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ESTADO DE SANTA CATARINA

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsc.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 0311793-09.2017.8.24.0005 e código 14A3D675.
PODER JUDICIÁRIO
Comarca de Balneário Camboriú
3ª Vara Cível - Unidade 100% Digital

Autos n.° 0311793-09.2017.8.24.0005

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por DAYSE HERGET DE OLIVEIRA MARINHO, liberado nos autos em 16/04/2019 às 16:01 .
Vistos etc.

Carlos Augusto Brun, qualificada nos autos, ajuizou a


presente Ação de Cancelamento de Protesto, cumulada com Indenização por
danos morais contra Michel Fabricio Mott, igualmente discriminado, alegando,
em síntese, que: a) o autor é empresário corretor de imóveis e ao realizar uma de
suas transações foi impedido, por seu nome estar inscrito no rol de inadimplentes
e haver protesto junto ao Tabelionato de Notas de uma Nota Promissória, no
valor de R$ 2.807,00 (dois mil, oitocentos e sete reais); b) a parte ré é
despachante na cidade de Joaçaba/SC protestou referida nota promissória; c) a
nota promissória foi emitida em 29/03/2006, cujo vencimento era em 28/04/2006,
e protestada onze anos após (18/08/2017) e inclusive a parte autora aduz tê-la
quitado; d) que não incluiu Camila Marina Mott no polo passivo, por considerar
que houve endosso-mandato; e) o título de crédito está prescrito, sendo
inexigível; f) a parte ré cometeu ato ilícito ao protestar título prescrito e, portanto,
deve ser condenado ao pagamento de indenização por danos morais, na monta
de R$ 20.000,00 (vinte mil reais).

Indicou os fundamentos jurídicos do pedido, requereu a


concessão de tutela de urgência para suspensão dos efeitos do protesto e a
citação da parte ré. Ao final, pugna pelo cancelamento do protesto e pela
condenação do réu ao pagamento de indenização por danos morais. Juntou
documentos, protestou por provas e valorou a causa.

Por decisão interlocutória foi concedida a tutela de urgência


para suspender os efeitos do protesto objeto da lide (fls. 20/23).

Citado (fl. 44), a parte ré apresentou contestação, asseverando


que: a) o autor não quitou o título de crédito, tanto que não o resgatou; b)
conforme instrumento particular de confissão de dívida, as partes desfizeram o
negócio referente a venda de um fundo de comércio, ficando o autor inadimplente
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no importe de R$ 18.421,00 (dezoito mil, quatrocentos e vinte um reais), em


relação às notas promissórias emitidas para pagamento: 1) R$ 2.807,00, com
vencimento em 10/04/2006, 2) R$ 2.807,00, com vencimento em 28/04/2006, 3)

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R$ 2.807,00, com vencimento em 28/05/2006; e 4) R$ 10.000,00, com
vencimento em 10/06/2006; c) a segunda nota promissória objeto da demanda foi
protestada em 10/08/2017 e não prescreveu; d) o dano moral, como existe a
dívida, deve ser comprovado. Ao final, pleiteia a improcedência da demanda, com
a condenação do autor ao ressarcimento dos honorários advocatícios, além da
sucumbência. Juntou documentos e postulou por provas.

A parte autora apresentou impugnação às fls. 97/103,


rechaçando as assertivas da parte ré e pleiteou pelo julgamento antecipado.

Vieram os autos conclusos.

Relatados. Fundamento e Decido.

Trata-se de ação cautelar de protesto, fundada na prescrição


do título que ensejou a presente lide, visando o cancelamento daquele.

Inicialmente, registra-se que o feito comporta o julgamento


antecipado, na forma do artigo 355, I, do Código de Processo Civil, eis que a
questão dos autos é unicamente de direito e não há necessidade de produção de
novas provas além das documentais, tampouco de designação de audiência para
formar o convencimento do magistrado acerca do conteúdo da lide.

Neste sentido, colhe-se julgado do Tribunal de Justiça de


Santa Catarina:

"APELAÇÕES CÍVEIS - AÇÃO DECLARATÓRIA DE


PRESCRIÇÃO DE CAMBIAL C/C CANCELAMENTO DE PROTESTO E
REPARAÇÃO DE DANOS EXTRAPATRIMONIAIS. RECURSO DO RÉU -
ALEGAÇÃO DE CERCEAMENTO DE DEFESA - INOCORRÊNCIA -
DESNECESSIDADE DE INGRESSO NA FASE INSTRUTÓRIA - [...]" (TJ-SC -
AC: 149727 SC 2004.014972-7, Des. Wilson Augusto do Nascimento).

Quanto ao exame do mérito, extrai-se dos autos que a lide


cinge-se em relação à exigibilidade da nota promissória n. 2, no valor de R$
2.807,00, emitida em 29/03/2006 e com vencimento 28/04/2006, visto que levada
à protesto em 18/08/2017 (fl. 10).

O protesto cambial, neste passo, tem "natureza formal e


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solene, pelo qual se comprova o descumprimento de fatos de interesse


cambiário: a recusa ou falta de aceite, a recusa ou falta de pagamento e a
ausência de data de aceite" (NEGRÃO, Ricardo. Direito Empresarial: estudo

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unificado. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 224).

Destarte, a finalidade precípua do protesto cambial é servir


como meio de prova da falta ou recusa do aceite ou do pagamento do título de
crédito. Portanto, se “lavrado por quem tem fé pública, o protesto, antes do mais,
testifica a inadimplência da obrigação cambial” (SANTOS, Cláudio. Do protesto
de títulos de crédito. In: Direito Empresarial: títulos de crédito, vol. V. São Paulo:
Editora Revista dos Tribunais, 2011, p. 841).

Entrementes, são efeitos decorrentes do protesto:

"I. Interrompe a prescrição (arts. 189 e 202, III e VI, do CC/02);


II. Demarca o termo inicial dos juros, taxas e correção monetária (art. 40 da Lei n.
9.492/97 e art. 1º, § 3º, do Decreto n. 22.626/33); III. Comprova a mora, quando
não fixada na avença ou na lei (art. 397, parágrafo único, do CC; art. 1.071 do
CPC, e art. 2º, § 2º, do Decreto-lei n. 911/69); IV. É requisito essencial para a
propositura de ação de falência de empresário com base na impontualidade (art.
94, I, e § 3º, da Lei n. 11.101/2005 e art. 23, parágrafo único, da Lei n. 9.492/97);
V. Serve como um dos critérios para a fixação do termo legal da falência, o qual
pode retroagir, por sentença, até 90 dias, contados do primeiro protesto por falta
de pagamento não cancelado (art. 99, II, da Lei n. 11.101/2005), ocasionando a
ineficácia dos atos praticados dentro desse período (art. 129, I, II e III, da Lei n.
11.101/2005); VI. De forma idêntica, serve como marco inicial para a liquidação
extrajudicial das pessoas jurídicas sujeitas a esse regime, retrotraindo em até 60
dias contados do primeiro protesto por falta de pagamento (art. 15, § 2º, da Lei n.
6.024/74)" (MORAES, Emanoel Macabu. Protesto notarial. São Paulo: Saraiva,
3. ed., 2014, p. 196-200).

Logo, é certo que os efeitos do protesto não se exaurem no


aspecto probatório e, portanto, acaso verificado que o título esteja prescrito,
serão ilegítimos, pois terão o condão apenas de pressionar o devedor ao
adimplemento da obrigação natural já desprovida exigibilidade jurídica.

Assim, passa-se ao exame da nota promissória, que conforme


a regra do art. 784, I, do CPC, é título extrajudicial e rege-se pelas normas do
Decreto 57.663/1966, que acolheu a Convenção de Genébra para a criação da
Lei Uniforme (Anexo I), aplicando-lhe, no que for compatível, as regras relativas à
letra de câmbio.
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A par disso, extrai-se daquele ordenamento que a nota


promissória é uma "promessa pura e simples de pagar uma quantia determinada"
(Decreto 57.663/1966, anexo I, art. 75, 2), cujo prazo prescricional para o

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ajuizamento da ação cambial é de três anos a contar do seu vencimento (Decreto
57.663/1966, anexo I, art. 70).

Igualmente, o Código Civil traz que o prazo prescricional dos


títulos de crédito é de três anos, conforme art. 206, § 3º, VIII: "Em três anos: [...] a
pretensão para haver o pagamento de título de crédito, a contar do vencimento,
ressalvadas as disposições de lei especial; [...]".

Dessa forma, o portador/credor tem três anos a partir do


vencimento da nota promissória para ingressar com a ação executiva. Porém,
ainda que cessado este interregno, pode a parte intentar a ação de conhecimento
para ver reconhecido seu crédito, ou seja, poderia o réu ter ajuizado a ação
monitória, de cobrança ou de locuplemento ilícito.

A primeira, como sedimentado no verbete sumular 504 do STJ,


tem prazo quinquenal a contar do dia seguinte ao vencimento do título, in verbis:
"O prazo para ajuizamento de ação monitória em face do emitente de nota
promissória sem força executiva é quinquenal, a contar do dia seguinte ao
vencimento do título".

A segunda, por sua vez, escoa também em cinco anos,


conforme art. 206, § 5º, I, in verbis: "Em cinco anos: I - a pretensão de cobrança
de dívidas líquidas constantes de instrumento público ou particular; [...]".

Com efeito, teria o réu mais dois anos após decorrido o prazo
para ação executiva, para o ingresso da monitória ou de cobrança. Isso porque,
como visto, a prescrição daquelas dar-se-ão em cinco anos, a contar do
vencimento do título.

Entrementes, o prazo prescricional em relação à ação de


locuplemento ilícito, dar-se-á de modo diferente da monitória ou da cobrança,
pois a ela aplicam-se, conjuntamente, as regras do art. 48 do Decreto n.
2.044/1908, com a do art. 206, § 3º, IV, do CC, de sorte que o interregno de três
anos, inicia do dia em que se consumar a prescrição da ação executiva.

Ao encontro dessas considerações, colaciona-se o julgado


Superior Tribunal de Justiça: "[...] 3. Considerando que o art. 48 do Decreto n.
2.044/1908 não prevê prazo específico para a ação de locupletamento amparada
em letra de câmbio ou nota promissória, utiliza-se o prazo de 3 (três) anos
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previsto no art. 206, § 3º, IV, do Código Civil, contado do dia em que se consumar
a prescrição da ação executiva. [...]" (AREsp: 978532 ES 2016/0234869-3,
Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, Data de Publicação: 01/12/2016).

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In casu, considerando o vencimento da nota promissória em
28/04/2006, a prescrição executiva operou-se em 28/04/2009, enquanto para o
ajuizamento da ação de cobrança ou da monitória deu-se em 28/04/2011 e para
a ação de locuplemento ilícito em 28/04/2012.

No entanto, extrai-se da certidão positiva de protesto (fl. 10) e


da nota promissória objeto da lide (fl. 66), que aquele foi registrado em
18/08/2017, ou seja, 11 (onze) anos após a cártula ser exigível.

À vista do exposto, evidente a ilegitimidade do protesto, em


virtude de que a prescrição da nota promissória operou-se em 28/04/2012,
enquanto aquele foi realizado apenas em 18/08/2017.

Nesta perspectiva, é o julgado do Superior Tribunal de Justiça:

"[...] 5. Especificamente quanto à nota promissória, o


apontamento a protesto por falta de pagamento mostra-se viável dentro do prazo
da execução cambial – que é de 3 (três) anos a contar do vencimento –, desde
que indicados os devedores principais (subscritor e seus avalistas). 6. Na
hipótese dos autos, o protesto da nota promissória revela-se irregular, pois
efetivado quase 9 (nove) anos após a data de vencimento do título. [...]"
(Resp n. 1.639.470/ RO, Min. Nancy Andrighi, J. em 14/11/2017).

Portanto, o cancelamento do protesto é medida que se impõe.

Por corolário, considerando que esgotados todos os meios de


o réu cobrar a nota promissória do autor, são devidos também os danos morais.
Isso porque, utilizou o credor do protesto como meio de coagir o autor ao
pagamento de obrigação inexigível judicialmente, inclusive pela via ordinária, ato
que constitui verdadeiro abuso de direito.

Nessa linha, já julgou o Superior Tribunal de Justiça:

"DIREITO CIVIL E DO CONSUMIDOR. RECURSO ESPECIAL.


AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXIGIBILIDADE DE DÍVIDA C/C PEDIDO DE
CANCELAMENTO DE PROTESTO E INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS
E MORAIS. PROTESTO DE NOTA PROMISSÓRIA PRESCRITA.
IRREGULARIDADE. DÍVIDA QUE NÃO É PASSÍVEL DE COBRANÇA NAS
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VIAS ORDINÁRIA E MONITÓRIA. ABUSO DE DIREITO. ABALO DE CRÉDITO.


DANO MORAL CARACTERIZADO. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.
MAJORAÇÃO. 1. Ação ajuizada em 04/03/2013. Recurso especial interposto em

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02/09/2016 e distribuído em 23/11/2016. Julgamento: Aplicação do CPC/2015. 2.
O propósito recursal reside em definir se o protesto de nota promissória prescrita
foi ilegal, a ensejar dano moral indenizável. 3. O protesto cambial apresenta, por
excelência, natureza probante, tendo por finalidade precípua servir como meio de
prova da falta ou recusa do aceite ou do pagamento de título de crédito. 4. De
acordo com o disposto no art. 1º da Lei 9.492/97 (“Lei do Protesto Notarial”), são
habilitados ao protesto extrajudicial os títulos de crédito e “outros documentos de
dívida”, entendidos estes como instrumentos que caracterizem prova escrita de
obrigação pecuniária líquida, certa e exigível, ou seja, documentos que propiciem
o manejo da ação de execução. 5. Especificamente quanto à nota promissória, o
apontamento a protesto por falta de pagamento mostra-se viável dentro do prazo
da execução cambial – que é de 3 (três) anos a contar do vencimento –, desde
que indicados os devedores principais (subscritor e seus avalistas). 6. Na
hipótese dos autos, o protesto da nota promissória revela-se irregular, pois
efetivado quase 9 (nove) anos após a data de vencimento do título. 7. Cuidando-
se de protesto irregular de título de crédito, o reconhecimento do dano
moral está atrelado à ideia do abalo do crédito causado pela publicidade do
ato notarial, que, naturalmente, faz associar ao devedor a pecha de “mau
pagador” perante a praça. Todavia, na hipótese em que o protesto é
irregular por estar prescrita a pretensão executória do credor, é necessário
perquirir sobre a existência de vias alternativas para a cobrança da dívida
consubstanciada no título. 8. Nesse contexto, se ao credor remanescem
ações outras que não a execução para a exigência do crédito, o devedor
permanece responsável pelo pagamento, não havendo se falar em abalo de
sua credibilidade financeira pelo protesto extemporâneo. 9. Por outro lado,
quando exauridos os meios legais de cobrança da dívida subjacente ao
título, o protesto pelo portador configura verdadeiro abuso de direito, pois
visa tão somente a constranger o devedor ao pagamento de obrigação
inexigível judicialmente. O protesto, nessa hipótese, se mostra inócuo a
qualquer de seus efeitos legítimos, servindo, apenas, para pressionar o
devedor ao pagamento de obrigação natural (isto é, sem exigibilidade
jurídica), pela ameaça do descrédito que o mercado associa ao nome de
quem tem título protestado. 10. No particular, considerando que o protesto
foi efetivado após o decurso dos prazos prescricionais de todas as ações
judiciais possíveis para a persecução do crédito consubstanciado na nota
promissória, é de rigor reconhecer o abuso de direito do credor, com a sua
condenação ao pagamento de compensação por danos morais. 11. Recurso
especial não provido, com a majoração dos honorários advocatícios de
Sucumbência. (REsp n. 1.639.470/ RO, Min. Nancy Andrighi, J. em 14/11/2017).
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Na hipótese do protesto irregular de título de crédito, a


presença do dano moral está intrinsecamente atrelada à ideia do abalo de crédito

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surtido em decorrência da publicidade do ato notarial, naturalmente, associando
ao devedor a "fama" de "mau pagador" perante o comércio.

Yussef Said Cahali afirma que, "embora a princípio seja direito


do credor levar a protesto título revestido das formalidades legais, não pago pelo
devedor no respectivo vencimento, há responsabilidade civil do credor quando
ocorre o exercício anormal ou irregular desse direito, sendo ilícito o ato quando
utilizado para obter o pagamento de dívida já paga ou inexigível (Dano moral, 3ª
ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005 , p. 407).

Dessarte, tendo em conta que após 11 (onze) anos do


vencimento da nota promissória o réu procedeu ao protesto daquela, ou seja,
como visto, depois de exaurido os prazos para ajuizamento inclusive da ação de
cobrança fundada na relação causal e, também, da monitória, ambas submetidas
ao interregno quinquenal; bem como da ação de locuplemento ilícito, é certo o
abuso de direito perpetrado pelo réu, impondo-se a sua condenação ao
pagamento de danos morais, pelo abalo gerado na credibilidade financeira da
parte autora.

Frisa-se, inclusive, que a parte autora descobriu o protesto


indevido do título, quando restou impedido de dar continuidade em uma
transação imobiliária, decorrente da sua atividade laboral, visto que é corretor de
imóveis.

Deste modo, na fixação do quantum devido a título de dano


moral, deve-se atentar para as condições das partes e as circunstâncias fáticas,
não se podendo olvidar a repercussão na esfera dos lesados e o potencial
econômico-social do lesante. Também deve ser dada uma natureza punitiva à
reparação, para evitar que o ofensor repita os atos que levaram a presente
indenização.

Assim, considerando, inclusive, que a dívida era de R$


2.807,00 (dois mil, oitocentos e sete reais), fixo em R$ 10.000,00 (dez mil reais) a
indenização por danos morais, não sendo tão irrisório a ponto de menosprezar o
sofrimento causado, tampouco demasiado capaz de gerar enriquecimento sem
causa à parte ofendida, em observância ao caráter punitivo, reparatório e
pedagógico desta espécie de reprimenda.

Sobre este valor, deverá incidir juros moratórios de 1% ao mês


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a partir do protesto indevido. A partir da publicação desta decisão, incidirá a Taxa


Selic, que engloba os juros e a correção monetária.

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A propósito, tendo em vista a procedência dos pedidos
formulados pelo autor, improcede o pedido de ressarcimento dos honorários
advocatícios contratuais despendidos pelo réu ao seu patrono.

Por fim, quanto ao pleito de condenação da parte ré nas penas


da litigância de má-fé, tem-se que a configuração a que se refere o artigo 80 do
Código de Processo Civil, depende da presença, concomitante, dos elementos
objetivo e subjetivo: o primeiro deles consistente no dano processual,
reconhecido no efetivo prejuízo causado à parte contrária; o segundo,
representado pelo dolo ou pela culpa grave da parte maliciosa, cuja prova há de
ser efetiva, não se admitindo meras presunções.

Sobre os pressupostos, colhe-se do Superior Tribunal de


Justiça:

"PROCESSUAL CIVIL. LITIGÂNCIA DE MÁ-


FÉ. RECONHECIMENTO. PRESSUPOSTOS.I - Entende o Superior Tribunal de
Justiça que o artigo 17 do Código de Processo Civil, ao definir os contornos dos
atos que justificam a aplicação de pena pecuniária por litigância de má-
fé, pressupõe o dolo da parte no entravamento do trâmite processual,
manifestado por conduta intencionalmente maliciosa e temerária, inobservado o
dever de proceder com lealdade" (REsp n. 418.342/PB, Rel. Min. Castro Filho, j.
11-6-2002).

Na hipótese em liça, além de não se vislumbrar a presença o


dolo da parte ré quanto ao desenvolvimento do processo, mas tão somente o
exercício regular do seu direito em apresentar defesa, também não se verifica a
presença de qualquer das hipóteses do art. 80 do Código de Processo Civil. In
verbis:

"Art. 80. Considera-se litigante de má-fé aquele que: I -


deduzir pretensão ou defesa contra texto expresso de lei ou fato incontroverso; II
- alterar a verdade dos fatos; III - usar do processo para conseguir objetivo ilegal;
IV - opuser resistência injustificada ao andamento do processo; V - proceder de
modo temerário em qualquer incidente ou ato do processo; VI - provocar
incidente manifestamente infundado; VII - interpuser recurso com intuito
manifestamente protelatório".

Portanto, não há que se falar em litigância de má-fé da parte


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ré, porquanto apenas exerceu o contraditório com a apresentação da contestação


e dos documentos de fls. 57/91, direito inclusive constitucionalmente previsto.

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Ante o exposto, JULGO PROCEDENTES os pedidos
formulados por Carlos Augusto Brun na presente Ação de Cancelamento de
Protesto, cumulada com Indenização por Danos Morais ajuizada em face de
Michel Fabricio Mott, extinguindo o feito, na forma do art. 487, I, do CPC, para,
consequência, CONFIRMAR a liminar de fls. 20/23 e DETERMINAR o
cancelamento do protesto da nota promissória n. 2, no valor de R$ 2.807,00 e
vencimento em 28/04/2006.

Oficie-se ao 2º Tabelionato de Notas e Protestos desta


Comarca para que proceda ao cancelamento do protesto do título acima indicado.

Ainda, CONDENO a parte ré ao pagamento de indenização por


danos morais no importe de R$ 10.000,00 (dez mil reais), acrescida de juros
moratórios de 1% ao mês a contar do protesto, na conformidade do art. 398 do
CC e Súmula 54 do STJ, sendo, após, aplicada a taxa SELIC, que engloba juros
e correção monetária.

Condeno a parte vencida nas custas processuais e na verba


honorária, que fixo em 10% (dez por cento) sobre o valor da condenação,
considerando o trabalho desenvolvido e o tempo de duração do processo, na
forma do art. 85, parágrafo 2o, do CPC.

Publique-se. Registre-se. Intimem-se.

Transitada em julgado e pagas as custas finais, arquivem-se.

Balneário Camboriú (SC), 15 de abril de 2019.

Dayse Herget de Oliveira Marinho


Juíza de Direito