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Márcio de Oliveira

Educação e Sexualidade
Sumário
CAPÍTULO 4 – Quais os tipos de famílias que estamos acostumados(as) a pensar e a interagir?....05

Introdução ....................................................................................................................05

4.1 Família: um pouco de história....................................................................................06

4.1.1 Transformações no conceito de família ao longo da história..................................06

4.2 As concepções acerca dos possíveis modelos parentais.................................................10

4.2.1 Família Matrimonial..........................................................................................10

4.2.2 Família Informal...............................................................................................11

4.2.3 Família Monoparental.......................................................................................11

4.2.4 Família Anaparental.........................................................................................12

4.2.5 Família Unipessoal...........................................................................................12

4.2.6 Família Mosaico ou Reconstituída.......................................................................12

4.2.7 Família Simultânea ou Paralela..........................................................................13

4.2.8 Família Eudemonista.........................................................................................13

4.2.9 Família Homoafetiva.........................................................................................13

4.3 A escola e a criação de alternativas para receber diferentes configurações familiares.......15

4.3.1 Comemorações na escola.................................................................................16

4.3.2 Situações indesejáveis por comemorar o Dia dos Pais ou o Dia das Mães...............17

4.3.3 Comemorando o dia da família nas escolas........................................................18

4.4 Por que as reflexões sobre os diferentes tipos de famílias são importantes
na formação dos(as) profissionais da Educação? ...............................................................20

4.4.1 Formação de professores/as e o desenvolvimento infantil......................................20

4.4.2 Formação de professores(as) e as reflexões acerca dos diferentes tipos de família....21

Síntese...........................................................................................................................23

Referências Bibliográficas.................................................................................................24

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Capítulo 4
Quais os tipos de famílias que estamos
acostumados(as) a pensar e a interagir?

Introdução
Você já parou para pensar que cada família é constituída de um jeito diferente? Pois é, as pesso-
as crescem e se desenvolvem em ambientes diferenciados, cada qual com suas especificidades,
de modo que as características podem ser peculiares a cada família. E essa riqueza de detalhes
deve ser valorizada.

Partindo desse cenário, é preciso analisar que enquanto professor(a), você vai se deparar com
inúmeros tipos de família as quais precisará tratar com muito respeito, sem desmerecer nenhum
desses tipos familiares.

Para que um(a) profissional da Educação saiba lidar com as diferentes formas de constituição
familiar, é importante que ele(a) conheça as diferentes possibilidades dessas constituições. Para
isso, é fundamental atualizar seus conhecimentos em relação a esse tema cotidiano.

É certo que a instituição familiar, ao longo do tempo, passou por mudanças consideráveis, as-
sim como tudo o que existe na sociedade. A família existe por meio de considerações sociais e
culturais, logo é um conceito bastante volátil que pode apresentar significações diferenciadas de
acordo com o momento e o lugar.

Com o intuito de contribuir em sua formação, essa unidade apresentará uma discussão acerca
dos tipos de família, além da relação entre a escola e essas diferentes constituições familiares.
Desse modo, em um primeiro momento, o debate será sobre a história da família; em um se-
gundo momento, a discussão será acerca das concepções dos possíveis modelos parentais; na
sequência, o debate será sobre a criação de alternativas, pela escola, para receber as diferentes
configurações familiares; por fim, a reflexão será sobre a necessidade de discutir as diferentes
concepções familiares na formação dos(as) professores(as).

Ao realizar a leitura dessa unidade, você perceberá que um fator principal para que a esco-
la se relacione com as diferentes configurações familiares é o respeito, de maneira que o(a)
professor(a) e toda a equipe educacional precise estabelecer uma relação de reconhecimento
das diferenças, para que não sejam reproduzidos preconceitos, discriminação, violência.

Bons estudos!

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4.1 Família: um pouco de história


É certo que a família é, sem dúvida, a instituição mais antiga que existe, afinal, todas as
pessoas nascem dentro de uma família. E esse agrupamento de pessoas já passou por algumas
transformações importantes de serem discutidas. Além disso, a família é a primeira instituição a
qual as pessoas têm contato, logo é fundamental conhecer suas características.

Todos os conceitos apresentam uma história, isto é, tudo o que você conhece hoje, passou por trans-
formações, constituindo uma rede de mudanças, chegando ao conceito conhecido na atualidade.

Com a ideia de família, essa relação não é diferente. O conceito já passou por algumas modifi-
cações até chegar à definição utilizada hoje em dia. Mesmo não havendo uma definição univer-
sal, é possível tecer algumas considerações acerca do termo. E isso será feito a seguir.

Para continuar esse estudo, é preciso que você tenha em mente que a família é uma instituição
e que seu significado depende de aspectos sociais e culturais, ou seja, cada cultura estabelece
o que julga ser o seu entendimento de família. Logo, esse entendimento pode mudar de acordo
com o lugar e o tempo em que é pensado e discutido.

4.1.1 Transformações no conceito de família ao longo da história


A família pode ser entendida como um espaço de vínculos, inclusive pelo fato de o vínculo ser
uma característica pertinente ao ser humano. E, por conta disso, é possível afirmar que a cons-
tituição familiar surgiu há muito tempo. Nas palavras de Hintz (2001, p. 09), “[...] a sua cons-
tituição [da família] iniciou há cerca de 4 milhões de anos e continuará por milhões de anos a
frente”. Logo, não é possível inferir se essa organização se extinguirá, mas é possível pensar que
ainda passará por muitas outras mudanças.

Os estudos referentes à constituição familiar são bastante recentes, Scott (2009, p. 17, grifos da
autora) destaca que

[...] se o boom de estudos sobre a família se deu a partir da década de 1980, sobretudo com ênfase
nas metodologias da demografia histórica, não se deve esquecer as contribuições fundamentais
dadas ao estudo da família no Brasil, que remontam às primeiras décadas do século XX.

De acordo com a autora, o Brasil teve grande contribuição para os estudos mais sistemáticos
acerca da família, fornecendo subsídios para essa área. No início, era estudada a relação da
família com o Estado, sob o foco de entender o processo de formação da nação brasileira. Nesse
momento, “[...] os estudos de Gilberto Freyre sublinhavam o perfil patriarcal da família brasileira
– que se tornaram clássicos da literatura nacional e internacional” (SCOTT, 2009, p. 17).

Além disso, compreender a família exige buscar conhecimentos em áreas distintas: psicologia, biolo-
gia, sociologia, antropologia, demografia etc. Essas áreas, em conjunto, podem fornecer ideias sobre
os diferentes aspectos da constituição familiar, de modo que esse estudo seja bastante abrangente.

Nesse sentido, entender as transformações sociais é basilar para compreender os aspectos do


conceito de família. Durante muito tempo, a família foi pensada sob a ideia que prevaleceu até
o início do século XX: uma instituição hierárquica.

A família, até o fim do século XIX, configurou-se com características de hierarquia, “[...] sendo
a figura masculina detentora do poder, apoiado no baluarte econômico e no seu papel exercido
na sociedade” (HINTZ, 2001, p. 8). Nesse sentido, o chefe que regia poder dentro de uma cons-
tituição familiar era a figura do homem, ele quem ditava as regras, as formas de convivência, as
maneiras de comportamento.

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Até o século XIX também predominava o sustento familiar advindo do trabalho da figura mascu-
lina, de modo que esse poder econômico salientava seu poder sobre a família, sendo que os(as)
demais integrantes dessa instituição eram subordinados(as) ao homem.

Ao homem era atribuído o papel de mandar e controlar os(as) outros(as) integrantes da família,
enquanto à mulher era reservado um papel secundário, em que ela permanecia, de certa forma,
marginalizada. A mulher deveria cuidar dos afazeres domésticos, cuidando da casa (limpando,
cozinhando, organizando) e educando os(as) filhos(as).

Figura 1 – Até o início do século XX, a mulher tinha o papel exclusivo de cuidar da casa.
Fonte: Everett Collection, Shutterstock.

Ainda nessa constituição hierárquica de família, os valores familiares “[...] estavam fundamen-
tados no desempenho profissional do homem, na parte econômica e nas qualidades morais. O
indivíduo era considerado em relação aos êxitos que sua família conquistava, centrando-se nesta
o foco das atenções” (HINTZ, 2001, p. 10). Averigua-se, assim, uma forte relação entre o poder
social e o poder econômico, retratados na figura masculina.

Na segunda metade do século XX, as mudanças sociais interferiram nas relações intrafamiliares.
Conforme a mulher foi ganhando espaço e maior visibilidade para o campo econômico, por
exemplo, o seu papel dentro da instituição familiar foi, também, se modificando. Hintz (2001,
p. 08) afirma que “[...] a condição feminina foi se modificando e, concomitantemente, houve
mudanças também no papel masculino, gerando reformulações na relação conjugal e, natural-
mente, na relação pais-filho”.

Essas mudanças estruturais contribuíram para que a concepção de família ganhasse uma nossa
visão, deixando, em partes, o aspecto de hierarquia masculina, de modo que as mulheres pas-
saram a exercer papel fundamental e importante dentro de suas famílias, incluindo uma respon-
sabilidade econômica que tem crescido a cada dia.

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Nas palavras de Hintz (2002, p. 10), nos anos de 1950 e 1960, a família passou por modifica-
ções bastante acentuadas:

Houve um maior incentivo em privilegiar mais o indivíduo, com seus valores e capacidades
do que sua posição social, gênero ou idade. A família de características hierarquizadas foi
se estruturando como uma família onde os conceitos de igualdade passaram a predominar,
contribuindo para isso o surgimento de uma nova perspectiva sobre as questões de gênero.

No século XX, então, uma certa abertura para a igualdade entre homens e mulheres começa a
aparecer, de modo que as famílias hierárquicas passam a conviver com uma relação de igual-
dade entre o pai e a mãe.

A partir do avanço da História Social, o campo de estudos da família foi sendo ampliado, de
maneira a abranger aspectos fundamentais para entender o conceito de família que se tem hoje.
Scott (2009, p. 19) enfatiza que a “[...] década de 1970 [...] trouxe novo fôlego para o estudo
da família, caracterizando-se pela diversificação temática, quando as pesquisas passaram a
incorporar análises sobre a condição feminina, a criança, a ilegitimidade, o casamento, o con-
cubinato e a transmissão de fortunas”.

Assim, uma transformação importante acerca da constituição familiar é a questão de gênero,


em que a mulher passou a exercer um papel tão necessário quanto o do homem na organização
familiar, ou seja, embora ainda haja discriminação por conta de gênero, a mulher tem realizado
um papel de “chefia” dentro de muitas famílias.

Figura 2 – A partir do século XX começou-se a se pensar na igualdade entre homem e mulher


Fonte: Phovoir, Shutterstock, 2017.

Destaca-se que se deve reconhecer o caráter “[...] multifacetado e cambiante” (SALLES, 1994, p.
159) das famílias, sendo que essa instituição tem se modificado ao longo do tempo e do espaço,
de maneira a apresentar conceitos diferenciados, a partir de uma construção histórica.

Hintz (2001, p. 09) enfatiza que

A instituição familiar tem passado por várias modificações decorrentes de mudanças havidas
no seu contexto sociocultural e, por ser uma instituição flexível, ela tem se adaptado às mais
diversas formas de influências, tanto sociais e culturais como psicológicas e biológicas, em
diferentes épocas e lugares.

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Assim, para considerar as mudanças que vêm acontecendo na organização familiar, é preciso
pensar nas alterações que se relacionam com a demografia, organização social, relação entre
parentes, transmissão de bens, ciclo vital, relacionamentos comportamentais, papel do Estado etc.

Outro aspecto em que é possível averiguar certa transformação na organização familiar é em re-
lação ao afeto entre pai(mãe) e filhos(as). Até o fim do século XIX, esse afeto era reprimido, quase
não aparecia. A partir do século XX essa troca de sentimentos começa a ser mais visível, de modo
que os pais, as mães e seus(suas) filhos(as) passam a interagir entre si de maneira mais próxima.

Figura 3 – Afeto entre pai(mãe) e filhos(as)


Fonte: Monkey Business Images, Shutterstock, 2017.

Além disso, o número de membros de uma família passou por uma certa diminuição. Antigamen-
te era comum encontrar famílias com um número de filhos(as) muito alto. Talvez por conta das
questões econômicas e maior informação em relação aos métodos contraceptivos, o número de
filhos(as) tende a ser menor. A diminuição do número de filhos(as) também pode estar ligada à
queda da mortalidade infantil. Entre os(as) nobres e as famílias abastadas, era importante gerar
um número de filhos(as) mais alto, aumentando as chances de que alguns(algumas) deles(as)
chegassem à vida adulta e herdassem os bens e títulos. Além disso, há também a questão da
própria criação da ideia de infância: entre os(as) camponeses(as) até a virada do século XX,
os(as) filhos(as) também eram mão de obra que contribuíam para a sobrevivência das famílias.

VOCÊ SABIA?
O número de filhos(as) que uma mulher brasileira tem está diminuindo cada vez mais.
Para você ter uma ideia, no último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Esta-
tística (IBGE), realizado no ano de 2010, a média de filhos(as) por mulher brasileira
é de 1,9 filho(a), ou seja, não chega a 2 filhos(as) por mulher. No ano de 1960, por
exemplo, essa média era de 6,28 filhos(as) por mulher brasileira.

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Figura 4 – Taxa de fecundidade por mulher, de acordo com as Grandes Regiões do Brasil
Fonte: IBGE, 2017.

A partir desse cenário, é visível que tanto o conceito como a organização de família tem se mo-
dificado ao longo do tempo, e essas transformações vêm acompanhando as mudanças sociais,
estruturais, culturais, biológicas e psicológicas.

A seguir, esta unidade apresentará algumas concepções acerca dos possíveis modelos parentais.

4.2 As concepções acerca dos


possíveis modelos parentais
Conforme apresentado, as concepções familiares são diversas, de modo que conforme há uma
cultura diferente, há, também, um significado diferente sobre a constituição familiar. Neste mo-
mento, você vai estudar algumas dessas concepções, de maneira a entender as várias organiza-
ções familiares, buscando compreender que cada pessoa pode estar inserida em uma especifi-
cidade familiar.

Scott (2009, p. 16) assinala que os estudos sobre família apontam para a necessidade do uso do
termo no plural “famílias” porque “[...] são inúmeras as possibilidades de arranjos familiares que,
por sua vez, também variaram no tempo, no espaço e de acordo com os distintos grupos sociais”.

Nesse sentido, serão elencadas, a seguir, algumas formas de organização familiar: Matrimo-
nial, Informal, Monoparental, Anaparental, Unipessoal, Mosaico ou Reconstituída, Simultânea ou
Paralela,Eudenista e Homoafetiva. Embora esses nomes possam lhe soar com certa estranheza, é
bastante possível que você já tenha conhecido alguém que tenha sido criado/a em algum desses
tipos de família.

4.2.1 Família Matrimonial


A família Matrimonial é aquela formada pelo casamento entre casais heterossexuais (homem e
mulher) (BARONI; CABRAL; CARVALHO, 2016). Essa forma de família era a única reconhecida
no Brasil até a Constituição da República Federativa do Brasil promulgada no ano de 1988
(BRASIL, 1988). Atualmente, há a possibilidade de família Matrimonial constituída por pessoas
do mesmo sexo (homem e homem, mulher e mulher), porém, essa organização familiar será
discutida com o nome de família Homoafetiva adiante. Essa divisão foi escolhida aqui porque
vários/as autores/as associam o matrimônio com a Igreja.

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Nessa forma de pensar a família há, mesmo em um país laico, uma inter-relação entre a Igreja
e o Estado, de modo que essas duas potências decidem o modo de viver das pessoas, reconhe-
cendo apenas a família Matrimonial como a única existente.

A família Matrimonial tinha algumas características bastante marcantes como, por exemplo:
hierarquia, patriarcalismo, patrimônio e predominância da heterossexualidade. Nesse sentido, é
uma forma de constituição familiar bastante conservadora, não reconhecendo a coexistência de
outros tipos de família. Embora sabe-se que as outras formas de família sempre existiram, porém,
até a Constituição Federal de 1988, a família Matrimonial era a única reconhecida.

Esse tipo de família, vale ressaltar, surgiu no Concílio de Trento, no ano de 1563, por meio da
Contrarreforma da Igreja (LOCKS, 2012).

Locks (2012, s/p) enfatiza que a família Matrimonial pode ser definida com o casamento e este
é “[...] um ato solene, celebrado entre pessoas de sexo diferente, que se unem, sob a promessa
de fidelidade e amor recíproco”, além do cuidado na Educação dos/as filhos/as provenientes
dessa relação.

Salienta-se que o matrimônio é uma celebração que há a assinatura de um documento – reali-


zada por um(a) juiz(a) de paz – que registra essa união, ou seja, obrigatoriamente, para existir a
família Matrimonial, deve existir esse documento (certidão de casamento).

4.2.2 Família Informal


A família Informal é formada por uma união estável, tanto entre casais heterossexuais (homem e
mulher) quanto homossexuais (homem e homem; mulher e mulher) (BARONI; CABRAL; CARVA-
LHO, 2016).

Diferentemente da família Matrimonial, a família Informal pode existir mesmo sem qualquer do-
cumento legal, ou seja, se duas pessoas conviverem juntamente, de maneira pública, contínua e
duradoura com o intuito de constituir uma família, esse ato, por si só, se caracteriza como uma
família Informal ou apenas união estável.

O casal pode optar, posteriormente, por transformar essa união estável em casamento, perante
uma celebração que dará direito a um documento juramentado por um juiz ou uma juíza de paz.

4.2.3 Família Monoparental


A família Monoparental é a constituição familiar formada por qualquer um dos genitores (pai ou
mãe) e seus(suas) descendentes (filhos e/ou filhas) (BARONI; CABRAL; CARVALHO, 2016).

A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 reconhece a família Monoparental


em seu artigo 226: “[...] A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. [...] §
4° Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e
seus descendentes”.

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4.2.4 Família Anaparental


A família Anaparental é uma constituição sem o pai e sem a mãe, apenas formada por irmãos e/
ou irmãs (BARONI; CABRAL; CARVALHO, 2016).

Figura 5 – Exemplo de família Anaparental em que o irmão mais velho é o responsável pelos(as) irmãos(as) mais novos(as).
Fonte: antoniodiaz, Shutterstock.

Locks (2012, s/p) enfatiza que a família Anaparental é “[...] constituída pela convivência entre
parentes dentro de um mesmo lar, com objetivos comuns, sejam eles de afinidade ou até mesmo
econômico”. Sendo assim, não há a obrigatoriedade de pai ou mãe para que haja essa consti-
tuição familiar.

4.2.5 Família Unipessoal


Essa constituição familiar é formada apenas por uma pessoa só. Para visualizar tal situação é
preciso pensar na impenhorabilidade de bem da família, ou seja, o bem de família pode perten-
cer a uma única pessoa, como, por exemplo, um homem viúvo ou uma mulher viúva (BARONI;
CABRAL; CARVALHO, 2016).

Logo, pode-se dizer que a família Unipessoal é constituída por um(a) cônjuge ou companheiro(a)
sobrevivente em uma entidade familiar sem nenhum(a) descendente. Ou seja, se um casal não
teve filhos(as) durante o relacionamento e um(a) desses(as) dois(duas) venha a falecer, a pessoa
sobrevivente é reconhecida como família Unipessoal.

4.2.6 Família Mosaico ou Reconstituída


A família Mosaico ou Reconstituída é quando os pais e/ou as mães que têm filhos(as) e se separam
e, eventualmente, começam a viver com outra pessoa (BARONI; CABRAL; CARVALHO, 2016).

Essa estrutura familiar pode se originar de um casamento ou uma união estável de um casal em
que um(a) ou ambos(as) de seus membros têm pelo menos um(a) filho(a) de um vínculo anterior.

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Nessa organização familiar, pode-se afirmar que ao menos um(a) dos(as) adultos(as) é um pa-
drasto ou uma madrasta.

4.2.7 Família Simultânea ou Paralela


Essa constituição familiar se enquadra em casos em que um indivíduo mantém duas relações ao
mesmo tempo, ou seja, quando é casado e mantém uma outra união estável ou mantém duas
uniões estáveis ao mesmo tempo (BARONI; CABRAL; CARVALHO, 2016).

Esse tipo de família é visto, por muitas pessoas, uma afronta à relação monogâmica, realizada
por aquele(a) que possui vínculo matrimonial ou de união estável. Assim, nesse modelo familiar,
um(a) dos(as) integrantes participa como cônjuge de mais de uma família.

VOCÊ QUER LER?


O livro Abaixo a família monogâmica foi escrito por Sérgio Lessa e publicado no ano
de 2012. A obra discute a origem da família monogâmica (em que a pessoa pode ter
apenas um(a) parceiro(a)), além de discutir o processo de desenvolvimento da humani-
dade e o amor individual sexuado. O livro ainda enfatiza a relação entre a sociedade
capitalista e a família monogâmica.

4.2.8 Família Eudemonista


Essa constituição familiar se caracteriza como uma família afetiva formada por uma parentabi-
lidade socioafetiva (BARONI; CABRAL; CARVALHO, 2016). O eudemonismo é um pensamento
filosófico que significa a busca pela felicidade.

Pode-se afirmar que a família Eudemonista é um entendimento moderno de organização familiar


em que se busca a realização plena de seus membros, caracterizando-se pela troca de afeto re-
cíproco, bem como o respeito mútuo entre todos(as) que a compõe, sem levar em consideração
o vínculo biológico.

4.2.9 Família Homoafetiva


Essa constituição familiar se caracteriza como uma família formada por duas pessoas do mesmo
sexo (homem e homem; mulher e mulher) (BARONI; CABRAL; CARVALHO, 2016).

Embora a sociedade já esteja vivenciando o século XXI, ainda há muito preconceito em relação
a essa organização familiar. É preciso entender que esse tipo de família, assim como todos os
outros, não pode sofrer discriminação, sobretudo por serem organizadas por seres humanos e
esses merecerem respeito.

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Figura 6 – Exemplo de família homoafetiva


Fonte: Dubova, Shutterstock.

VOCÊ QUER VER?


O filme Família no Papel é um documentário brasileiro lançado no ano de 2011. O
curta foi dirigido pelas jornalistas Fernanda Friedrich e Bruna Wagner, mostrando várias
histórias de adoção por casais homossexuais aqui no Brasil. O foco é a luta das famí-
lias, de diversas regiões do país, para realizar as adoções. Esse filme venceu o Festival
Rio Gay de Cinema em 2012, um dos maiores do gênero no país.

Locks (2012, s/p) afirma que“[...] onde houver uma união de pessoas ligadas por laços afetivos,
sendo esta sua finalidade fundamental, haverá família”. Logo, se duas pessoas do mesmo sexo
se unirem, não há como justificar que não existe, de fato, uma família.

As estruturas familiares vão se atualizando conforme a realidade social, logo, deve-se pensar
em ampliar cada vez mais o conceito de família, de modo a “não deixar nenhuma de fora”.
Esse movimento serve para um reconhecimento da diversidade familiar que é, antes de tudo, a
diversidade humana, com características bastante diferentes entre si e que coparticipam de uma
mesma sociedade.

Salles (1994, p. 160) enfatiza que a família deve ser pensada por meio de aspectos contempo-
râneos:

A variabilidade dos laços fundamentais e as funções sociais cumpridas pela simbologia e pelos
padrões organizadores do parentesco são temas constantemente estudados, de diferentes
perspectivas teóricas. As mudanças nas relações familiares, refletidas também em percepções
e vivências captadas por discursos alheios às Ciências Sociais – como a literatura e o cinema,
por exemplo –, exigem um repensar que, além de atualizador, proponha interpretações capazes
de ler os conteúdos e os sentidos dessas mudanças. Este repensar não pode ser um exercício
puramente abstrato; deve, sim, nutrir-se de novas maneiras de encarar a realidade das famílias
contemporâneas.

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Dessa forma, a variação familiar, bem como a função da família, estará em pauta das discussões
sempre que o debate estiver relacionado com a cultura e a sociedade, evidentemente porque a
família deve ser pensada sempre sob um viés atualizado, globalizado, acolhedor, diversificado.

4.3 A escola e a criação de alternativas para


receber diferentes configurações familiares
Agora que você já conhece as diferentes formas de organização familiar, você precisa saber que
tem obrigação de não discriminar nenhuma delas. Enquanto professor(a), você deve entender
que há a necessidade de acolher todos os tipos de família, buscando sempre prezar pelo bom
relacionamento entre escola e família.

É muito comum professores(as) e equipe pedagógica organizarem trabalhos de comemoração


relacionados com datas comemorativas. Exemplo disso são os cartões e presentes elaborados
pelos(as) alunos(as) para entregar aos pais e às mães em datas específicas, como o Dia dos Pais
e o Dia das Mães.

Enquanto educador(a), é preciso tomar muito cuidado com essas comemorações, pois, como já
fora discutido anteriormente, há crianças que não convivem com o pai e a mãe, sendo que esse
trabalho deve ser minuciosamente pensado e estruturado, de forma a não discriminar os vários
tipos de família.

Figura 7 – Exemplo de família Monoparental constituída por pai e filha e que deve ser respeitada pela escola.
Fonte: Elena Nasledova, Shutterstock.

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Nesse momento, serão tecidas discussões acerca das comemorações que comumente acontecem
nas escolas, bem como possíveis situações indesejáveis que podem acontecer na comemoração
do Dia dos Pais e do Dia das Mães. Ainda, será apresentada uma maneira de acabar com essas
possíveis situações indesejáveis, de forma a discutir o Dia da Família.

4.3.1 Comemorações na escola


De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN nº. 9.394/96), os
estabelecimentos de ensino devem “VI – articular-se com as famílias e a comunidade, criando
processos de integração da sociedade com a escola” (BRASIL, 1996, art. 12). No entanto, há que
se pensar em realizar essa articulação sem discriminar nenhuma forma de organização familiar.

VOCÊ QUER LER?


Enquanto futuro(a) professor(a), você precisa conhecer a Lei de Diretrizes e Bases da Educa-
ção Nacional (LDBEN). A que está em vigor no Brasil é a Lei nº. 9.394 que foi promulgada
no ano de 1996. Essa lei ampara todos os aspectos da Educação brasileira, apresentando
aspectos da formação de professores(as), organização da Educação, etapas e modalidades
educacionais, objetivos da Educação, dentre outros aspectos fundamentais (BRASIL, 1996).

Além disso, é preciso analisar se as comemorações na escola estão contribuindo para o rendi-
mento da aprendizagem dos(as) alunos(as) ou estão prejudicando tal rendimento. Assim, é fun-
damental entender que as atividades de comemoração devem estar atreladas às atividades que
o currículo estabelece para a sala de aula, de modo que tenham entrosamento.

Ao observar um calendário, você vai encontrar datas comemorativas como: Dia dos Pais, Dia
das Mães, Dia da Árvore, Dia da Consciência Negra, Páscoa, Dia do(a) Índio(a), Dia do(a)
Professor(a) etc. Sobre essas datas, Saviani (1991, p. 24) faz a seguinte reflexão:

Não é demais lembrar que este fenômeno pode ser facilmente observado no dia-a-dia das
escolas. Dou apenas um exemplo: o ano letivo começa na segunda quinzena de fevereiro e
já em março temos a semana da revolução, em seguida a semana santa, depois a semana
das mães, as festas juninas, a semana do soldado, do folclore, a semana da pátria, jogos da
primavera, semana das crianças, semana do índio, semana da asa, etc., e nesse momento já
estamos em novembro. O ano letivo se encerra e estamos diante da seguinte constatação: fez-se
de tudo na escola, encontrou-se tempo para toda espécie de comemoração, mas muito pouco
tempo foi destinado ao processo de transmissão-assimilação de conhecimentos sistematizados.
Isto quer dizer que se perdeu de vista a atividade nuclear da escola, isto é, a transmissão dos
instrumentos de acesso ao saber elaborado.

Assim, deve-se ter como princípio que as atividades de comemoração são secundárias, e se fo-
rem realizadas, precisam estar atreladas aos conteúdos estabelecidos, contribuindo no processo
de ensino e aprendizagem do conhecimento científico.

As diversas datas comemorativas precisam ter como resultado um aspecto positivo, sem gerar
traumas, violência ou outro aspecto ruim. Esse trabalho precisa, acima de tudo, proporcionar
avanços na aquisição de conhecimento por parte dos(as) alunos(as). Por exemplo, ao montar um
cartaz sobre alguma data comemorativa, essa atividade deve contribuir na aquisição dos conhe-
cimentos científicos, como a escrita da norma padrão (Língua Portuguesa), organização de cores
primárias e secundárias (Arte), margem e métrica para a escrita (Matemática), uso consciente do
papel (Ciências), pesquisa sobre a data comemorativa (História) etc.

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No entanto, ao discutir o Dia dos Pais ou o Dia das Mães, por exemplo, é bastante comum ge-
rar alguns desconfortos em sala de aula, inclusive traumas nas crianças. E esses aspectos serão
discutidos a seguir.

4.3.2 Situações indesejáveis por comemorar o Dia dos Pais ou o Dia das Mães
É possível afirmar que os(as) professores(as) sempre querem acertar positivamente na sua profis-
são. No entanto, algumas práticas têm mostrado a falta de sensibilidade e conhecimento refe-
rente a alguns aspectos relacionados às crianças.

É muito comum, nas escolas, a comemoração do Dia dos Pais e do Dia das Mães. Mas, é sabido
que muitas crianças não convivem com os pais ou as mães em sua família. Portanto, essa prática
precisa ser repensada.

Hoje, conforme fora analisado anteriormente (ainda nesse capítulo), você pode perceber a quan-
tidade de diferentes tipos de família. Pois bem, a criança com a qual você vai trabalhar na sua
futura profissão poderá estar inserida em uma família que não seja aquela constituída de pai,
mãe e filho(a). Logo, a sensibilidade e o conhecimento precisam fazer parte da prática docente
para que não corra o risco de passar por situações indesejáveis.

A seguir, veja um exemplo neste caso fictício elaborado pelo autor:

Caso
Uma professora em uma escola privada solicita a uma turma de segundo ano do Ensino Funda-
mental que as crianças façam uma carta para o seu pai para comemorar o Dia dos Pais. Nessa
carta, todas as crianças precisam escrever que amam seus pais e que eles são seus heróis. De
repente, um garoto se nega a realizar a atividade, mas, como está no planejamento da profes-
sora e essa é cobrada constantemente a seguir rigorosamente o plano de aula, esse menino é
obrigado a fazer a carta. Após muita insistência e rejeição da atividade por parte da criança, o
garoto relata que não convive com seu pai porque o mesmo abandonou a sua família, sendo que
a família agora é constituída apenas pela sua mãe e ele (família Monoparental). A professora
acaba de instituir um conflito, porém, sem formação adequada, insiste que o garoto faça a carta
e a guarde, caso seu pai volte a morar com ele. Embora esse caso seja fictício, é muito comum
que aconteça nas escolas (públicas ou privadas), e pode gerar conflitos desnecessários – tanto
para o(a) professor(a) como para a criança.

Sobre o caso, é desejável que o(a) professor(a) tenha conhecimento para propor uma atividade
que atenda à especificidade da criança, não obrigando-a a escrever uma carta para alguém
que a abandonou, mas poderia ser escrita, por exemplo, uma carta para a mãe, que é a sua
responsável.

Com certeza, a criança do exemplo acima não está muito interessada em escrever “PAI, EU TE
AMO” em uma carta. O conflito está instaurado. O(A) professor(a) e a equipe pedagógica de-
vem estar atentos/as a essas especificidades, de modo a não magoar os(as) alunos(as) que não
convivem, por exemplo, com o pai ou a mãe.

É importante perceber que a escola não precisa maltratar as crianças dessa forma, há outras
maneiras de direcionar o afeto às pessoas que a criança realmente possui algum apreço. Obrigar
as crianças a criarem cartões, lembrancinhas, bilhetes para alguém que a machuca ou a aban-
donou, por exemplo, não é uma atitude adequada.

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Educação e Sexualidade

Outra situação indesejável que pode acontecer em uma escola é o fato de que existem famílias
constituídas por dois pais ou duas mães, sendo que essa organização, muitas vezes, não é respei-
tada. Por exemplo, se uma criança vive com dois pais e é levada a criar uma lembrancinha para o
Dia das Mães, esse conflito está instaurado, pois não atenderá à especificidade daquela família.

VOCÊ SABIA?
No Brasil, é possível que casais homoafetivos adotem crianças. A adoção é resguarda-
da pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o documento não faz nenhuma
menção à orientação sexual de quem pretende fazer a adoção. Além disso, desde maio
de 2011 é reconhecida a união estável entre pessoas do mesmo sexo. E, ainda, no ano
de 2013, no Brasil, o Conselho Nacional de Justiça, por meio da Resolução 175/2013,
impediu que os cartórios se recusem a celebrar o casamento entre pessoas do mesmo
sexo em todo o território nacional.Nesse sentido, casais constituídos por dois homens
ou duas mulheres podem realizar o pedido de adoção.

Além dessas situações, ainda existem crianças criadas pela avó, pelo avô, pela tia, pelo tio, pela
irmã, pelo irmão etc. Logo, ao comemorar algo na escola, é preciso levar em consideração todos
esses tipos de família, a fim de não cometer o erro de discriminar nenhum deles.

Esses conflitos podem ser sanados a partir de um olhar atento às especificidades familiar que
existem socialmente. Uma prática que pode dar certo é no início do ano letivo realizar uma
pesquisa sobre as organizações familiares existentes na escola, ou então, colocar um campo na
ficha de matrícula da criança para que seja preenchido sobre a sua família. Esse levantamento
de dados fará com que a escola diminua alguns conflitos, deixando de gerá-los, de maneira a
atender as várias constituições familiares.

Partindo desse pressuposto, a seguir, essa unidade vai discutir a comemoração do dia da Família,
de modo que os(as) professores(as) repensem algumas práticas e quando forem realizar ativida-
des de comemoração, não discriminem nenhuma família.

4.3.3 Comemorando o dia da família nas escolas


O Dia das Mães é comemorado, no Brasil, no segundo domingo do mês de maio, enquanto o
Dia dos Pais é comemorado no segundo domingo do mês de agosto. Nessa época é bastante
comum as comemorações nas escolas, conforme apresentado anteriormente. No entanto, ao
celebrar essas datas, a escola corre o risco de discriminar vários tipos da família que não são
organizadas sob esse viés tradicional: pai, mãe e filhos(as).

Para fugir de cometer esses erros, é possível que a escola se organize para festejar o Dia da
Família. Para isso, a instituição escola pode escolher uma entre três datas diferentes que são
organizadas no Brasil, conforme o quadro a seguir:

DATA DESCRIÇÃO

24 de abril Dia da Família na Escola


15 de maio Dia Internacional da Família
08 de dezembro Dia Nacional da Família

Quadro 1 – Festividades do Dia da Família.


Fonte: Elaborado pelo autor, 2017.

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Assim, cada escola pode estabelecer uma data a fim de comemorar o Dia da Família, lembrando
que o dia 24 de abril foi instituído pelo Ministério da Educação (MEC), o dia 15 de maio (que é
internacional) foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), e o dia 08 de dezem-
bro foi instituído pelo Decreto de Lei nº. 52.748/63 (BRASIL, 1963).

VOCÊ QUER LER?


No dia 05 de setembro de 2016 foi publicado um texto no site do Estadão sobre a
celebração do Dia da Família. Nesse material você vai se deparar com um conteúdo
bastante interessante, à medida que discute a importância de todas as configurações
familiares estarem envolvidas no processo de aprendizagem das crianças. A equipe
do blog conversou com representantes de colégios e escolas da cidade de São Paulo
que realizam a atividade. O resultado é surpreendente. Para ler acesse o endereço:
<http://emais.estadao.com.br/blogs/familia-plural/escolas-celebram-dia-da-familia-
-em-substituicao-ao-dia-das-maes-e-dos-pais/>.

A partir desse cenário, a escola precisa se organizar a fim de contribuir na celebração da família,
em vez de estigmatizar ou discriminar as diferentes concepções de família. Mesmo ao comemorar
o Dia da Família, em vez do Dia das Mães ou Dia dos Pais, os(as) professores(as) devem ter a
consciência de que existem inúmeras maneiras de constituir uma família.

Ao festejar o Dia da Família, as unidades escolares podem realizar cartazes expressando a di-
versidade familiar, não correndo o risco de esquecer nenhuma (isso deve ser feito com a ajuda
dos(as) alunos(as)). Ainda é possível realizar gincanas, almoços, jantares, sem deixar de fora
nenhuma constituição familiar.

Ao ver a sua família representada nas festividades da escola, a criança vai criar mais apreço a
essa instituição, pois perceberá que as pessoas que cuidam dela estão, de fato, sendo lembradas
pela equipe escolar.

Ao unir os esforços da escola e da família em relação ao processo de aprendizagem da crian-


ça, quem sai ganhando é essa última. Quando a instituição educativa formal se alia de forma
construtiva e respeitosa com a base familiar, os resultados do processo de desenvolvimento da
criança são muito maiores. Além disso, a família pode dar continuidade no processo educativo
que é realizado pelos(as) professores(as), fazendo parte fundamental desse processo complexo.

Para que o trabalho seja de fato efetivo, os(as) professores(as), assim como toda a equipe escolar
– diretor(a), pedagogo(a), equipe de limpeza, merendeiros(as) etc. –, deve estar preparada para
contribuir nesse papel formativo, de maneira respeitosa e acolhedora. E é sobre essa formação
que será discutido a seguir.

19
Educação e Sexualidade

4.4 Por que as reflexões sobre os diferentes


tipos de famílias são importantes na formação
dos(as) profissionais da Educação?
Para realizar qualquer trabalho na escola, os(as) professores(as) precisam ter uma formação ade-
quada. Isso se aplica a tudo o que acontece nessa instituição: alfabetização, letramento, ensino
de matemática, ciências, português, história e geografia, discussão sobre os direitos humanos etc.

Acerca da discussão sobre os diferentes tipos de família, não é diferente: é fundamental que
os(as) professores(as) – e toda a equipe escolar – estejam capacitados(as) e preparados(as) para
realizar um brilhante papel, de maneira a não discriminar nenhuma organização familiar, nem
faltar com respeito diante da diversidade.

Assim, a seguir, o texto apresenta uma discussão acerca da formação docente e o papel do(a)
professor(a) diante da criança, de modo que todas as atividades realizadas em sala de aula po-
dem contribuir – positiva ou negativamente – para a formação e o desenvolvimento infantil. Na
sequência, serão apresentadas algumas ideias acerca dessa formação e as reflexões sobre os
diferentes tipos de família.

4.4.1 Formação de professores/as e o desenvolvimento infantil


Em nível mundial, a formação de professores(as) passou a ser discutida com maior ensejo,
apenas no século XIX, quando, de acordo com Saviani (2009, p. 143), “[...] após a Revolução
Francesa, foi colocado o problema da instrução popular”.

A partir desse momento, começou-se a pensar em instituições para formar os(as) professores(as)
que viriam a desenvolver seus trabalhos com os(as) alunos(as), discutindo as especificidades
desses estabelecimentos que preparariam o corpo docente para a realização de suas atividades.

No Brasil, essa preocupação chegou “[...] de forma explícita após a independência, quando se co-
gita da organização da instrução popular” (SAVIANI, 2009, p. 143). Assim, é possível entender que
a discussão acerca da formação de professores/as, no Brasil, se deu, sobretudo a partir de 1822.

Saviani (2009) ainda destaca que a formação docente apresenta um dilema, que precisa ser
superado: há certa divisão entre os conteúdos e a forma de ensinar. Embora o autor tenha criado
seu texto pensando nas faculdades de Educação (que ensinam a forma de lecionar) e as faculda-
des de disciplinas específicas, a exemplo do curso de Letras (que ensinam o conteúdo a lecionar),
é possível trazer esse dilema para a discussão apresentadas aqui.

Assim, os cursos de formação docente precisam pensar em duas bases de trabalho principais: o
conteúdo a ensinar e a maneira de ensinar (didática) esse conteúdo. A primeira (conteúdo) preci-
sa estar de acordo com as necessidades sociais; enquanto a segunda (maneira de ensinar) deve
levar em consideração o público alvo. Essa preocupação se dá porque tudo o que é feito em sala
de aula de alguma forma influencia na vida do(a) aluno(a), logo, é necessário saber escolher os
conteúdos (se o tema for família, não se pode discriminar nenhum tipo) e saber se portar diante
do conteúdo (se o tema for família, o/a docente não pode, por exemplo, fazer piadas sobre a
diversidade familiar).

Ao pensar sobre a didática do(a) professor(a), Libâneo (2013, p. 48-49) escreve:

O compromisso social, expresso primordialmente na competência profissional, é exercido no


âmbito da vida social e política. Como toda profissão, o magistério é um ato político porque
se realiza no contexto das relações sociais onde se manifestam os interesses das classes sociais.

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O compromisso ético-político é uma tomada de posição frente aos interesses sociais em jogo
na sociedade. Quando o professor se posiciona, consciente e explicitamente, ele insere sua
atividade profissional – ou seja, sua competência técnica – na luta por esses interesses: a
luta por melhores condições de vida e de trabalho e a ação conjunta pela transformação das
condições gerais (econômicas, políticas, culturais) da sociedade.

Logo, o trabalho docente é marcado por suas relações com os(as) alunos(as), de modo que deve
levar em conta uma transformação social, pois o posicionamento do(a) docente pode influenciar
na transformação crítica do(a) aluno(a), assim, o(a) professor(a) deve buscar sempre compreen-
der a diversidade e expressar-se de maneira positiva em relação às diferentes estruturas familia-
res, por exemplo.

Vigotskii, Luria e Leontiev (2016), em seus estudos sobre desenvolvimento infantil, inferiram que
o que a criança faz hoje com o auxílio de um(a) adulto(a), poderá fazer amanhã por si só. Essa
relação permite entender que o papel docente tem grande influência sobre o desenvolvimento
infantil, de modo a contribuir para suas futuras atividades.

Assim, as atividades de professores(as) podem contribuir no desenvolvimento das crianças, sendo


fundamental organizarem suas atividades pautadas no reconhecimento das diferenças, sempre
ressaltando a diversidade. Dessa forma, a criança crescerá sabendo que não pode discriminar
ninguém por quaisquer características: etnia, gênero, sexualidade, posição econômica etc.

4.4.2 Formação de professores(as) e as reflexões acerca dos diferentes


tipos de família
Retomando as ideias de Vigotskii, Luria e Leontiev (2016), apresentadas anteriormente, é possível
destacar que um(a) professor(a) consegue guiar os passos de seus(suas) alunos(as). Evidentemen-
te, pode acontecer que esse caminho seja diferente, porém, há probabilidade de a criança se
inteirar dos conhecimentos aprendidos na escola e aplicá-los em seu cotidiano.

VOCÊ O CONHECE?
Lev SemenovichVigotskii foi um psicólogo bielo-russo, nascido em 1896 e que morreu
em 1934 (vítima de tuberculose). Esse estudioso (também encontrado sob os sobre-
nomes: Vigotsky, Vigotski, Vygotsky – a depender de quem escreve) foi um pensador
importante e pioneiro acerca do desenvolvimento intelectual das crianças. Vigotskii
analisou que o desenvolvimento infantil ocorre em função das interações sociais e con-
dições de vida (INFOESCOLA, 2017).

Nesse sentido, é fundamental que o(a) professor(a) tenha uma formação humana bastante de-
senvolvida, a fim de contribuir para que as crianças também possuam essa formação, de modo
a não reproduzir preconceitos e nem discriminar a diversidade familiar, por exemplo.

Além disso, as famílias precisam se sentir acolhidas pela equipe escolar, de forma a acompanhar
de perto o desenvolvimento das crianças. Quando convocados(as), os(as) responsáveis pela
criança devem se sentir à vontade para ir à escola. Essa relação entre família e escola é bastante
positivo para o processo de aprendizagem dos(as) alunos(as).

A família é o primeiro ambiente de desenvolvimento da criança, posterior a isso, os estabeleci-


mentos de ensino têm o papel de contribuir para melhorar a condição desse desenvolvimento,
portanto é fundamental a relação entre escola e família.

21
Educação e Sexualidade

Importante destacar que o objetivo maior tanto da escola como das famílias é o desenvolvimento
da criança. Dessa forma, é importante que os(as) professores(as) saibam lidar com as diferentes
famílias, a fim de proporcionar ambientes compatíveis com um bom aprendizado.

Logo, o(a) professor(a) deve se sentir acolhido(a) pela família e esta deve se sentir acolhida
pelo(a) professor(a). Assim, essa relação produzirá aspectos que contribuirão para o desenvolvi-
mento biológico, psicológico, mental, social da criança.

VOCÊ QUER LER?


O livro Reunião de pais: prazer ou sofrimento? foi escrito pelas autoras Beate Althuon,
Corinna Essle e Isa Stoeber e sua primeira edição é datada de 2003. O livro é uma
ótima alternativa para profissionais da Educação que queiram organizar eventos na
escola com os(as) responsáveis dos(as) aluno(as). Assim, é possível, também, perceber
a importância da relação entre a escola e a família na contribuição do desenvolvimento
positivo das crianças.

Algo bastante importante é o(a) professor(a) levar em consideração que a sua relação com a fa-
mília de seu(sua) aluno(a) deve fazer parte do seu planejamento. Destarte, essa relação não deve
acontecer apenas se a criança ‘fizer bagunça’, mas durante todo o ano letivo, com o objetivo de
troca de informações acerca do desenvolvimento do(a) aluno(a).

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Síntese Síntese
Você concluiu os estudos dessa disciplina sobre Educação e Sexualidade. Agora, já possui um
grande embasamento teórico acerca dos tipos (ou organizações) de famílias que existem social-
mente.

Neste capítulo você teve a oportunidade de:

• compreender o histórico do conceito de família;

• identificar as concepções acerca dos possíveis modelos parentais;

• compreender a coexistência da família Matrimonial, Informal, Monoparental, Anaparental,


Unipessoal, Reconstituída, Paralela, Eudemonista e Homoafetiva;

• entender a função da escola na criação de alternativas para receber diferentes


configurações familiares;

• analisar algumas situações indesejáveis ao comemorar o Dia dos Pais e do Dia das Mães
nas escolas;

• refletir sobre a necessidade de comemorar o Dia da Família nas escolas, de modo a não
discriminar nenhuma organização familiar;

• compreender a formação do(a) professor(a) frente ao desenvolvimento infantil;

• entender que para os(as) professores(as) desempenharem um bom papel na relação com
a família é necessária formação adequada.

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Referências Bibliográficas
eferências bibliográficas

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