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A POESIA ANDANDO

A NÓDOA NO BRIM

Se, em torno do segundo livro de poemas de Carlito Azeve-


do, parece ter se criado consenso positivo incomum, há um tipo, ~.fcf~
desconfiado, de comentário, também bastante repetido, sobre ele, ô•...('a..~~~
que merece reflexão. Trata-se da reclamação de que As Banhistas J.c.1i-<Â J~
seria um livro "limpo demais". Comentário marcado por indisfar- Nir~
çável nostalgia estética dos anos 70; do aspecto de espontaneida- ).w.o:i~~
de e improviso dos textos e livros mimeografados; do pacto de in-
timidade com o leitor, fundado na distribuição mão a mão, no tom
de bate-papo, no registro imediato do cotidiano; do neo-romantis-
mo de uma poesia expressiva que chegou mesmo a se a~todefinir,
a certa altura, como uma espécie de "flagra no ego". E como se,
com olhos suspensos em duas décadas atrás, e ancorados num
poema - "Nova Poética"(1949) - de Manuel Bandeira tomado
ao pé da letra, e particularmente cultuado à época, se dissesse
que faltam, emAs Banhistas, para empregar as expressões carac-
terísticas de Bandeira, exatamente "a nódoa no brim", "a marca
suja da vida".
Curiosamente, no entanto, há algo desses aspectos, cuja au-
sência se parece lamentar, retrabalhado na poesia de Carlito Aze-
vedo. A começar pela atenção (mas com vocabulário distanciado)
ao prosaico - lembrem-se, nesse sentido, do seu livro anterior,
Collapsus Linguae (1991), um poema como "Água Forte", em tor-
no de uma pequena colher de café, ou, a borboleta presa à persia-
na-em "O Monograma Turqui" , deAs Banhistas. Registre-se, ain-
da, a presença de um outro tipo, metódico, de inacabamento, di-
verso do da geração mimeógrafo, e marcado pela idéia de série,
pelo retorno ao mesmo tema, pelos sucessivos ensaios poéticos
em torno da figura da banhista. Além de um diálogo perceptível
com a poesia de Manuel Bandeira nesses exercícios de nu feminino.

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Pois se é básica, no livro de Carlito Azevedo, a retomada, Bandeira, "lugar principal da experiência, de onde o poeta olha o
nas suas descrições do corpo humano, do motivo clássico do "ba- mundo e se debruça sobre a vida", nas palavras de Arrigucci. Ja-
nho de Diana surpreendido por Acteon", isto não se realiza ape- nelas que, nos folhetos, fábulas e folhas soltas (alguns deles edi-
nas com a mediação pictórica, fundamental, e registrada desde a tados comercialmente pela primeira vez, pela UNICAMP, em Osso
capa deAs Banhistas, das dez pequenas gravuras que compõem a do Coração) de Carlos Felipe Saldanha, assumem aspecto gráfico
série "Pequenas Banhistas", exposta por Félix Vallotton em 1893, explícito e transformam-se em molduras traçadas a mão livre, in-
ou das inúmeras figuras masculinas e femininas de banhistas que terferências lineares responsáveis por uma constante redelimita-
se sucedem, sobretudo a partir de 1875, na obra de Cézanne. É ção, redefinição espacial da página. Janelas que, se apontam para
preciso acrescentar a essa referência plástica, a essas séries, o fora, para a rua, abrem-se, igualmente, em direção ao próprio su-
rastro poético do Bandeira de textos como "Poemeto Erótico" as jeito - "espiando minha alma I longe de mim mil metros"-, no
"Canções do Beco", "Alumbramento", visões eróticas do corpo João Cabral de Melo Neto de Pedra do Sono (1942). E que, se
feminino nas quais se projeta a concepção bandeiriana - anali- permitem uma bela meditação crepuscular num poema como "Qua-
sada por Davi Arrigucci Jr. em Humildade, Paixão e Morte - da se Aposentado" (1974), de Francisco Alvim, se apresentam, aí,
poesia como "alumbramento", "iluminação profana", "aparição". em parte, quase como trava ao olhar: "uma lâmina de vidro I um
Concepção próxima à idéia de inspiração e se nitidamente des- parapeito baixo sobre o qual se amontoam fichas I catálogos I em-
toante diante do aspecto construtivo dominante em As Banhistas brulhos". Aspecto sublinhado também por Carlito Azevedo em
funcionando, em meio às séries de nus, como uma espécie de "Abertura", cuja descrição de janela é, de certa maneira, um do-
contraponto, de sugestão de dúvida com relação à compreensão mar-se "o infinito à esquadria", o "além" da "púrpura sobre a
da gênese (metódica ou misteriosa) da imagem, do poema. serra" ao "aqui" das bordas de um parapeito.
E se há, de algum modo, inacabamento, traços prosàicos e a Mas é a um poema, em particular, sobre janelas, e como
presença de Bandeira, não se foge também, em As Banhistas, à "Abertura" cumprindo função de soleira num livro recente, que
observação do sujeito lírico. Nada, porém, como os "instantâneos" parece se referir diretamente o texto de Carlito Azevedo. Trata-se
do ego todo poderoso da poesia de 70. Mas é justamente um exer- de "Ouverture La Vie en Close", de La Vie en Close (publicado
cício de delimitação de ponto de vista - por meio da descrição postumamente em 1991), de Paulo Leminski. O texto de Leminski,
do espaço de uma janela (vide "Abertura") - que introduz este espécie de fantasia etimológica plurilingüística, na qual se passa
segundo livro de Carlito Azevedo. da porta à portinha e à fresta, obedece a um movimento de inte-
riorização, nítido sobretudo na sua última secção: "já em inglês I
JANELAS 'janela' se diz 'window" I porque por ela entra I o vento ('wind')
frio do norte I a menos que a fechemos I como quem abre I o gran-
A janela é uma forma de delimitação que tem história, aliás,
G"Mt~( de dicionário etimológico I dos espaços interiores". Preocupação
na literatura brasileira. E parece chamar a atenção - por oposi-
\1\) semelhante de se demarcar, de saída, a perspectiva lírica, movi-
ção - para os interiores penumbristas; para a "janela de sobra-
mento, no entanto, oposto ao "ar livre", ao esforço expositivo do-
l\~~ do" da qual se observam, em Ribeiro Cauto, "as janelas ilumina-
minantes em As Banhistas.
~&I\:i)) das em t"orno ; para t extos como "R"uço, "Noturno da Rua da
Carlito Azevedo opta por uma geometria e não por uma eli-
Lapa", "O Martelo", e para a importância do quarto na obra de
~ .mologia da janela, f a Ia "desta jane
. I" - de ".]ane I"
a e nao a apenas.

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Em vez de esconderijos da subjetividade, expõe superfícies, nus, chama a atenção, ainda, para certa tendência narrativa, para a
; demarca as bordas, a moldura prévia à sucessão de corpos do preocupação com um redimensionamento temporal do poema, que
co o jacente, na bela referência ao suicídio do oeta Ser. uei se têm definido na poesia brasileira sobretudo a partir de meados
lessiênin ue é "Hotel ln laterra", ao co o entre flores de "A
dos anos 80.
Morte do Mandarim", aos" corais no corpo contra o tédio do amor"
de "Contra Naturam"), de banhistas (dez ao todo), de telas ba- OS TEMPOS DA ÚRICA

nhadas ("uma tela banhada é uma banhista Mlas! e não usamos I Lembrem-se, nessa linha, tematizações explícitas recentes
mais modelos vivos"), que compõem seu livro. Não é para uma
dessa preocupação mais acentuada com o tempo lírico. Como a
.
interiorização lírica, portanto, .
que aponta a Jane Ia d e "Ab ertura " ,
reflexão sobre a exigência de brevidade para o poema, desenvol-
mas para o impulso de objetivação característico da poesia de
vida por meio da imagem do "nado de peito" e de uma escrita
Carlito.
propositadamente "enrodilhada", em "Nadando", de João Moura
E, apontando, igualmente, nesse movimento, nesse diálogo
Jr.: "Nadar: um poema longo I em redondilha maior I com anda-
com Leminski, para um duplo afastamento de dois dos pontos de
mento de prosa I em que é difícil manter I o mesmo ritmo sempre
referência da produção poética característica dos anos 70: a com-
I (Poe não dizia que um poema I deve necessariamente I ser bre-
preensão expressiva da literatura, convertida numa espécie de
ve?). Começa-se a I arfar, os músculos pesam, I respira-se irregu-
diário egolátrico-geracional, e o privilégio, no que se refere ao
lar- I mente, o nado, apesar de I clássico, agora assemelha-se Ia
aspecto temporal, do "instante qualquer", do imediato, do "re-
um poema moderno I (ou a um desaprendizado), I um poema que
cém-vivido", evidente na transform~~ão ~o poerr:,a-minuto e~ g~- tivesse I uma piscina por tema, I e um nadador que insistisse, I já
\ nero todo poderoso então. Ao contrano, e como ponto de vIsta,
que escrever poesia I (principalmente hoje em dia) I é uma espé-
Sy)~.)...o não como "personalidade", que se expõe o sujeito em As Banhis-
ie de nada. I Nada. Nada. Nada. Nada."

r
/;: ~~l~'~E,
\.tiS"
afa~amento poderoso, é sobretudo como forma de desm~n-
' tagem do "momento", da percepção temporal mais característIca
Irfi'8llJi~~" da lírica, que parece funciona~ o estreitam~n.to de laç~s com o
Como a reflexão sobre o caráter de "still moment" da ima-
'em poética, empreendida por Rodrigo Garcia Lopes em "Como
uma paisagem", por meio do contraste entre fixidez, silêncio, e
..J- , universo pictórico, em especIal com as senes de Cezanne e
·orrenteza, incompletude: "Como uma paisagem I: uma imagem I
krtotútlhmVallotton nesse segundo livro de Carlito Azevedo. Este, e não a
nunca se completa. I É preciso quase tê-Ia I captá-Ia I num segun-
jQ I/Y.Á.(flAUI/{ltnódoa ou' não no brim, o corte decisivo com a" oética" mas não
do I Depois deixá-Ia I quieta I cuidando de si mesma. I Os olhos
com toda a oesia de 70.
d 'vem devolvê-Ia. I Nunca tentar retê-Ia I - mosca na teia I ou
Corte temporal expresso, aliás, de cara, em As Banhistas,
19ua I num aquário. I Ela apodreceria assim I em silêncio".
antes mesmo do poema "Abertura", entre a capa e a página da
Lembre-se, ainda, texto um pouco mais antigo de Augusto
epígrafe, entre a sugestão inicial de movimento, contida no título
do Campos, e intitulado significativamente "Inestante" (1983). Aí,
e na "Menina tirando a roupa", de Valloton, e, logo em seguida,
f til meio a uma composição com linhas horizontais em intervalos
de imobilização do instante, expressa na epígrafe geral - "How
If guiares, quebradas, todas elas, por palavras (es, dis, bas, desgas,
motionless! - not frozen seas / More motionless!" - tirada de
111I-1, res) das quais se suprime um mesmo final invisível (tante) e
Wordsworth. Tensão entre temporalização efiguração, momento e
por uma ênfase gráfica vertical nos intervalos intervocabulares,
sucessão, o poema e a série, que parece fundamental ao livro. E

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se contrapõe a fixidez da imagem inicial e final do poema ("Os quenas formas soltas, Ana Cristina tanto explora, aos pou 8, lodo
livros estão na estante") a uma temporalização explícita ("Este o espaço de cada folha, mesmo as espirais que prendem o ·ud( 1'_
instante já é outro instante"), se acrescenta ao movimento de es- no, quanto sugere sequências, pequenas histórias gráficas, por m 'io
pacialização da escrita, característico, aliás, do projeto concreto, da repetição das formas página a página.
a afirmação de um movimento temporal plurilinear para o discur- Outra forma, descontínua, de temporalização do poema t m
so poético. sido, na literatura brasileira das décadas de 80 e 90, a série. D 0-0)
Preocupação temporal que tem dado origem a soluções for- que são exemplos significativos tanto "Serial", díptico em torno
mais bastante diversas. Como a reutilização de recursos da poesia da melancolia incluído em Quarta do Singular (1989), de Ronaldo
narrativa tradicional, por exemplo. Lembrem-se os "casos" nar- Brito, quanto a sucessão de supressões em abismo que configu-
rados em Crime na Calle Relator (1987), de João Cabral de MeIo ram o "Sem Nem" (1993), de Frederico Barbosa, quanto o con-
Neto. Lembre-se o Finismundo(1990), de Haroldo de Campos, junto de poemas em torno do pôr-do-sol em 33 Poemas (1990), de
relato, a partir de sugestão presente no Inferno de Dante, de uma Régis Bonvicino, quanto as versões de "A Linha Desigual" ou as
última viagem de Ulisses, construído sob a forma de colagem de "Noten zur Dichtung" do livro Cortes/Toques (1988) de Sebastião
dois tempos antagônicos: o da épica clássica, em que o guerreiro Uchoa Leite.
"ousa o mais", "a proibida geografia do Éden"; e o contemporâ-
neo, sem "nem sinal de sereias", onde o Eden é só "um postal" e ASSIM COMO A PINTURA, A POESIA?
"Périplo? Não há.".
Como o estreitamento de laços com a prosa, característico No caso de Carlito Azevedo, porém, a série parece servir a
tanto das pequenas fábulas de Carlos Felipe Saldanha, quanto de um duplo fim. Sim, até mesmo pela escolha, como referentes plás-
textos em que se parece buscar uma redefinição crítica do poema ticos de seu livro, de duas séries marcadas por uma preocupação
em prosa, como "Outros Passos"(1993), "Nesta Noite" ou "Nn 2 central com o movimento, com a figuração de corpos em movi-
Sense Prose"(1990), de Régis Bonvicino; "Pétalas" ou "Página", mento, o recurso à série funciona, de fato, como afirmação de uma
do livro Poros (1989), de Rubens Rodrigues Torres; "Um sonho outra imagem temporal, que não apenas a do minuto, da suspen-
de Fra Angelico", "Outro sonho alegórico: de Carpaccio", "O ar- são no instante presente, para a poesia. E, no entanto, o simples
tista e o coiote", "As categorias límpidas", "Worm hole", em A privilégio das artes visuais como discurso artístico de referência
Ficção Vida (1993), de Sebastião Uchoa Leite. para o seu método poético, impõe, de saída, o problema, tantas
Como o trabalho com a linha, o rabisco, o desenho, entendi- vezes recolocado na história da arte e dos gêneros artísticos pós-
dos como recursos rítmico-narrativos. São exemplares, nesse sen- Lessing, da possibilidade do movimento na pintura.
tido, "Passos para a Transfiguração"(1989), de Manoel de Bar- ~'A intura só ode re resentar um momento único de uma
ros; "Asas"(1990) e "Eu sumo de mim"(1986), de Arnaldo Antu- a ão e, ortanto, tem ue selecionar o momento mais fecundo , o
nes; o Caderno de viagem a Portsmouth (1980), de Ana Cristina ue melhor nos ermite inferir o ue ocorreu antes e o ue se
Cesar, na verdade, um estudo de ritmo, ao que parece inspirado ~ue", observa Lessing no Laocoonte (1766). E Carlito Azevedo,
tanto pelos écrits bruts, sobretudo os de Francis Palanc, quanto ar vezes, em As Banhistas se a roxima dessa fixação de um
por um livro como Mouvements (1951), de Henri Michaux. Nele, unctum tem oris. Como em "A Morte do Mandarim": "Não passe
com base no movimento ora dispersivo, ora concentrado, de pe- o tempo, não / corra o rio, não cintilem / novos atritos, apenas / o

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repouso dessa moça I e o jogar do damasqueiro I tornando-se um


em veludo I e alvo r, apenas isso I deve existir, e existe". Entretan-
to, e não apenas na série, há como que uma imposição rítmico-
reflexiva de outro quadro temporal. Não é à toa que se desenvol-
ve, então, a belíssima imagem da ampulheta para a cópula amoro-
sa em "Por Ela": "invisível, faz do corpo I dela o seu. Repara I
ainda um pouco, mais I do que se pensa ele a I perdeu: com a
areia do I seu deserto amoroso I ergueu-lhe sua triste ampulheta.
Fim". E se aí o tempo escoa, contínuo, é a sucessão descontínua
da série, de uma forma de expressão baseada na repetição, nas
variações sobre um mesmo motivo, na múltipla observação de cada
versão em função das que a antecedem e sucedem, que impõe, em
As Banhistas, uma imagem poético-temporal singular.
"S~p're vivemos o verso", diz Roman Jakobson, "sob uma
forma co~lexa: a sensa ão imediata do resente o retorno do
olhar sob o im ulso dos versos recedentes e uma anteci a ão
dos versos seguintes". É como se, em parte, Carli to convertesse ~
9ada poema numa espécie de verso extenso de uma unidade poé-
,tica, extra-poemática, submetida a forte temporalização interna,
e, no entanto, coesa: o próprio livro como um todo. Aproximando-
#. se, dessa maneira, daquele que parece ser o interlocutor funda-
(~hJ~c.,.l«mental na sua adoção de uma técnica serial: João Cabral de Melo
fr \ (~k Neto. Em especial o Cabral dos dípticos de A Educação pela Pe-
mo dra(1965), de séries como a do(s) Poema(s} da Cabra, de Quaderna
0}ryJ) (1959), de secções inteiras dedicadas ao mesmo tema, como se
'/ faz com a morte em "A Indesejada das Gentes", de Agrestes (1985).
Aproximando-se, igualmente, nessa acentuação dos elementos
dinâmicos da expressão poética, de um esforço marcado, como se
viu, de redimensionamento temporal na literatura brasileira con-
temporânea. O que sugere um ensaio, por meio desses exercícios
com um tempo épico, narrativo, em território lírico, de redefinição
do próprio tempo, da própria hora histórica.

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