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LP

Língua Portuguesa

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

UNIDADE 1: Como costuramos um texto? 3


CAPÍTULO 1: Conjunções 4

CAPÍTULO 2: Pronomes 16

CAPÍTULO 3: Colocação pronominal 34

UNIDADE 2: Como você contaria a sua história? 45


CAPÍTULO 1: Gêneros narrativos 46

UNIDADE 3: F
 rase, oração e período:
há diferenças? 69
Unidade 1: Como costuramos um texto?

CAPÍTULO 1: Frase, oração e período 70

UNIDADE 4: Que vozes existem em um texto? 87


CAPÍTULO 1: Vozes no texto 88

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LP
UNIDADE 1

Língua
Portuguesa

CONJUNÇÃO

Elemento de ligação. Serve

COMO
para relacionar duas ou
mais orações, dois ou mais
termos semelhantes da
mesma oração.

COSTURAMOS
PRONOME

Ele acompanha, substitui


ou refere­se a nomes,
UM TEXTO?
apresentando uma forma A resposta é: “com as classes de palavras” – área da
específica para cada
Morfologia que estuda a estrutura, a formação e a
pessoa do discurso.
classificação dos elementos de uma frase

Você pode começar elencando os dez componentes das classes de palavras: substantivo, verbo, adjetivo,
pronome, artigo, numeral, preposição, conjunção, interjeição e advérbio. E, depois, mostrar a diferença de
Morfologia e Sintaxe, para também preparar o aluno para a próxima unidade.

COLOCAÇÃO PRONOMINAL
Em um tricô, quem une a linha para fazer um emaranhado bonito que depois
Melica, arigato, Studio ART/Shutterstock.com - Nadzeya_Kizilava/iStock/Getty Images

Especialidade da
Gramática que mostra a se transforma em uma peça pronta para ser usada são os pontos.
correta colocação dos E, para quem não sabe, existem diferentes tipos de ponto que podem unir as
pronomes oblíquos linhas de modos variados, resultando em peças de diversos formatos.
átonos em uma frase. Mas qual é a relação dos pontos do tricô com a Gramática da Língua Portuguesa?
Você já parou para pensar em quem faz esse trabalho de costura nas frases que
construímos diariamente?
São os elementos gramaticais. Juntos com os demais termos de uma frase,
eles são os responsáveis por elas terem sentido completo. Seguindo a analogia
com os pontos do tricô, dependendo de qual elemento gramatical você usar, a
frase final terá um significado e uma finalidade específicos. Portanto, para cada
intenção de fala, há um elemento próprio: se você quiser expressar comparação,
por exemplo, usará termos diferentes do que usará para expressar conformidade.
Nesta Unidade, estudaremos duas classes de palavras: as conjunções (que
unem) e os pronomes (que acompanham, substituem ou fazem remissões). Vere­
mos o que elas são, como classificá­las e como usá­las para construir textos.
Quer entender como acontece essa costura de palavras? Vamos adiante!

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UNIDADE 1
CAPÍTULO

1 CONJUNÇÕES
Estudaremos
neste capítulo:
As conjunções são as palavras que servem para relacionar duas ou mais orações, dois ou mais
termos semelhantes da mesma oração.
Se elas relacionam termos da mesma natureza, como dois substantivos, dois adjetivos, dois
Conjunções coordenativas advérbios ou duas orações, são chamadas de coordenativas, porque apenas coordenam esses
Conjunções subordinativas elementos, colocando­os lado a lado. Mas, se elas relacionam orações de natureza diversa, uma
delas começando por conjunção, esta completa o sentido da outra, restringe­o, explica­o. Essas
conjunções são chamadas de subordinativas.
Note a ideia de elos na canção de Gonzaguinha, a seguir, e como a conjunção e amarra cada verso.

Não dá mais pra segurar (explode coração)


[...]
Chega de temer
Chorar
Sofrer
Sorrir
ORAÇÃO: frase que
Se dar
contém verbo. E se perder
E se achar
E tudo aquilo que é viver
Eu quero mais é me abrir
[...]
JÚNIOR, Luiz Gonzaga do Nascimento (Gonzaguinha).
Gonzaguinha da vida, São Paulo: EMI Odeon, 1979.

Com os elos, o compositor cria a sensação de algo que vai ligando uma coisa à outra de modo
crescente. Para compreender melhor, é possível reescrever os versos usando a conjunção e, que
estava suprimida nos primeiros versos, e observar como ela funciona como elo das frases. Veja:
“Chega de temer” e “de chorar” e “de sofrer” e “de sorrir” e “de se dar” [...].

Você sabia?
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha, nasceu em 1945, no


Rio de Janeiro, e se tornou um grande compositor e cantor. Filho do
Jessica Olmedo

também cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga, Gonzaguinha


igualmente fez história, sendo um dos compositores mais procurados do
mercado brasileiro nos anos 1980. Suas canções mais conhecidas são:
“Não dá mais pra segurar (explode coração)”, “Começaria tudo outra vez”,
“Sangrando”, “Eu apenas queria que você soubesse”.

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Conjunções coordenativas

Língua Portuguesa
Classificamos as conjunções coordenativas de acordo com as relações que elas estabelecem
entre as orações ou entre os outros termos. Assim, elas podem ser: aditivas, adversativas, alter­
nativas, conclusivas e explicativas.

Conjunções coordenativas aditivas


Ligam dois termos de idêntica função, ligam pensamentos similares. Em português, só existem ZOOM
duas delas: e e nem. Exemplos:
Nem possui o significado
• O diretor veio e parabenizou a turma pelo bom trabalho da semana anterior. (e une os verbos
de “e não”.
vir e parabenizar)
• O professor não veio dar aula nem avisou por que faltara. (nem une os verbos vir e avisar)
• Gosto de livros e de filmes. (e une os substantivos livros e filmes)

Conjunções coordenativas adversativas


Ligam elementos com funções semelhantes, mas que apresentam ideias opostas, contras­
tantes, distintas. As principais conjunções adversativas são: mas (somente no início da oração),
ZOOM
contudo, entretanto, no entanto, porém, todavia. Exemplos:
• Gostaria de estudar mais, mas não tenho tempo. Quanto à construção de
• Estudei bastante; fui, contudo, muito mal na prova de Química. frases com o uso da con-
junção ou, pode-se usá-
ZOOM -la de forma simples, bem
como de forma dupla:
Observe as construções a seguir:
• Raquel viajaria ou
•  Estudei bastante; fui, entretanto, muito mal na prova de Química.
para Itália ou para
•  Estudei bastante; fui muito mal, entretanto, na prova de Química. Portugal. Ainda não
•  Estudei bastante; entretanto, fui muito mal na prova de Química. havia deci­dido.
•  Estudei bastante, mas fui muito mal na prova de Química. • Raquel viajaria para
Ao analisar essas frases, percebe-se que a posição das conjunções é bastante variável, à exceção de uma: mas. Itá­lia ou para Portugal.
A conjunção mas só pode aparecer no início da oração. Seriam incorretas (e até soariam mal aos ouvidos) as Ainda não havia decidido.
seguintes construções:
•  Estudei bastante; fui, mas, muito mal na prova de Química.
•  Estudei bastante; fui muito mal, mas, na prova de Química. Você sabia?
Para a conjunção pois
ser usada como
Conjunções coordenativas alternativas conclusiva, ela deve vir
Essas conjunções ligam dois termos ou orações de sentido distinto, indicando que, ao se cum­ depois do verbo ou no
prir um fato, o outro não se cumpre. As principais conjunções são: ou (repetida ou não) e repetidas: meio da locução verbal
ora, quer, seja, nem, etc. Exemplos:
sempre en­tre vírgulas.
Vejamos:­
• Ora fazia dieta, ora comia somente lanches prontos.

Unidade 1: Como costuramos um texto?


• Não tomei café da
• Tive dúvidas se levava a cadeira ou a mesa ou as duas.
manhã. Vou, pois,
sentir fome cedo.
Conjunções coordenativas conclusivas
• Minha melhor amiga
As conjunções coordenativas conclusivas servem para ligar uma oração que exprime conclu­
vai ser homenageada
são, consequência, à anterior. Como principais conjunções, temos: logo, pois (depois do verbo),
na Câ­mara dos
portanto,­ por conseguinte, por isso, assim, etc. Exemplos: Vereadores.
• As pessoas não cuidam do meio ambiente. Vão, por conseguinte, sofrer os danos dos Comparecerei, pois,
seus atos. à cerimônia.­
• Ela brincou o dia todo de pé descalço. Logo, vai pegar um resfriado.

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Conjunções coordenativas explicativas ZOOM


As conjunções coordenativas explicativas ligam duas orações, sen­
As conjunções e e mas podem estabelecer entre as frases
do que a segunda delas justifica a ideia contida na primeira. As princi­
valores diferentes dos quais a Gramática Normativa pro-
pais conjunções são: que, porque, pois, porquanto. Exemplos:
põe. Veja:
• Deve ter chovido, pois o chão está molhado.
E
• Venha cá que eu tenho uma dúvida!
a) Valor adversativo: Estudei muito, e não aprendi nada.
A conjunção pois, como visto, pode ser tanto conclusiva como ex­ b) Valor consecutivo, conclusivo: Diga que me ama e eu vol-
plicativa. Para esclarecermos essa diferença, basta entender o senti­ to correndo.
do que está sendo expresso pelas orações em que essa conjunção c) Valor final: Colocou os óculos de sol e a luz não mais o
está inserida. Vejamos: cegava.
Na frase “Minha melhor amiga vai ser homenageada na Câmara d) Valor explicativo enfático: Eu sou casada, e muito bem
dos Vereadores. Comparecerei, pois, à cerimônia.”, percebe-se que, casada.
na primeira oração, há a informação da causa que leva à conclusão da Mas
segunda: se a melhor amiga vai ser homenageada, a conclusão lógica a) Valor de restrição: Vá à padaria, mas não converse com
é que se deve comparecer à cerimônia. A conjunção pois, então, cum­ estranhos pelo caminho.
pre papel de conclusiva. b) Valor de retificação: Tenho estudado não de hoje para
Já na frase “Deve ter chovido, pois o chão está molhado.”, perce­ essa prova, mas de há muito tempo.
be-se que a conjunção pois explica a ideia, a hipótese levantada na c) Valor de adição: Era bela, mas principalmente estudiosa.
frase anterior.

PARADA OBRIGATÓRIA

1. Após o estudo das conjunções coordenativas, escreva frases coesas utilizando-as.


a) Aditiva:
Resposta pessoal.

b) Adversativa:
Resposta pessoal.

c) Alternativa:
Resposta pessoal.

d) Conclusiva:
Resposta pessoal.

e) Explicativa:
Resposta pessoal.
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2. Pense na relação que pode ser estabelecida entre as frases e una-as utilizando a conjunção coordenativa adequada.
a) Ficou jogando videogame até tarde. Acordou com muito sono.
Ficou jogando videogame até tarde, por isso acordou com muito sono.

b) Fez um vídeo lindo de uma paisagem. Publicou-o nas redes sociais.


Fez um vídeo lindo de uma paisagem e publicou-o nas redes sociais.

c) No almoço, sempre comia peixe. No almoço, sempre comia frango.


No almoço, sempre comia peixe ou frango.

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▶ d) Vamos embora. O sol já se pôs.

Língua Portuguesa
Vamos embora, pois o sol já se pôs.

e) O bolo tinha ficado delicioso. Ninguém comeu muito.


O bolo tinha ficado delicioso, todavia ninguém comeu muito.

3. Leia o poema de Alípio Freire.

IV
Garimpo solitário Depuro
a cada treva elemento
por elemento
o universo
e suas leis Estou quase cego dessa mineração
os céus [...]
e suas dinâmicas
Minha Aurora
o ar BATEIA: recipiente de madeira ou
tem um desenho humano
e seus fogos traçado por mestres de obras de metal, de fundo cônico, onde
a terra cascalhos e minérios são revolvidos
e suas águas Mas as palavras exatas em busca de pedras preciosas.
ainda fogem à minha bateia. DEPURAR: purificar, limpar algo de
FREIRE, Alípio. Prenúncios de Aurora. In: . Estação Paraíso. substâncias ou detritos
São Paulo: Expressão Popular, 2007. p. 79. indesejáveis.

a) Nesse poema, o poeta compara a busca das palavras para descrever Aurora ao trabalho de mineração do ouro. Indique os
versos em que as conjunções geram a ideia de união, de acúmulo das partes no processo de procura das palavras.
“o universo / e suas leis; os céus / e suas dinâmicas; o ar / e seus fogos; a terra / e suas águas”.

b) Nos últimos versos do poema, de qual recurso o poeta lançou mão para dizer que falha sua busca pelas palavras exatas para
traçar o desenho humano de Aurora?
O poeta lança mão da conjunção adversativa “mas”: “Mas as palavras exatas / ainda fogem à minha bateia”.

Parada complementar: 2 a 4, 7 e 8
Teste seu conhecimento: 1

Conjunções subordinativas
Unidade 1: Como costuramos um texto?
As conjunções subordinativas ligam orações dependentes. Nessa estrutura, uma das orações
determina ou completa o sentido da outra.

Conjunções subordinativas adverbiais


As conjunções subordinativas adverbiais ligam duas orações. A oração introduzida pela con­
junção exerce a função de adjunto adverbial da oração principal.
Adjunto adverbial é uma função sintática desempenhada por um advérbio, por uma locução
adverbial ou por uma oração subordinada adverbial. Sua função é modificar um verbo, um adjeti­
vo, outro ad­vérbio ou toda uma oração. Exemplos:
• Esta revista custou caro.

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• Esta revista custou muito caro.


Caro pertence à classe gramatical dos advérbios e está modificando o verbo custou e sua fun­
ção ­sintática é de adjunto adverbial; muito é outro advérbio que está modificando, intensificando
o ­ad­vérbio caro e sua função sintática também é de adjunto adverbial.­
As conjunções subordinativas adverbiais têm subdivisões, de acordo com as circunstâncias
que exprimem:

Conjunções subordinativas adverbiais causais


Essas conjunções iniciam uma oração que é a causa da oração principal. São elas: porque, pois,
porquanto, como (com sentido de “porque”), pois que, por isso que, já que, uma vez que, visto que,
visto, como, que, etc. Exemplos:
• Como não era preciso trabalhar até tão tarde, foi para casa mais cedo naquele dia.
• Foi aprovado no concurso porque estudou anos e anos.

Conjunções subordinativas adverbiais comparativas


As conjunções subordinativas adverbiais comparativas iniciam uma oração que expressa uma
comparação, um confronto, com um dos termos da oração principal. São elas: que, do que (depois
de: mais, menos, maior, menor, melhor e pior), qual (depois de: tal), quanto (depois de: tanto),
como, assim como, bem como, como se, que nem. Exemplos:
• Estudei tanto quanto ela para aquele exame: ela passou, e eu, não.
• Os alunos daquela escola são mais bem preparados fisicamente do que os desta.

Conjunções subordinativas adverbiais concessivas


Essas conjunções indicam um fato contrário ao que foi dito na oração principal, mas sem poder
impedi-lo. São elas: embora, conquanto, ainda que, mesmo que, posto que, bem que, se bem que,
por mais que, por menos que, apesar de que, nem que, que, etc. Exemplos:
• Posto que dormisse mais de oito horas por noite, sentia sono nas aulas da manhã.
• Embora não gostasse de festas infantis, não perderia o aniversário do primo por nada.

Conjunções subordinativas adverbiais condicionais


As conjunções subordinativas adverbiais condicionais iniciam uma oração subordinada em que
se indica uma hipótese ou uma condição necessária para que o fato da oração principal seja rea­
lizado ou não. São elas: se, caso, contanto que, salvo se, sem que, dado que, desde que, que, a
menos que, a não ser que, etc. Exemplos:
• Caso seja necessário, haverá aulas extras para recuperarmos as aulas perdidas em função
da chuva.
• Iremos ao parque no final de semana desde que você faça toda a lição de casa.

Conjunções subordinativas adverbiais conformativas


Essas conjunções iniciam uma oração subordinada em que se exprime a conformidade de um
pensamento com o da oração principal. São elas: conforme, como (com o mesmo significado de
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“conforme”), segundo, consoante, etc. Exemplos:


• Segundo dados do IBGE, 20% dos brasileiros estavam desempregados ano passado.
• Consoante afirma a Terceira Lei de Newton, toda ação leva a uma reação.

Conjunções subordinativas adverbiais consecutivas


Essas conjunções iniciam uma oração na qual é indicada uma consequência do que foi expres­
so na oração principal. São elas: que (combinada com tal, tanto, tão ou tamanho, presentes na
oração anterior), de forma que, de maneira que, de modo que, de sorte que, etc. Exemplos:
• A tristeza do cachorro era tanta que ele nem mais balançava o rabinho quando via comida.
• Fiz um bolo com pressa de sorte que ele ficou batumado.

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Conjunções subordinativas adverbiais finais

Língua Portuguesa
As conjunções subordinativas adverbiais finais iniciam uma oração que indica o objetivo do
que foi dito na oração principal. São elas: para que, a fim de que, porque (com sentido de “para
que”). Exemplos:
• A fim de se sair bem na prova física, treinou duas vezes por dia durante quatro meses.
• Foi cedo à biblioteca para que pudesse devolver os livros que lera naquela semana.

Conjunções subordinativas adverbiais proporcionais


Essas conjunções iniciam uma oração subordinada em que se menciona um fato realizado ou
para se realizar simultaneamente com o da oração principal. São elas: à medida que, ao passo que,
à proporção que, enquanto, quanto mais...mais, quanto mais...tanto mais, quanto mais...menos,
quanto mais...tanto menos, quanto menos...menos, quanto menos...tanto menos, quanto menos...
mais, quanto menos...tanto mais. Exemplos:
• À medida que o tempo passa, mais sábios e menos donos do tempo nos tornamos.
• Quanto mais esfregava detergente na camisa, mais aquela mancha de molho se espalhava.

Conjunções subordinativas adverbiais temporais


Elas indicam quando ocorreu o processo expresso na oração principal. São elas: quando, antes
que, depois que, até que, logo que, sempre que, assim que, desde que, todas as vezes que, cada
vez que, apenas, mal, que (com sentido de “desde que”). Exemplos:
• Assim que entrarmos na universidade, começaremos a trabalhar.
• Mal cheguei ao consultório do dentista, já fui atendida.

Conjunções subordinativas integrantes


Essas conjunções introduzem uma oração que funciona como sujeito, objeto direto, objeto
­indireto, predicativo, complemento nominal ou aposto, completando o sentido da oração principal.
São elas: que e se. Exemplos:
• É impossível que eles sejam felizes dessa maneira. (sujeito)
• Ele chegou perguntando se eu o perdoava de uma vez por todas. (objeto direto)
• Minha amiga insiste em que era eu naquela noite na festa da Cláudia. (objeto indireto)
• O importante é que todos tenham esperança em dias melhores. (predicativo do sujeito)
• Ele sonhara os sonhos mais lindos: que vivíamos com amor em um mundo de paz. (aposto)

PASSO A PASSO

(UFRGS-RS – Adaptada)

É preciso estabelecer uma distinção radical entre um “brasil” escrito com letra minúscula, nome de um tipo de
madeira de lei ou de uma feitoria interessada em explorar uma terra como outra qualquer, e o Brasil que designa um
povo, uma nação, um conjunto de valores, escolhas e ideais de vida. O “brasil” com b minúsculo é apenas um objeto
sem vida, pedaço de coisa que morre e não tem a menor condição de se reproduzir como sistema. Mas o Brasil com B

Unidade 1: Como costuramos um texto?


maiúsculo é algo muito mais complexo.
Estamos interessados em responder esta pergunta: afinal de contas, o que faz o brasil, BRASIL? Note-se que se
trata de uma pergunta relacional que, tal como faz a própria sociedade brasileira, quer juntar e não dividir. Queremos,
isto sim, descobrir como é que eles se ligam entre si; como é que cada um depende do outro; e como os dois formam
uma realidade única que existe concretamente naquilo que chamamos de “pátria”.
Se a condição humana determina que todos os homens devem comer, dormir, trabalhar, reproduzir-se e rezar,
essa determinação não chega ao ponto de especificar também qual comida ingerir, de que modo produzir e para
quantos deuses ou espíritos rezar. É precisamente aqui, nessa espécie de zona indeterminada, mas necessária, que
nascem as diferenças e, nelas, os estilos, os modos de ser e estar; os “jeitos” de cada grupo humano. Trata-se, sempre,
da questão de identidade. ▶

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▶ Como se constrói uma identidade social? Como um povo se transforma em Brasil? A pergunta, na sua discreta sin-
geleza, permite descobrir algo muito importante. É que, no meio de uma multidão de experiências dadas a todos os
homens e sociedades, algumas necessárias à própria sobrevivência – como comer, dormir, morrer, reproduzir-se, etc.
– outras acidentais ou históricas: o Brasil ter sido descoberto por portugueses e não por chineses, a geografia do Brasil
ter certas características, falarmos português e não francês, a família real ter se transferido para o Brasil no início do
século XIX, etc. –, cada sociedade (e cada ser humano) apenas se utiliza de um número limitado de “coisas” (e de expe-
riências) para se construir como algo único.
Nessa perspectiva, a chave para entender a sociedade brasileira é uma chave dupla. E, para mim, a capacidade rela-
cional – do antigo com o moderno – tipifica e singulariza a sociedade brasileira. Será preciso, portanto, discutir o
Brasil como uma moeda. Como algo que tem dois lados. E mais: como uma realidade que nos tem iludido, precisamen-
te porque nunca lhe propusemos esta questão relacional e reveladora: afinal de contas, como se ligam as duas faces de
uma mesma moeda? O que faz o brasil, Brasil?
Adaptado de: DAMATTA, R. O que faz o brasil, Brasil? A questão da identidade. In: . O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1986. p. 9-17.

Assinale a alternativa que apresenta, no texto, os sentidos, contextualmente adequados para os nexos mas, para e portanto,
nesta ordem.
a) contraste – finalidade – explicação d) condição – conformidade – finalidade
b) concessão – conformidade – conclusão e) contraste – finalidade – conclusão
c) concessão – finalidade – explicação
RESOLUÇÃO: alternativa E.
Para acertar essa questão, bastava lembrar a classificação das conjunções, mas era importante também conferir no contexto o
uso delas. A conjunção mas coloca em contraste o “brasil”, com b minúsculo, e o Brasil, com B maiúsculo. Para é usado para
expressar a finalidade da utilização de um limitado número de coisas por cada sociedade e poderia ser trocado pela expressão
a fim de. E a conjunção portanto, a clássica conclusiva, conclui, resume a ideia da dupla perspectiva para se entender o Brasil.

PARADA OBRIGATÓRIA

4. Sublinhe as conjunções das frases a seguir e classifique-as. Em seguida, explique a relação de sentido entre as duas orações.
a) Maicon foi ao supermercado a fim de comprar peixe, mas comprou frango.
a fim de = conjunção subordinativa final; mas = conjunção coordenativa adversativa.

b) Débora não sabia se escolhia Psicologia ou Direito.


se = conjunção integrante; ou = conjunção coordenativa alternativa.

c) Cada vez que chove, o seu joelho dói.


Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

cada vez que = conjunção subordinativa temporal.

d) Quanto mais estuda, mais tem certeza de que não sabe nada.
quanto mais… mais = conjunção subordinativa proporcional.

e) Fabiano disse que ligaria caso precisasse de ajuda.


que = conjunção integrante; caso = conjunção subordinativa condicional, (de) que = conjunção integrante.

f) Pelas redes sociais, perguntei se ela estava chateada; porém, ela não me responde.
se = conjunção integrante; porém = conjunção coordenativa adversativa. ▶

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▶ 5. Leia o trecho do poema de Carlos Drummond de Andrade a seguir.

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O lutador
Lutar com palavras  Sem me ouvir deslizam, se consumará.
é a luta mais vã. perpassam levíssimas Já vejo palavras
Entanto lutamos e viram-me o rosto. em coro submisso, 
mal rompe a manhã. Lutar com palavras esta me ofertando
São muitas, eu pouco. parece sem fruto. seu velho calor,
Algumas, tão fortes Não têm carne e sangue… aquela sua glória
Entretanto, luto. feita de mistério,
como o javali.
outra seu desdém,
Não me julgo louco.
Palavra, palavra  outra seu ciúme,
Se o fosse, teria (digo exasperado), e um sapiente amor
poder de encantá-las. se me desafias, me ensina a fruir
Mas lúcido e frio, aceito o combate. de cada palavra
apareço e tento Quisera possuir-te a essência captada,
apanhar algumas neste descampado,  o sutil queixume.
para meu sustento  sem roteiro de unha  Mas ai! é o instante
num dia de vida. ou marca de dente de entreabrir os olhos:
nessa pele clara.  entre beijo e boca, 
Deixam-se enlaçar,
Preferes o amor
tontas à carícia tudo se evapora.
de uma posse impura
e súbito fogem e que venha o gozo O ciclo do dia
e não há ameaça da maior tortura. ora se conclui 
e nem há sevícia e o inútil duelo
Luto corpo a corpo,
que as traga de novo luto todo o tempo,  jamais se resolve. 
ao centro da praça. sem maior proveito O teu rosto belo,
que o da caça ao vento. ó palavra, esplende
Insisto, solerte. Não encontro vestes,
Busco persuadi-las. na curva da noite
não seguro formas,
Ser-lhes-ei escravo é fluido inimigo que toda me envolve. 
de rara humildade. que me dobra os músculos Tamanha paixão
Guardarei sigilo e ri-se das normas e nenhum pecúlio.
de nosso comércio. da boa peleja. Cerradas as portas,
Na voz, nenhum travo Iludo-me às vezes, a luta prossegue
de zanga ou desgosto.  pressinto que a entrega nas ruas do sono.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião. 10 livros de poesia. 5. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973. p. 67.

a) Descreva em poucas palavras o que seria para você “lutar com palavras”.
Resposta pessoal. Espera-se que o aluno diga que “lutar com palavras” é argumentar, expor ideias e fazer escolhas na vida a partir do pensamento

e das palavras. Unidade 1: Como costuramos um texto?

b) Nesses primeiros quatro versos do poema “O lutador”, de Drummond, que tipo de recurso o poeta usa para dizer que lutar
com palavras não é uma luta infrutífera (vã)?
O poeta usa a conjunção adversativa “entanto”, negando a ideia de que lutar com palavras seja uma luta vã.

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▶ c) No poema, há o que podemos entender como “prova” de que “lutar com palavras” é frutífero. Explique com qual recurso o
poeta nos apresenta essa prova.
Pode-se entender como uma prova de que não é uma luta vã o fato de lutarmos “Mal rompe a manhã”, ou seja, nos levantamos todos os dias e

usamos as palavras para desbravar o dia. O recurso usado se dá com a ideia expressa pela locução adverbial de tempo “Mal rompe a manhã”, isto é,

a luta diária começa já antes de nascer o dia, período em que o trabalhador se levanta.

6. Leia a tirinha a seguir.

©Joaquín Salvador Lavado (QUINO) TODA


MAFALDA/Fotoarena/Quino
A partir da leitura e interpretação do texto, explique a relação de causa e consequência entre o ano que começa e as expec-
tativas das pessoas.

Segundo Mafalda, é a ação das pessoas que caracteriza um ano bom ou ruim. Ou seja, o ano não é causa, mas consequência das ações das pessoas.

7. Preencha os espaços em branco com conjunções que atribuam sentido às relações entre as orações de cada período.
todavia,
a) Esforçou-se muito para superar o recorde, tropeçou no cadarço e terá de treinar de novo.
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Segundo
b) a mensagem de Beatriz, não haverá reunião hoje.

tanta que
c) Minha alegria era saí correndo e gritando pelas ruas.

Por isso
d) Dormi o dia inteiro. , à noite, não tinha sono.

caso
e) Leve um guarda-chuva chova.

Parada complementar: 1, 5 e 6
12 Teste seu conhecimento: 2

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Língua Portuguesa
PARADA COMPLEMENTAR

1. (Fuvest-SP – Adaptada) Considerada no contexto, a palavra destacada no trecho “mal seus olhos descobriram entre os uten-
sílios a enxada” expressa ideia de:
a) tempo. b) qualidade. c) intensidade. d) modo. e) negação.

2. (FGV-SP)

À margem de Memórias de um sargento de milícias


É difícil associar à impressão deixada por essa obra divertida e leve a ideia de um destino trágico. Foi, entretanto,
o que coube a Manuel Antônio de Almeida, nascido em 1831 e morto em 1861. A simples justaposição dessas duas
datas é bastante reveladora: mais alguns dados, os poucos de que dispomos, apenas servem para carregar nas cores,
para tornar a atmosfera do quadro mais deprimente. Que é que cabe num prazo tão curto?
Uma vida toda em movimento, uma série tumultuosa de lutas, malogros e reerguimentos, as reações de uma von-
tade forte contra os golpes da fatalidade, os heroicos esforços de ascensão de um self-made man esmagado pelas cir-
cunstâncias. Ignoramos quase totalmente seus começos de menino pobre, mas talvez seja possível reconstruí-los em
parte pelas cenas tão vivas em que apresenta o garoto Leonardo lançado de chofre nas ruas pitorescas da indolente
cidadezinha que era o Rio daquela época. Basta enumerar todas as profissões que o escritor exerceu em seguida para
adivinhar o ambiente. Estudante na Escola de Belas-Artes e na Faculdade de Medicina, jornalista e tradutor, membro
fundador da Sociedade das Belas-Artes, administrador da Tipografia Nacional, diretor da Academia Imperial da
Ópera Nacional, Manuel Antônio provavelmente não se teria candidatado ainda a uma cadeira da Assembleia Provin-
cial se suas ocupações sucessivas lhe garantissem uma renda proporcional ao brilho de seus títulos. Achava-se justa-
mente a caminho da “sua” circunscrição, quando, depois de tantos naufrágios no sentido figurado, pereceu num
naufrágio concreto, deixando saudades a um reduzido círculo de amigos, um medíocre libreto de ópera e algumas
traduções, do francês, de romances de cordel, aos pesquisadores de curiosidade, e as Memórias de um sargento de milí-
cias ao seu país.
RÓNAI, Paulo. Encontros com o Brasil. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.

No primeiro parágrafo, o conectivo “entretanto” introduz uma oração que contém, em relação à associação feita no período
anterior, ideia de:
a) similitude. b) explicação. c) contraste. d) causa. e) condição.

3. (Cederj) No enunciado: “Na primeira reunião com a população surgiram curiosos mal-entendidos que revelam a dificuldade
de tradução não de palavras, mas de pensamento”, a conjunção destacada dá ideia de:
a) conformidade. b) conclusão. c) condição. d) retificação.

Unidade 1: Como costuramos um texto?


4. (Ufal)

Os canadenses descobriram que até nas universidades prolifera um tipo de leitor: o que lê bem e não entende.
Estudo com 400 alunos da Universidade de Alberta mostrou um déficit de compreensão não detectado em 5% de toda
a população. São pessoas que, quando investem numa leitura, esquecem o significado específico de uma passagem.
Revista Língua Portuguesa. Ano 7. No 78. Abril de 2012 (fragmento).


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U1 C1


Os elementos linguísticos destacados no fragmento são, respectivamente,
a) pronome demonstrativo e conjunção subordinativa consecutiva.
b) pronome demonstrativo e pronome relativo.
c) pronome pessoal oblíquo e conjunção subordinativa integrante.
d) artigo e conjunção coordenativa explicativa.
e) artigo e pronome relativo.

5. (UTFPR)

“Nossa geração tem um papel fundamental: o de criar as estruturas sobre as quais se assentará nosso novo
­modelo de sociedade.”
Veja on-line, 3 nov. 2009.

A alternativa que apresenta uma substituição adequada para a locução em negrito é:


a) nas quais. b) das quais. c) pelo que. d) para que. e) com as que.

6. (Ifal – Adaptada) Leia o texto a seguir.

Violência em maternidades revela problemas na saúde pública


Uma pesquisa apresentada à Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) revela que grávidas em trabalho de parto
sofrem diversos maus-tratos e desrespeitos por parte dos profissionais de saúde nas maternidades públicas. Segundo
a análise, esse tipo de violência, além de apontar para os problemas estruturais da saúde pública, revela a “erosão” da
qualidade ética das interações entre profissionais e pacientes, a banalização do sofrimento e uma cultura institucio-
nal marcada por estereótipos de classe e gênero.
CORREIO do Brasil. Violência em maternidades revela problemas na saúde pública. Ano XI, n. 3937, 12 out. 2010.
Disponível em: <www.correiodobrasil.com.br>.

Em: “Segundo a análise, esse tipo de violência, além de apontar para os problemas estruturais [...]”, a vinculação semântica
expressa pelos vocábulos destacados corresponde, respectivamente, a:
a) quantidade e acréscimo. d) quantidade e enumeração.
b) conformidade e relevância. e) conformidade e acréscimo.
c) concessão e acréscimo.

7. (Ceeteps-SP) Texto para a próxima questão.


Em “Recicla-me ou te devoro!”, há a presença
ETEC/2017

de duas orações que estabelecem entre si


uma relação de:
a) adição.
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

b) alternância.
c) conclusão.
d) explicação.
e) oposição.

<http://tinyurl.com/j2lB28n>.
Acesso em: 2 set. 2016.
Original colorido.

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Língua Portuguesa
8. (UTFPR) Texto para a próxima questão.

O sabor das favelas


Na virada do século, eles eram frequentados apenas pelos moradores locais. Há quatro anos, porém, a política de
pacificação reintegrou os morros à cidade. De uma hora para outra, o Rio de Janeiro voltou a visitar suas favelas: recu-
perou antigos mirantes deslumbrantes, conheceu novas rodas de samba e descobriu uma série de botequins e restauran-
tes. Eram tantas as dicas que o cineasta e pesquisador Sérgio Bloch decidiu compilar tudo e lançar o Guia Gastronômico
das Favelas do Rio (Editora Abbas Edições/Arte Ensaio; R$ 70,00), um compêndio de capa dura e fartamente ilustrado
com 22 endereços de oito comunidades pacificadas, com textos de Inês Garçoni e fotos de Marcos Pinto.
Trecho extraído de AZUL Magazine, ed. 1, maio de 2013, p. 28.

Em “Há quatro anos, porém, a política de pacificação reintegrou os morros à cidade.”, pode-se substituir o termo “porém”,
sem alterar o sentido do texto, por:
a) contudo. b)  de maneira que.   c)  portanto.    d)  desde que. e)  logo que.

PARA FIXAR

Aditivas

Adversativas

Alternativas Causais

Comparativas
Conclusivas
Concessivas
COORDENATIVAS
Explicativas
Condicionais
CONJUNÇÕES
Conformativas
SUBORDINATIVAS
Consecutivas
Unidade 1: Como costuramos um texto?
Adverbiais

Finais

Proporcionais
Integrantes

Temporais

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UNIDADE 1
CAPÍTULO

2 PRONOMES
Estudaremos
neste capítulo:
Beija eu
Seja eu! O que seja seu
Seja eu! Anoiteça e amanheça eu...
Pronomes pessoais
Deixa que eu seja eu
Pronomes possessivos E aceita Beija eu!
O que seja seu Beija eu!
Pronomes demonstrativos
Então deita e aceita eu... Beija eu, me beija
Pronomes adjetivos Deixa
e substantivos Molha eu! O que seja ser...
Pronomes relativos Seca eu!
Deixa que eu seja o céu
Pronomes interrogativos [...]
E receba
Pronomes indefinidos MONTE, Marisa; ANTUNES, Arnaldo; LINDSEY, Arto. Beija eu.
Intérprete: Marisa Monte. In: MONTE, Marisa. Mais, 1990.

Muito provavelmente, você deve ter escutado, pelo menos uma vez, essa canção interpretada
por Marisa Monte. E deve ter notado que é exatamente desse jeito que falam as crianças: “Leva eu
nas costas!”, por exemplo.
E, também, provavelmente, nunca viu nisso nada de mais, senão a mera expressão de uma
­necessidade manifestada em relação a algo desejado, quase sempre de modo carinhoso. Foi
obser­vando esse comportamento que veio nos autores a inspiração para compor “Beija eu”.
Sabedores que são da Gramática, não ignoravam que a norma prescreve a colocação do prono­
me eu nas frases como sujeito da ação, e nunca objeto. A forma correta está aí, na própria canção,
para provar isso: “me beija”.
É isso o que você estudará neste Capítulo: quais são os pronomes da Língua Portuguesa e quais
funções ocupam nas frases.
Os pronomes têm funções equivalentes às de elementos nominais nas orações. Eles acompa­
nham, substituem ou referem-se a nomes. Outra característica é apresentar uma forma específica
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

para cada pessoa do discurso.


Há seis tipos de pronomes na Língua Portuguesa: pessoais, possessivos, demonstrativos, rela­
tivos, interrogativos e indefinidos. Vamos conhecê-los?

Pronomes pessoais
Os pronomes pessoais se caracterizam por designarem as três pessoas gramaticais, indicando
quem fala (1ª pessoa), com quem se fala (2ª pessoa) e de quem se fala (3ª pessoa), ou seja, indicam
de forma direta as pessoas do discurso.

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Formas dos pronomes pessoais

Língua Portuguesa
Os pronomes pessoais se dividem em outras categorias, de acordo com suas funções e ­acentuação.

2
Pela função, se agir como sujeito da oração, é considerado um pronome pessoal reto. Se funcionar como complemento, ob­
jeto (direto ou indireto) da oração, é um pronome pessoal oblíquo.
Quanto à acentuação, só cabe aos oblíquos. Eles serão átonos (acentuação tônica fraca) se não forem precedidos de pre­
posição; e tônicos (acentuação tônica forte) se forem precedidos de preposição.
Veja essa organização na tabela a seguir:

Pronomes Pronomes pessoais ­oblíquos


pessoais retos Átonos Tônicos

1a pessoa Eu Me Mim, comigo


Singular 2a pessoa Tu Te Ti, contigo
3a pessoa Ele, ela O, a, lhe Ele, ela
1 pessoa
a
Nós Nos Nós, conosco
Plural
2a pessoa Vós Vos Vós, convosco
3a pessoa Eles, elas Os, as, lhes Eles, elas

INTERLIGANDO SABERES

O eu na Arte e na Gramática
Observe a seguir a pintura de Van Gogh:
Você deve ter notado na pintura que o artista fez um “autorretrato” mostran-
Self-Portrait, 1889. Vincent Van Gogh. Museu d’Orsay, Paris.

do a técnica utilizada: paleta com tintas e tela, e, provavelmente, um espelho


para observar-se na criação de si mesmo.
Nas artes literárias, ou na escrita, os traços da personalidade construídos em
autodescrições derivam dos gêneros ligados ao pronome “eu”. Assim, toda
técnica usada na “autorrepresentação” denomina-se “autobiográfica” (escrita
da vida do eu), que equivale a dizer “escrita/desenho de si mesmo”.
Esse é um ótimo momento para o autor/artista se conhecer melhor, afinal, para criar
essa autorrepresentação, ele se submete a um intenso processo introspectivo.
Importantes personalidades já tiveram autobiografias lançadas, como Mauri-
cio de Sousa.

Unidade 1: Como costuramos um texto?


Reflita com os colegas em que situações mais usamos o pronome “eu” como
autorrepresentação.

Autorretrato, de Vincent Van Gogh, 1889.


Óleo sobre tela de 65 cm × 54 cm.

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U1 C2

ZOOM

Eu/mim ∙ Tu/ti
Usamos eu/tu quando o pronome funcionar como sujeito de um verbo no infinitivo (nome flexionado ou
não). Isso vale também para os demais pronomes do caso reto. Exemplos:
•  Qual parte do trabalho ficou para eu pesquisar?
•  Aquela outra parte é para tu pesquisares.
• Para eu pesquisar isso tudo, precisarei de um final de semana inteiro.

As formas mim e ti funcionam como complementos e serão usadas sempre que houver preposição.
Exemplos:
•  Esse computador é para mim mesmo?
•  Entre mim e ti só houve brigas depois daquele trabalho em grupo.
•  É fundamental para mim que haja respeito entre mim e ti.

Quando ainda restarem dúvidas quanto ao uso de para mim ∙ para eu e para ti ∙ para tu, basta tentar
fazer um deslocamento: para mim e para ti serão sempre deslocáveis. Confira:
•  Para mim, fazer pesquisa em grupo é bem difícil
•  Fazer pesquisa em grupo, para mim, é bem difícil.
•  Fazer pesquisa em grupo é bem difícil para mim.
•  Para ti, ir ao interior ficou mais fácil com esses novos horários de ônibus, né?!
•  Ir ao interior ficou mais fácil, para ti, com esses novos horários de ônibus, né?!
•  Ir ao interior ficou mais fácil com esses novos horários de ônibus para ti, né?!

Porém, observe:
•  Qual parte do trabalho ficou para eu pesquisar?
•  Aquela outra parte é para tu pesquisares.
Não é possível deslocar as expressões para eu e para tu, porque eu e tu são os sujeitos dos verbos pesqui-
sar e pesquisares, respectivamente, e, portanto, têm de ficar junto a esses verbos. São incorretas as se-
guintes construções:
•  Para eu, qual parte do trabalho ficou pesquisar?
•  Qual parte do trabalho, para eu, ficou pesquisar?
•  Para tu, aquela outra parte é pesquisares.
•  Aquela outra parte, para tu, é pesquisares.

Com nós ∙ Conosco


Usamos com nós sempre que esse pronome vier seguido de palavra determinativa: próprios, mesmos, to-
dos, outros, ambos, numerais (dois, cinco, nove, etc.), ou seja, quando há uma referência às pessoas com-
preendidas pelo pronome nós. Exemplos:
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

•  O carro veio cheio com nós oito lá dentro.


•  Podem ficar aqui com nós todos!
Já a expressão conosco é sempre terminativa (por uma questão de cacofonia), não vem seguida de deter-
minante. Portanto, ela deve ser usada quando não houver uma expressão que reforce o sentido de nós.
Exemplos:
•  A turma do 2o ano foi ao zoológico conosco.
•  Vais fazer conosco o trabalho em grupo?

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Formas do pronome oblíquo: o, a, lo e no

Língua Portuguesa
O pronome oblíquo de 3ª pessoa merece atenção especial. Se ele for colocado antes do verbo,
continuará com a forma original de escrevê-lo. Exemplo:
• Sempre a encontramos na quermesse.
Mas, quando o pronome está depois do verbo e é ligado por hífen, ele pode sofrer algumas
modificações na forma de escrevê-lo, dependendo da terminação do verbo. Veja os casos:
a) Se o verbo acabar em -r, -s ou -z, devem-se suprimir essas consoantes, e o pronome assume
as formas -lo, -la, -los e -las. Exemplos:
• Salada é muito bom. Mas comê-la no inverno é difícil.
• Vocês viram um garoto de boné? Vimo-lo passar agora por aqui.
• Não queremos vendê-las tão barato.
b) Se o verbo terminar em ditongo nasal, o pronome assume as formas -no, -na, -nos e -nas.
Exemplos:
• Viram-no passeando no Parque do Ibirapuera.
• Fazem-nos esperar horas à toa.
• Detenham-nas agora!

Pronomes reflexivos e recíprocos


Antes de explicarmos o que são esses pronomes, veja a tabela a seguir:

Formas que se identificam com as formas


Formas próprias
dos pronomes oblíquos

1a pessoa: me, mim

Singular 2a pessoa: te, ti

3a pessoa: se, si, consigo

1a pessoa: nos

Plural 2a pessoa: vos

3a pessoa: se, si, consigo

Pronome reflexivo
É quando o objeto direto ou indireto representa o sujeito da oração, indicando que ele pratica
e recebe a ação indicada pelo verbo. Exemplos:
• Eu me penteei hoje cedo.
• Tu te feriste jogando bola?
• A professora de Geografia não trouxe o mapa consigo.
• Nós nos aprontamos depressa.

Pronome recíproco
É quando uma ação é mútua entre dois ou mais indivíduos, exprimindo uma reciprocidade. Unidade 1: Como costuramos um texto?
São usadas somente as formas do plural nos, vos e se. Exemplos:
• Marília e eu nos encontramos na esquina de casa.
• Vós vos queríeis longe um do outro.
• João e Antônio não se encontraram mais depois da discussão que tiveram.
Como as formas dos pronomes reflexivos e recíprocos são idênticas, é comum haver ambigui­
dade em algumas construções. Para desfazê-la, alguns reforços podem ser usados: a si mesmo, a
mim mesmo, um ao outro, entre si, mutuamente, etc. Exemplo:
• Laís e Sandra vestiram-se a si mesmas.

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U1 C2

Pronomes pessoais de tratamento


São palavras ou locuções que valem por pronomes pessoais e designam a pessoa com quem
se fala, ou seja, o interlocutor (2ª pessoa). Mas toda a concordância do verbo deve ser feita na
3ª pessoa. Alguns desses pronomes são: você, Vossa Alteza, Vossa Excelência, Vossa Majestade,
Vossa Senhoria, etc. Exemplos de frases:
• Você leu todo o livro para a prova de hoje?
• Vossa Alteza está esplendorosa esta noite.
Essas formas de tratamento possuem abreviaturas e destinatários específicos. Veja na tabela
a seguir:

Tratamento Abreviatura Destinatário

Vossa Alteza V. A. Príncipes, duques

Vossa Eminência V. Em.a Cardeais

Altas autoridades do governo e


Vossa Excelência V. Ex.a
oficiais-generais

Vossa Magnificência V. Mag.a Reitores das universidades

Vossa Majestade V. M. Reis, imperadores

Vossa Excelência Reverendíssima V. Ex.a Rev.ma Bispos e arcebispos

Vossa Paternidade V. P. Abades, superiores de conventos

Vossa Reverência ou V. Rev.a


Sacerdotes em geral
Vossa Reverendíssima V. Rev.ma

Vossa Santidade V. S. Papa


Vossa Senhoria V. S.a Tratamento cerimonioso

PLUGUE-SE

Leia a reportagem “O ‘tu’ está saindo do vocabulário dos gaúchos?”, do portal Zero Hora. Como você já deve ter
percebido, há regiões do Brasil que usam você e outras que usam muito mais o tu, principalmente no sul do país.
Contudo, vem-se percebendo que o Rio Grande do Sul pode estar perdendo uma das suas principais caracterís-
ticas da fala. Será? A reportagem completa está em: <http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/noticia/
2015/10/o-tu-esta-saindo-do-vocabulario-dos-gauchos- 4890170.html>. Acesso em: 12 jul. 2017.
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

ENTRE EM AÇÃO
Com a ajuda da sua professora ou do seu professor e da comunidade em que você mora, descubra que outras regiões do país usam bastante o tu
e em quais situações. Pesquise se na sua cidade ele é usado, observando quem o usa e quando o usa.

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Língua Portuguesa
PARADA OBRIGATÓRIA

1. Leia o poema a seguir.

O autorretrato
No retrato que me faço E, desta lida, em que busco
– traço a traço – – pouco a pouco –
Às vezes me pinto nuvem, Minha eterna semelhança,
Às vezes me pinto árvore...
No final, que restará?
Às vezes me pinto coisas Um desenho de criança...
De que nem há mais lembrança... Corrigido por um louco!
Ou coisas que não existem QUINTANA, Mario. Nova antologia poética.
Mas que um dia existirão... São Paulo: Globo, 2007. p. 138.

No poema de Quintana, o recurso de que se lança mão para, “traço a traço”, pintar a si mesmo é a palavra escrita. O que busc­a
­o pintor/escritor nesse poema?

O pintor busca encontrar a eterna semelhança.

2. Observe a imagem e leia o texto.


Em setembro de 1889, assim que reconquistou forças depois da crise de
Self-Portrait, 1889. Vincent Van Gogh. Museu d’Orsay, Paris.

julho, Van Gogh começou a trabalhar no próprio retrato, achando que a pin-
tura poderia ser uma boa cura para a sua doença.
“Dizem – e estou propenso a acreditar – que é difícil conhecer si mesmo e
nem é fácil pintar a si mesmo. Neste momento, estou trabalhando em dois retra-
tos meus, na falta de outro modelo. Comecei o primeiro no dia em que me levan-
tei. [...] É azul-violeta-escuro, com a cabeça branca, com o cabelo amarelo,
portanto, com um efeito de cor. Mas, desde então, recomecei um dos três quadros
com fundo claro. Também estou acabando uns estudos desse verão – enfim, es-
tou trabalhando de manhã até a noite.” (Trecho de uma carta escrita por Vincent
van Gogh para seu irmão Theo).
ABRIL. Van Gogh. São Paulo: Abril, 2011. Adaptado. (Grandes Mestres)

Unidade 1: Como costuramos um texto?


Autorretrato, de Vincent Van Gogh, 1889.
Óleo sobre tela de 65 cm × 54 cm.

Com base na leitura do texto e na observação da imagem, responda ao que se pede.
a) Por que Van Gogh começa a trabalhar no próprio retrato?
De acordo com o texto, Van Gogh começa a trabalhar no próprio retrato pensando que a pintura poderia ser uma boa cura

para a sua doença.

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U1 C2

▶ b) Qual o nome dado aos quadros nos quais o artista pinta a si mesmo?
Autorretrato.

c) Para Van Gogh, a autorrepresentação é uma atividade fácil?


De acordo com o texto, para Van Gogh, pintar a si mesmo não é uma atividade fácil, assim como conhecer a si mesmo

também não é fácil. Pode-se perceber que a autorrepresentação não é tão simples, pois o artista começa três

autorretratos.

3. Reescreva as seguintes frases, substituindo os termos sublinhados por pronomes:


a) Em setembro de 1889, Van Gogh recuperou-se da crise que tivera meses antes. Van Gogh começou a trabalhar no próprio
retrato.
Em setembro de 1889, Van Gogh recuperou-se da crise que tivera meses antes. Ele começou a trabalhar no

próprio retrato.

b) O retrato é azul-violeta-escuro. O retrato apresenta um efeito de cor. No retrato, estou com o cabelo amarelo.
O retrato é azul-violeta-escuro. Ele apresenta um efeito de cor. Nele, estou com o cabelo amarelo.

c) Vincent van Gogh está trabalhando em dois retratos seus. Van Gogh já começou o primeiro quadro.
Vincent van Gogh está trabalhando em dois retratos seus. Ele já começou o primeiro quadro.

Parada complementar: 1, 3, 4 e 8
Teste seu conhecimento: 3 e 4

Pronomes possessivos
São palavras que acrescentam uma ideia de posse de algo à pessoa gramatical da oração.
Exemplos:
• Teu material é aquele em cima da segunda mesa.
• Este livro é o teu.
• Ela ri sempre das suas piadas sem graça.
Os pronomes possessivos apresentam formas de acordo com a pessoa a quem se referem.
O gênero e o número devem concordar com o objeto possuído.

Um possuidor Vários possuidores


Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Um objeto Vários objetos Um objeto Vários objetos


Masc. Meu Meus Nosso Nossos
1a pessoa
Fem. Minha Minhas Nossa Nossas
Masc. Teu Teus Vosso Vossos
2a pessoa
Fem. Tua Tuas Vossa Vossas
Masc. Seu Seus Seu Seus
3a pessoa
Fem. Sua Suas Sua Suas

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Língua Portuguesa
Você sabia?
As formas masculinas e femininas seu, sua, seus e suas aplicam-se ao possuidor tanto da 3a pessoa do
singular quanto da 3a pessoa do plural. Assim, não raro há dúvida a respeito do possuidor. Exemplo:
• No trabalho em grupo na casa de Bárbara, Cícero fez observações sobre sua escrita.
Para desfazer a ambiguidade, é preferível usar as formas dele(s), dela(s), de você(s), do(s) senhor(es),
da(s) senhora(s) e outras expressões de tratamento. Exemplos:
• No trabalho em grupo na casa de Bárbara, Cícero fez observações sobre a escrita dele.
• No trabalho em grupo na casa de Bárbara, Cícero fez observações sobre a escrita dela.
• No trabalho em grupo na casa de Bárbara, Cícero fez observações sobre a escrita deles.

Pronomes demonstrativos
São usados para declarar a posição de determinada palavra em relação a outras ou ao contexto.
Essa relação pode se dar em função do espaço ou do tempo. Exemplos:
• Aquela vida que ela havia imaginado nunca lhe chegou. (Tempo.)
• Viajei para Paris apenas com esta mala. (Espaço – o pronome esta indica que a mala está
perto da pessoa que fala.)
Os pronomes demonstrativos também lembram ao ouvinte ou ao leitor o que já foi mencionado
ou o que será mencionado. Exemplos:
• Valentina e Francisca são as melhores alunas da classe: esta é estudiosa e aquela, muito
atenciosa.
• Ter deixado para a última hora a compra das passagens: esse foi o meu erro.
Na tabela a seguir, você verá que os pronomes demonstrativos apresentam formas variáveis e
invariáveis:

Variáveis

Masculino Feminino Invariáveis

Singular Plural Singular Plural

Este Estes Esta Estas Isto

Esse Esses Essa Essas Isso

Aquele Aqueles Aquela Aquelas Aquilo

Além de suas formas habituais, os pronomes demonstrativos podem ser combinados com ou­
tras preposições, adquirindo novas formas:
• combinam-se com as preposições de e em: deste, desta, disto; neste, nesta, nisto; desse,

Unidade 1: Como costuramos um texto?


dessa, disso; nesse, nessa, nisso; daquele, daquela, daquilo; naquele, naquela, naquilo.
• aquele, aquela e aquilo contraem-se com a preposição a: àquele, àquela e àquilo.

Valores dos demonstrativos


Dependendo da relação que os pronomes demonstrativos estabelecem com as pessoas do
discurso, podemos definir as características gerais a seguir:
1.  Este, esta e isto indicam:
a) O que está perto da pessoa que fala: Estas botas apertadas estão me incomodando o dia
inteiro.
b) O tempo presente em relação à pessoa que fala: Este mês nasce meu sobrinho.

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U1 C2

c) Aquilo que foi dito ou que será dito:


• — Vou no armazém comprar frutas. Dizendo isto, Floriano foi e nunca mais voltou à cidade.
• Meu sonho de consumo é este: muitos carimbos no passaporte.
2.  Esse, essa e isso indicam:
a) Aquilo que está perto da pessoa com quem se está falando:
• O que são essas manchas nos seus braços?
b) O tempo que se foi ou o tempo que virá (passado ou futuro, respectivamente) em relação
ao momento em que está a pessoa que está falando:
• Ótimos anos de Ensino Fundamental esses que lá se vão!
c) Correspondência ao que já foi dito:
• Procrastinava ao máximo antes de fazer a lição de casa. Esse era o maior problema que
enfrentava em relação à escola.
3.  Aquele, aquela e aquilo indicam:
a) Aquilo que está longe tanto do locutor como do interlocutor:
• Aquele carro a uns vinte metros de nós é o seu?
b) Uma distância vaga no tempo ou uma época muito longínqua, remota:
• Naquele verão de 1993 é que nasceu o anjo de minha vida.

Pronomes adjetivos e substantivos


A definição desses dois pronomes é bem simples: pronome adjetivo é aquele que acompanha
o substantivo, dando-lhe uma característica. Exemplo:
• Meu irmão é muito ansioso.
Agora, podemos acrescentar um complemento ao exemplo anterior:
• Meu irmão é ansioso, e o seu, também.
Teremos nessa frase um pronome substantivo, que é o termo que substitui o substantivo ao
qual se refere – nesse exemplo, seu substitui a palavra irmão.
É importante frisar que essa classificação não exclui a classificação específica de cada pronome.

PARADA OBRIGATÓRIA

Texto para a questão 4.


O casamento enganoso
Saía do Hospital da Ressurreição, em Valladolid, além da Porta do Campo, um soldado que, por usar a espada como
bordão e pela fraqueza das pernas e a palidez do semblante, revelava claramente – embora a temperatura não fosse
tão quente – que ele deveria ter transpirado durante vinte dias toda a disposição que, com toda a certeza, adquirira
numa só hora. Andava ziguezagueando, tropeçando toda hora, como um convalescente, e, ao transpor o portal da ci-
dade, percebeu aproximar-se em sua direção um amigo a quem não via há mais de meio ano. O amigo, benzendo-se
como se visse alguma assombração, aproximou-se e lhe disse:
– O que aconteceu, Senhor Alferes Campuzano? Como é possível que estejais por aqui? Imaginava-o em Flandres,
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

de lança em riste, e não por estas bandas arrastando a espada. Que palidez, que fraqueza é essa?
Campuzano respondeu:
– Se estou ou não nesta terra, senhor Licenciado Peralta, a minha simples presença lhe responde. Quanto às outras
perguntas, nada tenho a responder senão que estou saindo daquele hospital onde sofri quatorze suadouros por causa
de uma mulher a quem escolhi como minha, quando jamais o deveria ter feito.
– Quer vossa mercê dizer que se casou? – perguntou Peralta.
– Sim – respondeu Campuzano.
– E teria sido por amor? – disse Peralta, acrescentando em seguida: – Tais casamentos sempre trazem arre-
pendimento. ▶

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▶ – Não saberei se foi por amor – respondeu o alferes –, embora possa garantir ter sido por amargor, pois do meu

Língua Portuguesa
casamento, ou “cansamento”, carrego tais coisas no corpo e na alma que as do corpo, para curá-las, me custaram qua-
renta suadouros, mas para as da alma não encontro remédio sequer para aliviá-las. Mas você me perdoe; não posso
manter longas conversas neste lugar. Qualquer outro dia, com mais comodidade, contar-lhe-ei minhas aventuras; são
as mais novas e originais que vossa mercê terá ouvido em todos os seus longos dias de vida.
– Não será como dizeis – falou o Licenciado –, pois gostaria que venha à minha pousada para ali desabafarmos
nossas mágoas. Além disso tenho lá uma comida muito própria para convalescentes. Embora tenha sido preparada
para dois, meu criado se contentará com um pastel. E se a sua convalescença o permitir, umas fatias de presunto
servirão para nos abrir o apetite. A boa vontade com que lhe ofereço, não somente agora, mas todas as vezes que
vossa mercê quiser, fica acima de qualquer dúvida.
Agradeceu-lhe Campuzano, aceitando o convite e as ofertas. [...]
CERVANTES, Miguel de Saavedra. O casamento enganoso. In: COSTA, Flávio Moreira da (Org.) Os 100 melhores contos de humor
da literatura universal. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

4. Releia as seguintes frases retiradas do texto. Observe os termos destacados.


I. Imaginava-o em Flandres [...] e não por estas bandas arrastando a espada.
II. [...] quando jamais o deveria ter feito.
III. [...] não posso manter longas conversas neste lugar.

a) Em qual(is) frase(s) o termo destacado refere-se a um local perto do falante?


Nas frases I e III, os pronomes demonstrativos destacados referem-se a locais perto do falante.

b) Em qual(is) frase(s) o termo destacado pode ser substituído pelo pronome “isso” sem prejuízo de sentido? Escreva a(s) frase(s)
com a substituição pelo pronome no espaço a seguir.
Na frase II, o termo sublinhado pode ser substituído pelo pronome “isso”.

“[...] quando jamais deveria ter feito isso”.

c) Encontre no texto mais uma frase que apresenta um pronome demonstrativo e anote-a a seguir.
“Que palidez, que fraqueza é essa?” / “Se estou ou não nesta terra [...]” / “[...] estou saindo daquele hospital [...]” / “Tais casamentos sempre trazem

arrependimento” / “[...] carrego tais coisas no corpo e na alma [...]”.

5. Releia os primeiros parágrafos do texto e responda ao que se pede.


a) Para dirigir-se ao alferes Campuzano, a personagem Peralta utiliza qual forma de tratamento?
A personagem Peralta utiliza a forma de tratamento “senhor” para dirigir-se ao alferes Campuzano.

b) Esse pronome de tratamento é empregado em situações formais ou informais? É uma forma de tratamento respeitosa?
O pronome de tratamento “senhor” é empregado em tratamento respeitoso, e é mais comumente utilizado em situações formais.

Unidade 1: Como costuramos um texto?


c) Há uma forma de tratamento no texto que já não é mais empregada atualmente da mesma maneira. Encontre-a e
escreva-a a seguir.
A forma de tratamento que já não é mais empregada atualmente da mesma maneira é “vossa mercê”. Essa expressão, passando por processos

de contração, transformou-se em “você”.

Parada complementar: 2 e 7
Teste seu conhecimento: 5, 6 e 7

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U1 C2

Pronomes relativos
Referem-se a um termo já mencionado, o antecedente, e com o qual se relacionam. Esse ante­
cedente pode ser um substantivo, um pronome, um adjetivo, um advérbio ou uma oração.
São os pronomes que introduzem as orações subordinadas adjetivas. Eles apresentam formas
variáveis e invariáveis.

Variáveis
Invariáveis
Masculino Feminino
O qual Os quais A qual As quais Que
Cujo Cujos Cuja Cujas Quem
Quanto Quantos — Quantas Onde

Valores e empregos dos relativos


Que
Faz referência a uma pessoa ou a uma coisa, que pode estar no singular ou no plural. É o rela­
tivo básico, conhecido como universal, por isso, pode desempenhar várias funções: sujeito, obje­
tos direto e indireto, complemento nominal, predicativo do sujeito, agente da passiva e adjunto
adnominal – classes gramaticais que você estudará nas próximas unidades. Exemplos:
• Encontrei amigos que não via há anos.
• Um amigo, que mudou muito, nem me reconheceu.
• Ele é o aluno que todos querem ser.

Qual, o qual
Esses pronomes, assim como o que, também são usados para se referir a pessoas ou a coisas.
Como flexionam em gênero e em número (o qual, os quais, a qual, as quais), eles evitam uma am­
biguidade possivelmente causada pelo que. Exemplos:
• Os restaurantes, os quais nunca servem uma comida feita com amor, não me agradam muito.
• A janela do quarto, através da qual passava a luz do sol, fitou-me a tarde toda.

Quem
Empregado com referência a pessoas ou coisas personificadas, também no singular ou no
plural.­ Exemplos:
• Trabalhador é quem tem um emprego que lhe paga.
• Quem me deu parabéns será sempre lembrado por mim.
Se estiver na função de simples pronome relativo, isto é, com referência a um antecedente
explícito, quem equivale a o qual e vem sempre antecedido de preposição. Exemplos:
• Um passeio com quem a gente gosta é impagável.
• A criança a quem dei bom dia na praça era filha da minha colega.
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Cujo
Ele é, ao mesmo tempo, relativo e possessivo, e tem também o mesmo sentido de do qual, de
quem, de que (e suas flexões no feminino e no plural – da qual, das quais, dos quais). Concorda
com a coisa possuída em gênero e número. Exemplos:
• O aluno de cujo livro te falei é aquele sentado na terceira fileira.
• A América do Sul, cuja língua predominante é o espanhol, recebe milhares de turistas por ano.
Não se esqueça: não existe cujo + artigo definido (cujo o, cujas as, etc.), porque nele já está
implícito o artigo. E depois de cujo nunca haverá um verbo.

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Quanto

Língua Portuguesa
Quanto e suas flexões – quantas, quantos – seguem os pronomes indefinidos tudo, todo, toda,
todas, que podem ser omitidos. Por isso, também têm valor indefinido. Exemplos:
• Tudo quanto comprei saiu barato, senão eu não comprava.
• Esforce-se para superar todos quantos aparecerem para a prova.

Onde
Ele só pode ser considerado pronome relativo se estiver em um período composto, para subs­
tituir um termo da oração principal em uma oração subordinada, desempenhando a função de
adjunto adverbial. Se não houver o sentido de local físico, use no qual (e suas flexões) ou em que.
Exemplos:
• O restaurante onde almocei no último domingo estava com uma promoção especial.
• A rua por onde passo para chegar à casa dele é muito escura e pouco movimentada à noite.

Pronomes interrogativos
São usados para formular perguntas, sejam diretas, sejam indiretas. São eles: que, quem, qual,
quais, quanto, quantos, quanta, quantas. Eles se referem à 3a pessoa do discurso de modo vago.
Exemplos:
• Quantos espectadores cabem neste teatro?
• Gostaria de saber quem foi ao supermercado pela última vez.

Valores dos interrogativos


Que
O que na função de pronome interrogativo apresenta duas variáveis:
Pronome substantivo, quando significa “que coisa”. Exemplo:
• Que queres fazer quando terminares o colégio?
Pronome adjetivo, quando significa “que espécie de”. Exemplo:
• Que amigo é aquele que eu não conheço?
Se o intuito for dar mais ênfase à pergunta, deve-se usar o que no lugar do que sozinho. E ambas
as formas podem ganhar reforço por meio da expressão é que. Exemplos:
• Esperança? O que é isso quando se vive neste caos?
• O que é que vocês fazem com a comida que sobra?

Quem
Refere-se somente a pessoas ou a algo personificado. Exemplos:
• Quem apertou a campainha?
• Corri para ver quem tinha sido atropelado pela bicicleta.

Qual

Unidade 1: Como costuramos um texto?


Tem um valor seletivo (que pode ser reforçado pelo uso da expressão qual dos (das ou de),
referindo-se tanto a pessoas como a coisas. Exemplos:
• Qual é a série em que vocês estão?
• Perguntei a uma amiga que mora em Salvador qual o bairro mais bonito para se morar.

Quanto
É um quantitativo indefinido, referindo-se a pessoas ou a coisas. Exemplos:
• Quanto nós gastamos no almoço mesmo?
• Quantos semestres faltam para a sua formatura?

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U1 C2

Pronomes indefinidos
São pronomes que se referem à 3ª pessoa, quando esta estiver representada de um modo vago
ou quando expressar quantidade indeterminada. Exemplos:
• Alguém esqueceu a jaqueta no ônibus.
• Vários manifestantes ficaram feridos na passeata.
Assim como outros tipos de pronome, apresentam formas variáveis e invariáveis.

Variáveis
Invariáveis
Masculino Feminino

Algum, alguns Alguma, algumas Alguém


Nenhum Nenhuma Ninguém
Todo, todos Toda, todas Tudo
Outro, outros Outra, outras Outrem
Muito, muitos Muita, muitas Nada
Pouco, poucos Pouca, poucas Cada
Certo, certos Certa, certas Algo
Vários Várias
Tanto, tantos Tanta, tantas
Quanto, quantos Quanta, quantas
Qualquer, quaisquer Qualquer, quaisquer

Locuções pronominais indefinidas


São grupos de palavras que equivalem a pronomes indefinidos: cada um, cada qual, quem quer
que, todo aquele que, seja quem for, seja qual for, etc.

PARADA OBRIGATÓRIA

Texto para a questão 6.


Como fazíamos sem... TELEFONE
Antes do telefone, mandávamos telegramas. É bem possível que você nunca tenha nem ouvido falar neles, mas
telegramas eram a única maneira de dar notícias urgentes para pessoas que moravam longe quando o telefone ainda
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

não tinha sido inventado. Funcionava assim: se você queria mandar parabéns para alguém, por causa do aniversário,
ou queria avisar de um acontecimento imprevisto, você ia até o correio e ditava a mensagem para o telegrafista (exis-
tia um profissional que ficava só por conta do assunto). A pontuação era dada usando um código de letras e o preço
variava conforme o número de palavras. Com isso, o texto era sempre bem enxutinho.
Morreu sua mãe PT Enterro amanhã PT (sendo que PT significava ponto) ou Venha VG Clarice nasceu SDS (sendo
que VG queria dizer vírgula e SDS era uma abreviação de saudações). (Pensando bem, até que esse telegrama se pare-
ce um pouco com suas conversas pelo MSN, não?)
Mas e se você esquecesse qual lição sua professora pediu para o dia seguinte? Ou quisesse pedir para a sua mãe
deixar você dormir na casa de uma amiga com quem está passando o dia? A não ser que você fosse até onde estava a
pessoa com quem você precisasse falar, não havia como tirar sua dúvida ou fazer o pedido à sua mãe. ▶

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▶ Hoje isso seria um problemão e o mais provável é que você acabaria sem fazer o dever de casa. Mas, no tempo em

Língua Portuguesa
que ainda não havia telefone, as cidades eram bem menores e caminhar de um lugar a outro não era tão inconveniente.
Outra opção era convencer alguém a levar o recado para você – uma tarefa que costumava fazer parte dos deveres
de empregados. Profissionais que precisavam do leva e traz constante de informações contratavam um contínuo, uma
espécie de office-boy do século passado. “Quando ficava trabalhando em casa, sem aparecer na repartição, o minis-
tro queria o contínuo perto de si, pronto para receber, introduzir ou mandar embora os visitantes, ou levar à secre-
taria, rapidamente, qualquer ordem de sua excelência. Naquele tempo não havia telefone”, escreveu Artur de
Azevedo no conto “As barbas de Romualdo”.
Outros métodos usados para chamar pessoas a uma certa distância incluíam o uso de assobios ou lanternas.
Nesses casos, vizinhos estabeleciam códigos. Por exemplo: duas piscadas poderia querer dizer “venha até aqui”;
cinco piscadas: “vou demorar um pouco mais” [...].
No Brasil, o primeiro aparelho de telefone foi instalado na residência de dom Pedro II, em 1877, apenas um ano
depois de a invenção ter sido patenteada pelo escocês Alexander Graham Bell. Mas as ligações não eram diretas,
como são hoje. Quando você pegava o aparelho do gancho, era conectado a uma central telefônica. Do outro lado da
linha, uma telefonista era responsável por chamar o número desejado. A ligação indireta durou até 1966, quando
a nova tecnologia permitiu ao usuário ligar diretamente para quem quisesse.
SOALHEIRO, Bárbara. Como fazíamos sem... São Paulo: Panda Books, 2006.

6. Leia as seguintes frases.


I. Ela nasceu.
II. Pensando bem, até que esse telegrama se parece um pouco com suas conversas pelo MSN, não?

a) Em qual(is) frase(s) há um pronome substantivo? Qual é esse pronome?


Na frase I, o pronome “ela” é um pronome substantivo.

b) Identifique o(s) pronome(s) adjetivo(s) presente(s) na(s) frase(s) e anote-o(s) a seguir.


Na frase II, o pronome demonstrativo “esse” é um pronome adjetivo. O pronome possessivo “suas” também é um pronome adjetivo.

c) O(s) pronome(s) adjetivo(s) do item anterior modifica(m) qual(is) termo(s) da oração?


O pronome adjetivo “esse” modifica o termo “telegrama”; o pronome adjetivo “suas” modifica o termo “conversas”.

7. Com base nas informações do texto e em seus conhecimentos, responda ao que se pede.
a) Na sentença “existia um profissional que ficava só por conta do assunto”, o termo destacado relaciona-se a qual substantivo
na oração?
O pronome relativo destacado refere-se ao substantivo “profissional”.

b) Leia as duas orações a seguir.


Tenho um aparelho de telefone antigo.

Unidade 1: Como costuramos um texto?


Já me ofereceram mil reais por ele.
Una as duas orações em uma só frase, utilizando um pronome relativo.
Tenho um aparelho de telefone antigo pelo qual já me ofereceram mil reais.

c) Qual(is) termo(s) foi(ram) empregado(s) para unir as duas orações?


Para transformar as duas orações em uma única frase, empregou-se a expressão “pelo qual”.

Parada complementar: 5 e 6

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U1 C2

PARADA COMPLEMENTAR

1. (UFRN – Adaptada)

As obras que a República manda editar para a propaganda de suas riquezas e excelências, logo que são impressas
completamente, distribuem-se a mancheias(1) por quem as queira. Todos as aceitam e logo passam adiante, por meio de
venda. Não julgue o meu correspondente que os “sebos” as aceitem. São tão mofinas, tão escandalosamente mentirosas,
tão infladas de um otimismo de encomenda que ninguém as compra, por sabê-las falsas e destituídas de toda e qualquer
honestidade informativa, de forma a não oferecer nenhum lucro aos revendedores de livros, por falta de compradores.
Onde o meu leitor poderá encontrá-las, se quer ter informações mais ou menos transbordantes de entusiasmo
pago, é nas lojas de merceeiros(2), nos açougues, nas quitandas, assim mesmo em fragmentos, pois todos as pedem nas
repartições públicas para vendê-las a peso aos retalhistas de carne verde, aos vendeiros e aos vendedores de couves.
Contudo, a fim de que o meu delicado missivista não fique fazendo mau juízo a meu respeito, vou dar-lhe algumas
informações sobre o poderoso e rico país da Bruzundanga.
LIMA BARRETO, Afonso Henriques de. Os Bruzundangas. Rio/São Paulo/Fortaleza: ABC Editora, 2005. p. 33.
(1) em abundância   (2) donos de mercearia

O pronome lhe destacado está relacionado:


a) à pessoa que escreveu para o narrador. c) à pessoa que chamou o narrador de desajuizado.
b) a um funcionário público. d) a um revendedor de livros.

2. (Unifesp)

Juventude além dos anos


Fui à exposição dos czares russos, recentemente encerrada. Em plena quinta-feira à tarde, notei dois grupos
distintos: adolescentes e idosos. Ambos animadíssimos. Uma senhora à minha frente comentou, diante de uma
vestimenta de veludo, toda bordada:
– Já tive um vestido parecido!
Observei-a. Deve ter ficado parecida com um tapete! Outras se encantavam com bules, saleiros, ícones. Puxei conversa:
– Está gostando? – perguntei a uma delas.
– Ah, sempre é bom conhecer coisas novas!
Surpreendi-me. Fui criado com a ideia de que as pessoas se aposentam e se lamentam por tudo que não fizeram.
Diante de mim estava uma senhora cheia de vida, disposta a aprender, apesar dos cabelos grisalhos.
Lembrei-me da mãe de um amigo que, ao ficar viúva, mudou completamente. Deu todos os móveis. E também os
porta-retratos, medalhas, jogos de louça, faqueiros, copos. Até presentes que guardava da época do casamento!
Alugou­seu apartamento de classe média. Foi para um bem menor, mais fácil de cuidar. Com a renda, passou a viajar
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

em excursões. Encontrei-a há pouco tempo. Rejuvenescida. Cabelinhos curtos, roupas práticas e alegres.
– Agora que meus filhos estão criados, quero aproveitar!
Resultado: seus netos a adoram!
CARRASCO, Walcyr. Veja São Paulo, 6 jul. 2005.

Considere os trechos:
Observei-a.
Encontrei-a há pouco tempo.
– Agora que meus filhos estão criados...

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Língua Portuguesa
No texto de Walcyr Carrasco, os pronomes em destaque referem-se, respectivamente,
a) a uma senhora, a uma senhora cheia de vida, à mãe de um amigo.
b) à vestimenta de veludo, a uma senhora cheia de vida, ao narrador.
c) a uma senhora, à mãe de um amigo, à mãe de um amigo.
d) à vestimenta de veludo, à mãe de um amigo, ao narrador.
e) a uma senhora, à mãe de um amigo, a uma senhora cheia de vida.

3. (Vunesp – Adaptada)

A vírgula no vestibular de português


“Mas, esta, não é suficiente.”
“Porque, as respostas, não satisfazem.”
“E por isso, surgem as guerras.”
“E muitas vezes, ele não se adapta ao meio em que vive.”
“Pois, o homem é um ser social.”
“Muitos porém, se esquecem que...”
“A sociedade deve pois, lutar pela justiça social.”
Que é que você acha de quem virgula assim? Você vai dizer que não aprendeu nada de pontuação quem semeia
assim as vírgulas. Nem poderá dizer outra coisa.
Ou não lhe ensinaram, ou ensinaram e ele não aprendeu. O certo é que ele se formou no curso secundário. Lepi-
damente, sem maiores dificuldades. Mas a vírgula é um “objeto não identificado”, para ele.
Para ele? Para eles. Para muitos eles, uma legião. Amanhã serão doutores, e a vírgula continuará sendo um objeto
não identificado. Sim, porque os três ou quatro mil menos fracos ultrapassam o vestíbulo... Com vírgula ou sem vír-
gula. Que a vírgula, convenhamos, até que é um obstáculo meio frágil, um risquinho. Objeto não identificado? Não,
objeto invisível a olho nu. Pode passar despercebido até a muito olho de lince de examinador.
– A vírgula, ora, direis, a vírgula...
Mas é justamente essa miúda coisa, esse risquinho, que maior informação nos dá sobre as qualidades do ensino
da língua escrita. Sobre o ensino do cerne mesmo da língua: a frase, sua estrutura, composição e decomposição.
Da virgulação é que se pode depreender a consciência, o grau de consciência que tem, quem escreve, do pensamen-
to e de sua expressão, do ir-e-vir do raciocínio, das hesitações, das interpenetrações de ideias, das sequências e inter-
dependências, e, linguisticamente, da frase e sua constituição.
As vírgulas erradas, ao contrário, retratam a confusão mental, a indisciplina do espírito, o mau domínio das ideias
e do fraseado.
Na minha carreira de professor, fiz muitos testes de pontuação. E sempre ficou clara a relação entre a maneira de
pontuar e o grau de cociente intelectual.
Conclusão que tirei: os exercícios de pontuação constituem um excelente treino para desenvolver a capacidade de
raciocinar e construir frases lógicas e equilibradas.
Quem ensina ou estuda a sintaxe – que é a teoria da frase (ou o “tratado da construção”, como diziam os gramá-
ticos antigos) – forçosamente acaba na importância das pausas, cortes, incidências, nexos, etc., elementos que vão se

Unidade 1: Como costuramos um texto?


espelhar na pontuação, quando a mensagem é escrita.
Pontuar bem é ter visão clara da estrutura do pensamento e da frase. Pontuar bem é governar as rédeas da frase.
Pontuar bem é ter ordem, no pensar e na expressão.
LUFT, Celso Pedro. A vírgula.

“Ou não lhe ensinaram, ou ensinaram e ele não aprendeu. O certo é que ele se formou no curso secundário.”
As palavras colocadas em negrito, nesta passagem,
I.  são pronomes demonstrativos. III.  apresentam no contexto o mesmo referente.
II.  são pronomes pessoais. IV.  pertencem à terceira pessoa do singular.

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U1 C2


As afirmações corretas estão contidas apenas em:
a) I e II. c) I, II e III. e) II, III e IV.
b) II e III. d) I, III e IV.

4. (Insper-SP) Utilize o texto a seguir para responder à questão.

Beija eu
Seja eu, E receba Meu corpo no seu corpo,
Seja eu, o que seja seu. Eu no meu corpo
Deixa que eu seja eu. Anoiteça e amanheça eu. Deixa,
E aceita Beija eu, Eu me deixo.
o que seja seu. Beija eu, Anoiteça e amanheça.
Então deita e aceita eu. Beija eu, me beija. MONTE, Marisa; ANTUNES, Arnaldo;
LINDSEY, Arto. Beija eu. Intérprete: Marisa
Molha eu, Deixa Monte. In: MONTE, Marisa. Mais, 1990.
Seca eu, O que seja ser. Disponível em: <http://www.arnaldoantunes.
Deixa que eu seja o céu. Então beba e receba com.br/new/sec_discografia_todas.php?page=>.

Na letra da canção anterior, observa-se que os compositores recorrem a expedientes linguísticos que se afastam das con-
venções da norma-padrão da Língua Portuguesa com o objetivo de se obter efeitos expressivos. Constata-se que o emprego
dos pronomes pessoais nos versos, além de contribuir com a musicalidade,
a) explora as variedades linguísticas regionais e populares.
b) enfatiza o tom apelativo expresso pelos verbos.
c) gera uma ambiguidade intencional na leitura do texto.
d) simula a linguagem afetiva dos casais enamorados.
e) revela intenção comunicativa de estabelecer hierarquia.

Texto para as questões 5 a 7.

(Ifsul-RS)

Embarque imediato
Não basta passar pelos dias. Viva a partir de agora, com emoção
Neste mundo de turbulências em que estamos vivendo, muitas vezes nos sentimos deprimidos. Em certos mo-
mentos, parece que tudo está perdido, não é mesmo? Achamos que tudo está diferente, que as pessoas estão
.
Mas aqui e agora, tome uma atitude firme em sua vida. Mude seu jeito negativo de ser, evitando que sua vida seja
insignificante.
Perdoe erros que você considerava imperdoáveis, troque as pessoas insubstituíveis por gente mais leve e solta. O
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

apego aos outros está obsoleto. Nada nem ninguém é insubstituível. Aceite a decepção que outros lhe causaram para
que você também seja aceito. Sim, porque todos, inclusive nós, já decepcionamos alguém.
Antes de reagir por impulso, pare, respire fundo. E, só então, aja, com equilíbrio. Ame profundamente,
risadas gostosas, abrace, proteja pessoas queridas, faça amigos. Pule de felicidade e não tenha medo de quebrar a cara – se
isso acontecer, encare com leveza. Se perder alguém nesta vida, sofra comedidamente – e vá em frente, pois tudo passa.
Mas, sobretudo, não seja alguém que simplesmente passa pela vida. Viva intensamente. Abrace o mundo com a
devida paixão que ele merece. Se perder, faça-o com classe, se vencer, que delícia! O mundo pertence a quem se atreve
a ser feliz. Aproveite cada instante dessa grande aventura.

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Língua Portuguesa
Agora mesmo, neste , sente-se confortavelmente na poltrona, com a coluna ereta e de olhos fechados.
Faça vários ciclos de respiração profunda e sinta o ar entrando e saindo. Quando sentir seu corpo relaxado e sua
mente mais calma, pense em sua nova vida, mais leve. Desta maneira você viverá mais facilmente.
LUCA, Márcia de. Embarque imediato. Revista Gol – Linhas áreas inteligentes.

5. As palavras que completam corretamente as lacunas do texto “Embarque imediato” são, respectivamente,
a) ruíns – de – vôo b) ruíns – dê – vôo c) ruins – de – voo d) ruins – dê – voo

6. Em que trecho a palavra sublinhada não é um pronome?


a) Aceite a decepção que outros lhe causaram. c) O mundo pertence a quem se atreve a ser feliz.
b) Se perder alguém nesta vida, sofra comedidamente. d) Se perder, faça-o com classe.

7. No trecho “Quando sentir seu corpo relaxado e sua mente mais calma, pense em sua nova vida, mais leve”, os termos subli-
nhados são, respectivamente,
a) pronome demonstrativo, pronome possessivo e pronome oblíquo.
b) pronome oblíquo, pronome demonstrativo e pronome possessivo.
c) pronome possessivo, pronome possessivo e pronome possessivo.
d) pronome demonstrativo, pronome possessivo e pronome possessivo.

8. (FMU-SP – Adaptada) Suponha que você deseje dirigir-se a personalidades eminentes, cujos títulos são: papa, juiz, cardeal,
reitor e coronel. Assinale a alternativa que contém a abreviatura certa da “expressão de tratamento” correspondente ao tí-
tulo enumerado.
a) Papa ................... V. S.a c) Cardeal .............. V. M. e) Coronel ............. V. A.
b) Juiz ...................... V. Em. a
d) Reitor ................. V. Mag. a

PARA FIXAR

PESSOAIS RETOS
TÔNICOS
POSSESSIVOS OBLÍQUOS
ÁTONOS

DEMONSTRATIVOS REFLEXIVOS

PRONOMES
RELATIVOS RECÍPROCOS
Unidade 1: Como costuramos um texto?

INTERROGATIVOS DE TRATAMENTO

INDEFINIDOS

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UNIDADE 1
CAPÍTULO

3 COLOCAÇÃO PRONOMINAL
Estudaremos
neste capítulo:

Pronominais
Próclise
Dê-me um cigarro Da Nação Brasileira
Mesóclise Diz a gramática Dizem todos os dias
Do professor e do aluno Deixa disso camarada
Ênclise
E do mulato sabido Me dá um cigarro.
Mas o bom negro e o bom branco ANDRADE, Oswald de. Seleção de textos.
São Paulo: Nova Cultural, 1988.

Você sabia?
José Oswald de Sousa Andrade é o nome completo do escritor Oswald de
Andrade (1890-1954). Com uma alma irreverente, foi um dos grandes desta-

Jessica Olmedo
ques da Semana de Arte Moderna, de 1922, em São Paulo, e um dos maiores
nomes do Modernismo literário brasileiro. Alguns de seus poemas publica-
dos: “Canto de regresso à pátria”, “O capoeira” e “Balada do Esplanada”.

O poeta modernista Oswald de Andrade foi quem escreveu esse poema considerado na época
“ousado”. Mas a ousadia e a liberdade eram justamente as principais características do movimen­
to modernista, sobretudo quando se tratava de liberdade de estilo (a liberdade estética, portanto)
e de liberdade quanto à aplicação fiel das regras gramaticais. Esta última é a “ousadia” que apa­
rece no poema lido anteriormente.
Mas por que Oswald de Andrade foi considerado “ousado” escrevendo dessa maneira?
Segundo a Gramática Normativa, aquela que prescreve as regras gramaticais, os pronomes
oblíquos átonos (que vimos no Capítulo anterior: me, te, se, nos, vos, o, os, a, as, lhe, lhes) podem
ocupar três posições em uma frase: podem estar antes do verbo que o acompanham, no meio dele
ou depois dele. Contudo, essa colocação do pronome deve seguir algumas regras.

Próclise
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Na próclise, o pronome deve vir antes do verbo quando, antes dele, houver:
a) um advérbio (não seguido de vírgula): hoje, ontem, aqui, lá, não, nunca, frequentemente.
Exemplos:
• Amanhã te levo o bolo que fiz para você.
• Não te podes deixar levar pelas fofocas.
b) pronomes indefinidos, interrogativos, relativos e demonstrativos. Exemplos:
• Quem lhe emprestou essa corrente de prata?
• Aquilo nos lembra a infância no bairro Medianeira.

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conjunções subordinativas (aquelas do primeiro Capítulo desta Unidade): quando, se, caso,
c) 

Língua Portuguesa
embora, já que, apesar de, mas, porque, que, se, etc. Exemplos: Você sabia?
• Teu pai disse que vai te levar ao zoológico caso te comportes.
Jânio Quadros,
• Apesar de me telefonar todos os dias, eu ainda sinto saudades dela.
presidente do Brasil em
palavras exclamativas que iniciem a oração ou naquelas que exprimem algum desejo.
d)  1961, ano em que
Exemplos: renunciou ao governo,
• Que os amigos me ajudem a estudar para as provas finais! gostava muito de usar
• Tomara que não me esqueça amanhã! palavras difíceis e
verbos no gerúndio (terminados em -ndo), ou seja, aqueles que indicam uma ação em anda­
e)  falava tudo conforme a
mento, precedidos pela preposição em. Exemplos: Gramática Normativa
• Em se tratando de séries televisivas, eles conhecem todas. prescreve. Contudo, em
• Em se falando de Matemática, eles têm se esforçado bastante. uma entrevista na sua
f) o numeral ambos no sujeito da oração. Exemplo: renúncia, quando
• Ambos se levantaram e decidiram procurar emprego. questionado sobre o
motivo do abandono,
g)  palavras ou expressões com sentido negativo. Exemplos:
ele disse: “Fi-lo porque
• Não me informaram sobre a nova cobrança.
qui-lo”. Agora, depois de
• Ninguém o apoiou na última eleição.
ter estudado a
Já nas locuções verbais, em que o verbo principal estiver no gerúndio ou no infinitivo, a colo­ colocação pronominal,
cação pronominal é opcional. Exemplos: já sabemos que uma
• Meu marido vai me pegar amanhã no trabalho. parte dessa frase não
ou está correta. Você sabe
• Meu marido vai pegar-me amanhã no trabalho. qual? Você seria capaz
• Ia te esquecendo do meu aniversário. de corrigi-la?
ou

Folhapress/Folhapress
• Ia esquecendo-te do meu aniversário.

Todas essas ocorrências, portanto, atraem o pronome para antes do verbo.


Mas em locuções verbais cujo verbo principal estiver no particípio, o pronome nunca pode vir
depois dele. Exemplo:
• Tinha-me envolvido sem querer com aquela garota

Mesóclise Fi-lo porque


No capítulo “Leitura” da obra Infância, de Graciliano Ramos, o autor narra seu primeiro contato­ qui-lo.
com as letras, apresentadas por seu pai na tentativa de ensinar-lhe a ler, sem métodos adequa­
dos, o que o levara a não entender quase nada do que lhe ensinava nas cartilhas. É uma passagem (Jânio Quadros)
clássica desse livro o momento em que o menino conhece a colocação pronominal conhecida por
“mesóclise”, na qual o pronome fica intercalado ao verbo:

Afinal meu pai desesperou de instruir-me, revelou tristeza. [...] Respirei, meti-me na soletração,

Unidade 1: Como costuramos um texto?


guiado por Mocinha. [...] Gaguejei sílabas um mês. No fim da carta, elas se reuniam, formavam
sentenças graves, atravessadas, que me atordoavam. [...] Eu não lia direito, mas, arfando penosa-
mente, conseguia mastigar conceitos sisudos: “A preguiça é a chave da pobreza – Quem não ouve
conselhos raras vezes acerta – Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém.”
Esse Terteão, para mim, era um homem, e não pude saber que fazia ele na carta. [...]
– Mocinha, quem é o Terteão?
Mocinha estranhou a pergunta. Não havia pensado que Terteão era homem. Talvez fosse. “Fala
pouco e bem: ter-te-ão por alguém”.
– Mocinha, que quer dizer isso?

35

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U1 C3

ZOOM Ela me confessou honestamente que não conhecia Terteão. E eu fiquei triste, remoendo a pro-
messa de meu pai, aguardando novas decepções.
Quem vence quando há RAMOS, Graciliano. Infância. São Paulo/Rio de Janeiro: Record, 1995. p. 99.
condições para se usar a
mesóclise (há verbos no
futuro e é início de frase) e No trecho, notamos que o menino Graciliano não compreende a colocação pronominal “ter-te-ão”
a próclise (há palavras e o confunde com o nome de uma pessoa. O motivo evidente é que no cotidiano raramente usamos
atrativas)? Sempre a pró- esse modo de falar, mais próprio da escrita.
clise, pois ela é a “regra” Assim, por não ser tão comum, é importante lembrar-se dos dois casos em que ocorrem mesóclise:
dominante no português. a) Quando o verbo estiver no Futuro do Presente do Indicativo. Exemplos:
A mesóclise apresenta • Alugarão + se + os apartamentos = Alugar-se-ão os apartamentos.
uma só regra, que é a mes- • Sentirá + se + tudo = Sentir-se-á tudo.
ma da ênclise: “todo co- b) Quando o verbo estiver no Futuro do Pretérito do Indicativo. Exemplos:
meço de frase deve levar a • Fariam + se + os almoços = Far-se-iam os almoços.
colo­cação do pronome • Traria + me + a mesa = Trar-me-ia a mesa.
após o verbo”.
Ênclise
O pronome é inserido depois do verbo, quando se encaixar nos seguintes casos:
a) A frase se inicia por um verbo, porque nunca se começa uma frase com um pronome oblíquo
átono (como acontece na mesóclise). Exemplos:
• Fecha-te no teu quarto.
• Contei-lhe todos os meus pecados.
• Cortou-se com o barbeador.
b) Após uma pausa antes do verbo, geralmente devido à pontuação (vírgula, dois-pontos, etc.).
REGRA: aquilo que regula,
Exemplos:
que dirige, que rege, que é
mais comum, que é o • Hoje, fazem-se consultas odontológicas mais baratas.
padrão. • Caso fique com dúvidas, escreva-me, por favor.
c) O verbo estiver nas seguintes formas verbais: imperativo afirmativo, gerúndio (não precedido
de em ou advérbio), infinitivo (precedido de preposição a). Exemplos:
• Levantem-se, agora!
• Levou a chave, deixando-nos no escuro.
• Gostaria de perdoar-lhe, mas não sei se consigo.

PARADA OBRIGATÓRIA

Texto para as questões 1 a 3.

Abane a cabeça, leitor


Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

a isso antes; tudo é possível. Mas, se o não fez antes, e só agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma pági-
na, sem crer por isso na veracidade do autor. Todavia, não há nada mais exato. Foi assim mesmo que Capitu falou, com tais
palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, como se fosse a primeira boneca.
Quanto ao meu espanto, se também foi grande, veio de mistura com uma sensação esquisita. Percorreu-me um fluido.
Aquela ameaça de um primeiro filho, o primeiro filho de Capitu, o casamento dela com outro, portanto, a separação abso-
luta, a perda, a aniquilação, tudo isso produzia um tal efeito, que não achei palavra nem gesto; fiquei estúpido. Capitu
sorria; eu via o primeiro filho brincando no chão...
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua000194.pdf>. Acesso em: 26 set. 2017.

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▶ Considere os pronomes destacados no texto de Machado de Assis e responda:

Língua Portuguesa
a) O primeiro pronome destacado está colocado corretamente na frase, antecedendo o verbo? Por quê? Corrija a frase, se
necessário.
O primeiro pronome está colocado corretamente na frase, em posição de próclise, pois o advérbio “já” atrai o pronome “o” para antes do verbo

“obrigou”.

b) Os dois outros pronomes o destacados também estão colocados corretamente nas frases? Explique por quê.
Os outros dois pronomes “o” estão corretamente colocados na frase em posição enclítica porque as conjunções subordinativas “se” e “que” atraem

os pronomes para antes dos verbos.

c) Sobre o caso dos dois primeiros pronomes analisados, responda se eles poderiam estar em outra posição e por quê.
Sim, ambos os pronomes poderiam estar depois do advérbio “não”, mas ainda antes dos verbos “obrigou” e “fez”. Neste caso, o pronome pode vir

antes ou depois do “não”.

2. Releia o trecho e responda ao que se pede.


a) Explique por que, na oração “Percorreu-me um fluido.”, o pronome “me” está depois do verbo.
O pronome está proclítico ao verbo por se tratar de início de frase, ou seja, a oração não poderia começar com o pronome oblíquo “me”.

b) Em relação a essa regra de colocação pronominal, é permitido, em algumas situações, relativizar essa norma?
Em contextos informais, como conversas familiares, ou quando se deseja reproduzir a fala de personagens na língua escrita, é permitido iniciar a

frase com pronome oblíquo átono.

c) Escreva 3 frases empregando pronomes oblíquos átonos. Elas devem estar de acordo com as normas de colocação pronominal.
Resposta pessoal.

3. Destaque, no trecho de Machado de Assis:


a) Dois pronomes indefinidos e dois demonstrativos.
Os pronomes indefinidos são: todos, tudo e outro. Os pronomes demonstrativos presentes no texto são: este, isso, tais, aquela e tal.

Unidade 1: Como costuramos um texto?


b) Na frase “[...] se o tédio já o não obrigou a isso antes; [...]”, a que o pronome “isso” se refere?
O pronome “isso” se refere a “deitar fora este livro”.

c) Em “[...] tudo isso produzia um tal efeito [...]”, a que o pronome “isso” se refere?
O pronome “isso” se refere a “Aquela ameaça de um primeiro filho, o primeiro filho de Capitu, o casamento dela com outro, portanto, a separação

absoluta, a perda, a aniquilação”.

Parada complementar: 1 a 12
Teste seu conhecimento: 8

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U1 C3

PARADA COMPLEMENTAR

1. (PUC-PR) Observe a tirinha.

PUC-PR/2016

A fala da garota na tirinha explica-se porque o


a) menino não usou a colocação pronominal prescrita pela norma culta em “Nunca deixe-me”.
b) pronome “me” não poderia estar depois das formas verbais “Abrace” e “Beije”, de acordo com as normas da Gramática tradicional.
c) uso de “me” em “Beije-me” fere a prescrição gramatical, que recomenda o uso de “eu” nesse caso.
d) menino ora usa o pronome “me” depois do verbo, ora antes dele, o que não mantém a uniformidade pronominal.
e) emprego do pronome de primeira pessoa “me” não pode ocorrer junto de uma forma verbal no imperativo.

2. (FGV-SP)

Pela tarde apareceu o Capitão Vitorino. Vinha numa burra velha, de chapéu de palha muito alvo, com a fita verde-
-amarela na lapela do paletó. O mestre José Amaro estava sentado na tenda, sem trabalhar. E quando viu o compadre
alegrou-se. Agora as visitas de Vitorino faziam-lhe bem. Desde aquele dia em que vira o compadre sair com a filha para
o Recife, fazendo tudo com tão boa vontade, que Vitorino não lhe era mais o homem infeliz, o pobre bobo, o sem-vergo-
nha, o vagabundo que tanto lhe desagradava. Vitorino apeou-se para falar do ataque ao Pilar. Não era amigo de Quinca
Napoleão, achava que aquele bicho vivia de roubar o povo, mas não aprovava o que o capitão fizera com a D. Inês.
– Meu compadre, uma mulher como a D. Inês é para ser respeitada.
– E o capitão desrespeitou a velha, compadre?
– Eu não estava lá. Mas me disseram que botou o rifle em cima dela, para fazer medo, para ver se D. Inês lhe dava
a chave do cofre. Ela não deu. José Medeiros, que é homem, borrou-se todo quando lhe entrou um cangaceiro no
estabelecimento. Me disseram que o safado chorava como bezerro desmamado. Este cachorro anda agora com o fogo
da força da polícia fazendo o diabo com o povo.
REGO, José Lins do. Fogo morto.
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

A colocação do pronome está adequada à situação comunicativa da narrativa literária, mas está em desacordo com a norma-
-padrão na seguinte passagem do texto:
a) E quando viu o compadre alegrou-se.
b) Agora as visitas de Vitorino faziam-lhe bem.
c) [...] Vitorino não lhe era mais o homem infeliz, o pobre bobo [...].
d) [...] para ver se D. Inês lhe dava a chave do cofre.
e) Me disseram que o safado chorava como bezerro desmamado.

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Língua Portuguesa
3. (Unifesp)

UNIFESP/2006

Se a personagem fosse enfática e dissesse: “... eu não reconheço o documento, eu não reconheço o documento...”, a oração
repetida, de acordo com a norma-padrão, assumiria a seguinte forma:
a) eu não o reconheço.
b) eu não reconheço-lhe.
c) eu não reconheço ele.
d) eu não lhe reconheço.
e) eu não reconheço-lo.

4. (IFSP) De acordo com a norma-padrão da Língua Portuguesa e com a Gramática Normativa e tradicional, quanto à colocação
prono­minal, assinale a alternativa correta.
a) Espero que Milton nunca esqueça-se de mim.
b) Não me diga que Jorge faltou hoje.
c) Tudo incomoda-me em você.
d) Em tratando-se de informática, Lucas é o melhor.
e) Foi Ronaldo quem ensinou-me matemática.

5. (IFCE) A colocação pronominal está incorreta em:


a) Importava-se com o sucesso do projeto.
b) Quem te convidou para sair?
c) Em se tratando de negócios, você precisa falar com o gerente.
d) Procurar-me-iam caso precisassem de ajuda.
e) Nunca esqueça-se de mim.

6. (IFSP) Considere o seguinte texto e as lacunas:


muito a respeito da profissão correta a escolher. Para , é preciso paciência e informações. O jovem

Unidade 1: Como costuramos um texto?


deve pautar sua escolha nas disciplinas que .
Levando em consideração o uso e a colocação pronominal, de acordo com a norma-padrão da Língua Portuguesa, os termos
que melhor preenchem, respectivamente, as lacunas anteriores são:
a) Se pensa – encontra-la – agradem-lhe
b) Pensa-se – encontrar-na – o agradem
c) Pensa-se – encontrá-la – lhe agradem
d) Se pensa – encontrar-lha – agradem-no
e) Pensa-se – encontra-lá – no agradem

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U1 C3


7. (IFSP) Com relação à colocação pronominal e ao emprego dos pronomes, observe a tirinha a seguir.

IFESP/2016

I. No primeiro quadrinho, o pronome mim foi utilizado de forma incorreta, no que tange à norma-padrão da Língua
­Portuguesa e de acordo com a Gramática Normativa.
 II. No terceiro quadrinho, a frase: “Eu sei, estes momentos nos deixam sem palavras...”, para ­seguir a regra da colocação
pronominal, deveria ter sido escrita da seguinte maneira: “Eu sei, estes momentos deixam-nos sem palavras...”.
III. A frase: “Beije-me como nunca beijou alguém antes!” pode ser reescrita da seguinte maneira, sem que haja prejuízo
­semântico: “Beije-me como nunca beijou ninguém antes!”.

É correto o que se afirma em:


a) II, apenas.
b) II e III, apenas.
c) I e III, apenas.
d) I, II e III.
e) III, apenas.

8. (Ifal) Leia este texto e responda à questão a seguir.

No dia seguinte fui à casa da filha do dono da livraria [...]. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos,
disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. [...] Dessa vez
nem caí; guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida
inteira,­o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 9.

Apesar de, nas variedades do português falado no Brasil, a colocação pronominal fugir às regras gramaticais, esta é siste-
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

matizada pela Gramática Normativa da língua. Assim sendo, assinale a alternativa que apresenta o emprego do pronome
oblíquo no texto infringindo essa normatização.
a) [...] Não me mandou entrar.
b) [...] disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, [...].
c) [...] e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo.
d) [...] guiava-me a promessa do livro, [...].
e) [...] o amor pelo mundo me esperava, [...].

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▶ 9. (Unifesp) Analise a capa de um fôlder de uma campanha de trânsito.

Língua Portuguesa
UNIFESP/2015

Explicitando-se os complementos dos verbos em “Eu cuido, eu respeito.”, obtém-se, em conformidade com a norma-padrão
da Língua Portuguesa:
a) Eu a cuido, eu respeito-lhe.
b) Eu cuido dela, eu lhe respeito.
c) Eu cuido dela, eu a respeito.
d) Eu lhe cuido e respeito.
e) Eu cuido e respeito-a.

10. (Ifal)

Escrever para mim é uma coisa que faz parte, que está dentro de mim, é a única coisa que eu sei fazer. É uma coisa
que vem das minhas entranhas, é uma necessidade: eu sinto que tenho que fazer aquilo. Mas também é um prazer e
eu me divirto ao escrever. Me cansa, me esgota, mas eu me divirto..., eu não sei fazer nada que não me divirta.
AMADO, Jorge. Literatura comentada. São Paulo: Abril Educação, 1981.

Relativamente ao texto, só uma alternativa está correta. Assinale-a.

Unidade 1: Como costuramos um texto?


a) O escritor cometeu um erro de colocação pronominal em: “Me cansa, me esgota, [...]”, mas tal construção justifica-se por ele
ser um literato.
b) O sujeito dos verbos “cansar” e “esgotar” no período: “Me cansa, me esgota, [...]” é “escrever”.
c) Nos dois momentos em que aparece no texto, o verbo “escrever” tem a mesma função sintática.
d) O “que” funciona como conjunção subordinativa integrante, no trecho: “eu sinto que tenho que fazer aquilo”.
e) A palavra “coisa”, substituída pelo pronome relativo “que”, funciona como sujeito dos verbos “faz”, “está” e “fazer”, no primei-
ro período do texto.

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U1 C3

▶ 11. (CPS) Considere o texto a seguir que nos informa sobre a continuidade do trabalho desempenhado por esses grupos.
Os alunos dessa sala, após os devidos esclarecimentos feitos pela professora, resolveram transformar o que estudaram em
dicas ecopráticas e publicar essas dicas ecopráticas no portal da escola. Para isso, redigiram um manual explicativo e digita-
ram esse manual explicativo, acrescentando ilustrações dos próprios colegas.
A repetição dos termos, que estão em destaque no texto, pode ser evitada pelo emprego adequado dos pronomes. Assinale
a alternativa em que isso ocorre.
a) publicar-lhes ... o digitaram
b) publicar-lhes ... lhe digitaram
c) publicá-las ... o digitaram
d) publicar-las ... lhe digitaram
e) publicá-las ... digitaram-o

12. (CFTMG) O pronome destacado tem valor de possessivo em:


a) O pai dizia-LHE para testar o aparelho depois da tempestade.
b) A moça olhava para a colega que LHE estava de costas.
c) A comissão pediu-LHE mais informações pessoais.
d) Cobria-LHE as pernas com a colcha de retalhos.

PARA FIXAR

COLOCAÇÃO
DO PRONOME

Antes do verbo No meio do verbo Depois do verbo


Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

PRÓCLISE MESÓCLISE ÊNCLISE

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U1

Lembre-se da pergunta que iniciou esta Unidade:

COMO COSTURAMOS
UM TEXTO?
Agora, leia o texto a seguir:

omo vimos no início da Unidade, os pontos ligam as linhas tornando­as um belo conjunto
C inseparável. Depois do que estudou, você percebeu que, nas frases e nos textos, quem
exerce a função dos “pontos” são as conjunções e os pronomes, não é mesmo? Isso porque a
conjunção age como termo de ligação e o pronome, como o que acompanha, refere­se e até
substitui um nome.
Você também viu que essas duas classes gramaticais possuem muitas classificações. Como
guardar todas elas? Você pode fazer fichas de estudo ou uma tabela resumida. Reúna­se com seus
amigos e discutam a ideia. Será também uma boa forma de recapitular tudo o que foi estudado.

Unidade 1: Como costuramos um texto?

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Narrativa com EPOPEIA
personagens, ação,
tempo e espaço.
Apresenta um
episódio heroico da
história de um povo.

Fábula

Narrativa curta com


poucos personagens.
Nela, o enredo se dá
em torno de apenas
um conflito que se
resolve rapidamente.
Conto

Novela

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LP
UNIDADE 2

Língua
Portuguesa

História curta, com


personagens animais.
COMO VOCÊ
CONTARIA A
Possui um objetivo
didático em que há
um desfecho com
“moral da história”.

SUA HISTÓRIA?
Ao pensar em narrar uma história no papel, a literatura nos
permite escolher entre diversas modalidades.
bsilvia, Vitalina, Tirachard /iStock/Getty Images

Peça aos alunos que pensem e anotem no caderno sobre o que eles narrariam. É importante que guardem
essa ideia, pois, ao final do estudo da Unidade, ela será retomada para que o aluno decida em qual gênero
literário ele se expressaria melhor.

Narrar histórias, verdadeiras ou fictícias, sempre fez parte da existência huma-


na, desde as formas mais primitivas, por meio de pinturas rupestres, até os meios
mais modernos e atuais, como os e-books.
Ao narrar, tudo é sempre pensado para atrair a atenção dos leitores, proporcio-
nando-lhes informação e entretenimento. No entanto, nem toda narrativa é igual.
Cada uma se enquadra em um gênero narrativo. Sua principal característica é ser
constituído em prosa.
História dividida em
Dentro do gênero narrativo, há modalidades com elementos estruturais e esti-
capítulos, tem muitos
lísticos em comum, como narrador, tempo, espaço, enredo e personagens. Mas há
personagens e histórias
também elementos que demarcam a individualidade de cada gênero – afinal, algo
paralelas em locais e
tempos diferentes e até precisa ser diferente para que os gêneros narrativos existam.
mesmo interligando-se. Visando sempre o receptor, cada escolha na hora de passar uma história para a
versão escrita é determinante para o sucesso dela, ou seja, para que haja captação
da atenção do público e transmissão de um aprendizado ou de uma informação.
Vamos conhecer algumas dessas possibilidades de narrativa – fábula, epopeia,
conto e novela – para você escolher como contaria a sua história!

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UNIDADE 2
CAPÍTULO

1 GÊNEROS NARRATIVOS
Estudaremos
neste capítulo:

Fábula
A fábula caracteriza-se como um gênero narrativo curto e breve que pode ser escrito em prosa
Fábula ou em verso e que é composto por personagens animais. Contudo, esses animais possuem traços
humanos, como a fala, as roupas, os hábitos, as virtudes, os vícios, tornando-a uma história inve-
Epopeia
rossímil. Uma das principais características da fábula é também conter um teor didático, uma
Novela “moral da história”, ou seja, um ensinamento ao leitor ou ao ouvinte sobre como se deve ou não
agir em certas situações.
Conto
O maior público-alvo das fábulas é, portanto, o infantil, e o maior representante brasileiro
desse gênero é, por excelência, Monteiro Lobato.
Os personagens geralmente são personificações, representados não só por animais, como
também por plantas.
As fábulas foram desenvolvidas primeiramente por Esopo, de forma oral, na Grécia antiga.
Porém, antes desse período, os sumérios – civilização do mundo antigo, entre aproximadamente
6500 a.C. e 1940 a.C., localizada ao sul da Mesopotâmia (atual sul do Iraque e do Kuwait) – já con-
tavam provérbios (semelhantes às fábulas gregas) com personagens antropomórficos (que têm
forma humana ou se assemelham a um homem) e com uma lição de moral ao final da história.

PERSONIFICAÇÃO: recurso Os fabulistas Esopo e La Fontaine


literário utilizado pelos A Esopo é atribuída a criação das famosas fábulas “A tartaruga e a lebre”, “O vento norte e o
autores para atribuir sol”, “O menino que gritava lobo” e “O lobo e o cordeiro”. No entanto, a mais famosa de todas é “A
sentimentos e
cigarra e a formiga”.
características humanas a
seres inanimados ou Também é conhecido por inspirar o fabulista e poeta francês Jean de La Fontaine, que se tor-
animais e plantas. Também nou conhecido em 1694, quando publicou uma coletânea de fábulas, as quais dedicou ao filho do
conhecido como rei Luís XIV. Com uma linguagem bem simples, os textos fizeram sucesso rapidamente.
prosopopeia. Tanto Esopo como La Fontaine escreveram versões das mesmas fábulas, e isso é uma caracte-
rística normal do gênero.

A cigarra e a formiga
Tendo a cigarra em cantigas Rogou-lhe que lhe emprestasse, A formiga nunca empresta.
Folgado todo o verão Pois tinha riqueza e brio, Nunca dá, por isso junta:
Achou-se em penúria extrema Algum grão com que manter-se “No Verão em que lidavas?”
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Na tormentosa estação. Até voltar o aceso Estio. À pedinte ela pergunta.

Não lhe restando migalha “Amiga, – diz a cigarra – Responde a outra: “Eu cantava
Que trincasse, a tagarela Prometo, à fé d’animal, Noite e dia, a toda hora.”
Foi valer-se da formiga, Pagar-vos antes d’Agosto “Oh! Bravo!”, torna a formiga:
Que morava perto dela. Os juros e o principal.” — Cantavas? Pois dança agora!
LA FONTAINE (1621-1695). A cigarra e a formiga. Trad. de Bocage (1765-1805).

Moral da história: não pense só em se divertir. É preciso trabalhar e pensar no futuro também.

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Língua Portuguesa
INTERLIGANDO SABERES

Fábula na literatura brasileira


As fábulas contribuem até hoje com suas histórias na literatura em geral. No caso da literatura
brasileira não é diferente. Em Fábulas fabulosas, Millôr Fernandes se apropria de algumas fábu-
las, recriando-as. Leia a fábula a seguir, “A raposa e as uvas”, escrita pelo autor:

A raposa e as uvas
Uma raposa faminta, ao ver cachos de uva suspensos em uma parreira, quis pegá-los, mas Você sabia?
não conseguiu. Então, afastou-se dela, dizendo: “Estão verdes’’. Esopo teria nascido no
Assim também, alguns homens, não conseguindo realizar seus negócios por incapacidade, século VI a.C. onde
acusam as circunstâncias. hoje é a Turquia. Teria,
De repente a raposa, esfomeada e gulosa, fome de quatro dias e gula de todos os tempos, saiu
porque sua existência
do areal do deserto e caiu na sombra deliciosa do parreiral que descia por um precipício a perder de
nunca foi comprovada
vista. Olhou e viu, além de tudo, à altura de um salto, cachos de uvas maravilhosos, uvas grandes,
tentadoras. Armou o salto, retesou o corpo, saltou, o focinho passou a um palmo das uvas. Caiu, por nenhum
tentou de novo, não conseguiu. Descansou, encolheu mais o corpo, deu tudo o que tinha, não con- documento histórico.
seguiu nem roçar as uvas gordas e redondas. Desistiu, dizendo entre dentes, com raiva: “Ah, tam- No entanto, foi
bém, não tem importância. Estão muito verdes”. E foi descendo, com cuidado, quando viu à sua atribuído a ele o título
frente uma pedra enorme. Com esforço empurrou a pedra até o local em que estavam os cachos de de criador do gênero
uva, trepou na pedra, perigosamente, pois o terreno era irregular e havia o risco de despencar, fábula, além, é claro,
esticou a pata e... conseguiu! Com avidez colocou na boca o cacho inteiro. E cuspiu. Realmente as de várias fábulas
uvas estavam verdes! populares.
MORAL: A frustração é uma forma de julgamento tão boa como qualquer outra.
FERNANDES, Millôr. Fábulas fabulosas. Rio de Janeiro: Nórdica, 1991. p. 118.

Jessica Olmedo
Você conhece a fábula original, registrada por La Fontaine? O que difere da fábula de Millôr? Pro-
cure a fábula na internet e depois discuta em sala de aula.

Epopeia
A epopeia é um gênero narrativo pouco conhecido pelos leitores hoje em

De Agostini/Getty Images
dia e pouco explorado pelos escritores da atualidade. Também chamada de
“poema épico”, ela conta a história de guerras, de aventuras, de feitos histó-
ricos (verdadeiros, mitológicos ou lendários) protagonizados por heróis ou

Unidade 2: Como você contaria a sua história?


por povos heroicos.
As mais conhecidas epopeias são a Ilíada e a Odisseia, de Homero, poeta grego
que viveu por volta do século IX a.C. Contudo, apesar de tão distantes de nosso
tempo, os principais episódios dessas obras ainda são largamente conhecidos.
Da Ilíada, são clássicas as ideias do ardil Ulisses, que traça o plano de invadir
Troia presenteando o rei troiano com um enorme cavalo de madeira no qual em-
barcou um exército para ultrapassar as muralhas da cidade.
Já a ideia contida na Odisseia é relacionada a qualquer jornada de uma pessoa Ulisses e as sereias, de autor desconhecido, séc. III d.C.
Mosaico romano de Dougga, Tunísia.
ou grupo para chegar a um lugar. Nesse poema épico, Homero narra a volta de Ulis-
ses para Ítaca, sua terra natal, depois de vencer os troianos na guerra que durou
aproximadamente dez anos. Nessa jornada, Ulisses vive as mais diversas aventuras.

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PLUGUE-SE Como todo gênero narrativo, a epopeia apresenta narrador, enredo, personagens principais e
personagens secundários e é organizada em determinado tempo e espaço. Contudo, diferente-
mente de outras narrativas, o poema épico possui:

Stanley Kubrick Productions


• Proêmio/proposição/exórdio: apresentação, pelo narrador, do herói ou do tema a ser tratado
no poema.
• Invocação: parte da epopeia em que o herói ou o povo heroico invoca musas ou divindades
para lhe auxiliar na sua memória dos fatos.
• Dedicatória: a quem aquele poema é dedicado.
• Narração: é a história contada.
• Peroração/epílogo: conclusão do poema.
Assista ao filme 2001: uma
odisseia no espaço, de Em língua portuguesa, a epopeia mais conhecida é Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, cuja
Stanley Kubrick (1968, história, envolta por diversas outras tramas vitoriosas de Portugal, centra-se na descoberta pelo
EUA. 2 h 21 min). Um dos português Vasco da Gama do caminho marítimo para chegar à Índia.
mais importantes clássi- No Brasil, no período literário Arcadismo, Santa Rita Durão escreveu Caramuru, tratando da
cos do cinema, é mais uma vinda de Diego Álvares Correia para o Brasil, mais especificamente para a Bahia, onde conheceu
das grandes obras que re- a cultura dos Tupinambás e se apaixonou pela índia branca Paraguaçu, a qual foi levada com ele
cuperam a ideia de longa
depois para a Europa.
jornada contida na histó-
Uma epopeia ainda mais conhecida é O Uraguai, de Basílio da Gama. A obra retrata as conse-
ria de Homero. A ideia do
quências práticas do Tratado de Madri e a disputa entre índios, jesuítas, espanhóis e portugueses­
filme é mostrar a jornada
da civilização, desde a ori- por Sete Povos das Missões, no noroeste do atual Rio Grande do Sul.
gem do ser humano
­primitivo até as grandes
possibilidades de viagens
interestelares.
ENTRE EM AÇÃO
Provavelmente, você estudou e vem estudando na disciplina de História diversas guerras e conflitos
ocorridos pelo mundo. Escolha um deles e pense na estrutura de uma epopeia. Como seria a propo-
sição? E a invocação? Complete parte da estrutura da epopeia nas linhas a seguir.
a) Proposição:

b) Invocação:

c) Dedicatória:
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

d) Epílogo:

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Língua Portuguesa
PARADA OBRIGATÓRIA

1. Leia as fábulas a seguir, reflita e escreva que lição de mo- “O senhor quer saber de uma coisa? Eu certamente
ral cada uma passa. teria me assustado... isso se antes não tivesse escuta-
a)      do o seu inconfundível zurro...”.
SITE de Dicas. O asno em pele de leão. Disponível em:
A lebre e a tartaruga <http://sitededicas.ne10.uol.com.br/fabula-o-asno-em-pele-
de-leao.htm>. Acesso em: 14 jul. 2017. Adaptado.
Um dia, uma lebre ridicularizou as pernas
curtas e a lentidão da tartaruga. A tartaruga sor-
riu e disse: “Pensa você ser rápida como o vento; Moral da história:
mas acredito que eu a venceria numa corrida...”. As aparências podem enganar, mas pequenos detalhes (como os
A lebre, claro, considerou aquela insinuação
como algo impossível de acontecer, e aceitou o dizeres) revelam a essência.

desafio na hora.
Convidaram então a raposa para servir de
juiz, escolher o trajeto, e o ponto de chegada.
E no dia marcado, do ponto inicial, partiram
2. Leia o trecho a seguir de Os Lusíadas, de Luís de Camões,
e responda ao que se pede:
juntas.
A tartaruga, com seu passo lento, mas firme,
determinada, concentrada, em momento algum Canto I
parou de caminhar rumo ao seu objetivo.
As armas e os Barões assinalados
Mas a lebre, confiante de sua velocidade, des-
Que da Ocidental praia Lusitana
preocupada com a corrida, deitou à margem da
Por mares nunca de antes navegados
estrada para um rápido cochilo.
Passaram ainda além da Taprobana,
Ao despertar, embora corresse o mais rápido Em perigos e guerras esforçados
que suas pernas o permitissem, não mais conse- Mais do que prometia a força humana,
guiu alcançar a tartaruga, que já cruzara a linha de E entre gente remota edificaram
chegada, e agora descansava tranquila num canto. Novo Reino, que tanto sublimaram;
SITE de Dicas. A lebre e a tartaruga. Disponível em: <http://sitededicas.ne10.
uol.com.br/fabula_lebre_tartaruga.htm>. Acesso em: 20 set. 2017. Adaptado.
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
Moral da história: A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
Quem realiza seu trabalho com persistência, sempre alcança o êxito.
E aqueles que por obras valorosos
Se vão da lei da Morte libertando,

Unidade 2: Como você contaria a sua história?


Cantando espalharei por toda parte,
b)      Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
O asno em pele de leão
Cessem do sábio Grego e do Troiano
Um jovem asno, ao encontrar uma pele de leão, re-
As navegações grandes que fizeram;
solveu então colocá-la sobre seu dorso. Feito isso, vaga-
Cale-se de Alexandro e de Trajano
va pela floresta divertindo-se com o pavor que causava
A fama das vitórias que tiveram;
aos animais que ia encontrando pelo seu caminho.
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
Por fim, ao encontrar uma raposa, também tenta
A quem Netuno e Marte obedeceram.
amedrontá-la. Mas a raposa tão logo escuta o som de sua
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
voz, e depois de examiná-lo de cima a baixo, dá dois pas-
Que outro valor mais alto se levanta.
sos para trás e exclama com indisfarçável ironia:

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▶ E vós, Tágides minhas, pois criado Um estilo grandíloco e corrente,


Tendes em mi um novo engenho ardente, Por que de vossas águas Febo ordene
Se sempre em verso humilde celebrado Que não tenham inveja às de Hipocrene.
Foi de mi vosso rio alegremente, […]
Dai-me agora um som alto e sublimado,

Canto II
Já neste tempo o lúcido Planeta «E se buscando vás mercadoria
Que as horas vai do dia distinguindo, Que produz o aurífero levante,
Chegava à desejada e lenta meta, Canela, cravo, ardente especiaria
A luz celeste às gentes encobrindo; Ou droga salutífera e prestante;
E da casa marítima secreta lhe estava o Deus Ou se queres luzente pedraria,
Noturno a porta abrindo, O rubi fino, o rígido diamante,
Quando as infidas gentes se chegaram Daqui levarás tudo tão sobejo
Às naus, que pouco havia que ancoraram. Com que faças o fim a teu desejo.»
Dentre eles um, que traz encomendado Ao mensageiro o Capitão responde
O mortífero engano, assim dizia: As palavras do Rei agradecendo,
«Capitão valoroso, que cortado E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
Tens de Netuno o reino e salsa via, Não entra pera dentro, obedecendo;
O Rei que manda esta Ilha, alvoraçado Porém que, como a luz mostrar por onde
Da vinda tua, tem tanta alegria Vá sem perigo a frota, não temendo,
Que não deseja mais que agasalhar-te, Cumprirá sem receio seu mandado,
Ver-te e do necessário reformar-te. Que a mais por tal senhor está obrigado.
Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br/download/texto/
«E porque está em extremo desejoso bv000162.pdf>. Acesso em: 10 ago. 2017.
De te ver, como cousa nomeada,
Te roga que, de nada receoso,
Entres a barra, tu com toda armada;
E porque do caminho trabalhoso
Trarás a gente débil e cansada,
Diz que na terra podes reformá-la,
Que a natureza obriga a desejá-la.

a) A qual trecho se refere a proposição?


Aos guerreiros e aos navegadores, aos reis que permitiram a expansão da fé e do Império e a todos aqueles que, devido às

suas ações por Portugal, imortalizaram-se.

b) A qual trecho se refere a invocação?


“Tágides minhas”, no Canto I.
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

c) Por meio da sua interpretação, resuma, com suas palavras, o Canto II.
Resposta pessoal.

Parada complementar: 1 e 2
Teste seu conhecimento: 1
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Novela ZOOM

Língua Portuguesa
Quando se fala em “novela”, logo vêm à cabeça da maioria dos brasileiros aquelas que passam O romance A Moreninha,
no horário nobre da programação televisiva. No entanto, a novela é um gênero literário que nas- de Joaquim Manuel de
ceu muito antes da televisão e até do rádio. O que hoje chamamos de “capítulos” antigamente Macedo, é o exemplo de
eram publicados em folhetins, em jornais, constituindo, ao final, a novela propriamente dita. folhetim mais popular
Os críticos literários, em sua maioria, têm dúvidas ao tentar diferenciar novela, conto e romance, já do Brasil. Foi sucesso
que são as três narrativas, diferindo, basicamente, na sua extensão. As novelas, contudo, têm entre de vendas no país.
20 mil e 40 mil palavras, enquanto os contos são mais curtos que isso, e os romances, mais longos.
Em relação ao conteúdo, a novela sempre terá várias tramas se desenrolando simultaneamen-
te, com diversos personagens que aparecem e desaparecem, ao passo que o conto e o romance
são focados em uma única história. A novela, por ser muito ágil e dinâmica, também evita longas
descrições, dando prioridade aos diálogos e às narrações.
Em A criação literária: prosa 1, o estudioso de literatura Massaud Moisés define alguns critérios
que devem estar presentes em uma narrativa para que ela seja considerada uma novela:
• Linguagem: a linguagem geralmente é simples, sem palavras robustas, sempre passíveis de
entendimento pelo leitor, pelo ouvinte ou pelo telespectador, mas condizente com a época
em que a história se passa. A linguagem dos personagens diz respeito à sua idade, ao seu
nível de escolaridade, ao local onde moram.
• Personagens: como em qualquer narrativa, na novela há personagens principais e há perso-
nagens secundários. Mas nela é mais difícil estabelecer essa distinção, já que há várias his-
tórias sendo contadas concomitantemente. Além disso, os personagens podem aparecer e
desaparecer de repente, sem que o leitor seja avisado.
• Trama: diferentemente do conto e do romance, cujas tramas se desenrolam em torno de uma
história principal, a novela apresenta várias tramas simultâneas que podem ou não ter uma rela-
ção entre si, assim como vemos nas telenovelas.
• Tempo: geralmente, a história se passa em um tempo linear, com algumas referências ao
passado, os flashbacks.
• Espaço: não há um espaço fixo para a história se desenrolar – o narrador pode nos deslocar
para outros continentes em questão de linhas.
• Narrador: a maioria das novelas possui um narrador onisciente, isto é, aquele que sabe tudo
o que se passa na história e até nos pensamentos dos personagens. Mas nada impede que a
história seja narrada em 1ª pessoa (narrador personagem) e que essa narração refira-se so-
mente aos fatos vistos por esse narrador.
A literatura brasileira apresenta várias novelas, por exemplo: O alienista, de Machado de Assis;
A morte e a morte de Quincas Berro D’água, de Jorge Amado; Vidas secas, de Graciliano Ramos; A festa
no castelo, de Moacyr Scliar, entre outras.
Essas obras, por se tratarem de novelas, são mais curtas e divididas em pequenos capítulos.
Veja um exemplo de um capítulo de Vidas secas.

Unidade 2: Como você contaria a sua história?


Baleia
A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pelo caíra-lhe em vários pontos, as
costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de
moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no
pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas
estacas do curral ou metia-se no mato; impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas
murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda
de cascavel.

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Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o
saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.
Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam
­desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:
— Vão bulir com a Baleia?
Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a sus-
peita de que Baleia corria perigo.
[...]
Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinhá Vitória levou-os para a cama de varas,
deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos, prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e
espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de
subjugá-los, resmungando com energia.
Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era
necessária e justa. Pobre da Baleia.
Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da
vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.
Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como Sinhá Vitória tinha relaxado os músculos,
deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:
— Capeta excomungado.
Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou
um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.
Pouco a pouco a cólera diminuiu, e Sinhá Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela
achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro
doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoi-
decer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execu-
ção era indispensável.
Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinhá Vitória
encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros às orelhas. Como isto era impossível, levantou os
braços e, sem largar o filho, conseguiu ocultar um pedaço da cabeça.
Fabiano percorreu o alpendre, olhando a baraúna e as porteiras, açulando um cão invisível
contra­animais invisíveis:
— Ecô! ecô!
Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o
terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A
cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado
da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra,
Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou
de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se
mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcan-
çou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.
Ouvindo o tiro e os latidos, Sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na
cama, chorando alto.
Fabiano recolheu-se.
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou


rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, cor-
rendo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiquei-
ro das cabras. Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.
Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como
gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-
-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.
Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava
de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e, quando se levantava,
­tinha folhas secas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros.

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Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as

Língua Portuguesa
pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a
custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmo-
receu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.
Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um
nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava
baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis.
Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de
sombra que ladeava a pedra.
Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se.
Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele par-
tículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho,
aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam
em liberdade. Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços tor-
rados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás
tinham fugido.
Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos
meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, con-
vencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e
encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia
morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a
existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.
O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o
inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa­
perigosa tinham-se sumido.
Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera.
Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela
vizinhança.
Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se,
conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a
­ausência deles.
Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre
a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia
apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam
andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira,
por baixo do caritó onde Sinhá Vitória guardava o cachimbo.
Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum
sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama
de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se vi-
rava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se ti-
nha ­despovoado.

Unidade 2: Como você contaria a sua história?


Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensí-
vel. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil
do barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.
Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar,
Sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão quei-
mado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra
se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás
invadia a cozinha.
A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo
insen­sibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru pene-
travam na carne meio comida pela doença.

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U2 C1

Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinhá Vitória
tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.
PLUGUE-SE
Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano,
um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num
Leia a adaptação em chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.
quadrinhos de Vidas RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2015. p. 85-91.
secas (São Paulo: Ga-
lera Record, 2015), com
O capítulo que você acaba de ler é o mais famoso dos episódios com personagem não
ilustrações de Eloar
humana, mas que, ao mesmo tempo, traduz as mais legítimas aspirações de um povo aban-
Guaz zelli e roteiro de
donado à sorte e aos azares da seca. Baleia é, sem dúvida, um dos personagens mais conhe-
Arnaldo Branco.
cidos da literatura brasileira.
Nascida na família de Fabiano, sua esposa Sinhá Vitória e os dois filhos, Baleia os acompanha na
Editora Galera Record

odisseia dos retirantes sertão afora. Mas em dado momento, ela contrai o vírus da raiva (conhecida
ali como hidrofobia, porque o animal evita beber água e baba muito). Fabiano decide sacrificá-la.
E Baleia, devaneando à beira da morte, começa a sonhar com um mundo cheio de preás (peque-
no roedor do qual o sertanejo se alimentava nos períodos de seca), que simboliza na narrativa a
abundância e o fim da fome.
Você viu que, em apenas um capítulo, podemos reconhecer o tipo de narrador, características
do espaço e do tempo da narração e os personagens?

Você sabia?
Graciliano Ramos (1892-1953) nasceu em Quebrangulo, Alagoas, e
começou a escrever muito jovem, com 11 anos. Nessa época,
inspirado pelo professor de Geografia, Mário Venâncio, fundou um
pequeno jornal, O Dilúculo. A passagem é contada pelo próprio autor
no seu livro autobiográfico Infância. Mas, curiosamente, ele só foi
estrear na literatura muito tempo depois, com 41 anos, quando

Jessica Olmedo
publicou, em 1933, o seu primeiro livro: Caetés. Sua consagração
aconteceu em 1938 com a publicação de Vidas secas, obra considerada
um bestseller, traduzida em diversas línguas.

PARADA OBRIGATÓRIA

Leia os textos a seguir e responda à questão 3.


Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe
a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo,
tornavam-se quase imperceptíveis.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2015. p. 85-91.

O estudante Maurício Moreira, 19 anos, internado desde terça-feira no Hospital Couto Maia, apresentando quadro
de raiva em estágio avançado, está sendo mantido em isolamento e sob sedativos. ▶

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▶ Enquanto isso, no bairro de São Marcos, onde ele mora, a doença permanece um mistério para boa parte dos

Língua Portuguesa
­ oradores, que desconhecem inclusive que o mal não tem cura e é 100% fatal. Na rua Santa Rita de Cássia, próxima
m
à casa de Marcos, cães podem ser vistos andando soltos e os moradores contam que muitas pessoas são mordidas ou
arranhadas por cães na vizinhança, mas ninguém parece dar muita importância ao fato e muito menos procuram
tomar a vacina antirrábica como prevenção.
SANTANA, Andreia. População ainda desconhece o perigo que a raiva representa. Correio da Bahia, 30 set. 2004. Disponível em:
<http://www.renorbio.org.br/portal/noticias/populacao-ainda-desconhece-o-perigo-que-a-raiva-representa.htm>.
Acesso em: 14 jul. 2017.

3. Um dos personagens mais famosos da literatura brasileira é a cachorra Baleia, cujo nome ironicamente é inspirado em um
peixe, e que padece de uma doença conhecida como hidrofobia (raiva). Nesse sentido, em Vidas secas, qual trecho da narra-
tiva é sinal claro dessa contaminação?

“Uma sede horrível queimava-lhe a garganta.”

4. Baleia, embora não seja representada por Graciliano Ramos como um personagem que se comunica com seus donos, como
nas fábulas, expressa sentimentos como seus donos. Contudo, o recurso utilizado é dar ao narrador “onisciência”. Assim, o
narrador de Vidas secas sabe tudo que se passa no interior dos personagens, inclusive no de Baleia.
Por meio desse recurso, o narrador nos dá uma ideia do que ela sente, de suas dúvidas a respeito do que está havendo, das
lembranças­de suas tarefas com Fabiano. Que trechos da narrativa apontam isso? Atente-se aqui para o fato de que Baleia
não é uma personificação, ela não age por
“Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu [...]”. conta própria, não fala, como nas fábulas.
É por meio do narrador que acessamos
suas angústias e pensamentos. Nesse
caso, a humanização de Baleia apenas a
aproxima da prosopopeia.

Parada complementar: 3 e 6

Conto
O conto é uma narrativa curta (menor que a novela e que o romance) que passa sua mensagem
em um número pequeno de páginas ou de linhas. Sua maior característica, portanto, é a concisão:
o texto é denso (tem conteúdo) e, ao mesmo tempo, breve. Um contista, desse modo, preza pela
economia, mas também pela profundidade.
Quanto ao conteúdo, o conto é bastante livre: pode-se escrevê-lo a partir de fatos banais, mas,

Unidade 2: Como você contaria a sua história?


pela construção de sentido produzida pelo autor, pode despertar no leitor alguma emoção, algum
sentimento, algum pensamento, expandindo a sua sensibilidade e a sua inteligência.
Conforme foi visto, confunde-se muito novela e conto. Todavia, a novela é mais longa e o conto,
mais curto, além de outros elementos estruturais diferentes:
• Personagens: são poucos nos contos, e geralmente há apenas um como principal.
• Trama: diferentemente da novela, cuja trama é complexa, o conto possui uma única história,
e ao redor dela não se desenvolvem outras secundariamente.
• Tempo: geralmente, a história se passa em um curto período de tempo: uma conversa, um
dia, uma semana, um mês.
• Espaço: não é comum haver muitos deslocamentos no conto. Portanto, são poucos os lugares
em que a história se situa.

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U2 C1

Você sabia?
Um dos maiores contistas brasileiros é, sem dúvidas, Machado de Assis, não
só por ter escrito mais de 200 contos, mas também pela qualidade
inquestionável de sua obra. Esses contos estão reunidos em sete livros:
Você sabia?

Jessica Olmedo
Contos fluminenses (1870), Histórias da meia-noite (1873), Papéis avulsos
(1882), Histórias sem data (1884), Várias histórias (1896), Páginas recolhidas
Machado de Assis foi o (1899) e Relíquias da casa velha (1906).
precursor e o principal
A obra completa de Machado de Assis (contos, romances, poesia, crônica e
representante da escola
teatro) está disponível de forma digital em: <http://machado.mec.gov.br/> (acesso em: 14 jul. 2017).
literária Realismo. Esse
movimento surgiu em
oposição ao Romantis- A seguir, leia um exemplo de um conto desse célebre escritor.
mo e tinha, portanto,
características bem con-
trastantes com esse mo- O caso da vara
vimento. Por meio de Damião fugiu do seminário às onze horas da manhã de uma sexta-feira de agosto. Não sei bem
uma linguagem bastan- o ano; foi antes de 1850. Passados alguns minutos parou vexado; não contava com o efeito que pro-
te objetiva e direta, sua duzia nos olhos da outra gente aquele seminarista que ia espantado, medroso, fugitivo. Desconhe-
narrativa era bem deta-
cia as ruas, andava e desandava; finalmente parou. Para onde iria? Para casa, não; lá estava o pai que
lhada e descritiva, com
o devolveria ao seminário, depois de um bom castigo. Não assentara no ponto de refúgio, porque a
temáticas reais (e não
saída estava determinada para mais tarde; uma circunstância fortuita a apressou. Para onde iria?
fantasiosas), sociais, co-
Lembrou-se do padrinho, João Carneiro, mas o padrinho era um moleirão sem vontade, que por si
tidianas, urbanas, cujo
só não faria coisa útil. Foi ele que o levou ao seminário e o apresentou ao reitor:
conteúdo era baseado na
— Trago-lhe o grande homem que há de ser, disse ele ao reitor.
crítica aos valores da
— Venha, acudiu este, venha o grande homem, contanto que seja também humilde e bom. A ver-
época, sobretudo os bur-
dadeira grandeza é chã. Moço...
gueses. Os personagens
Tal foi a entrada. Pouco tempo depois fugiu o rapaz ao seminário. Aqui o vemos agora na rua,
eram reais, comuns,
espantado, incerto, sem atinar com refúgio nem conselho; percorreu de memória as casas de parentes
nada idealizados. O pri-
e amigos, sem se fixar em nenhuma. De repente, exclamou:
meiro livro desse mo-
vimento no Brasil foi
— Vou pegar-me com Sinhá Rita! Ela manda chamar meu padrinho, diz-lhe que quer que eu saia
Memórias póstumas de do seminário... Talvez assim...
Brás Cubas, do próprio Sinhá Rita era uma viúva, querida de João Carneiro; Damião tinha umas ideias vagas dessa
Machado de Assis. situação e tratou de a aproveitar. Onde morava? Estava tão atordoado, que só daí a alguns minutos
é que lhe acudiu a casa; era no Largo do Capim.
— Santo nome de Jesus! Que é isto? bradou Sinhá Rita, sentando-se na marquesa, onde estava
reclinada.
Damião acabava de entrar espavorido; no momento de chegar à casa, vira passar um padre, e deu
um empurrão à porta, que por fortuna não estava fechada à chave nem ferrolho. Depois de entrar,
espiou pela rótula, a ver o padre. Este não deu por ele e ia andando.
— Mas que é isto, Sr. Damião? bradou novamente a dona da casa, que só agora o conhecera. Que vem
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

fazer aqui?
Damião, trêmulo, mal podendo falar, disse que não tivesse medo, não era nada; ia explicar tudo.
— Descanse; e explique-se.
— Já lhe digo; não pratiquei nenhum crime, isso juro; mas espere.
Sinhá Rita olhava para ele espantada [...]. Afinal, Damião contou tudo, o desgosto que lhe dava o
seminário; estava certo de que não podia ser bom padre; falou com paixão, pediu-lhe que o salvasse.
— Como assim? Não posso nada.
— Pode, querendo.
— Não, replicou ela abanando a cabeça; não me meto em negócios de sua família, que mal conheço;
e então seu pai, que dizem que é zangado!

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Damião viu-se perdido. Ajoelhou-se-lhe aos pés, beijou-lhe as mãos, desesperado.

Língua Portuguesa
[...]
Sinhá Rita, lisonjeada com as súplicas do moço, tentou chamá-lo a outros sentimentos. A vida de
padre era santa e bonita, disse-lhe ela; o tempo lhe mostraria que era melhor vencer as repugnân-
cias e um dia... Não, nada, nunca! redarguia Damião, abanando a cabeça e beijando-lhe as mãos; e
repetia que era a sua morte. Sinhá Rita hesitou ainda muito tempo; afinal perguntou-lhe por que
não ia ter com o padrinho.
— Meu padrinho? Esse é ainda pior que papai; não me atende, duvido que atenda a ninguém...
— Não atende? interrompeu Sinhá Rita ferida em seus brios. Ora, eu lhe mostro se atende ou não...
Chamou um moleque e bradou-lhe que fosse à casa do Sr. João Carneiro chamá-lo, já e já; e se não
estivesse em casa, perguntasse onde podia ser encontrado, e corresse a dizer-lhe que precisava mui-
to de lhe falar imediatamente.
— Anda, moleque.
[...]
Sinhá Rita tinha quarenta anos na certidão de batismo, e vinte e sete nos olhos. Era apessoada,
viva, patusca, amiga de rir; mas, quando convinha, brava como diabo. Quis alegrar o rapaz, e, ape-
sar da situação, não lhe custou muito. Dentro de pouco, ambos eles riam, ela contava-lhe anedotas,
e pedia-lhe outras, que ele referia com singular graça. Uma destas, estúrdia, obrigada a trejeitos, fez
rir a uma das crias de Sinhá Rita, que esquecera o trabalho, para mirar e escutar o moço. Sinhá Rita
pegou de uma vara que estava ao pé da marquesa, e ameaçou-a:
— Lucrécia, olha a vara!
A pequena abaixou a cabeça, aparando o golpe, mas o golpe não veio. Era uma advertência; se à
noitinha a tarefa não estivesse pronta, Lucrécia receberia o castigo do costume. Damião olhou para
a pequena; era uma negrinha, magricela, um frangalho de nada, com uma cicatriz na testa e uma
queimadura na mão esquerda. Contava onze anos. Damião reparou que tossia, mas para dentro,
surdamente, a fim de não interromper a conversação. Teve pena da negrinha, e resolveu apadrinhá-
-la, se não acabasse a tarefa. Sinhá Rita não lhe negaria o perdão... Demais, ela rira por achar-lhe
graça; a culpa era sua, se há culpa em ter chiste.
Nisto, chegou João Carneiro. Empalideceu quando viu ali o afilhado, e olhou para Sinhá Rita,
que não gastou tempo com preâmbulos. Disse-lhe que era preciso tirar o moço do seminário, que ele
não tinha vocação para a vida eclesiástica, e antes um padre de menos que um padre ruim. Cá fora
também se podia amar e servir a Nosso Senhor. João Carneiro, assombrado, não achou que replicar
durante os primeiros minutos; afinal, abriu a boca e repreendeu o afilhado por ter vindo incomodar
“pessoas estranhas”, e em seguida afirmou que o castigaria.
— Qual castigar, qual nada! interrompeu Sinhá Rita. Castigar por quê? Vá, vá falar a seu compadre.
— Não afianço nada, não creio que seja possível...
— Há de ser possível, afianço eu. Se o senhor quiser, continuou ela com certo tom insinuativo,
tudo se há de arranjar. Peça-lhe muito, que ele cede. Ande, Senhor João Carneiro, seu afilhado não
volta para o seminário; digo-lhe que não volta...

Unidade 2: Como você contaria a sua história?


— Mas, minha senhora...
— Vá, vá.
João Carneiro não se animava a sair, nem podia ficar. Estava entre um puxar de forças opostas.
­Não lhe importava, em suma, que o rapaz acabasse clérigo, advogado ou médico, ou outra qualquer
coisa, vadio que fosse; mas o pior é que lhe cometiam uma luta ingente com os sentimentos mais ínti-
mos do compadre, sem certeza do resultado; e, se este fosse negativo, outra luta com Sinhá Rita, cuja
última palavra era ameaçadora: “digo-lhe que ele não volta”. Tinha de haver por força um escândalo. [...]
— Então? insistiu Sinhá Rita.
Ele fez-lhe um gesto de mão que esperasse. Coçava a barba, procurando um recurso. Deus do céu!
Um decreto do papa dissolvendo a Igreja, ou, pelo menos, extinguindo os seminários, faria acabar
tudo em bem. [...]

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U2 C1

— Vá, vá, disse Sinhá Rita dando-lhe o chapéu e a bengala.


Não teve remédio. O barbeiro meteu a navalha no estojo, travou da espada e saiu à campanha.
Damião respirou; exteriormente deixou-se estar na mesma, olhos fincados no chão, acabrunhado.
Sinhá Rita puxou-lhe desta vez o queixo.
— Ande jantar, deixe-se de melancolias.
— A senhora crê que ele alcance alguma coisa?
— Há de alcançar tudo, redarguiu Sinhá Rita cheia de si. Ande, que a sopa está esfriando.
Apesar do gênio galhofeiro de Sinhá Rita e do seu próprio espírito leve, Damião esteve menos
alegre ao jantar que na primeira parte do dia. Não fiava do caráter mole do padrinho. Contudo, jan-
tou bem; e, para o fim, voltou às pilhérias da manhã. À sobremesa, ouviu um rumor de gente na sala,
e perguntou se o vinham prender.
— Hão de ser as moças.
Levantaram-se e passaram à sala. As moças eram cinco vizinhas que iam todas as tardes tomar
café com Sinhá Rita, e ali ficavam até o cair da noite.
As discípulas, findo o jantar delas, tornaram às almofadas do trabalho. Sinhá Rita presidia a
todo esse mulherio de casa e de fora. O sussurro dos bilros e o palavrear das moças eram ecos tão
mundanos, tão alheios à teologia e ao latim, que o rapaz deixou-se ir por eles e esqueceu o resto.
Durante os primeiros minutos, ainda houve da parte das vizinhas certo acanhamento, mas passou
depressa. Uma delas cantou uma modinha, ao som da guitarra, tangida por Sinhá Rita, e a tarde foi
passando depressa. Antes do fim, Sinhá Rita pediu a Damião que contasse certa anedota que lhe
agradara muito. Era a tal que fizera rir Lucrécia.
— Ande, senhor Damião, não se faça de rogado, que as moças querem ir embora. Vocês vão­
gostar muito.
Damião não teve remédio senão obedecer. Malgrado o anúncio e a expectação, que serviam a
diminuir o chiste e o efeito, a anedota acabou entre risadas das moças. Damião, contente de si, não
esqueceu Lucrécia e olhou para ela, a ver se rira também. Viu-a com a cabeça metida na almofada
para acabar a tarefa. Não ria; ou teria rido para dentro, como tossia.
Saíram as vizinhas, e a tarde caiu de todo. A alma de Damião foi-se fazendo tenebrosa, antes da
noite. Que estaria acontecendo? De instante a instante, ia espiar pela rótula, e voltava cada vez mais
desanimado. Nem sombra do padrinho. Com certeza, o pai fê-lo calar, mandou chamar dois negros, foi
à polícia pedir um pedestre, e aí vinha pegá-lo à força e levá-lo ao seminário. Damião perguntou a
Sinhá­Rita se a casa não teria saída pelos fundos; correu ao quintal, e calculou que podia saltar o muro.
[...]
Afinal, à boca da noite, apareceu um escravo do padrinho, com uma carta para Sinhá Rita. O negó­cio
ainda não estava composto; o pai ficou furioso e quis quebrar tudo; bradou que não, senhor, que o
peralta havia de ir para o seminário, ou então metia-o no Aljube ou na presiganga. João Carneiro
lutou muito para conseguir que o compadre não resolvesse logo, que dormisse a noite, e meditasse
bem se era conveniente dar à religião um sujeito tão rebelde e vicioso. Explicava na carta que falou
assim para melhor ganhar a causa. Não a tinha por ganha; mas no dia seguinte lá iria ver o homem,
e teimar de novo. Concluía dizendo que o moço fosse para a casa dele.
Damião acabou de ler a carta e olhou para Sinhá Rita. Não tenho outra tábua de salvação, pensou
ele. Sinhá Rita mandou vir um tinteiro de chifre, e na meia folha da própria carta escreveu esta respos-
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

ta: “Joãozinho, ou você salva o moço, ou nunca mais nos vemos”. Fechou a carta com obreia, e deu-a ao
escravo, para que a levasse depressa. Voltou a reanimar o seminarista, que estava outra vez no capuz
da humildade e da consternação. Disse-lhe que sossegasse, que aquele negócio era agora dela.
— Hão de ver para quanto presto! Não, que eu não sou de brincadeiras!
Era a hora de recolher os trabalhos. Sinhá Rita examinou-os; todas as discípulas tinham
concluído­a tarefa. Só Lucrécia estava ainda à almofada, meneando os bilros, já sem ver; Sinhá Rita
chegou-se a ela, viu que a tarefa não estava acabada, ficou furiosa, e agarrou-a por uma orelha.
— Ah! malandra!
— Nhanhã, nhanhã! pelo amor de Deus! por Nossa Senhora que está no céu.
[...]

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Lucrécia fez um esforço, soltou-se das mãos da senhora, e fugiu para dentro; a senhora foi atrás

Língua Portuguesa
e agarrou-a.
— Anda cá!
— Minha senhora, me perdoe! tossia a negrinha.
— Não perdoo, não. Onde está a vara?
E tornaram ambas à sala, uma presa pela orelha, debatendo-se, chorando e pedindo; a outra
­dizendo que não, que a havia de castigar.
— Onde está a vara?
A vara estava à cabeceira da marquesa, do outro lado da sala. Sinhá Rita, não querendo soltar a
pequena, bradou ao seminarista.
— Sr. Damião, dê-me aquela vara, faz favor?
Damião ficou frio... Cruel instante! Uma nuvem passou-lhe pelos olhos. Sim, tinha jurado apa-
drinhar a pequena, que por causa dele, atrasara o trabalho...
— Dê-me a vara, Sr. Damião!
Damião chegou a caminhar na direção da marquesa. A negrinha pediu-lhe então por tudo o que
houvesse mais sagrado, pela mãe, pelo pai, por Nosso Senhor...
— Me acuda, meu sinhô moço!
Sinhá Rita, com a cara em fogo e os olhos esbugalhados, instava pela vara, sem largar a negrinha,
agora presa de um acesso de tosse. Damião sentiu-se compungido; mas ele precisava tanto sair do
seminário! Chegou à marquesa, pegou na vara e entregou-a a Sinhá Rita.
ASSIS, Machado de. O caso da vara. In: . Páginas recolhidas. Disponível em:
<http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/contos/macn006.pdf>. Acesso em: 29 jul. 2017.

Em poucas páginas, você acabou de ler uma história completa – com enredo, narrador, perso-
nagens, tempo, espaço e desfecho. Isso é um conto.
Como a narrativa é condensada, a intensidade dos fatos é maior, e os detalhes tornam-se
impor­t antes e até reveladores.
Nesse conto, o autor mostra as relações interpessoais e, por meio de um fato cotidiano da
época, apresenta o caráter de cada personagem, apontando o egoísmo nas posições sociais.

PARADA OBRIGATÓRIA

5. Em relação ao conto “O caso da vara”, de Machado de Assis, quais fatos são colocados em contraste para que Damião

Unidade 2: Como você contaria a sua história?


­sinta-se culpado?

O fato de ele ter prometido a si mesmo que apadrinharia Lucrécia caso ela não acabasse a tarefa e o fato de Sinhá Rita pedir a ele que alcançasse a

vara para bater na menina.

6. Esse conto tocou-lhe de alguma forma? Que sentimento ele despertou em você? Explique-o com suas palavras e escreva os
motivos para tal sentimento.

Resposta pessoal.

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▶ Leia o texto “O peru de Natal”, de Mário de Andrade, e responda ao que se pede.

O peru de Natal
O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências
decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da feli-
cidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido princi-
palmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz,
acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais,
um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase
dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.
Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia
mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma
lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a ideia dela
ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava
sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de
filho­que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.
Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a ideia de fazer uma das minhas chamadas “lou-
curas”. Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho,
desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondi-
das, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que
dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama
conciliatória de “louco”. “É doido, coitado!” falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da
parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma
superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apre-
sentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado.
Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.
Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos,
passas,­depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa
dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso
que arrebentei com uma das minhas “loucuras”:
— Bom, no Natal, quero comer peru.
Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco,
advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.
— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui
em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...
— Meu filho, não fale assim...
— Pois falo, pronto!
E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me
importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão
uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me diviniza-
ram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa:
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces.
Minhas três mães três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos
de bem-feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas
três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda pro-
vavam um naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro
velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.
Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com
os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havía­
mos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. ▶

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▶ Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado,­

Língua Portuguesa
se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É cer­
to que com meus “gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês.
Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.
Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura
em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava
desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a culpa de seus desejos enormes. Sorriam
se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:
— É louco mesmo!...
Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravi­
lhoso Natal. Fora engraçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra
coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também,
estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na
família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru.
Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que
sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.
— Não, senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!
Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só
pra­que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redesco­
bria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe,
mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do
Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.
— Eu que sirvo!
“É louco, mesmo” pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pra-
tos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heroica, enquanto mandava meu mano servir a
cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da “casca”, cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias
brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:
— Se lembre de seus manos, Juca!
Quando que ela havia de imaginar, a pobre!, que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que
sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.
— Mamãe, este é o da senhora! Não! Não passe não!
Foi quando ela não pôde mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que
o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a
torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também,
tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! Coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir,
mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu
pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.
Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito
tênue­boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada,
pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali,

Unidade 2: Como você contaria a sua história?


gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru estava tão gostoso, mamãe por fim sa-
bendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.
Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está
claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer:­
nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.
— Só falta seu pai...
Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois
mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele
instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:
— É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há
de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família. ▶

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▶ E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma
estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se
sacrificara tanto por nós, fora um santo que “vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai”, um
santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais
ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.
Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever “felicidade gustativa”, mas não era só isso não.
Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor
familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado,
mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra
nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.
Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça!
mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!
A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas leves e uns
doces, que lá na minha terra levam o nome de “bem-casados”. Mas nem mesmo este nome perigoso se
associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto
puro de contemplação.
Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja.
Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz.
O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha.

mphillips007/iStock/Getty Images
Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia
e fazê-la sofrer seu bocado.
As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...
ANDRADE, M. de. Contos novos. Belo Horizonte: Editora Villa Rica, 1997.

7. O que significava “familiarmente felizes” antes da morte do pai para o autor do texto?
Significava uma família honesta, sem crimes e lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas.

8. O que impedia que a família “aproveitasse” a vida?


A natureza cinzenta do pai, sua vida sem lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre. O pai fora um bom errado, quase dramático,

o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

9. Quais foram as “loucuras” cometidas pelo autor ao longo da vida?


Ser reprovado todos os anos, com dez anos beijar uma prima às escondidas e ser descoberto por uma tia e receber lições de todos os
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

parentes.

10. Por que o autor compara a antiga ceia de Natal ao seu pai? Que características semelhantes há entre a ceia e o pai?
Porque a ceia era reles, rotineira, monótona, sem coisas novas, sem “loucuras”.

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▶ 11. Por que peru era considerado “prato de festa”, de “luxo”, na casa do autor? Por que o autor não queria convidar ninguém para

Língua Portuguesa
comer peru na ceia de Natal que se aproximava?

Peru era prato de festa: muitos parentes iam por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Três dias antes, as três mães do autor “trabalhavam

no preparo de doces e de frios finíssimos bem-feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir”.

A mãe e a tia só “provavam um naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e

pros filhos. Na verdade, ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.”

12. Por que o autor chama aquela ceia de “milagre digno do Natal de um Deus”?
Porque a ceia transbordava amor (do autor pelas três mães e pelos manos), alegria (por estarem finalmente podendo saborear verdadeiramente um

peru de Natal) e solidariedade (o autor até comeria menos para que a família pudesse comer mais).

13. Por que motivos a família desandou a chorar no meio da ceia de Natal?
Por emoção de comerem um prato recheado de peru e pela lembrança do falecido pai.

14. Qual foi o marco da ceia que fez todos se acalmarem e ficarem novamente “alagados de felicidade”?

Unidade 2: Como você contaria a sua história?


A fala do autor “— É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente...

(hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.”

Parada complementar: 4 e 5
Teste seu conhecimento: 2
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U2 C1

PARADA COMPLEMENTAR

1. (Enem)

ENEM/2005

ENEM/2005

As tiras ironizam uma célebre fábula e a conduta dos governantes. Tendo como referência o estado atual dos países perifé-
ricos, pode-se afirmar que nessas histórias está contida a seguinte ideia:
a) crítica à precária situação dos trabalhadores ativos e aposentados.
b) necessidade de atualização crítica de clássicos da literatura.
c) menosprezo governamental com relação a questões ecologicamente corretas.
d) exigência da inserção adequada da mulher no mercado de trabalho.
e) aprofundamento do problema social do desemprego e do subemprego.

2. (Fuvest-SP) Texto para a questão.

Estavas, linda Inês, posta em sossego,


Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

De teus anos colhendo doce fruito (fruto)


Naquele engano da alma, ledo e cego, (alegre)
Que a Fortuna não deixa durar muito, (Destino)
Nos saudosos campos do Mondego, (rio de Coimbra)
De teus fermosos olhos nunca enxuito, (enxuto)
Aos montes insinando e às ervinhas (ensinando)
O nome que no peito escrito tinhas.
Camões. Os Lusíadas, III, 120.

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Língua Portuguesa
O trecho anterior inicia o episódio de Inês de Castro, aquela que “depois de ser morta foi rainha”. Sobre ele, aponte a alter-
nativa incorreta:
a) Os versos correspondem à chamada “medida nova” (decassílabos).
b) Os versos transcritos formam uma oitava-rima, que é a estrofe utilizada no poema.
c) Camões narra o fato como um episódio guerreiro dentro de Os Lusíadas.
d) Os três atributos destacados em Inês são a beleza, a juventude e a paixão.
e) A natureza é apresentada como solidária de Inês em seu amor por D. Pedro.

3. (Enem) Em Vidas secas, de Graciliano Ramos, o vaqueiro Fabiano encontra-se com o patrão para receber o salário. Eis parte
da cena:

Não se conformou: devia haver engano. [...] Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o
1

erro, 2e Fabiano perdeu os estribos. 3Passar a vida inteira assim no toco, 4entregando o que era dele de mão beijada!
Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria?
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
5
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 91. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.

No fragmento transcrito, o padrão formal da linguagem convive com marcas de regionalismo e de coloquialismo no vocabu-
lário. Pertence à variedade do padrão formal da linguagem o seguinte trecho:
a) “Não se conformou: devia haver engano” (ref. 1). d) “entregando o que era dele de mão beijada!” (ref. 4).
b) “e Fabiano perdeu os estribos” (ref. 2). e) “Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou” (ref. 5).
c) “Passar a vida inteira assim no toco” (ref. 3).

4. (Enem) Eu começaria dizendo que poesia é uma questão de linguagem. A importância do poeta é que ele torna mais viva a lingua-
gem. Carlos Drummond de Andrade escreveu um dos mais belos versos da língua portuguesa com duas palavras comuns: cão
e cheirando.
“Um cão cheirando o futuro”.
Entrevista com Mário Carvalho. Folha de S.Paulo, 24 maio 1988. (adaptação)

O que deu ao verso de Drummond o caráter de inovador da língua foi:


a) o modo raro como foi tratado o “futuro”.
b) a referência ao cão como “animal de estimação”.
c) a flexão pouco comum do verbo “cheirar” (gerúndio).
d) a aproximação não usual do agente citado e a ação de “cheirar”.
e) o emprego do artigo indefinido “um” e do artigo definido “o” na mesma frase.

5. (Fuvest-SP)

Unidade 2: Como você contaria a sua história?


Vestindo água, só saído o cimo do pescoço, o burrinho tinha de se enqueixar para o alto, a salvar também de fora
o focinho. Uma peltada. Outro tacar de patas. Chu-áa! Chu-áa... – ruge o rio, como chuva deitada no chão. Nenhuma
pressa! Outra remada, vagarosa. No fim de tudo, tem o pátio, com os cochos, muito milho, na Fazenda; e depois o
pasto: sombra, capim e sossego... Nenhuma pressa. Aqui, por ora, este poço doido, que barulha como um fogo, e faz
medo, não é novo: tudo é ruim e uma só coisa, no caminho: como os homens e os seus modos, costumeira confusão.
É só fechar os olhos. Como sempre. Outra passada, na massa fria. E ir sem afã, à voga surda, amigo da água, bem com
o escuro, filho do fundo, poupando forças para o fim. Nada mais, nada de graça; nem um arranco, fora de hora. Assim.
ROSA, João Guimarães. O burrinho pedrês. In: . Sagarana.

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U2 C1


Em trecho anterior do mesmo conto, o narrador chama Sete-de-Ouros [o burrinho] de “sábio”. No excerto, a sabedoria do
burrinho consiste, principalmente, em:
a) procurar adaptar-se o melhor possível às forças adversas, que busca utilizar em benefício próprio.
b) firmar um pacto com as potências mágicas que se ocultam atrás das aparências do mundo natural.
c) combater frontalmente e sem concessões as atitudes dos homens, que considera confusas e desarrazoadas.
d) ignorar os perigos que o mundo apresenta, agindo como se eles não existissem.
e) escolher a inação e a inércia, confiando inteiramente seu destino às forças do puro acaso e da sorte.

6. (Vunesp)

Desde que saímos da igreja até a entrada de casa, caminhamos sempre debaixo de nuvens de flores. O estrondo
dos bacamartes era atroador, e os sinos da freguesia repicaram desde que saímos do templo até o anoitecer desse dia.
Meia hora depois que chegamos, entrei no quarto de minha mulher, e encontrei-a de joelhos diante duma imagem
de S. João dos Bem-Casados.
Ergue-se ela, benzendo-se, e esperou que eu a beijasse pela segunda vez. Penso que o público me releva a confissão
de que, ao dar-lhe este segundo beijo, encontrei os lábios. Era o instinto das sensações agradáveis, mas honestas, que
ensinou a minha mulher o segredo do máximo prazer de um beijo.
Estava o almoço na mesa.

O texto que você acabou de ler pertence a uma novela de Camilo Castelo Branco que é considerada um bom exemplo da sátira
camiliana. A leitura atenta do texto permitirá identificar o título da novela, em uma das alternativas a seguir indicadas:
a) “Coração, cabeça e estômago”. c) “A mulher fatal”. e) “A queda dum anjo”.
b) “O romance dum homem rico”. d) “Amor de salvação”.

PARA FIXAR

FÁBULA Lição de moral

EPOPEIA Feito heroico

GÊNEROS NARRATIVOS
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

NOVELA Trama complexa

CONTO Trama simples

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Lembre-se da pergunta que iniciou esta Unidade:

Língua Portuguesa
COMO VOCÊ CONTARIA A SUA
HISTÓRIA?
Agora, leia o texto abaixo:

omo você aprendeu nesta Unidade, existem vários gêneros narrativos: fábula, epopeia,
C ­novela e conto (e ainda tem mais! Você verá em um próximo Caderno). Cada um tem suas
especificidades, permitindo ao escritor deixar sua narrativa da forma mais atraente possível ao
seu público-alvo.
E lembre-se, também, de que, no começo desta Unidade, você anotou no caderno um tema que
gostaria de desenvolver em narrativa.
Então, diante das modalidades que você conheceu, pense sobre o tema:

1. Qual gênero narrativo você escolheria para contar a sua história?

2. Indique quais seriam as estruturas dessa narrativa que você publicaria:

• Narrador:

• Espaço:

• Tempo:

Unidade 2: Como você contaria a sua história?


• Personagens:

Professor, as respostas devem


ser resumidas e girar em torno
de: narrador (1ª ou 3ª pessoa);
espaço (cidade, campo, praia,
uma cidade ou país específico,
• Enredo: etc.); tempo (atualidade, época
ou ano específico, etc.);
personagens (nomes e uma
característica); enredo.

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Analise as placas e os conceitos expostos
aqui. Você consegue ligar as classificações

ATENÇÃO
às placas? Mentalize sua resposta, porque
ao final da Unidade voltaremos a elas.

AVISO HOMENS
SEGURANÇA
ELEVADOR DE
USE TRABALHANDO
USO EXCLUSIVO RESPIRADOR
PARA CARGA NESTA ÁREA

PERÍODO
Frase formada por
ões..
orações
ais oraç
SOS Enunciado de sentido
uma ou mais completo – pode ter
uma ou mais palavras,
com ou sem verbo.

É FR ASE!
ATENÇ ÃO
É PERÍODO!
OR AÇ ÃO
DESCULPEM-NOS
O TR ANSTORNO, Frase que contenha
ESTAMOS EM um verbo e que tenha
REFORMA É OR AÇ ÃO! sentido completo.

DESVIO OBR AS
A 1000m
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LP
UNIDADE 3

Língua
Portuguesa

SORRIA, VOCÊ
ESTÁ SENDO
FILMADO!

FRASE, ORAÇÃO
E PERÍODO:
HÁ DIFERENÇAS?
NÃO
FUME
É incrível como podemos nos comunicar de tantas formas
diferentes – com textos curtos, longos, por meio de imagens
ou até mesmo com apenas uma palavra.
schab, siro46, jantima14, icedea, siro46, BestPix, Picsfive, Texturis/Shutterstock.com – yukipon/iStock/Getty Images

Peça aos alunos que analisem os textos das placas e leiam os conceitos expostos. Mostre que há placas com
verbo, sem verbo, poucas e muitas palavras. Questione-os se é possível entendê-las. Em seguida, peça que
eles classifiquem oralmente os textos.

Você pode estar se perguntando: qual é a relação dessas imagens com o título da
Unidade “Frase, oração e período: há diferenças?”?
Você vai entender ao longo do estudo da Unidade! Mas uma coisa já pode ser adian-
tada: todas essas imagens são frases comuns do nosso dia a dia, bem como são entendí-
veis da maneira como estão.

PROIBIDO
Todas expressam uma mensagem muito clara. Nem a ausência, em algumas, de verbo,
que é a classe de palavras mais complexa das línguas e por meio da qual são dadas as
ESTACIONAR relações temporais, prejudica esse entendimento.
A diferença é que uma frase sem verbo tem significado marcante: informa que a situa-
ção é presente, corresponde a um ato de comunicação que indica fatos no exato momento
em que entramos em contato com esses avisos. Não é amanhã, nem foi ontem, é agora.

SILÊNCIO,
Nota-se que o verbo é determinante no assunto desta Unidade, mas, além dele, há
outras partes que podem compor uma frase – sujeito, predicativo do objeto, predicado,

POR
etc. – e todas elas possuem uma classificação que nos traz ainda mais indicativos daqui-
lo que se quer passar como mensagem.

FAVOR Ao final desta Unidade, queremos que você seja capaz de entender os conceitos e de
classificar cada item de uma frase. Ou seria uma oração? Ou um período? Vamos desco-
brir juntos?!

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UNIDADE 3
CAPÍTULO

FRASE, ORAÇÃO
1 E PERÍODO
Estudaremos
neste capítulo:

Frase
Frase Frase é uma palavra ou a união de várias palavras com sentido completo em um determinado
Oração contexto. Toda frase tem uma entoação por meio da qual se expressam uma ideia, um sentimento,
um pedido, etc. Ela pode ser muito curta (com apenas uma palavra) ou longa, complexa, compos­t a
Período de vários elementos. E em algumas delas é marcante a ausência do verbo.
Veja alguns exemplos:
• Capítulo IV.
• Vagas para gestante.
• Belo trabalho, camarada!
Agora, leia a tirinha a seguir.

© 2017 King Features Syndicate/Ipress


Nesse diálogo entre Hagar e seu médico, há duas frases sem verbo:
“– Agora uma notícia ruim...”
ZOOM “– Qual, doutor?”
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Tais frases caracterizam-se por ter sentido completo e mesmo assim não se organizarem em
Verbo é a classe de
torno de um verbo. A esse tipo de frase damos o nome de frase nominal, por se organizar em ­torno
palavras que contém
de um núcleo nominal.
noções de ação e de
Ora, mas nos outros balõezinhos de diálogo também não há sentido completo?
tempo, do ponto de vis-
“– Já engessei seus braços e pernas!”
ta semântico, situando
“– Vai coçar.”
fatos ou acontecimen-
tos no passado, no pre- Sim, há sentido completo! Mas nota-se aí que há verbos para cada uma das falas: “engessar”,
sente e no futuro. que é uma ação, e “coçar”, uma reação. No entanto, se você acha que também são frases, você está
certo. A esse tipo de frase, organizada em torno de um verbo, damos o nome de frase verbal.

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Tipos de frase

Alexandre Tokitaka/Pulsar Imagens

Língua Portuguesa
A classificação das frases não se esgota entre nominais e verbais. A seguir, você verá os demais
tipos.
É importante entender que, na linguagem escrita, os sinais de pontuação (interrogação, excla-
mação, ponto-final, etc.) são os definidores do tipo de mensagem que queremos passar. Já na
linguagem oral, a entoação é a chave para o que queremos dizer. Dependendo do tom que usamos­
em uma fala, a mesma frase pode ter significados diferentes.

Declarativa
Nela há um juízo, uma opinião, um pensamento acerca de alguma coisa ou de alguma pessoa.
Exemplos:
• Que gurizinho sapeca!
• Iracema acordou muito tarde naquela manhã de agosto.
• A magia está em todo canto daquela pacata cidade.

Interrogativa
Nela há uma pergunta, um questionamento acerca de alguma coisa ou de alguma pessoa.
Exemplos:
• O quê?
• Por que não conversam mais comigo?
• Onde estava todo esse tempo?

Imperativa
Nela há uma ordem, um pedido, uma súplica para alguém fazer ou deixar de fazer alguma coisa.
Exemplo: Silêncio!

Exclamativa
Nela há a expressão de sentimentos, de estado afetivo, como admiração, repulsa, irritação,
desprezo, ódio, amor, etc. Exemplos:
• Não gosto deste lugar! PLUGUE-SE
• Que grande professora você é para o meu filho!
• Bem-vindos a mais uma palestra sobre futuro e adolescência! Ouça a canção “Ad-
mirável Chip Novo”
Indicativa da can­tora brasileira
Nela há a expressão de uma informação que só é entendida por meio do contexto e da situação Pit­ty. Ela é composta
vivida. Exemplos: por diversas frases
• Vende-se. (Placa colada em um carro.) imperativas, que, na
• Livraria no segundo andar. (Placa em um shopping.) verdade, não estão
• À direita, siga livre. (Placa para orientar os motoristas nas ruas e avenidas.) ali para influenciar
alguém a fazer algo.

Unidade 3: Frase, oração e período: há diferenças?


O objetivo dos ver-
Oração bos é criticar a so-
Agora que sabemos que uma frase pode apresentar-se com verbo ou sem verbo, podemos ciedade consumista
enten­der o conceito de oração: toda frase verbal é uma oração. na qual estamos in-
Se a frase se organiza em torno de um verbo, ela se define por ser também oracional (verbal). seridos, que, muitas
Esse tipo geralmente é separado em sujeito e predicado, mas, às vezes, aquele pode não estar vezes, consome não
presente e, mesmo assim, tem-se uma oração. porque gosta de um
Veja alguns exemplos: produ­ to, mas por-
• A sua roupa é bonita. que é persuadida a
• Fiquem em silêncio. comprar.
• Na medida do possível, tentarei fechar todas as notas neste final de semana.

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U3 C1

PARADA OBRIGATÓRIA

1. Leia a seguinte frase:


O final de semana chegou.
Usando sinais de pontuação, transforme-a em frase interrogativa, exclamativa e declarativa. Depois, explique o que elas retratam.
O final de semana chegou? – expressa um questionamento direcionado ao interlocutor.

O final de semana chegou! – indica o sentimento do emissor, que está entusiasmado.

O final de semana chegou. – retrata uma afirmação do emissor.

2. Classifique as frases a seguir em declarativa, interrogativa, imperativa, exclamativa ou indicativa.


a) Este livro é bastante interessante.
Declarativa

b) Pare de ler um pouco, menina!


Imperativa

c) Que livro que prende a gente!


Exclamativa

d) Escola a duzentos metros.


Indicativa

e) Por que este livro é tão bom?


Interrogativa

3. Agora que você entendeu a diferença entre oração e frase, transforme as frases a seguir em orações.
a) Que susto!
Que susto você me deu!

b) Que lindo dia de sol!


Que lindo dia de sol está hoje!

c) Xiiiis!
Digam “xiiis”!

d) Atenção!
Prestem atenção em mim!
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

e) Fogo!
Olhem: fogo!

f) Socorro!
Ajudem-me, socorro!

Parada complementar: 4

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Sujeito

Língua Portuguesa
A partir de agora, você verá os dois componentes essenciais de uma oração: o sujeito e o
­predicado.
O sujeito de uma oração é a base sobre a qual recai uma declaração, sobre a qual se informa
alguma coisa. Exemplos:
• Matemática é minha matéria favorita.
• Os braços e as pernas estão em constante movimento quando nós andamos.
• Nesta sala, existem regras.
• Marcela viajou o Brasil de bicicleta. Percorreu as regiões mais remotas país afora.

Predicado
Em uma frase, o predicado é a informação que qualifica o sujeito. Em outras palavras, é o su-
porte da frase organizado em torno de um verbo e que predica o sujeito. Exemplo:

Matemática é minha matéria favorita.

Sujeito Predicado (núcleo: verbo “é”)

INTERLIGANDO SABERES

Concordância no desenho geométrico


Não é só na Gramática que o conceito de concordância é importante para que tudo esteja correto. Nela, a concordância é a correspon-
dência de flexão entre dois termos, e essa mesma ideia pode estar nas construções civis mundo afora.

Dificilmente encontramos, nos objetos que manuseamos, quinas e arestas vivas, eles geralmente têm um contorno
suave [...]. Isto nada mais é que o estudo e a aplicação de concordância, [...] uma aplicação direta de tangência. Se obser-
varmos o contorno do meio-fio em uma esquina, ou prestarmos atenção em nossas estradas, viadutos, rotatórias, ponti-
lhões, ou melhor, na construção de nossas estradas em geral, veremos, mais uma vez, a aplicação direta de concordância
entre arcos e também entre retas e arcos. Então podemos concluir que estes tópicos de Desenho Geométrico são, nada
mais nada menos, que o nosso dia a dia tecnicamente desenhado.
UEL. Desenho geométrico. Disponível em: <http://www.uel.br/cce/mat/geometrica/php/dg/dg_7t.php>. Acesso em: 8 jul. 2017.
Delfim Martins/Pulsar Imagens

Unidade 3: Frase, oração e período: há diferenças?

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U3 C1

A procura do sujeito nas frases


Você sabia? Como localizar o sujeito em uma oração? Há um meio?
Leia a tirinha a seguir.
Joaquín Salvador
Lavado Tejón (1932-),

© Joaquín Salvador Lavado (QUINO) TODA


MAFALDA/Fotoarena/Quino
mais conhecido como
Quino, é um cartunista
argentino. Sua criação
mais famosa são as
tirinhas da
personagem Mafalda.
Elas foram publicadas
de 1964 a 1973, mas o
seu conteúdo político
ainda é muito atual. Como vimos, nas orações haverá sempre a presença de um verbo. O verbo caracteriza-se pela
ação: andar, cair, engessar, olhar, etc. Para sabermos quem é o sujeito, portanto, é preciso locali-
Mafalda é uma menina
zar o verbo e verificar se ele concorda com o sujeito: isto é, se o verbo está no plural, o sujeito
muito questionadora
deve estar também; se aparecer no singular, o sujeito deverá aparecer também.
sobre a realidade à sua
Assim, para localizar o sujeito, você precisa se perguntar: “Quem realiza a ação dentro da frase
volta. Ela tem uma
ou oração?”. Veja:
visão bem perspicaz do
“– Esse lixo enfeia a rua.”
mundo em que vive.
O verbo dessa oração é “enfear.”
©Joaquim S. Lavado Tejón
(QUINO)/Fotoarena/Quino

Então, fazemos a pergunta: “Quem enfeia a rua?” A resposta é o sujeito, nesse caso, o lixo. Mas
aí você pensa: “lixo” não é um sujeito! Ok! Você está certo. Mas não confunda “o sujeito pessoa”
com o suporte da oração sobre a qual recai uma informação contida no predicado. Para tirar qual-
quer dúvida, observa-se a concordância: “enfeia” está no singular, “o lixo” está no singular tam-
bém, não há arestas, isto é, eles concordam. Logo, “o lixo” é o sujeito da oração.
Portanto, em Gramática, sujeito é o elemento da oração a que se pode atribuir a ação do verbo,
e pode ser tanto pessoas como objetos inanimados. Ainda no exemplo da tirinha, o predicado é o
suporte da oração em que se encontra o verbo: “enfeia a rua”.

Esse lixo enfeia a rua.

Sujeito Predicado

PARADA OBRIGATÓRIA

Leia a letra do Hino Nacional brasileiro para responder às questões.


Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Hino Nacional
Parte I
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas Se o penhor dessa igualdade
De um povo heroico o brado retumbante, Conseguimos conquistar com braço forte,
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos, Em teu seio, ó liberdade,
Brilhou no céu da pátria nesse instante. Desafia o nosso peito a própria morte!

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▶ Ó Pátria amada,

Língua Portuguesa
Idolatrada, Do que a terra, mais garrida,
Salve! Salve! Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
“Nossos bosques têm mais vida”,
Brasil, um sonho intenso, um raio vívido “Nossa vida” no teu seio “mais amores.”
De amor e de esperança à terra desce,
Ó Pátria amada,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
Idolatrada,
A imagem do Cruzeiro resplandece.
Salve! Salve!
Gigante pela própria natureza,
Brasil, de amor eterno seja símbolo
És belo, és forte, impávido colosso,
O lábaro que ostentas estrelado,
E o teu futuro espelha essa grandeza.
E diga o verde-louro dessa flâmula
– “Paz no futuro e glória no passado.”
Terra adorada,
Entre outras mil, Mas, se ergues da justiça a clava forte,
És tu, Brasil, Verás que um filho teu não foge à luta,
Ó Pátria amada! Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada, Terra adorada,
Brasil! Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Parte II Ó Pátria amada!
Deitado eternamente em berço esplêndido, Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Ao som do mar e à luz do céu profundo, Pátria amada,
Fulguras, ó Brasil, florão da América, Brasil!
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/hino.htm>. Acesso em: 10 ago. 2017.

4. Escreva o sujeito dos seguintes verbos retirados do Hino Nacional brasileiro.


a) ouviram
as margens plácidas

b) brilhou
o sol da liberdade

c) conseguimos
nós

d) desafia

Unidade 3: Frase, oração e período: há diferenças?


o nosso peito

e) desce
Brasil

f) resplandece
a imagem do cruzeiro

g) és
Brasil

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▶ h) espelha
o teu futuro

i) têm (primeira ocorrência)


lindos campos

j) têm (segunda ocorrência)


nossos bosques

k) seja, ostentas, diga, ergues, verás


Brasil

l) foge, teme
um filho teu

Parada complementar: 2

Predicado nominal, verbal e verbonominal


À medida que avançamos no estudo da estrutura da oração, surgem mais elementos e mais
classificações.
O predicado divide-se em:

Predicado nominal
A estrutura básica desse tipo de predicado é:
Sujeito + verbo de ligação + predicativo do sujeito
Seu núcleo é formado por um nome (substantivo, adjetivo ou pronome). Na sequência, há al-
guns verbos de ligação, como “ser”, “estar”, “continuar”, e o predicativo do sujeito, que será estu-
dado a seguir.
Exemplo:
• A professora parecia cansada.

Predicado verbal
Esse predicado tem como núcleo um verbo significativo ou uma locução verbal. O verbo pode ser
transitivo ou intransitivo – veremos mais adiante tais tipos – e deve levar uma ideia nova ao sujeito.
Exemplo:
• Sandra comprou pratos para a casa.

Predicado verbonominal
Possui dois núcleos: um verbo e um nome. Além disso, também tem um predicativo, que pode ser
do sujeito ou do objeto. Quando for do sujeito, ele expressa uma ação e uma qualidade do sujeito.
Exemplo:
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

• As meninas chegaram felizes do estádio.

Predicativo do sujeito
É a característica do sujeito de uma oração que chamamos predicativo. O verbo que conecta essa
característica ao sujeito é chamado de verbo de ligação. Exemplos:

Matemática é minha matéria favorita.

Sujeito Verbo de ligação Predicativo do sujeito

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Matemática está difícil para mim.

Língua Portuguesa
Você sabia?
Sujeito Verbo de ligação Predicativo do sujeito Talvez você tenha
estudado e decorado
Tornou-se fundamental o estudo das fórmulas matemáticas. uma lista com verbos
de ligação. Mas
Verbo de ligação Predicativo do sujeito Sujeito cuidado: os verbos não
são de ligação, eles
funcionam como
Predicativo do objeto
verbos de ligação. Nas
É a característica do objeto direto (complemento do verbo) de uma oração. Exemplos:
frases a seguir, você
• O juiz julgou o acusado inocente. poderá observar que
• O professor tornou a questão clara para mim. há orações em que eles
atuam como verbos
Transitividade dos verbos e seus complementos significativos (têm
Chamamos de transitivos os verbos que permitem observar o movimento da ação partindo de significado) e, em
uma origem (o sujeito) e recaindo em um alvo (objeto). outras, eles estão
Imagine um menino atirando uma pedra em um lago. “O menino” é o sujeito, o verbo é “atirar” apenas ligando a
e o alvo é o lago. Bem, não é tão simples assim. Antes do lago, lugar onde a pedra cai, há a pedra característica ao
e a ação de atirar. sujeito.
Observe a frase: Bruna e Mariana
andam muito amigas.
O menino atirou a pedra no lago. Pablo tornou-se
Sujeito Verbo Objeto direto Adjunto adverbial de lugar advogado do dia pra
noite.
Verbo transitivo direto Sílvio está cansado de
tantas discussões.
Classificam-se como verbos transitivos diretos aqueles que não exigem preposição antes do objeto.
Fiquei muito surpresa
com a sua atitude.
A pedra acertou o lago.
Pintando com tinta, a
Sujeito Verbo transitivo direto Objeto direto mesa virou branca.

Objeto direto Bruna e Mariana


É o complemento do verbo que se liga a ele sem o auxílio de preposição. Exemplos: andam muito até a
• Liguei o computador para ver as notícias. escola.
• Peguei de primeira a bola. Pablo tornou a discutir
com o chefe.
Verbo transitivo indireto Sílvio está em casa há
Classificam-se como verbos transitivos indiretos aqueles que exigem preposição antes do objeto. dias.
Fiquei no hospital

Unidade 3: Frase, oração e período: há diferenças?


A pedra precisa de um alvo.
durante dois meses me
recuperando de uma
Sujeito Verbo transitivo indireto + preposição “de” Objeto indireto pneumonia.
Artur virou a mesa
Objeto indireto sem querer.
É o complemento do verbo que se liga a ele com o auxílio de preposição. Exemplos:
• Gostava da professora que assistia às nossas aulas.
• Precisa-se de inovadores na área.

Verbo intransitivo Carlos trabalha.


E, por fim, são conhecidos como verbos intransitivos aqueles que possuem sentido completo, não
sendo necessários acessórios ou complementação para obterem sentido plenamente. Veja ao lado: Sujeito Verbo

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U3 C1

ZOOM Note que o verbo “trabalhar” não exige qualquer tipo de objeto. Se acrescentarmos algo, é
meramente acessório.
Preposições: a, ante,
após, até, com, contra,
Carlos trabalha bem.
de, desde, em, entre,
para, por, perante, sem, Sujeito Verbo Advérbio
sob, sobre, trás.

INTERLIGANDO SABERES

O trânsito, o táxi e o passageiro na Gramática


cenkerdem/iStock/Getty Images

A principal característica do verbo é a ação. Quando a ação recai em um obje-


to, dizemos que ela se dá pelo sentido transitivo do verbo. Assim, existe um
trânsito na Gramática.
Vamos começar pelo táxi, uma palavra que vem do grego (táksis), que signifi-
ca “ordenação”, “transporte de um lugar para outro”. Na Gramática, a ordena-
ção é a raiz dos estudos de Sintaxe. E toda cidade precisa de uma boa
ordenação no trânsito.
Agora, o passageiro: a ação do verbo transita e recai sobre algo, que na Gramá-
tica é o objeto. Assim, a ação transita de uma origem, o sujeito, passa pelo taxista, que a executa, até
chegar em um destino, o objeto, que é onde recai a ação. Esse transitar define os estudos sintáticos
como algo similar a uma grande cidade como São Paulo.

PARADA OBRIGATÓRIA

Leia o poema e responda às questões 5 a 7.

Poemas da amiga VIII


Gosto de estar a teu lado,
Sem brilho.
Tua presença é uma carne de peixe,
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

De resistência mansa e de um branco


Escoando azuis profundos.

Eu tenho liberdade em ti.


Anoiteço feito um bairro,
Sem brilho algum.

Estamos no interior duma asa


Que fechou.
ANDRADE, Mário de. Domínio público.

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▶ 5. Extraia da segunda estrofe do poema uma oração com objeto direto e destaque-o.

Língua Portuguesa
Eu tenho liberdade em ti.

6. No trecho “Tua presença é uma carne de peixe”, o verbo em destaque é significativo? Justifique a sua resposta.
Não, o verbo “é” apenas liga “Tua presença” (sujeito) a sua característica “uma carne de peixe” (predicativo do sujeito).

7. No verso “Gosto de estar ao teu lado”, o trecho destacado trata-se de uma oração. Substitua-o por um objeto indireto.
Respostas possíveis: Gosto da sua companhia; Gosto da sua presença; entre outras.

Parada complementar: 3

Complemento nominal
É o complemento que certos substantivos, adjetivos e advérbios requerem por meio de preposição.
O complemento nominal, como o nome já diz, é um “ornamento” do nome, núcleo do complemento.

A construção do prédio terminou.

Núcleo: nome (substantivo) Complemento nominal Verbo

Note que o núcleo do complemento é sempre um nome. E a particularidade desse nome é a


transitividade. Assim, o complemento será todas as vezes o elemento da ação contida no núcleo,
que terá como origem um verbo (construir).
Exemplos:
• Tenho certeza das minhas respostas. (Estar certo.)
• Tenho as minhas dúvidas de matemática. (Duvidar.)
• Minha mãe votou favoravelmente à minha saída com os colegas da escola. (Favorecer.)

Adjunto adnominal
É a característica de um substantivo, acrescentando-lhe um dado novo com sentido de adjetivo.
Esse tipo de nome não denota transitividade, isto é, não tem origem em um verbo, e apresenta
característica material.
Exemplos:

Unidade 3: Frase, oração e período: há diferenças?


• O celular do Lucas é de última geração. (“Celular”, núcleo do adjunto adnominal, não denota
ação, é estático e material.)
• O bolo de chocolate matou a fome de todos lá em casa. (“Bolo” e “fome” não agem, são está-
ticos. Note que “de chocolate” acrescenta uma qualidade a “bolo”.)

Adjunto adverbial
É um advérbio, uma locução adverbial ou até uma oração adverbial que indica a circunstância
em que se dá a ação de um verbo, de outro advérbio, de um adjetivo ou até de toda uma oração.
Exemplos:
• Noite passada, a vizinha, muito alterada, gritava loucamente com o marido.
• Ele se comportou de forma descontrolada na audiência.
• Quando cheguei à casa dele, faltou luz.

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U3 C1

Período
ENTRE O período é formado por uma ou mais orações, constituindo um sentido completo. Podemos
dizer que ele começa na letra maiúscula e vai até o ponto-final, ponto de interrogação, ponto de
EM AÇÃO exclamação, dois-pontos, ponto-e-vírgula. Ele pode ser simples ou composto.

Período simples
Em casa, com a ajuda
É formado por apenas uma oração, isto é, tem apenas um verbo ou uma locução verbal. Exemplos:
de seus pais, abra um
• Ele nunca mais retornou à cidade natal.
jornal impresso ou
• Choveu por meses em Sergipe.
on-line e separe algu-
mas manchetes (pelo Período composto
menos dez). Depois, Ele é formado por duas ou mais de duas orações que podem estar coordenadas entre si ou
analise-as e encontre subordinadas. Isto é, há mais de um verbo no período composto. Exemplos:
os respectivos sujei- • Chovia a cântaros, mas ele mantinha-se otimista quanto à viagem ao litoral.
tos e predicados em • Pedro queria que o pai lhe desse uma moto.
cada uma delas.
Período composto por coordenação
Nele, as orações são gramaticalmente independentes. Exemplos:
• Fui lá fora, mas vi a chuva e resolvi voltar.
• Ou estudo Física ou estudo Matemática.
• A professora não veio à escola, pois não chegou até agora na sala de aula.

Período composto por subordinação


Nele, as orações são gramaticalmente dependentes umas das outras, ou seja, uma é a principal
e a outra está subordinada à principal sem poder se separar dela. Exemplos:
• Assim que eu chegar à casa de meu pai, vamos ter uma conversa bem séria.
• Mesmo que chovesse todos os dias, eu sempre ia ao hospital com ela.
• Eu gosto tanto dele que sinto felicidade só de vê-lo.
• A moça que trabalha na cantina da escola é modelo nas horas vagas.
• Eu te falei que tu irias passar em Geografia!

PARADA OBRIGATÓRIA

Leia a tirinha a seguir e responda às questões de 8 a 12.

Calvin Hobbes, Bill Watterson © 1989 Watterson/


Dist. by Andrews McMeel Syndication
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

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Língua Portuguesa
8. Quais são os verbos presentes no primeiro quadrinho e a quais termos eles se referem?
Os verbos do primeiro quadrinho são “acredito” e “escreveu”. Eles se referem, respectivamente, aos termos “eu” e “professora”.

9. Se a oração subordinada “no que a professora escreveu no meu trabalho” fosse suprimida da tirinha, quais prejuízos teríamos
quanto ao entendimento do texto?

Caso a oração subordinada “no que a professora escreveu no meu trabalho” fosse suprimida, não seria possível

compreender duas informações presentes na tirinha: 1) quem fez as observações no trabalho de Calvin; e 2) que as

observações foram escritas no seu trabalho e não ditas verbalmente.

10. Na fala de Haroldo “Ela é bem esperta”, qual é a função da palavra em destaque?
A palavra “bem” é um adjunto adverbial, cuja função é modificar o adjetivo “esperta”, conferindo-lhe uma ideia

de intensidade.

11. Como visto na fala explicitada no exercício anterior, Haroldo afirma que a professora de Calvin é bem esperta. Reescreva a
fala adicionando uma oração que forneça uma explicação para a esperteza da professora.

Embora o aluno ainda não saiba classificar as orações coordenadas, espera-se que, com base no entendimento do

enunciado da questão, ele utilize uma oração coordenada explicativa para explicar a esperteza da professora de Calvin.

Um exemplo possível de resolução do exercício é: Ela é bem esperta porque analisou todo o seu trabalho.

Unidade 3: Frase, oração e período: há diferenças?


12. Na tirinha, Calvin utiliza dois adjuntos adnominais para valorizar parte de seu trabalho e questionar o merecimento de um
ponto na sua nota final. Quais adjuntos adnominais são esses e a que eles se referem?

Calvin usa os adjuntos adnominais “plástica” e “profissional” para conferir um sentido especial à capa de seu trabalho, valorizando-a.

Parada complementar: 1 e 5
Teste seu conhecimento: 1 a 4

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U3 C1

PARADA COMPLEMENTAR

1. (Epcar-MG – Adaptada)

A literatura da era digit@l


A internet tem sido um veículo de extrema importância para a divulgação dos escritores das novas gerações,
a­ ssim como dos autores de épocas em que os únicos meios de acesso à leitura eram o livro e os jornais. [...] Pesquisas
recentes indicam que o número de obras literárias de poesia e ficção tem crescido consideravelmente dentro do
­espaço cibernético nos últimos anos. Vários escritores têm preferido publicar seus textos ou livros virtualmente a ter
que enfrentar os critérios e a seleção, muitas vezes injusta, das editoras. [...]
O escritor atual está mais próximo de seu leitor. A geração literária brasileira que vem se destacando no mercado
editorial da última década, como Luís Ruffato, Cíntia Moscovich, Marcelino Freire, Santiago Nazarian, Daniel Galera,­
Simone Campos, Nélson de Oliveira, e muitos outros, tem permitido que o leitor possa ingressar no “mundo do autor”
e conhecer o dia a dia do escritor através de seus blogs e sites. [...]
Nos dias atuais, não basta publicar a obra, é preciso também publicar o autor. E grande parte dessa acessibilidade
à figura do escritor tem sido proporcionada pela internet.
[...]
Muitos questionamentos acerca da resistência dos livros em relação à internet são constantemente elaborados,
tanto por leitores comuns quanto por especialistas de várias áreas. O que já sabemos é que mesmo com o desapareci-
mento do livro sendo alardeado há muitos anos, desde que obras digitalizadas começaram a aparecer na internet, as
obras impressas não sumiram das editoras nem das livrarias. Pelo contrário, o número de editoras tem crescido con-
sideravelmente no Brasil.
As vantagens que o advento da internet ofereceu ao ressurgimento dos livros nessa era de tecnologia e moderni-
zação não são poucas. Contudo, não podemos afirmar que se lê menos hoje do que há décadas. É possível que se leia
de forma diferente. [...]
Revista Conhecimento Prático. Março/2010. p. 24-28.

Leia com atenção o fragmento a seguir:


“Pesquisas recentes indicam que o número de obras literárias de poesia e ficção tem crescido consideravelmente dentro do
espaço cibernético nos últimos anos.” Sobre esse fragmento, só não se pode afirmar que
a) há duas orações e uma frase.
b) ocorrem três circunstâncias adverbiais.
c) trata-se de um período composto por coordenação e subordinação.
d) há uma conjunção integrante.

2. (Ufal)

Passando dos cinquenta


Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Meu pescoço se enruga. E as pálpebras


Imagino que seja apertadas no sol.
de mover a cabeça Só da boca não sei
para observar a vida. o sentido das rugas
E se enrugam as mãos se dos sorrisos tantos
cansadas dos seus gestos. ou de trancar os dentes
sobre caladas coisas.
COLASANTI, Marina. Rota de colisão. Rio de Janeiro: Editora Rocco. 1994. Adaptado.

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Língua Portuguesa
A percepção das partes do corpo é importante para que o eu lírico perceba suas mudanças. Os termos “meu pescoço”, “as
mãos” e “as pálpebras” grafados no texto assumem a função de:
a) objeto direto.
b) sujeito.
c) objeto indireto.
d) agente da passiva.
e) complemento nominal.

3. (Vunesp – Adaptada)
Nós criamos produtos; fixamos preços; definimos os locais onde vendê-los; e fazemos anúncios. Nós controlamos a
­mensagem.
Nas orações que compõem os dois períodos transcritos, os termos destacados exercem a função de:
a) sujeito.
b) objeto direto.
c) objeto indireto.
d) predicativo do sujeito.
e) predicativo do objeto.

4. (Vunesp)
Para responder à questão, leia a crônica de Luis Fernando Verissimo.

A invasão
A divisão ciência/humanismo se reflete na maneira como as pessoas, hoje, encaram o computador. Resiste-se ao com-
putador, e a toda a cultura cibernética, como uma forma de ser fiel ao livro e à palavra impressa. Mas o computador não
eliminará o papel. Ao contrário do que se pensava há alguns anos, o computador não salvará as florestas. Aumentou o uso
do papel em todo o mundo, e não apenas porque a cada novidade eletrônica lançada no mercado corresponde um manual
de instrução, sem falar numa embalagem de papelão e num embrulho para presente. O computador estimula as pessoas
a escreverem e imprimirem o que escrevem. Como hoje qualquer um pode ser seu próprio editor, paginador e ilustrador
sem largar o mouse, a tentação de passar sua obra para o papel é quase irresistível.
Desconfio que o que salvará o livro será o supérfluo, o que não tem nada a ver com conteúdo ou conveniência. Até que lan-
cem computadores com cheiro sintetizado, nada substituirá o cheiro de papel e tinta nas suas duas categorias inimitáveis, li-
vro novo e livro velho. E nenhuma coleção de gravações ornamentará uma sala com o calor e a dignidade de uma estante
de livros. A tudo que falta ao admirável mundo da informática, da cibernética, do virtual e do instantâneo­acrescente-se
isso: falta lombada. No fim, o livro deverá sua sobrevida à decoração de interiores.

Unidade 3: Frase, oração e período: há diferenças?


O Estado de S. Paulo, 31 maio 2015.

Os termos “o uso do papel” e “um manual de instrução” (1º parágrafo) se identificam sintaticamente por exercerem nas
respec­tivas orações a função de:
a) objeto direto.
b) predicativo do sujeito.
c) objeto indireto.
d) complemento nominal.
e) sujeito.

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U3 C1


5. (Enem) A discussão sobre Gramática na classe está “quente”. Será que os brasileiros sabem Gramática? A professora de
Português propõe para debate o seguinte texto:

Pra mim brincar


Não há nada mais gostoso do que o mim sujeito de verbo no infinito. Pra mim brincar. As cariocas que não sabem
gramática falam assim. Todos os brasileiros deviam de querer falar como as cariocas que não sabem gramática.
— As palavras mais feias da língua portuguesa são quiçá, alhures e miúde.
BANDEIRA, Manuel. Seleta em prosa e verso. Org.: Emanuel de Moraes. 4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986. p. 19.

Com a orientação da professora e após o debate sobre o texto de Manuel Bandeira, os alunos chegaram à seguinte conclusão:
a) Uma das propostas mais ousadas do Modernismo foi a busca da identidade do povo brasileiro e o registro, no texto literário,
da diversidade das falas brasileiras.
b) Apesar de os modernistas registrarem as falas regionais do Brasil, ainda foram preconceituosos em relação às cariocas.
c) A tradição dos valores portugueses foi a pauta temática do movimento modernista.
d) Manuel Bandeira e os modernistas brasileiros exaltaram em seus textos o primitivismo da nação brasileira.
e) Manuel Bandeira considera a diversidade dos falares brasileiros uma agressão à Língua Portuguesa.

PARA FIXAR

FRASE Unidade de sentido

Frase com verbo ou com locução verbal


ORAÇÃO

Simples 1 oração
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

PERÍODO

Composto 2 ou mais orações

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U3

Lembre-se da pergunta que iniciou esta Unidade:

FRASE, ORAÇÃO E PERÍODO:


HÁ DIFERENÇAS? Professor, avalie se é melhor formar grupos ou fazer a atividade
individualmente. Ouça as respostas dadas pelos alunos e, caso alguma
classificação esteja errada, dê a solução correta.
Agora, analise as imagens a seguir e leia o texto: Sobre a pergunta que abriu esta Unidade, a resposta é: “Sim, há diferenças entre
frase, oração e período”.

ATENÇÃO SILÊNCIO,
POR
HOMENS FAVOR
PROIBIDO
TRABALHANDO
ESTACIONAR

SEGURANÇA
AVISO DESVIO
ELEVADOR DE
USE
RESPIRADOR USO EXCLUSIVO
NESTA ÁREA PARA CARGA

ATENÇÃO
OBRAS
A 1000m
DESCULPEM-NOS
O TRANSTORNO,
SOS
NÃO
ESTAMOS EM

Unidade 3: Frase, oração e período: há diferenças?


REFORMA

FUME
a abertura desta Unidade já lhe foi dito que todas essas imagens são frases. Depois de es-
N tudar todo o Capítulo, contudo, você já é capaz de entender que essa classificação tem ra-
mificações e que nem tudo é apenas “frase”.
Então, sozinho ou em grupo, analise os textos das placas e:

1. Classifique-os em frase, oração ou período.

2. Transforme os textos que não são orações em orações. Indo ainda mais além, você conseguiria
transformá-los em um período composto?

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Discurso Discurso
indireto indireto
É o narrador quem relata, livre
com suas palavras, o que Não há marcadores
o personagem disse. indicando onde
começa cada voz:
o leitor é quem deve
estar atento às vozes.

Negação
Caracteriza-se
por ser uma voz
que afirma e uma
voz que nega a
afirmação.

Discurso
direto
A fala do personagem é
reproduzida direta, fiel e
literalmente no texto.

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LP
UNIDADE 4

Língua Peça que os alunos leiam com


Portuguesa atenção as definições dos
balões de fala da imagem de
abertura. Eles devem memorizá-
las para que depois os conceitos
sejam reforçados ao longo do
estudo da Unidade.

QUE VOZES
Interpretação
EXISTEM EM
de textos
Versão aproximada do
texto original que nos
UM TEXTO?
revela algo que estava
encoberto, fora das
Um texto tem a capacidade de ser constituído a partir de
linhas do texto. outros textos. Logo, todo texto é habitado pelo discurso
de terceiros.

A Torre de Babel é uma das histórias bíblicas mais conhecidas do mundo quando se fala
de língua e de uma explicação para o surgimento dos diversos idiomas falados na Terra.
Essa história está narrada no livro de Gênesis:
“’Vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance os céus. Assim nosso
nome será famoso e não seremos espalhados pela face da terra’.
O Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo.
E disse o Senhor: ‘Eles são um só povo e falam uma só língua, e começaram a cons-
truir isso. Em breve nada poderá impedir o que planejam fazer.
Venham, desçamos e confundamos a língua que falam, para que não entendam mais
uns aos outros’.
Assim o Senhor os dispersou dali por toda a terra, e pararam de construir a cidade.
Por isso foi chamada Babel, porque ali o Senhor confundiu a língua de todo o mun-
do. Dali o Senhor os espalhou por toda a terra.” (NVI, Gênesis 11:4-9).
De acordo com relato bíblico, até aquele momento da história da humanidade, só se
falava uma língua no mundo. Mas, devido a pretensão dos seres humanos em construir
uma torre que chegasse aos céus, Deus fez com eles começassem a falar línguas des-
conhecidas, dificultando o entendimento entre os mesmos e, consequentemente, a
construção da torre. A partir de então, os seres humanos passaram a ter que traduzir e
robodread/iStock/Getty Images

interpretar as diferentes línguas para obter conhecimento.


Sabemos que a é a partir da nossa capacidade interpretativa que chegamos ao co-
nhecimento e o caminho para chegar a interpretação passa pelo reconhecimento das
diferentes vozes, opiniões e pontos de vista de um texto. Esse envolvimento entre es-
critor e receptor é fundamental para o devido entendimento de um texto.
É isso o que você verá nesta Unidade!

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UNIDADE 4

CAPÍTULO

1 VOZES NO TEXTO
Estudaremos
neste capítulo:
Para começar nossos estudos sobre entendimento de texto, é fundamental termos em mente
uma das mais importantes de suas propriedades: a heterogeneidade.
O texto tem a propriedade intrínseca de se constituir a partir de outros textos, sejam eles es-
Discurso direto
critos, orais, imagéticos ou verbais. Segundo Fiorin e Platão (2003), todo texto é atravessado, ocu-
Discurso indireto pado, habitado por outros discursos anteriores. Então, uma produção textual pode remeter a uma
concepção que ela defende e a uma concepção da qual discorda, havendo, desse modo, duas vo-
Interpretação de texto
zes: dois pontos de vista.
Discurso indireto livre E o mais importante desse processo é o receptor, aquele que interpreta e traduz com suas
próprias palavras esses pontos de vista. Segundo Wolfgang Iser, estudioso alemão, uma das mais
belas imagens sobre a decodificação de textos foi dada por Northrop Frye: “a literatura é como um
piquenique em que o escritor traz as palavras, e o leitor, o significado”.

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INTERPRETAÇÃO:
determinar, julgar,
adivinhar sentidos de
representações escritas ou
imagéticas; verter ou
traduzir algo de uma língua
para outra.
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Esses dois pontos de vista em um texto, contudo, nem sempre estão explicitamente marcados.
Eles podem ser sociais, políticos, culturais e estabelecem-se em uma sociedade que, por natureza,
tem divergências de opiniões. Assim, é difícil existir uma perspectiva única sobre uma questão.
É pela pluralidade de ideias e de opiniões que uma sociedade democrática se caracteriza.
E mesmo que uma opinião seja maioria, ainda assim haverá uma minoria que pensa diferente.
Justamente isso que se expressa nos textos com diversidade: o discurso, o diálogo, os pontos de
vista divergentes, os múltiplos modos de fala e o entendimento do valor deles – tudo isso é
caracte­rística da heterogeneidade.

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Vejamos um exemplo:

Língua Portuguesa
Racismos
Preconceito racial e discriminação racial são duas coisas diferentes.
O preconceito é um sentimento, fruto de condicionamento cultural ou de uma deformação mental,
mas sempre uma coisa pessoal, quase sempre incorrigível. Não se legisla sobre sentimentos, não se
muda um hábito de pensamento ou uma convicção herdada por decreto. Já a discriminação racial é o
preconceito determinando atitudes, políticas, oportunidades e direitos, o convívio social e o econômico.
Não se pode coagir ninguém a gostar de quem não gosta, mas qualquer sociedade democrática, para
não desmentir o nome, deve combater a discriminação por todos os meios – inclusive a coação.
Não concordo com quem diz que uma política de cotas para negros no estudo superior é discri-
minação [...]. É coação, certo, mas para tentar corrigir um dos desequilíbrios que persistem na socie-
dade brasileira, o que reflete na educação a desigualdade de oportunidades de brancos e negros em
todos os setores, mal disfarçada pela velha conversa da harmonia racial tão nossa. As cotas seriam
irrealistas? Melhor igualdade artificial do que igualdade nenhuma. Você sabia?
Agora mesmo caíram em cima de quem disse – numa frase obviamente arrancada do contexto Luis Fernando
– que racismo de negro contra branco é justificável. Nenhum racismo é justificável, mas o ressenti- Verissimo, além de
mento dos negros é. Construiu-se durante todos os anos em que a última nação do mundo a acabar escritor, é também
com a escravatura continuou na prática o que tinha abolido no papel. Não se esperava que o precon- humorista, cartunista,
ceito acabasse com o decreto da abolição, mas mais de 100 anos deveriam ter sido mais do que sufi- tradutor.
cientes para que a discriminação diminuísse. Não diminuiu. Ele nasceu em Porto
Igualar racismo de negro com racismo de branco não resiste a um teste elementar. O negro pode Alegre, em 1936. O
dizer – distinguindo com nitidez preconceito de discriminação – “Não precisa me amar, só me dê escritor iniciou sua
meus direitos”. Qual a frase mais próxima disto que um branco poderia dizer, sem provocar risos? carreira trabalhando
“Não precisa me amar, só tenha paciência”? “Me ame, apesar de tudo”? Pouco convincente. no departamento de
É uma questão que vai e vem, como as marés. A velha oposição, na seleção brasileira, do time do arte da Editora Globo.
povo e o time do técnico. Quando as coisas vão bem (Brasil 4, Chile 0) não há discussão, quando as Depois, passou pelo
coisas vão mal (Brasil ali ali, Gana 0) volta a questão. O povo quer os melhores sempre no time, o téc- jornal Zero Hora, onde
nico sugere que às vezes escalar os melhores pode não ser o melhor para o time. Mudam os técnicos, começou a escrever
mudam os melhores, muda, em boa parte, o povo, e a questão continua indo e vindo. Como as marés. suas primeiras colunas.
VERISSIMO, Luis Fernando. Racismos. O Globo, 1 abr. 2007. Disponível em: <http://noblat.oglobo.globo.com/cronicas/ Na sequência,
noticia/2007/04/racismos-53070.html>. Acesso em: 16 jul. 2017. trabalhou no jornal
Folha da Manhã. Seu
primeiro livro foi
É notável, no texto de Verissimo, dois pontos de vista dividindo o mesmo espaço: de um lado, a publicado pela editora
defesa dos direitos dos afrodescendentes brasileiros a partir de programas para diminuir a desi- José Olympio, em
gualdade socioeconômica. De outro, a defesa, de algumas pessoas, de que corrigir esses erros com 1973. Dois anos depois,
“cotas”, por exemplo, é um tipo de discriminação que põe em risco as igualdades de condições na começou a desenhar as
sociedade, já que os motivos que produzem a disparidade não são modificados. O autor defende a tirinhas “As cobras”.
sua tese de que é melhor ter uma parcela de igualdade do que nenhuma igualdade. Desde 1989 é colunista

Unidade 4: Que vozes existem em um texto?


Assim, poderíamos esquematizar essas ideias do seguinte modo: do jornal
• Tese: “qualquer sociedade democrática [...] deve combater a discriminação por todos os meios”.
O Estado de S.Paulo.

• Argumento: “a última nação do mundo a acabar com a escravatura [o Brasil] continuou na


prática o que tinha abolido no papel. [...] mais de 100 anos deveriam ter sido mais do que
Jessica Olmedo

suficientes para que a discriminação diminuísse. Não diminuiu.”


• Conclusão: defesa das cotas: “Melhor igualdade artificial do que igualdade nenhuma”.

Agora, note que, quando Verissimo defende a ideia de que preconceito é diferente de discrimina-
ção, dizendo que não há decreto que mude isso, ele se foca exclusivamente na discriminação. O texto
com o qual ele dialoga, nesse caso, o discurso que complementa o seu raciocínio, é Constitucional.

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Veja o que diz a Constituição Brasileira:

Art. 3º: Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:


I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II – garantir o desenvolvimento nacional;
III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras
formas de discriminação.
BRASIL. Constituição (1988). Título I – Dos princípios fundamentais, Brasília, out. 1988.

Você deve ter notado, portanto, que Verissimo afirma o mesmo que nossa Constituição, que é
a regra máxima da Democracia.

Negação
Um importante mecanismo que mostra e marca as diferentes vozes em um discurso é a negação.
Quando Luis Fernando Verissimo diz “Nenhum racismo é justificável”, é porque, em algum
momen­to da história, em algum lugar desse mundo afora, alguém disse que o racismo tinha justi-
ficativas. Portanto, vemos aí duas vozes: uma explícita – “Nenhum racismo é justificável” – e outra
implícita – a de que o racismo tem suas razões.
Assim, a negação caracteriza-se por ser uma voz que afirma e uma voz que nega a afirmação.

Discurso direto
Leia o trecho da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis, a seguir.

Dom Casmurro
Pela cara de José Dias passou algo parecido com o reflexo de uma ideia, – uma ideia que o ale-
grou extraordinariamente. Calou-se alguns instantes; eu tinha os olhos nele, ele voltara os seus
para o lado da barra. Como insistisse:
– É tarde, disse ele; mas, para lhe provar que não há falta de vontade, irei falar a sua mãe. Não
prometo vencer, mas lutar; trabalharei com alma. Deveras, não quer ser padre? As leis são belas,
meu querido... Pode ir a São Paulo, a Pernambuco, ou ainda mais longe. Há boas universidades por
esse mundo fora. Vá para as leis, se tal é a sua vocação. Vou falar a Dona Glória, mas não conte só
comigo; fale também a seu tio.
– Hei de falar.
– Pegue-se também com Deus, – com Deus e a Virgem Santíssima, concluiu apontando para
o céu.
O céu estava meio enfarruscado. No ar, perto da praia, grandes pássaros negros faziam giros,
avançando ou pairando, e desciam a roçar os pés na água, e tornavam a erguer-se para descer nova-
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

mente. Mas nem as sombras do céu, nem as danças fantásticas dos pássaros me desviavam o espí-
rito do meu interlocutor.
Depois de lhe responder que sim, emendei-me:
– Deus fará o que o senhor quiser.
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Disponível em:
<http://machado.mec.gov.br/obra-completa-lista/itemlist/category/23-romance>. Acesso em: 4 out. 2017.

O discurso direto, assim como a negação, é um mecanismo da língua para marcar as vozes de per-
sonagens presentes em um texto. Essas vozes não são da pessoa que narra a história, são de perso-

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nagens que falam, que conversam entre si, que expõem ideias e pensamentos, como se vê no diálogo

Língua Portuguesa
anterior marcado pelos travessões.
No discurso direto, a fala de alguém é reproduzida direta, fiel e literalmente no texto. Suas
principais características são:
• A fala dos personagens é anunciada por meio de verbos de dizer usados pelo narrador para
indicar quando a personagem entra na cena (dizer, asseverar, contar, falar, responder, retor-
quir, replicar, acrescentar, resmungar, gritar, fofocar, etc.).
• A fala dos personagens vem marcada por inicial maiúscula e por pontuação (dois-pontos,
vírgula, travessão ou aspas).
• Os verbos usados são de 1a e de 2 a pessoa, já que há o diálogo entre eu ou nós e tu, você
e vocês.
• Os pronomes demonstrativos usados são este, esta e isto (referentes a algo que está perto
da pessoa que fala) e esse, essa e isso (referentes a algo que está perto da pessoa com quem
se fala).
• O advérbio usado é o aqui (referente ao lugar em que estão quem fala e com quem se fala).
Exemplo:

mas, para lhe provar que não há falta de vontade, irei


— É tarde disse ele
falar a sua mãe.

Voz do personagem Voz do narrador Voz do personagem


1a pessoa 3a pessoa 1a pessoa

INTERLIGANDO SABERES

Negação na fotografia

Tuca Vieira/Folhapress
Na linguagem fotográfica, também
podem aparecer diferentes discursos.
Nesta foto, o contraste aparece quan-
do se observa que, no bairro do Mo-
rumbi, em São Paulo, estão lado a
lado a maior favela da cidade – Parai-
sópolis – e prédios luxuosíssimos.
Veem-se, portanto, a afirmação da ri-
queza de um lado e, do outro, a nega-
ção dela.

Unidade 4: Que vozes existem em um texto?

ENTRE EM AÇÃO
Analisando o texto “Racismos”, de Verissimo, você conseguiria perceber outras vozes ali presentes? Quais frases lhe revelam esses
outros discursos? Que outros discursos são esses?

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Discurso indireto
Leia o trecho a seguir.

Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor,
desde que a matéria não me agrava, aborrece ou impõe. Antes de examinar se efetivamente Capi­tu era
parecida com o retrato, fui respondendo que sim. Então ele disse que era o retrato da mulher dele, e
que as pessoas que a conheceram diziam a mesma coisa. Também achava que as feições eram seme-
lhantes, a testa principalmente e os olhos. Quanto ao gênio, era um; pareciam irmãs.
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Disponível em:
<http://machado.mec.gov.br/obra-completa-lista/itemlist/category/23-romance>. Acesso em: 4 out. 2017.

No discurso indireto, a fala de um personagem não chega direta, fiel e literalmente ao leitor.
Quem a traz é o narrador do texto, usando suas próprias palavras, colocando-se em uma posição
de intermediário, como se vê em:
Então ele disse que era o retrato da mulher dele, e que as pessoas que a conheceram diziam a
mesma coisa.
As principais características do discurso indireto são:
• O que foi dito por um personagem também vem apresentado por um verbo de dizer + uma ora-
ção subordinada substantiva objetiva direta (iniciada por conjunção integrante que ou se).
• Os verbos vêm na 3ª pessoa do singular ou do plural reproduzindo o discurso do personagem.
• Os pronomes demonstrativos usados são aquele, aquela e aquilo (longe do narrador).
• O advérbio usado é lá, acolá (longe do narrador).

PARADA OBRIGATÓRIA

1. Transforme os discursos diretos a seguir, retirados do conto Jogo do bicho, de Machado de Assis, em discursos indiretos.
a) – Tem paciência, dizia-lhe Joaninha.
Joaninha lhe dizia que tivesse paciência.

b) Camilo foi ter com o ministro e disse:


– Veja V. Excia. que há mais de cinco anos vivo marcando passo.
Camilo foi ter com o ministro e disse para que a V. Excia. visse que há mais de cinco anos vivia marcando passo.
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

c) Mas não esqueceu a promessa, e um dia, com ar de riso, lembrou ao bicheiro:


– Compadre, quando for a águia, diga.
Mas não esqueceu a promessa, e um dia, com ar de riso, lembrou ao bicheiro que lhe dissesse quando fosse a águia.

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Língua Portuguesa
d) – Quem é que disse que o leão deu? perguntou Camilo baixinho.
Camilo perguntou baixinho quem é que dissera/havia dito/tinha dito que o leão dera/havia dado/tinha dado.

2. Transforme os discursos indiretos a seguir, retirados da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis, em diretos:
a) D. Fortunata tirou-me daquela hesitação, dizendo que minha mãe me mandara chamar para a lição de latim.
Dona Fortunata tirou-me daquela hesitação dizendo:

— Sua mãe mandou lhe chamar para a lição de latim.

b) Voltou e, abafando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao pé, a gente do Pádua.
Voltou e, abafando a voz, disse:

— A dificuldade está na casa ao pé, a gente do Pádua.

c) Capitu um dia notou a diferença, dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus; eu, depois de certa hesitação, disse-lhe
que eram como a pessoa que sonhava.
Capitu um dia notou a diferença dizendo:

— Os meus são mais bonitos que os seus.

Eu, depois de certa hesitação, disse-lhe:

— São como a pessoa que sonha...

3. Leia o trecho do texto “Como ficaria a Antártida se a temperatura oceânica subisse 1º”, de Guilherme Eler.

A adição de um único grau à temperatura dos oceanos afetaria drasticamente a vida de espécies marinhas da
Antártida. É o que revelou uma nova pesquisa conduzida por pesquisadores britânicos e publicada no jornal Current
Biology. Os cientistas defendem que o crescente aquecimento dos oceanos “pode superar amplamente as expectati-
vas” atuais para o fenômeno.
Superinteressante. Disponível em: <https://super.abril.com.br/ciencia/como-ficaria-a-antartida-se-a-temperatura-oceanica-subisse-1oc/>. Acesso em: 21 set. 2017.

Reescreva o trecho em destaque preservando o seu sentido original.

Um exemplo de resposta possível é: Se fosse adicionado um grau à temperatura dos

oceanos, a vida das espécies marinhas seria afetada drasticamente.

Parada complementar: 1 e 2 Unidade 4: Que vozes existem em um texto?


Teste seu conhecimento: 1

Interpretação de texto
Quando se fala em interpretação, geralmente, incorre-se em um grave erro: a queima de etapas
anteriores à interpretação. Antes do ato de entender, são nossas capacidades de ler que entram
em jogo. Como diria o crítico e teórico alemão Wolfgang Iser, a leitura só se torna um prazer quan-
do nossas capacidades de decodificação do texto entram em jogo.

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A interpretação de um texto é a última etapa do processo de leitura, reflexão e análise. E, para


que a façamos bem, é preciso que se tenha conhecimento prévio das etapas usadas nesse proces-
so. Sem esse aparato mínimo, supõe-se que a interpretação seja automática, simultânea à leitura,
o que leva alguns ao julgamento de que não têm “competência” para esse tipo de atividade. Isso
é um grave erro. Toda e qualquer pessoa é capaz de fazer interpretações.

ZOOM

É importante saber que é possível transformar um discurso direto em um discurso indireto (e vice-
-versa) e que, muitas vezes, essa mudança é requerida nas provas de vestibular.

Discurso Direto Discurso Indireto

Eu, mim, comigo, nós, nos, conosco Ele(a), se, o, a, lhe, consigo, eles(as), os, as, lhes

Aqui, cá Ali, lá

Esta, este, isto Aquela, aquele, aquilo

Ontem No dia anterior

Agora, hoje Naquele dia, naquela ocasião, naquele momento

Amanhã No dia seguinte, no outro dia

Presente do Indicativo Pretérito Imperfeito do Indicativo

Márcio contou aos amigos: “Eu durmo às 20 horas.” Márcio contou aos amigos que dormia às 20 horas.

Pretérito Perfeito Pretérito Mais-que-Perfeito

Lucia sempre dizia: “Fui uma menina triste”. Lucia sempre dizia que fora uma menina triste. ou
Lucia sempre dizia que tinha sido uma menina triste.

Futuro do Presente Futuro do Pretérito

A vendedora disse: “A blusa custará R$ 80,00”. A vendedora disse que a blusa custaria R$ 80,00.

Imperativo Imperfeito do Subjuntivo

Silvana pediu-lhe: “Abraça-me!”. Silvana pediu-lhe que a abraçasse.

No início deste Capítulo, você viu que o sentido do termo “interpretação” é converter um dado
em outro dado, traduzir uma linguagem para outra. Por exemplo, ao fim do almoço de domingo,
foi servida uma sobremesa impecável, todos comeram e adoraram. Mas quando a pessoa que fez
o doce perguntou se estava bom, alguém respondeu: “Nossa! Horrível!”. Ora, qualquer pessoa, a
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

menos que seja estrangeira ou outro caso de ouvinte, sabe que o que se quis dizer era que o doce
estava mais que bom. Esse é um caso, entre centenas deles, em que fazemos interpretação em vez
de uma “leitura ao pé da letra”.
Estamos o tempo inteiro interpretando: no mercado, “Quanto morre nessa brincadeira?” (Qual
o preço?); “Tomei um chá de cadeira ontem.” (Esperou por alguém que se atrasou ou não apareceu
a um encontro), etc.
Sabemos que interpretação não é uma resposta imediata, mas uma versão aproximada do
texto original que, entretanto, revela-nos algo que estava encoberto, fora das linhas do texto. E
ela se dá por etapas:

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• 1a etapa: ler minuciosamente o texto, fazendo a pesquisa de palavras desconhecidas no

Língua Portuguesa
dicionário e anotando-as ou grifando-as.
• 2a etapa: parafrasear o texto lido, ou seja, recontar com suas próprias palavras o que leu, sem
PARÁFRASE: maneira
“explicações imaginosas”. A paráfrase é dizer com outras palavras a mesma coisa que há no
diferente de dizer o que foi
texto parafraseado: dito; frase sinônima de
outra.

Texto Paráfrase

Você sabia?
“O menino corria.” “O garoto estava correndo.”
Cassiano Ricardo
(1894-1974) foi um
• 3a etapa: decodificação/interpretação: reler o texto por partes, examinando outros significa- jornalista, poeta e
dos deslocados do que está dito. Como no nosso primeiro exemplo, “a sobremesa está horrí- ensaísta brasileiro.
vel” com significado de que estava “excelente”. Conhecido,
O resultado é: entendimento do texto! principalmente, por
Leia o poema a seguir. ser um representante
do modernismo de
tendências
Serenata sintética nacionalistas, inclusive
atuando em grupos
Lua
como o Verde-Amarelo
morta.
e o da Anta. Uma de
suas obras mais
Rua
conhecidas é Jeremias
torta.
sem-chorar, de 1964.
Tua
porta.

Jessica Olmedo
RICARDO, Cassiano. Domínio público.

O primeiro passo para interpretarmos um texto é fazer a leitura atenta e parafraseá-lo em segui-
da. Isto é, verter o texto para o nosso modo de falar sem acrescentar nada que nele não esteja dito.
Na leitura, você deve ter pesquisado o termo “sintético” e visto que ele significa “reunir vários
elementos e fundi-los em um todo coerente, em um resumo”. Então, ao uni-lo com o termo “sere-
nata”, podemos parafrasear o título como “resumo de um canto amoroso”.
E prosseguindo a paráfrase: o poema diz que “a lua está minguada, e o caminho torto leva à
entrada da casa: a porta”.
Sabe-se que na serenata a pessoa amada está na janela, e não à porta. O que justifica então

Unidade 4: Que vozes existem em um texto?


chamar esse poema de “serenata”? É que serenata quer dizer algo simples, para ser feito à noite e
ao ar livre, justamente o que o poema apresenta: a expectativa do eu lírico em uma caminhada
incerta, em uma noite de lua minguante (a disposição dos versos forma uma lua minguante), em
direção à casa da amada.
No entanto, o poema é sintético, resumido, direto ao ponto, já que nem mesmo a lua é cheia
como costuma ser na noite de uma serenata. O que significa dizer que ela também foi resumida
para que o objetivo fosse alcançado: “tua porta”.
Por isso, “serenata sintética”, isto é, “meia serenata” é o caminho mais curto para um romance.

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Discurso indireto livre


Leia o trecho a seguir.

Mas, tanto lhe ouviu falar em morte que teve medo, e um dia correu a pedir à minha mãe que lhe
fizesse o favor de ver se lhe salvava o marido que se queria matar. Minha mãe foi achá-lo à beira do
poço, e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquela de parecer que ia ficar desgraçado, por
causa de uma gratificação menos, e perder um emprego interino? Não, senhor, devia ser homem, pai
de família, imitar a mulher e a filha... Pádua obedeceu; confessou que acharia forças para cumprir a
vontade de minha mãe.
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Disponível em:
<http://machado.mec.gov.br/obra-completa-lista/itemlist/category/23-romance>. Acesso em: 4 out. 2017.

À primeira vista, pode não parecer, mas nesse trecho existem duas vozes: a do narrador e a de
PLUGUE-SE
sua mãe. “Que maluquice era aquela de parecer que ia ficar desgraçado, por causa de uma grati-
ficação menos, e perder um emprego interino? Não, senhor, devia ser homem, pai de família, imitar
Leia o livro Vidas secas, a mulher e a filha…” é um pensamento da mãe do narrador.
de Graciliano Ramos. No discurso indireto livre, não há marcadores (como os dois-pontos, os travessões e as aspas
Repare que, como o do discurso direto e as conjunções que ou se do discurso indireto) indicando onde começa essa
autor tem um estilo outra voz: o leitor é quem deve estar atento a essas vozes. Suas características são:
• As falas dos personagens não são marcadas por verbos de dizer nem pelas conjunções que e se.
objetivo e enxuto de
• Pode ter frases interrogativas, imperativas, exclamativas e interjeições ou outras marcas
escrever, o discurso
linguísticas de subjetividade e de expressividade.
indireto livre e­stá
muito presente nes- Assim, se convertemos esse discurso para o direto livre é que percebemos que o narrador
sa obra, porque, en­ ­a ssumiu a voz do personagem. Veja como ficaria em discurso direto:
tre muitas caracte-
rísticas, ajuda na
“Minha mãe foi achá-lo à beira do poço, e intimou-lhe que vivesse, dizendo:
“eco­no­mia verbal”.
– Que maluquice é essa de que vai ficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e per-
der um emprego interino? Não, senhor, você deve ser homem, pai de família! Imite a sua mulher e
sua filha...
Pádua obedeceu e confessou:
– Vou achar forças para cumprir sua vontade.”

PARADA OBRIGATÓRIA
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Leia a tirinha e responda às questões 4 a 6.


Calvin Hobbes, Bill Watterson © 1987
Watterson / Dist. by
Andrews McMeel Syndication

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▶ 4. Na tirinha, por que Calvin usa o discurso indireto em algumas passagens?

Língua Portuguesa
Como Calvin deseja contar a Haroldo as impressões de seu avô sobre os quadrinhos e este não está presente na conversa, o menino usa as suas

próprias palavras para reproduzir a fala do avô.

5. Quais termos são usados no primeiro quadrinho para indicar que se trata de discurso indireto?
Empregam-se o verbo “dizer” e a conjunção “que”, pois são característicos do discurso indireto.

6. Passe a fala de Haroldo “Seu avô leva os quadrinhos bem a sério.” para o discurso indireto.
Haroldo (ele) disse que o avô de Calvin levava os quadrinhos bem a sério.

Parada complementar: 3 e 4
Teste seu conhecimento: 2 e 3

PARADA COMPLEMENTAR

1. (FGV-SP)

Pela tarde apareceu o Capitão Vitorino. Vinha numa burra velha, de chapéu de palha muito alvo, com a fita verde-
-amarela na lapela do paletó. O mestre José Amaro estava sentado na tenda, sem trabalhar. E quando viu o compadre
alegrou-se. Agora as visitas de Vitorino faziam-lhe bem. Desde aquele dia em que vira o compadre sair com a filha
para o Recife, fazendo tudo com tão boa vontade, que Vitorino não lhe era mais o homem infeliz, o pobre bobo, o
sem-vergonha, o vagabundo que tanto lhe desagradava. Vitorino apeou-se para falar do ataque ao Pilar. Não era ami-
go de Quinca Napoleão, achava que aquele bicho vivia de roubar o povo, mas não aprovava o que o capitão fizera com
a D. Inês.
– Meu compadre, uma mulher como a D. Inês é para ser respeitada.
– E o capitão desrespeitou a velha, compadre?
– Eu não estava lá. Mas me disseram que botou o rifle em cima dela, para fazer medo, para ver se D. Inês lhe dava
a chave do cofre. Ela não deu. José Medeiros, que é homem, borrou-se todo quando lhe entrou um cangaceiro no
estabelecimento. Me disseram que o safado chorava como bezerro desmamado. Este cachorro anda agora com o fogo
da força da polícia fazendo o diabo com o povo.
REGO, José Lins do. Fogo morto.

Unidade 4: Que vozes existem em um texto?


A passagem do quarto parágrafo – Eu não estava lá. Mas me disseram que botou o rifle em cima dela, para fazer medo, para
ver se D. Inês lhe dava a chave do cofre. – é caracterizada por discurso:
a) direto, por meio do qual o narrador expressa a indignação do Capitão Vitorino e do Mestre José Amaro ao ataque à cidade do Pilar.
b) indireto, por meio do qual a personagem Quinca Napoleão explica ao Capitão Vitorino o medo que reinou em Pilar durante
o ataque.
c) direto, por meio do qual a personagem Mestre Amaro manifesta sua indignação diante dos fatos que lhe são narrados.
d) direto, no qual se insere trecho de discurso indireto em que Capitão Vitorino relata a seu interlocutor o que ouviu de outrem.
e) indireto, que prepara a introdução do direto, para esclarecer que nem Capitão Vitorino nem José Medeiros presenciaram os
fatos em Pilar.

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2. (Vunesp) Para responder à questão, leia o fragmento de um romance de Erico Verissimo (1905-1975).

O defunto dominava a casa com a sua presença enorme. Anoitecia, e os homens que cercavam o morto ali na sala
ainda não se haviam habituado ao seu silêncio espesso.
Fazia um calor opressivo. Do quarto contíguo vinham soluços sem choro. Pareciam pedaços arrancados dum grito
de dor único e descomunal, davam uma impressão de dilaceramento, de agonia sincopada.
As velas ardiam e o cheiro da cera derretida se casava com o perfume adocicado das flores que cobriam o caixão.
A mistura enjoativa inundava o ar como uma emanação mesma do defunto, entrava pelas narinas dos vivos e lhes
dava a sensação desconfortante duma comunhão com a morte.
O velho calvo que estava a um canto da sala voltou a cabeça para o militar a seu lado e cochichou:
– Está fazendo falta aqui é o Tico, capitão.
O oficial ainda não conhecia o Tico. Era novo na cidade. Então o velho explicou. O Tico era um sujeito que sabia
animar os velórios, contava histórias, tinha um jeito especial de levar a conversa, deixando todo o mundo à vontade.
Sem o Tico era o diabo... Por onde andaria aquela alma?
Entrou um homem magro, alto, de preto. Cumprimentou com um aceno discreto de cabeça, caminhou devagarinho
até o cadáver e ergueu o lenço branco que lhe cobria o rosto. Por alguns segundos fitou na cara morta os olhos tristes.
Depois deixou cair o lenço, afastou-se enxugando as lágrimas com as costas das mãos e entrou no quarto vizinho.
O velho calvo suspirou.
– Pouca gente... O militar passou o lenço pela testa suada.
– Muito pouca. E o calor está brabo.
– E ainda é cedo.
O capitão tirou o relógio: faltava um quarto para as oito.
VERISSIMO, Erico. Um lugar ao sol. 1978.

Assinale a alternativa em que a reformulação do último período do texto está no discurso indireto.
a) O capitão tirou o relógio e disse que faltava um quarto para as oito.
b) O capitão tirou o relógio, para descobrir que faltava um quarto para as oito.
c) O capitão tirou o relógio: – Falta um quarto para as oito.
d) O capitão tirou o relógio, embora faltasse um quarto para as oito.
e) O capitão tirou o relógio, porque faltava um quarto para as oito.

3. (IFSP – Adaptada) Leia um trecho da música Telegrama de Zeca Baleiro e responda ao que se pede:

Eu tava triste, tristinho Que tanto te ama!


Mais sem graça que a top-model magrela Que muito, muito te ama
Na passarela Que tanto te ama!
Eu tava só, sozinho!
Mais solitário que um paulistano Por isso hoje eu acordei
Que um canastrão na hora que cai o pano Com uma vontade danada
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Tava mais bobo que banda de rock De mandar flores ao delegado


Que um palhaço do circo Vostok De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
Mas ontem eu recebi um telegrama De beijar o português
Era você de Aracaju ou do Alabama Da padaria
Dizendo: Nêgo, sinta-se feliz
Porque no mundo tem alguém que diz
Que muito te ama!

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Língua Portuguesa
Analise os trechos destacados após o verbo dizer e assinale a alternativa correta.
I. Dizendo: — Nêgo, sinta-se feliz…
II. Tem alguém que diz que te ama muito!
a) I e II são exemplos de discurso direto.
b) I e II são exemplos de discurso indireto.
c) I é exemplo de discurso direto e II, de discurso indireto.
d) I é exemplo de discurso indireto e II, de discurso direto.
e) I é exemplo de discurso indireto livre e II, de discurso indireto.

4. (FGV-SP)

Os meninos deitaram-se e pegaram no sono. Sinhá Vitória pediu o binga ao companheiro e acendeu o cachimbo.
Fabiano preparou um cigarro. Por enquanto estavam sossegados. O bebedouro indeciso tornara-se realidade. Volta-
ram a cochichar projetos, as fumaças do cigarro e do cachimbo misturaram-se. Fabiano insistiu nos seus conheci-
mentos topográficos, falou no cavalo de fábrica. Ia morrer na certa, um animal tão bom. Se tivesse vindo com eles,
transportaria a bagagem. Algum tempo comeria folhas secas, mas além dos montes encontraria alimento verde.
Infe­lizmente pertencia ao fazendeiro – e definhava, sem ter quem lhe desse a ração. Ia morrer o amigo, lazarento e
com esparavões, num canto de cerca, vendo os urubus chegarem banzeiros, saltando, os bicos ameaçando-lhe os
olhos. A lembrança das aves medonhas, que ameaçavam com os bicos pontudos os olhos de criaturas vivas, horrori-
zou Fabiano. Se elas tivessem paciência, comeriam tranquilamente a carniça. Não tinham paciência, aquelas pestes
vorazes que voavam lá em cima, fazendo curvas. – Pestes.

O discurso indireto livre está presente nesse fragmento de texto. Um exemplo dele está na alternativa:
a) Os meninos deitaram-se e pegaram no sono.
b) Voltaram a cochichar projetos, as fumaças do cigarro e do cachimbo misturaram-se.
c) A lembrança das aves medonhas, que ameaçavam com os bicos pontudos os olhos de criaturas vivas, horrorizou Fabiano.
d) Fabiano insistiu nos seus conhecimentos topográficos, falou no cavalo de fábrica.
e) Não tinham paciência, aquelas pestes vorazes que voavam lá em cima, fazendo curvas.

PARA FIXAR

DISCURSO DIRETO

TIPOS DE Unidade 4: Que vozes existem em um texto?


DISCURSO INDIRETO
DISCURSO

DISCURSO INDIRETO LIVRE

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U4

Lembre-se da pergunta que iniciou esta Unidade:

QUE VOZES EXISTEM


EM UM TEXTO?
Agora, leia o texto a seguir:

esta Unidade, você viu que interpretar um texto e outros meios de comunicação é funda-
N mental para a produção dos saberes em sociedade. Não falamos uma língua, mas muitas
línguas até no mesmo idioma. Não é necessário uma Torre de Babel para que entendamos que
interpretar é fundamental para o convívio humano. A heterogeneidade do texto nos mostra
que há muito mais línguas e pontos de vista em uma comunicação do que poderíamos supor.
Relembrando sobre os mecanismos de definição de voz vistos aqui, faça o que se pede:

Crie uma tabela dividida em 3 colunas. Em cada coluna, escreva as características (pessoa, uso
do pronome e do advérbio, etc.) dos três tipos de discurso: direto, indireto e indireto livre.

robodread/iStock/Getty Images
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Ajude os alunos a montarem a tabela. Se preferir, monte-a na lousa pedindo para que eles deem as características dos
discursos. Se possível, traga para a sala de aula mais exemplos de textos para mostrar aos alunos.

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TESTE SEU CONHECIMENTO

Língua Portuguesa
Unidade 1 têm senso de humor. O córtex, a parte superficial do
cérebro deles, não é tão evoluído como o nosso. Temos
1. (Enem) mecanismos corticais que nos permitem, por exemplo,
interpretar uma piada.
Disponível em: <http://globonews.globo.com>.
Acesso em: 31 maio 2012. Adaptado.
Tarefa
Morder o fruto amargo e não cuspir
Mas avisar aos outros quanto é amargo A coesão textual é responsável por estabelecer relações
Cumprir o trato injusto e não falhar entre as partes do texto. Analisando o trecho “Acontecendo­
Mas avisar aos outros quanto é injusto de o cientista provocar um dano em um local específico no
Sofrer o esquema falso e não ceder cérebro”, verifica-se que ele estabelece com a oração
Mas avisar aos outros quanto é falso ­seguinte uma relação de:
Dizer também que são coisas mutáveis... a) finalidade, porque os danos causados ao cérebro têm
E quando em muitos a não pulsar por finalidade provocar a falta de vocalização dos ratos.
– do amargo e injusto e falso por mudar –
b) oposição, visto que o dano causado em um local especí-
então confiar à gente exausta o plano
fico no cérebro é contrário à vocalização dos ratos.
de um mundo novo e muito mais humano.
c) condição, pois é preciso que se tenha lesão específica no
CAMPOS, G. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.
cérebro para que não haja vocalização dos ratos.
d) consequência, uma vez que o motivo de não haver mais
Na organização do poema, os empregos da conjunção vocalização dos ratos é o dano causado no cérebro.
“mas” articulam, para além de sua função sintática, e) proporção, já que à medida que se lesiona o cérebro não
a) a ligação entre verbos semanticamente semelhantes. é mais possível que haja vocalização dos ratos.
b) a oposição entre ações aparentemente inconciliáveis.
c) a introdução do argumento mais forte de uma sequência. 3. (Fatec)
d) o reforço da causa apresentada no enunciado introdutório.
e) a intensidade dos problemas sociais presentes no mundo.
Mutante
2. (Enem) 1. Quando eu me sinto um pouco rejeitada
Me dá um nó na garganta
Choro até secar a alma de toda mágoa
Depois eu passo pra outra
O senso comum é que só os seres humanos são
2. Como um mutante
­capazes de rir. Isso não é verdade? No fundo sempre sozinha
Não. O riso básico – o da brincadeira, da diversão, Seguindo o meu caminho
da expressão física do riso, do movimento da face e da Ai de mim que sou romântica!
vocalização – nós compartilhamos com diversos ani- Rita Lee e Roberto de Carvalho. Disponível em:
<http://www.vagalume.com.br/rita-lee/mutante.hlml>.
mais. Em ratos, já foram observadas vocalizações ul- Acesso em: 25 set. 2011. Adaptado.
trassônicas – que nós não somos capazes de perceber
– e que eles emitem quando estão brincando de “rolar
A oralidade expressa no texto pode ser exemplificada
no chão”. Acontecendo de o cientista provocar um dano
pelo emprego:
em um local específico no cérebro, o rato deixa de fazer
a) da expressão “um pouco”, que modifica o advérbio
essa vocalização e a brincadeira vira briga séria. Sem o
“quando” no 1o verso da 1a estrofe.
riso, o outro pensa que está sendo atacado. O que nos b) do pronome oblíquo “Me” antecedendo o verbo “dá” no
diferencia dos animais é que não temos apenas esse me- 2o verso da 1a estrofe.
canismo básico. Temos um outro mais evoluído. Os ani- c) da preposição “até”, que indica o limite da ação de “cho-
mais têm o senso de brincadeira, como nós, mas não rar” no 3o verso da 1a estrofe.

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▶ d) da conjunção comparativa “como”, que exprime uma c) o conectivo “se”, em “Se cenas como essa”, orienta o l­eitor
­hipérbole no 1o verso da 2a estrofe. para conclusões contrárias a uma ideia anteriormente
e) do verbo no gerúndio “Seguindo” que denuncia alto apresentada.
grau de informalidade no 3o verso da 2a estrofe. d) o pronome indefinido “isso”, em “isso se deve”, marca
uma remissão a ideias do texto.
4. (IBGE) Assinale a opção em que houve erro no emprego do e) as expressões “a cantora de tecnobrega Gaby Ama­rantos, a
pronome pessoal em relação ao uso culto da língua.
‘Beyoncé do Pará’”, “ambos” e “a dupla” formam uma ­cadeia
a) Ele entregou um texto para mim corrigir. coesiva por retomarem as mesmas personalidades.
b) Para mim, a leitura está fácil.
c) Isto é para eu fazer agora. 6. (Enem)
d) Não saia sem mim.
e) Entre mim e ele há uma grande diferença.
Há qualquer coisa de especial nisso de botar a cara
5. (Enem) na janela em crônica de jornal – eu não fazia isso há
muitos anos, enquanto me escondia em poesia e fic-
ção. Crônica algumas vezes também é feita, intencio-
“Ela é muito diva!”, gritou a moça aos amigos, com nalmente, para provocar. Além do mais, em certos
uma câmera na mão. Era a quinta edição da Campus dias mesmo o escritor mais escolado não está lá gran-
Party, a feira de internet que acontece anualmente em de coisa. Tem os que mostram sua cara escrevendo
São Paulo, na última terça-feira, 7. A diva em questão para reclamar: moderna demais, antiquada demais.
era a cantora de tecnobrega Gaby Amarantos, a “Be- Alguns discorrem sobre o assunto, e é gostoso com-
yoncé do Pará”. Simpática, Gaby sorriu e posou pacien- partilhar ideias. Há os textos que parecem passar des-
temente para todos os cliques. Pouco depois, o rapper percebidos, outros rendem um montão de recados:
Emicida, palestrante ao lado da paraense e do também “Você escreveu exatamente o que eu sinto”, “Isso é exa-
rapper MV Bill, viveria a mesma tietagem. Se cenas tamente o que falo com meus pacientes”, “É isso que
como essa hoje em dia fazem parte do cotidiano de digo para meus pais”, “Comentei com minha namora-
Gaby e Emicida, a­ mbos garantem que isso se deve à da”. Os estímulos são valiosos pra quem nesses tempos
dimensão que suas carreiras tomaram através da in- andava meio a­ ssim: é como me botarem no colo –
ternet – o sucesso na rede era justamente o assunto da também eu preciso. Na verdade, nunca fui tão posta
palestra. Ambos vieram da periferia e são marcados no colo por leitores como na janela do jornal. De modo
pela disponibilização gratuita ou a preços muito bai- que está sendo ótima, essa brincadeira séria, com al-
xos de seus discos, fenômeno que ampliou a audiência guns textos que iam acabar neste livro, outros espa-
para além dos subúrbios paraenses e paulistanos. lhados por aí. Porque­eu levo a sério ser sério... mesmo
A dupla até já realizou uma apresentação em conjunto, quando parece que estou brincando: essa é uma das
no Beco 203, casa de shows localizada no Baixo Augus- maravilhas de ­escrever. Como escrevi há muitos anos
ta, em São Paulo, frequentada por um público de classe e continua sendo­a minha verdade: palavras são meu
média alta. jeito mais ­secreto de calar.
Disponível em: <www.cartacapital.com.br>. LUFT, L. Pensar é transgredir. Rio de Janeiro: Record, 2004.
Acesso em: 28 fev. 2012 (adaptado).

Os textos fazem uso constante de recursos que permitem a


As ideias apresentadas no texto estruturam-se em torno de articulação entre suas partes. Quanto à construção do frag-
mento, o elemento:
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

elementos que promovem o encadeamento das ideias e a


progressão do tema abordado. A esse respeito, identifica- a) “nisso” introduz o fragmento “botar a cara na janela em
-se no texto em questão que: crônica de jornal”.
a) a expressão “pouco depois”, em “Pouco depois, o rapper b) “assim” é uma paráfrase de “é como me botarem no colo”.
Emicida”, indica permanência de estado de coisas no c) “isso” remete a “escondia em poesia e ficção”.
d) “alguns” antecipa a informação “É isso que digo para
mundo.
meus pais”.
b) o vocábulo “também”, em “e também rapper MV Bill”, re-
e) “essa” recupera a informação anterior “janela do jornal”.
toma coesivamente a expressão “o rapper Emicida”.

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Língua Portuguesa
7. (Enem) Unidade 2
1. (PUC-SP)
Apesar de
Não lembro quem disse que a gente gosta de uma Tu só, tu, puro amor, com força crua
pessoa não por causa de, mas apesar de. Gostar daqui-
Que os corações humanos tanto obriga,
lo que é gostável é fácil: gentileza, bom humor, inteli-
Deste causa à molesta morte sua,
gência, simpatia, tudo isso a gente tem em estoque na
hora em que conhece uma pessoa e resolve conquistá- Como se fora pérfida inimiga.
-la. Os defeitos ficam guardadinhos nos primeiros Se dizem, fero Amor, que a sede tua
dias e só então, com a convivência, vão saindo do es- Nem com lágrimas tristes se mitiga,
conderijo e revelando-se no dia a dia. Você então des- É porque queres, áspero e tirano,
cobre que ele não é apenas gentil e doce, mas também Tuas aras banhar em sangue humano.
um tremendo cas­ca-grossa quando trata os próprios
funcionários. E ela não é apenas segura e determina- Estavas, linda Inês, posta em sossego
da, mas uma chorona que passa 20 dias por mês com De teus anos colhendo doce fruito,
TPM. E que ele ronca, e que ela diz palavrão demais, e Naquele engano da alma ledo e cego,
que ele é supersticioso por bobagens, e que ela enjoa Que a fortuna não deixa durar muito,
na estrada, e que ele não gosta de criança, e que ela Nos saudosos campos do Mondego,
não gosta de cachorro, e agora? Agora, convoquem o
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
amor para resolver essa encrenca.
Aos montes ensinando e às ervinhas,
MEDEIROS, M. Revista O Globo,
n. 790, 12 jun. 2011 (adaptado). O nome que no peito escrito tinhas.

Há elementos de coesão textual que retomam informações


Os Lusíadas, obra de Camões, exemplificam o gênero é ­ pico
na poesia portuguesa, entretanto oferecem momentos em
no texto e outros que as antecipam. Nos trechos, o elemen-
que o lirismo se expande, humanizando os versos. O episó-
to de coesão sublinhado que antecipa uma informação do
dio de Inês de Castro, do qual o trecho anterior faz parte, é
texto é
considerado o ponto alto do lirismo camoniano inserido
a) “Gostar daquilo que é gostável é fácil [...]”. em sua narrativa épica. Desse episódio, como um todo,
b) “[...] tudo isso a gente tem em estoque [...]”. pode afirmar-se que seu núcleo central:
c) “[...] na hora em que conhece uma pessoa [...]”. a) personifica e exalta o Amor, mais forte que as conveniên-
cias e causa da tragédia de Inês.
d) “[...] resolve conquistá-la.”
b) celebra os amores secretos de Inês e de D. Pedro e o
e) “[...] para resolver essa encrenca.” ­casamento solene e festivo de ambos.
c) tem como tema básico a vida simples de Inês de Castro,
8. (Escola Naval – Adaptada) Assinale a opção em que o uso legítima herdeira do trono de Portugal.
da ênclise se dá pelo mesmo motivo observado em: d) retrata a beleza de Inês, posta em sossego, ensinando
“Naquela­ocasião, despedia-me dos amigos de infância e aos montes o nome que no peito escrito tinha.
da família.” e) relata em versos livres a paixão de Inês pela natureza e
a) Os Aspirantes sentiam-se orgulhosos de suas conquistas pelos filhos e sua elevação ao trono português.
acadêmicas.
b) Aqui, instalaram-se comodamente os atletas brasileiros, 2. (PUC-RS – Adaptada) Para responder à próxima questão, leia
durante os Jogos Olímpicos. o excerto do conto O caso da vara, de Machado de Assis.
c) A mãe da jovem Aspirante tinha-lhe observado a impor-
tância da escolha profissional.
Sinhá Rita tinha quarenta anos na certidão de batis-
d) Relatou-nos, com detalhes, as aventuras e desventuras
mo, e vinte e sete nos olhos. Era apessoada, viva, patus-
de sua última viagem de barco. ca, amiga de rir; mas, quando convinha, brava como
e) Os alunos não estavam gostando do livro, mas continua- diabo. Quis alegrar o rapaz, e, apesar da situação, não
vam a lê-lo. lhe custou muito. Dentro de pouco, ambos eles riam, ela

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▶ contava-lhe anedotas, e pedia-lhe outras, que ele refe- Unidade 3
ria com singular graça. Uma destas, estúrdia, obrigada
a trejeitos, fez rir a uma das crias de Sinhá Rita, que
1. (Enem)
esquecera o trabalho, para mirar e escutar o moço. Si-

Enem/2013
nhá Rita pegou de uma vara que estava ao pé da mar-
quesa, e ameaçou-a:
– Lucrécia, olha a vara!
A pequena abaixou a cabeça, aparando o golpe,
mas o golpe não veio. Era uma advertência; se à noiti-
nha a ta­refa não estivesse pronta, Lucrécia receberia
o castigo do costume. Damião olhou para a pequena;
era uma negrinha, magricela, um frangalho de nada,
com uma cicatriz na testa e uma queimadura na mão Disponível em: <http://clubedamafalda blogspot.com.br>.
Acesso em: 21 set. 2011.
esquerda. Contava onze anos. Damião reparou que
tossia, mas para dentro, surdamente, a fim de não in- Nessa charge, o recurso morfossintático que colabora
terromper a conversação. para o efeito de humor está indicado pelo(a):
a) emprego de uma oração adversativa, que orienta a que-
bra da expectativa ao final.
Desde as tragédias gregas, a violência sempre instigou a
b) uso de conjunção aditiva, que cria uma relação de causa
criação literária. O conflito entre nativos e europeus no
e efeito entre as ações.
tempo das descobertas, as batalhas sangrentas no esta-
c) retomada do substantivo “mãe”, que desfaz a ambigui-
belecimento das fronteiras do pampa, o mundo sem lei
dade dos sentidos a ele atribuídos.
do sertanejo, a degradação moral nos conglomerados ur-
d) utilização da forma pronominal ‘’Ia”, que reflete um tra-
banos são alguns dos enredos brutais que configuram o
tamento formal do filho em relação à “mãe”.
nosso imaginário literário. A violência, mais do que um
e) repetição da forma verbal “é”, que reforça a relação de
problema do nosso cotidiano contemporâneo, é um te- adição existente entre as orações.
ma recorrente.

Todas as afirmativas estão corretamente associadas ao 2. (Enem)


­excerto, exceto:
a) A reação condicionada de Lucrécia, ao abaixar a cabeça
O Flamengo começou a partida no ataque, en-
frente à violência sistemática de Sinhá Rita, é um exem-
quanto o Botafogo procurava fazer uma forte marca-
plo do tratamento psicológico que Machado de Assis
ção no meio campo e tentar lançamentos para Victor
confere aos seus personagens.
Simões, isolado entre os zagueiros rubro-negros.
b) O trecho apresenta um narrador que não se furta a tecer Mesmo com mais posse de bola, o time dirigido por
comentários e emitir opiniões sobre os personagens. Cuca tinha grande dificuldade de chegar à área alvi-
c) A passagem “Sinhá Rita tinha quarenta anos na certidão negra por causa do bloqueio montado pelo Botafogo
de batismo, e vinte e sete nos olhos” apresenta um caso na frente da sua área.
de paralelismo recorrente dentro do estilo literário de No entanto, na primeira chance rubro-negra, saiu o
Machado de Assis: a coordenação incomum de frases. gol. Após cruzamento da direita de Ibson, a zaga alvi-
Efeito similar observa-se, por exemplo, em Memórias negra rebateu a bola de cabeça para o meio da área. Klé-
Póstumas de Brás Cubas: “Marcela amou-me durante berson apareceu na jogada e cabeceou por cima do
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

quinze anos e onze contos de réis”. goleiro Renan. Ronaldo Angelim apareceu nas costas
d) As expressões “amiga de rir” e “brava como diabo” de- da defesa e empurrou para o fundo da rede quase que
monstram contradições no comportamento de Sinhá Rita, em cima da linha: Flamengo 1 a 0.
que são ratificadas por suas ações no decorrer do conto. Disponível em: <http://momentodofutebol.blogspot.com> (adaptado).
e) O trecho possibilita um debate sobre a escravidão, o que
exemplifica a profundidade na crítica social trazida por
Machado de Assis em seus contos. Essa denúncia é diluí- O texto, que narra uma parte do jogo final do Campeonato­
da em seus romances, com menor preocupação social e Carioca de futebol, realizado em 2009, contém vários
mais centrados no indivíduo. ­conectivos, sendo que:

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Língua Portuguesa
a) “após” é conectivo de causa, já que apresenta o motivo Unidade 4
de a zaga alvinegra ter rebatido a bola de cabeça.
b) “enquanto” tem um significado alternativo, porque conec- 1. (Fuvest)
ta duas opções possíveis para serem aplicadas no jogo.
c) “no entanto” tem o significado de tempo, porque orde-
na os fatos observados no jogo em ordem cronológica
Sinhá Vitória falou assim, mas Fabiano resmungou,
de ocorrência.
franziu a testa, achando a frase extravagante. Aves ma-
d) “mesmo” traz ideia de concessão, já que “com mais
tarem bois e cabras, que lembrança! Olhou a mulher,
­posse de bola”, ter dificuldade não é algo naturalmente
desconfiado, julgou que ela estivesse tresvariando.
RAMOS, Graciliano Ramos. Vidas secas.
­esperado.
e) “por causa de” indica consequência, porque as tenta­
tivas de ataque do Flamengo motivaram o Botafogo a Uma das características do estilo de Vidas secas é o uso do
fazer um bloqueio. discurso indireto livre, que ocorre no trecho:

3. (EsPCEx – Adaptada) O período formado por orações coor- a) “sinha Vitória falou assim”.
denadas é: b) “Fabiano resmungou”.
c) “franziu a testa”.
a) “Ajuntei todas as pedras./Que vieram sobre mim.”
d) “que lembrança”.
b) “Levantei uma escada muito alta/e no alto subi.”
e) “olhou a mulher”.
c) “Uma estrada,/um leito,/uma casa,/um companheiro.”
d) “Entre pedras/cresceu minha poesia.” 2. (Fuvest)
e) “Entre pedras que me esmagavam/levantei a pedra
rude/dos meus versos.”
Um homem vem caminhando por um parque quan-
4. (IFSP) Leia o seguinte trecho de uma receita de cozinha.
do de repente se vê com sete anos de idade. Está com
quarenta, quarenta e poucos. De repente dá com ele
mesmo chutando uma bola perto de um banco onde
1. Misture a manteiga com a farinha peneirada e
está a sua babá fazendo tricô. Não tem a menor dúvida
junte sal. Incorpore depois o ovo e a gema. 2. Adicione
de que é ele mesmo. Reconhece a sua própria cara, reco-
o leite, aos poucos, mexendo sempre até obter um pre-
nhece o banco e a babá. Tem uma vaga lembrança da-
parado uniforme. [...] 4. Vire a panqueca para que co-
quela cena. Um dia ele estava jogando bola no parque
zinhe de ambos os lados. Retire e recheie com uma
quando de repente aproximou-se um homem e… O ho-
fatia de queijo e outra de presunto. Enrole, dobre as
mem aproxima-se dele mesmo. Ajoelha-se, põe as mãos
pontas e sirva.
nos seus ombros e olha nos seus olhos. Seus olhos se
enchem de lágrimas.
A primeira orientação para o preparo da receita de pan- Sente uma coisa no peito. Que coisa é a vida. Que
queca é apresentada em duas frases. É possível reescrevê- coisa pior ainda é o tempo. Como eu era inocente.
-las em uma única frase, sem alterar a informação original, Como os meus olhos eram limpos. O homem tenta di-
da seguinte maneira: zer alguma coisa, mas não encontra o que dizer. Ape-
a) Assim que incorporar o ovo e a gema, misture a mantei- nas abraça a si mesmo, longamente. Depois sai
ga com a farinha peneirada e junte sal. caminhando, chorando, sem olhar para trás. O garoto
b) Sucedendo a incorporação do ovo e da gema, misture a fica olhando para a sua figura que se afasta. Também
manteiga com a farinha peneirada e junte sal. se reconheceu. E fica pensando, aborrecido: quando
c) Antes da incorporação do ovo e da gema, misture a man- eu tiver quarenta, quarenta e poucos anos, como eu
teiga com a farinha peneirada e junte sal. vou ser sentimental!
d) Depois de incorporar o ovo e a gema, misture a manteiga VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola.
com a farinha peneirada e junte sal.
e) Quando incorporar o ovo e a gema, misture a manteiga
com a farinha peneirada e junte sal. O discurso indireto livre é empregado na seguinte passagem:
a) Que coisa é a vida. Que coisa pior ainda é o tempo.

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▶ b) Reconhece a sua própria cara, reconhece o banco e a sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas
babá. Tem uma vaga lembrança daquela cena. uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a
c) Um homem vem caminhando por um parque quando morte de um ipê que florescia à frente de sua casa por-
de repente se vê com sete anos de idade. que ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua
d) O homem tenta dizer alguma coisa, mas não encontra o vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
que dizer. Apenas abraça a si mesmo, longamente. Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a
e) O garoto fica olhando para a sua figura que se afasta. poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drum-
mond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que
3. (FGV-SP) ele viu virou poema.
ALVES, Rubem. A complicada arte de ver. Folha de S.Paulo, 26 out. 2004.

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os * William Blake (1757-1827) foi poeta romântico, pintor e
gravador inglês. Autor dos livros de poemas Song of innocence
olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais e Gates of paradise.
fácil compreensão científica.
A sua física é idêntica à física óptica de uma máqui-
na fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido No último parágrafo do texto há um exemplo de discurso:
do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não a) indireto livre. d) direto.
pertence à física. William Blake* sabia disso e afirmou: b) indireto. e) de injunção.
“A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o c) de autoridade.
tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando
vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CUNHA, Celso; LINDLEY, Cintra. Nova Gramática do português contemporâneo. 5. ed. Rio de
Janeiro: Lexicon, 2008.
FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática,
2003.
LIMA, Rocha. Gramática Normativa da língua portuguesa. 48. ed. Rio de Janeiro: José Olympio,
2010.
MOISÉS, Massaud. A criação literária: prosa 1. 20. ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
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