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LITERATURA BRASILEIRA II (2018)

PROF. IVAN MARQUES

PRIMEIRA AVALIAÇÃO

Escrever um breve ensaio sobre as obras poéticas de João Cabral de Melo Neto e Orides Fontela, comparando-as com base na leitura e interpretação dos poemas abaixo reproduzidos. Escolher um entre os três pares de poemas. Utilizar como apoio a bibliografia indicada no curso.

OPÇÃO 1: poemas “A bailarina”, de João Cabral, e “Bem-te-vi!”, de Orides Fontela.

OPÇÃO 2: poemas “A Carlos Drummond de Andrade”, de João Cabral, e “Para CDA”, de Orides Fontela.

OPÇÃO 3: poemas “Estátuas jacentes”, de João Cabral, e “A estátua jacente”, de Orides Fontela.

Tamanho: 2 páginas (entre 5 mil e 6 mil caracteres com espaços)

Valor: 5 pontos

Data de entrega: 15 de outubro

POEMAS DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO

A BAILARINA

A bailarina feita

de borracha e pássaro dança no pavimento anterior do sonho.

A três horas de sono,

mais além dos sonhos,

nas secretas câmaras que a morte revela.

Entre monstros feitos

a tinta de escrever,

a bailarina feita

de borracha e pássaro.

Da diária e lenta borracha que mastigo. Do inseto ou pássaro que não sei caçar.

(O engenheiro, 1945)

A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Não há guarda-chuva contra o poema subindo de regiões onde tudo é surpresa como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva contra o amor que mastiga e cospe como qualquer boca, que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva contra o tédio:

o tédio das quatro paredes, das quatro

estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva contra o mundo cada dia devorado nos jornais sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva contra o tempo, rio fluindo sob a casa, correnteza carregando os dias, os cabelos.

(O engenheiro, 1945)

ESTÁTUAS JACENTES

1

Certas parecem dormir de um sono empedernido que gelasse seu sangue, veias de arme rígido;

e que as veias de ferro

lhe fossem interno cárcere,

aprisionando o corpo entre enramadas grades.

2

Outras como que dormem do sono empedernido mas não interno, externo, ou de um sono vestido;

estão como vestidas de sua morte, engomadas, dentro de seus vestidos duros, emparedadas.

(Museu de tudo, 1975)

POEMAS DE ORIDES FONTELA

[BEM-TE-VI]

O pássaro ines

perado

O

som

silencioso, vivo, dul

pássaro agreste. O

císsimo.

BEM-TE-VI!

BEM-TE-VI!

Bem te vi, sim

leve

pousado

no último altíssimo no fragílimo galho.

Pássaro

no paraíso

dos pássaros.

Bem-te-vi (vendo-me?)

desenho

vivo

no último andar

de um sonho.

(Rosácea, 1986)

PARA CDA

I

O

boi é só. O boi é

só. O

boi.

II

Que século, meu Deus! disseram os ratos.

III

Perdi o bonde (e a esperança), porém

garanto

que uma flor nasceu.

IV

Opa, Carlos: desconfio que escrevi um poema!

(Teia, 1996)

A ESTÁTUA JACENTE

I

Contido

em seu livre

abandono

um dinamismo se alimenta

de sua contenção pura.

Jacente

uma atmosfera cerca de tal força o silêncio

como se jacente guardasse o gesto total do segredo.

II

O

jacente é mais que um morto: habita

tempos não sabidos de mortos e vivos.

O jacente

ressuscitado para o silêncio

possui-se no ser

e nos habita.

III

Vemos somente o repouso comO uma face neutra além de tudo o que significa.

(Mas se nos víssemos no verbo totalizado forma que se concentra além de nós

(Mas se nos víssemos na contenção do ser

o repouso seria

expressão nítida.)

Vemos apenas

repouso:

contenção da palavra

no silêncio.

IV

Jaz

sobre o real o gesto

inútil: esta palma.

A palavra vencida

é para sempre inesgotável.

(Transposição, 1969)