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Fernanda Mendes Arantes

Educação e Sexualidade
Sumário
CAPÍTULO 3 – Como pensar a relações de gênero e o papel dos/as educadores/as
no ambiente escolar?......................................................................................................05

Introdução ....................................................................................................................05

3.1 Os estereótipos de gênero, seus marcadores sociais de desigualdade


e as consequências no processo educativo.........................................................................05

3.1.1 Escola mista....................................................................................................06

3.1.2 Coeducação....................................................................................................06

3.1.3 A coeducação acontece na escola mista?De que forma?......................................08

3.1.4 Qual é a educação que queremos?....................................................................09

3.2 Masculinidades e feminilidades na escola para além do modelo binário..........................10

3.2.1 Como as crianças lidam com as diferenças.........................................................10

3.2.2 Pesquisa: Por ser menina no Brasil......................................................................12

3.2.3 E no futuro, como será?....................................................................................13

3.3 Entrelaces entre gênero, sexualidade, educação e formação docente..............................14

3.3.1 E se você tivesse um aluno como o Romeo?........................................................14

3.3.2 Como trabalhar com os pais.............................................................................16

3.3.3 O que fazer na sala de aula?............................................................................16

3.3.4 Haverá resistência à coeducação?.....................................................................20

Síntese...........................................................................................................................22

Referências Bibliográficas.................................................................................................23

03
Capítulo 3
Como pensar a relações de gênero
e o papel dos/as educadores/as no
ambiente escolar?

Introdução
Antes de começar seus estudos, reflita: você já se perguntou sobre a relevância do papel do
professor na vida de seus alunos, dentro e fora da escola?

Sabe-se que os professores são, na maioria das vezes, exemplos e modelos para seus alunos.
Por este motivo, é fundamental que sejam formadores de opiniões, pessoas esclarecidas sobre
conceitos e preconceitos e possam, assim, contribuir para a formação de cidadãos conscientes
de seu papel na escola e na sociedade. Qual é a influência de um professor junto aos seus alu-
nos e, consequentemente, a sua família? Quais assuntos podem ser abordados na sala de aula?

As relações de gênero precisam ser discutidas na escola, pois conforme observado no decorrer
da história, a escola é uma instituição que ressalta as diferenças e acaba transformando-as em
desigualdades em diversos aspectos da vida, tais como: riqueza x pobreza; inteligência x não-
-inteligência; meninos x meninas, dentre outras. Ou seja, a escola, que deveria combater o pre-
conceito, acaba muitas vezes sendo o personagem principal que irá reproduzir e disseminar este
preconceito, gerando danos que permanecem vivos e são transmitidos de geração em geração.

Nesse sentido, enquanto futuro professor, já parou para pensar sobre a dimensão do seu papel
na formação de seus alunos?

Para que comece a pensar sobre as diferenças, este primeiro tópico discutirá educação mista
versus coeducação, apresentando suas respectivas definições e a importância da escola no es-
clarecimento e consequente transformação da realidade cotidiana. Prepare-se para trabalhar
adesconstrução depreconceitos e aprender sobre temas importantes na sala de aula.

3.1 Os estereótipos de gênero, seus


marcadores sociais de desigualdade e as
consequências no processo educativo
Quando se fala em gênero, muito do que é disseminado na escola reverbera na sociedade e
com isso, a função social à que se destina não é contemplada de maneira que possa garantir,
por exemplo, a convivência de meninos e meninas sem distinção nas relações de gênero. É
fundamental refletir sobre o atual modelo escolar, e principalmente pensar em conceitos como
escola mista e coeducação. Você já parou para pensar sobre estes conceitos?

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Educação e Sexualidade

Neste momento, provavelmente você abriu seu site de busca preferido e digitou: “escola mista
e coeducação”, correto? Nesse caso, provavelmente foi direcionado a páginas que afirmam se
tratarem do mesmo conceito. E, assim, “resolveu” sua dúvida. No entanto, você foi direcionado
a explicações equivocadas. Portanto, navegue nos próximos tópicos para que possa entender a
diferença entre escola mista e coeducação.

3.1.1 Escola mista


O conceito de escola mista é entendido como a mistura de meninos e meninas no ambiente esco-
lar. Porém, sabe-seque somente esta “mistura” não é suficiente ou não é feita de maneira adequa-
da. Ao colocar lado a lado meninos e meninas, não são excluídas as diferenças e desigualdades
de gênero que acontecem no dia a dia da escola. Para que você possa perceber melhor, pense
sobre essas situações cotidianas:o rosa é a cor da menina, e o azul a cor do menino; o papel de
princesa na peça de final de ano é sempre atribuído à menina, e de príncipe ao menino; há a
determinação de lugar de menina e lugar de menino nos ambientes dentro de algumas escolas;
há a distinção de inteligência de menina e inteligência de menino, ou seja, conteúdos que são de
fácil entendimento para meninas não são para os meninos, e vice-versa, dentre outros exemplos.
Ficou mais fácil perceber as desigualdades de gênero, tão comuns em nosso dia a dia?

VOCÊ SABIA?
A revista Nova Escola, em fevereiro de 2015, publicou uma reportagem sobre o alu-
no Romeo, estudante da Educação Infantil no Reino Unido. Este aluno foi banido do
contraturno da escola por preferir usar vestidos de princesas a roupas masculinas. É
fundamental que você, futuro Pedagogo, leia esta reportagem e conheça esta realidade
que não é exclusiva do Reino Unido. Acesse: https://novaescola.org.br/conteudo/80/
educacao-sexual-precisamos-falar-sobre-romeo.

A seguir, você conhecerá o conceito de coeducação.

3.1.2 Coeducação
Daniela Auad (2006), em seu livro Educar meninas e meninos – relações de gênero na escola,
contribui para o entendimento do conceito de coeducação. Mais do que um conceito, a autora
defende o estabelecimento de uma política de coeducação, conforme pode ser observado no
trecho extraído do livro, a seguir:

Defendo, portanto, a implementação de uma política de Coeducação. Esta [...]é percebida [...]
como uma política pública propositiva e implementadora de modos de pensar e transformar as
relações de gênero na escola. A Coeducação é aqui entendida ainda como uma maneira de
questionar e reconstruir as ideias sobre o feminino e sobre o masculino, estes percebidos como
elementos não necessariamente opostos ou essenciais (AUAD, 2006, p. 55).

Isto não quer dizer que estamos falando na existência de escolas para meninas e escolas para
meninos; é preciso, sim, haver escolas mistas, mas que saibam diferenciar e refletir sobre a im-
portância da coexistência dos gêneros.

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Figura 1 – As oportunidades devem ser as mesmas para meninas e meninos.
Fonte: Setgey Novikov, Shutterstock, 2017.

A ideia de coeducação ainda não existe na prática, e Auad (2006) antecipa que, para que exista,
é necessária a implementação de uma política de coeducação, envolvendo ações direcionadas à
exterminação das desigualdades em busca de uma sociedade igualitária e justa.

VOCÊ QUER LER?


A autora Daniela Auad trata do tema “desigualdade de gênero” no livro Educar me-
ninas e meninos – relações de gênero na escola (2006).Questiona, por exemplo, as
explicações biológicas que tratam das diferenças entre meninas e meninos e aponta
possibilidades de atuação do professor em sala de aula, contribuindo assim para a
diminuição das desigualdades.

Desta forma, pode-se compreender que a escola mista vigente na educação brasileira não é
suficiente para extinguir as desigualdades. Não queremos dizer, com isso, que a escola mista
deva ser excluída, mas seja um instrumento para que a coeducação aconteça na prática. Por
meio do desenvolvimento e estabelecimento da coeducação, pretende-se dirimir as desigualda-
des nas relações de gênero dentro da escola e, dessa maneira, contribuir para seu reflexo na
sociedade como um todo.

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Educação e Sexualidade

3.1.3 A coeducação acontece na escola mista?De que forma?


A partir dos conceitos anteriormente trabalhados neste estudo, entende-se que a coeducação pode
acontecer dentro da escola mista. Sabe-se, no entanto, que somente a junção de meninas e me-
ninos na escola não é suficiente para que as desigualdades de gênero sejam diluídas ou extintas.

Para a existência da coeducação, como citado em Auad (2006), são necessárias políticas públi-
cas que favoreçam o modo de pensar no sentido de estabelecer transformações nas relações de
gênero na escola.

É fundamental que você perceba a evolução da escola ao longo dos tempos. Saiba que, de acor-
do com Auad (2006), o sistema de ensino que você conhece teve origem na Europa, no século
XVIII. Durante muito tempo, a educação das mulheres foi voltada aos serviços “do lar”, enquanto
a dos homens foi direcionada à instrução e à escolarização. Acredite, a mulher nesta época era
vista como uma pessoa que tinha como principais funções ser esposa e mãe, e se fosse muito
instruída, ou tivesse grande acesso à cultura em geral, poderia se desvirtuar de sua principal
função: cuidar do lar.

Ainda segundo Auad (2006), no início do século XIX começou-se a veicular a necessidade de es-
colarização da mulher para que ela pudesse atender aos seus filhos. Ou seja, sua escolarização
estava diretamente relacionada à necessidade de educar as crianças e, com isso, beneficiar as
futuras gerações. Você consegue imaginar uma realidade como esta?

Obviamente, não estamos aqui falando que nossa situação atual é a ideal, mas estamos longe
da realidade vivenciada nos séculos XVIII e XIX.

A escola mista que você conhece começou a ser implantada no século XX, após o final da Segun-
da Guerra Mundial (1939-1945). Como você já sabe, com as revoluções Francesa (1789-1799)
e Industrial (séculos XVIII e XIX), e posteriormente com as duas grandes guerras mundiais (1914-
1918 e 1939-1945), a mulher passou a ingressar progressivamente no mercado de trabalho.
Com isso, percebe-se seu valor neste mercado, e cada vez mais é necessária asua inserção e
igualdade de oportunidades na escola.

No Brasil, durante muito tempo, a educação não era acessível às mulheres. Considerava-se que
sua instrução poderia gerar desonra, isto porque as mulheres poderiam ter acesso a livros con-
siderados proibidos para elas.

Segundo Auad (2006), em 1827 a lei Imperial no reinado de D. João VI autorizou a abertura de
classes femininas, mas os currículos masculinos eram diferenciados dos currículos femininos. Nes-
ta época era mais importante a preparação da mulher para o casamento do que a sua instrução.

E como surgiram as escolas preparatórias para professores? Percebeu-se a importância da mu-


lher neste contexto, porém elas estavam restritas somente a ensinar as primeiras letras (leia-se al-
fabetização), enquanto os homens eram destinados aos demais níveis da educação (atual ensino
fundamental, médio e superior). Isto porque acreditava-se (e ainda se acredita) que as mulheres
são “destinadas” à maternidade e com isso, “obviamente” sabem lidar com crianças menores,
ao contrário dos homens. Hoje em dia sabe-seque nem todas as mulheres almejam a materni-
dade, muito menos desejam lecionar somente para crianças pequenas. Assim, você consegue
perceber porque a alfabetização foi, e ainda é, desvalorizada. Parece que é somente uma tarefa
de extensão às tarefas do lar, da família, da mãe, não é mesmo?

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Figura 2 – Há diferenças de oportunidades e rendimentos no mercado de trabalho entre homens e mulheres.
Fonte:Shutterstock.

VOCÊ QUER LER?


A pesquisa Por ser menina no Brasil: crescendo entre direitos e violências, foi desenvol-
vida pela Plan International Brasil e publicada em 2013.É fundamental conhecer esse
documento, para o qual foram ouvidas 1.771 meninas de 6 a 14 anos nas cincoregiões
do Brasil. Disponível em: <https://plan.org.br/por-ser-menina-no-brasil-crescendo-en-
tre-direitos-e-viol%C3%AAncia#download-options>.

A partir do que viu até aqui, você saberia dizer a partir de quando se percebeu no Brasil a im-
portância do ensino misto? Tente se lembrar do movimento da Escola Nova. Sim, caro estudante,
através dos ideais deste movimento, percebeu-se a importância de um ensino oficial, obrigatório,
gratuito, leigo e misto. Quando? Na década de 1930.Contudo, pode-se dizer que a escola mista é
a solução dos problemas? Obviamente que não. Foi um “primeiro passo” na inserção da mulher na
escola, com direitos “iguais” – os termos foram sinalizados entre aspas para representar de maneira
irônica a forma como era vista a mulher antigamente e quais oportunidades eram destinadas a ela.

Colocar meninas e meninos na mesma escola é somente o começo, porém, será que paramos
por aí? Ou seja, de lá para cá, o que mudou? Pouca coisa, concorda? A escola mista é reprodu-
tora de desigualdades, e a saída seria a coeducação, proposta por Auad (2006).

Para entender melhor esse panorama de desigualdades, a seguir você verá as questões relacio-
nadas aos estereótipos de gênero.

3.1.4 Qual é a educação que queremos?


Após toda esta discussão, você deve estar se perguntando: afinal, qual é a educação que quere-
mos? Já sabe que educar não é tarefa simples, muito menos se trata de uma tarefa a ser seguida
a partir de um manual de regras e situações que devem ser repetidas na sala de aula.

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Educação e Sexualidade

O que se quer é educar meninos e meninas para que estes percebam seu papel na sociedade e,a
partir daí, entendam qual a importância de favorecer atitudes que tenham como objetivo final
uma sociedade justa e com igualdade de opções.

Para tanto, é fundamental que não se reproduzam situações como, por exemplo,separar meninas
por serem quietas dos meninos rotulados como bagunceiros. Percebe a importância de tal atitude
e como ela é discriminatória e classificatória?

Auad (2006) apresenta caminhos que podem ser seguidos em busca da coeducação. Obviamen-
te, não se trata de um manual prático da coeducação, mas sim possibilidades de intervenção a
partir da discussão aqui apresentada e que podem ser consultadas de maneira mais completa no
livro Educar meninas e meninos – relações de gênero na escola (AUAD, 2006). O último tópico
deste capítulo apresentará essas possibilidades.

3.2 Masculinidades e feminilidades na


escola para além do modelo binário
Tudo que foi dito até aqui reforça um comportamento vigente em nossa sociedade: o estereóti-
po de gênero. Estereótipo nada mais é do que um comportamento repetido automaticamente,
de geração em geração, sem questionamento ou adaptação à realidade presente.E quando se
fala de estereótipo de gênero estamos reforçando que determinadas características ou tarefas
são específicas de homens ou mulheres. Quando se pensa que as tarefas domésticas são de
responsabilidade da mulher, e o “sustento” da família é de responsabilidade do homem, há uma
reprodução desse comportamento.

Você, futuro professor, precisa questionar seus alunos: há divisão das tarefas domésticas entre os
membros da sua família? Meninos contribuem da mesma forma que meninas em tarefas domés-
ticas como lavar louça, limpar a casa, cozinhar ou lavar a roupa?

A seguir você verá como o estereótipo de gênero é presente em nossa sociedade, através da pes-
quisa citada aqui anteriormente: Por ser menina no Brasil – crescendo entre direitos e violências
(PLAN INTERNATIONAL BRASIL, 2013).

3.2.1 Como as crianças lidam com as diferenças


As famílias em si são diferentes. Não podemos mais aceitar atualmente o modelo de família do-
minante no século passado, como sendo o único possível. De acordo com Cerveny (2010), há
atualmente no Brasil uma diversidade de modelos familiares, as colonizações, miscigenações,
heranças culturais e genéticas existentes em nosso país tornam impossível delimitarmos um mo-
delo de família brasileira. Se a situação é assim em nosso país, imagine no restante do mundo?
Veja um exemplo no caso descrito a seguir.

Caso
Você se lembra do menino Romeo, que citamos anteriormente? Ele, que tem cinco anos de idade e
mora no Reino Unido, possui mais de 100 vestidos femininos e prefere usá-los em vez de vestir-se
com “roupas de menino”. Sua escola, obviamente, não estava preparada para esta situação e optou
por expulsá-lo.Porém,esta situação ocorrida em 2015, ganhou visibilidade mundial.

Romeo estudava na Educação Infantil. Através da prática docente, sabe-se que crianças peque-
nas não reproduzem preconceitos, pois, na maioria das vezes, não entendem “as diferenças”
presentes na sociedade. Não é comum observar uma criança de 2 ou 3 anos rindo de um colega

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porque sua roupa não é de marca; ou ridicularizando um amigo por ser estrangeiro, por exem-
plo. Estes comportamentos estão presentes nos adultos. E o adulto influencia a criança.

Para a mãe e o pai de Romeo não há problema na opção pelos vestidos. No entanto, eles foram
chamados à escola para que explicassem este comportamento. O caso de Romeo não é uma
exceção. Sabe-seque as diferenças entre homens e mulheres são comuns na escola e na família,
e em todo o mundo (SOARES, 2015).

Há uma divisão de tarefas em cada família, oriunda desta miscigenação, mas o que se pode obser-
var a partir da pesquisa Por ser menina no Brasil, de 2013, é que as meninas realizam mais tarefas
domésticas do que os meninos e, com isso, acabam tendo menos tempo para brincar livremente.

A partir desta pesquisa, o depoimento de Jussara Prá, professora de Ciência Política da UFRGS,
estudiosa das questões de gênero no Rio Grande do Sul, reforça a divisão de tarefas entre seus
filhos, dois homens e uma mulher, na sua família. Seu marido também entra na divisão de tare-
fas. Até que, em um certo dia, ao encontrar o pai lavando a louça, o filho perguntou o que ele
estava fazendo pois aquilo era “coisa de mulher”. Obviamente, caro estudante, a pesquisadora
“surtou”, pois, um comportamento tão combatido por ela em casa, foi reforçado na escola.

VOCÊ QUER LER?


Um importante material que trata sobre o estereótipo de gênero é a reportagem “Pesquisa
mostra que meninas e meninos são criados de maneira distinta pelos pais” (ALMEIDA;
ROSO, 2014). Nesta matéria, algumas famílias típicas brasileiras são entrevistadas sobre
como os meninos são criados de maneira diferenciada das meninas. Ficou curioso? Dis-
ponível em:<http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/noticia/2014/10/pesquisa-mostra-
-que-meninas-e-meninos-sao-criados-de-maneira-distinta-pelos-pais-4613488.html>.

Figura 3 – Meninos e meninas podem e devem realizar as mesmas brincadeiras e atividades.


Fonte: Olesia Bilkei, Shutterstock, 2017.

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Educação e Sexualidade

E este é o nosso problema, pois enquanto educadores não podemos reforçar qualquer tipo de
preconceito. Temos que explicar conceitos, exemplificar, praticar, mas jamais reforçar ideias equi-
vocadas, como dizer que lavar a louça é tarefa de menina, por exemplo. De acordo com Pádua
(2013), estes são exemplos simples que apontam uma tendência em tratar de modo naturalizado
as diferenças entre homens e mulheres como se estas diferenças fossem de ordem biológica. A
seguir, você saberá mais sobre estas diferenças.

3.2.2 Pesquisa: Por ser menina no Brasil


Uma parte da pesquisa Por ser menina no Brasil (PLAN INTERNATIONAL BRASIL, 2013), foi feita
no Rio Grande do Sul. A realidade vivenciada pelas meninas gaúchas reflete a situação de pra-
ticamente todo o território nacional. Estas meninas possuem mais atividades e responsabilidades
domésticas e, por isso, sobra menos tempo para brincarem livremente. Dentre as brincadeiras
realizadas, analise a figura a seguir, que apresenta extrato retirado da pesquisa:

BRINCADEIRAS

31,7%
das meninas avaliam que o tempo para brincar
é insuficiente durante a semana.

65,5%
delas discordam da opinião de que “meninas só
devem brincar de boneca, e meninos, de
carrinho”.
72,9%
discordam da opinião de que “é feio ver meninas
brincando com meninos”.

82,7%
discordam da opinião de que “é feio ver meninas
brincando com meninos”.

Figura 4 – Opinião sobre a realização das brincadeiras por parte das meninas gaúchas.
Fonte: Plan International Brasil, 2013.

A partir deste extrato da pesquisa, é possível perceber que a maioria das entrevistadas não se-
para a brincadeira de menina da brincadeira de menino, além de acreditarem na possibilidade
do “brincar conjunto” como uma ação presente e normal em seu cotidiano. Além disto, 31,7%
das meninas gaúchas entrevistadas acreditam que possuem pouco tempo para brincar durante a
semana. Esta situação está atribuída à realização de tarefas domésticas. Você se lembra que as
meninas reclamam que realizam mais tarefas em casa do que os meninos? E esta reclamação se
confirma a partir da pesquisa, conforme apresenta a figura a seguir:

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DISTRIBUIÇÃO DE TAREFAS

arrumar a cozinhar lavar a limpar lavar a passar a cuidar do(s)


minha cama louça a casa roupa roupa irmão(s)

81,4% 41,0% 76,8% 65,6% 28,8% 21,8% 34,6%


MENINAS

11,6% 11,4% 12,5% 11,4% 6,4% 6,2% 10,0%

MENINOS

Figura 5– Distribuição de tarefas domésticas entre meninas e meninos.


Fonte: Plan International Brasil. 2013.

Analise com calma a figura apresentada. Você percebe diferenças em todas as atividades, mas
em três delas as diferenças são maiores: arrumar a cama, lavar a louça e limpar a casa. Assusta-
dor, não é mesmo? Agora pare e pense. Como você, enquanto futuro educador, tem contribuído
para a reprodução desta desigualdade? Será que em algum momento na sua sala de aula você
já falou que lavar a louça é tarefa feminina?

Lembre-se sempre do início deste capítulo, quando falamos da importância do professor na for-
mação das crianças.

E isso se confirma a partir dos dados analisados. O que você fala, pensa, veste, sugere, faz toda
a diferença para seu aluno. Cuidado para não reproduzir e fomentar as diferenças ainda mais.

3.2.3 E no futuro, como será?


Você deve estar pensando porque a pesquisa da Plan InternationalBrasil (2013) tem sido repetida
tantas vezes ao longo deste estudo, não é mesmo? Trata-se, caro estudante, de uma pesquisa
completa, feita nas cinco regiões brasileiras que busca afirmar os direitos de homens e mulheres,
meninas e meninos e mais do que isso, mobilizar a sociedade civil no sentido da criação de po-
líticas públicas na busca de maior igualdade de gênero.

Ou seja, esta pesquisa radiografa a realidade de desigualdade de gênero em nossa sociedade e


fornece subsídios no sentido de diminuir ou exterminar esta situação. A partir da conscientização
do problema, buscamos soluções.

As mulheres precisam de igualdade nas oportunidades para que possam ter liberdade de esco-
lha. A pesquisa relata que a mulher reinveste 90% da sua renda na família, enquanto o homem
reinveste apenas 30% da renda. Ou seja, para cada mulher escolarizada e com acesso às opor-
tunidades de trabalho iguais, observamos que o ciclo de pobreza tende a diminuir.

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Educação e Sexualidade

Porém, ao criarmos meninas demonstrando a elas que tarefas domésticas são de exclusividade
feminina, estamos reproduzindo estereótipos e reforçando ideias que irão limitar suas possibilida-
des futuras. A mulher vai entender que este é seu papel, e que suas possibilidades são limitadas.

Voltando às brincadeiras, é fundamental que você, futuro professor, não reproduza comportamentos
errados, separando, por exemplo, brinquedos de meninas e meninos. Você que chegou até aqui
na leitura deste material deve se perguntar, qual o problema de a menina brincar de carrinho e
do menino brincar de boneca sendo que, no futuro esta mesma menina deve dirigir um carro e
este mesmo menino deve participar junto com sua esposa na criação e educação de seus filhos,
não é mesmo? Espero que você não encontre problema nas situações acima mencionadas. Re-
veja seus conceitos. Repense seu papel de educador e formador de cidadãos que irão compor a
sociedade no futuro.

3.3 Entrelaces entre gênero, sexualidade,


educação e formação docente
Para que se possa atuar efetivamente no sentido de promover a coeducação, uma das primeiras ta-
refas possíveis seria a formação de educadores atuantes, que favoreçam o debate sobre as relações
de gênero, e que esta discussão não estivesse restrita à escola e pudesse alcançar a sociedade.

Obviamente que a mudança não acontece se não houver a transformação a partir da legislação
do país, pois são necessárias leis que promovam o acesso igualitário tantos para mulheres quan-
to para homens na escola, assim como na atuação profissional e na sociedade como um todo.

Na escola, é preciso desconstruir as ideias separatistas que acontecem no cotidiano sem que se
possa perceber. Quer um exemplo? Na escola onde você atua, provavelmente já foram feitas fi-
las para meninos e filas para meninas. Percebeu agora como esta simples atitude é segregadora?
Diante disso, o que se deve fazer? Auad (2006) propõe que uma possibilidade neste caso seria
montar duas filas a partir das letras do alfabeto: uma fila da letra A até L e a outra da letra M até
Z, por exemplo. Simples não é mesmo?

VOCÊ QUER VER?


Um bom filme que trata das questões escolares cotidianas é Entre os muros da escola
(França, 2008). A obra não trata somente das questões de desigualdade de gênero,
mas serve como instrumento para que você perceba como a intolerância é forte e pre-
sente atualmente, tanto no âmbito étnico, religioso, cultural, sexual, dentre outros. É
um filme denso, mas importante para a formação do futuro educador.

Portanto, neste tópico foram propostas situações cotidianas como objetivo de desconstruir pre-
conceitos e favorecer uma sociedade igualitária que aflore dentro dos muros da escola.

3.3.1 E se você tivesse um aluno como o Romeo?


Sobre as transformações que buscam o desenvolvimento da coeducação na escola, de acordo
com Auad (2006), um dos importantes instrumentos para o educador é o currículo, que pode – e
deve – ser transformado. Como? Um exemplo é tratar das questões de sexualidade e do corpo
humano não somente nas aulas de Ciências, mas sim como um tema transversal que perpasse as

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disciplinas do currículo. Outro exemplo são as mulheres historicamente importantes, que muitas
vezes ficam restritas às disciplinas de História e/ou Literatura. Por que não tratar destas impor-
tantes personagens a partir de uma visão que contemple todos os assuntos e disciplinas? Por que
não realizar um trabalho ou projeto interdisciplinar para que os seus alunos percebam o alcance
destas personagens e seus feitos na história mundial?Quer um exemplo de uma personagem
importante? Maria Montessori.

VOCÊ O CONHECE?
Maria Montessori foi a primeira mulher a se formar médica na Itália.Trabalhou com
crianças com necessidades especiais e percebeu que a forma como as educava poderia
auxiliar as crianças ditas “normais”. Valorizava a descoberta feita pelo aluno e acredita-
va que todos têm o potencial e a capacidade de ensinar a si mesmos, desde que tenham
condições para tal atitude. Para saber mais sobre ela, assista ao filme Maria Montessori
– uma vida dedicada às crianças (Itália, 2007), dirigido por Gianluca Maria Tavarelli.

Exemplos históricos são fundamentais na nossa prática enquanto educadores. Provocam refle-
xões sobre nossas atitudes e como, em diversos momentos, acabamos por reproduzir preconcei-
tos que não consideramos adequados, quando analisados friamente. Por isso, é importante que
você reflita sobre os exemplos aqui apresentados. Lembra do Romeo, aluno da Educação Infantil
no Reino Unido?

E se você tivesse em uma sala de aula, um aluno como Romeo?

Esta é a pergunta que as estudantes nos fazem quando tratamos do caso do Romeo na sala de
aula, normalmente nas disciplinas de Educação Infantil ou Ensino de Ciências. Aqui já perce-
bemos um erro, pois conforme citado anteriormente, defendemos o debate sobre este tema de
maneira transversal, que possa atingir e compreender todos os conteúdos e valores inseridos no
currículo escolar.

A primeira atitude parte de você, futuro professor. Você deve desconstruir seus preconceitos e
entender que a nossa sociedade atualmente é diferente daquela em que você se formou quando
estava no Ensino Fundamental ou Médio. Como diriam nossos avós, os tempos são outros. E
são mesmo. Você deve analisar com calma o caso de Romeo e se perguntar: será que o fato do
menino vestir roupas femininas irá interferir no desenvolvimento da sua sexualidade futuramente?
O que responder para os alunos quando eles perguntarem: Porque ele está vestido de menina?
E como trabalhar com os pais de alunos que vierem questionar a esse respeito? Difícil situação,
não é mesmo? Os tempos são outros realmente, porém o preconceito está enraizado em nossa
sociedade como vimos anteriormente. Trabalhar a desconstrução do preconceito é uma árdua
tarefa, mas que deve ser feita. Não podemos pensar que não nos compete esta missão.

A missão de desconstruir preconceitos é, sim, do futuro professor. E o pouco que você acha que
faz na sala de aula, é muito para seu aluno.

Por isso, a sugestão é que trate o “caso Romeo” com naturalidade. Uma possível resposta aos
seus alunos, se surgir a pergunta sobre os vestidos é: “Ele usa vestidos pois se sente confortável
desta maneira.” É uma boa saída. Você não deve reforçar que existem roupas somente para me-
ninas e roupas somente para meninos.

Seu aluno vai esperar uma explicação sua, e quanto mais natural for a sua reação, melhor. Quan-
do falamos em reação natural, leia-se que estamos falando de uma reação despida de preconcei-
tos, e não de uma reação espontânea (pois esta muitas vezes vem carregada de discriminação).

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Educação e Sexualidade

3.3.2 Como trabalhar com os pais


Um dos trabalhos mais árduos do professor é, sem dúvida, lidar com os pais de seus alunos. Os
pais muitas vezes nos procuram, pois seus filhos reproduzem em casa o discurso apresentado
na escola, e vice-versa. É uma situação normal, cotidiana, mas que deve ser tratada com muito
cuidado e atenção. Certifique-se sempre para que o coordenador pedagógico ou diretor da es-
cola estejam cientes da situação ao receber algum pai ou mãe que tenha por objetivo esclarecer
algum aspecto trabalhado em sala de aula e reproduzido em casa, pela criança. Se o diálogo for
tenso, o ideal é que tenha outro colega professor como testemunha da conversa.

Uma forma interessante de iniciar a conversa é mostrando como você atua em sala de aula:
como desenvolve os conteúdos, como faz o planejamento, execução e avaliação das atividades.
Você já parou para pensar em como inicia um tema novo com a turma? Uma boa saída neste
caso é sempre a roda de conversa, onde o professor consegue descobrir quais os conhecimentos
prévios de seus alunos a partir de um debate inicial. A roda de conversa determina o rumo que
será dado por você, futuro professor, com relação à determinada temática. Na Educação Infantil
e nos primeiros anos do Ensino Fundamental I, ela pode acontecer como uma roda mesmo, pois
descentraliza o “poder” do professor. Nas séries mais avançadas, as crianças acabam abando-
nando a ideia da roda, seja por vergonha, seja por acharem esta uma tarefa exclusiva dos alunos
menores. Mas a prática não pode ser abandonada. É fundamental que você sempre inicie um
assunto novo, sabendo o que os seus alunos sabem a este respeito.

Reforce aos pais, portanto, a sua atuação na sala de aula, tanto no planejamento, quanto na
execução das atividades e avaliação. Esta é uma forma importante que irá demonstrar aos pais
como o trabalho é feito. Não existe situação abordada em sala de aula, sem planejamento. E o
planejamento faz toda a diferença. Ao planejar, você demonstra que pesquisou sobre o assunto,
e isto pode tranquilizar os pais de seus alunos. O destaque para o termo pode é porque, muitas
vezes, somente esta explicação não será suficiente.

Após a explicação inicial é fundamental que você escute o pai ou a mãe de seu aluno. Perceba
quais são os fatos, o que é real ou o que partiu da imaginação de seus alunos, e registre os ar-
gumentos da família. Os pais precisam sentir que têm a sua voz ouvida pela escola.

Se a situação partiu da imaginação do aluno, é de fácil resolução. Mas aqui estamos falando
de um debate importante e muitas vezes evitado pelos pais, pois estes acreditam, na maioria dos
casos, que se o menino brincar de boneca poderá mudar sua orientação sexual futuramente, e a
mesma coisa acontece com a menina que brinca de carrinhos. Sabemos que não é a brincadeira
ou a vestimenta que irá definir a orientação sexual da pessoa. E isto deve ficar claro aos pais que
questionarem os professores em uma situação como esta.

3.3.3 O que fazer na sala de aula?


Novamente citamos aqui o livro de Daniela Auad (2006), pois como foi dito anteriormente este
material traz questionamentos, dúvidas, mas também aponta caminhos possíveis para o professor.

Você deve estar se perguntando, e então, como eu faço na sala de aula para contribuir para a
diminuição dos preconceitos e desigualdades? Apresentamos a seguir algumas possibilidades
descritas por Auad (2006). Leia e reflita com atenção:

1. Quando você tiver que advertir algum aluno seu, evite comparações entre os sexos, do
tipo: “Você está mais bagunceira do que os meninos hoje!”

16 Laureate- International Universities


2. É fundamental que as brincadeiras, os brinquedos e os papéis na brincadeira não sejam
separados. Atualmente o discurso: isto é somente para os meninos, não é mais aceitável!

3. Não reproduzir piadas e preconceitos racistas, com mulheres ou com homossexuais, ou


qualquer outra população envolvida em situação discriminatória.

4. Evite separar competências de meninas e meninos. Não utilize o discurso: meninos são
melhores em matemática e meninas são melhores em português.

5. Sempre que perceber o preconceito entre seus alunos, você deve intervir e esclarecer.

6. Trate meninos e meninas da mesma forma, sem distinção.

7. Deve desencorajar a competição e encorajar a cooperação nas atividades e brincadeiras


entre meninas e meninos.

8. Estimule o desenvolvimento de tarefas iguais tanto para as meninas quanto para os meninos.

9. Incentive a atuação das meninas e meninos nas mesmas áreas e brincadeiras. Não rotule
disciplinas e brincadeiras, por exemplo: marcenaria é uma atividade masculina e culinária
uma atividade feminina.

10. Ensine o respeito. Esta é uma das mais importantes atribuições do professor! Ensinar o
respeito e o amor. Porque na Educação Infantil tratamos as crianças com tanto afeto e no
Ensino Fundamental nos distanciamos do amor e do carinho?

11. Encoraje seus alunos a se tratarem com carinho. O afeto é ferramenta essencial para o
sucesso na aprendizagem.

VOCÊ SABIA?
Daniela Auad é Pedagoga, Mestra em História e Filosofia da Educação e Doutora em
Sociologia da Educação pela Faculdade de Educação da USP – Universidade de São
Paulo. Autora do livro Feminismo: que história é essa?(2003), é professora titular da
Universidade Paulista e professora visitante no Departamento de Sociologia da Uni-
camp – Universidade de Campinas.

Acrescentamos mais dois itens à lista elaborada por Daniela Auad:

1. Adote materiais didáticos que você conheça. Você deve ler o que irá aplicar aos seus
alunos. Se o material for preconceito ou discriminatório, descarte-o!

2. Tenha voz ativa na sua escola! Seus pares, coordenadores e diretores da escola devem
saber como você pensa e se posiciona.

17
Educação e Sexualidade

Figura 6 – Tratar meninos e meninas sem distinção é uma das atitudes corretas dentro da sala de aula.
Fonte: Monkey Business Images, Shutterstock, 2017.

O material didático faz parte do seu cotidiano na escola. Você deve conhecê-lo antes de utilizá-lo
em sala de aula.

De acordo com Bocchini (2001), a maioria das pessoas pensa que o que está escrito no livro
didático é verdade absoluta. Hoje em dia sabe-se que pode não ser bem assim. Se um livro
didático apresenta as ditas minorias em situação de inferioridade, acaba-se por perpetuar um
preconceito sem perceber. Muitas vezes esta situação é colocada de maneira bastante sutil, até
subliminar no livro didático. Você sabia que uma pesquisa realizada na década de 1980 cons-
tatou que as figuras ou imagens presentes nos livros didáticos eram na sua maioria de homens?
Ou seja, quando se fala em humanidade nos livros didáticos, os exemplos de imagens que se tem
são sempre masculinos. Além de representar na sua maioria esmagadora somente os homens,
as mulheres negras também são excluídas neste contexto. Agora pense, você sendo uma menina
negra, ao acessar o seu material didático da escola, além de não se reconhecer nas figuras que
são na sua maioria esmagadora masculinas, também não se reconhece, pois quase nunca verá
uma pessoa negra representada nestas imagens.

Os livros de Ciências, segundo a autora também reforçam este preconceito:

Enquanto o menino usa binóculo para observar pássaros com objetividade e postura científica,
meninas sem binóculo apenas se distraem com o voo ondulado de borboletinhas que enfeitam
o cenário. Meninas também são representadas ajudando o menino protagonista,estendendo a
ele os objetos necessários para a experiência ou anotando (BOCCHINI, 2001, p. 2).

Por isto, caro estudante, desconfie dos livros didáticos. Vale uma leitura cuidadosa antes da sua
utilização. A estudiosa francesa André e Michel (1989) estabeleceu uma ferramenta para avalia-
ção de materiais escolares, você encontra este instrumento no livro Educar meninas e meninos
(AUAD, 2006). É importante você conhecer esta ferramenta para se inspirar na sua atuação
enquanto professor:

18 Laureate- International Universities


Roteiro para avaliação de livros e materiais didáticos quanto às desigualdades de gênero:

1. Título da obra

2. Assunto tratado ou disciplina

3. Editora e ano da publicação

4. Nome de autoras(es)

5. Sexo de autores(as): feminino ( ) masculino ( )

6. Quais e quantas são as atividades/ocupações nas quais são mencionadas:


( ) meninas ( ) meninos ( ) mulheres ( ) homens

7. Qual o número de ilustrações apresentadas em relação a cada sexo:


( ) meninas ( ) meninos ( ) mulheres ( ) homens

8. Quantas vezes o texto menciona:


( ) meninas ( ) meninos ( ) mulheres ( ) homens

9. Quais são os adjetivos usados para descrever:


( ) meninas ( ) meninos ( ) mulheres ( ) homens

10. Descreva a linguagem utilizada no texto para se referir aos homens e meninos e às
mulheres e meninas.

11. As mulheres e os homens que aparecem nos textos apresentam contribuições significativas?
Quais?

12. Quais são os modelos apresentados para meninas, meninos, mulheres e homens?

13. O texto está escrito em estilo contemporâneo e realista?

14. Existem seções especiais que tratem unicamente das mulheres ou etnias e raças particulares?
Se sim, como são abordadas as minorias sociais?

15. Como o texto pode influenciar nas aspirações de meninas e meninos no que diz respeito
à instrução e à profissão?

16. Em uma página, faça um breve resumo do livro ou do material analisado. Diga se ele
deve ou não ser adotado e por quê.

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Educação e Sexualidade

Figura 7– O professor deve conhecer os materiais didáticos antes de utilizá-los na sala de aula.
Fonte: Nattika, Shutterstock, 2017.

Analise com cuidado as 16 questões que compõem o instrumento. Perceba como a autora parte
de uma visão geral para aspectos específicos do material. Esta ferramenta é fundamental para
que você desenvolva um olhar crítico sobre os materiais que trabalha não somente quando o
assunto é educação e sexualidade. Se bem adaptado, você poderá utilizar esta ferramenta nas
suas diversas áreas de atuação na escola.

3.3.4 Haverá resistência à coeducação?


Você já percebeu que a coeducação precisa de amplas políticas públicas educacionais para que
se torne realidade, não é mesmo? E esta situação pode remetê-lo a um discurso que você já
escutou ou reproduziu em algum momento da sua vida enquanto estudante: o que eu posso fazer
na sala de aula irá refletir na sociedade como um todo? O que faço é muito pouco perante a
desigualdade existente no mundo.

Este é um discurso comodista. Tratam-se de frases feitas repetidas por pessoas que não têm inte-
resse em mudar nada, por menor que seja esta mudança.

O que queremos com esta provocação é justamente estimular o seu desejo pela mudança. Pois
cada professor, cada estudante de Pedagogia e das demais licenciaturas, cada auxiliar de classe,
cada estagiário em Educação podem ser o agente da transformação desejada. O pouco que
você faz, é muito! Se, em uma turma de 30 alunos você não conseguir atingi-los em sua totali-
dade, não desista! E se eu conseguir ajudar e esclarecer somente um aluno? Não desanime! Este
pouco é muito! Acredite! Este único aluno será o agente transformador em sua família, e este
processo pode e deve ser contínuo, contemplando diversos atores sociais.

Pequenas atitudes, como as que mencionamos em tópicos anteriores, são sementes da transfor-
mação! São pequenos ideais rumo à coeducação. Veja o que afirma Auad (2006) a este respeito:

20 Laureate- International Universities


O fato de a Coeducação existir como ideal pode, per si, transformar as práticas.
A busca pela Coeducação asseguraria a existência de práticas mais igualitárias e
menos centradas nas relações de gênero tradicionais que colocam o masculino de
um lado e o feminino de outro. (AUAD, 2006, p. 86).

Obviamente surgirão resistências por parte dos diversos atores que compõe a comunidade esco-
lar. Pessoas repetindo os discursos conformistas citados acima, jargões e o próprio preconceito
podem ser os instrumentos da resistência. É importante que você tenha em mente o seu propó-
sito. Ou seja, pense sempre que a escola é o agente transformador da sociedade. As mudanças
devem surgir a partir dela. Fica claro que não conseguiremos transformar o mundo se não co-
meçarmos!

Se, na alfabetização, por exemplo, nós conseguimos interferir nas hipóteses da escrita da criança
e caminharmos juntos rumo à alfabetização completa; porque não conseguimos interferir nas
hipóteses que envolvem preconceitos, estereótipos, discriminações e desigualdades de nossos
alunos?

Porque, enquanto professor, consigo interferir em algo tão complexo como a construção da es-
crita, e não consigo atingir meu aluno que repete frases feitas sem mesmo se dar conta do que
está falando? Você se lembra que no início deste capítulo foi falado sobre a importância do seu
exemplo enquanto educador, principalmente para nosso público alvo que são as crianças na
Educação Infantil e nas séries iniciais do Ensino Fundamental?

Portanto, não podemos considerar a coeducação como sendo uma proposta utópica. Ela pode e
deve acontecer na sua sala de aula, e a partir daí tornar-se um exemplo para os demais alunos
da escola, seus familiares, a comunidade local, a sociedade. Ao trabalhar com práticas pedagó-
gicas em prol da diminuição das desigualdades, a escola pode promover ações que favoreçam
a construção de um novo modo de ver e repensar as “diferenças”.

Você percebeu ao longo desta unidade que a coeducação é uma importante solução para a
desigualdade de gênero vivenciada atualmente na escola. Para que aconteça na prática, são
necessárias diversas ações e políticas públicas, o que não inviabiliza a sua atuação enquanto
professor com a sua turma. É importante que fique claro que a proposta de coeducação favorece
o debate e através do debate, é possível mudar pequenas situações cotidianas de preconceito e
desigualdades. Este assunto, portanto, não está encerrado aqui. Trata-se apenas do começo da
discussão. Agora que você já conhece um pouco sobre esta temática, é hora de se aprofundar
mais, estudar, debater e colocar em prática. Mãos à obra!

21
Síntese Síntese
Você concluiu os estudos sobre importantes temas dentro da temática educação e sexualidade,
a coeducação e o estereótipo de gênero, questões essenciais à sua formação enquanto educa-
dor. A partir deste material e do seu aprofundamento posterior nas dicas apresentadas (autores,
livros, filmes), esperamos que você esteja apto a trabalhar com as diferenças entre meninas e
meninos, e que possa caminhar rumo a uma educação plena destes sujeitos.

Neste capítulo você teve a oportunidade de:

• entender os conceitos de educação mista e coeducação;

• conhecer um pouco da história que envolve a educação mista vivenciada até os dias
atuais;

• conhecer os princípios que envolvem a proposta da coeducação;

• estabelecer relações entre a prática atual na sala de aula e a prática desejada pelos
estudiosos da coeducação;

• analisar criticamente os estereótipos de gênero;

• conhecera pesquisa “Por Ser Menina no Brasil: Crescendo entre Direitos e Violências”,
desenvolvida pela Plan International Brasil;

• perceber como trabalhar com as diferenças em sala de aula;

• analisar criticamente os materiais didáticos com os quais trabalha;

• compreender como trabalhar com a família de seus alunos em casos que despertem o
debate e a curiosidade dentro e fora da escola e

• perceber que você pode trabalhar com aspectos que envolvem a coeducação na sua sala
de aula e trabalhar assim a resistência a esta temática.
Referências Bibliográficas
ALMEIDA, Kamila; ROSO, Larissa. Pesquisa mostra que meninas e meninos são criados de ma-
neira distinta pelos pais. ZH-clicrbs, out. 2014. Disponível em: <http://zh.clicrbs.com.br/rs/
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ra-distinta-pelos-pais-4613488.html>. Acesso em: 14/06/2017.

AUAD, Daniela. Educar meninas e meninos: relações de gênero na escola. São Paulo: Con-
texto, 2006.

______. Feminismo: que história é essa? São Paulo: DP&A, 2003.

BOCCHINI, Maria Otília. Relações de gênero nos livros didáticos. Folha Feminista,SOF, São Pau-
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res Nacionais: Ciências Naturais. Brasília: MEC/SEF, 1997.Disponível em: <http://portal.mec.
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CERVENY, Ceneide Maria de Oliveira; BERTHOUD, Cristiana Mercadante Esper. Família e ciclo
vital: nossa realidade em pesquisa. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.

ENTRE os muros da escola. Direção: Laurent Cantet. Produção: Carole Scotta, Caroline Benjo,
Barbara Letellier, Simon Arnal. Roteiro: Laurent Cantet, François Bégaudeau, Robin Campillo.
França, 2008. DVD, 130 min.

MARIA MONTESSORI – uma vida dedicada às crianças. Direção: Gianluca Maria Tavarelli. Pro-
dução: Camilla Nesbitt; Pietro Valsecchi. Roteiro: Gianmario Pagano; Gianluca Maria Tavarelli;
Pietro Valsecchi; Monica Zapelli. Itália, 2007. DVD, 187 min.

MICHEL, Andrée. Não aos estereótipos: vencer o sexismo nos livros para crianças e nos manu-
ais escolares. São Paulo: Unesco/CECF, 1989.

PÁDUA, Gelson Luiz Dáldegan de. et al. Pedagogia Social. Curitiba: InterSaberes, 2013.

PLAN INTERNATIONAL BRASIL. Por ser menina no Brasil [resumo executivo]. Crescendo en-
tre direitos e violências – pesquisa com meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do Brasil,
2013. Disponível em: <https://plan.org.br/por-ser-menina-no-brasil-crescendo-entre-direitos-e-
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SOARES, Wellington. Educação Sexual: precisamos falar sobre Romeo... Nova Escola, fev. 2015.
Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/80/educacao-sexual-precisamos-falar-so-
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