Você está na página 1de 3

Universidade Federal do Rio Grande - FURG

17ª Mostra da Produção Universitária - MPU


Rio Grande/RS, Brasil, 01 a 03 de outubro de 2018
ISSN: 2317-4420

PSICOLOGIA DAS MASSAS E ANÁLISE DA ONDA

​ZOPPO, Filipe; SANTOS, Fernando Rodrigues; ROSA,​ ​Erik;


PACCE, Benjamin Dias; NUNES, Alice;

HARTMANN, Fernando.

f.s.zoppo@gmail.com
Universidade Federal do Rio Grande - FURG

Palavras-chave: ​Psicanálise; A Onda; psicologia de grupo; relações de poder.

1 INTRODUÇÃO
Sigmund Freud em “Psicologia das Massas e Análise do Eu” analisa a
importância do contexto na formação da imagem de si do indivíduo. No mesmo texto,
formula sua teoria sobre o fenômeno de formação de massas, que seriam as
multidões (os mais efêmeros) e as organizações como por exemplo a igreja (as
estáveis), e suas características e efeitos sobre os indivíduos. Esses serão os dois
principais pontos abordados nessa produção. Realizaremos uma reflexão sobre o
filme Die Welle (A Onda), de 2008, dirigido por Dennis Gansel, relacionando com a
teoria psicanalítica e a contribuição Foucaultiana ao entendimento do poder.
O filme alemão “A Onda” apesar de se passar na Alemanha se baseia em um
experimento social norte americano chamado “A Terceira Onda”, no qual um
professor de História Contemporânea utilizou-se do experimento para demonstrar
como o Nazismo poderia acontecer mesmo em sociedades democráticas. Assim
como no filme “A Onda” a situação escalou e se tornou assustadora.
Dado o cenário que se passa atualmente, em que discursos totalitários vem
ganhando força, o ressurgimento do neonazismo, o fortalecimento de discursos de
ódio, repressão e militarismo é nesse sentido que torna-se fundamental uma ampla
discussão a respeito de como a autocracia se forma e as influências nos indivíduos e
na sociedade.

2 METODOLOGIA
Nossa metodologia segue a ideia de construção no por-vir, não é delimitada ​a
priori​ , mas sim deixando o próprio processo de pesquisa definir os caminhos pelo qual
se pesquisa, segundo a ideia de formatividade de Pareyson, que, embora referindo-se
a arte pode entender como metodologia de pesquisa na compreensão de um
processo criativo, logo vemos a pesquisa como “um ​tal fazer que, enquanto faz,
inventa o por fazer e o modo de fazer [...] é uma atividade na qual execução e
invenção procedem ​pari passu​, simultâneas e inseparáveis”[grifos do autor]
(PAREYSON, 2001, pg. 25).
Desse modo, o que adotamos nesse processo é explicitado pelas discussões
que surgiram após a exibição do filme, os temas foram extraídos e cruzados entre si,
passando pelas experiências do grupo na disciplina de Fundamentos da Psicanálise e
atualmente de Clínica e Política, ambas ofertadas no curso de Psicologia da FURG —
o referencial teórico também passou pelo mesmo esquema explicitado acima.

3 RESULTADOS e DISCUSSÃO
Aqui, pretende-se realizar uma discussão relacionando o filme com a teoria
estudada.
Universidade Federal do Rio Grande - FURG
17ª Mostra da Produção Universitária - MPU
Rio Grande/RS, Brasil, 01 a 03 de outubro de 2018
ISSN: 2317-4420

De acordo com Freud em "Psicologia das massas e análise do Eu", as


massas se formam em função de um objetivo em comum dos indivíduos. Quanto
mais coisas em comum, mais visível se tornam as manifestações da “alma coletiva”
(FREUD, 1921, pg. 34). Objetivo este que é manipulado por um líder, que segundo o
autor “Ele [o líder] próprio tem de estar fascinado por uma forte crença (numa ideia),
para despertar crença na massa; ele tem de possuir uma vontade forte, imponente,
que a massa sem vontade vai aceitar” (FREUD, 1921, pg. 31)., e assim depositar
todos prestígio no líder que guiará a massa.
Para Lebon, autor usado na elaboração de Freud, o indivíduo na massa
experimenta a diminuição da capacidade intelectual e se distancia das
características da aculturação. Isso pode explicar porque em grupos é possível que
se realizem atitudes consentidas e absurdas aos olhares dos que estão de fora.
Também pode-se apontar que os impulsos do indivíduo na massa são tão
imperiosos que nenhum interesse pessoal, nem mesmo o de autopreservação, se
faz valer. Isso pode lembrar a cena do jovem que se suicida quando “a onda” está
prestes a terminar (LEBON apud FREUD, pg. 25).
Freud comenta que na massa as inibições individuais caem por terra e todos
os instintos, que antes eram impedidos, passem por uma via que leva a satisfação.
Impulsos considerados errados pela moralidade, como a violência e a dominação,
são manifestados nos grupos fascistas como foi observado no filme. Além disso,
Freud também destaca a ideia de identificação e enamoramento dos indivíduos para
a compreensão da formação da massa. A identificação se caracteriza pelo processo
que incorpora características do objeto (uma determinada massa) ao Eu. O
enamoramento ou fascínio é o processo que leva a substituição do Ideal do Eu pelo
objeto, a eliminação do Ideal do Eu em favor da massa. Podemos pensar, a partir
disso, como se torna possível a unificação e o assujeitamento das pessoas nos
regimes totalitários e na vida cotidiana (FREUD, 1921).
Michel Foucault traz uma grande contribuição para pensar o poder. O poder,
para ele, não se encontra em pólos ou estruturas ou são macroestruturas (Governo,
por exemplo) e não pode ser tomado de alguém, o poder seria uma ação exercida
sobre a ação de outros sujeitos.(FOUCAULT, 1995), no que toca às relações de
poder demonstradas evidenciamos a frase do professor Wenger que após ser
questionado seus novos métodos diz: ​“Então deve ir embora. Não forço ninguém,
isso vale a todos. Tudo aqui é voluntário.​”, isso vai de encontro com o pensamento
foucaultiano no qual só é possível exercer poder sobre seres livres, “A relação de
poder e a insubmissão da liberdade não podem, então, ser separadas”(FOUCAULT,
1995, pg. 244). Cabe também ressaltar que foi necessário um mecanismo estável de
poder, primeiramente, para possibilitar todas essas relações, o professor detém essa
posição que é referenciada através do Estado, no que foucault chama de estatização
das relações de poder. Basicamente, um poder garantido institucionalmente, que
transborda do Estado para diversos espaços e locais diferentes.
O filme "A Onda", além de questionar os motivos pelos quais um regime
fascista se desenvolve, também possibilita pensar o por quê da reincidência de
movimentos como o Nazismo, na Alemanha. Por mais que regimes autocráticos
tragam consequências drásticas para a sociedade, no que tange aos direitos
humanos, eles acabam retornando, seja na forma de grupos ou mesmo no modo de
governar. A psicanalista Maria Rita Kehl, em seu livro "O tempo e o cão", nos
convida a pensar sobre o retorno da história recalcada, afirmando que "quando uma
sociedade não consegue elaborar os efeitos de um trauma e opta por tentar apagar
Universidade Federal do Rio Grande - FURG
17ª Mostra da Produção Universitária - MPU
Rio Grande/RS, Brasil, 01 a 03 de outubro de 2018
ISSN: 2317-4420

a memória do evento traumático, esse simulacro de recalque coletivo tende a


produzir repetições sinistras”(KEHL, 2015, pg. 27). Segundo a autora, a experiência
traumática do Holocausto, a qual podemos comparar, de certa forma, a outros
traumas sociais, também não elaborados, como a ditadura militar no Brasil, levam à
formação de outros sintomas sociais. Tais sintomas se referem à falta de
consciência da população sobre a violência de regimes autocráticos, a desrealização
da experiência histórica e, finalmente, o retorno do que foi recalcado (KEHL, 2015).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Devido às limitações e delimitações desta pesquisa, a análise desse filme
torna-se parcial e com isso diversos outros pontos foram suprimidos, os quais
levariam a uma compreensão maior da complexidade dos efeitos de formação de
massas, totalitarismo e suas influências no indivíduo. Destacamos alguns destes
possíveis caminhos: a influência da mídia/propaganda através da análise de Theodor
Adorno pela teoria freudiana em uma aproximação do filme-propaganda Triunfo da
Vontade (1935) da diretora Leni Riefenstahl; o questionamento de uma possibilidade
de manipulação (como uma forma de hipnose em massa) pelo uso das redes sociais
e seus algoritmos de customização, na cultura do feito ‘sob medida’, associando com
a obra de Aldous Huxley - O Admirável Mundo Novo (​1932).

5 REFERÊNCIAS
FOUCAULT, Michel. ​Como se exerce o poder? In: DREYFUS, H.; RABINOW, P.
Michel Foucault, uma trajetória filosófica. Rio de Janeiro: Forense Universitária.
Tradução de Vera Porto Carrero, 1995.

GANSEL, Dennis. ​Die Welle (A Onda). [Filme-vídeo]: 1h 46m. Alemanha: Constantin


Film, 2008.

PAREYSON, Luigi. ​Os problemas da estética​. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

SIGMUND, Freud. ​Psicologia das massas e análise do eu​. In: Obras completas de
Sigmund Freud (23 v.), V.18. Rio de Janeiro: Imago, 1921/1996.

KEHL, Maria Rita. ​O tempo e o cão: a atualidade das depressões.​ Boitempo


Editorial, 2015.

Você também pode gostar