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UNIVERSIDADE DE LISBOA

FACULDADE DE BELAS-ARTES

MONSTROS: A CIÊNCIA DO MITO E A SUA


UTILIDADE NOS VIDEOJOGOS

Maria Inês Lopes Pires Henriques Garcia

Dissertação
Mestrado em Anatomia Artística
Especialização em Ilustração Científica

2015
UNIVERSIDADE DE LISBOA
FACULDADE DE BELAS-ARTES

MONSTROS: A CIÊNCIA DO MITO E A SUA


UTILIDADE NOS VIDEOJOGOS

Maria Inês Lopes Pires Henriques Garcia

Dissertação orientada pelo Prof. Doutor Henrique Costa

Mestrado em Anatomia Artística


Especialização em Ilustração Científica

2015
RESUMO

Desde o período clássico que os monstros têm sido dignos de admiração e receio. Os
gregos valorizaram-nos inventando novas raças que viviam a distâncias longínquas, no
Oriente. Foram elaborados relatos de viajantes, moralistas e religiosos a seu respeito,
sempre com a preocupação da sua veracidade. Santo Agostinho tentara provar a sua
existência, classificando-os como maravilhas e centrando a sua preocupação em impedir o
corrompimento da alma, negando uma relação evidente entre os nascimentos monstruosos
e um castigo divino. Os monstros apresentam por isso dois aspetos distintos e polémicos
quanto à sua origem: um que remete para os nascimentos monstruosos, encarados como
presságios, e outro sobre a existência de raças fabulosas em lugares remotos. No entanto,
em termos estruturais, estas criaturas fantásticas apresentam organizações compositivas
relativamente finitas, sem grandes disparidades em termos de estrutura. Com o passar das
épocas, para além do seu papel intimidador, os monstros foram sendo observados como
curiosidades científicas e por último, como divertimento em situações como os freakshow,
ou atualmente, em várias indústrias, destacando-se a cinematográfica e a dos videojogos.
Foram selecionadas duas criaturas provenientes do conhecido videojogo World of Warcraft,
da empresa Blizzard: o Orc e o Ciclope que serão posteriormente analisadas de acordo com
uma perspetiva científica, onde com base nas suas características físicas será elaborada uma
análise comparativa referente a diversas anomalias (prognatismo, acromegalia e ciclopia)
existentes, bem como comparações com outros animais.

Palavras-Chave:

Ciclope, Monstros, Orc, Teratologia, Videojogos (World of Warcraft)


ABSTRACT

Since the classic era that monsters have been both the subject of worship and fear. Greeks
used to valorize them making up new races which lived in faraway lands, in the East. There
were traveler’s reports made up, from a moralist and religious point of view, always with
veracity in mind, where anatomical weird beings were described. Saint Augustin tried to
prove their existence, classifying them as wonders and focusing on stopping the idea of the
corruption of the human soul by denying their relation between monstrous births and
divine punishment. Monsters present then two distinct aspects when it comes to their
origins: one that pushes back to monstrous births, seen as omens, and other that points to
the existence of fantastic races in faraway places.
However when it comes to structure these fantastic beings display finite compositions, not
looking too different from each other. With the passage of time, besides their fearful role,
monsters were being observed as scientific curiosities and at last, as recreation subjects,
first in freak shows, now in several industries, being the most well know the
cinematographic industry and the videogames one. Two creatures from the world known
videogame World of Warcraft from Blizzard Entertainment were selected to be analyzed
from a scientific point of view, were based on their features, there will be a comparative
analysis with diverse anomalies and diseases (prognathism, acromegaly, cyclopia) existent ,
as well as comparative anatomy with other animals.

Key Words:

Cyclops, Monsters, Orc, Teratology, Videogames (World of Warcraft).


AGRADECIMENTOS

Esta dissertação não seria possível sem o importante contributo de várias pessoas que me
ajudaram ao longo deste período. Em primeiro lugar quero agradecer ao orientador e
Professor Doutor Henrique Costa, pela paciência e por todo o apoio referente ao dominio
visual e também teórico da dissertação.
Em segundo lugar, a um grupo de Professores que foram incansáveis e de extrema
importância relativamente à parte cientifica da dissertação: à Professora Doutora Isabel
Ritto, pelo seu importante apoio, ao Professor Doutor Ivo Furtado pela simpatia e
preciosa ajuda e também, à Professora Doutora Graça Pires, sempre disponível no que
fosse preciso.
Em terceiro lugar, agradeço àqueles que acompanharam todo o desenrolar deste processo,
animando-me e ajudando-me, em especial à Joana Geraldes.
Por último, mas não menos importante, um agradecimento profundamente especial
dedicado aos meus pais, à minha familia, pelo seu enorme apoio e motivação, e também ao
Tiago. Por todos os motivos e mais alguns, esta dissertação é dedicada a eles.
M. Inês Garcia
Monstros: A ciência do mito e a sua utilidade nos videojogos
Faculdade Belas-Artes de Lisboa: Mestrado em Anatomia Artística- Especialização em Ilustração Científica. 2015

ÍNDICE
Índice de Imagens

Introdução 1
A) Objetivo 3
B) Metodologia 3
I. Uma Breve História Sobre os Monstros 4
1. As origens dos monstros e a sua divulgação no mundo Ocidental 5
1.1. Literatura sobre monstros- folhetos de cordel, bestiários e narrativas 8
de viagens
1.2. Preocupações cristãs acerca dos monstros e da sua existência 13
II. Anomalias e Mutações 18
2. O corpo monstruoso: teorias para o seu surgimento 19
2.1. Os Primórdios da obscura origem: Idade Média 20
2.2. Grandes Inovações: A Teoria da Preformação 28
2.3. Tipologias Monstruosas 33
III. A Utilidade dos Monstros 38
3. A descoberta dos monstros enquanto utilidade científica, lúdica e 39
contemporânea
IV. Análise dos Monstros: Orc e Ciclope 45
4. Orc: Etimologia 46
4.1. Características do Orc segundo J.R.R. Tolkien 47
4.1.2. Videojogos 48
O Orc no Universo dos jogos de tabuleiro e videojogos
4.1.3. World of Warcraft 49
4.1.4. Warhammer 53
4.1.5. Anomalias Anatómicas 54
Prognatismo- Considerações anatómicas: Origens e definições
4.1.6. Proporções da Face 59
4.1.7. Proporções alteradas 63
4.1.8. O prognatismo nos símios 66
4.1.9. O porquê de ser desproporcional: Acromegalia 67

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4.2. Ciclope: Mitologia 72


4.2.1. Raízes Classicistas 72
4.2.2. Teorias Adversas 77
4.2.3. Videojogos 79
4.2.3.1. Universo Warcraft- Gronns, Ogron e Ogres 79

4.2.3.1.2. Gronn 79

4.2.3.1.3. O elo perdido- Ogron 81


4.2.3.1.4. Ogres 82

4.2.3.1.5. Os Ogres e Ciclopes nos videojogos: Dungeons and Dragons, 85


Warhammer, Final Fantasy, The Elder Scrolls e Heroes of Might and
Magic
4.2.4. Deformidades Anatómicas 86
Ciclopia: um estudo antigo
4.2.5. Willem Vrolik: um pioneiro na área 88

4.2.6. A ciclopia na ciência atual 93

Conclusão 99
Bibliografia 102
Anexo de Imagens 113

II
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ÍNDICE DE IMAGENS

Fig. 1 Sebastian Münster, “Illustrations of monstrous humans from


Cosmographia”, xilogravura, 1544. Imagem retirada do Website “Jason
Colavito.Com”. Disponível em: <URL
http://www.jasoncolavito.com/blog/columbus-and-the-search-for-greek-
mythical-monsters-in-america>.

Fig. 2 Ambroise Paré, Figura de um leão-marinho coberto de escamas. Imagem


retirada da obra PARÉ, Ambroise, -On Monsters and Marvels. Chicago:
The University of Chicago Press, LTD, 1982, página 111.

Fig. 3 Albrecht Dürer, Rhinoceros, 1515. Imagem retirada do Website


“Wikipedia”. Disponível em: <URL
https://en.wikipedia.org/wiki/D%C3%BCrer%27s_Rhinoceros>.

Fig. 4 Ambroise Paré, Figura de uma porca marinha. Imagem retirada da obra
PARÉ, Ambroise, -On Monsters and Marvels. Chicago: The University of
Chicago Press, LTD, 1982, página 115.

Fig. 5 Ambroise Paré, Figura de um monstro com duas cabeças, uma feminina e
outra masculina. Imagem retirada da obra PARÉ, Ambroise, -On Monsters
and Marvels. Chicago: The University of Chicago Press, LTD, 1982,
página19.

Fig. 6 Imagem pertencente a Ambroise Paré e aos seus estudos referentes à


temática dos nascimentos monstruosos. Imagem retirada do Website “The
Engines of Our Ingenuity”. Disponível em: <URL
http://www.uh.edu/engines/epi603.htm>.

Fig. 7 Ambroise Paré, Figura de um porco com cabeça, mãos e pés de um homem
sendo o restante de porco. Imagem retirada da obra PARÉ, Ambroise, -On
Monsters and Marvels. Chicago: The University of Chicago Press, LTD,
1982, página 70.

III
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Fig. 8 Ambroise Paré, Figura de uma criança monstruosa, proveniente da falta de


sémen em quantidades apropriadas. Imagem retirada da obra PARÉ,
Ambroise, -On Monsters and Marvels. Chicago: The University of Chicago
Press, LTD, 1982, página 35.

Fig. 9 Ambroise Paré, Figura de um cavalo-marinho. Imagem retirada da obra


PARÉ, Ambroise, -On Monsters and Marvels. Chicago: The University of
Chicago Press, LTD, 1982, página 113.

Fig. 10 Hartmann Schedel (1440-1514), ilustração da Crónica de Nuremberga


representando uma criatura com quatro-olhos. Imagem retirada do Website
“ Creativity and Healing Kalima”. Disponível em: <URL
http://creativityandhealing-kalina.blogspot.pt/2013/01/legendary-creature-
bestiary-and-bizzare.html>.

Fig. 11 Hartmann Schedell, Ciápode. Imagem retirada da obra KAPPLER,


Claude,- Monstruos, demonios y maravilhas: A Fines de la Edad Media.
Madrid: Akal Ediciones, 2004, p. 143.

Fig. 12 “ O Homem com cara de cão” (The Dog Faced Man) Poster de um Freak
Show Victoriano [s.d]. Imagem retirada do Website “Encyclopaedia
Britannica”. Disponível em: <URL
http://www.britannica.com/topic/sideshow>.

Fig. 13 Ted Beargeon, O Orc do universo Warhammer. Imagem retirada do


Website “ Polycount”. Disponível em: <URL
http://www.polycount.com/forum/showthread.php?t=115151&page=301>.

Fig. 14 Representação de uma Orc fêmea. Original da autora, ilustração tradicional


com tratamento digital, 2015.

Fig. 15 Representação de um Orc com trajes típicos de guerra. Original da autora,


ilustração tradicional com tratamento digital, 2015.

Fig. 16 Representação de um Orc com uma expressão tipicamente ameaçadora.


Original da autora, ilustração tradicional com tratamento digital, 2015.

IV
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Fig. 17 Leonardo da Vinci, Proportions of the Head, c. 1488-9. Imagem retirada do


Website “Drawings of Leonardo”. Disponível em: <URL
http://www.drawingsofleonardo.org/images/blue_head.jpg>.

Fig. 18 Pontos Antropométricos e cefalométricos da face e terços esqueléticos.


Imagem retirada da Tese de Doutoramento em Medicina Dentária (Cirurgia
Oral) de José de Paiva Boléo Tomé, Anomalias da classe III.

Fig. 19 Pontos cefalométricos. Original da autora, ilustração tradicional com


tratamento digital, 2015.

Fig. 20 Três situações de prognatismo. Imagem retirada da Tese de Doutoramento


em Medicina Dentária (Cirurgia Oral) de José de Paiva Boléo Tomé,
Anomalias da classe III.

Fig. 21 Representação do crânio do Orc, visto de frente (A) e visto de perfil (B).
Original da autora, ilustração digital, 2014.

Fig. 22 Representação do tegumento comum de um Orc, visto de frente (A) e visto


de perfil (B).Original da autora, ilustração digital, 2015.

Fig. 23 Representação de um crânio de Chimpanzé. Original da autora, ilustração


tradicional com tratamento digital, 2015.

Fig. 24 Tegumento comum do corpo de um Orc. Original da autora, ilustração


tradicional com tratamento digital, 2015.

Fig. 25 Aniballe Carracci, O Ciclope Polifemo. Fresco,1605.Palazzo Farnese.


Imagem retirada do Website “ Theoi.Com”. Disponível em: <URL
http://www.theoi.com/Gigante/GigantePolyphemos.html>.

Fig. 26 Crânio de elefante visto de frente. Original da autora, ilustração tradicional


com tratamento digital, 2015.

Fig. 27 Representação da criatura ancestral da qual provém o Gronn. Original da


autora, ilustração digital, 2015.

Fig. 28 Gronn. Original da autora, ilustração digital, 2015.

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Fig. 29 Representação de um Ogron. Original da autora, ilustração digital, 2015.

Fig. 30 Representação de um Ogre. Original da autora, ilustração digital, 2015.

Fig. 31 Representação de um Ogre Magi. Original da autora, ilustração digital,


2015.

Fig. 32 Representação de um feto com ciclopia do tipo 1.Holoprosencefalia alobar.


Original da autora, ilustração tradicional com tratamento digital, 2015.

Fig. 33 Representação de um feto com ciclopia do tipo 3 ou 4. Holoprosencefalia


lobar. Original da autora, ilustração tradicional com tratamento digital,
2015.

Fig. 34 Representação de um feto com ciclopia do tipo 1. Holoprosencefalia


eventualmente semilobar. Original da autora, ilustração tradicional com
tratamento digital, 2015.

Fig. 35 Representação de um feto com ciclopia do tipo 1. Holoprosencefalia


eventualmente alobar ou semilobar. Original da autora, ilustração
tradicional com tratamento digital, 2015.

VI
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INTRODUÇÃO

Tal como o título desta dissertação nos indica, o tema aqui apresentado prende-se com o
universo dos monstros: analisando a sua génese histórica nos domínios dos mitos, da arte,
da ciência e da sociedade e tendo posteriormente, uma abordagem mais contemporânea
da aplicação dos monstros, como figura principal no universo audiovisual e nos
videojogos.

Sempre atual, o monstro apresenta constantemente uma aparência disforme que é sempre
um território fértil de analisar e comparar em termos científicos, através do estudo de
determinadas anomalias existentes. Desta forma, foram por isso escolhidos de entre tantos
possíveis, duas versões de criaturas do universo do conhecido videojogo World of
Warcraft, da empresa americana Blizzard: o Orc e o Ciclope, fazendo-se uma análise da
sua história, mitologia, surgimento e finalmente, uma análise cientifica das suas
características físicas, comparadas com anomalias presentes em humanos e animais,
acompanhadas por diversas ilustrações realizadas pela autora.

Como foi mencionado, ambas as criaturas selecionadas possuem aspetos diversos


consoante os universos em que se encontram, no entanto, tendo em conta toda essa
diversidade e para evitar a dispersão que um tema como este têm tendência para causar,
optou-se por canalizar todo o desenvolvimento para as versões apresentadas no
mencionado videojogo de origem americana.

Assim, para além desta situação referida, a escolha desta versão para uma análise mais
detalhada assenta em duas razões. A primeira por questões sociais: este videojogo é um
fenómeno mundial de popularidade, pois o jogo foi lançado a 23 de novembro de 2004 e
chegou a ter mais de 12 milhões de subscritores1 ativos e passados quase dez anos após o
seu lançamento, contínua com 7,6 milhões de subscritores2 e a segunda devido ao facto
da versão adotada ser a que mais se presta a este tipo de análise comparativa.

1
Os subscritores são jogadores que se registam para jogar. Neste tipo concreto de jogo é necessário pagar
uma mensalidade.
2
Estes dados foram confirmados através do website Statista. com.

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Inicialmente, estas criaturas fantásticas surgiram como uma forma de identificação de


uma cultura, numa época onde o medo pelo desconhecido se tornava capaz de realizar as
mais fantásticas criações tão características da Idade Média Ocidental. Por ser um assunto
tão interessante e curioso, nunca “caiu em esquecimento”, tendo atravessado séculos, sem
se alterar significativamente.

Após o Renascimento, a visão do monstro alterou-se, deixando de ser encarado apenas


como uma “temível fera” para passar a receber um olhar mais atento do ponto de vista
científico. Com o avançar dos séculos passará também a ser visto como um divertimento,
deixando para trás todas as conotações exclusivamente negativas que acarretava.

Numa segunda fase, como já foi indicado, far-se-á uma análise de duas criaturas do
universo do World of Warcraft: o Orc e o Ciclope.

No caso da primeira criatura, veremos que é bastante divulgada nos universos ficcionais,
tais como o universo de Tolkien, conhecido pela sua saga literária, (e posteriormente
cinematográfica), Senhor dos Anéis e Hobbit, e ainda, nos universos dos videojogos e
jogos de tabuleiro. Será contextualizado de acordo com a sua origem, (como surgiu e em
que universos é mencionado) e posteriormente é feita uma descrição acima de tudo física
da personagem de acordo com os universos onde se encontra.

O Orc é posteriormente analisado de um ponto de vista mais científico. De acordo com


os seus traços físicos, (em destaque na sua versão no videojogo selecionado), onde
constataremos que apresenta um exagero do tamanho mandibular considerável, o que na
realidade se assemelha a uma anomalia do desenvolvimento esquelético oro-facial
denominada de prognatismo, bem como proporções alteradas no corpo, cujo aspeto se
poderá associar a acromegalia ou ao gigantismo. Desta forma, serão também feitas
algumas considerações acerca destas deformidades reais, (como surge, quais as causas,
entre outras), aplicadas à criatura descrita.

O caso do Ciclope é analisado conforme os mesmos parâmetros do Orc, alterando-se


apenas a sua proveniência (dando um especial enfoque à sua forte marca mitológica, nas
obras Teogonia, Odisseia, entre outras, relatando os acontecimentos com o célebre

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ciclope Polifemo) e também a sua comparação relativamente a uma anomalia crânio


encefálica denominada de ciclopia.

A) OBJECTIVO

O objetivo desta dissertação é dar a conhecer a importância permanente dos monstros na


nossa sociedade Ocidental, desde o período Clássico até à atualidade, passando pelo medo
inicial até ao interesse atual de todas as faixas etárias. Valorizar a importância dos
monstros na indústria dos videojogos que é cada vez mais, uma potência económica em
crescendo, tendo como exemplo a empresa americana Blizzard, com o mencionado
videojogo World of Warcraft.

B) METODOLOGIA

Como metodologia foi escolhida numa primeira etapa de desenvolvimento fazer-se uma
abordagem histórica dos monstros, (como surgiram e em que épocas), tentando
compreender como despontaram estas criaturas fantásticas, sob que pretextos, e ainda
compreender como é que esta temática se disseminou para outras áreas tais como a
literatura ficcional, a arte, a ciência e também o lazer.

Numa segunda fase analisar-se-á estas personagens fictícias, do ponto de vista anatómico
e científico, justificando a sua aparência por analogia a um universo de anomalias e
malformações, (que existem não só no ser humano como também em outros seres vivos,
tais como os símios, aqui abordados como termo de comparação), sustentadas não só por
conversas com jogadores veteranos (o que ajudou a uma maior compreensão sobre o
universo do videojogo em questão) como também por ilustrações que clarifiquem toda
esta análise.

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CAPÍTULO I

UMA BREVE HISTÓRIA


SOBRE OS MONSTROS

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1. As origens dos monstros e a sua divulgação no mundo Ocidental

No período clássico, o povo grego enalteceu os monstros na sua mitologia, bem como o
medo que despoletavam, porém, também os pensaram através da imaginação, inventando
raças monstruosas e animalescas que supostamente viveriam a grande distância, no
Oriente, mais concretamente na Índia. Os gregos foram portanto um dos povos
responsáveis pela ideologia ocidental e da “aparência” que a Índia teria.

No início do século IV a.C. foi criado um estudo especial sobre a Índia publicado por
Ctesias de Knidos (400 a.C.), médico da corte de Artaxerxes Mnemom da Pérsia. Graças
a esta obra, a Índia foi conotada como “Terra das maravilhas”, pois Ctésias recolheu
algumas histórias fabulosas desde o tempo de Homero, acrescentando também o seu
contributo: descreveu serpentes com asas de morcego, escorpiões alados de tamanho
extraordinário, pessoas cujos calcanhares estão virados para frente, com os dedos e dorso
dos pés virados para trás, homens sem boca que viviam do olfato, pessoas com orelhas
de cão, com um olho apenas na testa e ainda os hiperborianos, que conseguem viver mil
anos.

O médico povoou a “Terra das maravilhas” também com pigmeus, (que lutavam com
garças), ciápodes, (um povo que tinha apenas um pé e uma perna muito largos, o que lhes
permitia não só deslocarem-se de forma extremamente rápida, como também utilizar o
seu enorme pé para a proteção dos raios solares), cinocéfalos, (homens com cabeça de
animais, nomeadamente de cães, que ladravam em vez de falar), pessoas sem cabeça, que
tinham o rosto entre os ombros, entre outras criaturas fantásticas. Relatava ainda que em
determinadas partes da Índia3 existiam gigantes e noutras zonas, homens com caudas
enormes, como as dos sátiros.

3
Muitas das criaturas relacionadas com o monstruoso provém do Oriente, mais concretamente da Ásia,
precisamente pelo facto de ser praticamente desconhecida e por isso, despoletar um enorme fascínio. De
acordo com o pensamento clássico e medieval, e por ser misteriosa, distante, e, por conseguinte também
por ser caracterizada por uma cultura diferente, a Ásia representava o cenário ideal para as mais variadas
lendas.

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Fig. 1. Sebastian Münster, “Illustrations of monstrous humans from Cosmographia”, xilogravura, 1544.
Esta ilustração representa diversas criaturas “monstruosas”. Da direita para a esquerda: ciápode, ciclope,
gémeos siameses, indivíduo com a cara entre os ombros (em inglês denomina-se “blemmye” e não possui
tradução para português) e cinocéfalo.

Todas estas crenças deram então origem a uma vasta tradição literária4 e um dos seus
iniciadores foi Hecataios de Mileto, atravessado os textos de Ctésias e ainda a obra de
Mégasteno (cerca de 290 A.C), geógrafo, cujo relato se manteve indisputado durante 1500
anos. Por sua vez, estes citaram compilações de outros autores tais como Homero,
Heródoto, Plínio, Estrabão, Solinus e Diadoro da Sícilia, fabricando-se uma panóplia de
imagens relativas a seres que habitavam quase exclusivamente o Extremo Oriente, mais
concretamente a Índia5.

4
Na obra clássica Metamorfoses de Ovídio existe também um importante contributo relativamente à
mitologia grega, tal como o nome indica, são descritas bastantes personagens que se transformam em
diversos elementos (homens que se transformam em rios, flores, rochas, deuses que se transformam em
pássaros, ninfas em sons, entre outros.). Nesta obra, os deuses transformam os homens para que possam
provar a sua superioridade perante mortais e eles próprios de forma a realizarem os seus desejos e sonhos.
Existem diversas variações de transformações quer em mamíferos, aves, plantas, pedras, criando-se assim,
os chamados híbridos.
5
A religião hindu é particularmente rica em criaturas hibridas, tendo como exemplo o deus Ganesh (ou
Ganesha) o senhor dos começos e do conhecimento, que é representado com quatro braços e cabeça de
elefante e o deus Brahma, criador do universo, que também é representado com quatro braços, quatro
cabeças e pele vermelha.

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Mas, como era impossível realizar uma expansão geográfico-etnológica, (que permitiria
um maior conhecimento sobre estes temas), esta situação fez com que os autores clássicos
se limitassem a transcrever de forma fiel, os clássicos relatos sobre a Índia. O que fez com
que o conhecimento helenístico e romano se baseasse principalmente nas obras de Ctésias
e Megásteno.

No Ocidente medieval acreditava-se que existiam raças residentes nos confins da terra,
(sendo esta povoada por cristãos e pagãos), que se desconhecia serem humanas ou
animalescas, estas criaturas eram denominadas de raças fabulosas do Oriente.

Durante os séculos VII e X dá-se uma viragem das preferências estéticas e intelectuais,
nos domínios da Hispânia, Ilhas Britânicas e Itália. A Europa vive assim os “séculos
obscuros” em termos de estilo, que de acordo com Umberto Eco se denomina estética
hespérica. Nesta época, ocorre também o declínio da agricultura, êxodo das cidades,
queda das construções romanas tais como aquedutos e estradas. Em suma, vive-se um
clima atribulado onde os monges, poetas e miniaturistas representam o mundo como uma
selva escura habitada por monstros e atravessada por caminhos labirínticos. Nesta época
o que se apreciava era o gigantesco e o desmedido.

Assim, até ao século XVI as alterações sofridas não foram muito significativas, apenas se
procederam a pequenas mudanças, representativas do espírito de cada época. Os relatos
exerciam um poder inebriante e sedutor, conquistando os cartógrafos, viajantes místicos
e verdadeiros, (tais como Marco Polo), moralistas e religiosos, (tais como Santo
Agostinho). Assim, neste rol de povos e raças atrás referidos, estavam registados
testemunhos de viajantes que alegadamente, avistaram esses seres estranhos, como os já
descritos ciápodes, pigmeus, ou ainda outras espécies hibridas descritas por Ctésias.

Estes testemunhos pareciam credíveis, talvez porque enquanto imagens, os monstros


apresentavam uma estabilidade justificada pelas crenças e representações que dizem
respeito a múltiplos domínios do conhecimento, tais como a cosmografia, geografia,
teologia e mitologia: “Pertencem ao mundo pensado como «mundo fechado», onde a

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questão do infinito ainda não havia irrompido, produzindo a partir da sua presença, a ideia
de um Cosmos sem centro e sem margens”6.

1.1 Literatura sobre monstros- folhetos de cordel, bestiários e narrativas de


viagens

No Ocidente medieval a literatura, os folhetos de cordel, as canções de gesta e as


narrativas das romarias, descrevem monstros, demónios, fadas e para além desta área
frequentemente marcada por sinais de cariz religioso é fértil o espaço mágico das figuras
fantásticas. Na literatura de cordel, as expressões linguísticas refletiam habitualmente a
consciência coletiva de um grupo ou de uma sociedade numa determinada época, expondo
os interesses da população. Mantinham muitas das características do discurso oral,
prevalecendo igualmente o anonimato nos textos.

No que diz respeito ao desenvolvimento temático existia uma predileção pela narração
concreta dos acontecimentos que ilustravam uma determinada ocorrência, sendo comum
a frequência de redundâncias, estereótipos e repetições que pretendiam reforçar a
afirmação da veracidade das informações narradas, bem como a bestialidade das criaturas
e consequente malvadez.

6
Tucherman, Ieda (1999) Breve História do Corpo e de seus Monstros. Lisboa: Veja, p. 110.

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M. Inês Garcia

Monstros: A ciência do mito e a sua utilidade nos videojogos


Faculdade Belas-Artes de Lisboa: Mestrado em Anatomia Artística- Especialização em Ilustração Científica. 2015

Os “folhetos de cordel”7 na maioria das situações fantasiavam acontecimentos


excecionais repletos de factos insólitos e cruéis. Por incorporarem receios e desejos
frequentemente contraditórios, apelavam constantemente a uma reflexão dos limites da
“normalidade”, o que consequentemente levava ao questionamento do Homem num
universo incógnito. Nos combates entre homens e monstros, os medos dos indivíduos
eram personificados nos monstros, este medo tornava-se real e podia ser combatido e
vencido através da inteligência ou da força. Desta forma o Homem adquire a sua
supremacia no mundo, asseverando a superioridade da sua espécie.

De acordo com a autora Ana Margarida Ramos, os monstros destes folhetos são em
síntese os “nossos” monstros do quotidiano, através de uma tradição cultural antiga que
frequentemente associa a estes acontecimentos as dificuldades que o herói tem que
enfrentar e vencer para reclamar a glória e imortalidade. Mas o convívio prolongado com
o monstruoso poderá apresentar consequências, na medida em que o mesmo se torna
familiar. Para isso, os narradores dos vários textos insistem repetidamente na sua
descrição e credibilidade, pois cada vez se torna uma tarefa mais árdua assustar os
homens, porque a realidade tende a ultrapassar a ficção8.

Contudo, ainda não foi descoberto qual a forma de introdução reciproca entre a cultura
profana e a mitologia religiosa. Sabe-se no entanto que a primeira foi fortemente
influenciada pela segunda. No plano da cultura elitista da Idade Média originaram-se
canções de gesta e bestiários como obras não sagradas.

7
Os folhetos de cordel ou literatura de cordel é um género literário popular por volta do século XVIII que
tinha origem em relatos orais e posteriormente era impresso em folhetos, com recurso a ilustrações por
método de xilogravura. O nome tem origem na forma como os folhetos eram tradicionalmente expostos
para venda: pendurados em cordas, cordéis ou barbantes. As temáticas eram variadas: desde acontecimentos
históricos (guerras, naufrágios, morte de reis), a relatos que descrevem fenómenos naturais (cometas,
inundações, tempestades, erupções vulcânicas, etc.), a milagres e vidas de personagens célebres (santos,
reis, criminosos, heróis) e ainda relatos que davam conta do surgimento de monstros ou seres estranhos,
entre outros. Estes documentos tinham como principal objetivo proporcionar entretenimento e fornecer
informação ao leitor sobre os mais diversos assuntos e temas. É ainda de sublinhar o cariz depreciativo que
este género encerrava pois era aplicado a obras de qualidade literária questionável ou inexistente.
8
Ramos, Ana Margarida (2008) Os Monstros na Literatura de Cordel Portuguesa do século XVIII. Lisboa:
Edições Colibri: Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, p. 130.

9
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Os bestiários9 são atualmente pouco conhecidos, mas exerceram elevado domínio na


história da cultura ocidental, na iconografia religiosa e profana, no imaginário popular,
na heráldica, na arte moderna e na literatura. Gabriel Bianciotto10 refere-se aos bestiários
guardados ao longo dos tempos, como “súmulas do saber”, referente a animais. Para este
estudioso, os bestiários medievais possuem uma função didática, pois as descrições dos
animais funcionam como um conjunto muito amplo de significações simbólicas usadas
para que o homem compreenda o seu destino e acima de tudo a grandeza do poder divino.

9
Os bestiários são tratados em prosa ou em verso que remontam à época clássica greco-latina e com grande
sucesso na época medieval. Desenvolveram-se mais especificamente em Inglaterra e também em França.
Nestes tratados eram descritas características físicas e costumes dos animais (verdadeiros ou fantásticos),
sendo posteriormente atribuídos diversos significados alegóricos ou morais. Podem também ser
considerados como importantes tentativas científicas de catalogação dos diferentes tipos de espécies
animais. De acordo com a autora Angélica Varandas do Instituto de Estudos Medievais da Universidade
Nova de Lisboa refere no seu artigo “ A Idade Média e o Bestiário”, o bestiário «organiza-se em torno de
pequenas narrativas que descrevem várias espécies animais, com propósitos morais e didácticos. Neste
sentido, cada uma dessas narrativas é composta por duas partes distintas: uma parte descritiva de sentido
literal (a descrição, proprietas ou naturas) e a sua moralização e interpretação teológica de sentido
simbólico-alegórico (também designada como moralização, moralitas ou figuras)».
10
Cit. Por, Ramos, Ana Margarida (2008) Os Monstros na Literatura de Cordel Portuguesa do século
XVIII,p. 106.

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Fig. 2. Ambroise Paré, Figura de um leão-marinho coberto de escamas.

De acordo com a opinião de A. M. Ramos, os folhetos de cordel comprovam que o tipo


de lógica que sustenta os bestiários não se dissolve no Renascimento, sendo perpetuado
com recurso a outras formas e géneros literários, mantendo-se ativo durante vários
séculos11.

Os monstros surgem igualmente associados a terras distantes e desconhecidas, adotando


a forma de povos ou raças monstruosas. E, como defende A. M. Ramos: “ a conotação do
«distante» como lugar habitado por monstros pressupõe também a oposição com o «aqui»
como local de seres normais, estabelecendo limites geográficos e psicológicos para a
existência da monstruosidade”12.

Por conseguinte é inevitável a associação do monstro à viagem, devido à carga simbólica


que contém, a viagem está intrinsecamente ligada a uma procura. E de acordo com
Chevalier e Gheerbrandt, o conceito de viagem é compreendido como uma procura da
verdade com fins espirituais. Assim, o desejo de viajar exprime mais a vontade de
mudança interior, (relativa à insatisfação), do que a deslocação espacial.

É frequente a narrativa de viagem ter uma ligação com a novidade, que desempenha um
papel de destaque e ainda possuir um gosto por relatos que ultrapassam a realidade vivida.

11
Ibidem, p. 107.
12
Ibidem, p. 112.

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Deste modo, a viagem serve o maravilhoso, pois pressupõe uma partida para o
desconhecido e para a aventura e é esta via que potencializa a via para o maravilhoso.

Fig. 3. Albrecht Dürer, Rhinoceros, 1515 13.

13
Esta gravura é um ícone de um dos fenómenos mais célebres de produção e difusão do mito: um exemplo
que sintetiza o fascínio pelo monstruoso exótico e a curiosidade científica, proporcionando à ilustração um
impacto cultural descrito em relatos, cuja transmissão acarreta as mais variadas lendas, ou seja um
verdadeiro elemento de bestiário. Para a elaboração da imagem, Dürer não viu o animal in loco e orientou-
se por relatos epistolares, fontes literárias (alegoria do rinoceronte) e imaginação começando por produzir
um desenho (atualmente no British Museum) e de seguida, a célebre gravura. Curiosamente, uma vez que
não tinha referências reais, o modelo da tartaruga ajudou-o a transformar em couraça a pele do animal, para
assim, imprimir a expressão e perceção documental enfatizando o pseudo naturalismo científico da imagem,
criando assim um híbrido entre fantasia e naturalismo cientifico, típico de uma expressão renascentista.
Para além de todas as lendas e alegorias associadas, o rinoceronte é ainda associado a um animal mítico
célebre no imaginário medieval e renascentista: o unicórnio. Em termos históricos, a chegada do animal a
Lisboa causou polémica e curiosidade não só em Portugal como no resto da Europa, devido ao aspeto
exótico do rinoceronte. Era um animal enorme com uma pele espessa e rugosa que formava três grandes
pregas que lhe conferiam a aparência de uma armadura. Em 1515, o rei D. Manuel I, decidido a obter o
apoio do Papa Leão X na sequência dos crescentes sucessos dos navegadores portugueses no Oriente e
também com o interesse de consolidar o “Prestigio internacional do reino” ofereceu o rinoceronte que partiu
numa nau de Lisboa. Porém ao largo de Génova surgiu uma violenta tempestade que afundou a nau e
consequentemente, a morte de toda a tripulação incluindo o rinoceronte, preso por amarras. Foi possível
recuperar o corpo do animal e, D. Manuel I ao saber da notícia mandou naturalizar (empalhar) o animal e
enviar novamente para o Papa, que infelizmente, não teve tanto sucesso como seria de esperar. Para mais
informações consultar o website TORRE DE BELÉM, artigo O Rinoceronte e ainda a monografia Rhinos
are Coming simultaneous exhibitions of printmaking & printmaking instalation, Brazil, Poland, Portugal
& South Africa editada pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, com a coordenação do Professor José
Quaresma.

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Paralelamente, o monstro também está relacionado com o desejo de conhecimento acerca


do universo e dele próprio, pois a sua condição está ligada ao mistério. Mas no caso da
literatura de viagens14, o encontro com monstros surge para reforçar a autenticidade do
relato, havendo duas estratégias utilizadas: “ou é narrado o encontro com o monstro ou,
no caso de tal não acontecer, a narração incide no encontro do narrador com testemunhas
fiáveis que essas sim, tiveram contactos com seres monstruosos”15. São também comuns
as alusões à objetividade, credibilidade e veracidade da narração.

1.2 Preocupações cristãs acerca dos monstros e da sua existência

Segundo José Gil, os monstros existem para mostrar aquilo que nós, seres humanos,
poderíamos ser, os limites da nossa humanidade. Não são nem seres mitológicos, nem
santos, nem raças étnicas de infiéis que veneram deuses ilusórios. De acordo com as
crenças dos sarracenos16 na Idade Média, a perspetiva das raças monstruosas centrava-se
na representação dos seus corpos, (sendo que a questão da deformidade não contribuía
para a compreensão das suas práticas- a cabeça de animal de um cinocéfalo não explica
nada relativamente à sua sociedade, é apenas um traço comportamental) e esta visão era
absorvida pelo cristianismo da época17.

De acordo com Umberto Eco, o cristianismo procedeu a uma verdadeira redenção do


monstro, no entanto, esta temática das raças monstruosas era problemática em termos

14
Na óptica de A.M. Ramos, este tipo de textos tem uma classificação difícil. Pois situam-se numa fronteira
ténue entre o literário e o não literário e simultaneamente, refazem práticas narrativas ancestrais e
tradicionais, fixas no discurso oral.
15
Ibidem, p. 115.
16
A definição de Sarraceno era uma das designações equívocas que os cristãos da Idade Média tinham para
denominar os árabes ou os muçulmanos. O termo surgiu na Antiguidade e até ao século III d.C designava
uma tribo que habitava no Sinai (península do Sinai) ou, mais especificamente, as populações que viviam
em áreas de deserto na província romana da Arábia Pétrea (província fronteiriça do Império Romano) ou
na sua vizinhança, no noroeste da península arábica e norte do Sinai. As palavras “islão” e “muçulmano”
só foram introduzidas nas línguas europeias no século XVII. De acordo com o filósofo e antropólogo
Youssef Seddik (1943), «os homens não muçulmanos, que, durante séculos após o surgimento do Islão,
não tinham o direito de se nomear árabes, chamavam então a si próprios "sarracenos" ou "pagãos».
17
Gil, José (2006) Monstros. Trad. José Luís Luna. Lisboa: Relógio D’Água Editores, p. 28.

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teológicos. Existem na literatura referências alusivas a Santo Agostinho comprovando a


sua preocupação na discussão da existência de raças monstruosas, em suportar a unidade
da espécie humana e através dela, a salvação que deveria abraçar todos os homens.

Mas, Santo Agostinho parece adotar uma certa postura de ceticismo face à existência dos
monstros: “ não é necessário acreditar em todos estes géneros humanos que se diz
existirem”18. Esta afirmação parece estranha vinda de alguém disposto a acreditar em
factos insólitos e maravilhosos, mas de facto existem razões sólidas para a rejeição das
raças monstruosas e o santo subjuga sempre os acontecimentos de acordo com a
conveniência dos textos sagrados.

Não existem apenas preocupações de ordem teológica, mas também da ordem de uma
visão da realidade que se produz e para a qual Santo Agostinho contribui com a sua
vontade de absorver os saberes antigos, no conhecimento que o texto bíblico sugeria ao
mundo.

Como havia uma rejeição em acreditar na existência de povos fabulosos,


consequentemente era refutado o significado dos nascimentos monstruosos como
presságios. Destas duas negações nasce a possibilidade de compreender os dois
fenómenos, mas modificados numa diferente circunstância, pois “ a razão que se dá para
o nascimento de humanos monstruosos entre nós, pode também explicar a
monstruosidade de certos povos”19.

O Santo declara a probabilidade da sua existência, retirando às raças monstruosas o


estatuto de realidade que possuíam na tradição clássica, demonstrando-as como
incompreensíveis, possíveis e ainda simultaneamente maravilhosas. Mas não é pela
incapacidade do homem em perceber o porquê da monstruosidade que ela deixa de existir
ou que não tenha sido desejada por Deus:

“Em todo o caso, o mesmo princípio que explica a geração de homens


monstruosos, também explica a dos povos monstruosos. Foi Deus quem criou
todos os seres. Ele sabe quando e como se deverá criar, porque conhece a
beleza do universo e a semelhança ou diversidade das suas partes. Sabemos
que nascem homens que têm mais de cinco dedos nas mãos e nos pés; trata-

18
Cit. Por, Gil, José (2006) Monstros, p. 29.
19
Cit. Por, Gil, José (2006) Monstros, p. 30.

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se de uma anomalia leve, mas não podemos ser tão tolos que pensemos que
Deus se enganou no número dos dedos, embora nos escape a razão do
fenómeno!”20.

Remata ainda o final com uma certa descrença: “Por isso, parece-me que o modo mais
cauteloso de resolver a questão é o seguinte: ou o que foi escrito acerca destes povos é
falso ou, se é verdadeiro, não se trata de homens; e se se trata de homens, provêm de
Adão”21. Assim, de acordo com o santo, a incompreensibilidade do nascimento
monstruoso, (que não é nenhuma repreensão divina), não tem uma relação com as raças
fabulosas ou seja, uma não explica a outra, mas confirma que a primeira tem uma razão
de ser, apesar não ser muito entendida.

Gil defende que existe um patamar de estranheza das formas corporais que define a
identidade humana. E em Santo Agostinho está presente a incerteza dogmática
relativamente à alma humana, sendo esta posta em dúvida pela monstruosidade de certas
raças. O santo refere que as “diferenças” dos monstros face aos humanos se encontram
no corpo normal, cristão, onde se instala a alma humana.

O Santo defendia ainda a beleza dos monstros por serem criados por Deus e
conjuntamente, esforçou-se para disciplinar a interpretação alegórica das Sagradas
Escrituras, lembrando ser necessário intuir um sentido espiritual para além do literal. Era
necessário possuir uma enciclopédia que informasse sobre o significado alegórico de
todas as coisas. Foi desta maneira que nasceram os bestiários moralizados, onde cada ser
real ou irreal se agrupava a um ensinamento moral.

20
Cit. Por, Eco, Humberto (2007) História do Feio, p.114.
21
Ibidem, p. 114.

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Fig. 4. Ambroise Paré, Figura de uma porca marinha.

A alma aloja-se no corpo, e é do corpo que se deve tratar pois é nele que surgem as
anomalias, que podem ser perigosas por contaminar o homem, (torná-lo animal, misturar
os géneros, etc.), e ao contaminá-lo podem corromper a alma, correndo o risco de se
extinguir. Assim, deve diminuir-se a aberração corporal e consentir que os monstros
disfrutem do estatuto de mirabilia22 da Natureza. A Natureza na Idade Média é dividida
em dois espaços diferentes, o da ordem sagrada ou profana e o do maravilhoso,
desconhecido e inesperado.

Desde o início que o mundo cristão utilizou os monstros como forma de definir a
divindade. Segundo Dionísio Areopagita:

“ A natureza de Deus é inefável e nenhuma metáfora, por mais poeticamente


fulgurante que seja, pode falar dela, (…) só é possível falar de Deus por
negação, não dizendo o que é, mas sim o que não é, ou seja, nomeá-lo através
de imagens altamente dissemelhantes, como as de animais e seres
monstruosos”23.

22
Mirabilia ou maravilha englobam acontecimentos mais ou menos estranhos a descrições invulgares.
Geralmente encontram-se nos roteiros ou crónicas de viagens e peregrinações ao Oriente.
23
Cit. Por, Eco, Humberto (2007) História do Feio, p. 125.

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Por conseguinte, e apesar de acusar algum ceticismo, Santo Agostinho atribui aos
monstros um estatuto próximo de mirabilia, proporcionando a oportunidade de serem
integrados no cristianismo. Ao semear a dúvida acerca das raças monstruosas, e
simultaneamente aceitando-as mediante determinadas circunstâncias, Agostinho liberta-
as da objetividade que possuíam deste a tradição greco-latina, tornando-as apetecíveis
para interpretações do ponto de vista simbólico.

As raças fabulosas pertencem a um outro tempo que foge à época cristã: no caso das
raças fabulosas do Oriente existe uma composição de três tipos de questões que se
interrelacionam: o conceito de Natureza e do espaço, a ideia de tempo, a visão, o corpo e
a alma do homem. Assim, o fator insólito destas raças aparece como um agente de
transformação, marcando a diferença entre sistema atual e anterior.

Todavia, José Gil questiona o aparato em torno das raças e não dos nascimentos
monstruosos, justificando essa decisão através da própria definição do homem enquanto
espécie natural criada por Deus, não se tratando somente de um acontecimento
contingente, como sendo supostamente a existência dos monstros individuais.

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CAPÍTULO II
ANOMALIAS
E
MUTAÇÕES

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2. O corpo monstruoso: teorias para o seu surgimento

“ Os monstros não são o trabalho de Deus imediato, mas da Natureza”24.

A especulação sobre a origem dos monstros no que diz respeito à ciência, sempre foi um
assunto interessante. As literaturas sobre monstros foram ao longo dos tempos, e com
especial enfoque na Idade Média, um enorme sucesso comercial, atingindo uma maior
fama com o aparecimento da imprensa. Os folhetos sobre monstros eram vendidos em
qualquer lugar e “monstros reais” eram exibidos diante de multidões sequiosas em feiras
nas cidades, no campo e até nos palácios de reis e nobres.

Este “fascínio mórbido” não tinha limites e o conceito de “monstro” permaneceu vago
durante muito tempo. Para além dos espetáculos de feiras, foi florescendo um interesse
crescente em termos científicos para a justificação da origem de tais estranhas formas de
vida. Acumularam-se diversos estudos sobre estas criaturas extraordinárias desde a
Renascença até à Revolução Científica, originando um número ilimitado de debates
académicos consecutivos ao longo dos anos.

Como é sabido, os monstros desafiavam não só a inteligibilidade da Natureza como


também os desígnios do Criador, mas a questão da origem dos monstros mantinha-se por
responder. Questões como a proveniência dos monstros, características físicas ou meros
acidentes naturais eram inquietantes para as entidades científicas e teológicas da época.
É de sublinhar que a causa para o surgimento dos monstros estava muito aquém das
capacidades de explicação de qualquer cientista do século XVIII, no entanto essa
impossibilidade não foi impeditiva para que surgissem diversas teorias ao longo dos
tempos, algumas mais elaboradas do que outras.

24
Correia, Clara Pinto (2003) Os Monstros de Deus: A Humanidade e as suas lendas: do espermatozoide
ao verme. Trad. Cristiana Vieira.Vila Nova de Famalicão: Quasi, p.40.

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Fig. 5. Ambroise Paré, Figura de um monstro com duas cabeças, uma feminina e outra masculina.

2.1 Os Primórdios da obscura origem: Idade Média

“ (…) De vez em quando, Deus diverte-se a enviar um monstro- se não for para
mais nada, será apenas para nos lembrar do Seu poder absoluto e da Sua
vigilância constante do nosso comportamento”25.

Durante um longo período, a explicação para o fenómeno da reprodução baseou-se


maioritariamente nas propostas de Aristóteles no século II a.C. Aristóteles defendia que
no interior do útero feminino existia um coágulo de sangue «inerte e amorfo», incapaz de
«organização ou animação internas», mas que estava destinado a “fornecer a matéria-
prima para a escultura da progenia quando fosse acordado, exactamente como no beijo
que o príncipe dá à Bela-Adormecida, pela chegada do sémen ao útero depois da
cópula”26”. O filósofo Aristóteles chegou ainda a igualar o sémen à alma, pois nem havia

25
Cit. Por, Correia, Clara Pinto (2003) Os Monstros de Deus,p. 57.
26
Correia, Clara Pinto (2014) A Hipótese da Boneca Russa: A Revolução Científica e o Primeiro Conceito
de Genética. In: Incomunidade, Porto: Ed. 27 Out. 2014. [Consult. 22 Nov.2014]. Disponível em: WWW:
<URL http://www.incomunidade.com/v27/art_bl.php?art=10>.

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necessidade de existir contacto físico com o «coágulo» materno e a contribuição paterna


para que se desenvolvesse a reprodução embrionária: “seria antes um espírito emanado
do sémen, a essência que desde então passou a ser descrita como a aura seminal, que
animava o coágulo de vida, começava a modelá-lo para vir a formar um feto, e lhe
conferia as características da espécie a que pertencia.”27

De acordo com o filósofo José Gil, no que diz respeito à conceção que a Idade Média tem
da teratologia28 existem dois aspetos distintos: um que remete para os nascimentos
monstruosos, encarados como presságios, portenta, e o outro que se confina à aceitação
da existência de raças fabulosas nos confins da terra29. Estas duas crenças30 não se
misturam e desvinculam questões no âmbito da existência dos monstros e na indagação
se estes serão realmente presságios.

Porém, a autora Ieda Tucherman defende que os monstros não podem ser pensados dessa
forma, pois o presságio tem uma temporalidade própria e efémera que existe apenas
durante o tempo de transmissão da sua mensagem.

Gil distingue ainda os povos fabulosos das imagens fantásticas que frequentemente são
identificadas como figuras mitológicas de animais monstruosos consequentes da junção
de várias espécies, tais como os centauros. O monstro apresenta por isso, características
fora do contexto, sendo considerado como um paradigma real/irreal.

Ao serem avistados, constituem sem sombra de dúvida, novidade e admiração, mas o


facto de serem observados raramente fornece aos monstros a capacidade de se tornarem
sinais extraordinários e o ato de observação chocante constitui um laço de comunicação

27
Idem.
28
A teratologia, (do grego teratos que significa “monstro” em junção com logos que significa “estudo”), é
o estudo dos processos biológicos referentes às causas para o desenvolvimento e nascimento anormal, ou
seja, é uma parte da medicina que estuda as malformações, neste contexto, os monstros.
29
Gil, José (2006) Op. Cit., p.27.
30
Vislumbra-se nos nascimentos o elo possível entre os portenta incarnados nos nascimentos monstruosos
e os povos orientais.

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social: existe uma profunda e inegável relação com o olhar. Este fascínio visual relaciona-
se com a superabundância de realidade que o monstro nos oferece ao olhar.

Assim, um monstro é sempre um excesso de presença que concilia os elementos de que é


composto, de tal forma que a sua imagem possui maior impacto do que uma imagem
vulgar. Contrariamente, quando existe a escassez de presença, como por exemplo a
inexistência de alguns elementos físicos, o monstro tem a vantagem de anular
completamente essa carência, sendo como exemplo o caso do monstro Ciclope que é visto
não como um ser ao qual falta um olho, mas sim um gigante que possui um olho na testa.

José Gil defende que as raças monstruosas não são figuras simbólicas de uma mitologia
definida, (seja ela cristã ou pagã), nem simples casos insólitos, pois quando as anomalias
são físicas a descrição assume um papel praticamente objetivo, como se o corpo
monstruoso anulasse a função simbolizante. Existe um exagero da realidade na ideia de
monstruosidade relativamente ao indivíduo comum, havendo uma diferença maior em
relação à raça monstruosa.

É então concebida uma realidade acrescida demonstrando que a sua “essência” provoca
um paradoxo. Assim, a sua recusa supõe a afirmação da essência oposta conduzindo a
uma asseguração da sua existência: “o «excedente» de realidade do monstro torna-se o
«excedente lógico» da sua impossibilidade empírica”31.

O conceito de criatura monstruosa é imaginável mas também contraditório devido à sua


irrealidade32, à sua impossibilidade perante a pura razão. Prosseguindo com o pensamento
de Gil, existe uma negação da sua essência contraditória, uma espécie de norma anormal
que necessita da existência do seu contrário, (uma raça humana não monstruosa), devido
ao excesso de realidade que se transforma em excesso de impossibilidade lógica da sua
existência33.

31
Gil, José (2006) Op. Cit., p 51.
32
De forma a clarificar esta afirmação, em termos anatómicos as monstruosidades são malformações
anatómicas incompatíveis com a vida. Tomando como exemplo os casos dos gémeos siameses, se as
alterações físicas apresentadas forem compatíveis com a vida estamos perante um caso de malformação. Se
não forem, e por isso resultem em nados-mortos configura-se a presença de uma monstruosidade. Desta
forma, em termos de ciência anatómica, os monstros são uma realidade desprovida de vida e traduzida pelos
humanos numa representação mental imortal, num universo imaginário.
33
Idem, Ibidem.

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Mas o filósofo vai mais longe defendendo ainda que o monstro nada simboliza em si
próprio, constituindo uma deformação física que integra um limite do simbólico e da
simbolização. Então, as raças fabulosas não são apenas simbólicas nem apenas reais, mas
conjuntamente simbólicas e reais, adquirindo uma função múltipla, que permite refletir
sobre a humanidade, permanecendo sempre anómala, conservando a dúvida referente a
essa mesma humanidade. O mundo monstruoso não é nem barbárie nem inferno e não
contesta nenhuma representação em particular, mas sim ao próprio mundo como palco de
habitação do homem racional e mortal.

Como já foi mencionado, o monstro perturbou os sentidos, (mais concretamente a visão),


e foi encarado como uma aberração, uma folia do corpo, sublinhando por oposição lógica,
a convicção na necessidade da existência da normalidade na fisionomia humana.

Na opinião de Ana Margarida Ramos, ainda na Idade Média, existem duas teses principais
para a ocorrência de nascimentos monstruosos: a diabólica e a naturalista. A primeira
atribui à progenitora a culpa pelo que sucedeu, como já foi descrito, acrescentando ainda
que a mãe teria praticado relações sexuais com o diabo sob algumas das suas formas. Na
segunda tese, existe uma diferenciação entre os diferentes tipos de monstruosidade, por
excesso ou defeito, que eram atribuídos a uma quantidade excessiva ou escassa de
esperma. Para além disto, também não eram excluídas as conjeturas de atos sexuais com
animais, quando o recém-nascido evidenciava similitudes com alguma espécie em
concreto34.

34
Ramos, Ana Margarida (2008) Op.Cit., p. 100.

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Fig. 6. Imagem pertencente a Ambroise Paré e aos seus estudos referentes à temática dos nascimentos
monstruosos. Aqui vemos retratado uma mulher grávida de múltiplas crianças.

Segundo Ambroise Paré, as causas para estas manifestações divinas têm que ver com a
ira de Deus. Estes prodígios são fruto da sua vontade para nos alertar dos infortúnios com
que somos ameaçados. Para este autor, existem treze causas para os nascimentos dos
monstros, sendo elas:

“A primeira é a glória de Deus. A segunda, a sua indignação. A terceira, uma


quantidade muito grande de sémen. A quarta, uma quantidade muito pequena.
A quinta, imaginação. A sexta, útero estreito ou pequeno. A sétima, a
impropriedade da maneira de sentar da mulher que, enquanto grávida,
permanece sentada por muito tempo com as pernas cruzadas ou pressionadas
contra o estômago. A oitava, por quedas ou golpes contra o estômago da mãe
durante a gravidez. A nona, por doença hereditária ou acidental. A décima,
por deterioração ou decomposição do sémen. A décima primeira, por mistura
ou mescla de sémen. A décima segunda, pelo ardil de mendigos errantes. A
décima terceira, por demónios ou diabos”35.

Paré concorda igualmente com a teoria de que os monstros têm origem nos apetites
excessivos das grávidas, (entre os quais o incesto e o canibalismo), pois é “uma coisa
brutal e obscena ter relações com uma mulher enquanto ela expia os seus pecados” e é do

35
Cit. Por. Tucherman, Ieda (1999) Breve História do Corpo e de seus Monstros, p. 117-118.

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conhecimento de todos, através do Julgamento de Deus, que “mulheres conspurcadas pelo


sangue menstrual irão conceber monstros”36.

Esta convicção teve origem em Hipócrates e prosseguiu até ao século XVIII. Defendia-
se também na época que uma anomalia física de um feto era causada pela leviandade
moral da progenitora. Para sublinhar esta conceção atente-se na afirmação de Pierre
Boaystuau:

“ Algumas crianças nascem tão extraordinárias e disformes que nem


parecem homens, mas monstros ou abominações; alguns nascem com duas
cabeças, quatro pernas […] Outros nascem cegos, outros surdos, outros
nascem débeis ou defeituosos dos membros, sentindo-se por isto triste os
amigos, culpadas as mães, envergonhados os pais: de modo que se
considerarmos atentamente todo o mistério da nossa natividade, depararemos
com o provérbio antigo que diz: Somos concebidos na imundice e fedor,
paridos com tristeza e dor, alimentados e educados com angústia e labor”37

Os corpos dos monstros eram também considerados como somas excitantes de partes
interessantes, uma espécie de «manta de retalhos». Estas somas de partes anatómicas
aberrantes eram fisiologicamente viáveis por estarem vivos o que comprovava o enorme
poder de Deus. Pois tal como afirma o anatomista francês du Verney “ a análise dos
monstros revela a riqueza dos Mecanismos do Criador…a regularidade da irregularidade
aparente”38.

36
Correia, Clara Pinto (2003) Op.Cit., p.58.
37
Ibidem, p. 118.
38
Correia, Clara Pinto (2003) Op.Cit., p.63.

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Fig. 7. Ambroise Paré, Figura de um porco com cabeça, mãos e pés de um homem sendo o restante de
porco.

Há ainda autores que consideram o aparecimento dos monstros como algo sobrenatural,
insólito existindo diversas interpretações face ao seu nascimento, tais como a
interpretação de Jean Céard que identificou a existência de três tradições na interpretação
do nascimento de monstros: a primeira defende a ocorrência de monstros e outros
fenómenos como tendo uma origem sobrenatural, sendo acompanhados por transgressão
moral e presságios de castigos divinos39. Pois a etimologia da palavra monstro aponta
nesse sentido: em latim monstrum advém da palavra monere que significa avisar. Esta
interpretação foi bastante utilizada como arma política e moral durante o período da
Reforma Protestante, tendo depois enfraquecido a partir dos finais do século XVII.

Para além desta interpretação, segundo José Gil, existe uma tendência em muitos autores
que associaram a etimologia da palavra “monstro” com monstrare, traduzindo-a por
“mostrar”, ou até por “indicar com o olhar”, que etimologicamente, “monstrare significa
muito menos «mostrar» um objecto do que «ensinar um determinado comportamento
(…)»”40.

Para Émile Benveniste, monstrum deve ser entendido como um conselho, um aviso dado
pelos deuses, sendo que estes se exprimem recorrendo a prodígios: uma advertência
divina que toma o aspeto de um objeto ou de um ser sobrenatural. Fortunio Liceti

39
Costa, Palmira Fontes da (2005) O Corpo Insólito: Dissertações sobre Monstros no Portugal do século
XVIII. Porto: Porto Editora, p. 3.
40
GIL, José (2006) Op. Cit., p.73.

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acreditava que os monstros são “sinais que pressagiam de algum modo coisas vindouras:
mas é por serem como são que a sua novidade e extravagância nos fazem considerá-los
com admiração, surpresa e espanto e cada um os mostra reciprocamente.”41

No entanto, para além da advertência divina, o monstro também é um sinal de


distanciamento com a natureza, ou seja, a hibridização compromete a humanidade do
homem, exercendo uma função didática: “tal como as imagens do diabo do século XII
deveriam encarnar o que deve ser temido e rejeitado, a existência dos monstros funciona
como um incentivo à “perseverança do ser”42.

Nesta relação de contemplação, o monstro apresenta-se como um irreal verdadeiro,


contendo um excesso de presença. As classificações das suas variadas anomalias
apresentaram sempre um carácter positivo pois justificam a criação de uma categoria de
figuras à parte, onde excesso e falta são sempre sinónimos de presença. Assim sendo, o
monstro transcende a representação, oferecendo ao olhar, mais do que já foi visto.

Este fenómeno característico dos monstros proporciona uma verdadeira vocação para a
representação. E novamente de acordo com o filósofo José Gil, existe na imagem
monstruosa uma maior realidade do objeto, com mais detalhes do que uma imagem
vulgar. Está-lhe inerente uma excedência absoluta de substância: o excesso de realidade
confere-lhe a certeza da sua existência e apesar da sua etimologia, o monstro mostra mais
do que aquilo que é visto.

Simultaneamente, o monstro é totalmente opaco e transparente. Ao observá-lo existe um


deslumbramento do olhar mas não existe qualquer possibilidade de captar conhecimento,
o seu corpo não revela nada que seja conhecido. Mas, ao mostrar a sua desfiguração,
habitualmente escondida, o monstro oferece um excesso visual do qual se alimenta,
exibindo-se. As diferenças entre um corpo excessivo e desfigurado e um corpo normal
passam na revelação do oculto, do visceral, mostrando-se como uma obscenidade
orgânica que ostenta sem se incomodar com o olhar do espectador.

41
Cit. Por, GIL, José (2006) Monstros, p. 74.
42
TUCHERMAN, Ieda (1999) Op. Cit., p. 109.

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E, ao mostrar o que deveria permanecer na penumbra, o corpo monstruoso consegue


transformar a alma num reverso do corpo, ou seja, um não-corpo, uma “alma feita de
carne, vísceras e órgãos”43.

2.2 Grandes Inovações: A Teoria da Preformação

No que diz respeito à área das Ciências Naturais, a Revolução Científica no século XVII
foi marcada com a introdução do microscópio como instrumento indispensável de
trabalho, para estudar o «mundo vivo». Após um período pouco assinalável de cerca de
cinquenta anos de estudo, as mentes e a tecnologia evoluíram de modo a possibilitar uma
disseminação de publicações inéditas, realizadas por naturalistas tais como o inglês
Robert Hooke, ou o italiano Marcello Malpighi, entre outros. Estes estudos causaram
grandes polémicas: não só um grande impacto religioso diante da comunidade letrada da
época como também um início de vias de trabalho sedutoras. Pois descobriu-se todo um
complexo universo a uma escala diminuta: este foi o mote para que os naturalistas se
libertassem de toda a opressão Aristotélica, mencionada anteriormente.

A teoria da Preformação é um termo utilizado para indicar uma conjetura de reprodução


que surgiu no século XVII e que depressa se determinou como o principal esquema
conceptual na justificação da origem dos seres vivos. Esta teoria transmitia que a
formação de todas as entidades vivas teria ocorrido através do ato original da criação
possuindo duas versões: a primeira defendia que os germes originais se encontravam
encapsulados no óvulo e a segunda que os germes originais se localizavam no
espermatozoide. Esta teoria requeria que todos os organismos e espécies de gerações
passadas e futuras teriam sido criados por Deus nos seis dias da Criação e posteriormente,
seriam encaixados uns nos outros em tamanhos gradualmente mais pequenos à
semelhança das bonecas russas44. Desta forma, a geração crescia a partir de uma miniatura
prévia, proveniente dos órgãos sexuais do progenitor.

43
GIL, José (2006) Op. Cit., p.79.
44
Em meados do século XVII, o padre cartesiano Nicolas Malebranche no seu tratado La Recherche de la
Vérité, a par das descobertas microscópicas da época e da Teoria da Preformação, defende que durante os

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Desta feita, os espermistas justificavam o nascimento das monstruosidades humanas


através de “guerras de espermatozoides45”. Sabiam que em cada ejaculação existiam
milhares de espermatozoides e com base nesta premissa, formularam uma tese em que
esses «homens miniatura» teriam que «lutar» uns contra os outros pelo lugar
ambicionado, ou seja dentro do óvulo, e se por ventura o vencedor fosse ferido durante a
batalha, o feto resultante transportaria as cicatrizes, ou seja, sinais de deformidade.

Fig. 8. Ambroise Paré, Figura de uma criança monstruosa, proveniente da falta de sémen em quantidades
apropriadas.

Foi nesta linha que o médico francês Nicolas Andry, um espermista convicto, justificou
o desenvolvimento de monstruosidades: “ Se ocorrerem tentativas simultâneas para entrar
no ovo, os vermes tornam-se enraivecidos e lutam entre si, partindo e deslocando os seus
membros e, consequentemente, dando origem a monstruosidades”46.

seis dias da Criação, Deus ao criar cada organismo de espécie animal ou vegetal, vai encaixando-os nos
seus órgãos genitais, em tamanhos mais ou menos diminutos, exatamente como numa boneca russa. Todos
os organismos das gerações posteriores que viveriam até à denominada «conflagração final», que assinaria
o fim do mundo, pois assim toda a vida destinada a existir à superfície da Terra seria criada de uma só vez,
num ato único. No nascimento, a criatura teria já os seus próprios órgãos sexuais e dentro deles estariam já
guardados os organismos das gerações seguintes e assim sucessivamente.
45
Curiosamente, o termo «espermatozoide» só foi criado no século XIX pelo Cientista Karl Ernst Van Baer
(1792- 1876).
46
Correia, Clara Pinto (2003) Op.Cit., p. 15.

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No entanto, esta teoria era dramaticamente imperfeita e a ideia de que Deus “permitia que
coisas pérfidas acontecessem” estava instalada. O sacerdote francês Nicolas Malebranche
defendia que os monstros eram fabricados pela imaginação materna durante a gravidez,
justificando que a mente materna incutia todo o tipo de informações no cérebro do feto
indispensáveis para a sobrevivência. Ainda seguindo a linha deste autor, a ocorrência
fortuita de nascimentos monstruosos resulta de Deus ter:

“ O objectivo mais admirável de produzir num trabalho vasto por meios


simples e relacionar todas as Suas criaturas umas com as outras”. Por
conseguinte, “Ele programou determinados efeitos que seguiram
necessariamente a ordem e a natureza das coisas, e o nascimento de
monstros não O desencorajava do Seu plano final. Porque, afinal, apesar
de um monstro na sua própria essência ser uma coisa imperfeita, quando
considerado com todas as outras criaturas, não torna o mundo
imperfeito”47.

No entanto, esta teoria sugeria uma visão estática do mundo, tornando problemática e
polémica a compreensão do aparecimento de novas formas no munto natural dos quais os
monstros eram o exemplo mais emblemático- os monstros eram de facto um desafio
epistémico à teoria.

A origem dos monstros era por isso um problema de justificação para a Preformação, pois
desta forma, os preformacionistas tinham que admitir que se os monstros eram formados
por acidentes, então existia lugar para que ocorressem acasos no complexo programa de
desenvolvimento divino. Mas, isto levanta uma questão pertinente: porque criaria Deus
organismos disformes, que na maioria viviam tão pouco tempo? Shirley Ann Roe no seu
livro “Matter life and Generation” vai mais longe questionando o porquê de Deus criar
pessoas cruelmente deformadas, se era, supostamente, uma entidade boa?48

47
Correia, Clara Pinto (2003) Op. Cit., p.46.
48
Cit. Por, Correia, Clara Pinto (2003) Os Monstros de Deus, p. 52.

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Muitos adeptos do performacionismo, para tentar colmatar este problema, defendiam a


existência de germes monstruosos também eles existentes desde o primeiro ato da criação.
Na opinião do anatomista francês Guichard Joseph Duverney, o corpo dos monstros cria
uma ordem:

“Os seres monstruosos devem então ser entendidos como “maravilhas da


natureza” que permitem reconhecer e atestar a inteligência suprema, a
fecundidade e a variedade da arte infinita do Criador, bem como a sua liberdade.
Este tinha já sido o entendimento de Santo Agostinho, para o qual os monstros
eram parte da maravilhosa variedade da criação de Deus”49.

Na mesma linha de pensamento de Duverney, o professor de medicina Jacques Winslow


defende a existência de uma refuncionalização das estruturas singulares em determinados
monstros, mais especificamente a aptidão do corpo para reorganizar os desvios criados.
Winslow defende que os monstros são estruturas fabulosas que honram o Criador,
contrariamente ao francês Louis Lémery que argumenta a incongruência de Deus face à
disfuncionalidade da sua criação.

O cientista Albrecht von Haller, (1708-1777), para além da sua obra multifacetada em
diversas áreas desde a ciência à literatura e filosofia, interessou-se também no problema
da origem dos monstros. Defendia que toda a construção de um corpo correspondia a uma
ideia singular do criador. Desta forma, o surgimento de monstros não se tratava de um
erro da natureza mas sim da capacidade de Deus para criar vários tipos de criaturas50.
Haller analisou diversos casos de monstros mencionados na literatura médica, acabando
por sistematizá-los de acordo com uma origem por germes monstruosos ou por causas
acidentais, sendo algumas delas:

“ I. O número frequente de casos de excesso, defeito ou transposição de partes


para os quais não podemos presumir, para as partes em excesso, que alguma
delas provém de um outro feto, ou nenhuma causa mórbida se apresenta como
mais provável para as partes em defeito, e onde a presença de determinados

49
Costa, Palmira Fontes da e Cardoso, Adelino (2010) Corpo, Poesia e Afecto em Albrecht von Haller.
Lisboa: Edições Colibri, p. 59.
50
Idem, p.66.

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sinais exclui toda a violência na transposição [nestes inclui, ente outros, os


casos de polidactilia e os órgãos genitais de hermafroditas]
II. O defeito que se encontra por vezes sem que haja presunção de qualquer
aplicação de violência.

III. Não é rara a transposição de partes para as quais nenhuma força externa
pode ser concebida como causa. Com alguma frequência, é todo o sistema das
vísceras que parece ter mudado de lugar em todo o corpo, de modo que as partes
direitas se encontram à esquerda.
IV. Encontram-se várias vezes as partes juntas através de uma arte que nenhum
acidente fortuito poderia explicar (…)
V. Não é raro que no feto apareçam partes novas que se desviam da fábrica
originária, as quais não podem ser criadas a partir da alteração de outras partes
ou de um acidente. Isto é testemunho de que estas estruturas existem desde o início
no feto, de modo que não resultaram de um acidente mas foram formadas pela
indústria do Criador. (…)
VII.(…) A estrutura interna dos monstros encontramos vários que respondem a
uma lei preestabelecida. Eles indicam manifestamente um fim e causas orientadas
em relação a este fim. 51

Tal como defendia Winslow, Haller concorda que algumas formações podem ser melhor
justificadas com recurso aos acidentes. A união é possível e é difícil de estabelecer os
limites onde terminam o poder das forças atuantes52 no feto. O cientista defende ainda o
desempenho dos monstros como instrumentos do conhecimento, sublinhando a evidência
de que o Iluminismo, a ciência e a religião ainda estavam intimamente interligadas.

Nesta época havia portanto, uma grande polémica em torno da origem dos monstros,
surgiam assim duas grandes hipóteses para existência de monstros reais: a existência de
germes monstruosos originais e/ou serem concebidos pelo Criador. Atualmente é fácil de
compreender que tudo isto era fruto da pouca compreensão anatómica e genética, mas no
século XVII havia maiores limitações. Lemery apontou precocemente ser essa a razão
para a incompreensão dos monstros: pois os limites do conhecimento anatómico da época
eram impeditivos para a compreensão.

51
Idem, p. 66-67.
52
A estas ditas “uniões” incluem-se as adesões de vísceras, fetos com ânus fechado ou uretra disfuncional,
fetos com a vagina sem abertura ou com o intestino reto fechado, fetos com dedos sem separações e ainda
fetos unidos pelo dorso.

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De acordo com Clara Pinto-Correia, a ideia generalizada de que os monstros eram um


dilema para a Preformação não pode ser atribuída aos historiadores da ciência ou
cientistas que estudaram os domínios da embriologia. Pois paulatinamente os erros foram
transmitidos sem que tivessem que ver com os debates da Revolução Cientifica, o
problema da Preformação foi precisamente a sua origem no Criador53. Após as primeiras
décadas de entusiasmo, esta teoria começou a decair por vários fatores, tais como a
incoerência científica, nenhuma das tentativas de justificação foi bem-sucedida pelo que
esta teoria caiu rapidamente em desuso.

2.3 Tipologias Monstruosas

A existência de raças que apresentam deformações ou malformações quer sejam reais ou


irreais, não são uma temática recente, pois provavelmente nasceram com a própria
humanidade. Em cada momento da história existem assuntos, explicações, origens, entre
outros, mas, esta área não é criativa no sentido em que existe uma repetição dos mesmos
temas, pois não existe uma diversidade infinita de formas.

O traço mais marcante na figura dos monstros imaginários é o seu aparecimento a partir
de hibridizações de espécies com diferentes naturezas. Tanto podem ter natureza divina e
humana como humana e animal. O conceito de corpo humano configura-se com uma
estrutura diferente, produzindo os monstros teratológicos ou fabulosos. Não é a simples
oposição que marca a diferença entre os homens e os monstros, mas sim um complexo
sistema de aproximação e distanciamento, de misturas e de hibridização. Desta forma, as
descrições dos monstros não são feitas a partir da carência dos elementos, mas do
cruzamento natural entre ambos, que observando através do “prisma antropológico,
representam o desregramento da cultura, como o contacto direto, sem as mediações rituais
e sacrificiais entre os homens e as divindades”54.

53
Correia, Clara Pinto (2003) Op. Cit., p. 51.
54
Tucherman, Ieda (1999) Op. Cit., p.100.

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Fig. 9. Ambroise Paré, Figura de um cavalo-marinho.

Por conseguinte, nem a divindade nem o animal são os limites do humano. O monstro
apresenta-se no limite do humano, interno e produtor de figuras estranhas que
questionamos serem humanas ou não.

Cada tipologia exibe uma forma de alteração específica relativamente à regra, seja por
aumento ou redução, adição ou subtração. Para além da questão anatómica, existem
outros aspetos a ter em conta tais como alterações alimentares, genéticas ou de habitat.
Contrariamente ao que se possa pensar, não existe uma grande diversidade de formas
monstruosas, e as várias classificações de monstros mostram muitas semelhanças entre
si.

Gil defende que as alterações se prendem com faltas essenciais, modificações dos órgãos
entre si, aumento ou redução, substituição de um elemento habitual por um insólito,
mistura de reinos, mistura ou dissociação dos sexos, hibridez e animalidade forte. Já
Claude Kappler relaciona o monstruoso com uma oposição relativamente à regra
considerando também a falta de algo essencial, alteração de órgãos entre si,
desproporcionalidade ou enormidade física, inserção de um elemento singular em vez de
um comum, fusão entre os diferentes reinos naturais, mistura ou separação de géneros
sexuais, casos variados de hibridismo, entre outras características55.

55
Cit. Por, Ramos, Ana Margarida (2008) Os Monstros na Literatura de Cordel Portuguesa do século
XVIII, p. 118-119.

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José Gil também concorda com o facto de todas estas tipologias terem em comum a ideia
de que a organização compositiva do monstro não é totalmente ilimitada como já foi
anteriormente descrito:

“ Um monstro não é não importa o quê: não existem raças de homens com o
rosto nas costas, mas existem raças com o rosto no peito; não há monstros com
quatro orelhas ou olhos na nuca; (…) qualquer explicação para justificar as
malformações das raças do Oriente a partir de malformações naturais (…) não
alcança necessariamente o seu objectivo por vários motivos: porque há muitas
malformações monstruosas biológicas que não estão representadas nessas
raças; porque incluem, em contrapartida, um determinado número de
monstruosidades que não são biológicas (em particular, o cruzamento entre
espécies humanas e animais); e, finalmente, porque este tipo de explicação não
dá conta do factor principal, a saber, o motivo que levou «a imaginação» a fixar
certas malformações biológicas, e não outras, nessa teratologia fantástica das
raças humanas”56

O filósofo questiona-se ainda sobre a questão da complementaridade na estruturação dos


monstros, pois não existe um critério morfológico satisfatório, indagando o porquê de
certos órgãos se reduplicarem e outros não, dando como exemplo a inexistência de
monstros com duplo nariz face à existência de monstros com quatro-olhos. Prosseguindo
com o seu raciocínio, a deformação pelo número aplica-se a órgãos precisos, pelo que
existem malformações que a produção de monstros exclui, tendo como objetivo
incapacitar as funções dos órgãos totalmente ou parcialmente, (note-se que quando existe
incapacidade total, existe uma eliminação do órgão, por conseguinte: sem olhos, sem
cabeça, etc.). Desta forma:

“ O objectivo é que a malformação estabeleça um desvio significativo


relativamente à norma. A supressão de órgãos consegue-o: não se trata do
deslocamento parcial de um órgão, pois a teratogénese não a consegue, mas
de uma incidência sobre a forma que a engloba (o rosto relativamente ao
nariz, ou à boca). A supressão de um órgão equivale, deste modo, ao
deslocamento de outro órgão em que o primeiro está incluído. Em todos os
casos é necessário que o resultado seja um desvio significativo”57.

56
Gil, José (2006) Op. Cit., p.139.
57
Ibidem, p. 141.

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Fig. 10. Hartmann Schedel (1440-1514), ilustração da Crónica de Nuremberga representando uma criatura
com quatro-olhos.

Por último, Gil conclui que, a monstruosidade exagerada e a deformação correspondem


ao facto de esses corpos não possuírem alma58, portanto são corpos “não-viáveis”
enquanto seres humanos e sem infralíngua: “ A alma tem, por conseguinte, a sua forma
própria- que não é necessariamente a do corpo perfeito, (…) Quanto há suspensão da
infralíngua- (…) a forma torna-se monstruosa e deixa de poder receber uma alma59.

O autor Massimo Izzi considera ainda, para além da origem limitada de formas, que as
espécies monstruosas mais antigas possuem três categorias: monstros por defeito, por
excesso e monstros duplos ou compostos. No primeiro grupo estão contidos os monstros
com carências de alguma parte ou dimensões diminutas, no segundo grupo estão aqueles
que possuem elementos em excesso ou de grandes proporções e por fim, no terceiro grupo
estão os seres compósitos ou híbridos. Este autor assevera também que qualquer uma das
classificações terá sempre que se basear em critérios anteriormente esclarecidos, assim,
uma classificação dos monstros deve “basear-se na identificação de processos de

58
Mais uma vez na opinião de José Gil, esta era a verdadeira preocupação de Santo Agostinho: povos que
não possuíam alma e viviam como seres racionais.
59
Ibidem, p. 148.

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construção do monstruoso, válidos para diferentes épocas e culturas, e não nas formas
concretas e específicas de cada um dos monstros (…) ”60.

Ieda Tucherman acrescenta ainda que os monstros podem ser divididos em duas
categorias gerais: as raças monstruosas e os monstros individuais, sendo que os
individuais podem ser considerados como reais, por possuírem deformações ou
malformações. Para os outros a autora apelida de “monstros imaginários” por serem
originados pela fabulação sem correspondência no mundo real. A autora refere-se ainda
aos “monstros de maldade” que remetem para o senso comum metaforizado, tais como
por exemplo a figura de Hitler na sociedade61.

60
Cit. Por, Ramos, Ana Margarida (2008) Os Monstros na Literatura de Cordel Portuguesa do século
XVIII, p. 120.
61
Tucherman, Ieda (1999) Op. Cit., p. 97.

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CAPÍTULO III
A UTILIDADE
DOS
MONSTROS

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3. A descoberta dos monstros enquanto utilidade científica, lúdica e


contemporânea

Os seres monstruosos são contraditórios face ao pensamento iluminista do século XVIII,


(que se baseava na busca da ordem e da regularidade), parecem quebrar as leis naturais.
Existe um fascínio sobre o monstro e o seu corpo daí que o seu entendimento provém dos
múltiplos significados que no decorrer da História lhes têm sido associados.

Tiveram uma enorme adesão na área da alquimia, pois simbolizavam os vários processos
para a obtenção da Pedra Filosofal ou o Elixir da Juventude. E assim deste ponto de vista
pareciam maravilhosamente sedutores aos apaixonados pelas artes ocultas. Com o
decorrer do tempo esta atração pelo maravilhoso lendário evoluiu dando lugar à
curiosidade pelo interessante científico, realizando-se expedições por lugares
mencionados pelos medievais.

Foi a partir da Renascença que estas criaturas adquiriram um estatuto de objeto desejável
nos gabinetes de curiosidades. A sua raridade em junção com as emoções que arrancava
do espectador conferia-lhes um lugar central nas coleções. É nesta época que se assiste a
um grande desenvolvimento das coleções de história natural, que deixaram de ser
exclusivamente posse da nobreza alargando-se a médicos, farmacêuticos, membros do
clero e comerciantes.

Ao estarem presentes nestas coleções, havia uma certa homogeneidade das criaturas que
eram observadas pelo olhar científico. Generalizou-se a sua presença em teatros
anatómicos ao longo dos séculos XVII e XVIII surgindo cenários povoados de fenómenos
insólitos.

Como afirma William Hunter, em termos científicos, a existência dos monstros é útil
para o estudo das irregularidades que surgem, constituindo um desafio à teoria:

“Até os monstros e todas as produções extraordinárias da natureza, são úteis


na pesquisa anatómica…podendo ser dito que a natureza, ao variar e
multiplicar as suas produções, colocou à nossa disposição um facho de luz
que nos guia através dos seus labirintos.” (…) O estudo de seres monstruosos
serviu para proporcionar novas questões sobre a geração e a organização
dos seres vivos. Em alguns casos, este tipo de seres foi também utilizado como

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uma evidência crucial no entendimento do comportamento regular de


determinados fenómenos fisiológicos e anatómicos”62.

Mas alguns opositores utilizavam estas irregularidades como ferramenta argumentativa


da sua impossibilidade, sendo que um dos problemas principais baseava-se na justificação
do aparecimento de variações na natureza, sendo o caso dos monstros o mais extremo.

A prestação mais relevante dos monstros na área do entendimento da ordem natural


realizou-se no quadro da fisiologia comparada, pois recorria-se a nascimentos
monstruosos para apoiar a teoria de alimentação do feto normal pelo cordão umbilical.
Mas, durante o século XVIII, a análise dos corpos monstruosos não foi exclusivamente
direcionada para a anatomia e para a fisiologia comparadas: alguns médicos tentaram
integrar seres monstruosos na natureza.

Para além da sua função científica, os monstros apresentam uma componente lúdica, de
entretenimento, sendo expressamente abordada em algumas narrativas, surgindo
temeroso e imponente para alguns leitores, e divertido para outros63.

Fig. 11. Hartmann Schedell, ciápode.

62
Cit. Por, Costa, Palmira Fontes da (2005) O Corpo Insólito: Dissertações sobre Monstros no Portugal
do século XVIII, p. 3.
63
Realcemos a opinião de Umberto Eco que defende que foi a partir da Renascença que o monstro assumiu
uma função amistosa, devido à sua “impressionante fealdade”.

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Desde a Antiguidade os monstros ou freaks são exibidos e tal como noutras práticas
pagãs, foram revividos na Europa durante a Idade Média. Inicialmente eram exibidos nas
cortes restritamente mas posteriormente, coube à Igreja a difusão desta prática por alegar
ser um “fator didático”, o que resultou num aumento de audiências pois eram exibidos
em “dias festivos e sob solo sagrado”64.

Este fenómeno de exibição dos monstros e de tudo o que seria considerado bizarro teve a
sua plenitude nos locais destinados ao comércio como entretenimento da população
atingindo o auge no século XIX. Feiras famosas tais como a Bartholomew fair, (suspensa
em 1840), centralizavam num único espaço atrações que permaneciam visíveis durante
um ano inteiro, sendo que naquela época o gosto por monstruosidades era quase um
vício.65

Paralelamente à sua exibição, as anormalidades humanas ganharam um estatuto dúplice:


pela estranheza que a sua aparência trazia bem como o insólito relativo às suas
singularidades. Consequentemente, o deslumbramento que poderiam produzir era
controlado, pois era a estranheza que o espectador procurava na sua visita ao circo ou à
feira, “tornava-se a exibição do desvio num novo espaço de norma, resgatando, em certa
medida, a expressão de brincadeiras da Natureza que Aristóteles havia proposto para sua
recepção”66.

Posicionando desta forma a anormalidade observada no freak-show, o homem moderno


não receia encontrá-la em si: apropria-se das características do outro, pelo espetáculo que
este produz, a familiarização da diferença e discriminação. Toda esta situação produz
ainda um efeito de catarse, a partir da exposição destes seres grotescos que permitem que
o homem moderno purgue os seus fantasmas, reafirmando para si a sua própria
modernidade.

64
Tucherman, Ieda (1999) Op. Cit., p. 120.
65
Esta situação irá sofrer importantes mudanças no século XX. Com a invenção do cinema dar-se-á uma
diminuição de interesse pelo circo-show, assumindo-se como o lugar do espetáculo por excelência e
posteriormente, com a televisão.
66
Ibidem, p.130.

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Umberto Eco defende que a atração do homem pelo monstruoso não é um fenómeno
recente nem exclusivamente literário, nem social ou cultural, pois abarca diferentes
estratos sociais e grupos etários bem como níveis culturais e escolares67. O autor
prossegue afirmando que a narrativa de horror remonta ao romance “gótico” do princípio
do século XIX anglo-saxónico, correspondente ao período romântico. Assim com esta
constatação, Eco justifica este gosto pelo horror com base em relações culturais e
históricas precisas para explicar o gosto pelo grotesco em determinados momentos da
História da Humanidade.

Desta forma, “o gosto pelo horrífico apareceria como manifestação de um público saciado
de qualquer excitação, cumulado nos seus desejos de bem- estar económico, que por isso
procura o divertimento em regiões mais insólitas”68. Eco menciona este facto como
justificativo de causas de natureza sociológica, e ainda sublinha que o gosto pelo horror
corresponde a uma espécie de fuga para o diferente, quase no sentido exótico que não
seria preocupante e sim apenas liberatório, entendido como efeito catártico.

Assim, Umberto Eco considera o monstro como uma criação humana que representa e
simboliza “a violação das leis, o perigo, a ameaça, o irracional e o não dominável, sendo
o monstro, por isso, uma projeção fantástica de todos e cada um destes conceitos,
acalmando as angústias que dominam os homens”69.

Cada época histórica propõe uma teoria ou causa para a ocorrência de monstros e como
já foi referido, existem várias informações recorrentes e repetidas não sendo uma área
muito criativa. O grego Aristóteles também se interessou por eles e em simultâneo
investigou algumas explicações existentes. Na sua opinião, os monstros eram lusus

67
Os monstros não são apenas uma temática literária do século XVIII, nem contemporânea, aliás não são
de todo exclusivos do campo literário, pois atingem com uma grande projeção outras áreas culturais, como
é o caso da pintura, escultura, cinema e videojogos. E neste último domínio, os monstros e a consequente
exploração das suas variações tem-se revelado bastante rica, seja em parâmetros artísticos ou comerciais.
68
Ramos, Ana Margarida (2008) Op. Cit., p. 104.
69
Ibidem, p. 104.

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naturae, piadas ou brincadeiras vindas da natureza, como tal, não deviam ser encarados
com horror mas sim com divertimento.

Sempre existiu uma crença e respetiva demonstração, não só nos textos sobre o
pensamento ocidental, como na organização de espetáculos que dão a ver a
monstruosidade, os shows, permanecendo ao longo dos tempos a vontade de marcar a
diferença.

Além de fabulosas e dignas de curiosidade teológica e científica, os freaks são exibidos e


encarados como excecionais/anormais, sempre distintos por serem resultantes de uma
falha natural. Apesar de vistos pelo homem num misto de horror e pena são sempre
encarados como uma criatura de “outra ordem”. Desta forma, esta atração pelos monstros,
sempre presente e característica, pode também ser pensada como uma teatralização, “ um
show vivo da reunião, do que não se reúne”70.

Fig. 12. “ O Homem com cara de cão” (The Dog Faced Man) Poster de um Freak Show Victoriano [s.d]
um dos grandes atrativos das feiras. Todo o seu corpo era coberto pelos compridos, a origem deste
peculiar aspeto deve-se a uma doença existente denominada de hipertricose.

70
Tucherman, Ieda, Op. Cit.1999,p. 124.

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Tal como também sucedeu no passado, atualmente esta temática tem proliferado bastante,
estando presente em muitas áreas, quer seja no cinema, na banda desenhada, nas
exposições de arte, jogos de computador e ainda em brinquedos, entre outros. Os
monstros têm também surgido nas revistas científicas, bem como em laboratórios, e em
programas educativos. “ Vivemos uma espécie de banalização desta nova associação com
a ciência, basicamente através da manipulação genética, uma “contracção do domínio da
anomalia”71.

Com esta “explosão” de seres monstruosos na contemporaneidade, parece que já não tem
o mesmo efeito assustador que tinham no passado, tal como Tucherman sustenta, isso
poderá dever-se ao facto de não termos uma configuração tão fechada para o mesmo, “na
qual estabeleceríamos a nossa imagem, do nosso próprio corpo, e que os fixaria na
absoluta e apavorante diferença”72. No entanto, se eles provocam interesse, é pelas
questões contemporâneas que implicam, sendo que as suas figuras poderão ser a chave
para recolocar constantemente a indagação acerca da humanidade do homem. Ieda
conclui ainda que os monstros existem como demonstração do que podíamos ser e não o
que somos, indagando sobre a questão, “até que grau de deformação, (ou estranheza),
permaneceremos humanos?”73.

Atualmente, a categoria dos freaks é flexível no sentido de acolher novas formas ditas
aberrantes, englobando homens e mulheres tatuados, representações étnicas, tais como as
mulheres da tribo Padaung (vulgarmente denominadas de mulheres-girafa), entre outras
tradições que envolvam alterações físicas. (ver Anexo de Imagens, Fig., 1 e 2.)

71
Ibidem, p. 97-98.
72
Ibidem, p. 98.
73
Ibidem, p. 101.

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CAPÍTULO IV
ANÁLISE
DOS
MONSTROS:
ORC E CICLOPE

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4. Orc: Etimologia

Orc ou Ork é um termo referente a criaturas mitológicas humanoides, geralmente


descritas como bárbaras, agressivas ou repulsivas. Esta criatura como atualmente é
conhecida provém da escrita de J. R. R. Tolkien74.

De acordo com as obras de Tolkien, (que desenvolveu um tipo de idioma, denominado


de língua élfica ao longo dos seus escritos), o termo Orc é sinónimo de monstro, ogre ou
demónio, sendo que inicialmente, o plural seria Orqui. No entanto, Tolkien também
empregava o termo Goblin para caracterizar estes seres quando os eventos eram narrados
de acordo com a perspetiva de determinadas personagens tais como o Hobbit, (outra
criatura fantástica do universo do autor).

Conforme indicação dos dicionários de inglês arcaico, o registo da palavra Orc surge
como uma derivação do latim Orcus, sinónimo de ogre ou demónio infernal. Orcus era
uma divindade do submundo da mitologia romana, também conhecido como Plutão, e
igualmente encarado como um espectro, (daí a sua designação de criatura infernal nos
dicionários). Assim sendo, tal como os submundos estão imbuídos de conotações
negativas e aterradoras, também estas criaturas passaram a carregar essa herança.

Pressupõe-se que a palavra Orke ou Ogre tenha surgido na língua inglesa através de
contos de fadas europeus, escritos por Charles Perrault, (que se baseava muito nos contos
italianos sobre ogres de Giambattista Basile e Giovanni Francesco Straparola, que ao
escreverem no dialeto de Nápoles utilizaram variantes da palavra ogre tais como huorco,
huerco, uerco e até mesmo orco). Orco, palavra italiana, representava um gigante ou
monstro, uma criatura peluda com presas semelhantes às de javali, humanoide e capaz de

74
John Ronald Reuel Tolkien, (1892-1973), foi um grande estudioso da língua inglesa, especializado em
inglês antigo. Foi professor da sua especialidade na Universidade de Oxford. Para além disto. Lutou ainda
na Primeira Guerra Mundial, onde começou a escrever os primeiros ensaios que estiveram na origem das
suas obras mundialmente famosas: o Hobbit, (em inglês The Hobbit, 1937) e a saga Senhor dos Anéis, (Lord
of the Rings, 1954-1955). Ambas são passadas numa era pré-histórica numa versão inventada do nosso
mundo que Tolkien denominou de Terra-Média, (Middle-earth). Neste universo fantasioso existem Elfos,
Anões, Trolls, Orcs (ou Goblins), Hobbits e seres Humanos.

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falar. Habitava numa floresta ou jardim isolado e conforme os contos, ou devorava


homens ou era benevolente para com eles.

O Orc figura ainda na complexa mitologia de William Blake. Contrariamente às


descrições de Tolkien, e de outros autores, Blake descreve-o como uma figura positiva: a
personificação da paixão criativa e da energia que se opõe a Urizen, a encarnação da
tradição, (ver Anexo de Imagens, Fig. 3). No entanto, embora sendo uma figura positiva
existe a perceção de que a sua origem é demoníaca.

Tolkien expressou ainda o desejo de alterar a forma como a palavra era escrita de Orc
para Ork, existindo exemplos dessas tentativas em alguns dos seus escritos mais atuais.
No entanto esse desejo não foi levado avante, pois nunca foi detetado nas suas obras
publicadas.

4.1. Características do Orc segundo J.R.R.Tolkien

Estes seres são representados de várias formas na cultura popular, (fantasia literária-
cinematográfica e videojogos), sendo que o seu aspeto é marcadamente grotesco com
traços faciais característicos de símios, javalis e de algum gigantismo. A sua pele em
termos de coloração apresenta um leque de tons que vão desde a cor verde aos tons
castanhos, cinzentos e vermelhos. São muito possantes e vigorosos, (comparativamente
aos Humanos nos universos fantasiosos), sempre acompanhados de outros animais que
lhes servem de montada tais como o javali, o lobo ou outras criaturas fantásticas.

Segundo Tolkien, os Orcs são humanoides com tamanhos e formas variadas, menos altos
do que a raça humana. São descritos como sujos e feios, com braços e pernas longas
fortes, possuindo presas grandes e algumas zonas da sua pele negras, quase como se
tivessem sido queimadas. Carnívoros por natureza, comem todo o tipo de carne incluindo
a humana, chegando em alguns casos a praticar atos canibais (ver Anexo de Imagens, Fig.
4).

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Em alguns documentos de Tolkien existem referências aos Orcs como tendo a largura do
corpo superior à dos humanos, pele grossa, boca grande e os olhos situados
profundamente nas órbitas, (versões degeneradas do povo Mongol, numa espécie de
referência entre a relação dos povos europeus e os seus invasores). O Orc é geralmente
descrito como uma criatura repugnante, viciosa, mordaz e com algum engenho.

Os Orcs possuem qualidades guerreiras e, no caso da obra deste autor, são liderados pela
vontade dos Senhores do Mal. Na sua obra, o Orc é utilizado como soldado, uma espécie
de peão para os vilões da trama. Comunicam entre si utilizando Blackspeech, (discurso
negro), a linguagem que as forças de Mordor utilizam entre si.

4.1.2. Videojogos

O Orc no universo dos jogos de tabuleiro e videojogos

Desde a publicação das obras de Tolkien que os Orcs se tornaram elementos de ficção
quase sempre presentes na fantasia e nos jogos de Role-Playing Game75. Por volta dos
anos 80 outro arquétipo da criatura foi introduzido, pelo conhecido jogo de guerra de
miniaturas de tabuleiro Warhammer Fantasy Battle mais conhecido por Warhammer.

A versão da criatura introduzida pelo universo Warhammer tornou-se tão popular que
passou a ser utilizada como cânone em outros tantos universos de fantasia, outros jogos
do mesmo género e ainda na esfera dos videojogos, como é o caso do universo World of
Warcraft e outros posteriores.

75
RPG, em português “jogo de interpretação de personagens”, é um género de jogo em que o jogador
assume o papel da personagem, criando narrativas. O jogador escolhe a personagem e pode fazê-la evoluir
a diferentes níveis, tais como estatuto e habilidades, consoante a progressão na história. Neste tipo de jogos
existe um sistema de regras predeterminado onde os jogadores podem atuar livremente, as suas escolhas
determinam a direção que o jogo vai tomar. Assim, um RPG é um tipo de jogo mais colaborativo e social
do que meramente competitivo, pois raramente tem vencedores ou perdedores. Os RPG’s não limitam o
jogador a um enredo específico.

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Fig. 13. O Orc do universo Warhammer. Imagem da autoria de Ted Beargeon.

No contexto Warhammer, os Orcs têm uma musculatura muito desenvolvida, um pouco


curvados, com uma postura simiesca, (ver Anexo de Imagens, Fig. 22), pele verde, com
presas exageradas e maxilares inferiores proeminentes e ainda sobrancelhas protuberantes
(ver Anexo de Imagens, Fig. 21). Em termos psicológicos, a sua personalidade não é tão
malévola como a do universo de Tolkien, possuindo uma característica mais desordeira
com traços cómicos.

4.1.3.World of Warcraft

Neste universo os Orcs adquirem um papel mais importante. Inicialmente foram


introduzidos como monstros rudes, mas a sua evolução concedeu-lhes uma aparência de
nobres selvagens, guerreiros honrados. Neste tipo de videojogo esta raça é originária do
planeta Draenor e a maioria dos seus clãs foi manipulada e traída por um dos seus maiores
líderes espirituais de forma a se tornarem escravos de uma força de demónios
conquistadores de planetas, (conhecida como Burning Legion), sem se aperceberem que
seriam usados.

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Sob o controlo da Burning Legion a Horda (aliança dos clãs de Orcs, em inglês Horde),
massacrou outras raças que existiam no seu planeta e foram misticamente transportadas
para o planeta Azeroth, (equivalente ao planeta Terra), onde serviram como a primeira
força de embate da Burning Legion na conquista deste lugar. Após duas guerras
devastadoras a Burning Legion desistiu momentaneamente de conquistar Azeroth e
deixou os Orcs para trás livres do seu controlo, para serem capturados pela raça humana.
Assim, os Orcs foram utilizados como escravos ou gladiadores até que um jovem Orc
chamado Thrall os libertou de toda a sua culpa relativamente às ações que cometeram
enquanto eram controlados pela Burning Legion. Thrall formou uma nova Horda baseada
nos princípios da força aliada à honra, com o objetivo de reconquistar a sua nobreza
antiga.

A aparência do Orc no Warcraft é também humanoide, prodigiosamente musculada, com


nariz largo, e boca com presas grandes. Existem várias tribos de Orcs, com várias
tonalidades de pele, no entanto, os Orcs da Horda são maioritariamente verdes. Porém,
aqueles que se conseguiram esconder aquando do controlo da Burning Legion
mantiveram as suas cores originais: castanho e laranja (ver Anexo de Imagens, Fig. 5).

Os Orcs machos são mais altos que os homens quando estão na posição vertical, em pé,
medindo cerca de dois metros (ver Anexo de Imagens, Fig. 27). Já as Orcs fêmeas são
ligeiramente mais altas que uma mulher normal e são mais esguias que os Orcs machos,
embora sejam igualmente musculadas. As presas das Orcs fêmeas são menores que as dos
machos, parecendo muitas vezes caninos exagerados em vez de presas. As fêmeas Orc
são conhecidas muitas vezes pelos seus penteados exóticos (ver Anexo de Imagens, Fig.
6).

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Fig. 14. Representação de uma Orc fêmea. Original da autora, 2015.

Em termos socioculturais, a sua sociedade sempre foi caracterizada por estilos de vida
difíceis e duros, o que os tornou algo pragmáticos, não hesitando em matar em caso de
perigo para o seu clã ou família. Todos os Orcs (não interessando o seu tamanho, género
ou posição social), são vistos como capazes de “carregar o seu próprio fardo”, dado que
a fraqueza é vista como um defeito grave numa sociedade com um estilo de vida difícil.
Assim, a união é vista como algo relevante pois a fraqueza de um elemento pode
contaminar todos os outros pondo em perigo uma sociedade baseada no contributo de
todos.

Cada clã tem uma personalidade diferente e uma forma própria de resolver as situações76.
Qualquer Orc preza a honra acima de tudo, quer seja para o seu clã, para a Horda no geral,

76
Tendo como exemplo o clã Frostwolf, cuja compaixão e misericórdia são vistas como inigualáveis nos
outros clãs, ou o clã Warsong um pouco mais violento vivendo num estilo de sociedade semelhante à
espartana apostando na capacidade de cada enquanto guerreiro como sendo o fator mais relevante.

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ou para si mesmo. A hospitalidade77 é por exemplo, uma das maiores honras que um Orc
pode conceder a um estranho. Não existe descriminação na sua sociedade quanto ao
género, sendo as fêmeas capazes e livres de praticar qualquer ofício que desejem, tal como
os machos, mesmo como guerreiras (ver Anexo de Imagens, Fig. 7 e Figs.15 e 16).

Os Orcs neste universo são de certa forma comparáveis aos povos vikings que assolavam
a Europa, e que eram, de certa forma, considerados como inferiores pelos restantes povos
europeus pois falavam uma língua diferente, e vestiam roupas diferentes (ver Anexo de
Imagens, Fig. 7 e 8). A visão que era tida sobre estes povos era preconceituosa pois
embora vivessem de forma diferente, dado a sua cultura, estes eram também portadores
de tecnologia avançada como por exemplo se provou pelas suas capacidades de
navegação.

Fig. 15. Representação de um Orc com trajes típicos de guerra. Original da autora, 2015.

77
Do ponto de vista dos humanos neste universo os Orcs são vistos como inferiores em intelecto, (o que
não corresponde à verdade), como selvagens malévolos, prontos a qualquer momento a dizimar os
humanos, enquanto estes apenas tentam sobreviver num local estranho às suas origens.

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Estas criaturas fantásticas são também abordadas noutro tipo de jogos e universos tais
como o universo de Elder Scrolls, (onde os Orcs são parentes longínquos dos elfos,
mantendo no entanto, o seu instinto selvagem de combate), o jogo Magic: The Gathering,
(um jogo de cartas colecionáveis com duplo formato: físico e virtual onde os Orcs são
descritos como guerreiros covardes que se aproveitam dos goblins), o videojogo Might
and Magic, (aqui os Orcs são descritos como humanoides musculados de cor laranja,
criados através da junção de sangue de demónio com carne humana para serem utilizados
como tropa de choque no caso de uma invasão demoníaca) e o universo Heroscape, (onde
os Orcs são azuis com presas proeminentes e chifres saídos do mento e da face. São
ligeiramente mais pequenos do que os humanos, exceto os membros de elite da sua
sociedade, que são do tamanho semelhante aos humanos) (ver Anexo de Imagens, Figs.
18,19 e 20).

No jogo de tabuleiro e posteriormente videojogo Dungeons and Dragons o Orc é uma


das criaturas mais antigas, tendo sido baseado no universo de Tolkien, conservando por
isso todas as suas características guerreiras e ameaçadoras (ver Anexo de Imagens, Fig.
17).

4.1.4. Warhammer

Em termos anatómicos, neste universo o Orc não é mais alto do que os humanos, devido
à sua semelhança com os símios, com braços e tronco largos, adota uma postura mais
encurvada (ver Anexo de Imagens Figs. 22 e 23). O seu crânio é corpulento com um
pescoço projetado para a frente, as arcadas supraciliares são volumosas o que confere aos
seus olhos um aspeto encovado na profundidade da órbita (ver Anexo de Imagens Fig.
21). A sua pele é verde e espessa, (funcionando como uma mais-valia em termos de
resistência à dor).

Neste universo os Orcs não são muito inteligentes mas possuem alguma audácia e astúcia.
A sua cultura e sociedade privilegia questões ligadas à guerra, bem como a necessidade

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constante de estar em conflito e consequentemente, em guerra. Devido à sua natureza


violenta, os Orcs raramente fazem alianças no que toca a parceiros de guerra e quando o
fazem é temporário, pois quando não estão a combater um inimigo comum lutam entre
si. Em combate, esta raça é extremamente resiliente, sendo capaz de transformar qualquer
objeto numa arma letal.

4.1.5. Anomalias Anatómicas

Prognatismo- Considerações anatómicas: Origens e definições

Como já foi anteriormente descrito, o Orc do universo Warcraft apresenta uma aparência
semelhante à humana, mas com uma musculatura muito mais proeminente. Neste capítulo
em concreto, analisaremos a cabeça e o corpo do Orc onde iremos encontrar uma
mandíbula procidente, de que sobressaem dentes de grandes dimensões.

Esta desproporcionalidade do maxilar inferior na criatura indica que sofre de uma


anomalia esquelética que, na realidade, corresponde ao prognatismo. Seguidamente
iremos explicar em que consiste esta entidade, mas não podemos deixar de salientar que
embora seja uma anomalia real, é representada na criatura fantástica com um certo tom
hiperbólico, de exagero da realidade.

De acordo com o artigo anteriormente publicado “Mitologia, Ciência e Videojogos: como


surge um Orc” defendemos que:

“Em termos gerais, o prognatismo é uma anomalia que altera significativamente


a harmonia do rosto, sendo considerada como uma anomalia esquelética
deformadora da face. Esta alteração do desenvolvimento orofacial pode ser
acompanhada de má-oclusão dentária com mordida cruzada do sector dentário
anterior, em que se verifica que os incisivos, da arcada inferior ficam colocados
à frente dos incisivos superiores quando a boca se fecha Esta situação sucede
quando na face do indivíduo a mandíbula apresenta um crescimento inadequado,
sendo maior do que o da maxila. A nível dentário o Orc apresenta seis incisivos

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inferiores, dois caninos em cada hemiarcada (quadrante), enquanto na espécie


humana há quatro incisivos e dois caninos mandibulares”78.

Esta alteração também denominada de mandíbula de Habsburgo ou de mandíbula da


Áustria79 advém de um excesso de crescimento mandibular, de origem genética ou
combinado com um défice de crescimento do maxilar superior, e é considerada como uma
das deformidades mais problemáticas do rosto.

A palavra prognatismo significa projeção (pro) dos maxilares, existindo tanto no maxilar
superior como na mandíbula, (fazendo-se habitualmente referência ao prognatismo
mandibular). A isto foi acrescentada a palavra grega gnatos que significa “osso do
queixo”, “queixada” ou mandíbula, precisamente pelo maior impacto visual que o
prognatismo mandibular provoca.

O Orc que apresenta este tipo de mandíbula possui um lábio inferior mais procidente que
o superior (levando a que haja eversão do lábio) e consequentemente, um mento
volumoso e proeminente, o que dá ao indivíduo um aspeto sempre zangado, (contribuindo
assim para as suas expressões quase sempre ameaçadoras), em alguns casos uma
aparência dura de guerreiro /lutador. Esta particular caraterística de aparência dura, de
guerra, pode ter sido uma das razões para que o Orc fosse representado como prognata,
precisamente porque a sua função está estreitamente ligada à violência e a um estilo de
vida mais difícil80.

78
Henriques Garcia, Inês; Ritto, Isabel; Álvares Furtado, Ivo; Cruz, Tiago (2015), Mitologia, Ciência e
Videojogos: como surge um Orc. Archives of Anatomy- Official Journal of the Portuguese Anatomical
Society (SAP/AAP), Vol.3, Nº1, p. 17.
79
O prognatismo manifesta-se nestas duas formas devido a questões genéticas, resultantes dos casamentos
entre parentes de dinastias europeias. Esta anomalia era particularmente evidente na dinastia de Habsburgo,
em concreto nos reis Carlos V Sacro Imperador Romano-Germânico e Carlos II de Espanha. Porém o
prognatismo manifestou-se igualmente em outros monarcas precisamente devido a estas uniões
consanguíneas.
80
Henriques Garcia, Inês et al. (2015) Op. Cit., p.18.

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Fig. 16. Representação de um Orc com uma expressão tipicamente ameaçadora. Original da autora, 2015.

Os indivíduos prognatas apresentam por isso um perfil de aspeto côncavo, pouco estético
para ambos os sexos. E tal como afirma o autor J. P. Boléo Tomé:

“ A incapacidade de contacto labial condiciona deformações estéticas


evidentes: o lábio superior encontra-se retificado na sua dimensão vertical,
escondendo parcialmente o bordo róseo, dando a sensação de lábio caído e
atónico, o lábio inferior está igualmente rectificado, porque acompanha os
dentes anteriores na sua deslocação posterior de compensação, ficando quase
apagada a concavidade sublabial. Estas modificações dão o aspecto estético de
uma face pesada, hipotónica, pouco expressiva no seu terço inferior, sendo
quase regra o aumento da sua dimensão vertical. No terço médio, mesmo sem
que exista qualquer anomalia associada, são igualmente evidentes as
repercussões desta situação clínica, […] as saliências malares assim como os
sulcos nasogenianos estão apagados, as comissuras labiais avançadas, e o
nariz parece mergulhado numa face plana”81.

81
Boleo-Tomé, J. (1997) Anomalias da classe III : prognatismo. Lisboa : [s.n.], 1997. Tese de
doutoramento em Medicina Dentária (Cirurgia Oral), apresentada à Universidade de Lisboa através da
Faculdade de Medicina Dentária,p. 7.

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Ao prognatismo corresponde habitualmente o terceiro tipo de relação oclusal entre dentes


inferiores (da mandíbula), e superiores (da maxila), a Classe III. A Classe I partilha a
mesma relação molar que a oclusão dita normal do sector posterior, podendo diferir desta
em relação ao posicionamento dos dentes do sector anterior no plano oclusal,
determinante da ocorrência de faltas ou excessos de espaço na arcada. A Classe II
apresenta uma relação molar com recuo de pelo menos meio dente, habitualmente
acompanhado de recuo mandibular.

As manifestações clínicas de prognatismo são várias: Possui uma oclusão com mordida
aberta invertida82 ou cruzada, uma má-oclusão83 da classe III de Angle84 uma alteração
do perfil com avanço anormal da região da sínfise mandibular, um aumento da dimensão
linear côndilo-gnation (ponto mais anterior da mandíbula), um aumento da dimensão da
linha de projeção do plano mandibular (que corresponde à linha que segue o bordo
inferior da mandíbula) e ainda a presença de um ângulo mandibular mais obtuso85.

De acordo com vários autores, a origem desta anomalia é discutível, podendo ser
resultado de diversos fatores: doenças hereditárias, disfunções mastigatórias, posições
incorretas, traumatismos, entre outros, pois trata-se de uma perturbação do
desenvolvimento. A fala e a respiração são prejudicadas devido à alteração de posição
relativa das arcadas dentárias (má-oclusão), da língua e dos lábios e da sua dinâmica
respetiva. A mordida aberta invertida, associada à frequente incapacidade de oclusão

82
Denomina-se Oclusão dentária à forma como os dentes se relacionam entre si. Idealmente, deve existir
um contacto equilibrado e centrado dos dentes superiores com os inferiores quando os maxilares se
aproximam ou durante a mastigação. A mordida aberta sucede quando os dentes de ambas as arcadas não
estão em contacto entre si, havendo um espaço entre eles.
83
A má-oclusão dentária sucede quando existe um mau posicionamento dos dentes em oclusão. Pode levar
a uma alteração das funções dentárias bem como em alguns casos, à disfunção têmporo-mandibular, (que
é uma alteração resultante do funcionamento anormal da musculatura da mastigação, ou da articulação
têmporo-mandibular- ATM).
84
Edward Hartley Angle, (1855-1930), dentista americano apelidado como o pai da ortodontia americana.
Criou o termo “má-oclusão” para se referir a anomalias de posição dentária e classificou várias anomalias
de dentes e maxilares. Angle descreveu três tipos básicos de má-oclusão representando alterações na
dimensão ântero- posterior. Melhorada posteriormente, a sua classificação ainda hoje é utilizada.
85
Ibidem,p.2.

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labial, pode modificar os sons labiais e línguo-dentários, levando os doentes a adquirirem


uma postura de permanente boca entreaberta, tendo por isso, consequências a nível
respiratório.

No caso das doenças hereditárias tais como síndromes e anomalias específicas existem
alguns tipos em que o prognatismo é uma consequência, tais como a microssomia
hemifacial, síndrome de Treacher Collins, síndrome de Crouzon, síndrome do Nevo
Basocelular, ou ainda a Acromegalia.

Em casos de traumatismo mandibular, este pode induzir um atraso ou deficiência no


crescimento da mandíbula. Certos traumatismos unilaterais com fratura do côndilo
resultam em assimetrias mandibulares, com um aparente crescimento exagerado de um
dos ramos mandibulares, (o laterognatismo86).

Para além de ser inestética, esta deformidade afeta a relação entre os dentes superiores e
inferiores, havendo um desalinhamento entre eles, sendo por isso denominada de má-
oclusão ou má mordida, de onde resulta uma relação incorreta com a articulação têmporo-
mandibular e um mau condicionamento dos tecidos moles da orofaringe. Esta situação
afeta por isso a mastigação, fonação e respiração.

O prognatismo pode ser detetado em crianças de ambos os sexos, ou em outras faixas


etárias. O seu tratamento pode ser efetuado com sucesso durante a fase de crescimento e
de desenvolvimento craniofacial, com recurso a aparelhos que restrinjam o crescimento
da mandíbula. Quando diagnosticado tardiamente, ou seja, em fase adulta, os
procedimentos87 passam por combinar o tratamento ortodôntico com uma intervenção de
cirurgia ortognática, (de redução mandibular), que pode ou não ser combinada com uma
cirurgia de avanço do maxilar superior. O resultado passará assim por devolver ao
indivíduo uma respiração, fonação e mastigação corretas.

86
O laterognatismo costuma estar relacionado com o prognatismo, sendo que, as queixas mais frequentes
por parte dos pacientes são de um “queixo torto”, ou “boca torta”.

87
O tratamento do prognatismo é descrito como prática há pouco mais de um século. Especula-se que
poderá ter sido o cirurgião americano Simon Hullihen o primeiro a publicar o procedimento do seu
tratamento em 1849.

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Em qualquer uma das situações, o prognatismo causa sempre uma “acentuada e


desagradável deformidade facial”88.

4.1.6. Proporções da Face

Os seres humanos89 são naturalmente assimétricos e uma possível correção desse facto
não é esteticamente aceitável. Nem sempre as “medidas ideais” são uma característica de
atratividade. Desde a época Clássica que sempre existiu uma busca constante pelas
“proporções ideais”, tão trabalhadas desde os primórdios clássicos por nomes como
Policleto na Grécia Antiga até ao apogeu renascentista com Miguel Ângelo, Leonardo da
Vinci ou Dürer.

Com base nos seus escritos, acredita-se que para da Vinci a face é dividida em três partes,
(superior, média e inferior), o espaço compreendido entre o mento e a base do nariz é a
terça parte da face, e é igual ao comprimento do nariz e da fronte. Para além disso
Leonardo contribuiu ainda com uma conclusão bastante inédita para a época: situa os
olhos no plano médio horizontal da cabeça afirmando que “do canto interior do olho ao
topo da cabeça é tão longe como de um [canto do olho] à parte debaixo do queixo”90.

88
Atlas Da Saúde [s.d] Prognatismo Mandibular, In Atlas Da Saúde [Consult. 22 Jun. 2014]. Disponível
em: WWW: <URL http://www.atlasdasaude.pt/publico/content/prognatismo-mandibular>.
89
Como o Orc é uma criatura de traços humanoides, será aqui efetuado um paralelismo em termos
proporcionais com o ser humano.
90
Ramos, José Artur (2010) Retrato : o desenho da Presença. Lisboa : Campo da Comunicação, p. 127.

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Fig.17. Leonardo da Vinci, Proportions of the Head, c. 1488-9.

Embora a divisão da face feita em três partes seja dominante, existem descrições de
divisões do rosto por quatro partes91, tais como nas proporções de Vitrúvio. De acordo
com o autor Artur Ramos, a proporção da cabeça calculada através da divisão em três ou
quatro partes é a mais divulgada:

“A questão da divisão em três ou quatro partes deve ser entendida perante


a especificidade de cada modelo, embora para o retrato possa ter sentido
considerarmos em particular o rosto desde que a sua relação com o todo
esteja compreendida. (…) O fundamental do retrato inscreve-se nestas
três porções do rosto, desde a fronte até à forma do queixo encontramos
aquilo que mais define a presença de alguém, a atenção do olhar
temperada pela regularidade ou irregularidade proporcional das três
partes que constituem o rosto”92.

Foi graças a estes estudos que surgiu a cefalometria93. Porém é curioso notar que a
avaliação das proporções esqueléticas não é equivalente (se for considerada uma divisão

91
No entanto, todas estas teorias apresentam problemas, mas como afirma Ramos, de uma maneira geral
todas as teorias se completam e reforçam, aceitando sempre a colocação dos olhos no plano médio.
92
Ramos, José Artur (2010) Op. Cit., p. 161.
93
A cefalometria é uma ciência que estuda as dimensões do crânio e da face. Em odontologia tem que ver
com determinadas combinações de medidas angulares do complexo craniofacial. Recorre-se a esta ciência
para avaliar o crescimento e desenvolvimento craniofacial de forma longitudinal, bem como no diagnóstico
para tratamentos ortodônticos.

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da face em terços iguais) à proporcionalidade facial dos tecidos moles. De acordo com
J.P. Boléo Tomé: “ O estudo estético não é comparável e muito menos sobreponível ao
estudo matemático ou geométrico da face. Por isso, pode-se afirmar que, quando existem
diferenças significativas entre os dados colhidos pela análise cefalométrica e os obtidos
pela observação clínica, é esta que deve prevalecer e não aquela”94.

Os pontos cefalométricos, no caso da Fig. 18, também utilizados na Antropometria, (os


pontos ósseos são referenciados no texto com iniciais maiúsculas e os cutâneos, em
iniciais minúsculas) vão permitir o traçado dos planos e ângulos que sustentam a
confirmação do diagnóstico clínico de um paciente prognata. Alguns dos principais
pontos são mostrados na Figura 18: o Trichion (tr), que corresponde ao ponto de
implantação mais anterior do cabelo, na linha média da fronte; o Nasion (N) que
corresponde à linha média da raiz nasal e também à sutura naso-frontal; o Subnasale (sn)
é o ponto médio do ângulo constituído pela base do septo nasal com o lábio superior e o
Gnathion (Gn) que é o ponto mais inferior da linha média do mento. Este ponto é usado
na medição da altura da face.

Fig. 18.Pontos Antropométricos e cefalométricos da face e terços esqueléticos.

94
Boleo-Tomé, J. (1997) Op. Cit., p. 46.

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Na Figura 19, são apresentados estes e outros pontos importantes tais como a Glabela (G)
que é o ponto mais saliente da zona entre as sobrancelhas e corresponde à glabela óssea
do osso frontal; o Nasion (N); o Orbitale (Or) que é o ponto mais inferior do rebordo
inferior da órbita, é idêntico ao orbitale ósseo; o Subnasale (sn); o Pogonion (pg), ponto
mais anterior da linha média do mento, localizado na superfície da pele, em frente do
ponto ósseo idêntico da mandíbula; o Gnation (Gn); o Mento (me) e finalmente, o Gonion
(go) que consiste no ponto mais externo do ângulo mandibular.

Fig. 19. Pontos cefalométricos. Original da autora, 2015

Estão ainda representados na Figura 19 outros pontos tais como a Espinha Nasal Posterior
(Pns), a Espinha Nasal Anterior (Ans), o Subespinale (A) que é um ponto de maior
concavidade entre a espinha nasal anterior e o processo alveolar, o Supramentale (B) que
é um ponto de maior concavidade entre o osso alveolar e o Pogonion, o Porion (Po) que
é o ponto mais superior do meato acústico externo; e finalmente a Sela (S), um ponto que
corresponde ao centro geométrico da sela túrcica, no osso esfenoide, (é o ponto médio
considerando o maior diâmetro horizontal).

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Através dos mencionados pontos, é possível estabelecer relações95, traçar planos e


ângulos extremamente relevantes para a configuração craniana do indivíduo. Alguns dos
planos são: O Plano de Frankfurt, (na Figura 18 representado a tracejado), corresponde
na posição normal da cabeça, numa posição ereta e olhando de frente à linha que une o
pré-tragus e o bordo inferior da órbita e que fica num plano paralelo ao plano horizontal;
já o Plano Frontal, (assinalado a vermelho também na Figura 18), é definido por uma
linha que parte do Nasion cutâneo e ósseo e é perpendicular ao plano de Frankfurt. O
Plano Maxilar é definido pela linha que une as duas espinhas nasais (PNS e ANS
presentes na Figura 19). O Plano Mandibular é definido pela linha que liga o Gnation ao
Gonion.

4.1.7. Proporções alteradas

Em termos de proporção e de funcionalidade, todas as estruturas são essenciais para um


bom desenvolvimento da face. No entanto, quando esta é alterada ou deformada, pode ter
consequências sérias não só em termos de crescimento como em termos de função.

Num indivíduo prognata existem traços que chamam de imediato a atenção, tais como: a
relação inversa das duas arcadas dentárias, com uma posição variável da mandíbula em
relação à maxila. Porém, podem existir outras possibilidades tais como um prognatismo
simples, (representado na Figura 20- A com as arcadas dentárias no mesmo plano
horizontal), um prognatismo com supra-oclusão, (Figura 20- B onde os incisivos
inferiores se podem sobrepor aos incisivos superiores), ou um prognatismo com infra-
oclusão, (Figura 20- C onde o plano dos incisivos inferiores se afasta do plano dos
incisivos superiores).

95
Existem ainda outras referências tais como a linha Sn (sela-nasion), linha Na (nasion- subspinale), linha
Sna (posição ântero-posterior da maxila em relação à base craniana), o ângulo Snb (sela-nasion-
supramentale) e o ângulo Anb (que indica as relações ântero-posteriores da maxila com a mandíbula).

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Fig. 20. Três situações de prognatismo.

Observando a face de um Orc, notamos que existe um apinhamento maxilar resultante da


falta de espaço na arcada superior, e no caso específico do prognatismo mandibular, a
dimensão está aumentada na mandíbula, condicionando a presença de espaços
interdentários. O apinhamento descrito é superior, por ter um maxilar de menores
dimensões. A sobreposição à arcada dentária superior e ainda a dificuldade em manter o
encerramento labial indicam que o tipo de prognatismo apresentado parece ser o
representado na Fig. 20-B, um prognatismo com supra-oclusão (ver Anexo de Imagens,
Fig. 24).

Fig.21. Representação do crânio do Orc, visto de frente (A) e visto de perfil (B). É de notar não só a
deformidade dento facial como as grandes presas e também as proporções alteradas no osso nasal e
craniano diminuto. As presas implantam-se na mandíbula num plano anterior ao dos dentes, o Orc
apresenta por isso incisivos iguais aos humanos. Original da autora, ilustração digital, 2014.

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Com o evidente avanço da mandíbula, parte integrante do terço inferior da face, surge
uma aparente redução do terço médio da mesma. Para além das alterações esqueléticas,
os tecidos de revestimento sofrem também transformações na sua configuração:
dependendo da capacidade de abertura ou encerramento da boca e da funcionalidade
orofacial global, os tecidos envolventes tomam um maior ou menor volume e expressão
dinâmica.

Fig. 22. Representação do tegumento comum de um Orc, visto de frente (A) e visto de perfil (B).Original
da autora, 2015.

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4.1.8. O prognatismo nos símios

O prognatismo nos símios é referido para esta dissertação porque existem traços seus
semelhantes na criatura abordada. Comparativamente aos seres humanos, os símios
apresentam um tipo de prognatismo “facial”, onde a face se projeta num plano anterior
ao da parte superior do crânio, consequentemente, o prognatismo bimaxilar nos símios é
muito mais acentuado, tornando-se claro o motivo para a comparação com o Orc96 (ver
Anexo de Imagens, Fig. 25).

Assim sendo, nos símios o prognatismo vai-se acentuando quanto mais velho é o animal,
no decurso do crescimento, havendo um maior desenvolvimento facial relativamente ao
desenvolvimento craniano. Em termos comparativos, o menor grau de prognatismo nos
símios é sempre superior relativamente ao Homem, sendo que, são os chimpanzés os mais
semelhantes ao Homem por se apresentarem menos prognatas. Os babuínos apresentam
um maior prognatismo bimaxilar, tendo uma forma pontiaguda na face, semelhante ao
focinho de cão (ver Anexo de Imagens, Fig. 26). No Orangotango, o prognatismo
bimaxilar é também bastante considerável, e os seus incisivos atingem o triplo do volume
relativamente aos incisivos humanos. Possui ainda outras características tais como: uma
grande obliquidade da face em relação ao crânio, (muito acentuada no símio e pouco no
Homem) e ainda um grande volume da face em relação ao crânio, (no caso do Homem o
volume da caixa craniana não é ultrapassado).

Em termos de dentição, os dentes dos símios são muito maiores, comparativamente aos
humanos: os chimpanzés por exemplo, possuem caninos afilados e pronunciados que são
usados em mecanismos de defesa. Nenhum símio possui mento.

96
Henriques Garcia, Inês et al. (2015) Op. Cit., p.19.

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Fig. 23. Representação de um crânio de Chimpanzé. Original da autora, 2015.

4.1.9. O porquê de ser desproporcional: Acromegalia

Como já foi mencionado, em termos de aparência os Orcs são humanoides com uma
mandíbula procidente. Mas, para além destes traços físicos óbvios, esta criatura é bastante
larga, musculada e com as extremidades claramente desproporcionais relativamente ao
resto do corpo, tendo já sido descrito que esta criatura padece de uma
desproporcionalidade no maxilar inferior: uma anomalia denominada de prognatismo.

Ora para além desta característica anómala, o Orc apresenta ainda outra: as extremidades
desproporcionais que curiosamente, podem ser comparadas com uma doença, a
Acromegalia.

Esta doença é provocada na maior parte dos casos, pela existência de um tumor
hipofisário benigno, do tipo adenoma; as células afetadas pelo tumor deixam de responder
a regulações hormonais normais, segregando a hormona de crescimento em quantidades
exageradas. Consequentemente é produzido um estímulo hormonal excessivo em todo o
organismo, provocando o crescimento atípico dos ossos e do tecido conjuntivo em idade
adulta97.

97
Medipédia (2014) Gigantismo e acromegalia, In: Medipedia.Pt [Consult. 25 Fev. 2015]. Disponível em:
WWW: <URLhttp://www.medipedia.pt/home/home.php?module=artigoEnc&id=251>.

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A hipófise, (localizada na base do cérebro), é responsável pela libertação de hormonas


que controlam diversas funções do corpo, incluindo o crescimento. Estas hormonas de
crescimento são extremamente importantes para o desenvolvimento. Quando circulam
em níveis elevados na corrente sanguínea, poderão provocar um crescimento anormal.

Normalmente, a hipófise liberta as hormonas de crescimento em níveis altamente


controlados, mas por vezes desenvolvem-se tumores benignos que forçam a hipófise a
segregar elevados níveis hormonais. Estes tumores podem desenvolver-se ao longo da
vida adulta, após verificar-se uma paragem de crescimento dos ossos em comprimento.
Há também nova promoção de crescimento da cartilagem articular e dos ligamentos
periarticulares, que induzem à deformação das extremidades, que é característica nesta
doença.

Nestas situações, as hormonas libertadas fazem com que o indivíduo adquira um aspeto
diferente em termos de proporções: a mandíbula aumenta de tamanho, as arcadas
supraorbitárias tornam-se salientes, bem como a face, nariz, orelhas, lábios e língua. A
fronte torna-se mais proeminente, o maxilar mais espesso e protuberante e as mãos e pés
bastante largas, (os ossos das mãos e pés aumentam o seu diâmetro de tal maneira que
dão a aparência de que os dedos são curtos). Esta hormona provoca ainda outras
repercussões tais como a alteração da pele que se torna espessa, dura, seca e enrugada,
bem como outras consequências a nível de órgãos mais profundos: macroglossia,
hipertrofia da faringe e laringe o que provoca uma voz gutural. Aumenta a massa óssea,
há espessamento da pele, existindo também hiperhidrose (causando mais suor)98.

98
Para mais informações consultar o website Medipédia artigo Gigantismo e acromegalia.

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Fig.24. Tegumento comum do corpo de um Orc. Onde se podem notar as principais características
descritas da doença acromegalia, a saber: mandíbula procidente, mãos e pés bastante largos, ou seja, as
extremidades da criatura.

Porém, contrariamente ao que se possa inferir devido ao já descrito crescimento anormal


da hipófise, um individuo que sofra de acromegalia não é necessariamente gigante.
Embora o estímulo hormonal provoque um aumento da espessura dos ossos e dos tecidos
moles, não provoca uma alteração em termos de estatura pois a acromegalia como o
próprio nome indica (do grego acro=extremo e megalia= grande) evidencia um
desenvolvimento excessivo das extremidades do corpo, ou seja na face, mãos e pés.

Por outro lado, existe também uma doença muito semelhante: esta sim, capaz de provocar
um crescimento em altura excessivo. As diferenças entre a acromegalia e o gigantismo
prendem-se apenas com a fase em que sucedem: no caso do gigantismo, o início das
alterações do excesso da hormona de crescimento sucede na infância, (antes da puberdade

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ter início), provocando um crescimento exagerado no comprimento dos ossos, vísceras e


tecidos moles, resultando numa altura muito superior à que seria normal.

No caso da acromegalia como já foi anteriormente referido, as alterações têm lugar já na


fase adulta e o crescimento intensifica-se em termos de espessura, engrossando as
extremidades do corpo, enquanto, no caso do gigantismo o crescimento é harmonioso,
proporcional.

Nos Orcs existe também a possibilidade de gigantismo, e dado que numa cultura em que
a força física é considerada essencial, quem possui dimensões maiores é visto como
venerável e geralmente exibe uma melhor condição física, ao contrário do caso humano
em que o gigantismo ao provocar uma altura superior à que o corpo humano está
habituado, cria fragilidades a nível ósseo e articular, dado que o peso suportado tende a
ser excessivo.

Por conseguinte, apesar de na fantasia ter conotações ligadas ao poder, os pacientes que
na realidade sofrem de tumores na hipófise durante a vida adulta ou infância sofrem de
graves problemas, podendo sucumbir ainda muito jovens na ausência de cuidados
especializados. Têm frequentemente fortes enxaquecas, diminuição da acuidade visual,
dores nas articulações, desenvolvem uma elevada pressão arterial, diabetes, problemas de
coração, doenças pulmonares e quase sempre também padecem de problemas
psicológicos devido às alterações físicas de aparência.

Em termos genéticos, e de acordo com Matt Kaplan, autor do livro The Science of
Monsters existe uma probabilidade destes genes serem hereditários pois alguns
indivíduos carregam este gene anormal, mas nem todos desenvolvem um tumor na
hipófise. A razão dos genes tornarem alguns indivíduos gigantes é ainda desconhecida,
mas o resultado torna claro que os gigantes humanos existiram através da história, e
enquanto os próprios gigantes são frequentemente estéreis, os seus irmãos, que carregam
o gene e não desenvolvem o tumor, têm o potencial genético para “criar gigantes”, se
tiverem uma grande prole. Atualmente já é possível diagnosticar de forma rápida e eficaz
estes pacientes devido ao historial genético dos familiares e também com a possibilidade
de destruição precoce dos tumores, bem antes de provocarem qualquer tipo de alterações.

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Muito provavelmente, a equipa que desenvolveu a versão desta criatura para o jogo World
of Warcraft poderá ter tomado em atenção todas estas particularidades, (mandíbula
saliente, extremidades desproporcionais, pele mais endurecida), para o desenvolvimento
da sua versão do Orc. Apesar de constituir apenas uma suposição é perfeitamente clara e
plausível que se aproveitem todas estas características que fazem muito sentido para o
monstro em contexto: todas elas lhe atribuem um semblante ameaçador, imponente e
guerreiro.

Devido ao meio em que estas criaturas subsistem na fantasia (um meio hostil, desolado,
com condições climatéricas extremas) organizando-se em clãs e tribos, torna-se
necessário que desenvolvam todas estas características físicas descritas, bem como
possuam um porte imponente para estarem aptos a desempenhar funções que permitam a
sua sobrevivência no meio (como por exemplo a caça, a recolha de recursos escassos:
madeira, minerais, água) em grandes quantidades de forma rápida e eficiente. Existe
também a necessidade de proteger a sua comunidade de outras criaturas selvagens que
possam pôr em risco a sua continuidade. Pode ser feito aqui um comparativo com a
subsistência de tribos nas regiões mais agrestes de África, em que os indivíduos mais
fortes atingem uma posição superior (como por exemplo a tribo africana Massai e os
Zulus)99.

99
Henriques Garcia, Inês, et al. (2015) Op. Cit., p. 22.

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4.2. Ciclope: Mitologia


4.2.1. Raízes Classicistas

Os ciclopes100 eram considerados na mitologia grega como gigantes imortais e também


por serem «conhecidos pelo nome de Ciclopes, porque/ tinham este só olho circular na
testa»101. De acordo com o hino de Calímaco trabalhavam com Hefesto como ferreiros,
tendo sido eles os autores dos raios forjados de Zeus. Desde os tempos da teratologia
clássica, que esta característica de possuírem um único olho é denominada de ciclopia.

Na mitologia, (embora a sua origem seja bastante controversa), os ciclopes podem ser
divididos em dois grupos: os ciclopes de primeira geração, (antigos), e os ciclopes da
nova geração, (mais recentes). Relativamente à sua origem, estes seres são organizados
em três espécies diferentes: os Urânios, (filhos de Úrano e Gaia), os Sicilianos (filhos de
Posídon) e os Construtores, que procedem de Lícia.

Os Urânios pertenciam aos titãs e eram três irmãos: Arges, Estéropes e Brontes, (filhos
de Úrano e de Gaia102), estes ciclopes são considerados como os mais antigos, tendo sido
posteriormente, assassinados pelo deus Apolo103. São abordados na célebre obra,
Teogonia de Hesíodo (aproximadamente entre os séculos VIII e VII a.C.), onde surgem

100
Do grego Κύκλωψ, que significa "olho redondo".
101
Hesíodo (2005) Teogonia, Trabalhos e Dias. Trad. Ana Elias Pinheiro e José Ribeiro Ferreira. Lisboa:
Imprensa Nacional- Casa da Moeda, p.45.
102
Em traços gerais, de acordo com a lenda quando nasceram os «mais temíveis filhos», o seu pai Úrano,
(o Senhor dos Céus), aprisionou-os no interior da Terra, em Tártaro (personificação do Mundo Inferior),
com os seus outros irmãos Coto, Briareu e Giges, (gigantes de cem braços e cinquenta cabeças). A sua mãe
Gaia, enraivecida, incita os seus filhos a ajudar os titãs, (também seus irmãos), a tomar o trono do pai,
governante dos céus. A vitória é alcançada, mas os ciclopes são enviados novamente para Tártaro. Será
Zeus, (assim como Posídon e Hades) a libertar os ciclopes com o intuito de os ter como aliados na guerra
contro Cronos e os titãs. Como bons ferreiros, serão estas criaturas a forjar os raios e relâmpagos, como já
foi referido, assim como um tridente para Posídon, (capaz de provocar terríveis tempestades), e o Elmo do
Terror para Hades, (que lhe conferia invisibilidade). Os ciclopes foram por isso considerados ministros de
Zeus e seus ferreiros permanentes.
103
Asclépio, filho de Apolo, através de inúmeros estudos conseguiu ressuscitar os mortos e para que isso
não causasse desequilíbrio na ordem do mundo, Zeus decidiu aniquilá-lo. Enraivecido com a decisão de
Zeus, Apolo decidiu matar os ciclopes. Porém especula-se de que não foram os ciclopes a morrer, mas sim
os seus filhos.

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descritos como “em tudo semelhantes aos deuses,/mas tinham um único olho no meio da
testa”104 e ainda que “em todas as suas obras havia força, violência e perícia”105. Os
ciclopes tal como todos os descendentes da Terra eram monstruosos. De acordo com este
autor, estas criaturas eram muito fortes e manhosas, incitando o ódio ao próprio pai 106,
(Úrano).

Os ciclopes Sicilianos surgiram na obra de Homero, como gigantes insolentes, canibais e


sem moral. Eram pastores que negligenciavam a agricultura chegando a invadir os
terrenos cultivados, em busca de alimento, pois: «confiando nos deuses imortais, nada
semeiam/com as mãos nem aram a terra; mas tudo cresce/ e dá fruto sem se arar ou plantar
o solo;»107. Por conseguinte, eram considerados «arrogantes e sem lei»108, vivendo
autonomamente em cavernas na parte sudoeste da Sicília, juntamente com a sua família.

Na Odisseia, (ca. VIII a.C.), apesar das súplicas de Ulisses para que o ciclope Polifemo
aceitasse com hospitalidade a sua vinda e a dos seus companheiros, a criatura temível
devora dois dos homens de Ulisses. Desta feita, o herói, famoso pela sua astúcia, (pois foi
o autor do cavalo de Troia), inebriou o ciclope e com a ajuda dos seus homens, trespassou
um tronco de oliveira em chamas no olho do monstro adormecido. A injúria foi tão
extensa e profunda, que nem Posídon a pode curar109. Homero não especifica se todos os
ciclopes tinham apenas um olho, mas Polifemo, o principal entre eles, é o único descrito
dessa forma. (ver Anexo de Imagens, Fig. 30).

104
Hesíodo (2005) Op.Cit., p.45.
105
Idem, Ibidem.
106
Hesíodo assumiu que estes versos representavam as atitudes sociais consideradas normais na sua era
face às crianças doentes de deformidades congénitas.
107
Homero (2003) Odisseia. Trad. Frederico Lourenço. Lisboa: Livros Cotovia, p. 148.
108
Idem, Ibidem.
109
O monstro não teve salvação devido ao facto de ao se apresentar, Ulisses ter-se intitulado de “Ninguém”.
Assim sendo, ao ser interpelado por outros Ciclopes, Polifemo respondia sempre que fora Ninguém a
injuriá-lo, claro que foi desacreditado por todos pois «Se na verdade ninguém te está a fazer mal e estás aí
sozinho, /não há maneira de fugires à doença que vem de Zeus».

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Na obra Metamorfoses ( lançado Ca. VIII d.C.) de Ovídio surge-nos igualmente o Ciclope
Polifemo que, antes do encontro com Ulisses, apaixona-se por Galateia uma divindade
marítima filha de Nereu e Dóris que vivia na Sicília. Porém esta nereide rejeita o amor do
ciclope em detrimento de um jovem pastor, Ácis, filho de Fauno e de uma ninfa do
Simeto: «Por outro lado, eu suportaria melhor ser desprezado por ti,/ se fugisses a todos;
mas por que razão escorraças o Ciclope,/ e, ao mesmo tempo, amas Ácis e Ácis preferes
a meus abraços?»110 .Quando Polifemo os encontra juntos, num ímpeto de ciúmes esmaga
Ácis com uma pedra: «O Ciclope vai atrás dele. Arranca parte de uma montanha/ e
arremessa-a contra ele; e embora apenas a extremidade do pedregulho mal o tenha
atingido, esmagou Ácis todo.»111

Fig. 25. Aniballe Carracci, O Ciclope Polifemo. Fresco,1605.Palazzo Farnese.

110
Ovídio (2010) Metamorfoses. Trad. Paulo Farmhouse Alberto. Lisboa: Livros Cotovia, p. 334.
111
Ibidem, p. 335.

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Por volta do século V a.C., o ciclope volta a surgir desta vez numa obra com o seu nome,
Ciclope da autoria de Eurípides112. Porém, aqui o ciclope é caracterizado como uma
criatura mais agradável e menos brutal, com um certo ar burguês, filho de Posídon e da
Ninfa Tossa, (pertencentes por isso ao grupo da nova geração de ciclopes, os Sicilianos).
Eurípides vai mais longe do que Homero quando defende que a ilha onde o ciclope foi
encontrado por Ulisses era a Sicília e menciona que a caverna onde ele vivia era no
famoso vulcão Etna: «atiraram-nos sobre esta rocha do Etna, de onde os ciclopes
homicidas de um só olho, filhos do deus do mar, habitam em cavernas solitárias»113. Em
traços gerais, a tragédia grega não altera o argumento do mito, mas sim a causa para a
cegueira de Polifemo. O ciclope surge neste drama satírico como uma representação da
vida natural e simples, onde o costume e as leis não têm lugar114.

O célebre Polifemo foi bastante representado na arte grega figurando nas pinturas em
vasos, esculpido em bronze ou gravado no mármore, por vezes a atirar pedregulhos ou
em agonia enquanto Ulisses o feria com estacas em chamas no seu único olho, para tentar
escapar da ilha dos ciclopes (ver Anexo de Imagens Figs.28-31). Homero não identifica
a ilha onde estas criaturas viviam, no entanto, Ovídio defendia que esta raça mirabolante
vivia nas escarpas do Etna na Sicília.

A terceira espécie de ciclopes, os denominados Construtores, terão sido provenientes do


território de Lícia. Eram considerados como grandes arquitetos, pacíficos, e possuidores
dum grande poder físico. Os seus trabalhos eram tão árduos que nenhum humano era
capaz de os realizar. Suspeita-se que esta terceira geração115 terá sido a autora das
muralhas ciclópicas das cidades de Tirinto e Micenas.

112
Este autor foi sem dúvida beber influências na Odisseia.
113
Eurípides (1991) Tragedias I: El Cíclope- Alcestis- Medea-Los Héraclidas- Hipólito- Andrómaca-
Hécuba. Trad. Alberto Medina González e Juan Antonio López Férez.Madrid: Editorial Gredos, p. 112.
114
Ibidem, p. 104.
115
De acordo com o que é mencionado no Website Myth Index, esta lenda parece ser uma mera invenção,
pois não possui uma explicação histórica nem geográfica. Pois as muralhas ciclópicas terão sido
provavelmente construídas por uma civilização mais antiga.

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Curiosamente, a iconografia do ciclope evoluiu deste o período clássico, os ciclopes


ganharam um estatuto ontológico, justificado pelas observações de exploradores. É
interessante estabelecer aqui uma relação entre o mito e a arte, pois existe uma enorme
diversidade nos materiais formais e temáticos das peças de cerâmicas gregas. A cegueira
do ciclope é representada em diversos potes descobertos durante as escavações em várias
cidades gregas que remontam aos séculos VII, VI e V a.C.

Em termos científicos, é de notar igualmente a exatidão anatómica da cena da cegueira


de Polifemo: este facto juntamente com as descrições detalhadas, dá aso à suspeita de que
Homero ou era médico ou tinha um amplo conhecimento sobre medicina.

No ano de 77 a.C., Plínio, o Velho terminou a sua obra Historia Naturalis. Plínio povoou
a Índia e a Etiópia com uma autêntica trupe de raças fabulosas, desde os cinocéfalos, às
criaturas sem cabeça com olhos nas omoplatas, aos pigmeus, entre outros, (ver capítulo
I- Uma Breve História sobre os Monstros). Este foi o início de uma longa tradição de
raças fabulosas que perdurou durante sensivelmente quinze séculos.

Os escritores cristãos adotaram esta tradição, tendo sido alvo de diversas teorias tais como
as de Santo Agostinho sobre a origem e descendência destas raças, (ver capítulo I- Uma
Breve História sobre os Monstros). Já na Idade Média, os ciclopes permaneciam
inalterados nos manuscritos e monstruários tais como o De Naturis Rerum de Thomas de
116
Cantimpré . Porém, apesar de toda a teorização, estas criaturas eram também
prenúncios para maus augúrios.

116
Thomas de Cantimpré, (1201-1272), também conhecido como Thomas Cantimpratensis, entre outros
nomes, era um escritor medieval, pregador e teólogo. Foi professor de filosofia e teologia, tendo viajado
pela Alemanha, Bélgica e França. O seu mencionado manuscrito De Naturis Rerum, é uma compilação de
todo o conhecimento no âmbito da história natural da época, incluindo o que atualmente se denomina como
antropologia, zoologia, botânica, mineralogia, astronomia, astrologia e meteorologia. O seu intuito era criar
um texto que servisse como uma introdução às “ciências naturais”, para uso dos pregadores e outros
eclesiásticos.

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É no século XIV que é por fim estabelecido que os ciclopes são descendentes de Caim e
Can, (filho de Noé). Com o tempo, o ciclope começa a “diminuir”, torna-se mais pequeno
e menos selvagem, aproximando-se novamente das suas origens enquanto criatura
fantástica.

4.2.2.Teorias Adversas

Á primeira vista, poderá ser óbvia a ligação entre os ciclopes narrados nas epopeias,
histórias, lendas e outros contos, com a doença ciclopia. No entanto, existe alguma
polémica neste domínio.

Muitos autores relacionam a criatura mitológica à malformação congénita humana real.


Porém, existem outras opiniões contrárias. Existem teorias que defendem que a
deformidade existente é pouco provável de ser responsável pela criação desta criatura
devido à estrutura anatómica da face, pois o olho de um feto ciclópico surge na maior
parte das vezes por baixo do nariz, (ou quando este existe de todo), pois a representação
mais antiga de Polifemo retrata a sua face mais ou menos «harmoniosa», com o seu único
olho acima do nariz.

Outros autores afirmam que a origem destas criaturas se deve aos fósseis de animais
encontrados. De acordo com o paleontólogo Othenio Abel (1914), os elefantes anões pré-
históricos, com o dobro do tamanho de um crânio humano, foram encontrados por todo o
Mediterrâneo pelos gregos. A sua larga cavidade nasal no crânio poderá ter sido
interpretada como uma órbita enorme. Os restos mortais de um elefante pigmeu no
período glaciar na Sícilia, Palermo e Trapani podem ter dado origem à ideia do fabuloso
ciclope gigante. O ciclope era também conhecido na Ásia, sendo que o seu olho aqui
poderia remeter para fósseis de anfíbios e répteis e o polémico terceiro olho poderia estar
rudimentarmente presente na glândula Pineal do Homem. Porém esta explicação é
falaciosa pois as figuras mitológicas gregas possuíam um único olho.

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Fig. 26. Crânio de elefante visto de frente. Original da autora, 2015.

Por conseguinte, supõem-se que existam duas teorias para o surgimento dos ciclopes. A
primeira é que os escritores gregos estavam possivelmente familiarizados com a
deformidade humana, e Homero com a sua história sobre Polifemo, e mais tarde o poeta
árabe que escreveu Sinbad, o marinheiro, influenciaram os escritores medievais. Na Idade
Média não havia qualquer dúvida sobre o facto de os ciclopes viverem em zonas
desconhecidas da Ásia e África. O lugar onde os Monuculi viviam foi descrito na
Cosmographia Universalis de Sebastian Münster,

No entanto, o que defendemos na presente dissertação é precisamente uma base assente


na teoria da ciclopia, por diversos motivos. Em primeiro lugar, como se verá no ponto
4.2.6 A ciclopia na ciência atual, respeitante à anomalia em si, a ciclopia é uma
malformação crânio-encefálica relativamente comum, (tendo em conta a população
mundial) e pouco divulgada, o que torna em termos probabilísticos relativamente
plausível algumas ocorrências de nascimentos de fetos ciclópicos; e em segundo lugar, a
semelhança com um crânio de elefante é relativa pois um crânio de elefante em termos
anatómicos é completamente díspar de um crânio humano, que foi representado ao longo
dos séculos não havendo por isso, motivos para serem confundidos. A questão da

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harmonia facial também pode ser justificada pelo simples motivo de já estar comprovada
a tendência clássica para a idealização dos retratos.

Porém, paira ainda a questão do ciclope grego ser «gigante». Esta característica pode ser
justificada pelo simples facto de que esta criatura mitológica era antagónica aos heróis,
desta forma a única maneira de tornar um ser humano de estatura normal mais feroz é
precisamente aumentar-lhe a escala, o que aliada à sua peculiar fisionomia facial era um
desafio perfeito para o protagonista da história.

4.2.3. Videojogos

4.2.3.1. Universo Warcraft- Gronns, Ogron e Ogres

4. 2.3.1.2. Gronn

Neste universo os ciclopes não existem tal como nos mitos clássicos, mas sim adaptados
às criaturas Gronn, Ogron e Ogre. Estas raças partilham o mesmo percurso evolutivo, no
entanto os primeiros, (Gronn) são pertencentes a um clã de gigantes, nos seguintes
(Ogron), existe um elo de ligação com os Ogres e estes últimos são a raça que mais se
assemelha aos conceitos mais tradicionais da mitologia e do cinema.

Os Gronn são criaturas ciclópicas gigantescas (ver Anexo de Imagens Fig. 27)
pertencentes ao imaginário do universo Warcraft, estando particularmente presentes na
mais recente expansão do referido videojogo denominada de Warlords of Draenor. Estas
criaturas habitam Draenor, um planeta selvagem desprovido de áreas de urbanização e
com uma consequente vida selvagem extensa. Os Gronn, cuja descendência provém de
gigantes de pedra117 que serviam como guardiões da natureza, geralmente habitam em
áreas montanhosas ou áridas, regiões vulcânicas ou grutas de grandes dimensões. A
fisionomia desta criatura é caracterizada por ter os membros superiores exageradamente

117
De acordo com Kappler, as criaturas hibridas para além de serem junções entre vários animais, poderão
também ser entre animais, minerais ou plantas. Esta ligação com a natureza remete para o mito da “Terra
Mater” em que a Terra é considerada uma mãe fecunda e tudo o que produz é orgânico e animado, «não só
homens e plantas, como também pedras e minerais». As pedras são assim consideradas os “embriões da
terra”.

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grandes, (sendo por isso justificados com a doença Acromegalia- ver capítulo 4.1.9. O
porquê de ser desproporcional: Acromegalia), com apenas três dedos, espigões e
protuberâncias rochosas a sair das suas costas, que percorrem inclusivamente o seu
crânio, pois este contém protuberâncias na parte posterior.

Fig. 27. Representação da criatura ancestral da qual provém o Gronn. Esta criatura rochosa denomina-se
Magnaron. Original da autora, 2015.

Esta criatura gigantesca (ver Anexo de Imagens, Fig. 27) contém apenas um olho de cor
amarelada no centro da sua face, sendo consequentemente a ciclopia a sua característica
mais individualizada comparativamente a outras criaturas de dimensões semelhantes.
Esta raça é muitas vezes utilizada como “máquina viva de guerra” pelos seus
descendentes evolutivos, os Ogres. Os Gronn que ainda não atingiram a idade adulta são
denominados de Gronnling e são muitas vezes utilizados como montadas. A evolução
dos Gronn ao longo dos tempos é caracterizada pela sua humanização em termos de
morfologia e fisionomia, adquirindo paulatinamente uma aparência mais humanoide.

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Fig. 28. Gronn. Original da autora, 2015.

4.2.3.1.3. O elo Perdido- Ogron

Durante a sua evolução, enquanto alguns Gronns estagnaram o seu desenvolvimento,


outros adquiriram características mais humanoides, tais como a diminuição da proporção
dos membros superiores, uma postura mais ereta, a perda de algumas das protuberâncias
dorsais e ainda uma significativa alteração a nível da face que adquire feições menos
agressivas e se torna mais arredondada, estas criaturas conservam ainda uma mandíbula
saliente, prognata, com dentes de grandes dimensões (ver Anexo de Imagens, Fig. 27),
ainda que cada vez menores. A estas criaturas humanoides é atribuído o nome de Ogron.

Os Ogron conservam a maior parte das características dos seus parentes Gronn,
(nomeadamente na cabeça com a ciclopia e o prognatismo), mas embora não sejam
criaturas manifestamente inteligentes, denotam uma certa capacidade de comunicar
através de uma linguagem comum às outras criaturas, tais como os Orcs e os Humanos.
A nível social estes seres estão ao serviço dos seus parentes Ogres que, sendo
consideravelmente mais inteligentes, os dominam dado que os Ogron são demasiado

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limitados para se imporem e recorrerem à força física contra os seus superiores. Os Ogron
são por isso considerados como o elo perdido entre os Gronn e os Ogres.

Fig. 29. Representação de um Ogron. Original da autora, ilustração digital, 2015.

4.2.3.1.4. Ogres

Os Ogres são criaturas menos robustas do que os seus semelhantes evolutivos: menos
musculados e com um abdómen proeminente. Ao contrário dos seus parentes, não
possuem a ciclopia como característica permanente em todos os espécimenes, desta forma
esta característica comum em outros, torna-se rara no Ogre. Em termos de traços gerais,
as características mais marcantes ao nível da face é o prognatismo e a existência de um
chifre que emerge do topo do seu crânio.

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Fig. 30. Representação de um Ogre. Original da autora, ilustração digital, 2015.

Os ogres são descritos como criaturas maiores do que os humanos mas não tão grandes
como os seus parentes evolutivos mencionados anteriormente (ver Anexo de Imagens,
Fig. 27). Inicialmente, eram escravos ao serviço dos Gronn, no entanto facilmente se
libertaram por demonstrarem maior engenho e inteligência.

Na sua maioria, os ogres agrupam-se em tribos, vivendo em ambientes hostis e isolados


(ver Anexo de Imagens, Fig. 14), pois são vistos pelos humanos como monstros sendo
por isso considerados como uma ameaça. A maior parte destas criaturas vive como
caçadores-recolectores, em tribos lideradas por xamãs. A violência faz parte da cultura
ogre, sendo por isso totalmente aceitável a violência física e o assassinato entre rivais
como forma de obtenção de poder e/ou estatuto. Por outro lado, também existe na sua
cultura uma admiração por qualquer outro individuo capaz de os derrotar em combate,
(daí que alguns procurem refúgio na Horde, a fação liderada pelos Orcs- adaptando a sua
forma de subsistência para alcançarem maior segurança, quer seja pela maior facilidade
de obtenção de recursos, quer pela maior facilidade em resistir a ataques humanos).

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Apesar de mais inteligentes do que os seus antepassados, os Ogres, em comparação com


outras raças, não são tão dotados, à exceção dos ogres Magi118. Estes nascem com duas
cabeças, sendo que uma delas sofre de ciclopia. Na sua maioria, são fruto de experiências
realizadas por xamãs da tribo que acreditam que «duas cabeças pensam melhor do que
uma». Os que se destacam pela inteligência superior à dos seus pares direcionam-se para
o estudo da magia e da alquimia e tornam-se Magi.

Fig. 31. Representação de um Ogre Magi. Original da autora, ilustração digital, 2015.

Exteriormente ao universo Warcraft, os ogres surgem na mitologia e folclore como seres


que se alimentam de humanos e como personagens recorrentes em bastantes obras de
literatura, cinema e animação.

118
Este termo é baseado nos Ogres dos jogos de computador e tabuleiro da série Dungeons and Dragons.
A maioria destes ogres que nascem com duas cabeças sofrem de ciclopia numa delas- uma herança dos seus
antepassados Gronn e Ogron, e em alguns casos, a segunda cabeça tem uma personalidade própria, (esta
característica é utilizada como elemento humorístico, quando surgem discordâncias entre uma cabeça e a
outra).

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A etimologia do termo Ogre deriva, tal como a do Orc, do deus etrusco Orcus, (consultar
capítulo III- Orc: uma definição). Existem também outros autores que defendem que a
palavra Ogre deriva de Hongrois, (húngaro), pois estes eram vistos pelas culturas
ocidentais como monstruosos.

4.2.3.1.5. Os Ogres e Ciclopes nos videojogos: Dungeons and Dragons, Warhammer,


Final Fantasy, The Elder Scrolls e Heroes of Might and Magic

Estas duas criaturas surgem regularmente como antagonistas, sem grandes capacidades
intelectuais, sendo apenas possuidoras de imensa força bruta.

No jogo de tabuleiro e nos videojogos sucessivos de Dungeons and Dragons, os ogres


são criaturas de mentalidade simples, temperamentos imprevisíveis e apetites vorazes.
São gigantes e, consoante as edições deste jogo a sua tez vai desde o laranja ao rosa
acinzentado. Os ogres utilizam peles de animais como vestuário e escravizam as raças
menores, são ainda caracterizados como seres malévolos, que veneram deuses malignos
e praticam sacrifícios (ver Anexo de Imagens, Fig. 32).

No jogo Warhammer, os ogres são influenciados por uma certa estética mongol,
utilizando um tipo de magia inédita conhecida como Gut-magic ou em português, Magia
das Tripas/Intestinos, cujos feitiços conjurados dependem do que o utilizador tenha
ingerido. Estes ogres são carnívoros, comem qualquer tipo de carne sendo inclusivamente
canibais. São apresentados perante as outras raças como mercenários de modo a serem
pagos para praticar o que mais lhes satisfaz: a violência.

Em Final Fantasy, o ogre surge como uma das primeiras personagens musculadas e
peludas que tinha como tática de combate a força bruta e contra-ataques sem grandes
preocupações com a técnica ou a forma como essa força era aplicada (ver Anexo de
Imagens, Fig. 33).

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Em Elder Scrolls, os ogres possuem grandes dimensões, primitivos cognitivamente


resolvendo tudo através de esmagamentos com os seus punhos. Habitam em Cyrodiil,
uma floresta enorme na província de Tamriel.

Finalmente, no universo de Heroes of Might and Magic, (ver Anexo de Imagens, Fig. 34).
os ogres são descritos como criaturas que se subdividem em vários tipos: os ogres
comuns, (criaturas lentas que empunham machados e mocas, com grande durabilidade e
resistência), os ogres guerreiros, (que se destacavam pelo seu intelecto superior ao normal
e se associavam com povos bárbaros autoproclamando-se lordes, adotando armaduras de
aspeto oriental) e por último, os ogres Magi, (que eram vistos como génios, que se
dedicavam ao estudo da magia e se apresentavam como xamãs ou feiticeiros das suas
tribos).

4.2.4. Deformidades Anatómicas


Ciclopia: um estudo antigo

Durante vários séculos, existiu grande especulação relativamente à origem da ciclopia.


Ambroise Paré (1510-1590), declarou que os monstros, (incluindo os recém-nascidos
ciclopes), poderão ter várias causas tais como as premonições ou castigos face aos
comportamentos do Homem.

Segundo pensamos, o caso mais antigo de ciclopia registado na Europa é de 1619 em


Itália numa carta “Landi conte Ippolito, Lettera al figlio Ottaviano da Vienna li 8
settembre”119. Porém, o ciclope estudado por Furtunio Liceti é o mais bem fundamentado
da época, na sua obra De Monstrorum, descreve uma pequena rapariga nascida em Firme,
Itália, em 1624, com um:

“corpo bem constituído e organizado enquanto que a cara era horrível. No meio
da sua cara, no lugar do nariz, existia uma massa de pele semelhante a um pénis

119
Baljet, B.;Van Der Werf, F.; Otto, A.J. (1991) Willem Vrolik on cyclopia. Documenta
Ophthalomologica, Kluwer Academic Publishers p. 356.

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ou uma pera. Por baixo uma massa quadrada de aspecto avermelhado onde se
conseguia observar um par de olhos unidos, semelhantes a olhos de galinha”120.

Embora a criança tenha morrido à nascença é descrita como tendo o tamanho de uma
criança de dez anos, (o que invoca em certa medida o legado dos ciclopes gigantes). Liceti
descreve ainda outro caso de ciclopia desta vez em gémeos siameses121. Os seus crânios
estavam unidos de modo que os fetos estavam de costas um para o outro, tendo as mesmas
características que o primeiro caso descrito pelo autor.

Curiosamente, Liceti não encarava a ciclopia como uma malformação congénita. No


século XVIII, as ideias sobre a área da teratologia tornaram-se cada vez mais apelativas
para os cientistas, que começaram a colecionar espécimenes humanos e animais com
malformações. Baseado nas suas próprias observações e estudos, Geoffroy Saint-
Hillaire122, em 1832 classificou as anomalias faciais do homem e dos animais em duas
famílias: a Cinocefalia, (Kyklos=círculo) e a Otocefalia (Otos=ouvido).

No primeiro caso, existe uma aproximação de uma união variável das órbitas e dos seus
conteúdos, com os ouvidos posicionados corretamente, enquanto, no segundo caso, existe
uma aproximação da união do ouvido externo e do ouvido médio na linha média, redução
ou ausência da mandíbula e por vezes, aproximação ou fusão das órbitas ou das estruturas
oculares. Neste período, foi Willem Vrolik na Holanda, quem mais estudou a
malformação e reuniu diversos exemplares humanos e animais com esta malformação.

120
Leroi, Armand Marie (2005) Mutants: On the Form, Varieties and Errors of the Human Body. London:
Harper Perennial, p.71.
121
Note-se que estas duas características de gémeos siameses e ciclopia são uma combinação de
deformidades raríssima e até questionável, mas neste caso estão bem fundamentadas com provas
apresentadas no relatório médico do caso.
122
Étienne Geoffroy Saint-Hilaire, (1772-1844), foi um naturalista e zoólogo francês. É considerado como
o fundador da teratologia, (ramo da medicina que estuda as malformações congénitas).

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4.2.5. Willem Vrolik: um pioneiro na área

No final do século XVIII Gerardus Vrolik (1775-1859), iniciou uma coleção de


espécimenes que mais tarde deram origem ao Museu Vrolik. Gerardus estudou medicina
na Universidade de Leiden, formando-se como Doutor em Medicina. Os seus interesses
científicos eram variados, tendo investigado também na área da teratologia.

O seu filho, Willem Vrolik (1801-1863), também se formou como Doutor em Medicina
em Utrech, e posteriormente, foi nomeado professor extraordinário de Anatomia e
Embriologia na Universidade de Groningen. Durante a sua estadia em Groningen, Vrolik
interessou-se pela teratologia, pois na Colecção Camper123 havia muitas espécies com
malformações congénitas.

Vrolik tencionava publicar um documento sobre essas espécies, mas infelizmente a sua
estadia em Groningen foi breve demais para a tarefa. No entanto, o seu interesse não
esmoreceu e durante a sua passagem por Amesterdão em 1834, publicou um documento
sobre a ciclopia denominado “ A natureza e origem da ciclopia”. Neste documento o autor
dá uma definição de um ciclope: «Ciclopes são monstros cujos órgãos do olfato e visão
estão malformados de tal modo que o primeiro ou está em falta ou não está presente no
sítio habitual, e o segundo é mais ou menos presente de uma forma singular»124
O seu documento de 1834125 foi a base para um capítulo do manual sobre Anatomia
Patológica e ainda para a elaboração de várias gravuras representativas do normal e
anormal desenvolvimento do homem e dos mamíferos. São mais de 100 gravuras com
descrições em latim e holandês que ilustram vários tipos de ciclopia (ver Anexo de
Imagens Fig. 37). Nessas gravuras surgem ciclopes humanos, porcos e cordeiros, onde
surge a ciclopia combinada com outras anomalias da cabeça.

123
Durante a sua estadia em Groningen como docente, Vrolik estudou o Gabinete do zoólogo Petrus
Camper.
124
Baljet, B.; Van Der Werf, F.; Otto, A.J (1991) Op. Cit., p.357.
125
Cujo nome original é « De vrucht van den mensch en van de zoogdieren afgebeeld en beschreven in
hare regelmatige en onregelmatige ontwikkeling».

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Neste documento Willem discute as teorias que existiam na época sobre as malformações
congénitas nos séculos precedentes e as suas conclusões apresentadas têm que ver com
estudos científicos onde observou que os ciclopes são malformações que podem ser
diferenciadas em fases distintas. Assim, dividiu os ciclopes em cinco tipos principais.

O tipo 1, onde os olhos não são visíveis externamente. Por vezes o nariz está
completamente ausente e outras, surge um tronco, um género de “tromba” na posição do
nariz. O tipo 2, onde está presente um único globo ocular externo, onde por vezes, surge
por cima da órbita, a aparência de um nariz externo com a forma de uma tromba. O tipo
3, apresenta um único olho presente, mas internamente são dois, por vezes com uma
tromba ou sem ela. O tipo 4 apresenta olhos separados distintamente, por vezes fechados
na mesma órbita ou separados com uma espécie de barreira, tendo por cima uma tromba
dobrada. E finalmente, o tipo 5, cuja tromba é direcionada para baixo e suportada por um
«tubo» de osso, com uma forma mais «natural». O olho é às vezes único e outras vezes
duplo.

Vrolik classifica os recém-nascidos humanos com ciclopia da sua coleção com o tipo 1,
e os restantes 19 espécimenes de outros mamíferos com os tipos de 2 a 5. Ao observar os
fetos em frascos da sua coleção, Vrolik reconhecem que alguns casos eram mais severos
do que outros, sendo que uns tinham apenas uma órbita dentro da cavidade ocular
enquanto outros tinham duas visíveis. Alguns tinham um nariz enquanto outros não.

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Fig. 32. Representação de um feto que de acordo com Willem Vrolik possui ciclopia do tipo 1 onde os
olhos não são visíveis e com um proboscídeo externo. De acordo com a ciência atual é descrita como
holoprosencefalia alobar. Original da autora, ilustração digital, 2015.

A classificação de ciclopes nestes cinco tipos, teve origem neste estudo e também em
muitos relatos literários. Vrolik concluiu que a natureza desta anomalia era baseada no
desenvolvimento pobre do órgão olfativo, bem como o da visão. Afirmando que:

“Se apenas um dos olhos é pouco desenvolvido, e os outros são normalmente


desenvolvidos, a ciclopia não existe, mas se houver apenas um olho ou nariz
malformados, existe. No entanto, as duas malformações são mutualmente
independentes uma da outra. Assim que os olhos estão mais ou menos
malformados, o nariz não pode ter uma forma natural; mas se ao nariz faltam os
olhos, pode haver uma forma normal. (…) A falta de globos oculares provoca
sempre ciclopia. Supondo que a situação existe e que há duas órbitas sem globos,
aí o nariz está na sua posição original e a ciclopia não existe. Se há apenas uma
órbita e se lá dentro está um globo ocular de alguma forma, ou até uma massa
de músculo na sua posição, aí o monstro é um ciclope, não interessando se há
alguma prova de nariz externo ou não”126.

126
Baljet, B.; Van Der Werf, F.; Otto, A.J. (1991) Op. Cit., p.358-362.

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Willem Vrolik estudou bastante sobre esta deformidade, tendo publicado um trabalho
sobre este assunto entre 1844 e 1849 denominado de Tabulae ad illustrandam
embryogenesin hominis et mammalium tam naturalem quam abnorme (Gravuras que
demonstram o desenvolvimento normal e anormal tanto em homens como mamíferos).
Este trabalho está também enriquecido com várias gravuras que descrevem fetos (tanto
humanos como animais), que em vez de possuírem dois olhos, têm apenas um, localizado
no meio da testa. Para além de toda a pesquisa, Willem criou também uma “coleção” sua
com cerca de 24 espécimenes: 8 leitões, 10 cordeiros, 5 humanos e um gato bebé, todos
com a mesma condição, variando os graus de gravidade (ver Anexo de Imagens, Fig. 37).
De acordo com Geoffrey, foi Vrolik que «batizou» estas criaturas com o nome de uma
das criaturas mais temidas da mitologia grega: o ciclope.

A ideia de que a ciclopia faz parte de um espectro de anomalias foi introduzido por
Geoffroy Saint-Hillaire. O sistema de classificação deste autor, (que dividiu os defeitos
faciais em duas famílias: ciclocefalia e otocefalia), foi adotado e modificado em 1934 por
Wright e os seus associados. Estes autores elaboraram um esquema de classificação para
a síndrome ciclopia-otocefalia. Numa primeira instância, classificaram uma série de
defeitos associados à mandíbula e numa segunda, colocaram uma série de pré-maxilares
e associaram os defeitos.

No volume das malformações congénitas da cabeça, no manual mais cotado da


teratologia, Schwalbe e Josephy adotaram o sistema de classificação de Bock, dividindo
estas malformações em 8 tipos: o primeiro tipo, onde os olhos se encontram juntos, cada
um com a sua própria órbita e com a cavidade nasal única e muito estreita; o segundo
tipo, em que os globos estão muito próximos um do outro, ainda que as duas órbitas
estejam presentes e o nariz com a sua única cavidade, é deslocado para cima, como uma
tromba; no terceiro tipo, existe uma semelhança com o segundo, mas os globos estão
juntos apenas numa órbita; o quarto tipo é semelhante ao terceiro, mas desta feita, os
globos estão fundidos pela esclera; no quinto tipo, os nervos ópticos estão juntos, o tecido
da esclera fundida é mais fino e a córnea, iris, lente, corpo ciliar e retina são duplos; no
sexto tipo, a córnea é única e as outras partes são duplas. Os nervos ópticos são separados
por uma fina camada de tecido conectivo. No sétimo tipo, existe uma córnea, dois

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cristalinos fundidos centralmente, a esclera, o coroide, a retina e o nervo óptico são


únicos; finalmente o oitavo e último tipo consiste num olho sem partes duplas óbvias.

Fig. 33. Representação de um feto que de acordo com Willem Vrolik possui ciclopia do tipo 3 ou 4, com
um aparente único globo ocular externo, sendo que internamente são dois podendo ter probóscideo ou não.
De acordo com a ciência atual é descrita como holoprosencefalia lobar. Original da autora, ilustração
digital, 2015.

De acordo com o oftalmologista William Stewart Duke Elder, (1898-1978), a ciclopia faz
parte de uma anomalia que não envolve exclusivamente os olhos mas também a parte
interior do cérebro e as estruturas mesodérmicas situadas na linha média. A ciclopia
verdadeira ou a fusão completa de dois globos é muito rara, o mais comum é suceder uma
fusão parcial em que algumas, ou todas as estruturas oculares são combinadas num único
globo ocular- esta situação pode ser denominada de sinoftalmia.

Do ponto de vista de Elder, a anomalia é associada a deformidades do telencéfalo e


também a defeitos extensos do crânio na linha média, fazendo com que o embrião se
desenvolva num ciclope com um único olho mediano. A falha ou perturbação da atividade
do centro organizacional do prosencéfalo vai resultar numa continuada série de
malformações. Este centro organizacional pode ser responsável pela indução do
prosencéfalo ou telencéfalo e também do aparelho olfativo e visual.

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A classificação e nomenclatura da ciclopia e anomalias relacionadas com a face mostra


que ainda estão ligadas de forma pouco clara, não existindo nenhum acordo geral sobre
uma classificação mais útil relativamente ao caso dos ciclopes. De um ponto de vista
clínico, a ciclopia pode ser classificada juntamente com as desordens da
holoprosencefalia.

Os médicos modernos reconhecem a ciclopia como um extremo no que toca a


deformações no espectro de deformidades cranianas tendo como oposto pessoas cuja
única deformidade é um único incisivo colocado simetricamente no maxilar superior no
local onde deveriam estar dois.

4.2.6. A ciclopia na ciência atual

A principal característica física externa de um feto com ciclopia é o seu olho único,
desenvolvido de forma irregular durante a gestação. No entanto esta particularidade
expande-se, constituindo uma deformidade profunda que chega até ao interior do crânio.
Todos os vertebrados possuem um cérebro com dois hemisférios, no entanto, os fetos
ciclópicos não. Em vez de possuírem dois hemisférios cerebrais, dois lobos oculares e
dois lobos olfativos o seu lobo frontal está fundido num todo. Este desenvolvimento
anómalo, incompatível com a vida, traduz-se assim numa monstruosidade.

Desta forma, a ciclopia é o desenvolvimento de apenas um olho. Associa-se aos casos


mais graves de Holoprosencefalia127, (do grego holo, num todo e prosencéfalo a parte
frontal do cérebro). Existem três classes de holoprosencefalia: a alobar (é a mais grave,
pois o cérebro não se consegue separar e é associado geralmente a anomalias faciais
severas), a semilobar (em que os hemisférios do cérebro têm uma leve tendência a

127
De acordo com o website do Portal de Codificação Clínica e dos GDH, a Holoprosencefalia é um
transtorno caracterizado pela falha de desenvolvimento do Prosencéfalo, (lobo frontal do cérebro do
embrião), que dá origem aos hemisférios cerebrais, telencéfalo, diencéfalo e bolbos olfativos. Esta doença
é causada pela ausência de divisão do lóbulo frontal do cérebro do embrião para formar os hemisférios
cerebrais bilaterais, o que causa defeitos no desenvolvimento da face e estrutura e funcionamento do
cérebro.

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separar-se, consistindo numa classe intermédia) e a lobar (onde existe uma clareza notável
na separação dos hemisférios do cérebro, sendo por isso a classe menos grave. Em alguns
casos de holoprosencefalia lobar o cérebro do indivíduo pode ser quase normal (ver
Anexo de Imagens, Fig. 36).

Em casos menos graves ocorre apenas o hipotelorismo (diminuição da distância entre as


órbitas). Para além de não conseguir dividir os hemisférios cerebrais, também há
alterações das estruturas da linha média facial e não se consegue dividir as órbitas dos
olhos acabando por se desenvolver apenas um. Muitas vezes existe Rinocefalia, surgindo
um nariz não funcional no rosto.

De facto, segundo o autor Armand Marie Leroi, esta má formação cerebral tem uma
prevalência de 1 em cada 16.000 mil recém-nascidos128 e geralmente o feto morre alguns
dias após o nascimento, por mau funcionamento do cérebro e/ ou dificuldades na
respiração devido à rinocefalia.

De acordo com o Guia Ilustrado das malformações do Sistema Nervoso Central, uma
publicação do EUROCAT, (European Surveillance of Congenital Anomalies),
combinada com a Acção dos registos de projectos de Anomalias Congénitas e Gémeos, a
ciclopia é vista como uma falta congénita dos bolbos olfactivos, a holoprosencefalia,
sendo que esta anomalia não é uma única malformação, mas um grupo de desordens129.

Clinicamente, existe um espectro de faces associadas com desordens de


holoprosencefalia, o que inclui a ciclopia, a etmocefalia, (ethmos-peneira; trombas nasais
por cima das órbitas), a cebocefalia, (kebos-macaco de cauda longa; nariz atrófico,
regularmente com uma narina mediana colocada no sítio correto normalmente) e
deformidades faciais medianas.

128
Leroi, Armand Marie (2005) Op. Cit., p.73.
129
Cit. Por, Baljet, B.; Van Der Werf, F.; Otto, A.J. (1991) Willem Vrolik on cyclopia, p. 364.

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Fig. 34. Representação de um feto que de acordo com Willem Vrolik possui ciclopia do tipo 1 onde os
olhos não são visíveis e com um proboscídeo externo. De acordo com a ciência atual poderá ser descrita
como holoprosencefalia eventualmente semilobar. Original da autora, ilustração digital, 2015.

Na opinião do professor Armand Marie Leroi, autor do livro “Mutants: On the Form,
Varieties and Errors of the Human Body”, para além de relativamente comum, esta
deformidade ocorre de uma forma relativamente fácil: por exemplo os fetos de um peixe
tornam-se ciclópicos se forem aquecidos, arrefecidos, irradiados, privados de oxigénio,
expostos a éter, acetona, álcool, sal de mesa, entre outros. Nos anos 50, uma epidemia de
cordeiros ciclópicos nos Estados Unidos foi causada devido ao gado se roçar em lírios de
milho, (uma planta dos prados subalpinos cujas folhas são concentradas em alcaloides
tóxicos). No caso humano, as grávidas diabéticas tem 200 vezes mais probabilidade de
dar à luz fetos com ciclopia, tal como as mães alcoólicas130.

Porém, Leroi afirma que, a maioria dos casos não é consequente do comportamento das
progenitoras durante a gestação. Mutações em pelo menos quatro a no máximo doze
genes humanos causam holoprosencefalia. Um destes genes contém uma proteína
denominada de «ouriço sónico», (em inglês «Sonic the Hedgehog»131). Este gene nos

130
Leroi, Armand Marie (2005) Op. Cit, p. 73 e 74.
131
Esta proteína tem esta denominação pois nos anos 80, quando uma mosca-da-fruta mutante teve as suas
larvas apresentava as costas cobertas com pústulas. «Ouriço» foi o nome atribuído, precisamente pela sua

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humanos é o causador da ciclopia e é dominante o que significa que um indivíduo


portador deste gene sofre de ciclopia ou algum nível de holoprosencefalia. Mas, por
razões ainda desconhecidas, existem portadores deste gene que são quase imunes: vivem
e passam este gene à descendência.

O professor explica ainda que o facto de esta deformidade ter apenas um hemisfério
cerebral é relevante. Pois quando o lobo frontal se forma no embrião é algo unitário, uma
continuação do tubo neural, que apenas mais tarde se divide em dois hemisférios. Esta
divisão é induzida precisamente por este gene do «ouriço sónico», que tal como outras
moléculas sinalizantes, é um morfogénio. Durante o desenvolvimento cerebral, esta
molécula surge numa pequena porção da mesoderme, mesmo abaixo do lobo frontal, filtra
tecido e em seguida divide o cérebro em dois. Este processo é básico na formação dos
olhos. Mas, mesmo antes da sua formação, existe uma zona dedicada no lobo frontal às
ligações oculares. Esta zona é conhecida como o «campo ocular» e originalmente surge
como uma banda que atravessa o lobo frontal até ser dividida pelo gene do ouriço em dois
campos mais pequenos em cada um dos lados do crânio. Mutações ou químicos que
inibam esse gene previnem que isto suceda, o que dá origem a um único e monstruoso
olho no crânio de um feto132 (ver Anexo de Imagens, Fig. 38).

Para além disto, este gene fornece-nos mais do que a divisão cerebral. Algumas
experiências em ratos, onde este gene está completamente ativado, fazem com que surjam
com corações, rins e intestinos malformados: são quase sempre nados-mortos e não têm
patas. Os crânios e focinhos contém deficiências mais do que ciclópicas, dando origem a
cabeças deformadas sem olhos, boca ou nariz, o que sugere que este gene esteja presente
na formação de várias partes do corpo e em vários locais durante a formação craniana.

semelhança. Curiosamente, este nome também se deveu ao facto de possivelmente o seu autor gostar muito
de videojogos do famoso ouriço Sonic.
132
Ibidem, p. 75.

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Fig. 35. Representação de um feto que de acordo com Willem Vrolik possui ciclopia do tipo 1 onde os
olhos não são visíveis e com um proboscídeo externo. De acordo com a ciência atual poderá ser descrita
como holoprosencefalia eventualmente alobar ou semilobar (dependendo do cérebro). Original da autora,
ilustração digital, 2015.

A face de um embrião é formada a partir de cinco proeminências que por sua vez se
fundem umas com as outras. Duas dão origem à mandíbula, outras duas ao maxilar
superior e por fim, a última forma a fronte, o nariz, a testa e o lábio superior. Estas cinco
proeminências segregam a proteína que este gene contém, e que por sua vez controla o
crescimento e a geometria da face, (mais precisamente a sua largura). Este gene define os
espaços entre orelhas e até mesmo as narinas. Esta informação é conhecida devido ao
estudo efetuado em galinhas com excesso do gene sónico, que fez com que tivessem faces
demasiado largas. Em casos extremos, este excesso faz com que as estruturas se
dupliquem causando até o aparecimento de bicos lado a lado. Algo semelhante pode
também acontecer nos humanos: algumas malformações genéticas relacionadas com esta
situação são caracterizadas por olhos demasiado afastados, uma condição anteriormente
referida: o hipotelorismo, causado por uma mutação no gene sónico, limitando as suas
capacidades. Os pacientes com casos extremos desta deformidade remetem para a
situação das galinhas com dois bicos, devido às enormes cavidades nasais que possuem,
ou até mesmo em casos mais raros, duas pontas do nariz ou dois narizes.

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Um pouco à semelhança do que foi teorizado para a anterior criatura Orc, no caso dos
ciclopes a equipa do World of Warcraft poderá ter tido atenção a todas estas
características (neste caso a existência de um único olho aliada às outras duas
características já descritas no Orc: prognatismo e extremidades desproporcionais-
acromegalia/gigantismo) para a criação dos diferentes tipos de ciclopes existentes no
videojogo). Embora sejam apenas conjeturas, são perfeitamente plausíveis através das
comparações já referidas no decorrer do capítulo (de salientar as referências ao crânio de
elefante e aos fetos ciclópicos) e tal como no caso do Orc, todas estas características lhe
atribuem uma fisionomia ameaçadora e imponente.

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CONCLUSÃO

A presente investigação centrou-se na temática dos monstros, tendo-se balizado em


termos práticos em dois grandes grupos. Um primeiro referente à analise da temática dos
monstros na cultura ocidental de uma perspetiva histórica, ou seja, abordando o seu início
no período clássico e irrompendo na Idade Média e posteriores épocas, sempre
fomentando crenças, lendas e mitos. E um segundo relativamente ao interesse do monstro
na contemporaneidade através da literatura, indústria cinematográfica e finalmente os
videojogos. Este segundo grupo desdobrou-se ainda num aprofundamento dos videojogos
(tendo em especial foque o videojogo World of Warcraft), na escolha recaída sobre duas
criaturas desse universo (Orc e Ciclope) e na sua respetiva análise e comparação face a
anomalias humanas e animais.

Relativamente ao primeiro grupo, foram abordadas algumas considerações de ordem


teológica pela mão do teólogo Santo Agostinho, que se preocupava ainda em defender a
existência das ditas criaturas fantásticas.

Em seguida, foram referidas causas para a ocorrência de nascimentos monstruosos,


segundo diversos autores que enumeraram as condições para a existência de tais criaturas
e ainda, em alguns casos, responsabilizando a progenitora pelo seu surgimento, (por ter
determinados desejos considerados indignos).Posteriormente, teceram-se algumas
considerações referentes a tipologias de monstros, ou seja, formas que estes podem
assumir, ausência ou duplicação de determinados órgãos e o que isso pode implicar.

Foi feito um enquadramento dos monstros na sociedade: enquanto peças utilitárias para a
ciência, divertimento social nas feiras de freakshows e uma breve constatação desta
temática no universo contemporâneo.

Em relação ao segundo grupo, esta investigação foi subdividida em duas partes. Na


primeira parte é feita uma introdução das personagens, são descritos vários universos
onde surgem, quer na literatura, mitologia, cinema ou nos videojogos, e, posteriormente,
é feita uma maior descrição e contextualização num universo em particular- o do World
of Warcraft.

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Conforme os universos, a aparência destas criaturas vai divergindo, e por uma questão de
interesse intelectual e estético, optou-se por selecionar a versão do referido videojogo,
mais ainda porque é aquela onde mais se exaltam as características aqui abordadas e
analisadas.

Posteriormente, são abordadas e descritas com detalhe características das personagens ao


nível da cabeça e corpo. No caso do Orc é o seu pronunciado maxilar inferior, que na
realidade é encarado como uma deformidade de aspetos negativos, denominada de
prognatismo, que no mundo ficcional constitui um importante componente do aspeto
físico, contribuindo para uma expressão mais ameaçadora, muito característica. No caso
do Ciclope será a sua deformidade crânio-encefálica denominada de ciclopia que, pelas
suas diferentes tipologias existentes na realidade, dará aso às várias versões diferentes da
criatura no videojogo. Ambos apresentam em termos de corpo características passíveis
de comparação com o gigantismo e acromegalia.

Assim sendo, para uma melhor compreensão desta dissertação, estas deformidades reais
foram explicadas, de acordo com as suas origens e inerentes problemáticas, aplicando-se
posteriormente às criaturas fictícias. Como as personagens em questão tem influências
em alguns animais devido a algumas características físicas que apresentam, foi ainda
realizada uma pequena pesquisa relativamente à fauna animal.

Para concluir, esta dissertação visa a análise de diversos pontos: um acompanhamento


histórico da evolução do monstro ao longo da cultura da civilização ocidental, que foi e
será sempre, uma fonte rica para a construção de vários tipos de expressão visual, verbal
e intelectual por parte do Homem; a análise das criaturas segundo os parâmetros
anatómicos e científicos em que se pretende defender a tese de que alguns dos monstros
descritos em lendas, mitos, histórias e atualmente em filmes e videojogos, têm influências
em termos estéticos, no real, em deformações e anomalias existentes na Natureza.

Vistas como algo negativo e de mau presságio, as anomalias sempre foram conotadas
com aspetos negativos. É por isso curioso observar como algo tão “maligno” é fonte de
inspiração para criaturas tão singulares e tão adoradas quer nos tempos antigos, quer nos
contemporâneos.

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Finalmente, as ilustrações realizadas pela autora demonstram a proximidade entre a Arte


enquanto Ilustração Científica/ Concept Art, e a Ciência Anatómica, comprovando que
na elaboração de uma criatura fantástica, esta ligação Arte-Ciência é sempre uma mais-
valia.

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ANEXO DE IMAGENS
A)

Fig.1. Da esquerda para a direita: Robert Waldlow era conhecido como o homem mais alto de toda a
história médica. Cresceu até aos 2,67 m de altura. Grady Stiles, o rapaz lagosta, apresentou-se na Feira
Estadual de Indianopolis a 29 de Agosto de 1925. Imagens retiradas da monografia Freaks Aberracções
Humanas: A exploração de fenómenos físicos humanos em circos e espectáculos itinerantes da autoria de
Akimitsu Naruyama.

Fig. 2. Da esquerda para a direita: A famíla Sander, conhecida também por família com pele de leopardo.
Afirmavam ser oriundos de Madagáscar. Na aristocracia birmanesa as mulheres com os pescoços mais
compridos eram consideradas as mais belas. Todos os anos se adicionavam mais braceletes douradas.
Estas duas irmãs trabalhavam para o Ringling Brother’s Circus nos anos 30, sendo uma atração muito
popular na época. Imagens retiradas da monografia Freaks Aberracções Humanas: A exploração de
fenómenos físicos humanos em circos e espectáculos itinerantes da autoria de Akimitsu Naruyama.

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Fig. 3. Orc do universo de William Blake. Imagem retirada do website “These Fantastic Worlds”.

Fig. 4. Orcs do universo de Tolkien. Imagens retiradas dos Websites “Gamefaqs.com” e “Wikia”.

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Fig. 5. Três colorações de Orc no universo Warcraft: verde, castanho alaranjado e vermelho. Imagens
com diferentes proveniências. Da esquerda para a direita: imagem sem autor retirada do website
“Battle.net”; Peter Stapleton, Garrosh Hellscream- Wow, retirada do website “Deviantart.com” e
finalmente, imagem sem autor de ecrã de loading do jogo World Of Warcraft, retirada do website
“Wowwiki.com”.

Fig. 6. Orc fêmea com diferentes tipos de penteado. Imagem retirada do website “Ign”.

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Fig. 7. Representação de uma Orc Fêmea com um traje guerreiro de inspiração xamanística. Original da
autora, ilustração digital, 2015.

Fig. 8. Outra variante de traje guerreiro Orc. Original da autora, ilustração digital, 2015.

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Fig. 9. Diferentes tipos de expressões do Orc. Original da autora, ilustração digital, 2015.

Fig. 10. Um dos vários tipos de acampamentos Orcs. Original da autora, ilustração tradicional com
tratamento digital, 2015.

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Fig. 11. Um dos vários tipos de acampamentos Orcs. Original da autora, ilustração tradicional com
tratamento digital, 2015.

Fig. 12. Um dos vários tipos de acampamentos Orcs. Original da autora, ilustração digital, 2015.

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Fig. 13. Um dos vários tipos de acampamentos Orcs. Original da autora, ilustração digital, 2015.

Fig. 14. Habitat das criaturas Ciclopes. Original da autora, ilustração digital, 2015.

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Fig. 15. Diferentes tipos de armas utilizadas pelos Orcs. Original da autora, ilustração tradicional com
tratamento digital, 2015.

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Fig. 16. Armas utilizadas por Orcs e também por Ogres. Original da autora, ilustração tradicional com
tratamento digital, 2015.

Fig. 17. Orcs do universo Dungeons and Dragons: Orc Shaman e Orc Mauler. Imagens retiradas do
Blogue “Dietermiller” e do website “trollandtoad.com”.

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Fig. 18. Orcs do universo Elder Scrolls. Imagens retiradas do Website “UESP”.

Fig. 19. Orcs do universo Heroscape (à esquerda) e Magic the Gathering (à direita). Imagens retiradas do
website “dakkadakka” e “ atomicmall.com”.

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Fig. 20. Orcs do universo Might and Magic. Imagem retirada do website “might and magic.ru”.

Fig.21. Pormenor da cabeça da versão do Orc em Warhammer. Imagem da autoria de Ted Beargeon
retirada do website “Polycount.com”.

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Fig. 22. Comparação de postura entre a criatura fantástica Orc e um Gorila, (Gorilla beringei beringei).
Imagem da direita retirada do Blogue “ Witty Nity”.

Fig. 23. Posição de Gorila. Imagens retiradas do Blogue “ Witty Nity”.

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Fig.24. Esquema representativo de um tipo de prognatismo com supra-oclusão. Existe dificuldade por
parte do indivíduo em manter o encerramento labial. Também é visível o aparente desaparecimento do
terço médio da face em detrimento do avanço do terço inferior. Imagem retirada da Tese de
Doutoramento de José de Paiva Boléo Tomé, Anomalias da classe III.

Fig. 25. Comparações entre o crânio de um Gorila (A) com o de um Orc (B) e respetivos tegumentos
comuns. Original da autora, ilustração digital, 2015.

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Fig.26. Três crânios de símios, onde se pode observar os tipos de dentição relativamente semelhantes
entre si. É de realçar a presença dos grandes caninos especialmente na figura B. Da esquerda para a
direita: Crânio de Gorila (Gorilla gorilla- A), crânio de Babuíno (Mandrillus sphinx- B) e crânio de
chimpanzé (Pan trogludytes- C). Imagens retiradas do Website “Boneclones.com”.

Fig. 27. Tabela de escalas aproximadas de todas as criaturas abordadas na dissertação comparativamente
à altura média de um humano (A). Os monstros estão assinalados respetivamente: B) Orc; C) Ogre; D)
Ogron; E) Gronn e F) Magnarozn. Infografia realizada pela autora, técnica digital, 2015.

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Fig. 28. Odysseus & Polyphemus, [pintor desconhecido],pintura em cerâmica, ca. 530 - 510 a.C .
Pertencente ao período Arcaico. British Museum, Londres. Representação numa ânfora de Ulisses
(Odisseus) a ferir Polifemo. O gigante é representado com cabelo abundante e um único olho. Imagem
retirada do Website “Theoi Project: Greek Mythology”.

Fig. 29. Polyphemus e Odysseus, [autor desconhecido],mosaico, ca. 320 A.D. Pertencente ao período
romano. British Museum, Londres. Representação de Ulisses a oferecer vinho a Polifemo. O gigante
encontra-se sentado na sua caverna junto de ovelhas, nesta versão, surge com três olhos. Imagem retirada
do Website “Theoi Project: Greek Mythology”.

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Fig. 30. Cabeça de Polifemo. Helenístico tardio ou Romano. ca 150 a.C . Imagem retirada do Website
“THE MFA TOUR”.

Fig. 31. Johann Heinrich Wilhelm Tischbein, Polyphemus, 1802. Landesmuseum Oldenburg.
Representação de um Ciclope. Existem duas gerações de ciclopes na mitologia grega. A primeira geração
possui três irmãos: Brontes (trovejador), Estéropes (criador de luz ou flashes) e Arges (Iluminador), que
nasceram da união de Gaia (Titã que representa a terra) e Uranus (Titã celeste). A segunda geração
descendeu de Posídon e o ciclope mais infame era Polifemos da Odisseia de Homero. Imagem retirada do
Website “ Monstropedia”.

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Fig. 32. Ciclopes do universo Dungeons and Dragons. Imagens retiradas dos websites “ Rpg Miniatures”
e “ Forgotten Realms”.

Fig. 33. Ciclope do universo Final Fantasy. Imagem retirada do website “ Ffxiv Wiki”.

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Fig. 34. Ciclope do universo Heroes of Might and Magic. Imagem retirada do website “ Heroes
Community”.

Fig. 35. Ciclopes do universo Magic the Gathering. Imagens retiradas dos websites “ Magic Spoiler” e “
Magic Madhouse”.

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Fig. 36. Secções axiais através de ressonância magnética craniana de pacientes com Holoprosencefalia,
distinguidas por tipo. Da esquerda para direita temos os vários tipos: alobar, semialobar e lobar. Imagem
retirada do artigo “ Holoprosecephally: A Guide to Diagnosis and Clinical Manegement”, p. 459.

Fig. 37. Ciclopia em animais. Na figura A em carneiros e na figura B em porcos. Imagens retiradas do
documento “Willem Vrolik on cyclopia”, p. 360 e 362.

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Fig. 38. Feto com ciclopia. Fotografia da autora. Cortesia da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa,
2015.

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ANEXO DE IMAGENS
B)

Orc. Original da autora, técnica digital,


Prancha científica de Apresentação do

2015.

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Prancha científica de Apresentação do Orc.


Original da autora, técnica digital, 2015.

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Prancha científica de Apresentação do


Ciclope. Original da autora, técnica digital,
2015.

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Prancha científica de Apresentação do


Ciclope. Original da autora, técnica digital,
2015.

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