de Janeiro (XIV Região Administrativa de Irajá), ainda que em área não
litorânea, está a poucos quilômetros das praias que, metonimicamente,
podem ser substituídas por sol. Além disso, Rio de Janeiro é cidade de
parte do país conhecida como Sul Maravilha. Logo: sul também serve de
referência para Irajá.
Ainda no caminho das rimas, verifica-se nesta letra o aproveitamento
Voltando às rimas, entre Marajó e só, tem-se a rima toante: em que só máximo da semelhança fônica: homofonia. Observem-se as formas: carregue,
há identidade de sons nas vogais, a começar das vogais ou ditongos que escorregue. regue, reggae. Os segmentos sublinhados representam graficamente
levam o acento tônico, ou, algumas vezes, só nas vogais ou ditongos da a mesma sequência sonora: Are gl/ (que corresponde a régui). Do ponto
sílaba tônica. Assim: jó / só. de vista estilístico-semiótico, tem-se neste fato a produção de uma imagem
Na rima entre Guaporé e qualquer, vê-se a ênfase da fala popular que sonora reiterada de reggae, o que funcionaria como um ícone desse ritmo
torna tal rima perfeita: as sílabas finais ré e quer são pronunciadas como a ecoar na mente dos ouvintes. Trata-se de uma exploração artística da
simples complexas abertas, pois o travador vibrante [r] desaparece na fala substância fônica projetada no nível da seleção vocabular.
cotidiana, dando lugar a um [e] tônico. Assim, temos: ré / qué, rima soante Mais adiante, outro fato fonossemântico se sobressai: a polissemia.
como a primeira comentada. O apagamento do travador se repete no par Vejamos os versos: Uma banda- de maçã / Outra banda1 de reggae. Os
sul e nu, que rima de modo toante com base na vogal lul, uma vez que, vocábulos grifados nos dois versos são idênticos quanto à sua configuração
na fala corrente (à exceção dos dialetos sulistas), o travador lateral sonoro fônica e gráfica. São ainda pertencentes a uma mesma classe gramati­
/!/ se realiza como a semivogal Av/ que, por sua vez, é assimilada pela vogal cal: substantivo. No entanto, a noção que carregam é distinta. Banda1
similar, promovendo a pronúncia ísul perfeitamente combinável com /'nu/. significa pedaço, fatia (metade de alguma coisa, [Houaiss, s.u]; banda1
%

114 ESTUDOS APLICADOS

significa conjunto musical (ou ainda: agrupamento músico de número de


componentes e formação instrumental variada, que em geral executa música
popular, ou marchas militares.[Amé\io, s.ti.]; ou conjunto de música popular
urbana [Houaiss, s.u].

Observe-se que, do ponto de vista semântico, a alusão a locais como Palavras finais
Marajó e Guaporê reitera a opção rítmica representada por '‘Vamos fugir”,
já que se trata de locais em oposição extrema: norte e sul do Brasil. Ade­
mais, a origem jamaicana do reggae aguça a curiosidade de saber mais
sobre a Jamaica. Por isso, para arrematar este estudo linguístico, incluímos
Reiteramos o que foi dito na primeira edição: a organização deste livro
alguns dados enciclopédicos que podem ser úteis a docentes e discentes
é totalmente despretensiosa quanto a solucionar as dificuldades com a
que queiram trabalhar a letra “Vamos fugir”.
fonologia ou a ortografia da língua portuguesa. Todavia, temos por meta
Encerramos aqui nossa pequena mostra de um trabalho que se pro­ auxiliar nossos colegas, repassando noções que consideramos de grande
põe bastante rico tanto do ponto de vista linguístico quanto cultural. Em relevância quando do ensino-aprendizagem da língua materna.
continuidade, o professor poderá propor uma pesquisa sobre: reggae, Bob
Na qualidade de professora pesquisadora da língua portuguesa, cada
Marley, Jamaica, Irajá, Marajó, Guaporé etc.
dia com mais afinco, centramos nossas ações no aperfeiçoamento do
processo de transmissão das informações linguísticas com fundamentação
técnico-científica (que é essencial) e com uma visão crítica do trabalho
realizado em sala de aula. Acreditamos que a eficiência do ensino da
língua materna não depende exclusivamente da complexidade (ou não
complexidade) dos conteúdos a transmitir, mas de uma metodologia
apropriada que torne as aulas de língua portuguesa agradáveis e eficien­
tes. Para tanto, é preciso associar o rol de conteúdos de um curso aos
objetivos da clientela, para que haja um mínimo de relevância prática
nos itens discutidos e exercitados.

É muito comum ouvir de nossos alunos lamentações quanto à utili­


dade ou aplicabilidade deste ou daquele item gramatical trabalhado em
classe. Isto não é um dado gratuito, mas um sinal amarelo — ATEN­
ÇÃO! — que se acende diante de nossas aulas, apontando que algo
precisa ser modificado. Partindo dessa preocupação, vimos nos dedican­
do a discutir os conteúdos e as metodologias de trabalho, visando, no
mínimo, a apresentar sugestões de abordagens que suavizem o estudo
gramatical, tornando-o algo necessário em decorrência da conscientização
sobre suas aplicações.

Cremos que o título Considerações sobre a fala -e a escrita — Fo?2o/o-


gia em nova chave deixa claro que nossa intenção não seria a descrição
minuciosa do sistema fônico da língua portuguesa falada no Brasil (que

j
116 KSTUIX )S APLICALX )S

já conta com relevantes trabalhos, como: Mattoso Câmara Jr., 1953; Aragão,
1997; Mollica, 1998; Morais, 1999: Bisol, 2001; Silva, 2001; entre outros);
mas a discussão dos caminhos metodológicos que se têm seguido no ensino-
-aprendizagem da língua portuguesa (sobretudo na modalidade escrita). Ve­
rificamos, ao longo de nossa atuação docente, que muito do desinteresse do
aluno pelo estudo da língua em geral e da fonologia, em especial, assenta-se
Bibliografia
não no objeto a estudar, mas na forma como é estudado. Por isso, o que
^apresentamos neste pequeno manual é destinado precipuamente ao trabalho
didático com a‘ língua portuguesa. Pretende-se deixar elementos que promo­
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