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Interpretações Cabalísticas de Pêssach

Pensamentos sobre rituais e mitsvót,


a mente e a alma

Yair Alon

Em todas as festas cabalísticas temos um momento especial no Uni-


verso, em que uma janela cósmica se abre para que possamos receber uma
Luz Divina enquanto dura a celebração. Com Pêssach não é diferente.
A Hagadá diz que “em todas as gerações, as pessoas têm a obrigação
de verem a si mesmas como se tivessem saído do Egito”. Isso mostra
claramente que o Êxodo não é apenas um evento em nosso passado, mas
um evento que ocorre continuamente, com cada um de nós, e que, mais
do que isso, recebe um influxo maior de energia anualmente, na noite
do Sêder.
O Sêfer Ietsirá, a obra prima para quem quer entender a estrutura
do Universo, afirma que existem três domínios gerais: Olam, Shaná
e Néfesh. Cada um desses domínios se manifesta em algo no mundo
físico. Olam (mundo) se refere à dimensão do espaço e se manifesta nas
propriedades de largura, comprimento e altura. Shaná (ano) se refere à
dimensão do tempo e se manifesta na passagem do tempo, as noções de
passado, presente e futuro. Essas duas dimensões juntas são o que hoje
conhecemos como continuum espaço-tempo. No entanto, há esse terceiro
elemento que a maioria das pessoas sequer tem ideia de como se conecta
e se relaciona aos outros dois. O terceiro elemento se chama Néfesh (alma)
e se manifesta em nosso mundo principalmente através do reino da mente
e de seu produto: o pensamento.
Pergunte a um cientista de onde vêm os pensamentos e ele dirá que
eles não “vêm” de lugar algum, eles simplesmente surgem, frutos de
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sinapses neurais. A Cabalá discorda, e diz que o cérebro e suas sinapses


são apenas o meio físico que manifesta os pensamentos; são os efeitos do
pensamento, e não sua causa. A “causa” dos pensamentos é a mente que,
por sua vez, é a manifestação física da alma.
O pensamento, ou, se preferir, o poder da mente, é uma dimensão
hierarquicamente superior ao Olam e Shaná, e por isso é a mente que
governa o continuum espaço-temporal em que vivemos. Isso significa
que é através do poder da mente humana que somos capazes de nos
elevarmos e nos libertarmos da prisão constritiva de nossas formas
materiais. É através do poder da mente que podemos experimentar o
que significa ser almas livres; é em nossos pensamentos que conseguimos
nos libertar das armadilhas e prisões do mundo físico e dos nossos cinco
sentidos sensoriais.
Pêssach é justamente a festa dessa liberdade, e os rituais do Sêder de
Pêssach permitem que a nossa alma seja realmente liberta, experimentando
o arrebatamento da «liberdade espiritual». No entanto, para que isso
ocorra, o Sêder deve ser observado ritualisticamente, em todos os seus
detalhes. É esse o poder de um ritual – atingir diretamente a alma e a
mente. Mas, mais do que meros atos executados em uma certa ordem e de
maneiras específicas, para que o ritual seja efetivo, deve-se ter as cavanot
(intenções) corretas relacionadas a este momento especial do calendário.
É esse aspecto mental – e não apenas o físico – que permite que o Sêder e
a Hagadá sejam transformados em uma plataforma de ascensão espiritual
e de libertação mental.
Para entendermos melhor, portanto, que intenções são as que nos
levam à liberdade, cabe falar um pouco sobre como funciona a nossa
mente e a sua relação com a alma.
A nossa mente possui dois modos de operação. O primeiro deles faz
com que existamos e interajamos com o mundo exterior através de nossos
processos sensoriais cerebrais (ver, ouvir, etc.). Esse modo de operação da
mente é o que nos faz interagir com estímulos do mundo externo e que
nos explica o que está ocorrendo no mundo que nos rodeia.
No entanto, há um segundo modo, inteiramente diferente, e que
se relaciona com um mundo muito maior que o mundo externo. Este
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segundo modo de operação da mente se foca em nosso mundo interno.


É o aspecto da mente que lida com coisas como consciência, imaginação,
ideias, e os próprios pensamentos de que falamos anteriormente. Este
mundo interno mal nos é familiar, e nele os nossos cinco sentidos físicos
pouco ou nada valem. Um dos jeitos mais comuns de entrar em contato
com esse mundo interno, ativando o segundo modo de operação da
mente, são os sonhos. No entanto, todo mundo já passou pela sensação
de ter tido um sonho incrível e maravilhoso, extremamente profundo e
tocante, e, depois de despertar, em poucos minutos, se esquecer do que
sonhou. Isso ocorre porque a realidade externa e sensorial é muito mais
forte para a maioria dos seres humanos, e ela domina com muito mais
facilidade a nossa mente.
Tudo o que percebemos com o segundo modo de operação da mente
em geral fica super-escondido e enterrado em nossa alma. É aquilo a que
os psicólogos chamam de repressão primária, e que forma grande parte
do nosso inconsciente. Mas não se engane. Só porque nossa consciência
do nosso mundo interno é empurrada para os recônditos de nossa alma,
ficando nos locais mais profundos da nossa mente, isso não significa que
esse material mental todo passa a ser insignificante ou inoperante em
nossa vida. Pelo contrário, tudo isso que jogamos no inconsciente dirige a
nossa mente consciente sem que sequer percebamos. É como um diretor
de teatro que tem controle sobre todos os detalhes de uma peça, mas que
passa totalmente despercebido para os espectadores.
Tudo o que é processado por esse segundo modo mental se manifesta
na forma como interpretamos o mundo sensorial externo (nosso primeiro
modo mental). O inconsciente dita – repito, sem que percebamos – nossos
sentimentos, nossos humores, nossas reações, nossa maneira de ver o
mundo. Todas as atividades da vida que não usam nosso módulo mental
completamente analítico e racional são influenciadas pelo inconsciente.
Cada vez que olhamos para algo no mundo externo e sensível, a não ser
que empreguemos o primeiro modo da mente (racional-analítico), estamos
sendo influenciados pelo que temos gravado em nosso inconsciente. É
como olhar o mundo com óculos que nós criamos. O inconsciente seria
o grau, a cor, a espessura e o material das lentes.
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Todos os nossos pensamentos, mesmo os mais conscientes e lúcidos,


estão, de um modo ou de outro, contaminados por algum preconceito,
preferência ou predisposição inconsciente que temos em nós. Fica fácil
perceber que, assim, nossa mente não nos permite ver a realidade como
ela é, mas sempre através de filtros, que, portanto, deturpam a realidade.
Na linguagem cabalística não falamos de óculos, mas de véus (existe
outra palavra para isso que veremos adiante). Esses véus ficam diante dos
nossos olhos e cobrem a verdadeira natureza do mundo que nos rodeia.
Isso significa que nós nunca estamos vendo um objeto de forma direta e
imaculada, mas sempre uma versão pessoal daquele objeto, filtrada pelos
véus que a minha própria mente inconsciente impõe a mim mesmo.
Os cabalistas desde sempre sabem do problema que é enxergar e
perceber o mundo através de véus, e por isso sempre falaram da necessidade
de des-velar (tirar o véu) ou re-velar (remover o véu) nossos olhos e nossa
mente. O assunto dos véus foi tão estudado pela Cabalá, e considerado
tão grave, que acabou recebendo um nome especial: klipot (lit. “cascas”).
No domínio mental, as klipot são responsáveis por nos dar uma mente
defeituosa: parcial e que não apreende a realidade como ela é. São as klipot
que fazem com que exista uma espécie de “segundo” eu na percepção do
mundo, um “eu” que olha e age no mundo de maneira enviesada, e não
corresponde ao meu verdadeiro “eu”.
Os cabalistas ensinam que nossa mente começou a operar assim como
resultado do pecado de Adão com a Árvore do Conhecimento do Bem e
do Mal. De maneira resumida, comer do fruto proibido do conhecimento
fez com houvesse um defeito no modo de conhecer o mundo, e isso se
estendeu a toda humanidade (já que todos somos filhos de Adão).
Isaac Luria nos ensina que todas as almas que hoje existem estavam,
originalmente, unidas como uma grande super-alma em Adão. Todas
as almas individuais que já existiram no mundo eram, nos primórdios
do Universo, apenas partes-componentes da super-alma de Adão. Foi
depois da queda que as almas se fragmentaram e passaram a representar
consciências e mentes individuais.
No entanto, apesar da queda, Luria afirma que ficou marcada em cada
alma uma lembrança do momento em que todas elas eram um só todo
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unificado. Assim, apesar de estarmos hoje com nossas mentes separadas


e fragmentadas, gravado em nosso âmago, profundamente dentro de
nós, temos ainda uma lembrança residual do estado original de unidade
compartilhada por todas as almas. Temos noção consciente de nossa mente
individual, mas inconscientemente temos lembranças da mente coletiva
da humanidade. Isso significa que, de certa forma, no nível mais profundo
da psique humana, nós, como “raça” humana, temos uma mente comum.
Isaac Luria e outros grandes cabalistas dizem que é nossa obrigação
pessoal lembrar-se de qual parte do corpo celestial de Adão nossa alma
veio. De todo o exposto, fica claro que isso exige que nos lembremos e
acessemos algo que está em nosso mais profundo inconsciente.
Isso é um problema.
Como podemos chegar a esse conhecimento de tão difícil acesso?
Coisas inconscientes muito mais “óbvias” não são percebidas por nós
com facilidade, que dirá de algo extremamente antigo, que nem sequer
sabemos onde está, e que algumas pessoas nem sabem que existe (por não
ter acesso ao tipo de conhecimento transmitido nesse texto).
É praticamente impossível para o ser humano mergulhar nas
profundezas de sua mente desconhecida sem orientação e sem ajuda. Ir
buscar essa informação sem ter alguma direção ou guiamento seria uma
tarefa inútil, fadada ao fracasso. Ainda quando uma pessoa consegue
acesso a uma informação oculta extremamente esclarecedora, pode ter
certeza que isso só ocorreu porque o inconsciente guiou a pessoa até ali
e deu permissão para que aquilo fosse revelado.
Como uma pessoa pode então aprender a navegar pelo seu mundo
interior de maneira bem-sucedida até chegar a conhecer a origem de sua
alma? Como podemos superar a queda e a perda de nossa estatura original
para voltarmos ao estado da mente pura e não-adulterada pelas klipot?
Sozinhos, na tentativa e erro, não temos chance alguma. No entanto,
felizmente o Criador do Universo nos deu meios para realizar a retificação
de nosso estado de queda. Mais do que meios, Ele nos deu o roteiro, o
guia, o manual de instruções que nos permite fazer isso: a Torá.
Nesse sentido, a Torá é um manual de instrução para recuperar o
que perdemos – e se aplica a toda a “raça” humana. Na verdade, alguns
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cabalistas chegam a dizer que sem a Torá sequer podemos nos considerar
parte da raça humana. Segundo esses cabalistas, só podemos nos considerar
humanos (adam) quando estudamos e colocamos em prática aquilo que
a Torá ensina.
Vamos aprofundar um pouco nossa análise sobre a mente. Como foi
dito, nossa mente possui dois modos de operação: o consciente-lógico-
racional-analítico e o inconsciente. Cada um desses modos tem uma
linguagem própria. O modo número 1 é verbal e usa as palavras e regras
dos idiomas que aprendemos quando criança. O modo 2, inconsciente,
não conhece e nem reconhece as palavras, ele é não-verbal (alguns dizem
“pré-verbal”) e se expressa por meio de imagens, intuições ou sensações
(não confundir com sentimentos e emoções).
Ambos os lados são importantes e cada um deles tem suas próprias
necessidades e exigências, precisando ser alimentado e nutrido com
o que é de seu domínio. A mente racional e consciente se alimenta de
estímulos intelectuais, do mundo ao nosso redor, de lógica, de razão, de
estudos como a ciência e a matemática. A mente intuitiva e inconsciente
se alimenta de sons e imagens, e coisas como as artes e a música.
Como ambos os lados são parte integral do humano, não nos tornamos
mais humanos ao eliminar um dos tipos de alimento mental de nossa
vida, ao contrário do que acreditam algumas pessoas. Cabalisticamente,
a pessoa que não tem apreciação por ou não vê necessidade em todos os
itens mencionados padece de um problema cognitivo-espiritual. É essência
humana buscar pela arte e pela matemática, pela música e pela ciência.
Nesse ponto, e à luz de tudo o que foi exposto, conseguimos começar a
compreender e apreciar melhor a importância que um ritual tem na vida
humana. A execução de atos rituais fala diretamente com a linguagem
imagética da mente inconsciente, e, portanto, com a alma.
Assim como temos a necessidade de nos comunicarmos com o nosso
mundo físico através da linguagem e dos idiomas, é preciso falar com
o mundo espiritual, e isso é feito com a linguagem da alma, composta
basicamente de imagens, símbolos, sensações e rituais.
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Ao falhar em suprir as necessidades de nosso inconsciente, o que sofre


e pode acabar por morrer é a nossa alma, mas isso também traz efeitos
desastrosos para a mente consciente.
Esse é o motivo pelo qual o Criador nos deu rituais específicos para
se executar. São atos que alimentam nossa mente inconsciente, que falam
com nossa alma e trazem conhecimento do tipo que não é racional,
conhecimento que não é adquirido por meio de livros, mas por meio da
vivência e do contato com o mundo interno.
Se quisermos ser mais exatos e detalhistas, essa nossa mente inconsciente
é dividida em 613 partes, simbolizadas nas 613 mitsvót da Torá. Chaim
Vital expõe claramente esse ponto no Shaarê Kedushá, um livro que
foi proibido de ser impresso por muito tempo. Ele diz que assim como
existem 613 mitsvót da Torá, existem 613 partes correspondentes à alma
e, portanto, se alguém não cumpriu até mesmo apenas uma mitsvá, sua
alma está maculada e incompleta.
Ao ter este lado inconsciente suficientemente alimentado, ele passa a ser
mais equilibrado, promovendo então um equilíbrio psíquico-psicológico
interno natural. Passamos a ter uma resolução interior muito maior do que
a média humana e um conhecimento da verdade e de valores espirituais.
Chegar a esse nível é atingir o que a Cabalá chama de Chochmá.1

1 Embora Chochmá signifique “sabedoria”, na Bíblia o termo tem um significado mais


amplo do que o vocábulo em português. Chochmá denota, além de agudeza intelectual e
sagacidade, domínio de técnicas artísticas como fiar (Êxodo 35:25), trabalhar com metais,
madeira e pedra (Êxodo 31:3-6), navegar (Salmos 107:23-27) e capacidades mais sutis
como interpretar sonhos (Gênesis 41:8), chorar [em especial por motivos espirituais]
(Jeremias 9:16-17), praticar encantamentos e feitiços (Isaías 3:3), compor provérbios,
músicas e produzir ensinamentos sapienciais (1 Reis 5:9-14), aconselhar e acalmar,
especialmente promovendo diplomacia (2 Samuel 20:16-22, 1 Reis 2:6, 2:9 e 5:26),
Livros como Provérbios, Jó, Eclesiastes e o apócrifos Ben Sira e Sabedoria de Salomão
afirmam que a sabedoria é o que leva ao temor a D’us. Nesses livros – especialmente em
Provérbios – são marcas daquele que chegou em Chochmá: dedicação, integridade de
caráter, comportamento circunspecto, alegria de viver, fala aprazível, efetiva e verdadeira.
Ainda segundo esses livros, essas características conferem honrarias sociais, segurança e
estabilidade, e proteção da ira divina em caso de transgressões e pecados.
Há casos de pessoas que recebem o espírito de sabedoria como um dom de D’us
(Êxodo 28:3), casos de destaque sendo os reis eleitos (Isaías 11:1-2), Salomão (2 Crônicas
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Para o homem moderno, em geral extremamente racional e secular,


entregar sua mente a um domínio “nebuloso” e espiritual é visto como algo
ofensivo, obscurantista, retrógrado e primitivo. Mas posso afirmar que se
trata de uma necessidade humana das mais fundamentais e importantes.
Aqueles que interpretam o mundo racionalmente e com isso acham que
estão satisfazendo a fome do espírito estão cometendo um grande erro,
pois o espírito é maior do que o intelecto, e abrange a este último.
É, em partes, para submeter o intelecto ao espírito que Deus colocou
mistérios no Universo, coisas que nos assombram, nos espantam, nos
deixam boquiabertos, e que nos tiram as palavras (típicas do mundo
racional-externo). Mas além dessas experiências que fogem ao nosso
controle, Deus também nos deu coisas em nosso controle que podemos
utilizar para causar a mesma submissão intelectual e a prevalência da alma.
Isso é especialmente óbvio e relevante no Pêssach e seu ritual: o Sêder.
é o dia da independência israelita. Foi neste dia, anos atrás, que nossos
ancestrais foram «milagrosamente libertados de nossa escravidão aos
egípcios». A maneira miraculosa que trouxe a redenção é bem conhecida,

1:10-12) e Josué, líder sucessor de Moisés (Deuteronômio 34:9). No entanto, em geral,


adquirir sabedoria é fruto dos esforços humanos (Provérbios 3:13,4:5, 4:7, 23:23, 29:15).
Apesar de ser identificada com uma energia masculina na Árvore da Vida, nos textos
bíblicos Chochmá é claramente personificada por mulheres. Nos nove primeiros Provér-
bios vemos como ela é encontrada nas ruas, mercados, portões da cidade e em sua casa,
oferecendo vida aos que a seguem. Mesmo quando um homem atinge Chochmá, a Bíblia
expressa isso como um ato de estar se unindo a uma mulher, casando com ela ou tendo
relações sexuais com ela (Provérbios 4:5-9, 7:4, 5:15-19, 31:10-31). É de especial interesse
a citação direta às mulheres sábias de 2 Samuel (14:1-20, 20:16-22).
Ao falar de sabedoria no âmbito divino – e não humano – os verbos usados em Pro-
vérbios significam “adquirir [uma esposa]” e “gerar” ou “parir”, o que fez muitos cabalistas
se perguntarem se Chochmá seria, então, a esposa de D’us ou a Sua filha, uma criação de
D’us? Seja como for, fica claro em Provérbios (e outros textos apócrifos) que Chochmá
foi uma parceira de D’us na criação do mundo.
Aparentemente, na época do Talmud os Sábios acharam problemático identificar
Chochmá-Sabedoria com uma mulher, talvez reticentes com as figuras femininas surgindo
nos primórdios da religião cristã e tradições gnósticas, e, assim, no Talmud a Chochmá foi
substituída pela Torá, fazendo com que os estudiosos de Torá se chamassem, portanto,
chachamim (Sábios).
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e vários filmes foram feitos sobre isso. O que poucos conhecem é o efeito
anímico (de alma) que essa redenção teve sobre o coletivo de Israel, nos
níveis mais profundos de nosso inconsciente.
Os cabalistas revelam que todas as almas de Israel, nascidas ou não na
época, foram redimidas e deixaram o Egito junto com nossos ancestrais.
Daqui fica claro que existe uma relação única entre as almas nascidas e as
não-nascidas. Não carregamos apenas os genes de nossos ancestrais; mas
também carregamos suas memórias. É esta fonte de memórias coletivas
que criam a noção de um povo (qualquer que seja) e que permite a uma
pessoa se identificar a um grupo coeso, independentemente da passagem
do tempo e do espaço. É assim que hoje um norueguês do século XXI pode
se identificar com o povo viking que viveu na Escandinávia no século X;
ou que um chinês morando no Brasil continua se identificar com o povo
chinês que há mais de 3.000 anos habita as margens do Rio Amarelo.
É pelo fato de nossa alma, hoje presente em nós, ter estado no
Egito há milhares de anos, que faz sentido utilizar a Hagadá e relatar
a história do Êxodo. Esse relato permite que nos (re-)lembremos
do que carregamos no mais profundo de nosso ser e que possamos
mais facilmente identificar de onde viemos, e, consequentemente,
para onde vamos.
Ao comer matsá e maror, beber as quatro taças de vinho e realizar
o Sêder, estamos abrindo nosso inconsciente e permitindo que ele se
expresse de maneira muito mais fácil e fluida; estamos construindo
uma ponte que nos leva ao recôndito de nosso ser e que nos revela
novas informações sobre nós mesmos. É por isso que ao participar
de eventos ritualísticos, as reações que devemos esperar em nós são
de cunho emocional e intuitivo, e não nada no sentido intelectual ou
racional (embora isso também ocorra). A pessoa que participa de
um ritual místico tentando entender logicamente o que está sendo
feito é como a pessoa que se para diante de uma obra prima de Van
Gogh e começa a se perguntar qual seria o nome da cor usada para
pintar Os Girassóis ou a espessura do pincel utilizado para desenhar
o céu de Noite Estrelada. Cumpre corretamente o Pêssach aquele
que, através do ritual, alinha seu inconsciente, acalma seus tumultos
10 interpretações cabalísticas de Pêssach

psicológicos internos, restaura a saúde mental e sai do evento com a


alma mais leve, percebendo que a vida se tornou um pouco melhor
em diversos níveis: físico, emocional, intelectual e espiritual.

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