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Boletim de Iniciação Científica em Psicologia – 2005, 6(1): 65-75

UMA BREVE LEITURA SOBRE EXPERIÊNCIA VIVENCIADA POR


ESTAGIÁRIOS EM UNIDADE FEMININA DA FEBEM

Daniel de Araújo Paulino


Ivan Marcel Calusne Venâncio
Tamara Belini Magnet
Profa. Dra. Vânia Conselheiro Sequeira
Universidade Presbiteriana Mackenzie

Resumo: O objetivo deste artigo é relatar uma experiência e discutir


alguns aspectos do adolescente em conflito com a lei, tais como
relacionamentos familiares, sociais e o papel do psicólogo no trabalho
com jovens infratores. Os temas emergiram durante o estágio
realizado em dois semestres na Fundação Estadual do Bem-Estar do
Menor – Unidade Feminina (FEBEM), situada no município de São
Paulo. Os encontros foram realizados semanalmente com um grupo
de quinze jovens e coordenado por três estagiários com o objetivo de
proporcionar aos jovens um espaço de reflexão sobre seus projetos
para o futuro. Consideramos fundamental desenvolver novas práticas
em Psicologia Jurídica que ultrapassem a avaliação psicológica
solicitada pelo judiciário. Valorizamos uma intervenção direcionada
aos adolescentes infratores e suas demandas.
Palavras-chave: Grupo operativo, adolescência, jovem infrator,
relações familiares, problema com a lei.

A BRIEF LECTURE ABOUT THE EXPERIENCE LIVED BY


STUDENTS IN A FEMALE UNITY OF FEBEM

Abstract: The objective of this article is to report an experience and


discuss some aspects about the adolescent in problems with law, as
home and social relationship, and the psychologist’s work with
transgressor teenager. Those themes came over the internship made
in two semesters at the Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor
(FEBEM) – Female Unity, a place for girls in the system, in São Paulo.
This work happened once a week in a group with fifteen girls and
Daniel de Araújo Paulino, Ivan Marcel Calusne Venâncio, Tamara Belini Magnet
Profa. Dra. Vânia Conselheiro Sequeira

managed by three students with the objective to provide to young


ones a space of reflection on its projects for the future. We consider
basic to develop new practices in Legal Psychology that exceeds the
requested psychological evaluation for the judiciary one. We value an
intervention directed to the adolescent infractors and its demands.
Keywords: Operactif group; adolescence; transgressor teenager;
home relationship; problem with law.

Introdução
Durante o ano de 2005 realizamos atividades com grupo
operativo em uma unidade da FEBEM. Este grupo era formado por 15
internas e 3 estagiários que conduziam as atividades, sendo
composto por dois do sexo masculino e um do sexo feminino. O
objetivo principal ao trabalhar com as jovens foi promover a reflexão
sobre o projeto de vida e as expectativas em relação ao futuro. Para
tanto foram realizados 10 encontros no primeiro semestre, e, como
se tratava de um estágio supervisionado, houve uma pausa para as
férias da universidade, e retorno no segundo semestre no qual foram
realizados mais 14 encontros.
Como estratégia para o desenvolvimento do grupo operativo,
foram utilizadas atividades como dinâmicas de grupo, atividades
lúdicas envolvendo pintura, dramatização e colagem, além de filmes
e leitura de histórias que servissem como disparadores para
discussões.
Quando escolhemos o estágio na FEBEM, sabíamos, desde o
começo, que não estava ao nosso alcance encontrar respostas
conclusivas para as questões complexas então colocadas. No entanto,
ao ingressar no estágio, começamos a verificar que determinados
fenômenos que estavam surgindo no grupo, poderiam fornecer
reflexões para se compreender melhor o tema. Para isso discutiremos
o jovem infrator, seus relacionamentos familiares, sua dificuldade
com as regras,com os limites e com a escola.

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Uma breve leitura sobre experiência vivenciada por estagiários em unidade feminina da
FEBEM

Discussão
O grupo operativo é um instrumento de trabalho da Psicologia
para grupos, tem a função de investigar, avaliar aspectos das
pessoas do grupo, bem como pode cumprir uma função terapêutica.
É essencial a execução de uma tarefa, de uma atividade com a qual o
grupo possa trabalhar. Os grupos operativos foram desenvolvidos na
década de 40, na Argentina, por Pichon Rivière: os objetivos do grupo
são definidos pelo próprio grupo, a cada encontro existe uma tarefa a
ser realizada, a partir da tarefa trabalham-se as relações
interpessoais e as implicações de cada um no grupo. É fundamental
respeitar o conteúdo emergente do grupo, ou seja, trabalhar com a
informação que o grupo atualiza a cada momento e que corresponde
ao que pode admitir e elaborar.
De acordo com Zimerman e Osório (1997), um bom
coordenador escolhe técnicas que levem ao alcance dos objetivos,
tem o papel de facilitador e deve diagnosticar a situação grupal para
poder modificar os esquemas referenciais de funcionamento do
grupo. O coordenador do grupo operativo deve analisar os papéis que
são representados no grupo: pelo líder de mudança, que busca o
movimento grupal, tem iniciativas e facilita a realização das tarefas;
pelo líder de resistência , que puxa o grupo para trás, dificulta os
debates, paralisa a comunicação e a ação do grupo; pelo bode
expiatório, que assume a culpa do grupo e vira depositário de todos
os conteúdos não trabalhados pelo grupo; pelo representante do
silêncio, que assume a dificuldade da comunicação grupal, o lugar
da resistência; e pelo porta-voz, que funciona como uma antena
sintonizada com o conteúdo grupal, o que permite ao coordenador
saber o que se passa inconscientemente com o grupo.
O coordenador tem que analisar os papéis e as projeções do
grupo, dos participantes isoladamente e dele próprio como parte
integrante do grupo. Ele deve fazer intervenções que promovam a

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limpeza das projeções, a mobilidade transferencial, e evitar a


estereotipia, que faz os papéis ficarem rígidos e cristalizados. O
coordenador também deve estar atento à dinâmica do grupo, pois
sempre existem conteúdos inconscientes (depositado), um elemento
que joga esses conteúdos (depositante) e alguém que assume esses
conteúdos sem saber o que está acontecendo (depositário). O bom
funcionamento do grupo operativo depende do manejo destes
conteúdos e papéis.
Durante as atividades, observamos no grupo uma tendência
manipuladora por parte das adolescentes em relação às tarefas
propostas, em atitude tais como não cumprir a tarefa da forma
solicitada, colocar outros conteúdos diferentes do solicitado em cada
atividade, expressar a opinião de forma a provocar alguma colega,
independente do que havíamos combinado. Isso também demonstra
a dificuldade dos estagiários em lidar com grupos, com adolescentes
e com atitudes decorrentes da situação de institucionalização.
De acordo com Altoé (2004), a lei provém das normas culturais,
daquilo que a cultura determina para regular o comportamento dos
indivíduos. As fontes detentoras de poder instituem o poder
normativo e assim realizam o projeto jurídi co deste poder. A lei deve
ser obedecida e executada pelos seus representantes. Assim,
obedecer passa a ser obrigação do cidadão e onde há obrigação, há
controle, e se há um controle, há o detentor deste poder controlador.
Este poder, porém, não é corporificado, é anônimo, é um poder
baseado na ordem “paterna”. A obediência à lei remete à obediência
à figura paterna. Isso é representado simbolicamente. A metáfora
paterna encontra-se no fundo como base do Direito, a Lei que tem
sua instância simbólica e organizadora da subjetividade. Além disso,
as leis também têm sido falhas, não garantem realmente o direito às
pessoas. Segundo Barros (2005), a lei não garante a ordem, somente
a crença pode assegurá-la e vivemos um período de descrença nas
instituições e na lei.

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Atualmente, cada vez mais existe uma ausência do pai nas


famílias brasileiras, e não há a presença de uma figura que consiga
cumprir com a função paterna com êxito, a função de interdito na
relação materna. As famílias não são as mesmas de antigamente, o
modelo tradicional sofreu transformações, a ausência do pai é comum
nas periferias e merece um estudo aprofundado, não há quem
regulamente, quem interdite e imponha os limites necessários, pois
muitas vezes a mãe está sozinha nesta tarefa e também deve prover
sustento material à família. Vale ressaltar que o problema não está
na transformação da família na atualidade, mas na falta de
sustentação que novos modelos familiares vêm recebendo da
estrutura social. Novas configurações familiares devem ser
compreendidas e não julgadas moralmente.
De acordo com Rappaport (1982), a adolescência é um período
de vida conturbado, é um momento de transição entre o mundo
infantil e adulto. Surgem diversas crises tidas como normais, pois são
necessárias ao adolescente no seu processo de identificação no qual
sai de uma relação de dependência para a independência. O
adolescente permanece em conflito, contesta as normas dos adultos e
busca criar uma norma própria. Porém, as normas estão atualmente
também desestabilizadas.
De acordo com Sequeira (2000) a transgressão é um pedido de
limite, é um pedido da voz paterna que não obteve sucesso. Na
adolescência isso se agrava, pois não somente existe este pedido de
limite como também há a necessidade transgressora do adolescente,
a necessidade de contestar o que já existe, de se afirmar como
diferente, e no crime essa transgressão ultrapassa os limites das
normas sociais.
De acordo com a experiência nos atendimentos grupais foi
possível perceber e refletir sobre as relações das jovens com a
sociedade na qual estão inseridas. Observamos que as participantes
pareciam pedir pela interdição da representação paterna, burlando

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constantemente os limites impostos pela instituição ou pela regras de


funcionamento do grupo, era comum o “esquecimento” das regras
combinadas, assim como o jeito particular de fazer o que
solicitávamos, trazendo os conteúdos que elas queriam, independente
do que havia sido solicitado para o momento. Fez-se necessário ainda
a imposição de limites e regras para que aos poucos se pudesse lidar
com isto na ordem do simbólico, com palavras e não com atuações.
Observamos, no grupo, a necessidade constante das
adolescentes chamarem a atenção para si, mesmo que por meio de
comportamentos agressivos e hostis, demonstrando sentirem-se
injustiçadas, afirmando repetidamente que ninguém lhes dava
atenção. Expressavam que sempre necessitavam de um apoio, de
alguém que lhes dirigisse um olhar, que a qualquer momento,
“podiam ser traídas por uma colega e ninguém ali na instituição as
auxiliava” (SIC), “lá viviam desconfiando de sua própria sombra”
(SIC). Era comum não darem atenção às falas das colegas, no
entanto muitas vezes não falavam sobre algo enquanto todos não
voltassem a atenção para elas. Havia um sentimento muito grande de
inferioridade, demonstrando que o valor de uma pessoa estava
relacionado a bens de consumo e não ao que se é interiormente,
como pessoa.
Durante os atendimentos, sempre que o tema “família” era
levantado, apareciam conteúdos do tipo: problemas na organização
familiar, a sobrecarga de atividades para o chefe de família, a
dificuldade da mãe em orientar e controlar as crianças e a inclusão
precoce do adolescente em tarefas domésticas. Inúmeros exemplos
eram dados revelando como a mãe, na maioria das vezes, assumia
este papel de “chefe de família”, sempre se responsabilizando pela
criação, pelo sustento e por propiciar as necessidades básicas aos
filhos. No grupo em questão, as adolescentes frequentemente
verbalizavam sua inclusão em tarefas domésticas, entre outras
atividades, para auxiliar o orçamento familiar. Isso acabava

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ocasionando a não aderência à rotina escolar, que se caracteriza


como outro fator de risco para a inserção dos jovens na
criminalidade. A defasagem escolar mostrou-se muito freqüente entre
adolescentes infratores. Além de problemas sérios relacionados à
alfabetização, encontraram-se também históricos de não adaptação
ao cotidiano escolar. Em seu estudo, Feffermann (1997) revela que,
em sua grande maioria, as escolas não estão preparadas para
atender adolescentes que apresentam comportamentos diferentes,
além de não possuírem recursos para estimular esses alunos.
Nas sessões dos grupos operativos, as adolescentes infratoras
relataram diversos conflitos familiares, exemplificando a dificuldade
que os pais possuíam em controlá-las. Tais conflitos acabavam
ocasionando um distanciamento destes pais da vida cotidiana de seus
filhos. Agindo assim, eles se envolviam muito pouco com a rotina das
crianças e adolescentes, sem, inclusive, dar limites. Entretanto,
apesar da revolta que as adolescentes manifestavam contra as
imposições de regras de conduta por seus pais, na maioria das vezes,
consideradas ultrapassadas, elas reclamavam da falta de atenção
deles para com o cotidiano delas. Demonstrando que as imposições
dos pais servem como referencial para que o jovem encontre seu
próprio caminho. Assim, a partir de uma referência, ele pode ir a
favor ou contra e constituir sua própria identidade. Quando os pais
não servem de suporte, a criança buscará modelos fora do âmbito
familiar. Igualmente, para construir seu sistema de valor ético-moral,
a criança pode tomar, quando lhe faltam referências no ambiente
onde está inserida, aquilo que é valorizado externamente.
De acordo com Rappaport (1982), pode-se considerar a
socialização, de maneira bastante ampla, como o processo pelo qual
a criança adquire comportamentos, atitudes, valores considerados
adequados pela cultura onde vive. É válido ressaltar como, no
discurso das adolescentes, apareciam sentimentos de admiração e
valorização em relação ao papel que a mãe assumia no contexto

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familiar. As adolescentes verbalizavam que as mães possibilitavam


uma mínima organização familiar. Algumas jovens, que inicialmente
relatavam discussões e conflitos entre e com as figuras parentais.
demonstravam, depois da internação, uma tendência para um
contato mais próximo com suas mães.
Winnicott (1994), pediatra e psicanalista inglês, em seu livro
"Privação e delinqüência", expõe bem as graves conseqüências da
privação afetiva para o desenvolvimento de uma criança. Uma criança
que cresce sem afeto, sem carinho, sem cuidados básicos, sem
atenção, sem valorização de suas qualidades, de seu potencial, e,
além disso, sofre freqüentemente violência psicológica, física e
sexual, apresentará problemas sérios na adolescência e vida adulta. A
baixa auto-estima é a marca registrada nestas pessoas. Na
adolescência, situações como a agressão à sociedade que a
desprezou, ou ainda, por exemplo, o uso excessivo de drogas
tornam-se freqüentes. Diante de um quadro deste, propostas de
solução por meio apenas da punição, parecem-nos ineficazes.
Ao refletir sobre o processo grupal, percebemos que
inicialmente houve uma certa resistência de algumas participantes
que demonstravam não se sentirem à vontade no grupo, pois tinham
indisposições com algumas colegas, ou alegavam não gostarem de
falar sobre si; mas, de modo geral, as adolescentes se engajaram na
participação das tarefas propostas. Em atividades lúdicas, que
envolviam pintura ou desenho, houve uma maior expressão e
envolvimento das jovens, provavelmente por se sentirem mais à
vontade para se expressarem, acreditando que nos desenhos não há
uma exposição do indivíduo diretamente. Na realização de tarefas
que visavam reflexão e o projeto de vida notaram-se diferenças
dentro do grupo. Algumas executavam a tarefa com bom
entendimento, conseguindo planejar seus objetivos com coerência,
enquanto outras não acreditavam na importância do projeto de
futuro, expondo as dificuldades que existiam em concretizá-los.

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Coube a nós, como coordenadores, propiciar a reflexão sobre o


sentido desse tipo de discurso. Procurando pensar sobre o que
realmente era possível, buscando mostrar outras possibilidades, caso
tivessem essa demanda. Sabemos que a dificuldade de elaborar
projetos de futuro envolve não só adolescentes infratores, mas
adolescentes da periferia dos grandes centros urbanos do Brasil
(FEFFERMANN, 1997).
Apesar de nossos esforços algumas adolescentes tiveram
dificuldade em se colocar, principalmente nas discussões, já outras se
expressavam com mais facilidade, participando ativamente das
atividades. A questão da confiança foi um tema que surgiu em ambos
os semestres, e apesar de todas as tentativas, as adolescentes
pareciam não vislumbrar a possibilidade da formação de um vínculo
mais forte entre elas, ressaltando sua dificuldade em confiar nas
demais pessoas. Vale ressaltar, porém, que entre os coordenadores
também havia dificuldade de relacionamento e de vínculo, o que pode
ter sido percebido pelo grupo, e de alguma maneira atuado como
dificultador de uma maior disponibilidade afetiva nas relações
interpessoais.
Reiteramos que durante os atendimentos foi possível observar
as tentativas constantes das integrantes em burlar as regras do
grupo. Podemos entender isso como um pedido pela imposição de
limites, assim como de resistência ao processo grupal. Notamos ainda
uma dificuldade de lidar com o discurso alheio, não respeitando o
espaço do outro, buscando somente garantir um espaço próprio.

Conclusão
Por meio da experiência deste estágio pudemos compreender a
importância de trabalhos com adolescentes infratores em internação,
tanto para a comunidade quanto para nós estagiários, possibilitando
ganhos para ambas as partes. Nós, como estudantes, pudemos
vivenciar as dificuldades do exercício do papel profissional em

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instituições totais, assim como as vicissitudes de coordenar grupos


operativos. Para as adolescentes, o grupo foi uma oportunidade de
expressão e reflexão sobre suas vidas, o que consideramos
fundamental para o jovem infrator.
O papel do psicólogo é extremamente importante nesta
situação, permitindo que as adolescentes se expressem, que possam
ser ouvidas, compreendidas. No grupo, o coordenador tinha a função
de propiciar discussões e possibilitar a reflexão e elaboração do que
era discutido. Era importante permitir que elas falassem sem que
julgamentos morais interferissem sobre seus discursos, para que
pudéssemos entender como elas vivenciavam sua vida “fora da lei”.
Era importante ouvir suas dificuldades para propiciar uma reflexão
onde pudessem ver diferentes possibilidades para as situações de
suas vida.
Infelizmente não está na mão apenas dos profissionais que
lidam com essas garotas, o retorno para a sociedade, existe uma
rede de fatores a influenciá-las na vida pós-FEBEM. O que vão buscar
em seguida não depende mais dos profissionais, mas de toda a
sociedade que está ali para recebê-las. O máximo deve ser feito para
auxiliá-las a lidar com as dificuldades, ou “tentações” que surgirão.

Referências Bibliográficas

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psicanálise. Rio de Janeiro: Revinter, 2004.

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FEFFERMANN, M. Na fronteira da lei e do fora da lei: um estudo sobre


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Universidade de São Paulo, São Paulo, 1997.

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Dissertação (Mestrado em Psicologia Social) – Pontifícia Universidade
Católica, São Paulo, 2000.

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Fontes, 1994.

ZIMERMAN, D. E.; OSÓRIO, L. C. (Org.). Como trabalhamos com


grupos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

Contato:
Vânia Conselheiro Sequeira
Rua Itacolomi, 333 cj. 84
São Paulo - SP
e-mail: vaniasequeira@terra.com.br

Tramitação:
Recebido em: maio de 2006
Aceito em: agosto de 2006

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