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28/02/2019 Psicossomática Hoje, 2a edição

PRINTED BY: 4099518540@ftc.edu.br. Printing is for personal, private use only. No part of this book may be reproduced or transmitted without
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I
INTRODUÇÁO
Julio de Mello Filho

O termo psicossomática surgiu a partir do século Patologia Geral na sua possibilidade de vislumbrar o
passado, depois de séculos de estruturação, quando complexo jogo de causas e efeitos presentes na evo­
Heinroth criou as expressões psicossomática (1918) lução de uma enfermidade, de um modo muito mais
e somatopsíquica (1928) distinguindo os dois tipos rico e completo.
de influências e as duas diferentes direções. Contudo, Psicossomática, em síntese, é uma ideologia so­
o movimento só se consolidou em meados deste sé­ bre a saúde, o adoecer e sobre as práticas de Saúde,
culo com Alexander e a Escola de Chicago. Porém as é um campo de pesquisas sobre estes fatos e, ao mes­
incertezas sobre a relação mente-corpo se expressam mo tempo, uma prática - a prática de uma Medicina
na própria denominação psico-somático (com hífen) integral.
ainda utilizada entre estudiosos destes fenômenos e Hoje, entretanto, o termo psicossomática está
por médicos em geral. mais restrito à visão ideológica deste movimento e às
A Psicossomática evoluiu em três fases: pesquisas que se fazem destas ideias, ou seja, sobre a
relação mente-corpo, sobre os mecanismos de produ­
a) inicial, ou psicanalítíca, com predomínio dos es­ ção de enfermidades, notadamente sobre os fenôme­
tudos sobre a gênese inconsciente das enfermi­ nos do estresse.
dades, sobre as teorias da regressão e sobre os A relativa complexidade dessas definições e
benefícios secundários do adoecer, entre outras; desses conceitos - pois há uma Medicina Psicosso­
b) intermediária, ou behaviorista, caracterizada mática e/ou Holística, ou Integral, etc. - se complica
pelo estímulo à pesquisa em homens e animais, um pouco mais ainda quando surge a chamada “Psi­
tentando enquadrar os achados à luz das dências cologia Médica”, designação proposta na França por
exatas e dando um grande estímulo aos estudos Pierre Schneider para este mesmo tipo de interface
sobre estresse; em Medicina e para seu ensino. Dando um sentido
c) atual ou multidisdplinar, em que vem emergindo eminentemente prático - seguindo a vertente de Ba-
a importância do sodal e da visão da Psicossomá­ lint, na Inglaterra - propõe Schneider que este seja o
tica como uma atividade essendalmente de inte­ campo de estudo da relação médico-paciente. Ou “a
ração, de interconexão entre vários profissionais Psicologia da Prática Médica”, designação ainda mais
de saúde.1 abrangente proposta por Alonso Femandez. Desse
modo, a Psicologia Médica vem a ser o todo que con­
Só bem recentemente, com contribuições como tém o particular, a visão psicossomática da Medicina,
as de Engel sobre a teoria geral dos sistemas, com os neste caso.
conceitos de Perestrello entre nós sobre a chamada No Brasil, o termo psicossomática é comumente
Medicina da Pessoa e com a própria concepção mais utilizado para esse tipo de serviço quando se trata de
recente de saúde da OMS como “equilíbrio biopsicos- um hospital público, municipal ou estadual. No caso
sodal”, pôde a Psicossomática assumir seu verdadei­ das universidades, das faculdades de Medicina, fun­
ro papel integrador e multidisdplinar, vindo a funcio­ cionando geralmente em conjunto com a Psiquiatria,
nar, quanto ao ensino, como as antigas cadeiras de costuma chamar-se de setor ou serviço de Psicologia
Médica, por vezes se continuando com um braço, os
1 José Fernandes Pontes, entre nós, com toda a sua qualifica­ núcleos de orientação psicopedagógica, que têm a seu
ção de pioneiro do nosso movimento, já havia se antedpado encargo o atendimento aos alunos que respondem às
a este foto quando propôs a expressão sodopsicossomática situações traumáticas do curso com reações desadap-
para nos caracterizar. tativas várias, neuróticas ou mesmo psicóticas.

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Hoje, a gama de atividades do que se chama de com uma visão sociopsicossoniática bem estabelecida,
Psicossomática ou de Psicologia Médica2 abrange o do que decorre uma prática diferente, voltada para
ensino ou a prática de qualquer tipo de fenômenos de as nuances do psicossocial, do familiar, do relacional,
saúde e de interações entre pessoas, como as relações com um investimento maior na chamada psicoterapia
profissionais-pacientes, as relações humanas dentro da pratica médica.
de uma família ou de uma instituição de saúde, a No Brasil, como está exposto no trabalho de
questão das doenças agudas e crônicas, o papel das Abram Eksterman, a Psicossomática particularmen­
reações adaptativas ao adoecer, a invalidez, a morte, te proliferou a partir do trabalho de psicanalistas em
os recursos terapêuticos extraordinários. hospitais de ensino, especialmente no Rio de Janeiro,
Atualmente o papel de emissários da Psicosso­ em São Paulo, Porto Alegre e Recife. Criou-se a opor­
mática e da Psicologia Médica vem sendo exercido tunidade não só para que futuros médicos pudessem
não apenas por médicos (psicanalistas em sua maio­ partilhar desses conhecimentos, como também para
ria), mas também por profisionais outros da saúde influenciar jovens profissionais numa prática nessa
mental, como psiquiatras e, sobretudo, psicólogos. direção. A divulgação dessas ideias fora das faculda­
Estes, por razões várias, que incluem desde aspectos des de Medicina, alcançando outros profissionais de
ideológicos a problemas de mercado de trabalho, têm Saúde, pavimentou o terreno para a construção de
acudido em massa a este campo e é nossa tarefa atual uma Associação Brasileira de Medicina Psicossomáti­
bem acolhê-los e atendê-los. Uma tarefa importante ca, que na prática já existe há mais de 20 anos.
é aperfeiçoar nossa linguagem e nosso campo de co­ Todo este intróito faz-se necessário para se
nhecimentos para melhor dialogar com outros pro­ entender o porquê de Psicossomática Hoje. Psicosso­
fissionais de saúde que têm se dirigido para nosso mática e não psicologia médica, porque este nome
campo, como enfermeiros, assistentes sociais e nutri­ consagrou-se, prindpalmente entre leigos e entre mé­
cionistas, por exemplo. dicos. E Hoje, pela necessidade de se atualizar tudo
Como podemos ver, evoluímos, por razões vá­ que se pensa, se pratica e se escreve a esse respeito no
rias, da prática de uma Psicossomática dirigida ape­ Brasil. Aqui, tem-se discutido e praticado (muito) e
nas a médicos para a necessidade de um campo de se publicado (pouco), porque o brasileiro, à diferen­
conhecimentos que possa se voltar para qualquer ça do europeu, do americano e mesmo do argentino,
profissional de saúde, não só porque estes estão in­ é malpreparado para escrever. Então, diga-se a bem
cluídos nessas práticas, como também pelo fato de da verdade que, excetuados alguns livros e outros
que estão se voltando para o universo dos fenômenos trabalhos publicados, perdeu-se boa parte das exce­
psicossomáticos e para uma prática de saúde que seja lentes comunicações apresentadas em aulas, cursos,
realmente integral. Quanto ao médico, este continua simpósios, mesas-redondas, congressos e várias ou­
a ser o alvo maior e ao mesmo tempo o maior proble­ tras reuniões científicas sobre Psicossomática que se
ma para aqueles que militam em Psicossomática e em realizaram nos últimos anos.
Psicologia Médica. Tivemos que mudar nossa bússola Psicossomática Hoje pretende resgatar alguns
de uma direção que via em todo médico o agente de desses fatos, não somente convidando para participar
uma visão psicossomática e da prática de uma au­ desta edição os nomes mais consagrados em nosso
têntica Psicologia Médica para uma visão pragmáti­ meio, como também autores mais jovens ou menos
ca, ensinada pelos tempos, da força secular de uma conhecidos que têm, porém, uma importante contri­
dicotomia mente-corpo e de uma prática que funda­ buição, ainda pouco divulgada fora do ambiente mais
mentalmente acentua tal dissociação. Por isso. talvez restrito de circulação dessas ideias.
seja uma tarefa não para décadas, mas para séculos, No Brasil, a grande maioria dos que militam em
corrigir esses fenômenos que são ao mesmo tempo Psicossomática são psicanalistas, psiquiatras e psi­
ideológicos e decorrentes de toda uma práxis. cólogos que trabalham com referenciais analíticos,
Nossa luta, todavia, valeu. Hoje, há um número na linha do que os americanos chamariam de uma
muito maior de médicos e de estudantes de Medicina Psiquiatria Dinâmica. Em nosso meio, praticamente
não temos profissionais de orientação behaviorista,
e pouquíssimos profissionais envolvidos com Socio­
2 logia Médica ou Medicina Social frequentam nossas
Em outros países, como os de origem anglo-saxônica,
reuniões. Essa situação particular explica também as
não se usa uma designação ou outra, e sim uma terceira.
Psiquiatria de Ligação e Consulta, para designar atividade peculiaridades deste livro, sempre baseado numa rea­
semelhante à que estamos descrevendo, porém mais restrita lidade brasileira. So fizemos exceção para um autor
a um papel de atendimento de casos psiquiátricos num estrangeiro através do convite feito ao professor José
hospital geral do que a uma atividade mais ampla de inter- Schavelzon como forma de homenageá-lo por suas
consulta, que é o método mais utilizado em nosso meio. várias publicações de renome internacional sobre

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Psicossomática e câncer e, agora mais recentemen­ cos, em temas de ensino e formação, temas básicos,
te, por seu brilhante trabalho em que encara aspec­ temas específicos, temas originais, temas sobre trata­
tos totalmente originais sobre a doença de Freud, ao mento e trabalhos sobre AIDS que, pelo seu universo
comprovar que esta não era câncer, porém tomou- e importância, ganharam um lugar à parte. Porém,
se câncer em razão de todo o tipo de iatrogenia que há trabalhos ao mesmo tempo básicos e específicos,
Freud sofreu. outros que são originais e específicos.
De um modo geral, Psicossomática Hoje é um li­ Chama a atenção neste livro o número de tra­
vro do que poderíamos chamar de autores em Psicos­ balhos sobre a questão do ensino, demonstrando não
somática de segunda geração, caracterizando nosso só o interesse do coordenador por esse tema, como o
momento atual em que os pioneiros do movimento número de autores que o estudam atualmente. Sig­
passam o bastão para aqueles que os seguem. nificativamente, há um trabalho sobre o ensino de
Um aspecto que acreditamos incomum em nos­ Psicologia Médica e quatro sobre a formação do es­
sa conjuntura é a presença de importantes nomes da tudante de Medicina e do médico. No primeiro tra­
Medicina brasileira, de fora do movimento de Psicos­ balho, sobre ensino de Psicologia Médica, podemos
somática, escrevendo para nosso livro sobre aspectos destacar: a importância dos grupos de reflexão com
psicológicos e psicossomáticos de suas especialidades. alunos na elaboração das temáticas vividas por es­
Assim, temos Rodolpho Rocco em Educação Médica, tes; necessidade de manutenção de um ensino teó­
Fernando Barroso em Cirurgia Geral, Ivo Pitanguy em rico; necessidade de um curso que acompanhe todas
Cirurgia Estética, Alfred Lemle em Pneumologia, José as etapas do currículo; trabalhos práticos realizados
Galvão Alves, clínico, com o tema até então inédito pelos alunos, como entrevistas e acompanhamentos
em publicações psicossomáticas sobre os aspectos psi­ de pacientes; necessidade da presença de um Cen­
cossociais das urgências médicas. Obviamente, esses tro de Psicopedagogia que possibilite acompanhar os
autores não foram convocados ao acaso; sabíamos da alunos francamente em crise (crise do ingresso; crise
amplitude de suas ideologias médicas e da riqueza do terceiro ano; crise do final do curso; outras cri­
humanística de suas práticas profissionais. ses de ordem pessoal, familiar ou institucional). Os
Um espírito nos norteou na feitura deste livro: demais trabalhos, embora de professores de Psicolo­
apresentar nossa Psicossomática e nossos autores tais gia Médica em sua maioria, atestam sobre o quanto
como são. Por esse motivo, contribuições não previs­ é possível fazer neste campo fora do escopo do ensi­
tas foram posteriormente aceitas e autores que apre­ no tradicional disciplinar. Ou ao lado deste. Assim, o
sentaram trabalhos importantes durante a feitura do trabalho de Rodolpho Rocco, no qual ele enfatiza a
livro foram convidados a participar. Poucos não pude­ importância dos aspectos sorioculturais no processo
ram corresponder ao convite feito e, por esse motivo, ensino-aprendizado e na relação estudante-paciente,
alguns centros de Psicossomática não estão represen­ é realizado com alunos de Clínica Médica, de cujo
tados nesta obra. departamento ele é o professor. Diga-se, a bem da
Não poderíamos, entretanto, num país com a verdade, que Rodolpho Rocco sempre manteve uma
extensão territorial do nosso e com um movimento relação muito próxima da Psicossomática, desde o
psicossomático verdejante, convidar todos aqueles Hospital São Francisco de Assis, caracterizando um
que têm o que dizer e como dizer; ao selecionar, sem­ tipo de cooperação indispensável a nosso ensino. O
pre colocamos pontos de vista pessoais e concomi­ trabalho de Rodolpho Rocco é o único sobre o tema
tantemente cometemos arbitrariedades contra aque­ da relação estudante-paciente, escopo sobre o qual
les que não foram lembrados ou escolhidos. A estes, irá se formar e modelar a primeira raiz básica e maior
que ficaram de fora, nossas escusas e a certeza de do nosso sucesso como profissionais.
que tentamos uma publicação ampla e abrangente, O tema seguinte, de Zaidhaft, também professor
porém nunca perfeita e total. de Psicologia Médica,3 relata um trabalho feito com
Temos neste livro dois trabalhos introdutórios estudantes de Medicina em tomo do tema da morte
e conceituais de Abram Eksterman sobre o histórico ao entrevistarem um suposto paciente terminal e sua
da Psicossomática no Brasil. É não só um trabalho filha. O trabalho se agiganta na capacidade dos alu­
inédito, como também da maior importância para nos de refletirem e concluírem sobre vários aspectos
entendermos, à luz dos profundos conhecimentos de
Eksterman sobre as realidades médica e psicossomá­
tica do Brasil, as raízes do nosso movimento e o por­ 3 Zaidhaft publicou recentemente uma obra básica em Me­
quê dos nossos rumos atuais. Ao mesmo tempo, é um dicina e em Psicologia Médica intitulada Morte e formação
trabalho conceituai e por tudo isso fundamental para médica, introduzindo o livro com uma relação entre morte,
nos introduzir nos demais temas deste livro. Tenta­ arte, história e psicanálise, enfeixa-o sobre a questão da
mos classificar os demais trabalhos, para Fins didáti­ Medicina e do ensino médico

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da posição do paciente e da filha diante da morte (e é ela própria um acontecimento social, espedalmente
da vida) e deles mesmos como futuros profissionais. quando grave ou crônica. É importante frisar que a
Esse trabalho ilustra a riqueza que um grupo de re­ consulta médica é o momento em que duas subcul-
flexão pode alcançar e a capacidade de alunos de ela­ turas - a do médico e a do padente - entram em
borar um trabalho e escrever um texto, aspecto que confronto (às vezes de modo desastroso). Do mes­
temos destacado em nossa experiência de ensino de mo modo que quisemos registrar a voz da Medicina
Psicologia Médica na UERJ, conforme se pode consta­ Social neste livro, achamos oportuno que fosse abor­
tar no trabalho de Muniz e Chazan a esse respeito. dado o tema do trabalho em relação às doenças so­
David Epelbaum Zimerman, conhecido psica­ máticas e psicossomáticas, o que é feito por Avelino
nalista individual e de grupos em Porto Alegre, nos Rodrigues e Ana Cristina Gasparini em artigo no qual
mostra como conhece relação medico-paciente e é apresentada uma importante síntese dos conceitos
educação médica num trabalho primoroso, pleno de e principais noções atuais sobre estresse, tema que
preciosidades para o tema escolhido, UA formação psi­ é também magistralmente desenvolvido por Eugênio
cológica do medico”. A base desse trabalho foi sua Campos no seu trabalho sobre Cardiologia.
experiência em programas de educação médica con­ As relações entre histeria, hipocondria e fenô­
tinuada, quando durante alguns anos visitou cidades meno psicossomatólogo - condições que ocupam o
do interior do Rio Grande do Sul, nas quais realizava campo do psicossomático e que é preciso distinguir
grupos de reflexão com médicos e estudantes de Me­ - são o tema do interessante trabalho de Otelo Cor­
dicina. Aqui vemos, portanto, todo o desenvolvimen­ rêa dos Santos Filho. Em sua comunicação, além da
to de um ensino de Psicologia Médica fora da facul­ parte conceituai e do vértice psicanalítico através do
dade, em termos de pós-graduação. qual diferencia as três condições, ele nos ilustra com
O trabalho de Adolpho Hoirisch versa sobre oportunos exemplos clínicos. Em ‘Alexitimia e pen­
um tema fundamental para os médicos, a questão da samento operatório - a questão do afeto na Psicosso­
identidade médica, baseado na sua interessante tese mática”, Antônio Franco Ribeiro e Geraldo Caldeira
sobre a crise de identidade que pode acometer um fazem, à luz dos trabalhos da Escola Psicossomática
médico quando ele adoece. É um tema que pode ser de Paris, da Escola de Psicossomática de Boston, de
também pensado e estudado em relação a todas as Joyce MaCDougall e de Kristal, uma extensa revisão
repercussões que a atual crise que vivemos (subem­ desses importantes conceitos que mudaram mesmo a
prego, desprestígio social e de status, deterioração teoria e a clínica em Psicossomática.
de valores e de modelos ideológicos, papel de bode Está presente a questão de representação no
expiatório de toda uma sociedade em crise, etc.) atin­ paciente psicossomático e os pontos de vista de auto­
gindo o médico e sua identidade. Mas este seria um res lacanianos como Cuir e Dejours, ainda pouco co­
tema extenso demais para abordar no presente capí­ nhecidos em nosso meio. Em “Psicoimunologia Hoje”
tulo. fazemos junto com Mauro Moreira, imunologista,
Na seção de temas básicos, encontramos nova­ uma revisão deste tema que introduzimos no Brasil
mente Eksterman com o tema de há muito por ele em Concepção psicossomática: visão atual (1976). São
estudado sobre as relações - o diálogo como muito discutidas as relações entre os sistemas nervosos, en-
bem o diz - entre a Psicanálise e a Psicossomática. É dócrino e imunológico e as situações clínicas decor­
de fato um diálogo, pois há as contribuições da Psica­ rentes dessas inter-relações mais estudadas: doenças
nálise que desde Freud estruturaram a própria Psicos­ alérgicas, estados infecciosos, doenças neoplásicas e
somática e os conceitos oriundos desta - como ale- autoimunes. As diferentes condições relatadas são
xitimia e pensamento operatório - que fertilizaram ilustradas com casos clínicos.
o pensamento psicanalítico. Eksterman nos aponta Sendo o Grupo Balint e a Interconsulta instru­
quatro grandes áreas do conhecimento e da prática mentos básicos da tarefa psicossomática, pensamos
médica que têm especial interesse para o psicanalis­ em trabalhos que pudessem refletir uma atualização
ta: a área da Patologia, a área da relação médico-pa- desses procedimentos em nossa prática atual. Por que,
dente, a área da formação psicológica do profissional por exemplo, estão os Grupos Balint quase em desuso
de saúde e a área da prevenção. em nossos serviços de Psicossomática? Maria Apare­
Kenneth Camargo Júnior, escrevendo sobre cida de Luna Pedrosa, em “Reflexões sobre Balint”,
a relação doença-sodedade, recorda que a relação faz uma oportuna apresentação da pessoa de Balint
sodedade-doença é múltipla, pois não apenas a es­ e de sua obra, recordando que ele foi analisando de
trutura social é causadora da doença, como a própria Ferenczi, cujas ideias foram consideradas avançadas
definição de doença é, antes de tudo, cultural. Outro demais para a Psicanálise de então. Descreve suas es­
aspecto que não pode ser descuidado é que a doença tadas em Budapest, Berlim e Londres, onde realizou

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seu famoso trabalho com médicos generalistas que dor, a despe rsonalização, a histeria e a doença orgâ­
foi a base da Psicologia Médica e dos conhecimentos nica.
atuais sobre a questão da relação médico-paciente. A Capisano inicia seu interessante trabalho citan­
autora ilustra sua comunicação com um trabalho com do Muraro, que realizou uma importante pesquisa
Grupos Balint com residentes de Medicina, compro­ em mulheres de várias classes sobre as imagens que
vando as várias formas de resistência levantadas por têm dos seus próprios corpos. No tópico referente à
estes diante desse tipo de enfoque. construção da imagem corporal, ele nos faz uma cor­
Após uma análise dos aspectos positivos da ex­ relação entre o desenvolvimento dessa imagem com
periência, bem como do papel e da crise das insti­ o id, o ego e com as zonas erógenas. Já em relação à
tuições de saúde em geral, ela conclui que: “Não se Patologia, ele nos diz: “Em clínica médica ou cirúrgi­
deseja que o médico tenha que aprender Psicoterapia ca, consciente ou inconscientemente, o corpo é trata­
nem fazer Psicanálise, mas se deseja que ele se trans­ do como objeto externo”. Sobre a aparência externa
forme em um observador qualificado que possa admi­ no corpo ele escreve: “O indivíduo pode excluir do
nistrar a sua pessoa”. seu corpo certos órgãos como incluir em sua imagem
Luiz Antônio Nogueira Martins, abalizado pela corporal anéis, penduricalhos e até um automóvel”.
sua extensa experiência com o tema na Escola Pau­ Em “A aparência interna do corpo”, ele nos descreve
lista de Medicina, escrevendo sobre “lnterconsulta as várias alterações da imagem corporal decorrentes
hoje”’, faz uma excelente síntese sobre as complexi­ de um processo psicótico em paciente por ele tratado,
dades e as dificuldades desse método, enfatizando, cuja profissão lida diretamente com o corpo e com
entretanto, vantagens e perspectivas: “o campo ofe­ seus conteúdos internos.
rece ao interconsultor a possibilidade de ampliar sua No item seguinte, de temas específicos, procu­
formação profissional, seja no âmbito da observação ramos englobar trabalhos com uma nítida inserção
dos fenômenos ligados ao adoecer, seja no campo da numa prática, realizados a partir de uma especialida­
Psicologia e da Psicopatologia (individual, grupai e de médica, fosse a prática de um especialista, fosse o
institucional), assim como no aprendizado das com­ trabalho de um profissional de Psicossomática. Come­
plexas interações entre os fatores biológicos e psicos­ çamos este tópico com o trabalho de Adolpho Mene­
sociais que coexistem no ser humano”. Enquanto os zes de Mello, que através de sua extensa experiência
grupos Balint - apesar de sua excelência como mo­ de pediatra, psicoterapeuta e professor de Medicina,
delo clínico e pedagógico - praticamente caíram em apresenta-nos uma completa visão da Pediatria como
desuso em nosso meio, as interconsultas cresceram e especialidade, com sua multidão de problemas psico­
se firmaram de tal modo que hoje se cogita mesmo da lógicos, que o pediatra, com sensibilidade, curiosida­
formação de uma entidade nacional de profissionais de e criatividade, deve enfrentar. O trabalho, como
em lnterconsulta. Já os grupos Balint, profundamen­ toda a experiência de Adolpho, é ilustrado com ricos
te prejudicados pelo modelo de saúde vigente, que e significativos exemplos clínicos. Maria Tereza Mal-
desprivilegia a relação médico-paciente, parece-nos donado, autora de mais de uma dezena de livros so­
que podem ser parcial mente resgatados nas reuniões bre Ginecologia, maternidade e problemas da mulher
de equipe de saúde em que situações de relaciona­ e do casal, escreve sobre um dos temas de que ela
mento paciente-profissional-instituição possam ser tem mais experiência, “Psicossomática e Obstetrícia”.
debatidas. Numa linguagem ao mesmo tempo precisa e elegan­
O capítulo M0 problema da dor”, do gaúcho Oly te, ela diz que a perspectiva psicossomática em Obs­
Lobato, é uma extensa apresentação e revisão geral tetrícia nos é dada por um diagnóstico Situacional
do tema com ênfase nos aspectos psicológicos, abor­ possibilitado por várias vertentes do saber: a teoria
dando tópicos de grande interesse, como depressão, psicanalítica, a teoria geral dos sistemas e a teoria do
comportamento de dor, dor no paciente com câncer, vínculo.
dor psicogênica, hipocondria, conversão e simulação. A modificação de algumas intervenções de
O último trabalho desse item, de Helládio Capisano, cunho psicanalítico, a dinâmica dos grupos e algu­
diz respeito a um importante tema para a Psicossomá­ mas técnicas de terapia familiar são subsídios básicos
tica, de implicações conceituais e clínicas, a questão de atuação. E continua: “A sensibilidade, a criativida­
da imagem corporal, desde que foi descrita por Paul de, a observação cuidadosa do contexto e o respeito
Schilder, ainda em 1935. No seu trabalho claríssimo, pelas características e pelas reais necessidades das
minucioso e precioso, Schilder estudou, entre várias pessoas que demandam atendimento são requisitos
questões, o desenvolvimento da imagem corporal, as fundamentais para que o profissional possa, de fato,
imitações e as identificações, o problema do tônus, o prestar uma assistência eficaz”. Através de tópicos, a
membro fantasma, a imagem da face, os orifícios, a autora caminha conosco por vários momentos e eta-

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pas do processo: o lugar do filho; fecundação e gesta­ cardíaca do pais. Em relação à cirurgia de cardiopa-
ção; o parto; puerpêrio e amamentação; prevenção e tias congênitas, referem-se aos efeitos negativos da
tratamento verdadeiro. hospitalização, à importância da presença do psi­
Conclui escrevendo: “Como se pode ver, o leque cólogo e da ludoterapia, bem como à relevância do
de possibilidades de atendimento é bastante amplo, trabalho com os pais. A respeito do paciente adulto,
embora as condições de viabilizar projetos nesse sen­ referem-se ao medo da morte, à questão da dor, ao
tido sejam ainda bastante precárias. Mas vale a pena aumento da sensibilidade do paciente e à passagem
prosseguir nas tentativas de realizar trabalhos pio­ pela unidade de terapia intensiva. É dado um desta­
neiros e dar continuidade ao que já está implantado, que especial ao paciente coronariano e a suas preo­
persistindo no esforço de contribuir para a melhoria cupações a longo prazo: trabalho, esportes, restrições
da saúde da população e na busca de melhores condi­ alimentares, proibição de tabagismo, uso crônico de
ções de vida para essas crianças que estão nascendo”. medicamentos, sexualidade e reprodução, risco de
Este é o campo da Psicossomática que mais se desen­ novas cirurgias.
volveu, inclusive em relação aos grupos: grupos de Outros trabalhos versando sobre cirurgia têm
grávidas, de puérperas, de amamentação, etc. como autores dois profissionais de muito renome
No trabalho seguinte, ao mesmo tempo erudito, entre nós, como Fernando Barroso e Ivo Pitanguy. O
rico e original, José Schavelzon escreve sobre vários artigo de Barroso é sumamente bem escrito, denso,
tópicos da relação psicossomática e câncer, tão do contendo uma verdade em cada parágrafo. Centrado
seu agrado: os dogmas, os modelos e o narcisismo; o na relação cirurgião-paciente, ele começa discutindo
câncer como totalidade; mitos, preconceitos e a ces­ a pessoa do paciente, seus medos e suas expectativas,
sação de privilégios biológicos; assistência emocional acentuando a importância das suas experiências ante­
ao paciente com câncer; cirurgia do câncer e Psicos­ riores. Esereve: “Uma das deformações mais comuns
somática; Freud, um paciente com câncer Como po­ é a que procura ver o cirurgião como ser onipotente
demos perceber, trata-se de um trabalho abrangente e fantástico, capaz de evitar sofrimento e morte”. E,
sobre o problema do câncer, relacionando-o com a falando sobre a pessoa do cirurgião, ele nos diz que
história da Medicina e do próprio homem, com o nar­ “o exercício continuado da tomada de grandes deci­
cisismo e com os nossos preconceitos, com a possibi­ sões sobre a vida, o sofrimento e a morte estimula
lidade da recuperação e com a morte, ilustrando-o no médico o crescimento da sua onipotência... Se a
com a estranha e fantástica história do câncer que hipertrofia da imagem deve ser evitada, sua defor­
vitimou Freud. mação, d es caracterização ou apagamento constitui-
Alffed Lemle, pneumologista com grande vi­ se em falha igualmente grave”. Depois de estudar o
vência, escreve um trabalho completo sobre a asma problema do pré e do pós-operatório e a questão da
brônquica como doença psicossomática. Nesta co­ anestesia, Barroso discute à parte o problema do pa­
municação, podemos encontrar: as teorias dos perfis ciente cirúrgico com doença mental, dizendo que “é
psicodinâmicos de French, Alexander e Deutsch; a inegável que o trabalho integrado do cirurgião com o
atuação psicoterápica nas crises e entre as crises; a psicoterapeuta resulta na melhor qualificação profis­
questão do desencadeamento das crises; como redi­ sional de ambos”. Termina o trabalho escrevendo que
recionar a relação do asmático com a asma; descrição “o cirurgião jovem acha fácil entender o paciente e
de um trabalho conjunto entre pneumologistas e pro­ difícil aprender a cirurgia. Na medida em que os anos
fissionais de Psicologia Médica; impasses da relação passam, a maturidade ensina que a cirurgia é cena­
médico-paciente em asma. mente muito mais fácil do que aprender a ajudar as
Em um extenso e completo trabalho, Eugênio pessoas que operamos".
Campos, ex-cardiologista, psicólogo e psicoterapeu- Com todo o peso de sua autoridade médica, Ivo
ta, discorre sobre os aspectos psicossomáticos da Pitanguy nos brinda com um precioso trabalho sobre
Cardiologia através dos tópicos: papel das emoções; “Aspectos psicológicos e psicossociais da cirurgia plás­
emoções e coração; o problema da escolha do órgão; tica”, ao mesmo tempo extenso, delicado e profundo.
o paciente funcional; o coronariano; o hipertenso. É “O cirurgião” - diz ele logo no início do seu trabalho
feito um minucioso e completo estudo sobre o pro­ - “sendo um escravo da forma e da anatomia. Mui­
blema do estresse, constituindo-se praticamente num tas vezes sente-se frustrado, pois lidando com o ser
capitulo à parte. humano, o acrescentar e o tirar estão mais sujeitos
Em outro trabalho sobre Cardiologia, Maria de às leis do próprio corpo do que à sua força criativa”.
Fátima Praça de Oliveira e Protásio Lemos da Luz Aqui Pitanguy nos fala da importância da criatividade
escrevem sobre os aspectos psicológicos da cirurgia tão presente no seu trabalho, tão ausente, lamenta­
cardíaca, baseados na experiência do atendimento de velmente, da prática médica dos tempos atuais. Ele
múltiplos casos num dos maiores centros de cirurgia desenvolve seu artigo numa série de tópicos: conceito

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Psicossomática boje 35

de beleza e de raças; imagem corporal; deformidade médico, imobilizando-o. O que de modo geral des­
e grupo social; correlação entre cirurgia estética e re­ perta no medico raiva e desnorteamentos... E assim
paradora; a face, a mama e o abdome; envelhecimen­ acho que o pior, a regressão, tem um potencial muito
to; relação médico-paciente; pré e pós-operatório; o pequeno para conter tal situação e, a meu ver, seria
cirurgião e a cirurgia. Através de algumas afirmações necessário que a agressividade do paciente pudesse
de Pitanguy poderemos ter uma ideia da importância aparecer, para que o tratamento continuasse e pudes­
deste trabalho: ‘Toma-se clara e crescente a impor­ se ser mais efetivo”. Quanto ao tratamento psicoterá-
tância da cirurgia plastica, mas é imprescindível que pico, enfatiza as técnicas grupais, principalmente em
o cirurgião saiba distinguir os motivos que levam um nossas instituições hospitalares.
paciente a seu consultório. Não se pode correr o risco Com o advento das diálises e dos transplantes
de interpretações errôneas. Muitas vezes o paciente renais, criou-se uma série de novas condições nos ser­
transporta para uma parte do corpo - comumente a viços de nefrologia, exigindo a presença de profissio­
face - o cerne de seus problemas emocionais... Até nais de Psicologia Médica para fazer face a diferentes
onde podemos analisar, não houve necessariamente situações, sejam de ameaças, sejam de prolongamen­
uma correlação entre satisfação ou insatisfação das to da vida.
pacientes com o sucesso da cirurgia. Assim, surgiu a chamada Psiconefrologia e é
Dessa forma, podemos considerar que o resulta­ sobre este tema que Miriam Uryn escreve, com sua
do estaria intimamente relacionado com expectativas, experiência na Unidade de TVansplante Renal do Hos­
fantasias e desejos de cada pessoa. Assim, o cirurgião pital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Fa­
deve ter perfeita noção crítica do seu paciente, de seu lando sobre o processo da doação, ela distingue os
plano cirúrgico e de sua própria pessoa, cabendo-lhe problemas da doação familiar da situação que é vivi­
responsabilidade bem maior do que simples progra­ da quando o receptor recebe um rim de cadáver e en­
mação e execução do ato operatório”. fatiza os resultados positivos obtidos com a realização
A obesidade, condição essencialmente psicosso­ de grupos de doadores. Acentua o papel do psicólogo
mática, com repercussões nas cardiopatias e na hiper­ no seu preparo do receptor para ser submetido a um
tensão arterial, é um dos maiores problemas terapêu­ transplante e descreve o doloroso processo por que
ticos que a medicina enfrenta, pelo que é frequente passa quando ocorre uma rejeição. São feitas consi­
sede de práticas de curandeirismo e de charlatanismo. derações especiais sobre o transplante em crianças e
É este tema que Alexandre Kahtalian, com sua expe­ adolescentes, bem como sobre o difícil problema da
riência de psicanalista e ex-endocrinologista, aborda ocorrência de AIDS no transplantado. Todo o traba­
em “Obesidade: um desafio". Ele nos faz caminhar lho de Miriam é ilustrado com situações clínicas.
pelas diversas condições e situações da obesidade, Desde os trabalhos de Elizabeth Kübler Ross, a
desde seus primórdios, quando a mãe que responde questão da assistência ao paciente terminal vem ga­
sempre com a oferta de alimento às solicitações várias nhando um interesse maior, tanto que diversos traba­
do bebê dá os primeiros passos na direção de uma fu­ lhos vêm sendo realizados em nosso país a respeito.
tura obesidade. “Assim, pois, podemos ter distorções Desta vez temos um clínico, Francisco Trindade Barre­
deste tipo também em pessoas adultas, cuja presença to, falando sobre o tema na condição de pesquisador
deste lado infantil coloca comida onde poderia haver inquieto e criativo que o caracteriza. Ele começa dis­
a pessoa amada, por exemplo...” tinguindo pacientes verdadeiramente terminais com
É, no dizer do psicanalista Fenichel, uma adição um declínio inexorável para a morte; potencialmente
sem droga, comparando o comer contínuo com uma terminais que tem uma condição potencialmente re­
toxicofilia do tipo alcoolismo, drogas, etc. Quando se versível; pseudoterminais que têm uma percepção er­
refere a identificação e imagem corporal, ele lembra rônea de sua realidade; mentalmente terminais cuja
que o volume corporal pode ser associado a ideias morte começa na mente.
de força, recordando o famoso trabalho de Glucks- Após escrever e discutir minuciosamente essas
man e Hirsch, que estudando obesos submetidos a quatro condições, o autor nos introduz em um inte­
grandes perdas corporais detectaram sentimentos de ressante trabalho com desenhos que realiza com seus
esvaziamento, perda de forças, como se estivessem pacientes terminais e pré-terminais, demonstrando
se liquefazendo. Finalmente, falando sobre a rela­ como os desenhos representam a percepção profun­
ção profissional-paciente, Kahtalian nos diz coisas de da do doente de sua condição. Esses desenhos servem
grande validade prática: “É fato comum que o obeso de mote para um fecundo diálogo entre médico e pa­
tem enorme dificuldade em associar a hiperfagia, a ciente sobre questões como a esperança, a percepção
polifagia, a situações emocionais que atravessa ou do tempo, o desamparo.
atravessou... Outras vezes é a mentira que é de difícil A questão da eutanásia, seja passiva, seja ativa,
abordagem... passa a ser uma forma de controlar o é abordada com profundidade. A caminhada inexo-

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36 Mdk> Fího. Burd e cots.

rável para a morte é discutida em três tipos de situa­ de saúde e estes dos pacientes com AIDS... A relação
ção: trajetória prolongada; trajetória rápida espera­ do grupo com respeito à instituição hospitalar como
da; trajetória rápida inesperada. O trabalho é pleno um todo é claramente ambivalente. O grupo deseja
de citações e de resumos de trabalhos estrangeiros, um reconhecimento e esta demanda de um reconhe­
geralmente de autores médicos americanos. cimento institucional é particularmente intensificada
No item referente a AIDS, temos quatro traba­ pela AIDS num conflito entre prestígio institucional e
lhos: o primeiro contém generalidades sobre a doen­ impotência terapêutica... A experiência com este gru­
ça e trata da psicoterapia do paciente com AIDS; o po de reflexão, que foi denominado muito propria­
segundo discute as questões psicossociais da AIDS; o mente por um dos seus integrantes como ‘grupo de
terceiro aborda o problema do hemofílico com AIDS; arrisco’ representou uma contribuição para o estudo
o quarto descreve um trabalho grupai realizado com e a elaboração não só da intensidade conflitiva na
profissionais de saúde que atendem pacientes com tarefa assistendal a pacientes com AIDS, como das
AIDS. relações conflitivas entre os diferentes profissionais
O primeiro trabalho, de nossa autoria, baseado que integram a equipe de saúde”.
no atendimento a pacientes com AIDS realizado na Há poucos anos abateu-se uma quase epidemia
Seção de Psicologia Médica do Hospital Universitário de AIDS entre a população de hemofílicos do Rio de
Pedro Ernesto (UERJ) aborda os seguintes itens: pro­ Janeiro, o que representou uma tragédia para essas
blemas psicológicos em doentes com AIDS; o atendi­ pessoas, já vitimadas por uma moléstia crônica. É so­
mento aos pacientes e à equipe; a questão do pacien­ bre esse conjunto de fatos que versa o trabalho de
te homossexual; o atendimento grupai a pacientes Virgínia Fontenele Eksterman, realizado com a co­
soropositivo; a mulher com AIDS; os usuários de dro­ laboração de psicólogas e que relata o resultado do
gas; o paciente terminal e a morte. Outros problemas atendimento de pacientes hemofílicos num centro de
abordados nesse trabalho são: as complexas relações Hematologia. Num trabalho sensível, elaborado com
parceiros-família; interação do psicoterapeuta com muito cuidado e escrito de forma poética, as autoras
a equipe médica; complexidades do diagnóstico psi­ começam recordando o que é a hemofilia, como vi­
quiátrico e do tratamento; a demência terminal e a vem esses pacientes no que chamaram de “uma gran­
morte do doente com AIDS. O trabalho seguinte, de de família” e o modo como se contaminaram pelos
Amaury Queiroz, representando o Serviço de Psicolo­ criopredpitados - “ao mesmo tempo vida e morte” -
gia Médica e Saúde Mental do Hospital Universitário com a AIDS. Com flashes de atendimentos individuais
Clementino Fraga Filho (UFRJ), aborda os seguintes e sobretudo grupais é descrito o drama desses pacien­
tópicos: as repercussões sociopolíticas e o problema tes, sua ansiedade, perplexidade e revolta diante da
do preconceito; atendimento às famílias, referindo-se AIDS e da instituição que os contaminou. Escrevem
ao trabalho que é realizado pelas assistentes sociais elas inidalmente: “Nosso objetivo era compreender a
do Serviço; importância dos grupos de reflexão; pa­ psicodinâmica do funcionamento mental do paciente
pel do profissional de saúde mental junto ao clínico e hemofílico, suas relações familiares, institucionais e
ao paciente. A seguir, Queiroz descreve as principais com a própria doença. Tentávamos não rotular essas
reações psicológicas e psiquiátricas que acometem pessoas, pois percebíamos que sua identidade já era
esses doentes: reação depressiva; paranoia; reações comprometida. Elas se colocavam sempre como he­
maniformes e reações histeriformes. O trabalho con­ mofílicas, não se sentindo homens, pessoas. Depen­
clui com o problema da abordagem do paciente ter­ diam do sangue dos outros para serem inteiros”.
minal. Nesta família do hemofílico, o homem é sempre
Escrevendo sobre “Grupo de reflexão multipro- sentido como fraco, ameaçado, a perigo, e a mulher
fissional em AIDS - uma estratégia em Psicologia Mé­ como forte e invulnerável. Quando o risco da AIDS
dica”, Alicia Navarro de Souza relata uma experiência começa a se desenhar, os pacientes comentam: “ago­
também vivida no Hospital Universitário Clementino ra, ser hemofílico é dizer que somos de um grupo de
Fraga Filho com um grupo de médicos, enfermeiros, risco. AIDS para o hemofílico é sinal verde para o in­
assistentes sociais, nutricionistas e psicólogos coor­ ferno”. É descrita a angústia da família - principal­
denados por Amaury Queiroz e por ela própria. Este mente da mãe - diante da nova situação, bem como
trabalho, centrado nas ansiedades, vivências e con­ da equipe médica.
flitos destes profissionais frente à tarefa comum de O trabalho termina com a angústia do “vir a
assistir pacientes com AIDS, propiciou várias refle­ morrer” descrevendo o acompanhamento lado a lado
xões, entre elas: “A experiência central deste grupo desses pacientes até o instante final. Concluem: “So­
é a vivência da importância terapêutica, de limite do fremos juntos, buscando integrá-los dentro de uma
conhecimento, que aproxima os vários profissionais realidade impossível. Lidamos o tempo inteiro com

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Psicossomática boje 37

a onipotência, descobrimos a dor, as perdas e nossas jogo: privação afetiva ou rejeição por parte dos pais
limitações de pacientes-psicólogas, dentro de um uni­ nos primeiros anos de vida; sentimentos de desva­
verso de absurdos”. lorização e inferioridade; defesas mal-estruturadas e
O item seguinte, que denominamos de “TYaba- primitivas; incapacidade de desenvolver relações ob­
lhos Originais”, refere-se a contribuições sobre temas jetais satisfatórias.
até então inéditos em Psicossomática, como “Regêne- Valendo-se de uma excelente formação clínica e
sis: o mito da Fênix em Psicossomática” ou a questões de um acurado enfoque psicossomático, José Galvão
que estejam sendo pela primeira vez abordadas em Alves, baseado em sua vivência prática num pronto-
Psicossomática em nosso pais: “Desordens factícias” e socorro do Rio de Janeiro, escreve sobre os aspectos
“Urgências, aspectos psicossociais”. A partir do mito psicossociais das urgências médicas em um trabalho
da Fênix, em um dos mais originais trabalhos des­ que é um libelo contra o estado de nossas institui­
te livro, Samuel Hulak e George Lederman criam o ções de saúde e de como estão despreparadas para
conceito de Regênesis “como a fantasia da busca da prestar assistência psicológica aos que a ela recorrem.
regeneração, cuja intensidade é tão fortemente de­ Descrevendo com muita propriedade o ambiente ao
sejada que pode mobilizar as ordens destrutivas do mesmo tempo carente e agressivo dos nossos pronto-
organismo, permitindo a produção de doenças psi­ socorros, Galvão relata uma série de condições que
cossomáticas severas com intenção letal”. Baseados provocam frequentemente a iatrogenia, o preconceito
em casos de sua clínica particular, descrevem certas e a agressão da equipe médica: distúrbios chamados
características comuns desses pacientes como: inacei- de neurovegetativos; homossexualidade; alcoolismo;
tação do esquema corporal; fantasia de serem outra toxicomania; os velhos; os suicidas. A indiferença e as
pessoa; falta de criatividade; existência de somati- defesas maníacas são a forma habitual de os médicos
zações severas com risco letal. Os casos estudados se defenderem das angústias e frustrações inerentes
compreendiam a doença de Wegener, o lupo, a artrite às limitações institucionais e ao clima próprio das
reumatoide, a infertilidade por anticorpos, tumores emergências. Considerando os serviços de emergên­
malignos da mama e da tireoide e anorexia nervosa. cia como verdadeiros ambulatórios das classes desfa­
Nesses pacientes há sempre uma patologia nar- vorecidas, Galvão nos fala também de sua importân­
císica e o que chamaram de falso self imposto, ca­ cia como “força inesgotável de treinamento”.
racterizando um grau maior da constituição de uma No último tópico sobre tratamento, são discuti­
estrutura falso self a partir de uma imposição e uma dos três trabalhos, dois sobre psicoterapia individual
intrusão ambiental. e um sobre psicoterapia grupai. O primeiro se refere
No manejo terapêutico desses pacientes, cha­ a abordagens de base psicanalítica, mais tradicional
mam a atenção para o funcionamento do setting e em voga em nosso meio e o segundo, à psicoterapia
como espaço potencial, alertam contra as interpre­ breve, técnica ainda pouco empregada no tratamento
tações precoces e para a necessidade de o terapeuta de casos psicossomáticos entre nós. O terceiro tra­
suportar relações de extrema fusão sem que isto des­ balho versa sobre a abordagem grupai de pacientes
perte muita angústia ou reações contratransferenciais somáticos, tema sobre o qual ainda muito pouco se
difíceis de serem manejadas. escreve apesar de sua enorme aplicação prática.
Therezinha Penna introduz o estudo de uma Em um trabalho muito extenso e detalhado,
condição que vem sendo pesquisada nos Estados pleno de exemplos clínicos, Otelo Corrêa dos Santos
Unidos - as desordens factícias - também chamada Filho escreve sobre “Psicoterapia psicanalítica do pa­
de Síndrome de Münchhausen, em alusão ao famoso ciente somático”, tema que ele vem particularmente
mentiroso que era barão. Como características destes estudando e pesquisando. De início, Otelo nos apon­
pacientes, que têm uma “necessidade psicológica de ta duas grandes possibilidades de atenção psicológica
assumir um papel de doente”, ela aponta: autoindu- aos doentes orgânicos. Na primeira via, está todo o
ção de infecções, produção de feridas crônicas, au- campo da reabilitação, o retomo à vida e à família,
tomedicação e simulação de doenças, que é o mais o uso afetivo e sexual do corpo, a reestruturação da
comum. imagem corporal, “a procura de um novo equilíbrio
Esses pacientes forçam internações hospitalares, corporal, principalmente nardsico". A outra via e
conseguem se submeter aos mais sofisticados e inva- representada pela Psicoterapia. A esse respeito, dis­
sivos exames, abusam de analgésicos e outros medi­ correndo sobre uma base conceituai teórica que
camentos e têm geralmente internações tumultuadas. pavimenta as posições que irá tomar, ele apresen­
Quanto à psicodinâmica destes casos “que precisam ta o paciente psicossomático como carente de uma
ser diferenciados das doenças psicossomáticas em ge­ elaboração psíquica e com uma falha nos processos
ral, da histeria e da hipocondria - parecem estar em de simbolização. A doença é desencadeada por um

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38 Mdlo Filho, Burd e cds.

acontecimento “da ordem da perda ou equivalente. educativa, apoiar ou estimular defesas adaptativas,
Tal perda não é relacionada pelo sujeito ao fenômeno informação, promover identificações positivas com
somático e, em geral, é minimizada e bem tolerada”. outros pacientes, estímulo da afirmação pessoal. O
Sobre a técnica, baseada na sua experiência, Otelo trabalho se encerra com a questão do apoio psicoló­
nos faz uma série de contribuições: que a presença do gico aos pacientes terminais.
terapeuta deve ser viva, falante e questionadora, face O último trabalho, de autoria de Eugênio Cam­
a face com o paciente; a interpretação, quando hou­ pos, diz respeito a “O paciente somático no grupo tera­
ver; deve tratar de promover uma maior aproximação pêutico”, ou seja, a perspectiva de tratarmos pacientes
do paciente às vivências que surgem; devem ser evita­ somáticos através de técnicas grupais. Em sua forma
das interpretações psicanalíticas clássicas, pois serão rica e pormenorizada de abordar um tema, Campos
vividas como invasão, sugestão ou ferida narcísica; começa fazendo uma revisão do que é um paciente so­
os pacientes relacionam-se mais com as disposições mático, quais os mecanismos da somatização e sobre
verdadeiras interiores do terapeuta do que com as pa­ a psicotcrapia do paciente somático, como introdução
lavras que este diz. Na parte final do trabalho, o au­ à questão dos grupos somáticos homogêneos. A esse
tor se refere à psicotcrapia do paciente somático no respeito, ilustra com riqueza de detalhes o trabalho
ambulatório das instituições, resumindo do seguinte realizado com grupos de hipertensos no INAMPS de
modo suas experiências: a mediação da instituição é Teresópolis através do relato de várias sessões.
geralmente nociva, pelo que cada terapeuta deve ma­ É um trabalho de grande alcance social que visa
nejar a marcação de consultas, férias, etc.; o modelo atender a toda a população de hipertensos daquela
é a psicotcrapia psicanalitica de consultório e os pres­ cidade. A respeito desses grupos, ele sintetiza: “O
supostos teórico Clínicos os referentes aos pacientes grupo de hipertensos, nós o vemos não no sentido de
“somáticos”, exigindo uma atitude ativa, empática e grupo psicoterapêutico propriamente dito (cujo ‘foco’
pouco interpretativa; essa prática exige uma reflexão é a vida do paciente) mas como grupo de orienta­
constante, através de reuniões regulares de discussão ção e reflexão cujo ‘foco’ é a doença. (...) Ao mesmo
de casos clínicos; deve ser articulada a outras práticas tempo, visualizamos nesse tipo de grupo um efeito
de psicologia médica ligadas ao ambulatório geral ou terapêutico claro enquanto suporte social, na medida
ao hospital. em que os pacientes estão reunidos em torno de um
Ao descrever com detalhes o uso da psicotera- problema comum e sustentados por uma equipe que
pia em hospitais gerais e particularmente as psicote- os apoia”. A seguir; o autor se refere à experiência de
rapias breves, Therezinha Pcnna, falando sobre um atendimento a pacientes neuróticos e psicossomáticos
tema abordado por Otelo Santos Filho, presta um no mesmo posto do INAMPS de Teresópolis, agora
inestimável serviço a todos nós. Falando sobre a equi­ sob um referencial de psicotcrapia analítica grupai.
pe, ela se refere às várias manobras através das quais Escreve o autor sobre tal experiência: “O ‘foco’ não é
os médicos “empurram” os pacientes difíceis para o mais a doença ou a queixa física. O clima do grupo é
psicoterapeuta. mais de elaboração c menos de suporte.
“Na hierarquia das tarefas médicas, a conversa Os pacientes se sentem ‘autorizados’ a falar mais
é pouco valorizada e vista como uma função menor”. de sua intimidade, das fantasias e do ‘lado proibido’...
Sobre o setting, ela se refere às inadequações às quais Em relação às queixas somáticas, frequentemente no
o psicoterapeuta terá que se adaptar, às questões de decorrer das sessões questionamos os pacientes sobre
privacidade e sigilo e aos problemas da transposição o que estariam ‘falando’ com o corpo... Interpretamos
da técnica psicanalitica para um hospital geral ao suas ‘falas’ (somáticas ou não) em relação ao grupo,
invés de uma escuta psicodinâmica. Sobre as psico- a nós, a situações passadas”. Encerrando o trabalho,
terapias breves propriamente ditas, descreve a técni­ o autor faz uma correlação entre a função terapêuti­
ca de crise e as técnicas supressoras de ansiedade e ca e as contribuições de Winnicott (holding c função
provocadoras de ansiedade (Kaplan). Quanto às táti­ materna) c Kohut (função Self objetai).
cas empregadas, refere: interpretação, interpretação

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