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Ensaios e Estudos

INVESTIGAÇÃO CRIMINAL

Segurança, Políticas e Polícias . Direcção do Inquérito e


Relacionamento entre o Ministério Público e a Polícia
Judiciária . Técnicas Especiais de Investigação Criminal
. O Fenómeno que veio do Leste . Investigação Criminal
face ao Tráfico de Seres Humanos . Análise de Resíduos
de Disparos de Armas de Fogo . Análise das Marcas de
Impactos e Perfurações de Vidro
Áreas de actuação preferenciais:
· Arbitragem e Mediação · Direito Falimentar e Reestruturação de
· Direito Administrativo Empresas
· Direito Civil · Direito Fiscal e Contencioso Tributário
· Direito Comercial e Societário · Direito Penal e Contraordenacional
· Direito da Comunicação Social · Recuperação de Crédito
· Direito Desportivo · Responsabilidade Civil Extracontratual e
· Direito Disciplinar Administrativa do Estado
· Direito do Trabalho

Rigor, inovação, qualidade e prontidão Equipa sólida e coesa


Serviço rigoroso e de qualidade, prontidão às solicitações dos Exigente sentido de responsabilidade institucional, respeitadora
nossos clientes com soluções inovadoras, reflexo do brio da individualidade de cada um, numa prática interna de natureza
profissional da sua equipa. solidária: todos partilham o sucesso ou insucesso da sociedade.
Acompanhamento personalizado, confiança e fidelização Equipa que combina experiência e juventude, tendo como
A avaliação e resolução célere e rigorosa dos interesses dos nossos características mais vincadas a irreverência e perseverança,
clientes, aliada a uma partilha integrada de esforços, honestidade sustentadas na competência e elevado conhecimento técnico,
e respeito mútuo, dão-nos o privilégio e prazer de estabelecermos Equipa multifacetada, mas com um crescente grau de
relações sérias, duradouras e não raras vezes de honesta amizade. especialização; orientado e fiel aos princípios que nortearam a
Ética profissional constituição da sociedade.
Toda a sua actividade é baseada no cumprimento escrupuloso Servir com superior qualidade e prontidão os seus clientes, o
dos princípios de ética profissional e deontológicos. que só é passível de ser atingido com elevado grau organizacional
Independência da sua própria estrutura, seja ao nível de gestão de recursos
Assumimo-nos como verdadeiramente independentes, nunca se humanos, procedimentos internos, processos e informação.
melindrando com pressões externas ou temores reverenciais, seja
qual for a natureza do assunto ou processo que nos seja confiado.

António Pragal Colaço & Associados


Sociedade de Advogados
Ano da constituição: 1997
Contactos: R. Rodrigues Sampaio, 96-R/C Esq. | 1150-281 Lisboa | Telf. 213 553 940 | Fax: 213 553 949
geral@apcolaco.com | www.apcolaco.com
1. Ensaios e Estudos

Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal da Polícia Judiciária


2 Investigação Criminal. Nº 1

Propriedade e edição: ASFICPJ – Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Crimi-


nal da Polícia Judiciária - Rua Gomes Freire, nº 174, 1119-007, Lisboa
Director Executivo: Mário Coimbra
Direcção Editorial: Nuno Almeida (Coordenação), Carlos Ademar, João Paulo Ventura, José Leal
Conselho Consultivo: Professor Doutor Cândido da Agra, Professor Catedrático, Director da Fa-
culdade de Direito da Universidade do Porto, Director da Escola de Criminologia | Professora Dou-
tora Eugénia Cunha, Professora Catedrática FCTUC, Consultora Nacional para a Antropologia
Forense do INML | Professora Doutora Constança Urbano de Sousa, Doutorada em direito comu-
nitário, docente universitária e Coordenadora das matérias Justiça e Assuntos Internos (JAI), na Re-
presentação Permanente de Portugal junto do Conselho da União Europeia em Bruxelas | Professor
Doutor Rui Abrunhosa Gonçalves, Doutorado em psicologia, Professor Associado do Departamento
de Psicologia da Universidade do Minho | Dr. Agostinho Soares Torres, Juiz Desembargador | Dr.
Vítor Magalhães, Procurador da República no Departamento Central de Investigação e Acção Penal
(DCIAP) | Dr. António Santos Carvalho, Juiz Conselheiro no Tribunal de Contas | Dr. Adriano
Cunha, Procurador-Geral Adjunto, Auditor Jurídico junto da Assembleia da República | Professora
Doutora Fátima Pinheiro, Directora do Departamento de Genética e Biologia do INML, Delegação
do Porto | Professora Doutora Mafalda Faria, Palinologista, Instituto Superior de Ciências da Saúde
Egas Moniz | Professor Doutor Duarte Nuno Vieira, Presidente do Conselho Administrativo do
INML | Dr. Carlos Farinha, Director do Laboratório de Polícia Científica | Dr. Magalhães e Silva,
Advogado, membro do Conselho Superior da Ordem dos Advogados no triénio 96-98, membro da Co-
missão Revisora do Código de Processo Penal 98 e autor de artigos e palestras várias sobre Direito Penal
e Processo Penal.
Revisão: Carlos Ademar, João Paulo Ventura, José Leal, Nuno Almeida
Secretariado/publicidade/Assinaturas: Helena Santos – Telefone: 915799104
e-mail: asficpjdrn@portugalmail.pt
Design e Paginação: Atelier João Borges
Impressão: Tecniforma
Tiragem: 2000 Exemplares
ISSN: 1647-9300
Depósito Legal: 322803/11
Fevereiro / 2011
Preço: Público em geral - 7 € | Entidades com quem a ASFIC/PJ tem parceria* – 5 € | Associa-
dos da ASFIC/PJ - 3,50 €

* Membros da ASJP, SMMP, SFJ, OA, ASPP/PSP, professores e alunos das universidades e institutos com quem a
ASFIC/PJ tem protocolos de colaboração.
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Índice
p. 6 Apresentação – Carlos Garcia, Mário Coimbra

p. 10 Segurança, políticas e polícias – Orlando Jorge Mascarenhas

p. 42 Direcção do inquérito e relacionamento entre o Ministério Público e a Polícia

Judiciária – João de Almeida

p. 66 Técnicas especiais de investigação criminal – António Sintra

p. 86 O fenómeno que veio do Leste – João Miguel Ramos Mateus

p. 108 Investigação criminal face ao tráfico de seres humanos – Anabela Filipe

p. 134 Análise de resíduos de disparos de armas de fogo – João Freire Fonseca

p. 182 Análise das marcas de impactos e perfurações de vidro – Vitor Teixeira


4

A revista “Investigação Criminal” visa a divulgação do conhecimento técnico-científico no


âmbito das ciências forenses, bem como a promoção do debate sustentado entre perspectivas
profissionais relacionadas com a investigação criminal, integrada no sistema de justiça, e as dis-
ciplinas que contribuem para a produção de saber relativo à realidade criminal na sociedade
portuguesa.
A orientação editorial pauta-se, predominantemente, por princípios de qualidade científica,
bem como pela selecção criteriosa de textos de base empírica, com especial relevância técnico-
profissional.
A filosofia de edição assenta na conjugação de artigos da autoria de funcionários da Polícia Ju-
diciária com a de outros agentes do sistema judicial e fora dele, designadamente oriundos do
meio académico e das profissões que interagem com a investigação criminal.
Os trabalhos propostos para publicação devem ser enviados em formato digital para (Revin-
crim@hotmail.com), ou em formato papel para os editores da revista Investigação Criminal,
Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal.
Os artigos deverão ser originais e a publicação depende da avaliação positiva da direcção edi-
torial e do conselho consultivo. Os autores comprometem-se a não submeter os artigos para
publicação noutros periódicos nacionais.
Os critérios de avaliação dos artigos assentam na qualidade e rigor dos argumentos apresen-
tados, na validade dos dados expressos, na actualidade e adequação das referências contidas
no trabalho e na oportunidade e relevância do artigo no âmbito da produção de saber.
Os textos deverão ser impressos em formato A4, fonte Times New Roman, corpo 12, recuo de
início de parágrafo, justificado, espaço 1.5, numa única face, com um limite máximo de
70.000 caracteres (cerca de 20 páginas), incluindo notas, bibliografia, quadros e figuras.
Cada artigo deve ser acompanhado de um resumo com um máximo de 650 caracteres, retro-
vertido em inglês.
5

As referências bibliográficas das obras citadas devem obedecer às seguintes orientações:


• Livro: Apelido, Nome Próprio, Título do Livro em itálico, Local de edição, Editor;
• Artigo em publicação periódica: Apelido, Nome próprio, Título do artigo entre aspas,
Nome da revista em itálico, Volume, páginas;
• Textos em colectâneas: Apelido, Nome próprio, Título do texto entre aspas, Nome pró-
prio e Apelido do organizador, Titulo da colectânea em itálico, Local da edição, Editor,
páginas.
Fundada em 2010 no seio da ASFIC/PJ, a “Investigação Criminal” projecta-se como um veí-
culo independente de posições sindicais e pretende ocupar posição na dialéctica inerente a
esta área do conhecimento.
A direcção da revista é assegurada por um director executivo, uma direcção editorial e um
conselho consultivo. São publicados dois números por ano.
6
Apresentação

Produzir e partilhar
conhecimento
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Carlos Garcia
Presidente Nacional da ASFIC/PJ

Mário Coimbra
Secretário Nacional Adjunto da ASFIC/PJ

É com imenso prazer que redigimos esta nota introdutória no primeiro número da «INVES-
TIGAÇÃO CRIMINAL» - Revista Semestral de Investigação Criminal, Ciências Criminais
e Forenses que vai ser, seguramente, um referencial editorial incontornável na divulgação desta
nobre «arte de cunhar a verdade» que é a investigação criminal e de todas as áreas do saber téc-
nico e científico que com ela interagem, numa conjunção em permanente progresso, que tem
por única finalidade a reconstituição dos crimes e a descoberta da verdade material.
Nobre «arte», porque ao investigador criminal não apenas se exige uma vocação profissional
enriquecida de conhecimentos científicos e tecnológicos, de experiência e prática, mas também
a capacidade para impregnar todo o seu labor de variadas virtudes pessoais, entre as quais, a
intuição, a perspicácia, a criatividade, a persistência, a meticulosidade, para além de um fer-
vor quase religioso na entrega à profissão e de uma coragem que implica o desprendimento da
própria vida.
Não temos dúvidas de que a revista «INVESTIGAÇÃO CRIMINAL» vai ser uma poderosa
e apetecida ferramenta de informação e formação dos profissionais de investigação criminal da
Polícia Judiciária e também dos restantes operadores judiciários.
Com este novo projecto editorial, a ASFIC/PJ satisfaz mais um anseio dos seus associados, no
sentido de se criar no âmbito da Polícia Judiciária, uma publicação periódica de carácter téc-
nico – científico, que transforme em conhecimento partilhado os saberes adquiridos no terreno;
Apresentação

8 que impulsione uma reflexão ancorada na acção; que ajude a articular a ACÇÃO e o PEN-
SAMENTO, para reforçar a aprendizagem colectiva e suscitar a criação de modelos de inter-
venção para utilização de todos os profissionais de investigação criminal.
À semelhança dos outros operadores da Justiça e da Segurança Interna, também a Polícia Ju-
diciária precisa de ter um espaço próprio para partilhar os conhecimentos e as boas práticas
com os demais actores da justiça, da segurança e das comunidades académicas, não só por
aquela necessidade intrínseca, mas também para compensar emocionalmente uma realidade
que tem vindo a tornar-se algo insuportável para os investigadores da PJ, que é a de assistirem
estupefactos a uma profusa produção escrita por parte de elementos «estranhos» à investiga-
ção criminal, sobre temas de investigação criminal, em que os actores principais ou quase úni-
cos são, na maioria dos casos, os investigadores criminais da Polícia Judiciária. Um surrealismo
que também acompanha uma abundância algo estranha de conferências sobre temas de inves-
tigação criminal onde os organizadores / oradores dissertam muito pouco ou nada sobre as suas
próprias atribuições e muito sobre atribuições praticamente exclusivas da Polícia Judiciária.
Desviando-nos destas considerações menos isentas, o que verdadeiramente queremos salien-
tar nesta nota é a natureza deste novo projecto editorial da ASFIC/PJ: um projecto pensado,
exclusivamente, como repositório de conhecimento técnico – científico com interesse intru-
mental para o exercício da investigação criminal.
De facto, o cunho sindical que ditou a nascença deste projecto editorial ficou, desde logo, res-
tringido ao impulso inicial e ao suporte logístico e financeiro. Este compromisso solene e for-
mal entre a Direcção da ASFIC/PJ e a Direcção Editorial da «INVESTIGAÇÃO CRIMINAL»
de desligar o projecto, desde a sua incubação, de qualquer condicionalismo de política sindi-
cal está bem patente na constituição desta Direcção Editorial, com investigadores criminais,
sem qualquer função no sindicato, reconhecidos pela seu currículo profissional e pela sua ape-
tência pela produção intelectual e pela qualidade dos trabalhos que já publicaram.
Nessa selecção procurámos, igualmente, que os responsáveis editoriais da revista fossem oriun-
dos de áreas cruciais de actuação da PJ, como seja, a do contra-terrorismo, do combate à cor-
rupção, ao tráfico de estupefacientes, passando pela formação da EPJ / metodologias de
investigação criminal / homicídios.
Esta Direcção Editorial tem pois poder e liberdade total para definir o estatuto e o rumo edi-
torial da revista «INVESTIGAÇÃO CRIMINAL», de forma independente, isenta, estrita-
mente submetida a critérios técnico-profissionais. Será sua incumbência exclusiva, igualmente,
seleccionar os colaboradores e os temas, bem como constituir e alargar o Conselho Consultivo,
Carlos Garcia . Mário Coimbra

através da admissão de personalidades de grande relevo do mundo académico e da Justiça, 9


como é manifestamente o caso.
Duas notas finais de agradecimento: uma para a Direcção Editorial da «INVESTIGAÇÃO
CRIMINAL», ao Carlos Ademar, João Paulo Ventura, José Leal e Nuno Almeida, pela ener-
gia e dedicação que deram à produção deste número (a n.º 2 já está na forja, segundo sabe-
mos), pela dinâmica e esclarecida direcção de todo o processo editorial, pela excelência e a
oportunidade dos textos seleccionados e pelo magnifico Conselho Consultivo que já conse-
guiram congregar em torno deste projecto editorial.
A outra nota de agradecimento é para os autores dos artigos, Orlando Mascarenhas, João de
Almeida, António Sintra, João Mateus, Anabela Filipe, João Fonseca e Vítor Teixeira. Com a
vossa dádiva generosa do que produziram para este primeiro número da INVESTIGAÇÃO
CRIMINAL, transformaram-se num exemplo que queremos multiplicar exponencialmente e
deram a todos os envolvidos neste projecto um vigoroso incentivo à sua prossecução.
Segurança, Políticas e Polícias

10
Segurança, Políticas
e Polícias
11
Orlando Jorge Mascarenhas

É inspector da PJ desde 1995. Licenciado em Criminologia pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto,
tem vários trabalhos académicos publicados.

Desde há cerca de duas décadas, fruto de uma combinação de mudanças políticas e eventos
ocorridos à escala mundial, catapultou-se a “segurança” para o topo do discurso mediático, par-
tidário e político.
A segurança tornou-se um tema central das políticas públicas e foco de elevados ganhos fi-
nanceiros de empresas privadas. Tal como a segurança governa a vida dos cidadãos, governar
a segurança tornou-se uma prioridade.
Constatando a existência de uma certa ruptura entre o conhecimento científico e os discursos
políticos, são estes últimos muitas vezes toldados por uma visão ilusória dos acontecimentos.
Podemos assim dizer que as políticas, como actividade ao serviço do homem em sociedade, uti-
lizam a lei como instrumento de implementação das mesmas, podendo então projectar ne-
cessidades que não se encontram totalmente verificadas.
As políticas de segurança não escapam a esta realidade.
No caso português, verificamos que em tempo recente, o Estado estabeleceu uma “nova” con-
cepção do sistema de segurança interna. Justificou-o no facto de que a segurança tem de cor-
responder ao quadro de riscos típicos do actual ciclo histórico, nomeadamente, no atender aos
fenómenos da criminalidade grave e violenta, altamente organizada e transnacional.
No imediato colocou-se-nos um conjunto de dúvidas. Será que a segurança interna, a segu-
rança dos cidadãos, aquela que estabelece mecanismos de bem-estar no tecido social, é conse-
guida, ou melhor, apenas deve assentar em algumas variáveis que interagem para esse fim,
neste caso a criminalidade? E nessa mesma criminalidade, será que é a organizada, violenta e
transnacional aquela que maior sentimento de insegurança proporciona aos cidadãos?
Segurança, Políticas e Polícias

12 Afastando a nuvem negra da percepção de insegurança, apenas deve assentar nos fenómenos
criminais e em particular naqueles descritos como violentos, graves e transnacionais?
Tais dúvidas potenciaram o desejo de explorar a segurança interna portuguesa, no sentido de
verificar qual a proposta portuguesa, se virada para o cidadão e os seus bens, ou se concentrada
na securitização oriunda de discursos de insegurança, em que o Estado procura, através da
Polícia, uma forma de controlar a criminalidade violenta, o terrorismo e os tráficos de drogas
e pessoas?
Estas questões conduzem a uma necessidade: procurar o caminho. Explorar a segurança interna
portuguesa, no sentido de tentar encontrar a resposta quanto à oferta que a mesma tem para
os cidadãos. Diversos autores fazem referência à necessidade de uma abordagem das questões
de segurança num âmbito interdisciplinar e interorganizacional, sendo o interveniente activo
designado por “Polícia”, apenas um dos necessários a tal fim. Nesse contexto, reformas em
modelos policiais têm vindo a ser desenvolvidas, designadamente o policiamento comunitá-
rio, onde a ênfase é dada cada vez mais às decisões e intervenções de âmbito local; em que o
caminho a seguir deve centrar-se no cidadão e nos seus diversos bens e não naquilo a que
Garland chama a criminalidade “dos outros”, isto é, a criminalidade transnacional, global,
violenta.
O caminho que traçamos para perceber essa tal proposta, traduz-se por uma revisão biblio-
gráfica assente no conceito de segurança, onde através da mesma possamos enquadrar-nos de
forma adequada e possamos identificar que, e qual, segurança é aquela que nos é oferecida
pelo Estado.
Sendo o discurso legislativo que traduz as políticas em execução num determinado período his-
tórico, é através da análise do conteúdo intrínseco ao texto da lei, na sua componente quali-
tativa, que podemos mergulhar nos fundamentos dessas mesmas políticas, servindo assim com
essa análise, que os propósitos sejam atingidos.

I  SEGURANÇA, MODERNIDADE, ESTADO SOCIAL

Com a entrada da modernidade, o estatuto do indivíduo muda radicalmente, sendo então re-
conhecido por ele próprio, independentemente da sua inscrição no colectivo. Contudo, ele não
é capaz de assegurar a sua independência, antes pelo contrário. Neste contexto, uma socie-
dade de indivíduos não será propriamente uma sociedade, mas sim um estado de natureza, ou
seja, um estado sem lei, sem direito, sem constituição política e sem instituições sociais, levando
a uma frenética concorrência dos indivíduos entre si, que conduz à guerra de todos contra
todos. Teremos assim uma sociedade de insegurança total. Afastados de toda a regulação co-
lectiva, os indivíduos vivem sob o signo da ameaça permanente, pois não detêm o poder de
Orlando Jorge Mascarenhas

proteger e de se protegerem. Castel (2003), refere que, conceber as leis que permitirão prote- 13
ger, coloca-se como um imperativo categórico, que fará assumir, não importa a que preço, a
possibilidade de vivência em sociedade. Esta sociedade será fundamentalmente uma sociedade
de segurança, pois esta é a condição primeira e absolutamente necessária para que os indiví-
duos separados dos contratos de protecção tradicionais, possam “fazer sociedade”.
Campenhoudt (2003), diz que os Estados constroem-se pouco a pouco e assentam sobre um
duplo monopólio, o militar e policial, já anteriormente chamado por Max Weber como o mo-
nopólio da violência legítima, isto é, a exclusividade do direito de manter um exército e for-
ças de polícia necessárias à pacificação e ao controlo do território e o monopólio fiscal que é
indissociável do da violência legítima. O Estado deve apoiar-se numa administração, cujos
membros se caracterizam pela especialização e em consequência desta, cada vez mais interde-
pendentes.
A interdependência, é a característica de um sistema social cujas componentes dependem uma
da outra, permanecendo em estado de tensão. Uma situação espácio-temporal concreta de in-
terdependência, tal como a existente entre o Governo, o Parlamento, a Lei, as Organizações e
os cidadãos, designada por configuração1, em que se deve pensar não em termos de indivíduos,
de grupos ou de instituições consideradas em si, mas sim em termos de relações e de posições
definidas num dado sistema social, com relações na sua dinâmica própria, é aquilo que con-
substancia a transformação social. É este processo de interdependência, que origina uma so-
cialização do monopólio, onde o poder permanece centralizado, mas está cada vez mais
despersonalizado, exercido colectivamente por um conjunto de instituições, sendo que esta so-
cialização conduzirá à consolidação dos Estados modernos e a uma modificação da natureza
dos conflitos (Campenhoudt, 2003).
Para Campenhoudt (2003), pôr em evidência as leis estruturais de uma determinada nação
conduz à questão da liberdade dos indivíduos. Segundo Hayeck (2009), não existe qualquer
incompatibilidade de princípio entre ser o Estado a proporcionar mais segurança e a manu-
tenção da liberdade individual. A questão coloca-se é num contexto de garantia de segurança
a determinados grupos, fazendo com que se intensifique a insegurança para os que são ex-
cluídos deste processo, conduzindo tal atitude a que o privilégio da segurança tenha cada vez
mais importância. Hayeck (2009), refere que a exigência de segurança torna-se assim mais
premente, até que por fim ela é desejada a todo o custo, mesmo da liberdade.
Numa sociedade habituada à liberdade, é improvável que muitas pessoas estejam dispostas a
pagar este preço pela segurança. Contudo, as políticas que por todo o lado estão a ser imple-
mentadas, e que confiam o privilégio de segurança a este ou aquele grupo de indivíduos, estão

1. A noção de configuração aqui tomada insere-se na apresentada por Elias, N. (1975). La Dynamique de L’Óccident.
Paris: Calmann-Lévy., em que a situação espácio-temporal concreta de interdependência associa estruturas sociais e
psíquicas.
Segurança, Políticas e Polícias

14 a criar condições para que a aspiração à segurança seja maior que o amor à liberdade, uma vez
que ao assegurar a completa segurança de um grupo, aumenta necessariamente a insegurança
dos outros. Assim, quanto mais se tenta garantir a segurança plena, maior se torna a insegu-
rança, ou pior ainda, maior se torna o contraste entre a segurança daqueles a quem é dada
como privilégio e a crescente insegurança dos não privilegiados. Com o aumento dos que são
privilegiados, e intensificação da diferença entre a sua segurança e a insegurança dos outros,
emerge gradualmente um novo conjunto de valores sociais (Hayeck, 2009). Nesse sentido, já
não é a independência, mas a segurança, que confere posição e estatuto. A tendência geral
para se garantir segurança através de medidas cada vez mais restritivas e coercivas, toleradas e
apoiadas pelo Estado, com o tempo produziram uma transformação progressiva da sociedade.
A questão que se coloca é a de saber se, alterando as instituições para satisfazer essas exigên-
cias, não estarão os governos, inadvertidamente a destruir valores que ainda são mais preza-
dos. Para Hayeck (2009), um dos objectivos da política terá de ser a segurança adequada a
proporcionar o bem-estar social, eliminando as causas e prevenindo os efeitos. Contudo, tal
só deve ser conseguido salvaguardando a liberdade, pois quem estiver disposto a abdicar da li-
berdade essencial contra uma segurança temporária não merece nem a liberdade nem a segu-
rança.
A edificação do Estado Social, na primeira metade do séc. XX, destacou a actuação da segu-
rança social e dos serviços públicos na protecção dos cidadãos. Terminada a reconstrução sub-
sequente à II Guerra Mundial, esta tendência mudou, verificando-se que a exclusão duradoura
do mercado de trabalho ou a precariedade dos salários, conduziram a uma importante onda
de falta de protecção – cada vez mais pessoas abandonadas à sua própria sorte rompiam as
malhas da rede de protecção social e dos serviços públicos (Robert, 2007).
Para Robert (2007), o enfraquecimento da autoridade pública e da sua legitimidade, autori-
zaram uma certa brutalização das relações sociais, tendo as zonas de exclusão social passado a
testemunhar manifestações de violência, em especial por parte dos jovens, contra tudo aquilo
que representava a sociedade organizada. É certo que se trata de migalhas de violência de baixa
intensidade, contudo, suscitam reacções muito fortes de insegurança.

II  SEGURANÇA E/OU INSEGURANÇA

Tradicionalmente, o conceito de segurança está ligado a um acto ofensivo ou acontecimento,


que afecte significativamente os objectivos políticos do Estado, em termos que colocam em
causa a sua sobrevivência como unidade política. Em particular, desde a Revolução Francesa,
a imagem da segurança como objectivo do Estado, traduzido na prática, como bem colectivo,
associou a segurança do indivíduo à própria segurança do Estado. A edificação do Estado
Orlando Jorge Mascarenhas

soberano, concebido como o detentor legítimo do monopólio dos instrumentos de violência 15


organizada, foi sempre legitimada pela necessidade de segurança das pessoas (Sarmento, 2007).
Neste contexto, verificamos a emergência daquilo a que podemos chamar de Polícia, consti-
tuída como aparelho do Estado desde a altura da Declaração dos Direitos do Homem e do Ci-
dadão, promulgada em França em plena revolução de 1789. Esta é uma força pública paga por
todos e com a missão fundamental de garantir os direitos dos cidadãos e cujo benefício deva
reverter a favor da colectividade. Nasce assim o aparelho policial, ao mesmo tempo que a pri-
são como instituição do aparelho judicial. A polícia é assim uma realidade do Estado con-
temporâneo, inserida na vertente dos aparelhos de controlo, onde se destaca o controlo penal
e a aplicação selectiva dos seus recursos (Recasens, 2003).
A proeminência da segurança na sociedade contemporânea, encontra-se relacionada com as
ameaças que recentemente justificaram as leis de segurança, as políticas, medidas, serviços e
produtos. Os acontecimentos ocorridos em 11 de Setembro de 2001 nos E.U.A., os subse-
quentes actos de atrocidade terrorista, as ameaças das armas, drogas e criminalidade grave, or-
ganizada e transnacional, licenciaram medidas extraordinárias e excepcionais. Em nome da
segurança, coisas que eram politicamente incapazes, passaram a ser pensadas a fim de serem
aplicadas (Zedner, 2009).
O antónimo da segurança, “insegurança”, conduz o controlo do crime, o policiamento, polí-
ticas anti-terroristas e é a grande responsável para o crescimento de programas de segurança
comunitária, bem como para a proliferação de materiais de segurança, serviços e tecnologia.
O próprio termo, derivado de “securitização”, denota consequências éticas e analíticas de es-
truturação dos diversos assuntos políticos em termos de segurança, reconhecendo-se como
não sendo apenas uma categoria analítica, mas também uma categoria de práticas ou “discur-
sos”, ou uma forma de catalogar e responder a problemas sociais (Zedner, 2009).
A aplicação do termo segurança na esfera política, exprime o objectivo de estar a salvo de
ameaças, sendo esta uma condição subjectiva de sentimento seguro e o assegurar de garantias.
A segurança, carrega assim um significado normativo de um bem público que deve ser de-
fendido pelo Estado. Na linha do pensamento weberiano, o Estado deve possuir o monopó-
lio do exercício da violência (Castel, 2003).
Há que considerar, contudo, que os elementos referentes ao conceito de (in)segurança, inse-
ridos em determinado ambiente social, económico, histórico e político em concreto, não
podem ser tidos como portadores de uma validade universal, pois os mesmos existem e mo-
dificam-se em função de momentos e situações concretas, devendo ser tratados como concei-
tos complexos, dinâmicos e condicionados pelo seu ambiente (Recasens, 2007) .
É frequente encontrar indistintamente empregues na linguagem do quotidiano os termos e os
conceitos de segurança e insegurança, adjectivados como sendo (in)segurança pública e/ou
dos cidadãos e como se tratasse da mesma coisa, como uma espécie de verso-reverso de uma
determinada situação.
Segurança, Políticas e Polícias

16 Acompanhando o entendimento de senso comum, (in)segurança pode ser definida como um


sentimento ou estado de bem-estar, daí resultando que a insegurança é um sentimento ou es-
tado de precariedade e medo. Se entendermos a segurança como a garantia e a confiança no
atingir de metas específicas, então a insegurança é a falta de esperança, um sentimento de
auto-constrangimento e uma crença na futilidade do progresso. Quando a segurança é perce-
bida como uma condição de estabilidade ou permanência, em que o indivíduo pode manter
expectativas de manutenção do seu ambiente ou relações, então a insegurança é a incerteza do
futuro, das actividades e intenções das outras pessoas, isto é, o receio do desconhecido.
Segundo Vail (1999), são as mudanças sociais, económicas e políticas, ocorrendo por vezes em
ritmos alucinantes nas sociedades modernas, que promovem a insegurança. Para compreen-
der a intensificação da (in)segurança nas décadas mais recentes, torna-se indispensável referir
as actuações e as políticas dos Estados, sendo notórias as influências sobre esta temática das op-
ções políticas no que respeita ao mercado de trabalho, à habitação, ao ambiente, ao bem-estar
social e à família. Neste contexto, assim se verifica que a (in)segurança não se desenvolve de
igual modo no espaço, nem no tempo, nem pelo mesmo tipo de razões. Ainda de acordo com
Vail (1999), na sociedade contemporânea coexistem três áreas fundamentais onde se desen-
rolam as actividades que afectam a segurança. São elas a economia, o bem-estar da sociedade
civil, e a política nacional ou internacional. Para além do Estado, são também actores nestas
áreas, promovendo medidas de segurança ou gerando formas de insegurança, as famílias, as or-
ganizações e ainda os órgãos de comunicação social. Em cada uma destas áreas, o Estado de-
fine objectivos estratégicos, medidas e metas que acabam por institucionalizar um “regime de
segurança”. Para Vail (1999), os fundamentos políticos da (in)segurança, provenientes desse
mesmo Estado, caracterizam-se por vários factores a ter em conta: a extensa actividade estatal
para implementar segurança nas áreas referidas, podendo, contudo, gerar-se insegurança, fruto
da não antecipação das consequências das opções políticas; de erros críticos cometidos pelos de-
cisores políticos; de uma deficiente definição de prioridades de interesse social e, por último,
quando o próprio Estado se esquiva a fornecer essa segurança e a transfere para outras forças so-
ciais, tais como o mercado privado, as famílias, as igrejas ou as organizações voluntárias.
Na maioria dos países da União Europeia, como a França, Itália, Reino Unido, o conceito de
segurança pública (public safety, sécurité publique, pubblica sicurezza) parece traduzir, geral-
mente em termos jurídicos, a ideia de existência de uma competência das instâncias públicas
em matéria de segurança. Pelo contrário, a ideia de uma expectativa dos cidadãos desfrutarem
dos seus direitos e liberdades numa situação de convivência social vinculada a determinados
parâmetros de segurança, assim como a exigência da sua garantia aos poderes públicos, faz-se
mediante a utilização de expressões como “sicurezza urbana o citadina, sécurité citoyenne, co-
munity safety…” vinculadas, essencialmente, ao âmbito municipal/local (Recasens, 2007).
Para que segurança e insegurança pudessem ser termos opostos, seria necessário que tivessem
a mesma natureza, a mesma essência.
Orlando Jorge Mascarenhas

Partindo de uma definição estabelecida de segurança pública, podemos distinguir duas acep- 17
ções: a ideia de um estado de convivência e a de que é uma competência das instâncias públi-
cas. Adoptando um enfoque na competência, não se pode falar de insegurança como o oposto
de segurança, a não ser que se falasse num abandono de competências e aí haveria que deter-
minar para onde vão tais competências abandonadas pelos poderes públicos. Trata-se de um
debate político e de quotas de poder a respeito da distribuição dos espaços de segurança entre
o público e o privado, ou como diz Recasens (2007), o “macro e o micro”. O abandono do
exercício de competências pelo poder público pode produzir um vazio e provocar uma ocu-
pação desse espaço por outros agentes, os privados. Segundo Robert (2007), o Estado, fruto
da globalização, em particular da esfera económica, que escapa cada vez mais à sua regulação,
tem centrado a sua atenção na tentativa de controlo dos grandes fluxos transnacionais de po-
pulação - imigração ilegal e tráfico de pessoas; de dinheiros -branqueamento de capitais; de
mercados proibidos - tráfico estupefacientes - e do fenómeno do terrorismo. Contudo, estes
métodos não lhe têm permitido responder às necessidades de segurança das pessoas e dos seus
bens, estando a segurança destes abandonada à esfera da segurança privada.
Se considerarmos a segurança como um estado de convivência, a insegurança consistiria na
quebra de expectativas razoáveis das condições de cada Estado. Num plano tão amplo como
o da segurança pública, tal significaria a existência de um nível de desconfiança nas institui-
ções, que levaria à crise da própria sociedade (Recasens, 2007).
De todas as formas, o que se coloca em evidência com a quebra da ilusão de um Estado tutor
e de bem-estar, é a incapacidade do mesmo para promover as necessidades integrais de segu-
rança, rompendo-se assim o conceito de monopólio estatal da violência vítima. Cai igual-
mente o papel central do aparelho “polícia” em matéria de segurança, contribuindo desta
forma para a abertura de novos espaços de segurança que alteram os limites dos Estado-Nação.
O surgimento de espaços macro-securitários do tipo supra-estatal, tal como o espaço policial
europeu, fizeram com que as seguranças internas se tenham convertido numa questão multi-
lateral. Ao mesmo tempo, a necessidade de uma maior atenção na segurança dos cidadãos e
das suas exigências básicas, desenvolveram um interesse crescente pelos aspectos micro-secu-
ritários, que são plasmados nas implantações de polícia comunitária, de proximidade ou das
teses de tolerância zero (Recasens, 2003).
O policiamento comunitário foi uma das primeiras inovações surgidas neste último período,
no contexto das metodologias de actuação policial.
Um dos elementos do movimento de policiamento comunitário, caracteriza-se pelo envolvi-
mento que a comunidade deve ter, sendo mesmo de papel fundamental, na definição dos pro-
blemas relacionados com a sua segurança, a que a polícia deve atender, sendo estes problemas
extensíveis muito para além daquilo que é convencional nas actuações das forças de segurança
(Skogan, 2004).
Segurança, Políticas e Polícias

18 Na era do policiamento comunitário, as funções da polícia incluem a manutenção da ordem


pública, a resolução de conflitos, o fornecimento de serviços através de mecanismos de reso-
lução de problemas, bem como todo um conjunto de outras actividades.
Uma importante contribuição do policiamento comunitário é o reconhecimento da existên-
cia de muitos problemas críticos na comunidade, na estrutura social, a que a polícia se pode
dirigir na sua actuação e que não são referenciados como problemas criminais, ou seja, não são
crimes (Skogan, 2004).
O policiamento comunitário representa uma visão alternativa do papel da polícia na sociedade.
Uma das suas características, referida como sendo eficaz é a descentralização geográfica, ca-
racterizada por uma autoridade e responsabilização a níveis mais baixos na hierarquia organi-
zacional das instituições policiais, a fim de promover e encorajar a tomada de decisões que
respondam de uma forma rápida e eficaz às condições dos locais de actuação. Esta descentra-
lização supõe facilitar o desenvolvimento de soluções localizadas nos problemas de segurança
das comunidades, tendo sido já encontrados dados empíricos que mostram que a adopção de
tácticas de policiamento comunitário reduzem a desordem e o crime violento (Skogan, 2004).
Para Agra (2008), torna-se fundamental uma definição clara dos poderes em jogo na questão
da (in)segurança, sendo eles, o poder central, o poder local e o poder dos cidadãos. Do seu con-
ceito e convergência deriva o sistema de forças que permite caminhar entre duas escolhas: a
perversão dos valores, por um lado; a inacção ou o simples laissez-faire, por outro.
Fazendo alusão a Philippe Robert, Agra (2008), caracteriza a posição do Estado perante o fe-
nómeno da (in)segurança, como sendo promotor de um divórcio com os cidadãos. Estes úl-
timos, tomados por um crescente sentimento de insegurança e medo do crime, voltam-se para
o também crescente mercado da segurança, ou refugiam-se em “bolhas de segurança”, que são
as grandes superfícies urbanas, as galerias comerciais, etc., tornando-se assim o espaço público
uma verdadeira selva. Questiona-se então qual a resposta que o Estado oferece a todos aque-
les que não podem pagar o condomínio fechado ou valer-se do mercado de segurança; ou
aqueles que recusam o refúgio nas “bolsas de segurança” inseridas na lógica do consumismo.
O Estado cai na tentação de um securitarismo, inventor ele próprio dos chamados “modelos
policiais integradores”, assentes numa visão predominantemente securitária e concentracionária
de poderes, favorecendo o desequilíbrio do princípio da separação dos poderes do Estado.
Constata-se então que a insegurança constitui uma situação, e não um estado, sobre a qual não
cabe estabelecer qualquer equilíbrio e que não pode ser geral nem duradoura, devendo-se falar
de insegurança como uma situação, real ou percebida, limitada no tempo e/ou no espaço em
determinada sociedade. Se a insegurança se mantém em parâmetros aceitáveis ou de tolerân-
cia social, o conflito permanecerá latente, mas não irá produzir crises. No contrário, corre-se
o risco de deteriorar o tecido social e deslizar para modelos não democráticos, pelo que, é de
extrema importância a elaboração e aplicação das políticas públicas de segurança acertadas.
Orlando Jorge Mascarenhas

Em relação à segurança dos cidadãos, a mesma existe quando uma pessoa, ou um grupo social, 19
se sente seguro, porque existe um conjunto de requisitos concretos que lhes permite aferir uma
expectativa razoável de não se verem afectados na sua integridade nem na legítima posse e usu-
fruto dos seus bens, podem exercer os seus direitos e liberdades numa situação de convivência
social, determinada, aceite, assumida e garantida pelos poderes públicos, constituindo uma
parte da segurança pública. Hayeck (2009), refere a não existência de qualquer incompatibili-
dade de princípio entre ser o Estado a proporcionar mais segurança e a manutenção da liber-
dade individual. Torna-se impossível, num ambiente democrático real, entender a insegurança
dos cidadãos como um estado prolongado no tempo, em que uma pessoa ou um grupo social
se sente inseguro, porque não se dá esse conjunto de requisitos concretos que lhe permita aferir
uma expectativa razoável de garantia da sua integridade e da preservação legítima dos seus bens,
numa situação de exercício efectivo dos seus direitos e liberdades de convivência social, deter-
minada, aceite, assumida e garantida pelos poderes públicos, tornando-se então necessário negar
que a insegurança seja o contrário da segurança dos cidadãos.
Recasens (2007) refere que a segurança dos cidadãos constitui um estado derivado de um outro
superior, mas, ao mesmo tempo, é uma actividade de garantia, em que nesta última condição,
deve assegurar a execução de políticas de segurança pública, que para estes efeitos constituem as
políticas “macro”, sendo a segurança dos cidadãos um mecanismo que opera num plano abs-
tracto, político e outro em que se reflictam a execução e visualização das políticas, portanto, ca-
talisa não só as exigências de segurança, mas também os sentimentos e as consequências da
insegurança.
Associado à ideia de (in)segurança encontra-se o conceito de risco, onde segundo Castel (2003),
a proliferação contemporânea de uma aversão ao risco, faz com que o indivíduo no seio da so-
ciedade, não possa jamais sentir-se totalmente em segurança. Esta tal proliferação de riscos apa-
rece ligada à própria promoção da modernidade. A “sociedade do risco”, assim designada por
Ulrich Beck, é a própria sociedade moderna, onde aquilo que comanda o andamento da civili-
zação não é o próprio social, mas sim um princípio geral de incerteza (Castel, 2003).
Torna-se assim necessário distinguir o que se entende por risco. No sentido da própria palavra,
risco é um acontecimento previsível, onde se pode estimar as possibilidades que o mesmo tem
de se produzir e o custo dos prejuízos que este trará (Castel, 2003). Para Anthony Giddens, a
“cultura do risco” significa que os indivíduos são cada vez mais sensíveis às novas ameaças que
se encontram no mundo actual e que se multiplicam, sendo estas produzidas pelo próprio
Homem, através do uso incontrolado da ciência e da tecnologia, e de uma instrumentalização
do desenvolvimento económico, tendente a fazer do mundo inteiro uma mercadoria. Assim que
os riscos parecem erradicados, o cursor da sensibilidade aos riscos desloca-se e faz aflorar os
novos perigos (Castel, 2003). Contudo, actualmente este cursor encontra-se colocado num
plano muito elevado, o que sustenta uma demanda completamente irrealista da segurança.
Segurança, Políticas e Polícias

20 III - POLÍTICAS

Para Sarmento (2007), a política, enquanto conjunto de comportamentos humanos que in-
cluem a dominação do homem pelo homem, funda-se na obediência às prescrições legais ou aos
intérpretes e executantes da própria legalidade, e não aos indivíduos. A dominação é racional e
anónima e depende desta continuidade da dominação, a existência de uma acção burocrática que
dá origem a um poder especializado na elaboração do formalismo legal e na conservação da lei
escrita e dos seus regulamentos. Neste sentido, a diversidade e o pluralismo de interesses foram
sobrevalorizados e a acção pública foi remetida para uma função residual que operaria essen-
cialmente ao nível da concertação de interesses das forças em presença, numa modalidade rela-
tivamente exemplar de agenciamento da sociedade democrática num Estado social (Sarmento,
2007). Diferentes reformulações na exploração desse mesmo sentido das políticas públicas, acen-
tuaram o peso dos grupos particulares nas tomadas de decisões, onde os grupos de interesse, os
serviços burocráticos e administrativos e os grupos parlamentares, criaram relacionamentos só-
lidos entre si, formulando vectores componentes de decisões, que resultam da participação nas
decisões e na disponibilização de recursos. Nestas perspectivas, a produção de políticas públicas
de carácter corporativista aproximam-se do conceito de partidocracia, oriundo do anglo-saxão
“party government”, que caracterizam um tipo de governo cuja essência está num modelo de de-
cisão pública.
Sarmento (2007), afirma que o estudo das políticas públicas começou por aceitar o Estado como
entidade autónoma, tendo a partir do neocorporativismo, avançado para a caracterização dos
modos de acção dos diferentes grupos e interesses em presença, para no final descodificar em que
sentido e orientação eram implementadas as decisões. O caminho traçado permitiu caracterizar
o poder do Estado, desvalorizando-o e atribuindo a mecanismos exteriores a produção de polí-
ticas públicas, esvaziando-o do poder de execução.
As políticas de segurança formam parte das políticas públicas, e estas, por sua vez, da política em
geral. Quer isto dizer que, ao inserir as políticas de segurança neste contexto, é falar da política
e da sua relação com o poder, mas sem que signifique confundir os diferentes níveis e discursos
sobre a política (Recasens, 2007).
Numa concepção clássica, a actividade política encontra-se vinculada ao exercício de poder, po-
dendo este dividir-se em três grandes classes: o poder económico, articulado na organização das
forças produtivas através dos meios de produção; o poder ideológico, que gira à volta da orga-
nização do consenso, principalmente mediante os meios de comunicação de massa e o poder po-
lítico, baseado na organização da coerção através do uso do monopólio da força (Recasens, 2007).
Num modelo democrático, pode dizer-se que quem exerce o poder político tem a capacidade e
a obrigação de tomar decisões legítimas, que devem orientar-se para a finalidade de um bem
Orlando Jorge Mascarenhas

comum, mas que não podem ser separadas dos objectivos espácio-temporais propostos por 21
aqueles que foram eleitos e encarregues de governar. O uso da coacção legítima, quer no es-
paço interior – manutenção do controlo - como no exterior – manutenção da integridade do
território – tem a ver com a necessidade de preservação do espaço em que se exerce o poder,
que nas nossas sociedades tem vindo a ser identificado como o Estado (Recasens, 2007).
Uma política pública é o resultado da actividade política, tratando-se de decisões adoptadas
formalmente no seio das instituições públicas, que lhes confere a capacidade de obrigar, tendo
sido precedidas de um processo de elaboração no qual participaram uma pluralidade de acto-
res públicos e privados (Recasens, 2007). Uma política pública surge assim como resultado da
actividade de uma autoridade investida de poder público e de legitimidade governativa, sendo
que toda a política pública é algo mais que uma decisão, implicando normalmente uma série
de decisões – decidir que existe um problema; decidir que se deve tentar resolver; decidir a me-
lhor maneira de proceder; decidir legislar sobre o tema.

No sentido atribuído por Sarmento (2007), a complexidade da sociedade contemporânea e o


paradigma da sociedade de risco, têm transformado a segurança, na segurança humana, bem
como, tem sido atribuído à globalização o aumento de níveis de insegurança. Tal visão toma por
pressuposto, que antes do fenómeno da globalização, existiam ligações robustas entre espaço e
identidade nacional. A globalização, ao eliminar as identidades, destrói as estruturas identitá-
rias, desloca as pessoas e homogeneíza a cultura para fins de mercado, eliminando as diferen-
ças entre as culturas espacialmente definidas, que antes constituíam as denominadas “culturas
nacionais”. No entanto, a maioria das políticas de segurança nacionais e internacionais ainda
se baseia no clássico centro estável, o Estado, recorrendo à fórmula do Estado Nação Moderno.
A política é uma actividade ao serviço da colectividade, ao serviço do Homem: é a actividade
social que se propõe assegurar pela força, geralmente baseada no Direito, a segurança, garan-
tindo a ordem no meio das lutas que nascem da diversidade e divergência de opiniões e inte-
resses.
O âmbito do político circunscreve-se à situação de excepção, que autoriza quem possui poder
de decidir a adopção de medidas necessárias para resolver a situação, conservando o existente
ou criando uma nova situação de ordem (Schmitt, 2004).
A decisão soberana tem o poder de estabelecer uma ordem concreta, nova, normalizada, atra-
vés do Direito. Essa ordem concreta aglutina o pensamento de soberania e da ordem sociopo-
lítica objectiva em termos de normalidade e normatividade, sendo esta a expressão da ordem
real que se reserva continuamente.
Segurança, Políticas e Polícias

22 O Direito encontra-se socialmente pré-ordenado, como integrante de uma comunidade hu-


mana, articulada dentro de um espaço, de forma que a norma é a expressão formal dessa ordem
comunitária (Schmitt, 2004).
Em toda a situação política, stricto sensu, encontra-se presente, de alguma forma, um conflito
entre grupos de “amigos” e “inimigos” à volta de uma determinada matéria objecto de contro-
vérsia.
O Estado, enquanto unidade essencialmente política, possui a possibilidade real de determinar
quem é o inimigo e desta forma combatê-lo.
Esta manifestação de poder, só pode ocorrer debaixo da condição de que esse mesmo poder, que
se revele e reconheça no Direito e que não se possa impor de outra forma que não seja através
da norma jurídica. Assim, o Estado dá-se a conhecer de forma exclusiva, através da legislação,
isto é, das Leis.
Sendo a lei, a norma jurídica, criada pelas autoridades competentes para o efeito através de pro-
cessos próprios do acto normativo, a palavra Lei, pode ser empregue em três sentidos diferen-
tes: um muito amplo, que traduz toda a regra jurídica, onde abrange os costumes e todas as
normas formalmente produzidas pelo Estado; num sentido amplo, em que lei é somente a regra
jurídica escrita, excluindo-se assim o costume jurídico e num sentido técnico, designando uma
modalidade de regra escrita, apresentando determinadas características (Schmitt, 2004).
Encontrando-se a lei como a principal fonte do Direito nos sistemas jurídicos da maioria dos
Estados europeus, a mesma é o mais comum processo da criação e elaboração do Direito nos
sistemas continentais europeus.
O conceito de lei, quer no sentido formal como material, representa todo o acto normativo ema-
nado de um órgão com competência legislativa, um órgão do Estado. Sendo o Estado uma
forma política adoptada por um povo com vontade política que constitui uma nação, para que
se submetam a um poder político soberano, emanado da sua própria vontade e que lhe vem dar
unidade política, vai assim utilizar a Lei como seu instrumento para exercer a sua política
(Schmitt, 2004).

IV - METODOLOGIA

Qual o sentido de utilização no estudo da palavra “Lei”?


Para Poiares (1996), “lei” será o conteúdo das normativas, procurando captar nelas a raciona-
lidade subjacente, a filosofia exposta pelo legislador. Assim, as leis, cada uma sob apreciação,
não podem ser desligadas de uma realidade mais vasta, político-económica e sociocultural, o
macrocosmos social, que constitui a matriz sobre a qual se fundam as composições legislativas.
Orlando Jorge Mascarenhas

Interessa-nos, portanto, o discurso do Poder, nas suas duas vertentes: a externa, ou seja, a con- 23
figuração imediata, e o intradiscurso, entrecruzando-se estes elementos na leitura legislativa da
temática da segurança interna, averiguando qual a proposta portuguesa para a assegurar, se vi-
rada para o cidadão e seus bens, garantindo a integridade destes e a preservação legítima da-
queles, ou se concentrada numa securitização estatal alicerçada nos discursos da insegurança,
fruto da globalização, em que esse mesmo Estado procura, através do policiamento, um meio
para controlar os grandes fluxos transnacionais de população, de dinheiros, de mercadorias ilí-
citas (drogas), de violência e do fenómeno do terrorismo. Destacou-se como personagem cen-
tral da investigação o legislador, na sua acepção formal, ou seja, os órgãos de poder político que
são criadores das normativas – Parlamento e Governo – e que integram nas sociedades con-
temporâneas o Poder Legislativo, que através dessa sua função soberana, determinam as li-
nhas pelas quais a segurança interna deve ser executada e com que intervenientes.

Para tal e porque no trabalho que pretendemos desenvolver é sobre esse tal discurso legislativo
que buscamos a essência do conteúdo normativo, serve-nos como fonte a legislação em vigor
no nosso país. Contudo, nem toda a legislação é adequada e exequível no seu tratamento para
o fim proposto, sendo que para o tema da segurança interna, optamos por limitar como amos-
tra a legislação que directamente versa sobre a segurança interna nas suas dimensões de inves-
tigação criminal, prevenção, repressão e ordem pública, tendo-nos servido para o efeito da
proposta de Lei nº 184/X que surge na sequência da Resolução de Conselho de Ministros nº
45/2007 de 19 de Março, que expõe os motivos para a alteração da Lei de Segurança Interna
adaptada aos quadros de riscos típicos da actualidade histórica, relevando os fenómenos da cri-
minalidade grave, violenta, organizada e transnacional.
Neste âmbito, optou-se por utilizar como fontes a legislação referente quer à própria lei de se-
gurança interna, como também à lei-quadro de política criminal e lei de política criminal para
o triénio 2009/2011, bem como as leis orgânicas das forças e serviços de segurança: Polícia Ju-
diciária, Polícia de Segurança Pública, Guarda Nacional Republicana e Serviço de Estrangei-
ros e Fronteiras, por serem estas que exercem, em âmbito nacional e transnacional, as
dimensões de investigação criminal, prevenção, repressão e ordem pública.
O tempo histórico foi assim limitado ao actual, ou seja, à legislação que se encontra em vigor,
pois pretendemos abordar a proposta portuguesa de segurança interna no momento em que
a vivemos, não se enquadrando assim neste trabalho uma perspectiva histórica anterior nem
comparada.
Limitamos o período histórico à actualidade, isto é, ao período de 2000 a 2010. Tal limitação
foi estabelecida tomando como referência as datas-limites da entrada em vigor das diversas
Segurança, Políticas e Polícias

24 fontes legislativas em análise. Sendo apontado no novo conceito estratégico de segurança in-
terna, a criação de um sistema que corresponda ao quadro dos riscos típicos do actual ciclo his-
tórico e fazendo parte do mesmo quer as orientações de políticas criminais, quer como
intervenientes as diversas forças e serviços de segurança, com as respectivas actualizações le-
gislativas, optou-se por temporalmente ficarmos situados neste período.
Recorrendo a uma pesquisa legislativa na página oficial na internet do Diário da República,
seleccionou-se e recolheu-se para suporte em papel e digital os textos legais que serviram como
fonte.

A análise da legislação reportável à segurança interna, implica a delimitação do objecto de in-


vestigação. A abordagem do tema pode espraiar-se por múltiplas áreas do conhecimento, con-
tudo, o corpus para análise, aquele que foi definido como objecto de pesquisa consiste na
legislação vigente à segurança interna. A Resolução do Conselho de Ministros nº 45/2007, de
19 de Março, comprometeu-se a promover a alteração da Segurança Interna no nosso país, de
forma a criar um sistema que se mostre eficaz no combate à criminalidade grave, de massa e
violenta, altamente organizada e transnacional, a económico-financeira e o terrorismo. É de-
signado assim o conceito estratégico de segurança interna para o nosso país. Este conceito es-
tratégico é alcançado não só com a Lei de Segurança Interna, como também com a Lei-Quadro
de Política Criminal e Lei sobre Política Criminal e ainda com as leis orgânicas das forças e ser-
viços de segurança. Neste âmbito optamos por delimitar o nosso corpus para análise, ou seja a
nossa amostra, aos textos legislativos referentes à Lei de Segurança Interna, Lei de Organiza-
ção de Investigação Criminal, Lei-Quadro de Política Criminal, Objectivos de Política Cri-
minal para o biénio 2009/2011, Lei Orgânica da Polícia Judiciária, Lei Orgânica da Polícia de
Segurança Pública, Lei Orgânica da Guarda Nacional Republicana, Lei Orgânica do Serviço
de Estrangeiros e Fronteiras.
Utilizamos assim como amostra os seguintes textos legislativos:
• Lei nº 53/2008, de 29 de Agosto (Lei de Segurança Interna)
• Lei 49/2008, de 27 de Agosto (Lei de Organização da Investigação Criminal)
• Lei 17/2006, de 23 de Maio (Lei-Quadro de Política Criminal)
• Lei 38/2009, de 20 de Julho (Definição dos objectivos e orientações de política cri-
minal para o biénio de 2009/2011)
• Lei 37/2008, de 06 de Agosto (Lei Orgânica da Polícia Judiciária)
• Lei 53/2007, de 31 de Agosto (Lei Orgânica da Polícia de Segurança Pública)
• Lei 63/2007, de 06 de Novembro (Lei Orgânica da Guarda Nacional Republicana)
• Decreto-Lei nº 252/2000, de 16 de Outubro (Lei Orgânica do Serviço de Estran-
geiros e Fronteiras)
Orlando Jorge Mascarenhas

25

Por detrás do discurso aparente, geralmente simbólico e polissémico, esconde-se um sentido que
convém desvendar. A actividade interpretativa na análise de conteúdos é sustentada por pro-
cessos técnicos de validação (Bardin, 2007) .
Neste contexto, como metodologia recorremos à análise de conteúdo, pois permite interpretar
o conteúdo imanente ou implícito da mensagem escrita nos diplomas legais, como forma de
identificar objectivamente2 as políticas públicas de segurança que se encontram subjacentes.
À subtileza dos métodos de análise de conteúdo correspondem os objectivos de, “a superação
da incerteza”, isto é, aquilo que se julga ver na mensagem, estará ou não lá contido e o “enri-
quecimento da leitura”, traduzido pela descoberta de conteúdos e de estruturas que confirmam
ou infirmam o que se procura demonstrar ou pelo esclarecimento de elementos de significação
susceptíveis de conduzir a uma descrição de mecanismos de que à priori não detínhamos a com-
preensão.
A análise de conteúdo, possui assim duas funções, que podem ou não dissociar-se: a função heu-
rística, onde a análise enriquece a tentativa exploratória, aumentando a propensão à descoberta,
e a função de administração da prova em que as questões de investigação, sob a forma de ques-
tões ou de afirmações provisórias, servindo de directrizes, apelarão para o método de análise sis-
temática, para serem verificadas no sentido de uma confirmação ou infirmação (Bardin, 2007).
A análise de conteúdo caracteriza-se por um conjunto de técnicas de análise de comunicações,
sendo um instrumento marcado por uma disparidade de formas e adaptável a um campo de
aplicação muito vasto, como as comunicações, por exemplo. Qualquer comunicação, ou seja,
qualquer transporte de significações de um emissor para um receptor, pode ser escrito e deci-
frado pelas técnicas de análise de conteúdo.
O fundamento da especificidade da análise de conteúdo reside na articulação entre, a superfí-
cie do texto, descrita e analisada e os factores que determinam estas características, deduzidos
logicamente. Aquilo que se procura estabelecer quando se realiza uma análise, é uma corres-
pondência entre as estruturas semânticas ou linguísticas e as estruturas psicológicas ou socio-
lógicas, tais como condutas, ideologias e atitudes dos enunciados. A leitura efectuada na análise
de conteúdo das comunicações não é unicamente uma leitura “à letra”, mas antes o realçar de
um sentido que se encontra em segundo plano. Trata-se de atingir, através de significantes ou
de significados – manipulados – outros significados de natureza psicológica, sociológica, polí-
tica, histórica, etc.

2. O sentido objectivamente aqui referido, insere-se no conceito de objectivo referenciado por Karl Popper, o qual
seguindo a linha de Kant, é usado para indicar que o conhecimento científico deve ser justificável, independentemente
do capricho pessoal, sendo que uma justificação será objectiva se puder ser submetida a prova e compreendida por
todos (Popper, (2007). P 46).
Segurança, Políticas e Polícias

26 No trabalho aqui desenvolvido optou-se por um instrumento de análise caracterizado por uma
grelha construída ao longo da leitura das fontes. Não se partiu de uma prévia construção de co-
dificação e categorização, sendo estas construídas de acordo com os sentidos recolhidos da lei-
tura que se ia fazendo e do significado dos mesmos.
Para que o tratamento dos dados a analisar fosse efectuado, utilizámos suportes informáticos,
em concreto a aplicação de software NVivo v. 7.0, para a qual importámos as fontes e sobre o
qual efectuámos a análise, que denominámos em ficheiro com a designação “Segurança Interna
– A proposta portuguesa”.

V – ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Da leitura das fontes utilizadas, fomos construindo uma grelha de codificação e categorização,
de acordo com o sentido que foi encontrado no texto da lei. Ao longo dos diversos textos ve-
rificamos que o sentido que emanava da letra da lei era bastante mais intenso do que a sua sim-
ples exteriorização, querendo dizer e transmitir muito mais do que apenas o de imediato
apreendido com a sua leitura. Salientaram-se desde logo algumas fortes ideias-base e pratica-
mente incorporadas em todas as fontes; os conceitos de centralização, controlo, coordenação,
investigação criminal e prevenção.
No final da leitura e da construção da grelha de análise, encontrámos um conjunto de codifi-
cações que necessitavam, para uma análise adequada e completa, de serem agrupadas em ca-
tegorias, sendo estas construídas de acordo com a essência do sentido daquilo que havia sido
codificado.
As categorias seleccionadas, no sentido de agruparem as variáveis relacionadas com a investi-
gação e referentes ao contexto onde se inserem, foram as seguintes:
Nação – Neste campo é referida a análise das referências associadas ao conceito de Estado-
Nação, sendo codificados os direitos, liberdades e garantias, Estado de Direito, princípio
da legalidade, princípio da adequação e da proporcionalidade e soberania de Estado.
Dimensões Estratégicas – Aborda-se aqui as diferentes dimensões referentes à segurança
interna, vindo estas a ser alargadas pelas codificações de investigação criminal, ordem pú-
blica, prevenção, repressão e protecção.
Políticas de Segurança – Entende-se aqui os conceitos relacionados com as políticas,
com aquilo que se encontra na essência e nas linhas orientadoras para os objectivos pro-
postos visando atingir os fins previstos, também estes propostos e inseridos no conceito
de segurança. Foram codificados o âmbito local, a centralização, a cooperação, a coorde-
nação, a política de segurança interna e o controlo, sendo que este foi subdividido em de-
pendência política, domínio, fiscalização e vigilância.
Orlando Jorge Mascarenhas

Tipos de Criminalidade – Encontramos nesta categoria os diferentes tipos de crimina- 27


lidade que estão subjacentes às políticas de segurança, tendo sido codificados por crimi-
nalidade organizada, criminalidade transnacional, criminalidade violenta, espionagem,
pequena criminalidade, sabotagem e terrorismo.
Intervenientes Activos – Nesta categoria seleccionaram-se os principais actores na inter-
venção das dimensões, estando os conceitos ligados à codificação de Forças e Serviços de
Segurança, Guarda Nacional Republicana, Polícia Judiciária, Polícia de Segurança Pú-
blica e Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.
Organização Funcional – É a categoria onde se agrupam, na sua forma de actuação, os
intervenientes activos. Esta subdivide-se em Autonomia Operacional, resultante dos me-
canismos técnicos e tácticos para atingirem os seus objectivos; em Competências Distri-
buídas, referentes às diferentes competências que estão atribuídas para realização dos
objectivos, sendo estas específicas, genéricas e reservadas e em Organização, respeitante à
própria organização interna desses mesmo intervenientes.

Procurando recuperar a globalidade do conteúdo inscrito nos diferentes tipos de mensagem, se-
guiu-se o critério de manutenção dos termos aplicados, aproximando os conceitos semelhantes
no seu significado. No referente ao tipo de criminalidade, seguiu-se a grelha de infracções iden-
tificadas no Código Penal Português, bem como as definições do artº 1 do Código de Processo
Penal Português.
Qualitativamente, a análise permite-nos observar que a proposta portuguesa de segurança interna
possui uma forte componente alicerçada nos princípios fundamentais do Estado-Nação, onde a
ideia de uma soberania de Estado prevalece como fundamental. Sendo um dos pontos negati-
vos que por diversas vezes é referido no panorama actual da era da globalização, a perda de so-
berania dos Estados, constatamos que no âmbito daquilo que é determinante para o conceito de
Nação e aquilo que está subjacente à mesma, tal como os seus princípios fundamentais dentro
de um Estado democrático e de direito, como aquele que existe em Portugal, a questão da so-
berania de Estado encontra-se fortemente embrenhada e serve como linha condutora de toda a
política de segurança interna. Associada à soberania de estado e quase como sendo uma relação
de causa e efeito, verificamos que se apresenta uma proposta de segurança interna onde os di-
reitos fundamentais dos cidadãos se encontram devidamente salvaguardados.
Segurança, Políticas e Polícias

28 Categoria NAÇÃO. Distribuição de referências pelas fontes

Registos Fontes Referências

Direitos, Liberdades e Garantias 2 3


Estado de Direito 2 4
Princípio da legalidade 5 8
Princípio da adequação e proporcionalidade 3 4
Soberania de Estado 6 18

Origem: Trabalho de análise sob o título “Segurança Interna – A proposta portuguesa”, elaborado no software NVivo,
versão 7.0

Sendo no âmbito do conceito de Estado-Nação que a segurança interna é desenvolvida e apre-


sentada perante todos, a mesma tem duas formas de se implementar e desenvolver. Através das
políticas de segurança adoptadas pelo poder político e pelos diversos actores que aplicam aquilo
que é determinado por esse mesmo poder. Constatamos isto mesmo nas categorias “Políticas
de Segurança” e “Intervenientes Activos”. Possuímos uma orientação de segurança interna
com um forte pendor centralizador, quer ao nível daquele que executa os diversos actos refe-
rentes às dimensões estratégicas de investigação criminal, prevenção, repressão e ordem pública,
como também aos próprios poderes de decisão e organizacionais. Associado a esta caracterís-
tica centralizadora verificamos uma forte preocupação de que as “coisas” corram num âmbito
de harmonia entre todos os intervenientes, sendo que para a mesma contribui a ideia de coor-
denação.
Compete ao conselho coordenador dos órgãos de polícia criminal:
a) Dar orientações genéricas para assegurar a articulação entre os órgãos de polícia criminal;
Definir metodologias de trabalho e acções de gestão que favoreçam uma melhor coordenação e
mais eficaz acção dos órgãos de polícia criminal nos diversos níveis hierárquicos.

Sendo certo que em algum sentido esta coordenação se insere na própria nomenclatura de al-
gumas hierarquias, a mesma surge em todas as fontes como sendo uma ideia de aglutinação
de divergências, que não podendo existir, são estas superadas por uma total coordenação, le-
vando mesmo à criação de uma entidade superior próxima do poder político, o Secretário-
Geral de Segurança Interna, que possui como função primordial essa mesma coordenação.
Contudo, ressalta das políticas de segurança o conceito de controlo. Sendo o controlo, tanto
aplicado à situação específica de verificação de cumprimento daquilo que emana das diversas
regras a seguir pelos intervenientes nas suas estruturas orgânicas e hierárquicas, o mesmo é
Orlando Jorge Mascarenhas

muito verificado na fiscalização que é exercida pelo poder político. 29


O Governo apresenta à Assembleia da República, até 15 de Outubro do ano em que cesse a vigên-
cia de cada lei sobre política criminal, um relatório sobre a execução da mesma em matéria de pre-
venção da criminalidade e de execução de penas e medidas de segurança.

Encontramos também no âmbito do controlo, o conceito de vigilância, sendo esta uma forma
de prevenção de actos contrários ao determinado na lei. De qualquer das formas, sobressai
uma segurança interna que assenta num domínio controlador por parte do poder político,
percebendo-se claramente que não quer este perder qualquer oportunidade de estabelecer
aquilo que entende como sendo o mais adequado à prossecução das suas orientações.

Categoria Políticas de segurança. Distribuição de referências pelas fontes

Registos Fontes Referências

Âmbito local 1 14
Centralização 8 71
Controlo 8 118
Dependência política 6 30
Domínio 7 30
Fiscalização 7 32
Vigilância 4 6
Cooperação 7 45
Coordenação 7 70
Política Segurança interna 4 19

Origem: Trabalho de análise sob o título “Segurança Interna – A proposta portuguesa”, elaborado no software NVivo,
versão 7.0

Mas se por um lado verificamos que as políticas de segurança seguidas pelo poder político as-
sentam num forte controlo, centralizadas e coordenadas, as mesmas pautam-se por uma quase
ausência de segurança aplicada ao âmbito local, ou seja, ao micro-espaço, tomando neste ponto
como referência macro os espaços fronteiriços do Estado-Nação. Constata-se uma forte au-
sência de sentido aplicado ao âmbito local nas políticas de segurança, sendo as mesmas direc-
cionadas num conceito macro e transnacional.
Estando a segurança interna centralizada no poder político e nas cadeias hierárquicas das di-
versas forças e serviços de segurança, coordenada por um órgão criado para esse mesmo efeito,
Segurança, Políticas e Polícias

30 o Secretário-Geral de Segurança Interna, que responde directamente perante o poder político


na pessoa do Primeiro-Ministro, conjuga-se nesta categoria das políticas de segurança a es-
sência de toda a estrutura da segurança interna emanada daqueles que possuem o poder de de-
cisão e de implementação das políticas, ou seja o Governo. Trata-se de uma estrutura
centralizada, com um forte pendor de controlo e com uma preocupação de coordenação.
A condução da política de segurança interna é, nos termos da Constituição, da competência do
Governo.
O Primeiro -Ministro é politicamente responsável pela direcção da política de segurança interna.
O Secretário -Geral do Sistema de Segurança Interna tem competências de coordenação, direcção,
controlo e comando operacional.

Encontrando-se definida essa mesma estrutura, vemos que se destina a ser implementada nas
dimensões estratégicas de segurança interna. Quais são estas dimensões?

Categoria Dimensões Estratégicas. Distribuição de referências pelas fontes

Registos Fontes Referências

Investigação criminal 7 53
Ordem pública 2 19
Prevenção 8 59
Protecção 3 21
Repressão 7 23

Origem: Trabalho de análise sob o título “Segurança Interna – A proposta portuguesa”, elaborado no software NVivo,
versão 7.0

Realça de imediato a investigação criminal. Encontramos uma proposta de segurança interna


em que a investigação criminal, ou seja, a determinação de existência de um crime, a desco-
berta dos seus autores e suas responsabilidades e o estabelecimento de nexo de causalidade
entre autor e acto, são aquilo que mais sobressai como fundamento da segurança interna. E
podemos verificar isto mesmo de duas formas. Uma primeira emana da própria relevância en-
contrada ao conceito de investigação criminal nas diversas fontes em análise. A segunda con-
juga-se com uma outra dimensão estratégica, isto é, a codificação de prevenção. Possuímos
um forte conteúdo no âmbito da nossa segurança interna relacionado com a prevenção, sendo
esta essencialmente caracterizada por uma prevenção da prática do acto ilícito, ou seja do
crime, reforçando assim, tal como referido, o forte pendor de segurança dirigido para o crime,
Orlando Jorge Mascarenhas

quer no âmbito da sua prevenção quer no da sua investigação. 31


A condução da política criminal compreende, para efeitos da presente lei, a definição de objectivos,
prioridades e orientações em matéria de prevenção da criminalidade e de investigação criminal.
Os órgãos de polícia criminal, de acordo com as correspondentes leis orgânicas, assumem os ob-
jectivos e adoptam as prioridades e orientações constantes da lei sobre política criminal.
A presidência, quando o considerar conveniente, pode convidar a participar nas reuniões outras
entidades com especiais responsabilidades na prevenção e repressão da criminalidade ou na pes-
quisa e produção de informações relevantes para a segurança interna.

Mas a segurança interna não assenta apenas nestas duas dimensões, apesar de serem aquelas
que mais se destacam em termos de prossecução de objectivos securitários. Encontramos as di-
mensões de ordem pública, de protecção e de repressão. A ordem pública surge apenas refe-
renciada no âmbito das atribuições de competências dos intervenientes activos na aplicação da
segurança interna, ou seja, nas forças e serviços de segurança. Tendo sido apenas referenciada
a sua existência nestas atribuições de funções, em concreto na Polícia de Segurança Pública e
na Guarda Nacional Republicana, leva-nos a interpretar que o conceito de ordem pública,
apesar de estar presente na segurança interna e constituir uma das suas dimensões, não é atra-
vés dele que o poder político no âmbito da estratégia de segurança para o país, pretende esta-
belecer o bem-estar na população. A sua relevância é diminuta, não se encontrando referências
à manutenção da ordem pública, inserindo-se aqui todo o tipo de manifestação comporta-
mental que de alguma forma possa contribuir para a desorganização da ordem necessária à ma-
nutenção do bem-estar social.
Quanto à dimensão da protecção, esta enquadra-se essencialmente e também tal como a ordem
pública, nas funções atribuídas às forças e serviços de segurança. Trata-se, na sua essência, de
uma protecção de pessoas e de bens de carácter operacional, não tanto de protecção genera-
lista, estando esta incorporada no conceito de prevenção.
Garantir a ordem e a tranquilidade públicas e a segurança e a protecção das pessoas e dos bens

Relativamente à dimensão estratégica designada por repressão, esta possui aquilo que se pode
designar por uma dupla acção: reprimir e reagir. Encontramos assim uma orientação de se-
gurança que segue as dimensões mais significativas, as da investigação criminal e da preven-
ção, que culmina com a repressão ao autor do crime e, simultaneamente, com uma reacção de
toda a estrutura de segurança ao facto praticado..
A política criminal tem por objectivos prevenir e reprimir a criminalidade.
São objectivos gerais da política criminal prevenir, reprimir e reduzir a criminalidade.
Segurança, Políticas e Polícias

32 Ao analisarmos a categoria de dimensões estratégicas e verificando que estamos perante uma


proposta de segurança significativamente dirigida para o crime (investigação criminal, pre-
venção do crime e repressão do crime), somos de imediato catapultados para a categoria de
tipos de criminalidade. Nesta categoria codificaram-se essencialmente duas grandes áreas de
criminalidade: a pequena e a grande criminalidade, sendo que esta inclui todo o crime violento,
organizado, criminalidade transnacional, espionagem, sabotagem e terrorismo, enquanto
aquela engloba a criminalidade comum.

Categoria Tipos de Criminalidade. Distribuição de referências pelas fontes

Registos Fontes Referências

Criminalidade organizada 6 24
Criminalidade transnacional 5 16
Criminalidade violenta 4 18
Espionagem 2 4
Pequena Criminalidade 5 14
Sabotagem 2 3
Terrorismo 4 18

Origem: Trabalho de análise sob o título “Segurança Interna – A proposta portuguesa”, elaborado no software NVivo,
versão 7.0

Efectivamente aquilo que encontramos é uma segurança interna dirigida para a grande cri-
minalidade. A criminalidade organizada, sendo esta composta pela tipificação criminal asso-
ciada à corrupção, associação criminosa, tráfico de pessoas, tráfico de armas, tráfico de
estupefacientes, tráfico de influências e branqueamento de capitais; a criminalidade violenta,
sendo esta atribuída aos crimes que se dirigem contra a vida, a integridade física das pessoas
ou da sua liberdade, puníveis com pena de prisão superior a 5 anos, e o terrorismo, são, em
termos daquilo que é proposto no nosso país, o grande objectivo de segurança.
As medidas previstas na presente lei destinam -se, em especial, a proteger a vida e a integridade das
pessoas, a paz pública e a ordem democrática, designadamente contra o terrorismo, a criminali-
dade violenta ou altamente organizada.
Objectivos específicos: Durante o período de vigência da presente lei, constituem objectivos espe-
cíficos da política criminal:
a) Prevenir, reprimir e reduzir a criminalidade violenta, grave ou organizada.
Tendo em conta os meios utilizados, são considerados de prevenção prioritária os crimes executados:
Orlando Jorge Mascarenhas

a) Com violência, ameaça grave de violência ou recurso a armas; 33


b) Com elevado grau de mobilidade, elevada especialidade técnica ou dimensão transnacional ou
internacional;
c) De forma organizada ou grupal, especialmente se com habitualidade

Encontramo-nos assim perante um modelo de segurança dirigido para a tipificação criminal,


organizada e/ou violenta, de macro aplicação espacial, que nos leva a, no mínimo, levantar a
dúvida se será esta criminalidade, se serão estes factos, que na realidade provocam os senti-
mentos de insegurança nas populações. Para uma melhor compreensão deste fenómeno, en-
quadremos esta “vocação” da proposta portuguesa de segurança interna, dirigida para um tipo
de criminalidade organizada e/ou violenta, com os dados que o relatório anual de segurança
interna (RASI) do ano de 2009 apresentou: a criminalidade violenta e grave representa 5,8%
da criminalidade total de 2009, sendo a criminalidade contra o património, ou seja, aquela que
designamos por criminalidade predatória, aquisitiva, aquela que maior predominância possui
no nosso país, representando 54,2%, sendo que, nesta, o furto em veículo representa cerca de
85% do total - o tipo de crime com maior participação (RASI, 2009). Estamos assim perante
uma situação em que a atenção prioritária por parte do aparelho securitário é dirigido à cri-
minalidade violenta, organizada e transnacional, e os factos criminais a que correspondem, re-
presentam uma pequeníssima parte da totalidade da criminalidade participada, sendo esta
essencialmente a designada pequena criminalidade.
Para dar resposta às necessidades de segurança, o poder político centra a sua actuação nas for-
ças e serviços de segurança, isto é, nas polícias. Contudo, nem todos os corpos de polícia exis-
tentes no nosso país possuem relevo como tal, designados por nós na categoria intervenientes
activos, actores interventivos de aplicação prática da segurança interna.

Categoria Intervenientes Activos. Distribuição de referências pelas fontes

Registos Fontes Referências

Forças e Serviços de segurança 7 41


Guarda Nacional Republicana 5 35
Polícia Judiciária 5 36
Polícia de Segurança Pública 6 23
Serviço de Estrangeiros e Fronteiras 5 28

Origem: Trabalho de análise sob o título “Segurança Interna – A proposta portuguesa”, elaborado no software NVivo,
versão 7.0
Segurança, Políticas e Polícias

34 Destacam-se neste contexto, a Polícia Judiciária, a Polícia de Segurança Pública, a Guarda Na-
cional Republicana e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Todas estas instituições policiais pos-
suem a sua própria organização hierárquica e funcional, dotadas de autonomia técnica e táctica
para colocarem em prática as funções que lhes estão adstritas. Contudo, a nível de competên-
cias, em particular de competências de investigação criminal - reforçando-se assim o grande
impacto que possui na segurança interna do nosso país a dimensão estratégica de investigação
criminal em matéria da segurança -, realça-se o forte pendor da competência reservada.
As investigações e os actos delegados pelas autoridades judiciárias são realizados pelos funcionários de-
signados pelas autoridades de polícia criminal para o efeito competentes, no âmbito da autonomia téc-
nica e táctica necessária ao eficaz exercício dessas atribuições A autonomia técnica assenta na utilização
de um conjunto de conhecimentos e métodos de agir adequados e a autonomia táctica consiste na es-
colha do tempo, lugar e modo adequados à prática dos actos correspondentes ao exercício das atribui-
ções legais dos órgãos de polícia criminal.
É da competência reservada da Polícia Judiciária, não podendo ser deferida a outros órgãos de polícia
criminal, a investigação dos seguintes crimes:
A atribuição de competência reservada a um órgão de polícia criminal depende de previsão legal expressa.

Considera-se de competência reservada a investigação de determinados tipos de crimes, aqueles


que se enquadram na criminalidade organizada, na criminalidade violenta, na criminalidade
transnacional e no terrorismo. Para este tipo de crimes, na categoria da organização funcional, a
sua investigação é de competência reservada, pressupondo-se que a mesma é atribuída ao(s) in-
terveniente(s) activo(s) que se encontra organizado e dotado dos elementos humanos, materiais
e técnicos de maior qualidade para que esse objectivo fulcral da segurança seja cumprido.

Categoria Organização funcional. Distribuição de referências pelas fontes

Registos Fonte Referências

Autonomia Operacional
Competências distribuídas 4 6
Autonomia táctica 4 6
Autonomia técnica
Competência específica 2 3
Competência genérica 2 3
Competência exclusiva 3 19

Origem: Trabalho de análise sob o título “Segurança Interna – A proposta portuguesa”, elaborado no software NVivo,
versão 7.0
Orlando Jorge Mascarenhas

Tendo todos os intervenientes activos, capacidades e funções de aplicação e intervenção, no 35


âmbito das dimensões estratégicas, onde se volta a realçar a importância da investigação cri-
minal e da prevenção, verifica-se que um deles possui uma maior relevância neste contexto,
pois se a política de segurança é dirigida à criminalidade violenta, organizada, transnacional e
ao terrorismo e estando este tipo de criminalidade reservada, em termos da sua investigação,
a um dos intervenientes, é a Polícia Judiciária que assume esta função de relevo.
No entanto, todos os outros intervenientes activos, polícias, possuem competências de inves-
tigação criminal, estando estas apenas dirigidas para a chamada pequena criminalidade, bem
como competências nas suas funções para a prevenção, repressão e ordem pública.
Podemos depreender do modelo que nos é assim oferecido, que as divisões de tarefas no âm-
bito da segurança estão devidamente atribuídas. Sendo essa segurança oferecida pelas diversas
instituições policiais, ela está distribuída de acordo com as funções e especificidades de cada
uma. Nestas funções, constatamos a existência de conceitos de polícia de proximidade e de po-
liciamento comunitário, ligados àqueles de âmbito local referidos anteriormente na categoria
de políticas de segurança. Estando estes contemplados no âmbito das funções das instituições
policiais, em particular da Polícia de Segurança Pública e da Guarda Nacional Republicana,
são os mesmos pouco dirigidos em termos de políticas de segurança emanadas pelo poder exe-
cutivo, pois o conceito de âmbito local surge-nos como uma opção em termos de segurança
pouco dirigido e quase sem significado nas estratégias de segurança.
Chegados a este ponto, verificamos a existência de uma proposta de segurança, caracterizada
por ser emanada pelo poder executivo, sobre a forma de lei, alicerçada nos princípios orien-
tadores do Estado de Direito Democrático, onde a soberania do Estado prevalece sobre qual-
quer outro. É uma segurança caracterizada pela sua forte centralização no poder executivo e
nas estruturas hierárquicas das forças policiais, onde a componente de controlo exerce um
papel determinante na fiscalização, sendo contudo articulada por uma acção coordenadora
entre os diversos intervenientes e superiormente por uma entidade nomeada pelo poder polí-
tico. A segurança proposta é dirigida à prevenção e combate ao crime, sendo este o que pos-
sui carácter de maior gravidade, onde a violência e a sofisticação assumem um papel
predominante. Para tal, o poder político atribui às polícias o papel de desenvolverem as suas
actuações no âmbito destes objectivos, sendo que, de todas aquelas, é a Polícia Judiciária quem
possui o relevo na execução de tais funções.

VI - CONCLUSÃO

Os resultados obtidos permitem referir que temos a nível de oferta por parte do poder instituído,
uma segurança interna que se encontra centrada no próprio aparelho do Estado, fortemente
Segurança, Políticas e Polícias

36 controlada e coordenada, através da utilização da Polícia, para a prevenção do crime e sua in-
vestigação como forma de repressão. A criminalidade que visa atingir, possui carácter violento,
organizado, e insere-se num âmbito mais alargado em termos espaciais, alojando-se no conceito
de transnacional.
Nestas matérias, a sociedade ocidental caracteriza-se por canalizar a segurança para uma pers-
pectiva de percepção de insegurança, baseada, por vezes, em modelos mediáticos e discursos alar-
mistas sobre determinados crimes, normalmente violentos e, após o atentado terrorista de 11
de Setembro de 2001, nos EUA, no medo do terrorismo. Segundo Robert (2007) a resposta
do Estado a estas emergências, em termos de políticas de segurança, fruto da globalização, em
particular da esfera económica que escapa cada vez mais à regulação, aponta o caminho da coo-
peração internacional – através de policiamento – como meio de controlar os grandes fluxos
transnacionais de população - emigração ilegal e tráfico de pessoas; de dinheiros - branquea-
mento de capitais; de mercadorias proibidas - tráfico de drogas - e o fenómeno do terrorismo.
Contudo, e ainda segundo Robert (2007), essas receitas não têm permitido ao Estado respon-
der às necessidades de segurança das pessoas e dos seus bens, que assim continuam fortemente
abandonadas ao plano da segurança privada. Verificamos, então, possuir uma segurança que
emerge numa perspectiva de percepção de insegurança, seguindo as grandes linhas orientado-
ras da sociedade ocidental.
Recasens (2007) diz que a intervenção de diversos actores sociais é fundamental para que a se-
gurança dos cidadãos seja encontrada. A sua maior ou menor presença afecta de modo directo
o resultado da prevenção, que possui carácter integrador e requer a cooperação interinstitucio-
nal. Os resultados encontrados mostram uma política de segurança apenas centrada na securi-
tização, que visa a prevenção direccionada ao crime violento e organizado, isto é, aquele que
menos ocorre no seio da sociedade. Esta prevenção é praticada apenas pelas polícias, inviabili-
zando uma acção preventiva integradora, em que as diversas instituições componentes do te-
cido social, possam intervir em algo que, como participantes activos na sociedade, lhes diz
respeito. Entendendo-se por políticas sociais um conjunto de acções integradas, (educação, em-
prego, higiene, saúde...) e de convivência social.
Para Robert (2007) os programas de prevenção tendem a restringir-se a posturas apenas de-
fensivas, onde o Estado, sob a pressão de preocupações de segurança originárias de certas fac-
ções partidárias, tende a privilegiar as respostas penais, ainda que elas dificilmente bastem para
satisfazer as expectativas de segurança dos cidadãos.
Há que encontrar mecanismos que permitam simultaneamente, relaxar as preocupações secu-
ritárias, persuadindo aqueles que se sentem excluídos da sociedade a respeitar as regras do jogo
por ela estabelecidas, possibilitando manter uma solidariedade social que não exija investi-
mentos demasiadamente massivos, aquilo que Robert (2007) denomina de policy mix.
Por outro lado, Recasens (2007) refere que em matéria de segurança, o factor de reacção,
Orlando Jorge Mascarenhas

encontra-se indiscutivelmente do lado da polícia. Daí que não seja de estranhar que os políti- 37
cos, de todos os quadrantes, vejam as forças e serviços de segurança como elemento funda-
mental de tais políticas. A proposta portuguesa no âmbito da segurança interna e quanto à
reacção, não foge a esta quase regra ocidental e deposita na polícia a exclusividade na interven-
ção. Tal opção centralista pode, contudo, potenciar um duplo problema: por um lado a exi-
gência de elevados meios humanos e materiais para a sua concretização, e, tão ou mais grave, a
reduzida eficácia das políticas, devido à falta de intervenção de um conjunto de actores sociais,
fundamentais na interacção necessária para o bem-estar e solidariedade social.
Mas a análise a efectuar não deve ficar-se pela discussão sobre os modelos preventivos ou re-
pressivos do controle. Quando se fala de prevenção e/ou repressão, não se está a fazer referên-
cia a modelos, mas sim a funções. Aquilo que se deve analisar é o processo de adopção, execução
e avaliação das políticas e quantos e quais os instrumentos e métodos de corte preventivo e/ou
repressivo, que se empregam na hora de as levar a cabo. Todas as instâncias de controlo, em par-
ticular as polícias, efectuam tarefas preventivas e repressivas. A ênfase que se coloca em cada uma
delas dependerá sempre das políticas que se adoptem por parte de quem tem capacidade para
tal, ou seja o Estado.
A relação entre segurança e o Estado-Nação adquire novas características, que forçam o próprio
Estado-Nação a ter em conta uma diversidade de actores com que se vê obrigado a chegar a
acordo. O governo nacional, tal como refere Hope (2002), continua a ver-se como o sujeito que
assume a responsabilidade dos problemas da criminalidade, em particular no momento em que
estes parecem estar a diminuir. Mas contemporaneamente, aspira a exonerar-se da responsabi-
lidade de proporcionar os meios, podendo tal constatar-se no uso simbólico de termos como o
terrorismo, a criminalidade violenta ou a normatividade penal, esta, através da crescente nor-
matividade sancionatória.
Garland (2001) descreve este momento, como sendo a existência de um tipo de criminalidade
“do próprio” que se reflecte em delitos de oportunidade, pequena delinquência considerada “nor-
mal”, que é tratada com mecanismos do “managerial” (administrativos) e do “actuarial” e que vai
caindo cada vez mais nas instâncias inferiores do Estado. Em simultâneo, este mesmo Estado tem
a tendência a conservar o espaço, em boa medida simbolicamente, da criminalidade dita “do
outro”, constituída por delitos perigosos que geram a demonização de quem os pratica e pro-
porcionam o argumento para a intervenção punitiva estatal de cariz penal – o crime violento e
organizado, como por exemplo, terrorismo, tráfico de drogas, criminalidade violenta.
Resultante da análise efectuada, parece ser aqui que nos encontramos, na proposta de segu-
rança que o poder executivo nos apresenta, centrada numa criminalidade violenta, organizada
e transnacional, como sendo aquela que gera a insegurança e necessita de toda a atenção e, em
simultâneo, afastando-se da pequena criminalidade, da desordem, dos delitos aquisitivos, etc.,
não lhe fornecendo a “segurança” adequada.
Segurança, Políticas e Polícias

38 Na perspectiva de Recasens (2007), todas estas metamorfoses possuem um impacto evidente


nas políticas de segurança, pois supõem o incremento da chamada “cultura da segurança”, que
se traduz numa maior solicitação da mesma, correndo-se assim o perigo de propiciar a persecu-
ção de uma espécie de utopia da segurança, que, na medida em que não dá resposta, converte-
se em sentimento de insegurança. Tal situação, sendo prejudicial para o todo social, pode, porém,
ser extremamente benéfica para todos aqueles que, desde o sector privado ao público, vivam e
lucrem com tal percepção, já que leva a uma procura sem fim de exigência de mais tecnologia,
mais efectivos, mais meios, etc. Ao mesmo tempo, alimenta determinados sectores mediáticos
dados ao exagero, e à demagogia de certas alas político-partidárias pouco escrupulosas.
Perante tais dinâmicas, aquilo que é indispensável trabalhar urgentemente, mas com rigor, é a
redefinição de conceitos, a revisão dos termos e a criação de um discurso eficaz e inequívoco.
Para tal, é necessário não confundir a esfera científica com a política, que devem manter-se em
patamares devidamente diferenciados, onde cada um tem de encontrar o seu lugar respeitando
o papel do outro, conscientes de que são duas peças chave de uma mesma engrenagem.
Um outro ponto importante passa por impedir que o discurso securitário prevaleça sobre o so-
cial. O discurso da insegurança contribui para colonizar as diversas políticas sociais, sanitárias,
e muitas vezes culturais, já que estas são relegadas para um plano secundário nas preocupações
do Estado. Desta forma vêem-se despojadas dos quantitativos financeiros que são desviados
para engrossar o caudal do orçamento que alimenta esta lógica quase esquizofrénica de securi-
tarismo, que assenta na prevenção exacerbada da criminalidade. Ora, é nosso entendimento
que este fenómeno perverte a própria essência do que deve ser a política de segurança em regi-
mes democráticos, nos quais deve constituir-se como uma necessidade instrumental, acessória,
mas sem nunca perder o seu carácter de indispensabilidade, para que os cidadãos possam usu-
fruir em pleno de todos os seus direitos e liberdade.
Orlando Jorge Mascarenhas

39

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41
42
Direcção do Inquérito e
Relacionamento entre o
Ministério Público e a
Polícia Judiciária
1
43
João de Almeida

Ex-Subdirector Nacional-Adjunto da Polícia Judiciária. Mestre em Ciências Jurídico-Criminais.

No presente texto tratam-se questões relacionadas com a direcção do inquérito e da investi-


gação criminal, a autonomia da Polícia Judiciária quando em funções de auxiliar da Admi-
nistração da Justiça, e o seu relacionamento, no exercício dessas funções, com o Ministério
Público.
Analisa-se o domínio material da investigação da criminalidade mais complexa e organizada
e a coadjuvação prestada pela Polícia Judiciária ao Ministério Público. Discorre-se sobre o grau
ou a medida da autonomia e os limites em que essa coadjuvação deve ser prestada, com vista
a praticar os actos necessários às finalidades processuais penais.
E, por fim, aborda-se a relação funcional no inquérito entre a Polícia Judiciária e o Ministé-
rio Público, e analisam-se procedimentos e soluções susceptíveis de debelar a conflitualidade
existente e, dessa forma, contribuírem para o aperfeiçoamento do sistema de investigação cri-
minal.

Cabe ao Ministério Público dirigir o inquérito2 e a investigação criminal, ainda que realizada
por outras entidades3.
Com vista à realização das finalidades do processo, o Ministério Público é coadjuvado pelos
órgãos de polícia criminal que actuam sob a sua directa orientação e dependência funcional4,
mantendo, no entanto, a sua autonomia orgânica,5 técnica e táctica.6
Se a direcção e a titularidade do inquérito pertencem ao Ministério Público, só ele deve ter
competência para definir e decidir quais os actos a praticar em ordem a investigar a existência

1. Este texto é um excerto de um trabalho académico elaborado em 2005 e discutido em 2007. Para publicação,
foram introduzidas algumas alterações relacionadas com a legislação entretanto revogada.
2. Artigo 263º, n.º 1, do CPP.
3. Artigo 3º, n.º 1, alínea h), do EMP (Estatuto do Ministério Público - Lei n.º 47/86, de 15 de Outubro, com as
modificações introduzidas pelas Leis n.ºs 2/90 de 20 de Janeiro, 23/92 de 20 de Agosto, 10/94 de 5 de Maio, 33-
A/96 de 26 de Agosto, 60/98 de 27 de Agosto, 42/2005, de 29 de Agosto, 67/2007, de 31 de Dezembro, 52/2008,
de 28 de Agosto, e 37/2009, de 20 de Julho).
Direcção do Inquérito e Relacionamento entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária

44 de um crime, determinar os seus agentes e responsabilidades, identificar e recolher as provas


pertinentes a fundamentar e, mais tarde, sustentar uma acusação em juízo.
Existem, no entanto, actos a praticar no inquérito para os quais o Ministério Público não tem
competência. São os actos jurisdicionais (que contendem mais directamente com os direitos,
liberdades e garantias dos cidadãos) que apenas o juiz de instrução pode praticar ou autorizar.
Ainda assim, cabe ao Ministério Público promovê-los, salvo situações em que haja perigo na
demora ou urgência em que podem ser requeridos pela autoridade de polícia criminal, ar-
guido e assistente e, em casos excepcionais, podem mesmo ser requeridos por um vulgar ci-
dadão no gozo dos seus direitos políticos.9
Trata-se de actos que influenciam – ou podem influenciar – o sentido do inquérito e sobre os
quais o Ministério Público não detém a direcção ou o controlo da sua execução. Resta-lhe a
fiscalização processual, podendo impugná-los fazendo uso dos mecanismos do recurso.
Não há assim, por parte de Ministério Público, uma exclusividade na direcção do inquérito,
entendida no sentido de decidir e orientar a execução de todos os actos tendentes à realização
de determinado fim.
Cabe ao juiz de instrução apreciar e decidir da prática dos actos que lhe venham a ser pro-
movidos ou requeridos. Aferindo da sua legalidade, oportunidade e conveniência. Para isso,
o juiz de instrução dispõe de poderes autónomos de investigação, quando entenda necessário
recolher mais prova indiciária, na medida em que isso se mostre necessário e o habilite a me-
lhor poder tomar uma decisão e a fundamentá-la.10
Os restantes actos de inquérito são da competência do Ministério Público,11 que pode praticá-
los ou conferir aos órgãos de polícia criminal o encargo de os praticar, com excepção para al-
guns deles.12
Para o efeito os órgãos de polícia criminal coadjuvam o Ministério Público e ficam na sua de-
pendência funcional.

4. Artigos 263º, n.º 2, 55º, n.º 1 e 56º - todos do CPP (Código de Processo Penal, em vigor); artigo 3º, n.º 3, do
EMP; e artigo 2.º, n.º 4, da Lei n.º 49/2008, de 27 de Agosto.
5. Artigo 2º, n.º 4, in fine, da Lei n.º 49/2008, de 27 de Agosto.
6. Artigo 2º, n.º 5, da Lei n.º 49/2008, de 27 de Agosto.
7. Artigos 268º e 269º do CPP.
8. Artigos 268º, n.º 2 e 269º, n.º 2, ambos do CPP.
9. Será o caso previsto no artigo 220º, do CPP, “Habeas corpus em virtude de detenção ilegal”, em que o próprio de-
tido ou alguém por ele (um qualquer cidadão no gozo dos seus direitos políticos) pode requerer a intervenção do juiz
para apreciar a sua situação.
10. Será o caso de um arguido detido na posse de notas fiduciárias suspeitas de serem contrafeitas, em que o Minis-
tério Público depois de o interrogar (artigo 143º), entendeu por bem submetê-lo a interrogatório judicial (artigo
141º), promovendo a aplicação da medida de coacção de prisão preventiva (artigo 202º) (todos do CPP). Suscitando-
se a dúvida sobre a falsidade das notas, o juiz de instrução oficiosamente (ou a requerimento da defesa) deve fazer in-
tervir um perito que em exame sumário se pronuncie sobre a integridade das notas. Só assim o juiz de instrução
dispõe de prova indiciária bastante que o habilite a proferir a melhor decisão no caso.
11. Artigo 267º, do CPP.
João de Almeida

45

O legislador não indica quais os actos susceptíveis de serem praticados durante um inquérito
nem poderia fazê-lo, pois os actos a praticar variam com o tipo de crime e, no tipo de crime,
de caso para caso, pois todos os casos são diferentes. Não é assim possível estabelecer um ca-
tálogo de actos processuais de investigação a praticar num inquérito, durante a investigação
de um crime.
As estratégias de investigação que venham a ser adoptadas durante a investigação, passam pela
formulação de hipóteses de trabalho que à medida que vão sendo praticados actos processuais
e recolhida informação se vão consolidando ou infirmando, dando, neste último caso, em
regra, lugar à formulação de novas hipóteses de trabalho. Esta sucessão encadeada de actos
processuais não é susceptível de ser definida ab initio, pois só a prática de uns é susceptível de
conduzir à prática de outros. Este percurso só pode ir sendo definido e trilhado por quem ma-
terialmente realiza a investigação criminal. Vê-se assim o Ministério Público impossibilitado
de, no despacho inicial, elencar todas as diligências e actos processuais pertinentes à investi-
gação.
Por outro lado, a investigação criminal só poderá ser realizada com êxito por quem detenha o
domínio de determinadas técnicas e saberes, bem como os meios humanos e logísticos, que o
Ministério Público claramente não possui, não obstante lhe estar cometida a direcção da in-
vestigação criminal.13
Só a polícia de investigação criminal detém esse acervo de meios, técnicas, saberes e experiên-
cia acumulada que a habilitam a realizar a investigação criminal mais complexa.
Neste quadro, o Ministério Público tem competência para praticar – ou mandar praticar –
todos os actos que entenda necessários à realização das finalidades do inquérito, tendo como
limite os métodos proibidos de prova14 e, de alguma forma, também o princípio da economia
processual.15
E a regra é de que a investigação seja realizada pela polícia de investigação criminal, sob a di-
recção do Ministério Público. Sendo assim, importa tecer alguns considerandos sobre a forma
como essa direcção se materializa, no dia-a-dia, no caso concreto. Ou, dito de outro modo, que

12. Artigo 270º, n.º 2, do CPP, em que os actos de inquérito ali previstos só podem ser praticados pelo Ministério
Público. Não assim no que se refere à Polícia Judiciária, no caso das revistas e buscas não domiciliárias, perícias a efec-
tuar por organismo oficial (exceptuando as psiquiátricas, sobre a personalidade e autópsia médico-legal), e apreensões
(exceptuando as de correspondência ou em escritório de advogado, consultório médico e estabelecimento de saúde ou
bancário), no âmbito do despacho de delegação genérica de competência de investigação criminal, que podem ser or-
denadas pela autoridade de polícia criminal, nos termos do artigo 12.º, da Lei n.º 37/2008, de 6 de Agosto.
13. Artigo 3.º, n.º 1, alínea h), do EMP).
14. Artigo 126º, do CPP.
15. Os actos a praticar pelo Ministério Público devem mostrar-se úteis e necessários à realização das finalidades do
inquérito – investigar a existência do crime; determinar os seus agentes; apurar as suas responsabilidades; identificar
e recolher as provas.
Direcção do Inquérito e Relacionamento entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária

46 poderes de direcção da investigação criminal do Ministério Público e em que se traduzem ou,


visto do outro lado, como se caracteriza a autonomia da polícia de investigação criminal no
inquérito.
Escreve-se na Circular da Procuradoria-Geral da República n.º 8/87, de 21 de Dezembro,16
que como o Ministério Público não é – e não deve ser – um corpo de polícia, “a titularidade
do inquérito deve ser entendida como o poder de dispor material e juridicamente da investi-
gação”, comportando tal poder i) a emissão de directivas, ordens e instruções sobre o modo
como deve ser realizada, ii) o acompanhamento e a fiscalização dos vários actos, iii) a delega-
ção ou solicitação de realização de diligências, iv) a presidência ou assistência a certos actos ou
a autorização da sua realização, e v) o poder de avocar , a todo o tempo, o inquérito.
Devendo estes poderes directivos do Ministério Público ser exercidos a dois níveis de inter-
venção, a saber: i) o processual (em que devem ser observadas as normas e os princípios cons-
tantes do Código de Processo Penal, bem como as regras impostas pelo direito geral de polícia);
e ii) organizacional (em que pontificam questões técnicas, operacionais, estratégicas e logís-
ticas, resguardando-se aqui a autonomia da polícia de investigação criminal17).
Parece assim resultar que à polícia de investigação criminal ficam reservadas as tarefas de in-
vestigação criminal que exigem o recurso a técnicas e saberes e o envolvimento de meios hu-
manos, operacionais e logísticos, só disponíveis na polícia.
Recebida a notícia do crime, registado o inquérito, a polícia cumpre o disposto no artigo 248º
do CPP enviando cópia ao Ministério Público. E, de imediato, dá início às investigações sem
que haja qualquer intervenção do Ministério Público. Este limita-se, em alguns casos, a mar-
car um prazo para a realização das investigações e, noutros, a emitir um despacho de delega-
ção de competência investigatória na Polícia Judiciária e a remetê-lo para os autos.18
A investigação corre por conta da Polícia Judiciária que é quem, de facto, detém o domínio
da investigação criminal. Impulsiona e desenvolve as diligências investigatórias que entende
adequadas, promove a intervenção das autoridades judiciárias (em regra, através do Ministé-
16. Surge na sequência da entrada em vigor do Código de Processo Penal de 1987 (aprovado pelo Decreto-Lei n.º
78/87, de 17 de Fevereiro) e destinou-se a fazer a transição do regime do Código de Processo Penal de 1929 (em que
o inquérito era aberto e realizada a investigação pela polícia, só nele intervindo as autoridades judiciárias para a prá-
tica de actos, quando suscitadas pela polícia) para o regime do novo código. Adivinhando-se algumas dificuldades com
a entrada em vigor do novo regime, designadamente na articulação entre o Ministério Público e os órgãos de polícia
criminal e no controlo hierárquico da actividade processual, a Procuradoria-Geral da República entendeu por bem
definir alguns procedimentos e circulá-los junto dos agentes do Ministério Públicos e dos órgãos de polícia criminal,
nos termos e para os efeitos do disposto no artigo 10º, n.º 2, alínea b), da Lei n.º 47/86, de 15 de Outubro (hoje, ar-
tigo 12º, n.º 2, alínea b), do EMP).
17. Ao tempo ainda não se reconhecia explicita e expressamente a autonomia técnica e táctica da polícia de investi-
gação criminal; a consagração legal surge na Lei de Organização da Investigação Criminal (Lei n.º 21/2000, de 10
de Agosto) e mantém-se na actual, que revogou aquela (Lei n.º 49/2008, de 27 de Agosto, artigo 2.º, n.º 6).
18. Este despacho de delegação de competência investigatória na Polícia Judiciária nem tem qualquer efeito ou mesmo
sentido, por que essa competência já está delegada no âmbito da competência genérica (artigo 270º, n.º 4, do CPP
e Directiva da Procuradoria-Geral da República n.º 1/2002, de 4 de Abril). O que fará sentido é limitar essa compe-
tência investigatória preexistente, definindo orientações, dando instruções, marcando prazos ou revogando essa com-
petência, através do mecanismo da avocação do inquérito.
João de Almeida

rio Público) quando necessário e, concluídas as investigações, remete o inquérito ao Ministé- 47


rio Público com proposta de acusação ou de arquivamento. O Ministério Público analisa o in-
quérito (e, por vezes, devolve-o à Polícia Judiciária para a realização de mais diligências ou
mesmo para a repetição de outras), procede ao seu encerramento e toma uma decisão de mé-
rito, deduz acusação ou arquiva.
A direcção da investigação criminal pelo Ministério Público ocorre nas situações em que este
avoca o inquérito e assume o controlo efectivo da prática dos actos processuais e demais tare-
fas investigatórias.19 E, num ou outro caso pontual, em que intervém no delinear das estraté-
gias de investigação a seguir em determinado caso, ou quando preside a um ou outro acto
processual, realizado pela Polícia Judiciária.
Nas demais situações a direcção da investigação criminal pelo Ministério Público é meramente
nominativa, virtual (se se quiser), pois quem detém o domínio material da investigação cri-
minal é a Polícia Judiciária, conduzindo as investigações num ou noutro sentido, praticando
os actos processuais que entende adequados, influenciando decisivamente os seus resultados.
Ao Ministério Público resta-lhe pouco mais do que a fiscalização da actividade processual de-
senvolvida pela Polícia Judiciária durante a investigação criminal, normalmente depois de con-
cluída. E isso deve-se, em primeira linha, à falta de formação do Ministério Público em
investigação criminal, à praxis instituída e sobretudo à falta de meios humanos e materiais do
Ministério Público.

Para a realização das finalidades do inquérito, maxime da investigação criminal, a Polícia Ju-
diciária coadjuva o Ministério Público. Para o efeito, actua na sua directa orientação e depen-
dência funcional.20
Damião da Cunha21 refere que o direito ou dever de coadjuvação previsto no artigo 9º, n.º 2,
do CPP, trata de um auxílio mais geral e está próximo da figura do direito administrativo, da
cooperação interorgânica, e só ganha contornos diferentes das relações administrativas, pelo
facto de estarem em causa relações que envolvem o tribunal e as autoridades judiciárias.22
Este direito ou dever de coadjuvação é, no entanto, substancialmente distinto da competên-
cia de coadjuvação conferida aos órgãos de polícia criminal, prevista no artigo 55º, n.º 1, do
referido CPP.
Neste caso, do que se trata, é de conferir competência de coadjuvação a um órgão ( a Polícia
Judiciária) que ao lado de outro (o Ministério Público, a quem foram cometidas determina-

19. O mecanismo da avocação do inquérito (artigo 2º, n.º 7, da Lei 49/2008, de 27 de Agosto) é uma inequívoca
manifestação dos poderes do Ministério Público de direcção do inquérito e da investigação criminal.
20. Artigos 55º, n.º 1, 263º, n.º 2 e 56º – todos do CPP.
21. O Ministério Público e os órgãos de Polícia Criminal, Porto, 1993, pág. 109.
Direcção do Inquérito e Relacionamento entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária

48 das tarefas e poderes e é juridicamente o órgão titular da competência) e através da figura da


coadjuvação intervém na mesma esfera de actividade – que pode exercer – do órgão principal
ou titular.
Não se trata de uma competência conjunta ou concorrente destes órgãos (até por que o ob-
jecto da competência, no caso da coadjuvação, é a própria coadjuvação). Assim, quando o
órgão coadjutor pratica um acto que se insere na competência do órgão coadjuvado, pratica-
o dentro das suas competências, dado que o acto praticado cabe dentro da tarefa de coadju-
vação, mas não o faz enquanto titular da competência em que aquele acto se insere, mas sim
enquanto acto do órgão principal, titular da competência.23
O legislador processual penal cria, com a norma do artigo 55º, n.º1, do CPP, uma competência
que tem por objecto a coadjuvação das autoridades judiciárias pelos órgãos de polícia crimi-
nal. Aos quais compete, no exercício dessa competência coadjuvatória, praticar todos os actos
necessários à realização das finalidades processuais penais, ao lado dos órgãos titulares que
detêm a competência para a prática desses actos.
A figura da coadjuvação – com a elasticidade que ela apresenta – carece de ser devidamente
regulamentada, pois a actuação conjunta dos órgãos – coadjutor e coadjuvado – poderá con-
duzir a alguma perturbação no exercício de ambos.
Deve assim o órgão coadjuvado ter a possibilidade de definir quais as tarefas que o órgão coad-
jutor deve cumprir e de estabelecer os limites materiais da coadjuvação, reservando para si um
núcleo essencial de tarefas que claramente o definam como órgão principal, titular da com-
petência.23
Estes limites à coadjuvação dos órgãos de polícia criminal às autoridades judiciárias, no âm-
bito das tarefas processuais penais, foram normativamente estabelecidos pelo legislador pro-
cessual penal. Concretamente no que refere à fase de inquérito, o artigo 270º, do CPP e as
circulares da Procuradoria-Geral da República,24 designadamente a Directiva n.º 1/2002, de
4 de Abril, delimitam com rigor os contornos da coadjuvação dos órgãos de polícia criminal
ao Ministério Público, para realização das finalidades do inquérito.
Para cumprir as tarefas de coadjuvação (no âmbito das funções processuais penais que legal-
mente lhes estão cometidas) os órgãos de polícia criminal actuam no processo sob a direcção
das autoridades judiciárias e na sua dependência funcional.25

22. No mesmo sentido CANOTILHO, J. J. Gomes e MOREIRA, Vital – A Constituição da República Portuguesa,
Anotada, 3ª Edição, Coimbra Editora, 1993, pág. 793, quando em anotações ao artigo 205º (hoje, 202º) da Consti-
tuição, afirmam que “O direito dos tribunais à coadjuvação de outras autoridades (n.º3) parece dizer respeito apenas
às funções jurisdicionais dos tribunais, mas, por outro lado, envolve todas as demais autoridades do Estado, nomea-
damente a Administração, sem excluir, porém os tribunais uns em relação aos outros. O direito à coadjuvação analisa-
se em vários aspectos: a) os tribunais têm o direito de solicitar a ajuda das demais autoridades; b) as outras autoridades
têm o dever de prestar a ajuda solicitada; c) a ajuda deve ser prestada nos termos indicados pelo tribunal interessado.”
23. Nesta matéria seguimos de perto CUNHA, José Manuel Damião da, O Ministério Público e ... op. cit. pág. 110
e ss.
João de Almeida

A actividade processual dos órgãos de polícia criminal no inquérito, enquanto actividade coad- 49
jutória do Ministério Público e funcionalmente dirigida às finalidades do processo penal, está
sujeita aos princípios de objectividade, de estrita legalidade e de colaboração na realização do
direito. Princípios estes que enformam toda a actividade de administração da justiça e se apli-
cam a qualquer órgão da administração da justiça.
Assim, a Polícia Judiciária no inquérito não desempenha uma mera actividade de polícia em
funções processuais penais, mas sim uma actividade em funções de administração da justiça.
E fá-lo sob a direcção do Ministério Público, aqui entendida não como poder de direcção tra-
duzido numa relação hierárquica, de subordinação do tipo administrativa (que não existe),
com a faculdade de dar ordens e emitir directivas, mas enquanto direcção que decorre da de-
pendência meramente funcional26 e que confere ao ente superior apenas a faculdade de emi-
tir directivas.27
Segundo Damião da Cunha28 a distinção entre ordens e directivas não radica no seu grau de
vinculação ou de imperatividade, nem na sua extensão (generalidade ou abstracção), mas no
diferente conteúdo jurídico do seu cumprimento; i. e., enquanto a ordem implica um acto

24. Emitidas nos termos e para os efeitos do disposto no artigo 12º, n.º 2, alínea b), do Estatuto do Ministério Pú-
blico.
25. No âmbito das suas funções administrativas de polícia, vigora a dependência orgânica ou hierárquica. Referindo-
se, por isso, CUNHA, José Manuel Damião da - O Ministério Público ... op. cit., pág. 115 - a uma posição de des-
conforto dos órgãos de polícia criminal sujeitos a um duplo poder funcional, consoante o tipo de actividade
desenvolvida, vendo-se obrigados ao cumprimento de ambos os poderes que em certas situações poderão mesmo co-
lidir.
26. Na realização da investigação criminal existem três sistemas – de autonomia, de total dependência e de depen-
dência funcional – no relacionamento das polícias de investigação criminal com as autoridades judiciárias, sem pre-
juízo de outros modelos mistos, que decorrem daqueles.
O sistema de autonomia orgânica e funcional caracteriza-se por a polícia actuar por iniciativa própria. Realiza a in-
vestigação criminal e remete os resultados às autoridades judiciárias competentes. É o que acontece nos sistemas de
matriz anglo-saxónica, em que a investigação criminal é uma actividade de cariz administrativo, compreendida nas
funções administrativas do Estado. A polícia tem, por isso, competência própria para investigar de forma autónoma
os crimes da sua competência, no âmbito de um inquérito policial. Este modelo tem aplicação no sistema processual
inglês. As vantagens do sistema – segundo DIAS, Jorge de Figueiredo – Sobre os sujeitos processuais no novo Código
de Processo Penal, in Jornadas de Direito Processual Penal, Almedina, Coimbra, 1989, pág. 12 - são a “inexistência
ou redução ao mínimo de conflitos, tanto de competência como institucionais”, porque as “polícias criminais e au-
toridades judiciárias trabalham separadamente e com círculos diversos de competência, apenas tangentes no mo-
mento da transmissão dos dossiês.” E as desvantagens prendem-se com “a redução da polícia criminal à prática de
actos de iniciativa própria – os mais pesados de resto, como se sabe, para os direitos, liberdades e garantias dos cida-
dãos...”
O sistema de total dependência orgânica e funcional das polícias de investigação criminal das autoridades judiciárias,
caracteriza-se por as investigações decorrerem sob as ordens directas da autoridade judiciária competente, como acon-
tece por exemplo no sistema italiano actual. As vantagens do sistema – ainda segundo aquele Professor, op. cit. pág.
12 – decorrem “da unidade de direcção e facilidade de coordenação de todos os assuntos policiais de natureza judi-
ciária ...”, e as desvantagens situam-se ao nível do “esvaziamento ... da polícia criminal das funções de defesa dos ci-
dadãos perante perigos e fontes de perigo ...”, da “visível inadequação das autoridades judiciárias, mesmo do ministério
público, ao exercício da direcção organizatória, administrativa e disciplinar de corpos policiais...” e à necessidade de
“multiplicar por muitas dezenas – fraccionando-as inevitavelmente – unidades de polícia criminal ...”, com “... um
insuportável desbaratamento de recursos...”.
Direcção do Inquérito e Relacionamento entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária

50 meramente aplicativo, mecânico, de aplicação, a directiva implica da parte do ente a que se


dirige uma atitude valorativa, no mínimo quanto à forma e meios da sua execução.
Conclui-se assim, que a Polícia Judiciária nas suas funções de coadjuvação ao Ministério Pú-
blico no âmbito de funções de Administração da Justiça, para a realização das finalidades do
inquérito, não comporta ordens (pois, tal procedimento representaria uma insuportável in-
gerência/intervenção na hierarquia da Policia Judiciária29 e transformaria o órgão coadjutor
num mero órgão de execução) mas apenas a emissão de directivas que se traduzem num poder
de orientação e controlo, e comportam uma atitude de valoração e de decisão quanto à forma,
aos meios a utilizar e à oportunidade da sua execução.
Será este último o sentido da expressão normativa “... sob a direcção das autoridades judiciá-
rias...”, consagrada no artigo 56º do Código de Processo Penal.

A Polícia Judiciária é um corpo superior de polícia criminal auxiliar da administração da jus-


tiça e organizado hierarquicamente na dependência do Ministro da Justiça.30 E estrutura-se ver-
ticalmente numa directoria nacional, em unidades nacionais, territoriais, regionais e locais, e
em unidades de apoio à investigação criminal e de suporte.31
A Polícia Judiciária depende organicamente do Ministério da Justiça e nessa vertente desen-
volve e promove acções de prevenção criminal.32
A Polícia Judiciária enquanto órgão auxiliar da administração da justiça, e nas funções de po-
lícia de investigação criminal, coadjuva as autoridades judiciárias na investigação dos crimes
da sua competência reservada e dos crimes cuja investigação lhe seja cometida pela autoridade
judiciária competente para a direcção do processo.33

O sistema de dependência funcional caracteriza-se por as polícias investigarem sob a direcção funcional das autori-
dades judiciárias, mantendo, no entanto, a sua dependência orgânica, administrativa e disciplinar dos órgãos da ad-
ministração pública onde estão integradas. O sistema tem consagração legal no artigo 56º do Código de Processo Penal
português. E tem igualmente aplicação nos sistemas espanhol e alemão. As vantagens do sistema – citando uma vez
mais Figueiredo Dias, op. cit., pág. 13 e 14 – passam por permitir “uma rigorosa delimitação das competências entre
as autoridades judiciárias e as polícias, aquelas dirigindo, estas realizando as tarefas de investigação...” mantendo-se o
“modelo policial unitário constitucionalmente imposto, que atribui a todas as polícias as funções de defesa da legali-
dade democrática, da segurança interna e dos direitos dos cidadãos ...”, e as desvantagens passam pela dupla depen-
dência funcional havendo “o risco de em alguma coisa dividir as polícias entre exigências contraditórias e
descoordenadas: de um lado as da autoridade judiciária, do outro as da hierarquia.”.
27. AMARAL, Diogo Freitas do, Curso de Direito Administrativo, Vol. I, 1998, pág. 719, define “ordens” como co-
mandos concretos, específicos e determinados que impõem a necessidade de adoptar imediata e completamente uma
certa conduta; e “directivas” como orientações genéricas que definem imperativamente os objectivos a cumprir pelos
seus destinatários, mas que lhes deixam liberdade de decisão quanto aos meios a utilizar e às formas a adoptar para
atingir esses objectivos.
28. Op. cit., pág. 118.
29. Consta do artigo 3.º, n.º 2, da Lei n.º 37/2008, de 6 de Agosto “... a PJ actua no processo sob a direcção das au-
toridades judiciárias e na sua dependência funcional, sem prejuízo da respectiva organização hierárquica e autonomia
técnica e táctica.”.
João de Almeida

Nesta vertente a Polícia Judiciária actua no processo sob a direcção das autoridades judiciárias 51
e na sua dependência funcional.34
A Polícia Judiciária – como, de resto, acontece com os restantes órgãos de polícia criminal –
está sujeita a um duplo poder funcional que varia de acordo com as actividades desenvolvidas.
Na vertente administrativa, do Ministro da Justiça. Na vertente de órgão auxiliar da adminis-
tração da justiça, da autoridade judiciária competente para a direcção do processo.
É nesta última vertente que interessa tecer algumas considerações sobre a autonomia técnica
e táctica da Polícia Judiciária, que vinha sendo reclamada como condição de aumento dos ní-
veis de eficácia no combate às formas de crime mais gravosas.
O legislador consagrou normativamente que a autonomia técnica “assenta na utilização de
um conjunto de conhecimentos e métodos de agir adequados” e que a autonomia táctica “con-
siste na escolha do tempo, lugar e modo adequados à prática dos actos correspondentes ao
exercício das atribuições legais dos órgãos de polícia criminal”.35 36
Partindo da competência de coadjuvação e do princípio da dependência funcional, o legisla-
dor vem agora especificar áreas de protecção dos órgãos de polícia criminal, sendo que algu-
mas delas já resultavam de uma leitura integrada do sistema.
Num primeiro plano de reserva surge a organização hierárquica dos órgãos de polícia crimi-
nal, pois estes actuam no processo sob a direcção e a dependência funcional da autoridade ju-
diciária, sem prejuízo da respectiva organização hierárquica.37
Num segundo plano surgem i) a reserva de actuação de conteúdo técnico da investigação, as-
sente no pressuposto de que os órgãos de polícia criminal detêm o domínio de métodos, co-
nhecimentos e técnicas específicos (autonomia técnica), e ii) a reserva de actuação na área da
planificação e da gestão da investigação (autonomia táctica), que escapando a qualquer disci-
plina jurídica, encontram o seu espaço nas práticas policiais.38
E fê-lo no pressuposto de que as finalidades da investigação criminal só podem ser cabalmente
alcançadas com recurso a entidades, hoje cada vez mais do que nunca, altamente especializa-
das e detentoras de conhecimentos, saberes de natureza científica e técnicos, e outros meios só
disponíveis – por enquanto – nas polícias.

30. Artigo 1º, da Lei n.º 37/2008, de 6 de Agosto.


31. Artigos 22º, da Lei n.º 37/2008, de 6 de Agosto.
32. Artigos 2º, n.º 1 e 4º, da Lei n.º 37/2008, de 6 de Agosto.
33. Artigos 2º, n.º 1, 3º, n.º 1, e 5º, n.º 1, da Lei n.º 37/2008, de 6 de Agosto; e artigos 7.º e 8º da Lei n.º 49/2008,
de 27 de Agosto.
34. Artigo 56º, do CPP; artigo 3º, n.º 2, da Lei n.º 37/2008, de 6 de Agosto; e artigo 2º, n.º 4, da Lei 49/2008, de
27 de Agosto.
35. Artigo 2º, n.º 6, da Lei de Organização de Investigação Criminal (Lei n.º 49/2008, de 27 de Agosto).
36. A autonomia técnica e táctica já tinham consagração na anterior LOIC (Lei n.º 21/2000, de 10 de Agosto).
37. Artigo 2º, n.º 4, da Lei 49/2008, de 27 de Agosto; e artigo 3º, n.º 2, da Lei n.º 37/2008 de 6 de agosto.
38. Na sequência do afastamento de dois elementos da direcção de um departamento de investigação criminal, da Po-
lícia Judiciária, relacionado com um processo bastante mediatizado, veio o Partido Comunista Português a apresen-
tar na Assembleia da República o Projecto de Lei n.º 466/IX, em 18 de Junho de 2004 (publicado no Diário da
Direcção do Inquérito e Relacionamento entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária

52 Não deve, no entanto, a autonomia ser interpretada como uma forma de suprir eventuais in-
suficiências organizatórias do Ministério Público, mas num plano de complementaridade em
que todo o acervo técnico-científico, experiência e saber criminalístico acumuladas, só dispo-
níveis nas polícias de investigação criminal, é posto ao serviço da administração da Justiça.
Ou seja, a intervenção dos órgãos de polícia criminal na actividade processual penal deve ser
entendida como uma mais-valia, devido sobretudo à sua preparação técnico-científica e tam-
bém à sua proximidade espacial.
O grau de autonomia deve ainda ser entendido em função da complexidade do crime em in-
vestigação.39 Se na investigação do crime mais complexo e organizado se mostra absoluta-
mente necessária à sua eficácia, outro tanto já não sucederá na investigação da pequena
criminalidade ou mesmo da média criminalidade, pois o grau de dificuldade e complexidade
são substancialmente diferentes.
De todo o modo, em situação alguma se encontram razões para que o Ministério Público seja
privado da informação que lhe permita compreender e avaliar as razões que determinaram
uma ou outra opções técnica ou táctica por parte da polícia, de forma a que as possa conca-

Assembleia da República, IIª Série, n.º 68, de 26 de Junho de 2004, pág. 2768 e 2769), propondo o aditamento ao
artigo 2º, da Lei de Organização da Investigação Criminal (Lei n.º 21/2000, de 10 de Agosto), um n.º 8, com a se-
guinte redacção : “Os funcionários designados pelas entidades competentes dos órgãos de polícia criminal para a rea-
lização das investigações ou actos delegados pelas autoridades judiciárias competentes nos termos da presente lei, não
podem ser afastados dessas funções sem que se tenha terminado a fase do processo em que se inserem, salvo autori-
zação expressa da autoridade judiciária responsável pela sua direcção funcional.”. Explicava-se no preâmbulo que se
tratava de uma norma de salvaguarda face a um “... qualquer intento, vindo de responsável hierárquico de qualquer
órgão de polícia criminal, ou de um qualquer ministro, de interferir na investigação de um processo criminal em
curso através da substituição dos seus intervenientes, [que] seria evitada, com a intervenção obrigatória do magistrado
titular do processo ...”. Faz-se ainda referência à Lei Orgânica n.º 6/1985, de 1 de Julho, sobre o poder judicial, em
Espanha, que prevê no seu artigo 550º “... que os funcionários de polícia judicial a quem tenha sido encomendada
uma actuação ou investigação concreta não possam ser afastados até que se finalize a mesma ou, em todo o caso, a
fase do procedimento judicial que a originou, salvo por decisão ou mediante autorização do magistrado competente.”
O Projecto de Lei caducou com a dissolução da Assembleia da República, em 22 de Dezembro, de 2004. E, entre-
tanto, não voltou a ser reapresentado.
A questão tem directamente a ver com a autonomia táctica (e, também, orgânica) da Polícia Judiciária. As investiga-
ções decorrem numa relação funcional em que são interlocutores (ou deveriam ser) o magistrado titular da direcção
do processo e o coordenador de investigação criminal que tem a seu cargo as investigações. Quaisquer questões per-
tinentes às investigações deverão ser tratadas e resolvidas entre eles (exceptuam-se os casos em que é necessário afec-
tar mais meios – humanos e/ou materiais – não disponíveis na secção, em que têm que ser solicitados pelo
coordenador à direcção da Unidade). Tratando-se de investigações complexas ou com algum melindre, a substitui-
ção da equipa de investigação (que não foi o caso na situação que motivou o projecto de lei, pois tratava-se de ele-
mentos da direcção) suscita normalmente dificuldades várias na sua conclusão (desde logo, a transmissão de
conhecimentos e informações que não constam dos autos), fazendo assim todo o sentido ouvir o magistrado titular
do processo, a fim de dar o seu contributo para assegurar a boa continuidade das investigações, cabendo, no entanto,
à hierarquia da Polícia Judiciária a responsabilidade de seleccionar uma nova equipa de investigação.
39. Mas em situação alguma a autonomia táctica pode ser interpretada como oportunidade na realização da investi-
gação. Sendo a investigação criminal desenvolvida no âmbito do processo penal que é orientado por critérios de le-
galidade, a compreensão do conceito de autonomia táctica passará sempre por excluir parâmetros de oportunidade e
conveniência enquanto fundamento de condicionamento do início de investigações ou de realização de diligências.
Do que se trata é do “como”, “quando”, “de que forma” e “com que meios” as investigações ou diligências são reali-
zadas.
João de Almeida

tenar no enquadramento geral da investigação a decorrer no inquérito, não se colocando assim 53


em crise a direcção do inquérito ou mesmo da investigação.
A autonomia configura-se assim como um instrumento fundamental para o desenvolvimento
das investigações (no terreno) que obrigam, amiudadamente, à assunção de decisões imedia-
tas, as quais, tendo que ser tomadas no momento, só poderão encontrar suporte de legitimação
num poder de polícia que se contenha nessa autonomia.
Esse poder de polícia há-de ser encontrado no poder de orientação40 do Ministério Público
cujos comandos se concretizam através de directivas, deixando estas ao seu destinatário o poder
de os conformar quanto aos meios, às formas e à oportunidade da sua execução.41 E é nesta
margem de conformação da execução dos comandos que a autonomia da polícia se desen-
volve e legitima.42

A Polícia Judiciária enquanto corpo superior de polícia auxiliar da administração da justiça, e


especialmente vocacionada e dotada para o exercíco das funções de polícia judiciária, tem le-
galmente atribuída competência reservada para a investigação dos crimes mais graves, deten-
tores da possibilidade de provocar maiores danos à sociedade pelo elevado desvalor que tais
actos comportam, pelo impacto que provocam na opinião pública e pela frequência com que
ocorrem, susceptíveis, portanto, de gerar um clima de grande insegurança na comunidade que
importa acautelar.
Ao Ministério Público em representação do Estado, e nos termos da Constituição, estatutá-
rios e da lei processual penal, compete-lhe exercer a acção penal orientada pelo princípio da
legalidade, dirigir a investigação criminal e fiscalizar superiormente a actividade processual
desenvolvida (no âmbito da competência coadjuvatória) pelos órgãos de polícia criminal.
A repressão ao crime mais violento, organizado e de maior danosidade social, passa pela in-
vestigação criminal realizada pela Polícia Judiciária sob a direcção do Ministério Público e na
sua dependência funcional.43

40. CUNHA, José Manuel Damião da, op. cit., pág. 132, define o poder de orientação como “um poder exercitável
duradoura e continuamente, pelo que pressupõe, para que se efective, que a ele estejam conexos outros poderes ins-
trumentais em relação ao poder de emitir directivas. Dentro deles, há que referir, fundamentalmente, o poder de
pedir informações e mesmo um poder de ‘avocação’” E referindo-se à directiva, refere que os encargos que o Minis-
tério Público pode cometer aos órgãos de polícia criminal, quanto ao seu âmbito, podem ser genéricos (proceder a
certas investigações) ou específicos (praticar determinado acto ou diligência), mas têm que deixar um espaço de apre-
ciação, face ao fim e objectivo definidos, quanto à forma e meios de cumprir a directiva.
41. COSTA, José de Faria, As relações entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária, in Boletim da Faculdade de
Direito, Vol. LXX, Coimbra, 1994, pág. 226, refere sobre este ponto que “... o Ministério Público, não obstante ser
o dominus desta fase, é-o por imperativo da lei e por isso também ele está sujeito às intencionalidades jurídico-legal-
mente definidas. Daí que as polícias tenham que seguir as orientações processuais cominadas, ficando, desse jeito, fora
daquele âmbito de orientação as questões tácticas ou estratégicas de âmbito puramente policial e não violadoras da
lei.”
Direcção do Inquérito e Relacionamento entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária

54 A Polícia Judiciária intervém no âmbito das suas competências de coadjuvação, dando cum-
primento aos comandos do Ministério Público veiculados através de instruções e directivas.
Materializar esta relação funcional no inquérito implica a adopção de procedimentos e um diá-
logo institucional que nos últimos anos não se tem mostrado muito consensual e, por vezes,
até pouco pacífico.
Tal decorre da complexidade desta relação funcional, da por vezes diferente interpretação feita
dos normativos legais que a regulam, de algum défice de formação em matéria de investiga-
ção criminal (e de outros aspectos de natureza organizatória) nos magistrados do Ministério
Público que lhes permitam ser mais interventivos, e razões de natureza histórica que também
aqui pontificam.44
De todo o modo, a investigação criminal constitui o primeiro e um dos passos mais impor-
tantes (se não mesmo o mais importante, na medida em que condiciona – ou pode condicio-
nar – todos os outros) para o exercício da acção penal. É durante a investigação criminal que
se identificam os crimes praticados, se determinam os seus agentes e a sua responsabilidade, e
se descobrem e recolhem as provas. Ou seja, é na sequência da investigação, que se define e se
fixa o objecto do processo (com a dedução da acusação pelo Ministério Público, pelo assistente
ou através do requerimento de abertura de instrução, nos casos em que o Ministério Público
não deduza acusação) que, em obediência ao princípio da vinculação temática, se há-de man-
ter inalterado até final do processo.

42. O legislador no preâmbulo do Decreto-Lei n.º 275-A/2000, de 9 de Novembro (entretanto revogado, parcial-
mente, pela Lei n.º 37/2008, de 6 de Agosto) escreve a certa altura: “... comete-se aos níveis superiores da respectiva
carreira [de investigação criminal] um papel decisivo no domínio da valoração das instruções ou directivas das auto-
ridades judiciárias na perspectiva do desenvolvimento da autonomia da investigação criminal consagrada na Lei da
Organização da Investigação Criminal”.
43. E é na investigação desta criminalidade grave e complexa que deve existir uma relação mais intensa e desburo-
cratizada entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária, devido às exigências de que a lei faz depender a prática de
certos actos e à necessidade de planificar e articular devidamente todos os passos previsíveis da investigação, tendo em
vista definir e antecipar o momento de intervenção do juiz de instrução.
44. No âmbito da lei que então regia a Polícia Judiciária (Decreto-Lei n.º 35042, de 20 de Outubro de 1945) os ins-
pectores eram recrutados de entre os delegados do Ministério Público, considerados os melhores. A Polícia Judiciá-
ria tinha funções de instrução preparatória – artigos 17º e 18º do Decreto-Lei n.º 35007, de 13 de Outubro de 1945
– e de arquivamento dos autos, nas comarcas de Lisboa, Porto e Coimbra, onde à data estava instalada. Estas fun-
ções, próprias do Ministério Público, eram exercidas na Polícia Judiciária pelos inspectores. Sucedia, então, que mesmo
algumas funções de natureza judicial (por exemplo, a libertação e manutenção em prisão preventiva, de indivíduos
detidos) na fase de instrução preparatória foram atribuídas aos órgãos superiores da Polícia Judiciária – director e
subdirector -, ocupados por juízes – nos termos do artigo 8º do Estatuto Judiciário à data em vigor.
Este estado de coisas alterou-se com a Lei n.º 185/72, de 31 de Maio, quando foi estabelecida a figura do juiz de ins-
trução criminal que assumiu a fase de instrução preparatória, com a faculdade de delegar a realização das diligências
de investigação na Polícia Judiciária (o que normalmente acontecia) que detinha a competência exclusiva para a ins-
trução dos crimes mais graves.
Com a entrada em vigor do Decreto-Lei n.º 605/75, de 3 de Novembro, criou-se uma fase de inquérito policial (de-
pois chamado de inquérito preliminar) a cargo do Ministério Público e da Polícia Judiciária, para investigar crimes
João de Almeida

Esta actividade processual contende com os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, por- 55
que a prova recolhida tem eficácia indiciária e, nessa medida, é susceptível de fundamentar a
realização de actos processuais que afectam a esfera jurídica dos cidadãos, originando a con-
tracção de direitos constitucionais como sejam a liberdade (por aplicação da medida de coac-
ção de prisão preventiva), a intimidade (por intercepção e gravação de conversas e tomadas de
imagem, privadas) e o património (através da apreensão de bens). Nesta medida a investiga-
ção criminal é também uma função judicial.
A investigação criminal é assim uma etapa fundamental para o êxito do exercício da acção
penal, que depende directamente da qualidade, idoneidade e correcção com que aquela in-
vestigação criminal foi realizada. Impõe-se assim que a investigação criminal seja levada a cabo
com garantias de legalidade, isenção e objectividade.
A intervenção do Ministério Público na direcção da investigação criminal destina-se a assegurar
a sua idoneidade e objectividade, a validade da prova indiciária recolhida e a garantir os direitos
liberdades e garantias dos cidadãos, em especial do arguido.45
Sucede que na prática – salvo algumas excepções, que poderão confirmar a regra – a investi-
gação criminal é realizada pela Polícia Judiciária que faz intervir o Ministério Público quando
se trata de praticar actos da sua competência ou da competência do juiz de instrução. Quando
considera a investigação concluída, remete-lhe o inquérito com uma proposta de dedução de
acusação ou de arquivamento. A direcção da investigação pelo Ministério Público é assim,
como já atrás referimos, meramente formal, direi mesmo virtual.46 47 48 49

cuja moldura penal não ultrapassava os dois anos de prisão. Manteve-se a instrução preparatória e contraditória, na
competência do juiz de instrução criminal, para os restantes crimes e nas situações em que o arguido tenha sido de-
tido e não tenha sido sujeito a processo sumário.
A Constituição de 1976, no artigo 32º, n.º 4, ao dispor que “Toda a instrução será da competência de um juiz, in-
dicando a lei os casos em que ela deve assumir forma contraditória.” tornou obrigatória a instrução judicial e no ar-
tigo 224º, n.º 1 (hoje, artigo 219º, n.º 1), ao dispor que “Ao Ministério Público compete ... exercer a acção penal ...”,
cometeu o exercício da acção penal, em exclusividade, ao Ministério Público. Nesta sequência o Decreto-Lei n.º
377/77, de 6 de Outubro e a Lei n.º 25/81, de 21 de Agosto, no âmbito processual penal, e o Decreto-Lei n.º 364/77,
de 2 de Setembro, no âmbito da Polícia Judiciária, vieram alterar o sistema de forma substancial. A Polícia Judiciária
deixou de poder arquivar os processos, passando tais poderes em exclusividade para o Ministério Público, e os ma-
gistrados do Ministério Público, em exercício de funções de inspector na Polícia Judiciária, foram obrigados a optar
pela continuação ou pelo regresso ao Ministério Público. À data um inspector ganhava mais do que um magistrado
do Ministério Público, pois auferia o vencimento de delegado de 1ª categoria (o mais antigo), que era acrescido de
um suplemento remuneratório pelo exercício daquelas funções. Alguns inspectores optaram por continuar na Polí-
cia Judiciária e, desde essa altura, as relações entre os quadros superiores da Polícia Judiciária e os magistrados do Mi-
nistério Público não têm sido as melhores, dando lugar a uma conflitualidade ainda hoje não completamente debelada.
(Sobre esta matéria, vide CLUNY, António Francisco – O relacionamento da Polícia Judiciária com o Ministério Pú-
blico e o poder judicial em Portugal, in Revista do Ministério Público, Ano 16, Outubro/Dezembro, 1995, n.º 64,
pág. 68 a 70).
45. Isto não quer dizer que a Polícia Judiciária (ou qualquer outra polícia) não esteja obrigada a actuar observando
sempre critérios de legalidade. COSTA, José de Faria – As Relações entre o Ministério Público ... op. cit., pág. 222,
refere que qualquer polícia está sujeita ao dever de actuar segundo a legalidade e que esse dever tem mesmo uma di-
recta legitimidade constitucional (cf. artigo 272º, n.º 1, da Constituição da República).
Direcção do Inquérito e Relacionamento entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária

56 Quem detém o domínio material da investigação criminal é a Polícia Judiciária, que define as
estratégias investigatórias, pratica actos processuais e determina ou influencia a estrutura de
outros. Ou seja, comporta-se no inquérito como um verdadeiro sujeito processual, em sentido
material.
Tudo isto por que o Ministério Público depende por completo dos órgãos de polícia criminal
para realizar o inquérito.50 51
É natural que um quadro destes gere conflitualidade com reflexos negativos ao nível dos re-
sultados da investigação criminal. Conflitualidade que se agrava quando alguns sectores do Mi-
nistério Público defendem que os investigadores da Polícia Judiciária deveriam passar a
investigar sob as ordens directas dos procuradores. No fundo fazer a extensão e universalizar
o regime previsto (no artigo 12º, da Lei n.º 36/94, de 29 de Setembro)52 para a criminalidade
económica que permite ao Ministério Público requisitar investigadores à Polícia Judiciária
para trabalharem directamente sob as ordens dos procuradores e nas instalações do Ministé-
rio Público.53
Também o entendimento de alguns sectores do Ministério Público de que tais requisições po-
deriam ser nominais, ignorando que tal procedimento constituiria uma intolerável ingerência

46. MOURA, José Souto de - Justiça, Ministério Público, Criminalidade Económica, in Revista Portuguesa de Ciên-
cia Criminal, Ano 13, n.º 2, Abril-Junho 2003, Coimbra Editora, pág. 21, refere que se “o Ministério Público surge
cada vez mais como um “dominus” da investigação, meramente formal, se o fulcro do “poder” investigatório nos cri-
mes graves está nas polícias, operando os procuradores um mero controlo à distância do conteúdo do inquérito, se
tudo isto é verdade, também não é menos verdade a falta de alternativas credíveis.”
47. RODRIGUES, José Narciso da Cunha – A Posição Institucional e as Atribuições do Ministério Público e das Po-
lícias na Investigação Criminal, in Boletim do Ministério da Justiça, n.º 337, Junho, 1984, pág. 41, já o então Pro-
curador-Geral da República afirmava que “Efectivamente, o Ministério Público não coordena a investigação criminal,
se se entender por coordenação a superintendência numa actividade que gera relações próprias. Nesta perspectiva o
Ministério Público não coordena, ordena.”
48. PEREIRA, Rui – A crise do Processo Penal, in Revista do Ministério Público, n.º 94, Ano 24, Abr/Jun 2003, pág.
20, quando afirma (referindo-se à constituição de arguido por órgãos de polícia criminal; matéria que, entretanto, foi
alterada - artigo 58.º, n.º 3 - no âmbito da reforma de 2007 - Lei n.º 48/2007, de 29 de Agosto -, mas com poucas
consequências, já que a validação é normalmente exarada em cópias do auto remetidas, para o efeito, ao Ministério
Público, que umas vezes guarda em depósito e outras devolve para junção aos autos) que “... o exercício da acção penal
não se basta com a abertura e o encerramento do inquérito, como pode resultar das delegações genéricas de compe-
tência do Ministério Público nos órgãos de polícia criminal (artigo 270º, n.º 4, do Código de Processo Penal). Se-
nhores do inquérito, nestes casos, não serão, afinal, os órgãos de polícia criminal?”
49. MARTINS, A. G. Lourenço – Poder Judicial e Magistratura de Investigação, in Boletim da Faculdade de Direito
da Universidade de Coimbra, Vol. LXXV, Coimbra, 1999, pág. 411, refere que “ ... o Ministério Público formalmente
é o dominus da investigação mas na prática, quando se trata de crimes graves – talvez com excepção de alguma cri-
minalidade de natureza económico-financeira – a verdadeira investigação, mesmo nos momentos em que pode tocar
com as garantias do arguido é “entregue” ou “endossada” aos OPC.”
50. MOURA, José Souto de – Justiça, Ministério Público ..., op. cit., pág. 18, neste sentido quando refere que “...
parece-nos ser do mais elementar senso comum o reconhecimento de que o Ministério Público depende por com-
pleto dos O.P.C. para realizar o inquérito, e de que tudo o que os O.P.C. fizerem, ou serve os propósitos do Minis-
tério Público, ou para pouco mais servirá!”. E mais adiante “Na prática, um Ministério Público em absoluto alheado
da investigação, e em certas situações tal tentação existe, acaba por não ter qualquer margem de manobra. Corre os
riscos de ficar totalmente condicionado pelas polícias quanto aos resultados obtidos e meios utilizados e, no limite,
poderá ser ultrapassado pela tutela governamental dessas mesmas polícias.” Concluindo que a missão das polícias “...
fica basicamente cumprida com o fim da investigação em inquérito, para o Ministério Público, o sucesso da investi-
João de Almeida

na direcção da Polícia Judiciária e atentava contra a autonomia – orgânica, técnica e táctica – 57


da Instituição, hoje consagrada na lei e consensual na doutrina, contribuiu para o agravamento
das relações institucionais, dificultando o diálogo institucional entre os investigadores e o Mi-
nistério Público.54 55 56
As Leis de Organização da Investigação Criminal (Lei n.º 21/2000, de 10 de Agosto e Lei n.º
49/2008, de 27 de Agosto) e as leis que aprovam a orgânica da Polícia Judiciária (Decreto-
Lei n.º 275-A/2000, de 9 de Novembro e Lei n.º 37/2008, de 6 de Agosto) parecem apostar
numa revalorização dos quadros superiores e intermédios da Polícia Judiciária57 (a par de uma
transferência de mais poderes para a Polícia Judiciária58 e consagração da autonomia técnica e
táctica, no âmbito das referidas Leis de Organização da Investigação Criminal) elegendo-os
como interlocutores privilegiados do Ministério Público e capazes de contribuírem para gerar
“um fluxo informacional desburocratizado entre os sujeitos ou as instituições interessadas –
que, desse jeito, possam complementar as regras e os princípios básicos do actual código de
processo penal português.”, como bem refere Faria Costa.59
Mas no dia-a-dia não é isso que acontece. O diálogo entre os procuradores titulares dos in-
quéritos e os coordenadores de investigação criminal, que dirigem as unidades orgânicas que

gação será apenas uma etapa essencial, mas não exclusiva, para atingir o resultado final que se propõe conseguir: a rea-
lização efectiva da justiça penal no caso...”.
51. No tempo mais recente, assistiu-se – e continua a assistir-se – a situações pontuais em que o Ministério Público
assume a direcção efectiva de equipas de investigação criminal integradas por investigadores da Polícia Judiciária, em
alguns casos mais mediáticos. O quadro em que ocorrem parece-nos ser meramente conjuntural. Os resultados não
são encorajadores. E deteriora ainda mais o diálogo institucional entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária tão
essencial à realização da investigação criminal. Não será este, seguramente, o bom caminho a trilhar no futuro.
52. Dispõe-se nesse artigo que “No caso de avocação de processos pelo Ministério Público, pode o Procurador-Geral
da República, tendo em conta a disponibilidade de meios, solicitar, por intermédio do Ministro da Justiça, a requi-
sição ou o destacamento de funcionários da investigação criminal da Polícia Judiciária.”
53. Ou, como sucedeu, em tempo ainda próximo, no âmbito de um processo de pedofilia muito mediatizado, em
que a equipa de investigadores da Polícia Judiciária passou a receber ordens directas e a depender da equipa de pro-
curadores que liderou as investigações, quebrando por completo, nesse período, a sua relação funcional e hierárquica
com as chefias da Polícia Judiciária, ficando com reporte exclusivo ao Ministério Público. A equipa apenas utilizou
os meios materiais (veículos, instalações e demais equipamentos) da Polícia Judiciária, ao que se sabe, por não existi-
rem no Ministério Público.
54. COSTA, José de Faria – As Relações entre o Ministério Público ... op. cit., pág. 235, refere que “... o Ministério
Público, tem de respeitar a estrutura administrativa e orgânica das entidades policiais. Para além disso – aliás, como
corolário do que se acaba de afirmar -, a distribuição de competências dentro de um mesmo serviço público – cada
entidade policial – é outrossim tarefa administrativo-policial como, de resto, é também tarefa administrativa, e da com-
petência do superior hierárquico, assegurar a eficiência do próprio serviço. Nesta perspectiva resulta claro que só o su-
perior hierárquico pode saber qual o funcionário melhor preparado ou mesmo disponível para a realização de uma
tarefa requerida por uma autoridade judiciária. Tudo, por conseguinte, manifestações de traços reveladores da cha-
mada independência orgânica da polícia.”
55. MOURA, José Souto de – Inquérito e Instrução, in Jornadas de Direito Processual Penal. O novo Código de Pro-
cesso Penal, Almedina, Coimbra, 1988, pág. 106, refere que “A estrutura orgânica, a acção disciplinar, ou o funcio-
namento administrativo das polícias, são campos estranhos à actuação M.º P.º. Este superintende no processo e só
no processo.”
56. CUNHA, José Manuel Damião da – O Ministério Público e os Órgãos ... op. cit., pág. 263 e 264, quando refere
que “para efeitos de realização de investigações e diligências pontuais, a escolha do funcionário policial compete,
única e exclusivamente, ao superior hierárquico.”, assim “as requisições do MP devem ser dirigidas aos directores ou
Direcção do Inquérito e Relacionamento entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária

58 realizam a investigação e são por ela responsáveis,60 não se verifica por razões que responsabi-
lizam ambos os lados. Mas tem sido a prática dos procuradores que mais tem contribuído
para este estado de coisas. Normalmente são os procuradores que mais vezes necessitam de es-
clarecimentos relacionados com as investigações a decorrer nos inquéritos. Por regra, dirigem-
se ao inspector que tem o inquérito distribuído (ignorando as hierarquias da unidade orgânica)
que, por isso, participa na realização das diligências processuais, organiza o dossiê criminal
(actuando sempre sob a directa orientação da chefia imediata) e apresenta-o ao inspector-chefe
da Brigada, que, por sua vez, o apresenta ao coordenador para despacho, quando for caso
disso. Nenhum inquérito deve entrar ou sair (a título definitivo ou temporário) na unidade
orgânica, sem que o mesmo seja despachado pelo coordenador ou por alguém que o substi-
tua.
Os procuradores – salvo raras excepções – ignoram as chefias da unidade orgânica de investi-
gação, numa lógica de que o encargo da investigação foi cometido ao órgão de polícia crimi-
nal Polícia Judiciária e, dentro dele, procura-se ou mesmo escolhe-se o interlocutor mais directo
e, de preferência, menos exigente.
A esta crítica respondem normalmente os procuradores que os coordenadores raramente têm
o domínio material do inquérito, para que possam prestar uma informação pronta e actuali-
zada. A crítica tem alguma pertinência e poder-se-á apontar o dedo – nesta matéria, como em
outras – aos coordenadores que, por vezes, se demitem um pouco daquilo que também são as
suas tarefas funcionais – elaborar o planeamento das investigações mais complexas e acompa-
nhar de perto a sua realização.61
chefes ... só uma solução deste tipo garante uma verdadeira dependência funcional. E isto, porque a escolha de fun-
cionários é questão que cabe, por definição, ao superior, pois só ele poderá saber qual o funcionário melhor prepa-
rado ... o que não quer dizer, porém, que, salvaguardada a organização do serviço, não possa o MP sugerir a eleição
de um determinado funcionário ... sugestão que deve ser, sempre que possível, aceite.”
57. Sobre esta matéria vide a nota n.º 42, supra.
58. Primeiro através da Lei n.º 103/2001, de 25 de Agosto, que alterou o Decreto-Lei n.º 275-A/2000, de 9 de No-
vembro (aditando-lhe o artigo 11-A) e depois no artigo 12.º da Lei n.º 37/2008, de 6 de Agosto; isto, não obstante,
a revogação da alínea d) do referido artigo 12.º pelo artigo 4.º, alínea b), da Lei n.º 26/2010, de 30 de Agosto. Do
que resultou os poderes da Polícia Judiciária, em matéria de detenção fora de flagrante delito, ficarem, de novo, con-
finados ao disposto no artigo 257.º, n.º 2, do CPP, à semelhança dos restantes órgãos de polícia criminal.
59. COSTA, José de Faria – As Relações entre O Ministério Público ..., op. cit., pág. 246.
60. As Unidades da Polícia Judiciária (nacionais, territoriais, regionais e locais) que realizam a investigação criminal,
organizam-se em secções a que é atribuída a investigação de determinados crimes. A secção – que é dirigida por um
coordenador de investigação criminal – estrutura-se em brigadas – normalmente três, que são chefiadas por inspec-
tores-chefes – compostas, em média, por seis inspectores, cada.
Os inquéritos entram na Polícia Judiciária e são canalizados para as respectivas secções, em função da distribuição de
competências internas (Decreto- Lei n.º 42/2009, de 12 de Fevereiro) para a investigação dos diversos crimes de
competência reservada da Polícia Judiciária, nos termos da lei de Organização da Investigação Criminal (Lei n.º
49/2008, de 27 de Agosto).
Os inquéritos são distribuídos pelas brigadas pelo coordenador, e nas brigadas o inspector chefe distribui os inquéri-
tos pelos inspectores e, por vezes, por ele próprio (quando haja concordância do coordenador e razões de complexi-
dade ou outras o justifiquem).
João de Almeida

De todo o modo, a informação deve ser solicitada directamente ao coordenador, que dirige a 59
unidade orgânica, enquanto responsável pela realização da investigação criminal, que deve
acompanhar de perto as investigações e actualizar a informação, sem prejuízo de, nos casos em
que tal se justifique, fazer intervir na reunião de trabalho com o titular do inquérito outro ou
outros investigadores intervenientes nas investigações.
Há-de ser num quadro de entendimento, de procura de equilíbrios e consensos, que propen-
dam para a harmonização de procedimentos na articulação das actuações do Ministério Pú-
blico e das autoridades de polícia criminal da Polícia Judiciária, que se trilha o caminho da
eficácia, segurança e aperfeiçoamento do sistema de investigação criminal.
Sendo isso verdade, o certo é que os anos passam, os diplomas legais sucedem-se, e a articu-
lação entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária não sofre alterações substanciais.62 Ape-
nas uns avanços e recuos. Com os prejuízos conhecidos para a (falta de) eficácia da investigação
criminal.
Na busca de soluções para o problema, uns advogam uma maior dependência da Polícia Ju-
diciária face ao Ministério Público, mesmo a nível orgânico, com os argumentos de que se a
parte hegemónica do seu labor se consubstancia na coadjuvação ao Ministério Público, faz
todo o sentido que dependa organicamente deste e não do poder político o qual, consideram,
não ter a independência de uma magistratura para garantir a legalidade de actuação da polí-
cia criminal.63 64 Alguns destes vão mais longe e defendem a distribuição dos investigadores
pelas procuradorias, organizados em núcleos de investigação na dependência directa dos pro-
curadores. O que, a curto-prazo, levaria à extinção da Polícia Judiciária.
As tarefas de investigação criminal, e os correspondentes actos processuais no inquérito, são realizadas pelo inspector
sob a directa orientação e controlo do inspector-chefe – artigos 67º, n.º 2. alínea c) e 68º, alínea a) – ambos do De-
creto-Lei n.º 275-A/2000, de 9 de Novembro.
O coordenador participa na elaboração do planeamento da investigação criminal, assegura o seu controlo operacio-
nal e controla a legalidade e adequação dos actos, acções, diligências e operações desenvolvidos (artigo 66º, n.º 2, alí-
nea b) e n.º 3, alínea a), do referido Decreto-Lei n.º 275-A/2000), promove a realização dos actos da competência
do Ministério Público e do juiz, e pratica no inquérito os actos da sua competência (por exemplo, ordenar buscas não-
-domiciliárias, apreensões, excepto de correspondência ou sujeitas a regime especial, a realização de perícias, quando
efectuadas por organismos oficiais e com excepção para as psiquiátricas, sobre a personalidade, ou autópsia médico-
legal, e ordena detenções fora de flagrante delito).
Elaborado o relatório final no inquérito, cabe ao coordenador avaliar da conclusão das investigações ou da necessi-
dade da sua continuação, indicando, neste caso, quais as diligências a realizar. Após o que remete o inquérito ao ma-
gistrado do Ministério Público titular, com proposta de dedução de acusação ou de arquivamento.
Estas unidades orgânicas – as secções – são assim as únicas responsáveis pela realização da investigação criminal na
Polícia Judiciária, razão pela qual a articulação entre a Polícia Judiciária e o Ministério Público joga-se, fundamen-
talmente, a este nível. Ou seja, nas boas relações institucionais e nas boas práticas cooperativas que se estabelecem ou
não entre o coordenador de investigação criminal e o procurador do Ministério Público, titular do inquérito.
61. Nos termos da alínea b), do n.º 2, do artigo 66º, do Decreto-Lei n.º 275-A/2000, de 9 de Novembro, compete
ao coordenador de investigação criminal “Elaborar o planeamento da investigação criminal e assegurar o respectivo
controlo operacional;”.
62. COSTA, José de Faria – As Relações entre Ministério Público ..., op. cit., pág. 225, refere que “o tipo de tensões
suscitadas entre os órgãos de polícia criminal e o Ministério Público se resume ou circunscreve, em larguíssima me-
dida, às tensões entre a Polícia Judiciaria e o Ministério Público.”
Direcção do Inquérito e Relacionamento entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária

60 Outros, fazendo apelo ao passado, defendem o retorno do Ministério Público ao interior da


Polícia Judiciária, ocupando o lugar do coordenador, como em tempos ocupou o lugar do
então inspector. Mas com uma nuance, o Ministério Público chefiava a unidade orgânica de
investigação, deduzia acusação no inquérito e arquivava, mantendo, no entanto, a sua quali-
dade de magistrado sem qualquer reporte de natureza hierárquica à direcção da Polícia Judi-
ciária. Alguns destes, mais avisados, defendem a vinda do Ministério Público para o seio da
Polícia Judiciária, mas para o exercício de funções exclusivamente de Ministério Público.65
A primeira solução proposta, sendo exequível, deixava de fora a componente de polícia ad-
ministrativa. Que, diga-se, representa uma parte menos importante da actividade da Polícia
Judiciária que tem a ver com as actividades de vigiar e fiscalizar previstas no artigo 4º, da Lei
n.º 37/2008, de 6 de Agosto. As restantes actividades desenvolvidas pela Polícia Judiciária são
actividades processuais ou materialmente processuais66 67 e, portanto, sujeitas ao regime da lei
processual penal.
A dependência orgânica do Ministério Público levantava ainda outros problemas (para além
dos de natureza política, e que nos abstemos sequer de aflorar) relacionados com a eventual
perda de autonomia técnica e táctica e da especialização que hoje decorre do catálogo de
crimes de competência investigatória reservada, passando a intervir na investigação de outros
crimes um pouco ao sabor da gestão que o Ministério Público entenda fazer para dar resposta
a eventuais insuficiências de outros órgãos de polícia criminal ou mesmo de funcionários. A
direcção e as chefias superiores da Polícia Judiciária teriam, nesse quadro, muitas dificuldades

63. Esta questão é claramente aflorada por CLUNY, António Francisco – O Relacionamento da Polícia Judiciária com
o Ministério Público e o poder judicial em Portugal, in Revista do Ministério Público, n.º 64, Ano 16º, Outu-
bro/Dezembro, 1995, pág. 76, quando a propósito da requisição de agentes (hoje, inspectores) da Polícia Judiciária
para a concretização de determinadas diligências, questionava a posição da direcção da Polícia Judiciária que se arro-
gava o poder de disponibilizar, ou não, tais meios investigatórios, afirmando “que tudo isto passava pela emergência
pública do fenómeno da criminalidade de ‘colarinho branco’ e pelo alerta que de imediato os centros do poder, de-
signadamente o Governo, sentiram, quando começaram a ver investigadas certas figuras politicamente importantes.”
E conclui que “A partir de então, começou a travar-se entre a Procuradoria-Geral da República e o Governo, inicial-
mente através da Polícia Judiciária, uma guerra fria que veio a ter consequências a nível do próprio Estatuto do Mi-
nistério Público... relativamente aos poderes da fiscalização e direcção da Polícia Judiciária”
64. Neste sentido ver ainda nota n.º 50, supra
65. É o caso do procurador COLAÇO, António Bernardo – O Ministério Público e as Polícias no Quadro do Fu-
turo Código de Processo Penal, in Revista do Ministério Público, Cadernos, dedicada às Jornadas do Sindicato dos
Magistrados do Ministério Público sobre a discussão do Projecto do Código de Processo Penal, em 7/8 de Novem-
bro de 1986, quando se refere à figura do “MP junto da Polícia” nestes termos: “... nada tem a ver com o MP na Po-
lícia; ou seja, um MP policializado, tal como acontecia com o antigo inspector da PJ recrutado entre os delegados do
Procurador da República (em comissão de serviço).” E mais adiante “... em nada mancha a dignidade da magistra-
tura, a figura do MP junto da Polícia, quando directamente dependente da estrutura hierárquica da PGR (em nada
dependendo, por ex., do Director-Geral Policial, eventualmente magistrado do MP)”, concluindo que nada deveria
impedir a generalização da figura junto das entidades policiais “com funções de investigação (e prevenção) criminal
(PSP, GNR, GF[entretanto extinta], PJ, Actividades Económicas, etc.).”
66. De resto, temos alguma dificuldade em configurar situações que, em sede de prevenção, comportem o registo de
som e a tomada de imagens, bem como a realização de buscas, como se refere no n.º 3, do referido artigo 4º, da Lei
n.º 37/2008, de 6 de Agosto.
João de Almeida

em devolver inquéritos ao Ministério Público que, não sendo da sua competência, lhe são re- 61
metidos para investigação e pugnar para que o mecanismo do deferimento de competência
para a investigação de certos crimes à Polícia Judiciária se mantivesse dentro de certos parâ-
metros.68
Quanto à solução que advoga a distribuição e afectação dos investigadores às diversas procu-
radorias do Ministério Público o que, em nosso entender, a curto-prazo, conduziria à extin-
ção da Polícia Judiciária, parece-nos ser de rejeitar liminarmente.69 Porque os investigadores a
médio-prazo transformar-se-iam em meros funcionários do Ministério Público e a desarticu-
lação da Polícia Judiciária (órgão mais dotado e vocacionado para a realização da investigação
criminal) representaria uma perda irreparável no panorama da investigação criminal nacio-
nal. O capital de experiência acumulado ao longo de sessenta e cinco anos seria desperdiçado.
E mais grave, a formação de novos polícias ficaria seriamente comprometida. Essa formação
só é possível no seio da Instituição Polícia Judiciária. E não se basta com a vertente teórico-
prática, essencialmente cognitiva, ministrada pelo órgão formador. Esta representa apenas uma
parte dessa formação. Em regra, a formação de um investigador completa-se ao fim de cinco
anos de experiência.
Por outro lado, a Polícia Judiciária (ou qualquer outra polícia) consegue resultados na investiga-
ção criminal não por que tem nos seus quadros este ou aquele investigador, mas pela força do
seu colectivo, pelo caldo de cultura institucional em que actuam, se formam e se movimentam
os seus investigadores.

67. A distinção entre prevenção criminal e investigação criminal é, por vezes, difícil de se conseguir. A prevenção cri-
minal é uma das atribuições da polícia instrumental do exercício da acção penal, no sentido de que visa impedir o
cometimento de crimes. Tem natureza administrativa e exigências de ordem técnica, táctica, operacional, estratégica
e organizativa, que têm muito a ver com a instituição policial que a executa. São meras funções de polícia adminis-
trativa, as quais têm de desenvolver-se sem perturbar ou limitar ou ainda menos pôr em crise, os direitos dos cida-
dãos. A actuação preventiva de polícia há-de ter mais a ver com a vigilância e fiscalização de locais e actividades e a
presença física no terreno de agentes fardados, que desincentivem a prática de crimes, do que com a recolha de in-
formações de forma sistemática e organizada que vise pessoas ou grupos de pessoas determinadas ou a determinar.
A verificar-se esta última situação, a actividade desenvolvida já se encontra mais próxima da figura da investigação cri-
minal do que da prevenção. No sentido de que o que se procura com esta actuação policial não é tanto evitar que cer-
tas pessoas ou grupos de pessoas pratiquem crimes, mas recolher informação que permita avaliar se já os praticaram
ou se preparam para os praticar. A ser assim estamos perante uma actividade que é materialmente de investigação cri-
minal ou processual penal e que contende directamente com os direitos, liberdades e garantias do cidadão, pelo que
deve estar sujeita à disciplina do Direito Processual Penal.
68. O artigo 8º da Lei de Organização da Investigação Criminal (Lei n.º 49/2008, de 27 de Agosto) prevê que o Pro-
curador-Geral da República pode deferir à Polícia Judiciária a investigação de crimes não previstos no catálogo,
quando se trate de criminalidade altamente organizada ou que assuma carácter transnacional ou dimensão interna-
cional ou se preveja que a investigação requeira conhecimentos ou meios técnicos especiais e mobilidade de actua-
ção, em razão do alargamento espácio-temporal da actividade delituosa ou da multiplicidade das vítimas ou dos
suspeitos.
69. MOURA, José Souto de – Justiça., Ministério Público ..., op. cit., pág. 22, refere “... caso buscássemos inspira-
ção no modelo italiano seria desencadeado um outro desequilíbrio de poderes, com o temível espectro da ‘República
de Juízes’ no horizonte. Ou seja, se se pretendessem criar nas Procuradorias da República corpos de polícia destaca-
dos que dependessem do magistrado não apenas funcionalmente. Entre nós, nunca este modelo poderia ser generalizado
Direcção do Inquérito e Relacionamento entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária

62 O retorno do Ministério Público à Polícia Judiciária em moldes idênticos ao que sucedeu no


passado, não faz hoje mais qualquer sentido. Qualquer magistrado do Ministério Público nes-
sas funções tende mais a assumir-se como polícia do que como magistrado.70 O seu envolvi-
mento na investigação criminal, facilmente o levaria a perder algum distanciamento crítico
necessário a uma correcta avaliação e ponderação da prova indiciária recolhida, com vista à to-
mada de decisão de deduzir ou não acusação.
Já a vinda do Ministério Público para o seio da Polícia Judiciária para o exercício de funções es-
tatutárias, parece-nos uma abordagem interessante ao problema e susceptível de revelar algumas
virtualidades.71
Sempre defendemos a proximidade (mesmo física) entre o investigador criminal e o acusador pú-
blico. O envolvimento do Ministério Público no delinear das estratégias de investigação (e não
na sua materialização) poderia trazer uma mais-valia acrescida à investigação criminal. Por outro
lado, há questões, aspectos de pormenor, que por vezes não são suficientemente valorados pelo
investigador mas que o são e se revelam de grande importância na formulação de uma acusação.
Um diálogo frequente entre estas duas entidades – investigador e acusador público – afigura-se-
nos benéfico em termos de aperfeiçoamento do sistema, de eficácia e de obtenção de resultados
na investigação criminal.
Por outro lado, a presença do Ministério Público pode constituir um forte apoio e estímulo ao
investigador, apoiando-o na abordagem de certos problemas de natureza legal e autorizando
actos processuais da sua competência, designadamente, ao nível das revistas pessoais, buscas não-
-domiciliárias, detenções72 e na promoção de actos jurisdicionais a praticar no inquérito, encur-
tando a demora que por vezes é longa e, não raras vezes, dificulta ou até compromete as inves-
tigações.
Experiências destas já foram concretizadas com bons resultados e sem que tenham surgido sus-
ceptibilidades de um ou de outro lado. Em 1996 uma equipa de magistrados do Ministério Pú-
blico instalou-se na então Direcção Central de Investigação da Corrupção e Criminalidade
Económica e Financeira, onde trabalhou na dedução de acusação de alguns inquéritos de grande

a todo o País. Para além do que já referimos, pelos abalos que criaria na organização das polícias, pela falta de voca-
ção gestionária da maioria dos magistrados, pela falta de meios materiais disponíveis. E ‘Last but not the least’ sempre
ficariam de pé objecções sérias, como a de se quebrar a distância entre magistrado-polícia indispensável à diferencia-
ção real das funções, ou de se não aproveitarem todas as virtualidades da especialização dos corpos de polícia e, por-
tanto, não se rentabilizar adequadamente o sistema.”
70. Rodrigues, Narciso da Cunha – Direito processual penal – Tendências de reforma na Europa continental, Luga-
res do direito, Coimbra Editora, 1999, apud Rodrigues, Anabela Miranda – A Fase Preparatória do Processo Penal –
Tendências na Europa. O Caso Português, in Boletim da Faculdade de Direito de Coimbra, Coimbra Editora, 2001,
pág. 22, refere que “é errado pensar-se que os princípios e a praxis se purificam com a deslocação das polícias para o
interior das magistraturas. O magistrado que dirige orgânica, técnica e operacionalmente uma polícia tende para ac-
tuar mais como polícia do que como magistrado.”
71. MOURA, José Souto de – Justiça, Ministério Público ..., op. cit., pág. 22, a este propósito, interroga-se “Mas já
que as polícias não podem, não devem, vir trabalhar integradas em serviços do Ministério Público, porque não en-
saiar um movimento exactamente em sentido contrário, procurando-se aproximar os magistrados da polícia, co-
lhendo-se aliás os benefícios de experiências pretéritas que já ocorreram entre nós?”
João de Almeida

complexidade e, concomitantemente, deu apoio às investigações que ainda decorriam desen- 63


volvidas por aquele departamento da Polícia Judiciária.
É este o modelo de articulação entre a Polícia Judiciária e o Ministério Público que nos parece
melhor garantir o fluxo informacional desburocratizado (a que se refere Faria Costa - vide pág.
53 supra) capaz de suprir dificuldades de relacionamento que a lei processual penal e as Institui-
ções envolvidas não têm conseguido resolver.

I) Direcção do inquérito

Impõe-se que seja levada a cabo com garantias de isenção, legalidade e objectividade, por um
Magistrado com estatuto de autonomia, que valide os actos praticados pelos órgãos de polícia
criminal no inquérito. E que o Juiz de Instrução Criminal surja no seu papel de Juiz das Li-
berdades (como garante dos Direitos, Liberdades e Garantias dos cidadãos).
A investigação da criminalidade mais complexa e organizada deve ser realizada pela Polícia Ju-
diciária, na sua função de coadjuvação do Ministério Píblico, observando-se a sua autonomia
– orgânica, técnica e táctica –, mas sem correr riscos de policialização do inquérito, pois, a isso
obriga, toda a intencionalidade político-legislativa subjacente à lei processual penal vigente.

II) Relacionamento (articulação) entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária

À Polícia Judiciária e ao Ministério Público enquanto protagonistas da investigação do crime


mais complexo e organizado, exige-se-lhes uma relação funcional baseada em procedimentos e
num diálogo institucional que garanta a eficácia, a legalidade, a isenção e a objectividade da in-
vestigação criminal.
A deslocação dos magistrados do Ministério Público para o interior da Polícia Judiciária, nas
suas funções estatutárias, e salvaguardando as autonomias orgânica, técnica e táctica da Polícia,
consagradas na lei e já defendidas por muitos, parece-nos ser uma experiência a levar a cabo,
enquanto meio de ultrapassar problemas de comunicação entre quem investiga e quem acusa.

72. Aspectos que de alguma forma o legislador pretendeu solucionar com a Lei n.º103/2001, de 25 de Agosto (en-
tretanto revogada; vide nota n.º 58, supra), em que se cometem às autoridades de polícia criminal da Polícia Judiciá-
ria, no âmbito de delegação genérica de competência de investigação criminal, competências próximas das do
Ministério Público no inquérito, nestas matérias.
Direcção do Inquérito e Relacionamento entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária

64

Amaral, Diogo Freitas do - Curso de Direito Administrativo, Volume I, 2ª edição, Almedina,


1998.
Canotilho, J. J. Gomes e Moreira, Vital
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- A Posição Institucional e as Atribuições do Ministério Público e das Polícias na Investigação Cri-
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65
66
Técnicas Especiais de
Investigação Criminal

Factor de Segurança
67
António Sintra

Coordenador de Investigação Criminal da PJ.

“A Justiça é a Liberdade em acção”, Joseph Joubert1

A proliferação de nefastos fenómenos globais associados a crescentes vagas de criminalidade


transnacional grave e/ou organizada, bem como a emergência de diferentes formas de terro-
rismo fundamentalista, constituem concreta, profunda e permanente ameaça para os direitos
fundamentais e condições de vida das pessoas.
Desse modo, são colocadas em crise a segurança, a autoridade e a soberania dos Estados de Di-
reito, bem como, naturalmente, a estabilidade da comunidade globalmente considerada.
As transmutações negativas na cena internacional e as correspondentes respostas por parte dos
Estados determinam, não raras vezes, porventura de forma intolerável e ilegítima, a compres-
são de direitos fundamentais dos cidadãos.
Tais reacções tendem a afectar o justo equilíbrio entre segurança e liberdade.
Destarte, não é admissível olvidar que a segurança, como valor social, é solidária da ideia de
liberdade e que a segurança por si só nada deve justificar.
Por isso, o presente estudo tem como objecto a segurança em geral e como sujeito as deno-
minadas técnicas especiais de investigação criminal, persegue o objectivo específico de deter-
minar, através de método curial, se a aplicação de tais técnicas constitui efectivo factor de
segurança ou se, pelo contrário, representa causa de insegurança na medida em que é suscep-
tível de conflituar com direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.
No plano das metodologias foi usada a jurídica para análise legal do sistema de investigação
criminal e a sociológica para exame das estruturas e funcionamento do sistema. Quanto às
fontes, foram utilizadas as primárias, oficiais, jurídicas e estatísticas, bem como o testemunho
de protagonistas, nomeadamente magistrados e responsáveis por diferentes estruturas poli-
ciais relacionadas com a matéria, no nosso país e no estrangeiro.

1. Joseph Joubert, in http://www.pensador.info/autor/Joseph_Joubert/2/


Técnicas Especiais de Investigação Criminal – Factor de Segurança

68

A dimensão, motivação, influência, capacidade, mobilidade e grau de sofisticação de deter-


minados grupos criminosos revelam-se aptos para provocar alterações significativas no para-
digma da segurança em geral e, por extensão, também no da actuação policial, mormente em
sede de investigação criminal.
Perante tal constatação, os Estados, conscientes da gravidade da ameaça, essencialmente nas
duas últimas décadas, optaram por intensificar estudos e reflexões sobre a matéria, concebendo
e aplicando políticas e estratégias de resposta tendentes a minimizar os efeitos e consequên-
cias resultantes da prática de tais acções de cariz delituoso.
Assiste-se então, por vezes, ao emergir de tendências de securitização que funcionam como po-
líticas de excepção orientadas em função do grau de intensidade da contraposição, ou conflito,
amigo/inimigo.
O conceito de excepção teorizado por Carl Schmitt2 é definido como uma realidade de tal
forma perigosa que é capaz de ameaçar a existência do próprio Estado.
Entende o mesmo autor que, perante ameaça de relevo, a entidade competente poderá sus-
pender o ordenamento jurídico de forma a atingir uma realidade estável que permita o seu ul-
terior restabelecimento com a finalidade de proteger ou salvar o Estado.
Por isso, é usual considerar que a securitização é baseada na manipulação do poder por parte
da elite.
Nessa conformidade, emergem as políticas de excepção consubstanciadas em medidas, regimes
ou estados com diferentes graus de intensidade de intrusão nos direitos fundamentais dos ci-
dadãos.
As políticas de excepção, no estrito plano do soft-power, podem consistir na mera aplicação de
normas jurídicas inovadoras em sede do designado direito penal de primeira velocidade3, célere,
expedito e eficaz, com perfeita e absoluta aderência às normas constitucionais vigentes.
Ainda no mesmo modelo, embora já no limiar do hard-power, a teoria do direito penal do ini-
migo, enunciada em 19854, refere-se ao inimigo como alguém que não admite fazer parte da
comunidade (Estado) pelo que não deverá beneficiar das prerrogativas atribuídas ao cidadão
comum.
No contrato social entre o Estado e o cidadão, o bem comum representa o fim primário.
Daí, emana o desiderato da segurança5, quotidianamente prosseguido pela polícia: «a realiza-
ção do bem comum constitui a própria razão de ser dos poderes públicos»6.

2. Schimtt, Carl (1996). The Concept of the Political, University of Chicago Press. U.S.A.
3. Pereira, Rui (2007). «Segurança e Justiça em Portugal», Revista Segurança e Defesa, nº 1, Diário de Bordo. Loures
4. Gunter Jakobs (1985). Feindstrafrecht.
5. Art. 27º, nº1, da C.R.P.; art. 1º, nº 1, da Lei de Segurança Interna, aprovada pela Lei nº 53/2008, de 29 de
Agosto.
António Sintra

Em parte alguma existe paz pública eterna, nem sociedade sem crime. 69
Nunca há Estado sem polícia: «a existência da polícia é um facto universal, inevitável e aceite como
tal em todas as sociedades»7.
Forçosamente, as informações guiam a acção policial. A informação policial favorece a previ-
são da ilicitude e permite reforçar o cumprimento dos comandos legais.
E sem informação precisa, não existe prevenção eficaz do delito nem tranquilidade pública.
Assim, parecem passíveis de inserção nesse espaço as técnicas especiais de investigação crimi-
nal, com matriz na intelligence, geralmente assumidas como factor de segurança.

A premência e concretização das ameaças, bem como a constatação da insuficiência, ou até fa-
lência, dos métodos tradicionais de investigação criminal potenciaram os esforços dos Estados
no sentido de conceberem instrumentos adequados ao combate de formas graves de crimina-
lidade e de terrorismo.
A necessidade de resposta adequada, eficiente e eficaz, esteve na origem das ora denominadas
técnicas especiais de recolha de informação para fins de investigação criminal na tríplice di-
mensão: táctica, operacional e estratégica.
Perante tal contexto, a persistente mobilização de organizações internacionais possibilitou a ela-
boração e aprovação, desde o final do século transacto, de diversas recomendações e instru-
mentos de Direito Internacional para promoção do combate eficaz à criminalidade
organizada8.
Desde logo, pelas inovações introduzidas no ano 2000, assume particular destaque a Con-
venção das Nações Unidas Contra a Criminalidade Transnacional Organizada, também co-
nhecida por Convenção de Palermo, à qual Portugal aderiu9. O texto da Convenção exorta os
Estados-Partes a adoptarem medidas para intensificar a cooperação através da implementação
e aplicação de medidas de diferente índole, contemplando expressamente no seu texto a apli-
cação das denominadas técnicas especiais de investigação criminal10.

6. João XXII, Encíclica Pacem in Terris, de 14 de Abril de 1963, Instrução 54, apud António dos Reis Rodrigues, op.
cit., p.113.
7. Vendelin Hreblay (1997), La Police Judiciaire, Presses Universitaires. Paris – França.
8. Organização das Nações Unidas, União Europeia, Conselho da Europa, Recomendação da Reunião dos Ministros
da Justiça e Assuntos Internos do G8, em Maio de 2004, e Recomendação Rec (2005) 10, do Comité de Ministros
do Conselho da Europa, em Abril de 2005.
9. Aprovação pela Resolução nº 32/2004 da Assembleia da República e ratificação pelo Decreto do Presidente da Re-
pública nº 19/2004, de 2 de Abril.
10. Art.s 20º e 26º.
Técnicas Especiais de Investigação Criminal – Factor de Segurança

70

O conceito de técnicas especiais de investigação criminal, engloba a actividade policial dissi-


mulada, de natureza confidencial, ou até secreta, que é desenvolvida com a finalidade de obter
fluxos de informação tratada (intelligence11) respeitante a actividades de pessoas suspeitas e/ou
de recolher material probatório resultante da sua participação em práticas delituosas, a nível
individual e/ou no seio de grupos criminosos organizados, com destaque para as condutas que
integram as definições legais de terrorismo, criminalidade violenta, especialmente violenta e
altamente organizada12, mediante recurso a adequados meios humanos e/ou técnicos13.
Consideram-se técnicas especiais de investigação criminal, nomeadamente: as acções enco-
bertas, a gestão e o controlo de colaboradores, a protecção de testemunhas, as entregas con-
troladas, o seguimento e a vigilância electrónica, incluindo a intercepção de comunicações.
Essencialmente, tais técnicas são aplicadas como instrumento de suporte em acções de inves-
tigação policial de índole pró-activa, dirigidas à criminalidade organizada grupal, por norma
caracterizada pela repetição de crimes, sem prejuízo do seu uso noutras acções de investigação
reactiva ou cujos alvos sejam autores isolados.
Inevitavelmente, a informação privilegiada que resulta da aplicação das técnicas especiais de
investigação criminal favorece a previsão da ilicitude, determina a emanação de provas con-
cludentes e permite reforçar a observância dos comandos legais.
De facto, desde tempos ancestrais até à idade hodierna, tem sido comummente aceite que a
informação radicada no conhecimento de vulnerabilidades e fragilidades do adversário cons-
titui pressuposto de qualquer tipo de estratégia, incluindo as que são aplicadas à investigação
criminal. Nesse sentido, um dos maiores estratego da história da humanidade, o general chi-
nês Sun Tzu (500 a.C.)14, ensinou: «Conhece o teu inimigo e conhece-te a ti próprio; numa cen-
tena de batalhas nunca estarás em perigo».
Na mesma esteira, Luís Vaz de Camões15, autor da grande epopeia portuguesa, dispôs: «Adi-
vinhar perigos e evitallos».
Também no nosso país, a representação da produção de informação como actividade prévia e
instrumental da perseguição penal não constitui inovação recente. De facto, nos primórdios
do século XVII, já o Livro I das Ordenações Filipinas atribuía aos quadrilheiros, oficiais de in-
formações ao serviço do Rei, a missão de detectarem crimes para os comunicarem às justi-
ças16.

11. Terminologia oriunda do espaço anglo-saxónico, actualmente de aplicação universal.


12. Cfr. art. 1º, nº 1, alíneas i), j), l) e m) do Código de Processo Penal.
13. HUMINT, SIGINT, COMINT, ELINT, MASINT, IMINT, FISINT, OSINT, etc.
14. Tzu, Sun (1974). A Arte da Guerra. Tradução de Pedro Cardoso, Editora Futura. Lisboa.
15. Camões, Luis V. (1981). Lusíadas, Canto VIII, 89, 6.ª Edição, I Volume, Círculo de Leitores. Lisboa.
16. Ordenações Filipinas (1870). Edição de Cândido Mendes de Almeida, Rio de Janeiro – Brasil.
António Sintra

O bem sedimentado e largamente aplicado conceito anglo-saxónico intelligence-led policing 71


alicerça-se na pesquisa de notícias em busca de resposta assertiva para resolução de uma ocor-
rência policial, em função do conhecimento de dados, padrões e tendências criminais.
Em síntese, as técnicas especiais destinam-se a apoiar as unidades de investigação na pesquisa,
detecção e recolha de dados, notícias ou provas, não acessíveis de outro modo, que permitam
caracterizar e antecipar cenários delituosos e elaborar planos de actuação fiáveis e consistentes
que conduzam a subsequentes intervenções policiais com resultados de excelência.

Tratando-se de um tipo específico de actividade de polícia, mais intrusivo que os tradicionais,


é susceptível de contender amiudadamente com os limites do direito à privacidade ou outros
direitos fundamentais dos visados suspeitos.
Dessa forma, o uso de técnicas especiais de recolha de informação pelos funcionários de po-
lícia torna imperativo que quaisquer condutas por parte dos mesmos estejam estritamente
confinadas aos princípios do primado do direito e da legitimidade democrática com estrita ob-
servância das leis e normas morais, éticas e deontológicas.
Assume pois particular relevância por parte dos seus aplicadores, funcionários de polícia, o
profundo conhecimento de comandos e conteúdos de direito internacional, tratados, acor-
dos, convenções, doutrina e jurisprudência, de cariz externo e interno, em matéria de direitos
humanos17.
Do mesmo modo, no que concerne aos direitos, liberdades e garantias pessoais, aos princípios
fundamentais da administração pública e às disposições sobre polícia com consagração na lei
constitucional18.
Assim, emergem desde logo dos princípios constitucionais: a) a comprovada exigência de in-
tervenção policial e a necessidade dessa actuação restringir os direitos dos cidadãos; b) a ade-
quação entre a acção policial e o valor constitucional a salvaguardar; c) a proporcionalidade
entre o direito que é sacrificado e o benefício que se pretende alcançar.
Relevam ainda, particularmente, os normativos insertos na lei processual penal acerca da le-
galidade da prova e dos métodos proibidos de prova19. Efectivamente, são nulas quaisquer
provas obtidas mediante ofensa à integridade física ou moral das pessoas (direitos indisponí-
veis) e ainda as que são obtidas através de intromissão na vida privada, no domicílio, na cor-
respondência ou nas telecomunicações (direitos disponíveis).

17. Declaração Universal dos Direitos do Homem; Convenção Europeia dos Direitos do Homem; Código de Con-
duta da Nações Unidas; Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.
18. Art.s 24º, 27º, 29º, 32º, 34º, 266º e 272º Constituição da República Portuguesa.
19. Art.s 125º e 126º do Código de Processo Penal.
Técnicas Especiais de Investigação Criminal – Factor de Segurança

72 Por outro lado, são primordiais os sistemas de controlo, interno e externo, formal e informal.
Entende-se que o nível de controlo aumenta com a implementação de sistema curial de au-
torização prévia, antecedendo a efectiva aplicação da técnica especial. As diferentes instâncias
e modalidades de controlo devem ser complementares, dependendo do grau de intrusão que
o uso da técnica implica na esfera privada do visado suspeito.
No caso concreto de actuações encobertas, entregas controladas, intercepção de comunica-
ções e registo de voz e de imagem, para além de outras, é exigida autorização prévia e duplo
controlo, antes, durante e após as operações, tudo abrangido, naturalmente, pela intervenção
das autoridades policiais e judiciárias no exercício das suas proficiências específicas.

As referidas técnicas especiais têm aplicação em sede de exercício da competência geral e es-
pecífica dos órgãos de polícia criminal, mormente da Polícia Judiciária (PJ), em matéria de pre-
venção, detecção e investigação criminal, bem como de coadjuvação das autoridades
judiciárias20.
A montante da actividade de investigação criminal tout court, importa contudo salientar as atri-
buições específicas que determinam a relevante colaboração do Serviço de Informações de Se-
gurança (SIS) e do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) no processo de
produção de informação criminal.
De acordo com o General Pedro Cardoso, ideólogo da comunidade de informações em Por-
tugal: «…quanto mais livre é uma sociedade mais necessita de estruturas que a protejam. Uma des-
sas estruturas é, sem dúvida, um eficiente serviço de informações»21
Rui Pereira expende que «…para utilizar uma imagem eloquente, dir-se-à que a actividade dos
serviços de informações está para a investigação criminal tal como os crimes de perigo estão para os
crimes de dano»22.
Na verdade, em substância, a actividade dos serviços de informações constitui uma antecipa-
ção da tutela do Estado de Direito democrático relativamente à investigação criminal.
Tal antecipação é claramente guiada pelo conhecido aforismo popular segundo o qual «mais
vale prevenir que remediar».

20. Art.s 1º, nº 1, alínea c), 9º, nº 2, 55º, 56º, 249º, 250º, 263º e 288º do Código de Processo Penal; art.s 2º e 3º
da Lei n.º 49/2008, de 27 de Agosto (Lei de Organização da Investigação Criminal; art.s 2º, 3º, 4º e 5º da Lei n.º
37/2008, de 6 de Agosto (Lei Orgânica da Polícia Judiciária).
21. CARDOSO, Pedro (1980). As Informações em Portugal, Revista Nação e Defesa, nº 76/80, Instituto de Defesa
Nacional. Lisboa.
22. PEREIRA, Rui (1995), O Dolo de Perigo. Lex, Lisboa.
António Sintra

Campo de aplicação das técnicas especiais nos espaços da prevenção e inves- 73


tigação criminal
PREVENÇÃO
CRIMINAL

VIGILÂNCIA ENTREGAS GESTÃO ACTUAÇÕES


E
SEGUIMENTOS CONTROLADAS COLABORADORES ENCOBERTAS
REGISTO INTERCEPÇÃO PROTECÇÃO
DE DE
VOZ E IMAGEM COMUNICAÇÕES TESTEMUNHAS
INVESTIGAÇÃO
CRIMINAL

Fonte: António Sintra

Relativamente às medidas de polícia, a Constituição da República Portuguesa apenas exige


que venham previstas na lei (princípio da legalidade) e que não devem ser utilizadas para além
do estritamente necessário23.
A prevenção criminal destina-se: «…a impedir o aparecimento de condutas delituosas ou a sua
continuação, reduzir os factores sócio-económicos gerais e as circunstâncias criminógenas e obviar
a que as potenciais vítimas se coloquem em situações, ou assumam condutas negligentes, geradoras
de delitos. (…) As funções de recolha e tratamento de informações, vigilância e fiscalização a levar
a cabo pelas entidades competentes nessa área, porque preventivas e dissuasoras, estão dirigidas para
a generalidade das pessoas e dos locais sobre os quais incidem ou são de matriz específica desmoti-
vadora mas não se orientam para uma actividade investigatória de crimes praticados».
Quanto à investigação criminal: «…qualquer das acções a desenvolver pela P.J. que interfira, no
sentido de comprimir e/ou devassar, com direitos liberdades e garantias dos cidadãos não pode ter
lugar fora de um processo criminal devidamente formalizado»24.
Em resumo, «…a prevenção distingue-se da intervenção penal porque a primeira é eminentemente
pró-activa, enquanto que a segunda é de natureza restritiva». Contudo, «…nem sempre ser fácil
traçar a linha de separação entre prevenção e repressão pois, em múltiplas situações, a actividade
de polícia torna difícil a separação da acção preventiva da acção repressiva devido ao continuum
que se estabelece entre ambas e à dupla natureza das medidas»25.
Por outro lado, perante a definição de objectivos, prioridades e orientações da Lei de Política
Criminal para o biénio 2009/2011, prevê-se que a informação criminal obtida através de téc-
nicas especiais se revele instrumento de inequívoca utilidade em acções policiais para preven-
ção e redução da criminalidade violenta, grave ou organizada e investigação de crimes

23. Art. 272º, nº 2 da C.R.P.


24. Acórdão n. 465/93 do Tribunal Constitucional, publicado no Diário da República n. 212/93, de 9 de Setembro.
25. FERREIRA, Luís Fiães (2006). A Prevenção da Criminalidade. II Colóquio de Segurança Interna, I.S.C.P.S.I.,
Coimbra, Almedina, p. 74.
Técnicas Especiais de Investigação Criminal – Factor de Segurança

74 prioritários, designadamente de terrorismo, tráficos de estupefacientes e de armas, imigração


ilegal, etc26.
Na PJ, corpo superior de polícia criminal, a competência para a aplicação das técnicas espe-
ciais de recolha de informação criminal está atribuída à Unidade de Prevenção e Apoio Tec-
nológico (UPAT)27.
A U.P.A.T. intervém quando solicitada por outras unidades orgânicas de investigação crimi-
nal, em acções destinadas à pesquisa e obtenção de informação para prevenção, detecção e re-
colha de provas de práticas delituosas.
Essa Unidade executa actuações encobertas, entregas controladas e vigilância de actividades,
pessoas e locais suspeitos da preparação ou prática de actos ilícitos, mormente os associados à
criminalidade organizada, grave ou violenta.
Em tais contextos, pode ainda dar seguimento a outras acções tendentes a detectar, identifi-
car, colher, analisar e interpretar elementos diversos associados aos meios, fenómenos e ten-
dências criminais, mediante adequados instrumentos de recolha de informação criminal
privilegiada.

Considerando que a lei processual penal é aplicável em todo o território português e, bem
assim, em território estrangeiro nos limites definidos por tratados, convenções, acordos bila-
terais e multilaterais, e ainda regras do direito internacional, revela-se como praticamente uni-
versal o espaço físico disponível para a aplicação das técnicas especiais de investigação e
intrínseca recolha de informação e provas de natureza criminal, sendo tal campo potencial-
mente extensível aos territórios de elevado número de Estados, bem como às jurisdições pre-
valecentes em espaço aéreo e alto-mar28.
Em sede de cooperação internacional, vigora a protecção dos interesses da soberania, da se-
gurança, da ordem pública e de outros constitucionalmente definidos, bem como os princí-
pios da reciprocidade e da confiança mútua entre Estados.
Para além dos já mencionados, outros instrumentos de cooperação, de natureza convencional,
assumem particular relevância na matéria29.

26. Lei nº 38/2009, de 20 de Julho, em cumprimento da Lei nº 17/2006, de 23 de Maio (lei Quadro da Política Cri-
minal).
27. Art.s 1º e 27º da Lei n.º 37/2008, de 6 de Agosto (Lei Orgânica da P.J.).
28. Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito de Estupefacientes e Substâncias Psicotrópicas; Convenção
de Viena, de 1988; Convenção sobre Tráfico Ilícito por Mar (Montego Bay) de 1982; Convenção de Palermo; art. 6º
do Código de Processo Penal; Lei nº 144/99, de 31 de Agosto, alterada pela Lei nº 104/2001, de 31 de Agosto e pela
Lei nº 48/2003, de 22 de Agosto (Lei da Cooperação Judiciária Internacional em Matéria Penal).
António Sintra

No ordenamento jurídico interno, a Lei da Cooperação Judiciária Internacional em Matéria 75


Penal contém medidas resultantes dos compromissos assumidos que representam importante
salto qualitativo em termos de cooperação transfronteiriça, concretizadas, entre outras, na posi-
bilidade de: execução de entregas controladas ou vigiadas30 , de acções encobertas31 e de inter-
cepção de telecomunicações32. Está também prevista a possibilidade de criação de equipas de
investigação criminal conjuntas33.
Por seu turno, a Convenção de Aplicação do Acordo Schengen34 contempla medidas de coo-
peração policial internacional, mormente a possibilidade de execução de vigilâncias e segui-
mentos ou perseguições transfronteiriças (hot-pursuit)35.
De referir que, embora residualmente, na ausência de acordos bilaterais ou multilaterais, a
execução de investigações/acções policiais conjuntas de cariz internacional pode ser autori-
zada de modo casuístico.
Recentemente, entrou em vigor o acordo entre sete Estados-Membros da União Europeia, in-
cluindo Portugal, que criou o Maritime Analysis and Operations Centre – Narcotics (MAOC-
N) para partilha de informação e gestão conjunta de meios aéreos e navais a empregar no
combate ao tráfico ilícito de estupefacientes, por via marítima e aérea, da América do Sul para
a Europa, através do Oceano Atlântico e Costa Ocidental de África. Pela sua natureza, trata-
se de área de intervenção que convoca frequentemente diferentes valências das técnicas espe-
ciais de recolha de informação criminal.

As técnicas especiais de investigação são usadas na obtenção dissimulada de intelligence ou na


recolha de provas em meios fechados com sustentação em fontes de informação tecnológica (de
vigilância e detecção, de intercepção de sinais e de comunicações) e em fontes humanas de in-
formação.

29. Convenção Europol, em 1995, a Convenção Internacional para Repressão de Atentados Terroristas à Bomba, em
1998, a Convenção para Eliminação do Financiamento do Terrorismo, em 1999, a Convenção Penal sobre a Corrup-
ção, também em 1999, e a Convenção Relativa ao Auxílio Judiciário Mútuo em Matéria Penal entre os Estados da União
Europeia, em 2000 (aprovada para ratificação pela Resolução da Assembleia da República nº 63/2001, de 21 de Julho,
e ratificada pelo Decreto do Presidente da República nº 53/2001, de 16 de Outubro).
30. Art. 160º-A.
31. Art. 160º-B.
32. Art. 160º-C.
33. Art. 145º-A e B.
34. Portugal aderiu por protocolo ao Acordo de Schengen e por acordo à Convenção, aprovado por Resolução da As-
sembleia da República nº 35/93, de 25 de Novembro, ratificada pelo Decreto do Presidente da República nº 55/93
35. Art.s 39º, 40º e 41º da Convenção Schengen.
Técnicas Especiais de Investigação Criminal – Factor de Segurança

76 Em termos organizativos, no nosso país e nas congéneres estrangeiras de referência, as compe-


tentes unidades orgânicas funcionam com base em princípios de especialização e de racionaliza-
ção de meios, dividindo-se as subunidades com base em critérios decorrentes da predominância
dos meios humanos ou tecnológicos, salvaguardada a respectiva interoperabilidade.
De acordo com a melhor doutrina internacional, característica comum e de primordial im-
portância em ambas as vertentes é a imperiosa necessidade de análise e de gestão de risco, cal-
culando a sua probabilidade, determinando o respectivo impacto e agindo para o mitigar,
através de meticulosa elaboração do planeamento operacional e dos correspondentes planos de
contingência que são imprescindíveis para a boa e segura aplicação das técnicas especiais de in-
vestigação criminal.
As dinâmicas geradas pelo uso dessas técnicas, com incidência em grupos-alvo suspeitos, são
complementadas através de curiais métodos de análise e adequada difusão de informação, com
estrita observância do princípio da necessidade de conhecer, para concretização de subse-
quentes operações policiais (detenções, apreensões, etc.), actividade que culmina com a apre-
sentação dos resultados às autoridades judiciárias.

Estratégia integrada de gestão de informações e operações

Fonte: António Sintra

Aqui se inserem as vigilâncias e seguimentos de pessoas, bem como de veículos, embarcações,


aeronaves, mercadorias e outros, as observações em locais públicos suspeitos, o registo de voz
e de imagem, a intercepção de comunicações telefónicas, correio electrónico ou transmissão
de dados por via telemática, etc., tudo com recurso a uma vasta panóplia de equipamentos elec-
trónicos adequados.
António Sintra

No plano legal, tais acções são desenvolvidas a coberto de normas constitucionalmente con- 77
sagradas em sede de direito penal adjectivo, direito civil e legislação avulsa, designadamente:
o valor probatório das reproduções mecânicas36, extensão da intercepção de comunicações37,
medidas cautelares e de polícia38, bem como outras medidas de polícia e medidas especiais de
polícia39, registo de voz e de imagem, videovigilância40, direito à imagem41 e competências
para a prevenção, detecção e investigação de actividades criminais42.
De referir também as disposições da lei penal substantiva no que concerne aos crimes contra
a reserva da vida privada43, gravações e fotografias ilícitas44, bem como instrumentos de escuta
telefónica45.

Naturalmente, a ancestral importância das fontes confidenciais de informação humana é pre-


ponderante para o sucesso das técnicas especiais de investigação criminal.
Na definição da Europol46, «informador é um indivíduo tratado com confidencialidade e que
passa informações e/ou presta auxílio às autoridades competentes».
Manuel Costa Andrade47 explica que «…homens de confiança são todas as testemunhas que co-
laboram com as instâncias formais de perseguição penal, tendo como contrapartida a promessa de
confidencialidade da sua identidade e actividade, particulares e agentes das instâncias formais, no-
meadamente da polícia, que se introduzem naquele submundo».
Em função da intensidade e profundidade da sua intervenção, é usual agrupar os informado-
res em três categorias: de apoio, de acção e participantes.

36. Art. 167º do Código de Processo Penal.


37. Art. 189º, Op. cit.
38. Art.s 249º e 250º, Op. cit.
39. Art.s 28º e 29º da Lei n.º 53/2008, de 29 de Agosto (Lei de Segurança Interna.)
40. Art. 2º, nº 1, da Lei nº 1/2005, de 10 de Janeiro (Regula a utilização de câmaras de vídeo pelas forças e serviços
de segurança em locais públicos).
41. Art. 79º, nº 2, do Código Civil.
42. Art.s 2º, 3º, 4º e 5º da Lei 37/2008, de 6 de Agosto (Lei Orgânica da Polícia Judiciária).
43. Art.s 190º a 196º do Código Penal.
44. Art. 199º, Op. cit.
45. Art. 276º, Op. cit.
46. http://www.europol.europa.eu/
47. ANDRADE, Manuel C. (2006). Sobre as Proibições de Prova em Processo Penal. Coimbra Editora. Coimbra.
Técnicas Especiais de Investigação Criminal – Factor de Segurança

78 Níveis de risco de informadores

Informadores
participantes
Informadores de
acção
Informadores
de apoio
Público
Aumento do em geral
nível de risco

Fonte: António Sintra

No conceito amplo de informador cabem os colaboradores ou terceiros (na acepção do Regime


Jurídico das Acções Encobertas48), testemunhas, suspeitos, arguidos e outros sujeitos ou par-
ticipantes processuais, bem como quaisquer outras pessoas dotadas de conhecimento e aptas
a facultar elementos úteis relacionados com a preparação ou execução de crimes.
Pelo seu inquestionável mérito, importa, a nosso ver, que os funcionários de investigação cri-
minal adoptem regularmente atitudes pró-activas no sentido de identificar, recrutar e explo-
rar fontes confidenciais de informação humana, encorajando-as a colaborarem com a polícia.
Contudo, atendendo ao melindre de que tais actuações sempre se revestem, antecedendo o de-
sencadear de qualquer acção, é fulcral a avaliação do perfil, motivação, credibilidade e fiabili-
dade da potencial fonte, do risco decorrente da sua intervenção e também a ponderação sobre
as medidas de protecção a aplicar.
Aspecto a ter também em conta na relação entre o informador e o funcionário de investigação
criminal incumbido, em primeira linha, da recolha de informação é a possibilidade de surgi-
rem estados psicológicos, o denominado Síndroma de Estocolmo, geradores de perturbação,
sem que a vítima, no caso o funcionário de investigação criminal, adquira consciência da sua
existência, determinando a prevalência de interesses pessoais, ou grupais, do informador em
detrimento dos objectivos da organização policial e, consequentemente, da prossecução do
interesse público.
A garantia de aplicação das melhores práticas sobre a matéria, gestão e controlo de informa-
dores, depende, inequivocamente, da existência de unidades especializadas no seio das organi-
zações policiais com adequado sistema de registo, gestão e controlo centralizado de fontes
humanas de informação confidencial.

48. Lei n.º 101/2001, de 25 de Agosto.


António Sintra

Sob impulso do Regulation of Investigatory Powers Act 200049, do Reino Unido, e também da 79
Europol50, está definido o formato da estrutura ideal de gestão e estabelecidas as tipologias,
princípios de utilização, regras de contacto e sistema de codificação de informadores.
O recurso a informadores de acção, também designados por informadores-participantes, im-
plica, para além de outras medidas de controlo, que lhes seja explicitado e que aceitem, sem
reservas, o conteúdo do mandado que lhes for conferido tendo em vista a delimitação concreta
da sua actuação, a clarificação do risco e o cerceamento do erro.
A despeito da inexistência de normativo legal específico para a actividade dos informadores, a
PJ recorre à sua utilização no âmbito das medidas cautelares e de polícia51 e também de pre-
venção e detecção criminal52.
Os informadores, enquanto testemunhas no âmbito do processo criminal, podem usufruir de
vantagens da aplicação de normas emanadas do sistema legal de protecção, concretamente:
restrição de assistência do público e exclusão da publicidade na audiência de julgamento53.
Também da prestação de declarações com ocultação de imagem e/ou distorção de voz, tele-
conferência, depoimento sob anonimato, medidas pontuais de segurança, programas especiais
de segurança e medidas para testemunhas especialmente vulneráveis54.
Enquanto arguidos, podem também beneficiar de vantagens em juízo, nomeadamente: ate-
nuação especial da pena55, atenuação especial da pena em crimes de branqueamento56 e ate-
nuação ou isenção da pena em crimes de associação criminosa57. Similarmente, diversa
legislação especial avulsa contém idênticos dispositivos, designadamente em matéria de tráfico
de estupefacientes58, organizações terroristas e terrorismo59, imigração ilegal e tráfico de pes-
soas60. A mesma lei prevê a atribuição de autorização de residência para estrangeiros que co-
laborem nas investigações de natureza criminal .
O sistema de recompensas contempla ainda a atribuição de prémios pecuniários e/ou paga-
mento de despesas, classificadas62.

49. RIPA is an Act of the Parliament of the United Kingdom, regulating the powers of public bodies to carry out sur-
veillance and investigation.
50. http://www.europol.europa.eu/
51. Art.s 249º e 250º do Código de Processo Penal.
52. Art. 4º da Lei n.º 37/2008, de 6 de Agosto (Lei Orgânica da Polícia Judiciária).
53. Art. 87º do Código de Processo Penal.
54. Art.s 2º, 4º, 5º, 16º, 20º a 22º e 26º da Lei n.º 93/99, de 14 de Julho, e Dec-Lei n.º 190/2003, de 22 de Agosto
(Lei de Protecção de Testemunhas), também com consagração no art.º 24º da Convenção de Palermo.
55. Art.s 72º do Código Penal.
56. Art. 368º-A, Op. cit.
57. Art. 299º, Op. cit.
58. Art. 31º do Dec-Lei nº 15/93, de 22 de Janeiro.
59. Art.s 2º a 5º da Lei n.º 52/2003, de 22 de Agosto.
60. Art. 188º da Lei n.º 23/2007, de 4 de Julho.
61. Art. 109º da Lei n.º 23/2007, de 4 de Julho.
62. Art. 48º da Lei n.º 37/2008, de 6 de Agosto (Lei Orgânica da Polícia Judiciária).
Técnicas Especiais de Investigação Criminal – Factor de Segurança

80 No campo das actuações policiais encobertas propriamente ditas, a gestão e o controlo de in-
formadores continua a revelar-se absolutamente necessária, até imperativa, para garantia de
boa e segura execução das suas diferentes fases.
A operação policial encoberta é considerada uma técnica especial que consiste na actuação de
funcionário(s) de investigação criminal, ou de terceiro(s) sob controlo da PJ, que:
- devidamente autorizado(s) e enquadrado(s);
- dissimulando a sua qualidade e/ou identidade;
- conservando a aparência de alguém que integra o meio criminal;
- se insinua(m) junto de suspeitos ou autores de actividades criminosas;
- com a finalidade única de coligir informações ou recolher provas;
- sem contudo os determinar à prática de novas infracções.
É uma técnica de exercício voluntário, de uso excepcional, dotada de garantias jurídicas e pes-
soais, reconhecida internacionalmente e direccionada para o combate activo e eficaz da cri-
minalidade grave e/ou organizada.
Em 1992, importante decisão do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem veio legitimar a ac-
tuação de agentes encobertos ao considerar que «...a infiltração de um agente de polícia numa rede
de tráfico de estupefacientes, por meio de contactos que permitam conhecer uma conduta criminal que
se produziria de maneira análoga, ou semelhante, mesmo sem a sua intervenção, não viola a esfera da
vida privada do suspeito, no sentido do art. 8º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem...».
O Regime Jurídico das Actuações Encobertas está plasmado na Lei n.º 101/2001, de 25 de
Agosto. Nele se prevê a possibilidade de intervenção de funcionários de investigação criminal,
ou de terceiro, com fins de prevenção e de investigação de um amplo leque de crimes, corres-
pondendo, na generalidade, aos que integram o catálogo daqueles cuja competência reser-
vada, absoluta e relativa, bem como concorrencial, está atribuída à PJ63 Vigoram os princípios
da adequação, necessidade e proporcionalidade em relação àqueles fins e à gravidade do crime
sob investigação. A actuação de funcionários e terceiros carece de prévia autorização de Ma-
gistrado do Ministério Público ou de Juiz de Instrução. A sua protecção passa, desde logo,
pela possibilidade de não junção ao processo do relato da intervenção, o qual constitui expe-
diente autónomo e confidencial64. É permitida a actuação de funcionários sob identidade fic-
tícia65. A isenção de responsabilidade do agente encoberto que consubstancie a prática de uma
infracção em qualquer forma de comparticipação, diversa da instigação e de autoria mediata,
está abrangida por uma cláusula de não punibilidade por força da exclusão da ilicitude66.
Em análise crítica do diploma, não se vislumbra razão plausível para a exclusão de alguns cri-
mes insertos no catálogo das competências reservadas da PJ, nomeadamente: informáticos,
poluição com perigo comum, tráfico de obras de arte e falsificação de documentos, até pela
repercussão que têm no panorama internacional.

63. Art.s 1º e 2º da Lei n.º 101/2001, de 25 de Agosto, e Lei nº 49/2008, de 27 de Agosto.


António Sintra

Contudo, apesar da assinalada lacuna normativa, não será de excluir a possibilidade de exe- 81
cução de acções encobertas relacionadas com tais matérias desde que sejam colhidos indícios
que possam configurar a existência de associação criminosa para a prática daqueles crimes.
Parece pacífica a interpretação de que o legislador pretendeu atribuir o monopólio da gestão
das actuações encobertas à PJ.
Assinale-se que embora o art. 188º da Lei nº 23/200767 atribua competência ao Serviço de Es-
trangeiros e Fronteiras para desenvolver actuações encobertas em investigações de associações
criminosas relacionadas com imigração legal, remete para o Regime Jurídico das Actuações En-
cobertas com todos os requisitos e imperativos daí decorrentes no que respeita à intervenção
da PJ.
Os tipos de operações encobertas são todos os que se revelem legal e tecnicamente exequíveis,
designadamente: compras simuladas, intervenção em meios e circuitos criminosos através da
prestação de serviços, entregas controladas, papel de vítima potencial, bem como, fundamen-
talmente, a recolha pontual ou sistemática de informação criminal não acessível por outros
meios.
Por norma, todos os funcionários de investigação criminal que aplicam técnicas especiais de
investigação estão qualificados para o efeito após fase de recrutamento, selecção, formação e
treino adequado com controlo psicológico especializado.
Para além disso, actuam sempre com monitorização próxima, sob responsabilidade de um su-
pervisor ou controlador sénior. Dispõem de adequado suporte logístico, instalações, equipa-
mentos e veículos não identificáveis com a actividade policial.
A PJ pode dispensar temporariamente a necessidade de revelação de identidade e da quali-
dade dos seus funcionários de investigação, dos meios materiais e dos equipamentos utiliza-
dos68.
Por seu turno, a aplicação do princípio da corroboração independente de provas, consubs-
tanciado na recolha das mesmas através de outros meios paralelos, constitui garantia acrescida
de protecção para funcionários de investigação criminal e também para o(s) visados(s) sus-
peito(s).
A segurança, na sua tríplice vertente legal, ética/moral e física, constitui factor absolutamente
prioritário, impondo-se que os funcionários de investigação criminal incumbidos da aplica-
ção de técnicas especiais de investigação criminal mantenham prudente afastamento de este-
reótipos emanados de culturas televisivas, cinematográficas ou romanescas.

64. Art. 3º, Op. cit.


65. Art. 5º, Op. cit.
66. Art. 6º, Op. Cit.
67. Aprova o regime jurídico de entrada, permanência, saída e afastamento de estrangeiros do território nacional.
68. Art. 16º da Lei n.º 37/2008, de 6 de Agosto (Lei Orgânica da PJ).
Técnicas Especiais de Investigação Criminal – Factor de Segurança

82 Os aspectos relacionados com a segurança deverão prevalecer sobre quaisquer outros, incluindo
o êxito de qualquer operação que cederá perante potencial ameaça considerável.
No âmbito das competências que lhes estão atribuídas, os órgãos de polícia criminal devem
pois estar dotados de estruturas e meios adequados e suficientes, aqui se incluindo as condi-
ções materiais e as competências humanas, para corresponder a solicitações que impliquem o
recurso à utilização de técnicas especiais de investigação, procurando:
- identificar, aplicar e disseminar as melhores práticas policiais para dissuadir e evitar a prá-
tica de crimes, bem como a descoberta e apresentação de material probatório de excelência que
sustente as boas decisões das autoridades judiciárias competentes,
- sem expor desnecessariamente os próprios métodos de investigação, as fontes de informação
e os intervenientes nas operações,
- sem conflituar, para além do legalmente admissível, com os direitos, liberdades e garantias
dos cidadãos,
- incutindo a necessária confiança no sistema de justiça e na população em geral.

Os esforços dos Estados no sentido de mitigar ameaças e efeitos da criminalidade organizada


e do terrorismo global, reflectem-se, essencialmente, no reforço da cooperação internacional
e na criação de um direito penal de primeira velocidade, mais célere, expedito e eficaz, man-
tendo-se intacto o núcleo de garantias de defesa dos visados suspeitos.
As técnicas especiais de investigação, com produção de notáveis fluxos de informação e de
provas criminais, brotaram dessa matriz. Paulatinamente, granjearam progressiva relevância e
registaram forte incremento. Por isso, actualmente, tornaram-se quase indissociáveis da gene-
ralidade das correspondentes acções policiais de prevenção e investigação, sendo a respectiva
avaliação considerada bastante satisfatória.
O permanente escrutínio dessa específica actividade de polícia por parte das magistraturas,
do poder político, da comunidade científica, da comunicação social, da opinião pública, dos
sujeitos e intervenientes processuais, bem como da cadeia hierárquica nas instituições poli-
ciais, sob um quadro ético-legal bem definido, é bastante para afastar quaisquer hesitações em
relação à benignidade da aplicação das técnicas especiais de investigação criminal.
Revela-se meridianamente claro e absolutamente tolerável o estado de equilíbrio entre os di-
reitos fundamentais dos cidadãos e a compressão a que esses direitos estão sujeitos por moti-
vos intrínsecos à aplicação da justiça e à segurança.
A segurança, como valor social é solidária da ideia de liberdade e por si só nada deve justificar
sendo «a superioridade ética, política e jurídica que dará aos Estados de Direito a vitória a longo-
-prazo69».
António Sintra

Perante tal panorama, concluímos que a aplicação das técnicas especiais de investigação cri- 83
minal, entendidas e aceites como aposta no espaço de segurança, liberdade e justiça na di-
mensão interna, mas também como ampliação de manifesta tendência que extravasa fronteiras,
constitui inequívoco factor de segurança para a comunidade em geral.

“A Liberdade só existe com Lei e Poder”, Emanuel Kant70

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85
86
O Fenómeno que
veio do Leste
87
João Miguel Ramos Mateus

É Inspector da PJ desde 1990. Licenciado em Direito e pós–graduado em Criminologia pela Universidade Lusíada.

Este trabalho incide sobre um fenómeno que começou a manifestar-se há alguns anos e que
tem vindo a ocorrer de forma significativa em todos os países da Europa Ocidental, dos quais
não se exclui Portugal. Procura-se, numa perspectiva criminológica, explicar a razão de ser
para a prática de condutas criminosas por parte de cidadãos oriundos do leste da Europa. Fa-
zendo uso das competências adquiridas no exercício da actividade profissional, visa-se ainda
caracterizar o modus operandi de grupos criminosos compostos por indivíduos essencialmente
provenientes da Moldávia, da Ucrânia e da Rússia e as repercussões geradas nas vítimas. De
igual forma, são estabelecidas várias premissas que possibilitarão uma maior eficácia da acti-
vidade policial na prossecução do combate a este fenómeno criminal.

O presente artigo tem como objectivo a realização de um estudo sobre um fenómeno que co-
meçou há alguns anos e que tem vindo a ocorrer de forma significativa em todos os países da
Europa Ocidental, dos quais não se exclui Portugal. De facto, devido a factores de cariz eco-
nómico e social, centenas de milhares de pessoas vêem-se na contingência de abandonar os paí-
ses onde nasceram e possuem família, sendo que o fazem na esperança de poderem encontrar
melhores condições do que aquelas que lhes são proporcionadas nos países de origem. Desde
há algumas décadas que determinados países da Europa (França, Alemanha, Luxemburgo,
Inglaterra) são confrontados com vagas de imigrantes. Alguns dos contingentes de imigrantes
O Fenómeno que veio de Leste

88 que chegaram aos países anteriormente referidos, nomeadamente em 1960 e 1970, eram com-
postos por portugueses. Com a independência das ex-colónias portuguesas, o fenómeno da
imigração começou a assolar Portugal, sendo que passámos de um país com forte emigração,
para um país com forte imigração. Na década de oitenta e noventa, Portugal recebeu de forma
sistemática milhares de pessoas vindas de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique,
São Tomé e Príncipe e numa fase posterior do Brasil. Já no final da década de noventa e nos
primeiros anos do século XXI, a problemática da imigração assume novos contornos, ou seja,
com o desmembramento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e queda do regime po-
lítico que ali vigorava, muitas das nações que haviam sido ocupadas, recuperaram a sua inde-
pendência e soberania. Com a implementação da democracia e a abertura a ocidente, as pessoas
foram impelidas a pensar que iriam dispor de um melhor nível de vida. Contudo, em alguns
desses países acabou por se verificar que as condições socioeconómicas se degradaram de forma
significativa, frustrando as expectativas criadas e obrigando a procurar novas soluções que lhes
alimentassem a esperança de poderem vir a ter uma vida melhor. Efectivamente, milhares de
pessoas originárias de inúmeros países situados na Europa do leste, começaram a viajar para
os diversos países que compõem a União Europeia, isto porque necessitavam de trabalho, que
dificilmente encontravam nos seus países, e porque tais trabalhos eram melhor remunerados
que aqueles que exerciam na sua terra natal. Por outro lado, a vinda de indivíduos do leste da
Europa é igualmente bem vista pelos países de destino, isto porque os mesmos, com o seu
labor, oferecendo uma melhor produtividade por menos custos, acabam por satisfazer as ne-
cessidades de mão-de-obra e ter consequentemente um papel primordial na prossecução dos
objectivos de determinados sectores da economia. Isto apesar de nem sempre se criarem as
condições e as infra-estruturas indispensáveis para viabilizar uma rápida integração dessas mes-
mas pessoas nas sociedades dos países de destino.
Esta deslocação em massa de indivíduos originários do leste Europeu, acabou por trazer para
os aludidos países da Europa Ocidental, determinados grupos de indivíduos, os quais, ao con-
trário dos seus compatriotas não vêm imbuídos no objectivo de se sacrificarem por uma vida
melhor. Tais indivíduos, devidamente instruídos por cúpulas de organizações já fortemente im-
plementadas nos países de origem, pautam a sua conduta por uma actuação de cariz ilícito, ten-
tando, dessa forma, atingir fórmulas de sucesso, mediante o recurso a processos de cariz
ilegítimo. Essas condutas são exercidas sobre os seus compatriotas, os quais submetidos a di-
versos tipos de coacção e práticas extremamente violentas, acabam por se ver constrangidos a
entregar dinheiro. As quantias extorquidas destinam-se não só aos autores das condutas cri-
minosas, mas principalmente para as ditas organizações que os mesmos integram, acabando
por contribuir para o aumento do seu poder. Este é o fenómeno que tem vindo a acontecer
um pouco por toda a União Europeia, incluindo Portugal. É o fenómeno que vem de leste.
João Miguel Ramos Mateus

Fazendo uso da experiência e conhecimento obtidos no âmbito da actividade profissional exer- 89


cida, tendo inclusivamente beneficiado da vantagem de ter contactado pessoalmente com al-
guns dos intervenientes nesta actividade criminal, querendo referir-me a vítimas, testemunhas
e suspeitos, procura-se dar um retrato fidedigno deste fenómeno. Efectivamente, entre 1999
e 2004, tive a oportunidade de conhecer uma nova faceta da actividade criminal organizada.
Por um lado, fui confrontado com um novo tipo de mentalidade e forma de encarar a vida,
por outro, com a eficácia da utilização da violência como processo de atingir objectivos e em
terceiro lugar com o drama de inúmeras pessoas que vivendo num contexto sociocultural des-
conhecido, passaram por situações atrozes e indescritíveis. Foi uma lição de vida.
Como instrumento de auxílio do artigo aqui em foco, recorri a um conjunto de dados e no-
tícias que abrangem o período de tempo decorrente entre 2001 e 2004. Através da análise de
tais elementos ficou claro e notório que este fenómeno criminal já vinha ocorrendo desde fi-
nais de 1999, tendo atingido o seu auge em 2001. Nos anos que se seguiram, notou-se uma
diminuição da actividade criminal, fruto da actuação policial. Não obstante tal, a criminali-
dade desencadeada por cidadãos provenientes do leste da Europa continua a ocorrer em Por-
tugal, apresentando no entanto novos contornos.

No presente capítulo vamos escalpelizar as vertentes de cariz psicológico e social que desen-
cadearam este tipo de criminalidade e que caracterizam a forma como a mesma evoluiu.
Desde os finais do século XIX que nos deparamos com uma doutrina criminológica, designada
de socialista e que assentava no postulado que os fenómenos criminais surgiram e se desen-
volveram no seio das sociedades capitalistas. Entendia-se que o capitalismo motivava de forma
desmesurada a cobiça, a ambição, a procura exacerbada do lucro e o egoísmo, o que era en-
carado como factor explicativo de um determinado tipo de criminalidade. Perante tal deside-
rato, apontava-se o socialismo como solução para estabilizar a economia e atenuar as
discrepâncias na distribuição da riqueza, havendo a convicção que tais medidas iriam desen-
cadear uma redução sistemática do crime, até à sua erradicação. De acordo com esta teoria, a
sociedade vigente nos regimes socialistas seria mais justa, mais homogénea e necessariamente
mais pacifica, onde a criminalidade estaria fortemente condicionada e em função disso mais
facilmente controlável. Na prática, apesar dos regimes socialistas se caracterizarem por um
modelo económico de distribuição colectiva da riqueza e por uma absoluta identificação dos
indivíduos com a sociedade onde estão inseridos,1 sempre se verificou a ocorrência de condutas
1. Figueiredo Dias e Costa Andrade em “ Criminologia – O Homem Delinquente e a Sociedade Criminógena –
1984 (pp. 256) referem que a criminologia socialista obedece a um modelo de consenso puro.
O Fenómeno que veio de Leste

90 criminosas, o que faz pressupor que o espectro do modelo económico do capitalismo nunca foi
completamente esquecido pela população. Tudo isto, associado ao facto do desenvolvimento
económico não haver atingido níveis que proporcionassem a satisfação integral das necessidades
sociais, levou a que cada vez mais pessoas começassem a interagir com as características do capi-
talismo.
Com o desmembramento da União Soviética e a consequente democratização dos regimes po-
líticos implantados nos novos países entretanto surgidos, criaram-se condições para satisfazer os
anseios das populações, que consistiam na abertura ao ocidente e instauração do modelo da eco-
nomia de mercado. Desencadeou-se, dessa forma, uma significativa alteração social, nomeada-
mente ao nível dos objectivos culturais propostos aos membros da sociedade, que fizeram
despertar grandes expectativas nas pessoas. De uma forma geral, as populações desses novos paí-
ses, presumiram que o nível de vida fosse melhorar e que fosse possível estabelecer determina-
dos objectivos que no período de vigência do regime comunista não era possível preconizar.
Efectivamente, com a implantação da economia de mercado, as pessoas começaram a ser con-
frontadas com determinados bens, os quais eram trazidos pelas grandes “ multinacionais “ do
mundo ocidental e que motivavam as pessoas a consumi-los. Acontece que com o decurso do
tempo veio a ser constatado que o poder de compra da população veio a decair, o que impossi-
bilitou que as mesmas tivessem acesso aos bens de consumo anteriormente referidos. Tal veio a
defraudar as expectativas criadas na população, ou seja, os meios legítimos determinados pela so-
ciedade não se mostraram adequados para que todas as pessoas pudessem prosseguir, em condi-
ções de igualdade, os aludidos objectivos culturais. No fundo, estamos perante um desfasamento
na repartição das oportunidades legítimas reais, que levou a que as pessoas tivessem que optar
entre a perda de respeito pelas normas institucionalizadas e procurarem outros meios para atin-
gir os objectivos culturais, ou então, em continuar a respeitar essas mesmas normas institucio-
nalizadas, e não conseguir prosseguir os objectivos que lhes foram incutidos.2
É então caso para perguntar: O que é que leva as pessoas a assumir posturas diferentes quando
confrontadas com situações de desequilíbrio social? Porque é que determinado grupo de pes-
soas se conformam com tal cenário, enquanto outras adoptam uma conduta inovadora, re-
correndo a meios ilegítimos para satisfazer os objectivos culturais. Fazendo uma retrospectiva
por várias das teorias que foram surgindo ao longo do tempo encontramos várias formas di-
ferentes de encarar a questão. Houve quem dissesse que a diferença entre os que se conformam
(cidadão normal) e os que recorrem a formas alternativas (criminoso), resulta de vicissitudes

2. Figueiredo Dias e Costa Andrade em “ Criminologia – O Homem Delinquente e a Sociedade Criminógena “ –


1984 (pp. 323 e 324) referem que Robert Merton analisava a sociedade numa dupla estrutura, a cultural e a social.
A primeira oferecia a todos os mesmos objectivos e as mesmas normas, a segunda confere uma base de oportunida-
des reais para alcançar os imperativos culturais com base nas normas legitimamente estabelecidas. Quando não existe
uma absoluta correspondência entre as duas estruturas, corre-se o risco de haver um alheamento das pessoas em re-
lação ao sistema normativo.
João Miguel Ramos Mateus

próprias da formação a que estiveram sujeitos e da forma como decorreu o processo de apren- 91
dizagem e socialização.3 Outros sustentam que a distinção está na natureza e na força dos vín-
culos que ligam o indivíduo à sociedade e no controlo externo e interno, que levam aquele a
superar os impulsos naturais e a actuar em conformidade com a lei.4 Finalmente há quem diga
que tudo depende do processo interactivo que essas pessoas mantenham com outros grupos e
das oportunidades legítimas e ilegítimas que surjam.5 O que acontece no fenómeno que é ob-
jecto de análise na presente exposição, abarca um pouco de tudo o que foi dito. As pessoas que
viviam nos países do leste da Europa, foram despertadas para uma nova realidade, geraram-
se expectativas na satisfação de certo tipo de objectivos, nomeadamente de índole material, os
quais acabaram por não ser viabilizados. Por um lado, temos aquele conjunto de pessoas que
aceitam a situação, não assumindo soluções desviantes, preferindo continuar a viver em con-
dições socioeconómicas bastante degradadas. Depois, temos aqueles que se identificam com
os objectivos culturais preconizados pelos novos regimes democráticos, mas que, pelo facto de
haverem assimilado melhor o sistema normativo, por terem um melhor auto-controlo, uma
maior resistência à frustração, se recusam a recorrer a meios ilegítimos. Estes são os que deci-
dem emigrar para prosseguir os aludidos objectivos culturais num contexto social que ofereça
uma estrutura de reais oportunidades legítimas. Por fim, somos confrontados com um ter-
ceiro grupo, que ambicionando de forma desmesurada os objectivos culturais, mas não se con-
formando com a falta de eficácia dos meios fornecidos no acesso às oportunidades legítimas,
recorrem a um sistema normativo paralelo que os conduz para condutas de cariz criminoso.6
É caso para dizer que quanto maior for a divergência entre os valores sociais que estão inti-
mamente ligados ao sucesso, como por exemplo, o vestir roupa de marca, o automóvel que se
conduz ou a casa que se habita, e a existência de condições que viabilizem a sua aquisição por
processos convencionais, maiores probabilidades existirão de o crime surgir como um modo
organizado de vida. É na interacção que este tipo de pessoas mantêm com as estruturas cri-
minais e igualmente através das oportunidades que estas lhes oferecem para atingir os ditos ob-
jectivos culturais, que decorre o processo de integração nas subculturas delinquentes. A decisão
de assumir condutas desviantes não assenta unicamente em factores de cariz individual, ine-
rentes à personalidade do indivíduo, mas igualmente num processo de cariz social, caracteri-
zado pela influência que os actos e as palavras dos membros de um determinado grupo
criminoso exercem sobre a pessoa em questão. Cumpre sublinhar que o facto de uma pessoa
se identificar com uma subcultura, não significa que haja um corte absoluto com os objectivos

3. Teorias Psicodinâmicas.
4. Teorias Psicossociológicas – “ Containment Theory “ e Teoria do Vínculo Social.
5. Teoria da Associação Diferencial e Teoria da Anomia.
6. Figueiredo Dias e Costa Andrade em “ Criminologia – O Homem Delinquente e a Sociedade Criminógena “ –
1984 (pp. 333 e 334) referem que o termo “Alienação” é utilizado por Cloward e Ohlin para explicar tal processo, o
qual uma vez consumado, viabiliza a entrada nas soluções subculturais sem qualquer tipo de culpa ou medo.
O Fenómeno que veio de Leste

92 incutidos pela cultura dominante,7 ou seja, a subcultura pressupõe uma certa continuidade
com aquela. O que se passa é que as pessoas não podendo satisfazer os seus anseios no plano
das oportunidades legítimas, recorrem e aproveitam as oportunidades que lhes são oferecidas
pelas estruturas criminosas para satisfazer os seus anseios.
É desta forma que se explica que muitos jovens, normalmente com carreiras de sucesso, como
por exemplo na área do desporto, vendo que o sistema socioeconómico vigente nos países
onde viviam não lhes permitia alcançar os aludidos valores de sucesso, decidem recorrer às or-
ganizações criminosas que lhes ofereciam as alternativas, acima designadas por oportunidades
ilegítimas. Tais organizações criminosas são verdadeiras estruturas, tendo uma influência sig-
nificativa na economia desses mesmos países e que através da prática reiterada e com elevado
grau de concertação, de condutas ilícitas diversas, acabam por configurar uma autêntica sub-
cultura criminal.
Quando se fala em subcultura criminal, subentende-se uma relação directa com a criminali-
dade organizada. Constitui uma verdadeira escola do crime, onde se transmitem os conheci-
mentos, a disciplina, as técnicas específicas de actuação, para de uma forma racional se atingir
o objectivo primordial – A obtenção do lucro económico. É caso para dizer que tanto as or-
ganizações criminosas, como as pessoas em quem elas investem, retiram dividendos do com-
promisso a que ambas ficam adstritas, isto porque, com o recrutamento de novos elementos,
as organizações conseguem não só manter uma dinâmica de actuação como igualmente ex-
pandir a sua esfera de influência para novas áreas e novos mercados. Já no que respeita às pes-
soas que são recebidas no seio das organizações, acabam por ver realizado o sonho de aprender
uma carreira, a qual, além de lhes proporcionar prestígio e sucesso, viabiliza a integração no
mundo convencional.
Uma das técnicas específicas que caracteriza a actuação das subculturas criminais e que as dis-
tingue das restantes subculturas, tem a ver com o cariz estratégico inerente à utilização da vio-
lência. No crime organizado tudo é feito com base no pressuposto de que sejam eliminados
todo o tipo de obstáculos que possam interferir na prossecução dos objectivos preconizados.
Dessa forma, através do recurso à violência procura-se garantir a eliminação de resistências e
ao mesmo tempo criar nas vítimas um sentimento de forte intimidação que as leve a renun-
ciar ao direito de recorrer ao auxílio das autoridades policiais.
Até à presente data não existem elementos de cariz técnico,8 que permitam obter uma ideia
mais real da forma como o problema criminal aqui em foco, se tem desenvolvido em Portu-
gal. Contudo, através do contacto mantido com a questão, e recorrendo a um juízo de cariz

7. Figueiredo Dias e Costa Andrade em “ Criminologia – O Homem Delinquente e a Sociedade Criminógena “ –


1984 (pp. 290) referem que em termos sociológicos, cultura é o conjunto de critérios de valor susceptíveis de orien-
tar eficazmente a acção social.
8. Inquéritos de auto-denúncia e Inquéritos de vitimização.
João Miguel Ramos Mateus

intuitivo, facilmente se depreende que uma quantidade significativa de condutas que seriam 93
subsumíveis a diversos tipos previstos na lei jurídico-penal, não chegam ao conhecimento das
instâncias formais de controlo. Efectivamente, nem mesmo a Polícia, como instância formal
de controlo que se encontra num plano mais acessível às vítimas de crimes, conhece muitas
das situações ocorridas. Em função disto, terá que se estabelecer um forte e convicto juízo de
presunção quanto à existência de cifras negras assinaláveis, ou seja, existirão largas margens de
criminalidade oculta.
O raciocínio que acabou de ser enunciado leva a centrar a nossa atenção em relação à figura
da vítima e ao problema que decorre da sua reacção às condutas criminosas de que é objecto.9
As cifras negras que assolam este tipo de fenómeno criminal devem-se ao facto das vítimas mos-
trarem relutância em participar as situações às autoridades policiais. Interessa então apurar
quais as razões que justificam tal comportamento.
Em primeiro lugar, terá que se destacar o facto das pessoas que decidem emigrar para países
com um cariz sociocultural diverso do que está implementado nos respectivos países de ori-
gem, fiquem dependentes das pessoas com quem contactam no decurso do processo. O que
acontece é que na esmagadora maioria das vezes, as pessoas com quem os emigrantes se rela-
cionam, são membros integrantes das organizações criminosas e que desencadeiam as medi-
das tendentes a explorar essa mesma dependência, querendo fazer-se referência às exorbitantes
somas que são pedidas para viabilizar a entrada no nosso país. Confrontados com tais postu-
ras, os emigrantes não as configuram como de cariz ilícito e consequentemente não se sentem
como vítimas. Em segundo lugar, porque muitas vezes as pessoas que se encontram na con-
dição de imigrantes, não têm a sua situação devidamente regularizada, decidem não recorrer
às autoridades policiais, isto no pressuposto que poderão ser tomadas medidas que conduzam
à expulsão do país. A não colaboração com as autoridades policiais dever-se-á igualmente a uma
falta de confiança nas instâncias formais de controlo. Tal desconfiança está relacionada com a
representação que as pessoas fazem das instâncias formais de controlo dos respectivos países,
e na presunção de que no nosso país a situação ocorre de forma homóloga. Por fim, terá que
se dizer que a principal razão que inviabiliza que a vítima de condutas criminosas recorra às
autoridades policiais, está intimamente relacionada com o medo de retaliações que os crimi-
nosos possam adoptar, não só em relação a eles próprios, mas também no que concerne aos
respectivos familiares que se encontram nos países de origem. Tudo isto é fruto da violência
que as organizações imprimem na execução dos crimes cometidos e que incutem um clima de
terror nas vítimas.10

9. As vítimas afiguram-se como a mais decisiva instância informal de selecção, bem como, os principais responsáveis
pela inserção de casos no sistema formal de controlo.
10. Casos houve em que os membros das organizações criminosas, na presença de diversas vítimas, chegaram a matar
pessoas que tinham recusado satisfazer os respectivos intentos.
O Fenómeno que veio de Leste

94 Associado ao problema da criminalidade oculta está o do criminal case mortality, também co-
nhecido por “Efeito de funil”, o qual se verifica nas passagens do crime pelas várias instâncias
formais de controlo e que decorre de uma actuação mais ou menos discricionária das mesmas.
É óbvio que a evolução ocorrida ao longo do processo formal de reacção e controlo, implica
uma diferença na quantidade de volume de casos processados pela Polícia e no volume de
casos que chega aos Tribunais e que é inclusivamente alvo de condenação.
Atendendo ao que foi explanado no presente capítulo, terá de ser dito que a recusa sistemá-
tica das vítimas em colaborar com a Polícia, assim como, a ocorrência de cifras cinzentas ao
longo do processo formal de controlo, desencadeiam a não aplicação da lei incriminatória a
um considerável número de casos. É por isso que terá que se colocar a hipótese de estarmos
perante uma descriminalização de facto.

Ao longo de várias décadas, o regime comunista impôs a criação de um vasto império territo-
rial, desrespeitando a independência e soberania de diversas nações. Tal império assentava num
regime fortemente centralizado, cujo modelo económico veio a demonstrar-se incapaz de sa-
tisfazer as necessidades e anseios de grande parte da sua população. Já na década de oitenta,
surgiram sinais de insatisfação e de vontade em alterar o modelo sócio-económico vigente.
Dessa forma, no decurso do ano de 1991, na sequência da implementação de políticas de
abertura e democratização na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, deu-se a
queda do regime comunista e o consequente desmembramento daquele colosso. Em respeito
às diversas nações que integravam a aludida União, dotadas de identidade cultural própria e
satisfazendo os desejos de independência das respectivas populações, foram criados vários
novos Estados. Com o decurso do tempo, verificou-se que grande parte dos governos que
foram eleitos para gerir as políticas nestes novos países, não obtiveram os resultados esperados,
originando grandes convulsões no plano económico e social. As situações de carência econó-
mica já vividas no tempo em que vigorava o regime comunista, acabaram por se agravar, acar-
retando que largas faixas da população, nomeadamente as pessoas que se encontravam em
idade útil para poder trabalhar, se vissem obrigadas a deslocar-se para o estrangeiro. Por outro
lado, convém fazer uma chamada de atenção para o facto da adesão destes novos países à eco-
nomia de mercado, e ao contrário do que acontecia no anterior regime, haver desencadeado
um mercado paralelo, o qual fazendo proveito das fraquezas do Estado legítimo, acaba por con-
correr com ele no controlo dos sectores mais importantes da economia. Os baixos salários au-
feridos pelos trabalhadores e essencialmente pelos funcionários estatais, motiva-os para o
recurso a procedimentos ilícitos, não hesitando em vender os seus serviços em contrapartida
João Miguel Ramos Mateus

da realização de favores. Estamos perante a corrupção. As fraquezas do sistema, já anterior- 95


mente aludidas, acabam por ser aproveitadas de forma extremamente eficaz por um conjunto
de indivíduos, os quais, usufruindo das especificidades organizacionais e políticas dos países
onde nasceram, congregam esforços com o sentido de atingirem vastos proventos através da
prática das mais diversas actividades de cariz criminoso. De acordo com o que foi divulgado
em 1991 pelas Autoridades Russas, existiam na Federação Russa cerca de oito mil grupos cri-
minosos que controlavam cerca de quarenta por cento das empresas do sector privado e ses-
senta por cento das empresas que integram o sector público. Estas organizações controlavam
igualmente cerca de oitenta por cento do sector bancário. Segundo a mesma fonte, desde
1991, terão sido transferidos da Rússia para o ocidente, cerca de cem mil milhões de dólares,
o que acaba por revelar o elevado poder destas organizações. Contrastando com o cenário an-
teriormente referido, a grande maioria da população da Federação Russa viu o seu poder de
compra reduzido na ordem dos quarenta e oito por cento no decurso dos últimos sete anos.
Atente-se ao caso da República da Moldávia, com uma reduzida dimensão territorial, situada
entre a República da Ucrânia e a Roménia, tendo uma população de aproximadamente qua-
tro milhões e meio de habitantes, com forte predominância agrícola, embora rudimentar, uma
produção industrial escassa e uma economia débil, que se repercute no facto do salário médio
atingir montante equivalente a vinte e cinco euros. Perante tal quadro, é normal que as ex-
pectativas das populações em obter uma vida melhor nos respectivos países acabassem por sair
defraudadas, pelo que se viam obrigadas a procurar locais onde pudessem ganhar mais di-
nheiro e consequentemente melhorar o seu nível de vida, bem como, o dos seus familiares.
Nesta altura, as organizações criminosas já anteriormente referidas, perspectivando novas fon-
tes de receita, começaram a anunciar que nos diversos países da Europa Ocidental haveria bas-
tante oferta de emprego, e que as remunerações seriam vantajosas. Tal acabou por motivar as
populações desses novos países, as quais, se submetem a todos os sacrifícios para conseguir a
passagem para o ocidente.
Desde logo, há que chamar a atenção para um primeiro obstáculo que se colocava a tais indi-
víduos, que era o facto de necessitarem de visto para entrarem no espaço territorial corres-
pondente à União Europeia. Para contornar esta aparente adversidade, as organizações
criminosas implantadas nos países do leste da Europa, nomeadamente, na Federação Russa,
na República da Ucrânia, na República da Moldávia e na Roménia, começaram a estruturar-
se de forma a criar verdadeiras rotas de viagem, com início nos países de origem e final nos di-
versos países da Europa Ocidental. Normalmente, é mediante a obtenção de visto turístico que
os imigrantes conseguem aceder ao território da União Europeia. Para o conseguir recorrem
a agências que se denominando de turismo, acabam por ser verdadeiros entrepostos de circu-
lação de candidatos à imigração para os países da Europa Ocidental. Estas agências são cria-
das pelas organizações criminosas, as quais explorando o estado de necessidade dos candidatos
O Fenómeno que veio de Leste

96 à imigração, acabam por obter vastos proventos económicos. Segundo as estimativas das Na-
ções Unidas, o volume de negócios das diversas redes de imigração clandestina atinge cerca de
vinte mil milhões de euros.
De facto, e na sequência do que foi explanado no anterior parágrafo, convém realçar que os
indivíduos com pretensões a deixar os respectivos países para obter mais dinheiro, são alicia-
dos pelas ditas agências, isto através dos constantes anúncios de existência de emprego nos di-
versos países do ocidente, com remunerações bem mais elevadas do que aquelas que são
praticadas nos países onde vivem. Não dispondo de qualquer conhecimento em relação ao
tipo de documentação que é necessário para poderem exercer funções laborais nos países de
destino, os futuros imigrantes acabam por ser enganados pelas organizações criminosas, as
quais lhe fornecem vistos de turismo, documentos estes que viabilizam a entrada no espaço
Schengen, mas apenas por um período de noventa dias. A obtenção de tais vistos decorre do
estabelecimento de relações privilegiadas das aludidas agências com os serviços diplomáticos
e consulares dos países que integram a União Europeia. A emissão de vistos é um negócio de
milhões para tais organizações, pelo que as mesmas acabam por investir junto das entidades
consulares, no sentido de conseguir “facilidades” no fornecimento de tais documentos. Não
poderá deixar de se observar que tal estratégia só acaba por resultar em virtude da política se-
guida pelas entidades governamentais dos países da União Europeia, ou seja, a emissão de vis-
tos prévios torna-se um instrumento útil para as organizações criminosas, promovendo-as de
meros operadores turísticos a controladores dos circuitos de mão-de-obra. As organizações
criminosas, para obter um visto, têm que despender junto das entidades diplomáticas, cerca
de quinhentos euros, sendo que o mesmo documento acaba por ser cedido ao futuro imi-
grante mediante o pagamento de quantias bem superiores, as quais ultrapassarão sempre os mil
e quinhentos euros.
Além de controlar a obtenção da documentação, as organizações criminosas, através das alu-
didas agências de “turismo”, asseguram aos interessados o transporte para os países de destino,
sendo as rotas utilizadas estrategicamente delineadas. As principais rotas relacionadas com a
imigração ilegal são escolhidas de acordo com a situação geográfica dos países de trânsito, tam-
bém em função da forma como a fiscalização é feita nesses mesmos países e finalmente com a
facilidade com que se consiga a legalização das pessoas que ali sejam colocadas. Ainda não foi
possível compreender de forma aprofundada, todos os pormenores que conduzem à adopção
de uma determinada rota, isto porque as mesmas mudam constantemente. As mudanças ocor-
rem quando as organizações descobrem que a mesma está identificada e controlada pelas au-
toridades policiais. De acordo com o que foi apurado até agora são cinco as principais rotas
utilizadas pelas organizações criminosas:
1 – Rota do Báltico – A partir de Moscovo, atravessando os Estados do Báltico e finalizando na Fin-
lândia e Suécia, ou passando pela Polónia, República Checa, até à Áustria ou Alemanha;
João Miguel Ramos Mateus

2 – Rota do Leste da Europa – A partir de Moscovo ou da Ucrânia, através da Polónia, Eslová- 97


quia, Hungria ou República Checa, até à Áustria ou Alemanha;
3 – Rota do Mediterrâneo Oriental – Com início no Médio-Oriente, Turquia, passando pela Gré-
cia, Itália, França e muitas vezes pela Inglaterra, através do túnel do Canal da Mancha;
4 – Rota Norte-Africana – Essencialmente a partir de Marrocos, para França, Itália ou Espanha;
5 – Rota dos Balcãs – Com início na Turquia através dos Estados Balcânicos, até à Grécia, Itália
ou Áustria;

Tais viagens são essencialmente realizadas em pequenos autocarros ou de barco. Numa primeira
fase, isto no que concerne ao que vem acontecendo no nosso país, os autocarros ligados às or-
ganizações criminosas transportavam as pessoas até Portugal, deixando os imigrantes em lo-
cais definidos, como por exemplo, “Gare do Oriente – Parque das Nações”, Cais do Sodré,
Rossio ou no Barreiro. Posteriormente, e porque tais locais foram devidamente referenciados
pelas autoridades policiais, as organizações alteraram a sua estratégia e começaram a deixar os
imigrantes junto à fronteira de Portugal com Espanha, acabando os mesmos por seguirem
para os seus locais de destino nos transportes públicos, o que implicava uma menor exposição
e consequentemente, menos riscos em serem detectados. Para os imigrantes, o transporte para
os países de destino, implica o dispêndio de mais dinheiro, sendo que muitas vezes, no decurso
da viagem, acabam por ser assaltados por brigadas móveis pertencentes às organizações cri-
minosas, que lhes levam o pouco dinheiro que ainda possam ter, ficando completamente de-
pendentes do cenário que venham a encontrar nos países de destino. Tais brigadas são
informadas pelos próprios motoristas dos autocarros em que os imigrantes efectuam a via-
gem. Dessa forma, as mesmas colocam-se em locais previamente estipulados aguardando a
chegada do autocarro.
Na esmagadora maioria das vezes, os imigrantes têm à sua espera alguém, igualmente ligado
às organizações criminosas, que tem por missão colocar os imigrantes em locais de trabalho.
Estes indivíduos são vulgarmente designados por “comerciantes” e estão minimamente inte-
grados no mercado de trabalho, nomeadamente na área da construção civil, tendo contacto
com empreiteiros e subempreiteiros.
É assim que se inicia a saga dos imigrantes no nosso país.

Conforme já foi anteriormente referido, o espaço da União Europeia tem sido assolado por
uma vaga de imigrantes, sendo que os mesmos são provenientes dos mais diversos locais, si-
tuados não só na própria Europa, como igualmente em outros continentes.
O Fenómeno que veio de Leste

98 Sem dúvida que o problema da imigração ilegal é de facto uma ameaça para o sistema har-
monizado de controlo de entradas, admissões e de direito de asilo, tal como ele foi estabele-
cido no Tratado de Amesterdão. Hoje em dia, chega-se à conclusão que a União Europeia não
se preveniu devidamente para fazer face a este fluxo de imigrantes, não tendo sido colocada
em prática uma política caracterizada por medidas concertadas. Isto assim acontece, porque
nenhum dos Governos dos Estados que integram a União Europeia está disposto a abdicar do
poder sobre tão fulcral questão. Em Outubro de 1999, no âmbito do Conselho de Tampere,
os líderes governamentais dos Estados da União Europeia, reuniram-se para implementarem
uma política comum para o asilo e a imigração. O princípio inscrito no Tratado de Amester-
dão prevê edificar na União Europeia uma “zona comum de segurança, liberdade e justiça” no
prazo de cinco anos. Fazendo uma análise ao que tem vindo a acontecer, constata-se que as vá-
rias propostas efectivadas pela Comissão Europeia, para viabilizar os princípios preconizados
no Tratado de Amesterdão, não foram, de uma forma generalizada, acatadas pelos Estados-
Membros. A acção política no que concerne à imigração verifica-se, quase em exclusivo, ao
nível nacional, sendo que as disposições legais adoptadas caracterizam-se por regimes mais se-
veros, os quais se limitam a tentar salvaguardar a situação no domínio interno de cada Estado,
sem ter em conta as consequências que dali poderão advir para os Estados vizinhos. Será que
a aplicação de medidas mais restritivas à imigração conseguirá acabar com os “ilegais”? É de
presumir que não. Pelo contrário, tal agravará o problema, pois as pessoas não irão desistir de
procurar novos rumos para procurarem melhores condições de vida. Esta estratégia apenas
beneficiará as organizações criminosas que se dedicam a auxiliar a imigração ilegal, isto em fun-
ção da expansão do mercado.
Logicamente que o fenómeno da imigração ilegal, devido às proporções já assumidas, acabou
por despertar o interesse das organizações criminosas, as quais, estando fortemente estrutura-
das nos países de origem, e perspectivando grandes margens de lucro, acabam por investir no
desenvolvimento da imigração ilegal e no tráfico de seres humanos. Assim sendo, constata-
se que o crime organizado na sua interacção com o auxílio à imigração ilegal, se apresenta
com uma dupla dimensão. Por um lado, temos a vertente “Administrativa”, a qual assenta na
prática da corrupção, da contrafacção de documentos e da violação das leis da imigração, e por
outro lado, constata-se que as organizações criminosas também se dedicam à produção de di-
versas actividades criminosas, como por exemplo, o lenocínio, o tráfico de armas e de droga,
a extorsão, entre outros. Enquanto que a primeira vertente se revela como um investimento,
a segunda faceta destas organizações acaba por se afigurar como o efeito decorrente do inves-
timento previamente realizado, sendo através dela que acabam por resultar os rendimentos. As
organizações criminosas que estão implantadas nos vários países do leste da Europa, assentam
numa estrutura clássica de cariz piramidal. No topo da hierarquia, temos o líder máximo, o
qual normalmente é uma pessoa experimentada, com idade avançada e que tem um prestígio
João Miguel Ramos Mateus

muito forte junto dos restantes membros da organização. No caso da República da Moldávia, 99
um país de reduzidas dimensões territoriais, existem quatro ou cinco pessoas que lideram ou-
tras tantas organizações. Tais organizações dominam zonas geográficas bem definidas, as quais
correspondem a concelhos. Num grau hierárquico inferior, existe um grupo de alguns indiví-
duos, os quais serão os assessores do líder máximo, tendo cada um deles, uma missão especí-
fica. Alguns destes indivíduos estarão bem relacionados com as autoridades locais,
nomeadamente a Polícia e as Entidades Governamentais. Cumpre sublinhar que a linha que
marca a fronteira entre as organizações criminosas propriamente ditas e as entidades policiais
é muito ténue. De facto, as organizações criminosas, através da prática da corrupção e do trá-
fico de influências, estão bem implantadas nas autoridades locais. Tal relacionamento implica
que, mesmo no caso de membros da organização serem detidos e posteriormente condenados,
poderão algum tempo depois serem libertados, mediante o pagamento de quantias pecuniá-
rias devidamente tabeladas. Contudo, nem todos os “bandidos” usufruem de tal estatuto. Mui-
tos indivíduos, principalmente os mais jovens, confrontados com tal quadro, constatando o
elevado nível de vida que os elementos das organizações criminosas apresentam, acabam por
se sentir aliciados a integrar tais estruturas. Mostram-se dispostos a tudo, sendo que muitas
vezes acabam por cometer abusos, infringindo constantemente a lei criminal. As organizações
criminosas, confrontadas com o fluxo de pessoas que viajavam para o ocidente, acabam por
utilizar estes indivíduos ambiciosos e dispostos a correr todos os riscos, colocando-os nos paí-
ses de destino dos imigrantes, a fim dos mesmos se integrarem na sociedade local, e dessa
forma abrirem o caminho, para aquelas estenderem os seus tentáculos e a sua esfera de in-
fluência. No fundo, foi aplicar a estrutura implantada pelas organizações nos respectivos paí-
ses, aos diversos países da Europa Ocidental. Tal estrutura assenta numa rede devidamente
compartimentada, em que cada sector se dedica a um tipo de crime específico, havendo, no
entanto, que ressalvar que os vários sectores acabam por se complementar na prossecução dos
objectivos preconizados pela organização criminosa, e que visa a obtenção de proventos eco-
nómicos. Existe o recurso estratégico à violência, encarada como um investimento que se irá
rentabilizar no futuro, mediante a diminuição de resistências por parte dos alvos da organiza-
ção criminosa. Cada um dos membros da organização criminosa tem uma missão concreta,
possuindo escassa informação sobre a forma como a organização actua, isto para reduzir os ris-
cos ao nível da confrontação com as autoridades policiais. A imigração ilegal, através do po-
tencial de receitas monetárias que acaba por desencadear, atrai o crime organizado. É dessa
forma que se compreende, que surja uma multiplicidade de grupos, que se estabelecem pelos
diversos países da União Europeia. Estes mesmos grupos acabam por adoptar uma estratégia
eficaz, que consiste em gerir os fluxos de imigrantes que se formaram, ou seja, além de bene-
ficiarem com todo o processo de transferência dos imigrantes dos países de origem para os
países de destino, acabam por os controlar nos diversos locais onde eles se estabelecem, sendo
O Fenómeno que veio de Leste

100 que mediante o recurso à ameaça e à violência acabam por impor a sua “lei”. A multiplicidade
de grupos criminosos atinge tais proporções que muitas vezes os mesmos acabam por entrar
em confronto directo, disputando determinadas franjas do mercado.

No que a Portugal diz respeito, foi essencialmente a partir de 1999, que começaram a afluir
significativos contingentes de pessoas, vindas essencialmente da Ucrânia, da Moldávia e da
Roménia, sendo que a esmagadora maioria desloca-se para o nosso país para trabalharem no
sector da construção civil, isto em virtude de nos respectivos países de origem lhes ser dito que
tal actividade é bem remunerada. Muitos desses imigrantes, só para chegarem a Portugal,
vêem-se obrigados a pagar quantias exorbitantes, passando pelas mais variadas peripécias. Uma
vez em Portugal, possuindo apenas visto turístico, com validade para três meses, acabam por
ficar dependentes da honestidade do patrão a quem são apresentados.
Os primeiros indivíduos provenientes do leste da Europa, apesar de auferirem salários inferiores
aos normalmente praticados, demonstraram uma capacidade de trabalho bastante superior à
que era habitual, sendo que tal despertou ainda mais o interesse do lobbie da construção civil,
pelo facto de tal binómio acarretar necessariamente lucros mais volumosos. Assim sendo, foi
surgindo um conjunto de empresas de trabalho temporário, que em estreita colaboração com
indivíduos igualmente originários do leste da Europa, angariadores de trabalhadores, criaram
um rentável esquema que permite obter receitas assinaláveis, isto em prejuízo dos trabalha-
dores. Para viabilizar o processo atrás referido, as aludidas empresas dispõem ou colaboram com
indivíduos que exercem as funções de motoristas, que asseguram o transporte dos trabalhadores
dos locais onde estão alojados, normalmente estaleiros das firmas de construção civil, para os
locais onde vão trabalhar. Tanto a empresa, como o motorista vão receber parte do salário que
é inicialmente destinado ao trabalhador. Por exemplo, se é acordado que um determinado tra-
balhador vai receber quatro euros por cada hora de produção, um euro destina-se à empresa,
enquanto o motorista recebe igual quantia, acabando o trabalhador por auferir apenas dois
euros. Se tivermos em consideração que normalmente, os indivíduos provenientes do leste da
Europa trabalham em média doze horas por dia, conclui-se que ao final de um dia, a empresa
e o motorista ganham cada uma, doze euros por trabalhador. Se multiplicarmos esta quantia
por vinte trabalhadores, obtém-se o montante de duzentos e quarenta euros. Para além disso,
muitas empresas e principalmente subempreiteiros, não celebram qualquer contrato com o tra-
balhador, pelo que consequentemente não são efectuados descontos para a segurança social,
implicando ainda mais ganhos. No fundo, muitas empresas e subempreiteiros, acabam por fo-
mentar a imigração ilegal, havendo inclusivamente casos de colaboração com indivíduos que
integram organizações criminosas compostas por indivíduos do leste da Europa.
João Miguel Ramos Mateus

Tentando alterar este estado de coisas, foram implementadas pelas entidades governamentais 101
várias medidas. Uma dessas medidas já foi focada nesta exposição, e consistiu em instaurar um
processo de legalização extraordinário, a fim de cativar os imigrantes a regularizar as respecti-
vas situações. De acordo com o que foi anteriormente dito, houve um número considerável
de imigrantes que se mostraram receptivos a este convite das autoridades. Sensivelmente na
mesma altura em que se desencadeou este processo de legalização extraordinário, entrou em
vigor legislação diversa a qual veio regular as condições de entrada, permanência, saída e afas-
tamento de cidadãos estrangeiros do território nacional. De acordo com o preceituado nestas
leis, nem todas as actividades laborais viabilizam a emissão de um visto de trabalho e a conse-
quente autorização de permanência, mas somente as que constarem de um relatório elaborado
pelo Governo. Por outro lado, foi implementado um numerus clausus relativamente aos pos-
tos de trabalho considerados necessários, sendo que, sempre que esse número for ultrapas-
sado, teoricamente deverá ser impedida a emissão de visto de trabalho. Com a instauração
destes diplomas legais, tornou-se bem mais difícil obter vistos de trabalho. Tal por si só não
se revelou suficiente para fazer face ao aumento do número de imigrantes em situação ilegal.
Uma das medidas que poderá combater de forma eficaz este problema, consiste no agrava-
mento da moldura penal e das “coimas”, isto em relação às organizações criminosas e a todos
os que empregam mão-de-obra ilegal. No caso concreto das empresas que beneficiam do tra-
balho de pessoas que não estejam legalizadas, aquilo que tem ocorrido até agora, é que as mes-
mas acabam por correr o risco de manter uma postura à margem da lei, pois caso sejam
surpreendidos por uma acção de fiscalização das autoridades, acabam por ser obrigadas a pagar
quantias que se podem considerar irrisórias, isto atendendo aos lucros que entretanto auferi-
ram. É caso para dizer que o crime compensa.
Com a vinda dos imigrantes provenientes do leste da Europa, começou a chegar ao conheci-
mento das autoridades policiais a ocorrência de situações que não eram usuais anteriormente
no nosso país, ou seja, os imigrantes estariam a ser extorquidos, havendo igualmente notícia
de agressões. Estas situações acabaram por ser denunciadas inicialmente por portugueses, nor-
malmente patrões de imigrantes do leste, isto porque estes preferiam manter-se em silêncio,
não só para evitarem as represálias daqueles que lhes faziam mal, mas também porque não de-
sejavam uma exposição perante as autoridades policiais. Acrescente-se que este último argu-
mento tem por base dois pressupostos. O primeiro tem a ver com o facto de muitos dos
imigrantes não apresentarem a respectiva situação legalizada. Já o segundo pressuposto está in-
timamente relacionado com a imagem de desconfiança que os imigrantes têm das autorida-
des policiais dos seus países de origem.
Com as detenções dos primeiros indivíduos que foram referenciados no cometimento deste
tipo de ilícitos, ocorridas em 2000, aquilo que aparentava ser um conjunto de situações iso-
ladas, veio a revelar uma verdadeira organização, fortemente estruturada, implantada não só
O Fenómeno que veio de Leste

102 em Portugal, mas também em outros países. De acordo com as referências obtidas este grupo
era suportado pelo crime organizado existente na Moldávia, nomeadamente por um dos gran-
des chefes sediados naquela república. Era composto por mais de uma centena de indivíduos,
de diversas nacionalidades, sendo que se dedicava não só a fomentar a imigração ilegal, como
igualmente o lenocínio, a extorsão, sequestros e roubos, entre outros. Este grupo tinha como
objectivo o domínio de todo o mercado, visando eliminar ou absorver outros grupos que exis-
tissem, caracterizando-se ainda por ter células espalhadas em várias cidades do país, as quais
eram chefiadas por elementos de confiança do líder. Cada célula dispunha de pessoas que con-
trolavam a chegada de novos imigrantes e que os colocavam no mercado de trabalho, desig-
nados por “comerciantes”. Dispunham igualmente de várias brigadas operacionais, as quais
perpetravam as extorsões juntos dos trabalhadores. Estes mesmos “comerciantes”, ficavam com
os passaportes e outros documentos pessoais dos imigrantes, assegurando-se que todos eles,
além de pagar pela colocação no mercado de trabalho, ficavam vinculados ao pagamento de
uma taxa mensal que supostamente garantiria a oferta de protecção quando tal se mostrasse
necessário. Sempre que um dos trabalhadores não quisesse disponibilizar tais quantias, o “ co-
merciante “ comunicava aos indivíduos que lideravam as células, os quais por sua vez canali-
zavam a informação para o líder. Era este que dava a ordem para as brigadas de operacionais
avançarem. As visitas das brigadas operacionais eram efectuadas durante a noite, nos locais
onde as pessoas se encontravam a descansar, normalmente contentores instalados nos próprios
estaleiros onde prestavam trabalho. Dessa forma eram apanhados de surpresa e não tinham
grande capacidade de reacção. Os grupos de operacionais escolhiam as alturas em que os tra-
balhadores tinham acabado de receber os salários, e no caso de não encontrarem dinheiro, to-
mavam posse dos passaportes de outros trabalhadores que ainda não estivessem a ser
controlados pela organização, como forma de garantir a posterior entrega das quantias esti-
puladas. Se algum desses mesmos trabalhadores mostrasse novamente relutância em satisfazer
as pretensões daqueles, os assaltantes acabavam por adoptar uma postura agressiva, recorrendo
a métodos mais violentos para os convencer a pagar. Tal tipo de violência acaba por ter um cariz
estratégico, ou seja, afigura-se como uma mensagem para toda a comunidade de imigrantes,
a fim dos mesmos se sentirem ainda mais atemorizados e consequentemente não hesitarem em
satisfazer os propósitos da organização criminosa.11 Todas as receitas obtidas eram entregues
aos responsáveis de cada célula, sendo que estes as remetiam para o líder. Sempre que os

11. Em alguns casos a violência exercida, acaba por provocar a morte das pessoas agredidas. Tal significa que as or-
ganizações não olham a meios para atingir os objectivos a que se propuseram e que consiste na obtenção de lucros.
12. A determinada altura um dos indivíduos que integrava a organização e que inclusivamente liderava uma das cé-
lulas, deixou de cumprir os códigos de conduta instituídos. Efectivamente, o indivíduo em questão deixou de entre-
gar ao líder o dinheiro proveniente das extorsões aos imigrantes. Tal acabou por chegar ao conhecimento do chefe,
tendo o mesmo providenciado no sentido de aquele ser barbaramente espancado e consequentemente expulso da or-
ganização e de Portugal.
João Miguel Ramos Mateus

procedimentos instituídos pela organização não eram cumpridos, registava-se a aplicação de 103
sanções severas.12 Parte das receitas eram destinadas aos elementos do grupo, no entanto, havia
sempre uma percentagem significativa que era enviada para um fundo geral do crime organi-
zado na Moldávia.13
Com o decurso das investigações desencadeadas pelas autoridades policiais, este grupo sofreu
um forte revés, tendo sido detidos vinte cinco dos seus elementos, entre os quais o líder, o seu
assessor principal, a grande maioria dos líderes de células e ainda vários operacionais. Todos
eles aguardaram o respectivo julgamento em prisão preventiva, sendo que o respectivo líder,
além de ter procurado manter a dinâmica de actuação do grupo no exterior, ainda tentou,
acompanhado de outros elementos do grupo, evadir-se do estabelecimento prisional onde se
encontrava. Somente não conseguiu devido à eficaz e pronta actuação dos elementos dos Ser-
viços Prisionais que ali estavam de serviço.
Uma vez limitada a actuação deste grupo, bem como, de outros de menores dimensões, e pe-
rante um vazio de poder, foram chegando novos elementos para reorganizar toda a dinâmica
deste tipo de crime organizado. Surgiram múltiplas organizações criminosas de menores di-
mensões, mas de cariz estrutural homólogo, para continuar a fomentar a imigração ilegal e a
extorsão. Tais organizações, ao tomarem conhecimento das técnicas utilizadas pelas autorida-
des policiais no decurso das investigações, adoptaram novos métodos de actuação,14, visando
uma menor exposição e uma diminuição dos riscos corridos. Assim sendo, passou a haver um
maior cuidado com o teor das conversas mantidas por telefone/telemóvel e deixaram de tomar
posse dos passaportes das vítimas, isto pelo facto de constituir uma prova importante do tipo
de actividade exercida. Os membros das organizações criminosas, de uma forma geral, tam-
bém trabalham, sendo que em algumas situações integram os órgãos estatutários de associa-
ções de apoio ao imigrante. Para lá destas formas de branqueamento das actividades ilícitas

13. O fundo geral do crime organizado, designado no meio criminoso deste tipo de organizações pela palavra “Obs-
hak”, tem como função primordial a aplicação do dinheiro obtido para viabilizar a concessão de todo o tipo de apoio
aos membros que se encontram privados da liberdade.
14. Além do sequestro e do roubo, foi registada a prática de um engenhoso crime de burla a instituições bancárias.
Os criminosos abordam imigrantes em diversos pontos do território português, apropriam-se de forma ilegítima dos
respectivos cartões de crédito/débito e obrigam os respectivos titulares a acompanhá-los até diversas localidades es-
panholas que fiquem situadas perto da fronteira com Portugal. A determinada altura, os próprios criminosos, obri-
gando as vítimas a fornecer os códigos dos cartões bancários, acabam por depositar nas contas correspondentes aos
aludidos cartões, largas somas de dinheiro. Uma vez consumada tal operação, os criminosos deslocam-se a grandes
superfícies comerciais sitas em Espanha, e utilizam os cartões em apreço para adquirir inúmeros artigos, nomeada-
mente, relógios, peças em ouro, electrodomésticos, entre outros. Regressam de imediato para o território português
e deslocam-se a uma caixa multibanco, onde providenciam no sentido de o dinheiro que haviam depositado ante-
riormente na conta titulada pela vítima, ser transferido para as respectivas contas bancárias. Alguns dias mais tarde,
quando as instituições bancárias procederem ao débito das quantias dispendidas com a aquisição dos aludidos arti-
gos comerciais, constatam que a conta não tem saldo suficiente e que o respectivo titular apresentou queixa por uti-
lização abusiva do cartão bancário. É a instituição bancária que acaba por ficar lesada com toda esta situação.
O Fenómeno que veio de Leste

104 praticadas, tem vindo a ser constatada a preocupação em constituir empresas, mediante as
quais se poderá justificar a obtenção das receitas monetárias auferidas com a extorsão. Tudo
isto veio dificultar a actuação da Polícia, no entanto, continuam a ser envidados esforços no
sentido de manter o combate a tal tipo de criminalidade.
O fenómeno aqui em análise encontra-se em plena expansão. Não obstante tudo o que tem
sido feito, terá que se considerar que muito mais há para fazer, nomeadamente no que se re-
fere ao estabelecimento de políticas concertadas, não só entre os vários órgãos de polícia cri-
minal, mas igualmente entre estes e as restantes instâncias formais de controlo. É essencial
uniformizar os critérios de valoração e de decisão das diferentes instâncias formais de con-
trolo, isto em prol de uma maior eficiência da administração da justiça penal. Somente desta
forma é que se poderá enfrentar com maior eficácia a criminalidade organizada e no caso das
estruturas criminais em apreço no presente trabalho, evitar que os respectivos membros be-
neficiem do processo de aculturação, o que a acontecer será necessariamente decisivo para um
aumento e expansão do fenómeno criminal. Nessa altura, também os Portugueses poderão
vir a sofrer com a actuação deste tipo de organizações, passando igualmente a ser considera-
dos como alvos.15

ESTRUTURA BASE DE UMA ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA


João Miguel Ramos Mateus

105

De tudo quanto foi escalpelizado, ficou claro que de algum tempo a esta parte existe um fluxo
de imigração do leste da Europa, não só para Portugal mas para todos os países da União Eu-
ropeia. A deslocação de imigrantes para o ocidente está intimamente relacionada com o facto
dos mesmos procurarem melhores condições de vida. Foi igualmente referido que associado
ao problema da imigração, está o das estruturas criminais que se aproveitam desse fenómeno
e que nele investem para que daí resultem novas fontes de receitas. Para efectivar tal aprovei-
tamento, as organizações criminosas enviam representantes para os diversos países de destino
dos imigrantes, onde montam uma complexa rede de influências, que lhes permitem contro-
lar as áreas do mercado de trabalho onde aqueles consigam exercer funções. É dessa forma
que as organizações criminosas, usufruindo do facto da generalidade dos imigrantes se en-
contrarem num meio social que lhes é completamente estranho, acabam por exercer todo um
conjunto de pressões, as quais visam única e exclusivamente retirar todo o dinheiro que aque-
les possuam.
Por outro lado, abordou-se a forma como as autoridades policiais enfrentaram este cenário.
Apesar das dificuldades de vária ordem que foram surgindo, tem sido possível dar uma resposta
minimamente adequada, isto sem que tal signifique que o problema foi erradicado do nosso
país. Para que os resultados a alcançar sejam ainda mais positivos, e considerando que esta
problemática se estende a todo o território da União Europeia, torna-se prioritário criar efei-
tos de sinergia entre as acções nacionais, acrescentando-lhes uma dimensão europeia.
Nessa conformidade, interessa reflectir sobre algumas questões que poderão ser úteis para pre-
venir o alastramento de toda esta problemática e consequentemente enfraquecer o poderio
das organizações criminosas.

Assim sendo, torna-se imperioso investir em campanhas de informação nos países de ori-
gem e de trânsito, isto com o intuito de sensibilizar o público em geral para os problemas
e os riscos relacionados com a imigração clandestina.
Aplicar as regras estabelecidas no seio da União Europeia, relativas à emissão de vistos e
de controlo nas fronteiras, tendo em conta as respectivas necessidades económicas e de-
mográficas.
Melhorar a cooperação operacional, mediante a utilização de telecomunicações e tecno-
logias modernas, visando uma difusão mais rápida da informação sobre os fluxos migra-
tórios irregulares.

15. Tal deixou de ser uma conjectura, isto em virtude de já terem sido referenciadas condutas criminosas perpetradas
por indivíduos do leste em que as vítimas são de nacionalidade Portuguesa. Numa dessas situações chegou a ser ex-
torquida a quantia de três mil euros.
O Fenómeno que veio de Leste

106 Que as sanções a serem aplicadas aos agentes promotores da imigração clandestina, bem
como das actividades criminosas dela decorrente, sejam definidas como corolário de uma
política consensual entre todos os Estados-Membros. Concretizando, será necessário que
as sanções cominadas assegurem o congelamento e a apreensão dos ganhos de todas as pes-
soas que estejam envolvidas no fenómeno criminal aqui em causa.
Actuar em relação ao trabalho não declarado de residentes em situação ilegal, o que sig-
nifica a tomada de medidas, quer em relação aos empregadores, quer em relação aos po-
tenciais imigrantes irregulares.
Reforçar a cooperação policial e ao mesmo tempo conceder à Europol16 um papel de re-
levo, essencialmente através de uma maior operacionalidade no trabalho a desenvolver
com as autoridades de cada um dos Estados Membros.
Desenvolver uma rede de agentes de ligação ou de equipas conjuntas que viabilizem um
controlo efectivo das fronteiras.
Criar condições que ajudem a tornar mais célere o processo de integração dos imigrantes
nas sociedades dos países onde os mesmos se encontrem e que façam diminuir o seu es-
tado de dependência em relação às organizações criminosas que exploram o problema da
imigração ilegal.
Conceder às vítimas das actividades criminosas o direito à informação e à protecção no
âmbito do processo penal, assim como, regalias para aquelas que se mostrem dispostas a
colaborarem com as investigações.
Definir uma estratégia de combate comum às várias instâncias formais de controlo de um
mesmo Estado, nomeadamente através da identificação dos objectivos a alcançar e dos
procedimentos a adoptar.
Dotar as autoridades policiais de mais meios humanos e meios técnicos que possam aju-
dar a tornar mais eficaz o combate a este tipo de criminalidade.

16. A Europol é um serviço Europeu de Polícia, incumbido do tratamento e intercâmbio de informação criminal. Visa
contribuir de forma significativa para a aplicação das leis da União Europeia no âmbito do combate à criminalidade
organizada. Tem por objectivo melhorar a eficácia e a cooperação entre os serviços competentes dos Estados-Mem-
bros no domínio da prevenção e combate ao crime organizado em áreas concretas, sendo que uma delas é a crimina-
lidade relacionada com as redes de imigração clandestina.
João Miguel Ramos Mateus

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108
Investigação Criminal
face ao Tráfico de Seres
Humanos
109
Anabela Filipe

É Especialista-Adjunta da PJ desde 2001. Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lis-
boa. Pós-graduada em Criminologia pela Universidade Lusíada. Mestre em Ciências Criminais pela Faculdade de
Medicina da Universidade de Lisboa. Doutoranda em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.

O crime de Tráfico de Seres Humanos (TSH), complexo, multifacetado e transnacional, per-


mite-nos aqui um breve enquadramento jurídico (nacional e internacional), ponto de partida
para buscar definições, enunciar dificuldades e lançar desafios aos elementos dos vários Órgãos
de Polícia Criminal (OPC) que com ele frequentemente são confrontados. A análise exaustiva
e contínua das múltiplas vertentes deste crime implica a delimitação conceptual e a percep-
ção real do fenómeno, passando pela necessidade de consciencialização da sociedade bem
como da utilização de todos os instrumentos que a globalização disponibiliza, manipulando-
os para o aumento da eficácia deste combate.
O índice de subdesenvolvimento de um país é directamente proporcional ao número de na-
cionais traficados que buscam, muitas vezes em situações de desespero e extrema vulnerabili-
dade, uma vida melhor em países estáveis económica, social e politicamente. Estes movimentos
migratórios levam a que o mundo do crime, quer ao nível altamente organizado, quer assente
num sentido de oportunidade pontual, não resista aos avultados lucros de uma actividade
(que envolve também o auxílio à imigração ilegal) cujo risco é, por ora, compensador. Às as-
simetrias mundiais e à imigração juntam-se as desigualdades de género, raça e etnia para se con-
cluir que o TSH é um paradigma na violação de Direitos Humanos.
Responder às clássicas perguntas jornalísticas Quem, Como, Onde, Quando e Porquê revela-se
uma árdua tarefa sobretudo quando se debate com um problema prévio de definição ou com
a escassez e dispersão de informação. Importa delimitar conceitos, integrá-los na realidade,
enquadrá-los juridicamente. Importa traçar rotas comportamentais na perspectiva das vítimas
e traficantes dos vários “tráficos” de seres humanos, só assim desvendando estruturas, interli-
gações, modus operandi, fragilidades deste crime.
Investigação Criminal face ao Tráfico de Seres Humanos – (in)definições, dificuldades e desafios

110 Este artigo procura contribuir, sem nunca menosprezar uma reflexão crítica, para o esboço da
real dimensão do TSH numa sociedade cuja paisagem do crime está em constante mudança,
dificultando a sua análise e, por conseguinte, o seu combate; uma sociedade que é fonte de
crime e de um sentimento de insegurança generalizado: a chamada sociedade de risco (Beck,
1992)A. Múltiplos factores - como a dificuldade de determinar o local de consumação, a po-
rosidade evidente entre o poder económico e político e o mundo do crime ou ainda as com-
plexas relações entre crime organizado e de rua - viciam os dados da análise criminológica
convencional. Os OPC assumem um papel fundamental, estruturante no combate ao TSH
que deve ser sublinhado pela formação inicial e contínua, transversal e adequada às compe-
tências legalmente atribuídas bem como pelo trabalho de especialização, que se sabe optimi-
zador da actividade operacional.

"Human trafficking is a crime that strips people of their rights, exploits people's dreams of a better
future, robs people of their dignity. It can cause physical and psychological damage. It can even
kill."
Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon

O TSH é o reverso da globalização, alimentado pela fragilidade de muitos Estados, acentuado


pelas desigualdades de género, raça ou etnia. Revela profundas contradições da própria natu-
reza humana e do suposto percurso evolutivo da nossa civilização, que preconiza um desen-
volvimento sustentável para todos. Este crime é muito mais que uma grave violação da lei, é
uma afronta à dignidade humana. O filósofo esloveno Slavoj Zizek1 adianta que, perante tal
fenómeno, foi criado um novo racismo do mundo desenvolvido, de certa forma mais brutal
que o anterior, uma vez que a legitimação implícita não é natural ou cultural, é reduzia antes
ao chamado egoísmo económico.
As respostas legislativas ao TSH variam de país para país, movidas por razões de ordem polí-
tica, económica, social ou cultural: constata-se que o grau de desenvolvimento de um país é
directamente proporcional às medidas tomadas para combater o TSH e persistência na sua
aplicação. O esforço de harmonização legislativa passa pela criação de enquadramento jurídico
internacional – ao nível global e regional – sendo disso exemplos:
a) O Protocolo Adicional contra a Criminalidade Organizada Transnacional relativo à
Prevenção, à Repressão e à Punição do Tráfico de Pessoas em especial Mulheres e Crianças,

A. BECK, U. (1992) “Risck Society. Towards a new modernity” London, Sage Publications.
1. ZIZEK, Slavoj; DALY, Glyn (2004) “Conversations with Zizek “, London, Polity Press.
2. Para informações específicas sobre o Protocolo – países signatários, países ratificadores, por exemplo – consul-
tarhttp://treaties.un.org/Pages/ViewDetails.aspx?src=TREATY&mtdsg_no=XVIII12&chapter=18&lang=en – ace-
dido em 01/09/2010.
Anabela Filipe

em vigor desde Novembro de 20033 adoptado pela Resolução 55/25 de 15/11/2000. As- 111
sinado e ratificado por mais de 110 países, inúmeros governos e respectivos sistemas ju-
diciais ainda não o colocaram de facto em prática, apesar dos recursos postos à disposição
pela ONU para reforma e harmonização de novas leis, punição dos traficantes, resgate das
vítimas e prevenção junto de grupos de risco (potenciais vítimas). Este Protocolo - adi-
cional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional3 - sur-
giu por força do impacto significativo, e crescente, do fenómeno ao nível mundial,
aplicando-se à prevenção, investigação e perseguição mas somente se o TSH for transna-
cional e envolver um grupo que se dedica à criminalidade organizada, de acordo com a
definição contida no art. 2º a) daquela Convenção4;
b) A Convenção do Conselho da Europa contra o TSH (Convenção de Varsóvia, de 16
de Maio de 2005) – a qual aguarda ainda a ratificação de muitos dos Estados-Membros5
- bem como o Plano de Acção da UE sobre as melhores práticas, normas e procedimentos para
prevenir e combater o TSH (Dezembro 2005)6. A Convenção de Varsóvia tem um campo
mais vasto de aplicação que o Protocolo da ONU ora mencionado, pois, de acordo com
o seu art.2º, abrange todas as formas de TSH quer seja de cariz nacional ou internacio-
nal, estando associado ou não ao crime organizado.
Enunciadas duas iniciativas europeias importa mencionar outras, específicas e estrutu-
rantes, como a Decisão-Quadro 2002/629/JAI do Conselho relativa ao TSH7, instru-
mento jurídico que obriga cada Estado Membro a adoptar medidas necessárias para
garantir que os actos que preencham o conceito de TSH sejam puníveis. Em Março de
2010 foi apresentada pela Comissão Europeia uma proposta Directiva – que se encontra
ainda em discussão e revogará a anterior Decisão-Quadro - relativa à prevenção e luta
contra o TSH que incluirá disposições de aproximação ao Direito Penal, bem como a as-
sistência, medidas de apoio e protecção das vítimas.
A Directiva 2004/81/CE do Conselho8 concede título de residência aos nacionais de paí-
ses terceiros que sejam vítimas de TSH, ou objecto de uma acção de auxílio à imigração
ilegal, e que cooperem com as autoridades competentes.

3. Frequentemente denominada Convenção de Palermo.


4. Grupo estruturado de três ou mais pessoas, existindo durante um período de tempo e actuando concertadamente
com a finalidade de cometer um ou mais crimes graves ou infracções estabelecidas na presente Convenção, com a in-
tenção de obter, directa ou indirectamente, benefício económico ou outro benefício material.
5. Ratificação portuguesa efectuada através do Decreto do Presidente da República nº 9/2008 de 14 de Janeiro, pu-
blicada no DR 1ª Série.
6. Publicado no Jornal Oficial L 311 de 09/12/2005.
7. Publicada no Jornal Oficial L203 de 01/08/2002.
8. Publicada no Jornal Oficial L 261 de 06/08/2004.
Investigação Criminal face ao Tráfico de Seres Humanos – (in)definições, dificuldades e desafios

112 A União Europeia mostra-se preocupada com este fenómeno no seu território9 sobretudo
devido à livre circulação de pessoas à luz da Convenção Schengen10. Segundo recentes
estimativas da Organização Internacional de Migrações (OIM)11 cerca de 800,000 pessoas
são anualmente vítimas de tráfico com destino à Europa. Os últimos alargamentos trou-
xeram dificuldades de diálogo e harmonização a vinte sete, não só resultantes do número
de Estados-Membros envolvidos como de divergências culturais que relevam nesta maté-
ria. Se por um lado não existe uma efectiva política penal comum, matéria em que os Es-
tados-Membros insistem em não ceder, sob perigo de perda de soberania, por outro há a
consciência de que dentro da UE existem realidades diferentes, países de origem e de des-
tino, com níveis de desenvolvimento distinto, múltiplas formas de encarar desigualdades
de género ou raciais. Outras iniciativas subsequentes, acompanhadas dos respectivos pro-
gramas de financiamento, encaminham a U.E. para a harmonização possível nesta maté-
ria, sobretudo através do lançamento e renovação dos Planos Nacionais de Luta contra o
TSH e da cooperação judiciária/policial internacional, bem como no apoio comum cres-
cente às organizações não-governamentais (doravante ONG) cujo papel não deve ser me-
nosprezado12.
Em Portugal as preocupações com o crime de TSH já se verificavam, por exemplo, no pe-
ríodo anterior à entrada em vigor do primeiro Código Penal no pós-25 de Abril: o Parecer da
Procuradoria Geral da República13, de 1978, cujo relator foi o Procurador-Geral Adjunto Mil-
ler Simões, já sublinhava, na sua conclusão, as “(…) sugestões da Polícia Judiciária no sentido
de se adoptarem medidas legislativas tendentes a uma previsão legal completa das situações de TSH
com vista à sua exploração sexual predominantemente de mulheres, e a sua punição com penas de
gravidade correspondente, e, bem assim, proporcional a uma intervenção adequada e exclusiva da-
quela Polícia na investigação desses crimes (...). ”
A redacção do art.160º da Lei 59/2007 de 04 de Setembro14, acolhe a definição mais abran-
gente deste crime, consentânea com os instrumentos legais internacionais ora enunciados. O
TSH é integrado pela primeira vez na categoria dos crimes contra a liberdade pessoal per-
dendo, simultaneamente, o seu exclusivo carácter transnacional na medida em que a anterior
redacção – artº169º da Lei 99/2001 de 25 de Agosto – não mencionava o efectuado dentro
do país. Esta redacção contém um elemento inovador (nº5) que promove a consciência cívica

9. “Trafficking in persons to Europe for sexual exploitation” (June 2010) – ONU – UNDOC. Disponível em
http://www.unodc.org/documents/publications/TiP_Europe_EN_LORES.pdf - acedido em 18/08/2010.
10. Acervo de Schengen publicado no Jornal Oficial das Comunidades Europeias de 22/09/2000.
11. Disponível em http://www.iom.int/jahia/Jahia/counter-trafficking - acedido em 20/08/2010.
12. Papel determinante em Portugal, além das estruturas estatais, da Congregação Religiosa das Irmãs Adoradoras,
O Ninho e APF - Espaço Pessoa.
13. Parecer (nº convencional) PGRP00006147 de 15/06/1978, disponível na Internet: www.dgsi.pt/pgrp.nsf/In-
ternet?OpenView – acedido em 05/09/2010.
14. Código Penal português em vigor.
Anabela Filipe

e apela à responsabilização da sociedade civil: são punidas todas as pessoas que, tendo conhe- 113
cimento que alguém esteja a ser vítima de TSH, usufruam dos seus serviços. No que respeita
a tráfico de menores admite-se que seja cometido através de meios além dos enunciados no nº1
(vide nº 2 e nº3 do art.160º), mas se através daqueles há lugar a agravação.
O legislador achou também necessário, dada a complexidade do crime, criar incriminações co-
nexas “referentes à adopção de menores mediante contrapartida, utilização de serviços ou órgãos de
pessoas vítimas de tráfico e à retenção, ocultação, danificação ou destruição dos respectivos docu-
mentos de identificação ou de viagem”15.
Na nova redacção do crime de TSH continua a ser punida a tentativa, o que dada a nova mol-
dura penal, está implícito (conjugação com o art. 23 nº1 CP). No que se refere ao auxílio e à
instigação aplicam-se as regras gerais da autoria, da cumplicidade e comparticipação (art.26º
a 29º do CP).
Uma questão que sempre se levantou, sobretudo no domínio da criminalidade organizada,
foi a necessidade de consagração da responsabilidade penal de pessoas colectivas – ora con-
cretizada - tida como especialmente relevante quer na prevenção quer no combate ao crime.
O art. 100º do Código Penal – interdição de actividades - permite, no âmbito das medidas de
segurança não-privativas de liberdade, o encerramento temporário ou definitivo de qualquer
estabelecimento utilizado para a prática de TSH ou para interdição ao autor da infracção, a
título temporário ou definitivo, do exercício de actividade relacionada com a prática daquele
crime16.
As circunstâncias agravantes deste tipo de crime não são alteradas (excepto no caso pontual dos
menores) ficando ainda aquém do art. 24º da Convenção de Varsóvia: no quadro actual ape-
nas são consideradas as determinadas pelas relações de parentesco ou existência de relação de
dependência. Sucintamente enumeram-se novas circunstâncias agravantes que deveriam ter
sido adoptadas:
a) O TSH ter colocado em perigo a vida da vítima, deliberadamente ou por negligência
grave;
b) O TSH ter sido cometido contra uma criança;
c) O TSH ter sido cometido por um agente público no exercício das suas funções;
d) A infracção ter sido cometida no quadro de uma organização criminosa.
Quando se trata da matéria relacionada com os bens, produtos e vantagens provenientes da
prática do crime de TSH têm de ser feitas duas considerações: a primeira relativamente à sua

15. Proposta de Lei nº98/X, Exposição de Motivos, p.10 (laborada pela Unidade de Missão para a Reforma Penal,
criada pela Resolução do Conselho de Ministros nº113/2005 de 29 de Julho).
16. Ainda de referir que uma das medidas especiais de polícia – aplicadas sempre de acordo com o principio da ne-
cessidade -, consagradas na alínea h) art.29º da Lei de Segurança Interna – Lei nº53/2008 de 29 de Agosto, publi-
cada no D.R.1ª série, nº197 - é a cessação da actividade de empresas, grupos, organizações ou associações que se
dediquem à criminalidade violenta ou altamente organizada.
Investigação Criminal face ao Tráfico de Seres Humanos – (in)definições, dificuldades e desafios

114 perda, por parte dos agentes, já se encontrava prevista no anterior Código Penal - artigos 109º
(perda de instrumentos e produtos) e 111º (perda de vantagens) – pois, verificando-se os pres-
supostos ali definidos expressos, são declarados perdidos a favor do Estado. Estes bens e pro-
dutos estão abrangidos também pelo art. 368º-A do Código Penal referente ao
branqueamento, aplicando-se-lhe como tal o regime que estabelece medidas de natureza pre-
ventiva e repressiva de combate ao branqueamento de vantagens de proveniência ilícita e ao
financiamento do terrorismo, aprovado pela Lei 25/2008 de 5 de Junho.
A legislação relativa aos meios de obtenção da prova na investigação do crime de TSH, mais
concretamente a que regula as acções encobertas, parece apresentar uma lacuna: o art. 1º da
Lei 101/2001 de 25 de Agosto enumera taxativamente os crimes nos quais aquelas são ad-
missíveis. O TSH não está incluído, pelo menos à luz da mais recente revisão do Código Penal,
pois de crime contra a liberdade e autodeterminação sexual passou a crime contra a liberdade
pessoal. Conclui-se, na sequência desta mudança, que anteriormente pudesse estar abrangido
em parte pela alínea b) do art.1º da Lei 101/2001 de 25 de Agosto. Parece que o corpo legal
criado em 2007 não produziu, nesta matéria, as repercussões desejadas pois, numa primeira
análise, um crime de prevenção e investigação prioritária como o TSH (artigos 3ºnº1 a) e
4ºnº1ª) da Lei 38/2009 de 20 de Julho17) deveria estar abrangido por aquele diploma. O facto
é que, na prática, são escassas as investigações onde existe somente TSH: ora em redes mais
simples, pequenos clãs familiares/étnicos, ora em redes mais amplas e estruturadas – onde é
mais eficaz, aliás, utilizar as acções encobertas – a actividade criminal abrange vários tipos de
crimes desde o tráfico de estupefacientes, passando pelo branqueamento, associação crimi-
nosa, contidos no já referido art.1º da Lei 101/2001 de 25 de Agosto. Importa aferir da ne-
cessidade de alteração da Lei das Acções Encobertas para que ali seja inserido o conceito de
criminalidade altamente organizada de acordo com o Código de Processo Penal, art.1ºm)18.
O balanço desta mais recente redacção do Código Penal é positivo, eliminando uma série de
desajustes à realidade criminal e à produção legal internacional contidos no anterior artigo
169º CP, empurrando até então a prática jurisprudencial para a aplicação de tipos legais que
possuem elementos que de alguma forma estão ligados ao TSH mas que não preenchiam o
tipo. A revisão do CP é primeiro passo para encetar um movimento de mudança de rumo das
orientações políticas, quer no que respeita à investigação criminal (sensibilização, formação es-
pecífica dos órgãos de polícia criminal no terreno, bem como da própria Magistratura, no-
meadamente o Ministério Público que tem em mãos a condução das investigações), quer nas

17. Lei que define os objectivos, prioridades e orientações da política criminal para o biénio 2009-2011 no cumpri-
mento da Lei 17/2006 de 23 de Maio (Lei-Quadro da Política Criminal). Publicada em 20/07/2009, Diário da Re-
pública, I Série.
18. De acordo com a 19ªalterção ao Código de Processo Penal, Lei nº 26/2010 de 30 de Agosto, criminalidade alta-
mente organizada são denominadas as condutas que integrarem crimes de associação criminosa, tráfico de pessoas,
tráfico de armas, tráfico de estupefacientes ou de substâncias.
Anabela Filipe

próprias políticas de imigração e seu reajuste ao nível internacional ou no aprofundamento de 115


questões sociológicas, ainda não resolvidas por entraves culturais, como a discussão sobre le-
galização/criminalização da prostituição.
Do esforço português para acompanhar a evolução no combate a este crime é ainda reflexo a ela-
boração do I Plano Nacional Contra o Tráfico de Seres Humanos19 que - conjugado com o Plano
Nacional para a Inclusão Social (2008-2010), que prevê um modelo de acolhimento às vítimas
de TSH, com o I Plano para a Integração dos Imigrantes (2010-2013) e com o III Plano Na-
cional para a Igualdade, Cidadania e Género (2007-2010)20 - visa colmatar um vazio que exis-
tia nas vertentes, nomeadamente, da inclusão social, imigração e de género, demonstrando uma
visão integrada do problema. Este Plano funciona ainda como impulso inicial na sensibilização
da sociedade portuguesa para um problema que lhe é transversal, obrigando-a a partilhar res-
ponsabilidades com as diversas entidades governamentais. No I Plano Nacional Contra o Trá-
fico de Seres Humanos, concebido para o quadriénio 2007-2010, definiram-se grandes áreas
estratégicas de intervenção, contemplando um leque de mecanismos de referência nacionais, no
sentido de identificar os contornos específicos do TSH, harmonizar procedimentos e dissemi-
nar boas práticas. Ali foram definidas, em concreto, medidas a tomar, sendo o primeiro ponto
de partida para todas as outras: implementação de um sistema de monitorização do TSH, con-
cretizado através da criação do Observatório de Tráfico de Seres Humanos21 e de um fórum,
com periodicidade anual, alargado a todos os agentes envolvidos nesta matéria.
Recentemente – a 18/10/2010, dia europeu contra o TSH - foi apresentado o II Plano Na-
cional. Concebido para o triénio 2011-2013, pretende consolidar a estratégia nacional desta
luta reforçando as respectivas áreas de intervenção, apostando na construção de um acervo de
medidas operacionais com objectivos claros, facilitadores da sua aplicação22.

O fenómeno do TSH continua num impasse gerador de indefinições. Apesar do esforço para
traçar limites, por exemplo, entre o TSH e o auxílio à imigração ilegal, as vítimas do primeiro
continuam a ser tratadas frequentemente como imigrantes ilegais, confrontadas com a detenção

19. Resolução do Conselho de Ministros 82/2007, publicada no Diário da República, I Série, de 22 de Junho.
20. Publicados respectivamente através de Resolução de Concelho de Ministros n.º 136/2008, 1.ª série do D.R. n.º
174, de 9 de Setembro; Resolução do Conselho de Ministros n.º 63 -A/2007, 1ª Série do DR nº85 de 3 de Maio (ac-
tualmente já disponível o anteprojecto do II Plano para o triénio 2010-2013); Resolução do Conselho de Ministros
n.º 82/2007,1ª Série do D.R.nº119de 22 de Junho.
21. Criado pelo Decreto-Lei nº 229/2008 de 27 de Novembro, publicada no Diário da Republica I Série. Site ofi-
cial: http://www.otsh.mai.gov.pt/ - Organicamente enquadrado na Direcção-Geral da Administração Interna – Mi-
nistério da Administração Interna.
22. II PNCTSH disponível para consulta pública em http://www.portugal.gov.pt/pt/GC18/ConsultaPublica/
Pages/20101019_Plano_Combate_Trafico_Seres_Humanos.aspx - acedido em 19/10/2010.
Investigação Criminal face ao Tráfico de Seres Humanos – (in)definições, dificuldades e desafios

116 ou deportação. A Convenção de Palermo é constituída por dois protocolos: ”Protocolo Adi-
cional relativo à Prevenção, à Repressão e à Punição do Tráfico de Pessoas, em especial de Mu-
lheres e Crianças” e o “Protocolo Adicional contra o Contrabando (Smuggling) de Migrantes por
Via Terrestre, Marítima e Aérea”. Ambos apresentam definições que, embora não isentas de crí-
ticas, são, até ao momento, as mais abrangentes e consensuais. Também a legislação comuni-
tária se impôs legislar sobre esta distinção, de acordo com a Directiva 2002/90/CE23.
À revisão do Código Penal de 2007 sucedeu a Lei dos Estrangeiros24 consagrando, no seu art.
183º, o crime de auxílio à imigração ilegal e agravando a medida legal da pena se for praticado
com perigo para a vida do imigrante (art. 183 nº3). De acordo com o art.186º daquela lei, sur-
gindo necessidade de tipificação de uma realidade descrita frequentemente pelos OPC, foi ainda
criado o crime de casamento por conveniência – na gíria apelidado de “casamento branco”.
Analisando estes dois conceitos, segue-se tabela simplificada, visando auxiliar, na prática, à
sua distinção:

Semelhanças e Diferenças entre Auxilio à Imigração Ilegal e TSH


Semelhanças Diferenças

Frequente movimento voluntário Tipo de Crime


dos migrantes; TSH considerado como crime contra as pessoas enquanto o au-
Exposição a situações de descon- xílio à imigração ilegal é considerado um crime contra o Estado;
forto e perigo durante longas via- Consentimento:
gens; Auxílio à imigração ilegal: fá-lo sempre voluntariamente (não há
Estatuto de ilegalidade no país de vítima);
destino – situação de vulnerabili- TSH: neste caso pode haver engano, acção ou rapto (há vítima).
dade dos migrantes – aumento do Liberdade da vítima:
risco de exploração (que não reporta Auxílio à imigração ilegal: relação entre
ao momento e passagem da fron- Traficante e traficado termina com a chegada ao país de destino.
teira que normalmente é efectuado TSH: traficado colocado em situação de exploração, por período
de forma legal). longo de tempo, em condições que desconhecia à partida.
Pagamento efectuado:
Factores básicos comuns para a sua Auxílio à imigração ilegal: imigrantes pagam à partida o serviço
expansão: de transporte e acolhimento no país de origem;
-Pobreza e falta de oportunidades; TSH: relação de dependência traficantes/traficados, pequena per-
-Fronteiras menos controladas em centagem paga inicialmente a traficantes que cobram a restante
algumas regiões (exemplo U.E); dívida através do prolongamento da exploração.
-Internacionalização da economia Objectivo do recrutamento:
/globalização; TSH: possível recrutamento dos traficados para actividades cri-
-Avanço nos transportes e vias e co- minosas
municação; Estrutura organizativa dos agentes:
-Crescimento do crime organizado. Auxílio à imigração ilegal: actos podem ser praticados por uma
pessoa ou estrutura simples;
TSH: frequentemente organização mais bem estruturada que
cobre vários aspectos do processo.
Anabela Filipe

As linhas que, de uma perspectiva teórica, oferecem contornos evidentes quanto às caracte- 117
rísticas específicas de ambos, rapidamente se esbatem perante as seguintes questões:
a) Onde começa o TSH e termina o auxílio à imigração ilegal;
b) Como provar a coacção ou o engano, ou avaliar o grau deste com base na informação
obtida do imigrante, promovendo desta forma a análise de vários níveis de vitimização;
c) Como analisar a cadeia de explorações que os imigrantes ilegais sofrem da origem ao
destino (se integram ou não o conceito de TSH);
d) Como identificar uma vítima de TSH quando, frequentemente as próprias encaram o
trabalho forçado, a escravatura ou a servidão como aceitáveis, quer porque, por exemplo,
nunca conheceram outro modo de vida, quer porque temem a denúncia dos traficantes
vivendo apavoradas com ameaças, lançadas por aqueles, sobre si ou familiares.
A chave da diferença entre TSH e auxílio à imigração ilegal parece estar nas definições do con-
texto de exploração do primeiro – vide art. 160ª do Código Penal – embora se saiba que existe
uma “linha contínua a unir, nos dois extremos, estes dois crimes, o que torna difícil de avaliar a
existência de exploração e grau de exploração do imigrante” (Mendes, 2008). Devido, entre ou-
tras razões, sobretudo à fome, à guerra, à seca surgem movimentos massivos migratórios que
dificultam a distinção, mais concretamente a delimitação do fim de um e princípio de outro.
“Nessas circunstâncias tudo se confunde. Emerge uma zona cinzenta onde é particularmente com-
plexo deslindar o que é normal movimento migratório daquilo que já é censurável acto de tráfico
de pessoas com o seu calvário de situações adjacentes” (Faria Costa, 2007).

Na complexa tarefa de abordar o TSH de forma holística não pode ser esquecido o cerne da
questão: as vítimas, 2 milhões estimadas anualmente pela ONU25. Gera-se controvérsia sobre
o seu número efectivo: não se dão a conhecer pelos mais diversos motivos, quer estatísticos –
inerente ao TSH está a natureza clandestina do crime que dificulta as estatísticas oficiais, con-
taminando-as com cifras negras - quer culturais ou jurídicas: em muitos países as vítimas não
podem ter esse estatuto devido à não criminalização do TSH (quer nas legislações nacionais
quer pela falta de ratificação de instrumentos jurídicos transnacionais). Contribuem, para esta
vulnerabilidade estatística, factores como o estigma social sentido pelas vítimas – sobretudo no
campo da exploração sexual, que as leva a sofrer em silêncio. Muitas simplesmente não se

23. Publicada no Jornal Oficial I 328 de 5 de Dezembro de 2002.


24. Lei nº 23/2007 publicada na 1ª Série do D.R. nº 127 de 04 de Julho.
25. No final de Agosto de 2010 a Assembleia-Geral da ONU lançou oficialmente um Plano de Acção Global con-
tra o TSH (Resolução 64/293) visando reforçar o combate internacional a este crime através de implementação de
acções concretas para prevenir, proteger as vítimas e encontrar cadeia de responsáveis e da colaboração entre os Es-
tados, ONG e sector privado, nomeadamente órgãos de comunicação social.
Investigação Criminal face ao Tráfico de Seres Humanos – (in)definições, dificuldades e desafios

118 reconhecem como tal por pura desinformação ou pelas suas raízes culturais/étnicas, outras
ainda porque temem por si ou pelos seus, sentem-se desorientadas, confusas relativamente às
autoridades de um país estranho (o de destino ou de trânsito). Existem sim cálculos baseados
na observação das ONG no terreno e nas redes internacionais de TSH, que vão sendo lenta-
mente desmanteladas por uma investigação criminal cada vez mais suportada por legislação só-
lida nesta matéria, cada vez mais sensibilizada para a abordagem às vítimas. Aliás, actualmente
no que respeita a TSH, o aspecto quantitativo é ainda uma quimera, daí o esforço desenvol-
vido na última década de alerta mundial, ecoando verbos como prevenir, alertar, compreen-
der a diversidade, intervir, harmonizar legislações, cooperar na exacta medida da
transnacionalidade deste tipo de crime, punir, proteger as vítimas efectivas e as potenciais que,
por razões económicas, sociais ou culturais correm o sério risco de serem traficadas.
De um ponto de vista jurídico uma pessoa traficada é um sujeito passivo (vítima) do ilícito
penal e/ou pessoa contra quem se comete crime ou contravenção. O tribunal competente para
julgar um crime de TSH deverá certificar o estatuto de vítima no âmbito do processo para que
esta possa usufruir plenamente dos seus direitos.
Já do ponto de vista social tem-se vindo a constatar uma associação entre vítima e submissão,
uma ênfase da sociedade no lado subjectivo e moralista da questão sobre os quais é preciso re-
flectir e desconstruir.
A aferição dos vários níveis de vitimização é fundamental, da total coacção (rapto) ao menos
gravoso (há conhecimento e consentimento na actividade mas desconhecimento do trata-
mento característico do TSH: intimidação, endividamento, coacção e exploração) há um
imenso degrade que exige delimitação de contornos. Associar esta realidade a disposições le-
gais pouco claras pode deixar cair a definição de vítima em teias de valores morais, hierarqui-
zando-as quanto ao nível de ajuda que as autoridades lhes devem prestar. Às vítimas deve ser
assegurada a sua plena protecção em todas as fases do processo, para tal é preciso criar a vários
níveis (internacional, regional, nacional) mecanismos, instrumentos jurídicos coerentes, efi-
cazes, céleres baseados na Convenção de Palermo e no seu Protocolo adicional relativo à Pre-
venção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas. Aliás o reforço dos direitos das vítimas, sua
protecção e assistência, tem início exactamente nesta Convenção na qual se distinguem três na-
turezas diferentes de normas26 :
• Normas que obrigam o Estado parte a actuar: art. 6º nº1 do Protocolo contém uma ob-
rigação de protecção da identidade/privacidade da vítima levando a que os casos de pro-
cedimentos criminais sobre TSH sejam confidenciais; art. 6º nº 2 a) contém a obrigação
de prestar à vítima informação sobre procedimentos administrativos e judiciais; art. 6º nº2

26. Classificação adoptada no estudo PEREIRA, Sónia, VASCONCELOS, João (2007) “Combate ao Tráfico de
Seres Humanos e Trabalho Forçado - Estudos de casos e respostas de Portugal” – OIT (Setembro 2007).
Anabela Filipe

b) contém a obrigação e garantir à vítima a possibilidade de expor a sua versão dos factos 119
bem como as suas preocupações no momento adequado dos procedimentos criminais
que envolvam o(s) seu(s) agressor(es); finalmente o art. 6º nº6 do Protocolo e art. 25 nº2
da Convenção contêm a obrigação de incluir na legislação interna meios que permitam
à vítima de TSH obter uma compensação por danos sofridos;
• Normas que solicitam ponderação/esforço dos Estados na sua aplicação: art. 24 nº 4 da Con-
venção exige que cada Estado parte adopte medidas adequadas para que seja garantida a
protecção das vitimas, e, quando conveniente, a dos seus familiares, que sejam testemu-
nhas em procedimentos criminais; o art. 6º nº5 do Protocolo prevê mesmo que os Esta-
dos deverão garantir a segurança física das vítimas enquanto se encontrem no seu território
nacional; o art. 7º do Protocolo aponta para que os Estados ponderem uma forma de re-
gularização de permanência das vítimas de TSH no país de destino;
• Normas cuja implementação é de natureza totalmente opcional: o art. 6º nº3 do Protocolo
enumera um conjunto de medidas que visam a recuperação física, psicológica e social da
vítima como alojamento adequado, acompanhamento e aconselhamento na sua língua ou
numa outra que consiga compreender adequadamente, assistência médica, psicológica e
material, emprego e acesso ao ensino e à formação.
Já no ordenamento jurídico comunitário, a Decisão-Quadro do Conselho 2001/220/JAI de
15 de Março fornece, no seu art.1º, um conceito básico inicial para esta análise relativa ao es-
tatuto de vítima em processo penal. Estabelece ainda que beneficiem de um estatuto especí-
fico, adequado à sua situação em sede processual (art.2 nº2), ao qual deve ser dada especial
atenção tratando-se de um menor que preste testemunho em audiência pública (art.8º, nº4).
Por outro lado o impulso para que se estabeleça a abertura de procedimentos criminais que te-
nham por base o crime de TSH não depende de queixa da vítima (art.7º nº1).
A Directiva 2004/81/CE do Conselho de 29 de Abril regula a autorização de título de resi-
dência concedido aos nacionais de países que sejam vítimas de TSH ou objecto de uma acção
de auxílio à imigração ilegal e cooperem com as autoridades competentes. Essa autorização (vá-
lida por um período mínimo de seis meses de acordo com o art.8 nº3) deve ser concedida sob
as seguintes condições cumulativas (art. 8º nº1 e nº2):
• Demonstração de uma vontade clara de colaborar por parte da vítima;
• A vítima não se encontrar em contacto com os presumíveis autores do crime;
• Relevância do seu depoimento para investigações ou processos judiciais.
Uma crítica imediata ao primeiro destes requisitos reside no facto de estarmos perante um
crime que implica a violação dos Direitos Humanos, proteger a vítima somente em troca da
sua participação activa nos procedimentos criminais enfatiza a ideia errada de que a única ví-
tima nos casos de TSH é o Estado. Há quem adiante que a vítima, ao colaborar, se expõe de
tal forma que existe um segundo momento de vitimização.
Investigação Criminal face ao Tráfico de Seres Humanos – (in)definições, dificuldades e desafios

120 A Directiva prevê igualmente a possibilidade das vítimas disporem de um prazo de reflexão
para se desligarem definitivamente dos autores do crime e, simultaneamente, tomarem uma
decisão informada sobre as consequências de uma possível colaboração com as autoridades,
cujo início e duração é deixado à discricionariedade dos Estados-Membros. Durante este prazo
beneficiam de assistência médica, ou outra necessária, bem como da possibilidade de serem in-
seridas em programas de reintegração social, de acordo com os arts.9º e 12º respectivamente.
Quando se trata de menores a Directiva exige que seja, antes de tudo, considerado o interesse
superior da criança aquando da aplicação do seu regime. No caso de um menor não acompa-
nhado, segundo o art.10º, as autoridades devem desenvolver todos os esforços para que seja
determinada a sua identidade, localizar a família existente e promover a sua representação
legal.
O legislador nacional, por seu turno, optou por defini-la como “pessoa em relação à qual hajam
adquiridos indícios da prática desse crime, por autoridade judiciária ou órgão de polícia criminal,
ou quando o coordenador do Plano Nacional contra o TSH entender que existem motivos sufi-
cientemente ponderosos para crer que essa pessoa é vítima de tráfico e determina que a necessidade
de protecção se mantém enquanto houver risco de a vítima, os seus familiares ou pessoas que com
ela mantenham relações próximas serem objecto de ameaças ou ofensas a bens pessoais ou patrimo-
niais, praticadas pelos agentes do tráfico”27.
Nesta matéria importa elencar os seguintes diplomas no ordenamento jurídico português de
maior relevância na protecção às vítimas de TSH:
• Lei nº 93/99 de 14 de Julho28 que regula a aplicação de medidas de protecção de testemu-
nhas em Processo Penal; - A aplicação dessas medidas, quer gerais quer pontuais, depende
da demonstração de factos que revelem intimidação ou elevado risco de intimidação da
testemunha, entendida como toda a pressão ou ameaça, directa, indirecta ou potencial
exercida com o objectivo de condicionar o seu depoimento ou declarações (art.4º nº2);
• Lei nº23/2007 de 04 de Julho – Lei de Estrangeiros - cujo Capítulo VI contém a Secção V
(artigos 109º a 115º) dedicada à autorização de residência a vítimas de tráfico de pessoas ou
de acção de auxílio à imigração ilegal. – Consagra finalmente, à luz da Directiva
2004/81/CE do Conselho de 29/04/2004, uma protecção para as vítimas de TSH ab-
sorvendo as recomendações que têm sido emitidas pela comunidade internacional: auto-
rização de residência (art.109º), período de reflexão de, no máximo, 60 dias (art. 111º),
especial atenção dada à vítima menor (art. 114);
• Decreto-Lei nº368/2007 de 05 de Novembro – define, num artigo único, o regime espe-
cial de concessão de autorização de residência a cidadão estrangeiro identificado como ví-
tima do crime de tráfico de pessoas;

27. Decreto-Lei 368/2007 de 05/Novembro,Diário da República I Série.


28. Decreto-Lei nº190/2003 de 22 de Agosto que a regulamenta.
Anabela Filipe

• Plano para Integração dos Imigrantes – Resolução do Conselho de Ministros nº 63-A/2007 121
de 03 de Maio – Enfrenta o facto do fenómeno migratório ter assumido um novo contorno
para a sociedade portuguesa, acarretando uma responsabilidade para a integração destes
cidadãos. Os pontos 119 a 122 debruçam-se especificamente sobre o TSH apontando
quatro grandes medidas que se harmonizam com o conjunto legal em vigor, traçando
como metas específicas: a) o reforço na protecção legal e apoio jurídico às vítimas, in-
cluindo crianças; b) a criação de Centro de Acolhimento para vítimas de TSH; c) a cria-
ção de um Observatório de TSH; d) o desenvolvimento de estratégias mais eficazes de
combate ao TSH;
• Lei nº 48/2007 de 29 de Agosto – Código de Processo Penal – no que respeita ao reforço
da tutela das vítimas de crimes, estabelece-se que o Tribunal informa a vítima da liberta-
ção ou fuga do arguido ou condenado, sempre que se entenda que pode existir perigo
para a vítima. Para proteger directamente testemunhas e vítimas de TSH, prescreve-se o
regime de declarações para memória futura no inquérito (art. 271 nº1) não sendo tam-
bém autorizada, aos órgãos de comunicação social, por qualquer meio, a publicação da
identidade da vítima salvo se nisso ela consentir expressamente ou se o crime for praticado
através daquele meio (art. 88º nº2 c)). São permitidas, em sede de audiência de julga-
mento, a leitura das declarações para memória futura sem necessidade de acordo do MP,
do arguido ou do assistente (art.356 nº2 a)), anulando o risco de perda desse importante
elemento de prova testemunhal.
O mais recente Relatório sobre TSH elaborado pelo Departamento de Estado Norte-Ameri-
cano (Junho de 2009)29 salienta que o Governo Português, no que respeita à protecção de ví-
timas de TSH, tem desenvolvido esforços para lhes prestar assistência bem como a encorajá-las
a depor contra os seus traficantes, contribuindo de forma determinante para esse facto toda a
reforma legislativa iniciada em 2007. Contudo é apontado um enorme fosso entre o número
de vítimas identificadas e as que efectivamente aceitaram assistência e protecção (138 para 22)
apesar de implantados os modelos de intervenção (sinalização, identificação e integração) e de
monitorização (recolha e análise de dados quantitativos e qualitativos relativos ao TSH)30.
Quem são afinal as vítimas de TSH, qual a sua proveniência, a sua motivação, quais as razões
que as levaram a dar um salto no vazio deixando as suas raízes no passado?
O referido Relatório31 adianta 800 mil (em trânsito ou destinadas aos E.U.A) das quais 80%
são do sexo feminino (70% são traficadas para fins de exploração sexual) e 50% são menores,

29. “Trafficking in Persons Report”. United States Department of State Report. Disponível na Internet:
http://www.state.gov – Acedido em 05 de Julho de 2010.
30. Estes modelos funcionam em rede, visando articulação dos vários OPC no térreo (PSP, GNR e SEF, PJ),
ONG, com papel activo no combate a este crime, o Observatório e o Coordenador do I Plano Nacional Contra o
TSH (nomeado através do Despacho 1596/2008, publicado na II Série do D.R. nº10 de 15 de Janeiro).
31. Idem.
Investigação Criminal face ao Tráfico de Seres Humanos – (in)definições, dificuldades e desafios

122 números esses que não incluem as vítimas traficadas dentro dos seus próprios países, como fre-
quentemente é verificado no tráfico de mão-de-obra. A Organização Internacional do Traba-
lho (OIT) adianta que actualmente estimam-se em 12.3 milhões os seres humanos vítimas de
tráfico de mão-de-obra (engloba trabalho forçado ou como pagamento da sua comida e alo-
jamento, trabalho infantil e exploração sexual). Urge identificar não só países de origem, trân-
sito e destino como também populações-tipo para que as temidas cifras negras sejam
substancialmente reduzidas. “Buscar um conhecimento rigoroso e actual sobre o tráfico é, sem dú-
vida, um dos aspectos centrais de qualquer estratégia de intervenção, impedindo que ocultação se
confunda com ignorância do problema”32.
Traçar um perfil tipo de vítima é possível mas, dada a complexidade que envolve o TSH, po-
derá limitar a análise: a sua maioria é originária de países com condições sócio-económicas pre-
cárias. Contudo há exemplos de pessoas que são traficadas por circunstancialismos subjectivos,
não cabendo no perfil estereotipado de vítima de TSH: têm a sua escolaridade obrigatória in-
completa, fogem de abusos familiares reiterados ou relações sentimentais falhadas, são de-
sempregados de longa duração, não tendo qualquer perspectiva de futuro. Surpreendentemente
existem vítimas cuja educação é elevada, falam mais de uma língua, têm relações estáveis e
emprego mas a globalização permite-lhes viajar de forma rápida e acessível, aguçando a cu-
riosidade para uma vida completamente diferente em outro país. O ponto comum a todas é
a vontade de agarrar o que lhes parece uma oportunidade de emprego demasiado boa para ser
verdade, caindo posteriormente numa teia de oferta e procura da qual recrutadores tiram o má-
ximo partido das suas fragilidades, da pobreza, do desemprego e da discriminação.
Relativamente às crianças, parcela significativa das vítimas de TSH, os processos de recruta-
mento envolvem terceiros sobretudo pais, familiares ou responsáveis pela sua educação que,
confrontados com a oportunidade de lucro, paralelamente à desresponsabilização, colaboram
num esquema de tráfico mais sofisticado.
A Europol (Serviço Europeu de Polícia)33, distingue dois tipos de factores - push and pull - que
transformam este vasto leque de pessoas em vítimas de TSH:

•Desemprego elevado;
•Discriminação de género reflectidas também no mercado de trabalho;
•Falta de oportunidade para melhorar a qualidade de vida;
•Discriminação com base no sexo ou na etnia;

32. Conferência sobre Tráfico de Seres Humanos e Género no âmbito da Presidência Portuguesa da União Europeia,
Porto, Outubro de 2007, Background Paper, p.6.
33. Agência Europeia orientada para a cooperação policial, criada pela Decisão do Conselho 2009/371/JAI de 10 de
Abril – publicada no Jornal Oficial da União Europeia L121 em 15/05/2009.
Anabela Filipe

•Pobreza. 123
•Fuga de algum tipo de perseguição, violência ou abuso;
•Fuga de violação de Direitos Humanos;
•Colapso da infra-estrutura social;
•Situações conjunturais como conflitos de vária ordem, guerra;
•Percepção das oportunidades em países/regiões desenvolvidos.

•Melhoria da qualidade de vida.


•Perspectivas de uma educação com mais qualidade;
•Ausência de discriminação ou abuso;
•Reforço dos patamares mínimos para o respeito dos direitos individuais;
•Melhores oportunidades de emprego;
•Procura de trabalho pouco qualificado, mal remunerado para os parâmetros do país des-
tino;
•Procura de trabalhadores para a indústria do sexo;
•Salários mais elevados e melhores condições de trabalho.

Determinante ainda o momento da identificação da vítima, podendo ocorrer em diferentes


fases do ciclo de TSH – recrutamento, transporte, acolhimento que implica atribuição e efec-
tivo exercício das funções. Contudo é certo que a identificação de vítimas de TSH no país de
destino é comum sobretudo por razões relacionadas com a consumação do crime, ou com a
diferença que a vítima tantas vezes marca, quer do ponto de vista étnico, cultural, social ou
até mesmo comportamental.
Há um longo caminho já percorrido no que respeita à busca de um perfil de vítima de TSH
associado a vulnerabilidades sobretudo de mulheres (a “feminização da pobreza”) e crianças.
Importa fazer também um levantamento quantitativo cada vez mais preciso das vítimas, in-
terpretá-lo enquadrando-o espacialmente, uma vez que o tipo de vítimas varia consoante a re-
gião mundial (por exemplo em África e na Ásia o número de menores traficados é bastante
maior que o de mulheres adultas, situação contrária verifica-se no Leste Europeu). Por fim
desencadear medidas quer preventivas quer ao nível do auxílio, protecção e reintegração das
mesmas, num constante esforço de adaptação às suas necessidades específicas, eliminando pro-
gressivamente a ideia de que as vítimas de TSH são de algum modo cúmplices deste crime,
abolindo a violência sobre elas exercida com a aplicação de medidas punitivas no lugar das de
cariz protector, adequadas à sua condição vulnerável.
O impacto que o TSH tem nas suas vítimas pode ser devastador: extorsão, condições de vida
deploráveis, desnutrição, ausência ou deficiente assistência sanitária, medo constante, abortos
Investigação Criminal face ao Tráfico de Seres Humanos – (in)definições, dificuldades e desafios

124 forçados ou homicídios impunes. As vítimas tornam-se dependentes, isoladas socialmente,


vulneráveis, expostas ao racismo, à xenofobia, à discriminação e intolerância de vários tipos.
O TSH tem repercussões nefastas na saúde, física e mental, das suas vítimas quer a curto quer
a longo-prazo: o transporte provoca, logo à partida, possível risco de vida devido à inanição,
ao risco de afogamento, sufocação, etc. As vítimas de exploração sexual são expostas a todo o
tipo de violências físicas e psicológicas, frequentemente contagiadas com doenças sexualmente
transmissíveis. Por fim, as que conseguem escapar, que são protegidas, apoiadas e voltam às suas
origens enfrentam, além da sua dor, do sentimento de culpa por terem falhado na sua aven-
tura, a desonra e o ostracismo, a rejeição das suas próprias famílias, factores que aumentam o
risco de revitimização.
A aposta na prevenção do TSH pretende, nas potenciais vítimas – grupos de risco, sensibilizá-
las para as múltiplas formas de aliciamento, para os perigos da tentação para aceitarem pro-
postas irreais, tentando, por fim, valorizar o bem vida, as relações familiares ou comunitárias,
apresentando-lhes uma alternativa que em nada se identifica com o TSH. Por outro lado ao
serem colocados os holofotes sobre a procura, alimentando a consciência social, identificando
clientes com criminosos, tem um efeito dissuasivo por exemplo na indústria do sexo, no tu-
rismo sexual e eventualmente nos recrutadores de mão-de-obra escrava que, ao saberem da pos-
sibilidade eminente de fiscalização, têm tendência para se retraírem.
O combate ao TSH requer uma coordenação de todos os actores envolvidos nos mais diver-
sos níveis. As ONG têm um papel fundamental sobretudo no âmbito da prevenção e do con-
tacto próximo com a potencial ou efectiva vítima, reencaminhando-a, aconselhando-a,
protegendo-a, sem o eventual estigma de se tratar de um OPC. A identificação das vítimas é
o primeiro passo a dar, requer profissionais especializados e infra-estruturas (reforçadas no
caso de se tratar de uma criança) para que se sintam em território seguro num momento de
grande vulnerabilidade. Posteriormente lidera o factor tempo para que a confiança necessária
seja estabelecida e a vítima secundarize o trauma e o medo, falando sobre a sua realidade. Após
esta fase inicial, cabe ao Estado oferecer-lhes um período de reflexão razoável – em Portugal
vai de 30 a 60 dias – e um visto de residência, se assim o desejar. Segue-se o papel determi-
nante da assistência social que deve prover as necessidades imediatas da vítima e TSH34 mas,
a médio e longo-prazo, permitir que criem defesas, accionando a sua reintegração social,
abrindo-lhes rumos reais e viáveis para que escape definitivamente do tráfico, da violência, da
exploração. Esta assistência deve efectivar-se quer nos países de destino, quer nos de origem
ou em quaisquer outros por onde possa passar a vítima de TSH. Importa que as vítimas sejam

34. De localização secreta, o Centro de Acolhimento e Protecção (CAP) é o único local que recebe, em Portugal, as
vítimas de tráfico e as tenta reintegrar em sociedade. Nesta casa abrigo as vítimas contam com o apoio de um psi-
cólogo, um jurista e quatro monitores.
35. Human Rights Watch Report 2001. Disponível na Internet: http:// www.hrw.org/reports/world/reports
Acedido em 20/08/2009.
Anabela Filipe

acompanhadas adequadamente durante todo esse tempo para que recuperem o controlo das 125
suas vidas. Esse processo contribui de uma forma decisiva para a recolha de informação, para
aperfeiçoamento de procedimentos, delineando-se estratégias de combate adequadas que pro-
movam a efectiva protecção de vítimas identificadas.
A magnitude do TSH aumenta ao mesmo ritmo que as assimetrias sócio-económicas globais,
as vítimas – a sua origem, a sua fragilidade – e a negligência dos governos mundiais para com
elas, numa espécie de banalização da desigualdade. Por tudo isso o TSH tem sido mencio-
nado como o lado negro da globalização ecoando, na comunidade internacional, a frase de alerta
para a máxima protecção das vítimas: desperate people will resort to desperate measures35.

“Digam o que disserem, o dinheiro sujo mata a fome, tal como o limpo”36 .

A vertente de actividade económica do TSH, cuja busca de lucro envolve o uso da coacção,
engano, fraude, violência física e psicológica, isolamento, exploração, poderá ser determinante
na investigação criminal. Auxílio à imigração ilegal e TSH são, confundidos frequentemente,
ambos envolvem um certo número de pessoas que se associam, constituindo redes e diversas
complexidades, especializando-se em cada tarefa específica, agindo movidas pela obtenção de
lucro. Algumas dessas pessoas são utilizadas com o desconhecimento de que estão a participar
numa rede cujo fito é cometer, pelo menos, algum destes dois crimes. A dimensão das redes,
a sua organização e modus operandi são de uma diversidade que dificulta a padronização: umas
têm hierarquia definida que deve ser estritamente respeitada, outras organizam-se horizontal-
mente de forma flexível, muitas vezes com bases ad hoc sem definições claras e comando. Ou-
tras ainda operam a um nível familiar em que todos os elementos se conhecem. Existem ainda
ex-elementos de algumas dessas redes, ou até mesmo ex-vítimas, que devido a antigas cone-
xões e conhecimentos que restaram dessa época actuam como elo em alguma altura da rota ou
como recrutadores. Vários estudos, contudo, apontam para a divisão destas redes em três sub-
categorias:
• Pequena escala: envolvem poucos membros, cobrem todo o ciclo do TSH, traficam um
diminuto número de pessoas anualmente, com lucros menos atractivos mas ainda assim,
na sua perspectiva, compensadores;
• Média escala: envolvem um maior número de membros que a anterior e também maior
especialização em certo tipo de tráfico numa zona específica, o que implica infra-estrutu-
ras solidificadas que permitam o recrutamento, o transporte e a obtenção de documen-
tos falsos tanto nos países de origem, como de trânsito ou destino;

36. PÉREZ-REVERTE, Arturo “A Rainha do Sul”,Ed.Asa.


Investigação Criminal face ao Tráfico de Seres Humanos – (in)definições, dificuldades e desafios

126 • Larga escala: tem as mesmas capacidades que as anteriores mas envolvem contactos ao
mais alto nível, tanto no país de origem como no de destino. Estas redes são de tal modo
complexas e bem organizadas que, contrariamente às anteriores, controlam todo o negó-
cio, todo o ciclo do TSH, maximizando os lucros.
As redes organizadas podem ser fechadas sobre si mesmas, dedicando-se à corrupção estraté-
gica para que a sua actividade flua sem qualquer impedimento, ou podem recrutar pessoas,
“soldados”, de alguma forma ligadas ao mundo do crime, gangsters de rua, toxicodependen-
tes, mendigos que em algum momento, e a troco de pouco, se poderão transformar em trafi-
cantes amadores. As redes mais conhecidas, possuidoras de todo o know-how criminoso,
porque há muito estabelecidas em outras actividades ilícitas, como o tráfico de droga ou de
armas, são a máfia japonesa – yakuza - a russa, a chechena, a italiana, a albanesa e as tríades
chinesas. Organizações criminosas sul-americanas têm vindo a ganhar relevo sobretudo no
tráfico de mulheres e crianças que exercem, com frequência, como actividade alternativa a ou-
tros tráficos. Conclui-se, pela diversidade descrita, que “trafficking falls more in the “crime that
is organized” category than it does into true organized crime” (Finkenauer, 2001).
As autoridades responsáveis por investigar o TSH têm que escavar a realidade abaixo da su-
perfície visível, avaliar a capacidade e desenvoltura de uma rede para corromper as estruturas
médias e elevadas das autoridades dos países em que pretendem actuar. Uma situação de TSH
pode estar camuflada numa “comum” rede de imigração ilegal ou pode apresentar um dos
seus tentáculos através de uma empresa cuja principal actividade é o recrutamento e selecção
de trabalhadores. Por outro lado a sua mudança rápida e engenhosa de modus operandi cria fre-
quentemente um certo desfasamento acerca da realidade do terreno, como se de observação
de estrelas se tratasse que, por distarem a milhares de anos-luz, projectam ainda uma imagem
meramente virtual após a sua extinção.
Investigar TSH torna-se um trabalho complexo, intenso, paciente e frustrante pois as autori-
dades deparam-se também com legislação frágil ou até mesmo inexistente, não só relativa-
mente ao crime em concreto mas a toda uma rede de outros a ele interligados, como por
exemplo a corrupção e o branqueamento de capitais. A acrescentar a dificuldades de ordem
prática, como a componente étnica destas redes ou a sua transnacionalidade.
Recorrer a meios clássicos de obtenção de provas como a vigilância, as escutas, o exame de
dados financeiros, entre outros, não é suficiente nesta luta desigual autoridades-traficantes: a
informação policial, além de ser devidamente tratada por analistas especializados, impõe-se que
circule entre os vários OPC nacionais. Paralelamente devem ser promovidos mecanismos de
cooperação policial/judiciária internacionais que promovam a celeridade e eficácia37 no com-
bate à criminalidade transnacional.
Esta actividade orientada para o lucro baseia-se, para o tornar cada vez mais compensador, na
oferta e na procura. As leis do mercado determinam o seu sucesso como qualquer outra acti-
Anabela Filipe

vidade económica legal: a oferta é preenchida nos países menos desenvolvidos económica e so- 127
cialmente ou em territórios temporariamente assolados por conflitos provocando um êxodo
da população, fragilizando-a às mãos de oportunistas redes de TSH. A procura integra pessoas,
individuais ou colectivas, que, mais ou menos conscientes da vulnerabilidade das vítimas re-
solvem tirar disso proveito: o tráfico de crianças será útil tanto para casais com problemas de
infertilidade, que poderão abreviar o moroso processo de adopção como para redes de pedo-
filia ou empregadores que consentem escravatura para trabalhos minuciosos; o tráfico de mu-
lheres será útil para quem tem por hábito recorrer a serviços de prostituição sem se importar
com as condições em que seus objectos de prazer vivem. Criou-se o conceito de turismo sexual,
um nicho de mercado alimentado por agências de viagens exploradoras desse filão.
Traçar rotas das vítimas de TSH pode ser o mesmo que traçar as rotas do dinheiro que esta ac-
tividade envolve. Sabe-se que o valor da dívida da vítima de TSH determina, por exemplo, o
tempo que os traficantes irão retê-la e explorá-la, que os custos das viagens variam consoante
a zona do mundo da qual a vítima é originária e para a qual será traficada, que a forma de fi-
nanciar essa mesma viagem varia dependendo tanto da origem da vítima (as famílias e ami-
gos africanos costumam unir esforços para financiar os traficados) como das exigências dos
traficantes.
O fenómeno de TSH, que se julga ter iniciado quase espontaneamente em pequena escala, tem
revelado indícios de lucros cada vez mais chorudos. Este factor é determinante para atrair
grandes organizações criminais que exercem a sua actividade sob um cálculo de risco mínimo.
Rotas maiores, fases do ciclo de TSH mais complexas, uso de transportes e tecnologia sofisti-
cada fazem presumir, dado o aumento de capital envolvido, que o interesse das grandes orga-
nizações criminais cresceu em detrimento dos pequenos traficantes. De acordo com o sub-tipo
de tráfico em causa é calculado qual o valor a ser dispendido na manutenção da exploração das
vítimas, sendo considerado mais rentável o de mulheres e crianças para exploração sexual (bas-
tam poucos elementos para controlarem as vítimas que, chegadas ao seu destino, são forçadas
a trabalhar para rapidamente gerarem lucros). A exploração deve ser ainda contextualizada
culturalmente, o que é aceite num país e tido como absolutamente normal pode ser, noutro,
social ou legalmente sancionado. Tal acontece com as expectativas dos próprios traficados: em
determinados países a vida quotidiana é de tal forma dura e sem perspectivas que muitos pre-
ferem correr o risco de serem explorados em países ditos de Primeiro Mundo, de viverem em
condições sub-humanas, com horários de trabalho medievais e pagamentos exíguos para,

37. Actualmente em discussão na UE a Decisão de Investigação Europeia – Proposta no Documento do Conselho


da União Europeia 9288/10 de 03 de Junho – que visa substituir um corpo jurídico fragmentado e ineficaz, im-
plantando, simultaneamente, um sistema que facilita a obtenção de provas pelas autoridades judiciárias no âmbito
de investigações penais transnacionais. A proposta permitirá àquelas autoridades solicitarem aos seus homólogos a in-
vestigação, partilha e recolha de provas com base no princípio do reconhecimento mútuo, bastando para tal o preen-
chimento de formulário único.
Investigação Criminal face ao Tráfico de Seres Humanos – (in)definições, dificuldades e desafios

128 posteriormente, voltarem aos seus países onde o pouco poupado, na Europa por exemplo,
poder-se-á transformar numa pequena fortuna, permitindo-lhes uma posição confortável para
o resto da vida.
A utilização de ferramentas eficazes para diminuir os lucros desta actividade tem demonstrado
resultados sobretudo aquando da efectiva aplicação das leis que lutam contra o branquea-
mento de capitais (efectuado através da criação de empresas-fachada, de remessas de dinheiro
para contas no estrangeiro, de preferência em paraísos fiscais ou colocando bens adquiridos em
nome de terceiros de confiança), o confisco e penhora de bens, os procedimentos indemniza-
tórios em direito civil ou da adaptação do sistema fiscal para que os traficantes sejam efecti-
vamente taxados.
Os factores económicos têm aqui um papel determinante, por um lado os traficantes calcu-
lam os riscos/benefícios gerindo a actividade como se de uma empresa se tratasse alterando o
modus operandi, as rotas ou os meios de transporte, se necessário, para reduzir os custos. Por
seu lado os traficados procuram uma vida melhor, com perspectivas evolutivas económico-
socialmente inexistentes ou negadas nos seus países de origem. Escapar à pobreza e enrique-
cer às custas dessa ânsia vulnerável, são os dois motores complementares para que o TSH seja
uma actividade em ascensão.

38

A realidade deste crime é bastante difícil de investigar, exigindo crescente necessidade de sen-
sibilização dos OPC, acompanhada de formação especializada. Partindo da análise do caso
concreto poder-se-ão traçar directrizes de investigação, determinar situações-tipo, outras si-
milares mas de consequências distintas, identificar especificidades, compreender o grau de
complexidade de cada situação que lhes seja apresentada, reencaminhar as vítimas adequada-
mente.
Definidas competências legalmente39, importa sentir a sensibilidade dos vários actores no ter-
reno: deve ser criada e alimentada interdependência entre polícias de proximidade e eventuais
unidades especializadas de investigação. Paralelamente a articulação da investigação criminal
(policial e judicial) com entidades na área da segurança social, da saúde, das finanças, da edu-
cação, na área dos transportes, com as autarquias locais, empresas de outsourcing, bem como
ONG que, devido ao seu conhecimento da realidade quotidiana, contribuem para a identifi-
cação de vítimas de TSH em diversos contextos.

38. “Inspirado na frase “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” , Saramago, José , “Ensaio sobre a Cegueira” Edi-
torial Caminho.
39. Em Portugal têm competência para investigar o crime de TSH o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras – nos ter-
mos do art. 188º nº1 da Lei dos Estrangeiros - e a Polícia Judiciária - de acordo com o artigo art. 7ºnº4 c) da Lei de
Organização de Investigação Criminal (Lei 49/2008 de 27 de Agosto publicada na 1º Série do DR nº165).
Anabela Filipe

Problema inicial reside na detecção da situação de TSH: a polícia de proximidade é a primeira 129
a ser confrontada com as denúncias da população ou com as observações diárias de pequenas
metamorfoses sofridas na sua comunidade. Essa detecção tem diferentes origens mas, tra-
tando-se de um crime público, na sua maioria, é manifestada através de denúncia sobretudo
anónima - possivelmente devido à delicadeza do crime e ao grau de perigosidade das organi-
zações criminosas - ou efectuada por pessoas que, de alguma forma, estão relacionados com
a(s) vítima(s).
As vítimas devem ser acompanhadas40 por agentes de autoridade especializados na investiga-
ção deste crime que as tratarão com o respeito e confidencialidade exigidos à altura da situa-
ção, proporcionando-lhes acompanhamento, paralelamente, por ONG que deverá
(re)construir alicerces à margem das diligências processuais.
Após a detecção é necessária perspicácia para entender se estão presentes os característicos “sin-
tomas” neste tipo de vítimas, pessoas sob controlo de traficantes durante um certo período de
tempo: restrições variadas à liberdade, sinais físicos e psicológicos de violência, dificuldades de
comunicação sobretudo devido à falta de domínio da língua, percurso descrito desde o país
de origem ou desnorte geográfico. Devem ser ainda considerados como indícios os docu-
mentos que a vítima tem ou não em sua posse e se estes, a existirem, forem falsos. O com-
portamento da vítima apresenta invariavelmente sinais claros de medo, de depressão e de forte
insegurança. Além destes indícios, considerados genéricos, importa considerar outros, decor-
rentes da especificidade do tipo de TSH a que a vítima foi submetida41.
As autoridades devem libertar-se de rótulos e ideias preconcebidas quanto a conceitos como
“trabalhadores”, “prostitutas”, “imigrantes ilegais” bem como de perfis-padrão de vítimas, do
conceito de “vítima” propriamente dito no sentido de querer por sua iniciativa expor-se, pro-
curar denunciar e pedir ajuda. A complexidade do crime abre, também neste aspecto, um
leque de dificuldades ultrapassadas pela experiência e sabedoria dos OPC.
O primeiro contacto com a potencial vítima requer prévia formação – apoiados em linhas pré
definidas, especializados para diversas vertentes de TSH e preparados para possível menoridade
da entrevistada - perspicácia e paciência. Considerando-se livre de preconceitos o agente deve
tentar criar laços de confiança42, oferecendo-lhe a oportunidade para finalmente contar a sua

40. Nos casos de vítima menor os agentes de autoridade devem de imediato desencadear procedimentos céleres para
que exista um tutor que a acompanhe.
41. Na exploração sexual , por exemplo, as vítimas são frequentemente controladas através de telemóvel que lhes é
fornecido pelos traficantes. Já nos casos de exploração laboral são expostos a violência e a um número excessivo de
horas de trabalho, uma das condições que se revelaram opostas do acordado num primeiro momento. Por último, na
escravatura doméstica, a vítima é mantida no interior da residência, sob coacção, sem qualquer respeito pelos direi-
tos laborais que lhe assistem.
42. Eliminando desconfiança natural das vítimas, que como imigrantes ilegais que são, desenvolvem relativamente
às autoridades locais. Julgam que os querem deportar para os países de origem, corromper ou simplesmente temem
ameaças (a si e, frequentemente, à família) dos seus traficantes.
Investigação Criminal face ao Tráfico de Seres Humanos – (in)definições, dificuldades e desafios

130 história num ambiente acolhedor (a entrevista deve ser conduzida por dois investigadores)
longe de qualquer influência de terceiros. É fundamental que lhes seja proporcionada infor-
mação legal de forma compreensível sobre os seus direitos enquanto vitima de TSH – des-
mistificando a ideia recorrente de que não têm direito a ser livres - e aconselhamento sobre
programas nacionais que as poderão acompanhar visando apoio imediato e futura reintegra-
ção. Qualquer abordagem deve considerar o impacto do medo das vítimas que joga sempre
contra o sucesso da investigação criminal.
Identificar traficantes é tarefa igualmente delicada: actuam em diversos pontos geográficos das
rotas distribuindo-se pelas actividades características do ciclo de TSH. Habitualmente inseri-
dos em redes que, quase por definição, têm um projecto criminoso - que envolve múltiplas ac-
tividades e tipos de crime - desenvolvendo-se no seio de um grupo social específico. Contudo
é nos países de destino, onde a actividade é desenvolvida por um maior período de tempo, que
os indícios da existência de TSH podem ser mais evidentes. A identificação de pessoas que tra-
balham em bordéis, hotéis, saunas, bares interligados com a prostituição, concepção e manu-
tenção de sites que oferecem, por exemplo, serviços sexuais, ou nas ruas, adultos controlando
menores que se dedicam a pequenos furtos ou à mendicidade podem produzir informação
fundamental nesta luta desigual. De considerar pessoas cujo registo criminal anterior revela en-
volvimento em crimes como imigração ilegal ou de lenocínio, assim como verificar-se, em sua
posse, valores que permitam suspeitar de proveniência ilícita ou de documentos de identifi-
cação de vítimas (sobretudo passaportes) retidos indevidamente. Alguns traficantes foram ví-
timas de TSH no seu passado, chegando mesmo a oferecer serviços sexuais conjuntos,
controlando de perto todas as actividades da vítima.
Questões práticas surgem às autoridades policiais quando confrontadas com vítimas, teste-
munhas e traficantes. Importa saber onde procurar indícios, o que procurar que faça efecti-
vamente prova de preenchimento do tipo, quais as questões a formular e como colocá-las
correctamente43. Uma investigação bem sucedida deste crime implica que a rede seja des-
mantelada bem como os traficantes identificados, reflectindo o despacho de acusação a mi-
nuciosa actividade de recolha da prova eliminando, na medida da mais exacta reprodução da
realidade, as probabilidades de uma absolvição. A corroboração do testemunho da vítima deve
dispor de todos os meios de obtenção de prova permitidos – desde vigilâncias, intercepções te-
lefónicas às provas forenses - com especial enfoque na investigação de transacções financeiras44
que poderão fornecer lugares e períodos de tempo, entidades pagadoras, modos de pagamento

43. Existem, ao nível nacional e internacional, guias orientadores da acção dos OPC dado o teor específico deste
crime. É disso exemplo o “Anti-Trafficking Training for the Law Enforcement Offcers” elaborado pelo International
Centre for Migration Policy Development.
44. Esquemas de financiamento da actividade criminosa como o branqueamento de capitais, fugas fiscais e como os
negócios variados, aparentemente lícitos.
Anabela Filipe

envolvidos, conexões entre indivíduos e o fosso entre lucros legais e actividade criminosa. Urge 131
um maior investimento na fiscalização das entidades empregadoras e dos angariadores de mão-
de-obra acompanhado de adequada regulamentação de sectores em que os imigrantes nor-
malmente se inserem (construção civil, agricultura, prostituição, trabalho doméstico). Ao
analisarmos os métodos e os fins dos traficantes de crianças entende-se a urgência de lei penal
por um lado, e das polícias e a segurança social por outro, de se debruçarem sobre a porno-
grafia infantil e a sua divulgação via Internet, bem como sobre as leis e procedimentos de
adopção, simplificadas ao nível internacional, compensando os nacionais, demasiados moro-
sos e burocráticos que apelando ao aumento de um mercado paralelo.
O sucesso de uma investigação dependerá, da transformação da vida das vítimas, proporcio-
nando-lhes efectivas condições de tratamento físico e/ou psicológico, se necessário. A efectiva
reintegração social das vítimas, quer no país de destino quer no de origem – 90% das vítimas
identificadas em Portugal manifestam vontade de regressar ao seu país - encerra, com chave-
de ouro, qualquer investigação de TSH.
Há um longo caminho a percorrer para que o TSH seja compreendido e combatido nas suas
dimensões preventiva, punitiva e reintegradora. Por ora importa investir na observação deste
fenómeno, cujas múltiplas especificidades impedem a percepção da sua real quantificação mas
permitem analisar traficantes, vítimas, rotas-tipo e as suas mutações.
Thinking Globally, Acting Locally é muito mais do que um (di)lema quando falamos de TSH.
As causas das assimetrias globais do nosso planeta são as principais responsáveis pelos grandes
êxodos migratórios, pelo desespero, pela luta pela sobrevivência de muitos seres humanos,
pela recondução, em última instância, ao caminho da vitimização. Como se adianta, em jeito
de conclusão, num estudo referente ao TSH para fins de exploração sexual (Leal&Leal, 2005)
“ o desafio da sociedade civil, do poder político, da Media, da academia e agências multilaterais, é
o fortalecimento da correlação de forças ao nível local e global, para interferir nos planos e estraté-
gias dos blocos hegemónicos, a fim de diminuir as disparidades sociais entre países.”

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Investigação Criminal face ao Tráfico de Seres Humanos – (in)definições, dificuldades e desafios

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184-201.
133
134
Análise de Resíduos de
Disparo de Armas de Fogo
por MEV / EDERX
135
João Freire Fonseca

Perito de criminalística no Laboratório de Polícia Cientifica da PJ desde 2001 e responsável pela “Componente de
Precisão da Secção de Tiro da ADCRPJ”. Licenciado em Física e Mestre em Engenharia Física pela Faculdade de
Ciências da Universidade de Lisboa.

O presente artigo tem por objectivo discutir a utilidade da análise de resíduos de disparo de
armas de fogo por Microscopia Electrónica de Varrimento/Espectroscopia de Dispersão de
Energia de Raios-X, no âmbito da investigação criminal e, em particular, a capacidade de di-
ferenciar entre tipos diversos de munições.
A análise dos vestígios resultantes de um disparo de uma arma de fogo mostrou que, em geral,
não é possível individualizar combinações de elementos característicos da cápsula, do projéc-
til ou da carga propulsora, já que os elementos encontrados são comuns em outros materiais
de uso frequente. Apenas o primário (componente da munição que se destina à ignição da
carga propulsora) tem uma composição que inclui combinações incomuns de elementos e,
por isso, a detecção de vestígios com essa composição permite associá-los a um disparo. Neste
trabalho, foram analisadas amostras de 24 munições representativas dos grupos de primários
actualmente existentes em munições de armas de fogo. Essas amostras foram preparadas de
forma a evitar contaminações externas e analisadas em detalhe, testando a reprodutibilidade
das composições obtidas. Os resultados permitem concluir que existem combinações de ele-
mentos características dos diferentes tipos de primário, mas que não é possível diferenciar
entre marcas diferentes que utilizem o mesmo primário. Foi possível com os resultados deste
trabalho elaborar uma tabela que associa univocamente os resíduos detectados aos primários.
É parte importante deste trabalho, para além da análise dos resíduos propriamente ditos, a de-
finição de um protocolo de recolha desses resíduos. Procurando realçar aspectos práticos, é
feita uma avaliação das formas e zonas de deposição dos resíduos em causa bem como da eficácia

* O presente artigo foi elaborado com base na Dissertação de Mestrado em Engenharia Física apresentada pelo autor,
em 2009, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

136 com que podem ser recolhidos. Existindo escassas referências quantificadas procura-se, antes de
mais, um conjunto de números que constitua um ponto de partida para uma refinação futura.
O artigo começa com uma descrição breve da evolução das armas de fogo e da sua constitui-
ção, continuando com a identificação dos resíduos resultantes do disparo dessas armas. Os re-
síduos são separados pela sua origem: a arma de fogo propriamente dita e a munição, e faz-se
uma avaliação preliminar do valor probatório dos mesmos. Em seguida é descrita a técnica ex-
perimental Microscopia Electrónica de Varrimento, abordando os diferentes métodos de aná-
lise e as técnicas associadas de descriminação da radiação X (comprimento de onda e energia).
Apresenta-se então a discussão da forma de recolha de resíduos e os resultados obtidos para o
conjunto de munições seleccionadas. Finalmente apresenta-se um quadro resumo dos resul-
tados e as conclusões deste trabalho.

Um dos desejos mais intrínsecos do homem é a prosperidade. Sendo sapiens, o homem rapi-
damente percebeu que para que pudesse prosperar necessitava de sistemas básicos. Estes, ape-
sar de terem vindo a evoluir ao longo dos tempos, são na sua essência aquilo que hoje
designamos por saúde, segurança, educação e justiça.
Um dos principais factores que permite ao homem viver numa sociedade próspera é a exis-
tência de regras, tendo particular importância aquelas que se designam por leis. Estas leis, re-
gendo condutas, não têm todas o mesmo valor sendo organizadas em termos de uma
hierarquia ético-jurídica e aplicadas pelo sistema judicial.
No topo desta hierarquia estão as leis penais que estabelecem as condutas consideradas pela
sociedade como crime e que atentam contra os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.
Entre estes, têm particular importância os crimes que atentam contra a vida.
A correcta identificação dos actos e dos autores destes crimes é objecto de procedimentos es-
pecíficos. O conjunto destes procedimentos designa-se por processo penal, sendo componente
fundamental deste a investigação criminal.
Durante a era moderna, vigorou, na generalidade das legislações europeias continentais, o
processo inquisitório, em que competia ao juiz inquirir, acusar e julgar. Sendo a mesma pes-
soa a reunir, analisar e valorar as provas, existiam fortes limitações às possibilidades de defesa
do arguido neste método processual.
Na sequência da Revolução Francesa o processo penal passa de inquisitório a acusatório. Neste
método passa a haver a separação entre quem investiga, quem acusa e quem julga. Tal levou à
natural evolução dos métodos de investigação criminal, evolução durante a qual foram intro-
duzidas as ciências nas metodologias de investigação criminal, passando esta a ser multidisci-
João Freire Fonseca

plinar. Tendo actualmente não só um papel fundamental, como constituído um dos verda- 137
deiros garantes dos direitos, liberdades e garantias.
O primeiro laboratório forense foi montado em 1910 em Lyon por Edmond Locard (1877-
1966), o qual era formado em medicina e direito, e tinha como únicos equipamentos um mi-
croscópio e um espectrómetro. É a este cientista que se deve a enumeração do Princípio de
Locard. Desde esta data, houve uma grande evolução no conhecimento científico e nas téc-
nicas e equipamentos disponíveis num laboratório forense actual. São vários os indícios pas-
síveis de terem valor na investigação criminal, desde físicos, químicos, biológicos, geológicos
e outros. Entre estes encontram-se os vestígios físicos que permitem a identificação do uso de
armas de fogo na prática de crimes.
Quando ocorre a deflagração de uma munição de arma de fogo, são produzidos diversos resí-
duos com origem nos vários elementos constituintes do sistema arma – munição. Apesar des-
tes resíduos poderem ter origem nas ligas metálicas constituintes da arma ou nos elementos
da munição como a escorva, a cápsula, a carga propulsora ou o projéctil, apenas os que têm
origem no primário contido na escorva são únicos, pois apresentam uma morfologia e com-
binação de elementos nunca detectada noutros enquadramentos.
Assim, este artigo descreve este tipo de resíduos bem como a técnica que melhores resultados
apresenta para a sua análise, a Microscopia Electrónica de Varrimento/Espectroscopia de Dis-
persão de Energia de Raios-X, conforme ficou originalmente demonstrado no Aerospace Re-
port Nº ATR-77(7915)-3.

A principal característica que distingue o ser humano dos restantes animais é a sua capacidade
para criar instrumentos que lhe permitam atingir objectivos para os quais não está natural-
mente habilitado. Não sendo dotado de garras ou de uma força significativa que lhe permi-
tisse caçar os animais dos quais dependia a sua alimentação e agasalho, o ser humano primitivo
viu-se na necessidade de criar instrumentos que lhe possibilitassem ir de encontro às suas ne-
cessidades. A evolução destes instrumentos constitui a história das armas, as quais, apesar de
atingirem actualmente um elevado grau de complexidade e ter mudado o essencial da sua apli-
cação, continuam ainda a permitir a sobrevivência do ser humano tanto como ferramenta au-
xiliar da sua subsistência como da sua defesa.
As armas permitem uma substancial vantagem sobre terceiros, em particular se forem armas
de fogo, razão pela qual são frequentemente utilizadas na prática de crimes. Sendo um dos ob-
jectivos da investigação criminal a identificação dos sujeitos envolvidos na prática ilícita, torna-
se fundamental identificar quais os vestígios materiais que podem resultar do uso de uma arma
de fogo. Para tal é necessário compreender o seu funcionamento.
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

138

Considerando as armas de arquitectura moderna, surgidas após a criação do cartucho metá-


lico em meados do séc. XIX, podemos considerar que uma arma de fogo é basicamente cons-
tituída por um cano de interior liso ou estriado e um mecanismo de disparo, estando ambos
montados num suporte, designado carcaça, que permite empunhá-la. A extremidade do cano
junto ao mecanismo de disparo designa-se por câmara e é o local onde se encontra a munição
a ser deflagrada.
Elementos principais:

1-Corrediça (ferrolho);
2-Cano;
5-Percutor;
17-Carcaça;
26-Gatilho
33-Carregador.

Figura 2.1: vista explodida de uma arma de


fogo moderna. [1]

As munições podem estar contidas num


depósito, designado carregador, que ali-
menta a câmara a cada disparo, de forma
automática ou manual. O mecanismo de
disparo é constituído por uma peça de co-
mando, designado gatilho, o qual está ligado a um conjunto de molas que accionam, directa
ou indirectamente, um elemento, designado por percutor, responsável pela deflagração da mu-
nição. Para que o projéctil contido na munição seja propulsionado na direcção certa, a extre-
midade oposta à boca de fogo, a culatra, é fechada por um elemento designado ferrolho. Ligado
a este ferrolho estão os dois elementos que permitem a extracção e injecção da cápsula da mu-
nição deflagrada, designados extractor e ejector.
Embora não sejam componentes da arma, são as munições que de facto fazem da arma uma
arma de fogo. Originalmente, as armas de fogo não eram mais do que pequenos canhões de
mão ou seja um tubo metálico fechado numa ponta no qual era introduzida uma carga pro-
pulsora (constituída por nitrato de potássio, carvão vegetal e enxofre – pólvora negra) e um
projéctil. Estes projécteis primordiais eram normalmente pequenas esferas rudimentares fei-
tas de pedra ou de metais com baixos pontos de fusão, normalmente chumbo. Entre a carga
João Freire Fonseca

propulsora e o projéctil era necessário introduzir um vedante para maximizar o efeito da ex- 139
pansão dos gases resultantes da combustão da carga, não permitindo a sua passagem para lá
do projéctil. Quando eram usados vários projécteis em simultâneo, o vedante servia também
para evitar a fusão dos projécteis metálicos dentro do cano num fenómeno designado por em-
balamento. Na zona posterior do tubo existia um pequeno orifício, designado ouvido, atra-
vés do qual a carga propulsora era inflamada com recurso a uma mecha de mão.
Desde a introdução das primeiras armas de fogo no séc. XIV até ao início do séc. XIX, o prin-
cípio de funcionamento manteve-se essencialmente inalterado. Neste período, as várias evo-
luções ocorridas centraram-se na forma como a carga era incendiada. Deixou de ser necessária
a mecha de mão, tendo sido criados diversos mecanismos que, por acção de um gatilho, trans-
mitiam a energia suficiente para a ignição da carga propulsora. É fácil perceber que estas armas
eram lentas, devido ao seu processo de carga, susceptíveis a condições climatéricas, pelo sis-
tema de ignição e de propulsão, e pouco precisas, pois o movimento induzido ao projéctil era
apenas devido à força que o projectava para fora do cano.
Entre o final do séc. XV e o fim do séc. XVI, começaram a aparecer os primeiros canos es-
triados (sulcos helicoidais ao longo do cano) por forma a induzir uma rotação do projéctil e
obter uma maior precisão na sua trajectória.
Um dos marcos mais importantes na evolução das armas de fogo e suas munições deu-se no
início do séc. XIX, primeiro com o estudo dos fulminatos metálicos pelo Reverendo Alexan-
der Forsyth e, passado poucos anos, pelo desenvolvimento das cápsulas de fulminante por
parte de Joshua Shaw.

No entanto, a grande evolução das armas decorre da apresentação do sistema Lefaucheux na


Grande Exposição de Londres de 1851. Aproveitando a descoberta dos fulminatos metálicos
e a criação das cápsulas de fulminante como elemento de ignição, Lefaucheux integrou num
único elemento, desig-
nado cápsula, o sistema
de ignição e da carga
propulsora, fixando
mecanicamente o pro-
jéctil na extremidade
aberta da cápsula.

Figura 2.2: sistema Lefaucheux. [3]


Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

140 Para além da vantagem óbvia que representava na rapidez com que passava a ser possível car-
regar a arma, o sistema Lefaucheux permitia igualmente que as armas passassem a ser carre-
gadas pela retaguarda.
Sendo a cápsula um cilindro constituído de uma liga de latão macio aberto apenas numa ex-
tremidade, a cápsula dilatava e fazia a obturação dos gases à retaguarda durante a combustão
da pólvora. O projéctil, com um diâmetro ligeiramente superior ao cano, contendo os gases
no interior do cano até à saída do projéctil, maximiza a queima da carga propulsora.
A partir deste ponto, as grandes inovações residiram na forma de colocar o primário na mu-
nição, tendo sido primeiro criado o sistema de percussão anelar, com o primário aplicado no
interior do bordo e, posteriormente, o sistema de percussão central, com o primário contido
numa cápsula, designada escorva, encastrada no centro da face posterior da cápsula (ver Fig.
2.3).

Figura 2.3: desenho das munições actualmente usadas. [3]

Ao deflagrar uma munição, é gerada uma substancial pressão no interior da arma (a especifi-
cação NATO, M882, referente ao calibre 9x19mm indica uma pressão média de 1 900 bar).
Tanto a cápsula da munição, como o exterior do projéctil, são constituídos por ligas macias.
João Freire Fonseca

Os elementos constituintes da arma que estão em contacto com as munições são constituídos 141
por aços com diversos graus de dureza. Conjugando estes dados é simples concluir que quando
ocorre um disparo ficam impressões de todos os contactos entre os elementos da arma e os ele-
mentos da munição.
Assim podemos encontrar nos elementos da munição:
• Marcas de carregador;
• Marcas da câmara;
• Marcas do percutor;
• Marcas da chapa de obturação (localizada no topo do ferrolho);
• Marcas do extractor;
• Marcas do ejector;
• Marcas do estriado.

Estas marcas permitem agregar univocamente a uma arma de fogo elementos municiais de-
flagrados, cápsulas e projécteis, constituindo vestígios fundamentais em termos de prova ma-
terial. Podemos designar este conjunto de elementos por vestígios balísticos, pois são
habitualmente analisados no âmbito desta especialidade forense. Estes elementos não permi-
tem fazer a ligação entre o disparo e um sujeito. Para tal, temos de identificar vestígios que
ficam depositados sobre o autor do disparo.

Conforme foi mencionado anteriormente, a deflagração de uma arma de fogo é um acto vio-
lento. Geram-se pressões de milhares de bar e temperaturas de milhares de graus Kelvin. Sendo
uma arma constituída por diversas peças em movimento, existem folgas indispensáveis entre
as peças. Através destas, bem como através das aberturas criadas pelo funcionamento da arma,
são projectados, na sequência da deflagração, diversos resíduos com origem em todos os com-
ponentes constituintes do sistema que se irão depositar sobre as superfícies envolventes, entre
as quais naturalmente se conta o autor do disparo.
Os componentes constituintes do sistema, até agora descritos, arma, cápsula e projéctil são
constituídos por ligas metálicas relativamente comuns. O ferro, o cobre, o zinco e o chumbo
estão presentes em inúmeras aplicações, o que implica que a detecção destes elementos num su-
jeito tem um valor probatório quase nulo. Assim, para encontrar resíduos específicos a um dis-
paro temos que investigar os componentes que nos restam: a carga propulsora e o primário.
As primeiras cargas propulsoras eram constituídas por pólvora negra, uma mistura de nitrato
de potássio, carvão vegetal e enxofre cuja origem remonta à China de Genghis Khan. Esta
mistura apresentava diversos problemas graves como a susceptibilidade à humidade e a enorme
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

142 nuvem de fumo que produziam. Em resposta aos vários problemas da pólvora negra, surgem
as pólvoras vivas ou pólvoras sem fumo. A primeira referência a este tipo de pólvoras é atri-
buída ao francês Vieille, em 1884, o qual criou um novo tipo de carga propulsora ao dissol-
ver nitrocelulose numa mistura de éter e álcool. A este tipo de pólvora, também designada de
base simples, seguiram-se as pólvoras de base dupla, desenvolvidas por Alfred Nobel, con-
tendo nitroglicerina, e as pólvoras de base tripla, contendo nitroguanidina. Qualquer um des-
tes tipos de pólvora pode ainda, dependendo do fabricante, conter aditivos, em pequenas
percentagens, com diversas funções, como, por exemplo, estabilização química, aumento de
eficiência e identificação.

componentes habitualmente encontrados nas pólvoras modernas.

Função Componente
Plastificante oxidante de alta energia Nitroglicerina
Plastificante combustível ftalatos, adipato de polyester ou uretano
Cristais orgânicos Nitroguanidina
Estabilizadores Difenilamina, 2-nitrofenilamina, dinitroto
lueno, N-metil-p-nitroanilina, centralites ou
acardites (e.g., N, N1-difenilureia)
Aditivos inorgânicos giz, grafite, sulfato de potássio, nitrato de
potássio, nitrato de bário
Metais em pó Diversos
Corantes Diversos de uso comum

Apesar dos elementos constituintes da carga propulsora poderem ser facilmente recolhidos e
analisados, sofrem do mesmo problema que os componentes anteriormente mencionados.
São mais ou menos comuns, existindo diversas utilizações em outros produtos de qualquer
uma das moléculas que podem constituir a carga propulsora. Assim não permitem associar ine-
quivocamente o autor ao acto.

O elemento constituinte que resta é o primário contido na escorva.


As primeiras escorvas tinham como explosivo o fulminato de mercúrio e como oxidante o
clorato de potássio. Com a introdução das cápsulas metálicas por volta de 1850, verificou-se
a necessidade de substituir o fulminato de mercúrio por outro composto, já que o mercúrio
João Freire Fonseca

originava a amalgamação do zinco, presente no latão. Nas forças armadas ocidentais os pri- 143
mários com mercúrio foram abandonados até aos primeiros anos do séc. XX, tendo perdurado
apenas mais alguns anos no mercado civil. O clorato de potássio também revelou ser proble-
mático, pois causava a oxidação dos canos das armas mesmo após uma boa limpeza. Para col-
matar ambos os problemas foi comercializado em 1928 pela firma RWS o primeiro primário
Sinoxid no qual o papel do explosivo é desempenhado pelo estifanato de chumbo (substi-
tuindo o fulminato de mercúrio) e o papel de oxidante pelo nitrato de bário (substituindo o
clorato de potássio).
Actualmente, no mundo ocidental usam-se essencialmente primários do tipo Sinoxid com a
excepção das munições para uso em carreira de tiro interior. Para este tipo de utilização foram
desenvolvidos por alguns fabricantes outros primários como a Dynamit Nobel AG que substi-
tui o estifanato de chumbo por 2-diazo-4,6-dinitrofenol (diazole) e o nitrato de bário e o sul-
fito de antimónio por uma mistura de peróxido de zinco e pó de titânio. Este tipo de primários,
designados Sintox, apenas produz resíduos metálicos constituídos por titânio e zinco. Ideal-
mente este tipo de primários é aplicado em munições cujos projécteis são totalmente enca-
misados, evitando a vaporização do chumbo que se encontra a descoberto na zona posterior
dos projécteis do tipo FMJ habitualmente usados.
A evolução descrita deveu-se essencialmente a motivos económicos (a necessidade de reutili-
zar as cápsulas eliminou o fulminato mercúrio e a preservação dos canos eliminou o clorato
de potássio) e, só no final do século passado, a motivos ambientais. Tendo tido um desenvol-
vimento diferente, a evolução das munições seguiu outro rumo nos antigos países de leste. A
título de exemplo, verifica-se que ainda hoje são fabricadas munições com cápsulas de ferro.
Nestas economias o uso do fulminato de mercúrio perdurou até bastante tarde, não existindo
uma prova clara que tenha sido completamente posto de lado. Ainda hoje é natural encontrar
lotes de munições de leste com este tipo de primário. Dado o actual panorama de fabrico de
munições, existe também a hipótese, real mas remota, de encontrar munições ocidentais cujo
fabrico foi subcontratado a fábricas de antigos países de leste podendo estas ter incorporado
alguns primários com mercúrio.
Em resumo, podemos afirmar que os primários têm três componentes básicos: um explosivo,
um oxidante e um combustível, podendo conter diversos aditivos como abrasivos, sensibili-
zadores e ligantes. Existem várias composições disponíveis mas basicamente é possível encon-
trar seis tipos de primário:
• Com mercúrio e corrosivos;
• Com mercúrio e não corrosivos;
• Sem mercúrio e corrosivos;
• Sem mercúrio e não corrosivos (tipo Sinoxyd);
• Sem chumbo (tipo Sintox);
• Mistura.
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

144 Os quais podem ser encontrados em quatro tipos de configuração de escorva:


• Anelar (em munições de calibre .22);
• Bateria (em munições para armas de alma lisa, espingardas);
• Berdan;
• Boxer.

Figuras 2.4 e 2.5: escorvas do tipo anelar e bateria. [2]

Figuras 2.6 e 2.7: escorvas do tipo


Berdan e Boxer. [2]

Conforme foi demonstrado pela primeira vez em meados da década de 1970 [8], e confir-
mado por inúmeros estudos posteriores, os vestígios de um disparo de arma de fogo, com ori-
gem no primário contido na escorva, são únicos (quando conciliada a sua morfologia e
composição). Assim temos finalmente a resposta à questão colocada no início ou seja um ves-
tígio que permite associar univocamente resíduos encontrados num sujeito ou numa zona a
um disparo de arma de fogo.
O National Institute of Law Enforcement and Criminal Justice, agência federal norte-ameri-
cana, estabeleceu em, 1974, um protocolo com a Aerospace Corporation para a realização de um
estudo que permitisse responder a esta questão: quais os vestígios materiais que podem resul-
tar do uso de uma arma de fogo e como podem ser analisados. Foi feito um levantamento das
técnicas usadas à data e do tipo de respostas obtidas bem como uma comparação entre os ves-
tígios produzidos num disparo de arma de fogo e os vestígios que se podem encontrar na
João Freire Fonseca

população em geral, tendo sido produzido um relatório final em 1977, o Aerospace Report n.º 145
ATR-77(7915)-3.
Recorrendo à técnica de Espectroscopia de Absorção Atómica (AA), este estudo permitiu iden-
tificar a presença de uma combinação rara de elementos (chumbo, antimónio e bário), asso-
ciada a um disparo de arma de fogo. Como esta técnica é uma análise em volume, não permitia
descartar a possibilidade de uma conjunção fortuita que justificasse a presença dos elementos
em causa. A AA apresentava também como desvantagens a necessidade de processar as reco-
lhas e de estas terem de ser efectuadas num período muito curto após o disparo.
Sabendo que, dadas as condições de formação, os elementos provenientes de um disparo estão
ligados, recorreu-se a uma técnica de análise elementar pontual: a Espectroscopia de Disper-
são de Raios-X acoplada à Microscopia Electrónica de Varrimento. Esta técnica permite uma
análise elementar associada a uma caracterização morfológica, e consequentemente ligar ine-
quivocamente os vestígios produzidos por um disparo de arma de fogo, encontrados num su-
jeito ou superfície, a esse mesmo disparo. É também eliminada a necessidade de processar as
recolhas e é quase duplicado o período durante o qual é pertinente efectuar a recolha.
Em termos de composições detectadas, este relatório elabora uma tabela cuja leitura nos per-
mite concluir que foram essencialmente usadas munições com primários do tipo Sinoxyd.
Ressalve-se no entanto que o objectivo não era identificar os diversos tipos de primário exis-
tentes mas sim identificar qual a melhor técnica de análise e analisar aspectos práticos como
outras possíveis origens para os resíduos e períodos de persistência.

3.1.1 Introdução

Ainda o homo não era sapiens e já a curiosidade lhe era intrínseca. Ver mais, ver melhor e
perceber o que está a ver, foram desejos que desde sempre acompanharam o Homem. Foi cer-
tamente esta ânsia que levou o franciscano Roger Bacon (1215-1294) a sugerir a combinação
de lentes para formar um telescópio (posteriormente concretizado pelo fabricante de óculos
holandês Hans Lippershey (1587-1619)) ou à invenção do microscópio por Zacharias Jans-
sen (1588-1632), tendo ficado para a história as primeiras observações efectuadas pelo pai da
microbiologia o holandês Antonie van Leeuwenhoek (1632-1723).
Estes primeiros instrumentos rapidamente sofreram melhoramentos, como a introdução de
lentes côncavas (no microscópio por parte de Francisco Fontana (1580-1656) e no telescópio
por Johannes Kepler (1571-1630) tendo as observações com estes instrumentos contribuído
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

146 fortemente para a evolução da teoria científica subjacente. É Kepler que em 1611 publica a
primeira grande obra sobre óptica intitulada Dioptrics, à qual se seguiram os trabalhos de Wil-
lebord Snell (1591-1626), René Decartes (1596-1650), Pierre de Fermat (1601-1665), Ro-
bert Hooke (1635-1703) e Isaac Newton (1642-1727). Paralelamente a estes estudos, que se
baseavam na teoria corpuscular da luz, começou a desenvolver-se também a teoria ondulató-
ria por Christian Huygens (1629-1695), Thomas Young (1773-1829) e Augustin Fresnel
(1788-1827).
Naturalmente que não basta ver. É preciso medir, analisar. Assim, logo após os primeiros equi-
pamentos ópticos, nasce a espectroscopia. William Wollastron (1766-1828) faz a observação
das riscas do espectro solar em 1802 e Joseph Fraunhofer (1787-1826) observa a risca dupla
do sódio. A estas observações, seguem-se os trabalhos de Gustav Kirchoff (1824-1887) e Ro-
bert Bunsen (1811-1899) que estabelecem que cada átomo tem uma assinatura espectral di-
ferente. Vemos mais, vemos melhor e começamos a perceber o que vemos.
A evolução continua: Michael Faraday (1791-1867) e James Maxwell (1831-1879) estabele-
cem a relação entre o electromagnetismo e a luz e Louis de Broglie (1892-1987) estabelece a
relação entre partícula e comprimento de onda. Tendo por base estas relações, Knoll, em 1935,
descreve o conceito do microscópio electrónico concretizado por Von Ardenne em 1938, con-
seguindo, assim, mais uma vez, ver mais e melhor.
O primeiro microscópio electrónico foi construído por Knoll e Ruska em 1932 e tratava-se
de um microscópio de transmissão, tendo o eixo óptico montado na horizontal. Passados dez
anos surge o primeiro microscópio de varrimento construído pelos Laboratórios RCA em
Nova Jersey apresentando já o eixo óptico na vertical.
Desde 1942 até aos nossos dias ocorreu uma grande evolução tecnológica, mas os compo-
nentes básicos de um MEV mantiveram-se. Esta grande evolução foi essencialmente ao nível
da electrónica de controlo e de processamento de sinal.
A microscopia electrónica é uma derivação evolutiva da microscopia óptica. Derivação porque,
embora baseando-se nos mesmos princípios, usa electrões em vez de fotões, lentes electro-
magnéticas em vez de lentes ópticas e um processo de formação da imagem por varrimento1
em vez de uma imagem instantânea. Evolutiva porque nos permite não só maiores ampliações
e maior profundidade de campo como também obter mais informações sobre o que estamos
a observar. Assim a descrição começará pelos princípios da microscopia óptica e seguirá, com
as necessárias adaptações, para a microscopia electrónica e o que de novo este tipo de micros-
copia nos traz.

1. No caso dos microscópios electrónicos de varrimento.


João Freire Fonseca

147

Um microscópio é um sistema óptico que permite obter uma imagem ampliada de um objecto.
É importante perceber como essa imagem é formada.
Quando um raio de luz passa de um meio para outro ocorre um fenómeno de refracção que
pode ser traduzido matematicamente pela lei de Snell da refracção:

sendo e os índices de refracção dos meios 1 e 2 e e , os ângulos do raio incidente e


do raio emergente com a normal da superfície de fronteira. Usando este efeito, podem cons-
truir-se dispositivos para controlar o percurso da luz, lentes, que consistem num meio trans-
parente limitado por duas superfícies curvas. Uma lente é caracterizada pela distância focal f,
distância à lente do ponto imagem de um feixe de raios paralelos. A distância focal é função
dos raios de curvatura das superfícies que a limitam e do índice de refracção do meio.
Para lentes delgadas (espessura pequena) convergentes, a um objecto colocado a uma distân-
cia entre f e 2f, corresponde uma imagem ampliada, real e invertida.

Figura 3.1: imagem obtida por uma lente convexa. [6]

As distâncias à lente do objecto, u, e da imagem, v, relacionam-se pela equação das lentes


delgadas

que permite obter uma relação entre a altura da imagem e do objecto, que se designa por am-
pliação linear M.
Conforme se deduz da figura 3.1, essa relação é dada por:
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

148 Caso desejemos ampliações superiores podemos usar combinações de lentes, sendo a amplia-
ção final o produto das ampliações de cada lente:

Habitualmente a lente mais próxima do objecto designa-se por objectiva e a lente mais pró-
xima da imagem por ocular.

Figura 3.2: combinação de duas lentes delgadas. [6]

Complementando esta configuração com uma fonte de luz e uma lente condensadora obte-
mos um microscópio óptico.

Figura 3.3: esquema representativo


dos dois tipos básicos de microscó-
pios ópticos. [6]
João Freire Fonseca

As configurações apresentadas na Figura 3.3 representam dois tipos de microscópios distintos. 149
Na primeira, a imagem é obtida por transmissão da luz através da amostra sendo normal-
mente usada em amostras finas e semitransparentes, e na segunda, a imagem é obtida por re-
flexão, sendo normalmente usada em amostras espessas e opacas. Por uma questão de
comodidade, existem equipamentos que permitem os dois tipos de iluminação.
A ampliação máxima possível num microscópio óptico é limitada pelo comportamento on-
dulatório da luz e em particular pelo efeito de difracção. Este efeito consiste na possibilidade
da onda se propagar atrás de um obstáculo.
Se uma onda electromagnética incide numa superfície onde esteja presente uma abertura com
dimensões maiores, mas da ordem do seu comprimento de onda, ocorre um fenómeno de di-
fracção. Este caracteriza-se pelo aparecimento de um padrão causado pela interferência entre
as ondas.

Figura 3.4: fenómeno de in-


terferência causado pela pas-
sagem de uma onda através
de uma abertura. [5]

Considerando um feixe
de luz e uma abertura cir-
cular, verificamos que de-
vido à difracção, surge um
padrão constituído por anéis concêntricos em torno do círculo central. Estes anéis designam-
se por discos de Airy e resultam da difracção da luz.

Figura 3.5: relação entre os discos de Airy e o gráfico da in-


tensidade. [6]

Este fenómeno estabelece a distância mínima que


pode existir entre dois pontos do objecto para pode-
rem ser distinguidos na imagem. Esta limitação de-
signa-se por resolução e pode ser definida pelo
Critério de Rayleigh que nos diz que dois pontos são
discerníveis se o máximo de intensidade do primeiro
disco de Airy do primeiro ponto coincidir com o pri-
meiro mínimo do segundo.
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

150 Figura 3.6: Critério de Rayleigh para distinção entre


dois pontos. [6]

O critério pode ser traduzido matematicamente,


para uma abertura circular de raio r, pela equação
[6]:

onde α representa o ângulo entre o bordo da abertura da lente e o seu eixo óptico.

Figura 3.7: definição de α. [6] Tendo em conta que o olho hu-


mano é sensível a comprimentos
de onda entre os 400 e os 700
nm, que, mesmo recorrendo a
uma objectiva de imersão em
óleo, apenas podemos obter um
índice de refracção máximo de
1,6, e admitindo que a objectiva
tem uma dimensão muito
grande comparada com a distân-
cia ao objecto, obtemos um valor de . Se considerarmos que o olho humano con-
segue distinguir objectos até 0,2 mm obtemos uma ampliação máxima de aproximadamente
1300x. Na prática a microscopia óptica é usada até 1000x.
Como os objectos são tridimensionais, é também importante introduzir um outro parâmetro
referente à resolução em profundidade.Este parâ-
metro é habitualmente designado por profundi-
dade de campo e indica-nos a distância h ao longo
da qual o objecto aparenta estar focado.

Figura 3.8: definição de profundidade de campo. [6]

Até agora considerámos o sistema óptico perfeito e


apenas limitado pela difracção nas aberturas.
Existem, no entanto, outras limitações, que estão
associadas a imagens deformadas do objecto, de-
signadas aberrações. Segundo a primeira regra de
João Freire Fonseca

Maxwell para a formação de uma imagem, a cada ponto do objecto tem de corresponder um 151
ponto da imagem. Quando tal não acontece a imagem é deformada. As aberrações podem ser
acromáticas com origem na geometria da lente (aberração esférica, astigmatismo) ou cromá-
ticas com origem na presença de vários comprimentos de onda no feixe.

Como em geral as lentes têm superfícies curvas, raios que passam próximo do centro da lente
são focados a distâncias distintas de raios que incidam próximo dos extremos. Em vez de ter-
mos um ponto de focagem, existe uma região entre o foco correspondente aos raios paraxiais
e o foco correspondente aos raios incidentes junto dos extremos, em que a imagem aparece
aproximadamente focada.
Para um feixe cilíndrico
de raios paralelos que in-
cide em toda a lente de-
fine-se o plano de
focagem como o plano
perpendicular ao eixo
principal da lente na po-
sição em que a imagem
corresponde a um disco
Figura 3.9: aberração esférica. [6]
de menores dimensões,
que se designa por disco de menor confusão.
O astigmatismo é causado pela assimetria esférica da lente. Esta aberração é perceptível pelo
alongar da imagem segundo X e Y quando passamos o ponto de focagem.

A aberração cromática é devida à


presença de vários comprimentos
de onda no feixe. Sendo cada com-
primento de onda focado num
ponto distinto, num feixe em que
existam vários comprimentos de
onda não existe um único ponto
de focagem e mais uma vez pode-
mos definir um disco de menor
confusão. Figura 3.10: aberração cromática. [6]
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

152

Uma das formas mais simples de melhorar a resolução de um microscópio é usar radiação com
um comprimento de onda tão pequeno quanto possível. Tal pode ser parcialmente conseguido
num sistema óptico com recurso a iluminação ultravioleta em conjunção com objectivas de
quartzo e filtros para o visível. No entanto, a iluminação UV apenas nos permite baixar de um
factor 2 o comprimento de onda (de 400 nm para 200 nm).
Este factor 2 pode ser largamente ultrapassado recorrendo a partículas materiais com compri-
mentos de onda de Broglie pequenos. As partículas a usar devem estar facilmente disponíveis,
poder ser focadas e ter um comprimento de onda inferior a 200nm. As que melhor respondem
a este conjunto de condições são os electrões.
Os electrões estão facilmente disponíveis por emissão termiónica, que ocorre por exemplo num
filamento aquecido, em simultâneo com a emissão luminosa. Sendo partículas carregadas, podem
ser focados utilizando campos electromagnéticos. O seu comprimento de onda depende da ener-
gia podendo ter valores da ordem dos 10-3 nm. Existe ainda a vantagem adicional deste último
parâmetro ser seleccionável, pois é função da velocidade final a que os electrões são acelerados.
Outra das grandes vantagens da microscopia electrónica, relativamente à óptica, reside na grande
profundidade de campo. Como vimos anteriormente, este parâmetro depende do ângulo de
abertura. Dado que as aberturas podem ser várias ordens de grandeza inferiores, podemos ter pro-
fundidades de campo várias ordens de grandeza superiores. Esta é uma das principais caracterís-
ticas das imagens obtidas em microscopia electrónica de varrimento.
Naturalmente existem também desvantagens sendo a principal a necessidade de manter vácuo
na região onde se propagam os electrões pois estes interactuam fortemente com as moléculas
com que se possam cruzar. O processo de formação de uma imagem resultante da interacção do
feixe de electrões com um objecto é também mais complexo. No entanto, considerando que
passamos para comprimentos de onda da ordem da milésima de nanómetro (no caso do MEV),
ganhamos 3 a 4 ordens de grandeza na resolução ao passarmos da microscopia óptica para a mi-
croscopia electrónica.

Um microscópio electrónico de varrimento tem os seguintes componentes principais:


• Canhão de electrões;
• Lentes condensadoras;
• Objectiva;
• Bobines de varrimento;
• Porta amostras;
• Detectores;
• Monitor;
• Bombas de vazio.
João Freire Fonseca

153

Figura 3.11: esquema de um MEV. [5]

O canhão de electrões inclui o sistema que fornece electrões e o sistema de focagem inicial. É
em geral constituído por um filamento, que funciona como cátodo, montado no interior de
uma campânula de Wehnelt e por uma fonte de alta tensão que estabelece a diferença de po-
tencial entre o filamento e o ânodo, o qual está a um potencial nulo. A campânula de Weh-
nelt é um sistema que permite, pela regulação de uma resistência variável ligada ao filamento,
a focagem dos electrões dentro do canhão e o controlo da quantidade de electrões emitidos.
Existem dois processos pelos quais podemos obter a emissão de electrões: a emissão termió-
nica ou o efeito de campo.

A emissão termiónica ocorre sempre que aumentamos a temperatura de um metal até que a
energia térmica fornecida aos electrões da banda de condução seja superior ao hiato de ener-
gia entre a banda de valência e o vazio.
A densidade da corrente de emissão pode ser obtida integrando a contribuição dos electrões
excitados com energias superiores a φ :

O resultado desta integração conduz à equação de Richardson:


Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

154 Onde A é a constante de Richardson (106Am-2K-2), T a temperatura, φ a função de trabalho


do metal e kB a constante de Boltzman.
Tendo em conta a temperatura de fusão e os valores da função de trabalho bem como as suas
características mecânicas, o metal mais usado para o fabrico dos filamentos é o tungsténio.
Este apresenta uma temperatura de fusão de 3650 K e uma função de trabalho de 4,5 eV
sendo facilmente maquinado num filamento em V. Para maiores densidades de corrente de
emissão é também possível usar filamentos de LaB6 com uma função de trabalho de 2,7 eV,
mas, dado que este composto reage com o oxigénio é necessário que a coluna do microscópio
esteja preparada para manter o canhão sempre em vazio, ventilando apenas a câmara.
Dado que o objectivo é acelerar a maior quantidade de electrões ao longo da coluna, existe um
parâmetro mais importante que a densidade de corrente de emissão. Designa-se por brilho e
é dado pela razão entre a densidade de corrente e o ângulo sólido de emissão.

Uma forma de aumentar o brilho é diminuir o valor do ângulo sólido. Tal é conseguido com
recurso a filamentos constituídos por uma ponta aguçada e à emissão por efeito de campo. A
área de emissão destas pontas é da ordem dos 0,1 μm sendo a área de emissão de uma ponta
de tungsténio da ordem do 1 μm.
Ao aplicarmos um campo electrostático a um filamento deste tipo ocorre um fenómeno de-
signado por efeito de Schottky, que se caracteriza pela redução da barreira de potencial, que
permite a emissão de electrões. Se aumentarmos mais o campo electrostático, essa barreira
tende para zero, ocorrendo emissão de electrões, independentemente da temperatura. É este
fenómeno que está na origem da emissão por efeito de campo.
Embora se consigam níveis de brilho muito superiores com recurso ao efeito de campo, e con-
sequentemente melhores resoluções, é necessário manter o feixe em ultra alto vácuo. Outra des-
vantagem é o custo deste tipo de equipamentos, substancialmente superior aos que utilizam
a emissão termiónica.
Tendo em conta o equilíbrio entre robustez, facilidade de utilização e custo, os filamentos de
tungsténio são a melhor opção excepto se necessitarmos de resoluções muito elevadas.
João Freire Fonseca

155

Figura 3.12: comparação dos tipos de filamento. [5]

Figura 3.13: processo de formação do


feixe num MEV. [7]

Como os electrões são partículas car-


regadas, as suas trajectórias podem
ser modificadas com recurso a cam-
pos eléctricos (lentes electroestáticas)
ou a campos magnéticos (lentes elec-
tromagnéticas). Estas lentes desig-
nam-se lentes condensadoras, sendo
as electromagnéticas as mais usadas
devido aos factores descritos na ta-
bela seguinte:
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

156 Comparação das vantagens dos dois tipos de lentes

Lentes electrostáticas Lentes electromagnéticas


Imagem não rodada Menos efeitos de aberração
Leves e de baixo consumo Não é necessário isolamento para alta tensão
Não necessitam tensão muito estável Podem ser utilizadas em imersão
Focagem fácil

Um electrão que possua uma componente da velocidade não paralela ao eixo óptico sofre uma
força dada por: ao passar pelo campo magnético. Assim, é possível alinhar os
electrões num feixe cilíndrico usando um primeiro conjunto de lentes. O segundo conjunto
de lentes condensadoras permite reduzir ainda mais a dimensão do feixe. Usam-se duas len-
tes em cada conjunto para reduzir a aberração esférica. O limite de resolução devido a esta aber-
ração é dado por:

em que Cs é o coeficiente de aberração esférica e α a abertura do feixe.


A lente objectiva permite a focagem do feixe na amostra e contêm no seu interior quatro bo-
bines que deflectem o feixe e permitem efectuar o varrimento da amostra. Este varrimento é
similar ao que ocorre num tubo de raios catódicos.
Existem ainda, tal como nos sistemas ópticos, aberrações cromáticas devido ao facto de os
electrões serem emitidos com energias dentro de um intervalo de energia ΔE (ver fig. 3.23) o
que introduz um limite de resolução dado por:

É a soma dada por: que estabelece o verdadeiro limite de resolução do MEV pois
o limite dado pelo critério de Rayleigh é bastante inferior a este valor, dado estarmos em con-
dições de vazio e o valor de α ser muito reduzido.
Um segundo aspecto a ter ainda em conta diz respeito ao astigmatismo, que, no caso de um
MEV, pode ser corrigido com recurso a um quadrupólo magnético designado astigmator.

Na formação da imagem num MEV, embora o motivo da utilização de electrões derive di-
rectamente da explicação óptica, o papel dos restantes elementos não tem paralelo na micros-
copia óptica clássica. Num microscópio óptico, a imagem tem origem em fotões, é observada
João Freire Fonseca

directamente, sendo formada no seu todo em simultâneo e com uma ampliação que depende 157
das lentes. Quando usamos electrões, as imagens obtidas são igualmente constituídas por elec-
trões ou por radiação X resultante da sua interacção com os átomos da amostra. Mas, como
vimos anteriormente, o olho humano não é sensível ao comprimento de onda destas partícu-
las; assim, necessitamos de um transdutor que transforme os electrões em fotões passíveis de
serem observados.
Quando os electrões do feixe penetram na amostra podem interagir com os electrões dos áto-
mos presentes na amostra trocando energia (dispersão inelástica) ou com os núcleos desses mes-
mos átomos, podendo considerar-se que a sua energia se mantém constante (dispersão elástica).

Figura 3.14: sinais pas-


síveis de obter da inte-
racção do feixe com a
amostra. [3]

No caso da radiação
detectada corres-
ponder também a
electrões, estes divi-
dem-se em electrões
secundários e elec-
trões rectrodifundi-
dos. A partir da
corrente que flui
através da amostra obtemos uma informação que é um misto de contraste de número ató-
mico e topografia. Os electrões transmitidos permitem obter um espectro de energia perdida
pelos electrões bem como informação sobre a estrutura da amostra. A EBIC (sigla inglesa para
condutividade induzida por feixe de electrões) permite, pela acumulação de cargas, analisar a
condutividade em circuitos integrados. A catodoluminescência permite a identificação de ma-
teriais que sofrem transições ópticas nas orbitais exteriores ou à identificação de defeitos cris-
talinos. Os restantes sinais, raios-x característicos e electrões de Auger permitem a identificação
dos elementos presentes na amostra.

No primeiro caso, a energia fornecida na interacção dos electrões do feixe com os electrões da
amostra pode ser suficiente para que estes se libertem da amostra. Dada a reduzida energia des-
tes electrões secundários, estes só são detectados se forem emitidos da superfície da amostra.
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

158 Assim, a detecção do número destes electrões permite obter uma imagem com contraste to-
pográfico, pois quanto maior é a variação topográfica maior será a área de emissão. Esta ima-
gem é obtida ponto a ponto, fazendo varrer o feixe ao longo da superfície da amostra, sendo
em cada ponto obtido um sinal com origem nos electrões secundários. Se enviarmos esse sinal
para um monitor com um varrimento sincronizado com o varrimento do feixe, obtemos uma
imagem interpretável pelo olho humano.
O sinal dos electrões secundários é obtido através de cintilador ligado a um fotomultiplicador,
numa montagem designada por Everhart-Thornley.

Figura 3.15: detector Everhart-Thornley. [5]

Os electrões originários de dispersão elástica com


os átomos da amostra são designados electrões re-
trodifundidos. Como a probabilidade de rectro-
difusão depende do número atómico do
elemento (varia com Z2), a intensidade deste
sinal apresenta contraste na composição química.
Os electrões retrodifundidos são detectados com
recurso a um detector semicondutor.

Figura 3.16: interior da câmara de um MEV onde é


visível ao centro o detector de electrões secundários e
fixo na haste visível à direita o detector de electrões re-
trodifundidos originários na dispersão elástica. (Foto
do autor)
João Freire Fonseca

Tendo em conta o processo de formação da imagem, o feixe deverá ser o mais fino possível 159
sendo a ampliação num MEV não mais que a razão entre a área varrida pelo feixe e a dimen-
são do monitor. A dimensão do feixe na amostra é habitualmente designada por spot size.

3.2.1 Introdução

Conforme mencionado no capítulo anterior, num MEV a imagem é obtida com recurso ao
produto da interacção dos electrões com a amostra. Essa interacção pode ter uma natureza
elástica, dando origem a electrões retrodispersados, ou uma natureza inelástica, dando origem
a vários sinais tais como os electrões secundários mencionados anteriormente. Sendo partícu-
las carregadas, há que ter em conta igualmente a emissão de radiação de travagem, a qual irá
aparecer essencialmente como radiação de fundo embora possa dar também um pequeno con-
tributo para a emissão de electrões secundários.
Os electrões num átomo ocupam estados de energia estacionários associados a funções de
onda (f.d.o.) que definem a região do espaço onde é mais provável encontrar o electrão. Como
as f.d.o. têm raios médios que aumentam quando o electrão ocupa níveis de energia superior,
é frequente uma representação do átomo por um modelo em que os níveis de energia são re-
presentados por órbitas
de raio crescente. Esta
é uma forma simples
de visualizar os níveis
de energia e representar
os processos de emissão
e absorção dos electrões
ligados, que correspon-
dem às transições entre
Figura 3.17: volume de interacção. [5]
esses níveis.

Entre as transições electrónicas possíveis, têm particular importância as que ocorrem nas ca-
madas mais internas, K, L e M, pois estas são características de cada elemento e têm uma ener-
gia dentro da zona do espectro correspondente à radiação X.
Conforme descrito por Bethe (1930), os electrões do feixe incidente vão perdendo energia
por dispersão inelástica à medida que vão penetrando na amostra. A zona de penetração dos

2. XEDS – da sigla inglesa “X-ray Energy Dispersive Spectroscopy”


3. XWDS – da sigla inglesa “X-ray Wavelenght Dispersive Spectroscopy”
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

160 electrões designa-se por volume de interacção e é habitualmente representada por uma pêra,
sendo função da energia do feixe e da composição da amostra.
Na realidade o volume de interacção corresponde ao volume que engloba as trajectórias dos
electrões, ilustradas na figura pelos resultados de simulações pelo método Monte Carlo.

Figura 3.18: simulações pelo método de Monte Carlo. [5]

Uma das formas pela qual os electrões do feixe perdem energia é pela colisão com electrões das
camadas internas dos átomos presentes na amostra. É possível que na sequência destas colisões
o electrão atómico adquira energia suficiente para se libertar, deixando o átomo num estado
excitado. Quando tal ocorre, o átomo retoma o estado de equilíbrio pela transição de um elec-
trão de uma camada superior para a lacuna criada com a consequente emissão de radiação X
característica ou pela emissão de um electrão de Auger. Este segundo processo de desexcita-
ção é mais comum em materiais de baixo número atómico. Assim os Raios X detectados per-
mitem a identificação dos electrões presentes na amostra. Tal como os raios X, os electrões de
Auger também permitem a identificação dos elementos presentes podendo ser detectados com
recurso a um espectrómetro electrostático.
A identificação da radiação X detectada pode ser realizada pela medição do seu comprimento
de onda (XWDS) ou pela medição da sua energia (XEDS).
João Freire Fonseca

161

A técnica de XWDS utiliza o


efeito de difracção num cristal
para separar os comprimentos
de onda (Lei de Bragg da difrac-
ção) e, como tal, necessita de
uma montagem algo complexa e
volumosa, composta por diver-
sos cristais e um detector mon-
tados ao longo de um círculo
designado círculo de Rowland.
A medição dos comprimentos
de onda é lenta, pois é medido
um valor de cada vez mas em
compensação permite obter re-
soluções em energia na casa dos
5 eV.
Figura 3.19: montagem para XWDS. [5]

A técnica de XEDS é bastante mais simples pois apenas requer um detector de estado sólido
e um analisador multicanal para resolver a energia dos electrões. Para além desta vantagem, o
principal factor que leva a que o detector de XEDS seja quase standard nos MEV’s modernos
é a rapidez de análise. Em alguns segundos é possível obter um espectro razoável. Em geral,
há necessidade de arrefecer o detector à temperatura do azoto líquido e a resolução em ener-
gia é limitada por este facto, obtendo-se resoluções da ordem de grandeza dos 100 eV, bastante
inferiores ao XWDS. Dada a presença do detector arrefecido, é necessário existir uma janela
antes da entrada do detector para evitar fenómenos de condensação. Esta janela é habitual-
mente de berílio o que impede a detecção de elementos abaixo do boro. As janelas mais mo-
dernas, constituídas por polímeros, já permitem a detecção do boro.

4. XWDS – da sigla inglesa “X-ray Wavelenght Dispersive Spectroscopy”


5. XEDS – da sigla inglesa “X-ray Energy Dispersive Spectroscopy”
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

162 Figura 3.20: detector


XEDS. [5]

Em resumo enquanto o XWDS é volumoso, lento, caro mas têm uma excelente resolução o
que permite a detecção de baixas concentrações, o XEDS é compacto, prático, barato e dada
a sua baixa resolução necessita de maiores concentrações do elemento a detectar. Tendo em
conta a capacidade de processamento actualmente disponível, a discriminação das energias
detectadas é relativamente simples, sendo feita por programas dedicados. Esta técnica é a que
será utilizada neste trabalho.
Na análise dos espectros de XEDS, é conveniente mencionar duas fontes de confusão usuais.

Figura 3.21: comparação entre um espectro


XWDS e um espectro XEDS. Observe-se a
separação entre os picos de Mo e S. [5]
João Freire Fonseca

Uma é a presença de picos soma no espectro, com origem na detecção conjunta de dois fo- 163
tões, o que dá origem a um pico desconhecido com o dobro da energia de um pico identifi-
cado. A outra é a presença de picos-escape. Estes resultam na detecção de fotões com energia
superiores à necessária para a ionização dos átomos de silício do detector que decaem emitindo
um fotão X com 1.74 keV; se este fotão escapa do detector existirá associado ao fotão incidente
a detecção de um fotão com uma energia inferior em 1,74keV à esperada. Tanto um fenómeno
como o outro encontram-se habitualmente associados a picos com um elevado número de
contagens.
Deverá ser ainda tido em conta que os electrões emergentes da amostra podem ter energia su-
ficiente para excitar elementos presentes em materiais constituintes de elementos da câmara
como por exemplo o alumínio. Sendo estes elementos detectados, simultaneamente com os ele-
mentos da amostra, no espectro de raios X.

No capítulo 2, referente aos resíduos de disparo de armas de fogo, vimos que estes resíduos
eram depositados na zona limítrofe ao disparo após a deflagração da munição. Destes resí-
duos, com origem em qualquer um dos componentes do sistema arma + munição, apenas
aqueles com origem no primário têm interesse enquanto prova material. É, pois, importante
determinar onde vão esses resíduos depositar-se e como podem ser recolhidos.

A observação do disparo de uma arma de fogo permite visualizar a nuvem de resíduos pro-
duzida o que nos dá uma primeira indicação da zona de propagação dos resíduos.

Figuras 4.1 e 4.2: nuvens de resíduos produzidos por uma pistola calibre .22Lr e por um revolver cali-
bre .38 Special. [4]
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

164

Figuras 4.3 e 4.4: nuvens de resíduos produzidos por uma espingarda calibre 12 e por uma carabina ca-
libre .223 Remington. [4]

Os resíduos com origem na carga propulsora são os mais leves e, por isso, os que constituem
o maior volume das nuvens visíveis, mas não são os de maior interesse para a identificação de
um disparo de arma de fogo. É necessário determinar as zonas de deposição dos resíduos com
maior valor probatório, ou seja os resíduos mais pesados que têm origem no primário.
Para estimar a região de interesse, consideramos as aproximações seguintes para os resíduos li-
bertados pelas folgas da arma e na sua abertura:
1. São constituídos por partículas esféricas, com um diâmetro de 1μm e constituídas por
partes iguais de chumbo, antimónio e bário;
2. São projectados isotropicamente, e o alcance máximo corresponde a um ângulo de 45º
com o plano horizontal que passa pelo cano da arma;
3. Considera-se a força de impulsão do ar, mas o atrito do ar é desprezado, porque as ve-
locidades são baixas e porque se pretende determinar o alcance máximo; o efeito das for-
ças de atrito será sempre o de reduzir o valor calculado na sua ausência;
4. Existem duas velocidades iniciais de projecção: uma com origem no movimento da
arma (partículas projectadas na abertura) e outra para as perdas pelas folgas;

Sendo as partículas esféricas, com um diâmetro de 1μm e constituídas por 1/3 de chumbo, 1/3
de antimónio e 1/3 de bário, a sua massa pode ser facilmente calculada por:

Durante o movimento, as partículas estão sujeitas à força da gravidade e à força de impulsão,


na vertical. A resultante destas forças permite obter a aceleração vertical:
João Freire Fonseca

Quanto às velocidades iniciais, o limite inferior será dado pelo movimento dos elementos da 165
arma. Considerando uma pistola, o elemento que se move será a corrediça cuja velocidade
pode ser obtida tendo em conta que a cada disparo a corrediça percorre uma distância cor-
respondente a duas vezes o comprimento total da munição (cápsula + projéctil) pois primeiro
recua para extrair a cápsula deflagrada e depois retoma a posição inserindo uma nova muni-
ção na câmara. Considerando uma cadência de tiro de 1000 tiros por minuto e uma muni-
ção calibre 9x19 mm com um comprimento total de 30 mm, obtemos uma velocidade
aproximada de funcionamento de 1ms-1.

O limite superior corresponde às perdas pelas folgas. Segundo a especificação NATO M882,
um projéctil 9x19mm tem uma velocidade de 380ms-1, tendo em conta que as armas são fa-
bricadas para que não ocorra qualquer perda, podemos considerar que os resíduos com origem
nas folgas são projectados com uma velocidade inicial correspondente a 1% da velocidade do
projéctil ou seja 3,8ms-1.
As equações paramétricas do movimento serão então:

Considerando que os resíduos são depositados ao mesmo nível da arma (nas mão(s) do sujeito
autor do disparo, no seu vestuário ou elemento vizinho), obtém-se para a velocidade mais
baixa um alcance de 0,1 m e para a velocidade mais elevada um alcance de 1,5 m.
Podemos assim assumir que os resíduos de disparo de uma arma de fogo com origem no pri-
mário se irão depositar numa vizinhança até cerca de 1,5 m, definindo este valor o raio má-
ximo da área de recolha, com uma maior concentração até um raio de 0,1 m. As recolhas a
efectuar deverão incidir nas mãos, na face e no vestuário de quem seja suspeito de estar en-
volvido num incidente envolvendo o disparo de uma arma de fogo.
No caso de suspeitos vivos, a actividade humana normal, durante o hiato temporal que me-
deia entre a ocorrência e a recolha, pode perturbar o padrão de deposição das partículas de-
positadas à superfície, já que qualquer contacto com esta irá causar a sua transferência. Assim,
existem dois aspectos a realçar: primeiro, nada se pode inferir da distribuição de partículas
observada em cada uma das recolhas efectuadas; em segundo lugar, para além das zonas do ves-
tuário expostas é também possível efectuar recolhas de recurso nos bolsos e outras zonas aces-
síveis do vestuário, pois é perfeitamente razoável assumir que o sujeito poderá ter transferido
partículas para essas regiões.
No caso de suspeitos mortos, como, por exemplo, em suicídios, o padrão de deposição não é
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

166 perturbado. Assim devem ser feitas recolhas que permitam diferenciar se a deposição detectada
teve origem numa acção por parte do sujeito ou por transferência secundária da arma para o
sujeito. Neste tipo de cenários, é redundante efectuar recolhas no vestuário.

Existem dois factores importantes que determinam a forma como a fixação destas partículas
pode ocorrer nas zonas de deposição: a dimensão das partículas e a sua temperatura quanto
atingem a superfície.
Tendo em conta a dimensão reduzida das partículas, estas podem ficar aprisionadas nos in-
terstícios da pele e do vestuário, processo que se designará por fixação mecânica.
Quanto ao efeito da temperatura, é importante relembrar que na deflagração se geram tem-
peraturas da ordem dos 2000 K. No percurso até à superfície, a partícula arrefece essencial-
mente por radiação, segundo a lei de Stefan, com uma taxa aproximada que é directamente
proporcional à diferença entre as quartas potências da temperatura absoluta da partícula e da
temperatura externa. A equação que determina a evolução da temperatura da partícula pode
escrever-se como:

Onde Cv é a capacidade calorífica da partícula, A é a superfície da partícula esférica, ε é a


emissividade da superfície da partícula e σ é a constante de Stefan-Boltzmann. Text representa,
a temperatura exterior.
Resolvendo para a temperatura da partícula obtemos:

Onde para além dos parâmetros já referidos, representa a capacidade calorífica volúmica
média das capacidades caloríficas do Ba, Sb e Pb (considerados constituintes em volumes
iguais) e V e r são respectivamente o volume e o raio da particular esférica.
A integração desta equação permitiu avaliar o arrefecimento das partículas em função do
tempo, curvas que estão ilustradas no gráfico seguinte onde, Text a temperatura exterior, foi
considerada igual a 290 K.
João Freire Fonseca

Figura 4.5: Evolu- 167


ção temporal da
emperatura de par-
tículas Ba/Sb/Pb
sujeitas a perdas de
energia por radia-
ção num ambiente
a 290 K, conside-
rando uma tempe-
ratura inicial de
2000 K.

Como a partícula demora cerca de 0,5 s até atingir a superfície, a sua temperatura pode ser ele-
vada na deposição, dependendo do tamanho da partícula e da emissividade da sua superfície.
No gráfico seguinte representa-se a temperatura das partículas em função da sua dimensão
para uma temperatura inicial de 2000 K e intervalos de tempo entre 0,3 s e 0,6 s.

Figura 4.6: tempe-


ratura de uma par-
tícula sujeita a
perdas de energia
por radiação num
ambiente a 290 K,
considerando uma
temperatura inicial
de 2000 K.

Considerando os resultados obtidos, caso a deposição ocorra sobre superfícies com uma baixa
temperatura de fusão pode ocorrer fusão parcial com a superfície, ficando a partícula encas-
trada, efeito que se designará fixação termodinâmica.

Tendo em conta que a técnica adequada para a análise deste tipo de resíduos é a Espectrosco-
pia de Dispersão de Energia de Raios-X acoplada a um Microscópio Electrónico de Varri-
mento, os suportes para quais se deverão efectuar as recolhas deverão ser os adequados a esta
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

168 técnica. Assim, o suporte adequado é constituído por um stub em alumínio sobre o qual está
aplicada uma fita adesiva de carbono com dupla face. Este conjunto está montado num su-
porte de plástico que possui uma tampa no mesmo material e é habitualmente designado por:
“kit de recolha de resíduos de disparo de armas de fogo”. A sua utilização é extremamente
simples, segurando pelo suporte de plástico, retira-se a tampa e depois a película protectora
após o que basta percorrer a zona a recolher pressionando a fita sobre a superfície em toques
sucessivos. Segundo a literatura, a adesividade da fita mantém-se ao longo de 50 toques. Após
estes 50 toques é só fechar o suporte e etiquetar com os elementos identificativos pertinentes
(NUIPC6, nome do sujeito e zona de recolha).
Figura 4.7: kit de recolha de resíduos
de disparo. (Foto do autor)

Antes de especificarmos quais as re-


colhas a efectuar, será conveniente
avaliar as áreas de recolha em causa.
Os discos de fita adesiva de car-
bono têm um diâmetro de 12,5
mm, a que corresponde uma área de aproximadamente 123 mm2. Em primeira aproximação,
podemos considerar que a superfície da mão (dorso e palma) é constituída por dois rectângulos
com 150x90 mm2, a face é uma circunferência com uma área de πx1002 mm2, a zona das
mangas correspondente aos antebraços é um rectângulo com uma área de 250x50 mm2 e a
zona anterior do vestuário é outro rectângulo com uma área de 500x400 mm2. A área dos
bolsos pode ser considerada igual à área das mãos. Se usarmos apenas um kit por recolha e por
zona, podemos calcular qual a área coberta por este em 50 toques.

eficiência de recolha com um kit em termos de área coberta.

Zona de recolha Área (mm2) Eficiência cobertura ((50x123)/área)x100%


Mão dorso 13500 45,6%
Mão palma 13500 45,6%
Face 31416 19,6%
Manga (zona antebraço) 12500 49,2%
Zona anterior do vestuário 200000 3,1%
Bolso 13500 45,6%

6. NUIPC: Número Único Identificação Processo Crime.


João Freire Fonseca

Os bolsos, apesar de não serem uma zona exposta, são incluídos nas zonas a recolher pois 169
podem constituir uma zona de deposição secundária por transferência das mãos. Salienta-se,
no entanto, que a recolha nos bolsos deve ser considerada uma recolha de recurso, dado estes
poderem constituir depósito para resíduos oriundos de ocorrências anteriores.
Existem mais dois parâmetros a ter em linha de conta para definirmos quais as recolhas a fazer.
O primeiro é logístico e diz respeito à capacidade da platina do microscópio. O segundo é a
distribuição das partículas que determina a probabilidade de serem recolhidas.
As platinas standard do Microscópio Electrónico de Varrimento têm oito posições disponíveis.
Destas apenas estão livres cinco pois, quando procedemos à análise de resíduos de disparo é
necessário um padrão de calibração da imagem (brilho e contraste), uma amostra virgem e uma
amostra padrão para validação da análise. A amostra padrão é habitualmente constituída por
um filme que simula um número definido de partículas de várias dimensões. Tendo em conta
que em termos práticos é útil preencher completamente a platina a cada análise e que, por prin-
cípio, não se deve juntar recolhas de vários sujeitos, concluímos que o número de recolhas a
efectuar deve ser múltiplo de cinco.
Considerando que temos uma população de N elementos dos quais m têm o atributo pre-
tendido e sobre a qual são efectuadas n extracções, podemos calcular a probabilidade de ob-
termos x elementos com o atributo pretendido recorrendo à formula que define a distribuição
hipergeométrica:

A definição desta probabilidade obriga a dividir a área da amostra (definida na Tabela 4.1) em
células que neste caso terão a dimensão da área do kit de recolha. O resultado desta divisão dá-
nos o valor de N. A eficácia da fita adesiva (50 toques) define o valor de n e, no caso em apreço,
considera-se que pretendemos encontrar pelo menos x=1 partículas de um universo de m=5
partículas existentes.
O número de recolhas a efectuar é uma opção estratégica; no entanto, tendo em conta todos
os parâmetros descritos, apresentam-se os valores para a eficiência ponderada, considerando
as recolhas definidas nas Tabela 4.2 e 4.3.
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

170 recolhas a efectuar num sujeito vivo (1 rec p/ zona)

Zona de recolha Eficiência ponderada


Recolhas principais Mão drt (dorso e palma) 31,9%
Mão esq (dorso e palma) 31,9%
Face 66,7%
Mangas (drt+esq) 76,1%
Zona anterior do vestuário 14,5%
Recolha de recurso Bolsos (drt+esq) 31,9%

recolhas a efectuar num sujeito morto (1 rec p/ zona)

Zona de recolha Eficiência ponderada


Mão drt dorso 95,5%
Mão drt palma 95,5%
Mão esq dorso 95,5%
Mão esq palma 95,5%

Até agora, apenas tivemos em conta as zonas de deposição no sujeito. No entanto, existem ou-
tras duas superfícies onde podemos encontrar igualmente resíduos: na arma e na cápsula de-
flagrada.

Uma arma, devido à sua configuração e às reacções químicas que ocorrem no seu interior, é
um instrumento difícil de limpar. Para eliminar os resíduos presentes é necessário desmontar
a arma, esfregar todos os componentes com escovas e escovilhões e lavar com solventes ade-
quados. Pela prática, é possível afirmar que este tipo de limpeza é rara, sendo possível detec-
tar resíduos de disparos efectuados em alturas diferentes e ao longo de um substancial período
de tempo. Assim, podemos dizer que as armas têm memória quanto aos disparos com elas
efectuados e, como tal, não deverão ser objecto de recolha excepto em casos excepcionais.
As cápsulas deflagradas têm outro valor, pois é possível efectuar recolhas no interior das mes-
mas (basta bater com a boca da cápsula sobre um stub). Sendo perfeitamente razoável assu-
mir que no interior das cápsulas estão apenas os resíduos da sua deflagração, é possível
João Freire Fonseca

estabelecer um nexo de causalidade entre os resíduos detectados num sujeito ou superfície e 171
uma ocorrência onde tenha sido encontrado um elemento municial deflagrado.
Embora exista um número reduzido de tipos de primário, sempre que sejam detectados resí-
duos em recolhas efectuadas deverá ser efectuada uma recolha extra nos elementos municiais
deflagrados para comparação. O resultado pode permitir detectar, caso existam, diferenças sig-
nificativas entre os resíduos detectados no sujeito e os presentes nos elementos municiais,
sendo que por diferenças significativas se entende uma diferença entre os componentes prin-
cipais como, por exemplo, a presença de estanho em vez de antimónio.

Uma das abordagens clássicas neste tipo de estudos passa por uma recolha de munições por
fabricantes e calibres, porém os dados obtidos da revisão da literatura e a experiência adqui-
rida indicam que esse tipo de amostragem pode ser redundante (dada a subcontratação exis-
tente entre as diversas marcas) e pouco exemplificativa (dada a partilha de primários entre os
diversos calibres num determinado período e zona). Assim sendo, para a realização deste ar-
tigo, optou-se por tentar obter amostras exemplificativas dos tipos de primários conhecidos:
• Com mercúrio e corrosivos;
• Com mercúrio e não corrosivos;
• Sem mercúrio e corrosivos;
• Sem mercúrio e não corrosivos (tipo Sinoxyd);
• Sem chumbo (tipo Sintox);
• Mistura.

: Lista de munições analisadas

Amostra Fabricante Calibre Marcações Projéctil

1 S&B - Sellier & 9x19mm Ogival encamisado


Bellot

2 S&B - Sellier & 9x19mm Ogival encamisado


Bellot

3 S&B - Sellier & 9x19mm Ponta furada encamisado


Bellot
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

172
4 9x19mm Ogival encamisado

5 7,65mm Ogival encamisado


Browning

6 9x19mm Ogival encamisado

7 .22Lr Ponta furada s\ camisa

8 9x19mm Ponta furada encamisado

9 9x19mm Ogival encamisado

10 9x19mm Ogival encamisado

11 .38ACP Ogival encamisado

12 7,65mm Ogival encamisado


Browning

13 GFL - Giulio .357 Truncado semi-encamisado


Fiocchi, Lecco Magnum

14 Winchester .357 Truncado revestido


Magnum

15 FNM - Fabrica 7,62x51mm Ogival encamisado


Nacional de
Munições

16 FNM - Fabrica 5,56x45mm Ogival encamisado


Nacional de
Munições
João Freire Fonseca

FNM - Fábrica 173


Nacional de
17 7,62x39mm Ogival encamisado
Munições

18 711 - Podolsk, 7,62x39mm Ogival encamisado


Russia

539 - Tula
19 Cartridge Works, 7,62x39mm Ogival encamisado
Russia

20 IPM - Indústria 12 Bagos de chumbo


Portuguesa de
Munições

21 S\ marca 12 Bagos de chumbo

22 Remington 12 Bagos de chumbo

23 Fiocchi 12 Bagos de borracha

24 Eley 12 Bagos de borracha

Nota: não foi possível deflagrar a munição n.º 20 provavelmente devido à sua idade.

Para obter os resíduos, o procedimento habitual segue os seguintes passos:


➢ Seleccionar uma arma de calibre adequado;
➢ Limpar rigorosamente a arma desmontando-a e lavando com solventes;
➢ Deflagrar a munição em causa em condições de segurança (carreira de tiro ou caixão ba-
lístico);
➢ Bater ou raspar a cápsula deflagrada sobre o kit de recolha.

Este procedimento é moroso e requer um conjunto substancial de meios além de ser suscep-
tível a transferências secundárias da arma ou do local onde é efectuado o disparo.
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

174 Conforme vimos anteriormente as partículas características de resíduos de disparo de armas


de fogo são aquelas que têm origem no primário contido na escorva, o que significa que para
a análise em questão não tem interesse a carga propulsora ou o projéctil. Assim a técnica tra-
dicional é desnecessariamente complicada pois utiliza a usar a arma como suporte da muni-
ção e mecanismo de percussão e o local como forma segura de parar o projéctil.
Alternativamente utilizou-se neste trabalho o procedimento seguinte:
➢ Desmontar a munição com recurso a um martelo cinético;
➢ Fixar a cápsula com a escorva intacta num torno de precisão;
➢ Colocar um kit de recolha sobre a boca da cápsula, protegendo o suporte e o torno com
um disco de papel de filtro;
➢ Percutir a munição com um furador e um pequeno martelo.

Figuras 4.8 e 4.9: martelo cinético e montagem da munição. (Fotos do autor)

Figura 4.10: montagem usada para a recolha de re-


síduos. (Foto do autor)

Esta técnica permite economia de meios,


enorme facilidade de utilização, melhor amos-
tragem do produto da deflagração do primá-
rio e, principalmente, a eliminação dos
factores susceptíveis de causarem uma trans-
ferência secundária.
A técnica tradicional de recolha apenas permite obter uma pequena fracção das partículas pois
a esmagadora maioria é perdida aquando da deflagração. Quando observamos o kit no SEM,
vemos apenas algumas partículas por campo. A técnica empregue neste trabalho elimina estas
perdas e permite obter uma muito melhor amostragem pois fica depositado sobre a fita de
carbono um filme de resíduos.
João Freire Fonseca

Figura 4.11: filme de 175


resíduos obtidos com a
técnica aplicada.

As amostras foram analisadas segundo os seguintes parâmetros:


➢ Tensão de aceleração: 25kV;
➢ Corrente de filamento: 2,2A (1º pico);
➢ Spot Size: 558;
➢ Corrente de feixe: 100μA;
➢ Corrente de sonda: 2nA;
➢ Livetime: 30s;
➢ Tempo de processamento: 4;
➢ Gama de energias: 0-20keV;
➢ Número de canais: 2000.
Por cada amostra foram obtidos três espectros gerais a uma ampliação de 350x e posterior-
mente foram seleccionadas três partículas e obtidos um espectro de cada a 700X. No total
foram obtidos 138 espectros.

Seguem-se algumas das imagens e espectros obtidos por cada munição sendo os resultados
obtidos sistematizados na tabela 4.5.
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

176 resumo dos resultados experimentais obtidos


Amostra Fabricante Elementos detectados
1 S&B - Sellier & Bellot Fe, Al, Si, S, K
2 S&B - Sellier & Bellot Pb, Ba
3 S&B - Sellier & Bellot Al, Pb, Sb, Ba
4 CBC – Companhia Brasileira de Cartuchos Al, Si, S, K
5 GFL – Giulio Fiocchi, Lecco S, Sb, Ba
6 Barnaul Al, Pb, Zr, S, Sb, Sn, Ba
7 Federal Al, Pb, S, Sb, Ba
8 S&B - Sellier & Bellot Pb, S, Sb, Sn, Ba
9 EDP – Olympic Ammunition Si, Pb, S, Sb, Ca, Ba
10 FNM – Fabrica Nacional de Munições Pb, S, Sb, Ba
11 RP – Remington Peters Al, Pb, S, Sb, Ba
12 HP – Hirtenberg Patronen Al, Pb, S, Sb, Ba
13 GFL – Giulio Fiocchi, Lecco Pb, S, Sb, Ba
14 Winchester Al, Pb, S, Sb, Ba
15 FNM – Fábrica Nacional de Munições Al, Si, Pb, Sn, Ca, Ba, Cu
16 FNM – Fábrica Nacional de Munições Si, Pb, S, Sb, Ba
17 FNM – Fábrica Nacional de Munições Si, Pb, Sn, Ca, Ba
18 711 – Podolsk, Russia Al, S, Cl, K, Sb, Ca
19 539 – Tula Cartridge Works, Russia Hg, S, Cl, K, Sb
20 IPM – Indústria Portuguesa de Munições Não foi possível deflagrar esta escorva.

21 S\ marca Al, Pb, S, Sb, Ba


22 Remington Al, Pb, S, Sb, Ba
23 Fiocchi Al, Pb, S, Sb, Ba
24 Eley Al, Pb, S, Sb, Ba, Fe

Amostra 2.
João Freire Fonseca

Amostra 3. 177

Amostra 4.

Amostra 19.
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

178 5  CONCLUSÕES

Conforme descrito na introdução, este artigo pretendeu dar uma contribuição na área da iden-
tificação de indivíduos ou objectos próximos de um disparo de arma de fogo, com base nos
vestígios físicos recolhidos, e com o objectivo de apoiar a investigação criminal de actos pra-
ticados com esse tipo de armas.
Existem diversas abordagens a um trabalho deste tipo. É possível fazer uma recolha sistemá-
tica de amostras culminada em centenas de espectros. É plausível analisar matematicamente
a técnica, desde a emissão do electrão à detecção da radiação X, passando pela interacção do
feixe com a amostra.
Sendo todas estas abordagens pertinentes, o trabalho aqui apresentado foi norteado pelo prag-
matismo da realidade, tendo sido elaborado em ambiente de trabalho real. Assim, optou-se por
uma abordagem mais prática ou seja, pretendeu-se obter alguns dados para o uso de quem no
dia-a-dia lida com a necessidade de analisar e interpretar resíduos de disparo de armas de fogo.
As certezas científicas aliadas ao pragmatismo necessário, para a produção de prova material
no âmbito da investigação criminal, foram a linha de rumo do presente trabalho. Assim, com
base na teoria, obtiveram-se valores que permitem quantificar áreas de deposição dos resíduos,
sendo possível afirmar que resíduos de disparo de uma arma de fogo com origem no primá-
rio se irão depositar numa vizinhança até cerca de 1,5 m, definindo este valor o raio máximo
da área de recolha, com uma maior concentração até um raio de 0,1 m. Partindo destes valo-
res, será simples concluir que as recolhas deste tipo de resíduos deverão incidir nas mãos, na
face e no vestuário de quem seja suspeito de estar correlacionado com um incidente envolvendo
o disparo de uma arma de fogo.
Quanto à forma de deposição foi possível determinar que as partículas originárias neste tipo
de resíduos se fixam de duas formas: mecânica e termodinâmica. Sendo a fixação mecânica
uma mera consequência da dimensão das partículas, obtiveram-se valores para a temperatura
das partículas à chegada à superfície, sendo possível concluir que, caso a deposição ocorra
sobre superfícies com uma baixa temperatura de fusão, pode ocorrer fusão parcial com a su-
perfície, ficando a partícula encastrada.
Tendo em conta as zonas e formas de recolha, calculou-se a área que efectivamente pode ser
coberta recorrendo aos kits de recolha com discos de fita adesiva de carbono de 12,5 mm. Este
cálculo permite concluir que apenas é possível cobrir 45,6 % de cada lado das mãos, 19,6 %
da face, 49,2% de cada manga e 3,1% da zona anterior do vestuário. Com base nestes valo-
res, na capacidade da platina do Microscópio e estabelecendo como 5 o número mínimo de
partículas a detectar, foram definidas seis áreas de recolha [mão direita, mão esquerda, face,
mangas, zona anterior do vestuário e bolsos (recolha de recurso)], calculando-se a Eficiência
Ponderada para a recolha em cada uma destas áreas. Conclui-se que, apesar da análise das
João Freire Fonseca

recolhas nas mãos e face ser fundamental, é a recolha das mangas que apresenta uma maior Efi- 179
ciência Ponderada (76,1% contra 31,9% das mãos). Estes cálculos permitem também concluir
ser fundamental dividir a recolha nas mãos em quatro recolhas distintas (dorso e palma de cada
mão) se a ocorrência em causa for um suicídio com arma de fogo.
Em termos analíticos, dos 6 grupos de primários identificados na revisão da teoria apenas se
obtiveram amostras representativas de 5, pois não foi possível deflagrar a amostra que, em
princípio, seria representativa de um primário com mercúrio e não corrosivo (Amostra 20).
Os resultados obtidos permitiram agrupar as amostras obtidas e identificar subgrupos em cada
um dos tipos de primários.

munições analisadas em função de tipo de primário.

Tipo de primário Subgrupo Amostras


1 Com mercúrio e corrosivos - 19
2 Com mercúrio e não corrosivas - -
3 Sem mercúrio e corrosivos - 18
4 Sem mercúrio e não corrosivos (tipo Sinoxyd) 1 7, 10, 11, 12, 13, 14, 21, 22, 23
2 3
3 2
4 15, 17
5 16
6 24
7 9
5 Sem chumbo (tipo Sintox) 1 1
2 4
3 5
6 Mistura 1 6
2 8

Os resultados obtidos, da análise das 24 amostras de munições permitem concluir que existe
de facto um grupo restrito de composições de primários e que, apesar do seu elevado valor pro-
batório genérico, as variações de composições detectadas permitem individualizar ocorrências
em casos específicos.
Análise de Resíduos de Disparo de Armas de Fogo por MEV / EDERX

180

[1] - www.glockmeister.com;
[2] - Handbook of Firearms and Ballistics;
[3] - Chemical Analysis of Firearms, Ammunition, and Gunshot Residue;
[4] - Current Methods in Forensic Gunshot Residue Analysis;
[5] - Physical Principals of Electron Microscopy, Ray F. Egerton, Springer;
[6] - Electron Microscopy and Analysis;
[7] - Scanning Electron Microscopy and X-Ray Microanalysis;
[8] - ASTM E 1588-07, Standard Guide for Gunshot Residues Analysis by Scanning Electron
Microscopy / Energy Dispersive X-ray Spectrometry.
181
182
Análise das Marcas de
Impactos e de Perfurações
em Vidros
183
Vitor Teixeira

É Inspector da PJ e instrutor de armamento e tiro. Em 2005 iniciou colaboração regular com estabelecimentos de
ensino superior, estando ligado a projectos científicos. É frequentemente nomeado perito forense.

Na investigação criminal a análise das marcas dos impactos e/ou de perfurações nos vidros
planos é importante na medida em que poderá contribuir para a reconstituição cronológica
de acontecimentos e para a correlação entre os danos nos vidros e o cenário do crime. Igual-
mente importante, sob o ponto de vista táctico-policial, é a noção da resistência dos distintos
tipos de vidros e da forma como se despedaçam. Este artigo aborda estas questões, sob ambas
as perspectivas e incide sobre os três tipos de vidro que habitualmente se encontram nas es-
truturas acima referidas: o vidro temperado, o vidro laminado e o vidro comum.
Ao longo do artigo tenta-se alertar para concepções erradas quanto à interpretação das mar-
cas de impactos nos vidros, analisando, entre outros, o mito de que as estrias concêntricas e
radiais são indicadores da acção de projécteis provenientes de armas de fogo com canos de
alma estriada.A

A análise das marcas de impactos e/ou de perfurações nos vidros planos, particularmente na-
queles usados em janelas, montras, ou portas, tem interesse para a investigação criminal na me-
dida em que poderá contribuir para a reconstituição cronológica de acontecimentos e para a
correlação entre os danos que esses vidros apresentam e o cenário do crime.
Numa outra vertente, desta feita sob o ponto de vista táctico-policial, é importante ter a cor-
recta noção da resistência dos distintos tipos de vidros e do modo como se despedaçam. Porém,
está demonstrado que a nossa percepção tende a subavaliar a resistência do vidro. Decerto essa
concepção errada terá origem nos efeitos especiais que se repetem nos muito filmes que todos
vemos e que, dessa forma, sedimentam imagens fantasiosas.
Esta análise, sob ambas as perspectivas, irá incidir sob os três tipos de vidro que habitualmente
se encontram nas estruturas acima referidas; o vidro temperado, o vidro laminado e o vidro comum.

A. Este artigo corresponde à adaptação de extractos da obra do mesmo autor, denominada "Armas e Munições, ca-
racterização técnica e legal", que se encontra em fase de pré-publicação.
Análise das Marcas de Impactos e de Perfurações em Vidros

184

Os vidros temperados (também chamados de vidros de segurança) são dos mais comuns na
nossa sociedade. Revestem as janelas laterais e traseiras das viaturas automóveis e são também
usados em portas, montras, paredes de vidro (revestimentos de banheiros) e em utensílios de
cozinha (pyrex). Esta profusão de utilizações tem um denominador comum; a segurança. De
facto, o vidro temperado caracteriza-se por partir estilhaçando em pequenas partículas, evi-
tando assim a formação de grandes planos corto-perfurantes passíveis de causar ferimentos (as
“lâminas de vidro”, comuns nos vidros banais).
A técnica de fabrico utilizada1 aumenta-lhe a resistência entre 4 a 5 vezes em relação ao vidro
comum e confere-lhe uma propriedade especial: quando ultrapassado o limite de ruptura, a
força destrutiva é dissipada por todo o vidro, originando a sua desagregação em pequenos pe-
daços. Como tal, as linhas de tensão e de fractura abarcam toda a superfície e entrecruzam-
se múltiplas vezes, delineando pequenas parcelas de material. Apesar dessa destruição
abrangente, o objecto nem sempre se desagrega, sendo possível que mantenha, precariamente,
a forma que tinha antes da ruptura do vidro2. Em todo o caso, a estrutura perde resistência e
o vidro quebrado deixa de representar perigo, por se transformar numa imensidão de peque-
nos fragmentos.
Como facilmente se percebe, impactos neste tipo de vidro nunca deixam as características
“estrias concêntricas e radiais” que podem aparecer noutros tipos de vidros.
Quando uma superfície em vidro temperado é sujeita a uma força que ultrapassa o seu limite
de resistência – e é indiferente se isso advém da acção de projéctil ou de uma “pressão quase es-
tática" 3 – as múltiplas linhas das fracturas espalham-se por toda a sua superfície, de forma
quase igual. Logo, não é possível recorrer à análise do cruzamento dessas linhas de desconti-
nuidade para tentar determinar a cronologia de sucessivos impactos. Por vezes, a desagrega-
ção é tal que nem sequer é possível contabilizar o número de impactos que causaram a ruptura
do vidro, nem ter a noção do diâmetro ou forma do objecto que o fracturou.
Assim, sob o ponto de vista da investigação criminal, estes vidros são os que menos dados for-
necem. Não só não permitem estimar a cronologia de impactos múltiplos, como não forne-
cem dados fiáveis quanto ao tipo de acção que levou à sua destruição.

1. O vidro temperado é fabricado a partir de vidro comum, que se aquece até cerca de 600 ºC e depois arrefece brus-
camente.
2. Esta situação acontece, sobretudo, nos vidros “semi-temperados”, sendo exactamente essa a propriedade que os ca-
racteriza. Contudo, também pode ocorrer nos vidros temperados.
3. Em termos absolutos não existem pressões estáticas. Quando um corpo (neste caso o vidro) é sujeito a uma força
sob a forma de uma pressão crescente localizada, essa tem sempre um componente de movimento. Daí que não seja
correcto confundir aquilo que, na prática, se denomina de "pressão estática" com o que na realidade é, ou seja: uma
"pressão quase estática".
Vitor Teixeira

185

Para além dos vidros temperados possuírem capacidade para resistir a elevadas temperaturas e
choques térmicos, são dotados de uma resistência física e rigidez surpreendentes. Note-se que,
como acontece com qualquer tipo de vidro, essa resistência aumentará proporcionalmente à
área do objecto. Quanto maior for a superfície, mais elasticidade terá a estrutura global, logo,
melhor serão absorvidas as forças destrutivas que sobre ela são exercidas.
Como já se referiu no início, é normal ser subavaliada a resistência deste tipo de vidro. Daí re-
sultam situações constrangedoras em termos operacionais. Como, por exemplo, as tentativas
falhadas de arrombar as janelas laterais dos automóveis, aquando de intercepções/detenções.
Entre outras práticas, esta foi uma das que impulsionaram as acções de formação que o autor
tem vindo a ministrar4 sobre balística terminal e sobre abordagem policial de automóveis.
Nesse contexto, foram consumadas experiências em mais de uma centena de janelas de auto-
móveis, procurando reproduzir as acções de intercepção/abordagem em que há tentativa de ar-
rombamento das mesmas.
Importa aqui salientar que, apesar de muitos crerem que basta uma pancada com a arma num
dos cantos5 das janelas dos automóveis para as conseguir quebrar, a prática demonstrou que
esse resultado é extraordinariamente difícil de obter E mais difícil será recorrendo a pistolas
Glock, ou quaisquer outras com estrutura em polímero (pois absorvem melhor os impactos dos
choques contra os vidros).
Esta técnica tradicional foi testada incontáveis vezes e verificou-se que, mesmo recorrendo a
armas todas em aço, – como as pistolas HK-P7, a Browning GP-35, ou a Walther PP – só em
casos residuais funcionava e, mesmo assim, só excepcionalmente à primeira tentativa.
Foram também experimentados bastões extensíveis, barras de aço e talhadeiras para metal,
quase sempre sem sucesso. Situação caricata detectou-se ao ensaiar os “martelos dos autocarros”,
pois constatou-se que poucos promoveram a quebra dos vidros (por aqui se vê a falsa segurança
que representam…). Aliás, alguns desses martelos ficaram com as pontas metálicas completa-
mente rombas logo à primeira pancada, sem nunca terem conseguido partir qualquer vidro.
A solução encontrada – e recomendada a nível operacional – foi a de recorrer a ferramentas
específicas para a quebra de vidro temperado. Existem diversos tipos, nomeadamente: nava-
lhas com ponteiras especialmente destinadas a esse fim, bastões extensíveis com pontas de
na base, Pocket Rescue Tools, martelos quebra-vidros de boa qualidade e… cacos da ce-
râmica provenientes das velas de motor ou de facas com lâminas em cerâmica.
Se as “simples” janelas dos automóveis têm tanta resistência, facilmente se percebe que a resistência
dos vidros temperados usados em edifícios será exponencialmente maior. Não só por serem

4. Na Directoria do Norte da PJ e na Escola da Polícia Judiciária.


5. Porque nessa zona há menos capacidade para a elasticidade da estrutura amortecer os choques.
Análise das Marcas de Impactos e de Perfurações em Vidros

186 vidros mais espessos (mais de 1 cm), mas também porque são superfícies com áreas muito vas-
tas (o que implica maior elasticidade e melhor repartição da energia). Para mais, esses vidros
nem sempre estão firmemente seguros, dado que as portas e janelas móveis apresentam folgas e
movimentos que actuam como amortecedores dos choques. Assim sendo, é inútil recorrer à força
bruta e torna-se essencial o uso das tais ferramentas especializadas. Estas, quando empregues de
forma correcta, quebram os vidros com uma facilidade surpreendente e de forma segura.
Porém, nessas ferramentas “nem tudo que luz é ouro”. De facto, tendo o autor testado mui-
tas navalhas tácticas e “Pocket Rescue Tools de diversas marcas, constatou que alguns modelos
possuem pontas quebra-vidros que não passam de acessórios meramente cosméticos. Todavia,
nos casos dos instrumentos de boa qualidade, verificou-se que funcionaram na perfeição, con-
seguindo o fácil estilhaçamento dos vidros, mesmo só com um ligeiro impacto na zona cen-
tral da estrutura (portanto onde há maior elasticidade e resistência). Contudo, até nessas
ferramentas de melhor qualidade, as ponteiras têm que ser afiadas ao fim de algum uso, pois
começa a ser necessária cada vez mais força para conseguir partir os vidros. Por aqui se percebe
o grau de dureza dos vidros temperados.
Abrindo aqui um parêntesis, pois o artigo não pretende dissecar as técnicas de abordagem po-
licial a viaturas, convém alertar para o facto de que a quebra das janelas de vidro temperado
causa uma multiplicidade de pequenos cortes na mão de quem manuseia a ferramenta de ar-
rombamento. Para precaver esses efeitos secundários torna-se necessário usar luvas anti corte
e recorrer a boas ferramentas, sejam elas martelos quebra-vidros, navalhas tácticas ou Pocket
Rescue Tools. Quanto melhor for a qualidade desses instrumentos, menos força será necessária
para quebrar os vidros e menos tendência haverá para que a mão e braço do operador atra-
vessem a superfície estilhaçada.

Este tipo de vidro é formado por, pelo menos, três componentes: duas faces de vidro e uma pe-
lícula em material elástico no seu interior. Há vidros laminados constituídos por diversas ca-
madas sucessivas, o que acontece, entre outros, com os chamados “vidros à prova-de-bala”. Por
norma, o vidro laminado é fabricado com vidro comum, mas também pode ser composto por
uma ou mais faces de vidro temperado, nomeadamente quando se pretende obter uma resis-
tência extrema. Estas combinações, embora possíveis, são extraordinariamente raras, pelo que
a seguir se abordará apenas o caso dos vidros laminados constituídos por vidro não temperado.
A película6 polimérica é o elemento principal do conjunto. Não só consolida a junção das faces
de vidro que lhe estão adjacentes, tornando-as num único elemento, como possui a capacidade
para se manter “colada” aos vidros mesmo quando estes quebram. Para aumentar a resistência
estrutural, a película possui elevada resistência à tracção e muita elasticidade. Daí que, em
Vitor Teixeira

termos práticos, para conseguir transpor uma estrutura deste tipo torna-se imperioso quebrar 187
ambas as faces de vidro e (literalmente) cortar a película polimérica que está no seu meio.
A finalidade deste tipo de vidro é, também, a de impedir que fragmentos cortantes causem
danos secundários. Exemplos mais comuns são os dos vidros usados nos pára-brisas dos au-
tomóveis7 e os usados em montras, portas e janelas de edifícios, sempre que se quer obter um
certo nível de protecção contra intrusão, daí que a nível comercial seja também conhecido
por "vidro anti-vandalismo".
Sob o ponto de vista da investigação criminal, a análise das marcas neste tipo de vidro é, grosso
modo, idêntica à que se efectua no vidro comum. De facto, na maior parte dos casos, é pos-
sível interpretar a forma e a distribuição das linhas de fractura, não obstante estas não sejam
tão manifestas quanto nos vidros comuns.
Se essas fracturas forem provenientes de uma força localizada sob um pequeno ponto, pode-
rão originar linhas concêntricas e radiais. A propósito destas, importa esclarecer que, contra-
riamente à crença generalizada, as estrias concêntricas e radiais não são, necessariamente, prova
de impactos por projécteis de armas de fogo.
Esta crença, de que existe uma relação directa entre estas marcas e a acção de projécteis de
armas de fogo, está de tal maneira sedimentada que consubstanciou uma das respostas-padrão
do recente teste escrito para o concurso de Inspectores-Chefe da Polícia Judiciária. Ditava essa
resposta, que, de resto, espelha perfeitamente a tese comum:
“As linhas de fractura (também designadas estrias) concêntricas e radiais são vestígios presentes nos
vidros quando atravessados por projéctil de arma de fogo.
As linhas concêntricas resultam do arrastamento do material na superfície vidrada devido ao mo-
vimento de rotação do projéctil, em torno do seu eixo longitudinal, na acção perfurante do mesmo
na superfície do vidro e observam-se na superfície do lado do orifício de entrada do projéctil, en-
volvendo tal orifício; as linhas radiais resultam da força de compressão do projéctil na massa do
vidro, a qual provoca a desagregação do material por falta de resistência do mesmo e observam-se
no lado do orifício de saída, desenvolvendo-se a partir desse orifício” .
Mas, nem sempre assim é.
Desde logo se percebe que as estrias radiais e concêntricas apenas podem ser formadas nalguns
tipos de vidro8. São impossíveis de se formar nos vidros temperados. Mas, mesmo quando
surgem, não provam que os vidros tenham sido trespassados por projéctil de arma de fogo.
Somente indiciam que foram atingidos por um projéctil, ou que foram submetidos a uma
força “quase estática” localizada num pequeno ponto da sua superfície.

6. Normalmente de "PVB" (Polivinil butiral).


7. Embora os dos automóveis muito antigos possam ser em vidro temperado.
8. Este artigo só aborda os vidros, contudo, conjuntos de estrias concêntricas associadas a estrias radiais também
podem surgir noutros materiais e serem analisadas de modo semelhante, por exemplo, em ossos planos.
Análise das Marcas de Impactos e de Perfurações em Vidros

188 Concluir que as estrias radiais e concêntricas são univocamente resultado da acção de projéc-
teis de armas de fogo é um erro grosseiro. Muitas outras causas distintas podem estar na ori-
gem dessas linhas de factura. Basta uma experiência tão simples como arremessar uma pedra
contra um vidro (obviamente não temperado) e facilmente se verá que esse impacto também
poderá produzir estrias radiais e concêntricas.
Também não é correcta a causa alegada para o aparecimento das linhas concêntricas. Ou seja,
que são resultado do movimento de rotação de projéctil em torno do seu eixo principal9 (spin)
e formadas pelo "arrastamento" deste na superfície do vidro. Esta teoria, completamente er-
rada, tem vindo a ser tão frequentemente repetida que já chega a ser disseminada por reputa-
dos especialistas. Trata-se, contudo, de um mito.
Mito que é fácil de desmascarar.
Desde logo, porque se comprova que as linhas concêntricas e radiais aparecem, também, como
consequência do impacto de projécteis sem movimento de rotação (exemplo da pedra). Ou
seja, estão associadas a impactos de projécteis não providos de movimento giroscópio em torno
do eixo longitudinal à sua linha de deslocação. No universo das armas de fogo, seriam, entre
outros, a generalidade dos projécteis disparados por armas com canos de alma lisa.
Por outro lado, convém não esquecer que, mesmo nos projécteis disparados por armas de
canos estriados, o componente spin do seu movimento tem sempre que ser estudado em con-
jugação com os restantes movimentos: precessão, notação e yaw (entre outros insignificantes).
Ora, nesse conjunto dinâmico, a rotação é pouco significativa.
Até nos casos em que o spin se mantém para além do momento do impacto inicial e os pro-
jécteis são disparados por canos com passos de estrias extraordinariamente curtos, estes só têm
uma rotação muito lenta (normalmente mais de 1,20 m para uma volta completa). Assim sendo,
não faz sentido afirmar que: “…as linhas concêntricas resultam do arrastamento do material na su-
perfície vidrada devido ao movimento de rotação do projéctil…” pois esse arrastamento não existe.
Ou melhor, em termos práticos, o movimento de rotação é desprezível e mais será um eventual
“arrastamento”, alegadamente causado pelo atrito entre o projéctil e a superfície de vidro. Aliás,
o trabalho exercido pelo factor rotação só se poderia fazer notar sobre o vidro se este tivesse uma
espessura suficiente para que os vectores da rotação lhe fossem transmitidos.
Para que se perceba quanto é insignificante a rotação, encare-se a hipótese dum vidro com a es-
pessura de 10 mm ser trespassado por um projéctil disparado por um cano com um passo de es-
trias de 1,20 metros (que é mais apertado do que o habitualmente encontrado nas armas de
fogo10). Facilmente se conclui que, em teoria, durante a transposição desse vidro o projéctil só
poderia rodar 0,083333 de uma volta completa. Na realidade, nem isso chega a acontecer, pois
a rotação reduz-se aquando do impacto. Mas não só por isso a teoria cai por terra. Pois acontece
9. Caso típico dos projécteis disparados por armas de fogo com canos de alma estriada.
10. Não se está aqui a prever a hipótese de o disparo ter sido efectuado num "cano de teste", coisa que só existe nos
laboratórios de balística.
Vitor Teixeira

que no momento exacto em que um projéctil de alta velocidade embate num vidro, este último 189
entra em vibração de alta-frequência e começa a desagregar-se em micro-fissuras resultantes da
acção das ondas de choque. Este fenómeno dificulta a transmissão do vector rotação, nomeada-
mente sob a forma do “arrastamento”, pois reduz (ou elimina) o contacto entre os lados do pro-
jéctil e o bordes do orifício criado pela sua ponta. É que, quando a secção lateral do projéctil
trespassa o vidro, este já foi destruído pelas ondas de choque geradas pelo impacto da sua ponta.
O mito que associa as linhas concêntricas ao arrastamento causado por projécteis em rotação,
só poderia fazer algum sentido se os projécteis tivessem uma rotação extraordinariamente rá-
pida, semelhante à broca de um berbequim eléctrico e – cumulativamente – os vidros tives-
sem uma anormal viscosidade.
Por tudo isto se percebe que não pode existir relação, directa e necessária, entre impactos de
projécteis de armas de fogo e as linhas de fractura concêntricas e radiais.
Na realidade, esses conjuntos geométricos de linhas de descontinuidade resultam de diversos
factores, podendo, no limite, ocorrer como resultado de pressões “quase estáticas”, portanto
sem implicar a intervenção de qualquer projéctil. Diversas variáveis interferem na génese des-
sas linhas de fractura, designadamente: a força exercida em relação à área onde é aplicada, a
energia cinética que o projéctil possui no momento do impacto, a densidade seccional do pro-
jéctil, a sua dureza e, sobretudo, as características do próprio vidro.
Recorrendo a uma explicação simplificada, pode-se afirmar que: quando o vidro sofre uma
pressão localizada, a face oposta à pressão é “empurrada” e distendida, tornando-se convexa,
enquanto que a face onde a pressão incide directamente vai sendo “empurrada” e comprimida
sobre si própria, tornando-se côncava. A distensão origina as linhas radiais e a compressão do
material sobre si próprio forma as linhas concêntricas.
Identificando a face em que está cada um desses tipos de linhas pode-se concluir qual terá sido
o sentido da força. Surge assim a fórmula que dita que as linhas de fracturas concêntricas
aparecem na face que sofreu o impacto (ou melhor, onde incidiu o vector força) e as fractu-
ras radiais surgem do lado oposto. Note-se que estas linhas podem também sobrevir mesmo
sem perfuração completa do vidro.
Decompondo no tempo a ocorrência, verifica-se que as fracturas radiais são as que primeiro
surgem; portanto, a face oposta àquela onde incidiu a força será a primeira a apresentar linhas
de fractura. Só se for ultrapassado determinado limiar de tensão poderão vir a surgir as frac-
turas concêntricas, desta feita, do lado onde a força foi directamente aplicada. Assim sendo,
torna-se possível determinar qual o sentido da força, mesmo não existindo perfuração nem li-
nhas concêntricas; bastará determinar em que face do vidro estão as fracturas radiais para se
poder concluir que a acção se iniciou na face oposta.
Esta ausência de fracturas concêntricas e/ou a inexistência de perfurações completas é fre-
quente nos pára-brisas das viaturas automóveis, sendo que, por vezes, nem se chegam a formar
Análise das Marcas de Impactos e de Perfurações em Vidros

190 quaisquer linhas de fractura, tão-somente pequenos pontos de material desagregado.


Percebe-se agora porque é importante ter presente que a existência destes dois tipos de estrias
não representa, necessariamente, o resultado de impacto de projéctil. Tão pouco implica a in-
tervenção de qualquer arma de fogo e ainda menos a de armas de fogo com cano de alma es-
triada. Não são de descartar essas hipóteses, mas nunca podem ser as únicas a considerar.
Mantendo presente esta limitação, a interpretação da geometria das linhas de fractura con-
cêntricas e radiais tem a vantagem de nos revelar o sentido da força que levou à ruptura do
vidro e pode permitir estabelecer uma cronologia entre os diversos impactos, através da aná-
lise dos cruzamentos das linhas de fractura.
Essa análise tem por base o facto de uma fractura nunca se propagar para além de outra já exis-
tente, com a qual se cruze. Assim, se ao seguir uma linha de fractura se detectar que esta foi
interrompida ao entroncar-se com outra, tal significa que a segunda já lá estava, portanto, o
que quer que a tenha causado terá que ter ocorrido antes.
Não obstante esse exame extraordinariamente complexo no caso de múltiplos impactos, torna-
se tanto mais simplificado quanto menos forem e permite descortinar a cronologia dos even-
tos. Assim, por exemplo, no caso de fracturas causadas por projécteis de armas de fogo, pode-se
descortinar qual a sequência cronológica dos disparos.
No caso das perfurações causadas por impactos de projécteis, outra característica servirá de in-
dicador, trata-se do cone de saída11. Essa formação (tal como as estrias) nem sempre ocorre,
dependendo, sobretudo, da velocidade do projéctil.
O cone de saída resulta da forma como é transmitida a energia cinética através do vidro.
Quando uma superfície vítrea é atingida por um projéctil de alta velocidade, a sua elasticidade
não chega a ter efeito relevante ao nível da absorção da energia destrutiva. Nessas condições a
acção do projéctil é demasiado rápida para que a energia se possa dissipar muito para além do
ponto de impacto. Assim sendo, o projéctil aplica a energia num pequeno ponto e a pressão
propaga-se rapidamente sob a forma de ondas de choque. Essas ondas de choque são conve-
xas com origem no ponto do impacto e deslocam-se no sentido em que a força foi exercida.
O cone de saída reproduz a “forma” e a direcção de propagação das ondas de choque. Assim,
em termos práticos, surge a norma que dita que a face do vidro onde o orifício tiver menor
diâmetro corresponderá “ao lado de onde veio o projéctil”.
O modo como os projécteis de alta velocidade transferem a sua energia através dos vidros leva
a que as suas perfurações sejam, por norma, mais focalizadas do que as causadas por choques
de objectos a baixas velocidades. Por oposição, quando um vidro é quebrado por acção de um
objecto com baixa velocidade a destruição será mais extensa, uma vez que a força destrutiva
terá mais tempo para se dissipar ao longo da superfície do vidro. Assim se chega à conclusão

11. Também chamado de "cone de percussão".


Vitor Teixeira

de que, por norma12, quanto mais se prolongarem as linhas radiais menor terá sido a veloci- 191
dade do impacto, ou menos focalizada terá sido a força destrutiva. Esta pequena distinção
pode servir de indício da intervenção de projécteis de armas de fogo. No caso particular de pro-
jécteis de alta velocidade, pode, também, permitir estimar o seu ângulo de embate, porquanto
o orifício será tão mais circular quanto mais perpendicular for a incidência do projéctil, pas-
sando a elíptico conforme esse ângulo se vai reduzindo.

A transposição de estruturas em vidro laminado é extraordinariamente difícil. Não só porque


se trata de vidros com uma grande elasticidade (superior à do vidro comum e muitíssimo su-
perior à do vidro temperado), mas também porque a película plástica no seu interior confere
resistência adicional e permanece intacta mesmo que ambas as placas de vidro se quebrem.
As únicas formas de transpor vidros laminados são o desmantelamento da sua estrutura de su-
porte (por exemplo, desmontando/cortando as junções entre o vidro e a caixilharia), ou a que-
bra dos vidros seguida do corte da película plástica. Qualquer das opções será demasiado
demorada para a maior parte dos cenários táctico-policiais. É certo que uma solução mais ra-
dical permite surtir efeito rápido, nomeadamente para conseguir transpor janelas ou portas em
vidro laminado, mas tal implica o recurso a explosivos dispostos em cargas lineares de corte.
Os “vidros à prova-de-bala” são, normalmente13, vidros laminados com múltiplas camadas de
vidro intercaladas por películas de PVB. Este tipo de construção permite a dissipação da ener-
gia dos impactos e, a cada embate, a estrutura vai consumindo essa energia na destruição de uma
ou mais camadas de vidro/película. Sendo que, para a trespassar, será imperioso destruir todas
as camadas sucessivas de vidro e de película. Assim sendo, percebe-se porque nenhum vidro será
absolutamente "à prova-de-bala", uma vez que a cada impacto que sofrer se irá destruindo par-
cialmente. Bastará repetir impactos numa mesma zona para que a coesão deixe de existir e o
vidro seja trespassado.

São os vidros mais baratos e mais fáceis de produzir, daí a sua profusão e denominação de
“vidro comum”. São usados em vasilhame, louça, objectos decorativos, janelas de habitações
e numa infinidade de objectos.

12. E, obviamente, mantendo constantes as demais variáveis.


13. No caso dos “vidros” totalmente em policarbonato a resistência desse material é proporcional à sua espessura e
resulta da estrutura molecular do composto e das suas extraordinárias propriedades elásticas (absorção da energia) e
plásticas (deformação sem atingir o limite de ruptura). Actualmente, certos tipos de vidros à prova de bala lamina-
dos intercalam placas de policarbonato com placas de vidro.
Análise das Marcas de Impactos e de Perfurações em Vidros

192 Sob o ponto de vista da resistência, são os mais frágeis, tendo a desvantagem adicional de ori-
ginarem “lâminas de vidro” quando partidos. Mas, ao contrário dos vidros temperados, podem
sofrer rupturas localizadas e ser cortados ou perfurados sem que se estilhacem.
Sob o ponto de vista da análise dos danos, aplicam-se os mesmos métodos utilizados nos vi-
dros laminados. Saliente-se que nos vidros comuns as linhas de fractura são mais consolida-
das e extensas do que nos vidros laminados. Porém, existe uma maior tendência para a perda
de vestígios, pois é frequente o vidro comum quebrar em grandes pedaços que posteriormente
quebram novamente ao embaterem no chão.

Estes vidros não representam obstáculo ao arrombamento, mas são perigosos pois podem pro-
vocar cortes devido ao facto de se decomporem em secções afiadas. Esta particularidade tem
que ser tida em conta por quem pretenda atravessar uma estrutura recém-arrombada (porta
ou janela, por exemplo), pois pode acontecer que sobre si estejam pendentes lâminas de vidro
prestes a cair. Exactamente por isso torna-se necessário “limpar” as janelas ou portas arrom-
badas antes de as transpor. Ao nível de ferramentas tácticas de arrombamento, existem ins-
trumentos específicos para esta função. Na sua falta, terá que prevalecer muita cautela por
parte de quem pretenda quebrar um vidro deste tipo. Não só por causa das lâminas que ficam
presas à estrutura arrombada, mas também por causa dos pedaços que se soltam e caem no mo-
mento em que o vidro se quebra. Esta necessidade de cuidado aumenta proporcionalmente à
área do vidro arrombado, de modo que, nos vidros de grandes dimensões, é necessário prever
a zona onde os fragmentos irão cair. Recorde-se o quanto é comum a ocorrência de ferimen-
tos graves nos indivíduos atingidos por pedaços de vidro comum. Foi exactamente esse perigo
que levou à adopção de vidros temperados e de vidros laminados na construção de portas,
montras e janelas.

Após muitas experiências de arrombamento de vidros de viaturas automóveis, as conclusões


obtidas contradizem algumas das crenças do senso comum. Convém recordar que muitas des-
sas crenças nascem da extrapolação de casos isolados e de generalizações indevidas. Ora, neste
campo, as variáveis são tantas, que frequentemente surgem resultados atípicos, que não podem
ser confundidos com a norma.
193
194 ASSINATURA DE 2 NÚMEROS COM ENVIO VIA CTT
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com quem a ASFIC/PJ tem protocolos de colaboração.

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2011

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