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Resenha do artigo: “A pictografia da tristesse: uma antropologia do nation-building

nos trópicos”, de Otávio Velho. In: Ilha (5), 2003.


Fernanda Marcon

Assumir a posição de antropologia periférica através de uma caricatura


problematicamente constituída de antropologia nacional – como uma estratégia de revés
ao problema da assimetria das antropologias mundiais – parece ter desapontado alguns
críticos, do centro, mas também da periferia. No entanto, como analisa Velho em seu
artigo, este papel não foi assumido por completo no Brasil e em outros contextos
terceiro-mundistas. Mais do que isso, a construção (picto)gráfica das ditas antropologias
periféricas, obviamente, não se deu em uma única direção – o que coloca a construção
dos centros sob uma outra ótica, ou pelo menos, com a expectativa dela.
Ao discutir a posição desenvolvida por George Stocking Jr. em um posfácio de
1982, Velho questiona a visão orientalizante e exoticizante de alguns antropólogos de
centro (e centrais) com relação aos mecanismos de inserção de nossa antropologia em
uma possível crise pós-colonialista da disciplina, quando se procura entender a
modernidade como um projeto malogrado - principalmente a partir da perspectiva sobre
os periféricos que aderiram a ele. Para Velho, mais do que encenar um ressentimento
sobre as expectativas decepcionantes quanto ao posicionamento de intelectuais
brasileiros por parte de Stocking e Rorty, seria interessante entrever o que poderia ser
uma questão reversa. Nesse sentido, o projeto de “indigenização das ciências sociais”,
ou mesmo do ocidente, apontado pelas críticas de pesquisadores do terceiro mundo,
revela uma inversão de posições que não parece ter resolvido o problema de como os
“saberes locais” se constituem em um mundo de trocas trans-locais – ou em um “jogo
cultural global”, como definem Abaza e Stauth (1990). Pois é justamente a partir deste
jogo que se formam as essencializações sobre os saberes locais, uma armadilha da
modernidade, da qual as antropologias nativas não escapariam apenas pelo desejo de
simetria universalista do centro.
A antropologia no Brasil ganhou um status intelectual e institucional a partir da
década de 1960, nos fala Velho, e, assim, passou a reivindicar alguma autonomia e
integração, ao mesmo tempo, com relação às antropologias mundiais. No entanto, este
marcar posição acabou por envolver um “duplo vínculo” de nossa antropologia, com o
centro, e com o nation-building, tendo sempre como referência o primeiro. Sabemos da
importância que, antes dos 1960, e depois, obtiveram os estudos sobre o Brasil,
instituindo até mesmo um adjetivo interessante: pensamento brasileiro. Este brasileiro,
marcado por modelos analíticos exógenos que lhe faziam costado, foi também desejado
com grande expectativa, como se pudesse resolver os dilemas dos centros de exportação
da antropologia. Nesse sentido, uma antropologia feita no país, acabaria por assumir as
ambigüidades de uma adesão ao projeto universalista, ao passo que seria subsidiada pela
política externa dos Estados Unidos ao mesmo tempo em que “tornar-se nativo” parecia
importante para tratar do Brasil.
Comentando um texto intrigante de Paul Rabinow em que este relata sua
experiência enquanto professor visitante no Brasil, Velho analisa que o olhar externo de
Rabinow, apesar de anedótico, remexe em tabus que devem ser levados a sério no
contexto da presente discussão. De acordo com Velho, as considerações de Rabinow
podem revelar o quanto a antropologia feita no Brasil pôde constituir, não obstante seu
esforço por se universalizar, um novo tipo de orientalismo, ou neo-orientalismo.
(VELHO, 2003: 15) Um orientalismo justamente implicado naquele brasileiro de nosso
pensamento, em nossa inserção em um projeto de construção da nação, marcado por
concepções culturalistas, além de um contorno de classe bastante específico. Seríamos
bastante brasileiros, talvez, por que teríamos sido muito mais “realistas que o rei” –
como pergunta Velho? Se nossa elite intelectual radicaliza os modelos metropolitanos a
ponto de suas ideias parecerem mais no lugar do que em qualquer lugar, tal contrabando
de modelos não teria sido denunciado no Brasil.

Entre nós, o que há de “não moderno” nos modelos ocidentais não


é reconhecido. Constituem verdadeiros pontos cegos, pois de outra
forma não poderiam continuar a ser invocados para legitimar a
nossa modernidade, o que é o contrário do que predomina nos
países islâmicos (...) Isso faz com que em certo plano o modelo
abstrato da modernidade seja perseguido com uma tenacidade de
“cristão novo”, ideológica, sem pragmatismo. (VELHO, 2003: 16)

Como apontado no início desta resenha, a construção (picto) gráfica – tomando o


exemplo citado por Velho com relação ao artista americano Norman Rockwell – de uma
antropologia periférica, no caso do Brasil, encontra um significado bastante peculiar em
seu investimento pesado na nation-building. De acordo com Velho, em nossa apreensão
populista de um discurso “nativo” por excelência, teríamos transformado os discursos
divergentes em variantes, mas em nome da diversidade. (VELHO, 2003: 17)
Velho, de fato, realiza uma importante crítica para a antropologia no Brasil. E
uma dura crítica. Segundo o autor, não teríamos passado mal com a crise pós-
colonialista, pois esse mal estar poderia custar algo de nossa autoridade pública
profissional. Portanto, é bastante nossa uma atitude de negar impasses ou problemas,
ainda que seja no tomar partido, como acredito que tenha sido um pouco da reação de
Mariza Peirano em “A favor da etnografia” (1992). Prefiro pensar como Velho: nossa
impureza, nation-building, como “provocação”. Pensar o que poderia substituir nossa
marca registrada, mas com um olhar não ressentido sobre os modelos centrais, como se
fôssemos nós os responsáveis por eles – e acredito que somos -, minando-os de dentro,
desrespeitando limites com alegria, como sugere Velho.