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Buracos Negros Epílogo

Epílogo

Charlie meteu-se na nave e partiu. E de nada valeram as tentativas choramingas


da mãe, nem as ameaças grosseiras do pai e dos tios, nem sequer as censuras trocistas
do irmão e da irmã, porque a ele, uma vez que lhe nasça uma ideia na cabeça, não é
líquido, e muito menos plausível, que se lha consiga arrancar. O que o tramou foram
os livros de divulgação científica, e aquelas tretas de tempos relativos e buracos
negros. Ao bom do Charlie sempre lhe pareceu bem uma aventurita de vez em quando
e, por isso, meteu mãos à obra com entusiasmo e afinco, e ao fim de algum tempo
tinha construído a Deolinda, uma sofisticada nave com três motores em U de quatro
cilindros cada, capazes de debitar uma potência tal que, nos testes, pouco faltou para
arrasar com a casa da mãe e as da vizinhança próxima. Mas tudo correu bem, com a
graça do Senhor, e estando a nave pronta, passou Charlie à delicada tarefa de a
atafulhar com todos os instrumentos que lhe pareceram necessários para uma bem
sucedida viagem às estrelas. Sabia perfeitamente do que precisava, e embora os seus
conhecimentos de matemática sempre tivessem sido rudimentares, a verdade era que
não tinha qualquer tipo de dificuldades com a máquina de calcular e dava-se, inclusive
ao luxo, de levar a bordo um computador portátil de última geração, artilhado com
todo o tipo de periféricos e sensores. O telescópio óptico do irmão não podia faltar,
nem a máquina fotográfica, nem o fato de mergulhador, com as respectivas botijas de
oxigénio, nem toda e qualquer coisa que imaginemos que pudesse fazer falta. Por fim,
a família lá se mentalizou da irreversibilidade da ideia, e foi com orgulho que viveram
os últimos dias na Terra, do seu ente futuro astronauta, viajante das estrelas.
- Charlie!
- Que é?
- Trazes-me uma estrela?
- Cala-te lá, burro! Não sabes que as estrelas são bolas de gás gigantescas, que não
se podem trazer?!
- E se for um buraco negro?
Ao Charlie, o que mais o irritava, era a ignorância. Isso e a cobardia. Também o
irritava de forma particular o ressonar trovejante do pai no quarto ao lado. Mas de
momento, a segunda e a terceira não são para aqui chamadas, pelo que me debruço em
exclusivo na primeira. A ele agradava-lhe muito a astronomia. Gostava daquilo,
pronto. E lia muito coisa sobre o assunto: já sabia tudo sobre planetas, estrelas, e até
buracos negros, que era com o que mais atinava. Estava a par da mecânica newtoniana
e tinha umas luzes de relatividade. O último livro que leu, então, foi especialmente
importante, porque dizia que, se viajássemos no espaço muito depressa ou com grande
aceleração, o tempo passava mais depressa, e chegava-se ao destino mais rapidamente.
Charlie gostou muito do ganho no tempo, e escreveu as fórmulas num papel, e agora
passava-as para a memória da máquina de calcular, que assim não havia falha possível.
O tempo que iria demorar na viagem, podia ser calculado de forma aproximada usando
a seguinte fórmula:

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 2c   gD 
T    ln 2 
 g c 

onde c era a velocidade da luz, g a aceleração da nave e D a distância a percorrer.


Tinham descoberto há pouco tempo um buraco negro perto de Procyon. Claro
que a ele não lhe restava a menor dúvida de que as estrelas estavam muito longe, mas
Procyon, não estava assim tão longe. Por isso lhe deram o nome que tem. Daqui lá, são
só onze anos-luz. Claro que se conhecem buracos negros maiores, mas este estava aqui
tão perto que quase que o podíamos agarrar. Contas bem feitas, se viajasse com uma
aceleração de 9,8 m s-2, que apresentava a vantagem de o fazer sentir como se
estivesse em casa, com gravidade e tudo, punha-se lá em 4 anos e pouco, o que,
embora a princípio parecesse desmoralizador, rapidamente foi reconhecido como um
mal menor comparado com as maravilhas que o esperavam. Metade da viagem era
feita a acelerar para a frente. Depois, a meio, rodava a nave 180º e continuava a
acelerar para a frente. Só que agora a frente estava atrás.
- Há alguém entre os presentes que não tenha entendido e precise de uma explicação
detalhada em privado?
Resolvidos os problemas técnicos e burocráticos, e chegando finalmente o dia
decisivo, meteu pés ao caminho. A mãe arranjou-lhe umas sandes e uns petiscos, mas
a ele, que sempre fora de pouco comer e muito dormir, não era bem isso que o afligia.
Ainda por cima, sempre podia parar num planeta qualquer e tentar a sorte na caça, que
para isso levava a caçadeira do pai. O maior problema era se levava combustível que
chegasse para a viagem, porque sabe-se que no espaço não existem bombas de
gasolina, e por isso, no último instante, decidiu-se por acoplar à nave um depósito
anexo, onde transportava uma reserva que chegava para dar duas voltas ao Universo.
Deixou a Terra de manhã cedo, com grande estrondo e reboliço, envolto numa
nuvem de poeira e gases com cheiro acre.
- Que dizes: achas que ele volta?
- Então não haveria de voltar?!
- Não sei! Aquilo parece-me pouco consistente.
- Lá isso é verdade, mas o Senhor protege os audazes que o visitam!
- Protege?
- Sim!
Charlie passou a toda a chispa pela Lua, e depois acelerou ainda mais deixando
para trás a Terra. O roteiro da viagem, levou-o a passar perto de Júpiter. Navegou por
entre as luas, mas não chegou a parar, porque já as conhecia das fotografias dos livros.
No computador portátil, tinha aberto o programa das órbitas dos planetas do Sistema
Solar, e não foi difícil concluir que, no caminho para Procyon, ficava ali bem perto,
Plutão, esse sim, completamente desconhecido e, por isso, aliciante. Apontou o
focinho da nave, bloqueou o acelerador com a estaca de madeira, programou os
travões para actuarem na altura exacta, e deitou-se consolado na cama confortável do
quarto de dormir.
Dormiu toda a viagem.
Quando acordou, estava a nave em órbita de um planeta pequeno e com ar de
pouco soalheiro. Sentiu um orgulho sincero do grande projecto que tinha arquitectado,

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e da enorme fiabilidade dos comandos da nave. Ainda assim, rapidamente deu conta
de um pequeno erro que tinha ocorrido: tinha apontado a nave para Plutão mas, em vez
disso, estava em órbita de Caronte, a lua do planeta, o que era um erro pequeno, mas
ainda assim um erro. Lá ao longe via-se o Sol, pequeno e pouco brilhante. Charlie
tentou encontrar a bolinha azul da Terra e, de facto viu-a, lá longe, encostadinha ao
Sol. Também se via Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno. Havia uma enorme quantidade
de estrelas: lá estava Siriús, e perto, podia ver Procyon.
Por baixo dele estava a superfície de Caronte. Não parecia especialmente
promissora. Dali, discerniam-se desfiladeiros que sulcavam um terreno que parecia
enregelado e ligeiramente rosado. Não havia muito em que pensar. Era descer.
Manobrou a nave com o cuidado e perícia de que só o construtor do engenho é capaz,
e pousou no solo de Caronte justamente ao pé de um desfiladeiro. Não esteve com
meias medidas. A excitação era tanta que correu para a porta e escancarando-a de par
em par, viu-se de fronte da paisagem de outro mundo. Mas não teve tempo de ver
nada: o ar gelado por pouco não o liquidou ali mesmo, e a atmosfera completamente
irrespirável deixou-o roxo e à beira de um ataque cardíaco. Estamos no Inverno,
pensou. Tinha sido uma tremenda imprudência que só por um triz não arruinou
totalmente a missão. Da próxima vez ia, por certo, conter-se mais e efectuar os testes
necessários antes de se aventurar no desconhecido. Dentro da nave recuperou.
Agasalhou-se apropriadamente, colocou as botijas de oxigénio às costas, pegou na
máquina fotográfica e na caçadeira para o que der e vier, e finalmente saiu. Agora sim
estava melhor. Corria um vento gelado, que ele não sentia porque estava bem
quentinho com pura lã de ovelha, mas podia ver que era gelado porque no ar via-se
flocos de neve. O desfiladeiro não era muito fundo, e como a paisagem em volta
parecesse pouco interessante, resolveu descer. Ainda por cima, enquanto descia, o ar
não era tão hostil. Na realidade, o vento ali não se fazia sentir, e como não havia neve,
o ar tornara-se muito mais límpido, e podia-se ver tudo com mais facilidade. Era, sem
dúvida, um local muito mais acolhedor. Quando chegou ao fundo sentou-se, e pôs-se o
olhar em volta. Era um ambiente muito estranho, em nada comparável ao que quer que
fosse que tivesse conhecido. O lusco-fusco da noite carontiana, que Charlie sabia ser
perpétuo porque o Sol estava muito longe, parecia ter clareado um pouco,
repentinamente, graças a um qualquer tipo de luz que alguém havia acendido algures
mais acima. E, de facto, quando ergueu os olhos percebeu que algo tinha mudado.
O vento tinha parado, e a neve que andava no ar assentara, deixando à mostra o
céu de Caronte através da estreita passagem entre as ravinas do desfiladeiro. E lá em
cima, alto no céu, grande e majestoso, estava o globo cinzento de Plutão. Charlie sabia
que Plutão e Caronte distam entre si cerca de 20000 quilómetros, e que têm um
movimento perfeitamente sincronizado, pelo que Plutão sempre tinha estado ali, e
tinha sido uma sorte ter pousado num local de onde o pudesse ver. Ainda para mais,
era possível ver ainda o Sol, lá longe, quase tão brilhante quanto a Lua é na Terra, mas
muito mais pequeno. Era um espectáculo magnífico. Não pensou duas vezes: pegou na
máquina, e fotografou-o.
Só então de seu conta de outra descoberta ainda mais espectacular. Por todo
lado à sua volta moviam-se pequenos seres, semelhantes a estrelas do mar, mas com
carapaças, caranguejos com dezenas de antenas, e aranhas com a forma de ostras.
Andavam tão lentamente que não constituiriam certamente qualquer perigo porque

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Charlie era um bom corredor. Afinal, pensou consolado, existe vida extraterrestre. E
não tinha sido preciso ir muito longe para a encontrar. Baptizou, cheio de boa-vontade,
aqueles seres de caron-
tianos, independentemente
da espécie, o que vendo
bem não é lá muito
original, mas que,
atendendo às circunstân-
cias, foi o que se pôde
arranjar. Estava sentado
numa pedra a apreciar o
movimento dos bichos nas
suas vidas atarefadas, as
rochas em redor, e aquela
neve que ele sabia, porque
tinha lido na Terra que era
de água. Agora orvalhava.
Lembrou-se de liquidar ali
mesmo, com a caçadeira,
Figura 29 um daqueles bichos para
A fotografia tirada por Charlie do desfiladeiro de Caronte onde se vê depois se entreter a
Plutão e, ao longe, o Sol. Podem-se ainda ver alguns dos estranhos disseca-lo na longa viagem
seres de Caronte.
que o esperava. Infelizmen-
te, quando puxou pelo gatilho, nada aconteceu. Tentou mais vezes, apontando
inclusive a espingarda a si próprio a ver se dava sorte(!), mas nada. Finalmente
compreendeu que talvez o frio tivesse gelado a pólvora. Está certo Charlie, e para ti já
não foi descoberta de somenos importância, mas digo-te eu, humildemente como é
apanágio dos que sabem, que a falta de oxigénio é capaz de ser um factor ainda mais
decisivo na não ocorrência da combustão que levaria ao disparo.
Charlie não se deu por vencido. Correu até à nave. Não se podia dar ao luxo de
correr como estava habituado, explanando todo o seu potencial de atleta, porque, com
uma aceleração da gravidade de menos de um metro por segundo ao quadrado, se
desse grandes saltos, nunca mais chegava cá baixo. Plutão acompanhava-o lá em cima,
e podia-se distinguir alguns pormenores da sua superfície rosada de metano, com
particular evidência para uns pontos sombreados que pareciam montanhas; a neblina
tinha-se dissipado, e via-se quase com a mesma facilidade com que se vê na Terra
numa noite de Lua cheia, até ao horizonte que ficava já ali, a menos de 1600 metros.
No chão pantanoso virgem ficavam cravadas com grande profundidade as pegadas
Nike do primeiro homem a visitar outro planeta. Na nave, Charlie pegou no que estava
à mão, para o tenebroso serviço que congeminara: uma pá. Agarrou em três sacos de
serapilheira e em dois baldes, e regressou ao desfiladeiro. Não se via carontianos na
planície, muito provavelmente devido ao vento gélido que soprava de vez em quando.
Começou por arrumar à pazada com dois carontianos: um parecia uma estrela do mar,
e o outro tinha uma forma mais irregular, e diferente de tudo o que Charlie conhecia.
Então, impulsionado com a facilidade com que aqueles seres indefesos e pouco
habituados a tão grande selvajaria, entregavam a alma ao criador, descontrolou-se e

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acabou com a tosse, se é que a tinham, a todos os carontianos que viu. No fim, quando
já não havia vivalma à vista, para além da sua, recolheu todos os corpos que pôde, que
podiam ser bons para comer, quem sabe, e começou a armazená-los na nave, num
lugar fresco. Ainda assim, no fim, quando já não tinha mais espaço, restavam no
desfiladeiro muitos cadáveres amontoados resultantes da fúria do terráqueo justiceiro.
Charlie estava cansado. Ao longe, o Sol punha-se no céu de Caronte, e a lua começava
a mergulhar numa escuridão cada vez maior. Chegava a hora de arrumar as trouxas e
partir. Acomodou a um canto os baldes cheios de gelo, que podiam fazer falta para a
viagem que só agora iria realmente começar. Por fim subiu a bordo, deixando para trás
a superfície de Caronte, com franca saudade dos momentos de liberdade e
divertimento que aí passara. Era altura de partir. Que outras maravilhas o esperavam
ainda. Pela frente tinha o Universo escuro e frio. Mas ele, Charlie, iria-o percorrer aos
comandos de uma nave aconchegante, entretido com o xadrez solitário, com a
dissecação dos carontianos que tinha trazido, ou com as revistas pornográficas que
tinham passado o apertado controlo da mãe. E, acima de tudo ia dormir. Ia conseguir,
finalmente, pôr o sono em dia. Sentou-se no sofá que tinha tirado da sala de estar lá de
casa, e que agora estava na cabine dos comandos, accionou a ignição, e os motores
obedeceram sem pestanejar.
- Esperto este Charlie! Sempre pensei que o combustível congelasse e ele ficasse lá
nessa lua!
- A mim parece-me tudo uma grande pessegada. É impossível matar tantos animais
só com uma pá.
- Concordo!
Boa viagem, Charlie!
Quatro anos e meio depois, a Deolinda desacelera nas proximidades de
Procyon. Charlie encontra-se aos comandos. Está excitado com a vista maravilhosa
que se lhe apresenta ao olhar. Procyon é um sistema duplo. Vêem-se nitidamente as
duas estrelas, mais ou menos iguais em cor, mas claramente uma mais brilhante que a
outra. Quando a Deolinda passa perpendicularmente à linha que as une, Charlie pode
ver que a distância entre elas é considerável. Encontra-se, de acordo com os sensores
do seu computador, a cerca de duas unidades astronómicas (uma unidade astronómica
são 150 milhões de quilómetros e é equivalente à distância entre o Sol e a Terra) da
componente mais próxima, e ainda não surgiu qualquer vestígio de um buraco negro.
O computador entretêm-se, então, a determinar o período do movimento das estrelas
em torno do centro de massa: 5,6 anos terrestres. O céu em volta apresenta-se normal,
como o que era visto da órbita da Terra, ou de Caronte. Ao longe vê-se Siriús, que fica
a 5 anos-luz de distância, inconfundível pelo brilho e pela cor azul, e vêem-se também
duas estrelas amarelas. Charlie percebe muito de astronomia, e conhece a maior parte
das estrelas, mas visto dali, não consegue dizer qual daquelas estrela é o Sol, embora
lhe pareça que não restam dúvidas que uma delas o é, e a outra é Alfa Centauri.
Agora, Charlie anda bem, obrigado, mas durante a viagem passou muito mal
coitado. Quando descobriu que os carontianos eram bons cozidos de escabeche foi um
vê se te avias com escabeche de manhã, à tarde e à noite; escabeche quente, frio e até
gelado de escabeche. Infelizmente, os bichos haviam de se revelar indigestos, e maus
para o fígado, e o Charlie passou um mau bocado, com tanta diarreia que quase morria
desidratado. Por fim, foi o fedor, que um tipo não pensa em tudo, mesmo num projecto

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desta envergadura, e a nave veio sem ventilação. Agora, como se disse, está tudo bem,
mas ao Charlie continua a fazer-lhe falta uma tigela de canginha caseira como as que a
mãe fazia, para limpar a tripa.
- Coitado do moço!
- Que não se metesse nelas, Maria! Que te sirva de exemplo!
A nave ronda o sistema de Procyon a uma distância segura. Aqui e ali vêem-se
uns calhaus enormes. Planetas fracassados, está bom de ver, impedidos de se formar
pela força da gravidade variável do sistema constituído pelas duas estrelas.
- Apre que o rapaz sabe!
- Já ouviu falar em forças de maré?
- Não senhor!
- Então leia as páginas que estão para trás, neste texto, que eu não sou seu criado,
para lhe andar a explicar!
- Mal educado!
Do buraco negro é que continua a não haver qualquer sinal, e Charlie começa a
ficar desesperado, e a rogar pragas aos gajos que, na Terra, andaram a dizer que havia
um buraco negro em Procyon. O desespero conduz à impaciência...
- Não será ao contrário?
- Não!
- Desculpe!
e da impaciência passa-se, com toda a facilidade, à saudade. Charlie chora com
saudade dos pais e dos irmãos queridos, e para acalmar saca da Playboy antiga e gasta
e começa-a a folhear. Mas não resulta. Em vez disso, o dissabor aumenta: que novas
playmates haverá?; que novas histórias estará ele a perder? Arruma a revista. Pega no
telescópio e aponta-o para uma das estrelas amarelas, no intuito desesperado de tentar
ver a Terra. Mas, evidentemente, não consegue nada. Não se vê mais nada do que um
ponto amarelo. Continua com o telescópio, e roda-o em volta, a toda a largura da
janela da cabine, escrutinando o espaço escuro. Nada de buracos negros. Procyon
começa a revelar-se um belo fracasso.
A dada altura contudo, Charlie, dá-se conta de que algo de estranho aconteceu.
Tinha conseguido ficar em órbita estável em torno das duas estrelas, mas agora, em
vez de continuar a circula-las, como antes, parecia começar a ficar de costas para elas.
Era como se estivesse a rodar para o lado contrário aquele para o qual estava a rodar
até aí. Verificou o leme e, efectivamente, a direcção de voo estava desalinhada. Se a
tentasse alinhar, conseguia fazê-lo, mas se largasse o volante, este entortava-se
ligeiramente para a esquerda, na direcção contrária à das estrelas do sistema Procyon.
Algo estava a puxar a Deolinda nessa direcção. Charlie reparou ainda, que juntamente
com a sua nave, havia muitos pedregulhos que circulavam dessa maneira, solidários
com ele. No rádio portátil que tinha trazido, e que mantivera ligado por distracção,
durante toda a viagem, ouvia-se agora ruídos intensos que estavam em franco contraste
com o silêncio que reinara até aí. Assustado, optou por desligar os motores da nave,
para ver o que acontecia. Quando levantou a cortina e olhou pela janela à sua
esquerda, percebeu que algo existia, de facto, nessa direcção. Algo que puxava os
átomos e partículas do espaço, que, ao ser puxados aqueciam, e emitiam radiação,
primeiro ondas de rádio e depois, à medida que se aproximavam do centro do corpo
que puxava, passavam a emitir luz visível e, de certeza, radiação de frequência mais

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alta que ele não captava porque não tinha instrumentos para isso. Apontou o telescópio
nessa direcção, mas tudo o que conseguiu foi confirmar essa sua suspeita. Existia ali
realmente alguma coisa. Algo invisível, mas que o estava a puxar. Era provável que
tivesse encontrado o que procurava. Como pensou que se fotografasse, a pouca
intensidade da luz iria inviabilizar qualquer imagem, optou por elaborar um esquema
daquilo que via (figura 30).
Charlie começa a perceber que se
encontra de facto em órbita de um buraco
negro, que ainda não consegue ver porque
está muito distanciado. Encontra-se em
órbita, porque a sua velocidade de rotação
cria um força centrífuga que igual a atracção
gravitacional do buraco. Entretanto, põe
todos os sensores e instrumentos da nave a
trabalhar para lhe fornecer todos os dados e
valores que ele possa desejar. Com um toque
numa tecla, Charlie fica a saber que se
encontra a cerca de 160 mil quilómetros do
buraco negro...
- Porra, está longe p’ra caraças, o medricas!
Figura 30 Chega-te mais à beira, cagarola!
- Está bem, já vai! Isto é fácil para vocês
Os átomos de gás puxados pelo buraco negro,
convergem para ele de todas as direcções. que estão aí sentados a ler. Queria-vos ver
Desenho do Charlie. aqui!
- Sim. Até aí tem o rapaz razão. Nestas
coisas há que dar a mão à palmatória e o cu ao manifesto, que assim mandam os
mandamentos!
- Que mandamentos?
- Os da delicadeza, quais haveriam de ser?
... e que, a essa distância demora 5 minutos e 46 segundos a dar uma volta ao buraco.
- Como é que ele sabe?
- Eu explico: o computador portátil serviu-se de um dos periféricos para analisar o
movimento aparente das estrelas por cima da nave, e com tal análise, conseguiu
determinar que demorava esse tempo para regressar ao mesmo sítio.
Antes de se aproximar mais, Charlie ficou ainda a saber que a massa do buraco
é de cerca de 10 massas solares. Para o determinar, o computador usa as sapientes leis
enunciadas por Newton em 1685, e a força centrífuga de Huygens:

Gm d M m d v 2 2r
 e v
r2 r T
donde
4 2 r 3
M 
GT

sendo md a massa da Deolinda e r a sua distância ao buraco negro, M a massa do


buraco e v a velocidade orbital da nave.

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Ainda de acordo com as mesmas leis, se se quiser aproximar do buraco, terá de


abrandar, para que a atracção se sobreponha à força centrífuga. É isso que faz: carrega
com força no travão, e a Deolinda começa progressivamente a perder velocidade.
Claro que há que ter cuidado senão o buraco papa-o com toda a categoria e sem-
cerimónia, pelo que ele, consciente e sensato, acciona a ignição, e vai mantendo um pé
no travão e outro no acelerador, para o caso de a operação dar para o torto, e ocorrer
uma emergência. A nave vai-se aproximando lentamente descrevendo uma espiral. A
cada órbita está mais perto que na órbita anterior. Charlie aponta o telescópio e
consegue ver com clareza a circunferência do buraco negro. É uma esfera perfeita, o
que é consistente com a observação anterior de que as partículas caem, em média,
directamente para o buraco, ou então espirilam à sua volta, sem contudo apresentarem
uma direcção preferencial de movimento. É que, se o buraco negro rodasse, o espaço-
tempo curvo na sua vizinhança seria arrastado pelo seu movimento rotativo criando
um remoinho que arrastaria tudo num movimento em espiral no sentido de rotação do
buraco. Temos portanto um buraco negro que é estático. Um buraco negro de
Schwarzschild, pensa Charlie. Ele sabe, também, que o buraco negro que observa, foi
criado a partir da explosão final de um terceira estrela do sistema Procyon, que, muito
provavelmente, se terá formado ao mesmo tempo que as outras duas, mas, como tinha
mais massa, necessitou de mais pressão da radiação para equilibrar o peso durante a
sequência principal. Tal facto levou a que a estrela esgotasse o seu combustível mais
depressa que as outras duas, e tivesse explodido com grande violência há muito tempo
atrás. Charlie acha que foi há mesmo muito tempo, talvez milhões de anos, porque não
vê qualquer vestígio da grande quantidade de material expulso da estrela no momento
da explosão. Para além disso, uma análise rápida às órbitas das outras duas estrelas,
permitiu concluir que o seu movimento é perfeitamente estável, e alinhado com o do
buraco negro da mesma forma que seria se se tratasse de uma estrela, não
apresentando nenhuma irregularidade, o que é consistente com a teoria de uma
explosão muito antiga. Outra coisa ainda: a massa que o buraco negro tem hoje, será
sempre maior ou igual à massa que restou da supernova que lhe deu origem, dado que
à massa do que resta da estrela ainda há a juntar a massa de toda a tralha que o buraco
terá engolido, incluindo, naves.
- Esse Charlie dava para detective!
Charlie tinha um programa de computador que lhe dava, baseado na teoria da
relatividade geral, todas as propriedades do horizonte e do exterior do buraco negro,
desde que lhe fornecessem três variáveis, que tinham sido definidas como as variáveis
fundamentais pelo grande mago da Física Stephen Hawking: a massa, que Charlie já
sabe, o momento angular, que já vimos que é nulo, e a carga eléctrica que também
deve ser aproximadamente nula, dado que se existisse carga eléctrica, a atracção de
cargas de sinal contrário anularia imediatamente essa carga.
A partir daqui foi um miminho. Charlie introduziu os valores e o computador
não se pôs com meias medidas. Usando a fórmula de Schwarzschild atirou: o
perímetro da circunferência do buraco negro é igual a 30 quilómetros. Se o buraco
negro fosse feito de material sólido, a sua densidade seria igual a 2108 toneladas por
centímetro cúbico. Mas Charlie sabe que o buraco não é feito de material sólido e, na
realidade, o horizonte que vê não passa de uma fronteira aparente, criada pela
implosão do núcleo da estrela que, quando atingiu a velocidade da luz, congelou no

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tempo, para um observador exterior. Todavia, ele sabe que, se vier a ter o azar de
mergulhar através do horizonte, nem vai dar pela presença deste, e os átomos que o
compõem a ele, Charlie, vão ser esmagados para uma região com cerca de 110-33
centímetros de diâmetro que se denomina singularidade. Entre o horizonte e a
singularidade, nada mais existe do que espaço vazio povoado por gás interestelar que
caiu através do horizonte, e pela radiação que o gás emite, ou seja, precisamente o
mesmo que existe e se vê, entre o horizonte e a Deolinda. A singularidade e a matéria
que caiu nela, está para sempre escondida da vista pelo horizonte do buraco negro, e
jamais poderá essa matéria re-emergir, ou enviar qualquer tipo de informação para a
nave. De repente, Charlie recebe do computador um resultado estranho. No local onde
deveria aparecer o valor do raio do buraco negro, aparece uma série de pontos de
interrogação. É esquisito, pensa Charlie, que um computador tão potente, e com
programas tão caros, não consiga determinar o raio quando se trata de uma conta tão
simples. O raio, é simplesmente a distância entre a singularidade e o horizonte do
buraco negro, sendo que, uma vez que a singularidade tem uma dimensão tão pequena,
o seu contributo é desprezável. Uma vez que se sabe o perímetro do horizonte, o raio é
determinado dividindo esse perímetro por 2, coisa que qualquer criança do 7º ano
sabe fazer, e que Charlie sabe fazer na perfeição usando a sempre fiel máquina de
calcular. O resultado dá 4,8 quilómetros de raio, mais coisa, menos coisa.
Charlie está intrigado,
e desconfiando da fiabilidade
do computador que trouxe,
assapa-lhe umas boas
cacetadas para ver se a coisa
vai. Nada. Felizmente estou cá
eu e esclareço tudo de boa
vontade. A fórmula que
utilizaste, Charlie, para deter-
minar o raio a partir do perí-
metro, aplica-se sem excepção
a superfícies planas, como por
exemplo uma folha de papel.
Contudo, se a superfície for
curva, como a superfície de
uma esfera, a fórmula deixa
de ser válida, e terás de
utilizar a geometria que
Riemann, Lobachevsky e
outros matemáticos desenvol-
veram. É que, segundo
Figura 31 Einstein, o espaço-tempo en-
A massa do buraco negro distorce a folha plana do espaço-tempo, curva-se e deixa de ser plano,
de tal forma que é criada uma singularidade. O raio do buraco sempre que haja matéria
negro deixa de poder ser determinado da forma convencional, presente. E essa curvatura do
porque o espaço passa a ser curvo.
espaço-tempo depende dire-
ctamente da quantidade de massa. Portanto, junto ao horizonte, e mais ainda, no

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interior do buraco negro a geometria do espaço-tempo, é a geometria de uma


superfície curva e não a de uma superfície plana. A figura 31 apresenta o detalhe. Para
determinarmos a quantidade de curvatura, e posteriormente o raio do buraco negro,
não chega as três quantidades que referi atrás, porque se trata de uma propriedade
interior ao horizonte. Precisávamos da equação do campo de Einstein que relaciona a
curvatura do espaço com a densidade de matéria. E essa equação não faz,
definitivamente, parte do software do teu computador. Por isso, Charlie, o bom do teu
computador, em vez de te enganar com resultados falsos, preferiu não te responder e
levar porrada, coisa que terias evitado se tivesses lido com atenção as páginas
precedentes. Percebeste?
- Só mais uma coisinha? E então o raio de Schwarzschild?
O raio de Schwarzschild não é o raio do horizonte dos acontecimentos. È
somente o raio que qualquer corpo, com uma determinada massa, deve ter para se
transformar num buraco negro. E agora?
- Agora está tudo percebido! Obrigado!
- De nada! Qualquer coisa pergunta! Ou vai atrás ler, sim!
Agora a Deolinda começa a estar assustadoramente perto do horizonte. Charlie
tem algum medo, mas, por outro lado, não é impunemente que se faz uma viagem
daquela dimensão. Não tinha jeito nenhum chegar a casa e dizer aos irmãos que tinha
estado perto de um buraco negro, ao que eles, infalivelmente, perguntavam-lhe a
quantos metros, e ele respondia a 100000 quilómetros, e era a risada geral. Por isso,
desligou deu meia volta, e acelerou para tentar anular o movimento de rotação que
trazia. Quando conseguiu parar, virou a nave para o lado de fora do buraco, e deixou-
se ficar. Começou a descer então em direcção ao buraco negro. Primeiro devagar, e
depois cada vez mais depressa, puxado pela força tremenda da gravidade.
- Sim senhora, que cojones!
- Maria, contenha-se!
- Peço desculpa!
O computador não falha. Em trinta segundos percorreu exactamente 2630
quilómetros, e, agora desce à velocidade infernal de 180 quilómetros por segundo, que
é dobrada em menos de 50 segundos. Virado para o lado de fora do buraco, Charlie
encontra-se esmagado contra o encosto do sofá, e já não é sem dificuldade que
consegue chegar com a mão ao painel de instrumentos. Ainda assim, consegue
introduzir no computador os dados para que os motores seja accionados quando a
Deolinda se encontrar a 1000 quilómetros do horizonte. De repente porém, manifesta-
se mais intensamente algo, que já parecia estar a tomar alguma forma. A Deolinda
range de dor, e o próprio Charlie sente que está a ser esticado com uma força cada vez
maior. Não há dúvida nenhuma, uma estranha força está a tentar despedaça-lo. Com
dificuldade consegue chegar aos comandos da nave, e dá á chave da ignição. A nave
abranda bruscamente e Charlie recebe um terrível golpe de coelho que o deixa
literalmente a ver estrelas. A força que o aflige não desaparece. Consulta o manual, e
após aturada busca, descobre que a força se chama força de maré, e deve-se à força da
gravidade diferencial que é exercida pelo buraco negro em partes do seu corpo
colocadas a distância diferente do horizonte. A força é dada por:

112
Buracos Negros Epílogo

2GMm
F  R
r3

conforme equação da página 22. O sensor do computador indica que a distância ao


horizonte é de cerca de 1600 Km, o que dá uma força da maré entre as costas e a
barriga de Charlie igual a 1560 N.
- Não admira nada que o rapaz estivesse desconfortável!
Sim, mas apesar de desconfortável, ainda intenta com galhardia, cumprir o seu
dever de observar tudo o que merece ser observado. Do sítio onde está, verifica que
existe uma faixa escura dos lados, como as que existiam nas televisões antigas e que
diminuíam a imagem. É como se estivesse a olhar para o exterior através de um tudo
cujas bordas estão rodeadas por um halo brilhante de luz. Percebe rapidamente, que tal
se deve ao facto de que a luz das estrelas se encontra encurvada pela gravidade do
buraco negro, e que as estrelas que se situam justamente na borda do tubo, são as
estrelas que, mais longe do buraco, se encontravam na direcção perpendicular à linha
radial do buraco negro.
Com dificuldade, esticado à boa maneira da idade média, Charlie tenta voltar-
se. Sabe que quanto maior for a extensão do seu corpo em linhas opostas ao buraco,
maior vai ser a força da maré entre as extremidades, e por isso, mantêm-se o mais
encostado ao sofá que pode. Espreita pela vigia traseira. Lá em baixo vê-se o horizonte
do buraco negro. Em volta dele circulam, muito lentamente, poeiras que se tornam
visíveis graças a um halo de luz que envolve o horizonte, e que resulta da luz das
estrelas que se encontram por detrás dele, que é encurvada, como já se disse, pela sua
gravidade. Estranhamente, as poeiras nunca parecem desaparecer através do horizonte.
De forma oposta, parecem mover-se cada vez mais devagar e, a dada altura é como se
congelassem no tempo.
Charlie não merece tamanha tortura. Pondo os motores em marcha à potência
máxima, consegue escapar às imediações do buraco negro.
Cá fora, mais sossegado, verifica que toda a aventura às proximidades do
buraco negro de Procyon, demorou perto de 56 horas. Contudo, o computador, faz um
cálculo rápido baseado no movimento de rotação das duas estrelas em torno do centro
de massa, e verifica que, cá fora, longe do buraco negro, passou mais quase uma hora e
meia. Foi um bom ganho, mas poderia ter sido muito melhor, se tivesse ido mais perto.
Mas se tivesse ido mais perto, teria sido desmantelado. Completamente esquartejado
pela força da maré do buraco negro. Ele e a Deolinda.
Foi bom, mas soube a pouco, pensa Charlie. Estive perto, mas não o suficiente,
caramba, diz de per si. As marés são matreiras, mas Charlie escapou-lhes com muita
pinta e elegância. Agora, é tempo de voltar para casa.
Contudo, no último momento, Charlie descobre que se houvesse um buraco
negro maior, podia chegar-se muito mais perto, porque nesse caso as forças da maré
seriam menos intensas. Era uma boa descoberta, não restam dúvidas. Tinha toda a
piada, e muito interesse científico chegar muito mais perto do horizonte.
Dizia-se, quando saiu da Terra, que no centro da Galáxia existia um buraco
negro de dimensões descomunais, mas a matéria não constituía ponto assente, longe
disso, e pareceu a Charlie que era uma grande ideia dar lá uma saltada e confirmar. Se
o buraco existisse, poderia aproximar-se do seu horizonte, tal como era o objectivo

113
Buracos Negros Epílogo

inicial, se não existisse, regressava a casa e desenganava os papalvos que andavam


enganados.
O centro da Galáxia situa-se a 25000 anos-luz.
- É obra!
Mas quando Charlie pegou na máquina de calcular e fez as contas, descobriu
que, se seguisse a sua técnica das acelerações a 9,8 m s-2, se punha lá em menos de 20
anos, que sempre era um valor mais em conta. Ainda por cima, parecia que tinha
adivinhado, ao trazer o depósito de combustível sobressalente, que agora ia fazer um
jeitasso.
Estava resolvido, ia ao centro da Via Láctea, e já ninguém o fazia mudar de
ideias.
- Ouve lá, ó Charlie, tu não estás aí sozinho?
- Estou!
- Então quem é que vai tentar fazer com que mudes de ideias?
- Também tem a sua razão, que não haja dúvidas!
Pediu ao computador para lhe indicar a constelação de Sagitário, e quando esta
foi finalmente encontrada, olhou uma última vez para o Sol (uma daquelas duas
estrelas amarelas lá ao longe), benzeu-se e soltou as rédeas, que é como quem diz
pedal a fundo, e abalou a toda na estona.
Confesso que me foi difícil dar com ele no meio da grande agitação que é o
centro galáctico, mas ao fim de algum tempo e de muitas tentativas, lá o consegui
encontrar num planeta chamado Chico, onde tinha feito amizade com uma colónia de
Betelgeuse que aí se havia estabelecido. Como se sabe, a estrela do Orion, está a dar as
últimas, e não admira, por isso, que os habitantes dos planetas que a orbitam estejam
ansiosos por encontrar um novo mundo para onde se mudarem. Daí o enviarem
emissários que estabelecem colónias noutros planetas, e fazem todos os tipos de testes
para aquilatar de um possível
estabelecimento permanente
de toda a população. A his-
tória parece demasiado
fantástica, bem sei, mas foi
assim que ma contaram, e
tanto quanto sei, não existem
grandes motivos para descon-
fianças. O que é certo, é que
esta colónia parece ter ido
longe de mais, mesmo pelos
padrões de Betelgeuse, mas
não é menos verdade que, se
queremos encontrar planetas
com potencialidades de ofe-
recer uma boa qualidade de
Figura 32
vida, então não há dúvida de
O anoitecer no planeta Chico fotografado pelo Charlie poucos dias
depois da sua chegada. Vê-se o centro da Galáxia, duas estrelas
que a maior oferta está no
especialmente perto, uma gigante azul e uma vermelha, a lua centro da Galáxia.
Tomás, e até uma nebulosa planetária. Acima junto uma su-

114
Buracos Negros Epílogo

gestiva fotografia do planeta Chico, pouco depois do anoitecer. A base onde Charlie se
encontrava, e onde havia pousado a Deolinda, ficava mesmo por detrás do sítio de
onde tirou a fotografia.
Com tal paisagem, não admira mesmo nada que ao Charlie tenha acontecido o
que à frente relataremos.
A viagem decorreu na maior das calmarias. Vinte anos dava para pôr muita
leitura em dia, e aprender muito sobre a natureza e funcionamento do Universo.
Charlie estava mais velho. Tinham-lhe nascido cabelos brancos, e as rugas começavam
a surgir na testa. Os carontianos tiveram de ir borda fora porque começavam a cheirar
mal, pese embora estarem congelados. Ficaram algures perto de Rigel. Momentos
houve de pura alegria, como quando a Deolinda foi sacudida com violência por uma
estrondosa supernova que Charlie já estava a ver há algum tempo, e que ocorrera a
escassos anos-luz de distância dele, ou então, quando parou num planeta qualquer,
perdido lá para o meio da Galáxia, numa estrela azul, e deu de caras com uns seres
muito mal-encarados...
- Como os dinossáurios?
- Piores. Muito piores!
- Piores que o T-Rex?!
- Sim!
- Não é possível! O Senhor seja louvado!
A verdade é que ao Charlie não o intimidam com más caras, e bem ou mal-
disposto, querendo ele, leva tudo pela medida grande, e quando matou uma das bestas
a tiros de caçadeira e à vassourada, ficou com mantimentos para o resto da viagem, e
para outra viagem igual, salvo seja. Claro que teve de abrir com celeridade, que estes
tipos não eram carontianos, e não se lhes afigurava nada bem chacinarem-lhes assim
um compatriota e porem-se na alheta sem levar o troco. O Charlie e a Deolinda,
porém, eram uma dupla de categoria, e quando os anormais chegaram para vingar o
parceiro que jazia às postas na congeladora da Deolinda, já os nossos heróis iam longe,
a caminho do seu nobre destino.
Contudo, a maior parte da viagem foi aborrecida. Não acontecia absolutamente
nada, e ao Charlie entediavam-no primeiro os minutos, e depois, na ordem devida, as
horas, os dias, as semanas, os meses e os anos. Tudo o entediava. Não é caso para
menos, coitado, numa viagem tão longa. Passou muito tempo deprimido, amuado na
cama do quarto, a matutar no seu cruel destino de caminhante errante, solitário como
os vagabundos e carente de ternura. Por fim, como ninguém lhe ligou, porque não
havia ninguém para lhe ligar, acabou por arribar, e retomou as canseiras do dia-à-dia.
Finalmente, acabou por chegar às imediações do centro da Galáxia. Ainda lhe
faltava uma boa jornada de caminho, mas decidiu-se por parar num mundo promissor
junto a uma estrela amarela que lhe fazia lembrar o Sol.
- Desculpe, importa-se de me dizer como é que se chama este planeta?
- Não me importo absolutamente nada! Chama-se Chico, com a graça de Deus!
- Amem!
O planeta já estava habitado, como já se sabe. Pelos betelgeusenses, como
também já se disse. O que ainda não se disse, e por isso ninguém sabe, é que a malta
de Beteugeuse, é gente boa. Simples, mas muito boa. Claro que se podiam exibir.
Afinal a estrela deles é uma gigante vermelha, que mete no bolso o bom do nosso Sol,

115
Buracos Negros Epílogo

mas não. È pessoal com muito aprumo, amigo do seu amigo, colega do seu colega,
incapaz do mal quando é o bem que conta e capazes de amizades fáceis e produtivas...
- Ó amigo, não se perca!
- Não senhor, esteja descansado!
A colónia tinha à vontade umas mil almas alinhadas por categorias, da mais
importante à completamente descartável, por ordem decrescente. No topo estava o
comandante da missão, um tal de Jonas, cuja galhardia numa missão ao pulsar 387 da
Ursa Maior, em que enfrentara sem hesitações, e em combate corpo a corpo um dos
bicharocos de Alien parte IV – O Regresso, lhe tinha valido uma rápida ascensão na
carreira. Agora, do alto dos seus setenta anos de idade, dominava confiante a extensa
trupe que o acompanhava. Logo que chegou, Charlie, que não é burro nenhum, que
para se ir às estrelas é precisa muita inteligência, tratou de se fazer ao conhecimento
com o dito Jonas.
- Ó Charlie, fale-me do seu planeta!
- Digo-te, Jonas, que não há melhor em toda a Galáxia. Azul, cheio de água e de
vida. Muitas mulheres, Jonas!
- E a estrela?
- A estrela? Pequena, mas com muita genica. Amarelinha, como convém para não
cansar os olhos!
- Amarelinha, ah?! Com genica?! Vida! Está bem, Charlie! Bebe um copo!
Logo abaixo do Jonas, estavam, na classe seguinte, os filhos e a mulher do
Jonas. Charlie achara-se sozinho na viagem, e matutou, não raras vezes, na
necessidade semi-imperiosa de arranjar para si mesmo uma mulherzinha que lhe
cozinhasse uns caldinhos, lhe passasse a roupa ferro, limpasse a Deolinda e, à noite,
lhe aquecesse a cama. Os filhos do Jonas estavam casados, e bem casados, pela igreja
como convém e é bonito, e da mulher, claro, nem é bom falar. Apenas uma das filhas,
a mais velha, que se chamava Camila, estava ainda solteira, pelo que ao Charlie
afigurou-se-lhe de imediato a perspectiva de a cativar.
Camila era uma betelgeusense típica, um tanto ou quanto para o asqueroso, e
medianamente fora de prazo, mas atirada para a frente, com muitos tiques e taques e
deuses nos acudam. Passearam à beira mar (um mar de aldeídos e cetonas), mas como
o cheiro a formaldeído começasse a causar arrepios, abrigaram-se nas dunas. Charlie
proporcionou-lhe uma visita guiada à Deolinda, e contou-lhe como tinha estado perto
do buraco negro de Procyon e agora planeava viajar até ao centro da galáxia para
enfrentar um bicho ainda mais medonho. Contou-lhe como matou um monstro terrível
algures num planeta perdido, e para atestar da veracidade das suas histórias mostrou-
lhe a carcaça, praticamente descarnada da abestunta. A Camila agradou-lhe a coragem
máscula, a audácia e o sentido prático do nosso herói, e falou-lhe da desgraça do povo
de Betelgeuse, a braços com uma estrela moribunda e tão pouco densa que se tornou
muito fria, e tão grande, que os betelgeusenses tiveram de andar a saltar de um planeta
para outro, cada vez mais para fora do seu Sistema Solar. Coitadinha, pensou Charlie!
- Eu também acho!
Casaram. Abençoou-os Crisóstomo, o capelão. Na página seguinte, podemos
vê-los felizes a sair do hotel depois da noite de núpcias.
Charlie e Camila meteram-se na Deolinda, e foram dar uma volta rápida, coisa
de meses, pelo centro da Galáxia. Charlie falou-lhe dos planos de regresso à Terra, do

116
Buracos Negros Epílogo

re-encontro com os pais e os irmãos, e todos os outros amigos que tinha deixado.
Planearam juntos um cruzeiro por mares de água. Charlie contou-lhe que Betelgeuse se
via da Terra, nas noites de Inverno, e Camila suspirou de felicidade. Ia poder, sempre
que quisesse, olhar para o lar dos seus pais.
Esta porém, é uma história de buracos negros e não um romance, e como tal
avance-se mais rapidamente para assuntos mais prementes.
- Eu logo vi que isto ia voltar aquela estopada da buraqueira! Ó Quina muda-me isso
para a telenovela, mudas, que és linda!
Charlie deixou a mulher na base de Chico, com promessas de um regresso
rápido, que a viagem demoraria, no máximo 3 anos, e ele estaria de volta, e viveriam
felizes para sempre.
Mais uma vez, Charlie estava a caminho.
Desta vez porém, sentia-se reconfortado, ao
saber que a sua mulherzinha o esperaria, e estaria
com ela quando regressasse, com montes de
histórias do buraco negro de Sagitário. A
Deolinda, como sempre, estava em grande forma
e galgava terreno com entusiasmo e alegria. Na
ânsia de chegar mais depressa, Charlie tinha-lhe
dado mais gás que o costume. Agora acelerava a
19,6 m s-2, o dobro que nas viagens anteriores, e
Figura 33 ia-se um bocadito mais desconfortável, com uma
Charlie e a mulher, Camila, apanhados à força resultante da aceleração que tornava as
saída do hotel da colónia do planeta Chico coisas duplamente mais pesadas. Mas só assim a
por um paparazzi de Betelgeuse.
viagem duraria os 3 anos prometidos.
- Ora bem, o que é prometido, é sempre devido!
Finalmente, eis que a Deolinda desacelera ao aproximar-se do centro galáctico.
Existe, tanto quanto Charlie consegue ver, uma enorme e rica mistura de gases e
poeiras voando pelo ar, e dirigindo-se inexoravelmente, na direcção de um enorme
buraco negro. Com todo o cuidado, e servindo-se da experiência adquirida ao longo
dos anos, Charlie manobra a Deolinda, de modo a colocá-la numa órbita estável bem
acima do horizonte do buraco negro. Das medições da distância ao horizonte, e do
período de rotação, o computador infere, tal como tinha feito em Procyon, que a massa
do buraco é igual a cerca de 1 milhão de sóis. Neste, como no caso anterior, também
não existe um movimento tipo tornado em torno do horizonte, pelo que se pode
concluir que o buraco negro é estático, sem momento angular. O seu horizonte,
portanto terá um perímetro de 18,5 milhões de quilómetros.
- Ena pá! Grande bicho!
- Sim, e muito guloso!
Desta vez, Charlie vai mais longe que nunca. Veste o fato impermeável,
agasalha-se o melhor que pode, e desce directamente, da barriga da Deolinda, agarrado
a um cabo que fica atado lá em cima, a uma trave da sala de estar da nave. Para o
ajudar a descer, leva colados ao fato uns motores pequenos, que lançam jactos de
pouca intensidade na direcção contrária ao movimento da nave, que lhe travam o
movimento orbital, e o fazem ir descendo calmamente em direcção ao horizonte,
enquanto que a Deolinda paira lá em cima calmamente.

117
Buracos Negros Epílogo

Tudo corre às mil maravilhas. Por cima, miríades de estrelas extremamente


brilhantes. Centenas de sóis a brilhar intensamente, numa luminosidade que magoa os
olhos. Enormes nuvens de poeira, porém, fazem o grande favor de obscurecer a luz em
determinadas direcções. O gás, muito mais denso que o habitual, flui com
generosidade em direcção ao abismo insaciável, lá em baixo. Assustador, e terrível, o
buraco negro abre-se como uma enorme boca que assume proporções ainda mais
assustadoras graças ao contraste com a luminosidade que o envolve. Charlie porém
não sente medo, mas antes uma incrível satisfação, um prazer quase obsceno por estar
num lugar tão maravilhoso. A dada altura repara que lá longe, há uma estrela enorme,
muito mais perto do horizonte que ele, que parece apresentar uma forma quase
cilíndrica, completamente distorcida pela gravidade, e como que suspensa num
instante fotográfico propositado para ele que acaba de chegar dos confins da Galáxia.
Charlie, que ainda não compreende a relatividade, mas que se tem esforçado, percebe
que talvez a estrela já nem exista, já tenha sido tragada pelo buraco negro, mas ainda
se lhe oferece à vista porque para ele, que está do lado de fora, e afastado do horizonte,
o tempo daqueles que estão mais perto, é mais lento, tão lento que a estrela se move
muito devagar.
A dada altura, algo corre mal. O cabo perde equilíbrio, e Charlie precipita-se em
direcção ao abismo. Em pânico, roda os propulsores, e dispara-os com toda a força,
subindo rapidamente.
- Rais’parta caramba, que quase que me f...! O que é que correu mal? Eu tinha tudo
tão bem calculado!
Calma, Charlie, que eu estou aqui e explico. Para equilibrar a força
gravitacional do buraco negro, e descer calmamente e em segurança, utilizaste a força
centrífuga do teu movimento de rotação e os propulsores dos foguetes para diminuir a
rotação de forma controlada e assim descer devagar. Para calcular a força
gravitacional, utilizaste a Lei da Gravitação Universal do Isaac Newton, que é uma boa
lei, fiável, e cujos resultados são muito bons quando tratamos situações do quotidiano.
Porém, quando a gravidade se torna muito intensa, ou por outra, quando a curvatura do
espaço-tempo se torna mensurável, a lei do Newton começa a dar bronca, e é um
problema, que um gajo pode-se ver atrapalhado. Foi o que te aconteceu. Nestes casos,
é necessário recorrer a uma outra lei que dá resultados tão bons no quotidiano, e
continua a dar resultados igualmente bons nessas situações. Quando passaste por um
ponto em que a tua distância ao horizonte tinha um perímetro que era igual a três vezes
o perímetro do horizonte, o valor da curvatura do espaço-tempo ficou tão grande que
deixou de ser possível calcular quantidades precisas usando as leis de Newton. Como
tu usaste essas leis, obtiveste um valor para a força gravitacional nessa região inferior
ao valor real e, por isso, quando deste por ela, estavas a ser puxado com uma força que
deixaste de equilibrar. Para te manteres em equilíbrio daí para baixo, deves, de acordo
com os meus cálculos, usando a relatividade generalizada, fornecer a ti próprio um
pouco mais de velocidade em ordem a ganhar mais força centrífuga.
- Muito bem narrador, tu mandas, eu obedeço!
A coisa vai ser mais lenta do que se previa. Charlie dá um bocadinho de gás aos
propulsores, e logo a seguir vira-se e trava descendo um pouco mais. É uma lenta
espiral em direcção ao horizonte.

118
Buracos Negros Epílogo

- Desculpe, permite-me que interrompa? É que eu tenho uma dúvida! Porque é que
no buraco negro de Procyon, não aconteceu aquele azar do erro do cálculo da força
da gravidade?
Por um motivo muito simples. Porque em Procyon, como o buraco negro era
muito menos massivo, os efeitos relativistas da gravidade só se faziam sentir muito
mais perto do horizonte. Tão perto, na realidade, que muito antes de isso acontecer, a
descida foi interrompida, se bem se lembram, por causa das forças da maré.
- Muito obrigado, estou esclarecido!
A descida continua exasperante. No ponto em que o perímetro é igual a 1,5
vezes o perímetro do horizonte, deixa de haver possibilidade de equilíbrio recorrendo à
força centrífuga, porque aí a gravidade é tão forte que seria necessário rodar à
velocidade da luz, ou mais, para atingir o equilíbrio.
- E agora?
Agora, a solução é continuar a descer em direcção ao horizonte, mas sem força
centrífuga, e sem rotação. Descida pura e simples radialmente em relação ao buraco,
tendo o cuidado de apontar os propulsores para baixo para que não se dê uma
precipitação catastrófica que seria o fim inglório da aventura do Charlie.
Charlie continua a descer, agora de forma radial em direcção ao abismo, mas
cada vez tem mais dificuldade em fazer com que os seus foguetes proporcionem uma
descida controlada. A dada altura compreende que não pode continuar a descer, porque
corre sérios riscos de não ter potência suficiente nos motores para regressar à
Deolinda. Por isso dá uma última olhadela ao abismo lá em baixo, e desconsolado
empreende a viagem de regresso. Atraca à nave pela barriga e exausto atira-se para os
lençóis e dorme na paz dos anjos.
Quando acordar, Charlie lançará mão de todos os conhecimentos que adquiriu
de relatividade geral ao longo dos anos, e da preciosa ajuda do seu velho computador
portátil para concluir que, se tivesse seguido o plano que tinha traçado, de se chegar
tão perto do horizonte como uma distância cuja circunferência fosse igual a 1,001
vezes a circunferência do buraco negro, teria enfrentado uma aceleração da gravidade
de 150 milhões de gravidades terrestres. O valor causar-lhe-à calafrios, e quando
recuperar intentará descobrir se, em alguma parte do Universo existe um buraco negro
tal, que permita a um observador como ele se aproximar a essa distância, e ser sujeito a
uma força da gravidade da ordem da terrestre. Existe sim senhor, concluirá por fim.
Tem uma massa igual a 15 biliões51 de sóis, e situa-se a 2000 milhões de anos-luz, no
quasar 3C273. A princípio ainda pensará em embarcar em mais essa viagem. Quarenta
e dois anos de viagem, piscará no monitor do computador. Será tentador, mas disso
não passará. Charlie é um homem casado e a mulher espera-o. Desistirá dos buracos
negros e regressará a casa. Já viu suficiente. E nós também.
Três anos e dois meses depois de ter partido, Charlie está de volta ao planeta
Chico, mas espera-o uma grande surpresa. Os seus conhecimentos mal acamados de
relatividade restrita fizeram-no esquecer um pormenor muito importante. Todos
juntos:
- O tempo é relativo, Charlie!
- Sim, e depois?!

51
Em português, um bilião é um milhão de milhões.

119
Buracos Negros Epílogo

Depois Charlie, que para ti que fizeste as viagens com movimento acelerado, o
tempo, se medido por aqueles que ficaram, decorreu de facto, mais lentamente, mas
para aqueles que ficaram em repouso, o tempo passou da mesma forma que sempre.
Inexorável. Daqui ao centro da galáxia são oito anos-luz. Tu fizeste a viagem em 3
anos, mas aqui, no planeta Chico, passaram 16 anos, e a tua mulher, que já não estava
em nada bom estado, pôs-se de todo, e agora vai ser difícil que ela te aqueça a cama.
Mas pior, muito pior, Charlie, é que ao todo, andaste mais de 25000 anos-luz, e
embora para ti só tenham decorrido menos de 30 anos, a verdade crua e pura, é que na
Terra se passaram 25000, e sem contar com o outro tanto que decorrerá no regresso, a
esta hora, do teu paizinho e da tua mãezinha já nem a mais mínima poeira, o mais
simples átomo existem. Esta é do catano.
- São coisas da vida!
- Olhe lá Maria, que a gente nunca sabe onde as tem guardadas, que ninguém se
pode rir. Veja lá o rapaz tão trabalhador, logo tinha de lhe acontecer este azar, ficar
assim sem os pais! Valha-nos Deus, que a vida é dura para todos!
- Rezemos o terço pela alma dos defundos!
- Eu fico com as Avé-Marias!
Charlie tem dificuldade em aguentar o trauma. Quando chegar à Terra, terão
passado cinquenta mil anos desde a sua saída, e já ninguém se lembrará dele. O mais
provável é que já todos tenham visitado todo o Sistema Solar, e descoberto os
carontianos, roubando-lhe a primazia. Inclusivamente, talvez por esta altura, já tenha
mais alguém ido a Procyon. Serve-lhe de consolo o facto de que, de qualquer das
formas, será sempre o primeiro a regressar com notícias do centro da Galáxia.
Mas nem tudo está perdido. Charlie coloca Camila na cadeira de rodas, e vão os
dois visitar o Oráculo de Delfos, em busca de uma solução mais airosa para o terrível
imbróglio em que se viram envolvidos por causa da matreira da relatividade. A
sacerdotisa, que é perita no assunto, apresenta-lhes a solução. Por jeitos, junto à estrela
azul que vimos, próxima do horizonte, na imagem da página acima do planeta Chico,
existe uma ponte de Einstein-Rosen...
- Uma quê?
Um wormhole, um buraco de verme, da próxima vez, veja lá se lê o texto todo,
está bem. Dá-se o caso, e aqui temos a parte fantástica, de que a sacerdotisa afirma
que, de acordo com as suas mezinhas e profecias, esse buraco de verme conduz
directamente às imediações de Alfa Centauri e a um ponto 25000 anos no passado.
- Ai Deus queira!
Por mim, acho muita fruta, mas nunca se sabe. Talvez afinal, Charlie, possa
contar aos familiares as suas aventuras por entre as maravilhas da Galáxia. Mas a
mim, pessoalmente, cheira-me que é capaz de perder muito mais tempo a explicar
porque motivo casou com um tipa velha, feia e ainda por cima de Betelgeuse, quando
havia tanta coisa boa na generosa e acolhedora Terra.
- Diz-me só uma coisinha para acabar, Charlie, dizes, que levas um doce?!
- Tudo o que quiseres Jonas, tudo o que quiseres!
- Disseste que o teu planeta fica numa estrela amarela no braço de Orion, a 25000
anos-luz daqui?
- Sim, Jonas!
- E que é azul, tem muitos animais, mulheres e oceanos de água límpida?

120
Buracos Negros Epílogo

- Sim, tudo isso e muito mais! Havias de gostar. È pena não poderes ir!
- Eu sei! Obrigado, Charlie! Vai em paz que eu tenho de ir ali abaixo mandar uma
mensagem para Betelgeuse, e venho já.

Nota: salvo todos os cálculos e fórmulas matemáticas, bem como as ocorrências que envolvem buracos negros,
que em princípio estarão correctos, toda a história é, evidentemente, ficcionada. Apenas uma brincadeira, nada
mais.

David Ferreira
Barcelos, aos 3 de Setembro de 1999
uma hora e seis minutos da manhã
boa noite

121
Buracos Negros Epílogo

Anexo

1 - A força centrípeta de Huygens

Aceleração em órbitas circulares: o holandês Christian Huygens (1629-1695),


em 1673, e independentemente Newton, em 1665, (mas publicado apenas em 1687, no
Principia), descreveram a aceleração centrípeta e a força a ela associada.

Figura 34

Consideremos uma partícula que se move num círculo (figura t). No instante t a

partícula está em D, com velocidade v1 na direcção DE. Pela primeira lei de Newton,
se não existisse nenhuma força a actuar sobre o corpo, ele continuará em movimento

na direcção DE. Após t, o ponto está em G, e percorreu a distância v t , e está com

velocidade v 2 , de mesmo módulo v, mas com outra direcção. Seja o ângulo  entre o
 
ponto D e o ponto G.  também é o ângulo entre v 1 e v 2 :

vt v
 
r v
e portanto:
v v 2
 
t r

122
Buracos Negros Epílogo

Se a partícula tem massa m, a força central necessária para produzir a aceleração é:

v2
F m
r

2 - O Limite de Roche

Uma consequência das forças de maré é que um satélite não se pode chegar
muito perto de seu planeta sem se desintegrar. O limite de Roche é a distância mínima
ao centro do planeta, a que um satélite pode chegar, sem se tornar instável e se
desagregar.
Em 1850, o astrónomo francês Edouard Roche (1820-1883) demonstrou que,
para um satélite fluído, mantido apenas por sua auto-gravidade, de densidade média
m, orbitando em torno de um planeta de densidade média M e raio R, a distância
mínima entre o planeta e o satélite de modo a que o satélite possa orbitar estavelmente
é dada por:
1
  3
d  2,44 M  R
 m 

Se o planeta e o satélite têm densidades iguais, o limite de Roche é 2,44 vezes o


raio do planeta.
Uma derivação simples do limite obtém-se considerando duas partículas de
massas m iguais em contacto, isto é, separadas somente por uma distância dr. A força
gravitacional entre as partículas é dada por:

Gmm
FG 
dr 2
e a força de maré de um corpo de massa M, e a uma distância d, sobre elas será:

2GMmdr
FM 
d3

Para as duas partículas permanecerem juntas, a força gravitacional entre elas


tem que balançar a força de maré, logo:

Gmm 2GMmdr

dr  2
d3
e
1
 2M  3
d   dr
 m 

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Buracos Negros Epílogo

seja
M
M 
4 3
r
3
e
2m
m  3
8  dr 
 
3 2 
então:
1 1
1   3   3
d  16 3  M  R  d  2,51 M  R
 m   m 

O valor da constante numérica, 2,51 ao invés de 2,44, é porque não levamos em


conta que as partículas formam um fluído.
Este limite de estabilidade aplica-se, somente, a satélites sem tensões
intrínsecas. Satélites sólidos podem existir dentro do limite de Roche porque as forças
de tensão interna das rochas que o constituem mantêm-no estável. Os anéis de Saturno
também estão dentro do limite de Roche de Saturno, o que significa que as pequenas
partículas que formam o anel têm forças coesivas maiores do que as forças de maré.
Entretanto, à medida que aumenta o tamanho da partícula, as suas forças coesivas
ficam menos importantes, comparadas com as forças de maré, e essa é uma provável
explicação para o facto dessas partículas nunca se terem juntado para formar um
satélite. É possível que os anéis de Saturno sejam resultado de um satélite ou cometa
que se aproximou demais do limite de Roche do planeta e se quebrou devido às forças
de maré.

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Buracos Negros Epílogo

Bibliografia

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Apontamentos das aulas de Cosmologia


Apontamentos das aulas de Evolução Estelar
Apontamentos das aulas de Estrelas e meio interestelar
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David Alexandre Duarte Ferreira

davidferreira@portugalmail.pt

Centro de Astrofísica
Departamento de Matemática Aplicada
Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

Mestrado em Astronomia
Ano Lectivo 1998/99

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