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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

INSTITUTO DE PSICOLOGIA
TRABALHO PROFISSIONAL, ESTADO, MERCADO E TERCEIRO SETOR

DOCENTE: LOUISE OLIVEIRA RAMOS MACHADO


DISCENTE: AMANDA MAGALHÃES REIS BRITO

“A INSTÂNCIA DO PODER POLÍTICO INTERPENETRA E


REFLETE A BASE ECONÔMICA”

SALVADOR
2019.1
“A INSTÂNCIA DO PODER POLÍTICO INTERPENETRA E REFLETE A
BASE ECONÔMICA”

Seguindo os pensamentos de Locke, o pai do liberalismo, que considera o


direito à propriedade como algo natural e inegociável, conseguimos compreender o
caminho no qual a economia liberal se direciona. O liberalismo acaba sendo uma
resposta ao absolutismo, onde neste período de produção feudal, o servo se via
como dono dos meios de produção, apesar de estar sujeitado ao senhor por
questões de submissão e proteção. Com a ruptura entre a posse dos meios de
produção e o trabalhador no modo de produção capitalista, o proletário, ​expropriado​,
se vê obrigado a vender sua força de trabalho para o capitalista, procurando manter
sua subsistência. Aos “desempregados” restava somente a culpabilização, como
vimos em um certo grau ainda nos dias de hoje, o açoite e até mesmo a morte.
Outros eram abrigados pela Igreja, sendo ainda atribuída a pobreza como um
problema individual, de vagabundagem e imoralidade, onde a ajuda vinha com os
interesses da classe dominante, que seria a força de trabalho desses indivíduos.
Segundo Faleiros, no século XVIII, Adam Smith afirmou que “os capazes, os
inteligentes é que prosperariam num regime de concorrência” (p. 13), demonstrando
um caráter meritocrático, culpabilizando o indivíduo pela pobreza, e não o sistema
de produção.
Nesse sistema de produção capitalista, onde o trabalhador vende sua força
de trabalho e é explorado, pois recebe somente uma pequena parcela do que
produziu, ele ainda precisa adquirir bens duráveis ou não para sua subsistência, e
ainda é estimulado pelos mecanismos do sistema a adquirir outros bens em busca
de uma “felicidade” encontrada no mercado, seguindo os interesses da classe
dominante. Esse bem-estar social acaba se resumindo a desejos individuais através
do consumo. E, com o aumento da produção de bens, o Estado, demonstrando que
a produção acaba produzindo o consumidor e não o oposto, assume o papel de
direcionar essas aquisições para um maior crescimento da economia. Ou seja, em
uma economia liberal, o Estado entra em ação para favorecer o interesse da
burguesia, logo, o Estado não é neutro como aparenta ser. Assim, o trabalhador é
obrigado a vender sua força de trabalho e é pago injustamente, sendo explorado e
forçado a adquirir bens para sua sobrevivência e para sua “felicidade”, que é
manipulada por variados instrumentos criados para a manutenção do sistema
capitalista. O trabalhador se vê cada vez mais pobre, enquanto os ricos enriquecem
cada vez mais. Através da pressão dos movimentos sindicalistas e sociais e do
receio de uma grande revolta, o Estado é obrigado a “cuidar” da vida do trabalhador
em um movimento que ainda reproduz os processos de exploração, onde projetos
sociais são criados e encarados como investimentos sociais para benefício do
mercado. Aparecendo como o favorecedor dos desfavorecidos, o Estado busca
garantir o mínimo e defender a individualidade e liberdade — elementos fortes no
liberalismo —, que aparecem como culpabilizadores da miséria gerada, retirando
todo o foco das relações de exploração, a verdadeira raiz do problema.
Em nossa sociedade capitalista as políticas sociais são vinculadas à política
de bem-estar social, sendo divulgadas como instrumentos de redução da
desigualdade e extinção da pobreza, onde é feita, em tese, uma redistribuição de
renda na tentativa de um maior avanço econômico e social. Em busca de uma
legitimação e de controle da tensão entre as classes para a manutenção de uma
ordem social, o Estado liberal justifica as políticas sociais como um instrumento de
combate a desigualdade e pobreza, debruçada em uma imagem de solidariedade
aos cidadãos mais pobres. A política social é ​política​. O Estado conserva as
posições hierárquicas atuais que melhor o auxiliem na busca de sua própria
conservação. Com a intenção de isolar e fragmentar a classe proletária, são criadas
categorias e públicos-alvo para cada política social e dividindo a classe em uma
falsa intenção de busca da eliminação das desigualdades, na qual gera cada vez
mais classes secundárias (discriminadas por sexo, raça, religião, país de origem,
etc.), tirando cada vez mais o foco das relações de exploração do sistema capitalista
e mantendo o controle da classe dominada para a manutenção das relações que
sustentam esse mesmo Estado. Assim como as políticas sociais, a conservação de
uma classe trabalhadora excedente também acaba sendo utilizada como forma de
controle social. Diante da possibilidade de concorrência, substituição e tecnização, o
trabalhador se sente ainda inseguro, e dessa forma, disciplinado. Afinal, para possuir
o “poder” de consumo, ele precisa vender sua força de trabalho.
Os cidadãos mais necessitados são vistos como anormais, desajustados e
são culpabilizados por suas realidades, pois o ato de trabalhar em uma sociedade
capitalista é exaltado e indivíduos que não seguem essa mesma linha, são
fracassados. Enquanto o trabalho é valorizado, ele também é desvalorizado,
causando o barateamento da mão de obra dos trabalhadores. A política social,
mesmo para crianças, já pensa em uma futura força de trabalho, tratando a família
como prioridade e “cuidando” de uma reserva de trabalhadores, igualmente a criação
de creches, que estimula a participação de mulheres no mercado, conquistando
mais força de trabalho para a economia. Com o uso da palavra ​social para
denominar essas políticas, elas acabam se mostrando como algo bom e favorecedor
para os mais pobres, escondendo seu vínculo com os interesses da outra classe.
Para a classe burguesa, o Estado deve garantir o bom o funcionamento do mercado
e para a classe trabalhadora, ele deve garantir seus direitos e necessidades. Assim,
o Estado fortalece as relações que o mantém, utilizando ambas as classes como
instrumento de sua própria conservação, usufruindo e alimentando a burguesia e
tomando uma imagem de protetor dos trabalhadores, em uma tentativa de discurso
humanizador diante de uma realidade desumanizadora (p. 63), onde utiliza das
políticas sociais como controle, apaziguamento e estímulo para o mercado. Porém,
apesar de tudo, as políticas sociais do Estado não podem ser consideradas boas ou
más, afinal, elas possuem dois lados de uma mesma moeda e para a melhor
compreensão dessas políticas, se faz necessário o entendimento de todo o contexto
social e histórico na realidade de sociedade capitalista monopolista na qual vivemos.

Bibliografia

FALEIROS, Vicente de Paula. ​A política social do estado capitalista​. 8 ed. rev. São
Paulo, Cortez, 2000.