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PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA

Com certeza, A. W. Pink (como assinava em suas cartas e artigos) nunca


imaginaria que, no final do século 20 e ao longo do século 21, dificilmente seria
necessário explicar quem é Pink quando nos dirigindo às pessoas que consideram a
Bíblia como Palavra de Deus e se empenham em compreendê-la, entre outras coisas,
utilizando bons livros.
Vivendo quase em completo anonimato,[1] salvo por aqueles poucos que
assinavam sua revista publicada mensalmente, o valor de Arthur Pink foi descoberto
pelo mundo apenas após sua morte, quando seus artigos passaram a ser reunidos e
publicados na forma de livros. Ian Murray afirma que, mediante a ampla circulação de
seus escritos após a sua morte, ele se tornou um dos autores evangélicos mais influentes
na segunda metade do século 20.[2] Foi D. Martyn Lloyd-Jones quem disse: “Não
desperdice o seu tempo lendo Barth e Brunner. Você não receberá nada deles que o
ajude na pregação. Leia Pink!”.
Já Richard Belcher, um pastor que tem escrito alguns livros sobre a vida e obra
do nosso autor, disse o seguinte:
“Nós não o idolatramos. Mas o reconhecemos como um homem de Deus
ímpar, que pode nos ensinar por meio da sua caneta. Ele
verdadeiramente ‘nasceu para escrever’, e todas as circunstâncias de sua
vida, mesmo as negativas que ele não entendeu,[3] levaram-no ao
cumprimento desse propósito ordenado por Deus”.
John Thornbury, autor de vários livros, inclusive uma excelente biografia sobre
David Brainerd,[4] disse o seguinte:
“Sua influência abrange o mundo todo e hoje um exército poderoso de
pregadores de várias denominações está usando seus materiais e
pregando a congregações, grandes e pequenas, as verdades que ele
extraiu da Palavra de Deus. Eu o honro por sua coragem, discernimento,
perspicuidade, equilíbrio, e acima de tudo por seu amor apaixonado pelo
Deus trino”.
No Brasil, Arthur Pink é relativamente bem conhecido, graças à publicação de
dois dos seus livros mais conhecidos: The Sovereignty of God[5] e The Attributes of
God.[6] Mas o legado de Pink é bem maior que isso! Seus escritos reunidos compõem
mais de quarenta livros, merecendo destaque especial o seu comentário sobre Hebreus
(1307 págs.)[7] e sobre o Evangelho de João (1160 págs.)[8].
Os capítulos que compreendem Os Dez Mandamentos foram primeiramente
publicados em Studies in the Scriptures[9] – uma revista mensal editada por Pink e
devotada à exposição da Palavra. Esses artigos apareceram nas edições de janeiro a
dezembro de 1941. Na edição de janeiro, antes de passar à exposição propriamente
dita, Pink disse o seguinte:
“Durante os últimos dezenove anos, temos escrito vários artigos sobre a
Lei Moral; todavia, sentimo-nos constrangidos a devotar as primeiras
páginas das edições ao longo de 1941 (se o Senhor permitir) a uma
consideração do Decálogo Divino. Algumas das nossas razões para fazê-
lo são as seguintes: por causa da grande importância que o próprio Deus
atribui ao mesmo; porque estamos plenamente persuadidos que não pode
haver nenhuma esperança com fundamento sólido quanto a um genuíno
reavivamento da piedade entre os crentes, e da moralidade entre os
incrédulos, até que os Dez Mandamentos ganhem novamente o seu lugar
apropriado em nossas afeições, pensamentos e vidas; porque alguns dos
nossos amigos têm requisitado que o façamos; e porque vários dos
nossos leitores têm sido ensinados erroneamente sobre isso – alguns por
dispensacionalistas, outros por antinomianos”.

Em A. W. Pink, encontramos a mesma teologia de C. H. Spurgeon,[10] a quem


muito admirava, e uma eloquência e paixão pela verdade semelhantes ao do grande
Príncipe dos Pregadores. Falando sobre John Bunyan, autor do famoso clássico cristão
O Peregrino, Spurgeon disse que, se o furássemos, jorraria Bíblia, e não sangue, em
razão de que Bunyan estava saturado da Bíblia. O mesmo era verdade do próprio
Spurgeon, e de Pink, facilmente percebido nos escritos destes.[11] As últimas palavras
de Pink antes de morrer, ao lado de sua esposa, foram: “As Escrituras explicam a si
mesmas”.[12] Que declaração final apropriada para um homem que dedicou sua vida
ao entendimento e explicação da Palavra de Deus!
Embora não seja exaustiva, a exposição de Pink sobre a Lei Moral de Deus é
bíblica, fazendo com que recordemos muitas vezes a explicação que o Senhor Jesus deu
sobre a mesma no seu famoso Sermão do Monte.[13] Que este livro possa levar muitos
dos servos de Deus a encararem a sua Lei com seriedade, honrando a Deus por meio do
ensino e cumprimento desta, que sempre foi o alvo e o objetivo do autor. Sim, que
durante a leitura você possa exclamar, juntamente com o salmista: “Oh! Quanto amo a
tua lei! É a minha meditação em todo o dia” (Sl 119.97).
Felipe Sabino de Araújo Neto
29 de janeiro de 2009
CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS

Existem duas coisas que são indispensáveis à vida do cristão: primeira, um


claro conhecimento do dever; e segundo, uma conscienciosa prática do dever
correspondente a esse conhecimento. Como não podemos ter uma bem firmada
esperança sem obediência, assim também não podemos ter uma regra segura de
obediência sem conhecimento. Embora possa haver conhecimento sem prática; todavia,
não é possível a prática da vontade de Deus sem conhecimento. Portanto, para que
pudéssemos estar informados do que devemos fazer, e o que devemos evitar, agradou
ao Soberano e Juiz de toda a terra prescrever para nós leis para o regulamento das
nossas ações. Quando tínhamos miseravelmente desfigurado a Lei da natureza,
originalmente escrita em nosso coração, de modo tal que muitos de seus mandamentos
não eram mais legíveis, pareceu bem ao Senhor transcrever essa Lei nas Escrituras – e
nos Dez Mandamentos temos um sumário da mesma.
Primeiro consideremos a sua promulgação. A maneira na qual o Decálogo foi
formalmente entregue a Israel inspirou muito medo, mas estava repleta de valiosas
instruções para nós. Primeiro, o povo recebeu ordens de passar dois dias se
preparando, por meio de uma purificação cerimonial de todas as impurezas externas,
antes que estivessem aptos a permanecer na presença de Deus (Êx 19.10, 11). Isso nos
ensina que uma séria preparação do coração e da mente tem de ser feita antes que
venhamos esperar na presença de Deus as suas ordenanças e receber uma palavra da
sua boca; e que se Israel teve de se santificar para aparecer diante de Deus no Sinai,
quanto muito mais nós devemos nos santificar, para que possamos estar adequados para
aparecer diante de Deus no céu. Em seguida, o monte em que Deus apareceu teve de ser
cercado, com uma estrita proibição de que ninguém deveria se aproximar da montanha
sagrada (19.12, 13). Isso nos ensina que Deus é infinitamente superior a nós, e a maior
reverência lhe é devida, e nos mostra o quanto a sua Lei é estrita.
Em seguida, temos a descrição da assustadora manifestação na qual Yahweh
apareceu para entregar a sua Lei (Êx 19.18, 19), que foi planejada para afetar o povo
de Israel com temor pela sua autoridade e mostrar que, se Deus era tão terrível para dar
a sua Lei, quanto mais ele não será quando vier nos julgar pela violação dela? Quando
Deus entregou os Dez Mandamentos, o povo foi tão grandemente afetado que eles
rogaram a Moisés que atuasse como mediador e intérprete entre Deus e eles (20.18,
19). Isso nos ensina que, quando a Lei é dada diretamente por Deus, isso é (em si
mesmo) a ministração de condenação e morte, mas como foi entregue a nós pelo
Mediador, Cristo, podemos ouvir e observá-la (veja Gl 3.19; Gl 6.2; 1Co 9.21). Assim,
Moisés subiu ao monte e recebeu a Lei, escrita pelo próprio dedo de Deus sobre tábuas
de pedra, significando que o nosso coração é, naturalmente, tão duro que nada, a não
ser o dedo de Deus, pode fazer qualquer impressão de sua Lei nele. Aquelas tábuas
foram quebradas por Moisés em seu santo zelo (Êx 32.19), e Deus as escreveu uma
segunda vez (34.1). Isso quer dizer que a Lei da natureza foi escrita em nosso coração
na criação, quebrada quando caímos em Adão, e reescrita na regeneração (Hb 10.16).
Mas alguém pode perguntar: “Não foi a Lei totalmente revogada pela vinda de
Cristo ao mundo? Você nos traria debaixo daquele horrível jugo de escravidão que
jamais alguém foi capaz de suportar? O Novo Testamento não declara expressamente
que não estamos debaixo da Lei, mas debaixo da graça; que Cristo nasceu sob a Lei
para livrar seu povo dali em diante? Não é uma tentativa de intimidar a consciência do
homem com a autoridade do Decálogo uma imposição legalista, totalmente em
desacordo com a liberdade cristã que o Salvador trouxe pela sua obediência até a
morte?”. Respondemos assim: longe de a Lei ter sido abolida pela vinda de Cristo a
esse mundo, ele próprio declarou enfaticamente: “Não cuideis que vim destruir a lei ou
os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o
céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja
cumprido” (Mt 5.17, 18). É verdade, o cristão não está debaixo da Lei como uma
Aliança de Obras, nem como uma ministração de condenação, mas ele está debaixo
dela como uma regra de vida e um meio de santificação.
Segundo, consideremos suas singularidades. Isso aparece primeiro no fato de
que essa revelação de Deus no Sinai – a qual deveria servir para todas as eras
vindouras como a grande expressão de sua santidade e a soma dos deveres do homem –
foi acompanhada com tal fenômeno atemorizador que a própria maneira da sua
publicação mostrou claramente que Deus mesmo atribuiu ao Decálogo importância
peculiar. Os Dez Mandamentos foram pronunciados por Deus em voz audível, com o
acompanhamento amedrontador de nuvens e trevas, trovões e raios e o som de uma
trombeta, e foram as únicas partes da Divina Revelação assim pronunciadas – nenhum
dos preceitos cerimoniais ou civis foi assim distinto. Aquelas Dez Palavras, e somente
elas, foram escritas pelo dedo de Deus sobre tábuas de pedra, e somente elas foram
depositadas na arca santa para salvaguarda. Assim, na honra única conferida ao
Decálogo, podemos perceber sua grande importância no governo divino.
Terceiro, consideremos sua fonte, que é o amor. Pouquíssima ênfase tem sido
dada ao seu divino prefácio: “Então falou Deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o
SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão”. Não obstante a
grandeza assombrosa e majestade solene que acompanharam a promulgação da Lei, ela
teve seu fundamento no amor. A Lei procedia de Deus como uma clara expressão de
seu caráter, tanto como o gracioso Redentor como também o justo Senhor do seu povo.
A conclusão óbvia e o princípio importantíssimo que deve ser tirado dessa
compreensão é essa: a redenção necessita de conformidade ao caráter e à ordem de
Deus naqueles que são redimidos. Não apenas a dádiva do Decálogo por Deus foi um
ato de amor, mas o amor foi a base sobre a qual ele foi recebido pelo seu povo, e
somente assim poderia existir uma conformidade, e essencial similitude, entre um Deus
redentor e um povo redimido. As palavras finais do segundo mandamento, “faço
misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus
mandamentos” (ARA), deixam claro como cristal que a única obediência que Deus
aceita é a que provém de um coração afetuoso. O Salvador declarou que as exigências
da Lei se resumiam em amar a Deus de todo o nosso coração e ao nosso próximo como
a nós mesmos.
Quarto, consideremos sua perpetuidade. Que o Decálogo é uma obrigação para
todo homem em cada geração sucessiva é evidente a partir de muitas considerações.
Primeiro, como a expressão necessária e imutável da retidão de Deus, sua autoridade
sobre todos os agentes morais torna-se inevitável: o caráter do próprio Deus deve
mudar antes que a Lei (a regra do seu governo) possa ser revogada. Essa é a Lei que foi
dada ao homem na sua criação, da qual a sua subsequente apostasia não pôde livrá-lo.
A Lei Moral está fundamentada em relações que subsistem onde quer que haja criaturas
dotadas de razão e vontade. Segundo, o próprio Cristo prestou à Lei uma obediência
perfeita, deixando-nos, desse modo, um exemplo, que devemos seguir os seus passos.
Terceiro, o apóstolo dos gentios levantou especificamente a questão: “Anulamos, pois,
a lei pela fé?”, e respondeu: “De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei” (Rm
3.31). Finalmente, a perpetuidade da Lei aparece no ato de Deus escrevê-la no coração
do seu povo quando do seu novo nascimento (Jr 31.33; Ez. 36.26, 27).
Quinto, diremos uma palavra sobre o número dos mandamentos da Lei Moral,
dez sendo indicativo de sua completude. Isso é enfatizado na Escritura por serem
expressamente designados como “as dez palavras” (Êx 34.28, ARA), que indica que
formavam por si um todo constituído do necessário, e não mais que o necessário,
complemento de suas partes. Foi em razão desse significado simbólico do número que
as pragas sobre o Egito foram precisamente dez, formando como tal um círculo
completo de julgamentos divinos. E foi pela mesma razão que as transgressões dos
hebreus no deserto foram permitidas a prosseguir até que o mesmo número tivesse sido
alcançado: quando tinham pecado já “dez vezes” (Nm 14.21) encheram a medida das
suas iniquidades. Daí também a consagração dos dízimos ou décima parte: toda a
produção era representada por dez, e uma parte era separada para o Senhor, como sinal
de que tudo provinha dele e era dele.
Sexto, consideremos sua divisão. Como Deus nunca age sem uma boa razão,
podemos ter certeza de que ele tinha algum desígnio em escrever a Lei sobre duas
tábuas. Esse desígnio é evidente na superfície, pois a própria substância desses
preceitos, que juntos compreendem a soma da justiça, separa-os em dois grupos
distintos, o primeiro com respeito às nossas obrigações para com Deus, e o segundo as
nossas obrigações para com os homens; o primeiro tratando do que pertence ao culto de
Deus; o último, dos deveres de caridade em nossas relações sociais. Extremamente sem
valor é aquela justiça que se abstém de atos de violência contra o nosso próximo,
enquanto retemos da Majestade dos céus a glória que lhe é devida. Igualmente vão é
fingir ser adorador de Deus se nos recusarmos àqueles deveres de amor ao nosso
próximo. A abstenção da fornicação é mais do que neutralizada se eu, com blasfêmia,
tomo o nome do Senhor em vão, enquanto o mais formal dos cultos é rejeitado por ele
se eu roubar ou mentir.
Nem os deveres do culto divino ocupam a primeira tábua simplesmente porque
eles são, como Calvino designa, “a cabeça da religião”; mas, como ele corretamente
acrescenta, eles são “a sua própria alma, constituindo toda a sua vida e vigor”, pois
sem o temor a Deus, os homens não preservam nenhuma igualdade e amor entre si
mesmos. Se o princípio da piedade estiver ausente, seja qual for a justiça, misericórdia
e temperança que os homens possam praticar entre si, é vão aos olhos do céu; enquanto
que, se Deus ocupa o seu lugar de direito em nosso coração e vida, venerando-o como
o Árbitro do certo e do errado, isso nos constrangerá a tratar equitativamente o nosso
próximo. Opiniões têm variado sobre como as Dez Palavras foram divididas, se a
quinta terminava a primeira tábua ou começava a segunda. Pessoalmente, inclinamo-
nos, decididamente, à primeira: porque os pais se situam para nós no lugar de Deus
enquanto somos jovens; porque na Escritura os pais nunca são vistos como “próximo” –
em uma igualdade; e porque cada um dos cinco primeiros mandamentos contém a frase
“o SENHOR teu Deus”, que não é encontrada em qualquer dos cinco restantes.
Sétimo, consideremos sua espiritualidade. “A Lei é espiritual” (Rm 7.14) não
somente porque procede de um Legislador espiritual, mas porque demanda mais do que
a mera obediência de conduta externa, a saber, a obediência interna do coração na sua
maior extensão. É somente quando percebemos que o Decálogo atinge pensamentos e
desejos do coração que descobrimos o quanto existe em nós mesmos em direta
oposição a ele. Deus requer a verdade “no íntimo” (Sl 51.6) e proíbe o menor desvio
de santidade até nas nossas imaginações. O fato de a Lei tomar conhecimento das
nossas mais secretas disposições e intenções, demandar a santa regulação de nossa
mente, afeições e vontade, e exigir que toda a nossa obediência proceda do amor,
demonstra de imediato sua origem divina. Nenhuma outra lei jamais professou governar
o espírito do homem, mas aquele que sonda o coração exige nada menos. Essa alta
espiritualidade da Lei foi evidenciada por Cristo quando ele insistiu que um olhar de
cobiça era adultério e que a ira maligna era uma quebra do sexto mandamento.
Oitavo, consideremos seu ofício. A primeira utilidade da Lei Moral é revelar a
única retidão que é aceitável a Deus, e, ao mesmo tempo, revelar a nós a nossa falta de
retidão. O pecado tem cegado nosso julgamento, nos enchido de amor próprio, e
trabalhado em nós um falso sentido de nossa própria suficiência. Mas se nos
comparamos seriamente com as altas e santas demandas da Lei de Deus, ficamos
cientes da nossa insolência sem fundamento, convencidos de nossa imundície e culpa, e
feitos conscientes da nossa falta de força para fazer o que é requerido de nós. Calvino,
em suas Institutas da Religião Cristã (Livro II, Cap. 7, seção 7), diz: “Desta sorte, a
lei é como que um espelho no qual contemplamos nossa incapacidade, então resultante
desta a iniquidade, por fim a maldição proveniente de ambas”. Seu segundo uso é
reprimir os transgressores, os quais, ainda que não se preocupem com a glória de Deus
nem em agradá-lo, todavia se refreiam de muitos atos externos de pecado pelo medo de
sua terrível penalidade. Embora isso não os recomende a Deus, é um benefício para a
comunidade na qual eles vivem. Terceiro, a Lei é a regra de vida do crente, para dirigi-
lo e mantê-lo dependente da graça divina.
Nono, consideremos suas sanções. Não somente o Senhor nos trouxe sob
infinitas obrigações por nos haver redimido da escravidão do pecado, não somente tem
ele dado ao seu povo tal visão e sentimento de sua majestade inspiradora de temor,
como gerado neles uma reverência por sua soberania; mas ele foi servido de
providenciar persuasões adicionais para nós nos aquiescermos à sua autoridade,
cumprirmos alegremente sua ordenança, e termos aversão ao que ele proíbe, por
promessas e ameaças acrescentadas, dizendo: “Porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus
zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração
daqueles que me odeiam e faço misericórdia a milhares[14] dos que me amam e aos
que guardam os meus mandamentos”. Assim, somos informados de que aqueles que
cumprem os seus comandos não laborarão em vão, bem como os rebeldes não
escaparão impunemente.
E décimo e finalmente, consideremos sua interpretação. “Teu mandamento”,
diz o salmista, “é amplíssimo”[15] (119.96). Tão abrangente é a Lei Moral que sua
autoridade se estende a todas as ações morais de nossas vidas. O restante das
Escrituras é apenas um comentário sobre os Dez Mandamentos, quer nos estimulando à
obediência por meio de argumentos, persuadindo-nos por promessas, refreando-nos da
transgressão por ameaças, ou nos compelindo a um e refreando do outro por exemplos
registrados nas porções históricas. Corretamente compreendidos, os preceitos do Novo
Testamento são apenas explicações, amplificações e aplicações dos Dez Mandamentos.
Deveria ser cuidadosamente observado que nas coisas expressamente ordenadas ou
proibidas existe sempre implicado mais do que é formalmente declarado. Mas sejamos
mais específicos. Primeiro, em cada mandamento, o principal dever ou pecado é
tomado como representativo de todos os pecados ou deveres menores, e o ato público é
tomado como representativo de todas as afeições relacionadas. Seja qual for o pecado
especificamente nomeado, todos os pecados do mesmo gênero, com todas as suas
causas e provocações, são proibidos, pois Cristo explicou o sexto mandamento como
condenando não apenas o assassinato real, mas também a ira precipitada no coração.
Segundo, quando algum vício é proibido, a virtude oposta é prescrita, e quando alguma
virtude é ordenada, o vício contrário é condenado. Por exemplo, no terceiro
mandamento Deus proíbe o tomar seu nome em vão; portanto, por consequência
necessária, a santificação do seu nome é ordenada. E como o oitavo proíbe roubar,
então ele requer o dever oposto – ganhar o nosso sustento e pagar pelo que recebemos
(Ef 4.28).
1. O PRIMEIRO MANDAMENTO

“Então falou Deus todas estas palavras: Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei
da terra do Egito, da casa da servidão” (Êx 20.1, 2). Esse prefácio à Lei Moral deve
ser considerado como tendo igual referência a todos os Dez Mandamentos (e não ao
primeiro apenas), contendo como ele contém os mais pesados argumentos para reforçar
a nossa obediência a eles. Como é o costume de reis e governadores afixar seus nomes
e títulos antes dos editos por eles emitidos, para obter maior atenção e veneração ao
que publicam, assim também o grande Deus, o Rei dos reis, estando para proclamar
uma Lei aos seus súditos, para que pudesse afetá-los com uma reverência mais
profunda pela sua autoridade e fazê-los temer mais transgredir aqueles estatutos que são
decretados por tão poderosa Potestade e tão gloriosa Majestade, proclama seu augusto
Nome sobre eles.
O que exatamente acaba de ser apontado acima foi claramente estabelecido por
aquelas palavras de Moisés para Israel, que inspiram temor: “Para temeres este nome
glorioso e terrível, o SENHOR, teu Deus” (Dt 28.58). “Eu sou o SENHOR teu Deus”. A
palavra para “Senhor” é “Yahweh”, que é o Supremo, Eterno e autoexistente, a força do
qual é (como foi) soletrada para nós em aquele “que era, e que é, e que há de vir” (Ap
4.8). A palavra para “Deus” é “Eloim”, o plural de Eloá, pois embora ele seja um em
natureza, todavia é três em suas Pessoas. E esse Yahweh, o Supremo Objeto de culto, é
“teu Deus”, porque no passado ele foi teu Criador, no presente é o teu Soberano, e no
futuro será teu Juiz. Além do mais, Ele é o “Deus” dos seus eleitos por relação pactual,
e, portanto, seu Redentor. Assim, a nossa obediência à sua Lei é reforçada por essas
considerações: sua autoridade absoluta, gerando temor em nós – ele é “o SENHOR teu
Deus”; seus benefícios e misericórdias, produzindo amor em nós – “que te tirou da casa
(antitípica) da servidão”.
“[Tu] não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3) é o primeiro
mandamento. Vamos considerar rapidamente o seu significado. Notamos o seu número
singular: “tu” e não “vós”, dirigido a cada pessoa separadamente, porque cada um de
nós está em questão ali. “Não terás outros deuses” tem a força de tu não possuirás,
buscarás, desejarás, amarás ou cultuarás nenhum outro. Não terás “outros deuses”, eles
são chamados assim não porque sejam, quer por natureza ou ofício (Sl 82.6), mas
porque o coração corrupto dos homens os inventa e estima como tal – como em “o deus
deles é o ventre” (Fl 3.19). “Diante de mim” ou “minha face”, a força da qual é mais
bem constatada pela sua palavra a Abraão: “Anda em minha presença e sê perfeito” ou
“correto” (Gn 17.1) – conduza-se tendo em mente que você está sempre em minha
presença, que meus olhos estão continuamente sobre você. Isso é muito perscrutador.
Somos muito aptos a descansar contentes se pudermos apenas aprovar-nos a nós
mesmos diante dos homens e manter uma bela demonstração de piedade externamente;
mas Yahweh perscruta o mais íntimo do nosso ser e não podemos esconder dele
qualquer concupiscência secreta ou ídolo escondido.
Vamos, em seguida, considerar o dever positivo imposto por esse primeiro
mandamento. Numa breve afirmação, é isso: você escolherá, adorará e servirá a
Yahweh como teu Deus, e a ele somente. Sendo quem é – teu Criador e Rei, a Soma de
toda a excelência, o supremo Objeto de adoração – ele não admite rival e ninguém pode
competir com ele. Veja então a absoluta racionalidade desta demanda e a loucura de
infringi-la. Esse mandamento requer de nós uma disposição e conduta adequadas à
relação que temos com o Senhor como nosso Deus, que é o único objeto adequado do
nosso amor e o único capaz de satisfazer a alma. Requer que tenhamos um amor por ele
mais forte do que todas as outras afeições, que o tomemos como a nossa mais alta
porção, que o sirvamos e obedeçamos a ele supremamente. Requer que todos aqueles
serviços e atos de adoração que rendemos ao verdadeiro Deus sejam feitos com a mais
alta sinceridade e devoção (implicados no “diante de mim”), excluindo a negligência
de um lado e a hipocrisia do outro.
Ao apontar os deveres requeridos por esse mandamento não podemos fazer
melhor do que citar o Catecismo Maior de Westminster. “Os deveres exigidos no
primeiro mandamento são – o conhecer e reconhecer Deus como único verdadeiro Deus
e nosso Deus (1Cr 28.9; Dt 26.17, etc.), e adorá-lo e glorificá-lo como tal (Sl 95.6, 7;
Mt 4.10, etc.); pensar (Ml 3.16) e meditar (Sl 63.6) nele, lembrar-nos dele (Ec 12.1),
altamente apreciá-lo (Sl 71.19), honrá-lo (Ml 1.6), adorá-lo (Is 45.23), escolhê-lo (Js
24.15), amá-lo (Dt 6.5), desejá-lo (Sl 73.25) e temê-lo (Êx 14.31); crer nele, confiando
(Is 26.4), esperando (Sl 103.7), deleitando-nos (Sl 37.4) e regozijando-nos nele (Sl
32.11); ter zelo por ele (Rm 12.11); invocá-lo, dando-lhe todo louvor e agradecimentos
(Fl 4.6), prestando-lhe toda a obediência e submissão do homem todo (Jr 7.23); ter
cuidado de o agradar em tudo (1Jo 3.22), e tristeza quando ele é ofendido em qualquer
coisa (Jr 31.18; Sl 119.136); e andar humildemente com ele (Mq 6.8)”.
Aqueles deveres podem ser resumidos nesses principais. Primeiro, a busca
diligente e por toda a vida de um maior conhecimento de Deus como ele é revelado na
sua Palavra e obras, porque nós não podemos adorar um Deus desconhecido. Segundo,
o amor de Deus com todas as nossas faculdades e forças, que consiste de uma pintura
sincera dele, e profunda alegria nele, e um santo zelo por ele. Terceiro, o temor de
Deus, que consiste no respeito para com sua majestade, suprema reverência por sua
autoridade, e um desejo por sua glória: como o amor de Deus é o motivo inicial da
obediência, assim o temor de Deus é o grande dissuasor da desobediência. Quarto, a
adoração de Deus de acordo com as indicações dele, para a qual as principais ajudas
são essas: estudo e meditação da Palavra, oração, e por em prática o que nos é
ensinado.
“Não terás outros deuses diante de mim.” Isto é, não darás a qualquer um ou a
qualquer coisa no céu ou na terra que habite a confiança do coração, veneração em
amor, e dependência que é devida apenas ao verdadeiro Deus; não transferirás para
outro o que pertence somente a ele. Nem devemos tentar dividi-los entre Deus e algum
outro, porque nenhum homem pode servir a dois senhores. Os grandes pecados
proibidos por esse mandamento são esses: primeiro, uma ignorância desejada de Deus
e de sua vontade por desprezar aqueles meios pelos quais podemos nos relacionar com
ele; segundo, ateísmo ou negação de Deus; terceiro, idolatria ou o estabelecimento de
deuses falsos e fictícios; quarto, desobediência e vontade própria ou desafio aberto a
Deus; e quinto, todas afeições desordenadas e não moderadas ou o estabelecer de
nossos corações e mentes sobre outros objetos.
São idólatras e transgressores desse mandamento os que fazem um “deus” como
imaginado pelas suas próprias mentes. Tais são os unitarianos, que negam que existam
três Pessoas na Trindade. Assim são os católicos romanos, que suplicam à mãe do
Salvador e afirmam que o papa tem poder para perdoar pecados. Assim são a vasta
maioria dos arminianos, que creem em uma Divindade derrotada e desapontada. Tais
são os sensuais epicureus (Fl 3.19), porque existem ídolos internos bem como externos.
“Esses homens têm posto seus ídolos em seus corações” (Ez 14.3). O apóstolo Paulo
fala da “cobiça que é idolatria” (Cl 3.5) e, por raciocínio imparcial, são todos os
desejos imoderados. O objeto ao qual rendemos esses desejos e serviços que são
devidos somente ao Senhor é o nosso “Deus”, seja o que for: o ego, o ouro, a fama, o
prazer ou os amigos. O que é o nosso Deus? A que a nossa vida é devotada?
2. O SEGUNDO MANDAMENTO

“Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em


cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te
encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que
visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me
odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus
mandamentos” (Êx 20.4-6). Embora esse segundo mandamento esteja intimamente
relacionado ao primeiro, há, todavia, uma clara distinção entre eles, que pode ser
expressa de várias formas. Assim como o primeiro mandamento se refere à escolha do
verdadeiro Deus como o nosso Deus, o segundo trata da nossa verdadeira profissão de
sua adoração; assim como o primeiro fixa o objeto, esse fixa o modo da adoração
religiosa. Como no primeiro mandamento Yahweh havia se proclamado como sendo o
verdadeiro Deus, assim aqui ele revela a sua natureza e como deve ser honrado.
“Não farás para ti imagem de escultura… Não te encurvarás a elas nem as
servirás.” Este mandamento bate contra um desejo ou, deveríamos dizer, uma doença,
que está profundamente enraizada no coração humano, a saber, trazer alguma ajuda para
o culto de Deus além daquilo que ele indicou – ajuda material, coisas que podem ser
percebidas pelos sentidos. E não é difícil encontrar a razão para isso: Deus é
incorpóreo, invisível, e pode ser percebido somente por um princípio espiritual; e,
visto que esse princípio está morto no homem caído, ele naturalmente busca o que
esteja de acordo com a sua carnalidade. Mas como é diferente com aqueles que foram
vivificados pelo Espírito Santo! Ninguém que verdadeiramente conheça a Deus como
uma realidade viva precisa de qualquer imagem para ajudar nas suas devoções;
ninguém que goze de comunicação diária com Cristo exije quaisquer quadros dele para
ajudá-lo a orar e adorar, pois o concebe pela fé e não por fantasia.
“Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança”. Condenar
toda estatuária e pinturas é um manifesto reforço desse preceito: não é a esperteza de
fazer, mas a estupidez em adorá-las que é condenada – como está claro nas palavras
“não te encurvarás a elas”, e a partir do fato de que o próprio Deus logo após ordenou a
Israel: “Farás também dois querubins de ouro; de ouro batido os farás” para o
propiciatório (Êx 25.18) e depois a serpente de bronze. Visto que Deus é um ser
espiritual, invisível e onipotente, representá-lo como sendo de uma forma material e
limitada é uma falsidade e um insulto à sua majestade. Sob essa mais extrema
corrupção de modo – culto de imagem – todos os modos errôneos de homenagem divina
são aqui proibidos. O culto legítimo a Deus não pode ser profanado por nenhum ritual
de superstição.
Esse segundo mandamento nada mais é que a forma negativa de dizer: “Deus é
Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24).
Se for perguntado: quais são os deveres aqui requeridos? A resposta é: “O segundo
mandamento exige receber, observar e manter puros e completos todo culto religioso e
ordenanças como Deus instituiu em sua Palavra (Dt 32.46, 47; Mt 28.20; At 2.42; 1Tm
6.13, 14); particularmente, a oração e a ação de graças em nome de Cristo (Fp 4.6; Ef
5.20); a leitura, pregação e escuta da Palavra (Dt 17.18, 19; At 15.21; 2Tm 4.2, etc.); a
administração e recebimento dos sacramentos (Mt 28.19; 1Co 11.21-30); o governo e a
disciplina da igreja (Mt 18.15, 17; 16.19; 1Co 5); o ministério e manutenção disso (Ef
4.11, 12, etc.); o jejum religioso (1Co 8.5); o jurar em nome de Deus (Dt 6.13) e fazer
promessa a ele (Is 19.21; Sl 76.11); bem como a desaprovação, detestação e oposição a
todo culto falso (At 16.16, 17, etc.); e de acordo com o lugar de chamado da pessoa,
removê-la, e todos os monumentos de idolatria (Dt 7.5; Is 30.22)” – Confissão de Fé de
Westminster. A isso simplesmente acrescentaríamos: é requerida de nós uma diligente
preparação antes de entrarmos em qualquer exercício santo (Ec 5.1) e uma correta
disposição mental no ato em si. Por exemplo, não devemos ouvir ou ler a Palavra
apenas para satisfazer a curiosidade, mas para aprendermos como melhor agradar a
Deus.
Ao proibir as imagens, Deus, por paridade de raciocínio, proíbe todos os outros
modos e meios de culto não indicados por ele. Todas as formas de culto, mesmo ao
próprio verdadeiro Deus, que sejam contrárias ou diversas do que o Senhor prescreveu
na sua Palavra – que é chamado pelo apóstolo de “culto de si mesmo” (Cl 2.23, ARA)
–, juntamente com toda a corrupção do verdadeiro culto a Deus e todas as inclinações
do coração na direção de superstições no serviço de Deus são repreendidas por esse
mandamento. Nenhum espaço, seja qual for, é aqui permitido à faculdade inventiva do
homem. Cristo condenou a lavagem religiosa das mãos, porque era um acréscimo
humano aos regulamentos divinos. De maneira semelhante, esse mandamento denuncia a
paixão moderna pelo ritualismo (a eliminação da simplicidade no culto divino), como
também as virtudes mágicas atribuídas ou mesmo as influências especiais da Santa
Ceia, ainda mais o uso do crucifixo. Então ele também condena uma negligência do
culto de Deus, o deixar sem fazer o serviço que Deus tem ordenado.
As Escrituras estabelecem para nós limites para o culto, aos quais não podemos
adicionar nada nem diminuir. Na aplicação desse princípio, precisamos distinguir
exatamente entre os substanciais e os incidentais do culto. Qualquer coisa que os
homens procurem impor sobre nós como parte do culto divino, se não for
expressamente requerido de nós nas Escrituras – tais como dobrar os joelhos ao nome
de Jesus, fazer o sinal da cruz etc. – deve ser abominada. Mas se certas circunstâncias e
modificações do culto são praticadas por aqueles com quem nos encontramos, ainda
que não estejam expressamente mencionadas nas Escrituras, devemos nos submeter a
elas somente se tenderem à decência e ordem, e não distraírem da solenidade e
devoção do culto espiritual. Essa foi uma regra sábia ensinada por Ambrósio: “Se não
for ofender nem ser ofendido, conforme-se aos costumes legais das igrejas aonde
chegar”. É uma grave quebra desse mandamento se negligenciamos qualquer das
ordenanças do culto que Deus indicou. Tal é também se nos engajamos no mesmo
hipocritamente, com frieza de afeição, divagação da mente, falta de zelo santo ou com
descrença, honrando a Deus com os nossos lábios enquanto os nossos corações estão
longe dele.
Este mandamento é reforçado por três razões. A primeira é tirada da Pessoa que
pronuncia julgamento sobre aquelas que o quebram. Ele é descrito por seu
relacionamento, “teu Deus”; pela força de seu poder, porque a palavra hebraica para
“Deus” aqui é “o Forte”, capaz de vingar sua honra e punir todos os insultos; e por uma
similitude tomada do estado de união matrimonial, onde a infidelidade resulta em
punição sumária – ele é um “Deus zeloso”. É o Senhor falando da maneira que os
homens falam, intimando que não poupará aqueles que zombam dele. “Com deuses
estranhos o provocaram a zelos; com abominações o irritaram… A zelos me
provocaram com aquilo que não é Deus” (Dt 32.16-21ss).
Em segundo lugar, há a ameaça de um doloroso julgamento: “que visito a
iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me
odeiam”. “Que visito” é uma expressão figurativa, que significa que, após um espaço de
tempo, no qual Deus parece não ter tomado conhecimento ou se esquecido, ele então
mostra pela sua providência que ele tem observado os maus caminhos e feitos dos
homens. “Deixaria eu de castigar por estas coisas, diz o SENHOR, ou não se vingaria a
minha alma de uma nação como esta?” (Jr 5.9, e cf. 32.18; Mt 23.34-36). Isso foi
designado para deter o homem da idolatria por um apelo a suas afeições naturais. “A
maldição do Senhor repousa com justiça não somente sobre a pessoa de um homem
ímpio, mas também em toda a sua família” (J. Calvino). É uma coisa terrível passar
para os filhos uma falsa concepção de Deus, seja por preceitos ou por exemplos. A
penalidade infligida corresponde ao crime: não é apenas por que Deus castiga o filho
pelas ofensas cometidas pelos pais, mas por que ele os coloca na mesma transgressão e
então trata com eles nesses termos, porque o exemplo dos pais não é autorização
suficiente para que os filhos pequem.
Em terceiro lugar, há um bendito encorajamento à obediência, na forma de uma
promessa graciosa: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que
guardam os meus mandamentos”. Para o mesmo efeito, ele nos assegura: “O justo anda
na sua sinceridade; bem-aventurados serão os seus filhos depois dele” (Pv 20.7). O
amor a Deus é evidenciado pela guarda dos seus mandamentos. Os papistas afirmam
que o uso que eles fazem de imagens é com o objetivo de promover o amor, mantendo
uma imagem visível como uma ajuda; mas Deus diz que é porque eles o odeiam. Essa
promessa de mostrar misericórdia a milhares de descendentes daqueles que
verdadeiramente amam a Deus não expressa um princípio universal, como é claro nos
casos de Isaque tendo um Esaú ímpio, e Davi, um Absalão. “O Legislador nunca teve a
intenção de estabelecer nesse caso regra tão invariável, que o derrogaria de sua própria
livre escolha… Quando o Senhor exibe um exemplo dessa bênção, ele fornece uma
prova do seu constante e perpétuo favor aos seus adoradores” (J. Calvino). Observe
que aqui, como em outros lugares das Escrituras (p.ex.: Jd 14), Deus fala de “milhares”
(e não “milhões”, como fazem, com frequência, os homens) daqueles que o amam e que
manifestam a genuinidade do seu amor guardando os seus mandamentos. O seu rebanho
é “pequeno” (Lc 12.32). Que motivo para dar graças a Deus têm aqueles que são
nascidos de pais piedosos, cujos pais não entesouraram ira para eles, mas orações!
3. O TERCEIRO MANDAMENTO

“Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por
inocente o que tomar o seu nome em vão” (Êx 20.7). Como o segundo mandamento diz
respeito à maneira que Deus deve ser adorado (a saber, de acordo com a sua vontade
revelada); assim, esse nos ordena a cultuá-lo com aquela disposição de espírito que
seja compatível com a dignidade e solenidade de tal exercício e com a majestade
daquele com quem temos a ver: isto é, com a mais alta sinceridade, humildade e
reverência. “Para temeres este nome glorioso e temível, o SENHOR teu Deus” (Dt 28.58).
Ó, que altos pensamentos deveríamos abrigar de tal ser! Em que santo temor devíamos
nos manter diante dele! “O fim desse preceito é que o Senhor terá a majestade do seu
nome sustentada por nós como sendo inviolavelmente sagrada. O que quer que
pensemos e o que quer que venhamos a dizer dele deveriam ter o gosto de sua
excelência, corresponder ao sagrado sublime do seu nome, e tender à exaltação de sua
magnificência” (J. Calvino). Qualquer coisa pertinente a Deus deveria ser falada com a
maior sobriedade.
Esforcemo-nos, em primeiro lugar, em apontar o escopo e a abrangência desse
mandamento. Por o nome do SENHOR nosso Deus quer-se dizer Deus mesmo, como ele é
dado a conhecer a nós, incluindo todas as coisas por meio das quais ele foi servido
para se revelar: sua Palavra, seus títulos, seus atributos, suas ordenanças e suas obras.
O nome de Deus representa sua própria natureza e ser, como nos salmos 20.1 e 135.3,
João 1.12 etc. Às vezes, o nome de Deus é usado sem propor a nós uma finalidade
apropriada. E existem apenas duas finalidades que podem autorizar o nosso uso de
qualquer um dos seus nomes, títulos ou atributos: para a sua glória e para a nossa
própria edificação e de outros. Qualquer coisa além disso é frívolo e perverso, não
fornecendo base suficiente para fazermos menção de tão grande e santo nome, que é
cheio de glória e majestade. A menos que o nosso discurso seja designado para o
avanço da glória divina ou a promoção do benefício daqueles a quem falamos, não
temos justificativa para ter o nome inefável de Deus em nossos lábios. Ele se considera
altamente insultado quando mencionamos o seu nome para propósitos vãos.
O nome de Deus é tomado em vão por nós quando o usamos sem a devida
consideração e reverência. Sempre que fazemos menção daquele diante de quem os
serafins velam os seus rostos, deveríamos ponderar séria e solenemente sobre sua
infinita majestade e glória, e inclinarmos os nossos corações na mais profunda
prostração diante desse nome. Como podem aqueles que pensam e falam do grande
Deus promíscua e aleatoriamente, usar seu nome com reverência quando todo o resto do
discurso deles é cheio de tolices e vaidade? Esse nome não deve ser ostentado ou
jogado de lá para cá em línguas soltas. Ó, meu caro leitor, adquira o hábito de
considerar solenemente de quem é o nome que você está para pronunciar. É o nome
daquele que está presente com você, que está ouvindo você pronunciá-lo. Ele é zeloso
por sua honra, e vingar-se-á terrivelmente daqueles que o têm menosprezado.
O nome de Deus é usado em vão quando é empregado hipocritamente, quando
professamos ser o seu povo e não somos. O Israel de outrora foi culpado desse pecado:
“Ouvi isto, casa de Jacó, que vos chamais do nome de Israel, e saístes das águas de
Judá, que jurais pelo nome do SENHOR, e fazeis menção do Deus de Israel, mas não em
verdade nem em justiça” (Is 48.1). Eles usavam o nome de Deus, mas não obedeciam à
revelação nele contida, e assim violavam esse terceiro mandamento (cp. Mt 7.22, 23).
Quando usando o nome de Deus, devemos fazê-lo de um modo que seja verdadeiro ao
seu significado e às suas implicações. Portanto, ele nos diz: “E por que me chamais
Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?” (Lc 6.46). De maneira semelhante, somos
culpados desse horrível pecado quando desempenhamos deveres sagrados frívola e
mecanicamente, não estando neles as nossas afeições. Oração sem prática é blasfêmia,
e falar com Deus com os nossos lábios enquanto os nossos corações estão longe dele
não é outra coisa senão zombarmos dele e aumentar a nossa condenação.
O nome de Deus é tomado em vão quando juramos com leviandade e
irreverência, usando o nome de Deus com tão pouco respeito como demonstraríamos
pelo nome de um homem, ou quando juramos falsamente e somos culpados de perjúrio.
Quando nos colocamos em juramento e atestamos que é verdade aquilo que não
sabemos ser verdade, ou que sabemos ser falso, somos culpados de um dos mais graves
pecados que o homem pode cometer, pois chamou solenemente o grande Deus para
testemunhar aquilo que o pai da mentira o impulsionou a dizer. “E aquele que jurar na
terra, jurará pelo Deus da verdade” (Is 65.16) e, portanto, cabe a ele considerar bem se
o que ele testifica é verdade ou não. Ah! É lamentável que os juramentos tenham se
tornado tão excessivamente multiplicados entre nós – estando impregnados, por assim
dizer, no corpo político – e geralmente tão desdenhado, que a enormidade dessa ofensa
é escassamente considerada. “E nenhum de vós pense mal no seu coração contra o seu
próximo, nem ameis o juramento falso; porque todas estas são coisas que eu odeio, diz
o SENHOR” (Zc 8.17).
E o que se dirá daquela vasta multidão de juramentos profanos que poluem a
nossa linguagem e ferem os nossos ouvidos, por uma vil mistura de execrações e
blasfêmias em sua conversação comum! “A sua garganta é um sepulcro aberto…
peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; cuja boca está cheia de maldição e
amargura” (Rm 3.13,14). Extremamente vã é a irrefletida alegação deles de que não
pretendem fazer mal, vã suas desculpas de que todos os companheiros fazem o mesmo,
vão o argumento que é meramente para aliviar seus sentimentos! Que loucura é quando
homens enfurecem você, atacar Deus e provocá-lo bem mais que outros possam
provocar você! Mas ainda que os companheiros deles não os censurem, a polícia não
os prenda, nem o magistrado os castigue, todavia, “o SENHOR não terá por inocente o
que tomar o seu nome em vão”. “Visto que amou a maldição, ela lhe sobrevenha…
assim como se vestiu de maldição, como sua roupa, assim ela penetre nas suas
entranhas, como água, e em seus ossos como azeite” (Sl 109.17, 18). Deus é
terrivelmente inflamado por esse pecado, e, no exercício comum desse crime insultante
aos céus, a nossa terra tem incorrido em culpa terrível.
Tornou-se quase impossível andar pelas ruas ou andar em companhia misturada
sem ouvir o sagrado nome de Deus tratado com desprezo blasfemo. As novelas de hoje,
o teatro, e até o rádio (e mais ultimamente a televisão, o cinema e a imprensa) são
terríveis ofensores, e, sem dúvida, esse é um dos temíveis pecados contra ele, pelo qual
Deus está agora derramando seus julgamentos sobre nós. Há muito tempo ele disse a
Israel: “Porque… a terra chora por causa da maldição; os pastos do deserto se
secam; porque a sua carreira é má, e a sua força não é reta” (Jr 23.10). E ele ainda é o
mesmo: “o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”. Severo
castigo será a sua porção, se não nessa vida, com toda a certeza na eternidade, na vida
que está por vir.
4. O QUARTO MANDAMENTO
“Lembra-te do dia do sábado (Shabbath),[16] para o santificar. Seis dias
trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado (Shabbath) do SENHOR
teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo,
nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas
portas” (Êx 20.8-10). Esse mandamento denota que Deus é o SENHOR soberano do nosso
tempo, o qual deve ser usado e aproveitado por nós exatamente como ele aqui
especificou. Deve ser notado, cuidadosamente, que ele consiste de duas partes, que
estão interligadas. “Seis dias trabalharás” (e não ‘poderás trabalhar’) é tão
divinamente exigido de nós quanto “lembra-te do dia do Shabbath para o santificar”. É
um preceito que requer de nós diligência para cumprir aquela vocação e estado de vida
na qual a divina providência nos colocou, para desempenhar seus ofícios com cuidado
e consciência. A vontade revelada de Deus é que o homem trabalhe e não passe o seu
tempo a toa; que ele trabalhe não cinco dias na semana, mas seis.
Aquele que nunca trabalha está incapacitado para a adoração. O trabalho serve
para abrir caminho para a adoração, assim como a adoração nos prepara para o
trabalho. O fato que qualquer homem possa escapar à observância desta primeira
metade do mandamento é uma triste reflexão sobre a nossa ordem social moderna, e
mostra quão longe nos distanciamos do plano e ideal divino. Quanto mais diligentes e
fiéis formos ao desempenhar os deveres dos seis dias, mais valorizaremos o descanso
do sétimo. Assim será visto que a indicação do Shabbath não foi qualquer restrição
arbitrária sobre a liberdade do homem, mas uma provisão misericordiosa para o seu
bem: que ele foi planejado como um dia de alegria e não de melancolia. É a dispensa
graciosa do Criador nos livrando da nossa vida de labuta mundana por um dia em sete,
concedendo-nos um antegozo daquela vida futura e melhor diante da qual a presente não
é mais que uma provação, quando podemos nos voltar inteiramente daquilo que é
material para aquilo que é espiritual e, portanto, sermos equipados para pegar com
nova consagração e renovadas energias o trabalho dos dias seguintes.
Deveria ser assim bastante evidente que essa lei para regulamentação do tempo
do homem não era uma lei temporária, criada para alguma dispensação, mas é contínua
e perpétua no propósito de Deus: o Shabbath foi feito “para o homem” (Mc 2.27) e não
simplesmente para o judeu; ele foi feito para o bem do homem. O que foi mostrado
acima sobre as duas partes desse estatuto divino recebe clara e irrefutável confirmação
na razão dada para o seu reforço: “porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o
mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou” (v. 11). Observe bem o duplo
desdobramento disso: o augusto Criador dignou-se em apresentar um exemplo diante
de suas criaturas em cada aspecto: ele trabalhou por “seis dias”, e ele “ao sétimo dia
descansou”! Dever-se-ia também ser apontado que a indicação do trabalho para o
homem não é a consequência do pecado: antes da Queda – Deus o colocou “no jardim
do Éden para o cultivar e o guardar” (Gn 2.15, ARA).
A permanente natureza ou perpetuidade desse duplo mandamento é também
evidenciada pelo fato que nas razões acima mencionadas para seu reforço nada havia
que fosse particularmente pertinente à nação de Israel; pelo contrário, fala com voz de
trombeta a toda a raça humana. Além disso, a esse estatuto não foi dado um lugar na lei
cerimonial de Israel, que era para ser deixada quando Cristo tivesse dado cumprimento
aos seus tipos, mas na Lei Moral, que foi escrita pelos dedos do próprio Deus sobre
tábuas de pedra, para nos dar o significado de sua natureza permanente. Finalmente,
deve-se mostrar que os próprios termos desse mandamento deixam inequivocadamente
claro que ele não foi designado somente para os judeus, pois era igualmente obrigatório
para qualquer gentio que habitasse entre eles. Mesmo não estando eles em aliança com
Deus, nem debaixo da lei cerimonial, deles era exigido que guardassem o santo
Shabbath – “não farás nenhuma obra… nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas
portas” (v. 10)!
“O sétimo dia é o Shabbath do SENHOR teu Deus”. Note bem que não é dito
(aqui, ou em qualquer outro lugar das Escrituras) “o sétimo dia da semana”, mas
simplesmente “o sétimo dia”, ou seja, o dia seguinte aos seis de trabalho. Para os
judeus era o sétimo dia da semana, a saber, o sábado, mas para nós ele é – como o
“outro dia” que Hebreus 4.8 claramente declara – o primeiro dia da semana, porque o
Shabbath não apenas comemora a obra da criação, mas agora também celebra a ainda
maior obra da redenção. Assim, o SENHOR dispôs as palavras nesse quarto mandamento
de modo a se ajustarem a ambas as dispensações, e desse modo afirmar a sua
perpetuidade. O Shabbath cristão vai da meia noite de sábado à meia noite de
domingo: está claro a partir de João 20.1 que ele começa antes do nascer do sol e,
portanto, podemos concluir que começa na meia noite de sábado; enquanto de João
20.19 aprendemos (a partir do fato de que ele não é ali chamado “a noite do segundo
dia”) que continua durante a noite, e que a nossa adoração também deve continuar.
Mas embora o Shabbath cristão não comece até a meia noite de sábado, a nossa
preparação para ele deve começar mais cedo, ou de que outra maneira nós poderemos
obedecer à sua exigência expressa: “não farás nenhuma obra”? No Shabbath deve
haver um completo descanso durante todo o dia, não apenas de recreações naturais e de
fazer o nosso próprio prazer (Is 58.13), mas de toda atividade mundana. A esposa
necessita de um dia de descanso tanto quanto o marido, sim, sendo a “parte mais fraca”,
ainda mais. Coisas tais como mingau e sopa podem ser preparadas no sábado e
aquecidas no Shabbath, de modo que possamos estar inteiramente livres para nos
deleitarmos no SENHOR e nos entregar completamente à sua adoração e serviço. Vejamos
que não trabalhemos nem fiquemos acordados até tarde na noite de sábado, para não
transgredirmos o dia do SENHOR ficando até tarde na cama ou nos fazendo de sonolentos
para os santos deveres.
Esse mandamento deixa claro que Deus deve ser adorado no lar, o que, sem
dúvida, inculca a prática do culto doméstico. Ele é dirigido mais especificamente que
qualquer dos outros nove mandamentos aos chefes de famílias e empregadores, porque
Deus requer que eles vejam que todos que estão sob seu encargo observem o Shabbath.
Para eles, Deus diz mais diretamente: “lembra-te do Shabbath para o santificar”. Ele é
para ser estritamente posto de lado para a honra do Deus três vezes santo, gasto no
exercício de santa contemplação, meditação e adoração. Porque é o dia que ele fez (Sl
118.24), não podemos fazer nada para desfazê-lo. Esse mandamento proíbe a omissão
de qualquer dever exigido, um desempenho descuidado do mesmo, ou enfado neles.
Quanto mais fielmente guardarmos esse mandamento, mais preparados estaremos para
obedecer aos outros nove.
Três classes de trabalho, e somente três, podem se encaixar no “Shabbath
Santo”. Trabalhos de necessidade, que são aqueles que não poderiam ter sido feitos no
dia anterior e que não podem ser relegados para o dia seguinte – tais como cuidar do
gado. Trabalhos de misericórdia, que são aqueles que a compaixão requer que
desempenhemos para com outras criaturas – tais como ministrar aos doentes. Trabalhos
de piedade, que são o culto a Deus em público e em privado. Precisamos vigiar e lutar
contra as primeiríssimas sugestões de Satã para corromper os nossos corações, desviar
as nossas mentes ou nos perturbar nos deveres sagrados, pedindo, sinceramente, em
oração por ajuda para meditar sobre a Palavra de Deus para reter o que ele nos dá. O
SENHOR faz a sagrada observância do seu dia de bênção especial; e, contrariamente, ele
visita a profanação do Shabbath com especial maldição (veja Ne 13.17,18), como a
nossa terra culpada está provando agora do seu amargo custo.

“Um Shabbath bem gasto traz uma semana contente


E fortalece para os labores do amanhã;
Mas um Shabbath profanado, o que quer que possa ser ganho
É um certo precursor de desgraça”.
5. O QUINTO MANDAMENTO

Esse mandamento para honrar o pai e a mãe é muito mais abrangente em seu
escopo do que parece à primeira vista. Ele não deve ser restrito ao nosso pai e mãe
literal, mas deve ser aplicado aos nossos superiores. “O fim do preceito é que, uma vez
que o Senhor Deus deseja a preservação da ordem que ele indicou, os graus de
proeminência estabelecidos por ele deveriam ser inviolavelmente preservados. A soma
disso, portanto, será que deveríamos reverenciar aqueles a quem Deus exaltou com
qualquer autoridade acima de nós, e deveríamos a eles render honra, obediência e
gratidão… Mas, como esse preceito é excessivamente repugnante à depravação da
natureza humana, cujo desejo ardente de exaltação dificilmente admitirá submissão, ele
foi, portanto, proposto como um exemplo daquele tipo de superioridade que é
naturalmente mais amigável e menos odioso, porque isso poderia mais facilmente
abrandar e inclinar as nossas mentes para o hábito da submissão” (J. Calvino).
Para que nenhum dos nossos leitores – nessa era socialista e comunista, quando
a insubordinação e a ilegalidade é o mau espírito dos nossos dias – se oponha a essa
interpretação abrangente do mandamento, vamos ponderar as seguintes considerações.
Primeiro, “honra” pertence primária e principalmente a Deus. Secundariamente, e por
derivação, pertence também àqueles a quem ele dignificou e fez nobres em seu reino,
levantando-os sobre os outros, concedendo-lhes títulos e domínio sobre os demais.
Deveríamos reverenciar a esses tanto quanto reverenciamos nossos pais e mães. Nas
Escrituras, a palavra “honra” tem uma aplicação extensa, como se pode ver em 1
Timóteo 5.17; 1 Pedro 2.17 etc. Em segundo lugar, observe que o título “pai” é dado a
reis (1Sm 24.11; Is 49.23), mestres (2Rs 5.13), e ministros do evangelho (2Rs 2.12; Gl
4.19).
“Portanto não se deve duvidar que Deus deixou aqui uma regra universal para a
nossa conduta, a saber, que a cada um a quem sabemos ter sido colocado em autoridade
acima de nós por sua indicação, devemos render reverência, obediência, gratidão e
todos os outros serviços em nosso poder. Nem faz qualquer diferença se eles são
merecedores dessa honra ou não. Porque qualquer que seja o caráter deles, ainda não é
sem a indicação da providência divina que eles alcançaram aquela posição por conta
de o Supremo Legislador ter ordenado que fossem honrados. Ele ordena
particularmente reverência aos nossos pais, que nos trouxeram à essa vida” (J.
Calvino). Dificilmente é necessário ser dito que o dever reforçado aqui é de natureza
recíproca – aquele de inferiores implicando uma obrigação correspondente sobre os
superiores –; mas o espaço limitado nos obriga a considerar aqui somente os deveres
daqueles que estão sujeitos aos seus superiores.
Primeiro, consideremos os deveres dos filhos em relação aos seus pais. Eles
devem amá-los e reverenciá-los, sendo temerosos de ofendê-los devido ao respeito que
têm por eles. Uma veneração filial genuína deve atuar nos filhos, de modo que se
abstenham de qualquer coisa que possa entristecer ou ofender os seus pais. Os filhos
devem ser submissos a eles: veja o bendito exemplo que Cristo deixou (Lc 2.51). “Vós,
filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor” (Cl 3.20).
Após Davi ser ungido para o trono, ele ainda cumpriu as ordens de seu pai cuidando do
rebanho (1Sm 16.19). Eles devem dar ouvidos às instruções deles e imitar-lhes as
práticas piedosas (Pv 6.20). Sua linguagem deve ser sempre respeitosa e seus gestos
demonstrarem submissão. Embora José fosse altamente exaltado no Egito, ele
“inclinou-se à terra diante” de seu pai (Gn 48.12). E note como o rei Salomão honrou
sua mãe (1Rs 2.19). E tanto quanto sejam capazes e seus pais tenham necessidade, eles
devem sustentá-los na velhice (1Tm 5.16).
Em segundo lugar, observemos nossos deveres para com governadores e
magistrados, a quem Deus estabeleceu acima de nós. Esses são representantes e vice-
regentes de Deus, sendo investidos de autoridade vinda dele: “por mim reinam os reis”
(Pv 8.15). Deus ordenou a autoridade civil para o bem geral da humanidade, pois se
não fosse por isso, os homens seriam bestas selvagens saqueando-se uns aos outros. Se
o temor dos magistrados não restringisse aqueles que lançaram fora o temor de Deus, se
eles não estivessem amedrontados dos castigos temporais, estaríamos tão salvos entre
leões e tigres como estaríamos entre os homens. Os governantes devem ser honrados em
nossos pensamentos, tendo deles uma ideia de representantes oficiais de Deus sobre a
terra (Ec 10.20; Rm 13.1 e At 23.5); eles devem ser honrados em nossos discursos,
apoiando seu ofício e autoridade, porque do perverso está escrito: “não receiam
blasfemar das autoridades” (2Pe 2.10, ARC). Devemos obedecer a eles: “Sujeitai-vos
a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, quer às
autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para
louvor dos que praticam o bem” (1Pe 2.13, 14, ARA). Nós devemos render “a quem
tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra”
(Rm 13.7). E devemos orar por eles (1Tm 2.1, 2).
Em terceiro lugar, consideremos os deveres dos servos para com seus
senhores. Eles devem obedecer a eles. “Vós, servos, obedecei em tudo a vossos
senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos
homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus” (Cl 3.22). Eles devem ser
diligentes no dever, buscando promover o interesse dos seus senhores, “mostrando toda
a boa lealdade” (Tt 2.10; Ef 6.5-7). Eles devem sofrer pacientemente suas repreensões
e correções, “não sendo respondões” (Tt 2.9, ARA). Tão estritamente Deus impõe
sobre os servos uma submissão quieta aos seus senhores que, mesmo quando um servo
não deu motivo para uma repreensão, ainda assim deveria sofrer silenciosamente a
infundada ira do seu senhor. “Vós, servos, sujeitai-vos com todo o temor aos seus
senhores, não somente aos bons e humanos, mas também aos maus. Porque é coisa
agradável, que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos,
padecendo injustamente. Porque, que glória será essa, se, pecando, sois esbofeteados e
sofreis? Mas se, fazendo o bem, sois afligidos e o sofreis, isso é agradável a Deus”
(1Pe 2.18-20). Ó, a que distância temos nos desviado dos padrões divinos!
Finalmente, devemos mencionar os pastores e seus rebanhos, ministros e o seu
povo, porque entre eles também existe tal relação de superiores e inferiores, ficando
sob a direção desse quinto mandamento. “Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a
eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para
que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil” (Hb 13.17).
Cristo revestiu seus servos de tanta autoridade que ele declara: “Quem vos ouve a vós,
a mim me ouve; e quem vos rejeita a vós, a mim me rejeita; e quem a mim me rejeita,
rejeita aquele que me enviou” (Lc 10.16). Portanto, novamente: “Os presbíteros que
governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que
trabalham na palavra e na doutrina” (1Tm 5.17). Essa “duplicada honra” é aquela de
respeito e sustento. “E o que é instruído na palavra reparta de todos os seus bens com
aquele que o instrui” (Gl 6.6; 1Co 9.11). Como é solene essa advertência: “Eles,
porém, zombaram dos mensageiros de Deus, e desprezaram as suas palavras, e
mofaram dos seus profetas; até que o furor do SENHOR tanto subiu contra o seu povo, que
mais nenhum remédio houve” (2Cr 36.16).
A esse preceito é acrescentada essa promessa como um motivo e encorajamento
à obediência: “Para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR teu Deus te
dá”. Primeiro, como uma promessa do Antigo Testamento, essa deve ser considerada
como tipificando a vida eterna prometida pelo evangelho, visto que Canaã era uma
figura do céu. E, em segundo lugar, ela é repetida no Novo Testamento (Ef 6.2, 3 e 1Pe
3.10), visto que, frequentemente, o modo de Deus é prolongar uma vida obediente e
santa. E, em terceiro lugar, todas as promessas de bênçãos terrestres, contudo, implicam
necessariamente essa condição: elas serão literalmente cumpridas em nós se for para
promover a nossa eterna felicidade – de outro modo, seriam ameaças e não promessas.
Em sua misericórdia, Deus, com frequência, abrevia essa promessa e chama os seus
amados ao lar, para estar consigo.
6. O SEXTO MANDAMENTO
“Não matarás” (Êx 20.13). Nos primeiros cinco mandamentos, temos visto
como Deus salvaguarda a sua glória; nos cinco seguintes, contemplaremos como ele
providencia a segurança e o bem-estar dos homens: (1) para a proteção da pessoa do
homem; (2) para santidade e o bem de sua família (“não adulterarás”); (3) para a
segurança de sua propriedade e riquezas (“não furtarás”); (4) para a sua reputação ou
bom nome (“não dirás falso testemunho contra o teu próximo”). Finalmente, como uma
cerca forte envolvendo toda a Lei, Deus não apenas proíbe crimes externados, mas
impulsos íntimos maléficos em nossos pensamentos e sentimentos (“não cobiçarás”). É
a primeira dessas regulamentações que se relaciona especialmente com o nosso
próximo que vamos agora considerar: “não matarás”.
Esse sexto mandamento proíbe o bárbaro e desumano pecado do assassinato,
que é o primogênito do Diabo, que foi “homicida desde o princípio” (Jo 8.44). É o
primeiro crime sobre o qual lemos após a queda de Adão e Eva, por meio do qual a
corrupção transmitida aos seus descendentes foi pavorosamente demonstrada por Caim.
Seu rancor e inimizade incitaram-lhe para matar Abel, porque “as suas obras eram más
e as de seu irmão, justas” (1Jo 3.12). Mas esse mandamento não é restrito à proibição
do crime real de assassinato. Ele proíbe também todos os graus e causas de assassinato,
tais como ira e ódio irracional, difamação e vingança, e qualquer outra coisa que possa
prejudicar a segurança do nosso próximo ou nos tentar para que o vejamos perecer
quando estiver em nosso poder ajudá-lo e socorrê-lo.
Comecemos apontando que nem toda morte de um homem é assassinato. Não é
assim na execução da justiça, quando o magistrado sentencia o assassino, porque ele
está revestido de autoridade legal para condenar criminosos à pena de morte, e, se
falhar em fazer isso, Deus o acusará de pecado. “Quem derramar o sangue do homem,
pelo homem o seu sangue será derramado” (Gn 9.6). Essas palavras declaram o
princípio geral e imutável. “O teu olho não perdoará; vida por vida, olho por olho,
dente por dente, mão por mão, pé por pé” (Dt 19.21). Essa é a ordem de Deus ao
magistrado. Tampouco é o derramamento de sangue numa guerra justa passível de
acusação de assassinato. É legal pegar em armas contra um invasor ou para recuperar o
que foi injustamente levado. Dessa forma, Davi perseguiu os amalequitas que tinham
levado as suas esposas cativas. É legal também punir alguma grande injúria ou erro.
Davi fez guerra contra os amonitas por terem ultrajado os seus embaixadores (2Sm 10).
Como existem alguns que condenam essa afirmativa e denunciam toda guerra
como ilegal nessa dispensação cristã, nós salientemos que, quando os soldados vieram
ao predecessor de Cristo atrás de instrução dizendo “que faremos?” (Lc 3.14), ele não
disse “não lutem mais, abandonem as suas vocações”, mas lhes deu direções sobre
como deveriam se conduzir. Quando o centurião veio ao Salvador e extraiu argumentos
da sua profissão de militar, nosso Senhor não condenou a sua profissão, nem o reprovou
por ocupar tal cargo. Pelo contrário, ele elogiou muito a sua fé (Lc 7.8, 9). Quando
interrogado por Pilatos, Cristo declarou: “O meu reino não é deste mundo; se o meu
reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos
judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (Jo 18.36). Essas palavras implicam
claramente que, embora os meios carnais fossem impróprios para o avanço do reino
espiritual de Cristo, todavia, seu estado de humilhação não o havia impedido de
assumir o cetro real, e seus seguidores poderiam legalmente ter lutado para defender o
seu título.
Existe uma outra exceção, a saber, a morte acidental, à qual não cabe acusação
de assassinato, isto é, quando a vida é tirada sem qualquer intenção de fazê-lo. Nós
encontramos tal caso mencionado nas Escrituras, como quando cortando madeira o
machado escorregasse e, não intencionalmente, matasse alguém que estivesse perto (Dt
19.5). Para esses matadores inocentes, o Senhor indicou cidades de refúgio, onde
poderiam encontrar asilo seguro do vingador de sangue. Mas é bom chamar a atenção
para o fato de que devemos estar empenhados em coisas legais. De outro modo, se
estamos empenhados em coisas ilegais, e isso levar à morte de alguém, não poderemos
deixar de levar a culpa de assassinato (cf. Êx 21.22-24).
Consideremos em seguida os casos de assassinato. Suicídio é autoassassinato, e
é um dos crimes mais desesperados que podem ser cometidos. Porquanto esse crime
impede o arrependimento da parte de quem o perpetra, ele está além do perdão. Tais
criaturas são tão abandonadas por Deus que não podem se preocupar com a sua
salvação eterna, visto que passam para a presença imediata do seu Juiz com suas mãos
cheias do seu próprio sangue. Assim são os suicidas, porque eles destroem não apenas
o seu corpo, mas as suas almas também. O assassinato de outra pessoa é o crime mais
hediondo. Ele atormenta a consciência do seu perpetrador com remorsos horríveis, de
modo que ele próprio frequentemente se entrega à justiça. Aqueles que são assessores
são também culpados de assassinato, tal como os mandantes (2Sm 11.15; 12.9), ou que
consentem nisso (como Pilatos), ou ocultam (cf. Dt 21.6, 7, por clara implicação).
Esse mandamento não apenas proíbe a perpetração de assassinato; mas, do
mesmo modo, todas as causas e ocasiões que levem a ele. As principais delas são a
inveja e a ira. A inveja já foi bem descrita como “a ferrugem de uma alma cancerosa, o
vício nojento que transforma a felicidade alheia em miséria nossa”. Caim primeiro
invejosamente se lamentou do sucesso do sacrifício do seu irmão, e isso rapidamente o
induziu a matar. Assim, também, a ira injustificada e desordenada, se for abrigada no
coração, se transformará no veneno de um ódio implacável. Uma ira como essa não é
somente a causa, mas é verdadeiramente um tipo de assassinato, como é claro a partir
do ensinamento de Cristo em Mateus 5.21, 22.
Deveria ser salientado que a ira não é, como a inveja, simplesmente, e em si
mesma, ilegal. Existe uma ira virtuosa que, longe de ser pecado, é uma graça nobre e
digna de louvor (cf. Mc 3.5). Ser movido com indignação pela causa de Deus quando
sua glória é degradada, seu nome desonrado, seu santuário poluído e seu povo
caluniado, é uma ira santa. Existe também uma ira inocente e permitida quando somos
injustamente provocados por ofensas contra nós, mas aqui temos que estar muito em
guarda para “não pecar” (Ef 4.26). Uma ira viciosa e pecaminosa, que escurece o
entendimento e faz alguém agir como em frenesi, é uma que não tem causa e nem
limites. Jonas 4.1 dá uma ilustração de uma ira infundada. A ira é imoderada quando é
violenta e excessiva ou quando continua a ferver. “Não se ponha o sol sobre a vossa
ira” (Ef 4.26); se isso acontecer, a escória da malícia estará no seu coração na manhã
seguinte!
Para encerrar, vamos dar algumas regras para restringir e reprimir a ira. (1)
Trabalhe e ore por um espírito manso e humilde. Pense com humidade sobre você
mesmo e você não ficará irado se outros o menosprezarem. Toda contenda procede do
orgulho (Pv 3.10). Quanto menos orgulho você tiver, mais fácil será suportar o
desprezo dos outros. (2) Pense sempre na infinita paciência e indulgência de Deus.
Quantas afrontas ele leva de nós. Quão seguidamente damos a ele ocasião de estar
irado conosco; todavia, ele “não nos trata segundo os nossos pecados”. Que esse
grande exemplo seja nosso. (3) Cuidado com o preconceito contra alguém, pois isso,
certamente, fará que você interprete incorretamente as suas ações. Lute contra os
primeiros despontar da inveja e da ira; quando insultado, debite à ignorância ou à não
intencionalidade. (4) Afaste-se das pessoas cheias de ira (Pv 22.24, 25); o fogo se
espalha rapidamente.
7. O SÉTIMO MANDAMENTO
“Não adulterarás” (Êx 20.14). As virtudes da pureza são as bases das relações
domésticas. Como a família é o fundamento da sociedade humana, a classe de deveres
aqui envolvidos é secundária somente àquela que preserva a existência do homem.
Sendo assim, imediatamente seguindo o mandamento que declara a sacralidade da vida
humana, há esse preceito que é uma cerca em volta do mais alto relacionamento entre as
criaturas, salvaguardando assim a santa função da procriação da vida. Nada é mais
essencial para a ordem social que o relacionamento sobre o qual todos os outros estão
subsequentemente baseados, seja zelosamente protegido contra todas as formas de
ataque. O mandamento é uma simples, não qualificada e irrevogável, negativa: “Não
cometerás” (ARA). Nenhum argumento é usado, nenhuma razão é dada, porque nenhum
é requerido. Esse pecado é tão destrutivo e danoso que a mera menção do seu nome é
em si causa suficiente para essa dura proibição.
Esse mandamento notifica claramente que Deus exige o corpo tanto quanto a
alma para o seu serviço. “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que
apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o
vosso culto racional” (Rm 12.1). “Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo
mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências… se pelo Espírito mortificardes
as obras do corpo, vivereis” (Rm 6.12; 8.13). “Mas o corpo não é para a prostituição,
senão para o Senhor, e o Senhor para o corpo… Não sabeis vós que os vossos corpos
são membros de Cristo? Tomarei, pois, os membros de Cristo, e fá-los-ei membros de
uma meretriz? Não, por certo… glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso
espírito” (1Co 6.13, 15, 20). Para um cristão, esse pecado infame é um sacrilégio. “Ou
não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós,
proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1Co 6.19). Se Cristo ficou
indignado quando viu a casa de seu Pai transformada em covil de ladrões, quão mais
abominável aos seus olhos deve ser aquela perversidade que deprecia o templo do
Espírito Santo numa pocilga imunda!
“Não adulterarás”. Essa proibição foi preparada para guardar a santidade do
lar; pois, estritamente falando, “adultério” é um crime que somente uma pessoa casada
pode cometer – “fornicação” é o nome quando praticada por alguém solteiro. Como
aquele com quem temos a ver é inefavelmente puro e santo, portanto ele requer que nos
apartemos de toda a impureza. Esse mandamento diz respeito mais especialmente ao
governo das afeições e paixões, a guarda das nossas mentes e corpos numa disposição
tão casta que nada impuro ou indecente possa nos contaminar. Isso requer a disciplina
apropriada daquelas inclinações que Deus implantou para o progresso da espécie
humana. Portanto, devemos evitar tudo que possa ser ocasião para esse pecado, usando
todos os meios e métodos próprios para prevenir todas as tentações a ele.
O modo como Deus considera o pecado da impureza já ficou claro mediante
muitas passagens da sua Palavra. Esse pecado, mesmo da parte de um homem solteiro,
é chamado de grande maldade contra Deus (Gn 39.9). Então, quanto mais inescusável e
intolerável é ele por parte de uma pessoa casada! A punição temporal atribuída a ele
debaixo da lei civil de Israel era não menos que a morte, a mesma que era atribuída ao
assassinato. Jó o chama de “uma infâmia… fogo que consome até à perdição” (31.11,
12). Muito dessa perversidade é praticada em segredo; mas, embora os seus
perpetradores possam escapar ao julgamento dos homens, eles não escaparão ao
julgamento dos céus, porque está escrito: “aos que se dão à prostituição, e aos
adúlteros, Deus os julgará” (Hb 13.4). “Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras,
nem os adúlteros… herdarão o reino de Deus” (1Co 6.9, 10).
“O pecado do adultério dificilmente não é tão enorme quanto o de assassinato.
O último destrói a existência temporal do homem, e o primeiro destrói tudo que faz a
existência ser um benefício. Se todos adotassem a licenciosidade dos adúlteros, os
homens em pouco tempo seriam reduzidos à degradação das bestas selvagens” (R. L.
Dabney). Para prevenir esse pecado, Deus instituiu a ordenança do casamento. “Mas,
por causa da prostituição, cada um tenha a sua própria mulher, e cada uma tenha o seu
próprio marido” (1Co 7.2).[17] O pecado do adultério é, portanto, a violação da
aliança e voto do casamento, e assim acrescenta perjúrio à infidelidade. A imoralidade
é um pecado contra o corpo (1Co 6.18). O desprazer de Deus contra esse pecado é
visto no fato que ele ordenou as coisas de modo que a própria natureza visita o mesmo
com pesadas penalidades em todas as partes do complexo ser do homem. “Não erreis:
Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará.
Porque o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no
Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna” (Gl 6.7, 8).
Embora o casamento seja um remédio divinamente indicado para a impureza
sexual, isso não concede ao homem a licença para fazer de si mesmo uma besta. “Que
as pessoas casadas não venham a supor que todas as coisas são legalmente permitidas a
elas. Cada homem deveria observar a sobriedade para com a sua esposa, e cada
esposa, reciprocamente, para com o seu marido; ambos conduzindo-se de modo a nada
fazer que fique impróprio ao decoro e à temperança do casamento. Porque assim
deveria o casamento contraído no Senhor ser regulado pela moderação e modéstia, e
não partir para a lascívia mais vil. Tal sensualidade tem sido estigmatizada por
Ambrósio com uma severa – porém, não desmerecida – censura, quando ele chama
aqueles que em suas relações conjugais não têm contemplação com a modéstia de os
adúlteros de suas próprias esposas” (J. Calvino).
Que nenhum homem se gabe com a ideia de que não pode ser acusado de falta
de castidade, pois tem se abstido do ato propriamente dito, enquanto o seu coração é
uma cloaca de imaginações e desejos aviltantes. Porque a Lei de Deus é “espiritual”
(Rm 7.14), ela não somente proíbe os grosseiros atos externos de depravação, mas
também proíbe e condena a falta de castidade do coração – todas as imaginações e
pensamentos ilegais. Como existe o assassinato de coração, assim também existe o
adultério de coração, e aqueles que cometem impureza especulativa e prostituem seus
pensamentos e imaginações à impura aceitação da cobiça são culpados de transgredir
este mandamento: “Qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração
cometeu adultério com ela” (Mt 5.28). Portanto, descobrimos que o apóstolo não se
contentou em dizer que é melhor para o homem casar-se do que se contaminar com uma
prostituta, mas “é melhor casar do que abrasar-se” (1Co 7.9) – abrigar paixão
consumidora.
Ainda que o pecado de adultério seja mencionado sozinho nesse preceito, as
regras pelas quais esses mandamentos devem ser interpretados (cf. capítulos anteriores)
nos obrigam a entender que todas as outras espécies de impurezas são proibidas sob
essa desse grande pecado. Qualquer coisa que contamine o corpo é proibida aqui; o
adultério é expressamente mencionado porque todas as outras contaminações morais se
encaminham para ele. Pela maldade daquilo que todos os homens sabem ser errado,
somos exortados a abominar qualquer paixão ilegal. Como todas as maneiras de
castidade em nossos pensamentos, discursos e ações são ordenados pela perfeita regra
de Deus, assim qualquer coisa que seja no mínimo contrária e prejudicial a uma
castidade e modéstia sem mancha é proibida aqui. Qualquer outra união sexual, a não
ser aquela do casamento, é maldita aos olhos de Deus.
Esse mandamento proíbe todos os graus ou aproximações ao pecado que proíbe,
como olhar para cobiçar. Sua força é: “Tu de modo algum injuriará a castidade do seu
próximo ou o tentarás à impureza”. Isso requer que nos abstenhamos de vestimenta sem
modéstia, palavreado indelicado, intemperança na comida e na bebida que excitam as
paixões, e tudo que tenha qualquer tendência a induzir contra a castidade em nós
mesmos ou nos outros. Que os jovens especialmente fixem em suas mentes que toda a
conduta impura antes do casamento da parte do homem ou da mulher é um erro
cometido contra o casamento futuro. Mesmo que esse mandamento seja expresso na
forma de uma proibição negativa, ele ainda impõe positivamente todos os deveres
opostos, tais como a pureza do corpo, o preenchimento da mente com assuntos
sagrados, a colocação de nossas afeições nas coisas do alto e o uso do nosso tempo em
ocupações proveitosas.
Apresento algumas regras e sugestões para se evitar esse pecado: (1) Cultivar
um senso habitual da presença divina, percebendo que “os olhos do SENHOR estão em
todo lugar, contemplando os maus e os bons” (Pv 15.3). (2) Manter uma estrita
vigilância sobre os sentidos; pois, com muita frequência, esses são as avenidas que ao
invés de permitir a entrada de correntes agradáveis para refrescar, em geral deixam
entrar barro e lama para poluir a alma. Faça um pacto com os seus olhos (Jó 31.1).
Feche os seus ouvidos contra qualquer conversa obscena. Não leia nada que contamine.
Vigie os seus pensamentos, e trabalhe prontamente para expelir os que forem perversos.
(3) Pratique a sobriedade e a temperança (1Co 9.27). Aqueles que indulgem em
glutonaria e bebedice geralmente descobrem que seus excessos levam à cobiça. (4)
Exercite-se numa ocupação honesta e legal; está provado que a ociosidade é tão fatal a
muitos como a intemperança a outros. Evite a companhia do perverso. (5) Dedique-se
muito à oração fervorosa, implorando a Deus que limpe o seu coração (Sl 119.37)
“Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade
contra Deus?” (Tg 4.4). Isso se refere ao pecado do adultério espiritual: é o amor ao
mundo fazendo o coração estranho a Deus, as cobiças carnais atraindo a alma e
levando-a para longe dele. Há mais do que suficiente no próprio Deus para satisfazer,
mas ainda existe aquilo no crente que deseja encontrar sua felicidade na criatura.
Existem graus desse pecado, como é natural. Como pode haver adultério físico em
pensamento e desejo que não termina em ato consumado, assim o cristão pode
secretamente ansiar pelo mundo ainda que não se torne um completo mundano.
Devemos conferir essas inclinações quando os nossos corações são excessivamente
arrastados na direção de confortos e satisfações materiais. Deus é um Deus ciumento, e
nada o provoca mais que preferirmos coisas básicas antes que a ele próprio, ou dar a
outros aquela afeição ou estima que pertence a ele somente. Não abandone o seu
“primeiro amor” (Ap 2.4), não esqueça aquele com quem você está desposado (2Co
11.2).
8. O OITAVO MANDAMENTO
“Não furtarás” (Êx 20.15). A raiz da qual o roubo procede é o
descontentamento com a porção com que Deus tem concedido, e disto uma cobiça do
que ele vem retendo de nós e concedido a outros. Com sua usual acuidade, Calvino
acertou em cheio quando escreveu: “Essa lei é ordenada para os nossos corações tanto
quanto para as nossas mãos, de modo que o homem possa estudar tanto para proteger a
propriedade como promover o interesse de outros”. Como o anterior, esse preceito
também diz respeito ao governo das nossas afeições, ao colocar limites devidos aos
nossos desejos pelas coisas mundanas, para que não possam exceder o que a boa
providência de Deus determinou para nós. Por conseguinte, a conformidade daquela
oração: “Afasta de mim a vaidade e a palavra mentirosa; não me dês nem a pobreza
nem a riqueza; mantém-me do pão da minha porção de costume; para que, porventura,
estando farto não te negue, e venha a dizer: Quem é o SENHOR? Ou que, empobrecendo,
não venha a furtar, e tome o nome de Deus em vão” (Pv 30.8, 9).
“Não furtarás”. O dever positivo aqui nos impõe isso: tu preservarás por todos
os meios apropriados, e até além, tanto os seus bens como os do seu próximo. Esse
mandamento requer diligência e esforço apropriados para assegurar uma competência
em nós mesmos e nas nossas famílias, para que possamos não expor por meio das
nossas faltas nós mesmos e eles àqueles apuros que são a consequência da preguiça e
da negligência. Dessa forma, devemos procurar “as coisas honestas, perante todos os
homens” (Rm 12.17). Mas, ainda mais, esse mandamento é a lei do amor com respeito
aos bens do nosso próximo. Ele requer honestidade e retidão nos nossos negócios com
os outros, estando fundamentado sobre aquele primeiro princípio prático de toda a
conduta humana: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho
também vós” (Mt 7.12). Assim, esse mandamento coloca um sagrado cerco ao redor da
propriedade, na qual ninguém pode adentrar legalmente sem o consentimento do
proprietário.
O fato solene e impressionante que merece ser apontado é que o primeiro
pecado cometido pela espécie humana envolveu furto: Eva tomou (furtou) do fruto
proibido. Assim, também, o primeiro pecado registrado contra Israel depois que eles
entraram na terra de Canaã foi o de furto: Acã roubou de entre o espólio (Js 7.21). Da
mesma maneira, o primeiro pecado que contaminou a igreja cristã primitiva foi o
roubo: Ananias, com Safira, sua mulher, “reteve parte do preço” (At 5.2). Como é
frequente ser esse o primeiro pecado cometido externamente por crianças! E, portanto,
esse divino preceito deveria ser ensinado a elas desde a mais tenra infância. Há alguns
anos, visitamos uma família, e nossa anfitriã nos relatou como ela havia naquele dia
secretamente observado sua filha (com aproximadamente quatro anos de idade) entrar
num quarto onde estava um grande cacho de uvas. A criancinha olhou para elas cheia de
vontade, subiu na mesa e, então, disse: “Fora daqui, Satã. Está escrito: ‘Não furtarás’”,
e correu para fora do aposento.
“Não furtarás”. A mais alta forma desse pecado é quando ele é cometido contra
Deus, o que é sacrilégio. Na antiguidade, ele acusou Israel desse crime: “Roubará o
homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e
nas ofertas. Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, sim, toda esta
nação” (Ml 3.8, 9). Mas existem outras maneiras pelas quais essa transgressão pode ser
cometida além da recusa em sustentar financeiramente a causa de Deus sobre a terra.
Deus é roubado quando retemos a glória que a ele é devida, e somos ladrões espirituais
quando arrogamos para nós mesmos a honra e o louvor que só a ele pertencem. Os
arminianos são grandes transgressores aqui, atribuindo ao livre-arbítrio o que é
produzido pela livre graça. “Não me escolhestes vós a mim”, disse Cristo, “mas eu vos
escolhi a vós” (Jo 15.16) “Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus,
mas em que ele nos amou a nós” (1Jo 4.10).
Outra maneira pela qual roubamos a Deus é por um desempenho infiel da nossa
mordomia. O que Deus confiou a nós pode ser tão ultrajado por nosso mau
gerenciamento, como se estivéssemos interferindo nos negócios de alguém ou
saqueando os bens do nosso vizinho. Esse mandamento requer de nós que
administremos as nossas propriedades do mundo, sejam elas grandes ou pequenas, com
diligência suficiente para provermos para nós e aqueles que dependem de nós. A
preguiça é uma espécie de roubo. Ela faz o papel do zangão e leva o resto da colmeia a
nos sustentar. Assim, prodigalidade é também uma forma de roubo, visto que a
extravagância e o esbanjamento são desperdícios dos recursos que Deus nos deu
quando se vive desordenadamente. Aquele que permanece num emprego secular que
exige dele trabalhar no Dia do Senhor está roubando de Deus o tempo que deveria ser
devotado à sua adoração. Antes de continuar, deve ser apontado que aquele que entra
no ministério do evangelho sem ser chamado por Deus, pretendendo obter uma vida
fácil e confortável, é um “ladrão e salteador” (Jo 10.1).
“Não furtarás”. Propaganda enganosa é uma brecha nesse mandamento.
Comerciantes são culpados quando adulteram ou apresentam mal as suas mercadorias, e
também quando deliberadamente enganam os seus fregueses no peso ou no troco.
Exploração é outra forma de roubo. O apóstolo Paulo admoesta: “Ninguém oprima ou
engane a seu irmão em negócio algum” (1Ts 4.6). Contrair dívidas para sustentar
luxúria e vaidade é roubo, como também o é não conseguir pagar as dívidas
decorrentes da compra do essencial. Um homem que transfere uma propriedade para a
sua esposa exatamente antes de ir à falência é ladrão aos olhos de Deus, e assim
também o é qualquer falido que, mais tarde, prospere financeiramente e, então, não
pague seus credores integralmente. São ladrões o homem ou a mulher que empresta e
não devolve. Esse mandamento é quebrado pelos inquilinos que negligentemente
estragam a propriedade e móveis do locador. Sonegação no pagamento de impostos é
outra forma de roubo; Cristo nos deixou um exemplo melhor (Mt 17.24). Aposta é ainda
outra forma de roubo, pois por ela os homens obtêm dinheiro pelo qual não realizaram
nenhum trabalho honesto.
Esse velho adágio é verdadeiro: “O que quer que venha das costas do Diabo vai
para a barriga do Diabo”. Certo é que Deus manda uma maldição sobre o que é obtido
pela força ou fraude: é posto num saco furado e pela Providência logo desaparece.
Deus, pelo seu justo julgamento, geralmente transforma um pecado no castigador de
outro e o que é obtido pelo roubo é perdido pela intemperança e uma vida abreviada.
Por isso está escrito: “As rapinas dos ímpios os destruirão, porquanto se recusam a
fazer justiça” (Pv 21.7); e novamente: “Como a perdiz, que choca ovos que não pôs,
assim é aquele que ajunta riquezas, mas não retamente; no meio de seus dias as deixará,
e no seu fim será um insensato” (Jr 17.11). Muitas vezes, Deus levanta aqueles que
lidam com eles, da mesma forma que eles lidaram com os outros. O temível
crescimento desse crime na sociedade moderna é devido à falha em impor a punição
adequada. Se o leitor está consciente de ter defraudado alguém no passado, não é
suficiente confessar esse pecado a Deus. No mínimo, uma restituição dobrada deve ser
feita (Lc 19.8 e 2Sm 12.6) – se o lesado estiver morto, então aos seus descendentes; se
ele não tiver descendentes, então a alguma instituição de caridade pública.
Aqui estão umas poucas sugestões de ajuda para evitar os pecados proibidos e
para o desempenho daqueles deveres inculcados por esse oitavo mandamento. (1)
Engaje-se num trabalho honesto ou, se é uma pessoa de recursos, em alguma vocação
honrosa, buscando promover o bem público. As pessoas que nada fazem são tentadas a
causar dano. (2) Lute contra o espírito do egoísmo procurando o bem-estar dos outros.
(3) Combata a luxúria e a cobiça dando liberalmente aos que estão em necessidade. (4)
Se o seu Salvador foi crucificado entre dois ladrões para que o dom da salvação
pudesse ser seu, não traga nenhuma reprovação sobre o nome dele por algum ato de
desonestidade. (5) Cultive a graça do contentamento. Para isto, considere
frequentemente a vaidade de todas as coisas temporais, pratique a submissão à divina
providência, medite muito sobre as promessas divinas (tais como Hb 13.5, 6), seja
moderado em todas as coisas, coloque as suas afeições nas coisas do alto, e lembre-se
diariamente da sorte terrena de Cristo.
9. O NONO MANDAMENTO
“Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” (Êx 20.16). Tome essas
palavras simplesmente em seu valor nominal e elas proibirão apenas o horrível crime
de perjúrio ou o dar falso testemunho num tribunal. Mas o que é verdade quanto aos
mandamentos anteriores, também o é aqui: muito mais está implícito e inculcado do que
aquilo especificamente afirmado. Como temos tão frequentemente afirmado, cada um
dos Dez Mandamentos enuncia um princípio geral, e não apenas são proibidos todos os
outros pecados que estejam ligados ao nomeado e proibido, juntamente com todas as
causas e tendências a isso, mas a virtude oposta é definitivamente requerida, com tudo
que a alimenta e promove. Assim, em seu significado mais abrangente, esse nono
mandamento repreende qualquer palavra nossa que possa ferir a reputação do nosso
próximo, seja ela pronunciada em público ou em privado. Isso dificilmente precisaria
de qualquer argumentação, pois se restringirmos esse mandamento a seus termos
literais, ele não teria nenhuma influência sobre ninguém, salvo aquela pequena minoria
que é chamada a dar testemunho numa corte de justiça.
Em sua aplicação mais abrangente, esse mandamento tem a ver com o controle
do nosso falar, que é uma das faculdades distintivas e enobrecedoras que Deus
concedeu ao homem. As Escrituras nos dizem que “a morte e a vida estão no poder da
língua” (Pv 18.21), que “a língua benigna é árvore de vida” (Pv 15.4), e que uma
descontrolada é “um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal” (Tg
3.8). Que as nossas palavras não são para serem pronunciadas de maneira leviana ou
impensada fica claro por aquela inefável e solene afirmação de nosso Senhor: “Mas eu
vos digo que de toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia
do juízo. Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás
condenado” (Mt 12.36, 37). Ó, quanto precisamos de oração! “Põe, ó SENHOR, uma
guarda à minha boca; guarda a porta dos meus lábios” (Sl 141.3). Os deveres referentes
às nossas línguas podem ser resumidos em duas palavras: nosso falar deve ser sempre
verdadeiro e expresso em amor (Ef 4.15). Dessa forma, como o oitavo mandamento
providencia a segurança da propriedade do nosso próximo; assim, o nono é designado
para preservar seu bom nome pelo nosso falar a verdade sobre ele em amor.
Negativamente, esse nono mandamento proíbe todo pronunciamento falso e
injurioso quanto ao nosso próximo; positivamente, ele inculca a conservação da
verdade. “O fim desse preceito é que, porque Deus, que é a própria a Verdade, execra
uma mentira, deveríamos preservar a verdade sem o mínimo engano” (J. Calvino).
Veracidade é a estrita observância da verdade em todas as nossas comunicações. A
importância e a necessidade disso aparecem a partir do fato de que quase tudo que a
humanidade sabe é derivado das comunicações. O valor daquelas declarações que
aceitamos dos outros depende inteiramente da sua veracidade e exatidão. Se elas forem
falsas, são sem valor, enganosas e maléficas. Veracidade não é apenas uma virtude, mas
é também a raiz de todas as outras virtudes e o fundamento de todo caráter reto. Nas
Escrituras, portanto, “verdade” é sempre sinônimo de “retidão”. O homem piedoso é
aquele que “fala a verdade no seu coração” (Sl 15.2). O homem que “pratica a
verdade” (Jo 3.21) cumpriu o seu dever. É pela verdade que o Espírito Santo santifica a
alma (Jo 17.17).
A forma positiva desse nono mandamento é encontrada nessas palavras: “Falai
a verdade cada um com o seu próximo” (Zc 8.16). Assim, o primeiro pecado proibido é
o da mentira. Ora, uma mentira propriamente dita consiste de três elementos ou
ingredientes: falar o que não é verdade; deliberadamente fazê-lo; e fazê-lo com uma
intenção de enganar. Nem toda falsidade é uma mentira; podemos estar mal informados
ou enganados, e sinceramente pensar que estamos afirmando fatos e, consequentemente,
não temos nenhuma intenção de enganar aos outros. Por outro lado, nós podemos narrar
o que é verdade, e ainda mentir ao fazê-lo, como nos seguintes exemplos: poderíamos
relatar o que é verdade, e, todavia, crer ser uma mentira, proferindo tal coisa com o
intuito de enganar; ou poderíamos mencionar as palavras figuradas de outra pessoa, e
fingir que ela quis dizer literalmente, como foi o caso com aqueles que deram falso
testemunho contra Cristo (Mt 20.60). A pior forma de mentira (entre os homens) é
quando, maliciosamente, nós inventamos uma falsidade com o propósito de prejudicar a
reputação do nosso próximo, que é o que está mais especialmente em vista nos termos
do nono mandamento.
Quão vil e abominável esse pecado se torna visível a partir das seguintes
considerações. É um pecado que faz uma pessoa mais parecida com o Diabo. O Diabo
é espírito e, portanto, pecados grosseiramente carnais não correspondem à sua natureza.
Seus pecados são mais refinados e intelectuais, tais como orgulho, malícia, engano e
falsidade. Ele “é mentiroso, e pai da mentira” (Jo 8.44), e quanto mais malícia entra na
composição de qualquer mentira, mais proximamente alguém se assemelha a ele. Tal
pecado é, portanto, o mais contrário à natureza e caráter de Deus, porque ele é o
“SENHOR Deus da verdade” (Sl 31.5), e por isso somos informados de que “os lábios
mentirosos são abomináveis ao SENHOR” (Pv 12.22). Como Satanás é um mentiroso e o
pai da mentira, e como Deus é o SENHOR Deus da verdade, assim seus filhos se
assemelham a ele nisso: “eles são meu povo, filhos que não mentirão” (Is 63.8). Deus
tem ameaçado o mais atemorizante castigo sobre “todos os mentirosos, a sua parte será
no lago que arde com fogo e enxofre” (Ap 21.8).
Ah! A que alturas terríveis esse pecado tem subido. Ele tem se tornado tão
comum que poucos têm qualquer consciência sobre isso, a ponto de termos de lamentar
que “a verdade anda tropeçando pelas ruas” (Is 59.14). Primeiro, a verdade se apartou
dos púlpitos. Todo um século se passou desde que a mentira da evolução cativou o
mundo científico e foi abraçada por milhares de pregadores não regenerados – uma
mentira que golpeia os próprios alicerces da verdade, pois repudia a queda do homem,
e põe de lado tanto a sua necessidade de redenção como de regeneração. Pela mesma
extensão de tempo o assim chamado “alto criticismo” de neologistas alemães tem sido
espalhado através dos países de fala inglesa por milhares de ministros ímpios, que
querem ser olhados como homens de intelectualidade superior. Uma vez que a verdade
se separou dos púlpitos, não demorou muito para que ela desaparecesse das casas
legislativas e dos centros comerciais, até que agora vivemos num mundo onde a
confiança entre as nações não existe, e onde a palavra dos nossos companheiros não é
mais para ser confiada.
Quão profundamente importante é, então, que um sagrado respeito pela verdade
fosse constantemente enfatizado entre os jovens, e que eles fossem ensinados que a
mentira é a entrada para todos os vícios e corrupção. Igualmente importante é que
aqueles que são encarregados dos jovens, particularmente seus pais, deveriam firmar
diante dos pequenos o exemplo pessoal do que eles ensinam, e não neutralizar o mesmo
fazendo promessas a eles que deixam de cumprir ou proferindo ameaças que nunca
levarão a efeito. Por sabedoria e prudência, cada um de nós deveria ser muito lento em
fazer uma promessa incondicional; mas, uma vez feita, deve ser mantida a qualquer
custo, a menos que mantê-la nos leve a pecar contra Deus. A proibição de dar falso
testemunho contra meu próximo igualmente me proíbe de dar falso testemunho sobre
mim mesmo, o que é feito quando faço pose de mais santo do que sou, ou quando
pretendo ser mais humilde, ou mais qualquer outra coisa que não seja realmente o caso.
Resta para nós afirmar que podemos violar esse nono mandamento até quando
falamos a verdade, se a falamos de maneira desnecessária e por motivos não
apropriados. “Nós ferimos o caráter do nosso próximo quando contamos suas faltas
verdadeiras, quando não há nenhuma necessidade de divulgá-las, quando as relatamos
àqueles que não têm nenhum direito de sabê-las, e quando a contamos não para
promover qualquer benefício final, mas para fazê-lo perder a sua estima na
sociedade… Mais ainda, transgredimos esse preceito até quando não falamos, ao
manter a nossa paz quando algo injurioso é dito sobre alguém e damos tacitamente o
nosso consentimento, ocultando o que sabemos ser o contrário” (John Dick). Bajular
uma pessoa é outra forma de violar esse preceito. Cumprimentar outra pessoa
meramente pelo ato de agradá-la ou gratificar a sua vaidade é perjurar sua alma e
colocar em perigo a sua segurança. Assim, também, dar um falso testemunho de caráter
ou recomendar um amigo a outro, quando sabemos que ele não merece esse testemunho,
é dar “falso testemunho”.
As seguintes orientações, por meio da graça de Deus, podem ser úteis para
preservar alguém desses pecados comuns. (1) Não seja influenciado por espírito
partidário a difamar outras pessoas. O espírito de sectarismo cria preconceito, e o
preconceito nos tira a vontade de receber e reconhecer o que é bom naqueles que
andam conosco, e nos deixa prontos para acreditar no pior sobre eles. Quão
frequentemente os escritores são culpados aqui. A intolerância denominacional tem sido
a causa de muitos homens interpretarem erroneamente alguém que difere deles e
imputar a este erros que ele não sustenta. (2) Não se ocupar dos negócios alheios; cuide
dos seus próprios negócios e deixe o dos outros para que Deus tome conta. (3) Reflita
mais sobre sua própria pecaminosidade e fraqueza. Em vez de estar tão pronto a ver o
cisco no olho do seu irmão, leve em conta a trave que está no seu. (4) Evite a
companhia de contadores de casos e tagarelas; fofocas ociosas são injuriosas para a
alma. (5) Se outros o caluniam, certifique-se de ter uma consciência vazia de ofensa
para com Deus e os homens, e, então, você não importará o que os outros pensem ou
digam sobre você.
10. O DÉCIMO MANDAMENTO
“Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo,
nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma
do teu próximo” (Êx 20.17). O que está proibido aqui é a concupiscência ou um desejo
ilegal pelo que é de outro homem. Em nossa exposição dos mandamentos anteriores,
temos apontado que, embora seus verdadeiros termos estejam confinados à proibição
de atos exteriores, todavia, o escopo de cada um engloba e alcança a condenação de
tudo o que tenha qualquer tendência ou chance de levar ao crime manifesto. Neste
preceito final do Decálogo, encontramos clara confirmação do mesmo, porque nele
Deus expressamente impõe uma lei sobre os nossos espíritos, proibindo-nos de cobiçar
tudo quanto ele tenha nos proibido de perpetrar. A melhor maneira de evitar que os
homens cometam o pecado em ação é evitar que o desejem no coração. Dessa forma,
embora a autoridade de cada um dos nove primeiros mandamentos alcance a mente e os
intentos mais secretos da alma, todavia o SENHOR achou apropriado afirmar clara e
literalmente isso no décimo, onde ele, especificamente, repreende os primeiros
impulsos de nossos corações em direção a qualquer objeto que ele tenha cercado, e,
portanto, é o vínculo que fortalece o todo.
A concupiscência vil consiste daqueles pecados secretos e internos que estão
diante do consentimento da vontade e que são as sementes de todo o mal. A
concupiscência ou cobiça é o primogênito da depravação interna, as primeiras
manifestações e expressões da nossa natureza corrompida. Ela é uma violenta
propensão e inclinação para o que é mal, para aquilo que é contrário à santa vontade e
mandamento de Deus. A alma do homem é uma criatura vigorosa e operativa, sempre
externando atividades típicas de sua natureza. Antes da Queda, a alma do homem era
atraída a Deus como seu supremo objeto e fim de toda sua ação; mas, quando o homem
apostatou e se virou de Deus como seu único bem ou porção satisfatória, sua alma se
tornou enamorada da criatura. Dessa forma, a alma do homem caído, estando destituída
da graça divina e da vida espiritual, deseja objetos pecaminosos desprezando a Deus, e
desordenadamente cobiça coisas que em si mesmas são inofensivas, mas se tornam más
porque ele nem as recebe como provenientes de Deus, nem as usa para a sua glória.
Concupiscência, então, é aquela disposição irregular da alma que aqui é denominada de
“cobiça”.
O puritano Ezekiel Hopkins (a quem estamos em débito pela maior parte desse
capítulo, bem como por muitos pontos úteis nos precedentes) tem apontado que existem
quatro graus dessa pecaminosa concupiscência ou cobiça. Existe a primeira imagem ou
sombra de um pensamento mau, o embrião imperfeito de um pecado antes que ele tome
forma em nós ou tenha qualquer característica ou traço. Isso é ao que a Escritura se
refere como “toda a imaginação dos pensamentos” do coração humano. Tais
imaginações são expressamente declaradas como sendo “más” (Gn 6.5). Tais são as
primeiras manifestações da nossa natureza corrupta em direção àqueles pecados que
agradam as nossas inclinações sensuais. Elas devem ser firmemente vigiadas, odiadas e
resistidas. Elas devem ser pisoteadas como as faíscas de um fogo perigoso, porque tão
logo comecem a se agitar dentro de nós, poluem as nossas almas. Assim como o hálito
sobre o espelho o embaça, deixando ali um ofuscamento, assim o primeiríssimo
respirar de um mau desejo ou pensamento dentro do peito de alguém corrompe a alma.
Um degrau seguinte dessa concupiscência é alcançado quando esses maus
impulsos da nossa natureza corrompida são acolhidos na mente com algum grau de
complacência. Quando um objeto pecaminoso se apresenta diante de um coração carnal,
há uma resposta interna que afeta esse coração com deleite e gera uma simpatia entre
ele e o objeto. Como num caso de simpatia natural, um homem frequentemente se agrada
de um objeto antes que saiba a razão, o porquê se agrada; assim, também, numa
situação de simpatia ou resposta pecaminosa, o coração é ligado ao objeto antes que
tenha tempo de considerar o que há nesse objeto que tanto o mova e afete. À primeira
vista de uma pessoa, nós, muitas vezes, achamos que estamos mais atraídos por ela do
que por uma multidão de outras, ainda que todos possam ser igualmente desconhecidos
por nós. Dessa forma, o primeiríssimo vislumbre de um pensamento pecaminoso em
nossas mentes revela que existe algo em nós que gera uma consideração pelo mesmo,
antes que tenhamos tempo para examinar o porquê é assim. Essa segunda forma ou grau
de concupiscência é mais difícil de lançar fora que a anterior.
Se tais impulsos do mal são acolhidos por nós, um consentimento e uma
aprovação do pecado seguem no julgamento prático da pessoa, o qual, sendo cegado e
carregado pela força de afeições corruptas e carnais, recomenda o pecado à faculdade
executiva. O entendimento é o examinador de cada ação deliberada, de modo que nada
passa para a ação que não tenha primeiro sido julgado ali. A grande questão ponderada
é se essa ou aquela ação é para ser feita, e todas as faculdades da alma esperam qual
será a sentença definitiva aqui pronunciada e, dessa forma, realizada. Normalmente,
duas testemunhas aparecem e apelam para o entendimento ou julgamento sobre o
pecado: a Lei de Deus e o vice-gerente de Deus, a consciência. A Lei condena e a
consciência cita a lei. Mas, então, as afeições se intrometem e subornam o juiz com
promessas de prazer ou lucro, por esses meios corrompendo o julgamento para dar seu
voto e consentir no pecado. Observe como tudo isso recebe ilustração no diálogo entre
Eva e a serpente, antes que ela partilhasse do fruto proibido.
Quando qualquer impulso pecaminoso tem assim assegurado uma concessão do
julgamento, ele se transforma num decreto para a vontade. O entendimento tendo-o
aprovado, a vontade deve agora decidir executá-lo; e, então, o pecado está
completamente formado no interior e nada falta, a não ser a oportunidade para dá-lo a
luz em ação aberta. “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua
própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o
pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” (Tg 1.14, 15). Assim, temos
tentado demonstrar o que a concupiscência ou a cobiça são, e os diversos graus dela: o
primeiro borbulhar dos pensamentos pecaminosos em nossos corações; nossos
primeiros deleites nos mesmos (e não amar esses primogênitos das nossas próprias
almas é completamente contra a natureza corrompida); o assentimento e a permissão do
nosso julgamento; e a decisão da nossa vontade. Cada um desses está expressamente
proibido pelo décimo mandamento. E se o pecado for mais adiante, ele excede os
limites desse mandamento e cai na proibição de algum dos anteriores, que proíbe mais
especificamente os atos externos do pecado.
Esse preceito final, então, declara seu solene protesto contra o pecado na vida
íntima. Nisto podemos contemplar e adorar o ilimitado domínio ou soberania do grande
Deus. Ele proclama seus direitos sobre a esfera oculta dos desejos. Sua autoridade
alcança a alma e a consciência e lança uma obrigação sobre os nossos pensamentos e
imaginação, que nenhuma lei humana pode fazer. Seria vão para os homens impor
estatutos sobre aquilo de que eles não podem tomar conhecimento, e, portanto, nossos
desejos e cobiças estão livres das censuras deles, exceto quando descobrem por si só
pelos atos externos. Mas, embora escapem à percepção e mandamento dos homens, não
escaparão, todavia, ao escrutínio e sentença de Deus, pois ele não vê como os homens
veem nem julga como os homens julgam. Os segredos de todos os corações estão
abertos e nus diante dos seus olhos; nem o mínimo alento de um desejo pode agitar em
nossas almas que não seja mais distintamente visível para ele do que o brilho do sol ao
meio-dia o é para nós.
A Lei de Deus, como o seu conhecimento, alcança o mais secreto recesso da sua
alma, perscruta cada canto do seu coração, julga aquelas cobiças que nenhum olho
humano pode espiar, e se elas são abrigadas e aprovadas, condenam o homem como
transgressor e merecedor da morte eterna, não importa quão agradável a sua conduta
externa possa ser. Então, quão vão é para nós nos contentarmos com uma conformidade
externa à Lei de Deus! Como deveríamos trabalhar para aprovar os nossos corações
em sinceridade e pureza diante de Deus; de outro modo, não somos mais que fariseus
hipócritas, que lavam apenas o exterior do copo, enquanto dentro continuamos cheios
de desejos impuros. Quantos existem que supõem que a Lei de Deus alcança apenas o
homem externo e que, mesmo abrigando e acariciando desejos perversos e propósitos
malignos em seus corações, contanto que esses desejos não se deixem ver em crimes
externos, não serão acusados por eles. Mas o Dia do Juízo mostrará que a verdade é
muito diferente. Quão poucos são os que refletem sobre os pecados do coração! Quão
poucos oram “Expurga-me tu dos que me são ocultos”! Não vos enganeis, Deus não se
deixa escarnecer, e ele não pode ser ludibriado por demonstrações externas.
Veja aqui a sabedoria de Deus em colocar esse mandamento no encerramento do
Decálogo, pois ele é uma cerca e guarda para todo o resto. É a partir das
contaminações internas da alma que todos os nossos pecados visíveis em palavras e
atos têm a sua ascensão. Toda a quebra do dia de descanso procede do desassossego
que é nascido do desejo pecaminoso. “Porque do coração procedem os maus
pensamentos, mortes, adultérios” etc. (Mt 15.19). Observe bem que Cristo coloca
“maus pensamentos” na frente, como o líder desse regimento vil! “Não cobiçarás”. Não
porás o seu coração sobre, nem terás a menor ânsia por aquilo que pertence a outro.
Alguém em objeção poderá dizer: “É impossível prevenir o desejo por aquilo que
admiramos”. É bem verdade; entretanto, nesse fato é revelada a condição caída do
homem e a perversidade desesperada de seu coração. Que tal desejo é pecaminoso e
danoso é descoberto somente à luz desse mandamento. Aquele que honestamente encara
esse preceito final do Decálogo deve ser convencido de sua pecaminosidade e levado a
reconhecer a sua desesperança, ou a perdição será o destino final. Deus nos deu sua
Santa Lei para que possamos ver o absoluto desespero do nosso caso, se formos
entregues a nós mesmos. Isso ele fez para nos levar até Cristo e à magnitude de sua
graça para com os pecadores arrependidos. E é no seu amado Filho, que obedeceu
perfeitamente a Lei, que o Pai se agrada!
APÊNDICE: UMA PALAVRA AOS PAIS
Uma das mais infelizes e trágicas características de nossa civilização é a
excessiva desobediência aos pais por parte dos filhos, quando menores, e a falta de
reverência e respeito, quando grandes. Infelizmente, isto se evidencia de muitas
maneiras, inclusive em famílias cristãs. Em nossas abundantes viagens nestes últimos
trinta anos, fomos recebidos em muitos lares. A piedade e a beleza de alguns deles
ainda permanecem em nossos corações como agradáveis e singelas recordações. Outros
lares, porém, nos transmitiram as mais dolorosas impressões. Os filhos obstinados ou
mimados não apenas trazem para si mesmos infelicidade perpétua, mas também causam
desconforto para todos que se relacionam com eles e prenunciam coisas ruins para os
dias vindouros.
Na maioria dos casos, os filhos são menos culpados do que seus pais. A falta de
honra aos pais, onde quer que a achemos, deve-se, em grande medida, ao fato de os
pais se afastarem do padrão das Escrituras. Atualmente, o pai imagina que cumpre suas
obrigações ao fornecer alimento e vestuário para os filhos e, ocasionalmente, ao agir
como um tipo de policial de moralidade. Com muita frequência, a mãe se contenta em
desempenhar a função de uma criada doméstica, tornando-se escrava dos filhos,
realizando várias tarefas que estes poderiam fazer, para deixá-los livres em atividades
frívolas, em vez de treiná-los a serem pessoas úteis. A consequência tem sido que o lar,
o qual deveria ser – por causa de sua ordem, santidade e amor – uma miniatura do céu,
degenerou-se em “um ponto de parada para o dia e um estacionamento para a noite”,
conforme alguém sucintamente afirmou.
Antes de esboçarmos os deveres dos pais em relação aos filhos, devemos
ressaltar que eles não podem disciplinar adequadamente seus filhos, a menos que
primeiramente tenham aprendido a governar a si mesmos. Como podem eles esperar
que a obstinação de suas crianças seja dominada e as manifestações de ira controladas,
se eles mesmos dão livre curso a seus próprios sentimentos. O caráter dos pais é
amplamente reproduzido em seus descendentes. “E Adão viveu cento e trinta anos, e
gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem” (Gn 5.3). Os pais devem eles
mesmos viver em submissão a Deus, se desejam obediência da parte de seus filhos.
Este princípio é enfatizado muitas e muitas vezes nas Escrituras. “Tu, pois, que ensinas
a outro, não te ensinas a ti mesmo?” (Rm 2.21). A respeito do pastor ou presbítero da
igreja está escrito que ele tem de ser alguém “que governe bem a sua própria casa,
tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (Porque, se alguém não sabe
governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?)” (1Tm 3.5). E, se um
homem ou uma mulher não sabem como dominar seu próprio espírito (Pv 25.28), como
poderão cuidar de seus filhos?
Deus confiou aos pais um solene e valoroso privilégio. Não exageramos ao
afirmar que em suas mãos estão depositadas a esperança e a bênção ou a maldição e a
ruína da próxima geração. Suas famílias são os berçários da igreja e do Estado, e, de
acordo com o que agora cultivam, tais serão os frutos que colherão posteriormente.
Eles deveriam cumprir seu privilégio com bastante diligência e oração. Com certeza,
Deus lhes pedirá contas referentes à maneira de criarem seus filhos, que a ele
pertencem, sendo-lhes confiados para receberem cuidado e preservação. A tarefa que
Deus confiou aos pais não é fácil, em especial nestes dias excessivamente maus.
Entretanto, poderão obter a graça de Deus, se a buscarem com sinceridade e confiança.
As Escrituras nos fornecem as regras pelas quais devemos viver, as promessas das
quais temos de nos apropriar e, precisamos acrescentar, as terríveis advertências, para
que não realizemos essa tarefa de maneira leviana.

Instrua seu Filho


Queremos mencionar aqui quatro dos principais deveres confiados aos pais.
Primeiro, instruir seus filhos. “E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu
coração; e as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando
pelo caminho, e deitando-te e levantando-te” (Dt 6.6, 7). Este dever é sobremodo
importante para ser transferido aos outros. Deus exige dos pais, e não dos professores
da Escola Dominical, a responsabilidade de educarem seus filhos. Tampouco essa
tarefa deve ser realizada de maneira esporádica ou ocasional, mas precisa receber
constante atenção. O glorioso caráter de Deus, as exigências de sua Lei, a excessiva
malignidade do homem, o maravilhoso dom de seu Filho e a terrível condenação que
será a recompensa de todos aqueles que o desprezam e rejeitam – estas coisas precisam
ser apresentadas constantemente aos filhos. “Eles são pequenos demais para entendê-
las” é o argumento de Satanás, visando impedir os pais de cumprirem seu dever.
“E vós, pais, não provoqueis à ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e
admoestação do Senhor” (Ef 6.4). Temos de observar que os “pais” são
especificamente mencionados neste versículo, por duas razões: eles são os chefes das
famílias e o governo desta lhes foi confiado; os pais são inclinados a transferir sua
responsabilidade às mães. Essa instrução deve ser ministrada por meio da leitura da
Bíblia e da explicação aos filhos das coisas adequadas à sua idade. Isto deveria ser
acompanhado do ensino de um catecismo. Um constante falar aos mais novos não se
mostra tão eficiente quanto à diversificação com perguntas e respostas. Se nossos filhos
sabem que serão questionados após ou durante a leitura bíblica, ouvirão mais
atentamente: fazer perguntas os ensina a pensarem por si mesmos. Este método também
leva a memória a reter mais o ensinamento, pois o responder perguntas definidas fixa
ideias específicas em nossas mentes. Observe quantas vezes Jesus fez perguntas aos
seus discípulos.

Seja um bom exemplo


Segundo, boas instruções precisam ser acompanhadas de bons exemplos. O
ensino proveniente apenas dos lábios provavelmente será ineficaz. Os filhos são
espertíssimos para detectar inconsistências e rejeitar a hipocrisia. Neste aspecto, os
pais precisam humilhar-se diante de Deus, buscando todos os dias a graça que
desesperadamente necessitam e somente ele pode dar. Que cuidado eles precisam ter,
para que, diante de suas crianças, não digam e façam coisas que tendem a corromper
suas mentes ou produzam más consequências, se elas as imitarem! Os pais necessitam
estar constantemente alertas contra aquilo que pode torná-los desprezíveis aos olhos
daqueles que deveriam respeitá-los e honrá-los. Não apenas devem instruir seus filhos
no caminho da santidade, mas eles mesmos devem andar neste caminho, mostrando por
sua prática e conduta quão agradável e proveitoso é ser orientado pela lei de Deus.
No lar de pessoas crentes, o supremo alvo deve ser a piedade familiar – honrar
a Deus em todas as ocasiões, e as outras coisas, subordinadas a este alvo. Quanto à
vida familiar, nem o esposo nem a esposa deve transferir para o outro toda a
responsabilidade pelo aspecto espiritual da vida da família. A mãe, com certeza, tem a
incumbência de suplementar os esforços do pai, pois os filhos desfrutam mais de sua
companhia. Se existe a tendência de os pais serem muito rígidos e severos, as mães são
propensas a serem muito brandas e clementes; portanto, têm de vigiar mais contra
qualquer coisa que enfraquecerá a autoridade do pai. Quando este proibir alguma coisa,
ela não deve consenti-la às crianças. É admirável observar que a exortação dada em
Efésios 6.4 é precedida por “enchei-vos do Espírito” (Ef 5.18); enquanto a exortação
correspondente em Colossenses 3.21 é precedida por “a palavra de Cristo habite em
vós abundantemente” (v. 16), demonstrando que os pais não podem cumprir seus
deveres, a menos que estejam cheios do Espírito Santo e da Palavra de Deus.

Discipline seu filho


Terceiro, a instrução e o exemplo precisam ser reforçados mediante a correção
e a disciplina. Antes de tudo, isto implica o exercício de autoridade – a correta
aplicação da lei divina. A respeito de Abraão, o pai dos fiéis, Deus afirmou: “Porque
eu o tenho conhecido, e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele,
para que guardem o caminho do SENHOR, para agir com justiça e juízo; para que o
SENHOR faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado” (Gn 18.19). Pais crentes,
meditem estas palavras com cuidado. Abraão fez mais do que simplesmente dar
conselhos: ele ensinou com vigor a Lei de Deus e ordenou sua casa. As regras com que
ele administrou seu lar tinham o objetivo de seus filhos guardarem “o caminho do
SENHOR” – aquilo que era correto aos olhos de Deus. Este dever foi cumprido pelo
patriarca, a fim de que a bênção de Deus estivesse sobre sua família. Nenhuma família
pode crescer adequadamente sem leis familiares, que incluem recompensas e castigos.
Isto é especialmente importante na primeira infância, quando ainda o caráter moral não
está formado e as crianças não apreciam ou entendem seus motivos morais.
As regras devem ser simples, claras, lógicas e flexíveis, tais como os Dez
Mandamentos – poucas, mas relevantes regras morais, em vez de centenas de restrições
insignificantes. Uma das maneiras de provocarmos desnecessariamente nossos filhos à
ira é atrapalhá-los com muitas restrições insignificantes e regras detalhadas e
arbitrárias, procedentes de pais perfeccionistas. É de vital importância para o bom
futuro dos filhos que estes sejam trazidos em submissão desde cedo. Uma criança
malcriada representa um adulto ímpio – nossas prisões estão superlotadas com pessoas
que tiveram a liberdade de seguir seus próprios caminhos durante sua infância. A mais
leve ofensa de uma criança quebrando as regras do lar não deve ficar sem a devida
correção; pois, se ela achar clemência ao transgredir uma regra, esperará a mesma
clemência em relação a outras ofensas, e sua desobediência se tornará mais frequente,
até que os pais não tenham mais controle, exceto por meio do exercício de força brutal.
O ensino das Escrituras é claro quanto a este assunto. “A estultícia está ligada
ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela” (Pv 22.15; cf. 23.13,
14). Por isso, Deus afirmou: “O que não faz uso da vara odeia seu filho, mas o que o
ama, desde cedo o castiga” (Pv 13.24). E, ainda: “Castiga o teu filho enquanto há
esperança, mas não deixes que o teu ânimo se exalte até o matar” (Pv 19.18). Não
permita que uma afeição insensata o impeça de cumprir seu dever. Com certeza, Deus
ama seus filhos com um sentimento paternal mais profundo do que você ama seus filhos,
mas ele nos diz: “Eu repreendo e castigo a todos quantos amo” (Ap 3.19; cf. Hb 12.6).
“A vara e a repreensão dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma, envergonha a
sua mãe” (Pv 29.15). A severidade tem de ser utilizada nos primeiros anos de uma
criança, antes que a idade e a obstinação endureçam-na contra o temor e a pungência da
correção. Poupe a vara e você arruinará seu filho; não a utilize e terá de sofrer as
consequências.
É quase desnecessário salientar que as Escrituras citadas anteriormente não têm
o propósito de incutir-nos a ideia de que nosso lar deve ser caracterizado por um reino
de terror. Os filhos podem ser governados e disciplinados de tal maneira, que não
percam o respeito e as afeições por seus pais. Estejamos atentos para não estragarmos
seus temperamentos, por fazermos exigências ilógicas, e provocá-los à ira, por castigá-
los expressando nossa própria ira. O pai tem de punir um filho desobediente não porque
ficou bravo, mas porque é correto fazer isso – Deus o exige, bem como a rebeldia de
seu filho. Nunca faça uma ameaça, se não tenciona cumpri-la. Lembre que estar bem
informado é bom para seu filho, mas ser bem controlado é ainda melhor.
Esteja atento às inconscientes influências que cercam seu filho. Estude meios
para tornar seu lar atraente, não pela utilização de recursos carnais e mundanos, mas
por servir-se de ideais nobres, por incutir-lhes um espírito de altruísmo e desenvolver
uma comunhão agradável e feliz. Não permita que seus filhos se associem a más
companhias. Verifique cautelosamente as revistas e livros que entram em seu lar;
observe os amigos que ocasionalmente seus filhos convidam para vir ao lar e as
amizades que eles estabelecem. Antes mesmo de o reconhecerem, muitos pais permitem
seus filhos relacionarem-se com pessoas que arruínam a autoridade paternal,
transtornam seus ideais e semeiam frivolidade e pecado.

Ore por seus filhos


Quarto, o último e mais importante dever, no que se refere ao bem-estar físico e
espiritual de seus filhos, é a intensa súplica a Deus em favor deles. Sem isto, todos os
outros deveres são ineficazes. Os meios são inúteis, exceto quando o Senhor os
abençoa. O trono da graça tem de ser fervorosamente buscado, para que sejam
coroados de sucesso os nossos esforços em educar os filhos para a glória de Deus. É
verdade que precisa haver uma humilde submissão à soberana vontade de Deus, um
prostrar-se ante a verdade da eleição. Por outro lado, o privilégio da fé consiste em
apropriar-se das promessas divinas e em recordar que a ardente e eficaz oração de um
justo produz muitos resultados. A Bíblia nos diz que o piedoso Jó chamava a seus filhos
“e os santificava, e se levantava de madrugada, e oferecia holocaustos segundo o
número de todos eles” (Jó 1.5). Uma atmosfera de oração deve permear o lar e ser
respirada por todos os que dele compartilham.
SOBRE O AUTOR
Arthur Walkington Pink (1886-1952) nasceu na Grã-Bretanha e imigrou para
os Estados Unidos a fim de estudar no Instituto Bíblico Moody, o qual deixou após dois
meses, devido à teologia antibíblica ensinada ali. Pastoreou igrejas no Colorado, na
Califórnia, no Kentucky e na Carolina do Sul, antes de se tornar um professor itinerante
da Bíblia em 1919. Ele retornou à sua terra natal em 1934, estabelecendo residência na
Ilha de Lewis, na Escócia, em 1940, permanecendo lá até sua morte. Muitas das suas
obras apareceram originalmente como artigos em Studies in Scriptures, uma revista
mensal que lidava somente com a exposição bíblica.
Pink era quase desconhecido e certamente não apreciado em seus dias. O estudo
independente da Bíblia o convenceu que muito do evangelismo moderno era defeituoso.
Quando os livros puritanos e reformados eram em geral menosprezados pela igreja
como um todo, ele proclamou aquelas mesmas e antigas verdades com zelo incansável.
O declínio espiritual progressivo de sua própria nação (Grã-Bretanha) era para ele uma
consequência inevitável do predomínio de um “evangelho” que não podia nem ferir
(com a convicção do pecado) nem curar (por meio da regeneração).
Familiar com todo o escopo da revelação, Pink raramente se desviou dos
grandes temas das Escrituras: graça, justificação e santificação. Nossa geração tem
para com ele um grande débito pela duradoura luz que irradiou, pela graça de Deus,
sobre a verdade da Bíblia Sagrada.

[1]
Ian Murray relata que, além de sua esposa, apenas sete pessoas apareceram em seu enterro. Veja The Life
of Arthur W. Pink, de Ian H. Murray, publicado pela Banner of Truth.
[2] No prefácio à edição ampliada do seu livro The Life of Arthur W. Pink.
[3] Belcher refere-se, entre outras coisas, à rejeição que a sua pregação teve na maioria das igrejas, embora
Pink soubesse que estava sendo fiel à Palavra de Deus. Vide Born to Write: a Biography, de Richard Belcher,
publicado pela Richbarry Press.
[4] David Brainerd, Pioneer Missionary to the American Indians, publicado pela Evangelical Press. David
Brainerd foi genro do famoso teólogo puritano Jonathan Edwards (1703-1758). A Editora Fiel publicou A Vida de
David Brainerd, um volume que consiste do seu diário, com comentários de Jonathan Edwards.
[5] Publicado pela Editora Fiel sob o título “Deus é Soberano”. Com certeza, um dos melhores livros já
escritos sobre o assunto.
[6] Publicado pela Editora PES com o título “Os Atributos de Deus”.
[7] An Exposition of Hebrews, Arthur W. Pink, Baker Books.
[8] Exposition of the Gospel of John, Arthur W. Pink, Zondervan Publishing Company.
[9] Essa revista foi publicada mensalmente, sem interrupção, de 1922 a 1953. Após sua morte, sua esposa
Vera supervisionou a publicação das Studies restantes, com base nos textos deixados por Pink, até a sua última edição
em 1953. Cada edição da Studies incluía normalmente seis a oito artigos; cada artigo abordava um assunto diferente
ou livro da Escritura, que corriam como uma série ao longo das edições. Conseguir manter a publicação dessa revista
mensal, escrevendo sozinho profundas exposições bíblicas, ao longo de toda a sua vida, é um testemunho da graça
divina. A Providência que fechou os púlpitos para esse grande pregador é a mesma que preparou o cenário para o
surgimento desse grande escritor.
[10] Spurgeon, juntamente com John Owen e João Calvino, são alguns dos escritores que Pink mais cita ao
longo dos seus livros.
[11] É interessante como, frequentemente, vemos que muitos argumentos de Pink não passam de um
arranjo lógico de vários versículos e ensinamentos bíblicos, demonstrando como ele manejava bem a palavra da
verdade (2Tm 2.15).
[12] The Life of Arthur W. Pink, Ian H. Murray, pág. 275.
[13] Mostrando assim que o “eu, porém, vos digo” (Mt 5.22, 28, 32, 34, 39, 44) não é uma anulação dos Dez
Mandamentos, mas a interpretação apropriada e sempre tencionada por Deus, desde o princípio.
[14]
“até mil gerações”, na ARA [N. do T.].
[15] “é ilimitado”, na ARA [N. do R.].
[16]
Shabbath (hebraico) significa “descanso do labor”. Essa é a palavra que é traduzida como sábado no Antigo
Testamento, nas nossas versões da Bíblia em português (p.ex.: Êx 16.23, 25, 26, 29; Êx 20.8, 10, 11; Êx 31.14-16,
etc.). A versão do autor (KJV) traz o original Shabbath em vez de Saturday (sábado em inglês), evitando assim
possíveis confusões por parte do leitor [N. do T.].

[17]
“Para evitar a fornicação”, na King James Version, versão utilizada pelo autor [N. do T.].